Os efeitos
da anestesia só duraram alguns minutos.
Quando
Tiff abriu os olhos, Sengu estava recuperando os sentidos. Estavam
deitados sobre a tampa de uma grande caixa, num recinto pouco
iluminado. Aqui não se via nada da limpeza reluzente do laboratório.
As paredes escuras irradiavam um frio gélido. Caixas e pilhas de
pacotes enchiam o recinto. Uma fita rolante movia-se lentamente por
um corredor e terminava num poço vertical, que subia à superfície.
Era um
depósito.
Um
depósito de medicamentos.
Tiff não
tinha a menor idéia sobre o motivo da mudança. Há poucos segundos
estivera deitado sobre a mesa de operações e recebera a injeção
paralisante. Agora via-se num depósito. Três aras vestidos de
branco corriam apressadamente de um lado para outro. Empilhavam
caixas diante da porta que conduzia ao exterior, como se quisessem
erguer uma barreira que impedisse a entrada. Trabalhadores acorreram
e ajudaram-nos no trabalho.
De
repente, soou uma campainha. Uma voz forte e exaltada fez-se ouvir.
Tiff entendeu tudo:
— Ordem
de Themos. Os prisioneiros devem ser mortos imediatamente.
Os três
médicos interromperam sua atividade e trocaram olhares de espanto.
Um deles, com um movimento cansado, enxugou o suor da testa, lançou
um ligeiro olhar para Tiff e Sengu e, dirigindo-se aos colegas,
disse:
— De que
nos servirão mortos? Como podemos estudar um organismo que não está
funcionando? Já não consigo compreender as ordens de Themos.
Primeiro temos de trazer os prisioneiros a este depósito, depois
querem que nós os matemos...
— Themos
deve saber o que está fazendo — interrompeu-o um outro, pegando
uma barra de ferro que estava encostada a uma caixa. — Farei o
serviço de forma que os corpos não sejam danificados.
— Sou
cientista — disse o ara que falara em primeiro lugar — mas não
sou nenhum assassino. Não quero ter nada com isso.
Sem dar
atenção aos colegas, virou-se altivamente e caminhou em direção à
parte mais escura do depósito.
O ara que
segurava a barra de ferro seguiu-o com os olhos por alguns segundos.
Depois soltou uma risada cruel e lançou um olhar frio para os
prisioneiros.
— Bem
que preferiria que continuassem...
Não pôde
prosseguir. O ar começou a tremeluzir entre ele e os terranos. Um
pequeno vulto se materializou. Sentado sobre o traseiro, Gucky
apoiava-se sobre o rabo, que parecia uma enorme colher. Com um
simples relance de olhos, avaliou a situação e reconheceu o único
inimigo que oferecia algum perigo.
O ara
recuperou-se da surpresa. Não perdeu tempo em procurar a explicação
do fenômeno, mas levantou a barra de ferro.
Gucky não
estava disposto a permitir que lhe arrebentassem o crânio.
— Sou um
gnomo — chilreou com a voz doce e estendeu os braços em direção
ao ara, que estacou em meio ao movimento.
Não
contara com a presença do espírito falante que tivesse o aspecto de
animal. Mas logo venceu os escrúpulos. A pesada barra foi levantada.
Porém ficou presa no ar, como se alguém a segurasse. E esse alguém
não era ele.
A barra
conquistou sua independência, turbilhonou pelo ar que nem uma
hélice, executou um mergulho completo, deu uma volta pelo depósito
e, atingida por forças invisíveis e inconcebíveis, assumiu a forma
de um R. Que nem uma espada de Dâmocles, o R ficou pendurado acima
da cabeça do ara apavorado.
Tiff viu o
R metálico cair ao chão, cobrindo o ara.
— Gucky!
— exclamou. — Você chegou em cima da hora.
— Sempre
apreciei a pontualidade — disse o rato-castor com um gesto
tranqüilo e olhou em torno, à procura de um objeto com que pudesse
cortar as correias. Não encontrou nada. Aproximou-se de Tiff e,
dirigindo-se a Sengu, que estava deitado ao lado do jovem tenente,
disse: — Não se preocupe, Wuriu. Vou levar Tiff lá para cima e
daqui a um segundo estarei de volta. Estas toupeiras não se
atreverão a pôr as mãos em você, senão farei chover o alfabeto
inteiro em cima de suas cabeças.
Enlaçou o
corpo de Tiff com os braços e desapareceu numa questão de segundos.
Sengu
ficou só.
A demora
foi maior que um segundo. Não se sentia muito à vontade. Olhou para
a porta, onde um dos cientistas continuava imóvel, como que pregado
ao chão. Os trabalhadores acompanharam os acontecimentos sem
compreender nada; ao que parecia, não estavam acostumados a que
alguém os esclarecesse.
Gucky
voltou.
— Então?
— chiou em tom de expectativa. — Alguém está precisando de uma
lição?
— Eles
se comportaram muito bem — disse o japonês em tom de alívio. —
Vamos embora. Já não suporto estas caixas.
Gucky
sorriu e teleportou-se juntamente com o prisioneiro, um andar para
cima. Tiff já estava esfregando os pulsos para ativar a circulação.
Mas o rato-castor ainda não parecia satisfeito.
— Você
pretende chamar Themos pelo videofone? — perguntou, dirigindo-se a
Rhodan. Mais uma vez, andara espionando os pensamentos do chefe.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça. — Muito bem. Enquanto
isso vou dar mais uma olhada lá embaixo. Esqueci uma coisa.
— Esqueceu?
— perguntou Crest espantado.
— Isso
mesmo, esqueci — confirmou Gucky.
Ninguém
pôde detê-lo, pois já havia desaparecido.
Rhodan deu
de ombros e aproximou-se do videofone. Não teve maiores dificuldades
em lidar com o aparelho. Comprimiu um botão e estabeleceu contato
com a estação central situada na superfície. Na tela apareceu o
rosto do velho ara, que logo recuou surpreso e apavorado. Tinha um
calombo reluzente na testa, mas de resto a queda da altura do teto
não o parecia ter afetado.
— O
senhor...? — gaguejou incrédulo.
— Sim, o
senhor está vendo, Themos — respondeu Rhodan. — Libertamos o
tenente Tifflor e Sengu. O sacrifício de seu ascensorista foi em
vão. E agora o senhor vai libertar Thora, senão passará por um mau
bocado. Se alguma coisa lhe acontecer, transformaremos este planeta
num inferno.
— O
senhor não se atreverá a fazer uma coisa dessas, Rhodan. Toda a
Galáxia se voltaria contra o senhor.
— Dificilmente,
se a Galáxia souber da verdade. O senhor entende muito bem o que
quero dizer, Themos. Só tenho um motivo para poupá-lo. Sua raça é
inteligente e acumulou experiências extraordinárias na área da
medicina. Os aras podem prestar serviços inestimáveis ao Império,
sem que tenham de recorrer à fraude. Mas, se não quiserem aceitar a
lição, só nos restará uma alternativa. Teremos que destruir
Aralon, a incubadora de inúmeras doenças. Será que me fiz
entendido?
