quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-045 - Aralon, o Centro de Epidemias - Clark Darlton [parte 3]


Os efeitos da anestesia só duraram alguns minutos.
Quando Tiff abriu os olhos, Sengu estava recuperando os sentidos. Estavam deitados sobre a tampa de uma grande caixa, num recinto pouco iluminado. Aqui não se via nada da limpeza reluzente do laboratório. As paredes escuras irradiavam um frio gélido. Caixas e pilhas de pacotes enchiam o recinto. Uma fita rolante movia-se lentamente por um corredor e terminava num poço vertical, que subia à superfície.
Era um depósito.
Um depósito de medicamentos.
Tiff não tinha a menor idéia sobre o motivo da mudança. Há poucos segundos estivera deitado sobre a mesa de operações e recebera a injeção paralisante. Agora via-se num depósito. Três aras vestidos de branco corriam apressadamente de um lado para outro. Empilhavam caixas diante da porta que conduzia ao exterior, como se quisessem erguer uma barreira que impedisse a entrada. Trabalhadores acorreram e ajudaram-nos no trabalho.
De repente, soou uma campainha. Uma voz forte e exaltada fez-se ouvir. Tiff entendeu tudo:
Ordem de Themos. Os prisioneiros devem ser mortos imediatamente.
Os três médicos interromperam sua atividade e trocaram olhares de espanto. Um deles, com um movimento cansado, enxugou o suor da testa, lançou um ligeiro olhar para Tiff e Sengu e, dirigindo-se aos colegas, disse:
De que nos servirão mortos? Como podemos estudar um organismo que não está funcionando? Já não consigo compreender as ordens de Themos. Primeiro temos de trazer os prisioneiros a este depósito, depois querem que nós os matemos...
Themos deve saber o que está fazendo — interrompeu-o um outro, pegando uma barra de ferro que estava encostada a uma caixa. — Farei o serviço de forma que os corpos não sejam danificados.
Sou cientista — disse o ara que falara em primeiro lugar — mas não sou nenhum assassino. Não quero ter nada com isso.
Sem dar atenção aos colegas, virou-se altivamente e caminhou em direção à parte mais escura do depósito.
O ara que segurava a barra de ferro seguiu-o com os olhos por alguns segundos. Depois soltou uma risada cruel e lançou um olhar frio para os prisioneiros.
Bem que preferiria que continuassem...
Não pôde prosseguir. O ar começou a tremeluzir entre ele e os terranos. Um pequeno vulto se materializou. Sentado sobre o traseiro, Gucky apoiava-se sobre o rabo, que parecia uma enorme colher. Com um simples relance de olhos, avaliou a situação e reconheceu o único inimigo que oferecia algum perigo.
O ara recuperou-se da surpresa. Não perdeu tempo em procurar a explicação do fenômeno, mas levantou a barra de ferro.
Gucky não estava disposto a permitir que lhe arrebentassem o crânio.
Sou um gnomo — chilreou com a voz doce e estendeu os braços em direção ao ara, que estacou em meio ao movimento.
Não contara com a presença do espírito falante que tivesse o aspecto de animal. Mas logo venceu os escrúpulos. A pesada barra foi levantada. Porém ficou presa no ar, como se alguém a segurasse. E esse alguém não era ele.
A barra conquistou sua independência, turbilhonou pelo ar que nem uma hélice, executou um mergulho completo, deu uma volta pelo depósito e, atingida por forças invisíveis e inconcebíveis, assumiu a forma de um R. Que nem uma espada de Dâmocles, o R ficou pendurado acima da cabeça do ara apavorado.
Tiff viu o R metálico cair ao chão, cobrindo o ara.
Gucky! — exclamou. — Você chegou em cima da hora.
Sempre apreciei a pontualidade — disse o rato-castor com um gesto tranqüilo e olhou em torno, à procura de um objeto com que pudesse cortar as correias. Não encontrou nada. Aproximou-se de Tiff e, dirigindo-se a Sengu, que estava deitado ao lado do jovem tenente, disse: — Não se preocupe, Wuriu. Vou levar Tiff lá para cima e daqui a um segundo estarei de volta. Estas toupeiras não se atreverão a pôr as mãos em você, senão farei chover o alfabeto inteiro em cima de suas cabeças.
Enlaçou o corpo de Tiff com os braços e desapareceu numa questão de segundos.
Sengu ficou só.
A demora foi maior que um segundo. Não se sentia muito à vontade. Olhou para a porta, onde um dos cientistas continuava imóvel, como que pregado ao chão. Os trabalhadores acompanharam os acontecimentos sem compreender nada; ao que parecia, não estavam acostumados a que alguém os esclarecesse.
Gucky voltou.
Então? — chiou em tom de expectativa. — Alguém está precisando de uma lição?
Eles se comportaram muito bem — disse o japonês em tom de alívio. — Vamos embora. Já não suporto estas caixas.
Gucky sorriu e teleportou-se juntamente com o prisioneiro, um andar para cima. Tiff já estava esfregando os pulsos para ativar a circulação. Mas o rato-castor ainda não parecia satisfeito.
Você pretende chamar Themos pelo videofone? — perguntou, dirigindo-se a Rhodan. Mais uma vez, andara espionando os pensamentos do chefe. Rhodan confirmou com um aceno de cabeça. — Muito bem. Enquanto isso vou dar mais uma olhada lá embaixo. Esqueci uma coisa.
Esqueceu? — perguntou Crest espantado.
Isso mesmo, esqueci — confirmou Gucky.
Ninguém pôde detê-lo, pois já havia desaparecido.
Rhodan deu de ombros e aproximou-se do videofone. Não teve maiores dificuldades em lidar com o aparelho. Comprimiu um botão e estabeleceu contato com a estação central situada na superfície. Na tela apareceu o rosto do velho ara, que logo recuou surpreso e apavorado. Tinha um calombo reluzente na testa, mas de resto a queda da altura do teto não o parecia ter afetado.
O senhor...? — gaguejou incrédulo.
Sim, o senhor está vendo, Themos — respondeu Rhodan. — Libertamos o tenente Tifflor e Sengu. O sacrifício de seu ascensorista foi em vão. E agora o senhor vai libertar Thora, senão passará por um mau bocado. Se alguma coisa lhe acontecer, transformaremos este planeta num inferno.
O senhor não se atreverá a fazer uma coisa dessas, Rhodan. Toda a Galáxia se voltaria contra o senhor.
Dificilmente, se a Galáxia souber da verdade. O senhor entende muito bem o que quero dizer, Themos. Só tenho um motivo para poupá-lo. Sua raça é inteligente e acumulou experiências extraordinárias na área da medicina. Os aras podem prestar serviços inestimáveis ao Império, sem que tenham de recorrer à fraude. Mas, se não quiserem aceitar a lição, só nos restará uma alternativa. Teremos que destruir Aralon, a incubadora de inúmeras doenças. Será que me fiz entendido?
Themos lançou um olhar odiento para Rhodan.
