— Está
faltando uma coisa, Marshall — disse Reginald Bell ao telepata
australiano. — O último dispositivo de segurança, essa história
da ultra barreira, representa uma contradição se não houver algum
dispositivo adicional que a cerca com seus pólos. Topthor deve ter
pensado nesse dispositivo adicional. Procure lembrar-se, Marshall.
Bell
insistia. Os mutantes agiam como se nem estivessem presentes. Kitai
Ishibashi, um médico e psicólogo japonês dotado de poder de
sugestão inacreditável, só em parte se encontrava presente. Por
meio de sua capacidade, colocara-se junto a Topthor, que já saíra
da Tal VI
e
naquele momento caminhava em direção à sua nave capitania. Pensava
em Perry Rhodan.
Subitamente
John Marshall estremeceu, como se tivesse levado uma tremenda
pancada. A mesma coisa aconteceu com Kitai Ishibashi.
Bell notou
o que estava acontecendo, mas não sentiu nada. Não se espantou por
isso. Afinal, não possuía as mesmas capacidades dos dois mutantes.
Muito
perturbado, John Marshall gemeu:
— Meu
Deus, o que foi isso?
Bell
poucas vezes o vira assim, e quando isso acontecia sempre se
encontravam diante de um perigo imenso.
O aspecto
de Kitai Ishibashi não era melhor que o de John Marshall. O suor
porejava na testa do japonês alto e magro.
— Alguma
coisa tentou agarrar-me — disse, explicando o que acabara de
sentir. — Mas quando quis me segurar, errou o alvo.
Marshall
limitou-se a acenar com a cabeça.
— Terá
sido sugestão, hipnose, telepatia?
— Não
foi nada disso — respondeu Marshall com a voz pesada. — Foi uma
coisa nova, uma coisa que nunca experimentei. Acredito que seja uma
coisa que nos persegue.
Bell já
tomara muitas decisões graves e nunca errara. Mas o que devia
determinar agora, quando ambos os mutantes não conseguiam
caracterizar o perigo que os ameaçava?
Raciocinou
instantaneamente. A conclusão lógica exprimia-se nesta pergunta:
— Marshall,
o senhor já consegue lembrar-se do dispositivo adicional que Topthor
usou para inverter a polarização da ultra barreira que protege a
memória do cérebro positrônico?
Esse
problema tinha precedência sobre qualquer outro. A segurança dos
homens que se encontravam na nave não era tão importante.
Precisavam aproximar-se do cérebro positrônico de bordo de Topthor,
a fim de remover os dados astronáuticos.
O sistema
de alarma do cérebro de Bell entrou em ação. Havia um “furo”
em seu raciocínio.
A técnica
positrônica não permitia que qualquer dado, uma vez armazenado,
fosse removido. Era impossível apagar qualquer setor da memória do
cérebro. Só havia possibilidade de revisões, mas devia tratar-se
realmente de uma revisão, pois do contrário o cérebro não
aceitava os novos dados, mantendo os que já se encontravam
armazenados.
— Consegui!
— exclamou Marshall, arrancando Reginald Bell de suas reflexões.
— O quê?
— perguntou Bell, e essa pergunta o diferenciava de Perry Rhodan, o
reator instantâneo.
— Já
sei em que dispositivo adicional da ultra barreira andou pensando o
velho Topthor...
Por mais
que Marshall se esmerasse nas explicações, Bell não conseguia
acompanhá-las. Lançou um olhar para Wuriu Sengu, o espia. Esse
japonês de aspecto despretensioso, filho de um casal que durante o
bombardeio atômico ao Japão ficara exposto a uma dose quase mortal
de radiações. Agora possuía a capacidade espantosa de, por meio de
um processo de concentração espiritual, aumentar o poder de visão
a um tal ponto que podia enxergar através dos átomos e das
moléculas de matéria compacta, reconhecendo perfeitamente o
objetivo visado.
Wuriu
Sengu compreendeu o pedido de Reginald Bell.
Concentrou-se
e colocou um bloco de papel sobre o joelho, segurando o lápis na
mão. Logo viu o esquema da parte do cérebro positrônico de Topthor
que Bell não conseguia conceber com a necessária clareza através
dos seus esforços mentais.
O processo
demorou menos de dez minutos. Sengu, o espia, voltou ao normal.
Entregou a Bell o esquema de ligações da ultra barreira e do
dispositivo adicional.
Bell
esboçou um sorriso feroz, zombando de sua própria lerdeza. Um
simples olhar para o desenho bastava para que compreendesse o
dispositivo de segurança.
— OK —
disse em inglês. — Voltaremos a transferir nosso quartel-general
para a Gazela. Irei depois: ainda tenho de falar com a Titan.
Marshall, o que acha de Beta?
O
australiano deu uma risada silenciosa. Lera os pensamentos de Bell.
Sua resposta foi a seguinte:
— Acho
que o chefe gostará muito.
* * *
Três
patriarcas viram o biólogo-chefe Keklos sair da sala. Depois disso,
dois saltadores e um superpesado trocaram olhares ferozes. Um após o
outro sacudiram a cabeça, em sinal de desaprovação.
Cekztel,
chefe de todos os clãs dos superpesados, disse depois de ter
calculado que esse ara com certeza não conseguiria ouvi-lo mais:
— Se
ficar doente um dia, prefiro morrer que ser curado por este
biólogo-chefe. Já vi alguns mundos que foram transformados em sóis
sob o efeito das nossas bombas, mas nunca senti o menor prazer em
vê-los destruídos. É bem verdade que não cheguei a sentir
compaixão. Afinal, os seres que destruímos foram nossos inimigos,
mas nunca maltratei um ser até a morte. Quer apostar que esse Keklos
faz uma coisa dessas?
Siptar, um
patriarca muito velho, acenou a cabeça, muito pensativo. O velho
Vontran demonstrou sua repugnância sem rebuços.
— Amanhã
será realizada a conferência... — o velho Siptar disse mais
alguma coisa e lançou um olhar de expectativa para Cekztel.
O rosto
carrancudo e enrugado deste tornou-se ainda mais furioso. Seu olhar
caminhava entre os dois patriarcas dos saltadores.
— Sem
vocês, os mercadores, os superpesados não atacarão a Terra. Se
vocês nos acompanharem com todas as naves que estiverem bem armadas,
nós os acompanharemos. Do contrário...
Se havia
uma voz que pesava, era a de Cekztel. Era o chefe de todos os
patriarcas dos superpesados. Ninguém sabia quantas naves de guerra
comandava. Era provável que o próprio Cekztel não soubesse. Porém
o que se sabia era que um couraçado espacial dos superpesados
equivalia, nos armamentos, a cinqüenta naves bem armadas dos
saltadores.
Siptar,
cujos olhos escuros ainda não haviam sido turvados pela velhice e
que era conhecido por sua inteligência e autodomínio, perguntou
tranqüilamente:
— Devemos
ver nisso uma ameaça, Cekztel?
Cekztel
soltou uma estrondosa gargalhada, bateu com o punho na mesa e gritou:
— Vejam
nisso uma chantagem, Siptar. Será que os saltadores acham que somos
idiotas? Um ser como Perry Rhodan, que consegue roubar o maior
couraçado do Império e apesar disso colabora com o cérebro
robotizado de Árcon, para mim não pode ser considerado um nada. E,
uma vez que ninguém sabe que frota gigantesca Rhodan possui no setor
da Terra, nós, os superpesados, só nos lançaremos ao ataque se
formos acompanhados pelas frotas dos mercadores galácticos. Então,
ainda acham que a condição imposta por mim representa uma
chantagem, ou já chegaram à conclusão de que apenas é um produto
da lógica aplicada?
— Como
você votará amanhã, Cekztel? — perguntou o velho e sagaz Siptar.
Os olhos
de Cekztel relampejaram.
— Pouco
importa que amanhã eu me manifeste a favor ou contra o ataque à
Terra. Tudo depende do que vocês decidirem. Se também estiverem
dispostos a arriscar alguma coisa, não terão solicitado nosso
auxílio em vão.
