— Talvez
você tenha razão, Gucky. Mas você não disse que de qualquer
maneira os robôs enviariam a nave para as coordenadas já fixadas?
Estou pensando numa coisa. A nave seria tripulada pelos robôs? Ou
será que estes ficariam para trás?
— Não
sei. Não tive tempo para descobrir tudo.
— Esse
detalhe seria muito interessante. Se os robôs receberam a
incumbência de abandonar o planeta de Goszul no couraçado
recém-construído, já saberíamos o motivo do surgimento dessa
frota. Ela deve impedir que os robôs executem a tarefa.
Os
saltadores não querem que a epidemia... não, não havia nenhuma
lógica nisso. Se os saltadores supõem que o transmissor da moléstia
também se fixa sobre o metal, terão que concluir fatalmente que a
nave está contaminada. Não sei por quê, mas acho que há algum
bicho escondido em tudo aquilo. Bem que gostaria de saber onde está
esse bicho.
— Não
gosto de bichos menos ainda que de capim — chiou Gucky em tom
confiante — mas estou disposto a colaborar para a boa causa e
procurar o bicho.
Rhodan
sorriu.
— Isso
pode ser fácil, mas também pode ser muito difícil, pois a
mentalidade dos saltadores é completamente diferente da nossa.
Talvez a verdade nos decepcione quando a descobrirmos. Um momento, a
sala de telegrafia está chamando. O que houve, Fisher?
— Captamos
sinais de telegrafia. Ainda não foram decifrados, mas se parecem com
os dos saltadores. Se não estiverem transmitindo em código, poderei
fornecer o texto dentro de dez minutos.
Bell
encostou o indicador esquerdo ao nariz, o que era um sinal de que
refletia profundamente. Rhodan lançou-lhe um olhar curioso. Gucky
exibiu o dente roedor e deu um sorriso de deboche. Para o rato-castor
um Bell pensante parecia uma coisa muito engraçada. Os outros
mantiveram-se na expectativa.
— Então?
— perguntou Rhodan.
Bell
levantou os olhos.
— Lembrei-me
de uma coisa — anunciou ao auditório que ouvia ansiosamente. —
Se é que uma frota dos saltadores se aproxima desse planeta, e se
esses saltadores não sabem que estamos aqui, devemos pensar em dar o
fora. Resta saber para onde poderíamos ir. Não podemos cogitar de
uma transição, pois ela trairia nossa presença. Os hangares do
espaçoporto são muito pequenos. Então, o que vamos fazer?
Mergulhar na terra?
Os outros
ocupantes da sala olharam-se surpresos. Bell acertara em cheio.
Estavam por ali, desenvolvendo seus planos, esquecidos de que, dentro
de vinte horas o mais tardar, os antigos donos desse mundo estariam
de volta para executar seus planos ainda desconhecidos. Os saltadores
ainda estavam acreditando que tudo aquilo não passara duma epidemia
que infetara os nativos. E Rhodan pretendia fazer com que
continuassem nessa crença.
— Os
três cruzadores cabem nos hangares subterrâneos — disse Rhodan. —
Gostaria de tê-los por perto, mesmo que os saltadores resolvam
pousar. Teremos meios de evitar que verifiquem o que há nos
hangares. Qualquer indicação da presença da epidemia será
suficiente para isso. Resta a Stardust. Para ela não existe nenhum
hangar. E se fosse para o espaço, os instrumentos dos saltadores
logo constatariam sua presença — por alguns segundos Rhodan
concentrou-se nas suas reflexões. Subitamente olhou para Ralv. —
Conhece seu planeta? — o goszul confirmou com um lento aceno de
cabeça. — Muito bem. Qual é a profundidade dos seus mares?
O rosto de
Ralv não parecia muito inteligente, pois não compreendia por que
Rhodan estava interessado em conhecer a profundidade dos mares. Mas
Bell já havia compreendido.
— Quer
deitar a Stardust no oceano? — perguntou espantado. — É uma
idéia simples que nunca me teria ocorrido. Ótimo. Assim poderei
dedicar-me à pesquisa submarina. Sempre tive vontade de fazer isso.
— Você
não terá tempo para isso — disse Rhodan.
Ralv
confabulou com Enzally e Geragk.
— A
trinta quilômetros da costa ocidental começa o grande fosso. Sua
profundidade média é de três mil metros.
— É
exatamente do que precisamos — confirmou Rhodan. — Se a Stardust
estiver coberta por uma camada de água de dois quilômetros de
espessura, ninguém conseguirá localizá-la. E para a tripulação é
indiferente que a nave seja cercada pela água ou pelo espaço vazio.
Gucky
atravessou a sala a passos balouçantes e plantou-se diante de
Rhodan. O dente roedor parecia brilhar numa atitude provocadora, mas
os olhos castanhos de cão pareciam exprimir a fidelidade e a ternura
de sempre.
— Será
que sou um rato da água? — piou em tom recriminador.
Rhodan
esboçou um sorriso condescendente.
— Pela
sua cauda achatada poderíamos ser levados a concluir que seu habitat
é a água — disse em tom irônico. — Aliás, é de admirar que
você venha de um mundo em que quase não existe água. Bem, vou
tranqüilizá-lo. Ninguém disse que você mergulhará junto com a
Stardust. Preciso de você na superfície.
Bell
interrompeu-o.
— O que
vamos fazer? Os três cruzadores serão escondidos nos hangares
subterrâneos, e a Stardust ficará embaixo da água. Até aí muito
bem. Mas o que acontecerá conosco?
— Conosco?
— Rhodan exibiu um sorriso franco.
Parecia
divertir-se a valer, o que deixou Bell ainda mais aborrecido. Também
Deringhouse, Nyssen e MacClears pareciam não ver motivo para
alegrar-se pelo simples fato de que, por assim dizer, teriam de bater
em retirada.
Apenas
Enzally, Marshall e Gucky, que eram telepatas, sorriram como que por
comando.
— O que
acontecerá conosco? — prosseguiu Rhodan. — É muito simples,
meus caros. Nós nos faremos de loucos.
Mal os
cruzadores Solar System, Terra e Centauro haviam desaparecido nos
gigantescos pavilhões subterrâneos existentes embaixo do campo de
pouso, o tenente Fisher veio com uma nova notícia que não deixou
que o nervosismo esfriasse.
— Outra
novidade. A frota se divide. Ainda estão a quinze horas-luz, mas já
se dividem. Ao que parece querem bloquear todo o sistema.
Rhodan,
que ouviu a notícia por meio de um pequeno aparelho embutido na
pulseira, esperou alguns segundos antes de responder. Encontrava-se
numa das extremidades do campo de pouso, olhando como as portas
camufladas dos hangares se fechavam lentamente.
Os
cruzadores haviam desaparecido da superfície do planeta, e alguns
robôs reprogramados dos saltadores foram colocados nos controles.
Quem quisesse abrir o hangar, teria que entender-se com eles.
— Diga
ao major Deringhouse que me mande um bom piloto em um caça espacial.