Afinal, quem é o senhor?
Rhodan exibiu um sorriso frio.
Sou Perry Rhodan do planeta Terra, plenipotenciário do cérebro robotizado de Árcon. Meus poderes são ilimitados, Themos. Compreendem inclusive a destruição total de Aralon. Decida logo, senão ver-me-ei obrigado a libertar Thora por minha conta. E, a esta hora, o senhor já não deve ter a menor dúvida de que eu o conseguirei.
Após isso aconteceu uma coisa muito estranha.
A expressão do rosto de Themos modificou-se de uma hora para outra. Sorriu, mas o sorriso exprimia satisfação e triunfo, o que deixou Rhodan bastante desconfiado.
Pois bem, Rhodan do planeta Terra. Libertarei Thora. Incondicionalmente. Darei a respectiva ordem assim que concluirmos nossa palestra. Aonde devo levá-la?
Meu robô RK-940 está esperando no pavilhão. Chame-o.
Após vinte segundos, Rhodan fitou os olhos cristalinos e cintilantes do robô de guerra.
RK-940! Aqui fala Perry Rhodan. Dentro de cinco minutos Thora estará diante de você. Leve-a imediatamente à Titan. Se dentro de cinco minutos Thora não estiver no lugar em que você se encontra, mate Themos e destrua todos os aparelhos de comunicação.
Entendido — rangeu a voz de RK-940.
Seu complicado organismo começou a tiquetaquear. O tempo estava correndo.
O rosto do ara voltou a surgir na tela do videofone.
Apresse-se — recomendou Rhodan. — Cada segundo é precioso. Não acredite que o robô lhe concederá um segundo que seja de prorrogação.
Rhodan desligou abruptamente. Deixou Themos entregue ao seu conflito íntimo. RK-940 cumpriria suas instruções com a exatidão de um mecanismo de precisão.
Onde estará Gucky? — perguntou Tiff em tom preocupado. — Gostaria de saber o que está fazendo no porão.
Porão? Esta é boa! — disse Rhodan, lembrando-o de que se encontravam dez quilômetros sob a superfície. — Posso imaginar o que está fazendo lá embaixo. Pelo que diz, um dos médicos ainda está em perfeitas condições.
Sim senhor. Será que...
É claro que sim, Tiff. Se não estou enganado, daqui a pouco Gucky aparecerá com uma caixa muito preciosa. É a caixa pela qual nos lançamos nesta missão. Sem falar, naturalmente, da necessidade de desmascarar os aras e seus métodos criminosos perante todos os povos do Império. Acredita que não tive nenhum motivo para dar à nossa ação um caráter tão amplo e complicado?
Atrás deles alguma coisa caiu ruidosamente ao chão.
Viraram-se ligeiros e viram Gucky que se materializava. A caixa alongada caíra de uma altura de cinqüenta centímetros, mas continuava intacta.
Gucky ergueu-se e, com o orgulho de um general vitorioso, anunciou:
É o soro contra a doença do riso. Usou o eufemismo para designar a hipereuforia, que poderia ser tudo, menos risível.
Muito bem! — elogiou Rhodan. — Tem certeza de que o medicamento realmente é este?
Não se preocupe — tranqüilizou-o o rato-castor e exibiu o dente-roedor, o que era um sinal de disposição alegre. — O ara de capa branca sentiu-se feliz por poder conversar comigo. Em seus pensamentos, li a verdade. O soro que está nesta caixa é suficiente para curar mil pessoas. Basta injetá-lo nos doentes. Age dentro de uma hora.
Tiff respirou aliviado e olhou em direção à porta que dava para o outro laboratório, atrás da qual havia um silêncio suspeito.
Pois vamos para a Titan. Resta saber como faremos para voltar à superfície. Ao que parece, o elevador precisa de reparos.
Levarão muito tempo para reparar esse elevador — disse Gucky em tom distraído. Estava escutando. Provavelmente captava impulsos telepáticos. A suposição foi confirmada. — RK-940 acaba de receber Thora. Está bem disposta, mas preocupada, muito preocupada.
Preocupada? — perguntou Rhodan espantado. — Por quê?
Não sei por quê. Apenas sei por quem.
Ah, é? — disse Rhodan.
É por você — disse Gucky, exibindo o dente-roedor. — Isso permite algumas conclusões bem interessantes.
Crest acenou com a cabeça e sorriu como quem compreende. Mas foi interrompido nessa atividade, pois Gucky não perdeu a oportunidade para uma observação mordaz.
Acho que Tiff terá que procurar outra noiva.
Tiff enrubesceu como um colegial.
Eu... não me lembrei de nada melhor — gaguejou muito embaraçado. — Infelizmente. Thora não sabia disso e só poderia ficar indignada quando despertou e ficou sabendo que eu pretendia viver em sua companhia num planeta romântico.
Desta vez foi Rhodan que sorriu.
Foi uma idéia muito engraçada — confessou, mas logo se tornou sério. — Acho que está na hora de levarmos os medicamentos a um lugar seguro. Ainda estou um pouco desconfiado dos aras.
Naquele instante ouviu-se um leve zumbido na sala.
Rhodan levantou o braço e comprimiu o botão do minúsculo aparelho de rádio embutido em sua pulseira.
A voz do tenente Bristal repetia constantemente em tom exaltado:
Perry Rhodan, responda. Perry Rhodan, responda. É muito urgente. Perry Rhodan, responda...
Rhodan apertou outro botão.
Aqui é Rhodan. O que houve?
Um momento de silêncio. Depois a voz de Bristal voltou a falar:
Alarma total! Estamos sendo atacados por uma frota. Mais de cem naves de guerra dos saltadores cercaram Aralon. Aguardamos suas instruções.
Rhodan empalideceu. Lançou um olhar apressado para Crest e respondeu:
Ativar os campos defensivos da Titan e da Ganymed. Evitar o combate enquanto for possível. Dentro de dez minutos, estaremos aí. Agüentem.
Bristal confirmou. O receptor silenciou.
Rhodan virou-se lentamente e olhou para os dois robôs. Sua voz grave revelava uma estranha frieza:
RK-999. Revogo a ordem de poupar o inimigo. Vá à frente e abra o caminho para os elevadores. Qualquer resistência deverá ser eliminada — dirigiu-se ao outro robô. — RK-935. Para você a ordem de não matar também não vale mais. Mantenha nossas costas livres. Quem quer que nos ataque deverá ser destruído.
Depois disso falou para Crest, Tiff e Sengu:
Vocês se revezarão no transporte da caixa com os medicamentos. Gucky, teleporte-se para a superfície e providencie para que Thora seja levada a um lugar seguro. Caso o ataque da frota inimiga já tenha sido iniciado, aguarde juntamente com ela e os robôs no edifício da administração. Será preferível ficar no pavilhão, onde terminam os poços dos elevadores.
Falando indistintamente aos circunstantes, disse:
Vamos. Não podemos perder tempo.
No momento em que RK-999 arrebentou violentamente a porta, Gucky desmaterializou-se.
Dez quilômetros abaixo da superfície de Aralon, Rhodan iniciava seu avanço para a liberdade.
6



