sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

P-042 - S.O.S. Espaçonave Titan - Kurt Brand [parte 2]

A seção positrônica de bordo, baseando-se no conjunto de dados recolhidos, declarou:
Honur é uma terra inofensiva.
A possibilidade de engano chegava a 0,7%.
Perry Rhodan respirou mais aliviado, depois que leu esta mensagem nas listas plásticas. Contente, fez um gesto afirmativo para Crest, que estava de pé a seu lado.
O pessoal pode deixar a nave e fazer contato com os habitantes, mas o pré-alarme continua valendo para um terço da guarda de segurança.

* * *

Perry Rhodan, Reginald Bell e Crest, de pé na escotilha, estavam perplexos, olhando o espetáculo lá embaixo, entre os suportes telescópicos da Titan.
Meio famintos — dizia Rhodan comovido.
Não prosseguiu. Continuou olhando aquelas figuras magras, secas, passando fome, devorando com apetite animalesco os alimentos que ele havia liberado.
Desceram a rampa bem devagar e pararam numa de suas extremidades.
Os nativos, irreconhecíveis descendentes dos arcônidas, aproximaram-se com seus farrapos dos homens assustados. De seus olhos grandes e muito encavados havia o brilho de sincera gratidão. Nos trapos que cobriam seus corpos, Perry julgava ver restos de velhos uniformes. Mas antes que pudesse perguntar a Crest, uma delegação deles se ajoelhou em sua frente, meteram a mão por baixo dos farrapos de roupa e entregaram presentes para os hóspedes: Flores do planeta Honur.
Flores negras — disse Crest espantado, dando inconscientemente um passo para trás.
Muito obrigado aos senhores, que vêm das estrelas — conseguiram ainda entender em dialeto arcônida. Mas o mais espantoso foi o gesto humilde desta delegação: estendida no chão, empurravam com os braços magros as plantas exóticas para a rampa.
Levantem-se — pediu Rhodan — não somos mais do que vocês.
Os nativos prestaram muita atenção ao som de suas palavras. Será que elas lhe trouxeram à mente recordações dos tempos em que eram soberbos arcônidas?
Os olhares curiosos dos homens da tripulação vagavam entre as três flores negras e a delegação dos nativos. Rhodan ficou fascinado com o brilho aveludado das flores negras. E o próprio Crest, que vira tantas coisas esquisitas em estrelas longínquas, não parava de admirar a beleza exótica e o efeito do colorido.
Rhodan procurou pelo corpo de mutantes que o seguia a poucos passos. Estavam fazendo o último controle. Perry viu o quase imperceptível sinal de cabeça feito por Marshall, sinal este que significava: Os homens não apresentam nenhum perigo.
Então, Rhodan automaticamente estendeu a mão e segurou a do arcônida que com seu olhar misterioso parecia quase adorá-lo.
Também nas outras três rampas que estavam descidas havia grande aglomeração dos tripulantes da Titan. Viram quando o chefe estendeu a mão a uma destas figuras esfarrapadas; para eles, isto queria dizer que deviam manter contato com a população pobre e faminta.
Os nativos falavam um dialeto horrível, que mal dava para se entender. Mas quanto mais viva fosse a conversa, maior seria a possibilidade de se entenderem.
Perry Rhodan e Crest conseguiram saber que eles, entre si, se chamavam algo como “os purificados”. Naturalmente que Bell pensava algo a respeito.
Isto cheira a sectarismo. E toda pessoa sectária não pode ter cabeça boa.” Mas tinha que sentir simpatia por aquela acolhida tão espontânea e aos poucos foi se entusiasmando. Interessou-se em saber o que lhes faltava.
Os “purificados” viviam daquilo que Honur lhes podia dar. Eram simples e achavam que suas moradias não mereciam a visita dos poderosos homens das estrelas.
Rhodan deu ordem aos robôs de serviço que esvaziassem um setor do grande depósito de roupas. Quando os robôs trouxeram para eles aquela grande quantidade de roupa, ninguém correu para apanhá-las. Aproximaram-se quase que acanhados. Cada um estava preocupado em dar o lugar ao outro. Acabaram pegando as roupas, mas tão lentamente, que Perry ficou preocupado.
Fez um sinal, chamando o telepata John Marshall.
Será que todos estes “purificados” se encontram em estado de hipnose, Marshall?
Marshall ficou meio sem jeito. Não estava em condições de fornecer ao chefe uma resposta clara.
Senhor, eles são assim. É o seu modo. Pensam tão lentamente, como se movimentam. Desde alguns minutos que não sinto mais nenhum impulso que indique alegria.
Rhodan percebeu que Marshall estava intimamente intranqüilo. Para seu controle, perguntou:
Alguns pensamentos perigosos?
Não, senhor. Não constatei nenhuma intenção perigosa e agora sua mente adormece cada vez mais. Tenho a impressão de que isto se prende ao fato de terem matado a fome.
Pela cabeça de Rhodan, passou rapidamente o pensamento: arcônidas degenerados.
Estes, outrora orgulhosos descendentes de uma grande raça, eram hoje inferiores aos selvagens. Parece que o único dever que tinham na vida era encher a barriga.
A multidão se pôs a caminho, vagarosamente. Os purificados nem olhavam mais para os homens da Titan. Cada um apanhou uma peça de roupa e saiu com passadas bem lentas. Ninguém falava. Calados desapareceram na direção do lago.
A tripulação da Titan ficou olhando decepcionada. Jamais teriam esperado coisa assim, depois de uma recepção tão simpática.
Os comentários sobre os habitantes do planeta eram pesados. O julgamento mais suave foi: estes homens de Honur não são muito normais. O fato é que ninguém concordava em chamá-los de “purificados”. Para alguns, porém, esta expressão podia causar intranqüilidade. Contudo não sabiam que quem apresentava intranqüilidade era Rhodan.