Vontran
teve a impressão de que estas palavras exprimiam uma exigência
pecuniária dos superpesados. Procurou amarrar Cekztel por meio de
uma pergunta lacônica.
O
superpesado reclinou-se confortavelmente e perguntou com um sorriso
matreiro:
— Será
que vocês realmente acreditavam que partiríamos para o ataque de
graça? Será que os mercadores já venderam alguma coisa sem exigir
o respectivo pagamento? Algum de vocês já foi tratado pelos aras e
não recebeu a respectiva conta? Meus caros, vocês estão ficando
muito engraçados. Nosso auxílio custará algumas centenas de
milhões. E, se me lembro de que Topthor é o único que conhece a
posição da Terra, e que Topthor também é um superpesado, chego à
conclusão de que vocês deveriam pagar o dobro.
— Cekztel!
— chiou Siptar. — Você não pode estar falando sério.
Siptar
respondeu em tom frio:
— Não
costumo brincar quando se trata de dinheiro. Fiquem com o dinheiro.
Torçam o pescoço de Perry Rhodan sem recorrer ao nosso auxílio.
Muito bem, pedirei a Topthor que lhes forneça os dados. Partam para
a Terra e ataquem Rhodan. Desejo-lhes muitas felicidades, suas almas
mesquinhas de mercadores.
* * *
O
biólogo-chefe Keklos recebeu o relatório de Moders. Este teve o
cuidado de não ultrapassar o limite dos três metros.
— A
bioprodução foi iniciada neste momento. Mandei aquecer as primeiras
retortas-autoclaves. Hoje de noite, por ocasião da mudança de
turno, já poderemos verificar se a produção em massa está
correndo sem falhas. Depois disso mandarei que todas as
retortas-autoclaves...
— Espere
até que a assembléia dos saltadores chegue ao fim, Moders —
interveio Keklos em tom áspero e não deu a menor atenção ao
espanto de seu colaborador. — A nave cargueira vinda de Gom já foi
descarregada?
— Não.
— Pois
dê ordens imediatas para que o descarregamento não seja iniciado
sem nova ordem. Providencie imediatamente. Porém, antes disso,
traga-me um bio.
Moders
estava dispensado. Muito confuso, retirou-se do gabinete do chefe.
Não compreendia as instruções de Keklos. De repente, a produção
em massa dos bios não era mais urgente. Por que a matéria-prima
vinda de Gom devia permanecer na nave que a trouxera?
A fantasia
de Moders não tinha bastante agilidade para estabelecer uma ligação
entre o bio, ao qual deu a ordem de dirigir-se ao gabinete do
biólogo-chefe Keklos, e as instruções que acabara de ouvir.
No momento
em que o vulto cinza-fosco, o produto da retorta de mais de três
metros de altura, entrou no gabinete do chefe, cruzando um par de
braços no peito e outro par nas costas e mantendo-se em atitude de
expectativa, Keklos acabara de entrar em contato pelo rádio com a
nave cargueira que acabara de trazer a matéria-prima de Gom.
Também no
cargueiro suas instruções produziram espanto e perplexidade. E,
quando o bio de Keklos entrou em cena, os oficiais que se encontravam
na sala de comando do cargueiro desistiram dos esforços de encontrar
a solução do mistério.
Mas Keklos
sabia perfeitamente o que queria.
* * *
Quatrocentos
mil quilômetros acima de Laros, a grande frota de Talamon se
mantinha em posição de espera. A menor de suas naves de guerra
recebera ordens do patriarca para descer em Laros, passou pelo
controle dos médicos aras e uma hora depois voltara a decolar.
Talamon
ainda se sentia congelado até a medula dos ossos em virtude do
incidente com o hipercomunicador. O que mais o deprimia era o fato de
que tinha de ver em qualquer dos membros de seu clã um traidor.
Naquele instante encontrava-se a caminho do “quartel-general”
de Bell. O gordo instalara o grupo de mutantes na Gazela abrigada no
hangar secreto da nave, e que se mantinha preparada para decolar a
qualquer momento.
Bell não
conseguira acalmá-lo. Talamon não se deixou demover da idéia de
que entre seus parentes mais chegados havia um traidor. Não admitiu
a possibilidade de que um acaso infeliz tivesse estabelecido a
ligação do hipercomunicador. Bell também não acreditava nisso,
mas John Marshall, o telepata, afirmava que as coisas se haviam
passado sem traições. Tivera o trabalho enorme de examinar um por
um os membros da tripulação. O resultado foi nulo.
De
qualquer maneira, o pouso da menor das naves de Talamon e seu
regresso não haviam sido em vão. Essa ida e vinda não teve outra
finalidade senão justificar o tráfego intenso de mensagens de rádio
expedidas pela Tal VI.
Uma
vez que esse tráfego se realizava pela freqüência de Talamon,
Perry Rhodan o acompanhava automaticamente e não poderia deixar de
espantar-se com o texto das mensagens.
O
superpesado exibiu um sorriso matreiro quando entrou na Gazela e
entregou a Bell a notícia gravada numa folha de plástico. Segundo
esta, a pequena nave de guerra atingira a frota que se mantinha em
posição de espera acima de Laros.
Bell não
demonstrou o menor interesse pelo texto. Sabia que era obra de Perry
e encerrava uma notícia oculta. O cérebro positrônico da Gazela
começou a trabalhar com o texto. Bell ligou a chave de decifração;
o cérebro transformou a mensagem corriqueira numa série de dados
astronáuticos. Por estes, a Terra era um planeta do setor Orion, um
dos astros que gravitavam em torno do gigantesco sol Beta. Era o
terceiro planeta desse sol monstruoso. Com estes dados, sofreu um
deslocamento de 272 anos-luz da sua posição verdadeira. Para quem
se encontrasse no grupo estelar M-13, a Terra aproximara-se 272
anos-luz dessa nebulosa.
— Não
gostaria de percorrer essa distância a pé — resmungou Bell com um
sorriso, sem notar que Talamon já o havia deixado.
John
Marshall aproximou-se, vindo da parte dos fundos da pequena sala de
comando.
— Talamon
não nos avisará de que Topthor conhece a posição da Terra, nem
nos trairá junto a ele — informou. — Se continuar fiel à sua
opinião, não fará conosco o grande negócio da sucata que se
encontra em Honur. De um lado sente-se obrigado a Topthor e de outro,
a nós. E ainda há a questão do hipercomunicador.
Bell
interrompeu-o com um gesto apressado.
— Deixe-me
em paz com isso, Marshall. Insista junto aos seus colegas para que
ninguém formule diante dos superpesados a mais leve insinuação do
que sabemos. O senhor é capaz de imaginar o que aconteceria se eles
soubessem?
— Sim
senhor. Talamon nos procurará para dizer que avisará Topthor de que
estamos de posse do seu segredo e...
— Vamos
providenciar para que isso dê um prazer todo especial a Topthor —
interveio Bell com uma risada contrafeita. — Peça a Tako Kakuta e
Ras Tschubai que venham até aqui. Quero que transformem o segredo de
Topthor numa bolha de sabão.
Keklos não
se esqueceu da advertência formulada pelo inspetor-chefe Gegul,
executado no conversor. E agora só uma noite o separava da
assembléia dos patriarcas.
— Biólogo-chefe
Keklos — disse Gegul naquela oportunidade. — O perigo começa com
a assembléia. Foi o que aconteceu no planeta Goszul, e é o que se
repetirá em Laros. Mas saberei impedir a repetição, e aqueles que
estão a soldo de Perry Rhodan cairão nas minhas redes. O senhor tem
alguma idéia do que me servirá de rede, biólogo-chefe?
Keklos já
o imaginara quando Gegul formulou a pergunta e dissera o que estava
pensando. Independentemente de Gegul, prosseguira em suas
experiências na mesma base, e nunca deixava de admirar a
clarividência de Gegul. Aquilo em que este, por intuição e não em
virtude de seu saber, via uma arma, realmente era uma terrível arma.
