No mesmo
instante, a velocidade da fita reduziu-se.
— Mantenha-se
de prontidão, Halligan — advertiu Tiff.
Por
enquanto não havia motivo para preocupações. A fita desembocava
num recinto circular que tinha trinta metros de diâmetro e dois de
altura. Com alguns lances de olho, Tiff avaliou a situação. A fita
corria em direção a um disco situado no meio do recinto. Os três
homens foram empurrados para a superfície da sala circular, sem que
sentissem qualquer alteração. A velocidade já fora reduzida à de
pedestre.
Uma vez em
cima do disco, os três homens não tiveram tempo para refletir. Mal
Tiff, o último do grupo, acabara de ser colocado em cima do disco.
Este começou a girar. Tiff viu emendas finíssimas no chão, que
partiam do disco em forma de raios circulares. Logo compreendeu a
situação. O disco continuou a girar até o momento em que o
sargento Halligan, que continuava com o desintegrador apontado para
baixo, se viu colocado entre duas das emendas. O chão sob seus pés
voltou a mover-se, retirando Halligan de cima do disco e
transportando-o em velocidade cada vez mais para a parede do recinto.
As emendas
paralelas eram apenas as extremidades de outras fitas
transportadoras, mais estreitas. No lugar em que atingiriam a parede,
provavelmente se abriria uma porta invisível.
O disco
continuou a girar e colocou O’Keefe, que se sentia apavorado, em
cima de outra fita, que formava um ângulo de cerca de quarenta graus
com aquela que carregara Halligan. Tiff não tinha a menor intenção
de dispersar seu grupo, já pequeno, apenas para fazer a vontade de
uma série de fitas e discos giratórios. Gritou:
— Saltem!
Ao
contrário do corredor pelo qual vieram, aqui não havia nenhum
problema em executar uma ordem destas.
Halligan e
O’Keefe deram um passo para o lado e pisaram no chão firme e
imóvel do recinto. As fitas rolantes continuaram a correr mais um
tempo, emitindo um ligeiro zumbido, e finalmente entraram em repouso.
Tiff
também saltou do disco. O’Keefe dirigiu a luz do holofote para o
alto e dispersou-a de tal forma que todo o recinto foi iluminado.
Halligan e
Tiff saltaram por cima de várias fitas, para colocar-se junto a
O’Keefe. Soltando um suspiro, Halligan voltou a pendurar o
desintegrador por cima do ombro. Não havia mais nenhuma fita que
pudesse cortar.
— Evidentemente
isto é uma área de distribuição — disse Tiff. — Qualquer
coisa vinda de fora é classificada pelo disco e colocada na fita
adequada. Apenas, gostaria de saber como fazem para identificar a
fita em que cada pessoa deve ser colocada.
Tiff
examinou as fitas que saíam do disco central, conduzindo a dezoito
direções diferentes. Uma era igual à outra. Não encontrou o menor
sinal que lhe pudesse indicar qual delas o levaria ao lugar em que
pudesse desvendar mais profundamente os mistérios dessa instalação
subterrânea.
Tiff
escolheu ao acaso.
— Vamos
tomar esta!
Mandou que
Halligan e O’Keefe pisassem na fita e esperou. Aconteceu exatamente
aquilo que esperava. A fita começou a movimentar-se assim que
registrou o peso dos dois homens.
Na parede
também aconteceu aquilo que Tiff previra. Quando Halligan, que ia na
ponta, se encontrava a cinco metros, um pedaço deslizou para o lado,
deixando passar a fita com os três passageiros.
Mas Tiff
não poderia ter previsto o que aconteceu depois. O’Keefe segurava
o farol na horizontal, mas este apenas iluminava o teto.
Evidentemente a fita descia num ângulo cada vez mais pronunciado.
Halligan foi dominado pelo pânico. Começou a gritar:
— Socorro!
Estamos caindo!
Tiff
agachou-se em cima da fita e procurou agarrá-la com as mãos, para
encontrar um apoio. Mas antes que conseguisse fazê-lo a fita passou
a deslocar-se na vertical, mas a queda que Halligan tanto temia
transformou-se num suave deslizar. A estranha sensação de tração
provocada pelo campo de gravitação artificial era inconfundível.
O’Keefe logo recuperou o autocontrole e iluminou o poço pelo qual
estavam descendo.
Era um
elevador antigravitacional.
Depois de
algum tempo, Tiff mandou que O’Keefe desligasse o farol. Quando os
olhos se acostumaram à escuridão, Tiff viu uma luz que brilhava
mais embaixo. Não enxergou os contornos nítidos da fonte luminosa,
mas apenas uma vaga luminosidade.
Desceram
durante duas horas e, pelos cálculos de Tiff, deviam ter vencido uma
diferença de altitude de oito a dez quilômetros.
O poço
terminou no lugar exato em que Tiff vira a luminosidade. A abertura,
que deixava entrar a luz, era um portão em semicírculo de cerca de
três metros de altura, e a luz provinha da luminária colocada no
alto da imensa abóbada de pedra.
A abóbada
era circular e pelos cálculos de Tiff devia ter uns trinta
quilômetros de diâmetro.
O solo
estava coberto de capim. A gigantesca lâmpada colocada no zênite
imitava, ao que parecia de forma perfeita, as radiações do sol
Thatrel, em torno do qual gravitava o planeta Honur. A área coberta
de grama era dividida por cercas em lotes quase ou perfeitamente
quadrados de vinte metros de lado. Os lotes formavam longas fileiras,
e entre duas dessas fileiras sempre havia um caminho livre cuja
largura não era superior a um metro e meio.
Atrás das
cercas, os nonus faziam sua algazarra. Em cada lote, havia trinta
desses animais. Pedras e pedaços de galhos estavam espalhados pelas
cercas, para que pudessem construir seus ninhos. Ao que tudo
indicava, sentiam-se muito bem nesse mundo artificial subterrâneo.
Seus balbucios, chiados e assobios enchiam a imensa abóbada com um
barulho infernal.
Não havia
dúvida de que o fedor que passava pelos filtros dos capacetes de
Tiff e seus companheiros também provinha desses animais.
Havia mais
uma coisa que chamava a atenção. Pelos caminhos que se abriam entre
as fileiras de lotes, honos esbeltos passeavam orgulhosamente em suas
roupas coloridas.
Por um bom
tempo, Tiff e os dois sargentos ficaram duros de espanto. Halligan
foi o primeiro a recuperar a fala.
— Os
impulsos sobrepostos! — disse com um gemido. — Que idiotas fomos!
Tiff virou
a cabeça.
— O que
houve?
Halligan
explicou.
— Pouco
antes de sermos derrubados, as telas oscilográficas das nossas
sondas de radar registraram dois impulsos sobrepostos — disse. —
Parecia que o aparelho estava defeituoso, ou que o planeta Honur
tivesse um solo duplo. Pois vejam, realmente tem um solo duplo.