Quando a
Stardust estivesse no fundo do oceano, não seria possível
acompanhar os movimentos da frota inimiga. No entanto, Rhodan não
pretendia deixar entregues ao acaso os acontecimentos que se
aproximavam. Ao que tudo indicava, sua suposição de que a frota dos
saltadores iria pousar em formação compacta não se realizaria.
Dali a um
minuto, uma abertura relativamente pequena abriu-se no envoltório da
Stardust. Um torpedo esguio saiu por ela e pousou a poucos metros de
Rhodan. A carlinga abriu-se e um rosto masculino ainda jovem
contemplou Rhodan com um sorriso de expectativa.
— O
sargento Harnahan apresentando-se para a missão especial.
Rhodan
retribuiu o sorriso.
— As
coisas não serão nada fáceis para o senhor, sargento. Mantenha
contato pelo rádio com o tenente Fisher. Observe a frota dos
saltadores e mantenha-nos informados sobre sua movimentação.
Permaneça no espaço, evitando qualquer encontro com os saltadores.
É muito importante que ninguém desconfie da sua presença. O senhor
será nosso olho, Harnahan, pois nossos instrumentos de observação
estarão cegos. Muitas felicidades.
— Obrigado
— respondeu o sargento, fechando a carlinga. Dali a um segundo o
campo antigravitacional fez com que o caça disparasse para o alto.
Pouco depois Harnahan ligou os propulsores e num instante desapareceu
na atmosfera azul.
Rhodan
seguiu-o com os olhos e sentiu-se um pouco melhor. Os caças
espaciais, pequenos e pouco numerosos, eram foguetes que desenvolviam
a velocidade da luz e só podiam abrigar um piloto. Seu armamento
consistia num canhão de impulsos rigidamente montado na proa e numa
instalação para a criação de campos protetores. A cabine
pressurizada possuía equipamento de condicionamento de ar e uma
minúscula comporta de ar. As pequenas asas do aparelho de proa
pontuda permitiam vôos na atmosfera, isso se o piloto não
preferisse utilizar o equipamento antigravitacional, que fora
acrescentado recentemente.
Alguns dos
caças ainda possuíam equipamentos de observação ultra-sensíveis.
Era o caso do aparelho do sargento Harnahan.
Bell
aproximou-se. Viu que Rhodan olhava para cima e seguiu seu exemplo.
Depois de algum tempo sacudiu a cabeça.
— Você
acaba abrindo um buraco no ar de tanto olhar, meu caro. Harnahan já
se encontra a muitos quilômetros de distância e não o ouvirá mais
se você chamar. Acho que devemos cuidar da Stardust. Está na hora
de fazê-la desaparecer.O comando da nave esférica foi confiado ao
major Nyssen, que logo a levou ao lugar indicado, situado a cerca de
trinta quilômetros da costa. Dentro de poucos minutos fez o monstro
mergulhar nas ondas do oceano. A precária ligação pelo rádio
mantida com Rhodan representava o único contato com o mundo
exterior, que foi preparado febrilmente para entrar em cena.
Entraria
em cena para apresentar uma comédia, que tinha um fundo muito sério.
Rhodan
distribuiu os papéis.
— Gucky
vai assumir a direção do comando que se encarregará do estaleiro.
O teleportador Tako Kakuta e o telecineta Tama Yokida irão com ele.
Levem o novo aparelho e tratem de paralisar os robôs. As novas
instruções podem esperar. Eu mesmo providenciarei essa parte. Ralv
e seus homens receberão instruções de Marshall, que já sabe o que
deve fazer. Não sabemos quais são os planos dos saltadores. Até
ignoramos se pretendem pousar. Por isso devemos estar preparados.
Ficarão admirados ao notar o que pode acontecer quando a população
de um planeta perde a memória — e com ela o medo.
— Será
a moléstia de novo? — perguntou Kitai Ishibashi, o sugestor do
Exército de Mutantes.
— Não é
bem isso — disse Rhodan com um sorriso. — Seria muito complicado
e levaria muito tempo. Desta vez temos de agir depressa, pois dentro
de dez horas os saltadores poderão estar aqui. Marshall pedirá a
Ralv e seus homens que apliquem uma tatuagem em cerca de dez mil
goszuls e...
— Uma
tatuagem? — disse Bell, respirando com dificuldade.
— Isso
mesmo — confirmou Rhodan. — O líquido que será usado é
inofensivo mas, uma vez aplicado na pele, faz com que dentro de uma
hora a pele apresente lindas manchas. Até parece que a pessoa caiu
numa lata de tinta. Foi mais ou menos o aspecto que tiveram os
nativos quando apanharam a doença. Se as pessoas pintadas se fizerem
de doidas, a impressão causada será perfeita. Kitai providenciará
para que os goszuls sejam bons artistas.
O sugestor
japonês sorriu.
— É a
coisa mais fácil deste mundo. Os saltadores ficarão admirados ao
verem do que é capaz um homem sem memória.
Podia
mesmo contar sua vantagem. Como sugestor que era, podia impor sua
vontade aos goszuls, ajudando-os a representar o seu papel. Se fosse
necessário, os goszuls desempenhariam o papel de artistas sem
saberem.
O major
Deringhouse olhou pela janela do edifício de um pavimento em que se
haviam instalado. O sol já se encontrava junto ao horizonte e não
demoraria a desaparecer.
Os
saltadores deviam chegar ao raiar do dia.
Suspirou.
— O que
devo fazer?
Rhodan
lançou-lhe um olhar ligeiro.
— É
possível que o senhor não tenha nada a fazer. Isso depende da
evolução dos acontecimentos, especialmente dos planos que os
saltadores pretendem executar e o risco que estão dispostos a
assumir. O senhor dispõe de cinco caças espaciais bem escondidos
nas montanhas mais próximas e de cinco pilotos. Com isso o senhor
não pode enfrentar as naves dos saltadores, mas sim uma expedição
que os mesmos resolvam colocar no planeta. Aguarde minhas ordens; em
hipótese alguma deve agir por conta própria.
Bell
empertigou-se.
— E eu?
O que é que eu vou fazer?
— Sinto
decepcioná-lo — disse Rhodan. — Você ficará comigo, e perto de
mim provavelmente não acontecerá muita coisa.
— Quer
dizer que mais uma vez vou ficar no quartel-general — resmungou
Bell, contrariado. — Enquanto os outros vivem aventuras e saem da
batalha com a auréola de heróis, nós ficamos mofando por aqui.
Vamos ficar mesmo por aqui? — de repente parecia muito preocupado.
— Não venha me dizer que vamos ficar no campo de pouso. O que
acontecerá se os saltadores pousarem e vierem até aqui?
— Nesse
caso você terá sua aventura — disse Rhodan com um sorriso amável.
— Vamos
dar o fora — disse Gucky, lançando um olhar convidativo para Tako.
Tama, o
telecineta, levantou-se. Como não soubesse executar a teleportação,
dependia da carona de Gucky ou de Tako.
— Tenham
cuidado — recomendou Rhodan e deu a Tako uma pequena caixa metálica
em forma de cubo, na qual havia vários botões e escalas. — Peguem
os robôs um por um. — Fez um sinal para Gucky: — Não devem
desconfiar de nada, senão darão o alarma.