* * *

Duas horas mais tarde, os suportes da Titan estavam rodeados pelos “purificados”.
Perry não quis mais entrar em contato com os degenerados. Além disso, não era nada agradável andar lá fora com o aparelho de respiração nas costas e se movimentar numa atmosfera rarefeita, pobre em oxigênio.
Tenho a intenção de fazer uma viagem de reconhecimento com a Gazela. Crest, quer vir comigo?
O arcônida concordou contente e apontou ao mesmo tempo para a enorme tela que reproduzia o que estava acontecendo entre os suportes da espaçonave.
Olhe, Perry, lá para baixo. Não são animaizinhos engraçados?
Mas para Perry, estava valendo o pré-alarme. Ligou o contato e perguntou para os guardas da escotilha:
Onde estão os mutantes?
Da escotilha oito veio a resposta:
Uma parte deles estava lá fora.
Perry mencionou também o nome de Marshall.
Urgente, chamar Marshall — ordenou Rhodan, com voz muito enérgica. — Examinar imediatamente os animais. Alguns exemplares devem ser trazidos para o laboratório.
Crest não participava da excitação de Rhodan. Riu à vontade quando Bell apareceu na tela, segurando um destes ursinhos de trinta centímetros com muito carinho dizendo ao mesmo tempo:
Que olhos maravilhosos, lindamente tristes.
Perry não estava preocupado com os olhos lindos e tristes. O perigo espreitava de algum lugar e agora ele o via nos interessantes animaizinhos, que os purificados, ou os honos como dizia a tripulação, estavam distribuindo entre o pessoal de bordo.
Os pontos de ataque da Titan foram avisados pessoalmente por ele de que o pré-alarme continuava em vigor.
Chegou então a mensagem de Marshall:
Nada encontrado. São ursinhos cômicos, inofensivos, com patas cor-de-rosa e focinho muito gracioso. Aparentemente, nenhuma inteligência.
Bell se meteu na conversa, através de seu mini-intercomunicador, instalado na máscara de respiração. Trombeteou entusiásticos elogios ao animalzinho que, no momento, brincava em seus ombros, dando-lhe beijos.
O sujeitinho é como um papagaio, Perry. Já está atendendo pelo nome que lhe dei, chama-se...
Rhodan o tirou da linha. Era a mensagem do laboratório:
Senhor, terminou o teste rápido. O animalzinho é inofensivo. Quociente intelectual, não foi possível calcular, com o perdão da palavra: burro. Fim.
Perry olhou demoradamente para Crest, que se assustou.
Crest — falou Rhodan preocupado. — Nestes últimos três anos, nunca ouvi tantas vezes a palavra “inofensivo”, como neste planeta. Isto não é um sinal para se ficar preocupado?
Seria melhor para ele que as mensagens sobre os ursinhos tivessem caráter mais negativo. De repente, Rhodan estremeceu. Refletiu uns instantes e tomou sua resolução:
Crest, partimos já com a Gazela, não terei sossego, enquanto não vasculhar cada canto deste mundo com o telefarol.
Fez três ligações ao mesmo tempo:
Tenente Tifflor, imediatamente para o hangar sete.
Gucky, eu me encontro com você na Gazela, já pronta para partir.”
Wuriu Sengu...”
Estou aqui, senhor — apresentou-se o vidente do corpo de mutantes.
Para o hangar sete, apresentar-se lá.
Rhodan fez sua última ligação. Chamou Bell.
Pronto — respondeu o gorducho pelo intercomunicador, escutando apenas com um ouvido que Perry pretendia fazer um vôo com a Gazela sobre Honur, um vôo de reconhecimento.
Está certo — disse Bell brincalhão — olhe bem estes maravilhosos desertos. Certamente vão enjoar muito a você, como enjoaram a mim. Meu consolo é o Aníbal.
Quem? — respondeu Perry, julgando não ter entendido bem.
Vamos, Aníbal, vamos. Cumprimente Perry para ele saber quem é você.
Venha para a central de comando, Bell — respondeu Perry finalmente, não conseguindo disfarçar um sorriso.
4