Tiff não
respondeu; parecia pensativo. Conhecia o equipamento técnico das
naves de reconhecimento de grande alcance do tipo Gazela. Sabia que,
além dos registradores, possuíam também transmissores automáticos,
através dos quais as informações colhidas eram decodificadas
ininterruptamente na nave capitania Titan.
Perry
Rhodan estava a par das medições realizadas pelas sondas de radar
das Gazelas. Sabia que as três registraram simultaneamente o mesmo
reflexo, e por isso, ao contrário de Dee e Halligan, nunca
acreditaria que se tratasse de um defeito dos aparelhos.
Tiff
resolveu eliminar o relatório sobre a abóbada subterrânea da lista
das coisas sobre as quais Rhodan devia ser informado pouco antes do
momento X. Este momento era aquele em que seria desfechado o ataque.
Rhodan já sabia de que forma o inimigo instalara sua base em Honur.
Tiff
recordou a palestra mantida com Nathan, o hono, no acampamento
montado junto ao regato.
— Entre
os purificados corre uma lenda segundo a qual os deuses vivem embaixo
da superfície...
Nathan
sabia. A alusão à lenda serviria para enganar seu interlocutor. Por
que falara sobre isso? Tinha tanta certeza de que ninguém escaparia
ao ataque que os mosquitos desencadeariam no interior do vale?
Acreditaria que ninguém poderia fazer uso dessa informação?
O’Keefe
arrastou Tiff de volta à realidade.
— Devíamos
agarrar um desses honos e interrogá-lo — sugeriu. — Talvez saiba
alguma coisa. Aliás, como será que veio parar aqui?
Um dos
honos, que caminhava entre os lotes enfileirados, aproximara-se até
chegar a dez metros do portão que se abria em semicírculo. Já vira
os três vultos empapuçados, mas estes só despertaram seu interesse
por um breve momento.
Tiff
lembrou-se. Era assim que os honos se tinham comportado por ocasião
do primeiro pouso da Titan. Estes pareciam ser genuínos, ao
contrário de Nathan e seus companheiros.
— Venham
comigo! — ordenou Tiff.
O hono
acabara de atingir o fim do seu caminho e voltava-se tranqüilamente
para percorrer o mesmo trajeto. Com alguns passos, Tiff e seus
companheiros colocaram-se ao seu lado. Tiff regulou o alto-falante
externo para o volume máximo.
— Um
instante, por favor — disse, gritando atrás do hono.
O hono
parou e virou-se. Lançou um olhar de tédio para os desconhecidos.
— O que
está fazendo? — perguntou Tiff.
Com um
gesto, apontou tranqüilamente para os lados.
— Estou
cuidando dos nonus, para que nada lhes aconteça.
— São
seus?
— Não,
pertencem aos deuses.
— O que
é que os deuses fazem com eles?
Esta
pergunta provocou o primeiro sinal de uma reação nervosa no hono.
— Como
pode fazer uma pergunta dessas? Acha que os deuses lhe devem prestar
contas do que fazem?
Tiff
contemporizou.
— É
claro que não. Onde é que se pode encontrar os deuses?
O hono,
entediado, fez um gesto de quem não sabia.
— Quem
sou eu, para esperar que os deuses contassem justamente a mim onde
vivem? — perguntou.
— Já
viu algum dos deuses? — prosseguiu Tiff no seu interrogatório.
O hono
confirmou com um gesto das mãos.
— Já vi
dois. Foram muito gentis.
— Quando
foi isso?
— Não
sei.
Tiff
refletiu sobre as perguntas que ainda poderia formular.
Subitamente
um novo ruído fez-se ouvir entre os gritos de alegria dos nonus. Era
um zumbido agudo e monótono, misturado com um rugido abafado.
Halligan girou sobre os calcanhares para identificar a origem do
ruído. Sua voz atropelou-se de susto quando exclamou:
— Olhem!
Estão chegando!
Tiff
virou-se abruptamente. Um cacho reluzente zumbia e se contorcia,
ocupando todo o espaço que ia da parte superior do semicírculo até
o solo. Parecia um gigantesco enxame de abelhas.
Pelos
cálculos de Tiff, deviam ser cerca de cinco mil mosquitos
robotizados que se comportavam tal qual seus equivalentes orgânicos.
E, ao que tudo indicava, aguardavam o comando positrônico para
lançar-se ao ataque.
— Cuidado!
— fungou Tiff. — Preparem as armas. A coisa está ficando séria.
Fomos descobertos.
Mal
acabara de proferir estas palavras quando a nuvem se desmanchou.
Zumbindo e brilhando como pequenos projetis metálicos, os mosquitos
mecânicos saíram voando em todas as direções.
Tiff
mandou que Halligan regulasse o desintegrador para um raio em ângulo
bem aberto e procedeu da mesma forma. Colocaram-se ombro a ombro, de
tal forma que os canos de suas armas formavam uma estrela regular de
três pontas. Metade do ângulo perigoso estava coberta pelos dois
desintegradores. Os mosquitos robotizados que penetrassem nessa área
estariam perdidos.
6
Perry
Rhodan reconheceu que poucas vezes conhecera horas tão desagradáveis
como estas. Continuava a confiar naquilo em que acreditava, isto é,
que o tenente Tifflor e dois outros homens conseguiram escapar à
euforia geral e seguiam a pista do inimigo.
Mas a
falta de notícias desgastava seus nervos.
As horas
se passavam, enfileirando-se em dias.
Não
recebeu nenhuma notícia de Tifflor.
Rhodan
começou a contar com a possibilidade de que Tiff e seus companheiros
houvessem caído nas mãos do inimigo. Nestas condições, a Titan
teria de intervir. Era bem verdade que ninguém tinha a menor idéia
de onde deveria intervir, ou contra quem. Acontece que, por razões
de ordem tática, Rhodan via-se forçado a ficar com as costas livres
enquanto desenvolvia sua ação no círculo mais estreito do setor
espacial submetido ao Império Arcônida; por isso, falta de
informações provavelmente significava que pouca coisa sobraria de
Honur.
Com certa
amargura, Rhodan deu-se conta de que estava prestes a incorporar à
sua mente uma lei de guerra, antiga e desumana, seguida pelos
saltadores: se você não conseguir localizar a base que o inimigo
tiver instalado num certo mundo, destrua todo esse mundo.
Não
poderia deixar de agir dessa forma, a não ser que quisesse pôr em
perigo êxito de sua missão e, portanto, a própria Terra.
Mas ainda
hesitava, alimentando-se com o restinho de esperança que ainda
mantinha na missão do grupo de Tifflor.
*
* *
Tiff levou
apenas alguns segundos para perceber que não conseguiriam manter-se
por muito tempo naquela área desprotegida. Os mosquitos robotizados
não se incomodaram com as cercas. Pareciam ter excelentes órgãos
de localização, pois passavam entre as frestas como se estivessem
voando num espaço aberto.
Os
desintegradores os consumiam às dezenas e centenas. Nuvens de poeira
metálica atravessavam o ar.
