quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-046 - Projeto Aço Arcônida - Kurt Brand [parte 3]


Está faltando uma coisa, Marshall — disse Reginald Bell ao telepata australiano. — O último dispositivo de segurança, essa história da ultra barreira, representa uma contradição se não houver algum dispositivo adicional que a cerca com seus pólos. Topthor deve ter pensado nesse dispositivo adicional. Procure lembrar-se, Marshall.
Bell insistia. Os mutantes agiam como se nem estivessem presentes. Kitai Ishibashi, um médico e psicólogo japonês dotado de poder de sugestão inacreditável, só em parte se encontrava presente. Por meio de sua capacidade, colocara-se junto a Topthor, que já saíra da Tal VI e naquele momento caminhava em direção à sua nave capitania. Pensava em Perry Rhodan.
Subitamente John Marshall estremeceu, como se tivesse levado uma tremenda pancada. A mesma coisa aconteceu com Kitai Ishibashi.
Bell notou o que estava acontecendo, mas não sentiu nada. Não se espantou por isso. Afinal, não possuía as mesmas capacidades dos dois mutantes.
Muito perturbado, John Marshall gemeu:
Meu Deus, o que foi isso?
Bell poucas vezes o vira assim, e quando isso acontecia sempre se encontravam diante de um perigo imenso.
O aspecto de Kitai Ishibashi não era melhor que o de John Marshall. O suor porejava na testa do japonês alto e magro.
Alguma coisa tentou agarrar-me — disse, explicando o que acabara de sentir. — Mas quando quis me segurar, errou o alvo.
Marshall limitou-se a acenar com a cabeça.
Terá sido sugestão, hipnose, telepatia?
Não foi nada disso — respondeu Marshall com a voz pesada. — Foi uma coisa nova, uma coisa que nunca experimentei. Acredito que seja uma coisa que nos persegue.
Bell já tomara muitas decisões graves e nunca errara. Mas o que devia determinar agora, quando ambos os mutantes não conseguiam caracterizar o perigo que os ameaçava?
Raciocinou instantaneamente. A conclusão lógica exprimia-se nesta pergunta:
Marshall, o senhor já consegue lembrar-se do dispositivo adicional que Topthor usou para inverter a polarização da ultra barreira que protege a memória do cérebro positrônico?
Esse problema tinha precedência sobre qualquer outro. A segurança dos homens que se encontravam na nave não era tão importante. Precisavam aproximar-se do cérebro positrônico de bordo de Topthor, a fim de remover os dados astronáuticos.
O sistema de alarma do cérebro de Bell entrou em ação. Havia um “furo” em seu raciocínio.
A técnica positrônica não permitia que qualquer dado, uma vez armazenado, fosse removido. Era impossível apagar qualquer setor da memória do cérebro. Só havia possibilidade de revisões, mas devia tratar-se realmente de uma revisão, pois do contrário o cérebro não aceitava os novos dados, mantendo os que já se encontravam armazenados.
Consegui! — exclamou Marshall, arrancando Reginald Bell de suas reflexões.
O quê? — perguntou Bell, e essa pergunta o diferenciava de Perry Rhodan, o reator instantâneo.
Já sei em que dispositivo adicional da ultra barreira andou pensando o velho Topthor...
Por mais que Marshall se esmerasse nas explicações, Bell não conseguia acompanhá-las. Lançou um olhar para Wuriu Sengu, o espia. Esse japonês de aspecto despretensioso, filho de um casal que durante o bombardeio atômico ao Japão ficara exposto a uma dose quase mortal de radiações. Agora possuía a capacidade espantosa de, por meio de um processo de concentração espiritual, aumentar o poder de visão a um tal ponto que podia enxergar através dos átomos e das moléculas de matéria compacta, reconhecendo perfeitamente o objetivo visado.
Wuriu Sengu compreendeu o pedido de Reginald Bell.
Concentrou-se e colocou um bloco de papel sobre o joelho, segurando o lápis na mão. Logo viu o esquema da parte do cérebro positrônico de Topthor que Bell não conseguia conceber com a necessária clareza através dos seus esforços mentais.
O processo demorou menos de dez minutos. Sengu, o espia, voltou ao normal. Entregou a Bell o esquema de ligações da ultra barreira e do dispositivo adicional.
Bell esboçou um sorriso feroz, zombando de sua própria lerdeza. Um simples olhar para o desenho bastava para que compreendesse o dispositivo de segurança.
OK — disse em inglês. — Voltaremos a transferir nosso quartel-general para a Gazela. Irei depois: ainda tenho de falar com a Titan. Marshall, o que acha de Beta?
O australiano deu uma risada silenciosa. Lera os pensamentos de Bell. Sua resposta foi a seguinte:
Acho que o chefe gostará muito.

* * *

Três patriarcas viram o biólogo-chefe Keklos sair da sala. Depois disso, dois saltadores e um superpesado trocaram olhares ferozes. Um após o outro sacudiram a cabeça, em sinal de desaprovação.
Cekztel, chefe de todos os clãs dos superpesados, disse depois de ter calculado que esse ara com certeza não conseguiria ouvi-lo mais:
Se ficar doente um dia, prefiro morrer que ser curado por este biólogo-chefe. Já vi alguns mundos que foram transformados em sóis sob o efeito das nossas bombas, mas nunca senti o menor prazer em vê-los destruídos. É bem verdade que não cheguei a sentir compaixão. Afinal, os seres que destruímos foram nossos inimigos, mas nunca maltratei um ser até a morte. Quer apostar que esse Keklos faz uma coisa dessas?
Siptar, um patriarca muito velho, acenou a cabeça, muito pensativo. O velho Vontran demonstrou sua repugnância sem rebuços.
Amanhã será realizada a conferência... — o velho Siptar disse mais alguma coisa e lançou um olhar de expectativa para Cekztel.
O rosto carrancudo e enrugado deste tornou-se ainda mais furioso. Seu olhar caminhava entre os dois patriarcas dos saltadores.
Sem vocês, os mercadores, os superpesados não atacarão a Terra. Se vocês nos acompanharem com todas as naves que estiverem bem armadas, nós os acompanharemos. Do contrário...
Se havia uma voz que pesava, era a de Cekztel. Era o chefe de todos os patriarcas dos superpesados. Ninguém sabia quantas naves de guerra comandava. Era provável que o próprio Cekztel não soubesse. Porém o que se sabia era que um couraçado espacial dos superpesados equivalia, nos armamentos, a cinqüenta naves bem armadas dos saltadores.
Siptar, cujos olhos escuros ainda não haviam sido turvados pela velhice e que era conhecido por sua inteligência e autodomínio, perguntou tranqüilamente:
Devemos ver nisso uma ameaça, Cekztel?
Cekztel soltou uma estrondosa gargalhada, bateu com o punho na mesa e gritou:
Vejam nisso uma chantagem, Siptar. Será que os saltadores acham que somos idiotas? Um ser como Perry Rhodan, que consegue roubar o maior couraçado do Império e apesar disso colabora com o cérebro robotizado de Árcon, para mim não pode ser considerado um nada. E, uma vez que ninguém sabe que frota gigantesca Rhodan possui no setor da Terra, nós, os superpesados, só nos lançaremos ao ataque se formos acompanhados pelas frotas dos mercadores galácticos. Então, ainda acham que a condição imposta por mim representa uma chantagem, ou já chegaram à conclusão de que apenas é um produto da lógica aplicada?
Como você votará amanhã, Cekztel? — perguntou o velho e sagaz Siptar.
Os olhos de Cekztel relampejaram.
Pouco importa que amanhã eu me manifeste a favor ou contra o ataque à Terra. Tudo depende do que vocês decidirem. Se também estiverem dispostos a arriscar alguma coisa, não terão solicitado nosso auxílio em vão.
Vontran teve a impressão de que estas palavras exprimiam uma exigência pecuniária dos superpesados. Procurou amarrar Cekztel por meio de uma pergunta lacônica.
O superpesado reclinou-se confortavelmente e perguntou com um sorriso matreiro:
Será que vocês realmente acreditavam que partiríamos para o ataque de graça? Será que os mercadores já venderam alguma coisa sem exigir o respectivo pagamento? Algum de vocês já foi tratado pelos aras e não recebeu a respectiva conta? Meus caros, vocês estão ficando muito engraçados. Nosso auxílio custará algumas centenas de milhões. E, se me lembro de que Topthor é o único que conhece a posição da Terra, e que Topthor também é um superpesado, chego à conclusão de que vocês deveriam pagar o dobro.
Cekztel! — chiou Siptar. — Você não pode estar falando sério.
Siptar respondeu em tom frio:
Não costumo brincar quando se trata de dinheiro. Fiquem com o dinheiro. Torçam o pescoço de Perry Rhodan sem recorrer ao nosso auxílio. Muito bem, pedirei a Topthor que lhes forneça os dados. Partam para a Terra e ataquem Rhodan. Desejo-lhes muitas felicidades, suas almas mesquinhas de mercadores.