Bem, fazia
tempo que Gegul não se encontrava entre os vivos. Esse fato não
seria capaz de provocar um simples sacudir de ombros em Keklos, mas o
plano de Gegul continuava vivo. Transformara-se em realidade.
— Quero
que Moders compareça imediatamente — disse a voz metálica de
Keklos no intercomunicador.
Moders não
compareceu.
Keklos deu
o alarma. Costumava fazê-lo muitas vezes. E, toda vez que isso
acontecia, constatava-se o desaparecimento de alguém, às vezes de
muitos aras. Ninguém saberia dizer que destino haviam tomado.
Ninguém se atreveria a formular uma indagação oficial.
Moders não
compareceu.
O grau
mais rigoroso de alarma foi desencadeado no gigantesco sistema de
galerias subterrâneas da lua Laros. O alarma estendeu-se a toda a
lua, em muitos pontos subia à superfície e propagava-se.
Ninguém
conseguia encontrar Moders.
Na cabeça
do biólogo-chefe Keklos começou a martelar a advertência profética
de Gegul: o perigo
começa com a assembléia.
Naquela
noite, morreram muitos doentes, os cirurgiões largavam seus
instrumentos em meio às operações, os enfermeiros abandonavam suas
tarefas, grandes extensões dos estabelecimentos hospitalares foram
paralisados. Todo mundo procurava Moders, o colaborador mais chegado
do biólogo-chefe Keklos.
Moders não
foi encontrado.
* * *
Furioso,
Talamon deixou-se cair na poltrona. Ainda furioso, lançou um olhar
para seu amigo Topthor.
— Para
que serve essa palhaçada com os robôs de combate?
Os robôs
haviam detido e revistado Talamon diante da nave de Topthor. Fora
detido e revistado antes de entrar na comporta, e novamente no convés
principal, e mais uma vez diante da escotilha que dava para a sala de
comando. De cada uma dessas vezes, haviam extraído seu modelo de
vibrações cerebrais e irradiaram-no para algum lugar, onde seria
examinado.
Topthor
parecia muito bem-humorado.
— Você
examinou bem os robôs? — A ênfase foi colocada na palavra bem.
Talamon
começou a imaginar do que se tratava.
— Serão
seus?
— São
dos aras.
— Como é
que você pode concordar com uma coisa dessas? — gritou Talamon e
levantou-se de um salto.
— Sente,
meu caro. Os robôs dos aras estão de sentinela com meu
consentimento. Há duas horas, quando estava escurecendo, foram
vistos estranhos no interior da minha nave. Devem ter sido
saltadores.
Topthor
viu que o amigo voltou a afundar na enorme poltrona e ouviu seu
gemido:
— Estranhos?
O que
Topthor não poderia imaginar eram os pensamentos que se atropelavam
na cabeça de Talamon.
Este
acreditava saber quem eram esses estranhos.
— Isso
mesmo, Talamon. Estranhos. Estranhos foram vistos na casa de máquinas
da minha nave.
No mesmo
instante, Talamon sentiu-se aliviado de um peso. Supusera que os
estranhos tivessem sido vistos na sala de comando, onde a posição
da Terra estava guardada na memória do cérebro positrônico. Que
interesse poderiam ter pela casa de força? De consciência tranqüila
podia eliminar os homens de Rhodan do grupo dos suspeitos. Realmente
deviam ter sido saltadores.
— O que
será que alguém poderia encontrar nas nossas casas de máquinas? —
perguntou com um espanto genuíno.
— Avisei
Cekztel, e este transmitiu o aviso ao biólogo-chefe Keklos. Dali em
diante, tropeçamos com os robôs dos aras a cada passo que damos,
mas com isso sinto-me um pouco melhor. Apenas, não estou gostando da
assembléia de amanhã. Será que esse negócio renderá mesmo
quinhentos milhões para mim, Talamon?
— Pelo
menos — respondeu Talamon em tom grave e lançou um olhar
penetrante para seu interlocutor. — Aconteça o que acontecer,
Topthor, você pode e deve confiar em mim. Mas fique com a boca
calada. Se acontecer alguma coisa, não me faça perguntas. Não
gostaria de ver-me forçado a contar-lhe uma mentira. Posso fazer o
negócio sem você. Foi por minha livre e espontânea vontade que lhe
cedi uma parte. Quero que, se alguma coisa não der certo, ao menos
haja uma pessoa que continue leal para comigo.
— Para
isso você não precisaria presentear-me com um lucro de quatrocentos
milhões, Talamon. Eu... — teve a impressão de ouvir um ruído
estranho às costas. — O que foi isso? — perguntou e virou-se
apressadamente.
* * *
Naquele
mesmo instante, Wuriu Sengu que, de olhos fechados, estava sentado ao
lado de Reginald Bell, disse:
— Topthor
deve ter ouvido alguma coisa. Virou-se abruptamente e está fitando o
cérebro positrônico. Agora está de pé. Não, voltou a sentar.
Está desconfiando de alguma coisa. Talamon está fazendo uma
pergunta. Não responde; em compensação está ligando o
intercomunicador e transmite instruções. No momento, não vejo o
menor sinal de Tako Kakuta.
Reginald
Bell levantou a cabeça e lançou um olhar pensativo para Ras
Tschubai. Era o segundo teleportador que, de acordo com os planos, já
devia estar na sala de comando de Topthor para, juntamente com Tako
Kakuta, introduzir algumas modificações nos dados relativos à
Terra armazenados na memória do cérebro positrônico.
Acontece
que Tako Kakuta não conseguira penetrar na sala de comando sem ser
notado. Bell esteve a ponto de fazer uma pergunta a Sengu, o espia,
quando os três — Tschubai, Sengu e ele mesmo — se assustaram com
um estrondo.
Com o
estrondo, o teleportador pequeno e franzino rematerializou-se. O
rosto infantil sob a testa abaulada exprimia contrariedade.
Tako
Kakuta caíra durante a rematerialização.
— Foi
isso — disse com a voz martirizada. — Foi exatamente isso que
aconteceu quando cheguei à sala de comando de Topthor.
Ergueu-se
lentamente, sacudindo a cabeça.
Kakuta não
soube explicar o que acontecera.
— Ishibashi,
o senhor percebeu alguma coisa? — perguntou Bell, dirigindo-se ao
sugestor.
— Sim
senhor, mas também não sei explicar do que se trata. A coisa apenas
roçou em mim de leve. Quase chego a pensar que se tratava de uma
coisa enfeixada.
— Wuriu
Sengu, o quadro, que o senhor viu, permaneceu nítido durante todo o
tempo? — Reginald Bell aguardava ansiosamente a resposta do espia.
— Bastante
nítido! — respondeu Sengu em tom decidido.
— Pois
nesse caso vou falar com Marshall — decidiu Bell e levantou-se. —
A missão “setor
de armazenamento”
sofrerá um ligeiro adiamento.
Retirou-se
para procurar John Marshall, que nas missões dos mutantes costumava
dirigir os comandos.
* * *
O
intercomunicador do gabinete de Keklos emitiu o sinal de urgência
máxima. O biólogo-chefe levantou os olhos dos documentos que estava
examinando e ouviu uma voz nervosa anunciar que Moders havia sido
encontrado.
— Quero
um relato preciso, imediatamente — disse Keklos, cortando a longa
introdução.
Cada vez
mais interessado, acompanhava o relato. Viu na tela o estado em que
se encontrava Moders. Não ligou a transmissão de sua própria
imagem. Os médicos, em redor de Moders, que estava inconsciente, não
podiam fazer a menor idéia da satisfação que se espelhava no rosto
de Keklos.
Este não
comentou o relatório que acabara de ser transmitido.
— Tomem
as providências que se fazem necessárias — disse e desligou.
