Dirigindo-se
novamente ao velho sentado atrás da mesa, prosseguiu:
— Rhodan
aplicou o mesmo método que representa o fundamento da existência
dos aras, não é? Por isso ficaram tão aborrecidos. Ou será que
vocês pretendem negar que costumam espalhar pela Galáxia os germes
mais perigosos, para lucrar na cura dos seres atacados pelas
epidemias? Se não fossem os aras, já não haveria doenças, e vocês
teriam que trabalhar de verdade para poderem viver. É assim que se
pensa por aqui. No entanto, uma raça inteligente sempre teria um
campo bastante amplo para o trabalho e a pesquisa. A vida artificial,
a vida eterna, a eliminação da morte física... a lista não tem
fim. Em vez disso, o que é que vocês preferem fazer? Fomentam as
doenças para que este hospital nunca fique vazio. Então, o que me
diz, meu velho?
O albino
sentado atrás da mesa ouvira-o atentamente sem demonstrar a menor
emoção. Confabulou em voz baixa com os colegas. Depois olhou para
Tiff.
— Por
que procura irritar-me? Quer descobrir alguma coisa? Rhodan quer
descobrir alguma coisa que ainda não sabe?
— Rhodan!
— Tiff proferiu este nome com tamanho desprezo que ele mesmo se
assustou. — O que tenho que ver com Rhodan? Pois é ele que quer
conservar Thora para si. Para ele, a doença veio muito a propósito.
Os senhores conhecem os sintomas da hipereuforia, que é o nome que
costumamos dar ao sorriso eterno. Serei franco com os senhores...
— Meu
nome é Themos. Sou chefe deste setor e diretor científico dos
laboratórios ligados ao mesmo. Prossiga.
— Era o
que eu pretendia fazer, Themos. Vim contra a vontade de Rhodan. O
senhor acredita que ele me teria mandado para cá não trazendo mais
ninguém senão Thora? O senhor já percebeu, não é?
— Por
que resolveu trazer-nos Thora contra a vontade de Rhodan?
— Eu...
bem, quis prestar-lhe um serviço, Themos. Tenho vários motivos para
isso. Thora é muito poderosa e poderá ajudar-me a progredir na
vida, caso se sinta obrigada para comigo. Além disso, poderia
convencê-la de que, para mim, sua vida é mais preciosa que para
Rhodan.
Themos
inclinou-se para a frente e lançou um olhar perscrutador para Tiff.
— Pretende
trair Rhodan? Como posso saber que não está mentindo?
— Acredite
ou deixe de acreditar. A decisão depende exclusivamente do senhor.
Cure Thora, se puder, e eu lhe demonstrarei minha gratidão.
O velho
contemplou Tiff por algum tempo. Depois olhou para Sengu, que
demonstrou um interesse surpreendente pelo solo em que estava
pisando. Depois voltou a conversar em voz baixa com os outros aras.
Tiff teve
tempo para enviar uma mensagem telepática a Gucky.
A
conferência inaudível demorou quase dez minutos. Finalmente Themos
tornou a falar:
— Curaremos
de Thora, mas por enquanto não podemos permitir que voltem à sua
nave. Serão nossos hóspedes. Dar-lhes-emos um quarto que não
poderão deixar sem licença especial. Acreditamos que não se oporão
a uma revista pessoal; queremos verificar se estão portando armas ou
qualquer aparelho de comunicação.
No seu
íntimo Tiff aborreceu-se com a medida; todavia, não havia meio mais
eficiente para convencer os aras de que ele e Sengu eram criaturas
inofensivas. Na verdade, não possuíam qualquer arma ou aparelho de
comunicação visível. Depois de se convencerem disso, os aras
relaxariam sua vigilância.
— É
claro que não temos a menor objeção — disse Tiff com a maior
tranqüilidade. — Façam o que quiserem, se isso os deixa mais
calmos. Mas não gosto de ficar trancado num quarto. Quero saber o
que está acontecendo com Thora. Será que realmente estão em
condições de curá-la?
— Empenho
minha palavra de cientista para garantir a cura — asseverou Themos
com certo orgulho. — Afinal de contas a peste de nonus é uma
doença bacilar criada por mim, e é claro que o respectivo antídoto
também foi descoberto por mim. Amanhã Thora já estará boa —
lançou um olhar penetrante para Tiff. — Aliás, ela sabe onde e
por que foi infectada?
— Como
poderia saber disso? Só quando estiver curada será capaz de
compreender ou de se lembrar de alguma coisa. Árcon não ficará
muito satisfeito com seus métodos de causar doenças.
Themos
esboçou um sorriso frio.
— Providenciaremos
para que Árcon nunca saiba disso. Uma vez que, segundo afirma, o
senhor é contra Rhodan, o senhor não contará nada a Thora e aos
demais arcônidas, não é verdade?
Tiff não
respondeu. De repente Sengu disse:
— Seus
laboratórios ficam bem embaixo da superfície, abaixo deste setor do
hospital, não é verdade?
Themos
acenou com a cabeça; parecia perplexo.
— Como é
que o senhor sabe disso? Todas as nossas instalações ficam abaixo
do solo, porque com o tempo o sol produz efeitos bastante
desagradáveis.
— Ao
menos para os albinos — disse Tiff com certa ênfase.
Themos não
parecia ofender-se com isso.
— Sim, é
isso — confirmou em tom indiferente. — É por esse motivo que
permanecemos na superfície o menos possível. Sendo assim, não é
por maldade que insistimos em que por enquanto fiquem aqui embaixo.
Terão de aguardar nossa decisão. O grande conselho médico de
Aralon cuidará do assunto nas próximas semanas. Tiff inclinou-se
para a frente.
— O
senhor falou em semanas? Acha que tenho tanto tempo?
— Será
que não tem tempo? — perguntou Themos em tom desconfiado. — Quem
poderia estar esperando pelo senhor, já que não tem a intenção de
voltar para junto de Rhodan?
Tiff
mordeu o lábio.
— Quero
levar Thora e meu amigo a um sistema isolado, que possua um planeta
bastante idílico. É lá que Thora e eu vamos nos casar.
— Será?
— Themos parecia surpreso. — Um certo Etztak me disse que entre
Rhodan e a tal da Thora existe um certo relacionamento... Bem,
digamos, que existe um relacionamento amistoso. O que dirá Rhodan
quando souber dos seus planos?
— O
problema não é meu — respondeu Tiff em tom indiferente. Naquele
momento, gostaria de ver o rosto de Rhodan, se Gucky o estivesse
informando sobre o curso da palestra. Os planos não previam uma
troca de idéias tão chocante. — Não veremos Rhodan nunca mais.
— Tenho
certeza absoluta de que não o reverão, quer o estejam traindo, quer
não — disse Themos com a voz fria e levantou-se. — Mas chega de
conversa. Vamos agir. Serão levados aos seus quartos e revistados lá
mesmo. Não ofereçam resistência e não terão problemas. Amanhã
realizaremos um exame médico. Não se preocupem; é apenas uma
questão de rotina. Depois disso, poderão cumprimentar uma Thora
restabelecida. Então veremos o que ela acha dos seus projetos de
casamento. Para o bem do senhor, faço votos de que se sinta muito
feliz...
