As armas
de radiação rugiam antes que o intruso pudesse entrar. Uma
encarniçada batalha de defesa estava sendo travada em todos os
compartimentos da nave.
De alguns
minutos para cá, passaram a chamar os monstros de cantores. Mal
alguém pronunciou o nome, e logo o mesmo passou a integrar o
vocabulário irônico da tripulação. Talvez o nome tivesse sua
origem nos sons melodiosos emitidos pelos monstros.
Os homens
que se encontravam no interior da nave reuniram-se em grupos de dez.
Enquanto Orgter não fosse resgatado, não se poderia pensar na
decolagem. Portanto, teriam de aguardar o resultado favorável ou
desfavorável da ação do comando.
Chaney e
os dez homens que o acompanhavam sabiam perfeitamente que não
poderiam arriscar a sair da proteção das paredes da nave. Se um dos
monstros saltasse diretamente para dentro do carro, estariam
praticamente perdidos. Não poderiam arriscar-se a utilizar armas
térmicas num recinto apertado como aquele. A destruição do veículo
blindado seria inevitável.
Os seres
não eram contidos pelos raios de desintegrador, que costumavam ser
infalíveis. A estrutura molecular do tecido de que eram feitos seus
corpos devia ser bastante estranha.
Por
enquanto haviam reagido somente às armas mais grosseiras e perigosas
dos homens, que eram os feixes incandescentes projetados pelas armas
térmicas. Estes pareciam ser demais até mesmo para os organismos
estranhos daqueles seres, se é que os mesmos possuíam um organismo.
Os homens
que se encontravam no veículo blindado prestavam atenção a
qualquer sombra que surgisse diante deles. Assim que alguma coisa se
movia, a cúpula do veículo girava. Atiravam contra qualquer coisa
que se movesse na névoa. Dois robôs de combate já haviam sido
vitimados pelos nervos superexcitados dos artilheiros.
Chaney
praguejou em todas as tonalidades que suas cordas vocais conseguiam
emitir, pois o corpo de Orgter já não podia ser localizado através
do aparelho de observação ótica. Só o localizador infravermelho
projetava um eco térmico definido sobre a tela.
Chaney
seguiu pelo terreno, indo no rumo apontado por esse eco. Seus olhos
estavam grudados pelo suor. As pessoas que se encontravam a bordo
tiveram que dispensar o campo defensivo de seus trajes protetores. O
contato ininterrupto dos diversos campos teria ocasionado sua
auto-destruição.
— Está
sendo tangido para mais longe — gritou o major para dentro do
microfone. — Será que vocês podem recuar a abóbada algumas
centenas de metros?
O rosto de
Rhodan aparecia numa pequena tela. Limitou-se a acenar com a cabeça.
Poucos segundos depois, os engenheiros da casa de máquinas moveram
as chaves. O gigantesco campo defensivo passou a deslocar-se.
Lá fora,
bem ao longe, grupos de seres disformes puseram-se em fuga. É claro
que os moofs também estavam presentes, muito embora desta vez não
se tivessem lançado a um ataque direto. Preferiram mandar outros
seres para a luta. Sem dúvida, esses seres estavam submetidos ao
controle sugestivo dos moofs.
— Pare
por dois segundos — soou a voz de Rhodan vinda do alto-falante.
Chaney
empurrou para trás o acelerador do pequeno propulsor de radiação.
Em virtude da grande resistência oferecida pela atmosfera, o veículo
estacou.
— É de
enlouquecer — gemeu um dos tripulantes, quando um lugar da parede
esférica do couraçado começou a expelir fogo. Um enorme furacão
de chamas passou por cima da tartaruga. Um calor ofuscante surgiu na
tela, magoando os olhos. Era a primeira vez que viam do lado de fora
como era um único golpe de fogo da gigantesca nave.
A seguir,
Chaney voltou a acelerar. Naquele momento, o corpo de Orgter estava
preso a uma coluna de cristal reluzente, que há poucos segundos
ainda não estava lá. Sob os efeitos da temperatura baixíssima, a
matéria líquida se solidificara numa figura estranha.
O veículo
chegou ao local no momento exato em que Orgter voltou a ser atirado
para longe. Mas desta vez um raio de tração saiu do veículo. O
biólogo foi detido em meio ao turbilhão. A menos de cinqüenta
metros dali a barreira energética se levantava para o céu escuro.
— Cuidado!
Puxem-no devagar — gritou Chaney em meio ao barulho infernal. —
Que diabo! Quem está atirando? vou...
O rugido
do canhão de impulsos de seu próprio veículo arrancou-lhe as
palavras da boca. Mais de vinte monstros surgiram de uma só vez em
meio à bruma turbilhonante.
Feixes de
luz incandescente saíram do nada. Os disparos dos robôs em marcha
passavam tão perto do veículo blindado, que o campo defensivo do
mesmo emitia descargas estrondosas.
Chaney viu
que quatro monstros atravessaram o campo defensivo do veículo.
Quando começaram a tremeluzir, sabia que aquilo seria o início de
um salto de teleportação que os transportaria para o interior do
blindado.
— Fogo,
O’Keefe! — gritou apavorado. Naquele instante, os quatro vultos
estouraram, transformando-se em bolas de fogo.
Chaney
ainda fitava o mesmo lugar com os olhos arregalados quando o biólogo
inconsciente já se encontrava na comporta de ar do veículo.
O major
continuou calado quando o veículo se aproximava em alta velocidade
da Titan.
Foram
agarrados pelo potente campo antigravitacional da comporta inferior.
Um último golpe de fogo saiu das torres de armas da gigantesca nave.
Chaney
escutou o ruído com os ouvidos ensurdecidos. Rhodan apareceu no
grande hangar-depósito. Os robôs subiram um por um. Lá fora
começou a soprar uma tempestade como nunca se vira igual. Em algum
lugar da nave, ouviu-se o rugido de radiadores térmicos. Mais um
monstro devia ter penetrado na mesma.
Quando o
barulho diminuiu e os propulsores começaram a rugir, preparando a
decolagem da nave, o major Chaney perguntou com a voz débil:
— Nos
piores momentos, quando a situação parecia insustentável, alguns
dos animais estouraram. Como foi isso? Por que aconteceu justamente
nesses momentos? Quem foi o autor daquilo? Terá sido Gucky?
O olhar
vazio de Chaney caiu no rosto do comandante.
— Não,
não foi Gucky. Este teve trabalho de sobra para tirar os homens dos
braços dos monstros.
Chaney
parecia apavorado.
— Não
foi ele? Pois então, quem terá sido? Essas coisas não iriam
explodir sem mais nem menos. Estavam prontos para nos eliminar.