Pouco
depois, chamou o bio que Moders lhe enviara há algumas horas. Quando
o produto da retorta entrou pela segunda vez naquela noite,
estremeceu com a voz enérgica de Keklos. O bio não sabia do pavor
que uma aproximação a menos de três metros causava no
biólogo-chefe. Não entendendo as censuras ásperas do ara, o ser
artificial feito de substância biológica deu dois passos apressados
para a frente e colocou-se bem diante de seu criador.
O bio
ainda chegou a ouvir o grito de pânico de Keklos. Também viu a mão
do biólogo-chefe pegar a arma. Mas entendeu muito tarde os berros
desesperados de Keklos:
— Para
trás! Para trás!
Quando a
arma de impulsos térmicos, que se encontrava na mão do ara, expeliu
seu raio mortífero, destruiu uma vida artificial que mal começara a
existir.
Com os
olhos chamejantes, Keklos fitou os restos fumegantes deixados pelo
raio térmico.
Em tom
furioso, chiou:
— Agora
tenho que arranjar outro transmissor intermediário e posso começar
tudo de novo. Quando Moders acordar, não ficará nada satisfeito em
saber que pertence ao material de experiências da divisão de
doenças aromáticas. Pensei que fosse mais inteligente. Até o
momento em que desmaiou, não compreendeu os meus planos. E as
indicações que lhe forneci deveriam ter sido suficientes para isso.
Keklos não
esqueceu o menor detalhe. Antes de chamar outro bio, avisou o setor
experimental de doenças aromáticas de que podia dispor de Moders
como material de ensaio.
Dali a dez
minutos, outro bio se encontrava em seu gabinete. O biólogo-chefe
transformou-o em transmissor intermediário.
Através
do bio, entrou em contato com a matéria-prima que a nave cargueira
acabara de trazer de Gom, e que em virtude das instruções de Keklos
ainda não havia sido descarregada.
Foi diante
dessa nave cargueira que encontraram Moders desmaiado.
Keklos
sabia por que Moders desmaiara.
* * *
Wuriu
Sengu dera o sinal convencionado a Tako Kakuta e Ras Tschubai. A
força de sua mente permitia-lhe enxergar a sala de comando de
Topthor.
Estava
vazia.
Atrás de
Sengu o ar começou a tremeluzir em dois pontos diferentes, e nesse
tremeluzir desapareceram os dois teleportadores.
No mesmo
instante, Sengu os viu quando se esconderam na sala de comando do
superpesado, atrás da cúpula maciça do hipercomunicador.
Os dois
teleportadores logo conseguiram orientar-se. Aproveitaram-se do fato
de terem estudado a Tal VI
de
Talamon, inclusive a sala de comando. Depois que, graças à
capacidade de Marshall, ficaram sabendo do segredo de Topthor,
examinaram o cérebro positrônico com uma atenção toda especial. O
dispositivo positrônico, que ocupava quase toda a parede oposta ao
assento de pilotagem, era a reprodução fiel do aparelho existente
na nave de Talamon.
Apesar
disso, não era nada fácil reprogramar determinada área do setor de
memória. Graças ao processo hipnótico dos arcônidas, ambos
possuíam o saber de um especialista de Árcon. Mas, para dominar os
princípios da positrônica na teoria e na prática, precisariam do
quociente intelectual de Perry Rhodan ou Reginald Bell.
O gorducho
sabia tudo de cor. Seria o homem indicado para o serviço. Mas Bell
não era teleportador, e, sem essa faculdade formidável, já teria
morrido sob o fogo dos robôs de combate dos aras, que vigiavam a
nave de Topthor em fila quádrupla.
Mas Ras
Tschubai e Tako Kakuta não dependiam exclusivamente de sua própria
capacidade.
Bell, que
às vezes assumia grandes riscos, desta vez agira com a cautela de
estrategista frio. Não queria deixar o menor detalhe por conta do
acaso.
Wuriu
Sengu via o que se passava na sala de comando de Topthor e
constantemente emitia seus comentários lacônicos.
Diante
dele, estavam sentados John Marshall e Kitai Ishibashi. Marshall era
o telepata mais eficiente de Perry Rhodan, e Ishibashi era um
sugestionador que, por várias vezes, provara que era capaz de impor
sua vontade a centenas de pessoas num espaço de tempo extremamente
curto. E a impunha de forma tão intensa e duradoura que as pessoas
atingidas se convenciam de que agiam por vontade própria.
Como
último recurso, Bell mantinha em reserva o telecineta Tama Yokida. A
distância entre a Gazela e a sala de comando de Topthor fora medida
com toda a precisão. Yokida tinha um croqui sobre as pernas. Nele se
via a forma pela qual estava dividida a sala de comando, os aparelhos
existentes, e qual era a distância entre as peças mais importantes.
Tama
Yokida interviria se surgissem robôs. Recorreria à força de sua
vontade e lhes dispensaria um tratamento que os faria voar pelo ar
como se fossem balões e, com um impacto violento, os transformaria
em sucata.
Subitamente
a voz de Wuriu Sengu parecia um tanto nervosa.
— A
escotilha está sendo aberta. Topthor está entrando na sala de
comando juntamente com dois membros de seu clã.
Sengu
ainda não havia acabado de falar quando Marshall e Ishibashi
entraram em ação.
Bell se
mantinha um tanto afastado. Fumava. Seu olhar era tranqüilo. E não
estava excitado por dentro. Examinava cuidadosamente seus comandados.
Os que haviam entrado em ação trabalhavam com o máximo de
segurança e concentração.
Kitai
Ishibashi procurou atingir a vontade de Topthor. Penetrou
instantaneamente em sua mente e logo descobriu o ponto de apoio a
partir do qual seria mais fácil influenciar o superpesado. Ishibashi
batizara o procedimento com o nome de método das camadas. Não
inundava a vontade de outra pessoa com a força de uma cachoeira, mas
impunha-lhe sua vontade em camadas progressivas.
John
Marshall, que era telepata, não poderia dar apoio direto à tarefa
de Ishibashi. Em compensação, controlava os pensamentos da vítima
e fornecia ao sugestionador indicações preciosas sobre a maneira de
aplicar seu dom.
* * *
Topthor
esperou até que a escotilha se fechasse atrás dele. Em seu rosto
velho e esverdeado, havia uma expressão de contrariedade.
— Sentem
— disse em tom rude aos membros de seu clã.
Os dois
jovens superpesados, cuja figura era quadrática como a do velho,
deixaram-se cair nas poltronas. Não deviam esperar nada de bom; era
o que dizia o rosto zangado de Topthor.
— O tal
do Keklos, chefe dos aras em Laros, está ficando louco. Vocês
ficarão de sentinela aqui até que eu mande revezá-los. O
biólogo-chefe está vendo fantasmas. Quer transformar os estranhos
que foram vistos nesta nave e que infelizmente conseguiram escapar em
figuras que trabalham para Perry Rhodan. O que eu acredito e o que
vocês acreditam é coisa que só diz respeito a nós mesmos. Keklos
exerceu certa coação sobre mim. Colocou-me diante da alternativa de
vigiar a sala de comando através de meus homens e manter contato
audiovisual permanente com ele, ou então vê-lo colocar meia dúzia
de robôs de combate dos aras na mesma. É isso. Mostrem suas armas.
Um dos
membros do clã praguejou. Parecia muito contrariado. Mas cumpriu a
ordem de Topthor, exibindo suas armas tal qual o outro. Os dois
fitaram o velho e arregalaram os olhos.
Topthor, o
velho ranzinza que vivia resmungando, riu. Piscou animadamente para
os dois.
— Instalem-se
de modo confortável — disse em tom bonachão. — Se quiserem
dormir um pouco, fiquem à vontade. Quanto ao contato com Keklos,
falarei com ele da minha cabine. Se continuar a insistir, avisarei.
— Falou,
meu senhor — disse o mais alto dos dois com uma risada e deu um
soco nas costelas do outro. Subitamente parecia muito bem-humorado e
guardou todas as armas no fundo do bolso. — Por todas as estrelas
do Universo, estou cansado como quem atravessou uma bebedeira de três
dias e três noites.
