terça-feira, 8 de janeiro de 2013

P-037 - O Planeta Louco - Clark Darlton [parte 1]

Autor
CLARK DARLTON



Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
PESCADO NA NET


Revisão
ARLINDO_SAN
Finalmente chegou a grande hora do pequeno Gucky
e o sargento Harnahan descobre uma coisa inacreditável.

Estamos no ano de 1.983. O conflito entre a Terceira Potência e os mercadores galácticos deslocou-se para o planeta de Goszul, um mundo que se faz de louco para expulsar de vez a frota dos mercadores...

A história da Terceira Potência em poucas palavras:

1.971 — O foguete Stardust chega à Lua, e Perry Rhodan descobre a nave exploradora dos arcônidas, que lá realizou um pouso de emergência.
1.972 — A Terceira Potência é instalada apesar da resistência conjugada das grandes potências da Terra e repele tentativas de invasão extraterrena.
1.975 — Primeira intervenção da Terceira Potência nos acontecimentos galácticos. Perry Rhodan se defronta com os tópsidas no setor de Vega e procura solucionar o mistério galático.
1.976 — Perry Rhodan chega ao planeta Peregrino a bordo da Stardust-III, e juntamente com Bell alcança a imortalidade relativa — mas perde mais de quatro anos.
1.980 — Perry Rhodan regressa à Terra e luta pela posse de Vênus.
1.981 — O ataque do Supercrânio representa a provação mais difícil que a Terceira Potência já experimentou.
1.982 — Os mercadores galácticos descobrem a Terra...





= = = = = = = = Personagens Principais:...= = = = = = =

Perry Rhodan — Comandante da Stardust e administrador da Terra.

Reginald Bell — Amigo e confidente de Perry Rhodan.

Sargento Harnahan — Que tem na solidão do espaço um encontro marcado pelo destino.

Borator — Que vê cair em mãos estranhas a obra de sua vida.

Topthor — Patriarca dos “superpesados”.

Tako Kakuta, Kitai Ishibashi, Tama Yokida e John Marshall — Um comando que terá muito trabalho, mesmo depois da libertação do planeta.
1