— Não
me venha falar na advertência telepática que recebemos antes do
pouso — disse Rhodan com a voz cansada. — Não faça uma coisa
dessas, senão o pessoal acaba enlouquecendo. Cale a boca.
Rhodan
virou-se abruptamente. A Titan já se encontrava nas camadas
turbulentas da atmosfera. Os cantores ficaram para trás.
Os vultos
pareciam fitar o gigantesco e inatingível couraçado. Além dos
morros esquisitos, havia outra planície. Um lago de amoníaco de
grande tamanho brilhava nas telas.
Foi quando
receberam o chamado da Ganymed, que aguardava no espaço. No
hemisfério sul, a mais de 90 mil quilômetros do lugar em que a
Titan se encontrava naquele momento, haviam encontrado alguma coisa
que não combinava com aquela fábrica de veneno.
Era pouco
provável que o planeta Moof VI tivesse produzido um aço leve de
primeira qualidade, com a superfície reforçada por um processo de
condensação molecular.
A Titan
acelerou violentamente. Junto ao painel de controle, estava sentado
um homem cujos olhos inflamados estavam afundados nas órbitas.
Enquanto
isso, os doentes gemiam na enfermaria.
Uma coisa
era certa: qualquer construção complicada existente em Moof VI não
poderia ter sido levantada pelos moofs, nem pelos cantores.
Outra
coisa certa era que esses seres tão diferentes viviam numa espécie
de simbiose. Os moofs dominavam os irreais. Os aras, por sua vez,
controlavam os seres em forma de medusa. Era uma troca terrível, uma
deformação espiritual surgida no plano de um intelecto inumano, mas
superior.
Os
médicos, os químicos e os biólogos da Titan estavam trabalhando.
Os restos dos monstros mortos foram examinados. Não tinham cérebro.
Na verdade, não tinham nada que os capacitasse para um pensamento
autônomo.
Apesar
disso viviam e atacavam com uma coerência espantosa. Isso só
poderia ser explicado através do processo de tele direção,
perfeitamente possível face às faculdades telepáticas e sugestivas
de criaturas altamente inteligentes como os moofs.
Os
cantores ofereciam um problema atrás do outro. O tecido de seu corpo
não parecia ser orgânico. Orgter só vivia sacudindo a cabeça. Os
químicos falavam em “matérias
artificiais biologicamente ativadas, relacionadas a combinações
desconhecidas e extravagantes surgidas numa área de alta pressão
impregnada de metano e amoníaco”.
Isso não
servia para ninguém, muito menos para os homens responsáveis pela
direção da nave.
Nas telas
da Titan, via-se uma cúpula de aço que emitia um brilho azulado.
Era achatada e pouco abaulada. Com um diâmetro de pelo menos três
quilômetros, jazia em meio a um oceano de amoníaco liquefeito
revolto pelas tempestades.
Há dez
minutos fora localizada pela aparelhagem da Titan, isso depois que a
Ganymed, que se mantinha no espaço, servira de estação
retransmissora.
A nave
esférica aproximou-se lentamente. A energia de todos os geradores
concentrava-se nos campos protetores de três camadas. Os
neutralizadores gravitacionais absorviam apenas 0,3 por cento da
energia.
Novas
informações foram chegando. O coronel Freyt comunicou que o espaço
planetário em torno do sol Moof parecia totalmente deserto. Não
localizaram nenhum eco de corpo estranho.
— Calcule
uma nova órbita — ordenou Rhodan. — Fique parado em cima da área
de destino e mantenha as armas preparadas. Preste atenção às
nossas transmissões.
Freyt
confirmou. Os rastreadores espaciais da Titan mostraram que, após um
ligeiro empuxo, o couraçado se desviava da órbita que vinha
percorrendo.
— Com
isso os que se encontram lá embaixo devem ter perdido o jogo —
disse Everson. Sem querer, massageou as manchas roxas e as contusões
resultantes do abraço que o monstro lhe dera.
A bordo da
nave reinava uma tensão irreal. Irritava e desgastava os nervos.
Aquela enorme cúpula de aço só poderia ser uma construção dos
médicos galácticos.
Com os
sentidos superiores mantidos bem ativos, Gucky anunciou a presença
de inúmeros cantores, cujos estranhos impulsos corporais captava sem
a menor dificuldade.
— Deviam
ter aguardado o momento adequado — disse o Dr. Certch. — Quem
familiariza os outros antes da hora com suas capacidades fora do
comum, não pode surpreendê-los quando isso se torne necessário.
Pouco
abaixo da Titan, que se deslocava lentamente, o cume de uma montanha
começou a derreter. Entrara em contato com os campos defensivos
abertos.
Mais uma
vez, Tifflor e Tanner estavam sentados diante do painel de controle
de tiro. Os relatórios vindos da enfermaria eram satisfatórios. A
partir do momento em que a nave levantara vôo, a inquietação dos
doentes diminuíra. Mas os sinais de decadência física eram
inconfundíveis, informava o Professor Kärner. Rhodan sabia que não
havia tempo a perder.
A margem
do imenso oceano de amoníaco chegou mais perto. Não se via o
horizonte longínquo do gigantesco planeta. Bem antes do ponto em que
o céu devia tocar o solo as nuvens impenetráveis de gás impediam a
visão.
A nave
aproximava-se da face noturna de Moof VI. A estrela amarela desse
mundo estava encoberta por nuvens rasgadas pela tempestade. Raras
vezes, um raio de sol chegava à superfície nesse lugar.
— Distância
da cúpula duzentos e cinqüenta quilômetros — anunciou o capitão
Brian no posto de observação. Cuidado. Os rastreadores energéticos
indicam a presença de usinas atômicas de alta potência. Aquele
pessoal deve estar muito bem armado, e o tamanho da cúpula não é
nada desprezível. Se nada der certo, dispõem de instalações
mecânicas que nada ficam a dever às da Titan.
Eram as
mesmas idéias e reflexões que Rhodan entretinha há meia hora. Se
neste mundo hostil à vida, existisse uma base técnica dos aras, uma
raça altamente desenvolvida, esta estaria muito bem armada.
O
supercouraçado parou perto da costa, exatamente a cinqüenta
quilômetros da cúpula. Os neutralizadores gravitacionais zumbiam,
mantendo-o imóvel apesar da tormenta.
A divisão
matemática e geológica recebera instruções para realizar cálculos
sobre o fenômeno. Rhodan não podia imaginar que o disco de aço
relativamente chato pudesse flutuar no oceano de amoníaco.
