quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-044 - O Homem e o Monstro - K. H. Scheer [parte 3]


As armas de radiação rugiam antes que o intruso pudesse entrar. Uma encarniçada batalha de defesa estava sendo travada em todos os compartimentos da nave.
De alguns minutos para cá, passaram a chamar os monstros de cantores. Mal alguém pronunciou o nome, e logo o mesmo passou a integrar o vocabulário irônico da tripulação. Talvez o nome tivesse sua origem nos sons melodiosos emitidos pelos monstros.
Os homens que se encontravam no interior da nave reuniram-se em grupos de dez. Enquanto Orgter não fosse resgatado, não se poderia pensar na decolagem. Portanto, teriam de aguardar o resultado favorável ou desfavorável da ação do comando.
Chaney e os dez homens que o acompanhavam sabiam perfeitamente que não poderiam arriscar a sair da proteção das paredes da nave. Se um dos monstros saltasse diretamente para dentro do carro, estariam praticamente perdidos. Não poderiam arriscar-se a utilizar armas térmicas num recinto apertado como aquele. A destruição do veículo blindado seria inevitável.
Os seres não eram contidos pelos raios de desintegrador, que costumavam ser infalíveis. A estrutura molecular do tecido de que eram feitos seus corpos devia ser bastante estranha.
Por enquanto haviam reagido somente às armas mais grosseiras e perigosas dos homens, que eram os feixes incandescentes projetados pelas armas térmicas. Estes pareciam ser demais até mesmo para os organismos estranhos daqueles seres, se é que os mesmos possuíam um organismo.
Os homens que se encontravam no veículo blindado prestavam atenção a qualquer sombra que surgisse diante deles. Assim que alguma coisa se movia, a cúpula do veículo girava. Atiravam contra qualquer coisa que se movesse na névoa. Dois robôs de combate já haviam sido vitimados pelos nervos superexcitados dos artilheiros.
Chaney praguejou em todas as tonalidades que suas cordas vocais conseguiam emitir, pois o corpo de Orgter já não podia ser localizado através do aparelho de observação ótica. Só o localizador infravermelho projetava um eco térmico definido sobre a tela.
Chaney seguiu pelo terreno, indo no rumo apontado por esse eco. Seus olhos estavam grudados pelo suor. As pessoas que se encontravam a bordo tiveram que dispensar o campo defensivo de seus trajes protetores. O contato ininterrupto dos diversos campos teria ocasionado sua auto-destruição.
Está sendo tangido para mais longe — gritou o major para dentro do microfone. — Será que vocês podem recuar a abóbada algumas centenas de metros?
O rosto de Rhodan aparecia numa pequena tela. Limitou-se a acenar com a cabeça. Poucos segundos depois, os engenheiros da casa de máquinas moveram as chaves. O gigantesco campo defensivo passou a deslocar-se.
Lá fora, bem ao longe, grupos de seres disformes puseram-se em fuga. É claro que os moofs também estavam presentes, muito embora desta vez não se tivessem lançado a um ataque direto. Preferiram mandar outros seres para a luta. Sem dúvida, esses seres estavam submetidos ao controle sugestivo dos moofs.
Pare por dois segundos — soou a voz de Rhodan vinda do alto-falante.
Chaney empurrou para trás o acelerador do pequeno propulsor de radiação. Em virtude da grande resistência oferecida pela atmosfera, o veículo estacou.
É de enlouquecer — gemeu um dos tripulantes, quando um lugar da parede esférica do couraçado começou a expelir fogo. Um enorme furacão de chamas passou por cima da tartaruga. Um calor ofuscante surgiu na tela, magoando os olhos. Era a primeira vez que viam do lado de fora como era um único golpe de fogo da gigantesca nave.
A seguir, Chaney voltou a acelerar. Naquele momento, o corpo de Orgter estava preso a uma coluna de cristal reluzente, que há poucos segundos ainda não estava lá. Sob os efeitos da temperatura baixíssima, a matéria líquida se solidificara numa figura estranha.
O veículo chegou ao local no momento exato em que Orgter voltou a ser atirado para longe. Mas desta vez um raio de tração saiu do veículo. O biólogo foi detido em meio ao turbilhão. A menos de cinqüenta metros dali a barreira energética se levantava para o céu escuro.
Cuidado! Puxem-no devagar — gritou Chaney em meio ao barulho infernal. — Que diabo! Quem está atirando? vou...
O rugido do canhão de impulsos de seu próprio veículo arrancou-lhe as palavras da boca. Mais de vinte monstros surgiram de uma só vez em meio à bruma turbilhonante.
Feixes de luz incandescente saíram do nada. Os disparos dos robôs em marcha passavam tão perto do veículo blindado, que o campo defensivo do mesmo emitia descargas estrondosas.
Chaney viu que quatro monstros atravessaram o campo defensivo do veículo. Quando começaram a tremeluzir, sabia que aquilo seria o início de um salto de teleportação que os transportaria para o interior do blindado.
Fogo, O’Keefe! — gritou apavorado. Naquele instante, os quatro vultos estouraram, transformando-se em bolas de fogo.
Chaney ainda fitava o mesmo lugar com os olhos arregalados quando o biólogo inconsciente já se encontrava na comporta de ar do veículo.
O major continuou calado quando o veículo se aproximava em alta velocidade da Titan.
Foram agarrados pelo potente campo antigravitacional da comporta inferior. Um último golpe de fogo saiu das torres de armas da gigantesca nave.
Chaney escutou o ruído com os ouvidos ensurdecidos. Rhodan apareceu no grande hangar-depósito. Os robôs subiram um por um. Lá fora começou a soprar uma tempestade como nunca se vira igual. Em algum lugar da nave, ouviu-se o rugido de radiadores térmicos. Mais um monstro devia ter penetrado na mesma.
Quando o barulho diminuiu e os propulsores começaram a rugir, preparando a decolagem da nave, o major Chaney perguntou com a voz débil:
Nos piores momentos, quando a situação parecia insustentável, alguns dos animais estouraram. Como foi isso? Por que aconteceu justamente nesses momentos? Quem foi o autor daquilo? Terá sido Gucky?
O olhar vazio de Chaney caiu no rosto do comandante.
Não, não foi Gucky. Este teve trabalho de sobra para tirar os homens dos braços dos monstros.
Chaney parecia apavorado.