Themos
lançou um olhar odiento para Rhodan.
— Afinal,
quem é o senhor?
Rhodan
exibiu um sorriso frio.
— Sou
Perry Rhodan do planeta Terra, plenipotenciário do cérebro
robotizado de Árcon. Meus poderes são ilimitados, Themos.
Compreendem inclusive a destruição total de Aralon. Decida logo,
senão ver-me-ei obrigado a libertar Thora por minha conta. E, a esta
hora, o senhor já não deve ter a menor dúvida de que eu o
conseguirei.
Após isso
aconteceu uma coisa muito estranha.
A
expressão do rosto de Themos modificou-se de uma hora para outra.
Sorriu, mas o sorriso exprimia satisfação e triunfo, o que deixou
Rhodan bastante desconfiado.
— Pois
bem, Rhodan do planeta Terra. Libertarei Thora. Incondicionalmente.
Darei a respectiva ordem assim que concluirmos nossa palestra. Aonde
devo levá-la?
— Meu
robô RK-940 está esperando no pavilhão. Chame-o.
Após
vinte segundos, Rhodan fitou os olhos cristalinos e cintilantes do
robô de guerra.
— RK-940!
Aqui fala Perry Rhodan. Dentro de cinco minutos Thora estará diante
de você. Leve-a imediatamente à Titan. Se dentro de cinco minutos
Thora não estiver no lugar em que você se encontra, mate Themos e
destrua todos os aparelhos de comunicação.
— Entendido
— rangeu a voz de RK-940.
Seu
complicado organismo começou a tiquetaquear. O tempo estava
correndo.
O rosto do
ara voltou a surgir na tela do videofone.
— Apresse-se
— recomendou Rhodan. — Cada segundo é precioso. Não acredite
que o robô lhe concederá um segundo que seja de prorrogação.
Rhodan
desligou abruptamente. Deixou Themos entregue ao seu conflito íntimo.
RK-940 cumpriria suas instruções com a exatidão de um mecanismo de
precisão.
— Onde
estará Gucky? — perguntou Tiff em tom preocupado. — Gostaria de
saber o que está fazendo no porão.
— Porão?
Esta é boa! — disse Rhodan, lembrando-o de que se encontravam dez
quilômetros sob a superfície. — Posso imaginar o que está
fazendo lá embaixo. Pelo que diz, um dos médicos ainda está em
perfeitas condições.
— Sim
senhor. Será que...
— É
claro que sim, Tiff. Se não estou enganado, daqui a pouco Gucky
aparecerá com uma caixa muito preciosa. É a caixa pela qual nos
lançamos nesta missão. Sem falar, naturalmente, da necessidade de
desmascarar os aras e seus métodos criminosos perante todos os povos
do Império. Acredita que não tive nenhum motivo para dar à nossa
ação um caráter tão amplo e complicado?
Atrás
deles alguma coisa caiu ruidosamente ao chão.
Viraram-se
ligeiros e viram Gucky que se materializava. A caixa alongada caíra
de uma altura de cinqüenta centímetros, mas continuava intacta.
Gucky
ergueu-se e, com o orgulho de um general vitorioso, anunciou:
— É o
soro contra a doença do riso. Usou o eufemismo para designar a
hipereuforia, que poderia ser tudo, menos risível.
— Muito
bem! — elogiou Rhodan. — Tem certeza de que o medicamento
realmente é este?
— Não
se preocupe — tranqüilizou-o o rato-castor e exibiu o
dente-roedor, o que era um sinal de disposição alegre. — O ara de
capa branca sentiu-se feliz por poder conversar comigo. Em seus
pensamentos, li a verdade. O soro que está nesta caixa é suficiente
para curar mil pessoas. Basta injetá-lo nos doentes. Age dentro de
uma hora.
Tiff
respirou aliviado e olhou em direção à porta que dava para o outro
laboratório, atrás da qual havia um silêncio suspeito.
— Pois
vamos para a Titan. Resta saber como faremos para voltar à
superfície. Ao que parece, o elevador precisa de reparos.
— Levarão
muito tempo para reparar esse elevador — disse Gucky em tom
distraído. Estava escutando. Provavelmente captava impulsos
telepáticos. A suposição foi confirmada. — RK-940 acaba de
receber Thora. Está bem disposta, mas preocupada, muito preocupada.
— Preocupada?
— perguntou Rhodan espantado. — Por quê?
— Não
sei por quê. Apenas sei por quem.
— Ah, é?
— disse Rhodan.
— É por
você — disse Gucky, exibindo o dente-roedor. — Isso permite
algumas conclusões bem interessantes.
Crest
acenou com a cabeça e sorriu como quem compreende. Mas foi
interrompido nessa atividade, pois Gucky não perdeu a oportunidade
para uma observação mordaz.
— Acho
que Tiff terá que procurar outra noiva.
Tiff
enrubesceu como um colegial.
— Eu...
não me lembrei de nada melhor — gaguejou muito embaraçado. —
Infelizmente. Thora não sabia disso e só poderia ficar indignada
quando despertou e ficou sabendo que eu pretendia viver em sua
companhia num planeta romântico.
Desta vez
foi Rhodan que sorriu.
— Foi
uma idéia muito engraçada — confessou, mas logo se tornou sério.
— Acho que está na hora de levarmos os medicamentos a um lugar
seguro. Ainda estou um pouco desconfiado dos aras.
Naquele
instante ouviu-se um leve zumbido na sala.
Rhodan
levantou o braço e comprimiu o botão do minúsculo aparelho de
rádio embutido em sua pulseira.
A voz do
tenente Bristal repetia constantemente em tom exaltado:
— Perry
Rhodan, responda. Perry Rhodan, responda. É muito urgente. Perry
Rhodan, responda...
Rhodan
apertou outro botão.
— Aqui é
Rhodan. O que houve?
Um momento
de silêncio. Depois a voz de Bristal voltou a falar:
— Alarma
total! Estamos sendo atacados por uma frota. Mais de cem naves de
guerra dos saltadores cercaram Aralon. Aguardamos suas instruções.
Rhodan
empalideceu. Lançou um olhar apressado para Crest e respondeu:
— Ativar
os campos defensivos da Titan e da Ganymed. Evitar o combate enquanto
for possível. Dentro de dez minutos, estaremos aí. Agüentem.
Bristal
confirmou. O receptor silenciou.
Rhodan
virou-se lentamente e olhou para os dois robôs. Sua voz grave
revelava uma estranha frieza:
— RK-999.
Revogo a ordem de poupar o inimigo. Vá à frente e abra o caminho
para os elevadores. Qualquer resistência deverá ser eliminada —
dirigiu-se ao outro robô. — RK-935. Para você a ordem de não
matar também não vale mais. Mantenha nossas costas livres. Quem
quer que nos ataque deverá ser destruído.