Os raios de sol que penetravam pelas janelas amplas da grande sala eram refletidos pela superfície da mesa comprida em torno da qual estavam sentados treze homens. Esses homens tinham várias coisas em comum, que revelavam pertencerem eles ao mesmo grupo.
Todos tinham barba espessa, que cobria metade do rosto. Sob as sobrancelhas hirsutas via-se um par de olhos em que havia uma expressão de austeridade misturada com um ligeiro abatimento, e que emitiam um brilho de orgulho disfarçado, que talvez chegasse à presunção. Ainda tinham em comum o grande nariz e os lábios estreitos que se estendiam por cima de um queixo barbudo.
As enormes cabeças assentavam sobre corpos que naquele instante pareciam encolhidos, não revelando a força que costumavam encerrar. Os punhos robustos descansados sobre a mesa pareciam ter perdido a energia que lhes era peculiar.
Eram os antigos donos do mundo que, derrotados, aguardavam o homem que os subjugara.
O patriarca Ragor, que ainda continuava a ser o governador do planeta de Goszul, estava sentado no centro do grupo de treze homens. Tal qual os outros, fugira para o interior do edifício abandonado do governo, quando o flagelo do esquecimento fez com que os nativos se rebelassem, e os comandantes das naves da frota dos saltadores fugissem em pânico, submetendo o planeta de Goszul a uma quarentena de cinqüenta anos.
Ao que tudo indicava, os saltadores, também conhecidos como mercadores galácticos, haviam perdido uma base importante.
Ragor pigarreou.
Eles nos fazem esperar muito — observou em tom sombrio, procurando disfarçar a impaciência através de uma fingida calma exterior.
É o direito do vencedor — disse seu vizinho, um gigante de cabelos escuros e maxilares salientes. — Não podemos sair do edifício; temos de esperar. Não nos deixam outra alternativa.
Em compensação temos tempo para pensar — resmungou Ragor, cerrando os punhos. — Ocuparam o posto de comando de nossos robôs; isso nos deixa indefesos. Somos apenas treze e temos um mundo contra nós.
Um mundo que dominávamos — murmurou um gigante de cabelos escuros em tom profético. — Que condições nos serão impostas pelos goszuls?
Ninguém respondeu. No corredor ouviram-se passos. A porta foi aberta e três homens entraram na sala, acompanhados por um robô de mais de dois metros de altura que, sem receber qualquer ordem nesse sentido, assumiu seu posto junto à porta.
Os recém-vindos eram muito diferentes dos treze homens que se mantinham à espera. Eram homens como eles, mas distinguiam-se pela pele vermelha. Além disso, faltava neles a barba e o aspecto grosseiro do corpo. Eram esbeltos, quase delicados, embora fossem do mesmo tamanho dos saltadores. Até então pertenciam a uma raça desprezada, a dos nativos daquele mundo, mas de uma hora para outra viram-se transformados nos senhores e pela primeira vez defrontavam-se com os antigos governantes na qualidade de vencedores. Seus rostos eram francos e simpáticos. A alegria pela liberdade recém-conquistada sobrepujava o orgulho da vitória. Os trajes simples davam mostras do estado primitivo de sua civilização, para cujo rebaixamento os antigos dominadores haviam contribuído bastante. Com o auxílio de um exército de robôs submissos os saltadores subjugaram e exploraram o planeta de Goszul, até que um dia surgiu a epidemia que atacou sete dos governantes, colocando-os fora de ação. Os doentes continuavam no hospital, com o rosto coberto de manchas coloridas e a memória apagada. O medo da contaminação fizera com que os demais governantes se reunissem. Mas no momento em que quatro naves estranhas pousaram no planeta e colocaram fora de ação o exército de robôs, não lhes restou outra alternativa senão a capitulação.
As quatro naves continuavam no grande campo de pouso espacial. Eram naves de um tipo que nunca antes havia pousado naquele mundo. Tratava-se de gigantescas esferas com oitocentos e duzentos metros de diâmetro. Foram elas que intervieram na luta.
Ragor fitou os três homens com os olhos semicerrados e não fez menção de levantar-se. Com um movimento indiferente apontou para as cadeiras livres que se encontravam do outro lado da mesa. Sabia que os goszuls eram os vencedores, mas não aceitava a idéia de que os mesmos o tivessem subjugado pessoalmente.
Estava redondamente enganado.
Os três homens continuaram de pé. O velho telepata Enzally, que se encontrava no centro do grupo, investigou os pensamentos dos governantes. Ao lado da resignação encontrou sinais de resistência e de esperança secreta. No momento não pôde constatar no que se baseava essa esperança.
Por enquanto Ralv, chefe da rebelião contra os saltadores e futuro chefe do governo do planeta unido, mantinha-se em atitude de expectativa. Deixou as primeiras palavras por conta de Enzally.
O terceiro homem do grupo não era goszul.
Tinha pele morena, e a altura de sua figura magra excedia a de Enzally e Ralv por mais de dez centímetros. Nos seus olhos não havia o brilho mortiço produzido pelos anos de medo e escravidão; bem ao contrário, os mesmos fulguravam com a consciência da força e do poder e a certeza de uma imensa superioridade mental. Os treze governantes não conheciam o uniforme simples que aquele homem trajava. Nunca o haviam visto naquele planeta.
Só havia uma explicação: aquele homem não era um nativo. Viera numa das quatro naves, pertencendo à raça que havia infligido a derrota aos saltadores.
Ragor chegou à mesma conclusão, que não o deixou muito feliz.
Sentir-se-ia ainda menos feliz se soubesse que se encontrava diante de Perry Rhodan, que tinha bons motivos para não revelar sua identidade. Nem todas as tarefas a serem cumpridas no planeta de Goszul estavam concluídas. Muito embora, ao que tudo indicava, os treze governantes não mantivessem qualquer espécie de contato com os companheiros de raça que haviam fugido para o espaço, preferiu não assumir riscos.
Fez um sinal para Enzally, que se mantinha na expectativa.
