terça-feira, 8 de janeiro de 2013

P-037 - O Planeta Louco - Clark Darlton [parte 2]

Talvez você tenha razão, Gucky. Mas você não disse que de qualquer maneira os robôs enviariam a nave para as coordenadas já fixadas? Estou pensando numa coisa. A nave seria tripulada pelos robôs? Ou será que estes ficariam para trás?
Não sei. Não tive tempo para descobrir tudo.
Esse detalhe seria muito interessante. Se os robôs receberam a incumbência de abandonar o planeta de Goszul no couraçado recém-construído, já saberíamos o motivo do surgimento dessa frota. Ela deve impedir que os robôs executem a tarefa.
Os saltadores não querem que a epidemia... não, não havia nenhuma lógica nisso. Se os saltadores supõem que o transmissor da moléstia também se fixa sobre o metal, terão que concluir fatalmente que a nave está contaminada. Não sei por quê, mas acho que há algum bicho escondido em tudo aquilo. Bem que gostaria de saber onde está esse bicho.
Não gosto de bichos menos ainda que de capim — chiou Gucky em tom confiante — mas estou disposto a colaborar para a boa causa e procurar o bicho.
Rhodan sorriu.
Isso pode ser fácil, mas também pode ser muito difícil, pois a mentalidade dos saltadores é completamente diferente da nossa. Talvez a verdade nos decepcione quando a descobrirmos. Um momento, a sala de telegrafia está chamando. O que houve, Fisher?
Captamos sinais de telegrafia. Ainda não foram decifrados, mas se parecem com os dos saltadores. Se não estiverem transmitindo em código, poderei fornecer o texto dentro de dez minutos.
Bell encostou o indicador esquerdo ao nariz, o que era um sinal de que refletia profundamente. Rhodan lançou-lhe um olhar curioso. Gucky exibiu o dente roedor e deu um sorriso de deboche. Para o rato-castor um Bell pensante parecia uma coisa muito engraçada. Os outros mantiveram-se na expectativa.
Então? — perguntou Rhodan.
Bell levantou os olhos.
Lembrei-me de uma coisa — anunciou ao auditório que ouvia ansiosamente. — Se é que uma frota dos saltadores se aproxima desse planeta, e se esses saltadores não sabem que estamos aqui, devemos pensar em dar o fora. Resta saber para onde poderíamos ir. Não podemos cogitar de uma transição, pois ela trairia nossa presença. Os hangares do espaçoporto são muito pequenos. Então, o que vamos fazer? Mergulhar na terra?
Os outros ocupantes da sala olharam-se surpresos. Bell acertara em cheio. Estavam por ali, desenvolvendo seus planos, esquecidos de que, dentro de vinte horas o mais tardar, os antigos donos desse mundo estariam de volta para executar seus planos ainda desconhecidos. Os saltadores ainda estavam acreditando que tudo aquilo não passara duma epidemia que infetara os nativos. E Rhodan pretendia fazer com que continuassem nessa crença.
Os três cruzadores cabem nos hangares subterrâneos — disse Rhodan. — Gostaria de tê-los por perto, mesmo que os saltadores resolvam pousar. Teremos meios de evitar que verifiquem o que há nos hangares. Qualquer indicação da presença da epidemia será suficiente para isso. Resta a Stardust. Para ela não existe nenhum hangar. E se fosse para o espaço, os instrumentos dos saltadores logo constatariam sua presença — por alguns segundos Rhodan concentrou-se nas suas reflexões. Subitamente olhou para Ralv. — Conhece seu planeta? — o goszul confirmou com um lento aceno de cabeça. — Muito bem. Qual é a profundidade dos seus mares?
O rosto de Ralv não parecia muito inteligente, pois não compreendia por que Rhodan estava interessado em conhecer a profundidade dos mares. Mas Bell já havia compreendido.
Quer deitar a Stardust no oceano? — perguntou espantado. — É uma idéia simples que nunca me teria ocorrido. Ótimo. Assim poderei dedicar-me à pesquisa submarina. Sempre tive vontade de fazer isso.
Você não terá tempo para isso — disse Rhodan.
Ralv confabulou com Enzally e Geragk.
A trinta quilômetros da costa ocidental começa o grande fosso. Sua profundidade média é de três mil metros.
É exatamente do que precisamos — confirmou Rhodan. — Se a Stardust estiver coberta por uma camada de água de dois quilômetros de espessura, ninguém conseguirá localizá-la. E para a tripulação é indiferente que a nave seja cercada pela água ou pelo espaço vazio.
Gucky atravessou a sala a passos balouçantes e plantou-se diante de Rhodan. O dente roedor parecia brilhar numa atitude provocadora, mas os olhos castanhos de cão pareciam exprimir a fidelidade e a ternura de sempre.
Será que sou um rato da água? — piou em tom recriminador.
Rhodan esboçou um sorriso condescendente.
Pela sua cauda achatada poderíamos ser levados a concluir que seu habitat é a água — disse em tom irônico. — Aliás, é de admirar que você venha de um mundo em que quase não existe água. Bem, vou tranqüilizá-lo. Ninguém disse que você mergulhará junto com a Stardust. Preciso de você na superfície.
Bell interrompeu-o.
O que vamos fazer? Os três cruzadores serão escondidos nos hangares subterrâneos, e a Stardust ficará embaixo da água. Até aí muito bem. Mas o que acontecerá conosco?
Conosco? — Rhodan exibiu um sorriso franco.
Parecia divertir-se a valer, o que deixou Bell ainda mais aborrecido. Também Deringhouse, Nyssen e MacClears pareciam não ver motivo para alegrar-se pelo simples fato de que, por assim dizer, teriam de bater em retirada.
Apenas Enzally, Marshall e Gucky, que eram telepatas, sorriram como que por comando.
O que acontecerá conosco? — prosseguiu Rhodan. — É muito simples, meus caros. Nós nos faremos de loucos.
Mal os cruzadores Solar System, Terra e Centauro haviam desaparecido nos gigantescos pavilhões subterrâneos existentes embaixo do campo de pouso, o tenente Fisher veio com uma nova notícia que não deixou que o nervosismo esfriasse.
Outra novidade. A frota se divide. Ainda estão a quinze horas-luz, mas já se dividem. Ao que parece querem bloquear todo o sistema.
Rhodan, que ouviu a notícia por meio de um pequeno aparelho embutido na pulseira, esperou alguns segundos antes de responder. Encontrava-se numa das extremidades do campo de pouso, olhando como as portas camufladas dos hangares se fechavam lentamente.
Os cruzadores haviam desaparecido da superfície do planeta, e alguns robôs reprogramados dos saltadores foram colocados nos controles. Quem quisesse abrir o hangar, teria que entender-se com eles.
Diga ao major Deringhouse que me mande um bom piloto em um caça espacial.
