— Não
diga besteira, Topthor, ganhamos a batalha e estamos nos preparando
para acabar de destruir a Terra. Só mais uma hora e...
— Um
grande erro — interrompeu-o Topthor, sorrindo, o que o patriarca
não podia naturalmente ver. — Um grande erro. Você podia poupar
sua bomba e...
Topthor
parou sem querer, pois neste segundo sua tela escureceu. A imagem de
Cekztel desapareceu e ao mesmo tempo cessou o leve zumbido da
aparelhagem. As lâmpadas de controle apagaram. A instalação toda
havia desligado por si.
Antes que
Topthor pudesse compreender o que se passava, ouviu uma voz sibilante
atrás de si.
— Vire-se,
mas tire a mão da pistola.
Topthor
obedeceu, virando-se vagarosamente.
*
* *
Deringhouse
não era tão ingênuo assim.
— O que
vamos fazer no planeta Aqua, Gucky? — perguntou ele cauteloso,
hesitando quanto ao próximo hipersalto. — Lá não existe nada.
— Quem
sabe, existe — respondeu o rato-castor, desenhando um triângulo
quase eqüilátero numa folha de papel. — Quem sabe existe mesmo
muita coisa.
— Não
compreendo, não, Gucky.
— Então,
vou lhe explicar, chefe. O bom Topthor está em Aqua, para gozar
férias especiais. Eu gostaria de abreviar estas férias, antes que
ele faça bobagem.
— Topthor?
— perguntou Deringhouse perplexo, como que atingido por um choque
elétrico. — Topthor?
— Exatamente
— disse Gucky radiante e ao mesmo tempo suplicante, no seu olhar de
cão fiel. — Você sabe, o chefe me prometeu uma coisa, se eu
encontrasse Topthor. Sabe o que vou receber, quando o deixar fora de
combate e destruir sua espaçonave?
— Você
sozinho? — admirou-se Deringhouse, olhando já agora para o mapa
sideral. — Eu também gosto de ser amigo de Rhodan.
— O que
você vai fazer com uma meia dúzia de alqueires de cenoura? —
perguntou Gucky. — Basta que nossa nave passe a uns mil quilômetros
de Aqua.
— Devo
avisar Rhodan...
— Mais
tarde, major. Não se pode saber se nesse meio tempo Topthor já se
comunicou com Cekztel.
Deringhouse
concordou e apanhou a calculadora.
Três
minutos mais tarde, a Centauro surgiu perto de Aqua, descendo em
parábola até se aproximar da camada atmosférica.
— Então,
Gucky? — perguntou Deringhouse, virando-se para trás. — Você
está conten...
O major
interrompeu a palavra. Gucky já não estava mais na cabina, havia
desaparecido sem deixar rastro.
Então,
Deringhouse não hesitou mais em noticiar tudo imediatamente a
Rhodan.
*
* *
Quando o
planeta das águas apareceu na tela, Gucky se concentrou e pulou.
Assim que sentiu chão firme debaixo dos pés, respirou aliviado. Era
sempre um grande risco pular no nada, mas Gucky teve sorte. Estava no
alto de um morro sem vegetação, que emergia íngreme do meio da
mata virgem, proporcionando um magnífico panorama. Isso não
interessava muito a Gucky, mas a busca foi muito facilitada pelo fato
de que Aqua possuía apenas um continente, que não era tão grande
assim.
Olhou para
o sol quase a pino, sentou-se numa pedra lisa e fechou os olhos.
Tinha que ouvir o que não podia ver. Do contrário, não encontraria
sua presa.
E sua
presa se chamava Topthor. Concentrou-se para captar os impulsos de
pensamento do superpesado, o que devia ser mais difícil do que no
espaço livre. Para sua surpresa, porém, percebeu logo nos primeiros
segundos partes de pensamentos, que sem dúvida vinham de saltadores
e de tópsidas.
“Saltadores
e tópsidas! Na mesma direção?”
Gucky
virou a cabeça; a distância, naturalmente, não podia calcular, mas
a direção, sim.
— Puxa,
saltador e tópsida em harmoniosa conversa, que surpresa! Isto tem
que ser examinado de perto. Quem sabe Topthor pode estar por perto —
murmurou.
Procurou
localizar bem a direção e se teleportou para o próximo morro.
Depois da terceira teleportação, viu duas naves: ou melhor,
escombros de duas naves, próximas uma da outra, num planalto
pedregoso. Gucky realmente se espantou:
— Puxa!
A Top II, se não me engano. Que coisa maravilhosa!
Enfiou a
mão num bolso de couro da cintura, tirando dali um objeto metálico,
do tamanho de um ovo de galinha, a bomba atômica. Pegou-a com
cuidado, regulou o detonador, apertou um botão, olhando para que se
mantivesse nesta posição, Se o soltasse, a bomba teria cinco
segundos para explodir. Pulou para dentro da nave e se materializou
na cabina de comando que pertencera a Topthor. O oficial que estava
de plantão, sentado no sofá, arregalou os olhos espantado e se
levantou num pulo para ver melhor a estranha aparição. Tinha arma
na cintura, mas não fizera menção de usá-la. Olhava horrorizado
para o rato-castor que surgira do nada, segurando um objeto metálico
na mão, como se quisesse atirá-lo.
— Se
você for bonzinho, lhe darei uma coisa — disse Gucky no mais puro
intercosmo, que deixou o superpesado ainda mais perplexo.
Conseguiu
apenas balbuciar:
— O que
você vai me dar?
— A vida
— disse-lhe Gucky triunfante, mostrando-lhe a bomba. — É
poderosíssima, se eu a soltar, explode imediatamente e haverá então
um buraco enorme neste trecho do planeta. Portanto, não faça
bobagem. Vá para o ar livre lá fora e reúna os outros.
— Os
outros? — disse o pobre superpesado, sem compreender nada. — Quem
é você?
— Sou
Gucky. Nunca ouviu falar no meu nome? Meu melhor amigo se chama Perry
Rhodan.
— Rhodan...?
— exclamou o bem nutrido guarda. — Rhodan está aqui?
— Na
redondeza, bem perto. E agora, chame os outros lá para fora. Eu
queria dizer umas palavras a eles. Chame também os sáurios. Vocês
fizeram aliança com eles?
— Foi
ordem de Topthor. Ele disse que a guerra foi um erro.
— Toda
guerra é um erro — continuou Gucky. — Mas há erros que evitam a
guerra.
O
superpesado continuava olhando para Gucky, sem nada compreender.
Gucky sorria, mostrando seu dente roedor.
— Vamos,
não temos tempo a perder. Em dois minutos, quero ver as duas
tripulações lá fora. E lhe digo logo que tenho uma bomba atômica
em minhas mãos que detonará cinco segundos após minha morte, se
algum maluco estiver pensando em me matar.
Levou
apenas um minuto. Gucky esperou na escotilha até que os saltadores e
os tópsidas estivessem todos reunidos lá fora, no planalto. Depois
avançou um pouco mais, com a mão erguida, e gritou bem alto:
— Para
ser bem rápido: Rhodan me deu a incumbência de, com esta bomba
atômica, destruir os escombros da nave. Desapareçam todos daqui, do
contrário voarão pelos ares em pedaços. Têm dez minutos para
isto. Compreendido?
Entenderam
perfeitamente, disparando em todas as direções. Apenas um dos
superpesados, com menos de quatrocentos quilos, ainda antes de entrar
na floresta virou para trás e disse:
— Sem a
nave, nós não temos mais abrigo. Temos que morrer aqui ou alguém
virá nos salvar?