Tiff
percebeu a ameaça que havia nessas palavras. Porém não teve tempo
para imaginar com clareza os mal-entendidos que certamente surgiriam.
Quatro braços robustos agarraram-no por trás e carregaram-no para
fora da sala. Sengu teve o mesmo destino.
— A
viagem nos levará para as profundezas do planeta — gritou para
Tiff e sorriu, fazendo uma careta. — Receio que seremos levados a
um setor muito profundo.
— Silêncio!
— trovejou a voz de um dos guardas.
— Isso
não me preocupa nem um pouco — respondeu Tiff, sem dar a menor
atenção à ordem do ara. — O que me deixa mais preocupado é a
idéia do que dirá Thora quando souber que é minha noiva...
3
A Titan e
a Ganymed realizaram um pequeno hipersalto, que as deixou mais
próximas do sistema de Kesnar. Continuando a deslocar-se à
velocidade da luz, ainda se encontravam a um dia-luz de Aralon.
O período
de descanso decorrera sem qualquer acontecimento importante. Tiff
informara-os de que ele e Sengu haviam sido colocados num quarto bem
confortável, acrescentando que pretendiam dormir algumas horas. Na
superfície de Aralon, começara a noite, e, naquele submundo, também
havia uma espécie de pausa.
Gucky
acordou e a primeira coisa que fez foi prestar atenção aos impulsos
emitidos pelo transmissor implantado no corpo de Tiff. Os impulsos
vinham a intervalos regulares, mas não traziam qualquer mensagem
telepática. Concluiu que Tiff ainda estava dormindo.
O
rato-castor espreguiçou-se, escorregou da cama para o chão e
dirigiu-se ao compartimento contíguo, onde ficava o chuveiro. Com um
pavor íntimo saltitou sob o jato de água fria, insistindo para
consigo mesmo em que esse processo não só limpava seu couro, mas
também era bom para a saúde. Enxugou-se sob o jato de ar quente e
caminhou em direção à sala dos tripulantes.
Além de
Crest e alguns conhecidos, encontrou-se também com Rhodan, que
perguntou imediatamente se nesse meio tempo havia acontecido algo de
novo. Gucky tranqüilizou-o e passou a dedicar-se à refeição
matutina. Ficou satisfeito ao ver que em seu prato havia uma ração
especial das deliciosas cenouras enviadas da Ganymed. Eram seu
alimento predileto, e nem mesmo Bell conseguia fazer com que
desistisse dele.
— Se os
aras cumprirem a palavra, Thora estará restabelecida ainda hoje —
disse Rhodan e sorveu um gole de café quente, que preferia a
qualquer das bebidas concentradas. — Quando isso acontecer,
saberemos que possuem o antídoto. Não haverá mais nenhum motivo
para esperar.
— O que
pretende fazer? — perguntou Gucky enquanto mastigava, o que não
era nada fácil para o solitário dente-roedor. — Atacar?
— É
claro que só pode ser isso — afirmou Rhodan.
Crest
baixou a mão que segurava a xícara. Seu olhar parecia preocupado.
— Sabemos
que Aralon é o hospital galáctico. Se o atacarmos, agiremos contra
o direito.
— Um
depósito de armas protegido pela cruz vermelha. Isto é uma velha
história. E aqui nos encontramos numa situação semelhante. Afinal,
Tiff representa a prova de que os aras abusam do seu saber —
retrucou Perry.
— Tiff
está nas mãos deles — lembrou Crest em tom tranqüilo.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Mas
não estará por muito tempo, Crest. Gucky sabe dizer a qualquer
momento onde está Tiff, e quando nos tivermos aproximado o
suficiente para que possa realizar a localização goniométrica, não
haverá mais nenhum meio de esconde-lo de nós. Não pretendo tratar
os aras com luvas de seda. São mais perigosos e inescrupulosos que
qualquer dos inimigos do Império.
Crest
ainda tinha suas dúvidas.
— De
qualquer maneira, cometerá uma injustiça aos olhos das outras raças
se atacar um grupo de médicos indefesos. Não se esqueça de que
muita gente vai a Aralon em busca de auxílio contra a doença e a
morte. E o senhor está impedindo aqueles seres de curar os outros.
Se ainda os matar...
— Nem
cheguei a insinuar que pretendo matar um ara que seja — disse
Rhodan em tom indiferente.
Crest
suspirou aliviado.
— Nesse
caso está tudo em ordem, se bem que eu gostaria de saber como
pretende obrigá-los a ceder por meio de ameaças.
— Veremos
— disse Rhodan. — Para falar a verdade, eu mesmo ainda não sei
exatamente.
De repente
Gucky levantou a cabeça. O resto da cenoura caiu das suas patas e
foi parar no prato. Os olhos começaram a brilhar. Com a voz nervosa
pôs-se a cochichar:
— Tiff
foi acordado. Vieram buscá-lo para submetê-lo a novo
interrogatório...
*
* *
A porta
foi aberta do lado de fora e dois aras robustos entraram no quarto.
Tiff e
Sengu acordaram imediatamente. O processo mental normal foi
reiniciado. A vinte e quatro horas-luz de distância Gucky captava os
impulsos.
— Vamos,
levantem. Themos quer falar com vocês.
Tiff saiu
da cama de lado. Não se apressou. Também Sengu lavou-se calmamente
antes de vestir o uniforme. Os dois aras saltitavam nervosamente de
um pé para outro, mas deviam ter recebido instruções terminantes
para não maltratar os prisioneiros.
Finalmente
a limpeza matutina foi concluída.
— Quando
ganharemos o café? — perguntou Tiff. — Será que isto aqui não
é um hospital de verdade?
— Themos
responderá as suas perguntas — disse um dos guardas enquanto abria
a porta. — Virão espontaneamente?
Nem Tiff
nem Sengu julgaram necessário dar qualquer resposta a esta pergunta.
Enfiado na
capa branca, Themos estava novamente sentado atrás da mesa já
conhecida com a tampa semicircular feita de plástico. Outros aras se
encontravam em sua companhia. Fitaram os dois homens com os rostos
sombrios. O olhar do diretor científico não prenunciava nada de
bom. Tiff esqueceu-se do café. Desconfiava do que tinha acontecido.
A primeira frase dita por Themos confirmou seus temores:
— Thora
está curada, terrano. Não se lembra de jamais lhe ter dado
esperança de casar com, ela. Continua a dedicar toda a simpatia a
Perry Rhodan. Então, o que me diz, tenente Tifflor, ou seja lá qual
for seu nome?
Tiff não
se apressou para responder. Repetiu mentalmente palavra por palavra
da breve fala do ara, para orientar Gucky. Depois, deu de ombros e
disse em tom de lástima:
— Que
pena. A doença deve ter apagado parte da memória. Já não se
lembra das últimas horas que passamos juntos. Posso vê-la?
— O que
deseja dela? Thora é uma arcônida. Não se ligará ao senhor nem a
Rhodan. Cuidaremos disso. Resolveu ficar para sempre em Aralon a fim
de empenhar suas forças na cura dos doentes. Não acha que é uma
bela perspectiva? De qualquer maneira, é bem melhor que a de casar
com um terrano.
