quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-043 - Cuidado com os Microrobôs - Kurt Mahr [parte 3]


No mesmo instante, a velocidade da fita reduziu-se.
Mantenha-se de prontidão, Halligan — advertiu Tiff.
Por enquanto não havia motivo para preocupações. A fita desembocava num recinto circular que tinha trinta metros de diâmetro e dois de altura. Com alguns lances de olho, Tiff avaliou a situação. A fita corria em direção a um disco situado no meio do recinto. Os três homens foram empurrados para a superfície da sala circular, sem que sentissem qualquer alteração. A velocidade já fora reduzida à de pedestre.
Uma vez em cima do disco, os três homens não tiveram tempo para refletir. Mal Tiff, o último do grupo, acabara de ser colocado em cima do disco. Este começou a girar. Tiff viu emendas finíssimas no chão, que partiam do disco em forma de raios circulares. Logo compreendeu a situação. O disco continuou a girar até o momento em que o sargento Halligan, que continuava com o desintegrador apontado para baixo, se viu colocado entre duas das emendas. O chão sob seus pés voltou a mover-se, retirando Halligan de cima do disco e transportando-o em velocidade cada vez mais para a parede do recinto.
As emendas paralelas eram apenas as extremidades de outras fitas transportadoras, mais estreitas. No lugar em que atingiriam a parede, provavelmente se abriria uma porta invisível.
O disco continuou a girar e colocou O’Keefe, que se sentia apavorado, em cima de outra fita, que formava um ângulo de cerca de quarenta graus com aquela que carregara Halligan. Tiff não tinha a menor intenção de dispersar seu grupo, já pequeno, apenas para fazer a vontade de uma série de fitas e discos giratórios. Gritou:
Saltem!
Ao contrário do corredor pelo qual vieram, aqui não havia nenhum problema em executar uma ordem destas.
Halligan e O’Keefe deram um passo para o lado e pisaram no chão firme e imóvel do recinto. As fitas rolantes continuaram a correr mais um tempo, emitindo um ligeiro zumbido, e finalmente entraram em repouso.
Tiff também saltou do disco. O’Keefe dirigiu a luz do holofote para o alto e dispersou-a de tal forma que todo o recinto foi iluminado.
Halligan e Tiff saltaram por cima de várias fitas, para colocar-se junto a O’Keefe. Soltando um suspiro, Halligan voltou a pendurar o desintegrador por cima do ombro. Não havia mais nenhuma fita que pudesse cortar.
Evidentemente isto é uma área de distribuição — disse Tiff. — Qualquer coisa vinda de fora é classificada pelo disco e colocada na fita adequada. Apenas, gostaria de saber como fazem para identificar a fita em que cada pessoa deve ser colocada.
Tiff examinou as fitas que saíam do disco central, conduzindo a dezoito direções diferentes. Uma era igual à outra. Não encontrou o menor sinal que lhe pudesse indicar qual delas o levaria ao lugar em que pudesse desvendar mais profundamente os mistérios dessa instalação subterrânea.
Tiff escolheu ao acaso.
Vamos tomar esta!
Mandou que Halligan e O’Keefe pisassem na fita e esperou. Aconteceu exatamente aquilo que esperava. A fita começou a movimentar-se assim que registrou o peso dos dois homens.
Na parede também aconteceu aquilo que Tiff previra. Quando Halligan, que ia na ponta, se encontrava a cinco metros, um pedaço deslizou para o lado, deixando passar a fita com os três passageiros.
Mas Tiff não poderia ter previsto o que aconteceu depois. O’Keefe segurava o farol na horizontal, mas este apenas iluminava o teto. Evidentemente a fita descia num ângulo cada vez mais pronunciado. Halligan foi dominado pelo pânico. Começou a gritar:
Socorro! Estamos caindo!
Tiff agachou-se em cima da fita e procurou agarrá-la com as mãos, para encontrar um apoio. Mas antes que conseguisse fazê-lo a fita passou a deslocar-se na vertical, mas a queda que Halligan tanto temia transformou-se num suave deslizar. A estranha sensação de tração provocada pelo campo de gravitação artificial era inconfundível. O’Keefe logo recuperou o autocontrole e iluminou o poço pelo qual estavam descendo.
Era um elevador antigravitacional.
Depois de algum tempo, Tiff mandou que O’Keefe desligasse o farol. Quando os olhos se acostumaram à escuridão, Tiff viu uma luz que brilhava mais embaixo. Não enxergou os contornos nítidos da fonte luminosa, mas apenas uma vaga luminosidade.
Desceram durante duas horas e, pelos cálculos de Tiff, deviam ter vencido uma diferença de altitude de oito a dez quilômetros.
O poço terminou no lugar exato em que Tiff vira a luminosidade. A abertura, que deixava entrar a luz, era um portão em semicírculo de cerca de três metros de altura, e a luz provinha da luminária colocada no alto da imensa abóbada de pedra.
A abóbada era circular e pelos cálculos de Tiff devia ter uns trinta quilômetros de diâmetro.