Depois
disso falou para Crest, Tiff e Sengu:
— Vocês
se revezarão no transporte da caixa com os medicamentos. Gucky,
teleporte-se para a superfície e providencie para que Thora seja
levada a um lugar seguro. Caso o ataque da frota inimiga já tenha
sido iniciado, aguarde juntamente com ela e os robôs no edifício da
administração. Será preferível ficar no pavilhão, onde terminam
os poços dos elevadores.
Falando
indistintamente aos circunstantes, disse:
— Vamos.
Não podemos perder tempo.
No momento
em que RK-999 arrebentou violentamente a porta, Gucky
desmaterializou-se.
Dez
quilômetros abaixo da superfície de Aralon, Rhodan iniciava seu
avanço para a liberdade.
6
Quando
Themos foi carregado ao seu gabinete — e os robôs de Rhodan não
impediram que seus companheiros o fizessem — só teve uma idéia:
vingança!
Mas sofreu
um revés após o outro.
Centenas
de pacientes recém-chegados preferiram voltar para as suas naves, a
fim de procurar curarem-se em outro lugar. As condições reinantes
em Aralon não ofereciam muita segurança.
Seguiu-se
a tentativa malograda de um de seus assistentes, que tentou matar
Rhodan no elevador.
Finalmente
os dois prisioneiros foram libertados.
Neste
ponto Themos não hesitou mais. Estabeleceu contato direto com o
edifício da administração situado na extremidade oposta do campo
de pouso e pediu que o ligassem com o médico-chefe que comandava
todo o setor. Em breves palavras, descreveu a gravidade da situação
e ressaltou que Rhodan descobrira segredos que representavam uma
ameaça à existência de Aralon.
— Diz
que está agindo por ordem do Império, mas tenho minhas dúvidas. O
cérebro robotizado desconfia até de nós; como é que poderia
confiar numa criatura estranha, que nem sequer é súdito do Império?
Chame uma frota de guerra dos saltadores. Peça o apoio dos
superpesados.
Estava
pedindo muita coisa.
Os
chamados superpesados eram a força policial dos mercadores
galácticos. Viviam da guerra. Às vezes comboiavam naves que
transportavam mercadorias valiosas, mas outras vezes entravam em
guerra contra mundos que tinham o atrevimento de revoltar-se contra
os métodos implacáveis dos saltadores. Segregados há muito tempo
de sua raça, os superpesados viviam num planeta em que a gravitação
era enorme. Sua altura atingia dois metros e o diâmetro de seu corpo
chegava, em média, a um metro e meio. E seu poderio bélico era tão
imponente como o aspecto de seu corpo. Suas frotas eram mantidas de
prontidão em todos os recantos do Império. O médico-chefe hesitou.
— O
senhor sabe que os superpesados são muito caros. Seu preços não
são nada módicos. Não sei se sua preocupação se justifica.
Talvez possamos enganar o tal do Rhodan.
— É
impossível — chiou a voz zangada de Themos, que se sentiu muito
contrariado por ter de admitir a derrota. — Se esperarmos mais
trinta minutos, estaremos liquidados. Poderemos fechar nosso
hospital. Os pacientes já não se sentem seguros em nosso mundo.
A decisão
veio com uma rapidez impressionante.
— Muito
bem, Themos. Chamarei os superpesados pelo hiperemissor e lhes
pedirei que nos mandem imediatamente um contingente poderoso. Mas a
responsabilidade será sua, Themos. Não posso isentá-lo dessa
obrigação.
— Ande
logo! Não temos um minuto a perder.
Themos
desligou o videofone. Foi despertado de suas reflexões quando ouviu
o zumbido.
Quando
voltou a comprimir o botão, o rosto de Rhodan surgiu na tela.
— O
senhor? — gaguejou espantado.
— O
senhor está vendo — respondeu Rhodan e exigiu que Thora, que
representava o último trunfo que os aras tinham em mãos, fosse
libertada imediatamente.
Ao
concordar, sentiu uma satisfação íntima.
*
* *
Os
seiscentos e cinqüenta quilos do superpesado Talamon acomodavam-se
junto aos controles da nave Tal VI. Estava estacionado no setor de
Dragolan, a uns 47 anos-luz de Árcon, quando o receptor de
hipercomunicação captou uma mensagem dirigida a ele.
Vinha do
quartel-general dos superpesados.
Talamon
acenou com a cabeça; parecia satisfeito.
— O
tédio da espera chegou ao fim. Está na hora de acontecer alguma
coisa, senão serei retirado da circulação antes da hora.
Seu humor
era um tanto mordaz.
O oficial
de rádio anunciou que a ligação havia sido completada.
Poucos
segundos depois, respondeu o quartel-general, que não estava
instalado em algum planeta, mas numa gigantesca nave cilíndrica.
— Talamon!
Os aras estão solicitando ajuda militar. Planeta de Aralon, sistema
de Kesnar. As coordenadas já são conhecidas. Duas naves, uma delas
de origem arcônida, devem ser destruídas. O comandante é um certo
Perry Rhodan do planeta Terra. Não o conhecemos. De quantas unidades
dispõe?
— Cento
e oito.
— Isso
basta. Entre imediatamente na transição.
Antes que
Talamon tivesse tempo para confirmar, o quartel-general interrompeu o
contato.
Talamon
transmitiu as respectivas instruções aos comandantes das naves e
agiu sem demora. Enquanto a frota acelerava, ficou refletindo
constantemente sobre o nome Perry Rhodan.
Era
desconhecido?
Não, esse
nome não era tão desconhecido assim. Já o ouvira.
Seria
Topthor que lhe havia falado nele...?
Naturalmente,
foi Topthor! Em algum lugar, a mais de trinta mil anos-luz do lugar
em que se encontrava, Topthor tivera um encontro com o tal do Rhodan
e levara a pior. Bem, isso não aconteceria com ele, Talamon. Esse
Rhodan que tentasse enfrentar cem naves bem armadas... Pouco
importava que viesse da Terra ou do inferno.
Dez
minutos depois da mensagem de socorro de Themos, a frota de Talamon
se materializou no sistema de Kesnar, a menos de três segundos-luz
de Aralon. Espalhou-se e entrou em posição. Cinqüenta unidades
pesadas bloquearam o porto espacial. Mantendo-se numa altitude de
dois quilômetros, estenderam uma rede impenetrável sobre o
gigantesco campo de pouso, em cuja extremidade estava pousada a
gigantesca Titan.
Talamon
sentiu uma pressão no estômago quando viu a gigantesca esfera.
Nunca vira uma nave desse tamanho. Devia ser o produto mais recente
dos estaleiros de Árcon. Bem, talvez o monstro nem fosse tão
perigoso como parecia ser.
Bem, era
só experimentar.
Ligou o
telecomunicador.
— Regul,
pegue dez naves e lance um ataque contra a esfera. Acione
simultaneamente todos os canhões de radiação de que dispõe para
romper o campo defensivo. Destrua a esfera, se puder. Ataque daqui a
um minuto. Fim.
Regul
confirmou e formou suas unidades para o ataque.
Talamon
continuava sentado atrás dos controles da Tal VI. Estava esperando.
*
* *
Gucky se
materializou.
