quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-045 - Aralon, o Centro de Epidemias - Clark Darlton [parte 2]


Dirigindo-se novamente ao velho sentado atrás da mesa, prosseguiu:
Rhodan aplicou o mesmo método que representa o fundamento da existência dos aras, não é? Por isso ficaram tão aborrecidos. Ou será que vocês pretendem negar que costumam espalhar pela Galáxia os germes mais perigosos, para lucrar na cura dos seres atacados pelas epidemias? Se não fossem os aras, já não haveria doenças, e vocês teriam que trabalhar de verdade para poderem viver. É assim que se pensa por aqui. No entanto, uma raça inteligente sempre teria um campo bastante amplo para o trabalho e a pesquisa. A vida artificial, a vida eterna, a eliminação da morte física... a lista não tem fim. Em vez disso, o que é que vocês preferem fazer? Fomentam as doenças para que este hospital nunca fique vazio. Então, o que me diz, meu velho?
O albino sentado atrás da mesa ouvira-o atentamente sem demonstrar a menor emoção. Confabulou em voz baixa com os colegas. Depois olhou para Tiff.
Por que procura irritar-me? Quer descobrir alguma coisa? Rhodan quer descobrir alguma coisa que ainda não sabe?
Rhodan! — Tiff proferiu este nome com tamanho desprezo que ele mesmo se assustou. — O que tenho que ver com Rhodan? Pois é ele que quer conservar Thora para si. Para ele, a doença veio muito a propósito. Os senhores conhecem os sintomas da hipereuforia, que é o nome que costumamos dar ao sorriso eterno. Serei franco com os senhores...
Meu nome é Themos. Sou chefe deste setor e diretor científico dos laboratórios ligados ao mesmo. Prossiga.
Era o que eu pretendia fazer, Themos. Vim contra a vontade de Rhodan. O senhor acredita que ele me teria mandado para cá não trazendo mais ninguém senão Thora? O senhor já percebeu, não é?
Por que resolveu trazer-nos Thora contra a vontade de Rhodan?
Eu... bem, quis prestar-lhe um serviço, Themos. Tenho vários motivos para isso. Thora é muito poderosa e poderá ajudar-me a progredir na vida, caso se sinta obrigada para comigo. Além disso, poderia convencê-la de que, para mim, sua vida é mais preciosa que para Rhodan.
Themos inclinou-se para a frente e lançou um olhar perscrutador para Tiff.
Pretende trair Rhodan? Como posso saber que não está mentindo?
Acredite ou deixe de acreditar. A decisão depende exclusivamente do senhor. Cure Thora, se puder, e eu lhe demonstrarei minha gratidão.
O velho contemplou Tiff por algum tempo. Depois olhou para Sengu, que demonstrou um interesse surpreendente pelo solo em que estava pisando. Depois voltou a conversar em voz baixa com os outros aras.
Tiff teve tempo para enviar uma mensagem telepática a Gucky.
A conferência inaudível demorou quase dez minutos. Finalmente Themos tornou a falar:
Curaremos de Thora, mas por enquanto não podemos permitir que voltem à sua nave. Serão nossos hóspedes. Dar-lhes-emos um quarto que não poderão deixar sem licença especial. Acreditamos que não se oporão a uma revista pessoal; queremos verificar se estão portando armas ou qualquer aparelho de comunicação.
No seu íntimo Tiff aborreceu-se com a medida; todavia, não havia meio mais eficiente para convencer os aras de que ele e Sengu eram criaturas inofensivas. Na verdade, não possuíam qualquer arma ou aparelho de comunicação visível. Depois de se convencerem disso, os aras relaxariam sua vigilância.
É claro que não temos a menor objeção — disse Tiff com a maior tranqüilidade. — Façam o que quiserem, se isso os deixa mais calmos. Mas não gosto de ficar trancado num quarto. Quero saber o que está acontecendo com Thora. Será que realmente estão em condições de curá-la?
Empenho minha palavra de cientista para garantir a cura — asseverou Themos com certo orgulho. — Afinal de contas a peste de nonus é uma doença bacilar criada por mim, e é claro que o respectivo antídoto também foi descoberto por mim. Amanhã Thora já estará boa — lançou um olhar penetrante para Tiff. — Aliás, ela sabe onde e por que foi infectada?
Como poderia saber disso? Só quando estiver curada será capaz de compreender ou de se lembrar de alguma coisa. Árcon não ficará muito satisfeito com seus métodos de causar doenças.
Themos esboçou um sorriso frio.
Providenciaremos para que Árcon nunca saiba disso. Uma vez que, segundo afirma, o senhor é contra Rhodan, o senhor não contará nada a Thora e aos demais arcônidas, não é verdade?
Tiff não respondeu. De repente Sengu disse:
Seus laboratórios ficam bem embaixo da superfície, abaixo deste setor do hospital, não é verdade?
Themos acenou com a cabeça; parecia perplexo.
Como é que o senhor sabe disso? Todas as nossas instalações ficam abaixo do solo, porque com o tempo o sol produz efeitos bastante desagradáveis.
Ao menos para os albinos — disse Tiff com certa ênfase.
Themos não parecia ofender-se com isso.
Sim, é isso — confirmou em tom indiferente. — É por esse motivo que permanecemos na superfície o menos possível. Sendo assim, não é por maldade que insistimos em que por enquanto fiquem aqui embaixo. Terão de aguardar nossa decisão. O grande conselho médico de Aralon cuidará do assunto nas próximas semanas. Tiff inclinou-se para a frente.
O senhor falou em semanas? Acha que tenho tanto tempo?
Será que não tem tempo? — perguntou Themos em tom desconfiado. — Quem poderia estar esperando pelo senhor, já que não tem a intenção de voltar para junto de Rhodan?
Tiff mordeu o lábio.
Quero levar Thora e meu amigo a um sistema isolado, que possua um planeta bastante idílico. É lá que Thora e eu vamos nos casar.
Será? — Themos parecia surpreso. — Um certo Etztak me disse que entre Rhodan e a tal da Thora existe um certo relacionamento... Bem, digamos, que existe um relacionamento amistoso. O que dirá Rhodan quando souber dos seus planos?
O problema não é meu — respondeu Tiff em tom indiferente. Naquele momento, gostaria de ver o rosto de Rhodan, se Gucky o estivesse informando sobre o curso da palestra. Os planos não previam uma troca de idéias tão chocante. — Não veremos Rhodan nunca mais.
Tenho certeza absoluta de que não o reverão, quer o estejam traindo, quer não — disse Themos com a voz fria e levantou-se. — Mas chega de conversa. Vamos agir. Serão levados aos seus quartos e revistados lá mesmo. Não ofereçam resistência e não terão problemas. Amanhã realizaremos um exame médico. Não se preocupem; é apenas uma questão de rotina. Depois disso, poderão cumprimentar uma Thora restabelecida. Então veremos o que ela acha dos seus projetos de casamento. Para o bem do senhor, faço votos de que se sinta muito feliz...