* * *

O biólogo-chefe Keklos recebeu o relatório de Moders. Este teve o cuidado de não ultrapassar o limite dos três metros.
A bioprodução foi iniciada neste momento. Mandei aquecer as primeiras retortas-autoclaves. Hoje de noite, por ocasião da mudança de turno, já poderemos verificar se a produção em massa está correndo sem falhas. Depois disso mandarei que todas as retortas-autoclaves...
Espere até que a assembléia dos saltadores chegue ao fim, Moders — interveio Keklos em tom áspero e não deu a menor atenção ao espanto de seu colaborador. — A nave cargueira vinda de Gom já foi descarregada?
Não.
Pois dê ordens imediatas para que o descarregamento não seja iniciado sem nova ordem. Providencie imediatamente. Porém, antes disso, traga-me um bio.
Moders estava dispensado. Muito confuso, retirou-se do gabinete do chefe. Não compreendia as instruções de Keklos. De repente, a produção em massa dos bios não era mais urgente. Por que a matéria-prima vinda de Gom devia permanecer na nave que a trouxera?
A fantasia de Moders não tinha bastante agilidade para estabelecer uma ligação entre o bio, ao qual deu a ordem de dirigir-se ao gabinete do biólogo-chefe Keklos, e as instruções que acabara de ouvir.
No momento em que o vulto cinza-fosco, o produto da retorta de mais de três metros de altura, entrou no gabinete do chefe, cruzando um par de braços no peito e outro par nas costas e mantendo-se em atitude de expectativa, Keklos acabara de entrar em contato pelo rádio com a nave cargueira que acabara de trazer a matéria-prima de Gom.
Também no cargueiro suas instruções produziram espanto e perplexidade. E, quando o bio de Keklos entrou em cena, os oficiais que se encontravam na sala de comando do cargueiro desistiram dos esforços de encontrar a solução do mistério.
Mas Keklos sabia perfeitamente o que queria.

* * *

Quatrocentos mil quilômetros acima de Laros, a grande frota de Talamon se mantinha em posição de espera. A menor de suas naves de guerra recebera ordens do patriarca para descer em Laros, passou pelo controle dos médicos aras e uma hora depois voltara a decolar.
Talamon ainda se sentia congelado até a medula dos ossos em virtude do incidente com o hipercomunicador. O que mais o deprimia era o fato de que tinha de ver em qualquer dos membros de seu clã um traidor. Naquele instante encontrava-se a caminho do “quartel-general” de Bell. O gordo instalara o grupo de mutantes na Gazela abrigada no hangar secreto da nave, e que se mantinha preparada para decolar a qualquer momento.
Bell não conseguira acalmá-lo. Talamon não se deixou demover da idéia de que entre seus parentes mais chegados havia um traidor. Não admitiu a possibilidade de que um acaso infeliz tivesse estabelecido a ligação do hipercomunicador. Bell também não acreditava nisso, mas John Marshall, o telepata, afirmava que as coisas se haviam passado sem traições. Tivera o trabalho enorme de examinar um por um os membros da tripulação. O resultado foi nulo.
De qualquer maneira, o pouso da menor das naves de Talamon e seu regresso não haviam sido em vão. Essa ida e vinda não teve outra finalidade senão justificar o tráfego intenso de mensagens de rádio expedidas pela Tal VI. Uma vez que esse tráfego se realizava pela freqüência de Talamon, Perry Rhodan o acompanhava automaticamente e não poderia deixar de espantar-se com o texto das mensagens.
O superpesado exibiu um sorriso matreiro quando entrou na Gazela e entregou a Bell a notícia gravada numa folha de plástico. Segundo esta, a pequena nave de guerra atingira a frota que se mantinha em posição de espera acima de Laros.
Bell não demonstrou o menor interesse pelo texto. Sabia que era obra de Perry e encerrava uma notícia oculta. O cérebro positrônico da Gazela começou a trabalhar com o texto. Bell ligou a chave de decifração; o cérebro transformou a mensagem corriqueira numa série de dados astronáuticos. Por estes, a Terra era um planeta do setor Orion, um dos astros que gravitavam em torno do gigantesco sol Beta. Era o terceiro planeta desse sol monstruoso. Com estes dados, sofreu um deslocamento de 272 anos-luz da sua posição verdadeira. Para quem se encontrasse no grupo estelar M-13, a Terra aproximara-se 272 anos-luz dessa nebulosa.
Não gostaria de percorrer essa distância a pé — resmungou Bell com um sorriso, sem notar que Talamon já o havia deixado.
John Marshall aproximou-se, vindo da parte dos fundos da pequena sala de comando.
Talamon não nos avisará de que Topthor conhece a posição da Terra, nem nos trairá junto a ele — informou. — Se continuar fiel à sua opinião, não fará conosco o grande negócio da sucata que se encontra em Honur. De um lado sente-se obrigado a Topthor e de outro, a nós. E ainda há a questão do hipercomunicador.
Bell interrompeu-o com um gesto apressado.
Deixe-me em paz com isso, Marshall. Insista junto aos seus colegas para que ninguém formule diante dos superpesados a mais leve insinuação do que sabemos. O senhor é capaz de imaginar o que aconteceria se eles soubessem?
Sim senhor. Talamon nos procurará para dizer que avisará Topthor de que estamos de posse do seu segredo e...
Vamos providenciar para que isso dê um prazer todo especial a Topthor — interveio Bell com uma risada contrafeita. — Peça a Tako Kakuta e Ras Tschubai que venham até aqui. Quero que transformem o segredo de Topthor numa bolha de sabão.



