A seção
positrônica de bordo, baseando-se no conjunto de dados recolhidos,
declarou:
— Honur
é uma terra inofensiva.
A
possibilidade de engano chegava a 0,7%.
Perry
Rhodan respirou mais aliviado, depois que leu esta mensagem nas
listas plásticas. Contente, fez um gesto afirmativo para Crest, que
estava de pé a seu lado.
— O
pessoal pode deixar a nave e fazer contato com os habitantes, mas o
pré-alarme continua valendo para um terço da guarda de segurança.
*
* *
Perry
Rhodan, Reginald Bell e Crest, de pé na escotilha, estavam
perplexos, olhando o espetáculo lá embaixo, entre os suportes
telescópicos da Titan.
— Meio
famintos — dizia Rhodan comovido.
Não
prosseguiu. Continuou olhando aquelas figuras magras, secas, passando
fome, devorando com apetite animalesco os alimentos que ele havia
liberado.
Desceram a
rampa bem devagar e pararam numa de suas extremidades.
Os
nativos, irreconhecíveis descendentes dos arcônidas, aproximaram-se
com seus farrapos dos homens assustados. De seus olhos grandes e
muito encavados havia o brilho de sincera gratidão. Nos trapos que
cobriam seus corpos, Perry julgava ver restos de velhos uniformes.
Mas antes que pudesse perguntar a Crest, uma delegação deles se
ajoelhou em sua frente, meteram a mão por baixo dos farrapos de
roupa e entregaram presentes para os hóspedes: Flores do planeta
Honur.
— Flores
negras — disse Crest espantado, dando inconscientemente um passo
para trás.
— Muito
obrigado aos senhores, que vêm das estrelas — conseguiram ainda
entender em dialeto arcônida. Mas o mais espantoso foi o gesto
humilde desta delegação: estendida no chão, empurravam com os
braços magros as plantas exóticas para a rampa.
— Levantem-se
— pediu Rhodan — não somos mais do que vocês.
Os nativos
prestaram muita atenção ao som de suas palavras. Será que elas lhe
trouxeram à mente recordações dos tempos em que eram soberbos
arcônidas?
Os olhares
curiosos dos homens da tripulação vagavam entre as três flores
negras e a delegação dos nativos. Rhodan ficou fascinado com o
brilho aveludado das flores negras. E o próprio Crest, que vira
tantas coisas esquisitas em estrelas longínquas, não parava de
admirar a beleza exótica e o efeito do colorido.
Rhodan
procurou pelo corpo de mutantes que o seguia a poucos passos. Estavam
fazendo o último controle. Perry viu o quase imperceptível sinal de
cabeça feito por Marshall, sinal este que significava: Os homens não
apresentam nenhum perigo.
Então,
Rhodan automaticamente estendeu a mão e segurou a do arcônida que
com seu olhar misterioso parecia quase adorá-lo.
Também
nas outras três rampas que estavam descidas havia grande aglomeração
dos tripulantes da Titan. Viram quando o chefe estendeu a mão a uma
destas figuras esfarrapadas; para eles, isto queria dizer que deviam
manter contato com a população pobre e faminta.
Os nativos
falavam um dialeto horrível, que mal dava para se entender. Mas
quanto mais viva fosse a conversa, maior seria a possibilidade de se
entenderem.
Perry
Rhodan e Crest conseguiram saber que eles, entre si, se chamavam algo
como “os
purificados”.
Naturalmente que Bell pensava algo a respeito.
“Isto
cheira a sectarismo. E toda pessoa sectária não pode ter cabeça
boa.”
Mas tinha que sentir simpatia por aquela acolhida tão espontânea e
aos poucos foi se entusiasmando. Interessou-se em saber o que lhes
faltava.
Os
“purificados”
viviam daquilo que Honur lhes podia dar. Eram simples e achavam que
suas moradias não mereciam a visita dos poderosos homens das
estrelas.
Rhodan deu
ordem aos robôs de serviço que esvaziassem um setor do grande
depósito de roupas. Quando os robôs trouxeram para eles aquela
grande quantidade de roupa, ninguém correu para apanhá-las.
Aproximaram-se quase que acanhados. Cada um estava preocupado em dar
o lugar ao outro. Acabaram pegando as roupas, mas tão lentamente,
que Perry ficou preocupado.
Fez um
sinal, chamando o telepata John Marshall.
— Será
que todos estes “purificados”
se encontram em estado de hipnose, Marshall?
Marshall
ficou meio sem jeito. Não estava em condições de fornecer ao chefe
uma resposta clara.
— Senhor,
eles são assim. É o seu modo. Pensam tão lentamente, como se
movimentam. Desde alguns minutos que não sinto mais nenhum impulso
que indique alegria.
Rhodan
percebeu que Marshall estava intimamente intranqüilo. Para seu
controle, perguntou:
— Alguns
pensamentos perigosos?
— Não,
senhor. Não constatei nenhuma intenção perigosa e agora sua mente
adormece cada vez mais. Tenho a impressão de que isto se prende ao
fato de terem matado a fome.
Pela
cabeça de Rhodan, passou rapidamente o pensamento: arcônidas
degenerados.
Estes,
outrora orgulhosos descendentes de uma grande raça, eram hoje
inferiores aos selvagens. Parece que o único dever que tinham na
vida era encher a barriga.
A multidão
se pôs a caminho, vagarosamente. Os purificados nem olhavam mais
para os homens da Titan. Cada um apanhou uma peça de roupa e saiu
com passadas bem lentas. Ninguém falava. Calados desapareceram na
direção do lago.
A
tripulação da Titan ficou olhando decepcionada. Jamais teriam
esperado coisa assim, depois de uma recepção tão simpática.
Os
comentários sobre os habitantes do planeta eram pesados. O
julgamento mais suave foi: estes homens de Honur não são muito
normais. O fato é que ninguém concordava em chamá-los de
“purificados”.