Tiff
começou a ferver no seu íntimo. Pensou intensamente,
concentrando-se totalmente em Gucky:
— Diga a
Rhodan que está na hora de agir. Ataquem. Transmitirei
ininterruptamente para que você possa localizar-me. Thora será...
— Por
que não responde? — interrompeu-o Themos, que não tinha mais nada
do velho gentil com que falara no dia anterior.
Tiff fitou
os olhos vermelhos.
— Porque
estou admirado com o senhor, Themos. Não trouxe Thora para cá? Só
poderia ter feito isso para afastá-la de Rhodan. E não traí
Rhodan? Qual é a paga que me dão? Pretendem enganar-me.
— O
senhor trouxe Thora para Aralon para conseguir medicá-la, pois somos
os únicos que podem curá-la. Só nós possuímos o soro contra a
peste dos nonus. E não o entregaremos a ninguém. Caso esse seu
Rhodan ainda tiver doentes a bordo, terá que vir para cá se quiser
curá-los. E quando isso acontecer talvez lhe entreguemos dois
traidores.
Tiff não
respondeu. Era mais ou menos o que esperara. Os aras só estavam
interessados em Thora. A arcônida devia representar um trunfo muito
forte em suas mãos. Não era de admirar, já que contara que Perry
Rhodan significava alguma coisa para ela.
Themos fez
um sinal para os guardas.
— Levem-nos
para baixo, para a estação experimental de raças extra-imperiais.
Precisamos descobrir a constituição orgânica dos terranos. Talvez
consigamos verificar se descendem de antigos emigrantes arcônidas,
ou se são uma espécie distinta.
Tiff e
Sengu poderiam defender-se, mas seria uma luta sem esperança contra
forças muito superiores. Para que enfrentar um risco desnecessário?
Rhodan já captara a mensagem de socorro e não demoraria em atacar
Aralon. Teria que libertar Tiff e Sengu, e principalmente Thora.
E
precisava conseguir o soro.
Foram
empurrados para dentro de um elevador que caía com velocidade cada
vez maior para as profundezas do planeta. Os dois guardas não
participaram da viagem vertiginosa.
Era uma
pequena cabine quadrada de aproximadamente oito metros cúbicos. Nas
paredes, ouvia-se um assobio cada vez mais agudo. Tiff percebeu que o
peso de seu corpo estava reduzido à metade. A gravitação de Aralon
era igual à da Terra. Isso significava que desenvolviam metade da
velocidade que atingiriam numa queda livre.
— Está
vendo alguma coisa?
O japonês,
que olhava para todos os lados, com uma expressão bastante rígida,
confirmou com um aceno de cabeça.
— Passamos
a uma velocidade cada vez maior por inúmeras instalações. São
instalações destinadas aos doentes. Todo o planeta deve ter sido
escavado por dentro. Embaixo de mim vejo um poço cujo fim não
consigo enxergar. É só o que vejo.
— Como
será que conseguiram penetrar tão profundamente no solo?
— Há
milênios são uma raça altamente civilizada e apesar de toda a arte
médica não suportam o sol. Não tiveram outra alternativa senão
viver nas camadas interiores de seu planeta. Pelos meus cálculos, já
devemos estar três quilômetros abaixo da superfície.
Os
segundos transformaram-se em minutos. Subitamente Tiff sentiu que
estava ficando mais pesado. Tinha o dobro de seu peso normal. A
desaceleração chegava a dez metros por segundo ao quadrado.
O elevador
parou com um forte solavanco.
Demorou
quase três minutos até que a porta estreita se abrisse. Uma luz
ofuscante inundou a cabine. Os olhos de Tiff logo se acostumaram à
diferença de luminosidade. Viu os rostos resolutos de uma dezena de
aras que os aguardavam.
— O que
estão esperando? — perguntou um deles em tom áspero.
Tiff fez
um sinal para Sengu e saiu do elevador. Os aras recuaram um pouco,
como se receassem a existência de doença infecciosa. Ninguém
pensou na possibilidade de que os presos pudessem fugir. Aqui, dez
quilômetros abaixo da superfície, dificilmente teriam oportunidade
para isso. As paredes do grande pavilhão em nada se distinguiam das
situadas mais próximas da superfície. Era a mesma limpeza, a mesma
claridade, a mesma desesperança para aquele que ali se encontrasse
contra sua vontade.
— Sigam-nos
— disseram aos terranos.
Os aras
caminhavam à frente. Ao que parecia, não tinham a menor dúvida de
que Tiff e Sengu os seguiam.
Tiff
apressou-se em enviar informações a Gucky. Descreveu a posição.
Pelos seus cálculos, deviam encontrar-se a dez quilômetros de
profundidade, bem embaixo da extremidade do campo de pouso, quase
exatamente do lado oposto do edifício embandeirado da administração.
Atravessaram
um corredor e chegaram a uma sala ampla, na qual os cientistas aras
vestidos de branco trabalhavam nas mesas e numa série de aparelhos
desconhecidos. Devia ser um dos laboratórios a que Themos se
referira, e que se esperava encontrar em Aralon. O coração de Tiff
quase parou de bater quando viu enormes recipientes nos quais seres
vivos, imóveis, boiavam num líquido conservador. As placas
colocadas nos recipientes provavam que se tratava de exemplares das
diversas raças que viviam fora do Império.
“Terranos
conservados em álcool”,
pensou Tiff enojado e já se via boiando num recipiente de vidro,
onde seria conservado para as futuras gerações de cientistas de
Aralon.
Mais uma
vez expediu uma mensagem de socorro para Gucky:
— Apressem-se,
pelo amor de Deus! Pretendem fazer uma coisa horrível conosco.
Tiff e
Sengu não notaram que atrás deles as portas se fechavam
silenciosamente. Estavam presos na armadilha mais perfeita existente.
Só tinham diante de si o caminho para a frente, e este poderia ser
tudo, menos tentador.
Os aras
pararam. Um deles abriu uma porta e deixou livre a passagem.
— Seu
quarto é este, terranos. Logo receberão comida. Não deixem que o
ambiente os perturbe. Nada lhes acontecerá, ao menos por enquanto.
Em
silêncio, Tiff passou por ele e entrou. Viu que realmente se tratava
de um quarto e não de câmara de tortura. Duas camas, uma instalação
sanitária e uma mesa com quatro cadeiras chegavam a dar um aspecto
acolhedor ao quarto, desde que se esquecesse a proximidade do
laboratório. Sengu seguiu-o. A porta fechou-se com um ruído surdo.
Tiff teve
a impressão de que com isso a última retirada estava sendo cortada.
Suspirou e
sentou numa das camas, olhando para Sengu.
— Dez
mil metros abaixo da superfície. Você poderia fazer o favor de
dizer como é que poderemos sair daqui?
Sengu
olhou para o chão. Sacudiu a cabeça. Também usou o tratamento
familiar você.
— Não;
é claro que não sei. Mas acho que você deve estar interessado em
saber que abaixo de nós existe outro laboratório. Aliás, parece
antes um setor de embalagem. Ao lado dele, há um depósito com
milhares de caixas e recipientes. Será que é lá que são embalados
e armazenados os medicamentos?