Quando Themos foi carregado ao seu gabinete — e os robôs de Rhodan não impediram que seus companheiros o fizessem — só teve uma idéia: vingança!
Mas sofreu um revés após o outro.
Centenas de pacientes recém-chegados preferiram voltar para as suas naves, a fim de procurar curarem-se em outro lugar. As condições reinantes em Aralon não ofereciam muita segurança.
Seguiu-se a tentativa malograda de um de seus assistentes, que tentou matar Rhodan no elevador.
Finalmente os dois prisioneiros foram libertados.
Neste ponto Themos não hesitou mais. Estabeleceu contato direto com o edifício da administração situado na extremidade oposta do campo de pouso e pediu que o ligassem com o médico-chefe que comandava todo o setor. Em breves palavras, descreveu a gravidade da situação e ressaltou que Rhodan descobrira segredos que representavam uma ameaça à existência de Aralon.
Diz que está agindo por ordem do Império, mas tenho minhas dúvidas. O cérebro robotizado desconfia até de nós; como é que poderia confiar numa criatura estranha, que nem sequer é súdito do Império? Chame uma frota de guerra dos saltadores. Peça o apoio dos superpesados.
Estava pedindo muita coisa.
Os chamados superpesados eram a força policial dos mercadores galácticos. Viviam da guerra. Às vezes comboiavam naves que transportavam mercadorias valiosas, mas outras vezes entravam em guerra contra mundos que tinham o atrevimento de revoltar-se contra os métodos implacáveis dos saltadores. Segregados há muito tempo de sua raça, os superpesados viviam num planeta em que a gravitação era enorme. Sua altura atingia dois metros e o diâmetro de seu corpo chegava, em média, a um metro e meio. E seu poderio bélico era tão imponente como o aspecto de seu corpo. Suas frotas eram mantidas de prontidão em todos os recantos do Império. O médico-chefe hesitou.
O senhor sabe que os superpesados são muito caros. Seu preços não são nada módicos. Não sei se sua preocupação se justifica. Talvez possamos enganar o tal do Rhodan.
É impossível — chiou a voz zangada de Themos, que se sentiu muito contrariado por ter de admitir a derrota. — Se esperarmos mais trinta minutos, estaremos liquidados. Poderemos fechar nosso hospital. Os pacientes já não se sentem seguros em nosso mundo.
A decisão veio com uma rapidez impressionante.
Muito bem, Themos. Chamarei os superpesados pelo hiperemissor e lhes pedirei que nos mandem imediatamente um contingente poderoso. Mas a responsabilidade será sua, Themos. Não posso isentá-lo dessa obrigação.
Ande logo! Não temos um minuto a perder.
Themos desligou o videofone. Foi despertado de suas reflexões quando ouviu o zumbido.
Quando voltou a comprimir o botão, o rosto de Rhodan surgiu na tela.
O senhor? — gaguejou espantado.
O senhor está vendo — respondeu Rhodan e exigiu que Thora, que representava o último trunfo que os aras tinham em mãos, fosse libertada imediatamente.
Ao concordar, sentiu uma satisfação íntima.

* * *

Os seiscentos e cinqüenta quilos do superpesado Talamon acomodavam-se junto aos controles da nave Tal VI. Estava estacionado no setor de Dragolan, a uns 47 anos-luz de Árcon, quando o receptor de hipercomunicação captou uma mensagem dirigida a ele.
Vinha do quartel-general dos superpesados.
Talamon acenou com a cabeça; parecia satisfeito.
O tédio da espera chegou ao fim. Está na hora de acontecer alguma coisa, senão serei retirado da circulação antes da hora.
Seu humor era um tanto mordaz.
O oficial de rádio anunciou que a ligação havia sido completada.
Poucos segundos depois, respondeu o quartel-general, que não estava instalado em algum planeta, mas numa gigantesca nave cilíndrica.
Talamon! Os aras estão solicitando ajuda militar. Planeta de Aralon, sistema de Kesnar. As coordenadas já são conhecidas. Duas naves, uma delas de origem arcônida, devem ser destruídas. O comandante é um certo Perry Rhodan do planeta Terra. Não o conhecemos. De quantas unidades dispõe?
Cento e oito.
Isso basta. Entre imediatamente na transição.
Antes que Talamon tivesse tempo para confirmar, o quartel-general interrompeu o contato.
Talamon transmitiu as respectivas instruções aos comandantes das naves e agiu sem demora. Enquanto a frota acelerava, ficou refletindo constantemente sobre o nome Perry Rhodan.
Era desconhecido?
Não, esse nome não era tão desconhecido assim. Já o ouvira.
Seria Topthor que lhe havia falado nele...?
Naturalmente, foi Topthor! Em algum lugar, a mais de trinta mil anos-luz do lugar em que se encontrava, Topthor tivera um encontro com o tal do Rhodan e levara a pior. Bem, isso não aconteceria com ele, Talamon. Esse Rhodan que tentasse enfrentar cem naves bem armadas... Pouco importava que viesse da Terra ou do inferno.
Dez minutos depois da mensagem de socorro de Themos, a frota de Talamon se materializou no sistema de Kesnar, a menos de três segundos-luz de Aralon. Espalhou-se e entrou em posição. Cinqüenta unidades pesadas bloquearam o porto espacial. Mantendo-se numa altitude de dois quilômetros, estenderam uma rede impenetrável sobre o gigantesco campo de pouso, em cuja extremidade estava pousada a gigantesca Titan.
Talamon sentiu uma pressão no estômago quando viu a gigantesca esfera. Nunca vira uma nave desse tamanho. Devia ser o produto mais recente dos estaleiros de Árcon. Bem, talvez o monstro nem fosse tão perigoso como parecia ser.
Bem, era só experimentar.
Ligou o telecomunicador.
Regul, pegue dez naves e lance um ataque contra a esfera. Acione simultaneamente todos os canhões de radiação de que dispõe para romper o campo defensivo. Destrua a esfera, se puder. Ataque daqui a um minuto. Fim.
Regul confirmou e formou suas unidades para o ataque.
Talamon continuava sentado atrás dos controles da Tal VI. Estava esperando.