Não foi ele? Pois então, quem terá sido? Essas coisas não iriam explodir sem mais nem menos. Estavam prontos para nos eliminar.
Não me venha falar na advertência telepática que recebemos antes do pouso — disse Rhodan com a voz cansada. — Não faça uma coisa dessas, senão o pessoal acaba enlouquecendo. Cale a boca.
Rhodan virou-se abruptamente. A Titan já se encontrava nas camadas turbulentas da atmosfera. Os cantores ficaram para trás.
Os vultos pareciam fitar o gigantesco e inatingível couraçado. Além dos morros esquisitos, havia outra planície. Um lago de amoníaco de grande tamanho brilhava nas telas.
Foi quando receberam o chamado da Ganymed, que aguardava no espaço. No hemisfério sul, a mais de 90 mil quilômetros do lugar em que a Titan se encontrava naquele momento, haviam encontrado alguma coisa que não combinava com aquela fábrica de veneno.
Era pouco provável que o planeta Moof VI tivesse produzido um aço leve de primeira qualidade, com a superfície reforçada por um processo de condensação molecular.
A Titan acelerou violentamente. Junto ao painel de controle, estava sentado um homem cujos olhos inflamados estavam afundados nas órbitas.
Enquanto isso, os doentes gemiam na enfermaria.

Uma coisa era certa: qualquer construção complicada existente em Moof VI não poderia ter sido levantada pelos moofs, nem pelos cantores.
Outra coisa certa era que esses seres tão diferentes viviam numa espécie de simbiose. Os moofs dominavam os irreais. Os aras, por sua vez, controlavam os seres em forma de medusa. Era uma troca terrível, uma deformação espiritual surgida no plano de um intelecto inumano, mas superior.
Os médicos, os químicos e os biólogos da Titan estavam trabalhando. Os restos dos monstros mortos foram examinados. Não tinham cérebro. Na verdade, não tinham nada que os capacitasse para um pensamento autônomo.
Apesar disso viviam e atacavam com uma coerência espantosa. Isso só poderia ser explicado através do processo de tele direção, perfeitamente possível face às faculdades telepáticas e sugestivas de criaturas altamente inteligentes como os moofs.
Os cantores ofereciam um problema atrás do outro. O tecido de seu corpo não parecia ser orgânico. Orgter só vivia sacudindo a cabeça. Os químicos falavam em “matérias artificiais biologicamente ativadas, relacionadas a combinações desconhecidas e extravagantes surgidas numa área de alta pressão impregnada de metano e amoníaco”.
Isso não servia para ninguém, muito menos para os homens responsáveis pela direção da nave.
Nas telas da Titan, via-se uma cúpula de aço que emitia um brilho azulado. Era achatada e pouco abaulada. Com um diâmetro de pelo menos três quilômetros, jazia em meio a um oceano de amoníaco liquefeito revolto pelas tempestades.
Há dez minutos fora localizada pela aparelhagem da Titan, isso depois que a Ganymed, que se mantinha no espaço, servira de estação retransmissora.
A nave esférica aproximou-se lentamente. A energia de todos os geradores concentrava-se nos campos protetores de três camadas. Os neutralizadores gravitacionais absorviam apenas 0,3 por cento da energia.
Novas informações foram chegando. O coronel Freyt comunicou que o espaço planetário em torno do sol Moof parecia totalmente deserto. Não localizaram nenhum eco de corpo estranho.
Calcule uma nova órbita — ordenou Rhodan. — Fique parado em cima da área de destino e mantenha as armas preparadas. Preste atenção às nossas transmissões.
Freyt confirmou. Os rastreadores espaciais da Titan mostraram que, após um ligeiro empuxo, o couraçado se desviava da órbita que vinha percorrendo.
Com isso os que se encontram lá embaixo devem ter perdido o jogo — disse Everson. Sem querer, massageou as manchas roxas e as contusões resultantes do abraço que o monstro lhe dera.
A bordo da nave reinava uma tensão irreal. Irritava e desgastava os nervos. Aquela enorme cúpula de aço só poderia ser uma construção dos médicos galácticos.
Com os sentidos superiores mantidos bem ativos, Gucky anunciou a presença de inúmeros cantores, cujos estranhos impulsos corporais captava sem a menor dificuldade.
Deviam ter aguardado o momento adequado — disse o Dr. Certch. — Quem familiariza os outros antes da hora com suas capacidades fora do comum, não pode surpreendê-los quando isso se torne necessário.
Pouco abaixo da Titan, que se deslocava lentamente, o cume de uma montanha começou a derreter. Entrara em contato com os campos defensivos abertos.
Mais uma vez, Tifflor e Tanner estavam sentados diante do painel de controle de tiro. Os relatórios vindos da enfermaria eram satisfatórios. A partir do momento em que a nave levantara vôo, a inquietação dos doentes diminuíra. Mas os sinais de decadência física eram inconfundíveis, informava o Professor Kärner. Rhodan sabia que não havia tempo a perder.
A margem do imenso oceano de amoníaco chegou mais perto. Não se via o horizonte longínquo do gigantesco planeta. Bem antes do ponto em que o céu devia tocar o solo as nuvens impenetráveis de gás impediam a visão.
A nave aproximava-se da face noturna de Moof VI. A estrela amarela desse mundo estava encoberta por nuvens rasgadas pela tempestade. Raras vezes, um raio de sol chegava à superfície nesse lugar.
Distância da cúpula duzentos e cinqüenta quilômetros — anunciou o capitão Brian no posto de observação. Cuidado. Os rastreadores energéticos indicam a presença de usinas atômicas de alta potência. Aquele pessoal deve estar muito bem armado, e o tamanho da cúpula não é nada desprezível. Se nada der certo, dispõem de instalações mecânicas que nada ficam a dever às da Titan.
Eram as mesmas idéias e reflexões que Rhodan entretinha há meia hora. Se neste mundo hostil à vida, existisse uma base técnica dos aras, uma raça altamente desenvolvida, esta estaria muito bem armada.
O supercouraçado parou perto da costa, exatamente a cinqüenta quilômetros da cúpula. Os neutralizadores gravitacionais zumbiam, mantendo-o imóvel apesar da tormenta.
A divisão matemática e geológica recebera instruções para realizar cálculos sobre o fenômeno. Rhodan não podia imaginar que o disco de aço relativamente chato pudesse flutuar no oceano de amoníaco.