— Não
se preocupe. Agiremos que nem os ratos — chilreou Gucky.
Bell
sorriu.
— Para
você isso não deve ser nada difícil.
Gucky
lançou-lhe um olhar de desprezo antes de segurar a mão de Tako e
Tama. Subitamente uma parede reluzente parecia interpor-se entre eles
e os outros membros do grupo, e logo desapareceram.
No mesmo
instante materializaram-se nas montanhas, atrás de uma pilha de
caixas.
Rhodan fez
sinal para que Marshall se aproximasse.
— Inicie
imediatamente o seu trabalho. Ralv está informado. Se os saltadores
pousarem em outro ponto do planeta, o azar será nosso, mas
dificilmente isso acontecerá. A única coisa que lhes interessa é
este continente. Afinal, este espaçoporto é o único que existe no
planeta de Goszul.
Marshall
confirmou com um aceno de cabeça e retirou-se. Um carro que já o
aguardava levou-o, juntamente com seu equipamento, à cidade
portuária não muito distante, onde Ralv já o esperava com seu
grupo de homens dedicados.
As únicas
pessoas que ficaram para trás foram Rhodan, Bell, Deringhouse e
Kitai, o sugestor, que só mais tarde seguiria Marshall.
— E
agora? — perguntou Deringhouse, entediado. — Será que vamos
criar raízes aqui?
— Não —
respondeu Rhodan. — Só ficaremos aqui até que os saltadores
pousem.
3
— Estava
escurecendo quando Gucky e seus dois companheiros materializaram-se
junto à pilha de caixas. Felizmente não havia ninguém por perto.
Correram para trás das caixas e esconderam-se. Por enquanto estavam
em segurança.
— Será
que trabalham de noite? — cochichou Tama.
Aquele
ambiente estranho deixava-o apavorado. Tinha a impressão de ser
observado constantemente por olhos invisíveis.
— Os
robôs não conhecem cansaço — esclareceu o rato-castor. — Tenho
certeza de que Borator não faz nenhuma pausa. Sabe o que aconteceu
no planeta de Goszul e fará o possível para colocar-se em
segurança. A nave se enquadra perfeitamente em seus planos, que não
são difíceis de adivinhar.
— Você
acha que pretende fugir nela?
— Naturalmente.
Fique quieto, ouço alguém que se aproxima — aguardou alguns
segundos e cochichou: — É o saltador. Estou captando seus
pensamentos. Ainda não está dormindo.
Os três
transformaram-se em sombras imóveis agachadas atrás das caixas.
Gucky perscrutou a escuridão.
“Mais
cinco dias”,
pensou Borator num misto de satisfação e impaciência. “Aí
terá chegado a hora. Malditos patriarcas! Deixaram-me aqui,
esperando que contraísse a doença e esquecesse que estou
construindo uma nave para eles. Estão redondamente enganados. Se
acreditam que entregarei isto conforme o figurino estão fazendo um
cálculo errado. A doença não chegou até aqui. Logo, posso levar
alguns robôs de combate e alguns especialistas. Não há perigo...
ficarão admirados... que baixeza...”
Satisfeito,
Gucky sorriu. Não havia motivo para preocupar-se: a suposição de
que dali a cinco dias a nave fosse dirigir-se para as coordenadas
preestabelecidas não tinha fundamento. Borator pretendia fazer um
negócio todo seu. Talvez pretendesse mesmo usar a nave para fundar
um novo clã.
Aos
cochichos informou os companheiros e acrescentou:
— Borator
vai para a cama. Talvez consiga descobrir mais alguma coisa.
Poderíamos deixar que concluísse tranqüilamente a sua obra, mas
infelizmente não temos tempo. Quando os saltadores pousarem, o
estaleiro deverá estar em nosso poder. Esperem aqui. Vou sondar a
situação.
Era uma
expressão ensinada por Bell. Havia várias, mas esta ao menos era
publicável.
Os dois
japoneses não se sentiram muito à vontade ao saberem que ficariam
sós naquele ambiente desconhecido. Prometeram que em hipótese
alguma sairiam do lugar. Face a isso, Gucky teleportou-se
tranqüilamente atrás de Borator.
O saltador
estava dobrando a quina de um depósito; passando por alguns robôs
que patrulhavam a área, dirigiu-se à pequena casa que lhe servia de
residência, situada em local um pouco distante. Gucky julgou
preferível não pôr mais uma vez à prova a indiferença dos robôs
diante dos coelhos. Teleportou-se diretamente para a casa, onde
aguardou o saltador na sombra de algumas moitas ressequidas.
Borator
pensava ininterruptamente enquanto atravessava a área fronteira
iluminada pelas lâmpadas.
Pensava
numa porção de coisas, menos nos planos que pretendia executar.
Despreocupado, mas dominado pela impaciência, foi caminhando, sem
desconfiar de que seus pensamentos estavam sendo captados. Passou a
poucos metros de Gucky, abriu a porta do bangalô e acendeu a luz. A
luminosidade atingiu a moita em que Gucky estava escondido. Mas
Borator só pensava numa coisa: dormir. Estava cansado.
“Ainda
bem”,
pensou ligeiramente, “que
os robôs não sabem o que é cansaço. Quem sabe se não
conseguiriam colocar a nave em condições de decolar no prazo de
quatro dias.”
Gucky
aguardou impaciente. Concentrando-se muito, quase chegava a enxergar
através dos olhos de Borator, vendo o que este fazia: Uma refeição
ligeira, um chuveiro frio e a cama.
Os
pensamentos tornaram-se cada vez mais confusos até resvalarem para o
irreal.
Borator
estava dormindo.
Gucky não
perdeu mais tempo. Preferiu não usar suas faculdades especiais. Como
qualquer outra criatura, entrou pela janela aberta e desceu
cautelosamente para o soalho da casa. Borator roncava, fazendo um
barulho terrível, que para o rato-castor vinha a calhar. Antes de
acordar o saltador tinha que tomar algumas precauções. Teve a
impressão de ter ouvido um ruído no corredor.
Será que
Borator arranjara um robô particular de vigilância?
A porta
estava apenas encostada. Gucky esgueirou-se pela penumbra. Por uma
fresta de porta a luz penetrou no corredor, refletindo-se nas costas
metálicas do robô, que se mantinha imóvel.
Gucky
segurou firmemente o radiador de impulsos. O novo instrumento seria
posto à prova. Tomara que fosse bom. Sem mover-se, apontou
diretamente para a parte traseira do crânio do monstro e comprimiu o
botão. Deixou-o nessa posição exatamente cinco segundos, depois
voltou a soltá-lo.
Se o
negócio estivesse funcionando, o robô devia estar desativado. Não
reagiria mais e, a qualquer momento, poderia ser reprogramado sem o
menor problema. Não poderia intervir mais nos acontecimentos.
E quem
poderia intervir senão Borator?
Antes de
cuidar do saltador, Gucky precisava ter certeza de que seu tratamento
fora coroado de êxito.