— Qual é
a profundidade a partir do lugar em que nos encontramos?
— Não
passa de dez metros — o olhar do japonês subiu pela parede e
passou ao teto, como se acompanhasse uma mosca. — Estou vendo
Thora. Está sendo levada para cima no elevador.
Quando o
japonês olhava através das paredes compactas, Tiff reprimiu uma
sensação estranha.
— O que
veio fazer aqui?
— Talvez
— conjecturou Tiff — mostraram-lhe o estoque de soro, pois
acreditam que Rhodan esteja interessado. Será usada como chamariz.
Ou seja, será usada para fazer chantagem contra Rhodan. Que diabo,
acho que mais uma vez nossos pensamentos foram humanos demais. Estes
aras não são médicos, são diabos.
Sengu
continuava a olhar para o teto.
— Bell
me disse em certa oportunidade que saberemos enfrentar até o diabo.
Acredito piamente no que disse, Tiff. A menos de dez metros abaixo de
nós está a substância de que precisamos. Eu a vejo, mas isso não
basta. Mas tenho certeza de que amanhã já estará em nossas mãos.
Tenho certeza absoluta...
— Você
é um espia — respondeu Tiff em tom tranqüilo — mas não é
nenhum profeta.
*
* *
Já fazia
algumas horas que Thora recuperara a consciência, no meio da noite.
Tinha a
impressão de que despertava de um sonho. Dirigiu os olhos para as
luzes ofuscantes embutidas no teto, bem acima de sua cama.
Não sabia
o que tinha acontecido.
Quando o
olhar se acostumou à luz, viu o rosto de um homem idoso, que a
examinava atentamente. Nós olhos dele, vermelhos de albino, havia
uma pergunta muda e um interesse frio.
Sua
memória começou a funcionar.
Era um
ara.
Onde
estava? O que acontecera com Rhodan?
— Quem é
o senhor? — ergueu-se, mas voltou a cair no travesseiro. Sentia-se
muito fraca. — Onde estou?
— Está
curada e em segurança — respondeu o desconhecido. Sua voz era
tranqüilizadora, mas irradiava uma frieza e uma impessoalidade que
se parecia com a do quarto em que estava. — Conhece um certo
tenente Tifflor do sistema Sol? Seu planeta de origem é a Terra.
Ainda
confusa, Thora confirmou com um aceno de cabeça.
— Eu me
lembro...
— Também
se lembra de que pretende casar com ele?
— O
senhor está louco? O que deseja de mim? Onde estou e como vim parar
aqui? O que aconteceu com Perry Rho...?
Entreparou
de repente. O ara sorria como quem sabe de tudo.
— Pode
continuar. Quer saber onde está Perry Rhodan? Eu lhe contarei assim
que me disser por que não quer casair com Tifflor.
— Quem
lhe deu essa idéia maluca? Tifflor é um ótimo amigo, mas não o
amo. Se é que eu amo algum homem, será...
Mais uma
vez interrompeu-se.
— Quem
sabe se é Rhodan? — perguntou o ara.
Thora não
respondeu, mas a verdade estava escrita em seu rosto. O ara acenou
com a cabeça e inclinou-se sobre ela; parecia satisfeito.
— Então
é mesmo Rhodan. Fico satisfeito em saber disso. E Perry retribui
seus sentimentos. É excelente. Nesse caso deve estar muito
interessado em recuperá-la com vida.
Thora
ergueu-se. O ódio chamejou em seus olhos dourados.
— Pouco
importa quem seja o senhor. O braço vingador do Império o
alcançará. Seu monstro!
— Então
esta é a gratidão por termos curado a senhora. A senhora esteve
doente, Thora de Zoltral, muito doente. No momento, está em Aralon,
o hospital galáctico dos aras. E só será livre quando Rhodan for
nosso prisioneiro. Não se iluda quanto à gravidade da situação.
Mais um detalhe. A senhora acaba de pronunciar a sentença de morte
do tal Tifflor. Ele deixou de ter qualquer valor para nós.
— Como é
seu nome? — perguntou a arcônida com a voz controlada.
— Meu
nome é Themos. Por que está interessada nisso?
Thora
respondeu sem pestanejar:
— Porque
neste instante acaba de ser pronunciada outra sentença de morte.
Contra certo ara chamado Themos. Asseguro-lhe que será executada
dentro de vinte e quatro horas.
O rosto de
Themos tornou-se ainda mais pálido do que era por natureza.
Sem dizer
uma palavra, fitou o rosto implacável da arcônida. Subitamente
reconheceu como essa mulher era bela... e como era perigosa.
4
A sala de
comando da Titan era grande, mas em comparação com a esfera
espacial de um quilômetro e meio de diâmetro só poderia ser
considerada pequeníssima. Apesar disso, era perfeitamente possível
que a presença de Gucky deixasse de ser notada por alguém que não
prestasse muita atenção.
O
rato-castor encontrava-se no seu lugar predileto, sobre um sofá que
ficava perto do robô de navegação, que geralmente era controlado
por Bell. No momento, o coronel estava sendo substituído por um
jovem oficial, o tenente Bristal. O coronel Freyt tirara-o
diretamente da Academia Espacial, quando veio à Terra em busca de
reforços.
Rhodan
estava sentado atrás dos controles por meio dos quais era dirigida a
grande nave. Parecia tenso. A porta, que dava para a sala de rádio,
estava aberta. Crest estava parado junto à mesma, esperando
nervosamente pelas decisões que estavam para ser tomadas. Não se
sentia bem com a idéia de que não havia outro meio senão a
violência para libertar Thora e seus acompanhantes e conseguir o
soro contra a doença que atacara setecentos homens.
Rhodan
dirigiu-se a Gucky.
— Então,
o que houve? Nenhuma notícia de Thora?
— Deve
estar restabelecida. Do contrário Themos não teria descoberto a
mentira. A morte de Tiff está decidida.
— Mas
ainda não é um fato consumado — respondeu Rhodan com a voz
zangada. — O que diz Tiff?
— Ainda
estão no quarto junto ao laboratório. Acredita que a vivissecção
já está sendo preparada.
— Você
consegue localizá-lo?
— Consigo
— chilreou Gucky em tom confiante. — Tiff descreveu o aspecto da
superfície. Acredito que conseguirei encontrá-lo. É bem verdade
que teremos que descer dez quilômetros. Como pretende fazer isso com
a Titan? Por que não permite que eu salte sozinho?
— Para
que servem os robôs arcônidas? — lembrou Rhodan. — Saberão
abrir caminho embaixo da superfície. E quando esse Themos estiver
nas minhas mãos, ele se sentirá muito satisfeito por não ter
realizado seu intento.
Gucky não
respondeu. Ergueu-se e, encostando-se à parede, ficou sentado no
sofá. Escutava atentamente, de olhos fechados. Ninguém o
perturbava. Na sala de comando, reinava um silêncio total. A espera
durou quase três minutos.