Face à gravitação reinante do planeta, o peso da cúpula devia ser enorme, pois, apesar de sua forma, não poderia flutuar. Era claro que a força ascendente do espaço oco cuja existência era incontestável poderia levar a engano. De qualquer maneira, porém, Rhodan não acreditava que se tratasse de uma fortaleza ligada ao elemento líquido.
A Titan, construída segundo os planos arcônidas, dispunha de um completo laboratório de pesquisa. Havia aparelhos com os quais se podia verificar a uma distância enorme qual era a configuração de determinada área. E nesse caso os rastreadores de substância constataram que, sem a menor sombra de dúvida, a enorme construção era cercada de rocha maciça. Concluía-se que fora construída sobre uma ilha estável, em torno da qual se estendia as massas corrosivas do amoníaco. Dificilmente a base poderia ser conquistada por alguém que viesse da terra.
Já ouviu falar que se constatou a presença de moofs flutuantes? — perguntou. Com um rápido gesto de mão, cancelou a pergunta. Era claro que o comandante havia sido orientado sobre a localização supersensorial realizada por Gucky.
Cuidado, comandante, alguma coisa não está certa. O fato de que esses monstros não dão mais sinal de sua presença depois de quase terem alcançado êxito com seu ataque sugestivo dá o que pensar. É pouco provável que estejam dispostos a renunciar ao seu grande poderio. Se a ação com os semi-vivos for um fracasso, poderemos experimentar uma surpresa catastrófica.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça. Era realmente estranho que as medusas se mantivessem tão calmas. No entanto, boiavam em grupos enormes no oceano de amoníaco. Everson estremeceu num calafrio e encolheu os ombros, quando pensou na possibilidade de ter que mergulhar nesse caldo venenoso.
Janus van Orgter transferira seu quartel-general para a sala de comando. Estava pálido e exausto. Só em seus olhos, vivia uma raiva contida. Era um dos tripulantes da Titan para os quais a condescendência de Rhodan era mais que perigosa.
Ao menos oitenta por cento das pessoas, que se encontravam a bordo, eram de opinião que se devia abrir fogo com todos os meios disponíveis contra todo e qualquer moof que surgisse diante deles.
Eco energético — disseram os alto-falantes do sistema de comunicações com o posto de observação.
Intensidade doze, quatorze, subiu para vinte. Máquinas muito potentes estão começando a funcionar. Atenção, estamos captando eco de impulsos. Estamos sendo tateados. Um processo de ultraluz, provavelmente um hiper rastreador. Fim.
As palavras proferidas na sala de comando foram ouvidas em todos os cantos da nave. Os polegares dos homens sempre se mantiveram próximos aos botões dos campos defensivos individuais. Contava-se com a possibilidade de que, de uma hora para outra, surgissem novos cantores, muito embora os médicos afirmassem que o couraçado, que se mantinha numa altitude de dez quilômetros, estava fora de alcance.
Os olhos de Rhodan caíram sobre os indicadores dos geradores do campo energético. Todas as usinas de força trabalhavam a plena potência para o campo defensivo. Era impossível que fossem atingidos por um disparo de radiações que pudesse ser considerado normal.
O amplificador aproximou o estranho objeto. A imagem de setores específicos da cúpula de aço era projetada na tela.
Não levantaram nenhuma abóbada protetora — comentou Rhodan. — Por que será? Devem dispor dos conhecimentos técnicos para isso, a não ser que as criaturas que temos diante de nós sejam totalmente diferentes do que esperamos.
O Dr. Certch estremeceu. Lançou um olhar desconfiado para o comandante.
Ora esta, comandante. São médicos galácticos!
Como pode afirmar isso com tamanha certeza?
São mesmo — interveio Gucky com uma estranha indiferença. — Sinto os impulsos vindos da cúpula. Conheço-os desde o tempo que passei em Honur. Chefe, não me sinto nada bem. Algum desastre está acontecendo. A ilha está cercada por inúmeros moofs, e também cantores. Se pousarmos por lá...
O rato-castor interrompeu-se. Rhodan fitou seus olhos enormes. Trazia o corpo alto e ereto ligeiramente encurvado. Uma profunda preocupação desenhava-se no rosto velho, que parecia tão jovem.
Sabem perfeitamente que viemos por causa deles. Devem ter sido informados de que fomos nós que destruímos os moofs enviados ao planeta Zalit e com isso impedimos uma revolta contra o Império. A enorme Titan basta para identificar-nos. Além disso, devem estar informados sobre os doentes que temos a bordo. A Galáxia tem ouvidos, Perry. E o senhor nem imagina como esses ouvidos são grandes e sensíveis. As notícias correm velozmente de uma estrela para outra. Esses caras sabem que não podemos atirar contra eles, se quisermos encontrar um remédio contra a doença — falou Certch.
Se aquilo ali fosse um forte blindado como qualquer outro, já teria deixado de existir — respondeu Rhodan numa risada amarga. — Quer dizer que estamos parados no ar, encontramos o inimigo, mas não podemos atacá-lo. É uma situação excelente, não é?
É bem possível que a inatividade dos moofs resulte do mesmo raciocínio — interveio Certch em tom nervoso. — Isso me deu uma idéia. Queira desculpar.
O Dr. Certch correu apressadamente para as escotilhas da sala de comando.
No mesmo instante Brian gritou nervosamente no posto de observação. Suas palavras perderam-se em meio aos gritos generalizados. De uma hora para outra, uma gigantesca bolha surgiu sobre a superfície do oceano de amoníaco. Brilhou numa tonalidade branco-azulada, antes que sua luminosidade se reduzisse a uma débil cintilância.
Dali em diante, manteve-se inalterada, como se há muito tempo estivesse ali.
Quer dizer que é mesmo uma cúpula energética — disse Rhodan, que não parecia muito impressionado pelo fenômeno. — Seria mesmo um milagre. Tifflor, dispare um tiro de ensaio com o número dezessete. Vamos testar a capacidade de resistência.
A torre de canhões número dezessete dispunha de um radiador térmico de intensidade média. A mira já havia sido ajustada. Imediatamente após as palavras de Rhodan, um forte rugido se fez ouvir na parede esférica da Titan. Massas de ar incandescente foram empurradas para o lado. O fluxo de impulsos de cinco metros de diâmetro foi mais rápido que a vista humana.
