quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-049 - A Morte da Terra - ClarK Darlton [parte 3]


Não diga besteira, Topthor, ganhamos a batalha e estamos nos preparando para acabar de destruir a Terra. Só mais uma hora e...
Um grande erro — interrompeu-o Topthor, sorrindo, o que o patriarca não podia naturalmente ver. — Um grande erro. Você podia poupar sua bomba e...
Topthor parou sem querer, pois neste segundo sua tela escureceu. A imagem de Cekztel desapareceu e ao mesmo tempo cessou o leve zumbido da aparelhagem. As lâmpadas de controle apagaram. A instalação toda havia desligado por si.
Antes que Topthor pudesse compreender o que se passava, ouviu uma voz sibilante atrás de si.
Vire-se, mas tire a mão da pistola.
Topthor obedeceu, virando-se vagarosamente.

* * *

Deringhouse não era tão ingênuo assim.
O que vamos fazer no planeta Aqua, Gucky? — perguntou ele cauteloso, hesitando quanto ao próximo hipersalto. — Lá não existe nada.
Quem sabe, existe — respondeu o rato-castor, desenhando um triângulo quase eqüilátero numa folha de papel. — Quem sabe existe mesmo muita coisa.
Não compreendo, não, Gucky.
Então, vou lhe explicar, chefe. O bom Topthor está em Aqua, para gozar férias especiais. Eu gostaria de abreviar estas férias, antes que ele faça bobagem.
Topthor? — perguntou Deringhouse perplexo, como que atingido por um choque elétrico. — Topthor?
Exatamente — disse Gucky radiante e ao mesmo tempo suplicante, no seu olhar de cão fiel. — Você sabe, o chefe me prometeu uma coisa, se eu encontrasse Topthor. Sabe o que vou receber, quando o deixar fora de combate e destruir sua espaçonave?
Você sozinho? — admirou-se Deringhouse, olhando já agora para o mapa sideral. — Eu também gosto de ser amigo de Rhodan.
O que você vai fazer com uma meia dúzia de alqueires de cenoura? — perguntou Gucky. — Basta que nossa nave passe a uns mil quilômetros de Aqua.
Devo avisar Rhodan...
Mais tarde, major. Não se pode saber se nesse meio tempo Topthor já se comunicou com Cekztel.
Deringhouse concordou e apanhou a calculadora.
Três minutos mais tarde, a Centauro surgiu perto de Aqua, descendo em parábola até se aproximar da camada atmosférica.
Então, Gucky? — perguntou Deringhouse, virando-se para trás. — Você está conten...
O major interrompeu a palavra. Gucky já não estava mais na cabina, havia desaparecido sem deixar rastro.
Então, Deringhouse não hesitou mais em noticiar tudo imediatamente a Rhodan.

* * *

Quando o planeta das águas apareceu na tela, Gucky se concentrou e pulou. Assim que sentiu chão firme debaixo dos pés, respirou aliviado. Era sempre um grande risco pular no nada, mas Gucky teve sorte. Estava no alto de um morro sem vegetação, que emergia íngreme do meio da mata virgem, proporcionando um magnífico panorama. Isso não interessava muito a Gucky, mas a busca foi muito facilitada pelo fato de que Aqua possuía apenas um continente, que não era tão grande assim.
Olhou para o sol quase a pino, sentou-se numa pedra lisa e fechou os olhos. Tinha que ouvir o que não podia ver. Do contrário, não encontraria sua presa.
E sua presa se chamava Topthor. Concentrou-se para captar os impulsos de pensamento do superpesado, o que devia ser mais difícil do que no espaço livre. Para sua surpresa, porém, percebeu logo nos primeiros segundos partes de pensamentos, que sem dúvida vinham de saltadores e de tópsidas.
Saltadores e tópsidas! Na mesma direção?
Gucky virou a cabeça; a distância, naturalmente, não podia calcular, mas a direção, sim.
Puxa, saltador e tópsida em harmoniosa conversa, que surpresa! Isto tem que ser examinado de perto. Quem sabe Topthor pode estar por perto — murmurou.
Procurou localizar bem a direção e se teleportou para o próximo morro. Depois da terceira teleportação, viu duas naves: ou melhor, escombros de duas naves, próximas uma da outra, num planalto pedregoso. Gucky realmente se espantou:
Puxa! A Top II, se não me engano. Que coisa maravilhosa!
Enfiou a mão num bolso de couro da cintura, tirando dali um objeto metálico, do tamanho de um ovo de galinha, a bomba atômica. Pegou-a com cuidado, regulou o detonador, apertou um botão, olhando para que se mantivesse nesta posição, Se o soltasse, a bomba teria cinco segundos para explodir. Pulou para dentro da nave e se materializou na cabina de comando que pertencera a Topthor. O oficial que estava de plantão, sentado no sofá, arregalou os olhos espantado e se levantou num pulo para ver melhor a estranha aparição. Tinha arma na cintura, mas não fizera menção de usá-la. Olhava horrorizado para o rato-castor que surgira do nada, segurando um objeto metálico na mão, como se quisesse atirá-lo.
Se você for bonzinho, lhe darei uma coisa — disse Gucky no mais puro intercosmo, que deixou o superpesado ainda mais perplexo.
Conseguiu apenas balbuciar:
O que você vai me dar?
A vida — disse-lhe Gucky triunfante, mostrando-lhe a bomba. — É poderosíssima, se eu a soltar, explode imediatamente e haverá então um buraco enorme neste trecho do planeta. Portanto, não faça bobagem. Vá para o ar livre lá fora e reúna os outros.
Os outros? — disse o pobre superpesado, sem compreender nada. — Quem é você?
Sou Gucky. Nunca ouviu falar no meu nome? Meu melhor amigo se chama Perry Rhodan.
Rhodan...? — exclamou o bem nutrido guarda. — Rhodan está aqui?
Na redondeza, bem perto. E agora, chame os outros lá para fora. Eu queria dizer umas palavras a eles. Chame também os sáurios. Vocês fizeram aliança com eles?
Foi ordem de Topthor. Ele disse que a guerra foi um erro.
Toda guerra é um erro — continuou Gucky. — Mas há erros que evitam a guerra.
O superpesado continuava olhando para Gucky, sem nada compreender. Gucky sorria, mostrando seu dente roedor.
Vamos, não temos tempo a perder. Em dois minutos, quero ver as duas tripulações lá fora. E lhe digo logo que tenho uma bomba atômica em minhas mãos que detonará cinco segundos após minha morte, se algum maluco estiver pensando em me matar.
Levou apenas um minuto. Gucky esperou na escotilha até que os saltadores e os tópsidas estivessem todos reunidos lá fora, no planalto. Depois avançou um pouco mais, com a mão erguida, e gritou bem alto:
Para ser bem rápido: Rhodan me deu a incumbência de, com esta bomba atômica, destruir os escombros da nave. Desapareçam todos daqui, do contrário voarão pelos ares em pedaços. Têm dez minutos para isto. Compreendido?
Entenderam perfeitamente, disparando em todas as direções. Apenas um dos superpesados, com menos de quatrocentos quilos, ainda antes de entrar na floresta virou para trás e disse:
Sem a nave, nós não temos mais abrigo. Temos que morrer aqui ou alguém virá nos salvar?
Gucky encolheu os ombros.
Construam seus ninhos — disse ele pilheriando. — Aliás, onde está Topthor?
O superpesado acabou de desaparecer. Gucky ainda esperou dez minutos. Depois voltou ao grande aparelho e procurou o lugar onde estavam os instrumentos de navegação positrônica. Parou diante daqueles gigantescos aparelhos, mostrando-lhes a bomba atômica, dizendo baixinho:
Agora vocês vão receber um presente especial, principalmente você, computador de boa memória. Sabe também por quê? Não? Muitos já morreram sem saber o porquê. O mesmo vai acontecer a você.
Com muito cuidado, colocou a bomba sobre a mesa de controle, diante do robô, e deu um passo atrás. O botão vermelho estava puxado para fora. Gucky se desmaterializou e, em menos de um segundo, estava no alto de um morro, a cinco quilômetros dos escombros da Top II.
Ainda três segundos — disse ele, sentando-se sobre a volumosa cauda. — Agora!
Lá ao longe, além do teto verdejante da floresta, subiu ao céu o clarão ofuscante da explosão, apagando quase a claridade do sol. Um cogumelo de fumaça surgiu lento: estava tudo acabado.
Aquela caixa de metal não falará mais — disse para si mesmo, virando-se para outra direção. — Topthor está pensando de novo muito alto. Portanto deve estar por perto.
No horizonte, se estendia a imensa superfície do mar, até se encontrar com as nuvens baixas, à direita da língua de terra.
Está falando com Ber-Ka, quem é Ber-Ka? — Gucky auscultava atento. De repente, levantou-se de um salto, e de pé, com a cabeça levemente virada, como se assim pudesse ouvir melhor. — Ele é um assassino? Isto me torna o serviço mais fácil. Vamos lá, meu caro.
Com “meu caro”, Gucky se referia a si mesmo. O primeiro salto o deixou na praia, não longe daquele lugar onde ancoravam os barcos para a travessia. Ali no mar, estava a ilha de aço. Gucky sondou e percebeu que Topthor devia estar ali.
O segundo salto levou Gucky para a plataforma da ilha. Daí em diante, não quis mais se teleportar. Concentrou-se nos pensamentos de Topthor e achou a direção exata. O saltador devia estar debaixo da plataforma, na sala de rádio. Ber-Ka já estava morto e Cekztel estava no aparelho para falar com Topthor. Não se podia perder mais um segundo. Gucky desceu as escadas, atravessou o corredor, chegando a uma porta encostada, que abriu cuidadosamente.
Viu Topthor de costas, olhando para a tela. Ao lado dele, jazia o cadáver de um sáurio.
...erro — dizia Topthor. — Um grande erro. Você podia poupar sua bomba e...
Gucky emitiu um fluxo de suas forças telecinéticas, pegando com mão invisível na confusão eletrônica dos fios. A imagem sumiu da tela, a resistência queimou, não havendo mais corrente.
Vire-se — disse Gucky — mas tire a mão da pistola.
Topthor obedeceu imediatamente.