O solo estava coberto de capim. A gigantesca lâmpada colocada no zênite imitava, ao que parecia de forma perfeita, as radiações do sol Thatrel, em torno do qual gravitava o planeta Honur. A área coberta de grama era dividida por cercas em lotes quase ou perfeitamente quadrados de vinte metros de lado. Os lotes formavam longas fileiras, e entre duas dessas fileiras sempre havia um caminho livre cuja largura não era superior a um metro e meio.
Atrás das cercas, os nonus faziam sua algazarra. Em cada lote, havia trinta desses animais. Pedras e pedaços de galhos estavam espalhados pelas cercas, para que pudessem construir seus ninhos. Ao que tudo indicava, sentiam-se muito bem nesse mundo artificial subterrâneo. Seus balbucios, chiados e assobios enchiam a imensa abóbada com um barulho infernal.
Não havia dúvida de que o fedor que passava pelos filtros dos capacetes de Tiff e seus companheiros também provinha desses animais.
Havia mais uma coisa que chamava a atenção. Pelos caminhos que se abriam entre as fileiras de lotes, honos esbeltos passeavam orgulhosamente em suas roupas coloridas.
Por um bom tempo, Tiff e os dois sargentos ficaram duros de espanto. Halligan foi o primeiro a recuperar a fala.
Os impulsos sobrepostos! — disse com um gemido. — Que idiotas fomos!
Tiff virou a cabeça.
O que houve?
Halligan explicou.
Pouco antes de sermos derrubados, as telas oscilográficas das nossas sondas de radar registraram dois impulsos sobrepostos — disse. — Parecia que o aparelho estava defeituoso, ou que o planeta Honur tivesse um solo duplo. Pois vejam, realmente tem um solo duplo.
Tiff não respondeu; parecia pensativo. Conhecia o equipamento técnico das naves de reconhecimento de grande alcance do tipo Gazela. Sabia que, além dos registradores, possuíam também transmissores automáticos, através dos quais as informações colhidas eram decodificadas ininterruptamente na nave capitania Titan.
Perry Rhodan estava a par das medições realizadas pelas sondas de radar das Gazelas. Sabia que as três registraram simultaneamente o mesmo reflexo, e por isso, ao contrário de Dee e Halligan, nunca acreditaria que se tratasse de um defeito dos aparelhos.
Tiff resolveu eliminar o relatório sobre a abóbada subterrânea da lista das coisas sobre as quais Rhodan devia ser informado pouco antes do momento X. Este momento era aquele em que seria desfechado o ataque. Rhodan já sabia de que forma o inimigo instalara sua base em Honur.
Tiff recordou a palestra mantida com Nathan, o hono, no acampamento montado junto ao regato.
Entre os purificados corre uma lenda segundo a qual os deuses vivem embaixo da superfície...
Nathan sabia. A alusão à lenda serviria para enganar seu interlocutor. Por que falara sobre isso? Tinha tanta certeza de que ninguém escaparia ao ataque que os mosquitos desencadeariam no interior do vale? Acreditaria que ninguém poderia fazer uso dessa informação?
O’Keefe arrastou Tiff de volta à realidade.
Devíamos agarrar um desses honos e interrogá-lo — sugeriu. — Talvez saiba alguma coisa. Aliás, como será que veio parar aqui?
Um dos honos, que caminhava entre os lotes enfileirados, aproximara-se até chegar a dez metros do portão que se abria em semicírculo. Já vira os três vultos empapuçados, mas estes só despertaram seu interesse por um breve momento.
Tiff lembrou-se. Era assim que os honos se tinham comportado por ocasião do primeiro pouso da Titan. Estes pareciam ser genuínos, ao contrário de Nathan e seus companheiros.
Venham comigo! — ordenou Tiff.
O hono acabara de atingir o fim do seu caminho e voltava-se tranqüilamente para percorrer o mesmo trajeto. Com alguns passos, Tiff e seus companheiros colocaram-se ao seu lado. Tiff regulou o alto-falante externo para o volume máximo.
Um instante, por favor — disse, gritando atrás do hono.
O hono parou e virou-se. Lançou um olhar de tédio para os desconhecidos.
O que está fazendo? — perguntou Tiff.
Com um gesto, apontou tranqüilamente para os lados.
Estou cuidando dos nonus, para que nada lhes aconteça.
São seus?
Não, pertencem aos deuses.
O que é que os deuses fazem com eles?
Esta pergunta provocou o primeiro sinal de uma reação nervosa no hono.
Como pode fazer uma pergunta dessas? Acha que os deuses lhe devem prestar contas do que fazem?
Tiff contemporizou.
É claro que não. Onde é que se pode encontrar os deuses?
O hono, entediado, fez um gesto de quem não sabia.
Quem sou eu, para esperar que os deuses contassem justamente a mim onde vivem? — perguntou.
Já viu algum dos deuses? — prosseguiu Tiff no seu interrogatório.
O hono confirmou com um gesto das mãos.
Já vi dois. Foram muito gentis.
Quando foi isso?
Não sei.
Tiff refletiu sobre as perguntas que ainda poderia formular.