Um ribombar surdo passou por todos os compartimentos do supercouraçado. Bem adiante deles, a abóbada energética do inimigo, que acabara de ser levantada, emitiu uma forte luminosidade. Descargas terríveis subiam para o céu. De uma hora para outra, a barreira defensiva parecia estar entrecortada por fendas luminosas. Apesar de tudo, a energia foi desviada num ângulo inclinado. Com um trovejar, as cascatas de fagulhas subiam às nuvens, cuja luminosidade rubra iluminou o mar sombrio.
Não produziu qualquer efeito — informou Brian em tom lacônico. — Isso aí agüenta muito mais. Provavelmente os campos defensivos deles são tão fortes como os nossos. Quer dizer que pelos meios normais nunca conseguiremos penetrar lá.
Rhodan olhou por alguns segundos para as telas. Depois disse:
Querem que morramos de fome por aqui. Ah, já estão nos cumprimentando.
A trajetória de tiro foi tão rápida que a inteligência não conseguia acompanhá-la. Rhodan não se abalou; deixou que o disparo produzisse seu impacto nos campos defensivos da nave. Também aqui houve um desvio total da descarga energética. As energias remanescentes foram absorvidas e conduzidas aos protetores da nave. A gigantesca Titan sacudiu-se ligeiramente. E foi só.
Também não dispõem de muita coisa. De qualquer maneira, prefiro não utilizar nossos canhões superpesados — disse Perry em voz baixa. — Pela própria natureza das coisas, um forte blindado sempre será superior a uma nave de tamanho igual, porque não tem necessidade do mecanismo de propulsão. E o espaço liberado permite a instalação de algumas unidades energéticas adicionais. Apesar de tudo, dificilmente resistiriam aos projéteis mais pesados de nossa nave. Tampinha...
Gucky estremeceu. Correu apressadamente em direção ao assento do piloto.
Tampinha, será que você teria coragem de entrar nessa casa de marimbondos? Seria apenas uma pequena brincadeira.
O rato-castor cresceu alguns centímetros. Tinha uma paixão toda especial pelas brincadeiras perigosas.
Estou disposto a entrar na brincadeira, comandante — chiou. — Quais são as ordens?
Você é o único teleportador de que ainda disponho. Nossos armeiros lhe darão uma bolinha preta. Depois de ligar o detonador, você vai depositá-la no lugar em que ficam os maiores geradores. Depois veremos o que será feito da abóbada defensiva dos nossos amigos.
Gucky exibiu o dente roedor. Seria um quadro bastante alegre, se em seus olhos castanhos não surgisse um brilho tão estranho.
Poucos minutos depois, foram transmitidas as instruções. Os comandos de robôs, que estavam prontos para a ação, entraram nos campos antigravitacionais.
Tanques equipados com terríveis armas de radiação foram avançando. Os membros dos comandos de desembarque entraram em forma.
Na sala de comando, Rhodan dirigiu-se ao mutante Wuriu Sengu. O forte japonês maciço ouvia atentamente, inclinando a cabeça.
Sobrevoarei a cúpula, para que você possa dar uma olhada lá dentro. Indique o lugar em que Gucky terá de materializar-se depois de seu salto de teleportação. Pelo que calculo, existe lá embaixo um pavilhão de reatores que deve ter o tamanho de cinco casas de máquinas da Titan. É lá que o Tampinha deve pousar.
O espia, cuja especialidade consistia em romper oticamente qualquer objeto ou parede compacta, confirmou com um simples aceno de cabeça. Poucos segundos depois, a nave de guerra começou a deslocar-se.
Foi nesse momento que Rhodan captou a segunda advertência; apenas, desta vez os impulsos eram menos intensos que os que recebera pouco antes do primeiro pouso.
Fiquem onde estão. Perigo. Não poderemos fazer mais nada por vocês. Não continuem. Não continuem; voltem.
O sentido da mensagem surgiu nitidamente no cérebro de Rhodan. Gucky compreendeu-a ainda mais claramente.
Quem é você? — respondeu o ser peludo. — Responda, amigo. Suas intenções são boas, não são?
Minhas intenções são boas — foi a resposta. — É o último aviso que lhes dou. Vocês estão desobedecendo a vocês mesmos. Afastem-se. Vocês nunca conseguirão conquistar a fortaleza dos estranhos.
Quem é você?
Meu nome é Trorth, mas isto não importa. Afastem-se. Não se aproximem mais. É o último aviso que lhes dou.
Gucky continuou a interrogar. Não obteve mais nenhuma resposta telepática.
Quer dizer que apesar de tudo temos amigos — disse Rhodan em tom nervoso. — Tampinha, como é o cérebro daquele desconhecido?
O rato-castor abriu os bracinhos.
Não faço a menor idéia, chefe. Não consegui penetrar lá. Deve ser uma coisa muito estranha. De qualquer maneira, não havia nenhum ódio oculto em suas vibrações.
Rhodan desistiu. Fosse como fosse o desconhecido, não poderia fazer mais nada para modificar a situação.
Com uma perigosa lentidão, a Titan passou por cima da abóbada energética. Os campos defensivos quase chegaram a tocar-se. O inimigo não esboçou nenhuma reação.
As unidades energéticas ficam bem no fundo da rocha — informou Sengu. — É um recinto gigantesco. Ao que parece foi queimado na rocha.
Era tudo que Rhodan queria saber. Após trinta minutos, o rato-castor se apresentou. Usava um traje protetor especial, em cujo cinto estava pendurada uma bola de metal do tamanho de uma cabeça humana.

Gucky deu mais um relance de olhos pelo pavilhão, antes de comprimir o bastão do detonador. Não havia ninguém. O funcionamento das máquinas gigantescas era inteiramente automático.
Pouco depois, Gucky se materializou a bordo da Titan. Menos de vinte segundos após a volta, teve início a reação desencadeada pela bomba. Não seria possível recorrer a uma arma nuclear explosiva, pois com isso se correria o risco de destruir toda a cúpula. Bastaria provocar o colapso do campo defensivo.
Na casa de máquinas, surgiu um campo gravitacional turbilhonante de cinco dimensões, cujo volume energético ia crescendo à medida que outros hiperelementos ávidos para entrar em reação iam sendo atingidos. E uma coisa que não faltava nos conversores de impulsos da gigantesca usina de força eram os hiperelementos.