Quando a Stardust estivesse no fundo do oceano, não seria possível acompanhar os movimentos da frota inimiga. No entanto, Rhodan não pretendia deixar entregues ao acaso os acontecimentos que se aproximavam. Ao que tudo indicava, sua suposição de que a frota dos saltadores iria pousar em formação compacta não se realizaria.
Dali a um minuto, uma abertura relativamente pequena abriu-se no envoltório da Stardust. Um torpedo esguio saiu por ela e pousou a poucos metros de Rhodan. A carlinga abriu-se e um rosto masculino ainda jovem contemplou Rhodan com um sorriso de expectativa.
O sargento Harnahan apresentando-se para a missão especial.
Rhodan retribuiu o sorriso.
As coisas não serão nada fáceis para o senhor, sargento. Mantenha contato pelo rádio com o tenente Fisher. Observe a frota dos saltadores e mantenha-nos informados sobre sua movimentação. Permaneça no espaço, evitando qualquer encontro com os saltadores. É muito importante que ninguém desconfie da sua presença. O senhor será nosso olho, Harnahan, pois nossos instrumentos de observação estarão cegos. Muitas felicidades.
Obrigado — respondeu o sargento, fechando a carlinga. Dali a um segundo o campo antigravitacional fez com que o caça disparasse para o alto. Pouco depois Harnahan ligou os propulsores e num instante desapareceu na atmosfera azul.
Rhodan seguiu-o com os olhos e sentiu-se um pouco melhor. Os caças espaciais, pequenos e pouco numerosos, eram foguetes que desenvolviam a velocidade da luz e só podiam abrigar um piloto. Seu armamento consistia num canhão de impulsos rigidamente montado na proa e numa instalação para a criação de campos protetores. A cabine pressurizada possuía equipamento de condicionamento de ar e uma minúscula comporta de ar. As pequenas asas do aparelho de proa pontuda permitiam vôos na atmosfera, isso se o piloto não preferisse utilizar o equipamento antigravitacional, que fora acrescentado recentemente.
Alguns dos caças ainda possuíam equipamentos de observação ultra-sensíveis. Era o caso do aparelho do sargento Harnahan.
Bell aproximou-se. Viu que Rhodan olhava para cima e seguiu seu exemplo. Depois de algum tempo sacudiu a cabeça.
Você acaba abrindo um buraco no ar de tanto olhar, meu caro. Harnahan já se encontra a muitos quilômetros de distância e não o ouvirá mais se você chamar. Acho que devemos cuidar da Stardust. Está na hora de fazê-la desaparecer.O comando da nave esférica foi confiado ao major Nyssen, que logo a levou ao lugar indicado, situado a cerca de trinta quilômetros da costa. Dentro de poucos minutos fez o monstro mergulhar nas ondas do oceano. A precária ligação pelo rádio mantida com Rhodan representava o único contato com o mundo exterior, que foi preparado febrilmente para entrar em cena.
Entraria em cena para apresentar uma comédia, que tinha um fundo muito sério.
Rhodan distribuiu os papéis.
Gucky vai assumir a direção do comando que se encarregará do estaleiro. O teleportador Tako Kakuta e o telecineta Tama Yokida irão com ele. Levem o novo aparelho e tratem de paralisar os robôs. As novas instruções podem esperar. Eu mesmo providenciarei essa parte. Ralv e seus homens receberão instruções de Marshall, que já sabe o que deve fazer. Não sabemos quais são os planos dos saltadores. Até ignoramos se pretendem pousar. Por isso devemos estar preparados. Ficarão admirados ao notar o que pode acontecer quando a população de um planeta perde a memória — e com ela o medo.
Será a moléstia de novo? — perguntou Kitai Ishibashi, o sugestor do Exército de Mutantes.
Não é bem isso — disse Rhodan com um sorriso. — Seria muito complicado e levaria muito tempo. Desta vez temos de agir depressa, pois dentro de dez horas os saltadores poderão estar aqui. Marshall pedirá a Ralv e seus homens que apliquem uma tatuagem em cerca de dez mil goszuls e...
Uma tatuagem? — disse Bell, respirando com dificuldade.
Isso mesmo — confirmou Rhodan. — O líquido que será usado é inofensivo mas, uma vez aplicado na pele, faz com que dentro de uma hora a pele apresente lindas manchas. Até parece que a pessoa caiu numa lata de tinta. Foi mais ou menos o aspecto que tiveram os nativos quando apanharam a doença. Se as pessoas pintadas se fizerem de doidas, a impressão causada será perfeita. Kitai providenciará para que os goszuls sejam bons artistas.
O sugestor japonês sorriu.
É a coisa mais fácil deste mundo. Os saltadores ficarão admirados ao verem do que é capaz um homem sem memória.
Podia mesmo contar sua vantagem. Como sugestor que era, podia impor sua vontade aos goszuls, ajudando-os a representar o seu papel. Se fosse necessário, os goszuls desempenhariam o papel de artistas sem saberem.
O major Deringhouse olhou pela janela do edifício de um pavimento em que se haviam instalado. O sol já se encontrava junto ao horizonte e não demoraria a desaparecer.
Os saltadores deviam chegar ao raiar do dia.
Suspirou.
O que devo fazer?
Rhodan lançou-lhe um olhar ligeiro.
É possível que o senhor não tenha nada a fazer. Isso depende da evolução dos acontecimentos, especialmente dos planos que os saltadores pretendem executar e o risco que estão dispostos a assumir. O senhor dispõe de cinco caças espaciais bem escondidos nas montanhas mais próximas e de cinco pilotos. Com isso o senhor não pode enfrentar as naves dos saltadores, mas sim uma expedição que os mesmos resolvam colocar no planeta. Aguarde minhas ordens; em hipótese alguma deve agir por conta própria.
Bell empertigou-se.
E eu? O que é que eu vou fazer?
Sinto decepcioná-lo — disse Rhodan. — Você ficará comigo, e perto de mim provavelmente não acontecerá muita coisa.
Quer dizer que mais uma vez vou ficar no quartel-general — resmungou Bell, contrariado. — Enquanto os outros vivem aventuras e saem da batalha com a auréola de heróis, nós ficamos mofando por aqui. Vamos ficar mesmo por aqui? — de repente parecia muito preocupado. — Não venha me dizer que vamos ficar no campo de pouso. O que acontecerá se os saltadores pousarem e vierem até aqui?
Nesse caso você terá sua aventura — disse Rhodan com um sorriso amável.
Vamos dar o fora — disse Gucky, lançando um olhar convidativo para Tako.
Tama, o telecineta, levantou-se. Como não soubesse executar a teleportação, dependia da carona de Gucky ou de Tako.
Tenham cuidado — recomendou Rhodan e deu a Tako uma pequena caixa metálica em forma de cubo, na qual havia vários botões e escalas. — Peguem os robôs um por um. — Fez um sinal para Gucky: — Não devem desconfiar de nada, senão darão o alarma.