Três ou
quatro aras espalharam-se apavorados, quando viram o rato-castor
formar-se repentinamente diante deles. Um deles correu com a capa
esvoaçante em direção à porta. Mas só conseguiu dar alguns
passos. Sentiu-se levantado e, deslocando-se que nem um torpedo,
descreveu uma curva ampla pelo pavilhão, pousando com uma longa
escorregadela diante da parede. Confuso, mas sem ter sofrido
ferimentos visíveis, ficou deitado.
— Onde
está Themos? — perguntou Gucky com a voz estridente, apontando
para os dois aras que tentavam desaparecer às escondidas. —
Levem-me ao lugar em que está. Rápido, senão eu os transformo em
foguetes espaciais. Até que o formato de vocês ajuda.
Os dois
hesitaram, mas quando suas capas conquistaram a independência e
procuraram ganhar a liberdade com tamanha força que se rasgaram e,
transformadas em panos de chão, executaram algumas manobras e caíram
lentamente ao chão, desistiram. Resolveram obedecer. Viraram-se e
marcharam por um corredor, em cuja extremidade se via uma porta de
vidro opaco. O letreiro dizia que atrás dela o chefe desempenhava
suas funções.
Gucky
expulsou os dois aras com um movimento da mão e abriu a porta
através da telecinese. A porta se abriu, como se a mão de algum
espírito a tocasse. Themos estava sentado atrás de sua mesa,
exausto com as medidas estratégicas que acabara de ordenar. E o
calombo da testa não diminuíra.
Gucky
fechou a porta atrás de si. Aliás, parecia fechar-se por si. Themos
apavorou-se e chegou à conclusão de que a fase dos milagres ainda
não havia chegado ao fim. Mas nem desconfiou de que os milagres mais
grossos ainda estavam por vir.
— Seu
monstro de ara, será que você chamou a frota dos saltadores? Fale
logo, senão eu o transformarei numa espiral giratória e o farei
descer ao centro de Aralon.
— Eu...
eu...
— Obrigado
— disse Gucky. — Já basta. Sou telepata e posso ler os
pensamentos imundos que você traz na cabeça. Quer dizer que você
nos traiu. E foram logo os superpesados que você mandou chamar.
Rapaz, você cometeu um erro imperdoável. Já sabíamos que você
estava fulo, mas nunca poderíamos imaginar que, de tanta estupidez,
você não consegue enxergar mais nada. Vamos! Você virá comigo.
— Os
superpesados irão...
— Os
superpesados podem dar-se por satisfeitos se não os despacharmos
para o inferno — interrompeu Gucky, que mal conseguia controlar-se.
— Quero que você venha comigo. Preciso mostrar-lhe uma coisa. Como
é, ainda não se decidiu?
Themos
ergueu-se lentamente. Seus sentimentos não prenunciavam nada de bom,
e não tinha a menor curiosidade de ver o que esse pequenote queria
mostrar-lhe.
De
repente, Gucky captou os pensamentos de Thora. Estavam carregados de
medo cheio de pânico. Lá fora, no campo de pouso, estava sendo
travada uma batalha encarniçada. Gucky conseguiu descobrir isso em
meio à confusão. A Titan estava sendo atacada. Numa fuga desabalada
Thora conseguira colocar-se em segurança no interior do edifício,
depois de ter percorrido metade do trajeto que a separava da nave.
A raiva de
Gucky cresceu.
Não teve
mais a menor contemplação. Submeteu Themos ao seu controle
telecinético e o fez planar à sua frente, dois metros acima do
chão. Quando chegou ao pavilhão, viu que Thora entrava e, exausta,
se deixava cair numa poltrona. Parecia ter chegado ao fim das suas
forças. Poucos segundos depois, foi seguida por RK-940, cujos braços
armados ainda estavam incandescentes.
Themos
aterrissou de forma nada suave aos pés de Thora.
A arcônida
levantou os olhos, viu Gucky e depois o ara. Seu rosto contorceu-se.
Themos levou um soco do lado, que voltou a despertar as dores já
esquecidas da primeira queda. Choramingava tristemente. O robô
levantou o braço armado do lado direito e apontou-o para o traidor.
— Pare!
— gritou Gucky. — Rhodan deu ordem para que não matássemos
ninguém.
— Themos
merece a morte — disse Thora, vindo em apoio do robô. Sua raiva
era ainda maior que a de Gucky, e isso significava alguma coisa. —
Por que vamos poupá-lo?
— Quem
vai decidir isso é Rhodan — chiou o rato-castor em tom
apaziguador. — Este sujeito não nos escapará.
— Onde
está Rhodan? — perguntou Thora.
Só agora
parecia lembrar-se dele.
Gucky
olhou para as entradas dos elevadores.
— Deve
chegar a qualquer momento. Já está a caminho com Crest, Tiff e
Sengu. Os dois robôs virão atrás deles. Vão usar o pequeno
elevador de passageiros, porque o outro está estragado.
Thora
levantou-se devagar e foi caminhando em direção ao elevador. Duas
portas fechavam as entradas para os poços dos elevadores: uma larga,
outra estreita.
— Não é
essa porta — gritou Gucky, quando comprimiu um botão e a porta
larga se abriu. Não se via nenhuma cabine de elevador, apenas uma
abertura grande e escura. Era o poço, que descia mais de dez mil
metros. — Já disse que é o elevador pequeno.
Thora
deixou aberta a porta maior e dirigiu-se ao elevador de passageiros.
Mais uma vez viu o poço, mas dele saiu um zumbido monótono.
Era a
cabine do elevador que estava subindo.
Demorou
mais dois minutos até que parou. Rhodan entrou no pavilhão, seguido
dos três acompanhantes. O rosto de Thora cobriu-se com um brilho de
alegria e alívio. Correu para Rhodan e segurou-lhe as mãos.
— Perry,
sinto-me tão satisfeita, eu... eu...
Rhodan
retribuiu a pressão das mãos de Thora.
— Obrigado,
Thora. A senhora acaba de me dar uma grande alegria. Mais uma vez,
muito obrigado, Thora. Mas não temos tempo para tratar de assuntos
particulares. Sengu, a caixa com os medicamentos. Entregue-a ao
RK-940.
Gucky
ergueu-se à frente de Rhodan. Pretendia dizer alguma coisa, quando
Thora soltou um grito. Quando se virou a fim de voltar para sua
poltrona, lembrou-se de Themos.
O ara
ficara apavorado ao ver que seu inimigo saíra são e salvo do
elevador, seguido pelos prisioneiros e o arcônida. Reunindo as
forças que ainda lhe restavam, levantou-se de um salto e, passando
por Thora, correu em direção ao elevador. Acreditava que a fuga
para o labirinto subterrâneo seria a única possibilidade de escapar
à vingança de Rhodan.
No seu
nervosismo, confundiu as portas. Demorou um segundo para perceber o
engano. Com um grito apavorante caiu no poço.
Rhodan
correu para o elevador e contemplou a profundidade abismal, como se
pudesse fazer alguma coisa pelo traidor. Mas logo viu que só havia
uma pessoa que poderia ajudá-lo.