Face à
gravitação reinante do planeta, o peso da cúpula devia ser enorme,
pois, apesar de sua forma, não poderia flutuar. Era claro que a
força ascendente do espaço oco cuja existência era incontestável
poderia levar a engano. De qualquer maneira, porém, Rhodan não
acreditava que se tratasse de uma fortaleza ligada ao elemento
líquido.
A Titan,
construída segundo os planos arcônidas, dispunha de um completo
laboratório de pesquisa. Havia aparelhos com os quais se podia
verificar a uma distância enorme qual era a configuração de
determinada área. E nesse caso os rastreadores de substância
constataram que, sem a menor sombra de dúvida, a enorme construção
era cercada de rocha maciça. Concluía-se que fora construída sobre
uma ilha estável, em torno da qual se estendia as massas corrosivas
do amoníaco. Dificilmente a base poderia ser conquistada por alguém
que viesse da terra.
— Já
ouviu falar que se constatou a presença de moofs flutuantes? —
perguntou. Com um rápido gesto de mão, cancelou a pergunta. Era
claro que o comandante havia sido orientado sobre a localização
supersensorial realizada por Gucky.
— Cuidado,
comandante, alguma coisa não está certa. O fato de que esses
monstros não dão mais sinal de sua presença depois de quase terem
alcançado êxito com seu ataque sugestivo dá o que pensar. É pouco
provável que estejam dispostos a renunciar ao seu grande poderio. Se
a ação com os semi-vivos for um fracasso, poderemos experimentar
uma surpresa catastrófica.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça. Era realmente estranho que as
medusas se mantivessem tão calmas. No entanto, boiavam em grupos
enormes no oceano de amoníaco. Everson estremeceu num calafrio e
encolheu os ombros, quando pensou na possibilidade de ter que
mergulhar nesse caldo venenoso.
Janus van
Orgter transferira seu quartel-general para a sala de comando. Estava
pálido e exausto. Só em seus olhos, vivia uma raiva contida. Era um
dos tripulantes da Titan para os quais a condescendência de Rhodan
era mais que perigosa.
Ao menos
oitenta por cento das pessoas, que se encontravam a bordo, eram de
opinião que se devia abrir fogo com todos os meios disponíveis
contra todo e qualquer moof que surgisse diante deles.
— Eco
energético — disseram os alto-falantes do sistema de comunicações
com o posto de observação.
— Intensidade
doze, quatorze, subiu para vinte. Máquinas muito potentes estão
começando a funcionar. Atenção, estamos captando eco de impulsos.
Estamos sendo tateados. Um processo de ultraluz, provavelmente um
hiper rastreador. Fim.
As
palavras proferidas na sala de comando foram ouvidas em todos os
cantos da nave. Os polegares dos homens sempre se mantiveram próximos
aos botões dos campos defensivos individuais. Contava-se com a
possibilidade de que, de uma hora para outra, surgissem novos
cantores, muito embora os médicos afirmassem que o couraçado, que
se mantinha numa altitude de dez quilômetros, estava fora de
alcance.
Os olhos
de Rhodan caíram sobre os indicadores dos geradores do campo
energético. Todas as usinas de força trabalhavam a plena potência
para o campo defensivo. Era impossível que fossem atingidos por um
disparo de radiações que pudesse ser considerado normal.
O
amplificador aproximou o estranho objeto. A imagem de setores
específicos da cúpula de aço era projetada na tela.
— Não
levantaram nenhuma abóbada protetora — comentou Rhodan. — Por
que será? Devem dispor dos conhecimentos técnicos para isso, a não
ser que as criaturas que temos diante de nós sejam totalmente
diferentes do que esperamos.
O Dr.
Certch estremeceu. Lançou um olhar desconfiado para o comandante.
— Ora
esta, comandante. São médicos galácticos!
— Como
pode afirmar isso com tamanha certeza?
— São
mesmo — interveio Gucky com uma estranha indiferença. — Sinto os
impulsos vindos da cúpula. Conheço-os desde o tempo que passei em
Honur. Chefe, não me sinto nada bem. Algum desastre está
acontecendo. A ilha está cercada por inúmeros moofs, e também
cantores. Se pousarmos por lá...
O
rato-castor interrompeu-se. Rhodan fitou seus olhos enormes. Trazia o
corpo alto e ereto ligeiramente encurvado. Uma profunda preocupação
desenhava-se no rosto velho, que parecia tão jovem.
— Sabem
perfeitamente que viemos por causa deles. Devem ter sido informados
de que fomos nós que destruímos os moofs enviados ao planeta Zalit
e com isso impedimos uma revolta contra o Império. A enorme Titan
basta para identificar-nos. Além disso, devem estar informados sobre
os doentes que temos a bordo. A Galáxia tem ouvidos, Perry. E o
senhor nem imagina como esses ouvidos são grandes e sensíveis. As
notícias correm velozmente de uma estrela para outra. Esses caras
sabem que não podemos atirar contra eles, se quisermos encontrar um
remédio contra a doença — falou Certch.
— Se
aquilo ali fosse um forte blindado como qualquer outro, já teria
deixado de existir — respondeu Rhodan numa risada amarga. — Quer
dizer que estamos parados no ar, encontramos o inimigo, mas não
podemos atacá-lo. É uma situação excelente, não é?
— É bem
possível que a inatividade dos moofs resulte do mesmo raciocínio —
interveio Certch em tom nervoso. — Isso me deu uma idéia. Queira
desculpar.
O Dr.
Certch correu apressadamente para as escotilhas da sala de comando.
No mesmo
instante Brian gritou nervosamente no posto de observação. Suas
palavras perderam-se em meio aos gritos generalizados. De uma hora
para outra, uma gigantesca bolha surgiu sobre a superfície do oceano
de amoníaco. Brilhou numa tonalidade branco-azulada, antes que sua
luminosidade se reduzisse a uma débil cintilância.
Dali em
diante, manteve-se inalterada, como se há muito tempo estivesse ali.
— Quer
dizer que é mesmo uma cúpula energética — disse Rhodan, que não
parecia muito impressionado pelo fenômeno. — Seria mesmo um
milagre. Tifflor, dispare um tiro de ensaio com o número dezessete.
Vamos testar a capacidade de resistência.
A torre de
canhões número dezessete dispunha de um radiador térmico de
intensidade média. A mira já havia sido ajustada. Imediatamente
após as palavras de Rhodan, um forte rugido se fez ouvir na parede
esférica da Titan. Massas de ar incandescente foram empurradas para
o lado. O fluxo de impulsos de cinco metros de diâmetro foi mais
rápido que a vista humana.