— Está
na hora — cochichou finalmente o rato-castor. — Tiff está sendo
levado em primeiro lugar. Ele se defende desesperadamente, mas a
superioridade dos outros é muito grande. Está descrevendo uma sala
profusamente iluminada cheia de aparelhos medonhos e de instrumentos
reluzentes. Tiff diz que querem operá-lo embora tenha uma saúde de
ferro.
— Numa
situação dessas ainda lhe resta senso de humor! — disse Rhodan
surpreso. — Depressa, Gucky. Preciso dos últimos dados sobre a
localização.
— Não
há nenhuma alteração. Vamos agir.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça. Estava tudo preparado. O cérebro
de navegação já realizara os cálculos necessários à transição
de pequena distância. A Titan só voltaria a materializar-se na
atmosfera de Aralon. A Ganymed a seguiria com um intervalo de poucos
minutos, fornecendo cobertura para o lado do Universo. Embora a
velocidade já fosse bem reduzida, era uma empresa arriscada. Apenas
metade da tripulação estava em condições de entrar em ação, e
seu treinamento era um tanto precário. O fator decisivo do sucesso
ou fracasso do plano de Rhodan não seria apenas a capacidade humana,
mas também uma boa porção de sorte. Estava na hora.
A imensa
nave desapareceu do espaço normal e voltou a materializar-se menos
de três quilômetros sobre o campo de pouso de Aralon.
Quando a
gigantesca esfera surgiu acima da massa de naves estacionadas, muitos
dos visitantes galácticos ficaram sem fôlego. Ao primeiro relance
de vista perceberam do que se tratava. O que é que um couraçado
arcônida desse tamanho estaria procurando no planeta da benevolência
e da cura?
Rhodan não
se preocupou com a opinião das raças que lhe eram estranhas. Não
teve mais a menor contemplação. Deixou que a Titan descesse e
pousou numa das extremidades do campo espacial. Três segundos
depois, as escotilhas inferiores se abriram, rampas foram descidas e
os robôs começaram a marchar.
Eram
gigantes de aço de quase dois metros e meio de altura, equipados com
quatro braços. Os braços inferiores eram apenas radiadores de
impulsos móveis, que poderiam sufocar no nascedouro qualquer
resistência que se lhes opusesse. A energia desprendida por esses
radiadores, devidamente enfeixada, volatilizaria qualquer tipo de
matéria e a faria desaparecer. Num compasso rítmico, as pernas
metálicas desceram pelas rampas, tocaram o solo de Aralon e
prosseguiram em sua marcha. Os robôs formaram colunas, cuja ponta se
dirigia para o grande edifício periferial sob o qual ficavam os
laboratórios.
Rhodan
transmitiu o último comando pelo rádio.
O exército
de robôs pôs-se em movimento.
Paralisados
de susto, alguns aras que se encontravam diante dos portais do centro
administrativo, contemplavam o espetáculo. Os cérebros recusavam-se
a compreender o que os olhos viam. Mas quando a frente reluzente se
aproximou, a paralisia cessou como que por encanto. Com as capas
esvoaçantes, correram para dentro do edifício, fechando as portas
atrás de si.
Rhodan,
Crest e Gucky saíram da Titan sem carregar qualquer arma.
Compenetrados e indiferentes, os dois homens caminhavam atrás dos
seus robôs, sem se dignarem a olhar para as naves estacionadas por
ali ou suas tripulações. Gucky, que andava com dificuldade e cujos
passos arrastados poderiam ser tudo menos compenetrados, lembrou-se
de sua faculdade sobrenatural. Usou sua energia telecinética para
elevar-se uns dez centímetros acima do solo e planou sobre o
pavimento de plástico. A visão não era apenas edificante, mas de
certa forma chegava a ser apavorante.
Uns dez
robôs prosseguiram tranqüilamente em sua marcha e atingiram as
entradas principais do edifício da administração. Na frente dos
prédios estavam estacionadas algumas ambulâncias. Rhodan viu a
luminosidade de alguns feixes energéticos, e as portas deixaram de
existir. Sem que ninguém os detivesse, os robôs cumpriram as
instruções que lhes haviam sido ministradas, ocupando todas as
saídas e os elevadores que levavam para o subsolo. A ordem expressa
de não matar ninguém continuava em vigor.
Rhodan
ligou o minúsculo transmissor de pulso.
— Tenente
Bristal? Está tudo em ordem?
A resposta
foi imediata.
— Tudo
bem. Ninguém se atreve a nos incomodar. Nas outras naves, não houve
nenhuma modificação. Nossas peças de artilharia estão guarnecidas
e prontas para entrar em ação. Aguardamos novas instruções.
— Por
enquanto não há outras instruções — disse Rhodan com a voz
zangada e desligou.
A uns três
quilômetros de distância um cilindro de oitocentos metros de
comprimento desceu lentamente sobre o campo praticamente vazio e
parou. Era a Ganymed que acabara de pousar. Conforme o combinado,
desembarcaria um contingente de duzentos robôs, que formariam um
cordão espesso em torno da nave. Essa medida foi ordenada por Rhodan
principalmente a título de demonstração de força. Os outros
deviam convencer-se de que detinha um grande poder. A eventual
utilização dos robôs dependeria exclusivamente do comportamento
dos aras.
Crest
cochichou:
— Olhe!
Uma nave dos saltadores. Acredito que tenha trazido doentes. Vê-se
que os aras nem sequer poupam seus próprios parentes.
Rhodan
olhou a nave mais detidamente. Era um dos cilindros que já conhecia.
Tinha trezentos metros de comprimento e estava apoiada sobre as
aletas de popa. Seus olhos perceberam um movimento na proa. Um anel
girou e deixou livre uma abertura, da qual saiu o cano em espiral de
um canhão energético apontado para as colunas de robôs.
Rhodan
reagiu instantaneamente.
— Tenente
Bristal! Dê o alarma. Há uma nave dos saltadores a duzentos metros
de distância. Na proa existe um canhão de radiações. Inutilize-o
imediatamente. Destrua unicamente a proa.
Antes que
o saltador pudesse disparar, viu-se um breve relampejo na Titan.
Rhodan viu que a proa da atrevida nave cilíndrica entrou em
incandescência e se fundiu. O perigoso canhão desapareceu. Da proa
não sobrara quase nada.
— Basta,
Bristal. Ajuste seu telecomunicador para a freqüência normal de
Aralon e ligue um amplificador. Quero transmitir um aviso aos
comandantes das naves:
Depois de
alguns segundos veio a confirmação.
Sem
deter-se em sua marcha atrás dos robôs, Rhodan falou para dentro do
microfone:
— Atenção,
todas as naves estacionadas em Aralon! Aqui fala Perry Rhodan da
Terra, em nome do Regente de Árcon. Recomendo encarecidamente a
todos os visitantes de Aralon que não se intrometam na ação que
está em curso. Daqui em diante não terei mais a menor contemplação.
Destruirei todo aquele que tentar atacar-nos ou ajudar os aras.
Trata-se de uma operação policial realizada por ordem de Árcon.
Repito: quem se intrometer terá que suportar as conseqüências.
Rhodan
sabia que suas palavras estavam sendo ouvidas por todas, pois nenhuma
das naves deixaria suas estações de rádio desguarnecidas. Todos
sabiam quem se encontrava diante deles e refletiriam sobre quem
poderia ser esse Rhodan da Terra. Era um nome que nunca haviam
ouvido.