— Gucky!
— gritou apressadamente. — Traga-o de volta. Depressa!
O
rato-castor lançou um olhar rápido para Thora. O rosto da arcônida,
que ainda há pouco estava marcado pela surpresa, voltara a ficar
liso e indiferente.
— Gucky!
— gritou Rhodan em tom mais insistente. — Será que você não
ouviu?
O
rato-castor arrastou-se em direção a Thora e olhou para o relógio
da arcônida.
— Themos
já está caindo há trinta segundos — constatou em tom objetivo. —
São quase cinco mil metros. Não é de supor que a queda tenha sido
perfeitamente vertical. Já está morto.
— Gucky!
— a voz de Rhodan assumiu um tom mais enérgico. — Faça
imediatamente o que eu lhe disse.
— Quarenta
segundos! — disse o rato-castor com a maior indiferença. — São
oito quilômetros. Rhodan, recuso-me a cumprir a ordem. Themos é um
traidor miserável, que está sendo castigado pelo destino. Ninguém
tem o direito de interferir no destino. Cinqüenta segundos. Themos
está morto; não existe a menor dúvida.
O rosto de
Rhodan estava pálido. Em seus olhos chamejava a raiva e o
aborrecimento.
— Gucky,
você acaba de cometer uma insubordinação. Ainda falaremos sobre
isso — interrompeu-se ao ouvir um ruído atrás das suas costas.
Era apenas a cabine do elevador, que descia para trazer os robôs. Ao
que parecia, o incidente estava esquecido. Apertou um botão e entrou
em contato com a Titan. — Tenente Bristal? Quero um relato da
situação. Rápido!
— Dez
naves inimigas estão atacando. Nossos campos defensivos resistem. O
que devemos fazer?
— Aguarde.
Dentro de dez segundos estarei aí. Ligue o hipertransmissor.
Dirigindo-se
a Gucky, prosseguiu:
— Leve-nos
à sala de comando da Titan. Thora e Crest, daqui a pouco serão
apanhados; Tiff e Sengu também. Até já.
Gucky
enlaçou Rhodan com os braços curtos e desapareceu numa fração de
segundo. Os que ficaram para trás ainda chegaram a ver o brilho
triunfante nos olhos do rato-castor.
*
* *
Talamon se
dirigiu a uma região mais elevada, para ter uma visão mais ampla.
Face ao seu caráter, o espetáculo das dez naves, que atacavam em
vão a supernave Titan, não lhe trazia raiva nem ódio. Pelo
contrário: sentiu certa admiração pelo tal do Rhodan.
“Deve
haver alguma coisa nesse sujeito”,
pensou “e
nem é bom imaginar o que se poderia fazer se este Perry fosse amigo
da gente.”
Mas logo
se lembrou da sua missão.
Devia
destruir Rhodan.
— Regul!
— berrou para dentro do microfone. — Retire-se. É inútil atacar
a esfera com apenas dez naves. Não abriram fogo contra o senhor?
— Não
dispararam um único tiro! — foi a resposta um tanto incrédula. —
Limitaram-se a ativar os campos defensivos, e não conseguimos
rompê-los.
— Atacaremos
com as cinqüenta naves — decidiu Talamon. — Nenhum campo
defensivo, por mais potente que seja, poderá resistir ao fogo
concentrado de cinqüenta couraçados. A operação será iniciada
exatamente daqui a dois minutos.
*
* *
Rhodan,
que se encontrava na sala de comando da Titan, não conseguiu
disfarçar o espanto quando viu que de repente os atacantes batiam em
retirada. Gucky materializava-se com Sengu, o último a ser retirado
do pavilhão branco. Exausto, sentou em cima da caixa de medicamentos
e resmungou:
— E
agora?
— Agora
vamos fazer três coisas — respondeu Rhodan laconicamente. —
Sengu, acompanhe Crest à enfermaria e leve a caixa com os
medicamentos. O Dr. Haggard será o primeiro a receber a injeção. O
antídoto será injetado em todos os doentes. Em segundo lugar você,
Gucky, saltará imediatamente para o edifício da administração
central, situado do outro lado do campo de pouso, e fará o possível
para trazer o chefe. Deve ter sido ele quem falou com Themos e
alarmou os saltadores. A terceira tarefa só diz respeito a mim.
Bristal, o hipercomunicador está preparado?
Gucky
suspirou e desmaterializou-se sem levantar-se.
Sengu
segurou a caixa embaixo do braço e saiu da sala de comando,
acompanhado por Crest. Tiff e Bristal assumiram o comando da Titan.
Rhodan e Thora dirigiram-se à sala de rádio.
A grande
tela do hipercomunicador mostrava o espetáculo majestoso da frota
robotizada do Império, que se mantinha de prontidão. Com um ligeiro
movimento da chave, o quadro foi substituído pela imagem de um único
robô. Rhodan reconheceu-o através da placa que trazia presa ao
peito.
— OR-775!
Aqui fala Rhodan do planeta Terra. Entre já em transição com toda
a frota e feche hermeticamente o sistema de Kesnar. Algumas unidades
vigiarão o campo de pouso; deverão destruir qualquer nave que
procure decolar. Nada de ataques. Apenas deverão defender-se.
Confirme.
— A
transição será realizada dentro de dez segundos. Apenas nos
defenderemos, nada de ataques.
Rhodan
confirmou. A imagem foi substituída. Mais uma vez, o conjunto da
frota surgiu na tela. Uma nave especial de rádio teve que transmitir
a imagem. De repente, a tela só mostrou os inúmeros sóis do grupo
estelar M-13, que emitiam um brilho frio e indiferente.
*
* *
Foi nesse
instante que Talamon viu destruídas todas as esperanças de um bom
lucro.
O alarma
correu pela nave. Os campos defensivos envolveram automaticamente
todas as unidades que se encontravam em formação de ataque,
aguardando apenas as respectivas instruções. As mensagens de rádio
corriam de um lado para outro à velocidade da luz, atingindo também
as naves que se encontravam na face oposta do planeta e na periferia
do sistema.
O
pressentimento transformou-se em certeza.
Uma
poderosa frota de guerra dos arcônidas acabara de aparecer. Era tão
potente que dentro de poucos minutos poderia transformar a frota dos
saltadores num montão turbilhonante de destroços incendiados.
Talamon
avaliou a situação com uma precisão espantosa e reagiu
imediatamente. Sua tremenda capacidade de reação já lhe salvara a
vida mais de uma vez. Com toda certeza, isso acontecera desta vez.
— Mantenham-se
em atitude passiva — berrou para dentro do microfone. — Nada de
ataques. Aguardem. Procurarei negociar.
Alguém
gritou na sala de rádio:
— Estão
nos chamando. Um certo Rhodan do...
— Passe
a ligação para mim — gritou Talamon espantado. — Rápido!
Demorou
alguns segundos até que a tela, à sua frente, se iluminasse. Surgiu
um rosto. O superpesado fitou os olhos frios e cinzentos do ser que
tinha o formato de um arcônida, mas não deveria pertencer a essa
raça.