Gucky
encolheu os ombros.
— Construam
seus ninhos — disse ele pilheriando. — Aliás, onde está
Topthor?
O
superpesado acabou de desaparecer. Gucky ainda esperou dez minutos.
Depois voltou ao grande aparelho e procurou o lugar onde estavam os
instrumentos de navegação positrônica. Parou diante daqueles
gigantescos aparelhos, mostrando-lhes a bomba atômica, dizendo
baixinho:
— Agora
vocês vão receber um presente especial, principalmente você,
computador de boa memória. Sabe também por quê? Não? Muitos já
morreram sem saber o porquê. O mesmo vai acontecer a você.
Com muito
cuidado, colocou a bomba sobre a mesa de controle, diante do robô, e
deu um passo atrás. O botão vermelho estava puxado para fora. Gucky
se desmaterializou e, em menos de um segundo, estava no alto de um
morro, a cinco quilômetros dos escombros da Top II.
— Ainda
três segundos — disse ele, sentando-se sobre a volumosa cauda. —
Agora!
Lá ao
longe, além do teto verdejante da floresta, subiu ao céu o clarão
ofuscante da explosão, apagando quase a claridade do sol. Um
cogumelo de fumaça surgiu lento: estava tudo acabado.
— Aquela
caixa de metal não falará mais — disse para si mesmo, virando-se
para outra direção. — Topthor está pensando de novo muito alto.
Portanto deve estar por perto.
No
horizonte, se estendia a imensa superfície do mar, até se encontrar
com as nuvens baixas, à direita da língua de terra.
— Está
falando com Ber-Ka, quem é Ber-Ka? — Gucky auscultava atento. De
repente, levantou-se de um salto, e de pé, com a cabeça levemente
virada, como se assim pudesse ouvir melhor. — Ele é um assassino?
Isto me torna o serviço mais fácil. Vamos lá, meu caro.
Com “meu
caro”, Gucky se referia a si mesmo. O primeiro salto o deixou na
praia, não longe daquele lugar onde ancoravam os barcos para a
travessia. Ali no mar, estava a ilha de aço. Gucky sondou e percebeu
que Topthor devia estar ali.
O segundo
salto levou Gucky para a plataforma da ilha. Daí em diante, não
quis mais se teleportar. Concentrou-se nos pensamentos de Topthor e
achou a direção exata. O saltador devia estar debaixo da
plataforma, na sala de rádio. Ber-Ka já estava morto e Cekztel
estava no aparelho para falar com Topthor. Não se podia perder mais
um segundo. Gucky desceu as escadas, atravessou o corredor, chegando
a uma porta encostada, que abriu cuidadosamente.
Viu
Topthor de costas, olhando para a tela. Ao lado dele, jazia o cadáver
de um sáurio.
— ...erro
— dizia Topthor. — Um grande erro. Você podia poupar sua bomba
e...
Gucky
emitiu um fluxo de suas forças telecinéticas, pegando com mão
invisível na confusão eletrônica dos fios. A imagem sumiu da tela,
a resistência queimou, não havendo mais corrente.
— Vire-se
— disse Gucky — mas tire a mão da pistola.
Topthor
obedeceu imediatamente.
5
Embora os
tópsidas tivessem perdido toda sua força aérea, Al-Khor julgou seu
dever continuar lutando até não haver mais um só saltador no
quarto planeta.
Ao
aproximar-se da suposta Terra com suas naves de reconhecimento,
Cekztel teve uma surpresa desagradável. Das fortalezas improvisadas
pelos sáurios, saiu uma reação de fogo antiaéreo tão forte e
inesperada que em muitas naves o envoltório energético não
resistiu.
Cekztel
viu horrorizado que quase a metade de sua frota de patrulhamento foi
destruída. Arrependeu-se de ter subestimado os terranos.
A tudo
isso ainda acrescia que, exatamente nesta situação desesperada,
surgiam as naves esféricas de Rhodan, aumentando ainda mais a
confusão. Três outras naves dos saltadores ainda foram destroçadas.
O terceiro
planeta se transformara em inferno ignívomo. A impressão, pelo
menos conforme o raciocínio dos patriarcas dos saltadores, era de
que os terranos haviam transformado seu planeta pátrio numa
fortaleza subterrânea. Talvez fosse essa a explicação para o
fenômeno que causara tanta dor de cabeça a Cekztel. Todo planeta
civilizado, assim era o seu raciocínio, devia ter seu cartão de
visita: a superfície. A superfície da “Terra”, no entanto,
constava apenas de uma paisagem rústica que não apresentava o menor
sinal de civilização. Será que os terranos tinham toda sua
civilização em subterrâneos?
Sua última
dúvida a respeito de se tratar mesmo da verdadeira Terra desapareceu
com o repentino e violento contra-ataque subterrâneo.
Suas
ordens chegavam a todas as centrais de comando do restante da frota:
— Retirada
imediata. Ponto de encontro em BK cinqüenta e nove-hf. Temos de sair
daqui.
Com uma
velocidade incrível, as naves cilíndricas dos saltadores se
atiraram espaço a fora, deixando no planeta das matas virgens os
pobres tópsidas, já mais aliviados.
*
* *
Cekztel
olhava para a tela vazia, esperando que Topthor desse sinal de vida.
Mas o rádio estava mudo e o superpesado não dava sinal nenhum. O
patriarca franziu a sobrancelha e um tanto inseguro, virou-se para um
dos seus oficiais:
— O que
este Topthor quer dizer com a frase: “Rhodan
nos enganou novamente”?
Entenda isto quem quiser. Será que não estamos em condições de
liquidar com este Rhodan? Não destruímos sua frota e a de seus
aliados? É verdade que a Terra está se defendendo com unhas e
dentes e não pensa em se render. Mas isto vai adiantar alguma coisa?
A bomba arcônida vai produzir um novo sol neste planeta. E mesmo que
não consigamos apanhar Rhodan, o que ele vai fazer sem seu planeta
pátrio? Não pode ficar a vida toda rodando por aí em sua
gigantesca nave esférica. Então, haveremos de apanhá-lo, quando
tentar descer um dia em um dos nossos mundos.
O oficial,
um saltador normal, com menos de cem quilos de peso, fez como se
estivesse de acordo.
— Para
mim, seria muito melhor que Rhodan estivesse morto.
— Para
mim, também — esbravejou Cekztel, furioso contra suas próprias
dúvidas. — Para mim também, acredite, mas já fico mais contente
quando a Terra estiver destruída. A Terra é a incubadora destes
novos-ricos aventureiros, que não respeitam nosso monopólio
comercial. Você vê que até os mais ou menos neutros tópsidas se
tornaram nossos inimigos porque Rhodan conseguiu influenciá-los.
Depois que a Terra for destruída, teremos uma conversa muito séria
com o ditador.
— Quem
sabe, foi ele obrigado a tomar esta atitude contra nós?
— Quem
sabe, mas não temos certeza — continuou Cekztel. Seus olhos ainda
continuavam fixos na tela escura. — Temos que nos preocupar com
Topthor. Providencie para que uma de nossas naves vá buscá-lo.
Enquanto isso, fico preparando tudo para a destruição da Terra.
O oficial
obedeceu e saiu em direção à sala de rádio. Fez logo uma ligação
para um tal de Bernda, um corpulento patriarca dos saltadores da
estirpe dos chamados comerciantes de cereais.