Para alguns, porém, esta expressão podia causar intranqüilidade.
Contudo não sabiam que quem apresentava intranqüilidade era Rhodan.
*
* *
Duas horas
mais tarde, os suportes da Titan estavam rodeados pelos
“purificados”.
Perry não
quis mais entrar em contato com os degenerados. Além disso, não era
nada agradável andar lá fora com o aparelho de respiração nas
costas e se movimentar numa atmosfera rarefeita, pobre em oxigênio.
— Tenho
a intenção de fazer uma viagem de reconhecimento com a Gazela.
Crest, quer vir comigo?
O arcônida
concordou contente e apontou ao mesmo tempo para a enorme tela que
reproduzia o que estava acontecendo entre os suportes da espaçonave.
— Olhe,
Perry, lá para baixo. Não são animaizinhos engraçados?
Mas para
Perry, estava valendo o pré-alarme. Ligou o contato e perguntou para
os guardas da escotilha:
— Onde
estão os mutantes?
Da
escotilha oito veio a resposta:
— Uma
parte deles estava lá fora.
Perry
mencionou também o nome de Marshall.
— Urgente,
chamar Marshall — ordenou Rhodan, com voz muito enérgica. —
Examinar imediatamente os animais. Alguns exemplares devem ser
trazidos para o laboratório.
Crest não
participava da excitação de Rhodan. Riu à vontade quando Bell
apareceu na tela, segurando um destes ursinhos de trinta centímetros
com muito carinho dizendo ao mesmo tempo:
— Que
olhos maravilhosos, lindamente tristes.
Perry não
estava preocupado com os olhos lindos e tristes. O perigo espreitava
de algum lugar e agora ele o via nos interessantes animaizinhos, que
os purificados, ou os honos como dizia a tripulação, estavam
distribuindo entre o pessoal de bordo.
Os pontos
de ataque da Titan foram avisados pessoalmente por ele de que o
pré-alarme continuava em vigor.
Chegou
então a mensagem de Marshall:
— Nada
encontrado. São ursinhos cômicos, inofensivos, com patas
cor-de-rosa e focinho muito gracioso. Aparentemente, nenhuma
inteligência.
Bell se
meteu na conversa, através de seu mini-intercomunicador, instalado
na máscara de respiração. Trombeteou entusiásticos elogios ao
animalzinho que, no momento, brincava em seus ombros, dando-lhe
beijos.
— O
sujeitinho é como um papagaio, Perry. Já está atendendo pelo nome
que lhe dei, chama-se...
Rhodan o
tirou da linha. Era a mensagem do laboratório:
— Senhor,
terminou o teste rápido. O animalzinho é inofensivo. Quociente
intelectual, não foi possível calcular, com o perdão da palavra:
burro. Fim.
Perry
olhou demoradamente para Crest, que se assustou.
— Crest
— falou Rhodan preocupado. — Nestes últimos três anos, nunca
ouvi tantas vezes a palavra “inofensivo”, como neste planeta.
Isto não é um sinal para se ficar preocupado?
Seria
melhor para ele que as mensagens sobre os ursinhos tivessem caráter
mais negativo. De repente, Rhodan estremeceu. Refletiu uns instantes
e tomou sua resolução:
— Crest,
partimos já com a Gazela, não terei sossego, enquanto não
vasculhar cada canto deste mundo com o telefarol.
Fez três
ligações ao mesmo tempo:
— Tenente
Tifflor, imediatamente para o hangar sete.
“Gucky,
eu me encontro com você na Gazela, já pronta para partir.”
“Wuriu
Sengu...”
— Estou
aqui, senhor — apresentou-se o vidente do corpo de mutantes.
— Para o
hangar sete, apresentar-se lá.
Rhodan fez
sua última ligação. Chamou Bell.
— Pronto
— respondeu o gorducho pelo intercomunicador, escutando apenas com
um ouvido que Perry pretendia fazer um vôo com a Gazela sobre Honur,
um vôo de reconhecimento.
— Está
certo — disse Bell brincalhão — olhe bem estes maravilhosos
desertos. Certamente vão enjoar muito a você, como enjoaram a mim.
Meu consolo é o Aníbal.
— Quem?
— respondeu Perry, julgando não ter entendido bem.
— Vamos,
Aníbal, vamos. Cumprimente Perry para ele saber quem é você.
— Venha
para a central de comando, Bell — respondeu Perry finalmente, não
conseguindo disfarçar um sorriso.
4
O japonês
Wuriu Sengu parecia um homem comum. Nada havia nele que pudesse dar a
perceber sua força de vidente. Mesmo agora que estava ao lado de um
telefarol, esperando por Rhodan, ninguém podia suspeitar de suas
forças.
Wuriu
dispunha da fantástica faculdade de poder alterar de tal maneira a
posição e a conformação do cristalino de seus olhos, que seu
olhar conseguia penetrar através da estrutura molecular da matéria.
O setor correspondente do cérebro ordena então as impressões
recebidas de tal maneira que ele passa a perceber o impedimento
ampliado por milhões de vezes. Porém o vê realmente em seu tamanho
natural.
O japonês
de estatura média não estremeceu de medo, quando, bem perto dele,
houve cintilação no ar e dessa cintilação surgiu um animal de
mais ou menos um metro — um misto de rato e castor.
Era Gucky,
tenente do corpo de mutantes de Perry Rhodan, se bem que não se
podia caracterizá-lo perfeitamente como mutante.
Seu pêlo
liso e denso era de um marrom-avermelhado e parecia muito bem
tratado. O focinho pontiagudo emprestava ao seu todo alguma coisa de
cômico e ao mesmo tempo lhe dava uma impressão de calmo e prudente.
Mas ao invés de uma cauda de rato, ornava-o uma cauda muito larga e
forte de castor.