* * *

Gucky se materializou.
Três ou quatro aras espalharam-se apavorados, quando viram o rato-castor formar-se repentinamente diante deles. Um deles correu com a capa esvoaçante em direção à porta. Mas só conseguiu dar alguns passos. Sentiu-se levantado e, deslocando-se que nem um torpedo, descreveu uma curva ampla pelo pavilhão, pousando com uma longa escorregadela diante da parede. Confuso, mas sem ter sofrido ferimentos visíveis, ficou deitado.
Onde está Themos? — perguntou Gucky com a voz estridente, apontando para os dois aras que tentavam desaparecer às escondidas. — Levem-me ao lugar em que está. Rápido, senão eu os transformo em foguetes espaciais. Até que o formato de vocês ajuda.
Os dois hesitaram, mas quando suas capas conquistaram a independência e procuraram ganhar a liberdade com tamanha força que se rasgaram e, transformadas em panos de chão, executaram algumas manobras e caíram lentamente ao chão, desistiram. Resolveram obedecer. Viraram-se e marcharam por um corredor, em cuja extremidade se via uma porta de vidro opaco. O letreiro dizia que atrás dela o chefe desempenhava suas funções.
Gucky expulsou os dois aras com um movimento da mão e abriu a porta através da telecinese. A porta se abriu, como se a mão de algum espírito a tocasse. Themos estava sentado atrás de sua mesa, exausto com as medidas estratégicas que acabara de ordenar. E o calombo da testa não diminuíra.
Gucky fechou a porta atrás de si. Aliás, parecia fechar-se por si. Themos apavorou-se e chegou à conclusão de que a fase dos milagres ainda não havia chegado ao fim. Mas nem desconfiou de que os milagres mais grossos ainda estavam por vir.
Seu monstro de ara, será que você chamou a frota dos saltadores? Fale logo, senão eu o transformarei numa espiral giratória e o farei descer ao centro de Aralon.
Eu... eu...
Obrigado — disse Gucky. — Já basta. Sou telepata e posso ler os pensamentos imundos que você traz na cabeça. Quer dizer que você nos traiu. E foram logo os superpesados que você mandou chamar. Rapaz, você cometeu um erro imperdoável. Já sabíamos que você estava fulo, mas nunca poderíamos imaginar que, de tanta estupidez, você não consegue enxergar mais nada. Vamos! Você virá comigo.
Os superpesados irão...
Os superpesados podem dar-se por satisfeitos se não os despacharmos para o inferno — interrompeu Gucky, que mal conseguia controlar-se. — Quero que você venha comigo. Preciso mostrar-lhe uma coisa. Como é, ainda não se decidiu?
Themos ergueu-se lentamente. Seus sentimentos não prenunciavam nada de bom, e não tinha a menor curiosidade de ver o que esse pequenote queria mostrar-lhe.
De repente, Gucky captou os pensamentos de Thora. Estavam carregados de medo cheio de pânico. Lá fora, no campo de pouso, estava sendo travada uma batalha encarniçada. Gucky conseguiu descobrir isso em meio à confusão. A Titan estava sendo atacada. Numa fuga desabalada Thora conseguira colocar-se em segurança no interior do edifício, depois de ter percorrido metade do trajeto que a separava da nave.
A raiva de Gucky cresceu.
Não teve mais a menor contemplação. Submeteu Themos ao seu controle telecinético e o fez planar à sua frente, dois metros acima do chão. Quando chegou ao pavilhão, viu que Thora entrava e, exausta, se deixava cair numa poltrona. Parecia ter chegado ao fim das suas forças. Poucos segundos depois, foi seguida por RK-940, cujos braços armados ainda estavam incandescentes.
Themos aterrissou de forma nada suave aos pés de Thora.
A arcônida levantou os olhos, viu Gucky e depois o ara. Seu rosto contorceu-se. Themos levou um soco do lado, que voltou a despertar as dores já esquecidas da primeira queda. Choramingava tristemente. O robô levantou o braço armado do lado direito e apontou-o para o traidor.
Pare! — gritou Gucky. — Rhodan deu ordem para que não matássemos ninguém.
Themos merece a morte — disse Thora, vindo em apoio do robô. Sua raiva era ainda maior que a de Gucky, e isso significava alguma coisa. — Por que vamos poupá-lo?
Quem vai decidir isso é Rhodan — chiou o rato-castor em tom apaziguador. — Este sujeito não nos escapará.
Onde está Rhodan? — perguntou Thora.
Só agora parecia lembrar-se dele.
Gucky olhou para as entradas dos elevadores.
Deve chegar a qualquer momento. Já está a caminho com Crest, Tiff e Sengu. Os dois robôs virão atrás deles. Vão usar o pequeno elevador de passageiros, porque o outro está estragado.
Thora levantou-se devagar e foi caminhando em direção ao elevador. Duas portas fechavam as entradas para os poços dos elevadores: uma larga, outra estreita.
Não é essa porta — gritou Gucky, quando comprimiu um botão e a porta larga se abriu. Não se via nenhuma cabine de elevador, apenas uma abertura grande e escura. Era o poço, que descia mais de dez mil metros. — Já disse que é o elevador pequeno.
Thora deixou aberta a porta maior e dirigiu-se ao elevador de passageiros. Mais uma vez viu o poço, mas dele saiu um zumbido monótono.
Era a cabine do elevador que estava subindo.
Demorou mais dois minutos até que parou. Rhodan entrou no pavilhão, seguido dos três acompanhantes. O rosto de Thora cobriu-se com um brilho de alegria e alívio. Correu para Rhodan e segurou-lhe as mãos.
Perry, sinto-me tão satisfeita, eu... eu...
Rhodan retribuiu a pressão das mãos de Thora.
Obrigado, Thora. A senhora acaba de me dar uma grande alegria. Mais uma vez, muito obrigado, Thora. Mas não temos tempo para tratar de assuntos particulares. Sengu, a caixa com os medicamentos. Entregue-a ao RK-940.
Gucky ergueu-se à frente de Rhodan. Pretendia dizer alguma coisa, quando Thora soltou um grito. Quando se virou a fim de voltar para sua poltrona, lembrou-se de Themos.
O ara ficara apavorado ao ver que seu inimigo saíra são e salvo do elevador, seguido pelos prisioneiros e o arcônida. Reunindo as forças que ainda lhe restavam, levantou-se de um salto e, passando por Thora, correu em direção ao elevador. Acreditava que a fuga para o labirinto subterrâneo seria a única possibilidade de escapar à vingança de Rhodan.
No seu nervosismo, confundiu as portas. Demorou um segundo para perceber o engano. Com um grito apavorante caiu no poço.
Rhodan correu para o elevador e contemplou a profundidade abismal, como se pudesse fazer alguma coisa pelo traidor. Mas logo viu que só havia uma pessoa que poderia ajudá-lo.
Gucky! — gritou apressadamente. — Traga-o de volta. Depressa!
O rato-castor lançou um olhar rápido para Thora. O rosto da arcônida, que ainda há pouco estava marcado pela surpresa, voltara a ficar liso e indiferente.
Gucky! — gritou Rhodan em tom mais insistente. — Será que você não ouviu?
O rato-castor arrastou-se em direção a Thora e olhou para o relógio da arcônida.
Themos já está caindo há trinta segundos — constatou em tom objetivo. — São quase cinco mil metros. Não é de supor que a queda tenha sido perfeitamente vertical. Já está morto.
Gucky! — a voz de Rhodan assumiu um tom mais enérgico. — Faça imediatamente o que eu lhe disse.
Quarenta segundos! — disse o rato-castor com a maior indiferença. — São oito quilômetros. Rhodan, recuso-me a cumprir a ordem. Themos é um traidor miserável, que está sendo castigado pelo destino. Ninguém tem o direito de interferir no destino. Cinqüenta segundos. Themos está morto; não existe a menor dúvida.
O rosto de Rhodan estava pálido. Em seus olhos chamejava a raiva e o aborrecimento.
Gucky, você acaba de cometer uma insubordinação. Ainda falaremos sobre isso — interrompeu-se ao ouvir um ruído atrás das suas costas. Era apenas a cabine do elevador, que descia para trazer os robôs. Ao que parecia, o incidente estava esquecido. Apertou um botão e entrou em contato com a Titan. — Tenente Bristal? Quero um relato da situação. Rápido!
Dez naves inimigas estão atacando. Nossos campos defensivos resistem. O que devemos fazer?
Aguarde. Dentro de dez segundos estarei aí. Ligue o hipertransmissor.
Dirigindo-se a Gucky, prosseguiu:
Leve-nos à sala de comando da Titan. Thora e Crest, daqui a pouco serão apanhados; Tiff e Sengu também. Até já.
Gucky enlaçou Rhodan com os braços curtos e desapareceu numa fração de segundo. Os que ficaram para trás ainda chegaram a ver o brilho triunfante nos olhos do rato-castor.