— Ordens
de Cekztel, Bernda — disse o oficial assim que o semblante do
astuto comerciante apareceu na tela. — Você deve voar para o
quarto planeta do sistema e apanhar Topthor e sua tripulação. Teve
de fazer uma aterrissagem forçada por lá. A aparelhagem de rádio
parece que não funciona. Mas você vai encontrá-lo com facilidade.
O planeta é completamente inabitado.
— Exatamente
Topthor! — disse Bernda, com cara de poucos amigos. — O
desgraçado já me estragou muito negócio bom na vida.
— Isto
não interessa nem a Cekztel nem a mim — interrompeu o oficial. —
O senhor recebeu a ordem de apanhar Topthor. É muito importante,
pois Topthor tem uma mensagem de muito valor para nós. Espero que o
senhor coloque o bem de nosso povo acima de seus interesses
particulares e diferenças pessoais.
— Não
se preocupe — foi a resposta do comerciante de cereais. — Sei o
que tenho que fazer. Devo partir, quando?
— Imediatamente.
E não se assuste se o terceiro planeta se transformar num sol.
— A
Terra?
— Sim, a
Terra — respondeu o oficial, desaparecendo da tela de Bernda.
O
comerciante ainda ficou olhando por uns instantes para a tela
apagada, depois sua voz possante gritou umas ordens. Toda a
tripulação correu para seus lugares e se preparou para a nova
missão.
A Bern I
era uma espaçonave relativamente pequena, um cilindro de mais ou
menos oitenta metros de comprimento, com poucos meios de defesa, mas
muito ágil. Cekztel não poderia escolher ninguém melhor do que
Bernda, para esta missão. Ele comerciava com cereais e o seu negócio
estava também ligado com a pesquisa da superfície de outros
planetas à procura de vegetação e de animais. Seu trabalho
profissional o obrigava a se utilizar de uma nave pequena.
— Aceleração
até mais ou menos 1G!
A Bern I,
depois de descrever um ângulo de 90 graus, disparou pelo espaço a
fora, perdendo de vista em pouco tempo a frota dos saltadores. Apenas
uma vez, notou no espaço pedaços de aparelhos destruídos, que não
interessavam a ninguém.
Levou mais
ou menos uma hora, depois o quarto planeta ficou tão grande que
enchia toda a tela. É claro que Bernda não ia colocar seu dever de
cidadão acima dos seus interesses particulares.
“Água...
A maior parte deste planeta está coberta de água. Não há muita
coisa para se procurar”,
pensava ele.
Mas, quem
sabe existiriam no continente novas formas de vida que seriam de
grande interesse para incrementar seus negócios? Se encontrasse logo
Topthor, não teria mais jeito de prolongar sua permanência no
quarto planeta. Sua ausência não ia apressar o desenrolar dos
acontecimentos nem alterá-los.
A Bern I
deslizava a poucos metros de altura, sobre a superfície das águas.
Pequenas ilhas anunciavam o continente, que minutos depois apareceu
no horizonte.
Bernda
mandou abrir a cúpula de observação e sentou-se numa poltrona onde
mal caberia Gucky. Desta cúpula, tinha uma ótima visão para todos
os lados, mormente para baixo. Uma direção auxiliar lhe permitia
controlar os movimentos da nave, dali da cúpula mesmo. Uma ligação
direta com a cabina de rádio o punha em contato permanente com sua
tripulação ou com naves próximas.
Bernda se
entregou completamente às suas inclinações comerciais. Como um
técnico, contemplava as enormes árvores da floresta virgem,
avaliando seu valor comercial. Em mundos pobres de florestas, troncos
de boa madeira davam grandes lucros. Principalmente árvores como
aquelas. De qualquer maneira, não ia perder a oportunidade de
arranjar mudas e sementes.
Talvez
fosse melhor, primeiro procurar Topthor. Não gostou muito desta
idéia. Mas depois ficou pensando que de fato ele estava recebendo
dinheiro para atuar nesta campanha, tendo, portanto algumas
obrigações a cumprir. A desgraça é que tinha de salvar exatamente
a Topthor.
Casualmente
seu olhar deu com uma formação de nuvens, que não lhe era
estranha. Um vento brando já havia espalhado um pouco o cogumelo que
penetrava já bastante na atmosfera, embora fossem inconfundíveis a
larga umbela e a coluna vertical. Mais para frente, no continente,
devia ter havido, há poucos instantes, uma explosão atômica.
A
curiosidade de Bernda cresceu. Aumentou a velocidade e cinco minutos
mais tarde estava chegando à região calcinada do planalto. Um
enorme rombo afunilado no chão documentava a catástrofe. As bordas
da imensa cavidade redonda tinham um brilho de vidro incandescente.
Na floresta em volta, ainda se viam algumas chamas e os destroços
atirados, mas eram sufocados depressa pela falta de oxigênio na
densa ramagem rasteira.
Bernda não
pensou em descer. Por que iria se expor a perigo sem necessidade? Se
Topthor estivesse por aqui, já estaria morto. Mas, quem teria
provocado a explosão e por quê?
Era
impossível arranjar uma resposta na hora, mas o tempo se
encarregaria de trazê-la. Bernda virou a nave e se dirigiu para o
mar, que não estava longe. No momento, não estava mais pensando em
mudas e sementes de árvores, mas quebrando a cabeça para descobrir
o que a explosão atômica tencionava destruir.
Achou a
resposta mais depressa do que esperava: seus olhos descobriram alguma
coisa se movendo no pedregoso planalto. Baixou bastante a nave e
percebeu um corpo erecto, de um brilho esverdeado, com uma cauda
coberta de escamas.
Um
tópsida! Como teria aquele sáurio chegado até aqui? Bernda desceu
ainda mais e já estava para mandar a tripulação abrir fogo contra
o inimigo, quando um calafrio lhe percorreu a espinha. Viu uma outra
figura, um superpesado. Saía de trás de um rochedo e ficou parado
ao lado de um tópsida. Ambos olhavam para cima e acenavam. Como se
estivessem esperando, apareceram imediatamente outros superpesados e
outros tópsidas. Agiam como se não fossem adversários entre si.
Bernda já não estava compreendendo mais nada. Mas foi
suficientemente inteligente para suspender a ordem de fogo.
Aterrissou
a uns duzentos metros do estranho grupo e já estava pronto para
pisar em terra firme. Não confiou muito naquele ambiente tão
pacífico, enfiou duas pistolas na cintura, ordenou que dois guardas
bem armados o seguissem.
A cerca de
vinte metros da escotilha aberta, os três saltadores pararam,
esperando os desconhecidos.
— O que
você acha? — sussurrou Bernda.
O oficial
da direita sacudiu a cabeça:
— Talvez
foram derrubados e então suspenderam a luta — não sabia que
realmente estava muito perto da verdade. — Por que razão têm que
se destruir mutuamente, se uns podem ajudar os outros a se salvarem?
Vamos ver em breve.
— Você
quer sempre ir contra o regulamento — protestou o outro guarda
nervoso. Sua mão já estava segurando a pistola energética. — Os
tópsidas foram declarados aliados de Rhodan e devem ser tratados
como tais.
— Esperemos
um pouco — disse Bernda calmamente.
Olhou para
os dois superpesados que se aproximavam acompanhados de dois
tópsidas. Observou que estavam desarmados. O restante dos
superpesados e dos tópsidas ficou aguardando aos pés do rochedo. A
delegação parou a dez metros de Bernda e seus dois guardas. O
superpesado sorria com dificuldade.