Segurando
firmemente o aparelho, dirigiu-se para o corredor e plantou-se bem à
frente do robô. Contemplou suas lentes amortecidas e procurou
descobrir qualquer sinal de vida nas mesmas. Mas o cérebro
positrônico não registrou sua presença. O robô não reagiu.
Muito
satisfeito, Gucky resolveu cuidar de Borator.
Naquele
mesmo instante notou que o saltador não estava roncando mais.
Reforçou sua potência de recepção telepática a fim de captar os
pensamentos de Borator. Era isso mesmo. O saltador acabara de acordar
e estava desconfiado. Pretendia verificar o que estava havendo. Pelo
que Gucky pôde constatar, estava armado com um radiador energético.
Era claro
que o rato-castor poderia colocar-se em segurança através da
teleportação, mas isso seria contrário à sua natureza e
representaria um perigo, pois o saltador poderia ver nisso uma
advertência e tomar medidas adequadas.
A luz
acendeu-se. Borator surgiu na porta e seus olhos piscaram ao
contemplar a cena que se oferecia diante dele. Seu robô estava
imóvel no meio do corredor, e diante do monstro estava sentado o
bicho no qual hoje dera um pontapé. O que estava segurando nas
patas? Uma caixa? Desde quando um animal tem inteligência suficiente
para penetrar numa casa com uma caixa nas patas?
Borator
formulou tantas perguntas que se esqueceu de agir. Foi o que Gucky
fez por ele.
Uma força
irresistível tirou a pistola de radiações da mão do saltador e
fez com que ela flutuasse em direção ao teto, onde se acomodou no
canto superior, apontando o cano para Borator, que acompanhou o
fenômeno com os olhos arregalados. Os fragmentos confusos de idéias
que Gucky conseguiu captar revelavam que começava a duvidar da sua
sanidade mental. Bem, essa impressão podia ser reforçada.
Amargurado,
Gucky lembrou-se do pontapé que levara e resolveu unir o útil ao
agradável. Borator nem compreendeu o que estava acontecendo quando
subitamente perdeu o apoio dos pés. Depois de executar um giro de
noventa graus ficou pendurado na horizontal, acima do chão, sem
conseguir mover-se. Numa fascinação desesperada contemplou o brilho
emitido pelo dente roedor do “coelho”
e, com o que ainda lhe restava de raciocínio, refletiu se o mesmo
poderia ser responsável pelas coisas incompreensíveis que estavam
acontecendo.
Devia ser
assim, pois o animal saltitou bem por baixo dele e pôs-se a rasgar
metodicamente a coberta, transformando-a em tiras, que foram
amarradas umas às outras, formando uma corda. Enquanto isso a
estranha caixa metálica foi colocada no chão.
Gucky
voltou para junto de Borator e começou a amarrar o mesmo segundo
todas as regras da arte. Isso não representou nenhum problema para
ele, pois o saltador continuava a flutuar um metro acima do chão.
Enquanto
isso, o robô manteve-se imóvel, como se não tivesse nada com isso,
o que de certa forma não deixava de ser verdade.
A corda
foi enrolada em torno de Borator. Gucky teve a cautela de deixar
livre um pedaço de corda, a fim de segurar o saltador. Depois bateu
amistosamente na parte traseira do robô, enfiou a caixa embaixo de
um dos braços, a pistola de radiações, que desceu lentamente,
embaixo do outro, e saiu caminhando tranqüilamente.
Borator
seguiu-o como um balão. Parecia seguro apenas pela corda que Gucky
tinha na mão. Os fluxos de energia telecinética emitidos pelo
rato-castor deixaram-no duro, mas Gucky tinha certeza de que o pavor
que o saltador sentia bastava para produzir esse efeito.
Tako e
Tama quase morreram de susto quando viram o pacote flutuar em sua
direção. Gucky segurava-se na corda, como se receasse ser arrastado
para longe. O dente roedor brilhava de contentamento.
— Este
está bem guardado — chilreou satisfeito. — Tama o vigiará.
Enquanto isso Tako e eu inutilizaremos os robôs.
Borator
baixou ao solo onde permaneceu imóvel. Mantinha os olhos fechados.
— Desmaiou.
É uma pena. Ainda terei tempo de ocupar-me com ele. Não durma,
Tama.
— O
nervosismo não me deixaria dormir — protestou o telecineta diante
da suspeita. — Não demorem muito.
— São
noventa e nove robôs. Isso não pode ser liquidado de um instante
para outro.
Gucky
segurou a mão de Tako... e os dois desapareceram.
Tama, que
não se sentia muito bem, ficou para trás; e também o saltador, que
naquele momento não sentia coisa alguma.
O primeiro
robô de combate não representou nenhum problema. Estava postado
junto do maior dos depósitos e formava o início de uma fileira
bastante espalhada. Gucky e Tako conseguiram aproximar-se a poucos
metros sem serem vistos. Ainda bem que as lentes do robô estavam
dirigidas para a saída do vale, pois ninguém pensava que pudesse
haver um inimigo no interior do mesmo.
Rhodan os
avisara de que o alcance do aparelho ainda era limitado; sua
eficiência só era garantida num raio de trinta metros. Mas havia
uma vantagem. A atuação de cada robô era independente da dos
outros, mas orientavam-se pelos atos dos demais. Se um deles deixasse
Gucky passar sem problemas, o guarda mais próximo concluiria que
Gucky não representava nenhum perigo. Face a isso sua vigilância
seria reduzida.
Foi nesse
fato que Gucky baseou seus planos.
— Fique
aqui — cochichou para Tako quando estavam parados na sombra do
depósito. — Daqui você vê tudo. Se houver algo de imprevisto,
teleporte para junto de Tama. Providencie para que o saltador seja
levado para junto de Rhodan. Depois traga Tama. Ninguém deverá
preocupar-se comigo. Saberei cuidar de mim.
Tama
segurou-o pela mão.
— Não
vejo o que poderia acontecer. Afinal, tenho o radiador. Com ele posso
inutilizar qualquer...
— Você
não vai fazer nada disso — interrompeu-o Gucky. — Se usarmos o
radiador, até o mais estúpido dos robôs saberá o que está
acontecendo. Se nos limitarmos a teleportar na semi-escuridão,
desaparecendo sem mais aquela, talvez pensem que somos fantasmas. De
qualquer maneira, não saberão o que fazer. Tenha paciência!
Conseguiremos.
Os arcos
voltaicos esparsos lançavam uma luz débil sobre o terreno cheio de
obstáculos. Era claro que as armaduras reluzentes dos robôs eram
mais fácil de ser percebida que o pêlo ruivo de Gucky, que. até
parecia uma camuflagem especialmente feita para a oportunidade.
Como já
se disse, o primeiro robô não representou nenhum problema.
Com um
ligeiro feixe de radiações, Gucky transformou-o numa estátua
inútil. Ficou parado aguardando novos impulsos, que não surgiram.
A mesma
coisa aconteceu com o segundo robô, com o terceiro e com os demais
que estavam espalhados pela área do estaleiro, esperando que
acontecesse alguma coisa. Quando aconteceu, não o perceberam mais.