Subitamente um novo ruído fez-se ouvir entre os gritos de alegria dos nonus. Era um zumbido agudo e monótono, misturado com um rugido abafado. Halligan girou sobre os calcanhares para identificar a origem do ruído. Sua voz atropelou-se de susto quando exclamou:
Olhem! Estão chegando!
Tiff virou-se abruptamente. Um cacho reluzente zumbia e se contorcia, ocupando todo o espaço que ia da parte superior do semicírculo até o solo. Parecia um gigantesco enxame de abelhas.
Pelos cálculos de Tiff, deviam ser cerca de cinco mil mosquitos robotizados que se comportavam tal qual seus equivalentes orgânicos. E, ao que tudo indicava, aguardavam o comando positrônico para lançar-se ao ataque.
Cuidado! — fungou Tiff. — Preparem as armas. A coisa está ficando séria. Fomos descobertos.
Mal acabara de proferir estas palavras quando a nuvem se desmanchou. Zumbindo e brilhando como pequenos projetis metálicos, os mosquitos mecânicos saíram voando em todas as direções.
Tiff mandou que Halligan regulasse o desintegrador para um raio em ângulo bem aberto e procedeu da mesma forma. Colocaram-se ombro a ombro, de tal forma que os canos de suas armas formavam uma estrela regular de três pontas. Metade do ângulo perigoso estava coberta pelos dois desintegradores. Os mosquitos robotizados que penetrassem nessa área estariam perdidos.
6



Perry Rhodan reconheceu que poucas vezes conhecera horas tão desagradáveis como estas. Continuava a confiar naquilo em que acreditava, isto é, que o tenente Tifflor e dois outros homens conseguiram escapar à euforia geral e seguiam a pista do inimigo.
Mas a falta de notícias desgastava seus nervos.
As horas se passavam, enfileirando-se em dias.
Não recebeu nenhuma notícia de Tifflor.
Rhodan começou a contar com a possibilidade de que Tiff e seus companheiros houvessem caído nas mãos do inimigo. Nestas condições, a Titan teria de intervir. Era bem verdade que ninguém tinha a menor idéia de onde deveria intervir, ou contra quem. Acontece que, por razões de ordem tática, Rhodan via-se forçado a ficar com as costas livres enquanto desenvolvia sua ação no círculo mais estreito do setor espacial submetido ao Império Arcônida; por isso, falta de informações provavelmente significava que pouca coisa sobraria de Honur.
Com certa amargura, Rhodan deu-se conta de que estava prestes a incorporar à sua mente uma lei de guerra, antiga e desumana, seguida pelos saltadores: se você não conseguir localizar a base que o inimigo tiver instalado num certo mundo, destrua todo esse mundo.
Não poderia deixar de agir dessa forma, a não ser que quisesse pôr em perigo êxito de sua missão e, portanto, a própria Terra.
Mas ainda hesitava, alimentando-se com o restinho de esperança que ainda mantinha na missão do grupo de Tifflor.

* * *

Tiff levou apenas alguns segundos para perceber que não conseguiriam manter-se por muito tempo naquela área desprotegida. Os mosquitos robotizados não se incomodaram com as cercas. Pareciam ter excelentes órgãos de localização, pois passavam entre as frestas como se estivessem voando num espaço aberto.
Os desintegradores os consumiam às dezenas e centenas. Nuvens de poeira metálica atravessavam o ar.
O’Keefe disparava ao acaso, para cima, para baixo e para a frente. A dez metros dele, o chão começara a ferver.
Foi justamente o calor espalhado por O’Keefe que proporcionou aos três homens uma pausa para respirar. Com um ligeiro olhar, Tiff percebeu que os mosquitos não conseguiam compensar os efeitos do calor com a necessária rapidez. As vagas de ar quente atiravam-nos para o alto, fazendo com que passassem alguns metros acima das cabeças das vítimas em perspectivas. Tiff deu as instruções. — Vamos recuar até a parede mais próxima, rapazes — gritou. — Precisamos ficar com as costas protegidas. O’Keefe, dispare apenas contra o chão.
O’Keefe não sabia o que estava havendo, mas cumpriu a ordem que acabara de receber. Baixou o cano da arma e descreveu círculos incandescentes em torno dos pontos em que se encontrava. Os mosquitos, que se tinham aproximado a menos de metro e meio, desapareceram instantaneamente. Passando a uns cinco metros acima das cabeças que pretendiam atacar, não poderiam causar nenhum prejuízo.
Corram! — gritou Tiff. — Vamos até a parede.
Halligan foi o primeiro que saiu correndo. Tiff seguiu-o, enquanto O’Keefe cobria a retirada, disparando incessantemente. Queimava o capim e transformava pedaço por pedaço do solo em massas de lavas incandescentes.
Os mosquitos estavam desorientados. Ao que parecia, a direção positrônica ainda não compreendera o que estava acontecendo.
Tiff sentiu-se mais tranqüilo quando suas costas tocaram a parede lisa da abóbada de rocha. Halligan, que se encontrava a seu lado, com as pernas bem afastadas, derrubava os mosquitos tangidos para o alto quando se colocassem ao alcance do raio de desintegração.