5



Embora os tópsidas tivessem perdido toda sua força aérea, Al-Khor julgou seu dever continuar lutando até não haver mais um só saltador no quarto planeta.
Ao aproximar-se da suposta Terra com suas naves de reconhecimento, Cekztel teve uma surpresa desagradável. Das fortalezas improvisadas pelos sáurios, saiu uma reação de fogo antiaéreo tão forte e inesperada que em muitas naves o envoltório energético não resistiu.
Cekztel viu horrorizado que quase a metade de sua frota de patrulhamento foi destruída. Arrependeu-se de ter subestimado os terranos.
A tudo isso ainda acrescia que, exatamente nesta situação desesperada, surgiam as naves esféricas de Rhodan, aumentando ainda mais a confusão. Três outras naves dos saltadores ainda foram destroçadas.
O terceiro planeta se transformara em inferno ignívomo. A impressão, pelo menos conforme o raciocínio dos patriarcas dos saltadores, era de que os terranos haviam transformado seu planeta pátrio numa fortaleza subterrânea. Talvez fosse essa a explicação para o fenômeno que causara tanta dor de cabeça a Cekztel. Todo planeta civilizado, assim era o seu raciocínio, devia ter seu cartão de visita: a superfície. A superfície da “Terra”, no entanto, constava apenas de uma paisagem rústica que não apresentava o menor sinal de civilização. Será que os terranos tinham toda sua civilização em subterrâneos?
Sua última dúvida a respeito de se tratar mesmo da verdadeira Terra desapareceu com o repentino e violento contra-ataque subterrâneo.
Suas ordens chegavam a todas as centrais de comando do restante da frota:
Retirada imediata. Ponto de encontro em BK cinqüenta e nove-hf. Temos de sair daqui.
Com uma velocidade incrível, as naves cilíndricas dos saltadores se atiraram espaço a fora, deixando no planeta das matas virgens os pobres tópsidas, já mais aliviados.