Keklos não se esqueceu da advertência formulada pelo inspetor-chefe Gegul, executado no conversor. E agora só uma noite o separava da assembléia dos patriarcas.
Biólogo-chefe Keklos — disse Gegul naquela oportunidade. — O perigo começa com a assembléia. Foi o que aconteceu no planeta Goszul, e é o que se repetirá em Laros. Mas saberei impedir a repetição, e aqueles que estão a soldo de Perry Rhodan cairão nas minhas redes. O senhor tem alguma idéia do que me servirá de rede, biólogo-chefe?
Keklos já o imaginara quando Gegul formulou a pergunta e dissera o que estava pensando. Independentemente de Gegul, prosseguira em suas experiências na mesma base, e nunca deixava de admirar a clarividência de Gegul. Aquilo em que este, por intuição e não em virtude de seu saber, via uma arma, realmente era uma terrível arma.
Bem, fazia tempo que Gegul não se encontrava entre os vivos. Esse fato não seria capaz de provocar um simples sacudir de ombros em Keklos, mas o plano de Gegul continuava vivo. Transformara-se em realidade.
Quero que Moders compareça imediatamente — disse a voz metálica de Keklos no intercomunicador.
Moders não compareceu.
Keklos deu o alarma. Costumava fazê-lo muitas vezes. E, toda vez que isso acontecia, constatava-se o desaparecimento de alguém, às vezes de muitos aras. Ninguém saberia dizer que destino haviam tomado. Ninguém se atreveria a formular uma indagação oficial.
Moders não compareceu.
O grau mais rigoroso de alarma foi desencadeado no gigantesco sistema de galerias subterrâneas da lua Laros. O alarma estendeu-se a toda a lua, em muitos pontos subia à superfície e propagava-se.
Ninguém conseguia encontrar Moders.
Na cabeça do biólogo-chefe Keklos começou a martelar a advertência profética de Gegul: o perigo começa com a assembléia.
Naquela noite, morreram muitos doentes, os cirurgiões largavam seus instrumentos em meio às operações, os enfermeiros abandonavam suas tarefas, grandes extensões dos estabelecimentos hospitalares foram paralisados. Todo mundo procurava Moders, o colaborador mais chegado do biólogo-chefe Keklos.
Moders não foi encontrado.

* * *

Furioso, Talamon deixou-se cair na poltrona. Ainda furioso, lançou um olhar para seu amigo Topthor.
Para que serve essa palhaçada com os robôs de combate?
Os robôs haviam detido e revistado Talamon diante da nave de Topthor. Fora detido e revistado antes de entrar na comporta, e novamente no convés principal, e mais uma vez diante da escotilha que dava para a sala de comando. De cada uma dessas vezes, haviam extraído seu modelo de vibrações cerebrais e irradiaram-no para algum lugar, onde seria examinado.
Topthor parecia muito bem-humorado.
Você examinou bem os robôs? — A ênfase foi colocada na palavra bem.
Talamon começou a imaginar do que se tratava.
Serão seus?
São dos aras.
Como é que você pode concordar com uma coisa dessas? — gritou Talamon e levantou-se de um salto.
Sente, meu caro. Os robôs dos aras estão de sentinela com meu consentimento. Há duas horas, quando estava escurecendo, foram vistos estranhos no interior da minha nave. Devem ter sido saltadores.
Topthor viu que o amigo voltou a afundar na enorme poltrona e ouviu seu gemido:
Estranhos?
O que Topthor não poderia imaginar eram os pensamentos que se atropelavam na cabeça de Talamon.
Este acreditava saber quem eram esses estranhos.
Isso mesmo, Talamon. Estranhos. Estranhos foram vistos na casa de máquinas da minha nave.
No mesmo instante, Talamon sentiu-se aliviado de um peso. Supusera que os estranhos tivessem sido vistos na sala de comando, onde a posição da Terra estava guardada na memória do cérebro positrônico. Que interesse poderiam ter pela casa de força? De consciência tranqüila podia eliminar os homens de Rhodan do grupo dos suspeitos. Realmente deviam ter sido saltadores.
O que será que alguém poderia encontrar nas nossas casas de máquinas? — perguntou com um espanto genuíno.
Avisei Cekztel, e este transmitiu o aviso ao biólogo-chefe Keklos. Dali em diante, tropeçamos com os robôs dos aras a cada passo que damos, mas com isso sinto-me um pouco melhor. Apenas, não estou gostando da assembléia de amanhã. Será que esse negócio renderá mesmo quinhentos milhões para mim, Talamon?
Pelo menos — respondeu Talamon em tom grave e lançou um olhar penetrante para seu interlocutor. — Aconteça o que acontecer, Topthor, você pode e deve confiar em mim. Mas fique com a boca calada. Se acontecer alguma coisa, não me faça perguntas. Não gostaria de ver-me forçado a contar-lhe uma mentira. Posso fazer o negócio sem você. Foi por minha livre e espontânea vontade que lhe cedi uma parte. Quero que, se alguma coisa não der certo, ao menos haja uma pessoa que continue leal para comigo.
Para isso você não precisaria presentear-me com um lucro de quatrocentos milhões, Talamon. Eu... — teve a impressão de ouvir um ruído estranho às costas. — O que foi isso? — perguntou e virou-se apressadamente.

* * *

Naquele mesmo instante, Wuriu Sengu que, de olhos fechados, estava sentado ao lado de Reginald Bell, disse:
Topthor deve ter ouvido alguma coisa. Virou-se abruptamente e está fitando o cérebro positrônico. Agora está de pé. Não, voltou a sentar. Está desconfiando de alguma coisa. Talamon está fazendo uma pergunta. Não responde; em compensação está ligando o intercomunicador e transmite instruções. No momento, não vejo o menor sinal de Tako Kakuta.
Reginald Bell levantou a cabeça e lançou um olhar pensativo para Ras Tschubai. Era o segundo teleportador que, de acordo com os planos, já devia estar na sala de comando de Topthor para, juntamente com Tako Kakuta, introduzir algumas modificações nos dados relativos à Terra armazenados na memória do cérebro positrônico.
Acontece que Tako Kakuta não conseguira penetrar na sala de comando sem ser notado. Bell esteve a ponto de fazer uma pergunta a Sengu, o espia, quando os três — Tschubai, Sengu e ele mesmo — se assustaram com um estrondo.
Com o estrondo, o teleportador pequeno e franzino rematerializou-se. O rosto infantil sob a testa abaulada exprimia contrariedade.
Tako Kakuta caíra durante a rematerialização.
Foi isso — disse com a voz martirizada. — Foi exatamente isso que aconteceu quando cheguei à sala de comando de Topthor.
Ergueu-se lentamente, sacudindo a cabeça.
Kakuta não soube explicar o que acontecera.
Ishibashi, o senhor percebeu alguma coisa? — perguntou Bell, dirigindo-se ao sugestor.
Sim senhor, mas também não sei explicar do que se trata. A coisa apenas roçou em mim de leve. Quase chego a pensar que se tratava de uma coisa enfeixada.
Wuriu Sengu, o quadro, que o senhor viu, permaneceu nítido durante todo o tempo? — Reginald Bell aguardava ansiosamente a resposta do espia.
Bastante nítido! — respondeu Sengu em tom decidido.
Pois nesse caso vou falar com Marshall — decidiu Bell e levantou-se. — A missão “setor de armazenamento” sofrerá um ligeiro adiamento.
Retirou-se para procurar John Marshall, que nas missões dos mutantes costumava dirigir os comandos.