O’Keefe
disparava ao acaso, para cima, para baixo e para a frente. A dez
metros dele, o chão começara a ferver.
Foi
justamente o calor espalhado por O’Keefe que proporcionou aos três
homens uma pausa para respirar. Com um ligeiro olhar, Tiff percebeu
que os mosquitos não conseguiam compensar os efeitos do calor com a
necessária rapidez. As vagas de ar quente atiravam-nos para o alto,
fazendo com que passassem alguns metros acima das cabeças das
vítimas em perspectivas. Tiff deu as instruções. — Vamos recuar
até a parede mais próxima, rapazes — gritou. — Precisamos ficar
com as costas protegidas. O’Keefe, dispare apenas contra o chão.
O’Keefe
não sabia o que estava havendo, mas cumpriu a ordem que acabara de
receber. Baixou o cano da arma e descreveu círculos incandescentes
em torno dos pontos em que se encontrava. Os mosquitos, que se tinham
aproximado a menos de metro e meio, desapareceram instantaneamente.
Passando a uns cinco metros acima das cabeças que pretendiam atacar,
não poderiam causar nenhum prejuízo.
— Corram!
— gritou Tiff. — Vamos até a parede.
Halligan
foi o primeiro que saiu correndo. Tiff seguiu-o, enquanto O’Keefe
cobria a retirada, disparando incessantemente. Queimava o capim e
transformava pedaço por pedaço do solo em massas de lavas
incandescentes.
Os
mosquitos estavam desorientados. Ao que parecia, a direção
positrônica ainda não compreendera o que estava acontecendo.
Tiff
sentiu-se mais tranqüilo quando suas costas tocaram a parede lisa da
abóbada de rocha. Halligan, que se encontrava a seu lado, com as
pernas bem afastadas, derrubava os mosquitos tangidos para o alto
quando se colocassem ao alcance do raio de desintegração.
Tiff
começou a acreditar que a defesa por meio do ar aquecido, criada por
O’Keefe, lhes daria uma chance real de superar o ataque. Já deviam
ter destruído ao menos dois mil dos cinco mil mosquitos que, segundo
seus cálculos, participaram do início do ataque.
Mas no
momento em que O’Keefe atingiu a parede protetora, o dispositivo
positrônico pareceu compreender por que os mosquitos sempre passavam
longe do alvo. Tiff viu uma nuvem aproximar-se; descrevia uma
trajetória quase vertical, que em condições normais eliminaria
todo e qualquer risco que a mesma poderia representar. Mas o ar
aquecido retificou o rumo, fazendo com que se deslocassem na direção
exata do alvo. No último instante, Halligan baixou o cano do
desintegrador e conseguiu rechaçar o perigo.
— O’Keefe,
aponte para cima! — ordenou Tiff.
O enxame
que se seguiu, regulado por via positrônica para o novo rumo,
disparou para o solo a uns cinco metros da parede. Acabou ficando
preso pelos ferrões, já que, com a mudança de pontaria realizada
por O’Keefe, o fluxo de ar aquecido se tornara menos intenso.
Mas do
terceiro ataque em diante o cérebro positrônico não se deixou
enganar. Mandou que os mosquitos descessem quase na vertical e
retificava o rumo por sua própria iniciativa sempre que faltasse o
ar aquecido. Tiff ouviu os seres metálicos baterem ruidosamente na
parede, depois de terem vencido a barreira criada pelas armas
térmicas e desintegradoras. Sentiu uma forte pancada na perna. Mas,
por enquanto, não teve a sensação de que a vida se tornara mais
encantadora.
Escapara
bem; O’Keefe e Halligan continuavam a disparar obstinadamente.
Porém Tiff sabia que seria apenas uma questão de segundos, e, um
atrás do outro, os mosquitos atingiriam o alvo.
No
intervalo entre os dois ataques, O’Keefe deslocou-se para o lado, a
fim de conseguir um ângulo de tiro mais favorável para sua arma
térmica. Num gesto instintivo, Tiff olhou para o lado.
Mais
tarde, ninguém saberia dizer o que aconteceu. Talvez O’Keefe teria
tocado num contacto oculto, ou então a porta se abria
automaticamente sempre que alguém se aproximava dele. O certo é
que, de súbito, surgiu atrás de O’Keefe uma abertura, não
percebida pelo próprio sargento.
Tiff
chamou a atenção de O’Keefe. Este virou-se ligeiro e descobriu a
abertura. Soltou um grito de júbilo que superava até mesmo o
barulho provocado pelos nonus apavorados.
Tiff deu
uma pancadinha em Halligan.
— Dê o
fora.
Apenas
tiveram que dar alguns saltos. O comando positrônico estava adaptado
ao ar quente. Mas levou alguns segundos para absorver o dado novo,
isto é, a fuga das vítimas.
Atingiram
a abertura. O’Keefe foi o primeiro a desaparecer nela. Halligan
correu atrás dele, e Tiff formou a retaguarda. A porta logo se
fechou atrás deles. Por enquanto estavam livres da preocupação com
os mosquitos robotizados.
A porta
formava o início de um longo corredor bem iluminado, que penetrava
obliquamente na rocha.
Tiff
hesitou. Teria chegado a hora de transmitir a Rhodan o sinal de
ataque? Já conheciam os segredos da base subterrânea o bastante
para que os tripulantes da Titan não corressem qualquer risco?
A resposta
foi um não. Além disso, Tiff deu-se conta de que o dispositivo
positrônico não registrara o salto que os pusera a salvo. Isso
queria dizer que não dispunha de uma informação segura sobre a
posição em que as vítimas se encontravam naquele instante. E essa
vantagem seria eliminada se expedisse uma mensagem cujo ponto de
origem seria facilmente detectável por meio de um goniômetro.
Tomou sua
decisão:
— Vamos
adiante!
Pôs-se a
seguir os sargentos corredor afora.
Pelos seus
cálculos, a passagem devia ter cerca de dois quilômetros e meio.
Terminava numa sala de teto baixo, que estava completamente vazia e
não apresentava o menor indício de finalidade que poderia
preencher.
Haviam
percorrido um total de quase quarenta quilômetros em sentido
vertical e horizontal. Haviam visto a abóbada de pedra. Isso bastava
para convencê-los de que sob o solo de Honur o inimigo não
instalara uma simples base, mas um verdadeiro mundo artificial.
Nas
últimas horas, o respeito de Tiff pela habilidade técnica do
inimigo crescera consideravelmente.
Não
perdeu tempo. Com Halligan e O’Keefe, pôs-se a apalpar as paredes
do recinto retangular. A predileção do inimigo pelas portas
colocadas em lugares nos quais conseguisse vê-las já não era
segredo.
De início,
parecia totalmente indiferente que o lugar da saída ficasse deste ou
daquele lado do recinto. Mas de repente, Halligan, que se incumbira
do exame da parede do lado esquerdo, estacou e exclamou com a voz
abafada:
— Estou
ouvindo alguma coisa.