Tiff percebeu a ameaça que havia nessas palavras. Porém não teve tempo para imaginar com clareza os mal-entendidos que certamente surgiriam. Quatro braços robustos agarraram-no por trás e carregaram-no para fora da sala. Sengu teve o mesmo destino.
A viagem nos levará para as profundezas do planeta — gritou para Tiff e sorriu, fazendo uma careta. — Receio que seremos levados a um setor muito profundo.
Silêncio! — trovejou a voz de um dos guardas.
Isso não me preocupa nem um pouco — respondeu Tiff, sem dar a menor atenção à ordem do ara. — O que me deixa mais preocupado é a idéia do que dirá Thora quando souber que é minha noiva...
3



A Titan e a Ganymed realizaram um pequeno hipersalto, que as deixou mais próximas do sistema de Kesnar. Continuando a deslocar-se à velocidade da luz, ainda se encontravam a um dia-luz de Aralon.
O período de descanso decorrera sem qualquer acontecimento importante. Tiff informara-os de que ele e Sengu haviam sido colocados num quarto bem confortável, acrescentando que pretendiam dormir algumas horas. Na superfície de Aralon, começara a noite, e, naquele submundo, também havia uma espécie de pausa.
Gucky acordou e a primeira coisa que fez foi prestar atenção aos impulsos emitidos pelo transmissor implantado no corpo de Tiff. Os impulsos vinham a intervalos regulares, mas não traziam qualquer mensagem telepática. Concluiu que Tiff ainda estava dormindo.
O rato-castor espreguiçou-se, escorregou da cama para o chão e dirigiu-se ao compartimento contíguo, onde ficava o chuveiro. Com um pavor íntimo saltitou sob o jato de água fria, insistindo para consigo mesmo em que esse processo não só limpava seu couro, mas também era bom para a saúde. Enxugou-se sob o jato de ar quente e caminhou em direção à sala dos tripulantes.
Além de Crest e alguns conhecidos, encontrou-se também com Rhodan, que perguntou imediatamente se nesse meio tempo havia acontecido algo de novo. Gucky tranqüilizou-o e passou a dedicar-se à refeição matutina. Ficou satisfeito ao ver que em seu prato havia uma ração especial das deliciosas cenouras enviadas da Ganymed. Eram seu alimento predileto, e nem mesmo Bell conseguia fazer com que desistisse dele.
Se os aras cumprirem a palavra, Thora estará restabelecida ainda hoje — disse Rhodan e sorveu um gole de café quente, que preferia a qualquer das bebidas concentradas. — Quando isso acontecer, saberemos que possuem o antídoto. Não haverá mais nenhum motivo para esperar.
O que pretende fazer? — perguntou Gucky enquanto mastigava, o que não era nada fácil para o solitário dente-roedor. — Atacar?
É claro que só pode ser isso — afirmou Rhodan.
Crest baixou a mão que segurava a xícara. Seu olhar parecia preocupado.
Sabemos que Aralon é o hospital galáctico. Se o atacarmos, agiremos contra o direito.
Um depósito de armas protegido pela cruz vermelha. Isto é uma velha história. E aqui nos encontramos numa situação semelhante. Afinal, Tiff representa a prova de que os aras abusam do seu saber — retrucou Perry.
Tiff está nas mãos deles — lembrou Crest em tom tranqüilo.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
Mas não estará por muito tempo, Crest. Gucky sabe dizer a qualquer momento onde está Tiff, e quando nos tivermos aproximado o suficiente para que possa realizar a localização goniométrica, não haverá mais nenhum meio de esconde-lo de nós. Não pretendo tratar os aras com luvas de seda. São mais perigosos e inescrupulosos que qualquer dos inimigos do Império.
Crest ainda tinha suas dúvidas.
De qualquer maneira, cometerá uma injustiça aos olhos das outras raças se atacar um grupo de médicos indefesos. Não se esqueça de que muita gente vai a Aralon em busca de auxílio contra a doença e a morte. E o senhor está impedindo aqueles seres de curar os outros. Se ainda os matar...
Nem cheguei a insinuar que pretendo matar um ara que seja — disse Rhodan em tom indiferente.
Crest suspirou aliviado.
Nesse caso está tudo em ordem, se bem que eu gostaria de saber como pretende obrigá-los a ceder por meio de ameaças.
Veremos — disse Rhodan. — Para falar a verdade, eu mesmo ainda não sei exatamente.
De repente Gucky levantou a cabeça. O resto da cenoura caiu das suas patas e foi parar no prato. Os olhos começaram a brilhar. Com a voz nervosa pôs-se a cochichar:
Tiff foi acordado. Vieram buscá-lo para submetê-lo a novo interrogatório...

* * *

A porta foi aberta do lado de fora e dois aras robustos entraram no quarto.
Tiff e Sengu acordaram imediatamente. O processo mental normal foi reiniciado. A vinte e quatro horas-luz de distância Gucky captava os impulsos.
Vamos, levantem. Themos quer falar com vocês.
Tiff saiu da cama de lado. Não se apressou. Também Sengu lavou-se calmamente antes de vestir o uniforme. Os dois aras saltitavam nervosamente de um pé para outro, mas deviam ter recebido instruções terminantes para não maltratar os prisioneiros.
Finalmente a limpeza matutina foi concluída.
Quando ganharemos o café? — perguntou Tiff. — Será que isto aqui não é um hospital de verdade?
Themos responderá as suas perguntas — disse um dos guardas enquanto abria a porta. — Virão espontaneamente?
Nem Tiff nem Sengu julgaram necessário dar qualquer resposta a esta pergunta.
Enfiado na capa branca, Themos estava novamente sentado atrás da mesa já conhecida com a tampa semicircular feita de plástico. Outros aras se encontravam em sua companhia. Fitaram os dois homens com os rostos sombrios. O olhar do diretor científico não prenunciava nada de bom. Tiff esqueceu-se do café. Desconfiava do que tinha acontecido. A primeira frase dita por Themos confirmou seus temores:
Thora está curada, terrano. Não se lembra de jamais lhe ter dado esperança de casar com, ela. Continua a dedicar toda a simpatia a Perry Rhodan. Então, o que me diz, tenente Tifflor, ou seja lá qual for seu nome?
Tiff não se apressou para responder. Repetiu mentalmente palavra por palavra da breve fala do ara, para orientar Gucky. Depois, deu de ombros e disse em tom de lástima:
Que pena. A doença deve ter apagado parte da memória. Já não se lembra das últimas horas que passamos juntos. Posso vê-la?
O que deseja dela? Thora é uma arcônida. Não se ligará ao senhor nem a Rhodan. Cuidaremos disso. Resolveu ficar para sempre em Aralon a fim de empenhar suas forças na cura dos doentes. Não acha que é uma bela perspectiva? De qualquer maneira, é bem melhor que a de casar com um terrano.