— Pois
comigo está acontecendo a mesma coisa — disse o patriarca e
bocejou gostosamente. — Está na hora de ir para a cama.
Com estas
palavras retirou-se.
* * *
Tako
Kakuta e Ras Tschubai, que se mantinham escondidos atrás da enorme
instalação de rádio da nave de Topthor, piscaram alegremente um
para o outro.
Desde o
momento em que o velho se dispôs a controlar as armas de seus
subordinados, transformara-se de uma hora para outra num ser
totalmente diferente. Ele, que a bordo de sua nave costumava escrever
a palavra disciplina com letra maiúscula, sugeria que a missão que
acabara de confiar aos dois membros de seu clã não fosse levada
muito a sério.
Os dois
teleportadores sabiam quem tinha suas mãos naquilo, e de onde partia
a influência exercida sobre os três superpesados.
Os passos
pesados de Topthor afastaram-se depois que este fechou a escotilha.
Mais uma
vez, os mutantes que se mantinham agachados atrás das instalações
de rádio trocaram um olhar. Aguçaram o ouvido. Aguardavam os roncos
dos superpesados que estavam sentados nas poltronas.
Silenciosos
que nem duas sombras os dois mutantes saíram de trás das
instalações de rádio.
* * *
A menos de
três quilômetros de distância, no interior da pequena cabine da
Gazela, Bell deu esta ordem ao telecineta Tama Yokida:
— Providencie
para que nos próximos quinze minutos ninguém consiga abrir a
escotilha que dá para a sala de comando de Topthor.
Tama
Yokida limitou-se a acenar com a cabeça e liberou suas energias
telecinéticas, tangeu-as para a nave de Topthor e ali desencadeou
forças tremendas. Essas forças atingiram o mecanismo da fechadura
da escotilha, interpuseram-se entre os relês arcônidas, fizeram com
que potentes campos magnéticos entrassem em colapso e desempenharam
o papel de solda indestrutível que ligasse a escotilha e os trilhos
pelos quais a mesma devia deslizar.
* * *
O cérebro
positrônico de Topthor estava funcionando. As duas sentinelas
estavam deitadas nas poltronas e dormiam. Nem Kakuta nem Ras Tschubai
viraram-se uma única vez para eles. Confiavam irrestritamente na
capacidade de Ishibashi.
O setor de
memória! Tako Kakuta acabara de ligá-lo, mas não tinha muita
certeza sobre a ligação que deveria efetuar.
Na sala de
comando da Gazela, Marshall dirigiu-se a Reginald Bell e disse:
— Kakuta
não quer arriscar-se em ligar o impulso do setor de memória. Ainda
está hesitando e...
Bell
preparara as medidas a serem adotadas se ocorresse um incidente como
este. Kitai Ishibashi teria de suspender temporariamente seu
tratamento sugestivo.
— Ocupe-se
com Kakuta. Aqui — apontou para a série cronológica de ligações.
— Foi aqui que ele encalhou. Ande depressa, Ishibashi!
No momento
em que Kakuta ligou o impulso do setor de memória do cérebro
positrônico, nem desconfiou que Kitai Ishibashi lhe dera ordem para
isso a uma distância de três quilômetros.
— Pronto?
— perguntou o africano.
Ras
Tschubai já concluíra sua tarefa.
— Um
mo...
Naquele
instante uma voz berrou atrás deles:
— O que
está acontecendo aqui? Uma das sentinelas acordara.
Ras
Tschubai desapareceu diante de Kakuta. O africano alto e esbelto
assumira o risco de teleportar-se em meio ao chamado. Kakuta preferiu
não arriscar-se. Se Tama Yokida, que se encontrava na Gazela, não
desse conta de sua tarefa, estaria perdido.
Este não
teve tempo de informar a Bell. Libertou a escotilha que dava para a
sala de comando das suas energias telecinéticas para brincar com o
jovem superpesado.
Este, que
acabara de despertar do sono hipnótico mas continuava dominado pela
vontade estranha, não viu nada demais em subir de sua poltrona e
ficar grudado no teto. Tama Yokida virará o corpo dele de tal
maneira que o peito ficou encostado no teto. Assim o jovem
superpesado não veria o que se passava embaixo dele.
Apesar do
incidente, que poderia assumir uma feição ameaçadora, Wuriu Sengu,
o espia, continuou a transmitir seus comentários com a voz
tranqüila.
— Kitai!
— disse Bell com a voz metálica, mas percebeu pelo gesto do
sugestionador que este já havia entrado em ação.
Sengu
informou:
— A
escotilha está sendo aberta. Topthor...
Naquele
instante, uma força invisível sacudiu a sala de comando da Gazela.
Bell e seus mutantes foram varridos para um canto. Sengu gemeu.
Batera com a cabeça. Marshall segurava a cabeça com ambas as mãos.
Ishibashi, que se encontrava ao lado de Reginald Bell, logo ficou em
condições de entrar em ação. Comunicaram-se por meio de olhares.
— Marshall!
— chamou Bell em tom enérgico. — Marshall e Sengu!
Os dois
estavam trabalhando jogados ao chão, tal qual Tama Yokida.
Só agora
Bell se deu conta da situação terrível em que se encontravam.
Quem os
atirara contra a parede? Que poder os descobrira e atacara?
— O que
está fazendo o velho Topthor, Sengu? — perguntou Bell
apressadamente.
— Não o
vejo — foi a resposta surpreendente e inacreditável.
Bell
fitou-o perplexo, mas no mesmo instante formulou a pergunta dirigida
a Ishibashi.
— Voltou
a submeter Topthor ao seu tratamento?
Ishibashi
deu de ombros. Bell compreendeu. Pôs-se a praguejar. Ras Tchubai, o
teleportador africano, materializara-se diante dele.
— Topthor,
a velha raposa, está jogado no convés C e dorme em cima de bombas
arcônidas.
Reginald
Bell não demonstrou o menor interesse pela informação.
— Tschubai,
o senhor foi atacado nos últimos minutos por uma força
desconhecida?
— Atacado?
— perguntou o africano.
Sengu
exclamou em voz alta:
— Kakuta
completou a modificação dos dados de posição. Agora está parado
diante do superpesado que caiu do teto. Parece preocupado, pois tudo
indica que o rapaz está ferido.
— Era só
o que faltava — resmungou Bell. — Ishibashi, sugestione Kakuta
para que teleporte o rapaz à enfermaria, mas só se puder fazê-lo
sem assumir qualquer risco.
Ishibashi
concentrou-se. Bell obteve mais alguns segundos durante os quais pôde
refletir tranqüilamente.
Só as
pessoas que se encontravam na sala de comando da Gazela haviam sido
atiradas ao chão. Ras Tschubai, que se encontrava a três
quilômetros de distância, não havia percebido nada. Subitamente
lembrou-se de que durante a permanência no camarote particular de
Talamon haviam sentido, com um breve intervalo, dois fenômenos
inexplicáveis.
— Marshall...
Não
conseguiu dizer mais nada. Talamon irrompeu na pequena sala de
comando da Gazela, dando mostras de tremenda exaltação. As notícias
que trouxe não foram boas.
Há dois
minutos mais de cem robôs de combate dos aras passavam pelos
compartimentos da Tal VI.
Eram
acompanhados de quase duzentos aras armados até os dentes, que se
mantinham mudos e revistavam sistematicamente sala após sala.
Bell
lançou um olhar pensativo para o patriarca. A cada dia que passava
gostava mais de Talamon. O velho não sabia o que era medo, mas nesse
instante soltou um grito.
Bem à sua
frente Tako Kakuta se materializara. Já estava abrindo a boca para
avisar que a missão fora cumprida quando viu o superpesado.
Controlou-se imediatamente e soltou a pergunta que abalou as pessoas
que se encontravam na sala de comando:
— Vocês
sabem que três naves de guerra estão paradas em cima da Tal VI?