Não se preocupe. Agiremos que nem os ratos — chilreou Gucky.
Bell sorriu.
Para você isso não deve ser nada difícil.
Gucky lançou-lhe um olhar de desprezo antes de segurar a mão de Tako e Tama. Subitamente uma parede reluzente parecia interpor-se entre eles e os outros membros do grupo, e logo desapareceram.
No mesmo instante materializaram-se nas montanhas, atrás de uma pilha de caixas.
Rhodan fez sinal para que Marshall se aproximasse.
Inicie imediatamente o seu trabalho. Ralv está informado. Se os saltadores pousarem em outro ponto do planeta, o azar será nosso, mas dificilmente isso acontecerá. A única coisa que lhes interessa é este continente. Afinal, este espaçoporto é o único que existe no planeta de Goszul.
Marshall confirmou com um aceno de cabeça e retirou-se. Um carro que já o aguardava levou-o, juntamente com seu equipamento, à cidade portuária não muito distante, onde Ralv já o esperava com seu grupo de homens dedicados.
As únicas pessoas que ficaram para trás foram Rhodan, Bell, Deringhouse e Kitai, o sugestor, que só mais tarde seguiria Marshall.
E agora? — perguntou Deringhouse, entediado. — Será que vamos criar raízes aqui?
Não — respondeu Rhodan. — Só ficaremos aqui até que os saltadores pousem.



3



Estava escurecendo quando Gucky e seus dois companheiros materializaram-se junto à pilha de caixas. Felizmente não havia ninguém por perto. Correram para trás das caixas e esconderam-se. Por enquanto estavam em segurança.
Será que trabalham de noite? — cochichou Tama.
Aquele ambiente estranho deixava-o apavorado. Tinha a impressão de ser observado constantemente por olhos invisíveis.
Os robôs não conhecem cansaço — esclareceu o rato-castor. — Tenho certeza de que Borator não faz nenhuma pausa. Sabe o que aconteceu no planeta de Goszul e fará o possível para colocar-se em segurança. A nave se enquadra perfeitamente em seus planos, que não são difíceis de adivinhar.
Você acha que pretende fugir nela?
Naturalmente. Fique quieto, ouço alguém que se aproxima — aguardou alguns segundos e cochichou: — É o saltador. Estou captando seus pensamentos. Ainda não está dormindo.
Os três transformaram-se em sombras imóveis agachadas atrás das caixas. Gucky perscrutou a escuridão.
Mais cinco dias”, pensou Borator num misto de satisfação e impaciência. “Aí terá chegado a hora. Malditos patriarcas! Deixaram-me aqui, esperando que contraísse a doença e esquecesse que estou construindo uma nave para eles. Estão redondamente enganados. Se acreditam que entregarei isto conforme o figurino estão fazendo um cálculo errado. A doença não chegou até aqui. Logo, posso levar alguns robôs de combate e alguns especialistas. Não há perigo... ficarão admirados... que baixeza...”
Satisfeito, Gucky sorriu. Não havia motivo para preocupar-se: a suposição de que dali a cinco dias a nave fosse dirigir-se para as coordenadas preestabelecidas não tinha fundamento. Borator pretendia fazer um negócio todo seu. Talvez pretendesse mesmo usar a nave para fundar um novo clã.
Aos cochichos informou os companheiros e acrescentou:
Borator vai para a cama. Talvez consiga descobrir mais alguma coisa. Poderíamos deixar que concluísse tranqüilamente a sua obra, mas infelizmente não temos tempo. Quando os saltadores pousarem, o estaleiro deverá estar em nosso poder. Esperem aqui. Vou sondar a situação.
Era uma expressão ensinada por Bell. Havia várias, mas esta ao menos era publicável.
Os dois japoneses não se sentiram muito à vontade ao saberem que ficariam sós naquele ambiente desconhecido. Prometeram que em hipótese alguma sairiam do lugar. Face a isso, Gucky teleportou-se tranqüilamente atrás de Borator.
O saltador estava dobrando a quina de um depósito; passando por alguns robôs que patrulhavam a área, dirigiu-se à pequena casa que lhe servia de residência, situada em local um pouco distante. Gucky julgou preferível não pôr mais uma vez à prova a indiferença dos robôs diante dos coelhos. Teleportou-se diretamente para a casa, onde aguardou o saltador na sombra de algumas moitas ressequidas.
Borator pensava ininterruptamente enquanto atravessava a área fronteira iluminada pelas lâmpadas.
Pensava numa porção de coisas, menos nos planos que pretendia executar. Despreocupado, mas dominado pela impaciência, foi caminhando, sem desconfiar de que seus pensamentos estavam sendo captados. Passou a poucos metros de Gucky, abriu a porta do bangalô e acendeu a luz. A luminosidade atingiu a moita em que Gucky estava escondido. Mas Borator só pensava numa coisa: dormir. Estava cansado.
Ainda bem”, pensou ligeiramente, “que os robôs não sabem o que é cansaço. Quem sabe se não conseguiriam colocar a nave em condições de decolar no prazo de quatro dias.”
Gucky aguardou impaciente. Concentrando-se muito, quase chegava a enxergar através dos olhos de Borator, vendo o que este fazia: Uma refeição ligeira, um chuveiro frio e a cama.
Os pensamentos tornaram-se cada vez mais confusos até resvalarem para o irreal.
Borator estava dormindo.
Gucky não perdeu mais tempo. Preferiu não usar suas faculdades especiais. Como qualquer outra criatura, entrou pela janela aberta e desceu cautelosamente para o soalho da casa. Borator roncava, fazendo um barulho terrível, que para o rato-castor vinha a calhar. Antes de acordar o saltador tinha que tomar algumas precauções. Teve a impressão de ter ouvido um ruído no corredor.
Será que Borator arranjara um robô particular de vigilância?
A porta estava apenas encostada. Gucky esgueirou-se pela penumbra. Por uma fresta de porta a luz penetrou no corredor, refletindo-se nas costas metálicas do robô, que se mantinha imóvel.
Gucky segurou firmemente o radiador de impulsos. O novo instrumento seria posto à prova. Tomara que fosse bom. Sem mover-se, apontou diretamente para a parte traseira do crânio do monstro e comprimiu o botão. Deixou-o nessa posição exatamente cinco segundos, depois voltou a soltá-lo.
Se o negócio estivesse funcionando, o robô devia estar desativado. Não reagiria mais e, a qualquer momento, poderia ser reprogramado sem o menor problema. Não poderia intervir mais nos acontecimentos.
E quem poderia intervir senão Borator?
Antes de cuidar do saltador, Gucky precisava ter certeza de que seu tratamento fora coroado de êxito.