Tiff começou a ferver no seu íntimo. Pensou intensamente, concentrando-se totalmente em Gucky:
Diga a Rhodan que está na hora de agir. Ataquem. Transmitirei ininterruptamente para que você possa localizar-me. Thora será...
Por que não responde? — interrompeu-o Themos, que não tinha mais nada do velho gentil com que falara no dia anterior.
Tiff fitou os olhos vermelhos.
Porque estou admirado com o senhor, Themos. Não trouxe Thora para cá? Só poderia ter feito isso para afastá-la de Rhodan. E não traí Rhodan? Qual é a paga que me dão? Pretendem enganar-me.
O senhor trouxe Thora para Aralon para conseguir medicá-la, pois somos os únicos que podem curá-la. Só nós possuímos o soro contra a peste dos nonus. E não o entregaremos a ninguém. Caso esse seu Rhodan ainda tiver doentes a bordo, terá que vir para cá se quiser curá-los. E quando isso acontecer talvez lhe entreguemos dois traidores.
Tiff não respondeu. Era mais ou menos o que esperara. Os aras só estavam interessados em Thora. A arcônida devia representar um trunfo muito forte em suas mãos. Não era de admirar, já que contara que Perry Rhodan significava alguma coisa para ela.
Themos fez um sinal para os guardas.
Levem-nos para baixo, para a estação experimental de raças extra-imperiais. Precisamos descobrir a constituição orgânica dos terranos. Talvez consigamos verificar se descendem de antigos emigrantes arcônidas, ou se são uma espécie distinta.
Tiff e Sengu poderiam defender-se, mas seria uma luta sem esperança contra forças muito superiores. Para que enfrentar um risco desnecessário? Rhodan já captara a mensagem de socorro e não demoraria em atacar Aralon. Teria que libertar Tiff e Sengu, e principalmente Thora.
E precisava conseguir o soro.
Foram empurrados para dentro de um elevador que caía com velocidade cada vez maior para as profundezas do planeta. Os dois guardas não participaram da viagem vertiginosa.
Era uma pequena cabine quadrada de aproximadamente oito metros cúbicos. Nas paredes, ouvia-se um assobio cada vez mais agudo. Tiff percebeu que o peso de seu corpo estava reduzido à metade. A gravitação de Aralon era igual à da Terra. Isso significava que desenvolviam metade da velocidade que atingiriam numa queda livre.
Está vendo alguma coisa?
O japonês, que olhava para todos os lados, com uma expressão bastante rígida, confirmou com um aceno de cabeça.
Passamos a uma velocidade cada vez maior por inúmeras instalações. São instalações destinadas aos doentes. Todo o planeta deve ter sido escavado por dentro. Embaixo de mim vejo um poço cujo fim não consigo enxergar. É só o que vejo.
Como será que conseguiram penetrar tão profundamente no solo?
Há milênios são uma raça altamente civilizada e apesar de toda a arte médica não suportam o sol. Não tiveram outra alternativa senão viver nas camadas interiores de seu planeta. Pelos meus cálculos, já devemos estar três quilômetros abaixo da superfície.
Os segundos transformaram-se em minutos. Subitamente Tiff sentiu que estava ficando mais pesado. Tinha o dobro de seu peso normal. A desaceleração chegava a dez metros por segundo ao quadrado.
O elevador parou com um forte solavanco.
Demorou quase três minutos até que a porta estreita se abrisse. Uma luz ofuscante inundou a cabine. Os olhos de Tiff logo se acostumaram à diferença de luminosidade. Viu os rostos resolutos de uma dezena de aras que os aguardavam.
O que estão esperando? — perguntou um deles em tom áspero.
Tiff fez um sinal para Sengu e saiu do elevador. Os aras recuaram um pouco, como se receassem a existência de doença infecciosa. Ninguém pensou na possibilidade de que os presos pudessem fugir. Aqui, dez quilômetros abaixo da superfície, dificilmente teriam oportunidade para isso. As paredes do grande pavilhão em nada se distinguiam das situadas mais próximas da superfície. Era a mesma limpeza, a mesma claridade, a mesma desesperança para aquele que ali se encontrasse contra sua vontade.
Sigam-nos — disseram aos terranos.
Os aras caminhavam à frente. Ao que parecia, não tinham a menor dúvida de que Tiff e Sengu os seguiam.
Tiff apressou-se em enviar informações a Gucky. Descreveu a posição. Pelos seus cálculos, deviam encontrar-se a dez quilômetros de profundidade, bem embaixo da extremidade do campo de pouso, quase exatamente do lado oposto do edifício embandeirado da administração.
Atravessaram um corredor e chegaram a uma sala ampla, na qual os cientistas aras vestidos de branco trabalhavam nas mesas e numa série de aparelhos desconhecidos. Devia ser um dos laboratórios a que Themos se referira, e que se esperava encontrar em Aralon. O coração de Tiff quase parou de bater quando viu enormes recipientes nos quais seres vivos, imóveis, boiavam num líquido conservador. As placas colocadas nos recipientes provavam que se tratava de exemplares das diversas raças que viviam fora do Império.
Terranos conservados em álcool”, pensou Tiff enojado e já se via boiando num recipiente de vidro, onde seria conservado para as futuras gerações de cientistas de Aralon.
Mais uma vez expediu uma mensagem de socorro para Gucky:
Apressem-se, pelo amor de Deus! Pretendem fazer uma coisa horrível conosco.
Tiff e Sengu não notaram que atrás deles as portas se fechavam silenciosamente. Estavam presos na armadilha mais perfeita existente. Só tinham diante de si o caminho para a frente, e este poderia ser tudo, menos tentador.
Os aras pararam. Um deles abriu uma porta e deixou livre a passagem.
Seu quarto é este, terranos. Logo receberão comida. Não deixem que o ambiente os perturbe. Nada lhes acontecerá, ao menos por enquanto.
Em silêncio, Tiff passou por ele e entrou. Viu que realmente se tratava de um quarto e não de câmara de tortura. Duas camas, uma instalação sanitária e uma mesa com quatro cadeiras chegavam a dar um aspecto acolhedor ao quarto, desde que se esquecesse a proximidade do laboratório. Sengu seguiu-o. A porta fechou-se com um ruído surdo.
Tiff teve a impressão de que com isso a última retirada estava sendo cortada.
Suspirou e sentou numa das camas, olhando para Sengu.
Dez mil metros abaixo da superfície. Você poderia fazer o favor de dizer como é que poderemos sair daqui?
Sengu olhou para o chão. Sacudiu a cabeça. Também usou o tratamento familiar você.
Não; é claro que não sei. Mas acho que você deve estar interessado em saber que abaixo de nós existe outro laboratório. Aliás, parece antes um setor de embalagem. Ao lado dele, há um depósito com milhares de caixas e recipientes. Será que é lá que são embalados e armazenados os medicamentos?