Tiff
correu para seu lado. Teve de concentrar-se para perceber o que
Halligan acabara de ouvir. Mas não poderia negar que um ruído
atravessava a parede. Propagava-se pelas rochas e paredes maciças,
acabando por transmitir-se ao ar rarefeito encerrado entre as paredes
daquele recinto. Os microfones externos captaram um débil vestígio
desse ruído, que de qualquer maneira não permitiria a menor dúvida
sobre sua existência.
O ruído
consistia num zumbido monótono que ocupava vários pontos da escala
do som.
Em algum
lugar, além dessa parede, funcionava uma potente aparelhagem. Seriam
as instalações que forneciam o suprimento de ar do subterrâneo, os
geradores de energia ou o cérebro positrônico?
— Neste
canto deve haver uma porta — disse Tiff com a voz tensa. — Tem
que haver.
Não era
uma afirmativa lógica; mas, por estranho que fosse, era verdadeira.
Caminharam várias vezes junto à parede, e mais uma vez foi O’Keefe
quem descobriu a posição real. De repente, um pedaço da parede
deslizou para o lado, mostrando um corredor estreito que penetrava
obliquamente na rocha.
No momento
em que a porta se abriu, o zumbido tornou-se mais forte. O’Keefe
hesitou e, sem dizer uma palavra, fez um gesto em direção ao
corredor. Tiff confirmou com um aceno de cabeça.
— Vamos
andando!
Caminharam
pela porta, e esta fechou-se automaticamente atrás deles, conforme
acontecia geralmente com as portas desse mundo subterrâneo. Aquele
corredor parecia ser muito mais curto que os outros. Mais à frente,
uma profusão de luz ofuscava os olhos. Parecia vir de um enorme
salão, cujos contornos não conseguiram reconhecer.
Tiff
avançou apressadamente. Tinha certeza de que, no momento em que
conseguissem pôr os olhos naquele recinto, teriam solucionado parte
do mistério subterrâneo.
Não
conservou uma lembrança nítida do que viria depois. A memória dos
dois sargentos apresentou a mesma falha. Tiff ainda chegou a ver que
as paredes do corredor recuavam, abrindo-se num recinto circular de
grande diâmetro. Viu que o recinto estava atulhado com uma série de
aparelhos, cuja finalidade lhe era desconhecida. O que mais lhe
chamava a atenção era uma fileira de espelhos côncavos, que
refletiam um brilho insuportável.
Saiu de
vez do corredor, e foi atingido por um golpe terrível, vindo não se
sabe de onde, que o deixou inconsciente.
*
* *
Perry
Rhodan sabia que cada segundo que perdesse aumentaria o perigo.
Colocou a
Titan em estado de rigorosa prontidão e em palavras rápidas
informou os oficiais sobre as providências que teriam de tomar.
— Naturalmente
procuraremos localizar a base do inimigo, para poupar o resto do
planeta — concluiu. — Mas nossas chances são bastante reduzidas.
Faço questão de frisar que, se isso não acontecer, seremos
obrigados a destruir todo o planeta de Honur. É que nos encontramos
diante de uma alternativa: a Terra ou Honur. Acho que nenhum dos
senhores hesitará em responder.
A Titan
tinha uma tripulação atual de cerca de oitocentos homens. Rhodan
mandou que quinhentos deles participassem da ação de grande
envergadura que havia sido planejada. Os que ficaram para trás
estariam em condições de guarnecer a artilharia da nave se houvesse
um ataque.
A Ganymed,
que continuava a descrever uma órbita em torno de Honur, foi
colocada em estado de prontidão simples. O coronel Freyt foi avisado
que a qualquer momento se tornaria necessário o pouso de sua nave.
Os
preparativos para o grande golpe a ser desferido contra o inimigo
foram executados a toda pressa. Rhodan já mandara fazer com
antecedência as coisas mais importantes, embora ninguém soubesse
para que poderiam servir.
Tudo se
passou rápido. Quando o oficial de rádio da Titan captou em seu
receptor eletromagnético uma série de sons e sinais que não faziam
o menor sentido, Rhodan já estava prestes a sair com seu grupo de
combate de quinhentos homens.
Perry foi
avisado, e adiou a saída do grupo. Por enquanto ninguém sabia o que
fazer com aquela mensagem: mas Rhodan não desistiu.
Fez bem.
Os sons mal articulados coordenaram-se em palavras. Rhodan não
reconheceu a voz, mas tinha certeza de que não era de Tifflor.
Falava em inglês, e esse fato eliminou quase todas as dúvidas de
Rhodan.
— ...
o vale... entrada da encosta nordeste... instalações
subterrâneas... cuidado com os mosquitos robotizados... cinco
centímetros de comprimento, mais ou menos do formato de uma
libélula... são os portadores da argonina... preparar redes de
malha estreita...
Após
essas palavras as forças do interlocutor pareciam esgotadas. Por
algum tempo ouviu-se apenas o chiado do receptor.
A mesma
voz voltou a falar e repetiu o que já disse. Rhodan percebeu que não
obteria informações e transmitiu as instruções necessárias à
equipe técnica.
Levar
redes; até então ninguém se lembrara disso.
*
* *
Tiff
acordou ao som monótono de uma voz que falava com ele.
Falava
mesmo?
Procurou
identificar a voz na penumbra da semi-inconsciência. Não a
identificou, mas compreendeu as palavras.
Abriu os
olhos e viu-se envolto pela penumbra. Procurou mover a cabeça e
olhar em torno, mas esta permanecia imóvel. Esforçou-se para
levantar o braço ou deslocar a perna para o lado, mas não
conseguiu.
Estava
preso. Preso por um processo de paralisia de seu cérebro.
Apesar de
tudo, compreendeu a voz:
— ...então
vocês pensavam que poderiam desafiar os deuses. Sabem perfeitamente
que diante dos deuses poderosos não passam de vermes miseráveis.
Eles seguiram seu caminho e aprisionaram vocês no momento que
julgaram adequado. Vocês ficarão aqui mesmo. Passarão o resto da
vida servindo aos deuses.
A voz
calou-se. À medida que recuperava a consciência, Tiff deu-se conta
de que na verdade não ouvira nenhuma voz, mas captara uma mensagem
telepática.
Foi por
isso que não conseguiu identificar a língua. A mensagem não era
formada por palavras, mas por impulsos mentais que não estavam
sujeitos às limitações da linguagem falada.
Tiff
procurou recordar. Havia aquele corredor curto e oblíquo, o recinto
cheio de aparelhos, a série de espelhos côncavos e a terrível
pancada.
Tiff
lembrou-se que fora atingido por uma pancada semelhante, mas menos
violenta, quando naquela noite seguira os nonos no interior do vale,
alcançando-os pouco antes do paredão.
O que
seria? Uma arma paralisante?