* * *

O intercomunicador do gabinete de Keklos emitiu o sinal de urgência máxima. O biólogo-chefe levantou os olhos dos documentos que estava examinando e ouviu uma voz nervosa anunciar que Moders havia sido encontrado.
Quero um relato preciso, imediatamente — disse Keklos, cortando a longa introdução.
Cada vez mais interessado, acompanhava o relato. Viu na tela o estado em que se encontrava Moders. Não ligou a transmissão de sua própria imagem. Os médicos, em redor de Moders, que estava inconsciente, não podiam fazer a menor idéia da satisfação que se espelhava no rosto de Keklos.
Este não comentou o relatório que acabara de ser transmitido.
Tomem as providências que se fazem necessárias — disse e desligou.
Pouco depois, chamou o bio que Moders lhe enviara há algumas horas. Quando o produto da retorta entrou pela segunda vez naquela noite, estremeceu com a voz enérgica de Keklos. O bio não sabia do pavor que uma aproximação a menos de três metros causava no biólogo-chefe. Não entendendo as censuras ásperas do ara, o ser artificial feito de substância biológica deu dois passos apressados para a frente e colocou-se bem diante de seu criador.
O bio ainda chegou a ouvir o grito de pânico de Keklos. Também viu a mão do biólogo-chefe pegar a arma. Mas entendeu muito tarde os berros desesperados de Keklos:
Para trás! Para trás!
Quando a arma de impulsos térmicos, que se encontrava na mão do ara, expeliu seu raio mortífero, destruiu uma vida artificial que mal começara a existir.
Com os olhos chamejantes, Keklos fitou os restos fumegantes deixados pelo raio térmico.
Em tom furioso, chiou:
Agora tenho que arranjar outro transmissor intermediário e posso começar tudo de novo. Quando Moders acordar, não ficará nada satisfeito em saber que pertence ao material de experiências da divisão de doenças aromáticas. Pensei que fosse mais inteligente. Até o momento em que desmaiou, não compreendeu os meus planos. E as indicações que lhe forneci deveriam ter sido suficientes para isso.
Keklos não esqueceu o menor detalhe. Antes de chamar outro bio, avisou o setor experimental de doenças aromáticas de que podia dispor de Moders como material de ensaio.
Dali a dez minutos, outro bio se encontrava em seu gabinete. O biólogo-chefe transformou-o em transmissor intermediário.
Através do bio, entrou em contato com a matéria-prima que a nave cargueira acabara de trazer de Gom, e que em virtude das instruções de Keklos ainda não havia sido descarregada.
Foi diante dessa nave cargueira que encontraram Moders desmaiado.
Keklos sabia por que Moders desmaiara.

* * *

Wuriu Sengu dera o sinal convencionado a Tako Kakuta e Ras Tschubai. A força de sua mente permitia-lhe enxergar a sala de comando de Topthor.
Estava vazia.
Atrás de Sengu o ar começou a tremeluzir em dois pontos diferentes, e nesse tremeluzir desapareceram os dois teleportadores.
No mesmo instante, Sengu os viu quando se esconderam na sala de comando do superpesado, atrás da cúpula maciça do hipercomunicador.
Os dois teleportadores logo conseguiram orientar-se. Aproveitaram-se do fato de terem estudado a Tal VI de Talamon, inclusive a sala de comando. Depois que, graças à capacidade de Marshall, ficaram sabendo do segredo de Topthor, examinaram o cérebro positrônico com uma atenção toda especial. O dispositivo positrônico, que ocupava quase toda a parede oposta ao assento de pilotagem, era a reprodução fiel do aparelho existente na nave de Talamon.
Apesar disso, não era nada fácil reprogramar determinada área do setor de memória. Graças ao processo hipnótico dos arcônidas, ambos possuíam o saber de um especialista de Árcon. Mas, para dominar os princípios da positrônica na teoria e na prática, precisariam do quociente intelectual de Perry Rhodan ou Reginald Bell.
O gorducho sabia tudo de cor. Seria o homem indicado para o serviço. Mas Bell não era teleportador, e, sem essa faculdade formidável, já teria morrido sob o fogo dos robôs de combate dos aras, que vigiavam a nave de Topthor em fila quádrupla.
Mas Ras Tschubai e Tako Kakuta não dependiam exclusivamente de sua própria capacidade.
Bell, que às vezes assumia grandes riscos, desta vez agira com a cautela de estrategista frio. Não queria deixar o menor detalhe por conta do acaso.
Wuriu Sengu via o que se passava na sala de comando de Topthor e constantemente emitia seus comentários lacônicos.
Diante dele, estavam sentados John Marshall e Kitai Ishibashi. Marshall era o telepata mais eficiente de Perry Rhodan, e Ishibashi era um sugestionador que, por várias vezes, provara que era capaz de impor sua vontade a centenas de pessoas num espaço de tempo extremamente curto. E a impunha de forma tão intensa e duradoura que as pessoas atingidas se convenciam de que agiam por vontade própria.
Como último recurso, Bell mantinha em reserva o telecineta Tama Yokida. A distância entre a Gazela e a sala de comando de Topthor fora medida com toda a precisão. Yokida tinha um croqui sobre as pernas. Nele se via a forma pela qual estava dividida a sala de comando, os aparelhos existentes, e qual era a distância entre as peças mais importantes.
Tama Yokida interviria se surgissem robôs. Recorreria à força de sua vontade e lhes dispensaria um tratamento que os faria voar pelo ar como se fossem balões e, com um impacto violento, os transformaria em sucata.
Subitamente a voz de Wuriu Sengu parecia um tanto nervosa.
A escotilha está sendo aberta. Topthor está entrando na sala de comando juntamente com dois membros de seu clã.
Sengu ainda não havia acabado de falar quando Marshall e Ishibashi entraram em ação.
Bell se mantinha um tanto afastado. Fumava. Seu olhar era tranqüilo. E não estava excitado por dentro. Examinava cuidadosamente seus comandados. Os que haviam entrado em ação trabalhavam com o máximo de segurança e concentração.
Kitai Ishibashi procurou atingir a vontade de Topthor. Penetrou instantaneamente em sua mente e logo descobriu o ponto de apoio a partir do qual seria mais fácil influenciar o superpesado. Ishibashi batizara o procedimento com o nome de método das camadas. Não inundava a vontade de outra pessoa com a força de uma cachoeira, mas impunha-lhe sua vontade em camadas progressivas.
John Marshall, que era telepata, não poderia dar apoio direto à tarefa de Ishibashi. Em compensação, controlava os pensamentos da vítima e fornecia ao sugestionador indicações preciosas sobre a maneira de aplicar seu dom.

* * *

Topthor esperou até que a escotilha se fechasse atrás dele. Em seu rosto velho e esverdeado, havia uma expressão de contrariedade.
Sentem — disse em tom rude aos membros de seu clã.
Os dois jovens superpesados, cuja figura era quadrática como a do velho, deixaram-se cair nas poltronas. Não deviam esperar nada de bom; era o que dizia o rosto zangado de Topthor.
O tal do Keklos, chefe dos aras em Laros, está ficando louco. Vocês ficarão de sentinela aqui até que eu mande revezá-los. O biólogo-chefe está vendo fantasmas. Quer transformar os estranhos que foram vistos nesta nave e que infelizmente conseguiram escapar em figuras que trabalham para Perry Rhodan. O que eu acredito e o que vocês acreditam é coisa que só diz respeito a nós mesmos. Keklos exerceu certa coação sobre mim. Colocou-me diante da alternativa de vigiar a sala de comando através de meus homens e manter contato audiovisual permanente com ele, ou então vê-lo colocar meia dúzia de robôs de combate dos aras na mesma. É isso. Mostrem suas armas.
Um dos membros do clã praguejou. Parecia muito contrariado. Mas cumpriu a ordem de Topthor, exibindo suas armas tal qual o outro. Os dois fitaram o velho e arregalaram os olhos.
Topthor, o velho ranzinza que vivia resmungando, riu. Piscou animadamente para os dois.
Instalem-se de modo confortável — disse em tom bonachão. — Se quiserem dormir um pouco, fiquem à vontade. Quanto ao contato com Keklos, falarei com ele da minha cabine. Se continuar a insistir, avisarei.
Falou, meu senhor — disse o mais alto dos dois com uma risada e deu um soco nas costelas do outro. Subitamente parecia muito bem-humorado e guardou todas as armas no fundo do bolso. — Por todas as estrelas do Universo, estou cansado como quem atravessou uma bebedeira de três dias e três noites.
Pois comigo está acontecendo a mesma coisa — disse o patriarca e bocejou gostosamente. — Está na hora de ir para a cama.
Com estas palavras retirou-se.