Obrigado; preferimos ficar de pé — disse o telepata, que era o único jamais nascido naquele mundo. — Se aceitarem nossas condições, não demoraremos em chegar a um acordo. Os senhores perderam e estão indefesos. Nem mesmo os robôs lhes prestarão obediência, pois foram reprogramados. Sabem perfeitamente o que isso significa. Daqui em diante obedecerão às nossas ordens, e trabalharão para nós. O resto dos saltadores fugiu com suas naves, deixando-os desamparados. Não pretendemos matá-los, mas vamos isolá-los. Pensamos numa ilha do oceano ocidental, onde passem bastante tempo em um clima saudável. Ali poderão passar o resto dos seus dias num ambiente de paz e tranqüilidade. O regresso ao seu mundo não é possível, já que não possuem nenhuma nave.
Enzally calou-se e olhou para Ragor. Sem que os ex-governantes soubessem, seus pensamentos estavam sendo estudados até as profundezas do subconsciente. Nada ficava oculto ao telepata.
Os treze homens cochicharam entre si. Alguns deles falaram, mas a um gesto de Ragor calaram-se.
O que será feito dos sete governantes que foram atacados pelo flagelo do esquecimento? — perguntou. — Devemos deixá-los para trás?
Irão para a ilha com vocês.
Querem que eles nos contaminem? — disse Ragor indignado. — Se é que a epidemia ainda não chegou à tal da ilha, isso não demorará muito.
Perry Rhodan fez um sinal para Enzally e tomou a palavra.
Trouxemos um soro, Ragor. A epidemia foi rebaixada ao nível de uma doença inofensiva. Ainda bem que isso só aconteceu depois da fuga dos comandantes dos saltadores. Aplicaremos uma injeção em vocês, e nunca adoecerão. Os sete governantes que encontramos no hospital já sararam. Irão à ilha com vocês.
Ragor lançou um olhar atento para Rhodan.
Vocês não são deste mundo, não é?
Não. Meu planeta fica a mais de mil anos-luz daqui.
Por que intervieram no conflito?
Porque estamos interessados em que os povos oprimidos alcancem o auto governo. Ou, em outras palavras, ajudamos os goszuls a libertar-se do colonialismo.
Será que não terão nenhum lucro com isso?
Teremos, sim, Ragor. Mas não há de pensar que eu lhes conte tudo. O que têm de fazer é apenas responder a uma pergunta: querem submeter-se voluntariamente à decisão do novo governo deste mundo, que lhes concede o exílio?
Antes de responder, Ragor lançou um rápido olhar para os companheiros:
Se possuíssemos uma nave, poderíamos sair do planeta de Goszul?
Rhodan confirmou com um gesto.
Se possuíssem, sim; acontece que não possuem.
Mais uma vez Ragor hesitou; mas já era tarde.
Subitamente Enzally sorriu e, dirigindo-se a Rhodan, disse:
Já sei onde está a nave, senhor. Podemos encerrar a palestra.
Ragor lançou um olhar de perplexidade para o telepata, que sem mais aquela revelava o mais precioso dos seus segredos. Parecia que o mundo acabara de desabar, soterrando suas esperanças. Pretendia conseguir uma pausa, e possivelmente alguns robôs de serviço. Com isso dentro de poucos dias o enorme couraçado que se encontrava no estaleiro escondido nas montanhas poderia decolar. Nesse caso executaria uma operação de retaliação e fugiria para o espaço juntamente com seus companheiros de raça.
E agora...
Enzally parou de sorrir. Com a voz fria disse:
Obrigado, Ragor, já basta. Estou vendo que nossas intenções foram boas demais. Serão levados à ilha ainda hoje. — Dirigindo-se a Rhodan, prosseguiu: — Pretendiam apoderar-se de um couraçado dos saltadores, destruir o planeta de Goszul e voltar para o setor da Via Láctea de onde vieram. São umas criaturas adoráveis.
A mentalidade deles não sabe conformar-se com a idéia da derrota, por isso as idéias de Ragor não podem servir de padrão para toda a raça dos saltadores. Tenho certeza de que um dia chegaremos a um acordo com eles. Não será aqui, nem será com estes governantes, mas com outros de sua raça. É preferível encerrarmos este capítulo. Ralv, cumpra sua tarefa. Enzally, vamos embora. Não temos mais nada com o que acontecerá daqui em diante. Com passos firmes Rhodan e Enzally saíram da sala.
Passaram pelo robô imóvel, cujas lentes de cristal estavam rigidamente fixadas sobre os treze saltadores aos quais já obedecera.
E agora os levaria para o exílio.
O planeta de Goszul era o segundo dos sete mundos que gravitavam em torno da estrela 221-Tatlira. Era o nome sob o qual constava nos mapas estelares dos saltadores. Distava 1.012 anos-luz da Terra, sendo desconhecido dos astrônomos do planeta.
Numa ação incruenta, o Exército de Mutantes de Perry Rhodan conseguira reconquistar aquele mundo transformado numa base dos saltadores, devolvendo-o aos seus donos. Os quatro mutantes dirigidos por John Marshall, o telepata, fizeram irromper uma epidemia artificial, que no primeiro estágio fazia surgir manchas na pele e posteriormente parecia atacar o cérebro. As pessoas atacadas pela moléstia perdiam a memória. Naturalmente havia um soro contra a doença, mas os saltadores não sabiam disso.
Dominados de pavor, puseram-se em fuga e deixaram os vinte governantes entregues ao seu destino.
Algumas semanas depois do início da epidemia, seus efeitos cessaram. As pessoas atacadas recuperaram a memória, e o cérebro passou a funcionar melhor que antes. As manchas na pele desapareceram. Mesmo as pessoas que não recebiam a injeção de soro recuperavam a saúde, embora isso demorasse algumas semanas.
Os saltadores que haviam fugido não deixariam de notar isso; Rhodan sabia disso. Mas também sabia do estado de pânico que devia apoderar-se daquela raça tão evoluída no terreno da medicina. Acreditariam que o restabelecimento não passava de um simples acaso, e por algum tempo prefeririam não pisar no planeta de Goszul.
Nesse ponto Rhodan estava enganado, mas soube disso em tempo. No momento estava tão ocupado com os problemas do presente que não tinha tempo para pensar no futuro.
Em algum lugar nas montanhas ficava o estaleiro secreto dos saltadores, onde os robôs de serviço estavam dando os últimos retoques num gigante do espaço como nunca fora construído igual. Pelo que Enzally lera nos pensamentos de Ragor, essa nave, construída segundo os projetos mais recentes dos engenheiros mais capazes dos saltadores, deixava para trás até mesmo as conquistas dos arcônidas.
Rhodan tinha que apossar-se dessa nave.
Só por isso ainda não saíra daquele mundo para retornar à Terra, onde tarefas muito importantes o aguardavam.