O japonês Wuriu Sengu parecia um homem comum. Nada havia nele que pudesse dar a perceber sua força de vidente. Mesmo agora que estava ao lado de um telefarol, esperando por Rhodan, ninguém podia suspeitar de suas forças.
Wuriu dispunha da fantástica faculdade de poder alterar de tal maneira a posição e a conformação do cristalino de seus olhos, que seu olhar conseguia penetrar através da estrutura molecular da matéria. O setor correspondente do cérebro ordena então as impressões recebidas de tal maneira que ele passa a perceber o impedimento ampliado por milhões de vezes. Porém o vê realmente em seu tamanho natural.
O japonês de estatura média não estremeceu de medo, quando, bem perto dele, houve cintilação no ar e dessa cintilação surgiu um animal de mais ou menos um metro — um misto de rato e castor.
Era Gucky, tenente do corpo de mutantes de Perry Rhodan, se bem que não se podia caracterizá-lo perfeitamente como mutante.
Seu pêlo liso e denso era de um marrom-avermelhado e parecia muito bem tratado. O focinho pontiagudo emprestava ao seu todo alguma coisa de cômico e ao mesmo tempo lhe dava uma impressão de calmo e prudente. Mas ao invés de uma cauda de rato, ornava-o uma cauda muito larga e forte de castor.
Também esperando aqui, hein? — disse Gucky em língua arcônida. Poderia ter dito em intercosmo ou em inglês. Apesar de o próprio Gucky se classificar como animal, possui um elevado grau de inteligência humana além de faculdades tais que lhe conferem uma grandeza de primeira classe.
Quando as circunstâncias o exigiam, Gucky exercia suas funções com extrema seriedade, fazendo tudo com exatidão. Fora disso, porém, era muito brincalhão e ninguém estava livre de suas traquinagens telecinéticas, com exceção de Perry Rhodan, por quem nutria uma espécie de veneração e que era seu maior amigo.
Quase que ao mesmo tempo, entraram Rhodan, Crest e Julian Tifflor. O jovem tenente parecia não ter muita importância ao lado de Rhodan e Crest. Mas o chefe da Terceira Potência, Perry Rhodan, sabia que qualidades se escondiam neste jovem e que confiança ele merecia.
Neste momento, Gucky expunha ao vidente Sengu que os ursinhos de Honur não lhe agradavam.
Catingam muito — disse horrorizado. — Não sentiu?
Você ainda vai se dar mal com este faro supersensível, Gucky — disse o japonês amavelmente para o rato-castor. — Eu, por exemplo, não sei se os ursinhos catingam.
Catingam sim, Wuriu, catingam muito — corrigiu-o Gucky. E esta frase repetida em voz mais alta, chegou aos ouvidos de Rhodan.
Quem? — perguntou ele, parando na frente de Gucky.
Todos, chefe, todos os ursos. Não consegui ficar perto deles e pulei para longe.
Perry se pôs em contato com Bell, logo era seguida. Já estava na central.
Sim — disse ele — você quer ouvir o que o Aníbal...
Não — Perry não queria nada disso. — Escute, o seu Aníbal cheira ou catinga?
Que idéia errada — ouviu-se no mini-alto-falante a indignação de Bell. — Aníbal não cheira e muito menos catinga. Quem espalhou esta idéia desavergonhada? Podemos acreditar nas palavras dos honos, nem fazem sujeira nenhuma em casa. São formidáveis estes animaizinhos. Quem foi que falou em catinga, Perry?
Gucky — respondeu Rhodan, sorrindo.
Eu ainda torço o pescoço desse mata-mouros, um dia — esbravejou ele no alto-falante.
Gucky — gritou Perry Rhodan, mas já era tarde. Gucky tinha se afastado num salto de teleportação. Para onde tinha ido, podia-se saber através do mini-alto-falante de Perry Rhodan. Certamente, neste instante, o corpo pesado de Bell, devia estar flutuando rente ao teto da central, recebendo do rato-castor, instruções sobre vôos rasantes, acrobacias sensacionais.
Gucky gostava de fazer esta brincadeira, principalmente com Bell. Os dois se entendiam muito bem e ficavam tristes quando um não podia pregar uma peça no outro. No entanto, Bell sempre levava a pior, pois Gucky, além de tudo, ainda era telecineta, ao passo que ele, Bell, apenas substituto de Perry Rhodan.
Subitamente surge uma sombra em frente a Perry Rhodan, dela saindo Gucky.
Tenente Gucky, voltando de uma missão, chefe — disse o rato-castor sorrindo com o seu dente de roedor à mostra.
Que malandro... — ecoava no alto-falante.
Era Bell que esbravejava.
Será que tenho de voltar, meu caro gordo? — disse Gucky amavelmente.
Bell usou então uma expressão tão forte, vinda de seu íntimo, que o próprio Crest deu uma sonora gargalhada.
Sorrindo, com boa disposição, Rhodan subiu na Gazela com sua tripulação.
Com o bojo em forma de disco, de trinta metros de diâmetro e dezoito nas extremidades verticais, a Gazela era uma nave de reconhecimento, muito rápida. Alcançava quinhentos anos-luz. Era equipada com poderosas armas de raios energéticos para se defender de cruzadores que a perseguissem.
Desde algumas horas, que todos os agregados da Gazela estavam se aquecendo.
A escotilha se fechou automaticamente. Rhodan, sentado na poltrona do piloto, depois de recebida a mensagem, tinha acionado o primeiro comando. Na grossa carcaça da Titan, um vão enorme se abriu, deixando espaço para o salto da Gazela na atmosfera.
A partida foi imperceptível. Os absorvedores de pressão compensavam as forças de empuxo da nave. Sempre com maior velocidade, a nave de telerreconhecimento atravessou o lago a uma altura de cinco mil metros e ao atingir esta altura se manteve em curso.