O alarma no interior da cúpula veio atrasado. Teria sido tarde, mesmo que alguém tivesse visto Gucky no momento em que este acionou o detonador.
Um uivo surdo subiu das profundezas da rocha. Espirais luminosas tremeluzentes saíam dos canais de ventilação e de outras aberturas. Reator após reator deixava de funcionar automaticamente no momento em que os hipercatalisadores dos conversores de impulsos começavam a participar do processo desencadeado pela bomba. Não houve nenhuma destruição na verdadeira acepção do termo. Quando o campo energético deixasse de ser alimentado, morreria por si.
O que ficou foi um misterioso ondular e ruminar na atmosfera de oxigênio do interior da cúpula. Ainda havia as máquinas de alta potência que deixavam de funcionar, e cuja energia térmica já não absorvia face à falha dos conversores. Em toda a Galáxia, não havia nenhum gerador nuclear que não se desligasse automaticamente no momento em que falhasse o elemento de consumo de energia. E 99 por cento da energia era consumida pelo campo energético que cercava a cúpula.
Foi tão simples! — disse Gucky em tom de decepção, quando a barreira energética, que há pouco ainda parecia invencível, emitiu uma débil fosforescência e caiu sobre si mesma.
Rhodan não esperou um segundo sequer além do necessário. O supercouraçado entrou em movimento. Rapidamente venceu a distância que separava o litoral da festa montada na ilha. Só faltava inutilizar o armamento pesado da poderosa construção com bastante rapidez, a fim de que as tropas de desembarque não ficassem expostas a um fogo concentrado. O campo energético do traje protetor arcônida seria capaz de neutralizar o disparo de uma arma manual, mas nunca os raios mortíferos das peças de artilharia.
Os propulsores rugiram e os neutralizadores de pressão emitiram um ruído zangado. A Titan parou bem em cima da ilha.
As posições de artilharia do lado sul já haviam sido localizadas por meio das estações de observação energética e a pontaria automática havia sido programada de acordo com essa localização.
Rhodan limitou-se a fazer um aceno de cabeça em direção ao painel de controle de tiro. Tifflor e Tanner usaram os dez dedos de suas mãos para comprimir as teclas verdes dos desintegradores.
Só se ouviu o uivo abafado dos conversores estruturais. Não era o rugido ensurdecedor dos canhões de impulsos, cujos feixes incandescentes eram contra-indicados numa operação desse tipo.
Sem o menor ruído, praticamente invisíveis na atmosfera nevoenta e agitada, os feixes de ondas saíram dos campos com a direção uniformizada.
Ao que tudo indicava, lá embaixo não acontecera nada.
Cuidado! — gritou alguém pelo intercomunicador de bordo.
O grito era supérfluo. Antes que alguém pudesse agir, as faixas incandescentes já haviam chegado. A fortaleza abrira fogo antes que suas posições de artilharia pudessem ser destruídas.
Uma verdadeira fogueira atômica envolveu a nave, que permanecia imóvel. Era um fogo potente e altamente concentrado. Parecia confirmar a teoria de Rhodan sobre o tremendo poder de fogo de uma fortaleza estacionaria.
Um ruído ensurdecedor encheu todos os compartimentos da gigantesca nave. A esfera viu-se transformada num sino vibrante. Por um instante, teve-se a impressão de que os campos defensivos entrariam em colapso.
Rhodan colocou o polegar sobre o botão fortemente assinalado do suprimento energético de emergência. Até mesmo as usinas de reserva situadas na parte inferior da gigantesca nave tiveram de entrar em ação para cobrir as necessidades energéticas, que experimentaram um aumento repentino com a enorme solicitação a que ficou sujeito o campo de força. As armas defensivas da Titan nunca haviam sido submetidas a uma prova tão dura.
Rhodan viu que seu imediato, Everson, foi atirado para a frente com os solavancos da nave. Depois os cintos de segurança apoiaram-no.
Surgiram os impactos lá embaixo. Apenas demorara uma fração de segundo. As últimas descargas tremeluziam sobre a barreira de defesa tríplice da Titan, quando a cúpula da fortaleza se abriu em exatamente vinte e dois pontos.
As aberturas surgiram com um silêncio fantasmagórico. No início, as bordas começaram a desmoronar, mas logo se tornaram lisas, até que as fendas, aumentando rapidamente, se transformaram em buracos de extremidades lisas, que pareciam ter sido abertos por uma prensa.
Não houve nenhuma produção de calor, e não se notou qualquer incandescência. Em compensação aconteceu alguma coisa que só poderia acontecer dessa forma num planeta superpressurizado.
Se a fortaleza ficasse no espaço vazio, toda sorte de objetos seria atirada para fora das aberturas. Mas aqui não houve nenhuma descompressão explosiva. Antes, verificou-se uma implosão com a súbita penetração da atmosfera venenosa.
Seguiram-se os fenômenos luminosos, que já eram esperados pelos físicos da Titan. A atmosfera de oxigênio contida na cúpula perfurada em vinte e dois pontos entrou em contato com os gases de metano, formando uma mistura explosiva que foi incendiada pelos canhões energéticos superaquecidos.
Gigantescas labaredas saíram das aberturas. Desta vez, os fragmentos foram atirados para o alto. Daí se concluía que já houvera certa compensação de pressões. Mas dali ainda se devia concluir que as pesadas escotilhas de segurança não haviam sido esquecidas durante a construção da fortaleza. Talvez os postos de artilharia estivessem totalmente destruídos, mas não as outras instalações da gigantesca cúpula.
Mais uma vez Rhodan não perdeu tempo. Logo após os primeiros impactos, as armas térmicas da nave começaram a rugir. O trecho do mar que se estendia junto à ilha foi varrido por feixes de raios bem espalhados.
O fogo de barragem que devia proteger as tropas de desembarque contra a aproximação dos moofs transformou-se num rugido ensurdecedor. A Titan começou a mostrar seu poderio.
A nave baixou mais. Quando se encontrava a exatamente 1.200 metros sobre o borbulhante oceano de amoníaco, voltou a imobilizar-se.
Ainda se encontrava fora do alcance de teleportação dos terríveis seres, que numa espécie de ironia fúnebre haviam sido batizados como cantores.