* * *

A conferência de campanha foi realizada na ampla sala de comando da Stardust. A gigantesca esfera espacial de oitocentos metros de diâmetro, cercada pelos cruzadores Terra, Solar System e Centauro, encontrava-se no campo de pouso da Terra dos Deuses, nome que os nativos davam ao continente em que os saltadores haviam instalado suas bases.
Reginald Bell estava sentado ao lado de Perry Rhodan. Seus rebeldes cabelos ruivos cortados à escovinha estavam deitados para trás, mas revelavam uma tendência irresistível de assumir a posição vertical.
Os mutantes John Marshall, Tako Kakuta, Kitai Ishibashi e Tama Yokida estavam um pouco mais afastados, sentados em dois sofás. À sua frente encontravam-se os representantes do governo do planeta de Goszul. Ralv, o chefe da rebelião contra os saltadores, já desempenhava as funções de chefe do governo do mundo recém-libertado. Ao lado dele encontrava-se, quieto e humilde como sempre, o telepata Enzally, um goszul de certa idade. Era o único mutante que o planeta havia produzido. O terceiro representante dos nativos era Geragk, um dos subchefes dos grupos de resistência que se opunham ao domínio dos saltadores e eram dirigidos por Ralv.
Ainda estavam presentes os comandantes dos três cruzadores, que com seus duzentos metros de diâmetro pareciam anões perto da Stardust, mas eram construções de uma perfeição técnica quase inconcebível. Sentado entre o major Nyssen e o major Deringhouse, o capitão MacClears nem se parecia dar conta de sua patente inferior.
Os vinte governantes já se encontram na ilha e com isso devem estar fora de jogo — principiou Rhodan, lançando um ligeiro olhar para Ralv. — Espero que ninguém os ajude a fugir, nem procure praticar qualquer ato de vingança contra eles. Com isso o planeta de Goszul está livre e encontra-se nas mãos de seus legítimos donos. Espero que saibam transformá-lo num belo mundo.
Ralv sentiu que essas palavras eram dirigidas a ele. Com um gesto de autoconfiança disse:
Confie em nós. Saberemos ser gratos, restituindo a liberdade ao nosso povo. E não temos nada a opor a que instalem uma base neste planeta e negociem conosco.
Nesse caso poderíamos despedir-nos — disse Bell com um gesto grandioso. — Apenas aquela nave enorme dos saltadores...
Apenas? — interrompeu-o Rhodan em tom enfático. — Essa nave me preocupa bastante. Enzally vigiou os governantes e descobriu que o estaleiro fica nas montanhas, a uns cinqüenta quilômetros daqui. Cerca de trinta robôs e especialistas em robôs trabalham no mesmo. Gozam de independência total, não dependendo de nenhum organismo de controle. O estaleiro é protegido por um contingente de cem robôs de combate, que foram programados, para atacar qualquer coisa que não se pareça com um saltador. Por isso não existe a menor possibilidade de colocá-los fora de ação por meio da desativação de algum posto central. Devem ser dominados e desativados um por um. É um trabalho e tanto.
Por que faz tanta questão de apoderar-se dessa nave dos saltadores? — perguntou Bell.
É simples, Bell. Sabemos que é a nave mais moderna que já foi construída. Suas instalações e sua sofisticação técnica ultrapassa qualquer coisa que possamos imaginar. Para nós a civilização arcônida é o padrão que nos serve de guia, mas não se esqueça de que os arcônidas dormiram durante oito mil anos. Isso não aconteceu com os saltadores, que se separaram de seu império. Continuaram a desenvolver sua tecnologia e sob certos aspectos alcançaram uma nítida superioridade sobre os arcônidas. Tenho certeza absoluta de que essa nave representará uma surpresa para todos. Estou curioso; é só isso.
Bell sorriu.
Será que realmente está apenas curioso?
Rhodan sorriu de volta, mas logo voltou a tornar-se sério.
Vê-se, portanto, que precisamos dessa nave, nem que seja apenas para examiná-la. Não podemos recorrer à força, pois isso levaria os robôs a destruir a nave quando não tivessem mais nenhuma saída. Não tenho a menor dúvida de que sua programação inclui instruções nesse sentido.
Como poderemos impedir que ajam assim?
Devemos usar a surpresa e blefar. Ainda não sei como faremos isso. Antes de mais nada precisamos saber a quantas andamos. Gucky nos dará algumas informações. Está no estaleiro desde hoje de manhã.
As palavras de Rhodan provocaram certa surpresa, pois nenhum dos presentes sabia que o rato-castor havia recebido esse tipo de incumbência.
Gucky? — gemeu Bell. — Gucky está no estaleiro?
Rhodan fez que sim.
Quem melhor que nosso amiguinho para executar uma tarefa desse tipo? Primeiro, é o mutante mais perfeito que conhecemos. Além da telepatia domina a telecinésia e a teleportação. Saberá defender-se e colocar-se num lugar seguro sempre que a situação se torne crítica. Além disso, não se parece com um homem; tem o aspecto de um rato superdimensionado. É bem possível que os robôs acreditem terem diante de si um animal inofensivo e nem se interessem por ele.
Pelo que conheço de Gucky — disse Bell — ele ficará furioso se os robôs o ignorarem.
Acho que é muito inteligente para tomar uma atitude dessas — objetou Rhodan. — Seja como for, aguardo Gucky de um momento para outro. Sabe que estamos aqui na Stardust, aguardando as informações que ele nos trará.
Um dos oficiais que se encontrava num ponto mais afastado pigarreou.
Pois não — disse Rhodan, convidando-o a dar sua opinião.
O major Deringhouse, que comandava o cruzador recém-construído Centauro e o número reduzido de caças capazes de desenvolver a velocidade da luz que se encontravam nos seus hangares deu um sorriso um tanto matreiro.
Permite uma sugestão? Não vejo por que complicar as coisas. A qualquer momento posso colocar os robôs fora de ação, atacando o estaleiro com cinqüenta caças espaciais.
Rhodan sacudiu a cabeça.
Isso seria um procedimento puramente militarista e pouco inteligente. Um único robô seria suficiente para detonar a carga explosiva que talvez já tenha sido preparada, mandando para os ares o estaleiro e a nave. Precisamos de um estratagema. E o senhor há de reconhecer que nesse terreno conseguimos acumular alguma experiência.
Deringhouse esteve a ponto de responder, mas o sorriso zombeteiro de Bell fez com que preferisse ficar calado. Mais uma vez aquele sujeito ruivo que se encontrava ao lado de Bell parecia saber alguma coisa que não queria contar.
Quando Gucky deverá voltar? — perguntou John Marshall, o telepata do pequeno grupo de mutantes que já havia atuado no planeta de Goszul. Rhodan deu de ombros.
Aguardo-o a qualquer momento, mas uma porção de acontecimentos pode retardar seu regresso. Se for necessário, Tako também terá que arriscar o salto para ver por onde anda.
O japonês Tako também era um teleportador. Bastava a força de sua vontade para que se desmaterializasse e voltasse a transformar-se em matéria no local em que escolhesse. Isso acontecia numa fração de tempo, motivo por que Tako podia vencer instantaneamente qualquer distância. Exibiu seu sorriso tranqüilo e humilde e respondeu:
Se for necessário, poderei ir imediatamente. Quem sabe se Gucky não caiu em alguma armadilha e está precisando de auxílio?
Vamos esperar mais trinta minutos, Tako — disse Rhodan, sacudindo a cabeça. — Só depois disso terminará o prazo que Gucky e eu combinamos. Até lá teremos que dar-lhe uma chance.
Bell lançou um olhar pensativo para as telas apagadas dos aparelhos de controle. Ao que parecia sua mente estava ocupada com um problema e procurava a resposta. Finalmente falou, saindo por completo do tema até então tratado:
Não sei por que tanto mistério. Bem que poderiam saber quem lhes infligiu a derrota.
Há vários motivos para que não saibam. Como sabemos, o clã do patriarca Etztak faz muita questão de presentear-nos com seu regime colonial. Uma vez já conseguimos expulsá-lo do sistema solar. Não pense que com isso o assunto está liquidado. Um belo dia voltará, e estou interessado em adiar esse fato o mais que posso. Se acreditar que neste sistema tem diante de si outro inimigo, também muito poderoso, isso lhe dará o que pensar. Dois inimigos num espaço relativamente reduzido representam uma situação bastante crítica. Quando souber que também aqui foi a Terra que lhe estragou os planos, não contará tempo para mobilizar todo o poderio dos saltadores a fim de destruir nosso planeta.
É verdade — respondeu Bell, captando um olhar encorajador do major Deringhouse que, segundo parecia, também gostaria de conhecer os motivos da atitude de Rhodan. — Mas será que temos motivos para temer os saltadores?
Rhodan esboçou um sorriso frio.
A superioridade numérica nos esmagaria. Além disso, sempre acho preferível realizar negociações com um inimigo que um dia poderá conduzir a um acordo que assumir a responsabilidade por milhões de mortes. No momento não podemos concretizar nenhuma dessas alternativas, já que Etztak e seus amigos fugiram da terrível epidemia que nem existe. Levará muito tempo para descobrir que a doença não é perigosa.
E os outros saltadores? — perguntou John Marshall. — Há muitos clãs e todos eles mantêm contato entre si, embora não possuam uma pátria propriamente dita além de suas naves. Será que não voltarão para salvar as instalações técnicas aqui existentes?
O senhor se esquece da quarentena a que o planeta está submetido — lembrou Rhodan. — Ninguém tem permissão para pousar no planeta de Goszul. Ao menos nenhum saltador. — Seu sorriso aprofundou-se. — Além disso, não acredito que qualquer saltador teria coragem de enfrentar uma doença desconhecida apenas para resgatar alguns robôs, muito embora estes representem um elevado valor material.
E a nave? — lembrou Bell.
Naquele momento ninguém desconfiava de que Rhodan se esquecera de muita coisa além da nave. Só saberiam disso bem mais tarde...