Tiff começou a acreditar que a defesa por meio do ar aquecido, criada por O’Keefe, lhes daria uma chance real de superar o ataque. Já deviam ter destruído ao menos dois mil dos cinco mil mosquitos que, segundo seus cálculos, participaram do início do ataque.
Mas no momento em que O’Keefe atingiu a parede protetora, o dispositivo positrônico pareceu compreender por que os mosquitos sempre passavam longe do alvo. Tiff viu uma nuvem aproximar-se; descrevia uma trajetória quase vertical, que em condições normais eliminaria todo e qualquer risco que a mesma poderia representar. Mas o ar aquecido retificou o rumo, fazendo com que se deslocassem na direção exata do alvo. No último instante, Halligan baixou o cano do desintegrador e conseguiu rechaçar o perigo.
O’Keefe, aponte para cima! — ordenou Tiff.
O enxame que se seguiu, regulado por via positrônica para o novo rumo, disparou para o solo a uns cinco metros da parede. Acabou ficando preso pelos ferrões, já que, com a mudança de pontaria realizada por O’Keefe, o fluxo de ar aquecido se tornara menos intenso.
Mas do terceiro ataque em diante o cérebro positrônico não se deixou enganar. Mandou que os mosquitos descessem quase na vertical e retificava o rumo por sua própria iniciativa sempre que faltasse o ar aquecido. Tiff ouviu os seres metálicos baterem ruidosamente na parede, depois de terem vencido a barreira criada pelas armas térmicas e desintegradoras. Sentiu uma forte pancada na perna. Mas, por enquanto, não teve a sensação de que a vida se tornara mais encantadora.
Escapara bem; O’Keefe e Halligan continuavam a disparar obstinadamente. Porém Tiff sabia que seria apenas uma questão de segundos, e, um atrás do outro, os mosquitos atingiriam o alvo.
No intervalo entre os dois ataques, O’Keefe deslocou-se para o lado, a fim de conseguir um ângulo de tiro mais favorável para sua arma térmica. Num gesto instintivo, Tiff olhou para o lado.
Mais tarde, ninguém saberia dizer o que aconteceu. Talvez O’Keefe teria tocado num contacto oculto, ou então a porta se abria automaticamente sempre que alguém se aproximava dele. O certo é que, de súbito, surgiu atrás de O’Keefe uma abertura, não percebida pelo próprio sargento.
Tiff chamou a atenção de O’Keefe. Este virou-se ligeiro e descobriu a abertura. Soltou um grito de júbilo que superava até mesmo o barulho provocado pelos nonus apavorados.
Tiff deu uma pancadinha em Halligan.
Dê o fora.
Apenas tiveram que dar alguns saltos. O comando positrônico estava adaptado ao ar quente. Mas levou alguns segundos para absorver o dado novo, isto é, a fuga das vítimas.
Atingiram a abertura. O’Keefe foi o primeiro a desaparecer nela. Halligan correu atrás dele, e Tiff formou a retaguarda. A porta logo se fechou atrás deles. Por enquanto estavam livres da preocupação com os mosquitos robotizados.
A porta formava o início de um longo corredor bem iluminado, que penetrava obliquamente na rocha.
Tiff hesitou. Teria chegado a hora de transmitir a Rhodan o sinal de ataque? Já conheciam os segredos da base subterrânea o bastante para que os tripulantes da Titan não corressem qualquer risco?
A resposta foi um não. Além disso, Tiff deu-se conta de que o dispositivo positrônico não registrara o salto que os pusera a salvo. Isso queria dizer que não dispunha de uma informação segura sobre a posição em que as vítimas se encontravam naquele instante. E essa vantagem seria eliminada se expedisse uma mensagem cujo ponto de origem seria facilmente detectável por meio de um goniômetro.
Tomou sua decisão:
Vamos adiante!
Pôs-se a seguir os sargentos corredor afora.
Pelos seus cálculos, a passagem devia ter cerca de dois quilômetros e meio. Terminava numa sala de teto baixo, que estava completamente vazia e não apresentava o menor indício de finalidade que poderia preencher.
Haviam percorrido um total de quase quarenta quilômetros em sentido vertical e horizontal. Haviam visto a abóbada de pedra. Isso bastava para convencê-los de que sob o solo de Honur o inimigo não instalara uma simples base, mas um verdadeiro mundo artificial.
Nas últimas horas, o respeito de Tiff pela habilidade técnica do inimigo crescera consideravelmente.
Não perdeu tempo. Com Halligan e O’Keefe, pôs-se a apalpar as paredes do recinto retangular. A predileção do inimigo pelas portas colocadas em lugares nos quais conseguisse vê-las já não era segredo.
De início, parecia totalmente indiferente que o lugar da saída ficasse deste ou daquele lado do recinto. Mas de repente, Halligan, que se incumbira do exame da parede do lado esquerdo, estacou e exclamou com a voz abafada:
Estou ouvindo alguma coisa.