* * *

Cekztel olhava para a tela vazia, esperando que Topthor desse sinal de vida. Mas o rádio estava mudo e o superpesado não dava sinal nenhum. O patriarca franziu a sobrancelha e um tanto inseguro, virou-se para um dos seus oficiais:
O que este Topthor quer dizer com a frase: “Rhodan nos enganou novamente”? Entenda isto quem quiser. Será que não estamos em condições de liquidar com este Rhodan? Não destruímos sua frota e a de seus aliados? É verdade que a Terra está se defendendo com unhas e dentes e não pensa em se render. Mas isto vai adiantar alguma coisa? A bomba arcônida vai produzir um novo sol neste planeta. E mesmo que não consigamos apanhar Rhodan, o que ele vai fazer sem seu planeta pátrio? Não pode ficar a vida toda rodando por aí em sua gigantesca nave esférica. Então, haveremos de apanhá-lo, quando tentar descer um dia em um dos nossos mundos.
O oficial, um saltador normal, com menos de cem quilos de peso, fez como se estivesse de acordo.
Para mim, seria muito melhor que Rhodan estivesse morto.
Para mim, também — esbravejou Cekztel, furioso contra suas próprias dúvidas. — Para mim também, acredite, mas já fico mais contente quando a Terra estiver destruída. A Terra é a incubadora destes novos-ricos aventureiros, que não respeitam nosso monopólio comercial. Você vê que até os mais ou menos neutros tópsidas se tornaram nossos inimigos porque Rhodan conseguiu influenciá-los. Depois que a Terra for destruída, teremos uma conversa muito séria com o ditador.
Quem sabe, foi ele obrigado a tomar esta atitude contra nós?
Quem sabe, mas não temos certeza — continuou Cekztel. Seus olhos ainda continuavam fixos na tela escura. — Temos que nos preocupar com Topthor. Providencie para que uma de nossas naves vá buscá-lo. Enquanto isso, fico preparando tudo para a destruição da Terra.
O oficial obedeceu e saiu em direção à sala de rádio. Fez logo uma ligação para um tal de Bernda, um corpulento patriarca dos saltadores da estirpe dos chamados comerciantes de cereais.
Ordens de Cekztel, Bernda — disse o oficial assim que o semblante do astuto comerciante apareceu na tela. — Você deve voar para o quarto planeta do sistema e apanhar Topthor e sua tripulação. Teve de fazer uma aterrissagem forçada por lá. A aparelhagem de rádio parece que não funciona. Mas você vai encontrá-lo com facilidade. O planeta é completamente inabitado.
Exatamente Topthor! — disse Bernda, com cara de poucos amigos. — O desgraçado já me estragou muito negócio bom na vida.
Isto não interessa nem a Cekztel nem a mim — interrompeu o oficial. — O senhor recebeu a ordem de apanhar Topthor. É muito importante, pois Topthor tem uma mensagem de muito valor para nós. Espero que o senhor coloque o bem de nosso povo acima de seus interesses particulares e diferenças pessoais.
Não se preocupe — foi a resposta do comerciante de cereais. — Sei o que tenho que fazer. Devo partir, quando?
Imediatamente. E não se assuste se o terceiro planeta se transformar num sol.
A Terra?
Sim, a Terra — respondeu o oficial, desaparecendo da tela de Bernda.
O comerciante ainda ficou olhando por uns instantes para a tela apagada, depois sua voz possante gritou umas ordens. Toda a tripulação correu para seus lugares e se preparou para a nova missão.
A Bern I era uma espaçonave relativamente pequena, um cilindro de mais ou menos oitenta metros de comprimento, com poucos meios de defesa, mas muito ágil. Cekztel não poderia escolher ninguém melhor do que Bernda, para esta missão. Ele comerciava com cereais e o seu negócio estava também ligado com a pesquisa da superfície de outros planetas à procura de vegetação e de animais. Seu trabalho profissional o obrigava a se utilizar de uma nave pequena.
Aceleração até mais ou menos 1G!
A Bern I, depois de descrever um ângulo de 90 graus, disparou pelo espaço a fora, perdendo de vista em pouco tempo a frota dos saltadores. Apenas uma vez, notou no espaço pedaços de aparelhos destruídos, que não interessavam a ninguém.
Levou mais ou menos uma hora, depois o quarto planeta ficou tão grande que enchia toda a tela. É claro que Bernda não ia colocar seu dever de cidadão acima dos seus interesses particulares.
Água... A maior parte deste planeta está coberta de água. Não há muita coisa para se procurar”, pensava ele.
Mas, quem sabe existiriam no continente novas formas de vida que seriam de grande interesse para incrementar seus negócios? Se encontrasse logo Topthor, não teria mais jeito de prolongar sua permanência no quarto planeta. Sua ausência não ia apressar o desenrolar dos acontecimentos nem alterá-los.
A Bern I deslizava a poucos metros de altura, sobre a superfície das águas. Pequenas ilhas anunciavam o continente, que minutos depois apareceu no horizonte.
Bernda mandou abrir a cúpula de observação e sentou-se numa poltrona onde mal caberia Gucky. Desta cúpula, tinha uma ótima visão para todos os lados, mormente para baixo. Uma direção auxiliar lhe permitia controlar os movimentos da nave, dali da cúpula mesmo. Uma ligação direta com a cabina de rádio o punha em contato permanente com sua tripulação ou com naves próximas.
Bernda se entregou completamente às suas inclinações comerciais. Como um técnico, contemplava as enormes árvores da floresta virgem, avaliando seu valor comercial. Em mundos pobres de florestas, troncos de boa madeira davam grandes lucros. Principalmente árvores como aquelas. De qualquer maneira, não ia perder a oportunidade de arranjar mudas e sementes.
Talvez fosse melhor, primeiro procurar Topthor. Não gostou muito desta idéia. Mas depois ficou pensando que de fato ele estava recebendo dinheiro para atuar nesta campanha, tendo, portanto algumas obrigações a cumprir. A desgraça é que tinha de salvar exatamente a Topthor.
Casualmente seu olhar deu com uma formação de nuvens, que não lhe era estranha. Um vento brando já havia espalhado um pouco o cogumelo que penetrava já bastante na atmosfera, embora fossem inconfundíveis a larga umbela e a coluna vertical. Mais para frente, no continente, devia ter havido, há poucos instantes, uma explosão atômica.
A curiosidade de Bernda cresceu. Aumentou a velocidade e cinco minutos mais tarde estava chegando à região calcinada do planalto. Um enorme rombo afunilado no chão documentava a catástrofe. As bordas da imensa cavidade redonda tinham um brilho de vidro incandescente. Na floresta em volta, ainda se viam algumas chamas e os destroços atirados, mas eram sufocados depressa pela falta de oxigênio na densa ramagem rasteira.
Bernda não pensou em descer. Por que iria se expor a perigo sem necessidade? Se Topthor estivesse por aqui, já estaria morto. Mas, quem teria provocado a explosão e por quê?
Era impossível arranjar uma resposta na hora, mas o tempo se encarregaria de trazê-la. Bernda virou a nave e se dirigiu para o mar, que não estava longe. No momento, não estava mais pensando em mudas e sementes de árvores, mas quebrando a cabeça para descobrir o que a explosão atômica tencionava destruir.
Achou a resposta mais depressa do que esperava: seus olhos descobriram alguma coisa se movendo no pedregoso planalto. Baixou bastante a nave e percebeu um corpo erecto, de um brilho esverdeado, com uma cauda coberta de escamas.
Um tópsida! Como teria aquele sáurio chegado até aqui? Bernda desceu ainda mais e já estava para mandar a tripulação abrir fogo contra o inimigo, quando um calafrio lhe percorreu a espinha. Viu uma outra figura, um superpesado. Saía de trás de um rochedo e ficou parado ao lado de um tópsida. Ambos olhavam para cima e acenavam. Como se estivessem esperando, apareceram imediatamente outros superpesados e outros tópsidas. Agiam como se não fossem adversários entre si. Bernda já não estava compreendendo mais nada. Mas foi suficientemente inteligente para suspender a ordem de fogo.
Aterrissou a uns duzentos metros do estranho grupo e já estava pronto para pisar em terra firme. Não confiou muito naquele ambiente tão pacífico, enfiou duas pistolas na cintura, ordenou que dois guardas bem armados o seguissem.
A cerca de vinte metros da escotilha aberta, os três saltadores pararam, esperando os desconhecidos.
O que você acha? — sussurrou Bernda.
O oficial da direita sacudiu a cabeça:
Talvez foram derrubados e então suspenderam a luta — não sabia que realmente estava muito perto da verdade. — Por que razão têm que se destruir mutuamente, se uns podem ajudar os outros a se salvarem? Vamos ver em breve.
Você quer sempre ir contra o regulamento — protestou o outro guarda nervoso. Sua mão já estava segurando a pistola energética. — Os tópsidas foram declarados aliados de Rhodan e devem ser tratados como tais.
Esperemos um pouco — disse Bernda calmamente.
Olhou para os dois superpesados que se aproximavam acompanhados de dois tópsidas. Observou que estavam desarmados. O restante dos superpesados e dos tópsidas ficou aguardando aos pés do rochedo. A delegação parou a dez metros de Bernda e seus dois guardas. O superpesado sorria com dificuldade.
Isto se chama socorro na hora exata — disse, estendendo a mão a dez metros de distância, como se quisesse cumprimentar Bernda. — Nós já acreditávamos ter de passar o resto da vida aqui. O senhor encontrou Topthor e Ber-Ka?
Ber-Ka, quem é ele?
O superpesado apontou para seus companheiros:
O comandante dos tópsidas, cuja nave nós derrubamos. Infelizmente a Top II ficou danificada, não podendo mais levantar vôo. Os sáurios e nós fizemos então um armistício, porque não tinha mais sentido nos matarmos mutuamente.
Cekztel certamente se alegrará muito com o procedimento arbitrário de Topthor — disse Bernda, feliz com a desgraça alheia. — Onde está então Topthor?
Saiu em companhia de Ber-Ka à procura de uma estação de rádio, em algum ponto do litoral, numa ilha artificial.
Numa ilha artificial? — disse o superpesado, sacudindo a cabeça.
Não é possível que o senhor entenda, sem um relatório mais pormenorizado. Dê-nos primeiro alguma coisa para comermos e bebermos e depois saberá de tudo.
Mas Bernda estava curioso demais para aceitar imediatamente a proposta.
Responda-me primeiro uma outra pergunta: achamos, a algumas milhas daqui, uma cratera atômica. Ali houve uma grande explosão e o que foi propriamente destruído?
Foi Rhodan — disse o superpesado. — Ao menos reconhecemos um de seus colaboradores mais íntimos, um ser esquisito de pêlo marrom e de cauda curta, mas muito larga. Apareceu do nada, atirou uma pequena bomba atômica e desapareceu de novo.
E vocês se salvaram como?
Fomos avisados por ele, que nos deu dez minutos para nos protegermos.
E ninguém de vocês tentou impedir este ser estranho de destruir a belonave? Acho que já posso dizer que nossa força espacial não se compõe exclusivamente de heróis. E os tópsidas também não são mais tão corajosos — comentou Bernda.
Para impedir? Como assim? O animal, acho que não se pode classificá-lo como tal, tinha uma bomba atômica na mão — retrucou o oficial.
E aí, vocês saíram correndo feito cabritos desnorteados, para todos os lados? Cekztel é quem vai decidir isto. Eu tenho apenas a missão de encontrar Topthor, porque ele tem, aparentemente, uma mensagem muito importante para transmitir.
Uma mensagem muito importante? — repetiu o superpesado, tentando descobrir alguma coisa. — Pode ser mesmo, Topthor e Ber-Ka discutiam muita coisa em segredo e diziam que a guerra não tinha sentido. Pensavam que Rhodan nos tinha enganado, que tínhamos caído numa esparrela sem percebermos. Mais eu não sei, não.
Quem é você?
Sou Gatzek, o segundo-oficial de Topthor.
Bernda concordou aos poucos.
Bem, então diga ao seu pessoal e também aos sáurios que mandarei cuidar de vocês todos. Mas depois, espero o relatório de vocês, dentro de meia hora. Há um grande erro em tudo isto. Quero descobri-lo.
Viu com sentimento ambíguo que saltadores e tópsidas se confraternizavam tão simplesmente. Todos misturados, esparramados pelo chão, à espera de uma refeição.