* * *

Gucky teve bastante inteligência para pousar a uma boa distância do misterioso estaleiro espacial, em meio à selva montanhosa.
Teve sorte. O salto para o desconhecido levou-o para um planalto pedregoso em que cresciam algumas árvores raquíticas, que lhe proporcionariam abrigo se aparecesse alguém. Pelos seus cálculos o estaleiro não devia ficar a mais de dois ou três quilômetros. Como tivesse preguiça de andar, pretendia vencer essa distância com alguns saltos bem calculados. Quem visse Gucky compreenderia por que não fazia muita questão de andar. Parecia um gigantesco rato com o rabo achatado de um castor.
As grandes orelhas afinavam nas pontas e geralmente se mantinham de pé. O pêlo ruivo era liso e flexível. As perninhas do animal, que tinha mais de um metro de altura, pareciam desajeitadas. Sua inteligência era muito superior à de um homem normal.
Em seu mundo frio, que girava em torno de um sol solitário, era considerado um fenômeno, pois os indivíduos de sua raça possuíam apenas o dom da telecinésia, enquanto Gucky ainda era um telepata e sabia deslocar-se por meio da teleportação.
Agachado sobre as patas traseiras, o rato-castor deixou que seus olhos penetrantes corressem para todos os lados, examinando os detalhes do terreno que oferecia pouca visibilidade. Não captou nenhum pensamento, e isso nem era possível. Um robô não pensa como um ser orgânico. Seus impulsos não podem ser captados, ao menos por um cérebro telepático.
Os raios de sol dardejavam sobre a superfície rochosa. Gucky, que apreciava o frio, começou a transpirar. Para enxergar melhor, subiu e, depois de ter atingido a altura de vinte metros, parou no ar. Ali em cima era mais fresco. O estaleiro devia ficar ao norte. Gucky não viu outra coisa senão encostas rochosas íngremes e grotas entrecortadas. Por que os saltadores haviam escolhido um local desolado como este para construir uma nave? Provavelmente se sentiam seguros por aqui.
Subitamente um relampejo atingiu seus olhos, vindo de longe. Parecia o reflexo de um raio de sol sobre uma superfície de metal polido.
Gucky forçou a vista e reconheceu um robô que a menos de mil metros de distância patrulhava lentamente o terreno. Encontrava-se exatamente na entrada de um dos numerosos vales.
Não era nenhuma coincidência!
O rato-castor fixou a direção e deixou-se descer ao solo. Concentrou-se cuidadosamente sobre uma rocha pontuda que ficava a pequena distância da entrada do vale... e saltou.
No mesmo instante rematerializou-se atrás da rocha, respirou profundamente e saiu a passos balouçantes, como se fosse um coelho gigante radicado nessa área que estivesse à procura de comida. O procedimento não tinha nada de estranhável. Era quase certo que os robôs haviam sido programados no sentido de verem seus inimigos apenas nos goszuls nativos.
O monstro metálico prosseguiu no patrulhamento da entrada do vale que media menos de cinqüenta metros de largura, sem interessar-se por Gucky, para quem o espetáculo representava uma experiência vital. Se o robô não reagisse à sua aproximação, poderia deslocar-se livremente. Era bem verdade que a idéia de não ser levado a sério não era nada agradável, mas em outra oportunidade ele se vingaria.
A menos de trinta metros do robô Gucky ficou sentado, estudando atentamente o inimigo. Os braços angulosos terminavam nos canos em espiral dos mortíferos radiadores energéticos. O rato-castor sabia perfeitamente que os mesmos o volatilizariam numa questão de segundos, se o cérebro positrônico do gigante de mais de dois metros o considerasse como inimigo. Felizmente isso não acontecia. O robô nem sabia o que era um rato-castor. Enquanto Gucky mantivesse uma atitude pacífica, nunca seria identificado como possível inimigo.
A antena encolhida do robô indicava que ele não estava em contato com qualquer central de comando, mas era dirigido por meio de comandos individuais armazenados em seu cérebro. Bastaria aproximar-se dele para desativá-lo e paralisá-lo. Mas isso não era tão simples assim, pois assim que o robô constatasse a presença de inteligência num ser que não se parecesse com um saltador, esboçaria uma reação hostil. Gucky não soube lidar com o problema. Resolveu verificar se o cérebro positrônico o registraria como ser não dotado de inteligência.
Pôs os quatro pés no chão e foi saltitando diretamente para o vigilante silencioso, que prosseguiu na sua ronda. Manteve-se preparado para um salto de teleportação, a fim de poder colocar-se em segurança assim que isso se tornasse necessário.
Se Bell visse seu amiguinho nessa situação, teria soltado uma gargalhada de escárnio. Gucky, o mutante todo-poderoso, transformado num supercoelho! Era uma idéia mais que esquisita. Felizmente Bell não estava por perto e assim não pôde deleitar-se com o espetáculo, que não despertou o menor interesse no robô.
Este simplesmente ignorou Gucky.
O rato-castor teve vontade de recorrer às suas energias telecinéticas para levantá-lo a uma altura de cinqüenta metros e fazê-lo cair ao chão, como já fizera com outros robôs. Mas tinha que ater-se à tarefa que lhe fora confiada por Rhodan. De sua parte também ignorou o robô e, passando junto dele, saltitou vale a dentro.
Assim que tinha passado pelo monstro metálico foi saltitando de costas, para não ser liquidado de surpresa. Mas a precaução revelou-se inútil. O robô achava que se tratava dum animal inofensivo que ia procurar comida no vale, ou se dirigia a alguma das raras fontes existentes naquela área desolada.
O vale logo se abriu, mas continuou seco. Apenas a vegetação mais abundante revelava a maior umidade do solo. Gucky continuou a saltitar até que uma curva o colocasse fora do alcance da visão do robô.
Sentiu-se aliviado. Pôde dedicar sua atenção ao que havia pela frente, e viu que valia a pena.
O vale abriu-se a ponto de se transformar numa bacia de mais de um quilômetro de diâmetro. As encostas rochosas íngremes formavam um obstáculo intransponível para qualquer visitante indesejado. Ninguém poderia entrar ali e, uma vez lá dentro, não conseguiria sair, a não ser que possuísse asas. Havia pavilhões baixos que abrigavam as máquinas e as usinas, mas isso Gucky só percebeu em segunda linha.
A abertura existente na encosta de mais de quinhentos metros ocupou toda sua atenção.
Tinha uma altura de mais de duzentos metros e sua largura era ao menos igual à altura. Uma luz abundante saía da escuridão da montanha, deixando perceber o envoltório metálico reluzente da nave espacial quase concluída, inteiramente oculta das vistas dos curiosos. Se as informações de Rhodan fossem corretas, o túnel que penetrava na montanha devia ter pelo menos oitocentos metros de comprimento.
Os saltadores não poderiam ter escolhido um esconderijo melhor que esse.
Uma fileira de robôs de combate bloqueava a única saída da bacia. Mantinham-se imóveis, de frente para Gucky que, agachado entre algumas moitas, fez de conta que se deleitava com o capim escasso que crescia entre as pedras, sem interessar-se pelos robôs ou pela nave.
Ao que parecia, até mesmo os cérebros positrônicos acreditavam que um vegetariano é uma criatura que não pode fazer mal a ninguém. Mais uma vez Gucky teve de notar, cheio de ressentimento, que não era levado a sério e ninguém via nele um intruso.
Mas de certo modo isso o deixava satisfeito.
Era bem verdade que não poderia recorrer à teleportação, pois os robôs interpretariam tal atividade como um sinal de inteligência e reagiriam de forma adequada. Por isso o rato-castor não teve outra alternativa senão continuar a pastar e aproximar-se lentamente da reluzente linha de defesa.
Talvez conseguisse chegar mesmo à própria nave espacial. Quanto maior o volume de informações que conseguisse levar a Rhodan, mais fácil se tornaria a ação que pretendiam lançar contra o estaleiro.
Saltitou para diante, sem sentir-se muito à vontade.
Cerca de trinta robôs bloqueavam o vale. Como se formassem em semicírculo dirigido para fora, a distância entre um e outro era de cerca de cinco metros. Era um desperdício tremendo, pois o poder defensivo de um robô é enorme. Bastava um deles para defender o vale contra um exército que pretendesse invadi-lo.
Concluía-se que os saltadores davam muita importância àquela nave.
Gucky não teve muito tempo para refletir. Enojado, enfiou o feixe de capim atrás do dente roedor, esperando poder cuspi-lo dali a pouco. Tinha que guardar as aparências. No planeta de Goszul existia um tipo de coelho, e teria que imitar o mesmo.
Gucky não pôde impedir que os pêlos da nuca se arrepiassem à vista das máquinas de guerra, agora tão próximas, que mantinham os radiadores energéticos firmemente apontados para a frente. Era bem possível que os robôs já estivessem há meses no mesmo lugar, mas era evidente que não se importavam com isso. Não tinham a menor idéia de tempo e de espaço quando incumbidos de uma tarefa de expectativa e vigilância. Dali a mil anos ainda estariam no mesmo lugar, se não recebessem qualquer ordem em contrário. Bem, para Gucky tudo isso não importava, desde que não tomassem conhecimento da sua presença. Saltitou mais alguns metros e parou junto a um suculento feixe de capim.
O robô mais próximo, que se encontrava a uns vinte metros de distância, executou um movimento preguiçoso, dirigindo suas lentes cintilantes sobre o intruso. Seus vizinhos não esboçaram qualquer reação.