— Também
esperando aqui, hein? — disse Gucky em língua arcônida. Poderia
ter dito em intercosmo ou em inglês. Apesar de o próprio Gucky se
classificar como animal, possui um elevado grau de inteligência
humana além de faculdades tais que lhe conferem uma grandeza de
primeira classe.
Quando as
circunstâncias o exigiam, Gucky exercia suas funções com extrema
seriedade, fazendo tudo com exatidão. Fora disso, porém, era muito
brincalhão e ninguém estava livre de suas traquinagens
telecinéticas, com exceção de Perry Rhodan, por quem nutria uma
espécie de veneração e que era seu maior amigo.
Quase que
ao mesmo tempo, entraram Rhodan, Crest e Julian Tifflor. O jovem
tenente parecia não ter muita importância ao lado de Rhodan e
Crest. Mas o chefe da Terceira Potência, Perry Rhodan, sabia que
qualidades se escondiam neste jovem e que confiança ele merecia.
Neste
momento, Gucky expunha ao vidente Sengu que os ursinhos de Honur não
lhe agradavam.
— Catingam
muito — disse horrorizado. — Não sentiu?
— Você
ainda vai se dar mal com este faro supersensível, Gucky — disse o
japonês amavelmente para o rato-castor. — Eu, por exemplo, não
sei se os ursinhos catingam.
— Catingam
sim, Wuriu, catingam muito — corrigiu-o Gucky. E esta frase
repetida em voz mais alta, chegou aos ouvidos de Rhodan.
— Quem?
— perguntou ele, parando na frente de Gucky.
— Todos,
chefe, todos os ursos. Não consegui ficar perto deles e pulei para
longe.
Perry se
pôs em contato com Bell, logo era seguida. Já estava na central.
— Sim —
disse ele — você quer ouvir o que o Aníbal...
— Não —
Perry não queria nada disso. — Escute, o seu Aníbal cheira ou
catinga?
— Que
idéia errada — ouviu-se no mini-alto-falante a indignação de
Bell. — Aníbal não cheira e muito menos catinga. Quem espalhou
esta idéia desavergonhada? Podemos acreditar nas palavras dos honos,
nem fazem sujeira nenhuma em casa. São formidáveis estes
animaizinhos. Quem foi que falou em catinga, Perry?
— Gucky
— respondeu Rhodan, sorrindo.
— Eu
ainda torço o pescoço desse mata-mouros, um dia — esbravejou ele
no alto-falante.
— Gucky
— gritou Perry Rhodan, mas já era tarde. Gucky tinha se afastado
num salto de teleportação. Para onde tinha ido, podia-se saber
através do mini-alto-falante de Perry Rhodan. Certamente, neste
instante, o corpo pesado de Bell, devia estar flutuando rente ao teto
da central, recebendo do rato-castor, instruções sobre vôos
rasantes, acrobacias sensacionais.
Gucky
gostava de fazer esta brincadeira, principalmente com Bell. Os dois
se entendiam muito bem e ficavam tristes quando um não podia pregar
uma peça no outro. No entanto, Bell sempre levava a pior, pois
Gucky, além de tudo, ainda era telecineta, ao passo que ele, Bell,
apenas substituto de Perry Rhodan.
Subitamente
surge uma sombra em frente a Perry Rhodan, dela saindo Gucky.
— Tenente
Gucky, voltando de uma missão, chefe — disse o rato-castor
sorrindo com o seu dente de roedor à mostra.
— Que
malandro... — ecoava no alto-falante.
Era Bell
que esbravejava.
— Será
que tenho de voltar, meu caro gordo? — disse Gucky amavelmente.
Bell usou
então uma expressão tão forte, vinda de seu íntimo, que o próprio
Crest deu uma sonora gargalhada.
Sorrindo,
com boa disposição, Rhodan subiu na Gazela com sua tripulação.
Com o bojo
em forma de disco, de trinta metros de diâmetro e dezoito nas
extremidades verticais, a Gazela era uma nave de reconhecimento,
muito rápida. Alcançava quinhentos anos-luz. Era equipada com
poderosas armas de raios energéticos para se defender de cruzadores
que a perseguissem.
Desde
algumas horas, que todos os agregados da Gazela estavam se aquecendo.
A
escotilha se fechou automaticamente. Rhodan, sentado na poltrona do
piloto, depois de recebida a mensagem, tinha acionado o primeiro
comando. Na grossa carcaça da Titan, um vão enorme se abriu,
deixando espaço para o salto da Gazela na atmosfera.
A partida
foi imperceptível. Os absorvedores de pressão compensavam as forças
de empuxo da nave. Sempre com maior velocidade, a nave de
telerreconhecimento atravessou o lago a uma altura de cinco mil
metros e ao atingir esta altura se manteve em curso.
*
* *
A enorme
cadeia de montanhas com seus vales estéreis ia ficando para trás.
Diante deles, se estendia novamente uma outra planície e surgia uma
orla de chão verde-escuro.
Julian
Tifflor estava no goniômetro, atrás do chefe. Crest não tirava os
olhos do painel, vendo desfilar o pobre mundo de Honur.
Do posto
de orientação não havia nenhuma observação de importância. A
nave de reconhecimento perdia altura. Sobre a superfície do
verde-escuro, que dava a impressão de um longo tapete fofo, Perry
desceu mais.
Estava
agora a cem metros de altitude. A Gazela parou, caiu ainda uns
cinqüenta metros e aí se manteve graças às forças
antigravitacionais. E, no painel, se via com muita nitidez a floresta
virgem de Hunor.
— Como
será debaixo deste teto de vegetação horrível? — disse Crest
quase em monólogo.
Wuriu
Sengu, o vidente, sentiu-se mais ou menos interrogado. Concentrou-se.
Havia apenas poucas paredes servindo de barreiras para os seus olhos
naquela direção. Não contava com os poucos centímetros de
espessura do aço arcônida da Gazela. O teto verde-escuro da
vegetação nem entrava em consideração.