* * *

A bomba de Árcon era o instrumento de maior poder destrutivo dos antigos arcônidas. Uma vez ativada, desencadeava um processo irreversível com o poder de destruir um planeta. Infelizmente não eram só os arcônidas que possuíam o segredo desta bomba. Os saltadores também dispunham desta terrível arma, embora a usassem muito raramente.
Para destruir a “Terra”, Cekztel lançou mão da bomba de Árcon.
A frota dos saltadores estava no espaço, a uma distância suficiente do terceiro planeta, para não sofrer os efeitos da explosão. Apesar disso, continuavam sendo disparados do mundo das matas virgens foguetes não tripulados que atingiam seus alvos automaticamente. O que salvava, às vezes, as naves dos saltadores, era a fuga com uma rápida transição.
O que Cekztel não sabia era o fato de que toda a defesa da “Terra” fazia-se apenas por um punhado de tópsidas. Quase tudo era controlado por robôs. É claro que um punhado de sáurios estava condenado à morte, embora Cekztel acreditasse que com a destruição do planeta, destruiria também uma raça toda, raça que se opusera ao monopólio dos comerciantes das Galáxias.
Deixou a cabina e foi ter com os especialistas em armas que estavam regulando o detonador da bomba que seria lançada pela nave de Cekztel.
Falta muito ainda para terminar o trabalho?
Um dos oficiais se virou para trás e explicou:
O detonador terá o curso de uma hora, em seguida detonará. Acho que este tempo é suficiente para todos se abrigarem.
Uma hora...? — continuou Cekztel. — Em circunstâncias normais é mais do que suficiente. Poderemos percorrer bilhões de quilômetros. Mas, se alguma coisa não der certo...
Era uma vaga possibilidade, mas tão vaga que não passava pela cabeça de ninguém.
O detonador será ativado pela própria queda da bomba — explicou o oficial. — Basta apenas jogá-la.
O olhar de Cekztel pairava sobre a bomba. Não era muito grande, mas seu interior continha um mecanismo diabólico, desenvolvido por cientistas há muitos milênios e que até hoje ninguém conseguira aperfeiçoar. A única arma de destruição que podia concorrer, com ela era a bomba de gravitação:
Partiremos em dez minutos — disse Cekztel, se retirando. Sem dizer uma palavra, voltou à cabina e ligou o intercomunicador.
Aguardou ainda alguns minutos para que cada um, a bordo do seu aparelho, pudesse vê-lo e ouvi-lo.
Chegou a hora decisiva. Correndo tudo dentro da cronometragem, em setenta minutos começará a destruição da Terra. Rhodan, pessoalmente nos escapou, mas seus aliados, os tópsidas, e seus irmãos de raça estarão em breve mortos no planeta. Vou lançar a bomba em dez minutos. O tempo para a explosão é de uma hora. Vamos observar os efeitos da explosão daqui mesmo. Quando este sistema tiver dois sóis, um gigantesco sol vermelho e um pequeno sol branco, nossa missão estará cumprida. O planeta Terra só existirá em nossa recordação.
Fez uma curta pausa e continuou: — Durante meu regresso, manterei contato com vocês. A ordem de partida, logo após a explosão, será dada por mim. Até lá estaremos em estado de alerta. Se surgirem naves de Rhodan, é necessário atacá-las imediatamente e destruí-las.
Desligou logo após, sem esperar resposta. Por mais de cinco minutos, ficou parado, imóvel, diante de seus controles, mas depois recuperou a vivacidade.
Com rápidas manobras, acelerou o vôo e se separou do resto de sua frota. Como uma ave de rapina, sua nave se despencou de encontro ao pequeno planeta, que crescia rapidamente e finalmente encheu a tela toda.
Poços e cavernas até então camuflados na superfície do planeta, abriram suas possantes bocas de fogo antiaéreo, atirando raios mortíferos contra o atrevido atacante. Cekztel acumulou toda a energia disponível no envoltório de proteção, aproximando-se cada vez mais da atmosfera, onde finalmente penetrou com um zunido infernal.
A velocidade ainda era elevada demais. Se a bomba fosse lançada neste momento, poderia se transformar num satélite qualquer. Mas a velocidade foi diminuindo. A despeito de todos os perigos, Cekztel baixou mais ainda e atravessou uma grande cadeia de montanhas. O fogo de defesa embaixo diminuiu um pouco. Provavelmente os terranos achavam que nunca poderiam ser atacados pelo lado das montanhas.
Cekztel ligou o intercomunicador.
Sala de munições! Lançar a bomba em vinte segundos. Deve cair sobre o espigão da montanha que nos está à frente.
Diminuiu ainda mais a velocidade e relacionou-a com a altura para atingir exatamente o alvo desejado, um planalto alcantilado.
No exato momento em que foi sobrevoado o pequeno planalto íngreme, veio a confirmação da sala de munições:
Bomba atirada. Está caindo sobre o planalto.
Cekztel fez uma pequena curva e subiu. Viu a bomba cair no ponto desejado. Levantou um pouco de poeira, que em alguns segundos desapareceu. E ali ficou, numa leve curva do terreno, com seu brilho prateado.
Agora era só esperar. Mais cinqüenta e nove minutos.
Cekztel deu um último olhar para o pobre mundo condenado à morte e pegou nos controles com determinação.
A nave se empinou quase verticalmente e, em velocidade crescente, perfurou o espaço de um azul-escuro, perseguida por um míssil teleguiado dos tópsidas, que surgira inesperadamente. Uma transição de cinco segundos-luz colocou-a a salvo, pois estes foguetes não iam além de cem mil quilômetros. Naturalmente, não encontrando seu alvo, o míssil entrou em órbita e continuaria girando até que, talvez em milhares de anos, desse de encontro com um pedaço de matéria e o destruísse. Essa matéria poderia ser também um meteoro, ou mesmo uma espaçonave comercial.
Isto ninguém poderia prever e Cekztel também não tinha nenhuma preocupação a respeito. Sua missão estava cumprida. Em uma hora estaria de volta para a nebulosa galáctica M-13.
6