— Tiff
está sendo amarrado à mesa — gritou subitamente Gucky em tom de
pânico. — Suas mensagens estão ficando mais insistentes. Não
sabe onde estamos; nem sequer tem certeza de que conseguimos ouvi-lo.
— Coitado!
— murmurou Rhodan e apressou o passo. — Se fizerem alguma coisa a
ele, eu mato toda esta canalhada.
A ameaça
talvez não fosse tão séria assim, mas fez Crest empalidecer. A boa
fama de Árcon valia mais que qualquer outra coisa.
— Tenente
Bristal. Mande a coluna de robôs da esquerda encarregar-se da
vigilância do campo de pouso. A coluna da direita ficará à minha
disposição. Quero falar com o comandante.
A Titan
imediatamente transmitiu a ordem pelo rádio aos robôs. A ala
esquerda dobrou para o lado e assumiu posição diante dos edifícios
alongados. Suas armas estavam apontadas para a floresta de naves
espaciais. Enquanto isso a ala direita parou. Um dos maciços robôs
voltou e parou diante de Rhodan.
— Quais
são as instruções? — perguntou em tom impessoal.
Sua voz
lembrava ligeiramente a do cérebro robotizado de Árcon.
— Quero
que três robôs me acompanhem. Os outros darão cobertura ao nosso
avanço para os laboratórios subterrâneos. Crest e Gucky irão
comigo. — Dirigindo-se ao rato-castor, disse: — Qual é a
direção? Peço uma indicação precisa.
Gucky
apontou obliquamente para o solo.
— Ali;
numa distância de dez mil e vinte e três metros — voltou a erguer
a cabeça e dirigiu os olhos para o edifício lateral, onde se via a
rampa e a porta aberta. — Ali ficam os elevadores que descem para o
subsolo.
Quando os
três robôs se apresentaram, Rhodan não perdeu mais tempo. As
respectivas séries e números estavam gravadas em pequenas placas
metálicas presas aos peitos reluzentes. Também serviam de código
de comunicação.
— RK-935.
Você irá à frente e eliminará qualquer obstáculo material. Não
mate nenhum ser vivo; se necessário, apenas paralise-o. RK-940 e
RK-999, vocês nos darão cobertura pelas costas. Avante!
A área
fronteira ao edifício parecia deserta. Alguns veículos vazios e
abandonados estavam por ali. A porta aberta parecia uma boca faminta.
De repente Gucky chiou:
— Lá
adiante alguém nos espera; também está desarmado. Querem falar
conosco. Sim, um deles é Themos. Consegui identificar seus
pensamentos. Quer fazer uma proposta a você, Rhodan, uma proposta
traiçoeira, acredito. Sim, é um tipo de negócio que vai propor.
— Um
saltador sempre é um saltador — murmurou Crest e apressou o passo
para acompanhar Rhodan. Gucky correra à frente e aguardava o grupo
junto à porta.
Atrás da
porta, começava um corredor bem iluminado. RK-935 continuava a
avançar a passos vigorosos, com os braços de armas estendidos para
a frente, prontos para disparar. Seu campo energético não havia
sido ativado, pois não se esperava qualquer tipo de resistência.
Entraram
num pavilhão branco, que pareceria familiar a Gucky. Duas
ambulâncias estavam estacionadas em nichos das paredes laterais.
Havia corredores e portas que iam em todas as direções possíveis.
Um grupo
de aras vestidos de branco aproximou-se de Rhodan e parou a alguma
distância. Um deles, um velho albino, levantou os braços e
perguntou num tom de altiva recriminação:
— Qual é
a finalidade desta invasão armada no planeta da arte de curar? Pelo
que vejo, esta monstruosidade está sendo praticada com o
conhecimento de Árcon. Os senhores hão de permitir que peça um
esclarecimento. Pergunto...
— Se
alguém pode fazer perguntas por aqui, sou eu — disse Rhodan com a
voz fria. — Se não me engano o senhor é Themos.
O velho
ficou perplexo. Como esse desconhecido poderia saber seu nome? Não
poderia imaginar que Rhodan compareceria em pessoa, ainda mais
desarmado, embora acompanhado por alguns robôs.
— Sim,
sou Themos, diretor da divisão de pesquisa do setor extra-imperial.
O que deseja? E quem é o senhor?
— Antes
de responder a essas perguntas, quero recomendar-lhe que liberte meus
homens sem demora. Faça suas experiências com quem quiser, menos
com o tenente Tifflor e com Sengu.
Um sorriso
fugaz passou pelo rosto do ara.
— Que
interesse tem o senhor por homens que quiseram traí-lo? Pouco lhe
deve importar quem os castiga...
— Faça
o que estou dizendo, se não quiser suportar as conseqüências.
Themos
hesitou. Lançou um olhar ligeiro para RK-935 e sabia perfeitamente
que dificilmente conseguiria alguma coisa pela força.
— Será
que Thora não vale nada para o senhor? — perguntou em tom
tranqüilo. — Nós a curamos. O senhor pode avisar Rhodan de que...
— Eu sou
Rhodan!
Themos já
o adivinhara. Não demonstrou a menor surpresa. Mas seus companheiros
pareciam encolher alguns centímetros. Gucky adiantou-se a Rhodan.
Arrastou-se alguns passos para a frente, avaliou Themos com os olhos,
e pôs em ação suas faculdades telecinéticas.
De
repente, os pés do velho ara perderam o apoio. Ele começou a subir
para o teto, sem peso e esperneando agitadamente. Quando a cabeça
bateu contra a lâmpada redonda, ouviu-se um baque surdo. Para os
outros aras, o espetáculo não era nada animador. Acompanharam os
acontecimentos com os olhos arregalados e uma expressão de
incredulidade no rosto. Themos perdeu a fala e lançou olhares
assustados para o chão.
Rhodan
formulou a pergunta:
— Qual é
o elevador que leva ao depósito de medicamentos?
Quando
percebeu que Themos não respondia, dirigiu-se a Gucky:
— Abaixe-o.
Mas não deixe que a queda seja rápida demais.
De
repente, Themos recuperou o peso normal e desceu os cinco metros em
queda livre. No último instante, o rato-castor freou. Mas não o
bastante para evitar totalmente o forte impacto no solo.
Themos
amoleceu o corpo e, soltando um grito, ficou deitado no chão.
— Então,
qual é o elevador? — repetiu Rhodan.
Um dos
aras adiantou-se.
— É
aquela porta — informou prontamente. Ao que parecia, compreendera
que não havia nada que se pudesse fazer contra os robôs e as forças
sobrenaturais. — Mas previno-os de que é proibido...
— Raptar
gente também é proibido — interrompeu Rhodan. — Ande à nossa
frente e mostre o caminho. RK-940, fique aqui e cuide para que estes
aras não saiam do lugar — deu uma palmadinha nas costas de Gucky.
— O que está acontecendo com Tiff?
— Sengu
está sendo levado em primeiro lugar. Por enquanto não existe um
perigo imediato. Consegui captar os pensamentos de Thora. Está num
lugar seguro. Foi trancada numa peça que fica menos de cem metros
abaixo do lugar em que nos encontramos. Poderei localizá-la a
qualquer momento.