Segurando firmemente o aparelho, dirigiu-se para o corredor e plantou-se bem à frente do robô. Contemplou suas lentes amortecidas e procurou descobrir qualquer sinal de vida nas mesmas. Mas o cérebro positrônico não registrou sua presença. O robô não reagiu.
Muito satisfeito, Gucky resolveu cuidar de Borator.
Naquele mesmo instante notou que o saltador não estava roncando mais. Reforçou sua potência de recepção telepática a fim de captar os pensamentos de Borator. Era isso mesmo. O saltador acabara de acordar e estava desconfiado. Pretendia verificar o que estava havendo. Pelo que Gucky pôde constatar, estava armado com um radiador energético.
Era claro que o rato-castor poderia colocar-se em segurança através da teleportação, mas isso seria contrário à sua natureza e representaria um perigo, pois o saltador poderia ver nisso uma advertência e tomar medidas adequadas.
A luz acendeu-se. Borator surgiu na porta e seus olhos piscaram ao contemplar a cena que se oferecia diante dele. Seu robô estava imóvel no meio do corredor, e diante do monstro estava sentado o bicho no qual hoje dera um pontapé. O que estava segurando nas patas? Uma caixa? Desde quando um animal tem inteligência suficiente para penetrar numa casa com uma caixa nas patas?
Borator formulou tantas perguntas que se esqueceu de agir. Foi o que Gucky fez por ele.
Uma força irresistível tirou a pistola de radiações da mão do saltador e fez com que ela flutuasse em direção ao teto, onde se acomodou no canto superior, apontando o cano para Borator, que acompanhou o fenômeno com os olhos arregalados. Os fragmentos confusos de idéias que Gucky conseguiu captar revelavam que começava a duvidar da sua sanidade mental. Bem, essa impressão podia ser reforçada.
Amargurado, Gucky lembrou-se do pontapé que levara e resolveu unir o útil ao agradável. Borator nem compreendeu o que estava acontecendo quando subitamente perdeu o apoio dos pés. Depois de executar um giro de noventa graus ficou pendurado na horizontal, acima do chão, sem conseguir mover-se. Numa fascinação desesperada contemplou o brilho emitido pelo dente roedor do “coelho” e, com o que ainda lhe restava de raciocínio, refletiu se o mesmo poderia ser responsável pelas coisas incompreensíveis que estavam acontecendo.
Devia ser assim, pois o animal saltitou bem por baixo dele e pôs-se a rasgar metodicamente a coberta, transformando-a em tiras, que foram amarradas umas às outras, formando uma corda. Enquanto isso a estranha caixa metálica foi colocada no chão.
Gucky voltou para junto de Borator e começou a amarrar o mesmo segundo todas as regras da arte. Isso não representou nenhum problema para ele, pois o saltador continuava a flutuar um metro acima do chão.
Enquanto isso, o robô manteve-se imóvel, como se não tivesse nada com isso, o que de certa forma não deixava de ser verdade.
A corda foi enrolada em torno de Borator. Gucky teve a cautela de deixar livre um pedaço de corda, a fim de segurar o saltador. Depois bateu amistosamente na parte traseira do robô, enfiou a caixa embaixo de um dos braços, a pistola de radiações, que desceu lentamente, embaixo do outro, e saiu caminhando tranqüilamente.
Borator seguiu-o como um balão. Parecia seguro apenas pela corda que Gucky tinha na mão. Os fluxos de energia telecinética emitidos pelo rato-castor deixaram-no duro, mas Gucky tinha certeza de que o pavor que o saltador sentia bastava para produzir esse efeito.
Tako e Tama quase morreram de susto quando viram o pacote flutuar em sua direção. Gucky segurava-se na corda, como se receasse ser arrastado para longe. O dente roedor brilhava de contentamento.
Este está bem guardado — chilreou satisfeito. — Tama o vigiará. Enquanto isso Tako e eu inutilizaremos os robôs.
Borator baixou ao solo onde permaneceu imóvel. Mantinha os olhos fechados.
Desmaiou. É uma pena. Ainda terei tempo de ocupar-me com ele. Não durma, Tama.
O nervosismo não me deixaria dormir — protestou o telecineta diante da suspeita. — Não demorem muito.
São noventa e nove robôs. Isso não pode ser liquidado de um instante para outro.
Gucky segurou a mão de Tako... e os dois desapareceram.
Tama, que não se sentia muito bem, ficou para trás; e também o saltador, que naquele momento não sentia coisa alguma.
O primeiro robô de combate não representou nenhum problema. Estava postado junto do maior dos depósitos e formava o início de uma fileira bastante espalhada. Gucky e Tako conseguiram aproximar-se a poucos metros sem serem vistos. Ainda bem que as lentes do robô estavam dirigidas para a saída do vale, pois ninguém pensava que pudesse haver um inimigo no interior do mesmo.
Rhodan os avisara de que o alcance do aparelho ainda era limitado; sua eficiência só era garantida num raio de trinta metros. Mas havia uma vantagem. A atuação de cada robô era independente da dos outros, mas orientavam-se pelos atos dos demais. Se um deles deixasse Gucky passar sem problemas, o guarda mais próximo concluiria que Gucky não representava nenhum perigo. Face a isso sua vigilância seria reduzida.
Foi nesse fato que Gucky baseou seus planos.
Fique aqui — cochichou para Tako quando estavam parados na sombra do depósito. — Daqui você vê tudo. Se houver algo de imprevisto, teleporte para junto de Tama. Providencie para que o saltador seja levado para junto de Rhodan. Depois traga Tama. Ninguém deverá preocupar-se comigo. Saberei cuidar de mim.
Tama segurou-o pela mão.
Não vejo o que poderia acontecer. Afinal, tenho o radiador. Com ele posso inutilizar qualquer...
Você não vai fazer nada disso — interrompeu-o Gucky. — Se usarmos o radiador, até o mais estúpido dos robôs saberá o que está acontecendo. Se nos limitarmos a teleportar na semi-escuridão, desaparecendo sem mais aquela, talvez pensem que somos fantasmas. De qualquer maneira, não saberão o que fazer. Tenha paciência! Conseguiremos.
Os arcos voltaicos esparsos lançavam uma luz débil sobre o terreno cheio de obstáculos. Era claro que as armaduras reluzentes dos robôs eram mais fácil de ser percebida que o pêlo ruivo de Gucky, que. até parecia uma camuflagem especialmente feita para a oportunidade.
Como já se disse, o primeiro robô não representou nenhum problema.
Com um ligeiro feixe de radiações, Gucky transformou-o numa estátua inútil. Ficou parado aguardando novos impulsos, que não surgiram.
A mesma coisa aconteceu com o segundo robô, com o terceiro e com os demais que estavam espalhados pela área do estaleiro, esperando que acontecesse alguma coisa. Quando aconteceu, não o perceberam mais.