Deringhouse estava olhando para a imagem de Rhodan na tela panorâmica, embora as duas naves estivessem a mais de um bilhão de quilômetros uma da outra. As ondas de rádio atravessavam esta distância toda em um décimo de segundo, pois iam através do acelerador da estação de supertransmissão.
Aconteceu, Deringhouse — falava Rhodan. — Cekztel já lançou a bomba. No tempo que nos resta de cinqüenta minutos, vou tentar salvar os tópsidas que ainda estão no terceiro planeta.
Você ainda dispõe de tanto tempo? — indagou Deringhouse.
Ouvi as palavras do patriarca à sua frota — tranqüilizou-o Rhodan. — Não se preocupe, vou dar o fora a tempo, sem perigo para mim e para a Titan. Realmente é pena estragar assim um mundo tão romântico, mas sem este inconveniente, não atingiremos nosso objetivo. Eu já estava preocupado, pensando que os saltadores desconfiassem, pois todos imaginam um mundo civilizado de maneira bem diferente. Por sorte, os tópsidas nos ajudaram, transformando um planeta desabitado numa verdadeira fortaleza. Isto deu aos saltadores a certeza de estarem realmente diante da Terra.
Devo permanecer nas proximidades de Aqua?
Rhodan refletiu um pouco e depois concordou.
Sim, tente recolher Gucky. Já deve ter terminado sua missão. Para agir com mais segurança, eu lhe sugiro aterrissar em Aqua e procurar por Gucky. Você não está mais com nenhum telepata a bordo e não poderá assim entrar em contato com Gucky.
Gucky levou consigo um pequeno aparelho transmissor. Pode enviar um sinal para orientação, e o acharemos logo. É verdade que até agora não deu sinal nenhum.
Rhodan terminou a conversa:
Voe para Aqua e espere lá até que o sistema ganhe um outro sol. Procure Gucky e fique então na escuta permanente, que eu me comunicarei.
Deringhouse desligou e a imagem de Rhodan desapareceu da tela, que apagou totalmente. Capitão Lamanche, sentado diante dos controles de pilotagem, perguntou:
Direção Aqua, major?
Sim, mas primeiro vamos sobrevoar o continente, Lamanche, se não acharmos nada, vamos dar uma olhada no litoral. Em algum lugar, temos de encontrar uma pista do paradeiro de Gucky e de Topthor.
A Centauro se aproximou do planeta das águas e entrou logo na atmosfera. A pequena altura, dava voltas, sempre mais amplas sobre o continente, cuja parte central estava mais ou menos no coração do planeta. Cada vez mais, a Centauro se aproximava do litoral.
Enquanto Lamanche pilotava, Deringhouse coordenava o serviço de busca por instrumentos ópticos, apoiado naturalmente pela sala de rádio, cujos receptores estavam regulados para a freqüência especial de Gucky. Mas o rato-castor ainda não havia achado por bem comunicar o lugar onde estava.
Faltava-lhe possibilidade para isto?
Deringhouse se assustou com o pensamento. Até então não lhe havia ainda passado pela cabeça que poderia ter acontecido alguma coisa estranha a Gucky. Um ente metafísico, com três poderes parapsicológicos, era propriamente invulnerável e parecia excluído que não tivesse apanhado Topthor. Por que, então, não se comunicava, para que a Centauro o pegasse? Ou estaria ele, de novo, com os homens-peixes de Aqua, fazendo uma excursão submarina, como já havia feito uma vez?
Ao ver a cratera, Deringhouse começou a ficar zangado. Mas logo depois, a ira deu lugar à admiração. Aquela cratera só podia ser da pequena bomba atômica. Portanto, Gucky havia encontrado a nave de Topthor e a havia destruído. Mas onde estariam os dois, o superpesado e Gucky?
Os pensamentos de Deringhouse davam voltas e não chegavam a nenhuma conclusão. A cratera afunilada ficara para trás. Atravessaram um planalto e depois uma extensa floresta que podia chegar até ao longínquo litoral. Mas percebeu depois que o litoral não estava tão longe assim. A longa faixa marítima, à esquerda da direção do vôo, resplandecia num azul-claro.
Lá embaixo tudo era paz e sossego. Deringhouse se perguntava se haveria ainda sobreviventes da explosão. Não era do feitio de Gucky matar adversários indefesos, mesmo que tivessem as piores intenções.
Lamanche havia ligado o envoltório de proteção frontal, agindo de acordo com o provérbio “o seguro morreu de velho”. Os acontecimentos vieram lhe dar razão.
É verdade que Deringhouse percebeu a nave no mesmo instante, mas antes que tivesse tempo de avisar ao piloto, este já tinha ligado por conta própria o envoltório. Só depois disso é que os dois homens foram olhar mais de perto o seu achado.
A fuselagem alongada da nave dos saltadores estava numa extremidade do planalto. Vários pontos escuros se moviam na parte descoberta e pararam, de repente, para depois saírem correndo em todas as direções. Abrigaram-se parte na própria nave, parte na floresta vizinha.
Desça mais, Lamanche — ordenou Deringhouse. — Temos que dar uma olhada nestes rapazes. Além de Topthor, ainda há outros saltadores por aqui.
Talvez sejam tópsidas — acrescentou o piloto, enquanto fazia a Centauro descer.
Eu os estou reconhecendo nitidamente na ampliação da tela panorâmica.
Além disso, em pacífica convivência — disse Deringhouse, remoendo seus pensamentos que poderiam levar a uma conclusão falsa de graves conseqüências. — Desde quando deixaram de ser inimigos?
Lamanche, sem o saber, tinha um pouco de culpa.
Talvez o próprio Topthor lhes confessou o erro em que tinham caído. Acho que é uma resposta razoável para sua pergunta, senhor.
Deringhouse concordou, com sinais de preocupação no rosto.
Quem sabe é realmente a resposta certa, capitão. Mas, vamos, abaixe mais, conservando, porém o envoltório ligado. Vamos olhar de perto os rapazes e lhes fazer algumas perguntas.
Perguntas? — disse Lamanche admirado, mas não disse mais nada.
De baixo, veio um raio energético de um verde gritante de encontro à Centauro. Atingiu o envoltório invisível e foi absorvido. Mas o adversário continuou atirando sempre no mesmo local para atingir seu objetivo: enfraquecer e romper a abóbada de proteção magnética.
Deringhouse chamou a sala de munição:
Sob nós há uma nave dos saltadores. Estamos sendo atacados, estou direto em seu alvo. Lance uma bomba atômica.
Era um ato de defesa própria, embora pudesse ser feito com meios mais brandos. Mas Deringhouse estava realmente convencido de que aqueles saltadores e tópsidas estavam a par do grande segredo.
Foi a conclusão falsa de tremenda conseqüência. Tremenda conseqüência, pelo menos para os pobres sobreviventes tópsidas e saltadores, sobre os quais a morte se abateu com a velocidade do raio.