O ara que
devia mostrar-lhes o caminho parou diante de uma porta. Apertou um
botão. Esta abriu-se para o lado. Surgiu uma cabine minúscula.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Deve
haver elevadores de carga. Este é muito pequeno.
O ara deu
de ombros e caminhou em direção a uma porta mais larga, atrás da
qual apareceu uma peça quadrada, que tinha o quádruplo do tamanho
da outra.
— O
senhor irá conosco — ordenou Rhodan, empurrando o ara à sua
frente. — E não tente outras manobras de retardamento, meu caro. O
senhor sabe onde podem ser encontrados nossos homens. Se chegarmos
tarde, nenhum dos senhores terá oportunidade para aproveitar a
aposentadoria.
— Estou
disposto a ajudar — murmurou o ara, que parecia amargurado porque
não queriam reconhecer sua boa vontade. — Não acredite que por
aqui todo mundo concorda com os métodos de Themos.
Rhodan
olhou para Gucky. O rato-castor pesquisou o subconsciente do ara e
sacudiu a cabeça. Com a voz estridente, anunciou o resultado de sua
sondagem telepática.
— Está
mentindo, porque não tem outra alternativa. Os aras vivem desses
métodos e os consideram legais; legais no sentido que eles atribuem
ao termo, evidentemente. Ninguém se revolta contra Themos. Este
sujeito pretende enganar-nos. Cuidado!
O ara não
conseguiu disfarçar o pavor que se apoderou dele ao ver expostos
seus pensamentos mais recônditos. Que ser monstruoso era este, que
sabia ler pensamentos? Não haveria nada que pudesse deter Rhodan no
seu propósito de destruir os fundamentos da vida de Aralon?
O ara
tomou uma decisão heróica. Se não houvesse outro meio, teria de
sacrificar-se por seu povo. Se morresse, e se Rhodan morresse com
ele, nunca ninguém descobriria a fonte da riqueza inesgotável que a
raça dos aras desfrutava.
Teve uma
vantagem. Justamente naquele instante Gucky estava com a mente
ocupada, procurando captar os gritos de socorro de Tiff. Sengu havia
sido trazido para junto dele; sentia-se esperançoso, pois assistira
à chegada de Rhodan ao edifício da administração. Seu olhar
atravessou mais de dez mil metros de matéria compacta. Sabia que o
auxílio não tardaria. E chegaria em cima da hora.
— Já
estão no elevador — cochichou para Tiff, que estava firmemente
amarrado à mesa branca. A luz ofuscante obrigou-o a manter os olhos
fechados. — Dentro de poucos minutos, estarão aqui.
Gucky
captou os pensamentos de Tiff e estava a ponto de informar Rhodan
sobre os mesmos. De repente, o ara executou um movimento rápido com
a mão, segurou a chave do elevador e, de um golpe, empurrou-a para
além da marca-limite, forçando-a até quebrá-la.
No mesmo
instante, os ocupantes da cabine perderam o peso.
RK-999
adiantara-se para impedir que o ara tocasse na chave, já que Rhodan
não havia dado ordem para isso. Seus pés levantaram-se do chão,
não encontraram a menor resistência. Libertado de seu peso,
deslocou-se em direção ao ara, que o contemplava com os olhos
arregalados de pavor. Gucky não teve tempo para frear o vôo
involuntário da pesada máquina de guerra, que se chocou lentamente,
mas com toda força, contra o ara indefeso, quebrando todos os ossos
do débil descendente dos arcônidas e dos saltadores.
O traidor
teve morte instantânea e indolor.
Desenvolvendo
uma velocidade cada vez maior, o elevador precipitava-se em direção
ao centro do planeta.
*
* *
— Dentro
de poucos minutos...
Sengu
interrompeu-se. Ninguém o impedia de falar, mas assim mesmo
calou-se, apavorado. Vira que o ara havia morrido, porém provocara a
queda do elevador.
— O que
houve? — perguntou Tiff, forçando as correias que o prendiam à
mesa. — Por que parou de falar?
Sengu
continuava a fitar o teto. Não ofereceu a menor resistência quando
o amarraram à mesa. Os aras corriam apressadamente de um lado para
outro, preparando instrumentos reluzentes e conversando em voz baixa.
— O que
houve? — repetiu Tiff.
Um dos
cientistas lançou-lhe um olhar, mas não se interessou pelos dois
terranos, que para ele já deviam estar praticamente mortos.
— O
elevador...! — gemeu Sengu em tom apavorado. — Está caindo. O
ara quebrou a chave de controle de velocidade. Ninguém poderá deter
a queda da cabine.
Tiff teve
a impressão de que o pavor lhe trancava a respiração. Enquanto
sabia que Rhodan se encontrava a caminho, tinha motivo para sentir-se
confiante. Mas agora, que também seu salvador caíra numa armadilha,
não haveria nenhuma saída. Os aras poderiam executar seus planos
diabólicos. Um belo dia também na Terra irromperiam epidemias
desconhecidas, que só poderiam ser curadas com os medicamentos
incrivelmente caros dos aras. O círculo se fecharia.
Entesou o
corpo e, reunindo toda a força de que dispunha, conseguiu rasgar a
correia que prendia seu braço esquerdo.
Imediatamente
alguns aras pularam sobre ele e comprimiram seu corpo contra a mesa.
Mas, mesmo dispondo apenas de um braço, Tiff era um inimigo
perigoso. Sua mão tateante descobriu um objeto duro. Segurou-o e
empurrou o instrumento em forma de tesoura para dentro do corpo do
ara que se encontrava mais próximo. O indivíduo atingido recuou com
um grito de dor e, procurando algum lugar para apoiar-se, cambaleou e
caiu lentamente ao chão.
Antes que
Tiff pudesse localizar outro atacante, sentiu uma dor aguda na nuca.
Virou-se instantaneamente, mas a mão que segurava a seringa recuou
apressadamente.
A
paralisia foi imediata. Começou no cérebro e correu para os braços
e as pernas. A tesoura caiu ao chão. Não ofereceu a menor
resistência quando voltaram a amarrar seus braços à mesa.
Sengu não
parecia ter notado o incidente. Seus olhos arregalados de pavor
fitavam o teto em direção oblíqua. O olhar caminhou em direção à
parede, desceu por ela e terminou no soalho.
Finalmente
fechou os olhos.
Ao que
parecia, já não estava interessado em ver o que aconteceria dali em
diante.
Totalmente
indiferente, deixou que um ara se aproximasse e lhe aplicasse a
injeção paralisante.
5
Dez
segundos preciosos passaram em vão.
Nesses dez
segundos, a cabine caíra quase quinhentos metros, e a velocidade da
queda aumentava na razão do quadrado do tempo. A resistência do ar
freava ligeiramente a cabine, mas lá embaixo devia haver uma galeria
de escapamento, pois do contrário o ar comprimido se teria
transformado num colchão.
Rhodan
flutuava no centro da cabine. Seu rosto exprimia pavor e uma
momentânea desorientação, mas logo voltou a raciocinar.
— Gucky!