Qual é a profundidade a partir do lugar em que nos encontramos?
Não passa de dez metros — o olhar do japonês subiu pela parede e passou ao teto, como se acompanhasse uma mosca. — Estou vendo Thora. Está sendo levada para cima no elevador.
Quando o japonês olhava através das paredes compactas, Tiff reprimiu uma sensação estranha.
O que veio fazer aqui?
Talvez — conjecturou Tiff — mostraram-lhe o estoque de soro, pois acreditam que Rhodan esteja interessado. Será usada como chamariz. Ou seja, será usada para fazer chantagem contra Rhodan. Que diabo, acho que mais uma vez nossos pensamentos foram humanos demais. Estes aras não são médicos, são diabos.
Sengu continuava a olhar para o teto.
Bell me disse em certa oportunidade que saberemos enfrentar até o diabo. Acredito piamente no que disse, Tiff. A menos de dez metros abaixo de nós está a substância de que precisamos. Eu a vejo, mas isso não basta. Mas tenho certeza de que amanhã já estará em nossas mãos. Tenho certeza absoluta...
Você é um espia — respondeu Tiff em tom tranqüilo — mas não é nenhum profeta.

* * *

Já fazia algumas horas que Thora recuperara a consciência, no meio da noite.
Tinha a impressão de que despertava de um sonho. Dirigiu os olhos para as luzes ofuscantes embutidas no teto, bem acima de sua cama.
Não sabia o que tinha acontecido.
Quando o olhar se acostumou à luz, viu o rosto de um homem idoso, que a examinava atentamente. Nós olhos dele, vermelhos de albino, havia uma pergunta muda e um interesse frio.
Sua memória começou a funcionar.
Era um ara.
Onde estava? O que acontecera com Rhodan?
Quem é o senhor? — ergueu-se, mas voltou a cair no travesseiro. Sentia-se muito fraca. — Onde estou?
Está curada e em segurança — respondeu o desconhecido. Sua voz era tranqüilizadora, mas irradiava uma frieza e uma impessoalidade que se parecia com a do quarto em que estava. — Conhece um certo tenente Tifflor do sistema Sol? Seu planeta de origem é a Terra.
Ainda confusa, Thora confirmou com um aceno de cabeça.
Eu me lembro...
Também se lembra de que pretende casar com ele?
O senhor está louco? O que deseja de mim? Onde estou e como vim parar aqui? O que aconteceu com Perry Rho...?
Entreparou de repente. O ara sorria como quem sabe de tudo.
Pode continuar. Quer saber onde está Perry Rhodan? Eu lhe contarei assim que me disser por que não quer casair com Tifflor.
Quem lhe deu essa idéia maluca? Tifflor é um ótimo amigo, mas não o amo. Se é que eu amo algum homem, será...
Mais uma vez interrompeu-se.
Quem sabe se é Rhodan? — perguntou o ara.
Thora não respondeu, mas a verdade estava escrita em seu rosto. O ara acenou com a cabeça e inclinou-se sobre ela; parecia satisfeito.
Então é mesmo Rhodan. Fico satisfeito em saber disso. E Perry retribui seus sentimentos. É excelente. Nesse caso deve estar muito interessado em recuperá-la com vida.
Thora ergueu-se. O ódio chamejou em seus olhos dourados.
Pouco importa quem seja o senhor. O braço vingador do Império o alcançará. Seu monstro!
Então esta é a gratidão por termos curado a senhora. A senhora esteve doente, Thora de Zoltral, muito doente. No momento, está em Aralon, o hospital galáctico dos aras. E só será livre quando Rhodan for nosso prisioneiro. Não se iluda quanto à gravidade da situação. Mais um detalhe. A senhora acaba de pronunciar a sentença de morte do tal Tifflor. Ele deixou de ter qualquer valor para nós.
Como é seu nome? — perguntou a arcônida com a voz controlada.
Meu nome é Themos. Por que está interessada nisso?
Thora respondeu sem pestanejar:
Porque neste instante acaba de ser pronunciada outra sentença de morte. Contra certo ara chamado Themos. Asseguro-lhe que será executada dentro de vinte e quatro horas.
O rosto de Themos tornou-se ainda mais pálido do que era por natureza.
Sem dizer uma palavra, fitou o rosto implacável da arcônida. Subitamente reconheceu como essa mulher era bela... e como era perigosa.
4



A sala de comando da Titan era grande, mas em comparação com a esfera espacial de um quilômetro e meio de diâmetro só poderia ser considerada pequeníssima. Apesar disso, era perfeitamente possível que a presença de Gucky deixasse de ser notada por alguém que não prestasse muita atenção.
O rato-castor encontrava-se no seu lugar predileto, sobre um sofá que ficava perto do robô de navegação, que geralmente era controlado por Bell. No momento, o coronel estava sendo substituído por um jovem oficial, o tenente Bristal. O coronel Freyt tirara-o diretamente da Academia Espacial, quando veio à Terra em busca de reforços.
Rhodan estava sentado atrás dos controles por meio dos quais era dirigida a grande nave. Parecia tenso. A porta, que dava para a sala de rádio, estava aberta. Crest estava parado junto à mesma, esperando nervosamente pelas decisões que estavam para ser tomadas. Não se sentia bem com a idéia de que não havia outro meio senão a violência para libertar Thora e seus acompanhantes e conseguir o soro contra a doença que atacara setecentos homens.
Rhodan dirigiu-se a Gucky.
Então, o que houve? Nenhuma notícia de Thora?
Deve estar restabelecida. Do contrário Themos não teria descoberto a mentira. A morte de Tiff está decidida.
Mas ainda não é um fato consumado — respondeu Rhodan com a voz zangada. — O que diz Tiff?
Ainda estão no quarto junto ao laboratório. Acredita que a vivissecção já está sendo preparada.
Você consegue localizá-lo?
Consigo — chilreou Gucky em tom confiante. — Tiff descreveu o aspecto da superfície. Acredito que conseguirei encontrá-lo. É bem verdade que teremos que descer dez quilômetros. Como pretende fazer isso com a Titan? Por que não permite que eu salte sozinho?
Para que servem os robôs arcônidas? — lembrou Rhodan. — Saberão abrir caminho embaixo da superfície. E quando esse Themos estiver nas minhas mãos, ele se sentirá muito satisfeito por não ter realizado seu intento.
Gucky não respondeu. Ergueu-se e, encostando-se à parede, ficou sentado no sofá. Escutava atentamente, de olhos fechados. Ninguém o perturbava. Na sala de comando, reinava um silêncio total. A espera durou quase três minutos.
Está na hora — cochichou finalmente o rato-castor. — Tiff está sendo levado em primeiro lugar. Ele se defende desesperadamente, mas a superioridade dos outros é muito grande. Está descrevendo uma sala profusamente iluminada cheia de aparelhos medonhos e de instrumentos reluzentes. Tiff diz que querem operá-lo embora tenha uma saúde de ferro.