* * *

Bernda e Gatzek escaparam.
Os dois saltadores se encontravam a caminho do litoral para procurar Topthor. Tinham recebido informações dos tópsidas de que o superpesado devia ter atingido a ilha artificial em companhia de Ber-Ka. Um princípio de mensagem de rádio interrompido entre Topthor e Cekztel comprovava a informação.
Naturalmente, Bernda poderia chegar até perto da ilha com sua nave, mas preferiu o trator de esteira para ter oportunidade de fazer uma bela excursão particular. Estava num mundo diferente e não queria perder a oportunidade para futuros negócios. Os grossos troncos de árvores copadas lhe interessavam muito. Suas sementes e mudas lhe trariam grande fortuna.
Gatzek não suspeitava das intenções comerciais do magro comerciante, cuja estatura normal lhe lembrava os odiados terranos.
Chegaram até o litoral e seguiram o rastro do carro dos tópsidas, no qual Topthor e Ber-Ka haviam feito no dia anterior a penosa viagem. Quando surgiu a seus olhos a construção baixa da ilha artificial, parecia-lhes haver conseguido tudo. Respirando mais sossegado, Gatzek reconheceu o carro parado na praia. Estava vazio.
Bernda parou. Com as pernas um pouco doloridas, pulou para a areia. O superpesado vinha atrás, caminhando com visível dificuldade. Seus pés penetravam muito na areia.
Como chegaram à ilha? — perguntou olhando, com muito medo, para uma fila de barcos pequenos num diminuto ancoradouro. — Certamente não foi com uma casca de noz assim, não é?
Elas agüentam mais do que se supõe — consolou Bernda. — Experimente para ver.
Gatzek se encaminhou para o primeiro barco e, experimentando, botou o pé na popa estreita. Afundou um pouco, mas as paredes laterais da embarcação não deixaram que a água penetrasse.
Acho que podemos ir, Bernda. Queira Deus que ninguém nos roube o carro neste meio tempo.
Bobagem, o carro de Topthor ainda está aqui e ninguém mexeu nele. E aqui não há ninguém para fazer isso.
Antes que Gatzek pudesse responder, aconteceu algo que o fez pular de volta na areia.
Bem longe, reluziu um forte clarão por sobre a floresta. Pouco tempo depois, uma forte compressão do ar varreu as grimpas da imensa floresta, passando para a vastidão do mar, onde as ondas se encapelaram. Graças à proteção da floresta é que os dois saltadores não foram atirados ao solo.
Que foi isto? — perguntou Bernda, ficando totalmente pálido. — Não é da direção de onde viemos? A nave...?
Gatzek tremeu dos pés à cabeça.
A nave... sim, poderia ser. Que aconteceu?
Tiveram a resposta dez segundos após, ao surgir, sobre a copa da floresta, uma enorme esfera que se aproximava deles ameaçadoramente.
Uma das naves de Rhodan.
Bernda deu um grito alucinante e saiu correndo, sem pensar no seu companheiro, cuidando apenas de se pôr a salvo. Antes que a grande nave esférica atingisse a praia, o franzino comerciante já estava se embrenhando pela mata. Continuou correndo, até que a respiração o fez parar. Cansado e sem ar, rolou pelo chão. Acreditava que no emaranhado da floresta ninguém o acharia. Em volta dele, os grossos troncos das árvores de copas fechadas. Do céu, não se via nada.
Minutos a fio, ficou estirado no chão úmido da floresta, tentando ouvir algum ruído de eventuais perseguidores. Mas tudo era silêncio. Talvez tivessem perdido suas pegadas. As copas das árvores eram demasiadamente espessas para alguém de cima poder vê-lo.
Será que Gatzek estava também em segurança?
Bernda olhou cautelosamente em volta e parecia mais calmo. Deu com os olhos num caroço alongado, vermelho-escuro, parecia realmente um caroço. Como sentisse muita fome, levantou-se e o apanhou. A casca era muito dura. Com um pedaço de pedra, começou a martelá-lo de encontro às raízes de uma árvore. Quase que deu um grito de alegria, pois o “caroço” continha muitas sementes, que certamente seriam outras tantas árvores mais tarde. Ao menos umas duzentas sementes havia no seu interior. E olhando mais em volta, descobriu grande quantidade de “caroços” deste tipo. Muito contente, começou a apanhá-los, não tendo, porém, como levá-los. Pobre Bernda.
Não podia compreender como ninguém deste mundo tinha interesse por aquelas sementes, nem mesmo os homens-peixes.
Mas Bernda não veria nunca mais outras criaturas em sua vida, se alguém não o viesse apanhar no quarto planeta.
Esta possibilidade era muito remota.