Do planejamento estratégico partiu-se para a ação ofensiva tática. De certa maneira, foram seguidas as diretrizes clássicas, apenas as armas utilizadas eram outras, muito mais potentes.
Rhodan sentiu as vibrações telepáticas dos moofs que batiam em retirada. Nunca passariam por essa parede de fogo.
Desembarcar os robôs. Grupos de segurança — soou a voz de Rhodan em todos os alto-falantes.
Três mil máquinas de guerra arcônidas, auto dirigidas e dotadas de raciocínio próprio, desceram das comportas sob a proteção dos campos antigravitacionais. Foram seguidas pelos blindados dirigidos por robôs.
Começaram a disparar enquanto ainda desciam. Os alvos eram as aberturas feitas pelos impactos, que teriam que ser mantidas livres dos cantores.
Dois minutos depois do desembarque dos robôs de combate de quatro braços, seguiram os homens. O grupo era chefiado pelo major Chaney. Rhodan preferira reservar sua intervenção pessoal para o caso de um acontecimento extraordinário.
Quatrocentos homens saíram pelas comportas do supercouraçado. Desceram rapidamente em direção às aberturas da cúpula, cuja área já fora limpa pelos robôs. Por ali não havia mais nada que pudesse representar um perigo para qualquer ser humano.
Everson, mantenha a nave numa altitude segura — foi a última ordem que Rhodan deu antes de saltar.
Nos fones de ouvido soaram os comandos dos oficiais. As aberturas dos impactos foram tomadas de assalto por vários grupos. Rhodan avançou em companhia de Gucky para o lugar em que se encontrava o tenente Tifflor. Os trinta e cinco homens do grupo comandado por ele estavam prestes a mergulhar de cabeça na abertura de menos de cinqüenta metros de diâmetro.
Foram seguidos por robôs especializados; por enquanto não se notava a presença de ninguém.
Vou dar uma olhada por aí, chefe — disse o rato-castor pelo rádio de capacete.
Rhodan levantou a mão. Gucky desapareceu, dando mais um salto de teleportação.
Viu-se num enorme pavilhão com grande quantidade de armamentos destruídos.
Dois tiros da arma portátil do robô foram suficientes para romper a parede dos fundos da comporta.
Segurem-se! — gritou Rhodan antes de surgir o furacão.
A atmosfera supercomprimida do planeta penetrou com um chiado nos compartimentos situados atrás da parede aberta pelo tiro. Tudo que não estava preso ao solo foi arrastado.
Rhodan sentiu que suas mãos se soltavam. Os dedos doloridos abriram-se aos poucos. De repente chegou a hora.
Juntamente com os outros homens foi arrastado pelo chão. A viagem de trenó só findou depois de terminada a compensação da pressão.
Não utilizem armas térmicas — soou o grito estridente de Tifflor pelo rádio. — Há perigo de explosão. Temos uma mistura de gases muito perigosa.
Rhodan lançou um olhar para o enorme pavilhão. As instalações, que segundo tudo indicava pertenciam a um grande laboratório, haviam sido quase totalmente demolidas. Ainda desta vez não encontraram nenhum ser vivo.
Procurou um canto tranqüilo e dali dirigiu a ação dos diversos grupos. Um rugido e um ribombar surdo aproximou-se. Eram os homens dos comandos especiais que avançavam.
Não enfrentamos nenhum fogo, não encontramos a menor resistência — disse o major Chaney pelo aparelho de comunicação audiovisual. O rosto, um tanto deformado pelo campo defensivo, surgiu na tela do receptor portátil.
Continue a avançar no seu setor. Mantenha-se em contato comigo e com os grupos vizinhos.
O ataque prosseguiu. Ninguém poderia detê-lo. Se houvesse aras por ali, não resistiriam à tremenda energia dos humanos.
Rhodan lembrou-se de uma frase que Crest, o arcônida, pronunciara em certa oportunidade. Para ele, o homem era a única criatura da Galáxia que se parecia com os conquistadores arcônidas das épocas mais remotas.
Cantores! — o grito ressoou nos fones de ouvido. — É o tenente Hathome do grupo dezesseis. Acabamos de entrar num pavilhão que está cheio desses monstros plásticos. Estão atacando.
Retirem-se, procurem fechar algum corredor. Garand, que tal vai a operação de arejamento?
Insufladores funcionando. Análise do ar satisfatória. A mistura de metano e oxigênio em todos os recintos inundados desceu a um nível inofensivo — informou o engenheiro-chefe da nave.
Rhodan esforçou-se para ouvir o canto agudo do turbo-ventilador. Era um aparelho por demais eficiente, que conseguiu vencer a densidade gasosa do planeta Moof VI.
A análise do ar foi realizada por robôs especializados.
O tenente Hathome, que passara pela prova dos combates travados em Honur, mandou suspender o fogo insensato dos desintegradores manuais. Os monstros não reagiam ao mesmo. No momento em que seus homens bateram em retirada, Rhodan transmitiu a ordem decisiva:
Todos os comandos têm permissão para abrir fogo com as armas térmicas. O perigo de explosão foi removido. O ar externo está sendo insuflado em todos os compartimentos e a mistura gasosa, expelida. Podem começar.
Foi Hathome quem no último instante se deitou atrás do canhão portátil de impulsos e abriu fogo contra o monstro que se aproximava.
O ser desmanchou-se na incandescência expelida pela arma. Mais atrás um homem gritou; estava sendo enlaçado por um cantor. Demorou apenas alguns segundos até que Gucky aparecesse. Dali em diante, a coisa não teve a menor chance.
Avisem-me pelo rádio assim que alguém for agarrado — soou a voz do rato-castor em meio aos berros.
Era um inferno. Cada grupo dependia de seus próprios recursos. Os robôs de combate, que se encontravam do lado de fora, estavam empenhados numa luta encarniçada contra os monstros que se teleportavam para o local. O inimigo havia colocado milhares deles na ilha, já que esperava uma operação de desembarque.
A medida produziu um resultado às avessas. Não conseguiam penetrar na fortaleza, pois teriam que romper as linhas de robôs e a barreira de fogo erguida pela Titan.
Rhodan aguardava.

* * *

Levaram duas horas, tempo de bordo, para atingir os compartimentos internos da cúpula. De fora, esta com seus gigantescos salões, pavilhões e corredores circulares, parecia intacta. Do lado de dentro, estava transformada num montão de destroços.