Em menos de trinta minutos Gucky colocou fora de ação cinqüenta robôs de combate. Era a metade. Além de mais cinqüenta robôs de combate havia os trinta trabalhadores que, segundo supunha com toda razão, estariam no interior do estaleiro, trabalhando a toda potência na conclusão da nave.
Vamos cuidar da fila de guardas postados na entrada do vale. Infelizmente a distância entre um e outro é de apenas cinco metros. Mas descobri um jeito de pô-los a dormir.
Colocaram-se em posição e o rato-castor iniciou seu trabalho. Vindo de trás, aproximou-se da fila de guardas, cuidando para não ser visto. Isso não era muito difícil, pois no local a escuridão era muito maior que no estaleiro.
Até a metade da fileira tudo correu bem. Mas no momento em que Gucky estava aplicando seu tratamento ao robô número 15, o número 16 virou-se pesadamente e dirigiu o raio do holofote embutido na testa para a fonte do ruído que devia ter “ouvido”.
De um instante para outro Gucky viu-se banhado em luz.
Numa fração de segundo o robô constatou que era o mesmo animal que vira durante o dia e que, portanto, devia ser inofensivo. Acontecia que segurava uma caixinha brilhante entre as patas, e a lente de cristal da mesma estava apontada de forma bastante suspeita para o robô vizinho.
O animal devia ser dotado de inteligência; logo, era um inimigo.
A reação do robô foi instantânea, mas o raio energético fulminante só atingiu o chão ressequido e o capim crestado pelo sol.
Gucky materializou junto a Tako, que estava duro de pavor.
Tivemos azar — cochichou para o japonês. — Tomara que não dêem o alarma.
Os primeiros quinze robôs da fila não se interessaram pelo que estava acontecendo. Mantiveram-se imóveis e apáticos, enquanto os demais ligaram os holofotes e puseram-se a examinar o terreno. Não encontraram nada, mas isso não os tranqüilizou. De qualquer maneira, nenhum deles fez menção de sair do lugar.
Não posso aparecer mais por ali — murmurou Gucky, decepcionado, mas logo assobiou baixinho. — Tako, afinal sou um telecineta — era uma afirmativa chocante, e Tako reagiu de forma adequada.
Todo mundo sabe disso. E daí?
Ainda não compreendeu? Posso fazer o nosso instrumento, o tal do radiador de impulso, sair por aí sozinho. Os robôs são estúpidos; limitam sua busca ao solo. Acontece que esta caixa sabe voar. Usarei o controle remoto para narcotizá-los. Como é que não me lembrei disso antes!
A necessidade estimula a criatividade — comentou Tako.
Admirado, viu como Gucky lidava com a situação.
O próprio Gucky não fez nada. Agachado na sombra do depósito, mantinha os olhos fitos na caixinha brilhante, que subitamente perdeu o peso e, deslocando-se alguns metros acima do solo, foi-se aproximando da fileira de guardas.
Repentinamente o número 16 suspendeu as buscas e ficou reduzido à imobilidade. O vizinho logo o imitou. Não demorou cinco minutos para que toda a fileira de robôs de combate estivesse transformada num grupo de inofensivas estátuas metálicas que já não possuíam vida própria. Numa tranqüilidade estóica aguardariam o momento em que alguém lhes concedesse uma nova programação e uma nova vida.
Nem que demorasse mil anos.
Gucky trouxe o aparelho de volta. Pediu a Tako que não saísse do lugar e no mesmo instante desapareceu. Dali a um minuto, quando voltou, a entrada do vale também estava livre de guardas.
Ainda faltam dezenove que estão no estaleiro. Não teremos dificuldade em liquidá-los. Por enquanto não mexeremos nos robôs especializados. Queremos que terminem a construção da nave. Vamos embora! É o último round!
Já era meia-noite quando Gucky conseguiu terminar o trabalho. Noventa e nove robôs haviam sido reduzidos à inatividade. Apesar de todos os esforços não conseguiu encontrar o último deles. Em algum ponto da área ainda havia uma dessas perigosas máquinas. Mas o tempo era muito precioso para que se pudessem gastar algumas horas na busca.
Os robôs de trabalho não se deixaram perturbar pelos acontecimentos. Sem preocupar-se com nada, executavam suas tarefas, esforçando-se para manter-se dentro do prazo fixado por Borator, o diretor do projeto.
Não seria Gucky que iria impedi-los.Tama suspirou aliviado quando Tako e Gucky voltaram. Durante uma hora tivera que ouvir o falatório de Borator, que despertara do desmaio. No princípio o saltador proferiu ameaças absurdas, passando depois a formular ofertas tentadoras em troca da libertação. Tama preferiu não responder, para evitar que o saltador descobrisse sua identidade. Que Borator quebrasse a cabeça para descobrir quem pusera as mãos nele.
Quando o saltador viu Gucky, calou-se abruptamente. Provavelmente sua consciência o acusava por causa do pontapé.
Podemos dar o fora — disse o rato-castor, ocultando a preocupação causada pelo robô que ainda se mantinha em algum lugar, aguardando a oportunidade de lutar por seus chefes. — O resto ficará por conta de Rhodan. Tako, você vai cuidar de Tama. Ainda bem que não tivemos necessidade de lançar mão dele. Eu me incumbirei de Borator. Já conhecemos as coordenadas do salto: A sala de conferências de Rhodan no espaçoporto.
Fizeram os preparativos.
De um instante para outro o lugar em que se encontravam ficou vazio. Só a grama pisada dava testemunho dos seres corpóreos que ali estiveram há pouco e agora pareciam dissolvidos no ar.

* * *

Ralv e Enzally não tiveram a menor dificuldade em reunir no mesmo dia mais de cinco mil goszuls.
Todos eles se declararam dispostos a desempenhar o papel que lhes fora destinado. Os preparativos não consumiram muito tempo. Depois disso os nativos “infeccionados” foram colocados em veículos especiais e levados ao espaçoporto, onde foram alojados nos extensos edifícios da administração a fim de prepararem-se para a entrada em cena.
Nesse meio tempo chegaram Gucky, os dois japoneses e o prisioneiro. Com isso os planos de Rhodan modificaram-se um pouco. Mandou que John Marshall, Enzally e duzentos elementos “contaminados” fossem até o vale em que ficava o estaleiro. Ali aguardariam até que os saltadores chegassem — se é que chegariam. O sugestor Kitai submetera-os a tratamento, incutindo em sua mente o que deviam fazer. Os telepatas John Marshall e Enzally cuidariam para que tudo desse certo.
Faltavam seis horas para a chegada dos saltadores.
O sargento Harnahan ainda não dera nenhuma notícia. Foi o que o tenente Fisher transmitiu da Stardust, quando Rhodan entrou em contato com ele. De resto tudo estava em ordem, e era muito interessante observar a vida nas profundezas do mar. Havia alguns animais muito interessantes, para os quais a pressão da água...