* * *

Ainda havia quinze minutos para o momento fatídico.
Deringhouse aterrissou na praia, bem perto das duas viaturas e do pobre Gatzek, quase paralisado de terror. Os suportes telescópicos da grande nave afundaram na areia macia, fazendo brotar logo água salgada.
Lamanche, controle as armas de defesa e atire, se for necessário. Eu vou sair.
Leve dois companheiros — gritou o francês, colocando a mão no botão de controle das armas. — O gorducho não parece homem de muita iniciativa, mas as aparências enganam.
Levo Ras Tschubai comigo, pois assim poderei desaparecer a qualquer momento. Para que temos teleportador?
Fez um sinal para Lamanche e correu para o departamento dos mutantes.
Ras, vamos dar um pulo na praia e pregar um susto num superpesado.
O africano de compleição robusta, um dos mais competentes teleportadores dos mutantes, olhou para a tela de controle externo e concordou.
Segure bem firme, major.
Deringhouse se agarrou bem em Ras e, no mesmo segundo, estava a dez metros de Gatzek, no macio chão de areia. Arrancou a pistola da cintura e a apontou contra o superpesado, cujos olhos se arregalaram de medo.
Não se mova, gorducho.
Foi com dificuldade que Gatzek conseguiu manter sobre as pernas seu respeitável peso de seiscentos e tantos quilos. Tinha ouvido falar das misteriosas forças que estavam a serviço de Rhodan, mas isto estava acima de sua concepção.
Estou desarmado — lamentou ele.
É a sua sorte, meu amigo — consolou-o Deringhouse, colocando a arma no cinto. — Onde está Topthor?
Gatzek apontou para a ilha.
Talvez lá, eu também o estou procurando.
Por quê? — foi a pergunta direta de Deringhouse. — Vocês se aliaram com os tópsidas?
Por que não? — admirou-se Gatzek não sem razão. — Nós fomos derrubados como eles. Por que deveríamos nos matar mutuamente? Não havia mais motivo para isto.
Deringhouse compreendeu. Então falou:
Se você se mantiver pacificamente, nada lhe acontecerá. Vou dar uma chegada ali na ilha, com meu amigo, à procura de Topthor. Não tente nenhuma bobagem.
Posso voltar para minha nave que espera por mim ali nas montanhas?
Uma nave dos saltadores? Foi destruída, pois fomos duramente atacados. Suponho que sua volta é inútil.
Deringhouse se agarrou em Ras, apontando para a ilha. O africano deu um salto. Materializaram-se na plataforma e logo acharam o corredor que levava para a cabina de rádio. Diante do gigantesco painel de controle estava o cadáver de um tópsida.
Deringhouse estremeceu ao ver Topthor.


A bomba arcônida explodiu no minuto exato. Rhodan estava bem longe no espaço e viu o clarão ofuscante que haveria de provocar reações em cadeia. Ainda levaria horas, até que o planeta se transformasse num sol.
A frota dos saltadores estava a uma hora-luz da explosão. Major McClears os estava observando do cruzador pesado Terra, enviando informações e imagem constantemente para a Titan, a fim de deixar Rhodan a par de tudo.
As primeiras mensagens de Cekztel davam a entender que as coordenadas para o regresso dos saltadores para M-13 já estavam calculadas. A missão estava cumprida e a “Terra” destruída.
Mas todo mundo sabia que Rhodan ainda estava vivo. E era a única coisa que atrapalhava Rhodan.
Depois de haver feito e discutido vários planos com Bell, entre os quais havia um já mais ou menos formalizado, mandou chamar para a sala de comando a John Marshall.
A Titan deve ser, aos olhos dos saltadores, destruída — começou Rhodan, vendo, com um sorriso nos lábios, o susto estampado no semblante do telepata. — Exatamente como foi com a Terra. Somente depois disso é que estaremos convencidos de que nossa grande jogada deu certo cem por cento. Também o Robô de Árcon deve ficar convencido de que fomos destruídos. Arquitetamos um truque de grande efeito, Marshall, para cuja execução, no entanto, necessitamos de um teleportador: Ras Tschubai ou Gucky.
Ambos estão na Centauro, senhor. Deve-se então avisar a Deringhouse de que...
Deringhouse estará aqui com seu cruzador em dez minutos. A frota dos saltadores partirá dentro de trinta minutos. Neste meio tempo, o truque tem que ser realizado.
O que vai ser realizado?
Rhodan ainda continuava sorrindo, ao dizer:
A desintegração total da Titan em meio das naves reunidas dos saltadores.
Marshall não empalideceu, porque havia lido o pensamento de Rhodan. Então, ele mesmo começou a rir.

* * *

Com semblante carregado, Deringhouse retornou à Centauro. Quando se materializou com Ras Tschubai na praia, o superpesado Gatzek havia sumido. Também ele tinha preferido buscar abrigo na floresta próxima. De qualquer maneira seria melhor do que prisão, pensaria ele.
Deringhouse não se deu ao trabalho de procurar os dois fugitivos. Não tinha tempo para isto. Além disso, Aqua lhes oferecia o necessário para sobreviver. Eles é que cuidassem de suas vidas. Ele, Deringhouse, tinha outras preocupações.
Onde estará Gucky?”, pensou, indagando-se.
Topthor já morrera.
Estava sentado na poltrona da cabina de rádio dos tópsidas, diante do painel de controle, de uma maneira tão esquisita, com a cabeça caída na mesa. Ou o que sobrou de sua cabeça. Pois Topthor cometera suicídio, com a pistola de raios energéticos. A arma, com o cano apontado para a cabeça, ainda estava presa na mão rígida.
Topthor estava morto e com ele havia findado o mistério que ameaçava a vida no planeta Terra.
Deringhouse pegou o africano pela mão.
Para a nave — disse ele. — Onde andará Gucky?
Materializaram-se na cabina. Lamanche continuava sentado, olhando para os controles, mas não havia nada mais para observar. Em seu colo estava, todo feliz, Gucky, enquanto Lamanche lhe coçava a nuca. Quando Deringhouse soltou uma praga meio contida, o rato-castor sacudiu a cabeça com ar de desaprovação, dizendo:
Chefe Deringhouse, você, durante o último hipersalto pelo espaço, deve ter perdido um pouco de sua boa educação.
Desde quando está aqui?
O tempo suficiente para ficar com os cabelos brancos de tanto esperar por você — disse Gucky. — Você encontrou Topthor?
Por que ele se matou, Gucky? Sabe alguma coisa a respeito?
Estava cansado da vida, major. Queria matar primeiro a mim e depois a si mesmo. Apenas trocou a ordem.
Foi assim! — comentou Deringhouse admirado.
O operador em serviço entrou e disse:
Rádio de Rhodan, major. O senhor deve procurar as coordenadas apresentadas. Os dados são...
Está bem, vou lá e resolvo isto já. Antes de sair, Deringhouse olhou para Gucky e lhe disse:
Esse negócio de trocar a ordem, você vai me explicar na presença de Rhodan.
Gucky não respondeu nada.