* * *

A enorme cadeia de montanhas com seus vales estéreis ia ficando para trás. Diante deles, se estendia novamente uma outra planície e surgia uma orla de chão verde-escuro.
Julian Tifflor estava no goniômetro, atrás do chefe. Crest não tirava os olhos do painel, vendo desfilar o pobre mundo de Honur.
Do posto de orientação não havia nenhuma observação de importância. A nave de reconhecimento perdia altura. Sobre a superfície do verde-escuro, que dava a impressão de um longo tapete fofo, Perry desceu mais.
Estava agora a cem metros de altitude. A Gazela parou, caiu ainda uns cinqüenta metros e aí se manteve graças às forças antigravitacionais. E, no painel, se via com muita nitidez a floresta virgem de Hunor.
Como será debaixo deste teto de vegetação horrível? — disse Crest quase em monólogo.
Wuriu Sengu, o vidente, sentiu-se mais ou menos interrogado. Concentrou-se. Havia apenas poucas paredes servindo de barreiras para os seus olhos naquela direção. Não contava com os poucos centímetros de espessura do aço arcônida da Gazela. O teto verde-escuro da vegetação nem entrava em consideração.
Estou vendo animais — disse Sengu. — Um bando deles. Os corpos cheios de escamas. A cabeça pavorosa. Porém o horrível é este saca-rolha com mais de dois metros de comprimento que cresce na cabeça deles, no lugar onde outros seres têm o nariz.
Um saca-rolha? — perguntou Rhodan, perplexo, prestando muita atenção nos dados de seu vidente.
Sim, um negócio em forma de espiral. Santo Deus, com isso perfuram os troncos das árvores. O material deve ser tão duro como couro e... Oh! Perfuram à procura de água. Um desses animais de escamas perfurou um veio d’água no tronco. O líquido jorra aos borbotões. E como o animal bebe.
Devia ser um espetáculo fascinante o que o vidente estava presenciando, graças a suas forças mentais. Apesar disso, Rhodan fez uma pergunta:
Qual é o tamanho de um animal destes, Sengu? Mais ou menos um metro?
Um metro? Quase vinte, senhor.
Vinte metros! — repetiu Rhodan perplexo. — Não pode estar certo. Estas árvores com copa em forma de umbelas não têm nem vinte metros de altura...
Senhor — gaguejou Wuriu Sengu, um pouco nervoso, pois ia contradizer Rhodan — estas árvores têm todas mais do que cem metros de altura.
Isto não pode estar certo — discordou Julian Tifflor — o meu altímetro marca exatamente cinqüenta vírgula oito metros acima da superfície.
Claro, acima da camada superior destas árvores gigantescas, cinqüenta metros.
Quero tirar a limpo isto — disse Rhodan e baixou mais ainda a Gazela.
Agora faltava apenas um metro para que a quilha inferior da nave tocasse a linha quase plana das copas das árvores.
Contato — informou Tifflor.
A Gazela estremeceu um pouco, Rhodan olhou para Crest, preocupado.
Houve então um solavanco que percorreu a nave e com o solavanco, ouviu-se o brado de Perry pela cabina:
Isto não é possível.
Ele tinha manobrado a Gazela como para uma aterrissagem normal. Não houve mais campo para a ação antigravitacional, que compensaria o peso da nave de reconhecimento.
De repente o brado de alarme de Wuriu Sengu:
Atenção, senhor, a copa da árvore vai rebentar, não está agüentando.
A mão de Perry estava já um pouco acima da tecla certa, pronta para acionar a qualquer segundo o campo antigravitacional. Esperava de propósito para ver por quanto tempo uma única árvore agüentaria todo o peso da Gazela.
Agora! — gritou Sengu.
Um leve solavanco percorreu a nave. A quase esquecida sensação de elevador se manifestou, mas já estavam em funcionamento as forças de absorção e o peso da Gazela se reduziu a zero através da anti-gravitação.
E como se aquele enorme sustentáculo, a superfície quase plana da umbela da árvore, fosse biologicamente uma corrente elétrica, tudo se transformou numa nuvem de pó cinza-escuro. Desta nuvem de pó, rente à parte inferior do campo antigravitacional, se ergue no ar um jato de água de meio metro de espessura, que se desfaz e se espalha em círculo sobre as outras árvores.
E as cores esmaecidas dessas árvores, ao receberem o jato de água, recuperam repentinamente seu colorido original. Os tons irisantes voltam, aí está o negro aveludado, um lilá terrível, para no final de tudo se reduzirem ao feio cinza-escuro inicial.
E isto agora é o maior! — disse Crest numa voz estrangulada pela emoção, apontando com os dois dedos indicadores para as extremidades das copas vizinhas, que lenta, mas simultaneamente em toda a circunferência se projetavam para o espaço vazio, produzido pela copa da árvore dissolvida, para cobri-lo com sua ramagem.
Poucos segundos após, havia bem abaixo da Gazela uma superfície compacta, tão maciça que o altímetro de Julian Tifflor estava registrando valores falsos.
Você reparou por que que é assim?
Perfeitamente, senhor — disse Tiff radiante. — Cada copa de árvore, ou seja sua umbela, forma uma fechada rede neutra de corrente alternada. Só consigo penetrá-la através dos instrumentos de orientação.