Rhodan não estava interessado nas formas de vida existentes nas camadas mais profundas do mar e mandou que Fisher avisasse assim que chegasse alguma mensagem de Harnahan. E interrompeu o contato.
Onde estaria Harnahan?

* * *

Numa aceleração tremenda, totalmente compensada pelos campos energéticos, o pequeno caça avançou pelo espaço. O planeta de Goszul mergulhou com uma velocidade inacreditável no negrume cósmico. Poderia se dizer que caía no abismo. Em torno dele as inúmeras estrelas brilhavam, enquanto as galáxias distantes, cuja luz levara milhões de anos para chegar ali, emitiam uma fraca luminosidade.
Mais uma vez Harn, que era o nome pelo qual os conhecidos chamavam Harnahan, experimentou a sensação excitante da solidão absoluta em meio ao espaço. Nem por isso deixou de examinar todos os detalhes que observava ao seu redor e de absorvê-los em sua mente. Aliás, sua missão era exatamente esta.
O planeta Goszul transformou-se numa estrela reluzente, iluminada em cheio por seu sol. Harn modificou ligeiramente sua rota para colocar-se na sombra do planeta. Se surgisse alguma emergência isso não adiantaria muito, mas sempre concorria para tranqüilizá-lo.
Os saltadores deviam encontrar-se a várias horas-luz de distância. Seria inútil ligar os instrumentos naquela hora. Devia procurar uma posição favorável, que lhe permitisse uma boa observação. Também era importante que não pudesse ser descoberto com muita facilidade.
Tirou do bolso o mapa especial que Rhodan lhe havia dado. O mesmo continha uma representação esquemática do sistema no momento em que se encontravam.
Logo teve a atenção despertada para o quarto planeta. Devia possuir ao menos cinqüenta luas pequenas, que circulavam em torno dele nas órbitas mais variadas.
À primeira vista, Harn achou que esse sistema de pequenas proporções não era nada simpático.
Voltou a corrigir a rota e, desenvolvendo uma velocidade próxima à da luz, correu velozmente em direção ao novo objetivo.
Dali a menos de uma hora teve que desacelerar a nave, para não colidir com uma das pequenas luas. O sistema podia ser comparado com uma mistura de anéis de Saturno com o círculo de asteróides. Os fragmentos de um antigo planeta gêmeo, ou de uma lua maior, circulavam a esmo em torno do quarto planeta. Não formavam um círculo ordenado como os fragmentos da antiga lua de Saturno, mas também não descreviam órbitas em torno do sol como o círculo de asteróides. Mantinham-se junto ao astro de que provinham.
Não era fácil orientar-se naquele setor do espaço.
Pelos seus cálculos a frota dos saltadores devia encontrar-se a dez horas-luz. Havia tempo de sobra para dar uma olhada por ali, procurando um bom esconderijo.
Muitos dos fragmentos tinham menos de um quilômetro de diâmetro, enquanto outros chegavam a cinqüenta quilômetros. Manobrando cautelosamente, conduziu o pequeno foguete em meio à confusão dos fragmentos que se deslocavam lentamente, gozando em cheio a satisfação de ser o único ser vivo naquela desolação.
Já retirara as placas protetoras de metal, de modo que a carlinga deixava livre a visão. Realizava um vôo puramente visual, sem instrumentos. A pequena nave reagia prontamente à menor pressão dos dedos. A cabine era apertada, mas o excelente equipamento de condicionamento de ar fazia com que a permanência nela se tornasse suportável.
Harn tomou um tablete energético das reações de emergência e bebeu um gole de água. O suprimento de oxigênio e de alimentos bastava para três meses, o que evidentemente era uma simples precaução. Mas também proporcionava uma tranqüilidade que não era de desprezar.
Uma lua relativamente grande aproximou-se de lado. Sua superfície irregular e entrecortada mostrava extensas cadeias de montanhas e vales profundos, nos quais nunca penetrava a luz do sol distante nem os reflexos débeis do planeta. Pelos cálculos de Harn, seu diâmetro devia ser de cerca de oitenta quilômetros; seu tamanho correspondia ao de um respeitável asteróide.
Se mais tarde alguém perguntasse a Harnahan por que escolhera justamente essa lua como ponto de observação, receberia as respostas mais contraditórias. Ora diria que foi por causa da conformação favorável da superfície, que oferecia ótimos esconderijos, e de outras vezes afirmaria de pés juntos que um sentimento inexplicável literalmente o havia arrastado para baixo. De qualquer maneira, a escolha de Harnahan não poderia ter sido mais feliz.
O sargento deu duas voltas em torno da lua antes de descobrir uma cadeia de montanhas apropriadas aos seus propósitos.
Lentamente e com a maior cautela foi dirigindo o caça para a superfície e pousou no cume achatado de uma montanha relativamente elevada, que excedia as outras por algumas centenas de metros. Era um platô que permitia a visão para todos os lados e, em virtude da acentuada curvatura da superfície daquela lua, deixava livre um setor de mais de setenta por cento do céu. E não era tudo.
No centro do pequeno platô havia uma depressão. Seu tamanho era exatamente o necessário para abrigar o caça espacial. Se Harn se desse ao trabalho de colocar cuidadosamente algumas rochas sobre o aparelho, ninguém descobriria o foguete, mesmo que passasse a vinte metros de altura.
Harn examinou cuidadosamente o terreno antes que manobrasse a nave para a depressão, mediante o campo gravitacional ativado a uma potência mínima. Uma vez lá, atingiu a posição de repouso. A carlinga mal e mal sobressaía da abertura pouco profunda.
O gravímetro indicava 0,01g. Era muito pouco. Harn teria que agir com cautela para não executar um movimento precipitado, que faria com que ultrapassasse a velocidade de fuga, passando a circular em torno da lua como se fosse um satélite dela.
Olhou para o relógio. Estava na hora de instalar-se com um certo conforto.
Com um movimento rápido, fechou o capacete de seu traje pressurizado. Com algum esforço, enfiou-se no pequeno compartimento do solo da cabina, que servia de comporta de ar. Não levou nenhuma arma. Para quê. Por ali não podia haver ninguém que pudesse ameaçá-lo. Além disso, precisava conservar as mãos livres, pois não seria nada fácil empilhar a massa ainda respeitável das rochas, leves como uma penugem, em torno da carlinga e por cima do corpo da nave.
Não era a primeira vez que Harn se encontrava no espaço, e nem mesmo a gravitação reduzida da lua o impressionava. Mas desta vez as coisas eram diferentes. Mal saiu de baixo do foguete e levantou-se, o cume da montanha começou a afundar diante dele como se o tivesse afastado com um pontapé. Subiu quase cinqüenta metros e deu uma cambalhota lenta. O céu girou em torno dele e por um instante terrível perdeu o senso de orientação e acreditou estar caindo nas profundezas do Universo. Com alguns movimentos bem calculados reduziu seu movimento de rotação. A superfície da lua voltou a situar-se bem embaixo dele e aproximou-se lentamente. Estava caindo.