Pare o elevador. Depressa! Mesmo quando estava levitando, o
rato-castor sabia mover-se com segurança. Apesar da situação
crítica, não se esqueceu da finalidade de sua presença.
— O
transmissor de Tiff deixou de funcionar; não está emitindo mais
nenhum impulso telepático. Apenas estou ouvindo os sinais normais.
Deve estar dormindo, ou então desmaiou. Não percebo mais nada de
Sengu.
— É a
anestesia! — exclamou Rhodan, apavorado. — Depressa, Gucky! Uma
queda de dez mil metros durará menos de um minuto. Meio minuto já
se passou.
O
rato-castor confirmou tranqüilamente com um gesto da cabeça e
afastou RK-999, que flutuava como um balão.
O cadáver
do ascensorista seguiu-o.
Trinta e
cinco segundos... seis mil metros de profundidade.
Foi então
que Gucky mostrou do que um telecineta é capaz.
Seu olhar
caiu sobre a chave metálica de controle, cuja ponta quebrada emitia
um brilho prateado. Concentrou-se e dirigiu os fluxos de energia
telecinética sobre o pino, que não poderia atingir com a pata.
— Quarenta
segundos — disse Rhodan com a voz monótona. — Quase oito mil
metros.
Gucky não
o ouvia. Seus olhos adquiriram uma estranha rigidez.
A chave
quebrada moveu-se milímetro por milímetro em direção à posição
zero, para além da qual havia sido empurrada. Ao chegar lá, não
parou; prosseguiu no seu movimento.
Rhodan
desceu ao chão da cabine, seguido pelos dois robôs. Sentiu que seu
corpo recuperava o peso normal, que logo duplicou. A pressão
crescia. Rhodan dobrou os joelhos e fez aquilo que é mais sensato
numa situação como esta. Deitou de costas, com os braços e as
pernas bem estendidos. Crest seguiu o exemplo.
Um minuto!
Já deviam
ter ultrapassado a marca dos dez mil metros, mas ainda não haviam
atingido o fim do poço do elevador. Ninguém sabia a que
profundidade penetrava nas entranhas do planeta.
Gucky
parecia ouvir atentamente. Não olhava mais para a chave; seu olhar
caiu obliquamente sobre o teto do elevador.
— Já
descemos além do lugar em que estão Tiff e Sengu, mas o elevador já
está subindo de novo. Conseguimos.
— Pare
assim que atingirmos a altura em que Tiff está — pediu Rhodan com
a voz arquejante.
Respirava
com dificuldade.
Gucky
voltou a concentrar-se. A chave arrastou-se na direção oposta. O
corpo recuperou o peso normal e o elevador parou.
— Chegamos
— chiou Gucky. Bastante satisfeito com o resultado de sua
intervenção — Tiff não pode estar longe. De qualquer maneira,
está na mesma altura em que nos encontramos.
Rhodan
procurou o dispositivo que abriria a porta do elevador, mas não o
encontrou. Gucky leu seus pensamentos, soltou um assobio estridente
e, como sempre, pouco melódico, enquanto os cabelos da nuca se
arrepiavam. Resolveu o problema à sua maneira, antes que Rhodan
tivesse tempo para formular qualquer objeção.
— Cuidado,
RK-999. Não se assuste! Antes que o pesado robô de guerra
compreendesse o que estava acontecendo, sentiu que estava sendo
levantado, deslocou-se em direção à parede dos fundos da cabine e,
como uma flecha impelida pela corda do arco, precipitou-se na direção
oposta. Ouviu-se um ruído de matéria sólida esfacelada, e o robô
viu-se num pavilhão profusamente iluminado. Sem perder tempo, Rhodan
saltou atrás dele, seguido por Crest, RK-935 e Gucky, cujo olhar
radiante corria para todos os lados, como os de um vencedor que
aguarda os aplausos do auditório.
Os aras
que se encontravam no pavilhão não pensaram em aplaudir. O susto
deixou-os gelados até a medula dos ossos. Quando viram o
inconcebível, ficaram paralisados. Dois monstros metálicos, dois
humanos — um deles, ao que tudo indicava, um arcônida — e um
estranho ser de pequenas dimensões haviam atravessado a parede.
— Rhodan!
— gritou Gucky com a voz estridente. — Os impulsos de Tiff se
afastam. Não estão ficando mais fracos, mas vêm de mais longe.
— Os
aras foram prevenidos — conjecturou Crest. — Os reféns estão
sendo transportados para um lugar seguro.
— Gucky,
siga os impulsos; rápido! — ordenou Rhodan. — Ficaremos grudados
aos seus calcanhares. Não precisamos preocupar-nos com os aras que
estão por aqui.
Gucky
correu à frente. As portas abriram-se à sua frente como que por
encanto. Quando o grupo medonho passava correndo por eles, os aras
levantavam os olhos do seu trabalho e deixavam cair o queixo de
pavor. Um deles, que se encontrava no segundo laboratório, fez um
movimento apressado, foi atingido imediatamente pelo raio paralisante
disparado por um dos robôs. Soltou um grito e tombou.
Depois de
terem percorrido uns cinqüenta metros e atravessado vários
laboratórios, Gucky parou de repente. Rhodan fitou as correias de
couro presas nas duas mesas. Um único ara se encontrava nos fundos
da sala, e estava usando o videofone.
Virou-se
tranqüilamente e contemplou os intrusos com uma expressão impávida.
Em seus olhos havia um brilho frio.
— O
senhor chegou tarde, Rhodan. Seus amigos já foram levados a um lugar
seguro.
Rhodan
dirigiu-se a Gucky:
— Onde
está Tiff?
— Está
sendo levado para baixo. O lugar em que se encontra não fica longe
daqui. Neste momento, o elevador está parando. Sim, Tiff está bem
embaixo de nós. São dez metros no máximo. Sua posição continua
inalterada.
O ara
acompanhou as palavras de Gucky com uma expressão de incredulidade.
Era possível que naquele instante começasse a acreditar em bruxaria
e considerasse Rhodan um super-homem. De qualquer maneira,
compreendera que a medida apressada, determinada pelo comando
central, fora inútil. Não saberia dizer como os desconhecidos
descobriram o lugar em que se encontravam os prisioneiros. Sua
libertação teria que ser impedida de qualquer maneira.
Antes que
alguém pudesse desconfiar de qualquer coisa, empurrou para baixo um
pequeno botão do videofone.
— Ordem
de Themos. Os prisioneiros devem ser mortos imediatamente — gritou
e correu em direção à porta aberta. Penetrou rápido no feixe de
energia paralisante disparado por RK-999. Caiu ao chão como se
tivesse sido atingido por um raio.
Rhodan
estava prestes a sair correndo à procura do elevador quando se
lembrou de uma solução melhor.
— Gucky,
dez metros não são muita coisa. Tiff está bem embaixo de nós?
Bem, neste caso vá buscá-lo. E Sengu também. Rápido! Só dispomos
de alguns segundos.
O
rato-castor não perdeu tempo para confirmar a ordem.
O ar
começou a tremeluzir, os contornos de seu corpo desmancharam-se como
se estivesse mergulhado na água. Gucky desapareceu.

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