Um
ribombar surdo passou por todos os compartimentos do supercouraçado.
Bem adiante deles, a abóbada energética do inimigo, que acabara de
ser levantada, emitiu uma forte luminosidade. Descargas terríveis
subiam para o céu. De uma hora para outra, a barreira defensiva
parecia estar entrecortada por fendas luminosas. Apesar de tudo, a
energia foi desviada num ângulo inclinado. Com um trovejar, as
cascatas de fagulhas subiam às nuvens, cuja luminosidade rubra
iluminou o mar sombrio.
— Não
produziu qualquer efeito — informou Brian em tom lacônico. —
Isso aí agüenta muito mais. Provavelmente os campos defensivos
deles são tão fortes como os nossos. Quer dizer que pelos meios
normais nunca conseguiremos penetrar lá.
Rhodan
olhou por alguns segundos para as telas. Depois disse:
— Querem
que morramos de fome por aqui. Ah, já estão nos cumprimentando.
A
trajetória de tiro foi tão rápida que a inteligência não
conseguia acompanhá-la. Rhodan não se abalou; deixou que o disparo
produzisse seu impacto nos campos defensivos da nave. Também aqui
houve um desvio total da descarga energética. As energias
remanescentes foram absorvidas e conduzidas aos protetores da nave. A
gigantesca Titan sacudiu-se ligeiramente. E foi só.
— Também
não dispõem de muita coisa. De qualquer maneira, prefiro não
utilizar nossos canhões superpesados — disse Perry em voz baixa. —
Pela própria natureza das coisas, um forte blindado sempre será
superior a uma nave de tamanho igual, porque não tem necessidade do
mecanismo de propulsão. E o espaço liberado permite a instalação
de algumas unidades energéticas adicionais. Apesar de tudo,
dificilmente resistiriam aos projéteis mais pesados de nossa nave.
Tampinha...
Gucky
estremeceu. Correu apressadamente em direção ao assento do piloto.
— Tampinha,
será que você teria coragem de entrar nessa casa de marimbondos?
Seria apenas uma pequena brincadeira.
O
rato-castor cresceu alguns centímetros. Tinha uma paixão toda
especial pelas brincadeiras perigosas.
— Estou
disposto a entrar na brincadeira, comandante — chiou. — Quais são
as ordens?
— Você
é o único teleportador de que ainda disponho. Nossos armeiros lhe
darão uma bolinha preta. Depois de ligar o detonador, você vai
depositá-la no lugar em que ficam os maiores geradores. Depois
veremos o que será feito da abóbada defensiva dos nossos amigos.
Gucky
exibiu o dente roedor. Seria um quadro bastante alegre, se em seus
olhos castanhos não surgisse um brilho tão estranho.
Poucos
minutos depois, foram transmitidas as instruções. Os comandos de
robôs, que estavam prontos para a ação, entraram nos campos
antigravitacionais.
Tanques
equipados com terríveis armas de radiação foram avançando. Os
membros dos comandos de desembarque entraram em forma.
Na sala de
comando, Rhodan dirigiu-se ao mutante Wuriu Sengu. O forte japonês
maciço ouvia atentamente, inclinando a cabeça.
— Sobrevoarei
a cúpula, para que você possa dar uma olhada lá dentro. Indique o
lugar em que Gucky terá de materializar-se depois de seu salto de
teleportação. Pelo que calculo, existe lá embaixo um pavilhão de
reatores que deve ter o tamanho de cinco casas de máquinas da Titan.
É lá que o Tampinha deve pousar.
O espia,
cuja especialidade consistia em romper oticamente qualquer objeto ou
parede compacta, confirmou com um simples aceno de cabeça. Poucos
segundos depois, a nave de guerra começou a deslocar-se.
Foi nesse
momento que Rhodan captou a segunda advertência; apenas, desta vez
os impulsos eram menos intensos que os que recebera pouco antes do
primeiro pouso.
— Fiquem
onde estão. Perigo. Não poderemos fazer mais nada por vocês. Não
continuem. Não continuem; voltem.
O sentido
da mensagem surgiu nitidamente no cérebro de Rhodan. Gucky
compreendeu-a ainda mais claramente.
— Quem é
você? — respondeu o ser peludo. — Responda, amigo. Suas
intenções são boas, não são?
— Minhas
intenções são boas
— foi a resposta. — É
o último aviso que lhes dou. Vocês estão desobedecendo a vocês
mesmos. Afastem-se. Vocês nunca conseguirão conquistar a fortaleza
dos estranhos.
— Quem é
você?
— Meu
nome é Trorth, mas isto não importa. Afastem-se. Não se aproximem
mais. É o último aviso que lhes dou.
Gucky
continuou a interrogar. Não obteve mais nenhuma resposta telepática.
— Quer
dizer que apesar de tudo temos amigos — disse Rhodan em tom
nervoso. — Tampinha, como é o cérebro daquele desconhecido?
O
rato-castor abriu os bracinhos.
— Não
faço a menor idéia, chefe. Não consegui penetrar lá. Deve ser uma
coisa muito estranha. De qualquer maneira, não havia nenhum ódio
oculto em suas vibrações.
Rhodan
desistiu. Fosse como fosse o desconhecido, não poderia fazer mais
nada para modificar a situação.
Com uma
perigosa lentidão, a Titan passou por cima da abóbada energética.
Os campos defensivos quase chegaram a tocar-se. O inimigo não
esboçou nenhuma reação.
— As
unidades energéticas ficam bem no fundo da rocha — informou Sengu.
— É um recinto gigantesco. Ao que parece foi queimado na rocha.
Era tudo
que Rhodan queria saber. Após trinta minutos, o rato-castor se
apresentou. Usava um traje protetor especial, em cujo cinto estava
pendurada uma bola de metal do tamanho de uma cabeça humana.
Gucky deu
mais um relance de olhos pelo pavilhão, antes de comprimir o bastão
do detonador. Não havia ninguém. O funcionamento das máquinas
gigantescas era inteiramente automático.
Pouco
depois, Gucky se materializou a bordo da Titan. Menos de vinte
segundos após a volta, teve início a reação desencadeada pela
bomba. Não seria possível recorrer a uma arma nuclear explosiva,
pois com isso se correria o risco de destruir toda a cúpula.
Bastaria provocar o colapso do campo defensivo.
Na casa de
máquinas, surgiu um campo gravitacional turbilhonante de cinco
dimensões, cujo volume energético ia crescendo à medida que outros
hiperelementos ávidos para entrar em reação iam sendo atingidos. E
uma coisa que não faltava nos conversores de impulsos da gigantesca
usina de força eram os hiperelementos.