Gucky teve uma sensação esquisita no estômago, o que não foi devido apenas à deglutição do capim. Reuniu toda a coragem que possuía e pôs-se a devorar maiores quantidades daquela comida repugnante, para conseguir uma semelhança ainda maior com um coelho nativo.
Quem dera que pudesse teleportar-se! Mas com isso poderia estragar os planos de Rhodan. Os robôs saberiam que o estaleiro fora descoberto por seres inteligentes. Reagiriam em conformidade com esse fato, e seria bem possível que destruíssem a nave, se não tivessem outra saída. Gucky tinha certeza de que já tinham conhecimento da fuga dos comandantes dos saltadores.
O sabor do capim era horrível.
O feixe mais próximo encontrava-se exatamente entre os dois robôs postados diante de Gucky. O rato-castor reuniu as últimas energias e foi saltitando em direção ao mesmo. Conteve a respiração, para poder se desmaterializar a qualquer momento. Mas essa medida extrema de salvação teria de ser evitada enquanto isso fosse possível.
O robô mais próximo girou lentamente em sua direção. O braço esquerdo fechou-se num ângulo e apontou exatamente na direção de Gucky, que ainda não se atreveu a respirar e continuou a saltitar em movimentos seguros, procurando atingir a moita de capim que subitamente parecia bastante apetitosa.
Eram segundos de tensão quase insuportável. Será que o robô julgaria conveniente destruir o animal aparentemente inofensivo? Se fosse assim, ele não o faria para matar o tempo, pois um robô não conhece o tédio. Nesse caso a programação incluiria uma proibição de entrar no vale que abrangia todo e qualquer ser vivo.
Mas, por que o robô postado na entrada não agira dessa forma?
O gosto não melhorara nem um pouco, mas Gucky teve a impressão de nunca ter comido nada que fosse mais saboroso. Essa impressão só durou até o momento em que o dente-roedor iniciou sua tentativa inútil de triturar o capim.
O robô dedicou um interesse visível à pastagem de Gucky. Seu braço armado manteve-se estendido, pronto para disparar, mas se tivesse a intenção de destruir o pequeno roedor, já o teria feito. Não havia nenhum fundamento lógico para a demora.
O raciocínio ágil de Gucky logo compreendeu isso. Num gesto heróico engoliu o capim sem mastigar. Seu estômago quis revoltar-se, mas isso não durou muito. Estremecendo por dentro, ignorou o robô que continuava vigilante e continuou a comer.
O cérebro positrônico do guarda metálico registrou o fato: era um ser vivo que não se parecia com um saltador, mas também não se parecia com um goszul ou qualquer outro ser inteligente. Era um animal que não possuía inteligência, pois de outra forma evitaria a vizinhança das máquinas de combate. Não pensa; logo, não é perigoso. Ainda acontece que come capim; logo, é um ser nativo deste mundo. E, como os goszuls são os únicos inimigos que os saltadores têm neste planeta...
A conclusão era evidente: o herbívoro era um ser inofensivo.
Aliviado, Gucky notou que o braço armado se abaixou e o robô voltou a dirigir seu olhar para a entrada do vale. O pior, que era a experiência para valer, havia sido vencido.
Agora não devia precipitar nada.
Guiando-se por essa regra, continuou a pastar tranqüilamente e quase chegou a estourar o estômago. Saltitou em direção ao edifício mais próximo.Sentiu um estranho calafrio nas costas, mas resistiu à tentação de olhar para trás. O que aconteceria se o robô colocasse em funcionamento outro circuito de seu mecanismo e tomasse uma decisão diferente? O rato-castor não se tranqüilizou muito com a idéia de que não sentiria sua morte repentina.
Ignorou a moita de capim mais próxima e continuou a saltar. Com um alívio indescritível dobrou pela quina do edifício alongado, colocando-se fora das vistas do robô.
Soltou um suspiro de alívio.
A entrada do estaleiro escavado na rocha ficava a uns duzentos metros do lugar em que se encontrava. Nesse trecho havia vários pavilhões e objetos empilhados ao ar livre. Eram armações metálicas, peças reluzentes do casco, pequenos andaimes e caixas enormes. Robôs de trabalho com uma programação especial predeterminada moviam-se entre os pavilhões, executando suas tarefas. Do túnel saíam ruídos dos mais diversos tipos, que não permitiam a menor dúvida de que ainda se estava trabalhando na construção da nave.
Os robôs não haviam recebido contra-ordem; por isso concluiriam o trabalho.
Ninguém sabia o que aconteceria depois.
Rhodan não podia assumir o risco de permitir que os robôs saíssem para o espaço com a nave recém-concluída, dirigindo-se para um local de encontro predeterminado.
Gucky sabia disso. Precisava descobrir quando começaria o estágio crítico.
Dez metros à esquerda abriu-se uma porta e um robô de trabalho saiu de um pavilhão. Segurava alguns desenhos, que deviam reproduzir a nave concluída. Não trazia armas como os robôs de combate, que Gucky via em todos os cantos. Mas nem por isso era menos perigoso.
Sentado sobre as patas traseiras, Gucky mastigava uma folha de capim, que parecia representar a própria imagem da bem-aventurança. Os estaleiros, os depósitos, os pavilhões e os robôs — tudo isso não o interessava nem um pouco. Para ele só existia o delicioso capim que encontrara naquele vale.
O robô devia ter chegado à mesma conclusão. Sem tomar conhecimento da presença de Gucky, deslocou-se numa série de movimentos abruptos em direção ao túnel, onde se encontrou com outros robôs, com os quais encetou uma palestra.
Ainda bem”, pensou Gucky, cuspindo o capim com uma sensação de alívio. Pelo menos desta vez não teve de engoli-lo. Enquanto isso não tirou os olhos do trecho que ia até a entrada do túnel. Infelizmente isso fez com que não prestasse atenção ao que se passava atrás dele.Ouviu passos, mas antes que tivesse tempo de virar-se, uma ponta de bota atingiu-o pelo lado e atirou-o alguns metros para cima. Por um instante Gucky pensou ter quebrado todos os ossos do corpo, especialmente quando aterrizou no chão de rocha e ficou deitado, quase sem fôlego. Estava tão surpreso que nesse momento de perigo não conseguiu teleportar-se para um lugar seguro. Além disso, conseguiu ver quem lhe dera o pontapé.
Era um saltador.
A barba ruiva constituía indício seguro de que não se tratava de um goszul. E o corpo maciço também revelava que pertencia à classe dos mercadores que já dominaram o planeta. Usava botas pretas e calça apertada. Pela capa branca concluía-se que era um cientista. Uma cabeleira desgrenhada cobria sua cabeça.
Murmurou algumas palavras num dialeto que Gucky não entendeu e continuou a andar tranqüilamente, sem interessar-se por sua vítima. Finalmente o rato-castor teve oportunidade de usar suas capacidades telepáticas, que há poucos segundos negligenciara tanto. Se não tivesse procedido assim, teria notado a aproximação do saltador.
Era só o que faltava, esses bichos andarem pelo vale. — Foi o que o saltador disse em sua língua desconhecida. Falando em intercosmo, acrescentou: — Terei que dar outras instruções aos robôs, senão acabamos tropeçando sobre esses comedores de capim.
Enquanto prosseguia na sua caminhada, Gucky acompanhou seus pensamentos e descobriu que o nome do saltador era Borator e que exercia as funções de diretor-técnico do projeto, sendo o único saltador que se encontrava no local.
Isso tinha suas vantagens. Agora, que passou a prestar atenção aos pensamentos do saltador, não teve a menor dificuldade em seguir e captar os pensamentos do saltador, pois não havia necessidade de classificar e interpretar um fluxo de impulsos. Em todo o vale só havia os pensamentos daquele saltador; o resto era silêncio. Tinha que procurar um esconderijo onde ninguém o perturbasse e pudesse perceber os pensamentos do saltador.
Levantou devagar. Ainda sentia dores no lado. Teve de controlar-se para não vingar-se logo do grosseirão, mas este não perderia por esperar. Aquele saltador ainda se arrependeria amargamente da sua crueldade, foi o que Gucky prometeu a si mesmo para acalmar seu gênio. Faria esse Borator subir para o ar cinqüenta metros e o deixaria pendurado lá um dia inteiro. E depois...
Suas visões de futuro e de vingança foram interrompidas por novos passos. Um robô de trabalho passou junto dele com o olhar estúpido, sem dar-lhe a menor atenção. Aí está, pensou o rato-castor amargurado. Os robôs são mais humanos que os seres inteligentes. Ao menos deixavam-no em paz.
Gucky encontrou um esconderijo seguro atrás de uma pilha de caixas. Ali não teria que temer qualquer surpresa, pois antes que pudessem encontrá-lo teriam de remover a maior parte das caixas, e ele não deixaria de perceber isso, mesmo que estivesse dormindo.
Finalmente teve tempo e tranqüilidade para cuidar do tal do Borator. Com a maior capacidade captou os pensamentos do mesmo, e assim conseguiu “ouvir” o que dizia aos robôs. Não entendia as respostas destes, pois sem um receptor especial Gucky não poderia perceber os impulsos positrônicos emitidos pelos mesmos. Assim mesmo conseguiu descobrir coisas que eram muito importantes para os planos de Rhodan.
Soube, principalmente, que dali a seis dias o gigantesco cruzador espacial guardado no túnel devia estar pronto e em condições de decolar.
Em condições de decolar?
Seria no dia 25 de maio de 1.984 do calendário terrestre. Era um lapso extremamente curto, pois havia muito que fazer. Não podia perder um minuto. Gucky não perdeu tempo. Concentrou-se para a Stardust, que se encontrava a cinqüenta quilômetros dali... e saltou.
Materializou-se bem no colo de Bell.