— Estou
vendo animais — disse Sengu. — Um bando deles. Os corpos cheios
de escamas. A cabeça pavorosa. Porém o horrível é este saca-rolha
com mais de dois metros de comprimento que cresce na cabeça deles,
no lugar onde outros seres têm o nariz.
— Um
saca-rolha? — perguntou Rhodan, perplexo, prestando muita atenção
nos dados de seu vidente.
— Sim,
um negócio em forma de espiral. Santo Deus, com isso perfuram os
troncos das árvores. O material deve ser tão duro como couro e...
Oh! Perfuram à procura de água. Um desses animais de escamas
perfurou um veio d’água no tronco. O líquido jorra aos borbotões.
E como o animal bebe.
Devia ser
um espetáculo fascinante o que o vidente estava presenciando, graças
a suas forças mentais. Apesar disso, Rhodan fez uma pergunta:
— Qual é
o tamanho de um animal destes, Sengu? Mais ou menos um metro?
— Um
metro? Quase vinte, senhor.
— Vinte
metros! — repetiu Rhodan perplexo. — Não pode estar certo. Estas
árvores com copa em forma de umbelas não têm nem vinte metros de
altura...
— Senhor
— gaguejou Wuriu Sengu, um pouco nervoso, pois ia contradizer
Rhodan — estas árvores têm todas mais do que cem metros de
altura.
— Isto
não pode estar certo — discordou Julian Tifflor — o meu
altímetro marca exatamente cinqüenta vírgula oito metros acima da
superfície.
— Claro,
acima da camada superior destas árvores gigantescas, cinqüenta
metros.
— Quero
tirar a limpo isto — disse Rhodan e baixou mais ainda a Gazela.
Agora
faltava apenas um metro para que a quilha inferior da nave tocasse a
linha quase plana das copas das árvores.
— Contato
— informou Tifflor.
A Gazela
estremeceu um pouco, Rhodan olhou para Crest, preocupado.
Houve
então um solavanco que percorreu a nave e com o solavanco, ouviu-se
o brado de Perry pela cabina:
— Isto
não é possível.
Ele tinha
manobrado a Gazela como para uma aterrissagem normal. Não houve mais
campo para a ação antigravitacional, que compensaria o peso da nave
de reconhecimento.
De repente
o brado de alarme de Wuriu Sengu:
— Atenção,
senhor, a copa da árvore vai rebentar, não está agüentando.
A mão de
Perry estava já um pouco acima da tecla certa, pronta para acionar a
qualquer segundo o campo antigravitacional. Esperava de propósito
para ver por quanto tempo uma única árvore agüentaria todo o peso
da Gazela.
— Agora!
— gritou Sengu.
Um leve
solavanco percorreu a nave. A quase esquecida sensação de elevador
se manifestou, mas já estavam em funcionamento as forças de
absorção e o peso da Gazela se reduziu a zero através da
anti-gravitação.
E como se
aquele enorme sustentáculo, a superfície quase plana da umbela da
árvore, fosse biologicamente uma corrente elétrica, tudo se
transformou numa nuvem de pó cinza-escuro. Desta nuvem de pó, rente
à parte inferior do campo antigravitacional, se ergue no ar um jato
de água de meio metro de espessura, que se desfaz e se espalha em
círculo sobre as outras árvores.
E as cores
esmaecidas dessas árvores, ao receberem o jato de água, recuperam
repentinamente seu colorido original. Os tons irisantes voltam, aí
está o negro aveludado, um lilá terrível, para no final de tudo se
reduzirem ao feio cinza-escuro inicial.
— E isto
agora é o maior! — disse Crest numa voz estrangulada pela emoção,
apontando com os dois dedos indicadores para as extremidades das
copas vizinhas, que lenta, mas simultaneamente em toda a
circunferência se projetavam para o espaço vazio, produzido pela
copa da árvore dissolvida, para cobri-lo com sua ramagem.
Poucos
segundos após, havia bem abaixo da Gazela uma superfície compacta,
tão maciça que o altímetro de Julian Tifflor estava registrando
valores falsos.
— Você
reparou por que que é assim?
— Perfeitamente,
senhor — disse Tiff radiante. — Cada copa de árvore, ou seja sua
umbela, forma uma fechada rede neutra de corrente alternada. Só
consigo penetrá-la através dos instrumentos de orientação.
*
* *
Tinha dois
mil quilômetros de extensão esta terrível mata virgem. Depois veio
terreno mais acidentado. Eram grandes extensões de cascalho,
lembrando as grandes geleiras da Terra, só que estas aqui tinham
dimensões gigantescas.
Os homens
na Gazela olhavam todos à procura de aldeias ou casas. Viram
repentinamente um bando de enormes animais, uma espécie de grandes
centopéias, movendo-se despreocupadas, até que uma percebeu a nave
de reconhecimento já bem perto delas.
O que
então aconteceu, era inexplicável. De um momento para o outro, o ar
ficou cheio de pedras, areia e nuvens de poeira. Isto durou alguns
minutos. Quando o ar clareou, os homens ficaram decepcionados, vendo
apenas uma monótona paisagem de cascalho, sem vida.
— Onde
foram parar os bichos? — exclamou Tifflor.
O japonês,
vidente, sorriu quase imperceptivelmente.
— Mergulharam
pela terra adentro, escondendo-se. Já estão a uns dez metros de
profundidade.
Perry
Rhodan e Crest se entreolharam. Honur era um mundo triste, seco e
maluco, mas não havia perigo nenhum neste planeta.
Voavam já
no fim do dia. Quando começou a escurecer, a Gazela aterrissou.
Perry fez um pequeno relato para a Titan. Bell devia estar ainda na
cabina, pois foi ele quem respondeu, aliás de muito bom humor...