* * *

Tako Kakuta e Ras Tschubai, que se mantinham escondidos atrás da enorme instalação de rádio da nave de Topthor, piscaram alegremente um para o outro.
Desde o momento em que o velho se dispôs a controlar as armas de seus subordinados, transformara-se de uma hora para outra num ser totalmente diferente. Ele, que a bordo de sua nave costumava escrever a palavra disciplina com letra maiúscula, sugeria que a missão que acabara de confiar aos dois membros de seu clã não fosse levada muito a sério.
Os dois teleportadores sabiam quem tinha suas mãos naquilo, e de onde partia a influência exercida sobre os três superpesados.
Os passos pesados de Topthor afastaram-se depois que este fechou a escotilha.
Mais uma vez, os mutantes que se mantinham agachados atrás das instalações de rádio trocaram um olhar. Aguçaram o ouvido. Aguardavam os roncos dos superpesados que estavam sentados nas poltronas.
Silenciosos que nem duas sombras os dois mutantes saíram de trás das instalações de rádio.

* * *

A menos de três quilômetros de distância, no interior da pequena cabine da Gazela, Bell deu esta ordem ao telecineta Tama Yokida:
Providencie para que nos próximos quinze minutos ninguém consiga abrir a escotilha que dá para a sala de comando de Topthor.
Tama Yokida limitou-se a acenar com a cabeça e liberou suas energias telecinéticas, tangeu-as para a nave de Topthor e ali desencadeou forças tremendas. Essas forças atingiram o mecanismo da fechadura da escotilha, interpuseram-se entre os relês arcônidas, fizeram com que potentes campos magnéticos entrassem em colapso e desempenharam o papel de solda indestrutível que ligasse a escotilha e os trilhos pelos quais a mesma devia deslizar.

* * *

O cérebro positrônico de Topthor estava funcionando. As duas sentinelas estavam deitadas nas poltronas e dormiam. Nem Kakuta nem Ras Tschubai viraram-se uma única vez para eles. Confiavam irrestritamente na capacidade de Ishibashi.
O setor de memória! Tako Kakuta acabara de ligá-lo, mas não tinha muita certeza sobre a ligação que deveria efetuar.
Na sala de comando da Gazela, Marshall dirigiu-se a Reginald Bell e disse:
Kakuta não quer arriscar-se em ligar o impulso do setor de memória. Ainda está hesitando e...
Bell preparara as medidas a serem adotadas se ocorresse um incidente como este. Kitai Ishibashi teria de suspender temporariamente seu tratamento sugestivo.
Ocupe-se com Kakuta. Aqui — apontou para a série cronológica de ligações. — Foi aqui que ele encalhou. Ande depressa, Ishibashi!
No momento em que Kakuta ligou o impulso do setor de memória do cérebro positrônico, nem desconfiou que Kitai Ishibashi lhe dera ordem para isso a uma distância de três quilômetros.
Pronto? — perguntou o africano.
Ras Tschubai já concluíra sua tarefa.
Um mo...
Naquele instante uma voz berrou atrás deles:
O que está acontecendo aqui? Uma das sentinelas acordara.
Ras Tschubai desapareceu diante de Kakuta. O africano alto e esbelto assumira o risco de teleportar-se em meio ao chamado. Kakuta preferiu não arriscar-se. Se Tama Yokida, que se encontrava na Gazela, não desse conta de sua tarefa, estaria perdido.
Este não teve tempo de informar a Bell. Libertou a escotilha que dava para a sala de comando das suas energias telecinéticas para brincar com o jovem superpesado.
Este, que acabara de despertar do sono hipnótico mas continuava dominado pela vontade estranha, não viu nada demais em subir de sua poltrona e ficar grudado no teto. Tama Yokida virará o corpo dele de tal maneira que o peito ficou encostado no teto. Assim o jovem superpesado não veria o que se passava embaixo dele.
Apesar do incidente, que poderia assumir uma feição ameaçadora, Wuriu Sengu, o espia, continuou a transmitir seus comentários com a voz tranqüila.
Kitai! — disse Bell com a voz metálica, mas percebeu pelo gesto do sugestionador que este já havia entrado em ação.
Sengu informou:
A escotilha está sendo aberta. Topthor...
Naquele instante, uma força invisível sacudiu a sala de comando da Gazela. Bell e seus mutantes foram varridos para um canto. Sengu gemeu. Batera com a cabeça. Marshall segurava a cabeça com ambas as mãos. Ishibashi, que se encontrava ao lado de Reginald Bell, logo ficou em condições de entrar em ação. Comunicaram-se por meio de olhares.
Marshall! — chamou Bell em tom enérgico. — Marshall e Sengu!
Os dois estavam trabalhando jogados ao chão, tal qual Tama Yokida.
Só agora Bell se deu conta da situação terrível em que se encontravam.
Quem os atirara contra a parede? Que poder os descobrira e atacara?
O que está fazendo o velho Topthor, Sengu? — perguntou Bell apressadamente.
Não o vejo — foi a resposta surpreendente e inacreditável.
Bell fitou-o perplexo, mas no mesmo instante formulou a pergunta dirigida a Ishibashi.
Voltou a submeter Topthor ao seu tratamento?
Ishibashi deu de ombros. Bell compreendeu. Pôs-se a praguejar. Ras Tchubai, o teleportador africano, materializara-se diante dele.
Topthor, a velha raposa, está jogado no convés C e dorme em cima de bombas arcônidas.
Reginald Bell não demonstrou o menor interesse pela informação.
Tschubai, o senhor foi atacado nos últimos minutos por uma força desconhecida?
Atacado? — perguntou o africano.
Sengu exclamou em voz alta:
Kakuta completou a modificação dos dados de posição. Agora está parado diante do superpesado que caiu do teto. Parece preocupado, pois tudo indica que o rapaz está ferido.
Era só o que faltava — resmungou Bell. — Ishibashi, sugestione Kakuta para que teleporte o rapaz à enfermaria, mas só se puder fazê-lo sem assumir qualquer risco.
Ishibashi concentrou-se. Bell obteve mais alguns segundos durante os quais pôde refletir tranqüilamente.
Só as pessoas que se encontravam na sala de comando da Gazela haviam sido atiradas ao chão. Ras Tschubai, que se encontrava a três quilômetros de distância, não havia percebido nada. Subitamente lembrou-se de que durante a permanência no camarote particular de Talamon haviam sentido, com um breve intervalo, dois fenômenos inexplicáveis.
Marshall...
Não conseguiu dizer mais nada. Talamon irrompeu na pequena sala de comando da Gazela, dando mostras de tremenda exaltação. As notícias que trouxe não foram boas.
Há dois minutos mais de cem robôs de combate dos aras passavam pelos compartimentos da Tal VI. Eram acompanhados de quase duzentos aras armados até os dentes, que se mantinham mudos e revistavam sistematicamente sala após sala.
Bell lançou um olhar pensativo para o patriarca. A cada dia que passava gostava mais de Talamon. O velho não sabia o que era medo, mas nesse instante soltou um grito.
Bem à sua frente Tako Kakuta se materializara. Já estava abrindo a boca para avisar que a missão fora cumprida quando viu o superpesado. Controlou-se imediatamente e soltou a pergunta que abalou as pessoas que se encontravam na sala de comando:
Vocês sabem que três naves de guerra estão paradas em cima da Tal VI?