Não seria
de estranhar que um inimigo capaz de produzir um veneno potente como
a argonina estivesse em condições de produzir armas que atingissem
os nervos.
“Então
é este o motivo da paralisia”
constatou Tiff. “A
única coisa que consigo mover são as pálpebras.”
Examinou o
recinto em que se encontrava, ou melhor, o setor que podia abranger
com a vista na posição em que se achava. Não era muita coisa. De
qualquer maneira, Tiff percebeu que se encontrava num cubículo de
teto baixo. Não podia ver se o cubículo continuava atrás dele.
Tiff viu outra coisa que o assustou bastante. Eram três espelhos
côncavos muito brilhantes, pendurados no lugar em que a parede se
encontrava com o teto, bem diante dele. A inclinação do espelho
estava regulada de tal forma que um deles projetava seus reflexos
diretamente no rosto de Tiff.
Tiff
demorou algum tempo para compreender o que isso significava. O choque
instantâneo produzido pelas radiações refletidas pelos espelhos
côncavos reunidos no grande recinto não era suficiente. Para
controlar seus prisioneiros, os deuses teriam que submeter os nervos
dos cativos a uma influência ininterrupta.
“Basta
arrebentar aquele espelho”,
pensou Tiff, “e
tudo estará em ordem.”
Acontece
que não conseguia sequer mover a cabeça, quanto menos levantar-se
para transformar seu pensamento em realidade.
“Três
espelhos”,
pensou Tiff, “isso
quer dizer...”
Fez mais
um esforço para mover a cabeça, mas ainda desta vez não o
conseguiu.
Halligan e
O’Keefe deviam estar por ali, pois de outra forma não se poderia
explicar a presença dos três espelhos. Ou será que havia outros
recintos como este, e os deuses haviam colocado os prisioneiros em
cubículos distintos?
Tiff ficou
quebrando a cabeça, e acabou dando uma resposta muito estranha à
pergunta. O receptor do capacete emitiu um ruído que parecia o de
uma serra. Esse ruído foi seguido por um assobio agudo, e finalmente
ouviu alguma coisa que parecia um “bé”...
Finalmente
alguém disse, devagar e desajeitadamente:
— Te...
tenente...
Tiff quis
responder, mas a língua, o queixo e as cordas vocais seguiram o
exemplo dos outros músculos: não obedeceram. Continuou mudo.
— Te..te..nente...
— voltou a soar a voz, um pouco mais fluente.
Era a voz
de O’Keefe; não havia a menor dúvida.
Não sabia
como, mas O’Keefe parecia conhecer a situação em que Tiff se
encontrava. Disse o seguinte:
— Te...
tenente... sei o que está sentindo. Es... estou um pouquinho melhor.
No último instante consegui atirar contra esses malditos espelhos...
Não sofri um choque tão pesado. Ainda consigo mexer-me.
“Esse
O’Keefe é formidável”,
pensou Tiff. “Se
consegue mexer-se, por que não se levanta e quebra os espelhos?”
A fala de
O’Keefe tornou-se mais fluente.
— Esses
malditos deuses nos prenderam aqui. As armas, o transmissor, tudo
está ali. Acham que não somos capazes de mais nada; acreditam que
estamos paralisados. Posso ver seu rosto. Quer que arrebente esse
espelho a tiro? Se quiser, feche os olhos duas vezes. Ou será que
não consegue mexer as pálpebras?
“O’Keefe,
seu cara de cachorro”,
pensou Tiff entusiasmado. Fechou os olhos duas vezes.
— Está
bem — suspirou O’Keefe. — Compreendi.
Tiff ouviu
vários ruídos. Acreditou que ouvia O’Keefe virar-se de lado e
estender lentamente o braço para alguma coisa que se encontrava bem
longe. Gemia sem parar e resmungou palavras zangadas. Finalmente
disse:
— Ai...oh...
já consegui. Daqui a pouco... Um instante.
Bem no
canto direito do campo de visão muito restrito de Tiff surgiu a
parte anterior do cano de um radiador de impulsos térmicos. Tiff
cerrou os olhos. O’Keefe voltou a gemer, como se o movimento de
apertar o gatilho exigisse um tremendo esforço. Finalmente disparou.
Num
instante, uma luminosidade ofuscante devorou os três espelhos. O
metal liquefeito e fumegante pingou do teto e espalhou-se pelo
soalho.
O aparelho
de condicionamento de ar do traje de Tiff ligou-se com um clic. Tiff
sentiu-se aliviado de uma pressão indefinível, a partir do momento
em que os espelhos desapareceram. Mas quando procurou mover o corpo,
ainda não o conseguiu.
O’Keefe
já conhecia esse tipo de preocupação.
— Não
acredite que de uma hora para outra tudo estará em ordem. Vai levar
algum tempo.
Ele mesmo
teve a idéia de que a primeira providência que deveriam tomar seria
avisar a Titan. Tiff sentiu-se feliz quando percebeu que, gemendo e
se lamentando, O’Keefe se arrastou em direção ao transmissor e
emitiu a mensagem quase mal articulada que Rhodan recebeu no último
instante.
Após
isso, O’Keefe voltou e, conforme informou, deitou na cova para a
qual estavam dirigidos os reflexos de um dos espelhos.
Tiff sabia
o que aconteceria em seguida. Por isso fez o que estava ao seu
alcance para que os nervos recuperassem a capacidade de ação.
Por alguns
minutos, concentrou todas as energias mentais no movimento do braço
direito. Subitamente, num esforço explosivo, fez toda essa energia
fluir sob a forma de comando:
Dobrar o
braço direito.
O braço
moveu-se. Não executou o movimento desejado por Tiff, mas moveu-se.
Tiff não
esmoreceu. Dentro de mais algum tempo, conseguiu mover o braço
direito pela forma que desejava. Com o braço esquerdo, o resultado
foi mais rápido. Após isso treinou as pernas, e por fim a boca,
língua e as cordas vocais.
Uma hora e
meia depois de ter acordado, conseguiu proferir a primeira palavra.
Foi a seguinte:
— Bravos...!
Esta
palavra fora dirigida a O’Keefe.
Levantou-se.
Os movimentos causavam-lhe dores; se as cordas vocais estivessem em
melhores condições, teria gritado. Passando junto ao corpo imóvel
de Halligan, dirigiu-se ao lugar em que os deuses haviam guardado as
armas de seus prisioneiros. Deviam estar convencidos de que estes
nunca mais poderiam usá-las. Pegou o desintegrador.
O esforço
foi tanto que teve de sentar-se assim que segurou a arma.
Ficou
admirado ao notar que os deuses não se moviam. Deviam ter notado que
três dos espelhos côncavos haviam sido destruídos. Por que não
tomavam nenhuma providência para voltar a submeter os prisioneiros à
influência?
Talvez
parte da resposta consistisse no fato de que o inimigo conhecia os
prolongados efeitos pós-choque, motivo por que não teria pressa.