O alarma
no interior da cúpula veio atrasado. Teria sido tarde, mesmo que
alguém tivesse visto Gucky no momento em que este acionou o
detonador.
Um uivo
surdo subiu das profundezas da rocha. Espirais luminosas
tremeluzentes saíam dos canais de ventilação e de outras
aberturas. Reator após reator deixava de funcionar automaticamente
no momento em que os hipercatalisadores dos conversores de impulsos
começavam a participar do processo desencadeado pela bomba. Não
houve nenhuma destruição na verdadeira acepção do termo. Quando o
campo energético deixasse de ser alimentado, morreria por si.
O que
ficou foi um misterioso ondular e ruminar na atmosfera de oxigênio
do interior da cúpula. Ainda havia as máquinas de alta potência
que deixavam de funcionar, e cuja energia térmica já não absorvia
face à falha dos conversores. Em toda a Galáxia, não havia nenhum
gerador nuclear que não se desligasse automaticamente no momento em
que falhasse o elemento de consumo de energia. E 99 por cento da
energia era consumida pelo campo energético que cercava a cúpula.
— Foi
tão simples! — disse Gucky em tom de decepção, quando a barreira
energética, que há pouco ainda parecia invencível, emitiu uma
débil fosforescência e caiu sobre si mesma.
Rhodan não
esperou um segundo sequer além do necessário. O supercouraçado
entrou em movimento. Rapidamente venceu a distância que separava o
litoral da festa montada na ilha. Só faltava inutilizar o armamento
pesado da poderosa construção com bastante rapidez, a fim de que as
tropas de desembarque não ficassem expostas a um fogo concentrado. O
campo energético do traje protetor arcônida seria capaz de
neutralizar o disparo de uma arma manual, mas nunca os raios
mortíferos das peças de artilharia.
Os
propulsores rugiram e os neutralizadores de pressão emitiram um
ruído zangado. A Titan parou bem em cima da ilha.
As
posições de artilharia do lado sul já haviam sido localizadas por
meio das estações de observação energética e a pontaria
automática havia sido programada de acordo com essa localização.
Rhodan
limitou-se a fazer um aceno de cabeça em direção ao painel de
controle de tiro. Tifflor e Tanner usaram os dez dedos de suas mãos
para comprimir as teclas verdes dos desintegradores.
Só se
ouviu o uivo abafado dos conversores estruturais. Não era o rugido
ensurdecedor dos canhões de impulsos, cujos feixes incandescentes
eram contra-indicados numa operação desse tipo.
Sem o
menor ruído, praticamente invisíveis na atmosfera nevoenta e
agitada, os feixes de ondas saíram dos campos com a direção
uniformizada.
Ao que
tudo indicava, lá embaixo não acontecera nada.
— Cuidado!
— gritou alguém pelo intercomunicador de bordo.
O grito
era supérfluo. Antes que alguém pudesse agir, as faixas
incandescentes já haviam chegado. A fortaleza abrira fogo antes que
suas posições de artilharia pudessem ser destruídas.
Uma
verdadeira fogueira atômica envolveu a nave, que permanecia imóvel.
Era um fogo potente e altamente concentrado. Parecia confirmar a
teoria de Rhodan sobre o tremendo poder de fogo de uma fortaleza
estacionaria.
Um ruído
ensurdecedor encheu todos os compartimentos da gigantesca nave. A
esfera viu-se transformada num sino vibrante. Por um instante,
teve-se a impressão de que os campos defensivos entrariam em
colapso.
Rhodan
colocou o polegar sobre o botão fortemente assinalado do suprimento
energético de emergência. Até mesmo as usinas de reserva situadas
na parte inferior da gigantesca nave tiveram de entrar em ação para
cobrir as necessidades energéticas, que experimentaram um aumento
repentino com a enorme solicitação a que ficou sujeito o campo de
força. As armas defensivas da Titan nunca haviam sido submetidas a
uma prova tão dura.
Rhodan viu
que seu imediato, Everson, foi atirado para a frente com os
solavancos da nave. Depois os cintos de segurança apoiaram-no.
Surgiram
os impactos lá embaixo. Apenas demorara uma fração de segundo. As
últimas descargas tremeluziam sobre a barreira de defesa tríplice
da Titan, quando a cúpula da fortaleza se abriu em exatamente vinte
e dois pontos.
As
aberturas surgiram com um silêncio fantasmagórico. No início, as
bordas começaram a desmoronar, mas logo se tornaram lisas, até que
as fendas, aumentando rapidamente, se transformaram em buracos de
extremidades lisas, que pareciam ter sido abertos por uma prensa.
Não houve
nenhuma produção de calor, e não se notou qualquer incandescência.
Em compensação aconteceu alguma coisa que só poderia acontecer
dessa forma num planeta superpressurizado.
Se a
fortaleza ficasse no espaço vazio, toda sorte de objetos seria
atirada para fora das aberturas. Mas aqui não houve nenhuma
descompressão explosiva. Antes, verificou-se uma implosão com a
súbita penetração da atmosfera venenosa.
Seguiram-se
os fenômenos luminosos, que já eram esperados pelos físicos da
Titan. A atmosfera de oxigênio contida na cúpula perfurada em vinte
e dois pontos entrou em contato com os gases de metano, formando uma
mistura explosiva que foi incendiada pelos canhões energéticos
superaquecidos.
Gigantescas
labaredas saíram das aberturas. Desta vez, os fragmentos foram
atirados para o alto. Daí se concluía que já houvera certa
compensação de pressões. Mas dali ainda se devia concluir que as
pesadas escotilhas de segurança não haviam sido esquecidas durante
a construção da fortaleza. Talvez os postos de artilharia
estivessem totalmente destruídos, mas não as outras instalações
da gigantesca cúpula.
Mais uma
vez Rhodan não perdeu tempo. Logo após os primeiros impactos, as
armas térmicas da nave começaram a rugir. O trecho do mar que se
estendia junto à ilha foi varrido por feixes de raios bem
espalhados.
O fogo de
barragem que devia proteger as tropas de desembarque contra a
aproximação dos moofs transformou-se num rugido ensurdecedor. A
Titan começou a mostrar seu poderio.
A nave
baixou mais. Quando se encontrava a exatamente 1.200 metros sobre o
borbulhante oceano de amoníaco, voltou a imobilizar-se.
Ainda se
encontrava fora do alcance de teleportação dos terríveis seres,
que numa espécie de ironia fúnebre haviam sido batizados como
cantores.
Do
planejamento estratégico partiu-se para a ação ofensiva tática.