O Biólogo-chefe Keklos tremia de desconfiança. Tinha diante de si dois relatórios, um da estação de hipercomunicação e outro sobre o resultado da busca realizada na última noite a bordo da Tal VI.
Keklos não pensava em nenhum desses relatórios. Refletia sobre a experiência pela qual ele mesmo passara e mais uma vez voltou a formular a mesma pergunta:
Por que Topthor me chamou ontem de noite? E o que quis conseguir com essa conversa tola?
Ele mesmo fora à nave de Topthor na ultima noite. De repente, passou a desconfiar da transmissão audiovisual realizada a partir da sala de comando. Mas na nave de guerra do superpesado tudo estava em ordem. Numa atitude triunfante, o velho lhe mostrara parte dos dispositivos de segurança que colocara em torno do setor de armazenamento de dados de seu cérebro positrônico.
Biólogo-chefe Keklos, como vê já tomei todas as providências antes que o senhor determinasse suas medidas de segurança.
Ontem de noite essa demonstração era boa de ver e de ouvir, mas então ainda não dispunha dos relatórios.
A exposição fornecida pela estação de hipercomunicação era inquietante.
De repente quatro técnicos captaram uma estranha transmissão de hipercomunicação, que, após poucos segundos foi abafada por uma interferência. Antes que fosse possível determinar a fonte de interferência, esta se estendera a todas as freqüências. Esse acontecimento inédito impediu os técnicos de se ocuparem imediatamente com a parte inteligível da transmissão. Enquanto procuravam determinar o motivo da interferência, o suprimento de energia foi suspenso por alguns segundos. Pouco depois, por algum motivo inexplicável, a grade Me caiu e o condensador de vácuo explodiu.
Depois de reparadas as avarias, passou-se ao exame da parte inteligível da transmissão de hipercomunicação. Mas em vez daquilo que os técnicos haviam ouvido, o setor de armazenamento reproduziu uma voz chiante, que anunciava o choro dos dervixes e apresentou uma música infernal, insuportável para os ouvidos de um ara.
Keklos logo tropeçou sobre a palavra dervixe. Chegou a consultar Aralon, mas nenhum cientista sabia o que significava essa palavra.
Devem ser os demônios das estrelas!
Com estas palavras afastou os relatórios. A busca dada na Tal VI também não produzira qualquer resultado.
Subitamente Keklos atirou a cabeça para trás. Num gesto que quase chegava a ser guloso, pegou o relatório sobre a Tal VI. Observou-o e viu que a busca da enorme Tal VI durara pouco mais de uma hora. Face a esse período, extremamente reduzido para uma operação de busca, concluiu que alguma coisa não estava em ordem.
Examinou atentamente as indicações de tempo.
O que acontecera na última noite a bordo da Tal VI?
Uma frase o incomodava em meio às suas reflexões:
O perigo começa com a assembléia! A assembléia dos patriarcas estava próxima ao encerramento. Já se decidira que Rhodan seria destruído e que seu planeta seria transformado num sol. Apenas se regateava sobre o preço que os superpesados exigiam dos saltadores.
Há meia hora Keklos, bastante contrariado, desligara o aparelho que transmitia os trabalhos da assembléia. Seria preferível que não o tivesse feito, pois naquele instante Cekztel, chefe de todos os patriarcas dos superpesados, levantara-se e, soltando uma praga, dissera:
Os superpesados não lançarão nenhum ataque contra Rhodan e seu planeta, a Terra. Estou enojado de toda essa choradeira por causa de oitenta milhões.
Nem Cekztel, nem Siptar, Vontran ou qualquer dos outros participantes desconfiavam de que os mutantes de Perry Rhodan estivessem dando tudo de si para transformar a assembléia numa bomba explosiva de desunião.
Ao amanhecer, os teleportadores Tako Kakuta e Ras Tschubai desempenharam o papel de “rebocadores” e, numa série de excelentes saltos de teleportação, haviam colocado Bell, Tama Yokida, John Marshall e mais alguns mutantes em esconderijos seguros no interior do pavilhão de reuniões.
Não puderam exercer nenhuma influência sobre o resultado da votação. Contra todas as expectativas, a deliberação a este respeito foi tomada logo após a abertura dos trabalhos. Os trinta patriarcas, que estavam contra o plano da destruição de Rhodan e da Terra, foram vencidos pela grande maioria.
Porém, no momento em que Cekztel formulou sua exigência pecuniária, as coisas tomaram aspecto diferente.
Ishibashi incumbira-se da maior parte do trabalho. Sugestionava os mercadores galácticos, quase fileira por fileira, para que recusassem a exigência de Cekztel.
Em meio a uma maioria escassa que pretendia pagar o preço pedido pelo superpesado, soavam vozes cada vez mais numerosas que gritavam “vigarice” e pretendiam pôr em dúvida o resultado da votação.
Quando John Marshall e Kitai Ishibashi estavam próximos ao esgotamento, sendo apoiados constantemente por Betty Toufry que, segundo o plano de Bell, só devia intervir no fim com toda a força de sua capacidade telepática, o superpesado Cekztel levantou-se de repente e dispôs-se a abandonar a assembléia.
De seu esconderijo Bell contemplou-o e esfregou as mãos, quando alguma coisa passou, tocando-lhe. Por pouco, não o faz perder o equilíbrio.
No mesmo instante, John Marshall encolheu-se. Reginald Bell viu suas costas encurvadas, e também viu Kitai Ishibashi, que gemia com a voz abafada:
Ai está de novo!
Reginald Bell compreendeu que ainda faltava muito para que pudessem considerar-se vitoriosos.
Alguma coisa não identificada vinda do desconhecido os atingia.
Subitamente o chefe de todos os superpesados teve seus passos travados em meio ao largo corredor central por vários robôs de combate dos aras, surgidos de repente.
Chefe — fungou Tama Yokida — os robôs sabem exatamente onde estamos. Mais de trinta estão subindo para cá.
O passo metálico das máquinas de guerra retumbava pelo grande pavilhão, em que subitamente se instalara o silêncio.

* * *

O produto da retorta, feio e de um cinza-fosco, estava parado diante de Keklos.
Fale logo! — gritou Keklos.
Acabara de saber que na noite anterior, enquanto estava inspecionando a nave capitania de Topthor, o bio já tentara falar com ele. Esse bio era seu transmissor intermediário.
Com uma voz surpreendentemente humana, o bio limitou-se a dizer:
Foram encontrados.
Onde? — perguntou Keklos, gritando ainda mais alto, e, em espírito, condenou à morte os três assistentes aras, que deixaram de avisá-lo de que o bio procurava falar-lhe na última noite.
No lugar em que há muita gente junta e no lugar onde mais uma vez há muita gente junta.
Só a última parte da resposta não foi muito clara para Keklos. Deu o alarma para o pavilhão de conferências dos patriarcas.
...onde mais uma vez há muita gente junta.
O biólogo-chefe refletiu ligeiramente. A segunda alusão só podia dizer respeito à nave capitania de Talamon, a Tal VI. Já ordenara nova busca, mas depois que formulou outra pergunta ao bio e obteve a resposta não teve a menor dúvida.
Alarma para a Tal VI!
Mais uma vez, gritou para o produto da retorta:
Diga-lhe que deve atacá-los. Destruí-los! Entendeu? Promete dizer imediatamente?
Sim senhor, deve destruí-los! — respondeu o produto da retorta.
Keklos seguiu o bio com os olhos febris. Por um instantezinho, seus pensamentos vagaram num sonho. Em meio a esse intervalo, deu-se conta de como poderia entrar em contato com a matéria-prima de Gom sem recorrer ao transmissor intermediário.
Gegul foi parar no conversor algumas semanas antes da hora — admitiu.