Tiff correu para seu lado. Teve de concentrar-se para perceber o que Halligan acabara de ouvir. Mas não poderia negar que um ruído atravessava a parede. Propagava-se pelas rochas e paredes maciças, acabando por transmitir-se ao ar rarefeito encerrado entre as paredes daquele recinto. Os microfones externos captaram um débil vestígio desse ruído, que de qualquer maneira não permitiria a menor dúvida sobre sua existência.
O ruído consistia num zumbido monótono que ocupava vários pontos da escala do som.
Em algum lugar, além dessa parede, funcionava uma potente aparelhagem. Seriam as instalações que forneciam o suprimento de ar do subterrâneo, os geradores de energia ou o cérebro positrônico?
Neste canto deve haver uma porta — disse Tiff com a voz tensa. — Tem que haver.
Não era uma afirmativa lógica; mas, por estranho que fosse, era verdadeira. Caminharam várias vezes junto à parede, e mais uma vez foi O’Keefe quem descobriu a posição real. De repente, um pedaço da parede deslizou para o lado, mostrando um corredor estreito que penetrava obliquamente na rocha.
No momento em que a porta se abriu, o zumbido tornou-se mais forte. O’Keefe hesitou e, sem dizer uma palavra, fez um gesto em direção ao corredor. Tiff confirmou com um aceno de cabeça.
Vamos andando!
Caminharam pela porta, e esta fechou-se automaticamente atrás deles, conforme acontecia geralmente com as portas desse mundo subterrâneo. Aquele corredor parecia ser muito mais curto que os outros. Mais à frente, uma profusão de luz ofuscava os olhos. Parecia vir de um enorme salão, cujos contornos não conseguiram reconhecer.
Tiff avançou apressadamente. Tinha certeza de que, no momento em que conseguissem pôr os olhos naquele recinto, teriam solucionado parte do mistério subterrâneo.
Não conservou uma lembrança nítida do que viria depois. A memória dos dois sargentos apresentou a mesma falha. Tiff ainda chegou a ver que as paredes do corredor recuavam, abrindo-se num recinto circular de grande diâmetro. Viu que o recinto estava atulhado com uma série de aparelhos, cuja finalidade lhe era desconhecida. O que mais lhe chamava a atenção era uma fileira de espelhos côncavos, que refletiam um brilho insuportável.
Saiu de vez do corredor, e foi atingido por um golpe terrível, vindo não se sabe de onde, que o deixou inconsciente.

* * *

Perry Rhodan sabia que cada segundo que perdesse aumentaria o perigo.
Colocou a Titan em estado de rigorosa prontidão e em palavras rápidas informou os oficiais sobre as providências que teriam de tomar.
Naturalmente procuraremos localizar a base do inimigo, para poupar o resto do planeta — concluiu. — Mas nossas chances são bastante reduzidas. Faço questão de frisar que, se isso não acontecer, seremos obrigados a destruir todo o planeta de Honur. É que nos encontramos diante de uma alternativa: a Terra ou Honur. Acho que nenhum dos senhores hesitará em responder.
A Titan tinha uma tripulação atual de cerca de oitocentos homens. Rhodan mandou que quinhentos deles participassem da ação de grande envergadura que havia sido planejada. Os que ficaram para trás estariam em condições de guarnecer a artilharia da nave se houvesse um ataque.
A Ganymed, que continuava a descrever uma órbita em torno de Honur, foi colocada em estado de prontidão simples. O coronel Freyt foi avisado que a qualquer momento se tornaria necessário o pouso de sua nave.
Os preparativos para o grande golpe a ser desferido contra o inimigo foram executados a toda pressa. Rhodan já mandara fazer com antecedência as coisas mais importantes, embora ninguém soubesse para que poderiam servir.
Tudo se passou rápido. Quando o oficial de rádio da Titan captou em seu receptor eletromagnético uma série de sons e sinais que não faziam o menor sentido, Rhodan já estava prestes a sair com seu grupo de combate de quinhentos homens.
Perry foi avisado, e adiou a saída do grupo. Por enquanto ninguém sabia o que fazer com aquela mensagem: mas Rhodan não desistiu.
Fez bem. Os sons mal articulados coordenaram-se em palavras. Rhodan não reconheceu a voz, mas tinha certeza de que não era de Tifflor. Falava em inglês, e esse fato eliminou quase todas as dúvidas de Rhodan.
... o vale... entrada da encosta nordeste... instalações subterrâneas... cuidado com os mosquitos robotizados... cinco centímetros de comprimento, mais ou menos do formato de uma libélula... são os portadores da argonina... preparar redes de malha estreita...
Após essas palavras as forças do interlocutor pareciam esgotadas. Por algum tempo ouviu-se apenas o chiado do receptor.
A mesma voz voltou a falar e repetiu o que já disse. Rhodan percebeu que não obteria informações e transmitiu as instruções necessárias à equipe técnica.
Levar redes; até então ninguém se lembrara disso.

* * *

Tiff acordou ao som monótono de uma voz que falava com ele.
Falava mesmo?
Procurou identificar a voz na penumbra da semi-inconsciência. Não a identificou, mas compreendeu as palavras.
Abriu os olhos e viu-se envolto pela penumbra. Procurou mover a cabeça e olhar em torno, mas esta permanecia imóvel. Esforçou-se para levantar o braço ou deslocar a perna para o lado, mas não conseguiu.