Numa situação dessas ainda lhe resta senso de humor! — disse Rhodan surpreso. — Depressa, Gucky. Preciso dos últimos dados sobre a localização.
Não há nenhuma alteração. Vamos agir.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça. Estava tudo preparado. O cérebro de navegação já realizara os cálculos necessários à transição de pequena distância. A Titan só voltaria a materializar-se na atmosfera de Aralon. A Ganymed a seguiria com um intervalo de poucos minutos, fornecendo cobertura para o lado do Universo. Embora a velocidade já fosse bem reduzida, era uma empresa arriscada. Apenas metade da tripulação estava em condições de entrar em ação, e seu treinamento era um tanto precário. O fator decisivo do sucesso ou fracasso do plano de Rhodan não seria apenas a capacidade humana, mas também uma boa porção de sorte. Estava na hora.
A imensa nave desapareceu do espaço normal e voltou a materializar-se menos de três quilômetros sobre o campo de pouso de Aralon.
Quando a gigantesca esfera surgiu acima da massa de naves estacionadas, muitos dos visitantes galácticos ficaram sem fôlego. Ao primeiro relance de vista perceberam do que se tratava. O que é que um couraçado arcônida desse tamanho estaria procurando no planeta da benevolência e da cura?
Rhodan não se preocupou com a opinião das raças que lhe eram estranhas. Não teve mais a menor contemplação. Deixou que a Titan descesse e pousou numa das extremidades do campo espacial. Três segundos depois, as escotilhas inferiores se abriram, rampas foram descidas e os robôs começaram a marchar.
Eram gigantes de aço de quase dois metros e meio de altura, equipados com quatro braços. Os braços inferiores eram apenas radiadores de impulsos móveis, que poderiam sufocar no nascedouro qualquer resistência que se lhes opusesse. A energia desprendida por esses radiadores, devidamente enfeixada, volatilizaria qualquer tipo de matéria e a faria desaparecer. Num compasso rítmico, as pernas metálicas desceram pelas rampas, tocaram o solo de Aralon e prosseguiram em sua marcha. Os robôs formaram colunas, cuja ponta se dirigia para o grande edifício periferial sob o qual ficavam os laboratórios.
Rhodan transmitiu o último comando pelo rádio.
O exército de robôs pôs-se em movimento.
Paralisados de susto, alguns aras que se encontravam diante dos portais do centro administrativo, contemplavam o espetáculo. Os cérebros recusavam-se a compreender o que os olhos viam. Mas quando a frente reluzente se aproximou, a paralisia cessou como que por encanto. Com as capas esvoaçantes, correram para dentro do edifício, fechando as portas atrás de si.
Rhodan, Crest e Gucky saíram da Titan sem carregar qualquer arma. Compenetrados e indiferentes, os dois homens caminhavam atrás dos seus robôs, sem se dignarem a olhar para as naves estacionadas por ali ou suas tripulações. Gucky, que andava com dificuldade e cujos passos arrastados poderiam ser tudo menos compenetrados, lembrou-se de sua faculdade sobrenatural. Usou sua energia telecinética para elevar-se uns dez centímetros acima do solo e planou sobre o pavimento de plástico. A visão não era apenas edificante, mas de certa forma chegava a ser apavorante.
Uns dez robôs prosseguiram tranqüilamente em sua marcha e atingiram as entradas principais do edifício da administração. Na frente dos prédios estavam estacionadas algumas ambulâncias. Rhodan viu a luminosidade de alguns feixes energéticos, e as portas deixaram de existir. Sem que ninguém os detivesse, os robôs cumpriram as instruções que lhes haviam sido ministradas, ocupando todas as saídas e os elevadores que levavam para o subsolo. A ordem expressa de não matar ninguém continuava em vigor.
Rhodan ligou o minúsculo transmissor de pulso.
Tenente Bristal? Está tudo em ordem?
A resposta foi imediata.
Tudo bem. Ninguém se atreve a nos incomodar. Nas outras naves, não houve nenhuma modificação. Nossas peças de artilharia estão guarnecidas e prontas para entrar em ação. Aguardamos novas instruções.
Por enquanto não há outras instruções — disse Rhodan com a voz zangada e desligou.
A uns três quilômetros de distância um cilindro de oitocentos metros de comprimento desceu lentamente sobre o campo praticamente vazio e parou. Era a Ganymed que acabara de pousar. Conforme o combinado, desembarcaria um contingente de duzentos robôs, que formariam um cordão espesso em torno da nave. Essa medida foi ordenada por Rhodan principalmente a título de demonstração de força. Os outros deviam convencer-se de que detinha um grande poder. A eventual utilização dos robôs dependeria exclusivamente do comportamento dos aras.
Crest cochichou:
Olhe! Uma nave dos saltadores. Acredito que tenha trazido doentes. Vê-se que os aras nem sequer poupam seus próprios parentes.
Rhodan olhou a nave mais detidamente. Era um dos cilindros que já conhecia. Tinha trezentos metros de comprimento e estava apoiada sobre as aletas de popa. Seus olhos perceberam um movimento na proa. Um anel girou e deixou livre uma abertura, da qual saiu o cano em espiral de um canhão energético apontado para as colunas de robôs.
Rhodan reagiu instantaneamente.
Tenente Bristal! Dê o alarma. Há uma nave dos saltadores a duzentos metros de distância. Na proa existe um canhão de radiações. Inutilize-o imediatamente. Destrua unicamente a proa.
Antes que o saltador pudesse disparar, viu-se um breve relampejo na Titan. Rhodan viu que a proa da atrevida nave cilíndrica entrou em incandescência e se fundiu. O perigoso canhão desapareceu. Da proa não sobrara quase nada.
Basta, Bristal. Ajuste seu telecomunicador para a freqüência normal de Aralon e ligue um amplificador. Quero transmitir um aviso aos comandantes das naves:
Depois de alguns segundos veio a confirmação.
Sem deter-se em sua marcha atrás dos robôs, Rhodan falou para dentro do microfone:
Atenção, todas as naves estacionadas em Aralon! Aqui fala Perry Rhodan da Terra, em nome do Regente de Árcon. Recomendo encarecidamente a todos os visitantes de Aralon que não se intrometam na ação que está em curso. Daqui em diante não terei mais a menor contemplação. Destruirei todo aquele que tentar atacar-nos ou ajudar os aras. Trata-se de uma operação policial realizada por ordem de Árcon. Repito: quem se intrometer terá que suportar as conseqüências.
Rhodan sabia que suas palavras estavam sendo ouvidas por todas, pois nenhuma das naves deixaria suas estações de rádio desguarnecidas. Todos sabiam quem se encontrava diante deles e refletiriam sobre quem poderia ser esse Rhodan da Terra. Era um nome que nunca haviam ouvido.