Mas a
outra explicação Tiff não conhecia. Naquele momento, os deuses
estavam quebrando a cabeça com outro intruso, que lhes causava uma
preocupação muito maior que aqueles três prisioneiros. Perry
avançava resolutamente em direção à base, estando muito bem
equipado.
Era o
chefe da Terceira Potência com seu contingente de quinhentos homens.
*
* *
Levaram
uma hora e meia para arranjar as redes.
Rhodan
gastou outras duas horas para chegar ao vale nos seus Câmbios.
O trabalho
de remover os homens intoxicados de argonina e encaminhá-los à
Titan consumiu mais trinta minutos.
Levaram
apenas dez minutos para encontrar a entrada oculta que dava para a
base subterrânea. Rhodan mandou raspar a rocha com raios de
desintegradores. O que sobrou foi um paredão situado vinte metros
atrás do primeiro e a abertura negra do corredor que penetrava
obliquamente na rocha.
Foi
naquele momento que os mosquitos lançaram seu primeiro ataque. No
entanto, ficaram presos nas redes de malha estreita penduradas nos
capacetes, longe dos corpos dos homens. Consumiram toda a energia e
tombaram, imóveis. Ficaram caídos até que o cérebro positrônico
lhes forneceu novo suprimento de energia.
Quando
isso aconteceu, o contingente de quinhentos homens comandado por
Rhodan já havia penetrado na galeria.
*
* *
Halligan
não se teria levantado tão depressa, se a zombaria de O’Keefe não
o aborrecesse tanto. O’Keefe disse:
— Daqui
a cinco dias, você ainda estará jogado no chão, seu pato...
Levantou-se
com uma rapidez de que ninguém o julgaria capaz, pôs-se de pé e
cambaleou com os punhos levantados em direção a O’Keefe. Mas,
antes de chegar ao objetivo, as forças ativadas com tamanha
violência o abandonaram. Caiu de joelhos de forma muito pouco
elegante à frente de O’Keefe.
— Está
vendo? — disse O’Keefe com uma risada. — É assim que eu gosto.
Tiff não
conseguiu reprimir o riso. Enquanto ria, descuidou-se por um
instante, e isso justamente num momento em que não poderia contar
com O’Keefe, que se divertia com Halligan. Foi assim que o pedaço
de parede já havia deixado livre uma abertura de um metro antes que
Tiff notasse qualquer coisa.
Só
conseguiu emitir um grito mal articulado quando viu que a coisa
metálica caminhava na direção deles; mas para O’Keefe bastou.
Tiff
deixou-se cair para trás, bateu pesadamente no solo e só com grande
esforço conseguiu levantar o desintegrador. O’Keefe saltou para o
lado, para não expor Halligan a qualquer risco, e com essa manobra
irritou o enorme robô, que já erguera o braço armado. De joelhos,
disparou de baixo para cima.
Não
poderia errar o alvo. Antes que o robô tivesse tempo de ajustar o
braço à nova posição, foi atingido pelo feixe de raios da arma de
impulsos térmicos, que o estraçalhou, espalhando peças metálicas
incandescentes e fumegantes para todos os lados.
Como um
homem muito bem treinado na luta corpo a corpo, O’Keefe saltou para
a frente e agachou-se junto à porta. Era espantoso ver o desempenho
de que seus músculos já eram capazes.
Estimulado
pela atividade de O’Keefe, Halligan voltou a levantar-se, pegou sua
arma e rastejou em direção à porta. O’Keefe, que o viu chegar,
resmungou:
— Não
foi isto que eu quis dizer, meu chapa. Deite e descanse mais um
pouco. Saberei enfrentar isto sozinho.
— Acho
que era isso mesmo que você queria — resmungou Halligan como quem
tem duas grandes batatas na mão.
O’Keefe
deu de ombros e cautelosamente pôs a cabeça para fora da porta.
— Há um
corredor — informou. — Mede dez metros para cada lado. Está
fechado de ambos os lados. Não há mais nenhum robô.
— De
onde veio este robô? — perguntou Tiff.
O’Keefe
examinou os restos da máquina de guerra.
— Acredito
que tenha vindo da direita.
— Pois
bem — gemeu Tiff. — Vamos para a direita. Ao que parece, a
brincadeira com os mosquitos acabou. Os deuses preferem recorrer a
armas mais potentes.
Com
exceção de O’Keefe, que já estava completamente recuperado, foi
uma dupla cansada que se arrastou pelo corredor.
A parede
que fechava o corredor não representou um obstáculo muito difícil.
O’Keefe deu alguns passos junto a esta. A parede afastou-se para o
lado. O quadro que se ofereceu fez com que O’Keefe caísse de
joelhos.
Tiff
desviou-se para o lado o mais rápido que pôde e Halligan deixou-se
cair contra a parede.
— Trabalhe
com o desintegrador! — gritou O’Keefe. — Se eu disparar com o
termo, não conseguiremos mais passar.
O recinto,
que se abria atrás da porta, era enorme. Uma luz mortiça caía
sobre figuras metálicas cintilantes e imóveis. Enfileiradas em
devida forma, pareciam aguardar alguma coisa.
Eram
robôs! Centenas de robôs!
Tiff não
hesitou. Os robôs não haviam sido ativados. Os deuses ainda não
sabiam que seus prisioneiros se encontravam nesta porta; por enquanto
os robôs não haviam recebido ordem para entrar em ação.
Halligan
já havia erguido a arma.
— Abrir
o feixe e disparar! — gritou
Tiff. Uma
súbita fúria combativa eliminou o resto da dor provocada pelo
tratamento de choque.
Com
O’Keefe no meio, os três penetraram no enorme recinto. Os robôs
não se moviam. Não resistiram à destruição.
Pelos
cálculos de Tiff, deviam ser uns quinhentos ao todo. O tempo
consumido na destruição do exército robotizado parecia uma
eternidade. Na verdade, não levaram mais de quinze minutos.
O ar
tremeluzia com os vapores e poeiras metálicas.
No momento
em que o último robô se dissolveu sob a ação do raio esverdeado
do desintegrador, viram-se diante da parede dos fundos.
— Graças
a Deus! — suspirou O’Keefe do fundo do coração. — Pensei que
de uma hora para outra pudessem cair em cima de nós.
A
disposição combativa de Tiff não conhecia descanso. Caminhando
junto à parede dos fundos, descobriu a porta que ficava na mesma
altura daquela pela qual haviam vindo.
Atrás
dessa, ficava um recinto muito amplo. Era menor que o pavilhão dos
robôs, mas também estava iluminado por uma luz mortiça.
Tiff
soltou um grito de alegria.
— Estamos
perto do destino, rapazes. Esta é a sala de controle.
As
características da sala eram inconfundíveis. Enormes painéis
cobriam as paredes. Entre eles, viam-se oscilógrafos e telas. As
centenas de aparelhos e instrumentos emitiam um zumbido ininterrupto.
Mas não
viram nenhum deus.