O
Biólogo-chefe Keklos tremia de desconfiança. Tinha diante de si
dois relatórios, um da estação de hipercomunicação e outro sobre
o resultado da busca realizada na última noite a bordo da Tal VI.
Keklos não
pensava em nenhum desses relatórios. Refletia sobre a experiência
pela qual ele mesmo passara e mais uma vez voltou a formular a mesma
pergunta:
— Por
que Topthor me chamou ontem de noite? E o que quis conseguir com essa
conversa tola?
Ele mesmo
fora à nave de Topthor na ultima noite. De repente, passou a
desconfiar da transmissão audiovisual realizada a partir da sala de
comando. Mas na nave de guerra do superpesado tudo estava em ordem.
Numa atitude triunfante, o velho lhe mostrara parte dos dispositivos
de segurança que colocara em torno do setor de armazenamento de
dados de seu cérebro positrônico.
— Biólogo-chefe
Keklos, como vê já tomei todas as providências antes que o senhor
determinasse suas medidas de segurança.
Ontem de
noite essa demonstração era boa de ver e de ouvir, mas então ainda
não dispunha dos relatórios.
A
exposição fornecida pela estação de hipercomunicação era
inquietante.
De repente
quatro técnicos captaram uma estranha transmissão de
hipercomunicação, que, após poucos segundos foi abafada por uma
interferência. Antes que fosse possível determinar a fonte de
interferência, esta se estendera a todas as freqüências. Esse
acontecimento inédito impediu os técnicos de se ocuparem
imediatamente com a parte inteligível da transmissão. Enquanto
procuravam determinar o motivo da interferência, o suprimento de
energia foi suspenso por alguns segundos. Pouco depois, por algum
motivo inexplicável, a grade Me
caiu e o condensador de vácuo explodiu.
Depois de
reparadas as avarias, passou-se ao exame da parte inteligível da
transmissão de hipercomunicação. Mas em vez daquilo que os
técnicos haviam ouvido, o setor de armazenamento reproduziu uma voz
chiante, que anunciava o choro dos dervixes e apresentou uma música
infernal, insuportável para os ouvidos de um ara.
Keklos
logo tropeçou sobre a palavra dervixe. Chegou a consultar Aralon,
mas nenhum cientista sabia o que significava essa palavra.
— Devem
ser os demônios das estrelas!
Com estas
palavras afastou os relatórios. A busca dada na Tal VI
também
não produzira qualquer resultado.
Subitamente
Keklos atirou a cabeça para trás. Num gesto que quase chegava a ser
guloso, pegou o relatório sobre a Tal VI.
Observou-o
e viu que a busca da enorme Tal VI
durara
pouco mais de uma hora. Face a esse período, extremamente reduzido
para uma operação de busca, concluiu que alguma coisa não estava
em ordem.
Examinou
atentamente as indicações de tempo.
O que
acontecera na última noite a bordo da Tal VI?
Uma frase
o incomodava em meio às suas reflexões:
— O
perigo começa com a assembléia! A
assembléia dos patriarcas estava próxima ao encerramento. Já se
decidira que Rhodan seria destruído e que seu planeta seria
transformado num sol. Apenas se regateava sobre o preço que os
superpesados exigiam dos saltadores.
Há meia
hora Keklos, bastante contrariado, desligara o aparelho que
transmitia os trabalhos da assembléia. Seria preferível que não o
tivesse feito, pois naquele instante Cekztel, chefe de todos os
patriarcas dos superpesados, levantara-se e, soltando uma praga,
dissera:
— Os
superpesados não lançarão nenhum ataque contra Rhodan e seu
planeta, a Terra. Estou enojado de toda essa choradeira por causa de
oitenta milhões.
Nem
Cekztel, nem Siptar, Vontran ou qualquer dos outros participantes
desconfiavam de que os mutantes de Perry Rhodan estivessem dando tudo
de si para transformar a assembléia numa bomba explosiva de
desunião.
Ao
amanhecer, os teleportadores Tako Kakuta e Ras Tschubai desempenharam
o papel de “rebocadores”
e, numa série de excelentes saltos de teleportação, haviam
colocado Bell, Tama Yokida, John Marshall e mais alguns mutantes em
esconderijos seguros no interior do pavilhão de reuniões.
Não
puderam exercer nenhuma influência sobre o resultado da votação.
Contra todas as expectativas, a deliberação a este respeito foi
tomada logo após a abertura dos trabalhos. Os trinta patriarcas, que
estavam contra o plano da destruição de Rhodan e da Terra, foram
vencidos pela grande maioria.
Porém, no
momento em que Cekztel formulou sua exigência pecuniária, as coisas
tomaram aspecto diferente.
Ishibashi
incumbira-se da maior parte do trabalho. Sugestionava os mercadores
galácticos, quase fileira por fileira, para que recusassem a
exigência de Cekztel.
Em meio a
uma maioria escassa que pretendia pagar o preço pedido pelo
superpesado, soavam vozes cada vez mais numerosas que gritavam
“vigarice”
e pretendiam pôr em dúvida o resultado da votação.
Quando
John Marshall e Kitai Ishibashi estavam próximos ao esgotamento,
sendo apoiados constantemente por Betty Toufry que, segundo o plano
de Bell, só devia intervir no fim com toda a força de sua
capacidade telepática, o superpesado Cekztel levantou-se de repente
e dispôs-se a abandonar a assembléia.
De seu
esconderijo Bell contemplou-o e esfregou as mãos, quando alguma
coisa passou, tocando-lhe. Por pouco, não o faz perder o equilíbrio.
No mesmo
instante, John Marshall encolheu-se. Reginald Bell viu suas costas
encurvadas, e também viu Kitai Ishibashi, que gemia com a voz
abafada:
— Ai
está de novo!
Reginald
Bell compreendeu que ainda faltava muito para que pudessem
considerar-se vitoriosos.
Alguma
coisa não identificada vinda do desconhecido os atingia.
Subitamente
o chefe de todos os superpesados teve seus passos travados em meio ao
largo corredor central por vários robôs de combate dos aras,
surgidos de repente.
— Chefe
— fungou Tama Yokida — os robôs sabem exatamente onde estamos.
Mais de trinta estão subindo para cá.
O passo
metálico das máquinas de guerra retumbava pelo grande pavilhão, em
que subitamente se instalara o silêncio.
* * *
O produto
da retorta, feio e de um cinza-fosco, estava parado diante de Keklos.
— Fale
logo! — gritou Keklos.
Acabara de
saber que na noite anterior, enquanto estava inspecionando a nave
capitania de Topthor, o bio já tentara falar com ele. Esse bio era
seu transmissor intermediário.
Com uma
voz surpreendentemente humana, o bio limitou-se a dizer:
— Foram
encontrados.
— Onde?
— perguntou Keklos, gritando ainda mais alto, e, em espírito,
condenou à morte os três assistentes aras, que deixaram de avisá-lo
de que o bio procurava falar-lhe na última noite.
— No
lugar em que há muita gente junta e no lugar onde mais uma vez há
muita gente junta.
Só a
última parte da resposta não foi muito clara para Keklos. Deu o
alarma para o pavilhão de conferências dos patriarcas.
— ...onde
mais uma vez há muita gente junta.
O
biólogo-chefe refletiu ligeiramente. A segunda alusão só podia
dizer respeito à nave capitania de Talamon, a Tal VI.
Já
ordenara nova busca, mas depois que formulou outra pergunta ao bio e
obteve a resposta não teve a menor dúvida.
Alarma
para a Tal VI!
Mais uma
vez, gritou para o produto da retorta:
— Diga-lhe
que deve atacá-los. Destruí-los! Entendeu? Promete dizer
imediatamente?
— Sim
senhor, deve destruí-los! — respondeu o produto da retorta.
Keklos
seguiu o bio com os olhos febris. Por um instantezinho, seus
pensamentos vagaram num sonho. Em meio a esse intervalo, deu-se conta
de como poderia entrar em contato com a matéria-prima de Gom sem
recorrer ao transmissor intermediário.