* * *

Talamon se dirigiu a uma região mais elevada, para ter uma visão mais ampla. Face ao seu caráter, o espetáculo das dez naves, que atacavam em vão a supernave Titan, não lhe trazia raiva nem ódio. Pelo contrário: sentiu certa admiração pelo tal do Rhodan.
Deve haver alguma coisa nesse sujeito”, pensou “e nem é bom imaginar o que se poderia fazer se este Perry fosse amigo da gente.”
Mas logo se lembrou da sua missão.
Devia destruir Rhodan.
Regul! — berrou para dentro do microfone. — Retire-se. É inútil atacar a esfera com apenas dez naves. Não abriram fogo contra o senhor?
Não dispararam um único tiro! — foi a resposta um tanto incrédula. — Limitaram-se a ativar os campos defensivos, e não conseguimos rompê-los.
Atacaremos com as cinqüenta naves — decidiu Talamon. — Nenhum campo defensivo, por mais potente que seja, poderá resistir ao fogo concentrado de cinqüenta couraçados. A operação será iniciada exatamente daqui a dois minutos.

* * *

Rhodan, que se encontrava na sala de comando da Titan, não conseguiu disfarçar o espanto quando viu que de repente os atacantes batiam em retirada. Gucky materializava-se com Sengu, o último a ser retirado do pavilhão branco. Exausto, sentou em cima da caixa de medicamentos e resmungou:
E agora?
Agora vamos fazer três coisas — respondeu Rhodan laconicamente. — Sengu, acompanhe Crest à enfermaria e leve a caixa com os medicamentos. O Dr. Haggard será o primeiro a receber a injeção. O antídoto será injetado em todos os doentes. Em segundo lugar você, Gucky, saltará imediatamente para o edifício da administração central, situado do outro lado do campo de pouso, e fará o possível para trazer o chefe. Deve ter sido ele quem falou com Themos e alarmou os saltadores. A terceira tarefa só diz respeito a mim. Bristal, o hipercomunicador está preparado?
Gucky suspirou e desmaterializou-se sem levantar-se.
Sengu segurou a caixa embaixo do braço e saiu da sala de comando, acompanhado por Crest. Tiff e Bristal assumiram o comando da Titan. Rhodan e Thora dirigiram-se à sala de rádio.
A grande tela do hipercomunicador mostrava o espetáculo majestoso da frota robotizada do Império, que se mantinha de prontidão. Com um ligeiro movimento da chave, o quadro foi substituído pela imagem de um único robô. Rhodan reconheceu-o através da placa que trazia presa ao peito.
OR-775! Aqui fala Rhodan do planeta Terra. Entre já em transição com toda a frota e feche hermeticamente o sistema de Kesnar. Algumas unidades vigiarão o campo de pouso; deverão destruir qualquer nave que procure decolar. Nada de ataques. Apenas deverão defender-se. Confirme.
A transição será realizada dentro de dez segundos. Apenas nos defenderemos, nada de ataques.
Rhodan confirmou. A imagem foi substituída. Mais uma vez, o conjunto da frota surgiu na tela. Uma nave especial de rádio teve que transmitir a imagem. De repente, a tela só mostrou os inúmeros sóis do grupo estelar M-13, que emitiam um brilho frio e indiferente.