Tiff
continuou a avançar. A porta seguinte abriu-se diante dele. Viu-se
num corredor. O’Keefe e Halligan seguiram-no.
O corredor
abriu-se até transformar-se num enorme pavilhão, em cujo centro a
luz débil deixava imaginar, antes de serem vistos, os contornos
cilíndricos de uma nave-foguete.
Ao
primeiro relance de olhos, Tiff percebeu três vultos de pernas
compridas, que vestiam mantas coloridas. Corriam em direção à nave
que, segundo tudo indicava, estava pronta para decolar.
— São
os deuses! — rejubilou-se O’Keefe. — Estão fugindo.
Ajoelhou-se
e apontou cuidadosamente seu radiador térmico.
— Nós
os queremos vivos! — advertiu-o Tiff.
O’Keefe
apenas estava ajoelhado. Logo começou a disparar.
Traçou
uma linha incandescente junto aos três fugitivos. Com isso viram-se
obrigados a correr para a esquerda. Traçou uma segunda linha, à
esquerda do grupo. Ficaram confusos. Um deles tropeçou e caiu, mas
levantou-se muito depressa. Os outros corriam à sua frente.
O’Keefe
aumentou a potência dos disparos. A rocha entrou em incandescência
ao lado dos fugitivos. Procuraram escapar para outro lado. Mas
O’Keefe mostrou-se implacável. Cercou-os com um fosso de lava e
fogo.
Tiff
viu-os caírem um atrás do outro. O calor deixara-os inconscientes.
Lançou um olhar desconfiado para a nave-foguete e esteve a ponto de
correr para os desmaiados.
Subitamente
um forte rugido encheu o pavilhão. O veículo espacial levantou-se
do chão em meio a uma nuvem de pó, permaneceu imóvel por um
instante e disparou em direção ao teto. Tiff viu uma coisa que
ainda não havia notado. No teto havia uma grande fenda, pela qual
entrava uma luz avermelhada. Não existia nenhuma fonte de luz
artificial, conforme Tiff supusera no início.
Com um
ruído quase insuportável a nave passou pela fenda. Deixando para
trás apenas um furacão que se espalhou em virtude da decolagem
extremamente rápida. O barulho levou bastante tempo para ser
amortecido pelas paredes do recinto.
O’Keefe
foi-se levantando e fitou os três vultos imóveis.
— Que
patife! — disse numa fúria impotente.
Tiff
compreendeu. Os três estiveram deitados dentro do campo de atuação
do foguete. E, qualquer foguete do Império usava fluxos de
partículas altamente aceleradas para decolar.
— Esses
coitados devem ter tanta radiatividade como um pedaço de chumbo que
ficou dois anos dentro de um reator — murmurou O’Keefe.
Caminharam
para lá; foram tranqüilamente, pois já não valia a pena ganhar
tempo. Os três deuses pareciam dormir. Fecharam os olhos no momento
em que desmaiaram. Ao vê-los assim, ninguém desconfiaria de que
estavam tão impregnados de radiatividade.
O’Keefe
e Halligan colocaram-nos de costas.
Eram os
antigos acompanhantes de Nathan: os três honos que haviam mostrado
ao major Chaney o caminho da aldeia abandonada.
De repente
houve um movimento junto à entrada. Tiff ergueu-se abruptamente.
— O que
houve?
— Não
se preocupe — tranqüilizou-o Halligan. — É apenas o chefe.
O primeiro
grupo de cinqüenta homens do contingente de Perry Rhodan
precipitou-se para o interior do recinto. O próprio Rhodan ia na
frente.
7
Levaram
dez dias para revistar a base subterrânea. Depois disso, tiveram
certeza de que em Honur já não havia deuses.
A pequena
nave-foguete fora localizada pela Ganymed. Depois de expedir três
mensagens, que não produziram qualquer resultado, foi derrubada. O
único tripulante não resistiu à queda.
Devia-se
supor que fosse Nathan.
O exame
revelou que a base subterrânea servia principalmente para a produção
de argonina. Em três enormes abóbadas de pedra os nonus eram
criados em condições artificiais, que imitavam nos menores detalhes
o ambiente real. O capim com que se alimentavam estava devidamente
preparado. Digerindo o mesmo, os ursinhos produziam o terrível
veneno.
Havia
instalações nas quais se podia extrair em poucas horas as sobras de
veneno de centenas de milhares de nonus, que eram acondicionadas em
ampolas. O funcionamento de tudo aquilo era inteiramente automático.
Quatro homens bastavam para vigiar a base.
Esses
quatro homens estavam mortos. Não revelariam a ninguém os motivos
pelos quais faziam esse jogo, às vezes tão grotesco, feito de
confusão e fraude.
A única
coisa que se podia fazer era formular teoria. A teoria de Rhodan era
a seguinte:
— Apesar
destas gigantescas instalações tinham medo de nós. Deviam fazer o
possível para neutralizar os tripulantes da Titan, passo a passo.
Forçaram três Gazelas ao pouso e levaram o grupo dos Câmbios para
o lugar em que queriam vê-los e onde os destruiriam
“Antes
disso haviam evacuado os verdadeiros honos. Durante a evacuação
daquela aldeia, fizeram questão de deixar uma pista bastante
visível, que poderiam apontar aos nosso homens.
“Encontramos
o veículo de esteira. É articulado e tem cerca de seis metros de
comprimento. Os habitantes da aldeia — que são uns vinte — mal e
mal conseguem acomodar-se no veículo. Se revistássemos outras
aldeias e mantivéssemos os olhos bem abertos, encontraríamos pistas
iguais a esta. Provavelmente não seriam tão nítidas.
“Pois
bem. Os deuses tentam destruir o grupo do major Chaney por meio de um
ataque de mosquitos robotizados. Não conseguiram, porque Chaney se
cuidou bastante. Por isso, guiaram seu grupo de Câmbios e aplacaram
sua desconfiança. Levaram o grupo ao vale e lançaram os mosquitos
ao ataque, isso num momento em que Chaney quase nem acreditava mais
na existência de inimigos. O fato de eles mesmos terem escapado em
tempo constitui indício de duas coisas:
“Primeiro,
eles mesmos também são sensíveis à argonina; depois, aqui em
Honur não dispõem do antídoto.
“Se não
fosse assim, não teriam provocado desconfiança, fugindo
precipitadamente.
“Seja
como for, foi neste ponto que começou a ser executado nosso plano
específico. Além de outras possibilidades, também contava com esta
e ministrei as instruções necessárias ao tenente Tifflor. O fato
de que ele e mais dois sargentos escaparam sãos e salvos representa
um acaso extremamente feliz.
“Os três
penetraram nesta base. Já conhecem a história. O que surpreende é
somente o fato de lhes ter sido tão fácil chegar aos próprios
deuses. Na minha opinião, isso aconteceu porque os deuses ainda não
conhecem os padrões pelos quais devemos ser avaliados. Como fossem
apenas três homens, confiavam tanto em sua superioridade técnica,
que quase não se preocuparam, especialmente depois que os três
haviam sido paralisados por meio do choque nervoso.