Em menos
de trinta minutos Gucky colocou fora de ação cinqüenta robôs de
combate. Era a metade. Além de mais cinqüenta robôs de combate
havia os trinta trabalhadores que, segundo supunha com toda razão,
estariam no interior do estaleiro, trabalhando a toda potência na
conclusão da nave.
— Vamos
cuidar da fila de guardas postados na entrada do vale. Infelizmente a
distância entre um e outro é de apenas cinco metros. Mas descobri
um jeito de pô-los a dormir.
Colocaram-se
em posição e o rato-castor iniciou seu trabalho. Vindo de trás,
aproximou-se da fila de guardas, cuidando para não ser visto. Isso
não era muito difícil, pois no local a escuridão era muito maior
que no estaleiro.
Até a
metade da fileira tudo correu bem. Mas no momento em que Gucky estava
aplicando seu tratamento ao robô número 15, o número 16 virou-se
pesadamente e dirigiu o raio do holofote embutido na testa para a
fonte do ruído que devia ter “ouvido”.
De um
instante para outro Gucky viu-se banhado em luz.
Numa
fração de segundo o robô constatou que era o mesmo animal que vira
durante o dia e que, portanto, devia ser inofensivo. Acontecia que
segurava uma caixinha brilhante entre as patas, e a lente de cristal
da mesma estava apontada de forma bastante suspeita para o robô
vizinho.
O animal
devia ser dotado de inteligência; logo, era um inimigo.
A reação
do robô foi instantânea, mas o raio energético fulminante só
atingiu o chão ressequido e o capim crestado pelo sol.
Gucky
materializou junto a Tako, que estava duro de pavor.
— Tivemos
azar — cochichou para o japonês. — Tomara que não dêem o
alarma.
Os
primeiros quinze robôs da fila não se interessaram pelo que estava
acontecendo. Mantiveram-se imóveis e apáticos, enquanto os demais
ligaram os holofotes e puseram-se a examinar o terreno. Não
encontraram nada, mas isso não os tranqüilizou. De qualquer
maneira, nenhum deles fez menção de sair do lugar.
— Não
posso aparecer mais por ali — murmurou Gucky, decepcionado, mas
logo assobiou baixinho. — Tako, afinal sou um telecineta — era
uma afirmativa chocante, e Tako reagiu de forma adequada.
— Todo
mundo sabe disso. E daí?
— Ainda
não compreendeu? Posso fazer o nosso instrumento, o tal do radiador
de impulso, sair por aí sozinho. Os robôs são estúpidos; limitam
sua busca ao solo. Acontece que esta caixa sabe voar. Usarei o
controle remoto para narcotizá-los. Como é que não me lembrei
disso antes!
— A
necessidade estimula a criatividade — comentou Tako.
Admirado,
viu como Gucky lidava com a situação.
O próprio
Gucky não fez nada. Agachado na sombra do depósito, mantinha os
olhos fitos na caixinha brilhante, que subitamente perdeu o peso e,
deslocando-se alguns metros acima do solo, foi-se aproximando da
fileira de guardas.
Repentinamente
o número 16 suspendeu as buscas e ficou reduzido à imobilidade. O
vizinho logo o imitou. Não demorou cinco minutos para que toda a
fileira de robôs de combate estivesse transformada num grupo de
inofensivas estátuas metálicas que já não possuíam vida própria.
Numa tranqüilidade estóica aguardariam o momento em que alguém
lhes concedesse uma nova programação e uma nova vida.
Nem que
demorasse mil anos.
Gucky
trouxe o aparelho de volta. Pediu a Tako que não saísse do lugar e
no mesmo instante desapareceu. Dali a um minuto, quando voltou, a
entrada do vale também estava livre de guardas.
— Ainda
faltam dezenove que estão no estaleiro. Não teremos dificuldade em
liquidá-los. Por enquanto não mexeremos nos robôs especializados.
Queremos que terminem a construção da nave. Vamos embora! É o
último round!
Já era
meia-noite quando Gucky conseguiu terminar o trabalho. Noventa e nove
robôs haviam sido reduzidos à inatividade. Apesar de todos os
esforços não conseguiu encontrar o último deles. Em algum ponto da
área ainda havia uma dessas perigosas máquinas. Mas o tempo era
muito precioso para que se pudessem gastar algumas horas na busca.
Os robôs
de trabalho não se deixaram perturbar pelos acontecimentos. Sem
preocupar-se com nada, executavam suas tarefas, esforçando-se para
manter-se dentro do prazo fixado por Borator, o diretor do projeto.
Não seria
Gucky que iria impedi-los.Tama suspirou aliviado quando Tako e Gucky
voltaram. Durante uma hora tivera que ouvir o falatório de Borator,
que despertara do desmaio. No princípio o saltador proferiu ameaças
absurdas, passando depois a formular ofertas tentadoras em troca da
libertação. Tama preferiu não responder, para evitar que o
saltador descobrisse sua identidade. Que Borator quebrasse a cabeça
para descobrir quem pusera as mãos nele.
Quando o
saltador viu Gucky, calou-se abruptamente. Provavelmente sua
consciência o acusava por causa do pontapé.
— Podemos
dar o fora — disse o rato-castor, ocultando a preocupação causada
pelo robô que ainda se mantinha em algum lugar, aguardando a
oportunidade de lutar por seus chefes. — O resto ficará por conta
de Rhodan. Tako, você vai cuidar de Tama. Ainda bem que não tivemos
necessidade de lançar mão dele. Eu me incumbirei de Borator. Já
conhecemos as coordenadas do salto: A sala de conferências de Rhodan
no espaçoporto.
Fizeram os
preparativos.
De um
instante para outro o lugar em que se encontravam ficou vazio. Só a
grama pisada dava testemunho dos seres corpóreos que ali estiveram
há pouco e agora pareciam dissolvidos no ar.
*
* *
Ralv e
Enzally não tiveram a menor dificuldade em reunir no mesmo dia mais
de cinco mil goszuls.
Todos eles
se declararam dispostos a desempenhar o papel que lhes fora
destinado. Os preparativos não consumiram muito tempo. Depois disso
os nativos “infeccionados”
foram colocados em veículos especiais e levados ao espaçoporto,
onde foram alojados nos extensos edifícios da administração a fim
de prepararem-se para a entrada em cena.
Nesse meio
tempo chegaram Gucky, os dois japoneses e o prisioneiro. Com isso os
planos de Rhodan modificaram-se um pouco. Mandou que John Marshall,
Enzally e duzentos elementos “contaminados”
fossem até o vale em que ficava o estaleiro. Ali aguardariam até
que os saltadores chegassem — se é que chegariam. O sugestor Kitai
submetera-os a tratamento, incutindo em sua mente o que deviam fazer.
Os telepatas John Marshall e Enzally cuidariam para que tudo desse
certo.
Faltavam
seis horas para a chegada dos saltadores.
O sargento
Harnahan ainda não dera nenhuma notícia. Foi o que o tenente Fisher
transmitiu da Stardust, quando Rhodan entrou em contato com ele. De
resto tudo estava em ordem, e era muito interessante observar a vida
nas profundezas do mar. Havia alguns animais muito interessantes,
para os quais a pressão da água...