— Isto
se chama socorro na hora exata — disse, estendendo a mão a dez
metros de distância, como se quisesse cumprimentar Bernda. — Nós
já acreditávamos ter de passar o resto da vida aqui. O senhor
encontrou Topthor e Ber-Ka?
— Ber-Ka,
quem é ele?
O
superpesado apontou para seus companheiros:
— O
comandante dos tópsidas, cuja nave nós derrubamos. Infelizmente a
Top II ficou danificada, não podendo mais levantar vôo. Os sáurios
e nós fizemos então um armistício, porque não tinha mais sentido
nos matarmos mutuamente.
— Cekztel
certamente se alegrará muito com o procedimento arbitrário de
Topthor — disse Bernda, feliz com a desgraça alheia. — Onde está
então Topthor?
— Saiu
em companhia de Ber-Ka à procura de uma estação de rádio, em
algum ponto do litoral, numa ilha artificial.
— Numa
ilha artificial? — disse o superpesado, sacudindo a cabeça.
— Não é
possível que o senhor entenda, sem um relatório mais pormenorizado.
Dê-nos primeiro alguma coisa para comermos e bebermos e depois
saberá de tudo.
Mas Bernda
estava curioso demais para aceitar imediatamente a proposta.
— Responda-me
primeiro uma outra pergunta: achamos, a algumas milhas daqui, uma
cratera atômica. Ali houve uma grande explosão e o que foi
propriamente destruído?
— Foi
Rhodan — disse o superpesado. — Ao menos reconhecemos um de seus
colaboradores mais íntimos, um ser esquisito de pêlo marrom e de
cauda curta, mas muito larga. Apareceu do nada, atirou uma pequena
bomba atômica e desapareceu de novo.
— E
vocês se salvaram como?
— Fomos
avisados por ele, que nos deu dez minutos para nos protegermos.
— E
ninguém de vocês tentou impedir este ser estranho de destruir a
belonave? Acho que já posso dizer que nossa força espacial não se
compõe exclusivamente de heróis. E os tópsidas também não são
mais tão corajosos — comentou Bernda.
— Para
impedir? Como assim? O animal, acho que não se pode classificá-lo
como tal, tinha uma bomba atômica na mão — retrucou o oficial.
— E aí,
vocês saíram correndo feito cabritos desnorteados, para todos os
lados? Cekztel é quem vai decidir isto. Eu tenho apenas a missão de
encontrar Topthor, porque ele tem, aparentemente, uma mensagem muito
importante para transmitir.
— Uma
mensagem muito importante? — repetiu o superpesado, tentando
descobrir alguma coisa. — Pode ser mesmo, Topthor e Ber-Ka
discutiam muita coisa em segredo e diziam que a guerra não tinha
sentido. Pensavam que Rhodan nos tinha enganado, que tínhamos caído
numa esparrela sem percebermos. Mais eu não sei, não.
— Quem é
você?
— Sou
Gatzek, o segundo-oficial de Topthor.
Bernda
concordou aos poucos.
— Bem,
então diga ao seu pessoal e também aos sáurios que mandarei cuidar
de vocês todos. Mas depois, espero o relatório de vocês, dentro de
meia hora. Há um grande erro em tudo isto. Quero descobri-lo.
Viu com
sentimento ambíguo que saltadores e tópsidas se confraternizavam
tão simplesmente. Todos misturados, esparramados pelo chão, à
espera de uma refeição.
*
* *
A bomba de
Árcon era o instrumento de maior poder destrutivo dos antigos
arcônidas. Uma vez ativada, desencadeava um processo irreversível
com o poder de destruir um planeta. Infelizmente não eram só os
arcônidas que possuíam o segredo desta bomba. Os saltadores também
dispunham desta terrível arma, embora a usassem muito raramente.
Para
destruir a “Terra”,
Cekztel lançou mão da bomba de Árcon.
A frota
dos saltadores estava no espaço, a uma distância suficiente do
terceiro planeta, para não sofrer os efeitos da explosão. Apesar
disso, continuavam sendo disparados do mundo das matas virgens
foguetes não tripulados que atingiam seus alvos automaticamente. O
que salvava, às vezes, as naves dos saltadores, era a fuga com uma
rápida transição.
O que
Cekztel não sabia era o fato de que toda a defesa da “Terra”
fazia-se apenas por um punhado de tópsidas. Quase tudo era
controlado por robôs. É claro que um punhado de sáurios estava
condenado à morte, embora Cekztel acreditasse que com a destruição
do planeta, destruiria também uma raça toda, raça que se opusera
ao monopólio dos comerciantes das Galáxias.
Deixou a
cabina e foi ter com os especialistas em armas que estavam regulando
o detonador da bomba que seria lançada pela nave de Cekztel.
— Falta
muito ainda para terminar o trabalho?
Um dos
oficiais se virou para trás e explicou:
— O
detonador terá o curso de uma hora, em seguida detonará. Acho que
este tempo é suficiente para todos se abrigarem.
— Uma
hora...? — continuou Cekztel. — Em circunstâncias normais é
mais do que suficiente. Poderemos percorrer bilhões de quilômetros.
Mas, se alguma coisa não der certo...
Era uma
vaga possibilidade, mas tão vaga que não passava pela cabeça de
ninguém.
— O
detonador será ativado pela própria queda da bomba — explicou o
oficial. — Basta apenas jogá-la.
O olhar de
Cekztel pairava sobre a bomba. Não era muito grande, mas seu
interior continha um mecanismo diabólico, desenvolvido por
cientistas há muitos milênios e que até hoje ninguém conseguira
aperfeiçoar. A única arma de destruição que podia concorrer, com
ela era a bomba de gravitação:
— Partiremos
em dez minutos — disse Cekztel, se retirando. Sem dizer uma
palavra, voltou à cabina e ligou o intercomunicador.
Aguardou
ainda alguns minutos para que cada um, a bordo do seu aparelho,
pudesse vê-lo e ouvi-lo.
— Chegou
a hora decisiva. Correndo tudo dentro da cronometragem, em setenta
minutos começará a destruição da Terra. Rhodan, pessoalmente nos
escapou, mas seus aliados, os tópsidas, e seus irmãos de raça
estarão em breve mortos no planeta. Vou lançar a bomba em dez
minutos. O tempo para a explosão é de uma hora. Vamos observar os
efeitos da explosão daqui mesmo. Quando este sistema tiver dois
sóis, um gigantesco sol vermelho e um pequeno sol branco, nossa
missão estará cumprida. O planeta Terra só existirá em nossa
recordação.
Fez uma
curta pausa e continuou: — Durante meu regresso, manterei contato
com vocês. A ordem de partida, logo após a explosão, será dada
por mim. Até lá estaremos em estado de alerta. Se surgirem naves de
Rhodan, é necessário atacá-las imediatamente e destruí-las.
Desligou
logo após, sem esperar resposta. Por mais de cinco minutos, ficou
parado, imóvel, diante de seus controles, mas depois recuperou a
vivacidade.
Com
rápidas manobras, acelerou o vôo e se separou do resto de sua
frota. Como uma ave de rapina, sua nave se despencou de encontro ao
pequeno planeta, que crescia rapidamente e finalmente encheu a tela
toda.
Poços e
cavernas até então camuflados na superfície do planeta, abriram
suas possantes bocas de fogo antiaéreo, atirando raios mortíferos
contra o atrevido atacante. Cekztel acumulou toda a energia
disponível no envoltório de proteção, aproximando-se cada vez
mais da atmosfera, onde finalmente penetrou com um zunido infernal.