* * *

Tinha dois mil quilômetros de extensão esta terrível mata virgem. Depois veio terreno mais acidentado. Eram grandes extensões de cascalho, lembrando as grandes geleiras da Terra, só que estas aqui tinham dimensões gigantescas.
Os homens na Gazela olhavam todos à procura de aldeias ou casas. Viram repentinamente um bando de enormes animais, uma espécie de grandes centopéias, movendo-se despreocupadas, até que uma percebeu a nave de reconhecimento já bem perto delas.
O que então aconteceu, era inexplicável. De um momento para o outro, o ar ficou cheio de pedras, areia e nuvens de poeira. Isto durou alguns minutos. Quando o ar clareou, os homens ficaram decepcionados, vendo apenas uma monótona paisagem de cascalho, sem vida.
Onde foram parar os bichos? — exclamou Tifflor.
O japonês, vidente, sorriu quase imperceptivelmente.
Mergulharam pela terra adentro, escondendo-se. Já estão a uns dez metros de profundidade.
Perry Rhodan e Crest se entreolharam. Honur era um mundo triste, seco e maluco, mas não havia perigo nenhum neste planeta.
Voavam já no fim do dia. Quando começou a escurecer, a Gazela aterrissou. Perry fez um pequeno relato para a Titan. Bell devia estar ainda na cabina, pois foi ele quem respondeu, aliás de muito bom humor...
Ao meio-dia da manhã seguinte, já tinham examinado toda Honur e só lhes restava ainda a região do pólo sul, tão seca e quente como a zona temperada.
Honur é realmente um deserto — dizia Rhodan a contragosto, já sentindo saudades da Titan.
Esta exploração do planeta com sua incrível flora e com sua fauna desconhecida, era no fundo uma questão muito enfadonha. Tudo vivia apenas na dependência do orvalho da noite. Era a luta eterna pela água.
A Gazela continuava no seu rumo: havia apenas uma direção. Repentinamente, Rhodan estremeceu.
Crest, que é aquilo? São edifícios? Tinha esperado por tudo, ou esperavam ainda por tudo, mas nunca por construções humanas grandiosas assim.
A nave de telerreconhecimento acelerou ao máximo. Empurrava a massa de ar, que de uma hora para outra atuava como uma muralha de cimento. A Gazela zunia e roncava por todos os cantos. Rhodan dirigia com toda a velocidade, como que ansioso para ver de perto aquelas torres distantes.
A baixa altitude, a nave de telerreconhecimento se aproximava rapidamente.
A imagem na tela redonda crescia com cristalina clareza.
Espaçonaves!
E no mesmo instante a Gazela subiu verticalmente para o espaço.
Será que nos localizaram? O que acha, Tiff?
O tenente se chamava Julian Tifflor, mas seus amigos o apelidavam de Tiff, e assim é que Rhodan o havia chamado. Mas Tiff não percebeu. Realmente não tinha tempo no momento. Sabia por que o chefe tocara a nave para o alto e ainda agora a mantinha em plena subida com toda força possível.
Tiff trabalhava como uma máquina, como um cérebro robotizado. Queria mesmo saber se tinham sido localizados por uma das muitas espaçonaves.
Havia realmente alguma dúvida?
A Gazela ultrapassou os limites dos mil quilômetros, e Tiff ainda não queria acreditar no que acabava de descobrir.
Senhor, não consigo localizar nada.
Senhor — e agora era Wuriu Sengu que se anunciava.
Pronto — respondeu Rhodan que já estava mais tranqüilo.
Estou vendo apenas naves abandonadas, destruídas e depredadas, ou melhor, estou vendo um cemitério de espaçonaves.
Concordava com os resultados de Tiff.
A Gazela estava a uma altitude de mil e quinhentos quilômetros.
Perry, com mão firme, deu uma volta com a nave, regulou-a no sentido da proa e desceu verticalmente. O planeta se aproximava célere. Frenagem, absorvedores de impacto, resistência do ar, ruídos infernais, tudo já mil vezes repetido, e no entanto, sempre novo.
A esfera de Honur se transformou numa planície. A planície ia se enrugando cada vez mais, à medida que desciam. E a Gazela continuava flutuando lentamente nos últimos quilômetros de encontro às naves espaciais no pólo sul de Honur.
5