Rhodan não
estava interessado nas formas de vida existentes nas camadas mais
profundas do mar e mandou que Fisher avisasse assim que chegasse
alguma mensagem de Harnahan. E interrompeu o contato.
Onde
estaria Harnahan?
*
* *
Numa
aceleração tremenda, totalmente compensada pelos campos
energéticos, o pequeno caça avançou pelo espaço. O planeta de
Goszul mergulhou com uma velocidade inacreditável no negrume
cósmico. Poderia se dizer que caía no abismo. Em torno dele as
inúmeras estrelas brilhavam, enquanto as galáxias distantes, cuja
luz levara milhões de anos para chegar ali, emitiam uma fraca
luminosidade.
Mais uma
vez Harn, que era o nome pelo qual os conhecidos chamavam Harnahan,
experimentou a sensação excitante da solidão absoluta em meio ao
espaço. Nem por isso deixou de examinar todos os detalhes que
observava ao seu redor e de absorvê-los em sua mente. Aliás, sua
missão era exatamente esta.
O planeta
Goszul transformou-se numa estrela reluzente, iluminada em cheio por
seu sol. Harn modificou ligeiramente sua rota para colocar-se na
sombra do planeta. Se surgisse alguma emergência isso não
adiantaria muito, mas sempre concorria para tranqüilizá-lo.
Os
saltadores deviam encontrar-se a várias horas-luz de distância.
Seria inútil ligar os instrumentos naquela hora. Devia procurar uma
posição favorável, que lhe permitisse uma boa observação. Também
era importante que não pudesse ser descoberto com muita facilidade.
Tirou do
bolso o mapa especial que Rhodan lhe havia dado. O mesmo continha uma
representação esquemática do sistema no momento em que se
encontravam.
Logo teve
a atenção despertada para o quarto planeta. Devia possuir ao menos
cinqüenta luas pequenas, que circulavam em torno dele nas órbitas
mais variadas.
À
primeira vista, Harn achou que esse sistema de pequenas proporções
não era nada simpático.
Voltou a
corrigir a rota e, desenvolvendo uma velocidade próxima à da luz,
correu velozmente em direção ao novo objetivo.
Dali a
menos de uma hora teve que desacelerar a nave, para não colidir com
uma das pequenas luas. O sistema podia ser comparado com uma mistura
de anéis de Saturno com o círculo de asteróides. Os fragmentos de
um antigo planeta gêmeo, ou de uma lua maior, circulavam a esmo em
torno do quarto planeta. Não formavam um círculo ordenado como os
fragmentos da antiga lua de Saturno, mas também não descreviam
órbitas em torno do sol como o círculo de asteróides. Mantinham-se
junto ao astro de que provinham.
Não era
fácil orientar-se naquele setor do espaço.
Pelos seus
cálculos a frota dos saltadores devia encontrar-se a dez horas-luz.
Havia tempo de sobra para dar uma olhada por ali, procurando um bom
esconderijo.
Muitos dos
fragmentos tinham menos de um quilômetro de diâmetro, enquanto
outros chegavam a cinqüenta quilômetros. Manobrando cautelosamente,
conduziu o pequeno foguete em meio à confusão dos fragmentos que se
deslocavam lentamente, gozando em cheio a satisfação de ser o único
ser vivo naquela desolação.
Já
retirara as placas protetoras de metal, de modo que a carlinga
deixava livre a visão. Realizava um vôo puramente visual, sem
instrumentos. A pequena nave reagia prontamente à menor pressão dos
dedos. A cabine era apertada, mas o excelente equipamento de
condicionamento de ar fazia com que a permanência nela se tornasse
suportável.
Harn tomou
um tablete energético das reações de emergência e bebeu um gole
de água. O suprimento de oxigênio e de alimentos bastava para três
meses, o que evidentemente era uma simples precaução. Mas também
proporcionava uma tranqüilidade que não era de desprezar.
Uma lua
relativamente grande aproximou-se de lado. Sua superfície irregular
e entrecortada mostrava extensas cadeias de montanhas e vales
profundos, nos quais nunca penetrava a luz do sol distante nem os
reflexos débeis do planeta. Pelos cálculos de Harn, seu diâmetro
devia ser de cerca de oitenta quilômetros; seu tamanho correspondia
ao de um respeitável asteróide.
Se mais
tarde alguém perguntasse a Harnahan por que escolhera justamente
essa lua como ponto de observação, receberia as respostas mais
contraditórias. Ora diria que foi por causa da conformação
favorável da superfície, que oferecia ótimos esconderijos, e de
outras vezes afirmaria de pés juntos que um sentimento inexplicável
literalmente o havia arrastado para baixo. De qualquer maneira, a
escolha de Harnahan não poderia ter sido mais feliz.
O sargento
deu duas voltas em torno da lua antes de descobrir uma cadeia de
montanhas apropriadas aos seus propósitos.
Lentamente
e com a maior cautela foi dirigindo o caça para a superfície e
pousou no cume achatado de uma montanha relativamente elevada, que
excedia as outras por algumas centenas de metros. Era um platô que
permitia a visão para todos os lados e, em virtude da acentuada
curvatura da superfície daquela lua, deixava livre um setor de mais
de setenta por cento do céu. E não era tudo.
No centro
do pequeno platô havia uma depressão. Seu tamanho era exatamente o
necessário para abrigar o caça espacial. Se Harn se desse ao
trabalho de colocar cuidadosamente algumas rochas sobre o aparelho,
ninguém descobriria o foguete, mesmo que passasse a vinte metros de
altura.
Harn
examinou cuidadosamente o terreno antes que manobrasse a nave para a
depressão, mediante o campo gravitacional ativado a uma potência
mínima. Uma vez lá, atingiu a posição de repouso. A carlinga mal
e mal sobressaía da abertura pouco profunda.
O
gravímetro indicava 0,01g. Era muito pouco. Harn teria que agir com
cautela para não executar um movimento precipitado, que faria com
que ultrapassasse a velocidade de fuga, passando a circular em torno
da lua como se fosse um satélite dela.
Olhou para
o relógio. Estava na hora de instalar-se com um certo conforto.
Com um
movimento rápido, fechou o capacete de seu traje pressurizado. Com
algum esforço, enfiou-se no pequeno compartimento do solo da cabina,
que servia de comporta de ar. Não levou nenhuma arma. Para quê. Por
ali não podia haver ninguém que pudesse ameaçá-lo. Além disso,
precisava conservar as mãos livres, pois não seria nada fácil
empilhar a massa ainda respeitável das rochas, leves como uma
penugem, em torno da carlinga e por cima do corpo da nave.
Não era a
primeira vez que Harn se encontrava no espaço, e nem mesmo a
gravitação reduzida da lua o impressionava. Mas desta vez as coisas
eram diferentes. Mal saiu de baixo do foguete e levantou-se, o cume
da montanha começou a afundar diante dele como se o tivesse afastado
com um pontapé. Subiu quase cinqüenta metros e deu uma cambalhota
lenta. O céu girou em torno dele e por um instante terrível perdeu
o senso de orientação e acreditou estar caindo nas profundezas do
Universo. Com alguns movimentos bem calculados reduziu seu movimento
de rotação. A superfície da lua voltou a situar-se bem embaixo
dele e aproximou-se lentamente. Estava caindo.