A
velocidade ainda era elevada demais. Se a bomba fosse lançada neste
momento, poderia se transformar num satélite qualquer. Mas a
velocidade foi diminuindo. A despeito de todos os perigos, Cekztel
baixou mais ainda e atravessou uma grande cadeia de montanhas. O fogo
de defesa embaixo diminuiu um pouco. Provavelmente os terranos
achavam que nunca poderiam ser atacados pelo lado das montanhas.
Cekztel
ligou o intercomunicador.
— Sala
de munições! Lançar a bomba em vinte segundos. Deve cair sobre o
espigão da montanha que nos está à frente.
Diminuiu
ainda mais a velocidade e relacionou-a com a altura para atingir
exatamente o alvo desejado, um planalto alcantilado.
No exato
momento em que foi sobrevoado o pequeno planalto íngreme, veio a
confirmação da sala de munições:
— Bomba
atirada. Está caindo sobre o planalto.
Cekztel
fez uma pequena curva e subiu. Viu a bomba cair no ponto desejado.
Levantou um pouco de poeira, que em alguns segundos desapareceu. E
ali ficou, numa leve curva do terreno, com seu brilho prateado.
Agora era
só esperar. Mais cinqüenta e nove minutos.
Cekztel
deu um último olhar para o pobre mundo condenado à morte e pegou
nos controles com determinação.
A nave se
empinou quase verticalmente e, em velocidade crescente, perfurou o
espaço de um azul-escuro, perseguida por um míssil teleguiado dos
tópsidas, que surgira inesperadamente. Uma transição de cinco
segundos-luz colocou-a a salvo, pois estes foguetes não iam além de
cem mil quilômetros. Naturalmente, não encontrando seu alvo, o
míssil entrou em órbita e continuaria girando até que, talvez em
milhares de anos, desse de encontro com um pedaço de matéria e o
destruísse. Essa matéria poderia ser também um meteoro, ou mesmo
uma espaçonave comercial.
Isto
ninguém poderia prever e Cekztel também não tinha nenhuma
preocupação a respeito. Sua missão estava cumprida. Em uma hora
estaria de volta para a nebulosa galáctica M-13.
6
Deringhouse
estava olhando para a imagem de Rhodan na tela panorâmica, embora as
duas naves estivessem a mais de um bilhão de quilômetros uma da
outra. As ondas de rádio atravessavam esta distância toda em um
décimo de segundo, pois iam através do acelerador da estação de
supertransmissão.
— Aconteceu,
Deringhouse — falava Rhodan. — Cekztel já lançou a bomba. No
tempo que nos resta de cinqüenta minutos, vou tentar salvar os
tópsidas que ainda estão no terceiro planeta.
— Você
ainda dispõe de tanto tempo? — indagou Deringhouse.
— Ouvi
as palavras do patriarca à sua frota — tranqüilizou-o Rhodan. —
Não se preocupe, vou dar o fora a tempo, sem perigo para mim e para
a Titan. Realmente é pena estragar assim um mundo tão romântico,
mas sem este inconveniente, não atingiremos nosso objetivo. Eu já
estava preocupado, pensando que os saltadores desconfiassem, pois
todos imaginam um mundo civilizado de maneira bem diferente. Por
sorte, os tópsidas nos ajudaram, transformando um planeta desabitado
numa verdadeira fortaleza. Isto deu aos saltadores a certeza de
estarem realmente diante da Terra.
— Devo
permanecer nas proximidades de Aqua?
Rhodan
refletiu um pouco e depois concordou.
— Sim,
tente recolher Gucky. Já deve ter terminado sua missão. Para agir
com mais segurança, eu lhe sugiro aterrissar em Aqua e procurar por
Gucky. Você não está mais com nenhum telepata a bordo e não
poderá assim entrar em contato com Gucky.
— Gucky
levou consigo um pequeno aparelho transmissor. Pode enviar um sinal
para orientação, e o acharemos logo. É verdade que até agora não
deu sinal nenhum.
Rhodan
terminou a conversa:
— Voe
para Aqua e espere lá até que o sistema ganhe um outro sol. Procure
Gucky e fique então na escuta permanente, que eu me comunicarei.
Deringhouse
desligou e a imagem de Rhodan desapareceu da tela, que apagou
totalmente. Capitão Lamanche, sentado diante dos controles de
pilotagem, perguntou:
— Direção
Aqua, major?
— Sim,
mas primeiro vamos sobrevoar o continente, Lamanche, se não acharmos
nada, vamos dar uma olhada no litoral. Em algum lugar, temos de
encontrar uma pista do paradeiro de Gucky e de Topthor.
A Centauro
se aproximou do planeta das águas e entrou logo na atmosfera. A
pequena altura, dava voltas, sempre mais amplas sobre o continente,
cuja parte central estava mais ou menos no coração do planeta. Cada
vez mais, a Centauro se aproximava do litoral.
Enquanto
Lamanche pilotava, Deringhouse coordenava o serviço de busca por
instrumentos ópticos, apoiado naturalmente pela sala de rádio,
cujos receptores estavam regulados para a freqüência especial de
Gucky. Mas o rato-castor ainda não havia achado por bem comunicar o
lugar onde estava.
Faltava-lhe
possibilidade para isto?
Deringhouse
se assustou com o pensamento. Até então não lhe havia ainda
passado pela cabeça que poderia ter acontecido alguma coisa estranha
a Gucky. Um ente metafísico, com três poderes parapsicológicos,
era propriamente invulnerável e parecia excluído que não tivesse
apanhado Topthor. Por que, então, não se comunicava, para que a
Centauro o pegasse? Ou estaria ele, de novo, com os homens-peixes de
Aqua, fazendo uma excursão submarina, como já havia feito uma vez?
Ao ver a
cratera, Deringhouse começou a ficar zangado. Mas logo depois, a ira
deu lugar à admiração. Aquela cratera só podia ser da pequena
bomba atômica. Portanto, Gucky havia encontrado a nave de Topthor e
a havia destruído. Mas onde estariam os dois, o superpesado e Gucky?
Os
pensamentos de Deringhouse davam voltas e não chegavam a nenhuma
conclusão. A cratera afunilada ficara para trás. Atravessaram um
planalto e depois uma extensa floresta que podia chegar até ao
longínquo litoral. Mas percebeu depois que o litoral não estava tão
longe assim. A longa faixa marítima, à esquerda da direção do
vôo, resplandecia num azul-claro.
Lá
embaixo tudo era paz e sossego. Deringhouse se perguntava se haveria
ainda sobreviventes da explosão. Não era do feitio de Gucky matar
adversários indefesos, mesmo que tivessem as piores intenções.
Lamanche
havia ligado o envoltório de proteção frontal, agindo de acordo
com o provérbio “o
seguro morreu de velho”.
Os acontecimentos vieram lhe dar razão.
É verdade
que Deringhouse percebeu a nave no mesmo instante, mas antes que
tivesse tempo de avisar ao piloto, este já tinha ligado por conta
própria o envoltório. Só depois disso é que os dois homens foram
olhar mais de perto o seu achado.
A
fuselagem alongada da nave dos saltadores estava numa extremidade do
planalto. Vários pontos escuros se moviam na parte descoberta e
pararam, de repente, para depois saírem correndo em todas as
direções. Abrigaram-se parte na própria nave, parte na floresta
vizinha.