Ao
meio-dia da manhã seguinte, já tinham examinado toda Honur e só
lhes restava ainda a região do pólo sul, tão seca e quente como a
zona temperada.
— Honur
é realmente um deserto — dizia Rhodan a contragosto, já sentindo
saudades da Titan.
Esta
exploração do planeta com sua incrível flora e com sua fauna
desconhecida, era no fundo uma questão muito enfadonha. Tudo vivia
apenas na dependência do orvalho da noite. Era a luta eterna pela
água.
A Gazela
continuava no seu rumo: havia apenas uma direção. Repentinamente,
Rhodan estremeceu.
— Crest,
que é aquilo? São edifícios? Tinha esperado por tudo, ou esperavam
ainda por tudo, mas nunca por construções humanas grandiosas assim.
A nave de
telerreconhecimento acelerou ao máximo. Empurrava a massa de ar, que
de uma hora para outra atuava como uma muralha de cimento. A Gazela
zunia e roncava por todos os cantos. Rhodan dirigia com toda a
velocidade, como que ansioso para ver de perto aquelas torres
distantes.
A baixa
altitude, a nave de telerreconhecimento se aproximava rapidamente.
A imagem
na tela redonda crescia com cristalina clareza.
— Espaçonaves!
E no mesmo
instante a Gazela subiu verticalmente para o espaço.
— Será
que nos localizaram? O que acha, Tiff?
O tenente
se chamava Julian Tifflor, mas seus amigos o apelidavam de Tiff, e
assim é que Rhodan o havia chamado. Mas Tiff não percebeu.
Realmente não tinha tempo no momento. Sabia por que o chefe tocara a
nave para o alto e ainda agora a mantinha em plena subida com toda
força possível.
Tiff
trabalhava como uma máquina, como um cérebro robotizado. Queria
mesmo saber se tinham sido localizados por uma das muitas
espaçonaves.
Havia
realmente alguma dúvida?
A Gazela
ultrapassou os limites dos mil quilômetros, e Tiff ainda não queria
acreditar no que acabava de descobrir.
— Senhor,
não consigo localizar nada.
— Senhor
— e agora era Wuriu Sengu que se anunciava.
— Pronto
— respondeu Rhodan que já estava mais tranqüilo.
— Estou
vendo apenas naves abandonadas, destruídas e depredadas, ou melhor,
estou vendo um cemitério de espaçonaves.
Concordava
com os resultados de Tiff.
A Gazela
estava a uma altitude de mil e quinhentos quilômetros.
Perry, com
mão firme, deu uma volta com a nave, regulou-a no sentido da proa e
desceu verticalmente. O planeta se aproximava célere. Frenagem,
absorvedores de impacto, resistência do ar, ruídos infernais, tudo
já mil vezes repetido, e no entanto, sempre novo.
A esfera
de Honur se transformou numa planície. A planície ia se enrugando
cada vez mais, à medida que desciam. E a Gazela continuava flutuando
lentamente nos últimos quilômetros de encontro às naves espaciais
no pólo sul de Honur.
5
Com um
leve chiado, o aparelho de respiração fornecia a Rhodan o oxigênio
necessário. Estava sozinho na escotilha da nave de reconhecimento
examinando de longe, com expressão apreensiva, o incrível cemitério
de espaçonaves.
Crest
havia saído juntamente com ele, para fora da Gazela. O arcônida
tinha pensado que podia dispensar o aparelho de respiração. Mas,
depois de alguns minutos, sentiu falta de ar, e com a triste
constatação de que já estava ficando velho, voltou rapidamente à
nave, para botar nas costas o minúsculo aparelho de oxigênio.
Na Gazela,
estavam sentados o vidente Wuriu Sengu, Tiff e o rato-castor Gucky
atrás do painel de comando das armas. Todos os componentes de ataque
estavam de prontidão para aquele enorme depósito de espaçonaves
destruídas, prontos para, a qualquer segundo, disparar sua força
destruidora.
Perplexo,
contemplava Perry este quadro trágico de decadência. Este aço
arcônida, que agüentava um calor de 30 mil graus e cujo brilho
metálico era para toda a eternidade, estava tudo aqui, sujo,
abandonado num depósito de ferro velho.
Perry
contemplava os gigantes do espaço — adormecidos na ruína de sua
decadência.
Desistiu
de contá-los. Até a linha do horizonte se estendiam os ex-gigantes
— de pé, deitados, um ao lado do outro, em cima do outro. Alguns,
que estavam por baixo, em virtude do peso, estavam enterrados no
chão, com apenas a terça parte de seu volume à vista. Tinham,
naturalmente, tomado a cor suja do chão. Outros, porém, davam a
impressão de novos, mantendo o esplendor de seu aço polido. Só sua
fuselagem semi-enterrada no solo, podia servir de base para se saber
há quantos anos estavam ali.
Este era o
fim de todas as naves que se atreviam a voar para Honur e aí
aterrissar. Honur era um planeta proibido.
— Meu
Deus, mas como foi possível isto? — perguntava-se Rhodan, quando
ouviu um ruído atrás de si. E viu Crest saindo da escotilha.
Crest
respondeu:
— Isto é
o fim.
Da
escotilha da nave até o primeiro esqueleto dos ex-gigantes do espaço
era mais ou menos um quilômetro. Rhodan concentrou seu pensamento em
Gucky para que ele chamasse o japonês Wuriu Sengu e descesse com
ele. Tiff devia ficar de prontidão no painel das armas de ataque.
Gucky
apareceu logo num salto pequeno de teleportação. Estava
“praticando”,
como ele mesmo dizia. Porém, na frente de Rhodan, dominava um pouco
seu gênio brincalhão.
O japonês
tinha que vir, como todo homem normal, a pé, pela escotilha.