* * *

Foi nesse instante que Talamon viu destruídas todas as esperanças de um bom lucro.
O alarma correu pela nave. Os campos defensivos envolveram automaticamente todas as unidades que se encontravam em formação de ataque, aguardando apenas as respectivas instruções. As mensagens de rádio corriam de um lado para outro à velocidade da luz, atingindo também as naves que se encontravam na face oposta do planeta e na periferia do sistema.
O pressentimento transformou-se em certeza.
Uma poderosa frota de guerra dos arcônidas acabara de aparecer. Era tão potente que dentro de poucos minutos poderia transformar a frota dos saltadores num montão turbilhonante de destroços incendiados.
Talamon avaliou a situação com uma precisão espantosa e reagiu imediatamente. Sua tremenda capacidade de reação já lhe salvara a vida mais de uma vez. Com toda certeza, isso acontecera desta vez.
Mantenham-se em atitude passiva — berrou para dentro do microfone. — Nada de ataques. Aguardem. Procurarei negociar.
Alguém gritou na sala de rádio:
Estão nos chamando. Um certo Rhodan do...
Passe a ligação para mim — gritou Talamon espantado. — Rápido!
Demorou alguns segundos até que a tela, à sua frente, se iluminasse. Surgiu um rosto. O superpesado fitou os olhos frios e cinzentos do ser que tinha o formato de um arcônida, mas não deveria pertencer a essa raça.
O senhor é o comandante dos superpesados? — perguntou o homem num intercosmo impecável. — Responda!
Sou Talamon — respondeu o superpesado com um sorriso azedo. — Acho que o senhor está interpretando mal as minhas intenções...
Se acredita que posso interpretá-las mal, terá que tornar-se mais explícito — respondeu Rhodan. — Sabe quem eu sou?
Perry Rhodan do planeta Terra — disse o superpesado sem muito entusiasmo. — Tive conhecimento do seu encontro com Topthor.
Pois é tanto mais surpreendente que assim mesmo tenha tentado atacar-me. Quem foi que o chamou?
Foram os aras. Estavam em situação difícil, e era nosso dever atender ao seu chamado.
O primeiro dever de qualquer súdito de Árcon consiste em servir ao Império. O senhor devia saber disso.
Os aras servem ao Império. Todo mundo sabe disso. Quando solicitam auxílio, eles o fazem a bem do Império.
Como é o nome do ara que o chamou?
Foi o médico-chefe Borat. Dirige o setor do campo espacial e...
Então foi Borat? — Talamon viu Rhodan olhar para o lado e dizer a alguém: — O senhor é Borat? Está certo, depois conversaremos.
Voltando a dirigir-se a Talamon, prosseguiu:
Sabe alguma coisa a respeito dos aras e dos métodos que usam, Talamon?
O rosto do superpesado não parecia muito inteligente. Ao que parecia não sabia o que significava a pergunta. Encolheu os enormes ombros.
Sei aquilo que todo mundo sabe. Curam os doentes e produzem os melhores remédios. Não possuem armas de qualquer espécie e são considerados os mais pacatos dentre os moradores da Galáxia. É justamente por isso que não compreendo por que o senhor...
Quer dizer que não sabe mais nada? Gucky, está dizendo a verdade?
Talamon ficou espantado ao ver que um estranho ser peludo empurrou Rhodan para o lado e apareceu na tela. Fitou um par de olhos castanhos e bondosos, que o examinavam atentamente. Depois disso, o ser peludo acenou com a cabeça e desapareceu. O rosto de Rhodan voltou à tela.
O senhor está com sorte, Talamon. Realmente não está informado sobre as verdadeiras atividades dos aras. Isso explica seu procedimento. Pois eu lhe contarei tudo, a fim de que o senhor possa informar todas as raças do Império a respeito do que está acontecendo em Aralon.
Os dez minutos que se seguiram representaram a maior surpresa por que Talamon jamais passou. Ouviu em silêncio o que Rhodan lhe dizia. O sorriso desapareceu de seu rosto, dando lugar a uma expressão de raiva.
Quando Rhodan terminou, ficou calado por algum tempo. Depois perguntou:
Por que não destrói Aralon?
O ligeiro sorriso de Rhodan não poderia ser considerado muito amável.
Será que eu destruí sua frota quando fui atacado por ela? Não. Nem sempre a morte e a destruição são as soluções finais ou, de modo singular, a melhor solução de um problema. A Galáxia saberá como a raça dos aras adquiriu sua riqueza. O segredo deste planeta deixou de existir. Se os aras não quiserem desaparecer, terão que adaptar-se utilizando seu saber para o bem geral. No entanto, se acontecer mais uma única vez que um habitante de qualquer mundo do Império contraia uma doença cuja origem deve ser procurada em Aralon, este planeta deixará de existir.
Talamon acenou lentamente com a cabeça.
Os aras descendem dos saltadores. Têm o comércio no sangue, tal qual nós, os superpesados. É verdade que vivemos da luta, mas não da baixeza. Perry Rhodan, conte comigo sempre que a justiça não tiver forças para defender-se.
Uma expressão calorosa surgiu no rosto de Rhodan.
Obrigado, Talamon. Não me esquecerei. Reúna sua frota e lembre-se do que acaba de prometer. Também os saltadores nem sempre têm o direito de seu lado. Receio que dentro de pouco tempo o senhor se verá diante de tarefas que representarão um pesado encargo para sua consciência.
Eu lhe dou minha palavra, Rhodan. Sou bastante rico para recusar qualquer oferta dos meus comandantes que não me agrade. Permite que lhe dê minha freqüência de hipercomunicação? Por ela poderá atingir-me a qualquer momento.
Terei muito prazer em fazer uso de sua oferta se um dia isso se tornar necessário.
Mais uma pergunta — acrescentou Talamon. Em seus olhos havia uma certa timidez, que de forma alguma combinava com aquela montanha de carne. — Como se explica que de repente os arcônidas se tenham tornado tão ativos? Há milênios não se vê uma frota de guerra oficial do Império.
Os tempos estão mudando — disse Rhodan com um sorriso significativo. — O Império encontra-se no limiar de uma nova época de sua história. Procure acompanhar essa evolução, Talamon, e o senhor ainda terá muita oportunidade de mostrar seu gênio combativo a favor da causa do Direito.
Talamon confirmou com um aceno de cabeça.
Conte comigo, Rhodan. Se algum dia seu planeta, a Terra, estiver em perigo, chame-me. Muitas felicidades, Rhodan.
Desligou sem aguardar resposta. Seus olhos pareciam pensativos.
Voltou a mover a chave com um movimento vigoroso, colocando-a na posição de transmissão.
Frota preparada para a transição — disse com a voz um tanto trêmula, que exprimia alívio e decisão. — Coordenadas inalteradas...
Depois de alguns segundos, acrescentou:
Missão cumprida!
Após dez segundos a frota de Talamon desapareceu dos céus do planeta Aralon.
7