— Desça
mais, Lamanche — ordenou Deringhouse. — Temos que dar uma olhada
nestes rapazes. Além de Topthor, ainda há outros saltadores por
aqui.
— Talvez
sejam tópsidas — acrescentou o piloto, enquanto fazia a Centauro
descer.
— Eu os
estou reconhecendo nitidamente na ampliação da tela panorâmica.
— Além
disso, em pacífica convivência — disse Deringhouse, remoendo seus
pensamentos que poderiam levar a uma conclusão falsa de graves
conseqüências. — Desde quando deixaram de ser inimigos?
Lamanche,
sem o saber, tinha um pouco de culpa.
— Talvez
o próprio Topthor lhes confessou o erro em que tinham caído. Acho
que é uma resposta razoável para sua pergunta, senhor.
Deringhouse
concordou, com sinais de preocupação no rosto.
— Quem
sabe é realmente a resposta certa, capitão. Mas, vamos, abaixe
mais, conservando, porém o envoltório ligado. Vamos olhar de perto
os rapazes e lhes fazer algumas perguntas.
— Perguntas?
— disse Lamanche admirado, mas não disse mais nada.
De baixo,
veio um raio energético de um verde gritante de encontro à
Centauro. Atingiu o envoltório invisível e foi absorvido. Mas o
adversário continuou atirando sempre no mesmo local para atingir seu
objetivo: enfraquecer e romper a abóbada de proteção magnética.
Deringhouse
chamou a sala de munição:
— Sob
nós há uma nave dos saltadores. Estamos sendo atacados, estou
direto em seu alvo. Lance uma bomba atômica.
Era um ato
de defesa própria, embora pudesse ser feito com meios mais brandos.
Mas Deringhouse estava realmente convencido de que aqueles saltadores
e tópsidas estavam a par do grande segredo.
Foi a
conclusão falsa de tremenda conseqüência. Tremenda conseqüência,
pelo menos para os pobres sobreviventes tópsidas e saltadores, sobre
os quais a morte se abateu com a velocidade do raio.
*
* *
Bernda e
Gatzek escaparam.
Os dois
saltadores se encontravam a caminho do litoral para procurar Topthor.
Tinham recebido informações dos tópsidas de que o superpesado
devia ter atingido a ilha artificial em companhia de Ber-Ka. Um
princípio de mensagem de rádio interrompido entre Topthor e Cekztel
comprovava a informação.
Naturalmente,
Bernda poderia chegar até perto da ilha com sua nave, mas preferiu o
trator de esteira para ter oportunidade de fazer uma bela excursão
particular. Estava num mundo diferente e não queria perder a
oportunidade para futuros negócios. Os grossos troncos de árvores
copadas lhe interessavam muito. Suas sementes e mudas lhe trariam
grande fortuna.
Gatzek não
suspeitava das intenções comerciais do magro comerciante, cuja
estatura normal lhe lembrava os odiados terranos.
Chegaram
até o litoral e seguiram o rastro do carro dos tópsidas, no qual
Topthor e Ber-Ka haviam feito no dia anterior a penosa viagem. Quando
surgiu a seus olhos a construção baixa da ilha artificial,
parecia-lhes haver conseguido tudo. Respirando mais sossegado, Gatzek
reconheceu o carro parado na praia. Estava vazio.
Bernda
parou. Com as pernas um pouco doloridas, pulou para a areia. O
superpesado vinha atrás, caminhando com visível dificuldade. Seus
pés penetravam muito na areia.
— Como
chegaram à ilha? — perguntou olhando, com muito medo, para uma
fila de barcos pequenos num diminuto ancoradouro. — Certamente não
foi com uma casca de noz assim, não é?
— Elas
agüentam mais do que se supõe — consolou Bernda. — Experimente
para ver.
Gatzek se
encaminhou para o primeiro barco e, experimentando, botou o pé na
popa estreita. Afundou um pouco, mas as paredes laterais da
embarcação não deixaram que a água penetrasse.
— Acho
que podemos ir, Bernda. Queira Deus que ninguém nos roube o carro
neste meio tempo.
— Bobagem,
o carro de Topthor ainda está aqui e ninguém mexeu nele. E aqui não
há ninguém para fazer isso.
Antes que
Gatzek pudesse responder, aconteceu algo que o fez pular de volta na
areia.
Bem longe,
reluziu um forte clarão por sobre a floresta. Pouco tempo depois,
uma forte compressão do ar varreu as grimpas da imensa floresta,
passando para a vastidão do mar, onde as ondas se encapelaram.
Graças à proteção da floresta é que os dois saltadores não
foram atirados ao solo.
— Que
foi isto? — perguntou Bernda, ficando totalmente pálido. — Não
é da direção de onde viemos? A nave...?
Gatzek
tremeu dos pés à cabeça.
— A
nave... sim, poderia ser. Que aconteceu?
Tiveram a
resposta dez segundos após, ao surgir, sobre a copa da floresta, uma
enorme esfera que se aproximava deles ameaçadoramente.
— Uma
das naves de Rhodan.
Bernda deu
um grito alucinante e saiu correndo, sem pensar no seu companheiro,
cuidando apenas de se pôr a salvo. Antes que a grande nave esférica
atingisse a praia, o franzino comerciante já estava se embrenhando
pela mata. Continuou correndo, até que a respiração o fez parar.
Cansado e sem ar, rolou pelo chão. Acreditava que no emaranhado da
floresta ninguém o acharia. Em volta dele, os grossos troncos das
árvores de copas fechadas. Do céu, não se via nada.
Minutos a
fio, ficou estirado no chão úmido da floresta, tentando ouvir algum
ruído de eventuais perseguidores. Mas tudo era silêncio. Talvez
tivessem perdido suas pegadas. As copas das árvores eram
demasiadamente espessas para alguém de cima poder vê-lo.
Será que
Gatzek estava também em segurança?
Bernda
olhou cautelosamente em volta e parecia mais calmo. Deu com os olhos
num caroço alongado, vermelho-escuro, parecia realmente um caroço.
Como sentisse muita fome, levantou-se e o apanhou. A casca era muito
dura. Com um pedaço de pedra, começou a martelá-lo de encontro às
raízes de uma árvore. Quase que deu um grito de alegria, pois o
“caroço”
continha muitas sementes, que certamente seriam outras tantas árvores
mais tarde. Ao menos umas duzentas sementes havia no seu interior. E
olhando mais em volta, descobriu grande quantidade de “caroços”
deste tipo. Muito contente, começou a apanhá-los, não tendo,
porém, como levá-los. Pobre Bernda.
Não podia
compreender como ninguém deste mundo tinha interesse por aquelas
sementes, nem mesmo os homens-peixes.
Mas Bernda
não veria nunca mais outras criaturas em sua vida, se alguém não o
viesse apanhar no quarto planeta.
Esta
possibilidade era muito remota.
*
* *
Ainda
havia quinze minutos para o momento fatídico.
Deringhouse
aterrissou na praia, bem perto das duas viaturas e do pobre Gatzek,
quase paralisado de terror. Os suportes telescópicos da grande nave
afundaram na areia macia, fazendo brotar logo água salgada.
— Lamanche,
controle as armas de defesa e atire, se for necessário. Eu vou sair.
— Leve
dois companheiros — gritou o francês, colocando a mão no botão
de controle das armas. — O gorducho não parece homem de muita
iniciativa, mas as aparências enganam.
— Levo
Ras Tschubai comigo, pois assim poderei desaparecer a qualquer
momento. Para que temos teleportador?