— O
senhor é o comandante dos superpesados? — perguntou o homem num
intercosmo impecável. — Responda!
— Sou
Talamon — respondeu o superpesado com um sorriso azedo. — Acho
que o senhor está interpretando mal as minhas intenções...
— Se
acredita que posso interpretá-las mal, terá que tornar-se mais
explícito — respondeu Rhodan. — Sabe quem eu sou?
— Perry
Rhodan do planeta Terra — disse o superpesado sem muito entusiasmo.
— Tive conhecimento do seu encontro com Topthor.
— Pois é
tanto mais surpreendente que assim mesmo tenha tentado atacar-me.
Quem foi que o chamou?
— Foram
os aras. Estavam em situação difícil, e era nosso dever atender ao
seu chamado.
— O
primeiro dever de qualquer súdito de Árcon consiste em servir ao
Império. O senhor devia saber disso.
— Os
aras servem ao Império. Todo mundo sabe disso. Quando solicitam
auxílio, eles o fazem a bem do Império.
— Como é
o nome do ara que o chamou?
— Foi o
médico-chefe Borat. Dirige o setor do campo espacial e...
— Então
foi Borat? — Talamon viu Rhodan olhar para o lado e dizer a alguém:
— O senhor é Borat? Está certo, depois conversaremos.
Voltando a
dirigir-se a Talamon, prosseguiu:
— Sabe
alguma coisa a respeito dos aras e dos métodos que usam, Talamon?
O rosto do
superpesado não parecia muito inteligente. Ao que parecia não sabia
o que significava a pergunta. Encolheu os enormes ombros.
— Sei
aquilo que todo mundo sabe. Curam os doentes e produzem os melhores
remédios. Não possuem armas de qualquer espécie e são
considerados os mais pacatos dentre os moradores da Galáxia. É
justamente por isso que não compreendo por que o senhor...
— Quer
dizer que não sabe mais nada? Gucky, está dizendo a verdade?
Talamon
ficou espantado ao ver que um estranho ser peludo empurrou Rhodan
para o lado e apareceu na tela. Fitou um par de olhos castanhos e
bondosos, que o examinavam atentamente. Depois disso, o ser peludo
acenou com a cabeça e desapareceu. O rosto de Rhodan voltou à tela.
— O
senhor está com sorte, Talamon. Realmente não está informado sobre
as verdadeiras atividades dos aras. Isso explica seu procedimento.
Pois eu lhe contarei tudo, a fim de que o senhor possa informar todas
as raças do Império a respeito do que está acontecendo em Aralon.
Os dez
minutos que se seguiram representaram a maior surpresa por que
Talamon jamais passou. Ouviu em silêncio o que Rhodan lhe dizia. O
sorriso desapareceu de seu rosto, dando lugar a uma expressão de
raiva.
Quando
Rhodan terminou, ficou calado por algum tempo. Depois perguntou:
— Por
que não destrói Aralon?
O ligeiro
sorriso de Rhodan não poderia ser considerado muito amável.
— Será
que eu destruí sua frota quando fui atacado por ela? Não. Nem
sempre a morte e a destruição são as soluções finais ou, de modo
singular, a melhor solução de um problema. A Galáxia saberá como
a raça dos aras adquiriu sua riqueza. O segredo deste planeta deixou
de existir. Se os aras não quiserem desaparecer, terão que
adaptar-se utilizando seu saber para o bem geral. No entanto, se
acontecer mais uma única vez que um habitante de qualquer mundo do
Império contraia uma doença cuja origem deve ser procurada em
Aralon, este planeta deixará de existir.
Talamon
acenou lentamente com a cabeça.
— Os
aras descendem dos saltadores. Têm o comércio no sangue, tal qual
nós, os superpesados. É verdade que vivemos da luta, mas não da
baixeza. Perry Rhodan, conte comigo sempre que a justiça não tiver
forças para defender-se.
Uma
expressão calorosa surgiu no rosto de Rhodan.
— Obrigado,
Talamon. Não me esquecerei. Reúna sua frota e lembre-se do que
acaba de prometer. Também os saltadores nem sempre têm o direito de
seu lado. Receio que dentro de pouco tempo o senhor se verá diante
de tarefas que representarão um pesado encargo para sua consciência.
— Eu lhe
dou minha palavra, Rhodan. Sou bastante rico para recusar qualquer
oferta dos meus comandantes que não me agrade. Permite que lhe dê
minha freqüência de hipercomunicação? Por ela poderá atingir-me
a qualquer momento.
— Terei
muito prazer em fazer uso de sua oferta se um dia isso se tornar
necessário.
— Mais
uma pergunta — acrescentou Talamon. Em seus olhos havia uma certa
timidez, que de forma alguma combinava com aquela montanha de carne.
— Como se explica que de repente os arcônidas se tenham tornado
tão ativos? Há milênios não se vê uma frota de guerra oficial do
Império.
— Os
tempos estão mudando — disse Rhodan com um sorriso significativo.
— O Império encontra-se no limiar de uma nova época de sua
história. Procure acompanhar essa evolução, Talamon, e o senhor
ainda terá muita oportunidade de mostrar seu gênio combativo a
favor da causa do Direito.
Talamon
confirmou com um aceno de cabeça.
— Conte
comigo, Rhodan. Se algum dia seu planeta, a Terra, estiver em perigo,
chame-me. Muitas felicidades, Rhodan.
Desligou
sem aguardar resposta. Seus olhos pareciam pensativos.
Voltou a
mover a chave com um movimento vigoroso, colocando-a na posição de
transmissão.
— Frota
preparada para a transição — disse com a voz um tanto trêmula,
que exprimia alívio e decisão. — Coordenadas inalteradas...
Depois de
alguns segundos, acrescentou:
— Missão
cumprida!
Após dez
segundos a frota de Talamon desapareceu dos céus do planeta Aralon.
7
Rhodan
levou mais trinta segundos fitando a tela vazia, antes de virar-se e
fitar Gucky.
— Então,
meu chapa, o que é que ele estava pensando?
O
rato-castor sorriu. O dente-roedor escorregou para a frente, dando
uma expressão matreira ao seu rosto. O pêlo da nuca voltou a
alisar-se.
— Está
muito impressionado. De início, apenas havia o espanto enorme
provocado pelo surgimento da frota robotizada. Não havia contado com
essa possibilidade. Para ele os arcônidas são dorminhocos incapazes
de qualquer iniciativa. Mas quando soube da verdade sobre os aras,
suas idéias mudaram com uma rapidez espantosa. A modificação foi
verdadeira e convincente. Talamon passou a ser nosso amigo. Uma coisa
que também o impressionou foi o fato de não termos aproveitado
nossa superioridade para castigá-lo. Não perdeu uma única nave.
Rhodan, ele admira você.