— Senhor
— anunciou-se espontaneamente — não vi nas naves abandonadas nem
um sinal de vida, nem robôs. Por toda parte, camarotes e salões
destruídos.
— Não
recebi nenhum impulso, chefe — disse Gucky, tentando em sua
mensagem imitar o tom de voz militar do japonês, o que naturalmente
foi um fracasso. — Acho que vou dar uma olhada por aí —
continuou ele.
— Mas
não se exponha a nenhum perigo, Gucky — disse Rhodan em tom
paternal, vendo desaparecer no mesmo instante o rato-castor.
Gucky se
teleportou.
— Vamos
embora — disse Rhodan, pondo-se a caminho.
Pararam no
salão de entrada de um gigante do espaço. O ruído compassado dos
passos produzia um eco que parecia dizer: esperem um pouco, vocês em
breve estarão aqui. Com os olhos arregalados, percorreram vários
trechos e o quadro era sempre o mesmo: cem por cento depredado.
Tudo que
não estava organicamente ligado com a estrutura de aço arconídico
do revestimento e das paredes internas, mãos estranhas desmontaram e
carregaram. Havia vestígios dos trabalhos de depredação, porém,
nenhum vestígio da identidade dos depredadores.
Crest
abanou a cabeça e olhou pensativo para Rhodan. Seu rosto tinha
traços rígidos. Alguma coisa trabalhava dentro dele. Queria saber
de que direção vinha o perigo. Procurava desesperadamente, mas sem
resultado.
A camada
de pó, onde pisavam, tinha mais de dez centímetros de espessura.
Era uma poeira seca, tão seca como o próprio planeta. Estendia-se
na frente deles, sem nenhuma pegada.
— Puxa!
Não se vê nem o sinal dos pés dos honos — continuou Rhodan com
seus pensamentos. — E, no entanto, a destruição desta espaçonave
deve estar relacionada com eles, mas você saberá de que maneira,
Crest?
O arcônida
não chegou a responder a pergunta, mas definiu muito bem a situação
desesperadora:
— Devemos
voltar imediatamente para a Titan, Rhodan, enquanto ainda podemos
fazer isso, se é que ainda o podemos, e partir o mais rápido
possível para aguardarmos em órbita o encontro com o major Freyt. É
melhor corrermos o risco de sermos descobertos por outra espaçonave,
do que vermos a Titan jogada aqui neste monte de ferro velho.
— ...partir,
enquanto ainda podemos partir? — repetiu Rhodan a frase do
arcônida. — Você tem medo de que já seja tarde demais, Crest,
você, o arcônida?
— Por
favor, Rhodan, não elogie agora a nossa tecnologia. Não se esqueça
onde nos encontramos no momento: estamos num cemitério. Quando
vínhamos para cá, fiquei observando e classificando muitos tipos de
naves. Um terço destas eram belonaves: cruzadores e destróieres.
Aterrissaram do mesmo modo que as comerciais. Esta descoberta me
deixa desesperado. Se não tivesse encontrado naves também dos
comerciantes da Galáxia poderia dizer: os saltadores estão por trás
desta terrível destruição.
Neste
momento, Perry Rhodan e Crest se sentiram apanhados ao mesmo tempo
pelas mãos de Wuriu Sengu. O vidente ficou olhando por uns
instantes. Em virtude de suas forças mentais, penetrou nos conveses
de uma espaçonave e seus olhos varreram os camarotes da frente.
— Senhor
— sussurrou com esforço o vidente japonês — estou vendo
esqueletos, esqueletos em cada camarote. É uma coisa horrível. Já
vi mais de cem. E continuo vendo mais e...
— Sengu,
veja também através das próximas naves — ordenou Rhodan, que já
tinha compreendido de que maneira estas naves foram destruídas.
Perry
pensou: “De
dentro para fora.”
E chegou então a confirmação do vidente.
— Os
aposentos da tripulação estão vazios nas três próximas naves,
apenas cheios de poeira. Mais de um metro de espessura. Mas na quarta
nave, vejo de novo os esqueletos. Santo Deus, é uma belonave ou um
grande transporte espacial? Devem estar ali mais de mil mortos.
— Obrigado,
Sengu — disse Rhodan com voz trêmula.
No mesmo
momento, houve um turbilhão de poeira e ouviu-se a voz sibilante de
Gucky:
— Porcaria
de poeira! — num salto exato de teleportação, ele veio parar bem
na frente de Rhodan, Crest e Sengu.
Endireitou-se,
sentou-se sobre as patas traseiras, apoiando-se na volumosa cauda de
castor e procurando fazer uma saudação respeitosa:
— Chefe
— desta vez falava em inglês — tantos cadáveres como aqui,
nunca vi na minha vida. Onde pensava não haver nada, encontrei um
grande número deles, debaixo da poeira. Acho que os arcônidas
estavam todos nus ao morrerem, pois não há nenhum vestígio de
roupa. Descobri ainda, por acaso, o espaçoporto.
— Descobriu
o quê? — perguntou Rhodan visivelmente excitado. — Um
espaçoporto de verdade?
— Sim,
um espaçoporto, embora não tão moderno, chefe. Mas um belo campo,
plano como um espelho. O subsolo deve, um dia, ter sido tratado muito
bem, pois neste lugar é mais duro do que cimento.
— Tiff
deve vir para cá — ordenou Rhodan.
Antes de
deixar a Gazela, tinha proibido qualquer ordem via rádio e antes de
iniciar seu vôo de reconhecimento tinha dito o mesmo a Bell.
— Certo,
chefe — sorriu Gucky com seu único dente de roedor e desapareceu
imediatamente.
Os três
ainda não haviam deixado o possante aparelho voador, quando Gucky já
estava de volta de seu pulo para a Gazela.
— Ele
vem vindo aí — disse Gucky, procurando levantar sua larga cauda de
castor, para não fazer poeira. Mas, embora soubesse fazer tantas
coisas maravilhosas, não conseguiu erguer suficientemente a cauda e,
com um palavrão que havia aprendido com Bell, teleportou-se do bojo
do enorme aparelho depredado.