Há um minuto tiveram o primeiro contato direto com o inimigo. Encontraram um ser humanóide delgado de pele branca e constituição débil. Estava morto.
Rhodan inclinou-se sobre o rosto cinzento e inexpressivo com os olhos enrijecidos.
Um ara — disse pelo rádio. — São os mesmos tipos que encontramos em Honur. Onde estarão os outros?
Atrás dessa porta — disse Tifflor, cansado. Seu rosto parecia uma máscara atrás da luminescência do campo defensivo. — Comandante, é uma coisa horrível. O grande portão à sua esquerda leva a uma espécie de laboratório gigante. Ali encontramos pedaços dos monstros com que vivemos lutando.
Pedaços? — gaguejou Rhodan.
Sim senhor. Os biólogos já estão lá dentro. Pelo que dizem, trata-se de uma grande usina destinada à produção de vida sintética. Os caldeirões estão fervendo e borbulhando.
Sem dizer uma palavra, Rhodan correu para o recinto contíguo. Sacudido de pavor, parou. As instalações inteiramente automatizadas ainda estavam funcionando. Até parecia uma fábrica de automóveis, onde as diversas peças são colocadas numa fita de montagem. Tratava-se de uma forma misteriosa de vida sintética pulsante, que no fim da linha de montagem saía da máquina fumegante sob a forma de mangueira de borracha. Aquilo que as fitas transportavam vivia, mas não pensava.
O biólogo Janus van Orgter fez uma constatação. Os monstros só podiam agir quando fossem dirigidos por uma vontade potente. Provavelmente os médicos galácticos os vendiam para serem utilizados como forças auxiliares.
Rhodan deu uma ordem:
Tifflor, arrebente as fitas e as máquinas a tiro. Saiam todos, inclusive os cientistas.
Nesse instante, ouviu-se o grito de socorro de Gucky. Todos perceberam a voz aguda nos fones de ouvido.
Estou no setor residencial. Venham depressa. Os aras estão fugindo para uma nave espacial. Está perto de mim. Acho... acho que não agüento mais. Estou exausto. Venham.
Um ribombar surdo abafou os ruídos das armas e dos exaustores. O ruído cresceu num uivar agudo que, depois de atingir um ponto máximo, afastou-se rapidamente.
Rhodan chamou a Ganymed. O coronel Freyt apareceu na tela.
OK, comandante, já os localizei. Não irão longe — disse tranqüilamente. — Conseguiram pegar algum aí embaixo?
Estou segurando três aras — gemeu Gucky. — Eles se defendem. Venham logo.
Rhodan desligou. Enquanto uma pequena nave surgia no espaço e os disparos das peças de artilharia de uma das faces da Ganymed perseguiam o veloz fugitivo, o grupo de Tifflor voltou a avançar. As últimas paredes divisórias desmoronaram sob a ação dos desintegradores.
Num pequeno compartimento, encontraram Gucky diante de três seres estranhos. Pareciam grudados nas paredes. Usavam fortes trajes espaciais, capazes de resistir à pressão dos gases do planeta.
Punhos vigorosos arrancaram os seres indefesos da energia telecinética que os prendia. Pouco depois, Wuriu Sengu informou que não encontrara mais nenhum ara.
Passaram-se mais cinco minutos até que os robôs e os homens revistassem a cúpula. Os três prisioneiros já estavam sendo submetidos a interrogatório hipnótico a bordo da Titan.
Quando Rhodan chegou, já dispunham do resultado.
Os rostos dos médicos Hayward e Kärner pareciam enrijecidos. Rhodan estacou.
Tateou à procura de uma poltrona articulada arcônida, que logo se ajustou ao seu corpo.
Espero que não venham me dizer que o interrogatório não produziu nenhum resultado — disse.
O Professor Kärner pigarreou. Gotículas de suor cobriam sua testa.
O interrogatório deu resultado, mas diria que foi um resultado negativo. Esses seres dispõem de pouca resistência psíquica. O interrogatório hipnótico penetrou no último recanto de seu espírito.
E daí?
Para nós foi um resultado negativo, como já disse. Esta base serve exclusivamente à fabricação de vida sintética. Os monstros aqui produzidos eram levados pelas naves dos médicos galácticos. Os aras que se encontravam aqui não tiveram nada que ver com os acontecimentos que se desenrolaram no planeta Honur. Nem desconfiam de que temos doentes a bordo. As declarações são perfeitamente plausíveis, pois devemos considerar o fato de que os aras estão divididos em inúmeros clãs.
Rhodan cobriu o rosto com as mãos.
Foi em vão — a idéia martelou o cérebro de Rhodan. — Tudo em vão.
Kärner prosseguiu tranqüilamente:
Esta missão foi um fracasso. Partimos de um falso pressuposto. Os aras que viviam aqui já nos conheciam, mas em virtude dos acontecimentos do planeta Zalit, não por causa da intoxicação. Foram eles que levaram os moofs para lá e lhes ordenaram que fomentassem a revolta através de influências sugestivas exercidas sobre as classes dominantes. Aqui não existe nenhum remédio para nossos doentes.
Os braços de Rhodan pendiam molemente. Seus olhos inexpressivos fitavam o nada.
E agora?
Uma das informações que obtivemos assume certa importância — interveio Hayward, lançando um olhar de recriminação para Kärner. — Os aras possuem mundos centrais, onde se desenrola o comércio com outras raças. Se o antídoto existe, só pode ser encontrado no mundo que os prisioneiros chamam de Aralon. Ali existe um tipo de central de vendas de produtos médico-farmacêuticos, que dispõe dos mais variados medicamentos. Além disso, ali existem alguns dirigentes dos aras. Os prisioneiros têm certeza que nesse mundo poderíamos encontrar auxílio. Como fazê-lo, isso naturalmente já é outra questão.
Se for necessário, eu os obrigarei a ajudar. Dou-lhes minha palavra — disse Rhodan com a voz entrecortada. — Tranque os prisioneiros e dê-lhes mantimentos. A cúpula será destruída.
E os moofs? — lembrou Everson.
Deixe-os onde estão. Não há motivo para preocupar-se com eles se os seres que os manipulavam desapareceram.
Estes monstros representam um perigo. O planeta deve ser destruído — resmungou o Dr. Certch.
O rosto de Rhodan parecia magro e enrugado.