A menos de
duzentos metros do foguete pousou suavemente na encosta da montanha.
Segurou-se instintivamente numa rocha. Dali a pouco riu. Foi um riso
alegre e despreocupado. O riso de um menino que conseguiu pregar uma
peça a alguém.
Visando o
cume da montanha, empurrou-se cautelosamente. A uns três metros do
solo subiu encosta acima como um projétil e logo se viu sobre o
platô. Aterrizou junto ao foguete.
Não tinha
mais a menor dúvida de que conseguiria deslocar-se ordenadamente
sobre a superfície do planeta. Era apenas uma questão de hábito e
adaptação.
Havia
rochas em quantidade. Harn pegou-as uma por uma e colocou-as sobre o
foguete, de tal forma que só a cúpula sobressaía acima delas. Era
praticamente impossível que a mesma fosse descoberta por alguém que
se encontrasse no espaço. Por outro lado, Harn tinha uma
oportunidade única de inspecionar todo o sistema, pois o lento
movimento de rotação da lua possibilitava a visão para todos os
lados. E não haveria a menor dificuldade em decolar numa questão de
segundos, pois os blocos de pedra não representavam nenhum acréscimo
de carga para os potentes propulsores da nave. Deslizariam de cima
dela e cairiam na lua.
Harn olhou
para o relógio. Ainda dispunha pelo menos de cinco horas antes que
chegasse o momento crítico. Talvez fosse conveniente entrar em
contato com a Stardust para informar Fisher sobre o ponto em que
resolvera instalar-se. Mas não havia pressa.
Não seria
preferível aproveitar a chance única de ver um mundo estranho e
desabitado, onde andar devia ser um prazer enorme?
Por um
instante pensou em pegar a pistola de radiações que se encontrava
na nave. O recuo da mesma lhe permitiria corrigir a velocidade e a
direção dos saltos. Mas desistiu do seu intento. Mesmo que se
enganasse nos seus cálculos, nada lhe poderia acontecer. A
gravitação era tão reduzida que nem mesmo a queda mais profunda
poderia produzir qualquer ferimento.
Lançou
mais um olhar para o foguete bem camuflado e, com um ligeiro impulso,
disparou obliquamente para o céu negro, formando um astro
independente, praticamente libertado de qualquer gravitação que o
prendesse a um outro mundo. Calculara o salto de maneira a atravessar
o vale que separava a montanha dos cumes mais próximos, um pouco
mais baixos. Bem embaixo passaram rochas íngremes e grotas
entrecortadas. Não seria nada agradável pousar ali, mas um único
impulso bastaria para colocá-lo em segurança.
O ligeiro
temor revelou-se infundado. O vôo fora tão bem calculado que pousou
são e salvo no cume da montanha mais próxima.
Aqui o
panorama não era muito diferente daquele que se descortinava da
primeira montanha. Deu mais dois saltos, o último dos quais fez com
que ele avançasse mais de trezentos metros em linha reta, e chegou à
planície. Durante dez minutos contentou-se em subir simplesmente na
vertical e, criando coragem, empurrava-se cada vez com mais força.
Pelos seus
cálculos alcançou uma altura recorde de cento e cinqüenta metros
antes que começasse a descer lentamente. Depois procurou quebrar o
recorde mundial em salto a distância, o que não foi nada difícil.
Numa parábola esticada atingiu a marca dos quinhentos metros, o que
não era de desprezar. Quando contasse a façanha aos colegas, estes
se roeriam de inveja ou o chamariam de mentiroso.
As
tentativas levaram-no para junto de uma cadeira de montanhas que
chamava a atenção pela encosta lisa, que se apresentava como uma
parede. Devia ter uns dois quilômetros de altura. Depois de um exame
cuidadoso, Harn constatou algumas saliências na encosta, motivo por
que decidiu que, para coroar sua aventura, venceria este obstáculo
e, uma vez atingidos os píncaros da encosta, realizaria um longo
vôo.
A coisa
não foi tão simples como ele imaginara. Depois do impulso subiu
quase na vertical, mas não conseguiu aproximar-se do paredão o
suficiente para encontrar um apoio. Quando a força do impulso
cessou, foi descendo com a encosta quase ao alcance da mão. A
experiência nos ensina muita coisa. A segunda tentativa fez com que
ele pousasse sobre uma estreita faixa de rocha que sobressaía do
paredão cem metros acima da planície. Se estivesse nessa situação
numa montanha da Terra, Harn se agacharia e esperaria que os guardas
montanheses viessem resgatá-lo. Mas aqui as coisas eram diferentes.
Olhou para a terrível profundeza e não sentiu a menor tontura.
Acima dele
o paredão não era tão liso como acreditara. Dali a cinqüenta
metros havia uma saliência. Fixou-a e saltou. Seus dedos
agarraram-se a rocha nua e sem o menor esforço conseguiram levantar
o corpo.
Outro
salto.
Em menos
de trinta minutos chegou ao cume. O panorama ultrapassou todas as
perspectivas. Não havia nenhuma atmosfera que pudesse turvar os
horizontes. As pontas das montanhas que afundavam atrás da curvatura
pareciam tão próximas que se tinha a impressão de poder
alcançá-las num único salto. Dois quilômetros abaixo de Harn
estendia-se a grande planície. Se desejasse, poderia realizar um
velho sonho da juventude, saltando para lá. Quantas vezes não
desejara isso quando, depois de escalar uma montanha à custa de
muito esforço e suor, via os vales e os lagos estenderem-se lá
embaixo. Agora poderia fazê-lo, se quisesse. Do outro lado da
planície viu uma montanha. Ficava longe para quem quisesse andar.
Mas Harn voaria.
Harn
sentiu-se tomado por uma espécie de embriaguez. Com um grito de
alegria empurrou-se vigorosamente e deslizou a pequena distância dos
cumes, que eram pouco acidentados. Mas não eram muito largos. Do
outro lado a encosta não era tão íngreme, mas em compensação
estava entrecortada de rochas e grotas.
Subitamente
as montanhas terminaram num paredão.
Harn
aproximou-se cautelosamente e olhou para baixo. Tinha a impressão de
que a bacia que se estendia abaixo dele ficava em nível mais baixo
que a planície da qual viera, mas talvez fosse uma simples impressão
causada pelas encostas quase verticais que cercavam a depressão
quase por completo.
Harn ficou
uns dez minutos junto ao precipício, desfrutando a vista que na
Terra lhe daria ao menos um calafrio. Finalmente resolveu realizar o
velho sonho.
Abriu os
braços e tomou ligeiro impulso. Empurrou-se na beira do abismo e
como um passarinho foi planando para o nada.
Começou a
cair aos poucos. Bem atrás dele o paredão foi deslizando para cima,
enquanto ele mesmo ia descendo numa queda sempre mais vertical, em
direção ao fundo da bacia, que se aproximava lentamente.