Rhodan levou mais trinta segundos fitando a tela vazia, antes de virar-se e fitar Gucky.
Então, meu chapa, o que é que ele estava pensando?
O rato-castor sorriu. O dente-roedor escorregou para a frente, dando uma expressão matreira ao seu rosto. O pêlo da nuca voltou a alisar-se.
Está muito impressionado. De início, apenas havia o espanto enorme provocado pelo surgimento da frota robotizada. Não havia contado com essa possibilidade. Para ele os arcônidas são dorminhocos incapazes de qualquer iniciativa. Mas quando soube da verdade sobre os aras, suas idéias mudaram com uma rapidez espantosa. A modificação foi verdadeira e convincente. Talamon passou a ser nosso amigo. Uma coisa que também o impressionou foi o fato de não termos aproveitado nossa superioridade para castigá-lo. Não perdeu uma única nave. Rhodan, ele admira você.
Obrigado, Gucky — respondeu Rhodan. Parecia bastante comovido. Mas só por um instante. Seu olhar logo voltou a assumir a expressão de dureza. Com a voz fria, dirigia-se a um trêmulo ara, que se encontrava entre Tiff e Sengu. Ao que tudo indicava, ainda não conseguira digerir aquela estranha forma de transporte ultra-rápido. — Borat, o senhor ouviu o que acabo de dizer ao superpesado. Não foi nenhuma ameaça. A produção de Aralon terá de ser reduzida à metade.
No futuro, não serão produzidos mais germes causadores de doenças; apenas remédios. Todas as raças que adoeceram por causa dos preparados dos senhores receberão tratamento gratuito. Para vigiá-los e controlar a execução destas medidas, deixarei duzentos robôs de guerra em Aralon. Serão programados de tal forma que qualquer falta será castigada com a imediata destruição do culpado. Não pense que conseguirá enganar um robô equipado com um cérebro positrônico. Mesmo que estivesse em condições de destruir um dos robôs, isso não adiantaria nada. Toda a reserva energética do mesmo seria utilizada para transmitir uma mensagem de hipercomunicação dirigida ao cérebro robotizado de Árcon. A conseqüência seria o envio de uma expedição punitiva, que destruiria o planeta depois de evacuados os doentes. Será que me fiz entendido?”
O médico-chefe Borat confirmou com um forte aceno da cabeça. Em seus olhos brilhava uma expressão de pavor e de disposição irrestrita de fazer qualquer coisa que exigissem dele. No entanto, disse:
Não posso decidir sozinho. O conselho de médicos terá que dar seu consentimento e...
Conhece alguém que consentiria com a destruição de Aralon?
Não, é claro que não conheço, mas...
Nada de mas, Borat. Não existe outra alternativa. A possibilidade de qualquer solução conciliatória está excluída. O erro dos senhores foi que não se deram por satisfeitos com aquilo que haviam conseguido. E outro erro foi o de me terem atacado. Mas está tudo bem. Pode sair da nave e voltar ao seu gabinete. Aguardo sua decisão pelo prazo de três horas. É mais que suficiente. Passe bem, e conserve a saúde, Borat. Tiff, leve-o até a escotilha.
Acompanhou a saída do ara com um olhar frio. Depois dirigiu-se a Gucky:
E agora terei uma conversa com você, meu caro. Você se recusou a cumprir uma ordem minha. Pode oferecer qualquer desculpa para esse procedimento?
O rato-castor encolheu uns vinte centímetros. Escorregou para dentro de seu próprio corpo. Lançou um olhar de súplica para Thora, que fitou Rhodan com uma expressão de desembaraço. Suas faces tingiram-se de vermelho.
A culpa foi minha, Perry. Fui eu quem pediu a Gucky que matasse Themos.
O olhar de Rhodan passou além de Thora.
Thora, uma vida humana pesa em sua consciência.
Foi um traidor, Perry. Merecia a morte.
Será que um ser humano pode tomar uma decisão desse tipo? Se quiséssemos raciocinar dessa maneira, também Borat mereceria a morte. E com ele mais alguns milhares de pessoas. Mas, como vê, poderão ser muito mais úteis se continuarem vivos. Também Themos poderia ter oportunidade de pagar pelos seus erros.
Fomos nós que o matamos? — disse Thora em sua defesa. — Foi ele quem saltou para dentro do poço que seria nossa armadilha mortal. Ele se suicidou. Se Gucky não o ajudou, isso pode ter sido uma omissão, mas nunca um assassinato.
Quer dizer que existem circunstâncias atenuantes? — perguntou Rhodan em tom sarcástico, sacudindo a cabeça. — Por favor, Thora, nunca mais procure interferir nas minhas decisões. De certa forma, compreendo sua cólera. Não falemos mais sobre isto.
Inclinou-se para Gucky.
E você, meu caro, aceite isto como uma lição. É bem verdade que Thora tem tempo para cocar seu pêlo e ir à cozinha de bordo para pedir algumas cenouras para você, mas nem por isso se justifica que minhas ordens sejam ignoradas. Entendido?
Os olhos fiéis de Gucky pareciam ainda mais fiéis. O dente-roedor arriscou o primeiro avanço para esboçar um sorriso. Acenou fortemente com a cabeça.
Entendido, chefe!
Aguçou o ouvido em direção à porta. O dente-roedor já se esquecera da repreensão. Gucky sorria cheio de expectativa enquanto atravessava a sala de comando em passo arrastado, fazendo com que a porta se abrisse.
Um tanto espantado com a medida inesperada, Bell tropeçou no limiar da porta e olhou para Gucky, que era considerado seu amigo do peito. Os cabelos ruivos de Bell estavam tranqüilamente encostados ao crânio redondo, enquanto o rosto irradiava alegria e satisfação. Nos olhos azuis-claros, brilhava uma espécie de tristeza contida, que parecia estar em contradição com essa satisfação. Bell devia estar atravessando um agudo conflito de personalidade.
Olá — disse, cortando o ar com um gesto da mão. — Aqui estou. Aconteceu alguma coisa?
Gucky fungou de desprezo.
Enquanto nós salvamos a Via Láctea, você ficou refestelado na cama, dormindo e sorrindo sem dizer nada. Devemos ser gratos aos aras, que nos livraram por algum tempo da sua cara, que já estávamos enjoados de ver. E fui logo eu quem tive de arranjar o remédio que acordou você. Mas acabo voltando para lá a fim de buscar o germe da doença.
Aconteceu uma coisa totalmente inesperada. Bell agachou-se e fitou os olhos do rato-castor, que emitiam um brilho matreiro.
Gucky, meu amiguinho e velho companheiro de lutas, você não me fará uma coisa dessas. Eu lhe garanto que já dormi bastante; estou me sentindo quase em forma. E, pelo que diz o tio, doutor Haggard, tenho muito tempo. São quinze dias de descanso. Imagine só, quinze dias! Terei tempo para, vez por outra, fazer-lhe o favor de...
De coçar meu pêlo? — perguntou Gucky em tom de espanto, com o rosto radiante.— Você vai coçar meu pêlo? Combinado! Duas horas por dia...
Bell fez uma cara de quem acabara de ser condenado três vezes à morte. Mas um simples olhar para o rosto feliz do rato-castor amoleceu seu coração. Parecia conformado.
Combinado, Gucky! Levantou-se devagar e caminhou para a poltrona mais próxima. Afundou nela com um gemido e fechou os olhos. O mundo exterior parecia não existir mais para ele.