Estava preso. Preso por um processo de paralisia de seu cérebro.
Apesar de tudo, compreendeu a voz:
...então vocês pensavam que poderiam desafiar os deuses. Sabem perfeitamente que diante dos deuses poderosos não passam de vermes miseráveis. Eles seguiram seu caminho e aprisionaram vocês no momento que julgaram adequado. Vocês ficarão aqui mesmo. Passarão o resto da vida servindo aos deuses.
A voz calou-se. À medida que recuperava a consciência, Tiff deu-se conta de que na verdade não ouvira nenhuma voz, mas captara uma mensagem telepática.
Foi por isso que não conseguiu identificar a língua. A mensagem não era formada por palavras, mas por impulsos mentais que não estavam sujeitos às limitações da linguagem falada.
Tiff procurou recordar. Havia aquele corredor curto e oblíquo, o recinto cheio de aparelhos, a série de espelhos côncavos e a terrível pancada.
Tiff lembrou-se que fora atingido por uma pancada semelhante, mas menos violenta, quando naquela noite seguira os nonos no interior do vale, alcançando-os pouco antes do paredão.
O que seria? Uma arma paralisante?
Não seria de estranhar que um inimigo capaz de produzir um veneno potente como a argonina estivesse em condições de produzir armas que atingissem os nervos.
Então é este o motivo da paralisia” constatou Tiff. “A única coisa que consigo mover são as pálpebras.”
Examinou o recinto em que se encontrava, ou melhor, o setor que podia abranger com a vista na posição em que se achava. Não era muita coisa. De qualquer maneira, Tiff percebeu que se encontrava num cubículo de teto baixo. Não podia ver se o cubículo continuava atrás dele. Tiff viu outra coisa que o assustou bastante. Eram três espelhos côncavos muito brilhantes, pendurados no lugar em que a parede se encontrava com o teto, bem diante dele. A inclinação do espelho estava regulada de tal forma que um deles projetava seus reflexos diretamente no rosto de Tiff.
Tiff demorou algum tempo para compreender o que isso significava. O choque instantâneo produzido pelas radiações refletidas pelos espelhos côncavos reunidos no grande recinto não era suficiente. Para controlar seus prisioneiros, os deuses teriam que submeter os nervos dos cativos a uma influência ininterrupta.
Basta arrebentar aquele espelho”, pensou Tiff, “e tudo estará em ordem.”
Acontece que não conseguia sequer mover a cabeça, quanto menos levantar-se para transformar seu pensamento em realidade.
Três espelhos”, pensou Tiff, “isso quer dizer...”
Fez mais um esforço para mover a cabeça, mas ainda desta vez não o conseguiu.
Halligan e O’Keefe deviam estar por ali, pois de outra forma não se poderia explicar a presença dos três espelhos. Ou será que havia outros recintos como este, e os deuses haviam colocado os prisioneiros em cubículos distintos?
Tiff ficou quebrando a cabeça, e acabou dando uma resposta muito estranha à pergunta. O receptor do capacete emitiu um ruído que parecia o de uma serra. Esse ruído foi seguido por um assobio agudo, e finalmente ouviu alguma coisa que parecia um “”...
Finalmente alguém disse, devagar e desajeitadamente:
Te... tenente...
Tiff quis responder, mas a língua, o queixo e as cordas vocais seguiram o exemplo dos outros músculos: não obedeceram. Continuou mudo.
Te..te..nente... — voltou a soar a voz, um pouco mais fluente.
Era a voz de O’Keefe; não havia a menor dúvida.
Não sabia como, mas O’Keefe parecia conhecer a situação em que Tiff se encontrava. Disse o seguinte:
Te... tenente... sei o que está sentindo. Es... estou um pouquinho melhor. No último instante consegui atirar contra esses malditos espelhos... Não sofri um choque tão pesado. Ainda consigo mexer-me.
Esse O’Keefe é formidável”, pensou Tiff. “Se consegue mexer-se, por que não se levanta e quebra os espelhos?
A fala de O’Keefe tornou-se mais fluente.
Esses malditos deuses nos prenderam aqui. As armas, o transmissor, tudo está ali. Acham que não somos capazes de mais nada; acreditam que estamos paralisados. Posso ver seu rosto. Quer que arrebente esse espelho a tiro? Se quiser, feche os olhos duas vezes. Ou será que não consegue mexer as pálpebras?
O’Keefe, seu cara de cachorro”, pensou Tiff entusiasmado. Fechou os olhos duas vezes.
Está bem — suspirou O’Keefe. — Compreendi.
Tiff ouviu vários ruídos. Acreditou que ouvia O’Keefe virar-se de lado e estender lentamente o braço para alguma coisa que se encontrava bem longe. Gemia sem parar e resmungou palavras zangadas. Finalmente disse:
Ai...oh... já consegui. Daqui a pouco... Um instante.
Bem no canto direito do campo de visão muito restrito de Tiff surgiu a parte anterior do cano de um radiador de impulsos térmicos. Tiff cerrou os olhos. O’Keefe voltou a gemer, como se o movimento de apertar o gatilho exigisse um tremendo esforço. Finalmente disparou.