— Gegul
foi parar no conversor algumas semanas antes da hora — admitiu.
* * *
— São
quarenta! — chiou Tama Yokida, o baixote.
Sua voz
não tremia.
Quarenta
máquinas de guerra dos aras subiam ruidosamente pela rampa que se
elevava em arco livre, descrevendo duas curvas. Mais de cem robôs
espalharam-se entre os patriarcas, ocuparam imediatamente todas as
saídas e, dirigindo as lentes sobre os saltadores espantados,
mantiveram-se imóveis.
— Vamos
retirar-nos! — ordenou Bell, que geralmente gostava de bancar o
impetuoso. Neste momento, uma mudança discreta de posições era
preferível à mais retumbante das vitórias.
— Chefe
— disse John Marshall — sem...
A força
invisível voltou a atingi-los. Bell sentiu-se agarrado e levantado.
Perto dele, a pequena Betty Toufry foi erguida mais um tanto.
Marshall e Yokida estavam jogados num canto e Ras Tschubai fora
forçado a colocar-se de joelhos. Tako Kakuta foi o único que
conseguiu manter-se no mesmo lugar.
Bell
segurou Betty assim que sentiu o chão sob os pés. A força
desconhecida largou-os com uma rapidez igual à violência com que os
agarrara.
— Abandonar
o terreno! Fugir! — Bell teve dificuldade em proferir estas
palavras, mas na situação em que se encontravam qualquer
resistência seria uma loucura.
— É
tarde — disse Tama Yokida entre os dentes. — Antes de mais nada,
duas dúzias de robôs têm de ser atirados da rampa para baixo...
Um ligeiro
exame convenceu Bell de que os telecinetas teriam que intervir. Os
teleportadores receberam suas instruções:
— Façam
o papel de rebocadores. Estas palavras representavam uma enorme
injustiça para com a capacidade dos teleportadores. Mas ninguém
achou graça.
Tako
Kakuta pretendia levar Bell num salto instantâneo até a Gazela.
Este fitou-o com os olhos chamejantes. Kakuta virou-se abruptamente,
pegou a figura alta e magra de Kitai Ishibashi, concentrou-se, fez o
ar tremeluzir em torno de si e desapareceu com o sugestionador.
Yokida, o
telecineta, irrompeu com sua energia que nem uma tormenta do mundo
primitivo sobre as máquinas de guerra que se aproximavam
ruidosamente. Os cinco robôs que vinham na frente ergueram-se do
chão, executaram uma rotação no ar e bateram nas pernas metálicas
dos cinco robôs que os seguiam.
O impacto
das dez máquinas de guerra ressoou na rampa. Os patriarcas ouviram o
barulho, mas do lugar em que se encontravam não podiam ver o palco
dos acontecimentos.
Dez dos
quarenta robôs haviam sido neutralizados por algum tempo. Porém os
trinta restantes, dirigidos positronicamente, não conheciam o medo
nem a compaixão, obedecendo apenas à sua programação. Passaram
por cima da confusão e entraram na última curva da rampa.
— Atirá-los-ei
por cima da amurada...
Uma força
brutal e imensa atingiu Bell e Tama Yokida, os fez rodopiar
loucamente, e soltou-os de repente.
O impacto
ruidoso de seus corpos na tribuna foi abafado pelas pisadas dos
robôs. O giro do corpo fizera sangrar o nariz de Bell. Por muitos
segundos, Tama Yokida não conseguiu enxergar nada. Quando a vista
voltou a clarear, percebeu a cintilância dos robôs pela fenda atrás
da qual se encontrava.
As missões
executadas a serviço da Terceira Potência ensinavam a todo mundo a
necessidade de reagir instantaneamente. Yokida jogou Bell ao chão.
Pouco acima de suas cabeças, um raio térmico chiou e atingiu a
parede, que se gaseificou sob a energia desencadeada.
Bell
percebeu o tremeluzir do ar. Fez uma coisa que nunca mais conseguiu
realizar. Pôs a mão no meio do tremeluzir e arrastou Ras Tschubai,
ao chão, em pleno processo de rematerialização. Uma fração de
segundos, depois disso, também Tako Kakuta se encontrava no chão.
Acreditava que a tribuna fosse um lugar muito perigoso, então
resolvera aterrissar de barriga.
— Segure-se!
— berrou a figura grande, esbelta e negra de Ras Tschubai. Sentiu
os braços de Bell enlaçarem seu peito e desmaterializou-se com um
salto em direção à Gazela.
Mas, no
último instante, uma coisa terrível atingiu-o. Tako Kakuta devia
sentir a mesma coisa, pois o japonês soltou um grito. Bell teve a
impressão de que alguém lhe arrancava os braços.
Mas logo
passou. Aterrissaram na sala de comando da Gazela.
— Foi a
salvação no último... — disse Reginald Bell, mas logo foi
atirado num canto juntamente com as outras pessoas que se encontravam
na sala.
Procurou
defender-se contra a força invisível, mas não conseguiu. Ouviu o
choro de Betty Toufry.
A moça
estava em perigo.
A raiva
deu-lhe forças tremendas. Subitamente a força invisível e
estranguladora cessou. Bell logo se pôs de pé.
— Yokida!
Toufry! Abram a escotilha de Talamon! Vamos decolar.
Com um
salto, colocou-se no assento de piloto da Gazela, que, desde o
momento em que a Tal VI
pousara
em Laros, se mantinha pronta para decolar do interior do hangar
secreto. A Gazela era um veículo em forma de disco que desenvolvia
velocidade superior à da luz. Seu diâmetro era de trinta metros e o
eixo polar media dezoito metros. O que fazia da nave um veículo
respeitável não era o raio de ação de quinhentos anos-luz, mas o
armamento incrivelmente pesado.
Bell
estava prestes a realizar uma decolagem forçada. De uma hora para
outra, a décima oitava lua transformara-se num verdadeiro inferno.
Aqui espreitava-os um perigo contra o qual não podiam defender-se.
Na Gazela,
todas as energias começaram a trabalhar rapidamente para o
desempenho de decolagem. Mas os dois telecinetas ainda não haviam
avisado que haviam forçado as grandes escotilhas do hangar por meio
de sua energia telecinética.
Subitamente
a luz do dia penetrou na sala de comando, derramada pela tela de
imagem. Tama Yokida e Betty Toufry obrigaram as escotilhas do hangar
a abrir-se.
— Desta
vez ainda tivemos sorte — berrou Bell em tom de triunfo. Com uma
pancada, colocou o dispositivo automático de decolagem na posição
“ligado”.
Com um
silvo agudo, a Gazela saiu do esconderijo e precipitou-se para o céu.
* * *
Talamon
fitou os olhos do biólogo-chefe e os membros do seu estado-maior com
uma expressão fria e destemida. Dez dos mais velhos dentre os
superpesados encontravam-se atrás de seu patriarca. Ameaçavam-no
com os olhos e com sua figura quadrática e maciça.
— Quero
provas, Keklos — exigiu Talamon em tom tranqüilo e autoritário. —
Prove que ofereci ao pequeno veículo espacial um esconderijo a bordo
de minha nave. Recomendo-lhe que antes disso dê uma olhada na
comporta do hangar.
As
escotilhas da comporta teriam de ser reparadas. Forças sobre cuja
natureza nem mesmo Talamon conseguia fazer a menor idéia haviam-nas
arrombado, e agora elas não se fechavam mais.
— Mandarei
submetê-lo à lavagem cerebral — chiou Keklos.
O
biólogo-chefe fora de opinião que a presença de Topthor
conseguiria dar-lhe certo apoio diante de Talamon.