2



Exatamente vinte horas-luz da estrela 221-Tatlira, doze naves de duzentos metros de comprimento, construídas em formato cilíndrico, saíram do hiperespaço e retornaram ao universo normal.
Havia mais uma nave, que se mantinha um tanto afastada. Media mais cem metros que as outras, mas seu formato também lembrava o de um cilindro arredondado na extremidade. No casco abriam-se vigias redondas e iluminadas, atrás das quais se moviam sombras distorcidas, que assumiam proporções gigantescas. Seriam apenas distorcidas?...
Topthor, o comandante da frota, acomodara o peso de mais de meia tonelada de seu corpo junto aos controles de comando. Seu corpo tinha mais de metro e meio de altura, mas a circunferência do mesmo media mais de cinco metros. Em outras palavras, a largura era igual a altura. O crânio liso era o de um saltador, o que se via pela barba ruiva aparada.
As telas iluminaram-se, retratando o sistema do qual a frota se aproximava à velocidade da luz.
As mãos pesadas de Topthor descansavam sobre uma folha de plástico coberta de caracteres estranhos. Nessa folha estavam os motivos por que mais uma vez teve de imiscuir-se nos problemas alheios. Afinal, era este seu dever... e sua profissão.
É que o clã de Topthor, geralmente conhecido como o clã dos superpesados, assumira na comunidade dos mercadores galácticos o papel dos bombeiros. Não negociavam com mercadorias, mas com a guerra. Sempre que em algum lugar irrompia um incêndio, eram chamados. Além disso, forneciam naves de comboio, mediante pagamento de quantias predeterminadas pelos membros dos clãs interessados.
Nunca Topthor chegara a temer um inimigo, quanto mais fugir dele — com exceção de uma única vez. Foi quando tentou atacar um planeta chamado Terra. Nessa oportunidade suas forças foram quase totalmente destruídas pela nave esférica de Perry Rhodan.
Topthor resolvera que jamais voltaria a lutar contra Perry Rhodan. Não era covarde, mas gostava de viver.
Topthor esboçou um sorriso feroz quando se lembrou de Perry Rhodan. O terrano estava longe e nada tinha que ver com aquilo que estava planejando. No planeta de Goszul se defrontaria com outro inimigo: uma doença. Bastava precaver-se contra a infecção. O resto seria uma tarefa de rotina. Os nativos rebeldes seriam castigados, os robôs e o equipamento técnico contaminado seriam guardados nos porões hermeticamente fechados da nave, e providenciaria para que a nave superavançada fosse levada ao destino.
O planeta de Goszul estava submetido à quarentena. Só em circunstâncias muito especiais alguém poderia pousar nele. E a tarefa que lhe fora confiada representava uma circunstância desse tipo.
Topthor ainda estava sorrindo quando voltou a pegar o escrito e leu o texto lacônico:

Para Topthor, comandante e patriarca do clã dos superpesados. O planeta de Goszul está sob quarentena. Há uma epidemia que produz uma amnésia total. É incurável. Resgatar o equipamento técnico. Os nativos se rebelaram e devem ser punidos. Couraçado construído em segredo, uma vez concluído, será encaminhado para as coordenadas XXM-17. Os governantes e dirigentes do estaleiro devem ser deixados para trás.
Em nome de todos os clãs — Etztak.”