Com um leve chiado, o aparelho de respiração fornecia a Rhodan o oxigênio necessário. Estava sozinho na escotilha da nave de reconhecimento examinando de longe, com expressão apreensiva, o incrível cemitério de espaçonaves.
Crest havia saído juntamente com ele, para fora da Gazela. O arcônida tinha pensado que podia dispensar o aparelho de respiração. Mas, depois de alguns minutos, sentiu falta de ar, e com a triste constatação de que já estava ficando velho, voltou rapidamente à nave, para botar nas costas o minúsculo aparelho de oxigênio.
Na Gazela, estavam sentados o vidente Wuriu Sengu, Tiff e o rato-castor Gucky atrás do painel de comando das armas. Todos os componentes de ataque estavam de prontidão para aquele enorme depósito de espaçonaves destruídas, prontos para, a qualquer segundo, disparar sua força destruidora.
Perplexo, contemplava Perry este quadro trágico de decadência. Este aço arcônida, que agüentava um calor de 30 mil graus e cujo brilho metálico era para toda a eternidade, estava tudo aqui, sujo, abandonado num depósito de ferro velho.
Perry contemplava os gigantes do espaço — adormecidos na ruína de sua decadência.
Desistiu de contá-los. Até a linha do horizonte se estendiam os ex-gigantes — de pé, deitados, um ao lado do outro, em cima do outro. Alguns, que estavam por baixo, em virtude do peso, estavam enterrados no chão, com apenas a terça parte de seu volume à vista. Tinham, naturalmente, tomado a cor suja do chão. Outros, porém, davam a impressão de novos, mantendo o esplendor de seu aço polido. Só sua fuselagem semi-enterrada no solo, podia servir de base para se saber há quantos anos estavam ali.
Este era o fim de todas as naves que se atreviam a voar para Honur e aí aterrissar. Honur era um planeta proibido.
Meu Deus, mas como foi possível isto? — perguntava-se Rhodan, quando ouviu um ruído atrás de si. E viu Crest saindo da escotilha.
Crest respondeu:
Isto é o fim.
Da escotilha da nave até o primeiro esqueleto dos ex-gigantes do espaço era mais ou menos um quilômetro. Rhodan concentrou seu pensamento em Gucky para que ele chamasse o japonês Wuriu Sengu e descesse com ele. Tiff devia ficar de prontidão no painel das armas de ataque.
Gucky apareceu logo num salto pequeno de teleportação. Estava “praticando”, como ele mesmo dizia. Porém, na frente de Rhodan, dominava um pouco seu gênio brincalhão.
O japonês tinha que vir, como todo homem normal, a pé, pela escotilha.
Senhor — anunciou-se espontaneamente — não vi nas naves abandonadas nem um sinal de vida, nem robôs. Por toda parte, camarotes e salões destruídos.
Não recebi nenhum impulso, chefe — disse Gucky, tentando em sua mensagem imitar o tom de voz militar do japonês, o que naturalmente foi um fracasso. — Acho que vou dar uma olhada por aí — continuou ele.
Mas não se exponha a nenhum perigo, Gucky — disse Rhodan em tom paternal, vendo desaparecer no mesmo instante o rato-castor.
Gucky se teleportou.
Vamos embora — disse Rhodan, pondo-se a caminho.
Pararam no salão de entrada de um gigante do espaço. O ruído compassado dos passos produzia um eco que parecia dizer: esperem um pouco, vocês em breve estarão aqui. Com os olhos arregalados, percorreram vários trechos e o quadro era sempre o mesmo: cem por cento depredado.
Tudo que não estava organicamente ligado com a estrutura de aço arconídico do revestimento e das paredes internas, mãos estranhas desmontaram e carregaram. Havia vestígios dos trabalhos de depredação, porém, nenhum vestígio da identidade dos depredadores.
Crest abanou a cabeça e olhou pensativo para Rhodan. Seu rosto tinha traços rígidos. Alguma coisa trabalhava dentro dele. Queria saber de que direção vinha o perigo. Procurava desesperadamente, mas sem resultado.
A camada de pó, onde pisavam, tinha mais de dez centímetros de espessura. Era uma poeira seca, tão seca como o próprio planeta. Estendia-se na frente deles, sem nenhuma pegada.
Puxa! Não se vê nem o sinal dos pés dos honos — continuou Rhodan com seus pensamentos. — E, no entanto, a destruição desta espaçonave deve estar relacionada com eles, mas você saberá de que maneira, Crest?
O arcônida não chegou a responder a pergunta, mas definiu muito bem a situação desesperadora:
Devemos voltar imediatamente para a Titan, Rhodan, enquanto ainda podemos fazer isso, se é que ainda o podemos, e partir o mais rápido possível para aguardarmos em órbita o encontro com o major Freyt. É melhor corrermos o risco de sermos descobertos por outra espaçonave, do que vermos a Titan jogada aqui neste monte de ferro velho.
...partir, enquanto ainda podemos partir? — repetiu Rhodan a frase do arcônida. — Você tem medo de que já seja tarde demais, Crest, você, o arcônida?
Por favor, Rhodan, não elogie agora a nossa tecnologia. Não se esqueça onde nos encontramos no momento: estamos num cemitério. Quando vínhamos para cá, fiquei observando e classificando muitos tipos de naves. Um terço destas eram belonaves: cruzadores e destróieres. Aterrissaram do mesmo modo que as comerciais. Esta descoberta me deixa desesperado. Se não tivesse encontrado naves também dos comerciantes da Galáxia poderia dizer: os saltadores estão por trás desta terrível destruição.
Neste momento, Perry Rhodan e Crest se sentiram apanhados ao mesmo tempo pelas mãos de Wuriu Sengu. O vidente ficou olhando por uns instantes. Em virtude de suas forças mentais, penetrou nos conveses de uma espaçonave e seus olhos varreram os camarotes da frente.