De certa maneira, foram seguidas as diretrizes clássicas, apenas as
armas utilizadas eram outras, muito mais potentes.
Rhodan
sentiu as vibrações telepáticas dos moofs que batiam em retirada.
Nunca passariam por essa parede de fogo.
— Desembarcar
os robôs. Grupos de segurança — soou a voz de Rhodan em todos os
alto-falantes.
Três mil
máquinas de guerra arcônidas, auto dirigidas e dotadas de
raciocínio próprio, desceram das comportas sob a proteção dos
campos antigravitacionais. Foram seguidas pelos blindados dirigidos
por robôs.
Começaram
a disparar enquanto ainda desciam. Os alvos eram as aberturas feitas
pelos impactos, que teriam que ser mantidas livres dos cantores.
Dois
minutos depois do desembarque dos robôs de combate de quatro braços,
seguiram os homens. O grupo era chefiado pelo major Chaney. Rhodan
preferira reservar sua intervenção pessoal para o caso de um
acontecimento extraordinário.
Quatrocentos
homens saíram pelas comportas do supercouraçado. Desceram
rapidamente em direção às aberturas da cúpula, cuja área já
fora limpa pelos robôs. Por ali não havia mais nada que pudesse
representar um perigo para qualquer ser humano.
— Everson,
mantenha a nave numa altitude segura — foi a última ordem que
Rhodan deu antes de saltar.
Nos fones
de ouvido soaram os comandos dos oficiais. As aberturas dos impactos
foram tomadas de assalto por vários grupos. Rhodan avançou em
companhia de Gucky para o lugar em que se encontrava o tenente
Tifflor. Os trinta e cinco homens do grupo comandado por ele estavam
prestes a mergulhar de cabeça na abertura de menos de cinqüenta
metros de diâmetro.
Foram
seguidos por robôs especializados; por enquanto não se notava a
presença de ninguém.
— Vou
dar uma olhada por aí, chefe — disse o rato-castor pelo rádio de
capacete.
Rhodan
levantou a mão. Gucky desapareceu, dando mais um salto de
teleportação.
Viu-se num
enorme pavilhão com grande quantidade de armamentos destruídos.
Dois tiros
da arma portátil do robô foram suficientes para romper a parede dos
fundos da comporta.
— Segurem-se!
— gritou Rhodan antes de surgir o furacão.
A
atmosfera supercomprimida do planeta penetrou com um chiado nos
compartimentos situados atrás da parede aberta pelo tiro. Tudo que
não estava preso ao solo foi arrastado.
Rhodan
sentiu que suas mãos se soltavam. Os dedos doloridos abriram-se aos
poucos. De repente chegou a hora.
Juntamente
com os outros homens foi arrastado pelo chão. A viagem de trenó só
findou depois de terminada a compensação da pressão.
— Não
utilizem armas térmicas — soou o grito estridente de Tifflor pelo
rádio. — Há perigo de explosão. Temos uma mistura de gases muito
perigosa.
Rhodan
lançou um olhar para o enorme pavilhão. As instalações, que
segundo tudo indicava pertenciam a um grande laboratório, haviam
sido quase totalmente demolidas. Ainda desta vez não encontraram
nenhum ser vivo.
Procurou
um canto tranqüilo e dali dirigiu a ação dos diversos grupos. Um
rugido e um ribombar surdo aproximou-se. Eram os homens dos comandos
especiais que avançavam.
— Não
enfrentamos nenhum fogo, não encontramos a menor resistência —
disse o major Chaney pelo aparelho de comunicação audiovisual. O
rosto, um tanto deformado pelo campo defensivo, surgiu na tela do
receptor portátil.
— Continue
a avançar no seu setor. Mantenha-se em contato comigo e com os
grupos vizinhos.
O ataque
prosseguiu. Ninguém poderia detê-lo. Se houvesse aras por ali, não
resistiriam à tremenda energia dos humanos.
Rhodan
lembrou-se de uma frase que Crest, o arcônida, pronunciara em certa
oportunidade. Para ele, o homem era a única criatura da Galáxia que
se parecia com os conquistadores arcônidas das épocas mais remotas.
— Cantores!
— o grito ressoou nos fones de ouvido. — É o tenente Hathome do
grupo dezesseis. Acabamos de entrar num pavilhão que está cheio
desses monstros plásticos. Estão atacando.
— Retirem-se,
procurem fechar algum corredor. Garand, que tal vai a operação de
arejamento?
— Insufladores
funcionando. Análise do ar satisfatória. A mistura de metano e
oxigênio em todos os recintos inundados desceu a um nível
inofensivo — informou o engenheiro-chefe da nave.
Rhodan
esforçou-se para ouvir o canto agudo do turbo-ventilador. Era um
aparelho por demais eficiente, que conseguiu vencer a densidade
gasosa do planeta Moof VI.
A análise
do ar foi realizada por robôs especializados.
O tenente
Hathome, que passara pela prova dos combates travados em Honur,
mandou suspender o fogo insensato dos desintegradores manuais. Os
monstros não reagiam ao mesmo. No momento em que seus homens bateram
em retirada, Rhodan transmitiu a ordem decisiva:
— Todos
os comandos têm permissão para abrir fogo com as armas térmicas. O
perigo de explosão foi removido. O ar externo está sendo insuflado
em todos os compartimentos e a mistura gasosa, expelida. Podem
começar.
Foi
Hathome quem no último instante se deitou atrás do canhão portátil
de impulsos e abriu fogo contra o monstro que se aproximava.
O ser
desmanchou-se na incandescência expelida pela arma. Mais atrás um
homem gritou; estava sendo enlaçado por um cantor. Demorou apenas
alguns segundos até que Gucky aparecesse. Dali em diante, a coisa
não teve a menor chance.
— Avisem-me
pelo rádio assim que alguém for agarrado — soou a voz do
rato-castor em meio aos berros.
Era um
inferno. Cada grupo dependia de seus próprios recursos. Os robôs de
combate, que se encontravam do lado de fora, estavam empenhados numa
luta encarniçada contra os monstros que se teleportavam para o
local. O inimigo havia colocado milhares deles na ilha, já que
esperava uma operação de desembarque.
A medida
produziu um resultado às avessas. Não conseguiam penetrar na
fortaleza, pois teriam que romper as linhas de robôs e a barreira de
fogo erguida pela Titan.
Rhodan
aguardava.
*
* *
Levaram
duas horas, tempo de bordo, para atingir os compartimentos internos
da cúpula. De fora, esta com seus gigantescos salões, pavilhões e
corredores circulares, parecia intacta. Do lado de dentro, estava
transformada num montão de destroços.