Topthor colocou a folha de plástico sobre a mesa. A tela que se estendia acima dela mostrava com toda nitidez o sol pequeno e amarelento de Tatlira, cercado de vários pontos luminosos. Eram os planetas.
Um deles era o planeta de GoszuL.
Inclinou-se para a frente e, com um simples movimento, ligou o comunicador, que o colocaria em contato com a sala de comando das outras naves. Dali a uns trinta segundos outra tela subdividida em doze campos distintos começou a iluminar-se.
Em cada um desses campos surgiu um rosto que o fitava numa atitude de expectativa.
Todos eram saltadores superpesados. Há muitos milênios, quando os saltadores ainda viviam em planetas, não em naves, o clã dos superpesados escolhera um mundo em que a gravitação era muito elevada. Em virtude disso, no curso das gerações surgiram alterações físicas, que facilitavam a adaptação às condições reinantes no novo mundo. Foi assim que surgiu o clã dos superpesados.
Os doze saltadores cujos rostos surgiram na tela usavam barbas aparadas e tinham olhos inteligentes, mas frios e perscrutadores. Os lábios cerrados pareciam traços vermelhos. As centenas de quilos de seus corpos não eram retratadas na tela.
Topthor não pôde reprimir um ligeiro sorriso quando fitou os rostos de seus comandantes. Sabia que não temiam a morte nem o diabo, mas tinham um medo terrível de uma doença incurável. Mas, para falar com franqueza, ele mesmo também não se sentia muito bem. Mas nunca confessaria uma coisa dessas.
O objetivo está à nossa frente — disse com sua voz retumbante, que já fizera com que muitos patriarcas aumentassem espontaneamente a oferta para a proteção aos seus comboios. — Vocês conhecem a tarefa e sabem que a mesma não é fácil. Antes de mais nada temos de ocupar o estaleiro espacial, para evitar que ele seja atacado ou mesmo destruído pelos nativos. Não sei como esses habitantes primitivos de Goszul poderiam enfrentar cem robôs de combate, mas alguém preveniu Etztak para que não os subestimasse. Só depois de cumprida essa parte poderemos cuidar do resgate do equipamento técnico e dos robôs. — Esboçou um sorriso preguiçoso. — Acho estranho que Etztak não faça muita questão do lucro material. Isso me dá o que pensar.
Um dos doze saltadores gesticulou violentamente, mostrando que apoiava as palavras de Topthor. Realmente a atitude de Etztak era suspeita e dava o que pensar. Topthor fez um sinal ao comandante.
Pois não, Rangol. O que houve?
Será que subestimamos os goszuls? Em nossos fichários constam como subdesenvolvidos pacíficos e sem ambições. Sua tecnologia é antiquada e muitíssimo inferior à nossa. Não compreendo por que Etztak teve que fugir...
Esqueceu-se da epidemia? — lembrou Topthor. — Quando me lembro dela, também não me sinto muito feliz. Pode-se perder a memória.
Assim mesmo vamos pousar lá? — perguntou outro.
Recebemos licença especial do conselho do clã. Nossos trajes especiais nos protegerão contra a contaminação. E por enquanto deixaremos sair exclusivamente os robôs, que farão o trabalho mais pesado. Ainda teremos que providenciar para que ninguém consiga sair do sistema.
Sempre pensei que os goszuls não possuíssem naves espaciais.— E não possuem mesmo. Mas ordens são ordens. Deve haver outras naves, além daquela que vamos buscar. Seja como for, vamos bloquear o sistema e manteremos contato entre nós. Apenas duas das nossas naves pousarão. A de Rangol e a minha.
Rangol não parecia muito satisfeito. A distinção com que fora agraciado não parecia deixá-lo muito alegre, mas manteve-se calado. Era preferível não irritar Topthor.
Mais alguma pergunta?
Ninguém teve perguntas.
Muito bem — disse Topthor. — Meu navegador lhes fornecerá as coordenadas que calculou. Daqui a quatro horas nos separaremos. As estações de rádio ficarão permanentemente em recepção. Fim.
A tela de doze campos apagou-se no mesmo instante em que a comunicação foi interrompida. O restante da palestra foi conduzida pelo navegador que se encontrava na sala de telegrafia.
Topthor reclinou-se na poltrona e com os olhos semicerrados contemplou o sistema solar de Tatlira, do qual se aproximava à velocidade da luz.
Com uma certa preocupação perguntou de si para si o que o aguardaria por lá.

* * *

Quando Gucky contou que chegara a comer capim para convencer os robôs de que era uma criatura inofensiva, Bell irrompeu numa gargalhada homérica. Não conseguiu acalmar-se e provavelmente teria morrido sufocado se tivesse tempo para isso. Acontece que não teve.
Subitamente a voz de Gucky tornou-se aguda e estridente.
Você acha que gostei disso? Se você não parar logo de se divertir à custa da situação miserável que tive de enfrentar, você vai ver uma coisa, seu monstro ruivo. Então?
O “então” estava tão carregado de expectativa que Bell logo estacou, lembrando-se de situações semelhantes, em que levara a pior. Afinal era um homem normal, não dotado de capacidades telecinéticas. Respirando com dificuldade, parou de rir e disse com a voz ofegante:
Não tive a intenção de ofendê-lo. E depois? Os robôs caíram nessa, acreditando que você fosse uma espécie de coelho?
Gucky confirmou com o rosto muito sério.
Mais ou menos. De qualquer maneira consegui atravessar a fileira de guardas e entrar no estaleiro. O projeto está sendo dirigido por um certo Borator. É um saltador.
Era uma surpresa.
Quer dizer que não teremos que lidar apenas com os robôs — disse Rhodan em tom pensativo. — Isso dificulta a solução do problema, mas não muito. Antes de mais nada teremos que reduzir esse Borator à impotência; só depois disso poderemos pensar em colocar os cento e trinta robôs fora de combate sem chamar a atenção. Acho que conseguiremos isso com o novo radiador de impulsos de reprogramação. Infelizmente a ação do aparelho é apenas individual, isto é, temos que pegar os robôs um por um e dar-lhes outra programação. Se os outros perceberem, e não há a menor dúvida de que perceberão, haverá dificuldades.
Ainda sou de opinião que devemos lançar um ataque de surpresa com os nossos caças e destruir os robôs — interveio o major Deringhouse.
Rhodan nem sequer deu uma resposta.
E essa resposta não faria o menor sentido, pois naquele instante uma luzinha vermelha acendeu-se junto ao intercomunicador. Ouviu-se um zumbido. E a tela iluminou-se. Nela surgiu o rosto preocupado do tenente Fisher, que estava de plantão na sala de telegrafia.
Rhodan apertou um botão, estabelecendo o contato.
O que houve, Fisher? É alguma coisa importante? Estamos em conferência e...
É importante, sim senhor. Nossos rastreadores estruturais registraram transições nas imediações do sistema. Ao que parece, os saltadores que fugiram estão de volta.
Rhodan ficou perplexo por dois segundos, mas logo recuperou o autocontrole.
Acho que isso não é possível. Fisher. Verifique as coordenadas exatas das transições e seu número. Avise-me assim que houver alguma novidade.
Sim senhor.
O contato entre a sala de comando e a sala de telegrafia foi mantido. Ao que tudo indicava, Rhodan não estava disposto a perder-se em especulações vazias; por isso Gucky prosseguiu no seu relato. Evidentemente os presentes não lhe dedicavam a mesma atenção. Todos pensavam nas naves espaciais surgidas tão de repente, e que se aproximavam do planeta de Goszul.
Quem seriam? O que queriam?
O tenente Fisher não os deixou na incerteza por muito tempo.
São treze naves. Comprimento de cerca de duzentos metros e o formato típico das unidades dos saltadores. Saíram do hiperespaço a uma distância aproximada de um dia-luz. Pela intensidade dos abalos conclui-se que executaram um salto de mais de três mil anos-luz. Aproximam-se em formação compacta e à velocidade da luz. Voltarei a entrar em contato com o senhor.
Rhodan fitou os presentes.
Então são os saltadores! Não compreendo. Será que são os mesmos?
Não devem ser — disse Bell em tom convicto. — O pessoal de Etztak deve estar farto da lição; não voltará. Além disso, pegaram a doença e não se lembram de nada.
Acontece que já tiveram tempo de mandar algumas naves de guerra. Mas acredito que ainda não saibam com quem estão lidando. Gostaria de saber o que querem por aqui.
Subitamente Gucky interveio com a voz nervosa e estridente:
Querem a nave que está para ser concluída. É claro que vem buscar a nave.
Rhodan não conseguiu disfarçar a surpresa.

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