* * *

É relativamente simples, mas tem de ser feito no segundo exato — concluiu Rhodan, olhando com interrogação para Gucky. — Se você quiser, poderá ser feito também por Ras.
O rato-castor sacudiu a cabeça tão violentamente que as orelhas esvoaçaram.
Ras deve ser poupado, chefe. Além de tudo, está na Centauro com Deringhouse, enquanto eu estou aqui.
Rhodan concordou.
Quanto à sua explicação barata sobre a morte de Topthor, é melhor a gente esquecer isto. Mas cá entre nós, como foi mesmo? — olhou para o relógio. — Ainda temos dois minutos, conte depressa.
Gucky andava nervoso de um canto para o outro, olhando muito para Bell, com olhos suplicantes.
Realmente, eu o surpreendi e o chamei, ele se virou, já com a arma na mão para me matar. Que devia eu fazer? Que seria de você, chefe, se eu morresse? E o coitado do Bell? Não, não consegui deixar que me matasse.
E depois? — perguntou Rhodan impaciente, olhando para o relógio.
Nada! Topthor ergueu a arma para o ouvido e disparou.
De qualquer maneira, você é telecineta e pode mover a matéria sem tocar nela. É isso que deverá fazer com a bomba atômica.
Gucky olhou para ele com certa tristeza nos olhos.
Está certo, chefe.
Rhodan olhou pela última vez para o relógio:
Um depósito cheio de cenoura, eu lhe prometi, e você receberá, Gucky. Mas, vamos embora, não há mais tempo a perder. Os saltadores vão desaparecer em cinco minutos, Gucky. Vamos para a sala de munições, regular o detonador exatamente para cinco segundos e esperar até que chegue meu comando. Tudo claro?
Há muito tempo — disse Gucky e desapareceu.
Bell olhou espantado para o lugar vazio.
O hipercomunicador estava ligado. A primeira mensagem era cifrada e se destinava a McClears e a Deringhouse:
Vocês liguem o compensador e executem dez saltos antes de voltarem para Terrânia. Lá esperarão por mim. Tudo em ordem?
Entendido — foi a resposta dupla.
Vinte segundos depois, não havia mais Centauro nem Terra no sistema do sol vermelho de Beta. A Titan ficou sozinha.
Rhodan calculara bem as coordenadas, mas antes de saltar com a supernave, deixou aquecer o hipertransmissor. A freqüência do cérebro eletrônico foi regulada. Agora, com a simples pressão de um botão, Rhodan podia entrar em contato com o regente do Império Arcônida, a mais de 30 mil anos-luz de distância.
Na tela já se podia ver Gucky. Em seus braços, se via um objeto alongado: a bomba.
Pronto, Gucky?
Pronto.
Atenção! Salto!
A Titan se desmaterializou e surgiu, no mesmo segundo, a menos de dois quilômetros da nave de Cekztel, no espaço normal. Na redondeza estavam mais de duzentas unidades que se preparavam para o grande salto de retorno. Somente devido a esta circunstância foi que levaram tanto tempo para abrir fogo contra a grande nave esférica.
Antes, porém, aconteceu muita coisa ao mesmo tempo.
Gucky saltou com a bomba atômica através do hiperespaço e se materializou fora da Titan. Usava um traje espacial e não podia ser reconhecido na carcaça de brilho prateado da nave. Comprimiu o botão de ignição. Assim que largasse o dedo, haveria ainda exatamente cinco segundos para a detonação. Seus fluxos telepáticos auscultavam o cérebro de Rhodan, aguardando seu comando.
Rhodan comprimiu a tecla do transmissor. A ligação para Árcon estava feita. Não era apenas o cérebro robotizado de Árcon que ia ouvir a transmissão, mas todo o mundo, pois Rhodan, de propósito, não usou nenhum código.
Ao contrário da Centauro e da Terra, o compensador estrutural estava desligado. Portanto todo rastreador de estrutura poderia localizar o salto, em toda a Via Láctea. Em torno da Titan, estava ligado o envoltório magnético de proteção, principalmente para defender Gucky dos disparos dos raios energéticos.
O primeiro tiro contra a supernave partiu da nave de Cekztel. Foi o sinal para todas as outras naves dos saltadores. E para Rhodan também.
Aqui fala Perry Rhodan do sistema Terra — gritou ele no microfone do hiper-transmissor, com voz de desespero. — Os saltadores acabam de destruir o planeta Terra.
Utilizou-se então da pequena pausa para se concentrar e poder pensar: “Agora, Gucky”.
Depois continuou e ainda tinha cinco segundos para falar:
Eu estou com defeito no gerador do campo estrutural... quero fugir e saltar para...
Desligou a alavanca do hipertransmissor e com a outra mão acionou o controle de ligação da instalação de hipersalto.
A Titan se desmaterializou.
Atrás ficou a bomba, mas a diferença de tempo para sua detonação foi tão diminuta, que Cekztel foi vítima de um erro compreensível. Com seus próprios olhos, julgou ter visto como a Titan, durante a desmaterialização, foi dissolvida por uma terrível explosão. Simultaneamente, penetrou em seu ouvido o grito de socorro, enviado por Rhodan ao cérebro robotizado de Árcon, no entanto interrompido pela tremenda explosão.
O rastreador estrutural da nave de Cekztel, e com ele milhares de outros rastreadores em todas as regiões da Via Láctea, haviam registrado o início do hipersalto da Titan. Ninguém, porém, registrara o seu aparecimento no espaço normal. Rhodan tinha sumido no hiperespaço.
Cekztel estava triunfante. Sua mensagem de rádio não cifrada percorria toda a Galáxia e era recebida em toda parte, a uma velocidade milhões de vezes superior à da luz:
Afastamos o maior perigo para o Universo! Rhodan está morto. O planeta Terra se transformou num sol. O império não será mais ameaçado. Viva Topthor, a quem devemos tudo isto.
Mas o pobre Topthor não podia mais ouvir este elogio.
Quando Rhodan, sob a proteção dos compensadores que absorviam todos os abalos, penetrou no espaço normal e ouviu o elogio fúnebre de Cekztel, contraiu o rosto num sorriso irônico.
As coordenadas estavam de novo em ordem. O próximo salto, com os compensadores ligados, traria a Titan, intacta, para a Terra. Para uma Terra que por anos ou decênios mergulharia no mar do esquecimento. Pelo menos pelo tempo que Rhodan julgasse conveniente. Com toda certeza, tanto tempo quanto fosse necessário para que o planeta pudesse se preparar para resistir a qualquer ataque.
Gucky estava feliz e puxava a mão de Bell para lhe coçar as costas.
Sabe de uma coisa, Gorducho? — observou ele. — A vida é tão bela, mas nunca havia pensado que “estar morto” é ainda mais belo.
É isto mesmo — disse Bell amavelmente.
Rhodan olhou pensativo para os dois amigos e pôs a mão no controle central da instalação de hipersalto. Empurrou-o lentamente.
A supernave deslizou novamente para um outro Universo e não deixou o menor rastro atrás de si, no espaço calculável.
Ao se rematerializar no espaço normal, tinham diante de si, nas telas da Titan, um sol claro e maravilhoso.
Bem perto, cintilava um corpo celeste pequeno, meio azulado.
Era o planeta mais lindo do Universo: a Terra.




* * *
* *
*



Graças à sorte e a Gucky, o maravilhoso plano de Perry Rhodan — o qual a Terra teria que dar a todos os seres inteligentes das Galáxias a impressão de estar destruída — foi bem sucedido. A Humanidade ganhou assim tempo para um desenvolvimento tranqüilo e para a formação do poderoso “Império Solar”.
Os dramáticos acontecimentos, que se desenrolam no ano 2.040, lhe permitirão viver uma época nova da história da Humanidade.
Em Atlan, o Solitário do Tempo, título do próximo volume da série, um encontro de gigantes acontece.



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