Senhor — sussurrou com esforço o vidente japonês — estou vendo esqueletos, esqueletos em cada camarote. É uma coisa horrível. Já vi mais de cem. E continuo vendo mais e...
Sengu, veja também através das próximas naves — ordenou Rhodan, que já tinha compreendido de que maneira estas naves foram destruídas.
Perry pensou: “De dentro para fora.” E chegou então a confirmação do vidente.
Os aposentos da tripulação estão vazios nas três próximas naves, apenas cheios de poeira. Mais de um metro de espessura. Mas na quarta nave, vejo de novo os esqueletos. Santo Deus, é uma belonave ou um grande transporte espacial? Devem estar ali mais de mil mortos.
Obrigado, Sengu — disse Rhodan com voz trêmula.
No mesmo momento, houve um turbilhão de poeira e ouviu-se a voz sibilante de Gucky:
Porcaria de poeira! — num salto exato de teleportação, ele veio parar bem na frente de Rhodan, Crest e Sengu.
Endireitou-se, sentou-se sobre as patas traseiras, apoiando-se na volumosa cauda de castor e procurando fazer uma saudação respeitosa:
Chefe — desta vez falava em inglês — tantos cadáveres como aqui, nunca vi na minha vida. Onde pensava não haver nada, encontrei um grande número deles, debaixo da poeira. Acho que os arcônidas estavam todos nus ao morrerem, pois não há nenhum vestígio de roupa. Descobri ainda, por acaso, o espaçoporto.
Descobriu o quê? — perguntou Rhodan visivelmente excitado. — Um espaçoporto de verdade?
Sim, um espaçoporto, embora não tão moderno, chefe. Mas um belo campo, plano como um espelho. O subsolo deve, um dia, ter sido tratado muito bem, pois neste lugar é mais duro do que cimento.
Tiff deve vir para cá — ordenou Rhodan.
Antes de deixar a Gazela, tinha proibido qualquer ordem via rádio e antes de iniciar seu vôo de reconhecimento tinha dito o mesmo a Bell.
Certo, chefe — sorriu Gucky com seu único dente de roedor e desapareceu imediatamente.
Os três ainda não haviam deixado o possante aparelho voador, quando Gucky já estava de volta de seu pulo para a Gazela.
Ele vem vindo aí — disse Gucky, procurando levantar sua larga cauda de castor, para não fazer poeira. Mas, embora soubesse fazer tantas coisas maravilhosas, não conseguiu erguer suficientemente a cauda e, com um palavrão que havia aprendido com Bell, teleportou-se do bojo do enorme aparelho depredado.
Logo após isto, aproximava-se a Gazela, abriu-se a escotilha e a rampa deslizou. Perry Rhodan, Crest e Wuriu Sengu tiveram que entrar pela escotilha. Mas Gucky saltou diretamente.
Lá estava ele ao lado de Rhodan, que tinha tomado a direção da Gazela, sendo que o rato-castor lhe indicava a posição do espaçoporto descoberto.
Sem um único solavanco, Rhodan desceu calmamente.
Tirar amostras do solo, Tiff — ordenou ele.
Isto eu sei fazer melhor e mais depressa — propôs Gucky e desapareceu, levando consigo uma sonda. Tirou um pedaço do chão, que parecia de cimento e voltou para bordo.
Enquanto isto, Rhodan e o arcônida estavam examinando a superfície livre. Este espaçoporto de emergência era a razão por que os restos das espaçonaves não estavam espalhados por todo o planeta, mas formavam aqui um terrífico cemitério. Este lugar era o único ponto em que as espaçonaves podiam firmar sem perigo seus suportes telescópicos e aqui era o lugar em que as naves que vinham para cá eram depredadas em suas peças, máquinas e dispositivos.
Tifflor, chame a Titan.
Como se esperasse há tempo por esta ordem, Tifflor já estava falando com a estação central de rádio da esfera gigantesca, quando Rhodan ainda principiava a dar-lhe a ordem.
Aqui é a Gazela. Chefe quer falar com comandante.
Logo a seguir, anunciou-se Reginald Bell, comandante da Titan durante a ausência de Rhodan.
Perry, que é que há? — perguntou Bell, rindo.
A bordo tudo cem por cento, Bell?
O melhor possível, aqui entre nós reina um sadio otimismo. A única coisa é que não posso mais ver estes pobres-diabos dos purificados, assim acabo perdendo minha boa disposição. Alguma novidade com vocês?
Não, nada de novo, Bell. Obrigado.
Crest olhou fixo para Perry Rhodan, Julian Tifflor e Wuriu Sengu fizeram o mesmo. Só Gucky, o rato-castor é que não. Gucky leu o pensamento de Rhodan.
Chefe, devo dar um pulo lá e ver o que se passa, realmente? — disse ele baixinho, já se preparando para um salto de teleportação até a Titan.
Rhodan reparou na perplexidade de seus companheiros. Seus olhos se detiveram no olhar inteligente do rato-castor, que o observava com muita apreensão e grande fidelidade.
Meu caro Gucky, vamos ver isto nós dois juntos.
A nave de telerreconhecimento ergueu-se suavemente. E o ar, afastado para o lado, zunia estridente. E outra vez partia a Gazela a toda velocidade.
Dirigiu-se para seu ponto de partida, onde, bem próximo de um lago, repousava a Titan.
Perry Rhodan tinha a impressão de que a Gazela estava se arrastando. Os segundos lhe pareciam semanas.
Sentia agora que alguma coisa de desagradável, quase que fúnebre, se estendia por toda a Titan. Ouvia-se o oficial do rádio que gargalhava, as palavras de Bell estavam entremeadas de risadas e o que significaria o conceito “boa disposição... otimismo”?
Concentrado em si mesmo, Crest olhava para frente, sem ver nada. Atrás de Rhodan, Tifflor e Sengu trocavam olhares interrogadores. E Gucky não tinha mais o sorriso de sempre e o jeito de brincalhão.