A menos de duzentos metros do foguete pousou suavemente na encosta da montanha. Segurou-se instintivamente numa rocha. Dali a pouco riu. Foi um riso alegre e despreocupado. O riso de um menino que conseguiu pregar uma peça a alguém.
Visando o cume da montanha, empurrou-se cautelosamente. A uns três metros do solo subiu encosta acima como um projétil e logo se viu sobre o platô. Aterrizou junto ao foguete.
Não tinha mais a menor dúvida de que conseguiria deslocar-se ordenadamente sobre a superfície do planeta. Era apenas uma questão de hábito e adaptação.
Havia rochas em quantidade. Harn pegou-as uma por uma e colocou-as sobre o foguete, de tal forma que só a cúpula sobressaía acima delas. Era praticamente impossível que a mesma fosse descoberta por alguém que se encontrasse no espaço. Por outro lado, Harn tinha uma oportunidade única de inspecionar todo o sistema, pois o lento movimento de rotação da lua possibilitava a visão para todos os lados. E não haveria a menor dificuldade em decolar numa questão de segundos, pois os blocos de pedra não representavam nenhum acréscimo de carga para os potentes propulsores da nave. Deslizariam de cima dela e cairiam na lua.
Harn olhou para o relógio. Ainda dispunha pelo menos de cinco horas antes que chegasse o momento crítico. Talvez fosse conveniente entrar em contato com a Stardust para informar Fisher sobre o ponto em que resolvera instalar-se. Mas não havia pressa.
Não seria preferível aproveitar a chance única de ver um mundo estranho e desabitado, onde andar devia ser um prazer enorme?
Por um instante pensou em pegar a pistola de radiações que se encontrava na nave. O recuo da mesma lhe permitiria corrigir a velocidade e a direção dos saltos. Mas desistiu do seu intento. Mesmo que se enganasse nos seus cálculos, nada lhe poderia acontecer. A gravitação era tão reduzida que nem mesmo a queda mais profunda poderia produzir qualquer ferimento.
Lançou mais um olhar para o foguete bem camuflado e, com um ligeiro impulso, disparou obliquamente para o céu negro, formando um astro independente, praticamente libertado de qualquer gravitação que o prendesse a um outro mundo. Calculara o salto de maneira a atravessar o vale que separava a montanha dos cumes mais próximos, um pouco mais baixos. Bem embaixo passaram rochas íngremes e grotas entrecortadas. Não seria nada agradável pousar ali, mas um único impulso bastaria para colocá-lo em segurança.
O ligeiro temor revelou-se infundado. O vôo fora tão bem calculado que pousou são e salvo no cume da montanha mais próxima.
Aqui o panorama não era muito diferente daquele que se descortinava da primeira montanha. Deu mais dois saltos, o último dos quais fez com que ele avançasse mais de trezentos metros em linha reta, e chegou à planície. Durante dez minutos contentou-se em subir simplesmente na vertical e, criando coragem, empurrava-se cada vez com mais força.
Pelos seus cálculos alcançou uma altura recorde de cento e cinqüenta metros antes que começasse a descer lentamente. Depois procurou quebrar o recorde mundial em salto a distância, o que não foi nada difícil. Numa parábola esticada atingiu a marca dos quinhentos metros, o que não era de desprezar. Quando contasse a façanha aos colegas, estes se roeriam de inveja ou o chamariam de mentiroso.
As tentativas levaram-no para junto de uma cadeira de montanhas que chamava a atenção pela encosta lisa, que se apresentava como uma parede. Devia ter uns dois quilômetros de altura. Depois de um exame cuidadoso, Harn constatou algumas saliências na encosta, motivo por que decidiu que, para coroar sua aventura, venceria este obstáculo e, uma vez atingidos os píncaros da encosta, realizaria um longo vôo.
A coisa não foi tão simples como ele imaginara. Depois do impulso subiu quase na vertical, mas não conseguiu aproximar-se do paredão o suficiente para encontrar um apoio. Quando a força do impulso cessou, foi descendo com a encosta quase ao alcance da mão. A experiência nos ensina muita coisa. A segunda tentativa fez com que ele pousasse sobre uma estreita faixa de rocha que sobressaía do paredão cem metros acima da planície. Se estivesse nessa situação numa montanha da Terra, Harn se agacharia e esperaria que os guardas montanheses viessem resgatá-lo. Mas aqui as coisas eram diferentes. Olhou para a terrível profundeza e não sentiu a menor tontura.
Acima dele o paredão não era tão liso como acreditara. Dali a cinqüenta metros havia uma saliência. Fixou-a e saltou. Seus dedos agarraram-se a rocha nua e sem o menor esforço conseguiram levantar o corpo.
Outro salto.
Em menos de trinta minutos chegou ao cume. O panorama ultrapassou todas as perspectivas. Não havia nenhuma atmosfera que pudesse turvar os horizontes. As pontas das montanhas que afundavam atrás da curvatura pareciam tão próximas que se tinha a impressão de poder alcançá-las num único salto. Dois quilômetros abaixo de Harn estendia-se a grande planície. Se desejasse, poderia realizar um velho sonho da juventude, saltando para lá. Quantas vezes não desejara isso quando, depois de escalar uma montanha à custa de muito esforço e suor, via os vales e os lagos estenderem-se lá embaixo. Agora poderia fazê-lo, se quisesse. Do outro lado da planície viu uma montanha. Ficava longe para quem quisesse andar. Mas Harn voaria.
Harn sentiu-se tomado por uma espécie de embriaguez. Com um grito de alegria empurrou-se vigorosamente e deslizou a pequena distância dos cumes, que eram pouco acidentados. Mas não eram muito largos. Do outro lado a encosta não era tão íngreme, mas em compensação estava entrecortada de rochas e grotas.
Subitamente as montanhas terminaram num paredão.
Harn aproximou-se cautelosamente e olhou para baixo. Tinha a impressão de que a bacia que se estendia abaixo dele ficava em nível mais baixo que a planície da qual viera, mas talvez fosse uma simples impressão causada pelas encostas quase verticais que cercavam a depressão quase por completo.
Harn ficou uns dez minutos junto ao precipício, desfrutando a vista que na Terra lhe daria ao menos um calafrio. Finalmente resolveu realizar o velho sonho.
Abriu os braços e tomou ligeiro impulso. Empurrou-se na beira do abismo e como um passarinho foi planando para o nada.
Começou a cair aos poucos. Bem atrás dele o paredão foi deslizando para cima, enquanto ele mesmo ia descendo numa queda sempre mais vertical, em direção ao fundo da bacia, que se aproximava lentamente.