* * *

São quarenta! — chiou Tama Yokida, o baixote.
Sua voz não tremia.
Quarenta máquinas de guerra dos aras subiam ruidosamente pela rampa que se elevava em arco livre, descrevendo duas curvas. Mais de cem robôs espalharam-se entre os patriarcas, ocuparam imediatamente todas as saídas e, dirigindo as lentes sobre os saltadores espantados, mantiveram-se imóveis.
Vamos retirar-nos! — ordenou Bell, que geralmente gostava de bancar o impetuoso. Neste momento, uma mudança discreta de posições era preferível à mais retumbante das vitórias.
Chefe — disse John Marshall — sem...
A força invisível voltou a atingi-los. Bell sentiu-se agarrado e levantado. Perto dele, a pequena Betty Toufry foi erguida mais um tanto. Marshall e Yokida estavam jogados num canto e Ras Tschubai fora forçado a colocar-se de joelhos. Tako Kakuta foi o único que conseguiu manter-se no mesmo lugar.
Bell segurou Betty assim que sentiu o chão sob os pés. A força desconhecida largou-os com uma rapidez igual à violência com que os agarrara.
Abandonar o terreno! Fugir! — Bell teve dificuldade em proferir estas palavras, mas na situação em que se encontravam qualquer resistência seria uma loucura.
É tarde — disse Tama Yokida entre os dentes. — Antes de mais nada, duas dúzias de robôs têm de ser atirados da rampa para baixo...
Um ligeiro exame convenceu Bell de que os telecinetas teriam que intervir. Os teleportadores receberam suas instruções:
Façam o papel de rebocadores. Estas palavras representavam uma enorme injustiça para com a capacidade dos teleportadores. Mas ninguém achou graça.
Tako Kakuta pretendia levar Bell num salto instantâneo até a Gazela. Este fitou-o com os olhos chamejantes. Kakuta virou-se abruptamente, pegou a figura alta e magra de Kitai Ishibashi, concentrou-se, fez o ar tremeluzir em torno de si e desapareceu com o sugestionador.
Yokida, o telecineta, irrompeu com sua energia que nem uma tormenta do mundo primitivo sobre as máquinas de guerra que se aproximavam ruidosamente. Os cinco robôs que vinham na frente ergueram-se do chão, executaram uma rotação no ar e bateram nas pernas metálicas dos cinco robôs que os seguiam.
O impacto das dez máquinas de guerra ressoou na rampa. Os patriarcas ouviram o barulho, mas do lugar em que se encontravam não podiam ver o palco dos acontecimentos.
Dez dos quarenta robôs haviam sido neutralizados por algum tempo. Porém os trinta restantes, dirigidos positronicamente, não conheciam o medo nem a compaixão, obedecendo apenas à sua programação. Passaram por cima da confusão e entraram na última curva da rampa.
Atirá-los-ei por cima da amurada...
Uma força brutal e imensa atingiu Bell e Tama Yokida, os fez rodopiar loucamente, e soltou-os de repente.
O impacto ruidoso de seus corpos na tribuna foi abafado pelas pisadas dos robôs. O giro do corpo fizera sangrar o nariz de Bell. Por muitos segundos, Tama Yokida não conseguiu enxergar nada. Quando a vista voltou a clarear, percebeu a cintilância dos robôs pela fenda atrás da qual se encontrava.
As missões executadas a serviço da Terceira Potência ensinavam a todo mundo a necessidade de reagir instantaneamente. Yokida jogou Bell ao chão. Pouco acima de suas cabeças, um raio térmico chiou e atingiu a parede, que se gaseificou sob a energia desencadeada.
Bell percebeu o tremeluzir do ar. Fez uma coisa que nunca mais conseguiu realizar. Pôs a mão no meio do tremeluzir e arrastou Ras Tschubai, ao chão, em pleno processo de rematerialização. Uma fração de segundos, depois disso, também Tako Kakuta se encontrava no chão. Acreditava que a tribuna fosse um lugar muito perigoso, então resolvera aterrissar de barriga.
Segure-se! — berrou a figura grande, esbelta e negra de Ras Tschubai. Sentiu os braços de Bell enlaçarem seu peito e desmaterializou-se com um salto em direção à Gazela.
Mas, no último instante, uma coisa terrível atingiu-o. Tako Kakuta devia sentir a mesma coisa, pois o japonês soltou um grito. Bell teve a impressão de que alguém lhe arrancava os braços.
Mas logo passou. Aterrissaram na sala de comando da Gazela.
Foi a salvação no último... — disse Reginald Bell, mas logo foi atirado num canto juntamente com as outras pessoas que se encontravam na sala.
Procurou defender-se contra a força invisível, mas não conseguiu. Ouviu o choro de Betty Toufry.
A moça estava em perigo.
A raiva deu-lhe forças tremendas. Subitamente a força invisível e estranguladora cessou. Bell logo se pôs de pé.
Yokida! Toufry! Abram a escotilha de Talamon! Vamos decolar.
Com um salto, colocou-se no assento de piloto da Gazela, que, desde o momento em que a Tal VI pousara em Laros, se mantinha pronta para decolar do interior do hangar secreto. A Gazela era um veículo em forma de disco que desenvolvia velocidade superior à da luz. Seu diâmetro era de trinta metros e o eixo polar media dezoito metros. O que fazia da nave um veículo respeitável não era o raio de ação de quinhentos anos-luz, mas o armamento incrivelmente pesado.
Bell estava prestes a realizar uma decolagem forçada. De uma hora para outra, a décima oitava lua transformara-se num verdadeiro inferno. Aqui espreitava-os um perigo contra o qual não podiam defender-se.
Na Gazela, todas as energias começaram a trabalhar rapidamente para o desempenho de decolagem. Mas os dois telecinetas ainda não haviam avisado que haviam forçado as grandes escotilhas do hangar por meio de sua energia telecinética.
Subitamente a luz do dia penetrou na sala de comando, derramada pela tela de imagem. Tama Yokida e Betty Toufry obrigaram as escotilhas do hangar a abrir-se.
Desta vez ainda tivemos sorte — berrou Bell em tom de triunfo. Com uma pancada, colocou o dispositivo automático de decolagem na posição “ligado”.
Com um silvo agudo, a Gazela saiu do esconderijo e precipitou-se para o céu.