* * *

Que é que há, Perry? — disse Bell, sorrindo no microfone e cocando o pêlo de Aníbal, seu ursinho.
Está tudo bem a bordo, Bell? — perguntou Rhodan ainda da Gazela.
Otimamente bem. Reina muita boa disposição entre nós, só que eu não consigo mais ver estes pobres-diabos dos purificados, assim acabo perdendo meu bom humor. E com vocês, alguma novidade?
Não, nada de novo, Bell, obrigado.
Rindo desbragadamente, de tal modo que seu rosto parecia ainda mais largo do que era, Bell olhava para John Marshall, o telepata.
Ele vai ficar admirado, quando entrar aqui, John — disse Bell com muita alegria, puxando para o lado a patinha cor-de-rosa de Aníbal, porque o pequeno animal sempre queria brincar no seu nariz. — Aníbal, meu queridinho, deixa meu nariz em paz — dizia ele para o mini-urso.
Como se chama teu amiguinho? — perguntou Bell amavelmente ao telepata, que escondia seu ursinho sob o paletó.
— “Tannhàuser”, Bell.
É um nome de marca de automóvel?
Bell, “Tannhàuser” é uma composição musical de Wagner — explicou Marshall ao substituto de Rhodan, sorrindo com muita afabilidade.
Wagner e Tannhàuser combinavam muito bem, mas a risada de Marshall estava completamente fora de sintonia. Nada tinha de natural.
Bell não o notou. Estava de pernas para o alto, enquanto Aníbal corria em volta.
É isto mesmo — dizia Bell, gargalhando sempre mais alto. — Como é que me esqueci de que seu filho se chama Tannhàuser. Era seu amigo, este tal Tannhàuser, John? Você vai me contar alguma coisa dele. Vem, deixa o trabalho correr. A Titan está muito bem e o que resta para fazer, Rhodan pode dar conta sozinho. Temos confiança nele. Você não tem a mesma opinião?
E como? Bell, nós estamos pegando o embalo agora. Eu... eu gostaria de abraçar o mundo inteiro.
Bell concordou, acenando muito garganta:
Pode fazê-lo, mas deixa um pouco para mim. Já lhe contei alguma coisa do meu hoby, John? É gozado e você vai se divertir muito.
Bell — sussurrou alguém suavemente da entrada da central.
Thora deu uma piscadela alegre para o gorducho.
Thora, é você, meu anjo, que posso fazer para agradá-la? — exclamou Bell, pegando Aníbal pela coleira, o colocou no braço e tentou ficar de pé.
Thora sorriu aquele seu lindo sorriso, mas ficou parada na entrada.
Meu gorduchinho, que tal uma festinha a bordo com um pouquinho de dança? Não acha bom?
Aníbal, nos ombros de seu amo, esticou a língua para Thora. Aí, o amiguinho de Marshall, o Tannhàuser, saiu do paletó do telepata e começou a guinchar:
Um, dois, três, quatro, este é teu retrato! Um, dois, três...
Entrementes o ursinho de Thora também deu sinal de vida. Sentado no ombro de sua dona, desfazia o seu penteado.
Sorridente veio Bell ao encontro de Thora.
A gente quase não entende mais a própria palavra, mas isto não tem importância para nossa brincadeira. Você falou de festa a bordo, por este motivo você mereceu um beijo.
Exatamente neste momento, o ursinho de Thora começou a gritar:
Me dá um beijinho, me dá um beijinho.
Thora ria estrondosamente e apontando para sua Ladolfina, dizia:
Está ouvindo, Bell, quem vai receber meus beijinhos? Somente Ladolfina, ela não é maravilhosa? Mas o seu Aníbal é muito bonito. E como se chama o seu amiguinho, John?
— “Tannhàuser”, Thora. Ele não tem nenhuma semelhança com isso?
Lamento muito — retrucou Bell — mas eu acho que um automóvel é coisa completamente diferente. O modelo não foi um Ford?
Thora e Marshall se entreolharam e compreenderam que seria doloroso contradizer Bell. Mas para disfarçar a péssima impressão que causara, Bell se levantou e gesticulando muito falou:
Rapaziada, estou perguntando novamente sobre a confraternização. Quem é que concorda com uma bruta festa de bordo? Vamos lá, amigos!
Pegou o microfone da central:
Rapazes — disse ele alegre, usando a língua inglesa — perguntem por aí quem quer participar de uma big festa a bordo. Chamem todos os rapazes.
Festa a bordo, gorducho? Formidável. Num minuto, estaremos todos aí. Bell, por que esperou tanto para isto?
Se pudesse teria feito já antes. Mas não percam tempo, a festa tem que parar antes que Rhodan chegue aqui, pois ele não gostará de saber disso.

* * *

Um o quê, senhor? — perguntou Julian Tifflor nervoso e no entanto não havia dúvida de que fora Reginald Bell quem convidara para a festa a bordo.
Chefe — suplicou Gucky, tocando-lhe de leve o braço — posso dar um pulinho lá? Posso?
Não — disse Perry mentalmente, para que Gucky lesse.
Um pouco magoado, Gucky largou o braço de Perry e foi sentar num canto.
A Gazela estava a meia hora da Titan. Levaria ainda trinta minutos para aterrissar no hangar sete da grande nave.
Tiff — substitua-me um momento — passou então Rhodan a direção da Gazela às mãos do seu mais jovem, mas também do seu mais competente piloto. Sem dizer uma palavra, Tiff passou para a poltrona de comando. Calados, Rhodan e Crest deixaram a diminuta central. Quando a porta se fechou atrás deles, apenas se entreolharam num gesto de entendimento.
Neste tipo de nave, não havia realmente nenhum lugar agradável. Tudo foi construído com o objetivo da maior funcionalidade. Rhodan e Crest acabaram sentando nas banquetas destinadas às armas.
Por que razão o senhor não quer mandar Gucky dar uma olhada na Titan? — perguntou Crest muito abatido.
Você acha que também ele deve pegar a infecção? Devo também perdê-lo? — perguntou Perry com certa rudeza.
Quer dizer que o senhor atribui o estado eufórico reinante na Titan a uma infecção?
Você está chamando este fenômeno de euforia, Crest. Eu falei infecção. Não sabemos se uma dessas coisas ou se ambas estão certas. De qualquer maneira, Bell perdeu por completo a noção do seu estado e flutua numa sensação de superotimismo.
Exatamente como o senhor acaba de se expressar é que os médicos descrevem também a euforia patológica. Posso acrescentar alguma coisa a mais a tudo isto, Perry?
Há ainda algo a discutir, Crest, quando se pensa nos esqueletos, milhares de esqueletos, nas espaçonaves depredadas?
A Tróia de Perry Rhodan estava aí. O planeta Honur lhe dera o “presente grego” e com ele invadiram sua cidadela, desarmando-o completamente.
O cemitério de naves ao sul de Honur lhe deixara antever o fim de sua tripulação. Em breve estaria também a Titan entre as milhares de espaçonaves depredadas e dentro da nave gigante, setecentos esqueletos.
No momento, a tripulação se divertia e sublimava a festa com danças. A dança dos mortos. Nesta única expressão, Perry dizia tudo.
Sabia de tudo. Sabia que estava nas ruínas de Tróia e o sonho de conquistar o Universo fora apenas um... sonho. A Titan estava perdida.
Dança dos mortos — repetiu Crest, e seus olhos estavam úmidos.
Perry, permita-me dar um pulo lá — suplicou novamente Gucky. — Para o senhor é perigoso, muito perigoso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html