Num instante, uma luminosidade ofuscante devorou os três espelhos. O metal liquefeito e fumegante pingou do teto e espalhou-se pelo soalho.
O aparelho de condicionamento de ar do traje de Tiff ligou-se com um clic. Tiff sentiu-se aliviado de uma pressão indefinível, a partir do momento em que os espelhos desapareceram. Mas quando procurou mover o corpo, ainda não o conseguiu.
O’Keefe já conhecia esse tipo de preocupação.
Não acredite que de uma hora para outra tudo estará em ordem. Vai levar algum tempo.
Ele mesmo teve a idéia de que a primeira providência que deveriam tomar seria avisar a Titan. Tiff sentiu-se feliz quando percebeu que, gemendo e se lamentando, O’Keefe se arrastou em direção ao transmissor e emitiu a mensagem quase mal articulada que Rhodan recebeu no último instante.
Após isso, O’Keefe voltou e, conforme informou, deitou na cova para a qual estavam dirigidos os reflexos de um dos espelhos.
Tiff sabia o que aconteceria em seguida. Por isso fez o que estava ao seu alcance para que os nervos recuperassem a capacidade de ação.
Por alguns minutos, concentrou todas as energias mentais no movimento do braço direito. Subitamente, num esforço explosivo, fez toda essa energia fluir sob a forma de comando:
Dobrar o braço direito.
O braço moveu-se. Não executou o movimento desejado por Tiff, mas moveu-se.
Tiff não esmoreceu. Dentro de mais algum tempo, conseguiu mover o braço direito pela forma que desejava. Com o braço esquerdo, o resultado foi mais rápido. Após isso treinou as pernas, e por fim a boca, língua e as cordas vocais.
Uma hora e meia depois de ter acordado, conseguiu proferir a primeira palavra. Foi a seguinte:
Bravos...!
Esta palavra fora dirigida a O’Keefe.
Levantou-se. Os movimentos causavam-lhe dores; se as cordas vocais estivessem em melhores condições, teria gritado. Passando junto ao corpo imóvel de Halligan, dirigiu-se ao lugar em que os deuses haviam guardado as armas de seus prisioneiros. Deviam estar convencidos de que estes nunca mais poderiam usá-las. Pegou o desintegrador.
O esforço foi tanto que teve de sentar-se assim que segurou a arma.
Ficou admirado ao notar que os deuses não se moviam. Deviam ter notado que três dos espelhos côncavos haviam sido destruídos. Por que não tomavam nenhuma providência para voltar a submeter os prisioneiros à influência?
Talvez parte da resposta consistisse no fato de que o inimigo conhecia os prolongados efeitos pós-choque, motivo por que não teria pressa.
Mas a outra explicação Tiff não conhecia. Naquele momento, os deuses estavam quebrando a cabeça com outro intruso, que lhes causava uma preocupação muito maior que aqueles três prisioneiros. Perry avançava resolutamente em direção à base, estando muito bem equipado.
Era o chefe da Terceira Potência com seu contingente de quinhentos homens.

* * *

Levaram uma hora e meia para arranjar as redes.
Rhodan gastou outras duas horas para chegar ao vale nos seus Câmbios.
O trabalho de remover os homens intoxicados de argonina e encaminhá-los à Titan consumiu mais trinta minutos.
Levaram apenas dez minutos para encontrar a entrada oculta que dava para a base subterrânea. Rhodan mandou raspar a rocha com raios de desintegradores. O que sobrou foi um paredão situado vinte metros atrás do primeiro e a abertura negra do corredor que penetrava obliquamente na rocha.
Foi naquele momento que os mosquitos lançaram seu primeiro ataque. No entanto, ficaram presos nas redes de malha estreita penduradas nos capacetes, longe dos corpos dos homens. Consumiram toda a energia e tombaram, imóveis. Ficaram caídos até que o cérebro positrônico lhes forneceu novo suprimento de energia.
Quando isso aconteceu, o contingente de quinhentos homens comandado por Rhodan já havia penetrado na galeria.

* * *

Halligan não se teria levantado tão depressa, se a zombaria de O’Keefe não o aborrecesse tanto. O’Keefe disse:
Daqui a cinco dias, você ainda estará jogado no chão, seu pato...
Levantou-se com uma rapidez de que ninguém o julgaria capaz, pôs-se de pé e cambaleou com os punhos levantados em direção a O’Keefe. Mas, antes de chegar ao objetivo, as forças ativadas com tamanha violência o abandonaram. Caiu de joelhos de forma muito pouco elegante à frente de O’Keefe.
Está vendo? — disse O’Keefe com uma risada. — É assim que eu gosto.
Tiff não conseguiu reprimir o riso. Enquanto ria, descuidou-se por um instante, e isso justamente num momento em que não poderia contar com O’Keefe, que se divertia com Halligan. Foi assim que o pedaço de parede já havia deixado livre uma abertura de um metro antes que Tiff notasse qualquer coisa.