— Obrigado,
Gucky — respondeu Rhodan. Parecia bastante comovido. Mas só por um
instante. Seu olhar logo voltou a assumir a expressão de dureza. Com
a voz fria, dirigia-se a um trêmulo ara, que se encontrava entre
Tiff e Sengu. Ao que tudo indicava, ainda não conseguira digerir
aquela estranha forma de transporte ultra-rápido. — Borat, o
senhor ouviu o que acabo de dizer ao superpesado. Não foi nenhuma
ameaça. A produção de Aralon terá de ser reduzida à metade.
“No
futuro, não serão produzidos mais germes causadores de doenças;
apenas remédios. Todas as raças que adoeceram por causa dos
preparados dos senhores receberão tratamento gratuito. Para
vigiá-los e controlar a execução destas medidas, deixarei duzentos
robôs de guerra em Aralon. Serão programados de tal forma que
qualquer falta será castigada com a imediata destruição do
culpado. Não pense que conseguirá enganar um robô equipado com um
cérebro positrônico. Mesmo que estivesse em condições de destruir
um dos robôs, isso não adiantaria nada. Toda a reserva energética
do mesmo seria utilizada para transmitir uma mensagem de
hipercomunicação dirigida ao cérebro robotizado de Árcon. A
conseqüência seria o envio de uma expedição punitiva, que
destruiria o planeta depois de evacuados os doentes. Será que me fiz
entendido?”
O
médico-chefe Borat confirmou com um forte aceno da cabeça. Em seus
olhos brilhava uma expressão de pavor e de disposição irrestrita
de fazer qualquer coisa que exigissem dele. No entanto, disse:
— Não
posso decidir sozinho. O conselho de médicos terá que dar seu
consentimento e...
— Conhece
alguém que consentiria com a destruição de Aralon?
— Não,
é claro que não conheço, mas...
— Nada
de mas, Borat. Não existe outra alternativa. A possibilidade de
qualquer solução conciliatória está excluída. O erro dos
senhores foi que não se deram por satisfeitos com aquilo que haviam
conseguido. E outro erro foi o de me terem atacado. Mas está tudo
bem. Pode sair da nave e voltar ao seu gabinete. Aguardo sua decisão
pelo prazo de três horas. É mais que suficiente. Passe bem, e
conserve a saúde, Borat. Tiff, leve-o até a escotilha.
Acompanhou
a saída do ara com um olhar frio. Depois dirigiu-se a Gucky:
— E
agora terei uma conversa com você, meu caro. Você se recusou a
cumprir uma ordem minha. Pode oferecer qualquer desculpa para esse
procedimento?
O
rato-castor encolheu uns vinte centímetros. Escorregou para dentro
de seu próprio corpo. Lançou um olhar de súplica para Thora, que
fitou Rhodan com uma expressão de desembaraço. Suas faces
tingiram-se de vermelho.
— A
culpa foi minha, Perry. Fui eu quem pediu a Gucky que matasse Themos.
O olhar de
Rhodan passou além de Thora.
— Thora,
uma vida humana pesa em sua consciência.
— Foi um
traidor, Perry. Merecia a morte.
— Será
que um ser humano pode tomar uma decisão desse tipo? Se quiséssemos
raciocinar dessa maneira, também Borat mereceria a morte. E com ele
mais alguns milhares de pessoas. Mas, como vê, poderão ser muito
mais úteis se continuarem vivos. Também Themos poderia ter
oportunidade de pagar pelos seus erros.
— Fomos
nós que o matamos? — disse Thora em sua defesa. — Foi ele quem
saltou para dentro do poço que seria nossa armadilha mortal. Ele se
suicidou. Se Gucky não o ajudou, isso pode ter sido uma omissão,
mas nunca um assassinato.
— Quer
dizer que existem circunstâncias atenuantes? — perguntou Rhodan em
tom sarcástico, sacudindo a cabeça. — Por favor, Thora, nunca
mais procure interferir nas minhas decisões. De certa forma,
compreendo sua cólera. Não falemos mais sobre isto.
Inclinou-se
para Gucky.
— E
você, meu caro, aceite isto como uma lição. É bem verdade que
Thora tem tempo para cocar seu pêlo e ir à cozinha de bordo para
pedir algumas cenouras para você, mas nem por isso se justifica que
minhas ordens sejam ignoradas. Entendido?
Os olhos
fiéis de Gucky pareciam ainda mais fiéis. O dente-roedor arriscou o
primeiro avanço para esboçar um sorriso. Acenou fortemente com a
cabeça.
— Entendido,
chefe!
Aguçou o
ouvido em direção à porta. O dente-roedor já se esquecera da
repreensão. Gucky sorria cheio de expectativa enquanto atravessava a
sala de comando em passo arrastado, fazendo com que a porta se
abrisse.
Um tanto
espantado com a medida inesperada, Bell tropeçou no limiar da porta
e olhou para Gucky, que era considerado seu amigo do peito. Os
cabelos ruivos de Bell estavam tranqüilamente encostados ao crânio
redondo, enquanto o rosto irradiava alegria e satisfação. Nos olhos
azuis-claros, brilhava uma espécie de tristeza contida, que parecia
estar em contradição com essa satisfação. Bell devia estar
atravessando um agudo conflito de personalidade.
— Olá —
disse, cortando o ar com um gesto da mão. — Aqui estou. Aconteceu
alguma coisa?
Gucky
fungou de desprezo.
— Enquanto
nós salvamos a Via Láctea, você ficou refestelado na cama,
dormindo e sorrindo sem dizer nada. Devemos ser gratos aos aras, que
nos livraram por algum tempo da sua cara, que já estávamos enjoados
de ver. E fui logo eu quem tive de arranjar o remédio que acordou
você. Mas acabo voltando para lá a fim de buscar o germe da doença.
Aconteceu
uma coisa totalmente inesperada. Bell agachou-se e fitou os olhos do
rato-castor, que emitiam um brilho matreiro.
— Gucky,
meu amiguinho e velho companheiro de lutas, você não me fará uma
coisa dessas. Eu lhe garanto que já dormi bastante; estou me
sentindo quase em forma. E, pelo que diz o tio, doutor Haggard, tenho
muito tempo. São quinze dias de descanso. Imagine só, quinze dias!
Terei tempo para, vez por outra, fazer-lhe o favor de...
— De
coçar meu pêlo? — perguntou Gucky em tom de espanto, com o rosto
radiante.— Você vai coçar meu pêlo? Combinado! Duas horas por
dia...
Bell fez
uma cara de quem acabara de ser condenado três vezes à morte. Mas
um simples olhar para o rosto feliz do rato-castor amoleceu seu
coração. Parecia conformado.
— Combinado,
Gucky! Levantou-se devagar e caminhou para a poltrona mais próxima.
Afundou nela com um gemido e fechou os olhos. O mundo exterior
parecia não existir mais para ele.
Gucky pôs
as patas superiores nos quadris. Os pêlos da nuca arrepiaram-se.
Sacudiu a cabeça num gesto de perplexidade.
— O que
ele acaba de dizer é muito bonito, mas o que está pensando neste
momento revela tamanha baixeza e falta de caráter que é
impublicável. Bem, o que importa é o que ele vai fazer. E ele vai
cumprir sua promessa.