Há um
minuto tiveram o primeiro contato direto com o inimigo. Encontraram
um ser humanóide delgado de pele branca e constituição débil.
Estava morto.
Rhodan
inclinou-se sobre o rosto cinzento e inexpressivo com os olhos
enrijecidos.
— Um ara
— disse pelo rádio. — São os mesmos tipos que encontramos em
Honur. Onde estarão os outros?
— Atrás
dessa porta — disse Tifflor, cansado. Seu rosto parecia uma máscara
atrás da luminescência do campo defensivo. — Comandante, é uma
coisa horrível. O grande portão à sua esquerda leva a uma espécie
de laboratório gigante. Ali encontramos pedaços dos monstros com
que vivemos lutando.
— Pedaços?
— gaguejou Rhodan.
— Sim
senhor. Os biólogos já estão lá dentro. Pelo que dizem, trata-se
de uma grande usina destinada à produção de vida sintética. Os
caldeirões estão fervendo e borbulhando.
Sem dizer
uma palavra, Rhodan correu para o recinto contíguo. Sacudido de
pavor, parou. As instalações inteiramente automatizadas ainda
estavam funcionando. Até parecia uma fábrica de automóveis, onde
as diversas peças são colocadas numa fita de montagem. Tratava-se
de uma forma misteriosa de vida sintética pulsante, que no fim da
linha de montagem saía da máquina fumegante sob a forma de
mangueira de borracha. Aquilo que as fitas transportavam vivia, mas
não pensava.
O biólogo
Janus van Orgter fez uma constatação. Os monstros só podiam agir
quando fossem dirigidos por uma vontade potente. Provavelmente os
médicos galácticos os vendiam para serem utilizados como forças
auxiliares.
Rhodan deu
uma ordem:
— Tifflor,
arrebente as fitas e as máquinas a tiro. Saiam todos, inclusive os
cientistas.
Nesse
instante, ouviu-se o grito de socorro de Gucky. Todos perceberam a
voz aguda nos fones de ouvido.
— Estou
no setor residencial. Venham depressa. Os aras estão fugindo para
uma nave espacial. Está perto de mim. Acho... acho que não agüento
mais. Estou exausto. Venham.
Um
ribombar surdo abafou os ruídos das armas e dos exaustores. O ruído
cresceu num uivar agudo que, depois de atingir um ponto máximo,
afastou-se rapidamente.
Rhodan
chamou a Ganymed. O coronel Freyt apareceu na tela.
— OK,
comandante, já os localizei. Não irão longe — disse
tranqüilamente. — Conseguiram pegar algum aí embaixo?
— Estou
segurando três aras — gemeu Gucky. — Eles se defendem. Venham
logo.
Rhodan
desligou. Enquanto uma pequena nave surgia no espaço e os disparos
das peças de artilharia de uma das faces da Ganymed perseguiam o
veloz fugitivo, o grupo de Tifflor voltou a avançar. As últimas
paredes divisórias desmoronaram sob a ação dos desintegradores.
Num
pequeno compartimento, encontraram Gucky diante de três seres
estranhos. Pareciam grudados nas paredes. Usavam fortes trajes
espaciais, capazes de resistir à pressão dos gases do planeta.
Punhos
vigorosos arrancaram os seres indefesos da energia telecinética que
os prendia. Pouco depois, Wuriu Sengu informou que não encontrara
mais nenhum ara.
Passaram-se
mais cinco minutos até que os robôs e os homens revistassem a
cúpula. Os três prisioneiros já estavam sendo submetidos a
interrogatório hipnótico a bordo da Titan.
Quando
Rhodan chegou, já dispunham do resultado.
Os rostos
dos médicos Hayward e Kärner pareciam enrijecidos. Rhodan estacou.
Tateou à
procura de uma poltrona articulada arcônida, que logo se ajustou ao
seu corpo.
— Espero
que não venham me dizer que o interrogatório não produziu nenhum
resultado — disse.
O
Professor Kärner pigarreou. Gotículas de suor cobriam sua testa.
— O
interrogatório deu resultado, mas diria que foi um resultado
negativo. Esses seres dispõem de pouca resistência psíquica. O
interrogatório hipnótico penetrou no último recanto de seu
espírito.
— E daí?
— Para
nós foi um resultado negativo, como já disse. Esta base serve
exclusivamente à fabricação de vida sintética. Os monstros aqui
produzidos eram levados pelas naves dos médicos galácticos. Os aras
que se encontravam aqui não tiveram nada que ver com os
acontecimentos que se desenrolaram no planeta Honur. Nem desconfiam
de que temos doentes a bordo. As declarações são perfeitamente
plausíveis, pois devemos considerar o fato de que os aras estão
divididos em inúmeros clãs.
Rhodan
cobriu o rosto com as mãos.
— Foi em
vão — a idéia martelou o cérebro de Rhodan. — Tudo em vão.
Kärner
prosseguiu tranqüilamente:
— Esta
missão foi um fracasso. Partimos de um falso pressuposto. Os aras
que viviam aqui já nos conheciam, mas em virtude dos acontecimentos
do planeta Zalit, não por causa da intoxicação. Foram eles que
levaram os moofs para lá e lhes ordenaram que fomentassem a revolta
através de influências sugestivas exercidas sobre as classes
dominantes. Aqui não existe nenhum remédio para nossos doentes.
Os braços
de Rhodan pendiam molemente. Seus olhos inexpressivos fitavam o nada.
— E
agora?
— Uma
das informações que obtivemos assume certa importância —
interveio Hayward, lançando um olhar de recriminação para Kärner.
— Os aras possuem mundos centrais, onde se desenrola o comércio
com outras raças. Se o antídoto existe, só pode ser encontrado no
mundo que os prisioneiros chamam de Aralon. Ali existe um tipo de
central de vendas de produtos médico-farmacêuticos, que dispõe dos
mais variados medicamentos. Além disso, ali existem alguns
dirigentes dos aras. Os prisioneiros têm certeza que nesse mundo
poderíamos encontrar auxílio. Como fazê-lo, isso naturalmente já
é outra questão.
— Se for
necessário, eu os obrigarei a ajudar. Dou-lhes minha palavra —
disse Rhodan com a voz entrecortada. — Tranque os prisioneiros e
dê-lhes mantimentos. A cúpula será destruída.
— E os
moofs? — lembrou Everson.
— Deixe-os
onde estão. Não há motivo para preocupar-se com eles se os seres
que os manipulavam desapareceram.
— Estes
monstros representam um perigo. O planeta deve ser destruído —
resmungou o Dr. Certch.
O rosto de
Rhodan parecia magro e enrugado.