Tiff está sendo amarrado à mesa — gritou subitamente Gucky em tom de pânico. — Suas mensagens estão ficando mais insistentes. Não sabe onde estamos; nem sequer tem certeza de que conseguimos ouvi-lo.
Coitado! — murmurou Rhodan e apressou o passo. — Se fizerem alguma coisa a ele, eu mato toda esta canalhada.
A ameaça talvez não fosse tão séria assim, mas fez Crest empalidecer. A boa fama de Árcon valia mais que qualquer outra coisa.
Tenente Bristal. Mande a coluna de robôs da esquerda encarregar-se da vigilância do campo de pouso. A coluna da direita ficará à minha disposição. Quero falar com o comandante.
A Titan imediatamente transmitiu a ordem pelo rádio aos robôs. A ala esquerda dobrou para o lado e assumiu posição diante dos edifícios alongados. Suas armas estavam apontadas para a floresta de naves espaciais. Enquanto isso a ala direita parou. Um dos maciços robôs voltou e parou diante de Rhodan.
Quais são as instruções? — perguntou em tom impessoal.
Sua voz lembrava ligeiramente a do cérebro robotizado de Árcon.
Quero que três robôs me acompanhem. Os outros darão cobertura ao nosso avanço para os laboratórios subterrâneos. Crest e Gucky irão comigo. — Dirigindo-se ao rato-castor, disse: — Qual é a direção? Peço uma indicação precisa.
Gucky apontou obliquamente para o solo.
Ali; numa distância de dez mil e vinte e três metros — voltou a erguer a cabeça e dirigiu os olhos para o edifício lateral, onde se via a rampa e a porta aberta. — Ali ficam os elevadores que descem para o subsolo.
Quando os três robôs se apresentaram, Rhodan não perdeu mais tempo. As respectivas séries e números estavam gravadas em pequenas placas metálicas presas aos peitos reluzentes. Também serviam de código de comunicação.
RK-935. Você irá à frente e eliminará qualquer obstáculo material. Não mate nenhum ser vivo; se necessário, apenas paralise-o. RK-940 e RK-999, vocês nos darão cobertura pelas costas. Avante!
A área fronteira ao edifício parecia deserta. Alguns veículos vazios e abandonados estavam por ali. A porta aberta parecia uma boca faminta. De repente Gucky chiou:
Lá adiante alguém nos espera; também está desarmado. Querem falar conosco. Sim, um deles é Themos. Consegui identificar seus pensamentos. Quer fazer uma proposta a você, Rhodan, uma proposta traiçoeira, acredito. Sim, é um tipo de negócio que vai propor.
Um saltador sempre é um saltador — murmurou Crest e apressou o passo para acompanhar Rhodan. Gucky correra à frente e aguardava o grupo junto à porta.
Atrás da porta, começava um corredor bem iluminado. RK-935 continuava a avançar a passos vigorosos, com os braços de armas estendidos para a frente, prontos para disparar. Seu campo energético não havia sido ativado, pois não se esperava qualquer tipo de resistência.
Entraram num pavilhão branco, que pareceria familiar a Gucky. Duas ambulâncias estavam estacionadas em nichos das paredes laterais. Havia corredores e portas que iam em todas as direções possíveis.
Um grupo de aras vestidos de branco aproximou-se de Rhodan e parou a alguma distância. Um deles, um velho albino, levantou os braços e perguntou num tom de altiva recriminação:
Qual é a finalidade desta invasão armada no planeta da arte de curar? Pelo que vejo, esta monstruosidade está sendo praticada com o conhecimento de Árcon. Os senhores hão de permitir que peça um esclarecimento. Pergunto...
Se alguém pode fazer perguntas por aqui, sou eu — disse Rhodan com a voz fria. — Se não me engano o senhor é Themos.
O velho ficou perplexo. Como esse desconhecido poderia saber seu nome? Não poderia imaginar que Rhodan compareceria em pessoa, ainda mais desarmado, embora acompanhado por alguns robôs.
Sim, sou Themos, diretor da divisão de pesquisa do setor extra-imperial. O que deseja? E quem é o senhor?
Antes de responder a essas perguntas, quero recomendar-lhe que liberte meus homens sem demora. Faça suas experiências com quem quiser, menos com o tenente Tifflor e com Sengu.
Um sorriso fugaz passou pelo rosto do ara.
Que interesse tem o senhor por homens que quiseram traí-lo? Pouco lhe deve importar quem os castiga...
Faça o que estou dizendo, se não quiser suportar as conseqüências.
Themos hesitou. Lançou um olhar ligeiro para RK-935 e sabia perfeitamente que dificilmente conseguiria alguma coisa pela força.
Será que Thora não vale nada para o senhor? — perguntou em tom tranqüilo. — Nós a curamos. O senhor pode avisar Rhodan de que...
Eu sou Rhodan!
Themos já o adivinhara. Não demonstrou a menor surpresa. Mas seus companheiros pareciam encolher alguns centímetros. Gucky adiantou-se a Rhodan. Arrastou-se alguns passos para a frente, avaliou Themos com os olhos, e pôs em ação suas faculdades telecinéticas.
De repente, os pés do velho ara perderam o apoio. Ele começou a subir para o teto, sem peso e esperneando agitadamente. Quando a cabeça bateu contra a lâmpada redonda, ouviu-se um baque surdo. Para os outros aras, o espetáculo não era nada animador. Acompanharam os acontecimentos com os olhos arregalados e uma expressão de incredulidade no rosto. Themos perdeu a fala e lançou olhares assustados para o chão.
Rhodan formulou a pergunta:
Qual é o elevador que leva ao depósito de medicamentos?
Quando percebeu que Themos não respondia, dirigiu-se a Gucky:
Abaixe-o. Mas não deixe que a queda seja rápida demais.
De repente, Themos recuperou o peso normal e desceu os cinco metros em queda livre. No último instante, o rato-castor freou. Mas não o bastante para evitar totalmente o forte impacto no solo.
Themos amoleceu o corpo e, soltando um grito, ficou deitado no chão.
Então, qual é o elevador? — repetiu Rhodan.
Um dos aras adiantou-se.
É aquela porta — informou prontamente. Ao que parecia, compreendera que não havia nada que se pudesse fazer contra os robôs e as forças sobrenaturais. — Mas previno-os de que é proibido...
Raptar gente também é proibido — interrompeu Rhodan. — Ande à nossa frente e mostre o caminho. RK-940, fique aqui e cuide para que estes aras não saiam do lugar — deu uma palmadinha nas costas de Gucky. — O que está acontecendo com Tiff?
Sengu está sendo levado em primeiro lugar. Por enquanto não existe um perigo imediato. Consegui captar os pensamentos de Thora. Está num lugar seguro. Foi trancada numa peça que fica menos de cem metros abaixo do lugar em que nos encontramos. Poderei localizá-la a qualquer momento.