Empertigou-se
e caminhou para junto de Thora, que colocou a mão sobre a cabeça
dele e sorriu.
— Acontece
que tem um medo terrível de mim.
Um gemido
comovedor veio da poltrona em que Bell estava deitado. Parecia que o
homem que acabara de sofrer uma provocação tão desavergonhada
acabara de adormecer.
Provavelmente
era a solução que mais lhe convinha.
Rhodan
sorriu e fez um gesto para que o tenente Bristal se aproximasse.
— Estamos
aguardando notícias de Borat. Assim que chegarem, decolaremos. Mande
que a frota robotizada volte para Árcon, onde deverá continuar à
nossa disposição. Fizemos dos aras nossos inimigos mortais, e ainda
não sabemos qual será o resultado. É possível que o Regente
conheça a resposta. Afinal, fomos os primeiros que se revoltaram
contra duas raças poderosas: contra os saltadores e contra os
médicos de Aralon, que se propunham a curar pessoas sadias.
Crest e
Thora trocaram um olhar. Depois de Bristal se ter retirado da sala de
comando, o arcônida disse:
— Os
atos que o senhor praticou terão conseqüências, isso é tão claro
como a água límpida de uma fonte do planeta Terra. Muita gente
começará a refletir sobre quem será Perry Rhodan do planeta Terra.
O senhor representa um fator adicional nos cálculos de todos os
membros do Império Arcônida. Terão que aprender a incluí-lo
nesses cálculos. E, uma vez que está agindo por ordem do Regente,
daqui por diante também os arcônidas serão incluídos nesses
cálculos. Por isso, o senhor merece nossa gratidão, Perry. Está
restituindo ao meu povo a fama do poder de iniciativa, que perdemos
há milênios.
Thora
confirmou com um movimento resoluto da cabeça.
— Se
continuarmos a agir em conjunto e reconhecermos por enquanto o
cérebro robotizado como Regente, o Império de Árcon terá uma nova
época de prosperidade. Também eu tenho que agradecer-lhe, Perry,
por tudo que tem feito.
Mas Perry
Rhodan não iria esquecer sua origem, fosse qual fosse o lugar em que
o destino o colocasse. Mesmo depois daquele momento em que, treze
anos atrás, pousara na Lua com um frágil foguete de combustível
líquido e descobrira os arcônidas, que enfrentavam uma grave
emergência. O que seria ele hoje, se não fossem esses arcônidas? O
que teria sido feito da Terra? Será que alguém saberia que no
Universo existem outros seres inteligentes além dos homens? Mais do
que isso. Se não fosse esse o capricho, a Humanidade não se teria
destruído nas chamas de uma guerra nuclear?
Sacudiu a
cabeça, aproximou-se de Crest e Thora. Estendeu-lhes as mãos.
— Não,
meus amigos, não é a mim que vocês devem agradecer. Tudo que sou e
que consegui fazer é devido única e exclusivamente a vocês. Serão
vocês que vão salvar. Afinal, quem seria eu se não me tivessem
prestado auxílio há treze anos? Não passaria de um pioneiro
espacial terrano que, se não tivesse havido uma guerra nuclear, a
esta hora talvez estaria pousando em Vênus ou Marte. Não, Thora e
Crest, só nós três juntos representamos um fator que deve ser
considerado. Se não fosse eu, vocês teriam perecido na Lua; se não
fossem vocês, eu apenas seria um membro de uma raça subdesenvolvida
que estaria dando os primeiros passos em direção ao cosmos. E
talvez fosse até tropeçar nos astros. Reunidos, somos uma equipe
que não pode ser desprezada. Formamos uma união de amigos que
manterá e fortalecerá o Império.
Seus olhos
encontraram os da arcônida; sentiu o sangue pulsar mais rápido. Em
seu olhar não havia apenas admiração e amizade; nele também
brilhava a expressão do amor genuíno, profundo. Naquele momento,
compreendeu que suas esperanças secretas não seriam vãs...
O tenente
Bristal entrou e arrancou Rhodan das suas reflexões.
— Recebemos
um chamado de Borat. O conselho dos médicos de Aralon aceitou o
ultimato. Os duzentos robôs já foram colocados em terra. A Titan e
a Ganymed estão prontas para decolar. Quais são as instruções?
Rhodan
olhou-o com a expressão de quem desperta de um sonho.
— Minhas
instruções? Transição para Árcon, evidentemente. Tiff assumirá
o comando. Tenho outra coisa para fazer.
Bristal
retirou-se. Alguns segundos depois, Tiff entrou e acomodou-se na
poltrona de Rhodan. Seus comandos foram firmes e tranqüilos. O tempo
começou a correr. Dentro de dois minutos, as duas naves se
precipitariam para o firmamento claro, deixando para trás dez mil
seres pensativos e perplexos, vindos de todos os mundos do Império.
Eram inteligências acostumadas a verem Árcon dormir, passivo.
Porém, haviam visto com seus próprios olhos que um certo Perry
Rhodan do planeta Terra tirara Árcon daquela calma aparente. Calma
esta que representava uma oportunidade excelente para todos os
inimigos do Império que desejassem levar avante seus projetos de
domínio.
Todos eles
começariam a perguntar: quem é esse Perry Rhodan? Onde fica seu
mundo, o planeta Terra?
— Um
minuto até a decolagem! — disse Tiff em tom indiferente.
Os olhos
de Thora voltaram a procurar o olhar de Rhodan.
Foi quando
Gucky, que até então se mantivera num estranho silêncio, deitado
em seu sofá, resolveu levantar-se. Escorregou para o chão e
arrastou-se desajeitadamente para a porta, que se abriu
automaticamente diante dele.
— Não
tenho mais nada a fazer por aqui — chilreou e soltou um assobio
agudo, que exprimia insatisfação. — Gostaria de saber quem vai
coçar meu pêlo, quando o tempo de Bell tiver passado.
Depois de
dizer estas palavras, lançou um olhar de recriminação para Thora,
saltitou para o corredor e desapareceu.
— Decolagem
dentro de dez segundos — disse Tiff sem revelar a menor emoção.
Sua mão estava pousada sobre os controles.
Rhodan fez
um sinal para Crest e Thora.
— Vamos
andando. Acho que ainda devemos refletir sobre os termos do relatório
a ser fornecido ao cérebro robotizado.
Caminhou à
frente dos outros. Thora lançou um olhar de súplica para Crest,
antes de seguir Perry.
Crest foi
o último a deixar a sala de comando.
Seu
sorriso silencioso revelava uma alegria sincera.
*
* *
*
*
*
Havia
muitos observadores que acompanhavam a ação de Rhodan com uma
tremenda atenção. Era a primeira vez na história do Grande Império
que alguém se levantava, intervinha com mão de ferro nos
acontecimentos de Aralon e dava uma lição amarga aos médicos
galácticos.
Será
que os aras tomarão essa lição a peito e passarão a agir
exclusivamente em beneficio da Galáxia?
Em
Projeto Aço de Árcon, próximo volume da série, uma estranha
ameaça surge.

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