Fez um
sinal para Lamanche e correu para o departamento dos mutantes.
— Ras,
vamos dar um pulo na praia e pregar um susto num superpesado.
O africano
de compleição robusta, um dos mais competentes teleportadores dos
mutantes, olhou para a tela de controle externo e concordou.
— Segure
bem firme, major.
Deringhouse
se agarrou bem em Ras e, no mesmo segundo, estava a dez metros de
Gatzek, no macio chão de areia. Arrancou a pistola da cintura e a
apontou contra o superpesado, cujos olhos se arregalaram de medo.
— Não
se mova, gorducho.
Foi com
dificuldade que Gatzek conseguiu manter sobre as pernas seu
respeitável peso de seiscentos e tantos quilos. Tinha ouvido falar
das misteriosas forças que estavam a serviço de Rhodan, mas isto
estava acima de sua concepção.
— Estou
desarmado — lamentou ele.
— É a
sua sorte, meu amigo — consolou-o Deringhouse, colocando a arma no
cinto. — Onde está Topthor?
Gatzek
apontou para a ilha.
— Talvez
lá, eu também o estou procurando.
— Por
quê? — foi a pergunta direta de Deringhouse. — Vocês se aliaram
com os tópsidas?
— Por
que não? — admirou-se Gatzek não sem razão. — Nós fomos
derrubados como eles. Por que deveríamos nos matar mutuamente? Não
havia mais motivo para isto.
Deringhouse
compreendeu. Então falou:
— Se
você se mantiver pacificamente, nada lhe acontecerá. Vou dar uma
chegada ali na ilha, com meu amigo, à procura de Topthor. Não tente
nenhuma bobagem.
— Posso
voltar para minha nave que espera por mim ali nas montanhas?
— Uma
nave dos saltadores? Foi destruída, pois fomos duramente atacados.
Suponho que sua volta é inútil.
Deringhouse
se agarrou em Ras, apontando para a ilha. O africano deu um salto.
Materializaram-se na plataforma e logo acharam o corredor que levava
para a cabina de rádio. Diante do gigantesco painel de controle
estava o cadáver de um tópsida.
Deringhouse
estremeceu ao ver Topthor.
A bomba
arcônida explodiu no minuto exato. Rhodan estava bem longe no espaço
e viu o clarão ofuscante que haveria de provocar reações em
cadeia. Ainda levaria horas, até que o planeta se transformasse num
sol.
A frota
dos saltadores estava a uma hora-luz da explosão. Major McClears os
estava observando do cruzador pesado Terra, enviando informações e
imagem constantemente para a Titan, a fim de deixar Rhodan a par de
tudo.
As
primeiras mensagens de Cekztel davam a entender que as coordenadas
para o regresso dos saltadores para M-13 já estavam calculadas. A
missão estava cumprida e a “Terra” destruída.
Mas todo
mundo sabia que Rhodan ainda estava vivo. E era a única coisa que
atrapalhava Rhodan.
Depois de
haver feito e discutido vários planos com Bell, entre os quais havia
um já mais ou menos formalizado, mandou chamar para a sala de
comando a John Marshall.
— A
Titan deve ser, aos olhos dos saltadores, destruída — começou
Rhodan, vendo, com um sorriso nos lábios, o susto estampado no
semblante do telepata. — Exatamente como foi com a Terra. Somente
depois disso é que estaremos convencidos de que nossa grande jogada
deu certo cem por cento. Também o Robô de Árcon deve ficar
convencido de que fomos destruídos. Arquitetamos um truque de grande
efeito, Marshall, para cuja execução, no entanto, necessitamos de
um teleportador: Ras Tschubai ou Gucky.
— Ambos
estão na Centauro, senhor. Deve-se então avisar a Deringhouse de
que...
— Deringhouse
estará aqui com seu cruzador em dez minutos. A frota dos saltadores
partirá dentro de trinta minutos. Neste meio tempo, o truque tem que
ser realizado.
— O que
vai ser realizado?
Rhodan
ainda continuava sorrindo, ao dizer:
— A
desintegração total da Titan em meio das naves reunidas dos
saltadores.
Marshall
não empalideceu, porque havia lido o pensamento de Rhodan. Então,
ele mesmo começou a rir.
*
* *
Com
semblante carregado, Deringhouse retornou à Centauro. Quando se
materializou com Ras Tschubai na praia, o superpesado Gatzek havia
sumido. Também ele tinha preferido buscar abrigo na floresta
próxima. De qualquer maneira seria melhor do que prisão, pensaria
ele.
Deringhouse
não se deu ao trabalho de procurar os dois fugitivos. Não tinha
tempo para isto. Além disso, Aqua lhes oferecia o necessário para
sobreviver. Eles é que cuidassem de suas vidas. Ele, Deringhouse,
tinha outras preocupações.
“Onde
estará Gucky?”, pensou, indagando-se.
Topthor já
morrera.
Estava
sentado na poltrona da cabina de rádio dos tópsidas, diante do
painel de controle, de uma maneira tão esquisita, com a cabeça
caída na mesa. Ou o que sobrou de sua cabeça. Pois Topthor cometera
suicídio, com a pistola de raios energéticos. A arma, com o cano
apontado para a cabeça, ainda estava presa na mão rígida.
Topthor
estava morto e com ele havia findado o mistério que ameaçava a vida
no planeta Terra.
Deringhouse
pegou o africano pela mão.
— Para a
nave — disse ele. — Onde andará Gucky?
Materializaram-se
na cabina. Lamanche continuava sentado, olhando para os controles,
mas não havia nada mais para observar. Em seu colo estava, todo
feliz, Gucky, enquanto Lamanche lhe coçava a nuca. Quando
Deringhouse soltou uma praga meio contida, o rato-castor sacudiu a
cabeça com ar de desaprovação, dizendo:
— Chefe
Deringhouse, você, durante o último hipersalto pelo espaço, deve
ter perdido um pouco de sua boa educação.
— Desde
quando está aqui?
— O
tempo suficiente para ficar com os cabelos brancos de tanto esperar
por você — disse Gucky. — Você encontrou Topthor?
— Por
que ele se matou, Gucky? Sabe alguma coisa a respeito?
— Estava
cansado da vida, major. Queria matar primeiro a mim e depois a si
mesmo. Apenas trocou a ordem.
— Foi
assim! — comentou Deringhouse admirado.
O operador
em serviço entrou e disse:
— Rádio
de Rhodan, major. O senhor deve procurar as coordenadas apresentadas.
Os dados são...
— Está
bem, vou lá e resolvo isto já. Antes de sair, Deringhouse olhou
para Gucky e lhe disse:
— Esse
negócio de trocar a ordem, você vai me explicar na presença de
Rhodan.
Gucky não
respondeu nada.
*
* *
— É
relativamente simples, mas tem de ser feito no segundo exato —
concluiu Rhodan, olhando com interrogação para Gucky. — Se você
quiser, poderá ser feito também por Ras.
O
rato-castor sacudiu a cabeça tão violentamente que as orelhas
esvoaçaram.
— Ras
deve ser poupado, chefe. Além de tudo, está na Centauro com
Deringhouse, enquanto eu estou aqui.
Rhodan
concordou.
— Quanto
à sua explicação barata sobre a morte de Topthor, é melhor a
gente esquecer isto. Mas cá entre nós, como foi mesmo? — olhou
para o relógio. — Ainda temos dois minutos, conte depressa.
Gucky
andava nervoso de um canto para o outro, olhando muito para Bell, com
olhos suplicantes.