Deixe que os moofs fiquem com seu mundo. São inofensivos. Nunca sairão do pântano de amoníaco em que estão mergulhados, a não ser que algum elemento criminoso os leve. Pouco importa como são eles. Peço que faça seus cálculos sobre a conduta provável do cérebro robotizado.
Pretende voltar para Árcon? — perguntou Certch espantado.
Será que o senhor sabe onde fica esse planeta dos aras que costuma ser designado pelo nome Aralon?
Rhodan levantou-se. Estava cansado. Nesse instante Gucky entrou na sala de comando.
Nosso amigo acaba de chamar — disse. — O tal do Trorth. Temos que descer, pois ele não pode sobreviver em nossa atmosfera.
Trorth? Sim, naturalmente. Tifflor, Dr. Orgter, queiram vir comigo. Tiff, desembarque dez homens que montarão guarda. Não quero ser surpreendido pelos moofs.
O diabo que carregue esses bichos — disse Everson entre os dentes. — Tome cuidado, comandante.

* * *

Desceram nos seus trajes antigravitacionais. Subitamente, num movimento de pânico, levantaram as armas.
Os radiadores térmicos ainda estavam seguros nas mãos dos homens. Foi só por causa do grito agudo de Gucky que não dispararam.
Trorth viera só. Era uma criatura solitária e desamparada, cujos tocos de perna descansavam no solo cristalino. O corpo de medusa balouçava ao vento, e os grandes olhos que se abriam no centro da cabeça estavam arregalados. Com seus dois metros de altura e metro e meio de largura, erguia-se diante dos homens. Não possuía arma, e nunca possuíra.
Gucky choramingava. As patas rosadas cobriam o ouvido por baixo do campo energético.
Não, não voltem a atirar — disse o suave impulso telepático que tocou o cérebro de Rhodan. — Vocês atiraram demais e mataram muitos de nós. Por quê? Meus irmãos estão chorando. Não fizemos o possível para obrigá-los a decolar, utilizando nossos dons naturais, depois que pousaram apesar da advertência que lhes havíamos dado? Vocês atiraram contra nós. Foi uma coisa horrível. Não fizemos mais nada. Apenas tentei outra vez entrar em contato com vocês, mas voltaram ao ataque. Ajudamos sempre que pudemos. Seus amigos viram-se em situação difícil. Por isso reunimos todas as nossas forças e destruímos os seres sem vida. Eles se desmancharam em bolas de fogo.
E as baixezas que vocês andaram fazendo em Zalit? O que devo pensar disso? — perguntou Rhodan. — Foi só por causa disso que acreditamos que os moofs são inimigos ferozes do Império.
As armas desceram em direção ao solo. Gucky traduziu mensagens telepáticas em sons inteligíveis.
Sei disso — respondeu o moof.
A tormenta tornou-se mais forte. Orgter lembrou-se da oportunidade em que, depois do primeiro pouso, foi arrastado pelo chão.
Estamos envergonhados — disse Trorth. — Só podemos pedir sua compreensão, pois uma criança não é um sábio. Não sei se entre vocês também existem crianças, isto é, seres que ainda não têm vontade própria.
Crianças? — gemeu Rhodan. — Quer dizer que os moofs de Zalit foram as crianças de vocês.
Os aras abusaram delas, depois de seqüestrá-las. Não sabiam o que estavam fazendo. Sei perfeitamente que não há desculpa para isto. Não estamos interessados no poder político. Quando vocês chegaram imaginávamos que vocês faziam uma idéia errada a nosso respeito. Já lhes perdoamos tudo. As coisas não são tão ruins assim; está tudo esquecido. Sentimo-nos felizes quando podemos conversar com seres vindos de outras estrelas. Sabemos que existe um Império, embora nunca tenhamos visto as estrelas. Muitos seres estranhos já pousaram neste planeta, até que um belo dia apareceram os aras e começaram a criar aqueles seres. Foram inimigos mortais de nossa raça. Ainda pretende atirar contra nós?
O ser estranho sentiu os impulsos de desespero e auto-recriminação. Aproximou-se desajeitadamente.
Lamento de todo coração que tenha acontecido uma coisa dessas — cochichou Rhodan.
Podemos ajudar em alguma coisa? — a mensagem do moof foi em tom tranqüilizante. — Esqueça, esqueça o que aconteceu aqui. Todos erramos. Não pude chamar mais cedo, pois você não teria acreditado em mim. Resolvemos dar demonstrações de boa vontade até que sua inteligência compreendesse nossas verdadeiras intenções. Você ainda precisa de auxílio. Vejo em seu espírito que muitos dos seus irmãos estão doentes.

* * *

O homem e o monstro separaram-se depois de duas horas de palestra. Rhodan e seus companheiros estavam arrasados no seu íntimo e sentiam-se martirizados pela auto-recriminação, enquanto os moofs sentiam uma alegre expectativa. Cinqüenta deles subiriam a bordo da Titan, para ajudar o homem na procura do medicamento. As faculdades telepáticas e sugestivas desses seres poderiam representar uma ajuda inestimável.
Dr. Garand, faça o favor de adaptar alguns compartimentos da nave, transformando-os em câmaras pressurizadas — ordenou Rhodan quando retornou à nave. — Crie condições que permitam a sobrevivência dos moofs. Não se espante, estou falando sério. Faça o favor de providenciar os recintos pressurizados. Nossos amigos subirão a bordo assim que os mesmos estiverem prontos. Nossos amigos, entendeu?
Seus olhos seguiram o comandante que se afastava.
Lá fora uivava o furacão. Junto à nave, os corpos deformáveis dos moofs moviam-se ao ritmo das rajadas turbulentas.



* * *
* *
*





Mesmo no encontro de homens que falam a mesma língua às vezes não se consegue evitar a ocorrência de enganos que levam a conflitos trágicos. É claro que, no primeiro encontro entre o homem e o monstro, a probabilidade da ocorrência de um conflito trágico é muito maior, já que este constitui um resultado natural do desconhecimento mútuo. De qualquer maneira, os homens que pousaram no planeta Moof tiveram de aceitar uma lição amarga.
Em Aralon, o Centro de Epidemias, a próxima aventura de Perry Rhodan acontece exatamente o contrário. Serão os terranos que darão uma lição aos aras.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html