* * *

Talamon fitou os olhos do biólogo-chefe e os membros do seu estado-maior com uma expressão fria e destemida. Dez dos mais velhos dentre os superpesados encontravam-se atrás de seu patriarca. Ameaçavam-no com os olhos e com sua figura quadrática e maciça.
Quero provas, Keklos — exigiu Talamon em tom tranqüilo e autoritário. — Prove que ofereci ao pequeno veículo espacial um esconderijo a bordo de minha nave. Recomendo-lhe que antes disso dê uma olhada na comporta do hangar.
As escotilhas da comporta teriam de ser reparadas. Forças sobre cuja natureza nem mesmo Talamon conseguia fazer a menor idéia haviam-nas arrombado, e agora elas não se fechavam mais.
Mandarei submetê-lo à lavagem cerebral — chiou Keklos.
O biólogo-chefe fora de opinião que a presença de Topthor conseguiria dar-lhe certo apoio diante de Talamon.
Ao ouvir falar em lavagem cerebral, Topthor estremeceu por dentro. Na última noite, também acontecera muita coisa a bordo de sua nave capitania que não conseguira compreender. Ele mesmo tirara um cochilo em cima das bombas arcônidas — justamente ele, que podia passar oito dias sem dormir. E seu neto Grugk estava recolhido à enfermaria, com um braço quebrado. Nenhum dos superpesados sabia quando e como Grugk quebrara o braço, e especialmente o próprio Grugk não soube dar a menor informação a este respeito. No meio da noite, viu-se subitamente na enfermaria da nave.
Estas idéias passaram pela cabeça de Topthor. Uma lavagem cerebral transformava a pessoa num aleijado mental. Ele mesmo não correria o risco de ser submetido a esse tipo de lavagem? Pensou no que dissera seu amigo Talamon: “Se alguma coisa não der certo, quero que ao menos uma pessoa continue leal para comigo.”
E ainda havia o grande negócio que continuava no ar.
Keklos virou-se abruptamente. Às suas costas, a mais de três metros de distância, Topthor soltara uma gargalhada. Seus olhares encontraram-se.
Topthor sacudiu energicamente a enorme cabeça e trovejou:
Keklos, o senhor não vai submeter nenhum superpesado à lavagem cerebral. O senhor não fará nada disso. Antes que aconteça uma coisa dessas, Laros será transformada num sol. Antes de mais nada, apresente uma prova de suas suspeitas.
Keklos era muito inteligente para dar murro em ponta de faca. Não possuía qualquer prova cabal contra Talamon. A única prova consistia num dos maiores segredos dos aras: a matéria-prima de Gom.
Esse fato calou-lhe a boca e acorrentou-lhe as mãos.
Sem dizer uma palavra retirou-se da Tal VI em companhia da comissão e dos robôs de combate.
Topthor e Talamon seguiram-nos com olhares indiferentes. Os membros do clã também se foram afastando. Quando se viram a sós, Topthor colocou a mão pesada sobre o ombro do companheiro, piscou para ele e disse:
Meu velho, agora temos que fazer o negocinho juntos.
Talamon limitou-se a acenar com a cabeça.
Topthor também acenou.
Você não quer que eu formule qualquer pergunta, meu caro, e não perguntarei nada. Só faço uma pergunta dirigida a mim mesmo, e esta pergunta é a seguinte: o grande negócio que você pretende realizar não cheira fortemente a Perry Rhodan?

* * *

Que diabo, o que está acontecendo agora? — berrou Bell no assento de piloto da Gazela e fitou o painel.
A Gazela perdeu velocidade e saiu da rota, embora devesse acelerar a 0,5 luz. Reginald Bell gritou pelo intercomunicador, dirigindo-se à casa de força. Ali estava de serviço o mutante de duas cabeças, Goratchim, e Wuriu Sengu.
Da casa de força, Bell só ouviu um estertor desarticulado. No mesmo instante, também se sentiu atingido pela força. Mais uma vez estendeu seus tentáculos, vindos do desconhecido, e parecia esmagá-lo no assento de piloto.
Em algum lugar da Gazela, começaram a chiar aparelhos que nunca haviam emitido qualquer som. No assento do co-piloto Tako Kakuta se encolhera. Bell sentiu-se desmaiar, quando de uma hora para outra a força o largou e a bruxaria terminou.
Paramecânica — fungou Marshall.
Bell só compreendeu pela metade. Seu rosto, geralmente corado, parecia cinzento e envelhecido.
A telecinese a uma distância destas? — disse em tom incrédulo.
A Gazela, mantendo o curso que lhe fora imposto pelo poder desconhecido, corria vertiginosamente em direção ao planeta gigante de Gom.
Temos que transmitir um pedido de socorro à Titan e...
Bell não conseguiu dizer mais nada. Sentiu-se agarrado, comprimido e martirizado de dois lados.
É o fim”, pensou. Numa atitude de desespero reuniu todas as energias e balbuciou para John Marshall:
Entre em contato com... com... com Gucky.
A inconsciência caiu rapidamente sobre Bell.
Marshall esqueceu o próprio destino. Algo cresceu em seu interior. Concentrou-se apesar do medo de morrer, estabeleceu contato com Gucky, o rato-castor que se encontrava a bordo da Titan. Conseguiu transmitir ao ser peludo alguns fragmentos de idéias:
Data... Terra... O cérebro positrônico de Topthor... reprogramado para Beta...
Gucky não captou mais nada.
Toda a vida no interior da Gazela entrou na zona crepuscular da inconsciência. A nave de esclarecimento de grande alcance corria ininterruptamente em direção ao planeta Gom, arrastada por forças tremendas, e naquele instante penetrava nas primeiras camadas rarefeitas da atmosfera daquele mundo infernal.
Foi a hora mais dura de Perry Rhodan.
Teve que permanecer inativo enquanto perdia seu melhor amigo, enquanto a Gazela caía com os melhores dentre seus colaboradores sobre o planeta Gom.
Não devia intervir. O espaço cósmico em torno de Gonom era uma selva de raios de localização tateantes. As naves de Laros haviam decolado em enxames para caçar o pequeno veículo espacial que se ocultara na Tal VI.
O alarma rugiu por toda a Titan. Após alguns segundos a gigantesca nave esférica estava preparada para entrar em combate. Perry Rhodan parecia alheio a tudo. Estava lutando consigo mesmo. Bastava que queresse, e a queda da Gazela seria detida.
Não poderia fazê-lo. Não devia pensar em si. O destino da humanidade terrana estava em suas mãos.
Com a voz firme, deu ordem para afastar-se. Apesar da enorme proteção contra a localização atrás da qual se ocultava a nave esférica, não se podia excluir a possibilidade de que uma das inúmeras naves que andavam por esse setor do espaço a localizasse por acaso.
A ordem de Rhodan não fora inspirada pela coragem nem pela covardia. A segurança da Terra exigia que ele a desse.
Um sorriso feroz passou-lhe pelo rosto quando se lembrou da alteração dos dados armazenados no cérebro positrônico de Topthor.
Naquele instante, o rato-castor, que estava agachado a seu lado, chiou:
Será que o gorducho nunca mais volta, Perry? Ele tem de voltar, pois do contrário não haverá mais ninguém que eu possa chatear de verdade...

* * *

Naquele mesmo momento, o coronel Klein, representante de Perry Rhodan na Terra, avisou Freyt, que parecia cada vez mais impaciente:
Amanhã o novo compensador estrutural será instalado na Solar System. Depois, esse barco poderá partir com a equipe especial em direção a Honur.
Prefiro que o cruzador pesado fique aqui — respondeu Freyt. — Antes de mais nada, gostaria de rever o chefe o quanto antes. Quando voltei com a Ganymed do grupo estelar M-13, o céu de Gobi estava coberto de nuvens. Acho que agora as nuvens se amontoam em torno do nosso sistema solar. Não sou supersticioso, mas não consigo livrar-me de um medo terrível. Em algum lugar do sistema de Árcon, alguma coisa não deu certo. Em algum lugar... Quando seremos atingidos pelas conseqüências?




* * *
* *
*







Apenas o cérebro positrônico de uma única nave possui dados sobre a posição galáctica da Terra. Por isso, torna-se relativamente fácil para os agentes de Perry Rhodan substituírem os dados corretos por outros, falsos. Mas o que será feito de Reginald Bell e dos oito mutantes que, depois de uma ação bem sucedida no local da conferência dos aras e saltadores, têm de se lançar numa fuga precipitada...?
Qual é a origem das forças misteriosas que transformam a Gazela numa bola de brinquedo...?
No próximo volume da série Perry Rhodan, você saberá por que Gom não Responde: é este o nome de outra emocionante aventura.

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