O ara que devia mostrar-lhes o caminho parou diante de uma porta. Apertou um botão. Esta abriu-se para o lado. Surgiu uma cabine minúscula. Rhodan sacudiu a cabeça.
Deve haver elevadores de carga. Este é muito pequeno.
O ara deu de ombros e caminhou em direção a uma porta mais larga, atrás da qual apareceu uma peça quadrada, que tinha o quádruplo do tamanho da outra.
O senhor irá conosco — ordenou Rhodan, empurrando o ara à sua frente. — E não tente outras manobras de retardamento, meu caro. O senhor sabe onde podem ser encontrados nossos homens. Se chegarmos tarde, nenhum dos senhores terá oportunidade para aproveitar a aposentadoria.
Estou disposto a ajudar — murmurou o ara, que parecia amargurado porque não queriam reconhecer sua boa vontade. — Não acredite que por aqui todo mundo concorda com os métodos de Themos.
Rhodan olhou para Gucky. O rato-castor pesquisou o subconsciente do ara e sacudiu a cabeça. Com a voz estridente, anunciou o resultado de sua sondagem telepática.
Está mentindo, porque não tem outra alternativa. Os aras vivem desses métodos e os consideram legais; legais no sentido que eles atribuem ao termo, evidentemente. Ninguém se revolta contra Themos. Este sujeito pretende enganar-nos. Cuidado!
O ara não conseguiu disfarçar o pavor que se apoderou dele ao ver expostos seus pensamentos mais recônditos. Que ser monstruoso era este, que sabia ler pensamentos? Não haveria nada que pudesse deter Rhodan no seu propósito de destruir os fundamentos da vida de Aralon?
O ara tomou uma decisão heróica. Se não houvesse outro meio, teria de sacrificar-se por seu povo. Se morresse, e se Rhodan morresse com ele, nunca ninguém descobriria a fonte da riqueza inesgotável que a raça dos aras desfrutava.
Teve uma vantagem. Justamente naquele instante Gucky estava com a mente ocupada, procurando captar os gritos de socorro de Tiff. Sengu havia sido trazido para junto dele; sentia-se esperançoso, pois assistira à chegada de Rhodan ao edifício da administração. Seu olhar atravessou mais de dez mil metros de matéria compacta. Sabia que o auxílio não tardaria. E chegaria em cima da hora.
Já estão no elevador — cochichou para Tiff, que estava firmemente amarrado à mesa branca. A luz ofuscante obrigou-o a manter os olhos fechados. — Dentro de poucos minutos, estarão aqui.
Gucky captou os pensamentos de Tiff e estava a ponto de informar Rhodan sobre os mesmos. De repente, o ara executou um movimento rápido com a mão, segurou a chave do elevador e, de um golpe, empurrou-a para além da marca-limite, forçando-a até quebrá-la.
No mesmo instante, os ocupantes da cabine perderam o peso.
RK-999 adiantara-se para impedir que o ara tocasse na chave, já que Rhodan não havia dado ordem para isso. Seus pés levantaram-se do chão, não encontraram a menor resistência. Libertado de seu peso, deslocou-se em direção ao ara, que o contemplava com os olhos arregalados de pavor. Gucky não teve tempo para frear o vôo involuntário da pesada máquina de guerra, que se chocou lentamente, mas com toda força, contra o ara indefeso, quebrando todos os ossos do débil descendente dos arcônidas e dos saltadores.
O traidor teve morte instantânea e indolor.
Desenvolvendo uma velocidade cada vez maior, o elevador precipitava-se em direção ao centro do planeta.

* * *

Dentro de poucos minutos...
Sengu interrompeu-se. Ninguém o impedia de falar, mas assim mesmo calou-se, apavorado. Vira que o ara havia morrido, porém provocara a queda do elevador.
O que houve? — perguntou Tiff, forçando as correias que o prendiam à mesa. — Por que parou de falar?
Sengu continuava a fitar o teto. Não ofereceu a menor resistência quando o amarraram à mesa. Os aras corriam apressadamente de um lado para outro, preparando instrumentos reluzentes e conversando em voz baixa.
O que houve? — repetiu Tiff.
Um dos cientistas lançou-lhe um olhar, mas não se interessou pelos dois terranos, que para ele já deviam estar praticamente mortos.
O elevador...! — gemeu Sengu em tom apavorado. — Está caindo. O ara quebrou a chave de controle de velocidade. Ninguém poderá deter a queda da cabine.
Tiff teve a impressão de que o pavor lhe trancava a respiração. Enquanto sabia que Rhodan se encontrava a caminho, tinha motivo para sentir-se confiante. Mas agora, que também seu salvador caíra numa armadilha, não haveria nenhuma saída. Os aras poderiam executar seus planos diabólicos. Um belo dia também na Terra irromperiam epidemias desconhecidas, que só poderiam ser curadas com os medicamentos incrivelmente caros dos aras. O círculo se fecharia.
Entesou o corpo e, reunindo toda a força de que dispunha, conseguiu rasgar a correia que prendia seu braço esquerdo.
Imediatamente alguns aras pularam sobre ele e comprimiram seu corpo contra a mesa. Mas, mesmo dispondo apenas de um braço, Tiff era um inimigo perigoso. Sua mão tateante descobriu um objeto duro. Segurou-o e empurrou o instrumento em forma de tesoura para dentro do corpo do ara que se encontrava mais próximo. O indivíduo atingido recuou com um grito de dor e, procurando algum lugar para apoiar-se, cambaleou e caiu lentamente ao chão.
Antes que Tiff pudesse localizar outro atacante, sentiu uma dor aguda na nuca. Virou-se instantaneamente, mas a mão que segurava a seringa recuou apressadamente.
A paralisia foi imediata. Começou no cérebro e correu para os braços e as pernas. A tesoura caiu ao chão. Não ofereceu a menor resistência quando voltaram a amarrar seus braços à mesa.
Sengu não parecia ter notado o incidente. Seus olhos arregalados de pavor fitavam o teto em direção oblíqua. O olhar caminhou em direção à parede, desceu por ela e terminou no soalho.
Finalmente fechou os olhos.
Ao que parecia, já não estava interessado em ver o que aconteceria dali em diante.
Totalmente indiferente, deixou que um ara se aproximasse e lhe aplicasse a injeção paralisante.
5


Dez segundos preciosos passaram em vão.
Nesses dez segundos, a cabine caíra quase quinhentos metros, e a velocidade da queda aumentava na razão do quadrado do tempo. A resistência do ar freava ligeiramente a cabine, mas lá embaixo devia haver uma galeria de escapamento, pois do contrário o ar comprimido se teria transformado num colchão.
Rhodan flutuava no centro da cabine. Seu rosto exprimia pavor e uma momentânea desorientação, mas logo voltou a raciocinar.