Logo após
isto, aproximava-se a Gazela, abriu-se a escotilha e a rampa
deslizou. Perry Rhodan, Crest e Wuriu Sengu tiveram que entrar pela
escotilha. Mas Gucky saltou diretamente.
Lá estava
ele ao lado de Rhodan, que tinha tomado a direção da Gazela, sendo
que o rato-castor lhe indicava a posição do espaçoporto
descoberto.
Sem um
único solavanco, Rhodan desceu calmamente.
— Tirar
amostras do solo, Tiff — ordenou ele.
— Isto
eu sei fazer melhor e mais depressa — propôs Gucky e desapareceu,
levando consigo uma sonda. Tirou um pedaço do chão, que parecia de
cimento e voltou para bordo.
Enquanto
isto, Rhodan e o arcônida estavam examinando a superfície livre.
Este espaçoporto de emergência era a razão por que os restos das
espaçonaves não estavam espalhados por todo o planeta, mas formavam
aqui um terrífico cemitério. Este lugar era o único ponto em que
as espaçonaves podiam firmar sem perigo seus suportes telescópicos
e aqui era o lugar em que as naves que vinham para cá eram
depredadas em suas peças, máquinas e dispositivos.
— Tifflor,
chame a Titan.
Como se
esperasse há tempo por esta ordem, Tifflor já estava falando com a
estação central de rádio da esfera gigantesca, quando Rhodan ainda
principiava a dar-lhe a ordem.
— Aqui é
a Gazela. Chefe quer falar com comandante.
Logo a
seguir, anunciou-se Reginald Bell, comandante da Titan durante a
ausência de Rhodan.
— Perry,
que é que há? — perguntou Bell, rindo.
— A
bordo tudo cem por cento, Bell?
— O
melhor possível, aqui entre nós reina um sadio otimismo. A única
coisa é que não posso mais ver estes pobres-diabos dos purificados,
assim acabo perdendo minha boa disposição. Alguma novidade com
vocês?
— Não,
nada de novo, Bell. Obrigado.
Crest
olhou fixo para Perry Rhodan, Julian Tifflor e Wuriu Sengu fizeram o
mesmo. Só Gucky, o rato-castor é que não. Gucky leu o pensamento
de Rhodan.
— Chefe,
devo dar um pulo lá e ver o que se passa, realmente? — disse ele
baixinho, já se preparando para um salto de teleportação até a
Titan.
Rhodan
reparou na perplexidade de seus companheiros. Seus olhos se detiveram
no olhar inteligente do rato-castor, que o observava com muita
apreensão e grande fidelidade.
— Meu
caro Gucky, vamos ver isto nós dois juntos.
A nave de
telerreconhecimento ergueu-se suavemente. E o ar, afastado para o
lado, zunia estridente. E outra vez partia a Gazela a toda
velocidade.
Dirigiu-se
para seu ponto de partida, onde, bem próximo de um lago, repousava a
Titan.
Perry
Rhodan tinha a impressão de que a Gazela estava se arrastando. Os
segundos lhe pareciam semanas.
Sentia
agora que alguma coisa de desagradável, quase que fúnebre, se
estendia por toda a Titan. Ouvia-se o oficial do rádio que
gargalhava, as palavras de Bell estavam entremeadas de risadas e o
que significaria o conceito “boa
disposição... otimismo”?
Concentrado
em si mesmo, Crest olhava para frente, sem ver nada. Atrás de
Rhodan, Tifflor e Sengu trocavam olhares interrogadores. E Gucky não
tinha mais o sorriso de sempre e o jeito de brincalhão.
*
* *
— Que é
que há, Perry? — disse Bell, sorrindo no microfone e cocando o
pêlo de Aníbal, seu ursinho.
— Está
tudo bem a bordo, Bell? — perguntou Rhodan ainda da Gazela.
— Otimamente
bem. Reina muita boa disposição entre nós, só que eu não consigo
mais ver estes pobres-diabos dos purificados, assim acabo perdendo
meu bom humor. E com vocês, alguma novidade?
— Não,
nada de novo, Bell, obrigado.
Rindo
desbragadamente, de tal modo que seu rosto parecia ainda mais largo
do que era, Bell olhava para John Marshall, o telepata.
— Ele
vai ficar admirado, quando entrar aqui, John — disse Bell com muita
alegria, puxando para o lado a patinha cor-de-rosa de Aníbal, porque
o pequeno animal sempre queria brincar no seu nariz. — Aníbal, meu
queridinho, deixa meu nariz em paz — dizia ele para o mini-urso.
— Como
se chama teu amiguinho? — perguntou Bell amavelmente ao telepata,
que escondia seu ursinho sob o paletó.
— “Tannhàuser”,
Bell.
— É um
nome de marca de automóvel?
— Bell,
“Tannhàuser” é uma composição musical de Wagner — explicou
Marshall ao substituto de Rhodan, sorrindo com muita afabilidade.
Wagner e
Tannhàuser combinavam muito bem, mas a risada de Marshall estava
completamente fora de sintonia. Nada tinha de natural.
Bell não
o notou. Estava de pernas para o alto, enquanto Aníbal corria em
volta.
— É
isto mesmo — dizia Bell, gargalhando sempre mais alto. — Como é
que me esqueci de que seu filho se chama Tannhàuser. Era seu amigo,
este tal Tannhàuser, John? Você vai me contar alguma coisa dele.
Vem, deixa o trabalho correr. A Titan está muito bem e o que resta
para fazer, Rhodan pode dar conta sozinho. Temos confiança nele.
Você não tem a mesma opinião?
— E
como? Bell, nós estamos pegando o embalo agora. Eu... eu gostaria de
abraçar o mundo inteiro.