Demorou
muito, muito mesmo até que os pés tocassem o chão. Fizeram-no com
uma elegância que teria impressionado qualquer observador. Harn já
adquirira alguma experiência em assumir qualquer posição que
desejasse durante a queda muito lenta.
Estava
quase no meio da bacia, um pouco mais próximo à cadeia de
montanhas. O chão era liso e plano. À direita via-se um setor da
grande planície, através da qual acabara de saltar.
Mas a
montanha que se encontrava diante dele era mais interessante. Era uma
bola de formato regular e de pouca altura. O topo era arredondado,
lembrando a proa de uma nave espacial. De resto a montanha era lisa,
sem apresentar saliência. Chegava a dar a impressão de ter sido
trabalhada artificialmente; é claro que essa idéia não passava de
rematada tolice. Ninguém poderia viver aqui, e ninguém se daria ao
trabalho de modificar o formato de uma montanha.
Depois de
um exame mais atento, viu alguma coisa regular no pé da elevação
piramidal. Ficava bem no centro. Era quadrado, como se fosse uma
porta.
Seria uma
porta que conduzia para o interior da rocha? Harn chamou a si mesmo
de idiota e efetuou o primeiro salto, contendo a força do impulso.
Percorreu menos de trinta metros antes de pousar no solo.
A porta
continuava no mesmo lugar!
Na
verdade, não era nenhuma porta. Parecia antes uma chapa de metal
incrustada no paredão.
Mais um
salto. Aquela porta maluca ainda se encontrava a cem metros. Harn
respirou profundamente, lembrou-se vagamente de que seu suprimento de
oxigênio dava para mais três horas, e saltou pela última vez.
Pousou bem
na frente da chapa de metal.
Diante da
chapa, três degraus penetravam montanha adentro. Terminavam diante
da porta.
Na soleira
da porta havia uma esfera que brilhava em todas as cores do
arco-íris.
— Seja
bem-vindo, Harnahan — disse alguma coisa no cérebro de Harn. —
Esperei muito por você.
4
Topthor
não manteve contato pelo rádio com as onze naves de sua frota, pois
não quis assumir qualquer risco. O alcance das ondas audiovisuais
era bastante limitado, de maneira que não havia perigo de que alguém
pudesse ouvi-los.
— Falta
meia hora — disse Topthor, cumprimentando o rosto de Rangol que
surgiu na tela. — Ali reduziremos a velocidade. Voaremos
diretamente para o espaçoporto do planeta Goszul e pousaremos lá. O
que vamos fazer depois depende das circunstâncias.
— Por
que não cuidamos em primeiro lugar do estaleiro? Afinal, temos as
coordenadas.
— A nave
ainda não está pronta e não vai fugir. A direção do projeto está
a cargo de um certo Borator. Dizem que é um elemento de confiança.
Bem, nas circunstâncias atuais isso não quer dizer muita coisa.
Surgiu uma
pausa prolongada, durante a qual cada um dos interlocutores estava
mergulhado em seus pensamentos, que diferiam bastante. A união só
surgiria no momento em que o perigo se tornasse agudo.
O planeta
Goszul cresceu, enquanto a velocidade das duas naves diminuía
rapidamente. Enquanto isso, conforme sabia Topthor, as onze naves
restantes circulavam em torno do sistema, cuidando para que ninguém
saísse dele... ou penetrasse nele.
Poucos
minutos depois, a linha costeira do continente que os nativos
chamavam de Terra dos Deuses saiu da sombra do planeta, penetrando na
zona iluminada pelos raios refulgentes do sol. Um novo dia estava
começando lá embaixo.
Topthor
fez um sinal para Rangol.
— Estamos
chegando em boa hora. Não faço a menor idéia do que os nativos
poderão ter feito com o planeta sem dono, mas será preferível
agirmos com cautela. Se a epidemia se alastrou ainda mais teremos que
lidar com gente louca, talvez com rebeldes. Mas seja como for,
teremos que desincumbir-nos de nossa tarefa.
— Será
que não podemos ser contaminados?
— Em
hipótese alguma. Antes de mais nada vamos desembarcar robôs, que
serão trancados nos compartimentos especiais juntamente com o
material que for resgatado. Depois serão expostos ao vácuo. Acho
que nem mesmo a mais resistente das bactérias sobreviverá a isso.
— É uma
boa idéia — disse Rangol. — Não posso imaginar um desinfetante
mais eficiente que o espaço cósmico.
— Dificilmente
haverá — confirmou Topthor. — Atenção, daqui a pouco vamos
pousar. Pelo que vejo o espaçoporto parece estar vazio. Não há
ninguém por ali.
As duas
naves baixaram lentamente sobre o campo de pouso abandonado e
finalmente tocaram o solo. Topthor teve a impressão de que toda vida
se extinguira no planeta de Goszul. A grande área vazia estendeu-se
diante de seus olhos, que a examinavam atentamente. Também nos
edifícios que margeavam o campo de pouso não parecia haver o menor
resquício de vida. Ao leste, o sol surgiu por cima das colinas,
mergulhando as últimas sombras numa luz ofuscante. O colosso
superpesado, acomodado junto aos controles da Top I, afastou as
preocupações com um simples gesto.
— Faremos
sair cinqüenta robôs de trabalho e igual número de robôs de
combate — disse, dirigindo-se a Rangol. Ligou o intercomunicador
para entrar em contato com os postos de comando da nave. — Talvez
os goszuls se tenham recolhido às montanhas. É estranho que não
haja nenhum robô de vigilância.
Os
oficiais de plantão responderam ao chamado. Sem tirar os olhos dos
edifícios distantes, Topthor ordenou:
— Vamos
colocar em terra cinqüenta robôs de trabalho e igual número de
máquinas de combate destinadas à proteção dos mesmos. Utilizem a
escotilha de carga que já foi preparada. Rangol, assuma o
telecomando dos trabalhadores, Eu cuidarei do contingente de
proteção.
Dali a dez
minutos cem robôs pesados atravessaram a passos retumbantes as
rampas e pisaram na superfície do planeta contaminado, no qual não
parecia existir mais nenhuma vida. Agruparam-se em duas unidades e
puseram-se em marcha. Seus destinos eram os edifícios da
administração e os postos de controle dos robôs estacionados no
planeta.
Como um
enorme toco, Topthor estava sentado na poltrona disforme,
acompanhando a ação. Através do aparelho de tele direção assumiu
o controle direto dos robôs de combate. Não queria que uma eventual
decisão ficasse a cargo dos cérebros positrônicos.
Por
enquanto não aconteceu nada. A surpresa de Rhodan ainda se faria
esperar.
Quando o
exército teleguiado havia percorrido aproximadamente metade do
caminho, alguma coisa começou a mover-se entre as árvores
raquíticas plantadas diante dos edifícios. Topthor logo percebeu.
Eram goszuls, os nativos desse mundo. Reconheceu-os pelo catálogo ao
qual recorrera para informar-se sobre o mundo em que teria de ser
executada a tarefa.
Uma tela
amplificadora permitiu-lhe ver ainda mais.

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