Gucky pôs as patas superiores nos quadris. Os pêlos da nuca arrepiaram-se. Sacudiu a cabeça num gesto de perplexidade.
O que ele acaba de dizer é muito bonito, mas o que está pensando neste momento revela tamanha baixeza e falta de caráter que é impublicável. Bem, o que importa é o que ele vai fazer. E ele vai cumprir sua promessa.
Empertigou-se e caminhou para junto de Thora, que colocou a mão sobre a cabeça dele e sorriu.
Acontece que tem um medo terrível de mim.
Um gemido comovedor veio da poltrona em que Bell estava deitado. Parecia que o homem que acabara de sofrer uma provocação tão desavergonhada acabara de adormecer.
Provavelmente era a solução que mais lhe convinha.
Rhodan sorriu e fez um gesto para que o tenente Bristal se aproximasse.
Estamos aguardando notícias de Borat. Assim que chegarem, decolaremos. Mande que a frota robotizada volte para Árcon, onde deverá continuar à nossa disposição. Fizemos dos aras nossos inimigos mortais, e ainda não sabemos qual será o resultado. É possível que o Regente conheça a resposta. Afinal, fomos os primeiros que se revoltaram contra duas raças poderosas: contra os saltadores e contra os médicos de Aralon, que se propunham a curar pessoas sadias.
Crest e Thora trocaram um olhar. Depois de Bristal se ter retirado da sala de comando, o arcônida disse:
Os atos que o senhor praticou terão conseqüências, isso é tão claro como a água límpida de uma fonte do planeta Terra. Muita gente começará a refletir sobre quem será Perry Rhodan do planeta Terra. O senhor representa um fator adicional nos cálculos de todos os membros do Império Arcônida. Terão que aprender a incluí-lo nesses cálculos. E, uma vez que está agindo por ordem do Regente, daqui por diante também os arcônidas serão incluídos nesses cálculos. Por isso, o senhor merece nossa gratidão, Perry. Está restituindo ao meu povo a fama do poder de iniciativa, que perdemos há milênios.
Thora confirmou com um movimento resoluto da cabeça.
Se continuarmos a agir em conjunto e reconhecermos por enquanto o cérebro robotizado como Regente, o Império de Árcon terá uma nova época de prosperidade. Também eu tenho que agradecer-lhe, Perry, por tudo que tem feito.
Mas Perry Rhodan não iria esquecer sua origem, fosse qual fosse o lugar em que o destino o colocasse. Mesmo depois daquele momento em que, treze anos atrás, pousara na Lua com um frágil foguete de combustível líquido e descobrira os arcônidas, que enfrentavam uma grave emergência. O que seria ele hoje, se não fossem esses arcônidas? O que teria sido feito da Terra? Será que alguém saberia que no Universo existem outros seres inteligentes além dos homens? Mais do que isso. Se não fosse esse o capricho, a Humanidade não se teria destruído nas chamas de uma guerra nuclear?
Sacudiu a cabeça, aproximou-se de Crest e Thora. Estendeu-lhes as mãos.
Não, meus amigos, não é a mim que vocês devem agradecer. Tudo que sou e que consegui fazer é devido única e exclusivamente a vocês. Serão vocês que vão salvar. Afinal, quem seria eu se não me tivessem prestado auxílio há treze anos? Não passaria de um pioneiro espacial terrano que, se não tivesse havido uma guerra nuclear, a esta hora talvez estaria pousando em Vênus ou Marte. Não, Thora e Crest, só nós três juntos representamos um fator que deve ser considerado. Se não fosse eu, vocês teriam perecido na Lua; se não fossem vocês, eu apenas seria um membro de uma raça subdesenvolvida que estaria dando os primeiros passos em direção ao cosmos. E talvez fosse até tropeçar nos astros. Reunidos, somos uma equipe que não pode ser desprezada. Formamos uma união de amigos que manterá e fortalecerá o Império.
Seus olhos encontraram os da arcônida; sentiu o sangue pulsar mais rápido. Em seu olhar não havia apenas admiração e amizade; nele também brilhava a expressão do amor genuíno, profundo. Naquele momento, compreendeu que suas esperanças secretas não seriam vãs...
O tenente Bristal entrou e arrancou Rhodan das suas reflexões.
Recebemos um chamado de Borat. O conselho dos médicos de Aralon aceitou o ultimato. Os duzentos robôs já foram colocados em terra. A Titan e a Ganymed estão prontas para decolar. Quais são as instruções?
Rhodan olhou-o com a expressão de quem desperta de um sonho.
Minhas instruções? Transição para Árcon, evidentemente. Tiff assumirá o comando. Tenho outra coisa para fazer.
Bristal retirou-se. Alguns segundos depois, Tiff entrou e acomodou-se na poltrona de Rhodan. Seus comandos foram firmes e tranqüilos. O tempo começou a correr. Dentro de dois minutos, as duas naves se precipitariam para o firmamento claro, deixando para trás dez mil seres pensativos e perplexos, vindos de todos os mundos do Império. Eram inteligências acostumadas a verem Árcon dormir, passivo. Porém, haviam visto com seus próprios olhos que um certo Perry Rhodan do planeta Terra tirara Árcon daquela calma aparente. Calma esta que representava uma oportunidade excelente para todos os inimigos do Império que desejassem levar avante seus projetos de domínio.
Todos eles começariam a perguntar: quem é esse Perry Rhodan? Onde fica seu mundo, o planeta Terra?
Um minuto até a decolagem! — disse Tiff em tom indiferente.
Os olhos de Thora voltaram a procurar o olhar de Rhodan.
Foi quando Gucky, que até então se mantivera num estranho silêncio, deitado em seu sofá, resolveu levantar-se. Escorregou para o chão e arrastou-se desajeitadamente para a porta, que se abriu automaticamente diante dele.
Não tenho mais nada a fazer por aqui — chilreou e soltou um assobio agudo, que exprimia insatisfação. — Gostaria de saber quem vai coçar meu pêlo, quando o tempo de Bell tiver passado.
Depois de dizer estas palavras, lançou um olhar de recriminação para Thora, saltitou para o corredor e desapareceu.
Decolagem dentro de dez segundos — disse Tiff sem revelar a menor emoção. Sua mão estava pousada sobre os controles.
Rhodan fez um sinal para Crest e Thora.
Vamos andando. Acho que ainda devemos refletir sobre os termos do relatório a ser fornecido ao cérebro robotizado.
Caminhou à frente dos outros. Thora lançou um olhar de súplica para Crest, antes de seguir Perry.
Crest foi o último a deixar a sala de comando.
Seu sorriso silencioso revelava uma alegria sincera.







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Havia muitos observadores que acompanhavam a ação de Rhodan com uma tremenda atenção. Era a primeira vez na história do Grande Império que alguém se levantava, intervinha com mão de ferro nos acontecimentos de Aralon e dava uma lição amarga aos médicos galácticos.
Será que os aras tomarão essa lição a peito e passarão a agir exclusivamente em beneficio da Galáxia?
Em Projeto Aço de Árcon, próximo volume da série, uma estranha ameaça surge.

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