Bell
concordou, acenando muito garganta:
— Pode
fazê-lo, mas deixa um pouco para mim. Já lhe contei alguma coisa do
meu hoby, John? É gozado e você vai se divertir muito.
— Bell —
sussurrou alguém suavemente da entrada da central.
Thora deu
uma piscadela alegre para o gorducho.
— Thora,
é você, meu anjo, que posso fazer para agradá-la? — exclamou
Bell, pegando Aníbal pela coleira, o colocou no braço e tentou
ficar de pé.
Thora
sorriu aquele seu lindo sorriso, mas ficou parada na entrada.
— Meu
gorduchinho, que tal uma festinha a bordo com um pouquinho de dança?
Não acha bom?
Aníbal,
nos ombros de seu amo, esticou a língua para Thora. Aí, o amiguinho
de Marshall, o Tannhàuser, saiu do paletó do telepata e começou a
guinchar:
— Um,
dois, três, quatro, este é teu retrato! Um, dois, três...
Entrementes
o ursinho de Thora também deu sinal de vida. Sentado no ombro de sua
dona, desfazia o seu penteado.
Sorridente
veio Bell ao encontro de Thora.
— A
gente quase não entende mais a própria palavra, mas isto não tem
importância para nossa brincadeira. Você falou de festa a bordo,
por este motivo você mereceu um beijo.
Exatamente
neste momento, o ursinho de Thora começou a gritar:
— Me dá
um beijinho, me dá um beijinho.
Thora ria
estrondosamente e apontando para sua Ladolfina,
dizia:
— Está
ouvindo, Bell, quem vai receber meus beijinhos? Somente Ladolfina,
ela não é maravilhosa? Mas o seu Aníbal é muito bonito. E como se
chama o seu amiguinho, John?
— “Tannhàuser”,
Thora. Ele não tem nenhuma semelhança com isso?
— Lamento
muito — retrucou Bell — mas eu acho que um automóvel é coisa
completamente diferente. O modelo não foi um Ford?
Thora e
Marshall se entreolharam e compreenderam que seria doloroso
contradizer Bell. Mas para disfarçar a péssima impressão que
causara, Bell se levantou e gesticulando muito falou:
— Rapaziada,
estou perguntando novamente sobre a confraternização. Quem é que
concorda com uma bruta festa de bordo? Vamos lá, amigos!
Pegou o
microfone da central:
— Rapazes
— disse ele alegre, usando a língua inglesa — perguntem por aí
quem quer participar de uma big festa a bordo. Chamem todos os
rapazes.
— Festa
a bordo, gorducho? Formidável. Num minuto, estaremos todos aí.
Bell, por que esperou tanto para isto?
— Se
pudesse teria feito já antes. Mas não percam tempo, a festa tem que
parar antes que Rhodan chegue aqui, pois ele não gostará de saber
disso.
*
* *
— Um o
quê, senhor? — perguntou Julian Tifflor nervoso e no entanto não
havia dúvida de que fora Reginald Bell quem convidara para a festa a
bordo.
— Chefe
— suplicou Gucky, tocando-lhe de leve o braço — posso dar um
pulinho lá? Posso?
— Não —
disse Perry mentalmente, para que Gucky lesse.
Um pouco
magoado, Gucky largou o braço de Perry e foi sentar num canto.
A Gazela
estava a meia hora da Titan. Levaria ainda trinta minutos para
aterrissar no hangar sete da grande nave.
— Tiff —
substitua-me um momento — passou então Rhodan a direção da
Gazela às mãos do seu mais jovem, mas também do seu mais
competente piloto. Sem dizer uma palavra, Tiff passou para a poltrona
de comando. Calados, Rhodan e Crest deixaram a diminuta central.
Quando a porta se fechou atrás deles, apenas se entreolharam num
gesto de entendimento.
Neste tipo
de nave, não havia realmente nenhum lugar agradável. Tudo foi
construído com o objetivo da maior funcionalidade. Rhodan e Crest
acabaram sentando nas banquetas destinadas às armas.
— Por
que razão o senhor não quer mandar Gucky dar uma olhada na Titan? —
perguntou Crest muito abatido.
— Você
acha que também ele deve pegar a infecção? Devo também perdê-lo?
— perguntou Perry com certa rudeza.
— Quer
dizer que o senhor atribui o estado eufórico reinante na Titan a uma
infecção?
— Você
está chamando este fenômeno de euforia, Crest. Eu falei infecção.
Não sabemos se uma dessas coisas ou se ambas estão certas. De
qualquer maneira, Bell perdeu por completo a noção do seu estado e
flutua numa sensação de superotimismo.
— Exatamente
como o senhor acaba de se expressar é que os médicos descrevem
também a euforia patológica. Posso acrescentar alguma coisa a mais
a tudo isto, Perry?
— Há
ainda algo a discutir, Crest, quando se pensa nos esqueletos,
milhares de esqueletos, nas espaçonaves depredadas?
A Tróia
de Perry Rhodan estava aí. O planeta Honur lhe dera o “presente
grego”
e com ele invadiram sua cidadela, desarmando-o completamente.
O
cemitério de naves ao sul de Honur lhe deixara antever o fim de sua
tripulação. Em breve estaria também a Titan entre as milhares de
espaçonaves depredadas e dentro da nave gigante, setecentos
esqueletos.
No
momento, a tripulação se divertia e sublimava a festa com danças.
A dança dos mortos. Nesta única expressão, Perry dizia tudo.
Sabia de
tudo. Sabia que estava nas ruínas de Tróia e o sonho de conquistar
o Universo fora apenas um... sonho. A Titan estava perdida.
— Dança
dos mortos — repetiu Crest, e seus olhos estavam úmidos.
— Perry,
permita-me dar um pulo lá — suplicou novamente Gucky. — Para o
senhor é perigoso, muito perigoso.

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