Ao ouvir
falar em lavagem cerebral, Topthor estremeceu por dentro. Na última
noite, também acontecera muita coisa a bordo de sua nave capitania
que não conseguira compreender. Ele mesmo tirara um cochilo em cima
das bombas arcônidas — justamente ele, que podia passar oito dias
sem dormir. E seu neto Grugk estava recolhido à enfermaria, com um
braço quebrado. Nenhum dos superpesados sabia quando e como Grugk
quebrara o braço, e especialmente o próprio Grugk não soube dar a
menor informação a este respeito. No meio da noite, viu-se
subitamente na enfermaria da nave.
Estas
idéias passaram pela cabeça de Topthor. Uma lavagem cerebral
transformava a pessoa num aleijado mental. Ele mesmo não correria o
risco de ser submetido a esse tipo de lavagem? Pensou no que dissera
seu amigo Talamon: “Se
alguma coisa não der certo, quero que ao menos uma pessoa continue
leal para comigo.”
E ainda
havia o grande negócio que continuava no ar.
Keklos
virou-se abruptamente. Às suas costas, a mais de três metros de
distância, Topthor soltara uma gargalhada. Seus olhares
encontraram-se.
Topthor
sacudiu energicamente a enorme cabeça e trovejou:
— Keklos,
o senhor não vai submeter nenhum superpesado à lavagem cerebral. O
senhor não fará nada disso. Antes que aconteça uma coisa dessas,
Laros será transformada num sol. Antes de mais nada, apresente uma
prova de suas suspeitas.
Keklos era
muito inteligente para dar murro em ponta de faca. Não possuía
qualquer prova cabal contra Talamon. A única prova consistia num dos
maiores segredos dos aras: a matéria-prima de Gom.
Esse fato
calou-lhe a boca e acorrentou-lhe as mãos.
Sem dizer
uma palavra retirou-se da Tal VI
em
companhia da comissão e dos robôs de combate.
Topthor e
Talamon seguiram-nos com olhares indiferentes. Os membros do clã
também se foram afastando. Quando se viram a sós, Topthor colocou a
mão pesada sobre o ombro do companheiro, piscou para ele e disse:
— Meu
velho, agora temos que fazer o negocinho juntos.
Talamon
limitou-se a acenar com a cabeça.
Topthor
também acenou.
— Você
não quer que eu formule qualquer pergunta, meu caro, e não
perguntarei nada. Só faço uma pergunta dirigida a mim mesmo, e esta
pergunta é a seguinte: o grande negócio que você pretende realizar
não cheira fortemente a Perry Rhodan?
* * *
— Que
diabo, o que está acontecendo agora? — berrou Bell no assento de
piloto da Gazela e fitou o painel.
A Gazela
perdeu velocidade e saiu da rota, embora devesse acelerar a 0,5 luz.
Reginald Bell gritou pelo intercomunicador, dirigindo-se à casa de
força. Ali estava de serviço o mutante de duas cabeças, Goratchim,
e Wuriu Sengu.
Da casa de
força, Bell só ouviu um estertor desarticulado. No mesmo instante,
também se sentiu atingido pela força. Mais uma vez estendeu seus
tentáculos, vindos do desconhecido, e parecia esmagá-lo no assento
de piloto.
Em algum
lugar da Gazela, começaram a chiar aparelhos que nunca haviam
emitido qualquer som. No assento do co-piloto Tako Kakuta se
encolhera. Bell sentiu-se desmaiar, quando de uma hora para outra a
força o largou e a bruxaria terminou.
— Paramecânica
— fungou Marshall.
Bell só
compreendeu pela metade. Seu rosto, geralmente corado, parecia
cinzento e envelhecido.
— A
telecinese a uma distância destas? — disse em tom incrédulo.
A Gazela,
mantendo o curso que lhe fora imposto pelo poder desconhecido, corria
vertiginosamente em direção ao planeta gigante de Gom.
— Temos
que transmitir um pedido de socorro à Titan e...
Bell não
conseguiu dizer mais nada. Sentiu-se agarrado, comprimido e
martirizado de dois lados.
“É
o fim”,
pensou. Numa atitude de desespero reuniu todas as energias e
balbuciou para John Marshall:
— Entre
em contato com... com... com Gucky.
A
inconsciência caiu rapidamente sobre Bell.
Marshall
esqueceu o próprio destino. Algo cresceu em seu interior.
Concentrou-se apesar do medo de morrer, estabeleceu contato com
Gucky, o rato-castor que se encontrava a bordo da Titan. Conseguiu
transmitir ao ser peludo alguns fragmentos de idéias:
— Data...
Terra... O cérebro positrônico de Topthor... reprogramado para
Beta...
Gucky não
captou mais nada.
Toda a
vida no interior da Gazela entrou na zona crepuscular da
inconsciência. A nave de esclarecimento de grande alcance corria
ininterruptamente em direção ao planeta Gom, arrastada por forças
tremendas, e naquele instante penetrava nas primeiras camadas
rarefeitas da atmosfera daquele mundo infernal.
Foi a hora
mais dura de Perry Rhodan.
Teve que
permanecer inativo enquanto perdia seu melhor amigo, enquanto a
Gazela caía com os melhores dentre seus colaboradores sobre o
planeta Gom.
Não devia
intervir. O espaço cósmico em torno de Gonom era uma selva de raios
de localização tateantes. As naves de Laros haviam decolado em
enxames para caçar o pequeno veículo espacial que se ocultara na
Tal VI.
O alarma
rugiu por toda a Titan. Após alguns segundos a gigantesca nave
esférica estava preparada para entrar em combate. Perry Rhodan
parecia alheio a tudo. Estava lutando consigo mesmo. Bastava que
queresse, e a queda da Gazela seria detida.
Não
poderia fazê-lo. Não devia pensar em si. O destino da humanidade
terrana estava em suas mãos.
Com a voz
firme, deu ordem para afastar-se. Apesar da enorme proteção contra
a localização atrás da qual se ocultava a nave esférica, não se
podia excluir a possibilidade de que uma das inúmeras naves que
andavam por esse setor do espaço a localizasse por acaso.
A ordem de
Rhodan não fora inspirada pela coragem nem pela covardia. A
segurança da Terra exigia que ele a desse.
Um sorriso
feroz passou-lhe pelo rosto quando se lembrou da alteração dos
dados armazenados no cérebro positrônico de Topthor.
Naquele
instante, o rato-castor, que estava agachado a seu lado, chiou:
— Será
que o gorducho nunca mais volta, Perry? Ele tem de voltar, pois do
contrário não haverá mais ninguém que eu possa chatear de
verdade...
* * *
Naquele
mesmo momento, o coronel Klein, representante de Perry Rhodan na
Terra, avisou Freyt, que parecia cada vez mais impaciente:
— Amanhã
o novo compensador estrutural será instalado na Solar System.
Depois, esse barco poderá partir com a equipe especial em direção
a Honur.
— Prefiro
que o cruzador pesado fique aqui — respondeu Freyt. — Antes de
mais nada, gostaria de rever o chefe o quanto antes. Quando voltei
com a Ganymed do grupo estelar M-13, o céu de Gobi estava coberto de
nuvens. Acho que agora as nuvens se amontoam em torno do nosso
sistema solar. Não sou supersticioso, mas não consigo livrar-me de
um medo terrível. Em algum lugar do sistema de Árcon, alguma coisa
não deu certo. Em algum lugar... Quando seremos atingidos pelas
conseqüências?
* * *
* *
*
Apenas
o cérebro positrônico de uma única nave possui dados sobre a
posição galáctica da Terra. Por isso, torna-se relativamente fácil
para os agentes de Perry Rhodan substituírem os dados corretos por
outros, falsos. Mas o que será feito de Reginald Bell e dos oito
mutantes que, depois de uma ação bem sucedida no local da
conferência dos aras e saltadores, têm de se lançar numa fuga
precipitada...?
Qual é
a origem das forças misteriosas que transformam a Gazela numa bola
de brinquedo...?
No
próximo volume da série Perry Rhodan, você saberá por que Gom
não Responde: é
este o nome de outra emocionante aventura.

Nenhum comentário:
Postar um comentário