“Esse
erro foi nossa salvação. No momento em que Tifflor e os dois
sargentos destruíram os restos de seu exército de robôs, antes que
tivessem tempo para ativar os mesmos, perderam o controle e fugiram.
Conseguimos impedir a fuga de três deles. Numa coerência fria, o
quarto os matou, para que não pudessem revelar-nos nada.
“É só.
Acho que minhas suposições não ficam longe da verdade”.
Os
ouvintes mantiveram-se em silêncio. Depois de algum tempo, Tiff fez
um sinal e disse:
— Gostaria
que o senhor nos explicasse por que em Honur existem dois tipos de
habitantes que diferem tão radicalmente entre si: os seres
intoxicados pela argonina e os quatro com que acabamos de lidar.
Rhodan
sorriu e deu uma pancadinha na testa.
— Ah,
sim. Ainda bem que o senhor lembrou este detalhe — subitamente sua
voz assumiu uma seriedade ameaçadora. — Tenente Tifflor, vejo-me
obrigado a repreendê-lo.
Tiff
assustou-se. Rhodan tranqüilizou-o com um gesto.
— A
coisa não é tão grave. Se o senhor tivesse percebido, isso não
teria alterado coisa alguma. Tenente Tifflor, qual é a cor da pele
dos honos?
Tiff
refletiu.
— Marrom-avermelhada
— respondeu.
— E dos
quatro deuses com que esteve em contato?
Uma luz
nasceu no espírito de Tiff.
— São
incolores. Pertencem a um tipo albino.
— Todos
os quatro?
— Sim
senhor. Todos os quatro.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Isso
lhe devia ter dado que pensar, não é? Um albino não é nada de
extraordinário, mas logo quatro, e em condições tão suspeitas.
Isso levaria qualquer um a pensar um pouco...
Fez uma
ligeira pausa. Tiff sabia o que viria em seguida.
— Os
deuses não são nonos. Não nasceram neste planeta. Pertencem a
outra raça. Nosso amigo Crest examinou o cadáver do deus que se
encontrava a bordo da nave derrubada pela Ganymed, e com isso
voltaram à sua memória certas informações que nos teriam sido
muito úteis se as tivéssemos recebido antes.
“Existe
uma variante da raça dos saltadores, os aras, com os quais já nos
defrontamos. Seus contatos com a raça de mercadores são raríssimos.
Vivem sua própria vida.
“A
natureza os dotou com um talento especial no terreno bioquímico. Não
existe nenhuma doença na Galáxia que os aras não conheçam e
saibam curar. E existem mais algumas que eles mesmos inventaram, e de
que lançam mão sempre que acham que isso se torna necessário. É
que, conforme diz Crest, não se deixam perturbar por qualquer
espécie de escrúpulos.
“Os aras
são os maiores industriais de medicamentos de que a Galáxia tem
conhecimento. Noventa e cinco por cento dos remédios consumidos na
Via Láctea são produzidos por eles.
“E
noventa e cinco por cento de todos os tóxicos!
“São
estes os aras, tenente Tifflor. Não são honos, conforme acreditava.
Todavia, não posso deixar de reconhecer que a idéia de enquadrá-los
em outra raça não podia ocorrer imediatamente. O formato de seu
corpo é quase idêntico ao dos honos.”
Virou-se,
olhou para o teto, como se refletisse sobre alguma coisa e, olhando
para as telas, prosseguiu:
— Querem
saber qual será nosso próximo passo. Pois eu lhes direi — voltou
a virar-se para a platéia. — Devemos descobrir tudo que o Império
Arcônida sabe a respeito dos aras. Devemos visitar os aras, ou
atacá-los, se preferirem, para que fiquem cientes de que serão
obrigados a deixar-nos em paz. Temos uma tarefa difícil para
cumprir, e por isso não podemos tolerar que ninguém nos perturbe
pelas costas.
“Para
obter as informações de que precisamos, teremos que dirigir-nos ao
cérebro positrônico central de Árcon. Agora que nossas naves estão
equipadas com compensadores estruturais e não precisamos recear mais
que o cérebro positrônico constate e localize todas as etapas de
nosso vôo, a viagem não nos deverá causar qualquer preocupação.
“De
qualquer maneira, teremos de cuidar-nos. Todavia, as informações
que deveremos obter compensam amplamente o esforço de ficarmos com
os olhos e ouvidos abertos.”
Os
dezenove doentes que a missão Honur custara a Rhodan foram abrigados
juntamente com os outros setecentos.
A base dos
traficantes foi inutilizada de tal forma que nem dali a uma
eternidade poderia servir novamente à produção de argonina.
Os quatro
aras mortos foram sepultados na margem do lago. Rhodan não seria
capaz de recusar esta última homenagem; ao mais traiçoeiro dos seus
inimigos.
Com os
homens ainda sadios, que pertenceram ao grupo de Chaney, foi formado
um novo destacamento, comandado pelo tenente Hathome. O sargento
Halligan também foi incorporado a este destacamento. Depois de
arrumar suas coisas e despedir-se de Tiff, disse:
— Sinto
ter que deixá-lo. Bem que gostaria de pedir ao estado-maior que me
deixasse com o senhor, mas..
— Mas...?
Halligan
fez um gesto de contrariedade.
— Pois
bem. Só há um motivo pelo qual não fiquei. Não suporto estar
perto desse O’Keefe. Às vezes sabe ser bem bacana, mas geralmente
é insuportável.
Tiff riu.
Mas O’Keefe, que estava elaborando um relatório no fundo da sala,
ficou de pé com um salto e, furioso, gritou:
— Trate
de dar o fora, senão ainda me verei obrigado a dar-lhe uma surra.
Halligan
colocou sua bagagem no chão e ergueu os punhos.
— Silêncio!
— gritou a voz retumbante de Tiff. — Sargento O’Keefe, chamo
sua atenção para o fato de que o sargento Halligan é um hóspede
que se despede de nós. Faço questão que adapte seu comportamento a
esta circunstância.
O’Keefe
estacou. Subitamente começou a rir.
— Nunca
mais esse sujeito encontrará um bobo como este — fungou. —
Ninguém será trouxa para aceitar um cara destes como hóspede.
Halligan
voltou a segurar sua bagagem e, depois de despedir-se de Tiff segundo
as regras militares, saiu em postura orgulhosa.
*
* *
*
*
*
Perry
Rhodan sente-se desesperado. A nova missão em Honur revelou a
identidade dos causadores da peste dos nonus, mas não lhes
proporcionou o precioso soro que cura a doença artificial.
Será
que o cérebro positrônico que governa Árcon conhece o antídoto?
Perry
Rhodan espera que sim. Entra em contato com o robô, mas apenas para
receber outra missão, à qual não pode fugir.
Perry
Rhodan em O Homem e o Monstro irá viver lances de inimaginável
emoção!

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