Gucky! Pare o elevador. Depressa! Mesmo quando estava levitando, o rato-castor sabia mover-se com segurança. Apesar da situação crítica, não se esqueceu da finalidade de sua presença.
O transmissor de Tiff deixou de funcionar; não está emitindo mais nenhum impulso telepático. Apenas estou ouvindo os sinais normais. Deve estar dormindo, ou então desmaiou. Não percebo mais nada de Sengu.
É a anestesia! — exclamou Rhodan, apavorado. — Depressa, Gucky! Uma queda de dez mil metros durará menos de um minuto. Meio minuto já se passou.
O rato-castor confirmou tranqüilamente com um gesto da cabeça e afastou RK-999, que flutuava como um balão.
O cadáver do ascensorista seguiu-o.
Trinta e cinco segundos... seis mil metros de profundidade.
Foi então que Gucky mostrou do que um telecineta é capaz.
Seu olhar caiu sobre a chave metálica de controle, cuja ponta quebrada emitia um brilho prateado. Concentrou-se e dirigiu os fluxos de energia telecinética sobre o pino, que não poderia atingir com a pata.
Quarenta segundos — disse Rhodan com a voz monótona. — Quase oito mil metros.
Gucky não o ouvia. Seus olhos adquiriram uma estranha rigidez.
A chave quebrada moveu-se milímetro por milímetro em direção à posição zero, para além da qual havia sido empurrada. Ao chegar lá, não parou; prosseguiu no seu movimento.
Rhodan desceu ao chão da cabine, seguido pelos dois robôs. Sentiu que seu corpo recuperava o peso normal, que logo duplicou. A pressão crescia. Rhodan dobrou os joelhos e fez aquilo que é mais sensato numa situação como esta. Deitou de costas, com os braços e as pernas bem estendidos. Crest seguiu o exemplo.
Um minuto!
Já deviam ter ultrapassado a marca dos dez mil metros, mas ainda não haviam atingido o fim do poço do elevador. Ninguém sabia a que profundidade penetrava nas entranhas do planeta.
Gucky parecia ouvir atentamente. Não olhava mais para a chave; seu olhar caiu obliquamente sobre o teto do elevador.
Já descemos além do lugar em que estão Tiff e Sengu, mas o elevador já está subindo de novo. Conseguimos.
Pare assim que atingirmos a altura em que Tiff está — pediu Rhodan com a voz arquejante.
Respirava com dificuldade.
Gucky voltou a concentrar-se. A chave arrastou-se na direção oposta. O corpo recuperou o peso normal e o elevador parou.
Chegamos — chiou Gucky. Bastante satisfeito com o resultado de sua intervenção — Tiff não pode estar longe. De qualquer maneira, está na mesma altura em que nos encontramos.
Rhodan procurou o dispositivo que abriria a porta do elevador, mas não o encontrou. Gucky leu seus pensamentos, soltou um assobio estridente e, como sempre, pouco melódico, enquanto os cabelos da nuca se arrepiavam. Resolveu o problema à sua maneira, antes que Rhodan tivesse tempo para formular qualquer objeção.
Cuidado, RK-999. Não se assuste! Antes que o pesado robô de guerra compreendesse o que estava acontecendo, sentiu que estava sendo levantado, deslocou-se em direção à parede dos fundos da cabine e, como uma flecha impelida pela corda do arco, precipitou-se na direção oposta. Ouviu-se um ruído de matéria sólida esfacelada, e o robô viu-se num pavilhão profusamente iluminado. Sem perder tempo, Rhodan saltou atrás dele, seguido por Crest, RK-935 e Gucky, cujo olhar radiante corria para todos os lados, como os de um vencedor que aguarda os aplausos do auditório.
Os aras que se encontravam no pavilhão não pensaram em aplaudir. O susto deixou-os gelados até a medula dos ossos. Quando viram o inconcebível, ficaram paralisados. Dois monstros metálicos, dois humanos — um deles, ao que tudo indicava, um arcônida — e um estranho ser de pequenas dimensões haviam atravessado a parede.
Rhodan! — gritou Gucky com a voz estridente. — Os impulsos de Tiff se afastam. Não estão ficando mais fracos, mas vêm de mais longe.
Os aras foram prevenidos — conjecturou Crest. — Os reféns estão sendo transportados para um lugar seguro.
Gucky, siga os impulsos; rápido! — ordenou Rhodan. — Ficaremos grudados aos seus calcanhares. Não precisamos preocupar-nos com os aras que estão por aqui.
Gucky correu à frente. As portas abriram-se à sua frente como que por encanto. Quando o grupo medonho passava correndo por eles, os aras levantavam os olhos do seu trabalho e deixavam cair o queixo de pavor. Um deles, que se encontrava no segundo laboratório, fez um movimento apressado, foi atingido imediatamente pelo raio paralisante disparado por um dos robôs. Soltou um grito e tombou.
Depois de terem percorrido uns cinqüenta metros e atravessado vários laboratórios, Gucky parou de repente. Rhodan fitou as correias de couro presas nas duas mesas. Um único ara se encontrava nos fundos da sala, e estava usando o videofone.
Virou-se tranqüilamente e contemplou os intrusos com uma expressão impávida. Em seus olhos havia um brilho frio.
O senhor chegou tarde, Rhodan. Seus amigos já foram levados a um lugar seguro.
Rhodan dirigiu-se a Gucky:
Onde está Tiff?
Está sendo levado para baixo. O lugar em que se encontra não fica longe daqui. Neste momento, o elevador está parando. Sim, Tiff está bem embaixo de nós. São dez metros no máximo. Sua posição continua inalterada.
O ara acompanhou as palavras de Gucky com uma expressão de incredulidade. Era possível que naquele instante começasse a acreditar em bruxaria e considerasse Rhodan um super-homem. De qualquer maneira, compreendera que a medida apressada, determinada pelo comando central, fora inútil. Não saberia dizer como os desconhecidos descobriram o lugar em que se encontravam os prisioneiros. Sua libertação teria que ser impedida de qualquer maneira.
Antes que alguém pudesse desconfiar de qualquer coisa, empurrou para baixo um pequeno botão do videofone.
Ordem de Themos. Os prisioneiros devem ser mortos imediatamente — gritou e correu em direção à porta aberta. Penetrou rápido no feixe de energia paralisante disparado por RK-999. Caiu ao chão como se tivesse sido atingido por um raio.
Rhodan estava prestes a sair correndo à procura do elevador quando se lembrou de uma solução melhor.
Gucky, dez metros não são muita coisa. Tiff está bem embaixo de nós? Bem, neste caso vá buscá-lo. E Sengu também. Rápido! Só dispomos de alguns segundos.
O rato-castor não perdeu tempo para confirmar a ordem.
O ar começou a tremeluzir, os contornos de seu corpo desmancharam-se como se estivesse mergulhado na água. Gucky desapareceu.

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