— Deixe
que os moofs fiquem com seu mundo. São inofensivos. Nunca sairão do
pântano de amoníaco em que estão mergulhados, a não ser que algum
elemento criminoso os leve. Pouco importa como são eles. Peço que
faça seus cálculos sobre a conduta provável do cérebro
robotizado.
— Pretende
voltar para Árcon? — perguntou Certch espantado.
— Será
que o senhor sabe onde fica esse planeta dos aras que costuma ser
designado pelo nome Aralon?
Rhodan
levantou-se. Estava cansado. Nesse instante Gucky entrou na sala de
comando.
— Nosso
amigo acaba de chamar — disse. — O tal do Trorth. Temos que
descer, pois ele não pode sobreviver em nossa atmosfera.
— Trorth?
Sim, naturalmente. Tifflor, Dr. Orgter, queiram vir comigo. Tiff,
desembarque dez homens que montarão guarda. Não quero ser
surpreendido pelos moofs.
— O
diabo que carregue esses bichos — disse Everson entre os dentes. —
Tome cuidado, comandante.
*
* *
Desceram
nos seus trajes antigravitacionais. Subitamente, num movimento de
pânico, levantaram as armas.
Os
radiadores térmicos ainda estavam seguros nas mãos dos homens. Foi
só por causa do grito agudo de Gucky que não dispararam.
Trorth
viera só. Era uma criatura solitária e desamparada, cujos tocos de
perna descansavam no solo cristalino. O corpo de medusa balouçava ao
vento, e os grandes olhos que se abriam no centro da cabeça estavam
arregalados. Com seus dois metros de altura e metro e meio de
largura, erguia-se diante dos homens. Não possuía arma, e nunca
possuíra.
Gucky
choramingava. As patas rosadas cobriam o ouvido por baixo do campo
energético.
— Não,
não voltem a atirar — disse o suave impulso telepático que tocou
o cérebro de Rhodan. — Vocês atiraram demais e mataram muitos de
nós. Por quê? Meus irmãos estão chorando. Não fizemos o possível
para obrigá-los a decolar, utilizando nossos dons naturais, depois
que pousaram apesar da advertência que lhes havíamos dado? Vocês
atiraram contra nós. Foi uma coisa horrível. Não fizemos mais
nada. Apenas tentei outra vez entrar em contato com vocês, mas
voltaram ao ataque. Ajudamos sempre que pudemos. Seus amigos viram-se
em situação difícil. Por isso reunimos todas as nossas forças e
destruímos os seres sem vida. Eles se desmancharam em bolas de fogo.
— E as
baixezas que vocês andaram fazendo em Zalit? O que devo pensar
disso? — perguntou Rhodan. — Foi só por causa disso que
acreditamos que os moofs são inimigos ferozes do Império.
As armas
desceram em direção ao solo. Gucky traduziu mensagens telepáticas
em sons inteligíveis.
— Sei
disso — respondeu o moof.
A tormenta
tornou-se mais forte. Orgter lembrou-se da oportunidade em que,
depois do primeiro pouso, foi arrastado pelo chão.
— Estamos
envergonhados — disse Trorth. — Só podemos pedir sua
compreensão, pois uma criança não é um sábio. Não sei se entre
vocês também existem crianças, isto é, seres que ainda não têm
vontade própria.
— Crianças?
— gemeu Rhodan. — Quer dizer que os moofs de Zalit foram as
crianças de vocês.
— Os
aras abusaram delas, depois de seqüestrá-las. Não sabiam o que
estavam fazendo. Sei perfeitamente que não há desculpa para isto.
Não estamos interessados no poder político. Quando vocês chegaram
imaginávamos que vocês faziam uma idéia errada a nosso respeito.
Já lhes perdoamos tudo. As coisas não são tão ruins assim; está
tudo esquecido. Sentimo-nos felizes quando podemos conversar com
seres vindos de outras estrelas. Sabemos que existe um Império,
embora nunca tenhamos visto as estrelas. Muitos seres estranhos já
pousaram neste planeta, até que um belo dia apareceram os aras e
começaram a criar aqueles seres. Foram inimigos mortais de nossa
raça. Ainda pretende atirar contra nós?
O ser
estranho sentiu os impulsos de desespero e auto-recriminação.
Aproximou-se desajeitadamente.
— Lamento
de todo coração que tenha acontecido uma coisa dessas — cochichou
Rhodan.
— Podemos
ajudar em alguma coisa? — a mensagem do moof foi em tom
tranqüilizante. — Esqueça, esqueça o que aconteceu aqui. Todos
erramos. Não pude chamar mais cedo, pois você não teria acreditado
em mim. Resolvemos dar demonstrações de boa vontade até que sua
inteligência compreendesse nossas verdadeiras intenções. Você
ainda precisa de auxílio. Vejo em seu espírito que muitos dos seus
irmãos estão doentes.
*
* *
O homem e
o monstro separaram-se depois de duas horas de palestra. Rhodan e
seus companheiros estavam arrasados no seu íntimo e sentiam-se
martirizados pela auto-recriminação, enquanto os moofs sentiam uma
alegre expectativa. Cinqüenta deles subiriam a bordo da Titan, para
ajudar o homem na procura do medicamento. As faculdades telepáticas
e sugestivas desses seres poderiam representar uma ajuda inestimável.
— Dr.
Garand, faça o favor de adaptar alguns compartimentos da nave,
transformando-os em câmaras pressurizadas — ordenou Rhodan quando
retornou à nave. — Crie condições que permitam a sobrevivência
dos moofs. Não se espante, estou falando sério. Faça o favor de
providenciar os recintos pressurizados. Nossos amigos subirão a
bordo assim que os mesmos estiverem prontos. Nossos amigos, entendeu?
Seus olhos
seguiram o comandante que se afastava.
Lá fora
uivava o furacão. Junto à nave, os corpos deformáveis dos moofs
moviam-se ao ritmo das rajadas turbulentas.
*
* *
*
*
*
Mesmo
no encontro de homens que falam a mesma língua às vezes não se
consegue evitar a ocorrência de enganos que levam a conflitos
trágicos. É claro que, no primeiro encontro entre o homem e o
monstro, a probabilidade da ocorrência de um conflito trágico é
muito maior, já que este constitui um resultado natural do
desconhecimento mútuo. De qualquer maneira, os homens que pousaram
no planeta Moof tiveram de aceitar uma lição amarga.
Em
Aralon, o Centro de Epidemias, a próxima aventura de Perry Rhodan
acontece exatamente o contrário. Serão os terranos que darão uma
lição aos aras.

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