— Realmente,
eu o surpreendi e o chamei, ele se virou, já com a arma na mão para
me matar. Que devia eu fazer? Que seria de você, chefe, se eu
morresse? E o coitado do Bell? Não, não consegui deixar que me
matasse.
— E
depois? — perguntou Rhodan impaciente, olhando para o relógio.
— Nada!
Topthor ergueu a arma para o ouvido e disparou.
— De
qualquer maneira, você é telecineta e pode mover a matéria sem
tocar nela. É isso que deverá fazer com a bomba atômica.
Gucky
olhou para ele com certa tristeza nos olhos.
— Está
certo, chefe.
Rhodan
olhou pela última vez para o relógio:
— Um
depósito cheio de cenoura, eu lhe prometi, e você receberá, Gucky.
Mas, vamos embora, não há mais tempo a perder. Os saltadores vão
desaparecer em cinco minutos, Gucky. Vamos para a sala de munições,
regular o detonador exatamente para cinco segundos e esperar até que
chegue meu comando. Tudo claro?
— Há
muito tempo — disse Gucky e desapareceu.
Bell olhou
espantado para o lugar vazio.
O
hipercomunicador estava ligado. A primeira mensagem era cifrada e se
destinava a McClears e a Deringhouse:
— Vocês
liguem o compensador e executem dez saltos antes de voltarem para
Terrânia. Lá esperarão por mim. Tudo em ordem?
— Entendido
— foi a resposta dupla.
Vinte
segundos depois, não havia mais Centauro nem Terra no sistema do sol
vermelho de Beta. A Titan ficou sozinha.
Rhodan
calculara bem as coordenadas, mas antes de saltar com a supernave,
deixou aquecer o hipertransmissor. A freqüência do cérebro
eletrônico foi regulada. Agora, com a simples pressão de um botão,
Rhodan podia entrar em contato com o regente do Império Arcônida, a
mais de 30 mil anos-luz de distância.
Na tela já
se podia ver Gucky. Em seus braços, se via um objeto alongado: a
bomba.
— Pronto,
Gucky?
— Pronto.
— Atenção!
Salto!
A Titan se
desmaterializou e surgiu, no mesmo segundo, a menos de dois
quilômetros da nave de Cekztel, no espaço normal. Na redondeza
estavam mais de duzentas unidades que se preparavam para o grande
salto de retorno. Somente devido a esta circunstância foi que
levaram tanto tempo para abrir fogo contra a grande nave esférica.
Antes,
porém, aconteceu muita coisa ao mesmo tempo.
Gucky
saltou com a bomba atômica através do hiperespaço e se
materializou fora da Titan. Usava um traje espacial e não podia ser
reconhecido na carcaça de brilho prateado da nave. Comprimiu o botão
de ignição. Assim que largasse o dedo, haveria ainda exatamente
cinco segundos para a detonação. Seus fluxos telepáticos
auscultavam o cérebro de Rhodan, aguardando seu comando.
Rhodan
comprimiu a tecla do transmissor. A ligação para Árcon estava
feita. Não era apenas o cérebro robotizado de Árcon que ia ouvir a
transmissão, mas todo o mundo, pois Rhodan, de propósito, não usou
nenhum código.
Ao
contrário da Centauro e da Terra, o compensador estrutural estava
desligado. Portanto todo rastreador de estrutura poderia localizar o
salto, em toda a Via Láctea. Em torno da Titan, estava ligado o
envoltório magnético de proteção, principalmente para defender
Gucky dos disparos dos raios energéticos.
O primeiro
tiro contra a supernave partiu da nave de Cekztel. Foi o sinal para
todas as outras naves dos saltadores. E para Rhodan também.
— Aqui
fala Perry Rhodan do sistema Terra — gritou ele no microfone do
hiper-transmissor, com voz de desespero. — Os saltadores acabam de
destruir o planeta Terra.
Utilizou-se
então da pequena pausa para se concentrar e poder pensar: “Agora,
Gucky”.
Depois
continuou e ainda tinha cinco segundos para falar:
— Eu
estou com defeito no gerador do campo estrutural... quero fugir e
saltar para...
Desligou a
alavanca do hipertransmissor e com a outra mão acionou o controle de
ligação da instalação de hipersalto.
A Titan se
desmaterializou.
Atrás
ficou a bomba, mas a diferença de tempo para sua detonação foi tão
diminuta, que Cekztel foi vítima de um erro compreensível. Com seus
próprios olhos, julgou ter visto como a Titan, durante a
desmaterialização, foi dissolvida por uma terrível explosão.
Simultaneamente, penetrou em seu ouvido o grito de socorro, enviado
por Rhodan ao cérebro robotizado de Árcon, no entanto interrompido
pela tremenda explosão.
O
rastreador estrutural da nave de Cekztel, e com ele milhares de
outros rastreadores em todas as regiões da Via Láctea, haviam
registrado o início do hipersalto da Titan. Ninguém, porém,
registrara o seu aparecimento no espaço normal. Rhodan tinha sumido
no hiperespaço.
Cekztel
estava triunfante. Sua mensagem de rádio não cifrada percorria toda
a Galáxia e era recebida em toda parte, a uma velocidade milhões de
vezes superior à da luz:
— Afastamos
o maior perigo para o Universo! Rhodan está morto. O planeta Terra
se transformou num sol. O império não será mais ameaçado. Viva
Topthor, a quem devemos tudo isto.
Mas o
pobre Topthor não podia mais ouvir este elogio.
Quando
Rhodan, sob a proteção dos compensadores que absorviam todos os
abalos, penetrou no espaço normal e ouviu o elogio fúnebre de
Cekztel, contraiu o rosto num sorriso irônico.
As
coordenadas estavam de novo em ordem. O próximo salto, com os
compensadores ligados, traria a Titan, intacta, para a Terra. Para
uma Terra que por anos ou decênios mergulharia no mar do
esquecimento. Pelo menos pelo tempo que Rhodan julgasse conveniente.
Com toda certeza, tanto tempo quanto fosse necessário para que o
planeta pudesse se preparar para resistir a qualquer ataque.
Gucky
estava feliz e puxava a mão de Bell para lhe coçar as costas.
— Sabe
de uma coisa, Gorducho? — observou ele. — A vida é tão bela,
mas nunca havia pensado que “estar
morto”
é ainda mais belo.
— É
isto mesmo — disse Bell amavelmente.
Rhodan
olhou pensativo para os dois amigos e pôs a mão no controle central
da instalação de hipersalto. Empurrou-o lentamente.
A
supernave deslizou novamente para um outro Universo e não deixou o
menor rastro atrás de si, no espaço calculável.
Ao se
rematerializar no espaço normal, tinham diante de si, nas telas da
Titan, um sol claro e maravilhoso.
Bem perto,
cintilava um corpo celeste pequeno, meio azulado.
Era o
planeta mais lindo do Universo: a Terra.
*
* *
*
*
*
Graças
à sorte e a Gucky, o maravilhoso plano de Perry Rhodan — o qual a
Terra teria que dar a todos os seres inteligentes das Galáxias a
impressão de estar destruída — foi bem sucedido. A Humanidade
ganhou assim tempo para um desenvolvimento tranqüilo e para a
formação do poderoso “Império Solar”.
Os
dramáticos acontecimentos, que se desenrolam no ano 2.040, lhe
permitirão viver uma época nova da história da Humanidade.
Em
Atlan, o Solitário do Tempo, título do próximo volume da série,
um encontro de gigantes acontece.

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