Demorou muito, muito mesmo até que os pés tocassem o chão. Fizeram-no com uma elegância que teria impressionado qualquer observador. Harn já adquirira alguma experiência em assumir qualquer posição que desejasse durante a queda muito lenta.
Estava quase no meio da bacia, um pouco mais próximo à cadeia de montanhas. O chão era liso e plano. À direita via-se um setor da grande planície, através da qual acabara de saltar.
Mas a montanha que se encontrava diante dele era mais interessante. Era uma bola de formato regular e de pouca altura. O topo era arredondado, lembrando a proa de uma nave espacial. De resto a montanha era lisa, sem apresentar saliência. Chegava a dar a impressão de ter sido trabalhada artificialmente; é claro que essa idéia não passava de rematada tolice. Ninguém poderia viver aqui, e ninguém se daria ao trabalho de modificar o formato de uma montanha.
Depois de um exame mais atento, viu alguma coisa regular no pé da elevação piramidal. Ficava bem no centro. Era quadrado, como se fosse uma porta.
Seria uma porta que conduzia para o interior da rocha? Harn chamou a si mesmo de idiota e efetuou o primeiro salto, contendo a força do impulso. Percorreu menos de trinta metros antes de pousar no solo.
A porta continuava no mesmo lugar!
Na verdade, não era nenhuma porta. Parecia antes uma chapa de metal incrustada no paredão.
Mais um salto. Aquela porta maluca ainda se encontrava a cem metros. Harn respirou profundamente, lembrou-se vagamente de que seu suprimento de oxigênio dava para mais três horas, e saltou pela última vez.
Pousou bem na frente da chapa de metal.
Diante da chapa, três degraus penetravam montanha adentro. Terminavam diante da porta.
Na soleira da porta havia uma esfera que brilhava em todas as cores do arco-íris.
Seja bem-vindo, Harnahan — disse alguma coisa no cérebro de Harn. — Esperei muito por você.


4



Topthor não manteve contato pelo rádio com as onze naves de sua frota, pois não quis assumir qualquer risco. O alcance das ondas audiovisuais era bastante limitado, de maneira que não havia perigo de que alguém pudesse ouvi-los.
Falta meia hora — disse Topthor, cumprimentando o rosto de Rangol que surgiu na tela. — Ali reduziremos a velocidade. Voaremos diretamente para o espaçoporto do planeta Goszul e pousaremos lá. O que vamos fazer depois depende das circunstâncias.
Por que não cuidamos em primeiro lugar do estaleiro? Afinal, temos as coordenadas.
A nave ainda não está pronta e não vai fugir. A direção do projeto está a cargo de um certo Borator. Dizem que é um elemento de confiança. Bem, nas circunstâncias atuais isso não quer dizer muita coisa.
Surgiu uma pausa prolongada, durante a qual cada um dos interlocutores estava mergulhado em seus pensamentos, que diferiam bastante. A união só surgiria no momento em que o perigo se tornasse agudo.
O planeta Goszul cresceu, enquanto a velocidade das duas naves diminuía rapidamente. Enquanto isso, conforme sabia Topthor, as onze naves restantes circulavam em torno do sistema, cuidando para que ninguém saísse dele... ou penetrasse nele.
Poucos minutos depois, a linha costeira do continente que os nativos chamavam de Terra dos Deuses saiu da sombra do planeta, penetrando na zona iluminada pelos raios refulgentes do sol. Um novo dia estava começando lá embaixo.
Topthor fez um sinal para Rangol.
Estamos chegando em boa hora. Não faço a menor idéia do que os nativos poderão ter feito com o planeta sem dono, mas será preferível agirmos com cautela. Se a epidemia se alastrou ainda mais teremos que lidar com gente louca, talvez com rebeldes. Mas seja como for, teremos que desincumbir-nos de nossa tarefa.
Será que não podemos ser contaminados?
Em hipótese alguma. Antes de mais nada vamos desembarcar robôs, que serão trancados nos compartimentos especiais juntamente com o material que for resgatado. Depois serão expostos ao vácuo. Acho que nem mesmo a mais resistente das bactérias sobreviverá a isso.
É uma boa idéia — disse Rangol. — Não posso imaginar um desinfetante mais eficiente que o espaço cósmico.
Dificilmente haverá — confirmou Topthor. — Atenção, daqui a pouco vamos pousar. Pelo que vejo o espaçoporto parece estar vazio. Não há ninguém por ali.
As duas naves baixaram lentamente sobre o campo de pouso abandonado e finalmente tocaram o solo. Topthor teve a impressão de que toda vida se extinguira no planeta de Goszul. A grande área vazia estendeu-se diante de seus olhos, que a examinavam atentamente. Também nos edifícios que margeavam o campo de pouso não parecia haver o menor resquício de vida. Ao leste, o sol surgiu por cima das colinas, mergulhando as últimas sombras numa luz ofuscante. O colosso superpesado, acomodado junto aos controles da Top I, afastou as preocupações com um simples gesto.
Faremos sair cinqüenta robôs de trabalho e igual número de robôs de combate — disse, dirigindo-se a Rangol. Ligou o intercomunicador para entrar em contato com os postos de comando da nave. — Talvez os goszuls se tenham recolhido às montanhas. É estranho que não haja nenhum robô de vigilância.
Os oficiais de plantão responderam ao chamado. Sem tirar os olhos dos edifícios distantes, Topthor ordenou:
Vamos colocar em terra cinqüenta robôs de trabalho e igual número de máquinas de combate destinadas à proteção dos mesmos. Utilizem a escotilha de carga que já foi preparada. Rangol, assuma o telecomando dos trabalhadores, Eu cuidarei do contingente de proteção.
Dali a dez minutos cem robôs pesados atravessaram a passos retumbantes as rampas e pisaram na superfície do planeta contaminado, no qual não parecia existir mais nenhuma vida. Agruparam-se em duas unidades e puseram-se em marcha. Seus destinos eram os edifícios da administração e os postos de controle dos robôs estacionados no planeta.
Como um enorme toco, Topthor estava sentado na poltrona disforme, acompanhando a ação. Através do aparelho de tele direção assumiu o controle direto dos robôs de combate. Não queria que uma eventual decisão ficasse a cargo dos cérebros positrônicos.
Por enquanto não aconteceu nada. A surpresa de Rhodan ainda se faria esperar.
Quando o exército teleguiado havia percorrido aproximadamente metade do caminho, alguma coisa começou a mover-se entre as árvores raquíticas plantadas diante dos edifícios. Topthor logo percebeu. Eram goszuls, os nativos desse mundo. Reconheceu-os pelo catálogo ao qual recorrera para informar-se sobre o mundo em que teria de ser executada a tarefa.
Uma tela amplificadora permitiu-lhe ver ainda mais.

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