Só conseguiu emitir um grito mal articulado quando viu que a coisa metálica caminhava na direção deles; mas para O’Keefe bastou.
Tiff deixou-se cair para trás, bateu pesadamente no solo e só com grande esforço conseguiu levantar o desintegrador. O’Keefe saltou para o lado, para não expor Halligan a qualquer risco, e com essa manobra irritou o enorme robô, que já erguera o braço armado. De joelhos, disparou de baixo para cima.
Não poderia errar o alvo. Antes que o robô tivesse tempo de ajustar o braço à nova posição, foi atingido pelo feixe de raios da arma de impulsos térmicos, que o estraçalhou, espalhando peças metálicas incandescentes e fumegantes para todos os lados.
Como um homem muito bem treinado na luta corpo a corpo, O’Keefe saltou para a frente e agachou-se junto à porta. Era espantoso ver o desempenho de que seus músculos já eram capazes.
Estimulado pela atividade de O’Keefe, Halligan voltou a levantar-se, pegou sua arma e rastejou em direção à porta. O’Keefe, que o viu chegar, resmungou:
Não foi isto que eu quis dizer, meu chapa. Deite e descanse mais um pouco. Saberei enfrentar isto sozinho.
Acho que era isso mesmo que você queria — resmungou Halligan como quem tem duas grandes batatas na mão.
O’Keefe deu de ombros e cautelosamente pôs a cabeça para fora da porta.
Há um corredor — informou. — Mede dez metros para cada lado. Está fechado de ambos os lados. Não há mais nenhum robô.
De onde veio este robô? — perguntou Tiff.
O’Keefe examinou os restos da máquina de guerra.
Acredito que tenha vindo da direita.
Pois bem — gemeu Tiff. — Vamos para a direita. Ao que parece, a brincadeira com os mosquitos acabou. Os deuses preferem recorrer a armas mais potentes.
Com exceção de O’Keefe, que já estava completamente recuperado, foi uma dupla cansada que se arrastou pelo corredor.
A parede que fechava o corredor não representou um obstáculo muito difícil. O’Keefe deu alguns passos junto a esta. A parede afastou-se para o lado. O quadro que se ofereceu fez com que O’Keefe caísse de joelhos.
Tiff desviou-se para o lado o mais rápido que pôde e Halligan deixou-se cair contra a parede.
Trabalhe com o desintegrador! — gritou O’Keefe. — Se eu disparar com o termo, não conseguiremos mais passar.
O recinto, que se abria atrás da porta, era enorme. Uma luz mortiça caía sobre figuras metálicas cintilantes e imóveis. Enfileiradas em devida forma, pareciam aguardar alguma coisa.
Eram robôs! Centenas de robôs!
Tiff não hesitou. Os robôs não haviam sido ativados. Os deuses ainda não sabiam que seus prisioneiros se encontravam nesta porta; por enquanto os robôs não haviam recebido ordem para entrar em ação.
Halligan já havia erguido a arma.
Abrir o feixe e disparar! — gritou
Tiff. Uma súbita fúria combativa eliminou o resto da dor provocada pelo tratamento de choque.
Com O’Keefe no meio, os três penetraram no enorme recinto. Os robôs não se moviam. Não resistiram à destruição.
Pelos cálculos de Tiff, deviam ser uns quinhentos ao todo. O tempo consumido na destruição do exército robotizado parecia uma eternidade. Na verdade, não levaram mais de quinze minutos.
O ar tremeluzia com os vapores e poeiras metálicas.
No momento em que o último robô se dissolveu sob a ação do raio esverdeado do desintegrador, viram-se diante da parede dos fundos.
Graças a Deus! — suspirou O’Keefe do fundo do coração. — Pensei que de uma hora para outra pudessem cair em cima de nós.
A disposição combativa de Tiff não conhecia descanso. Caminhando junto à parede dos fundos, descobriu a porta que ficava na mesma altura daquela pela qual haviam vindo.
Atrás dessa, ficava um recinto muito amplo. Era menor que o pavilhão dos robôs, mas também estava iluminado por uma luz mortiça.
Tiff soltou um grito de alegria.
Estamos perto do destino, rapazes. Esta é a sala de controle.
As características da sala eram inconfundíveis. Enormes painéis cobriam as paredes. Entre eles, viam-se oscilógrafos e telas. As centenas de aparelhos e instrumentos emitiam um zumbido ininterrupto.
Mas não viram nenhum deus.
Tiff continuou a avançar. A porta seguinte abriu-se diante dele. Viu-se num corredor. O’Keefe e Halligan seguiram-no.
O corredor abriu-se até transformar-se num enorme pavilhão, em cujo centro a luz débil deixava imaginar, antes de serem vistos, os contornos cilíndricos de uma nave-foguete.
Ao primeiro relance de olhos, Tiff percebeu três vultos de pernas compridas, que vestiam mantas coloridas. Corriam em direção à nave que, segundo tudo indicava, estava pronta para decolar.
São os deuses! — rejubilou-se O’Keefe. — Estão fugindo.
Ajoelhou-se e apontou cuidadosamente seu radiador térmico.
Nós os queremos vivos! — advertiu-o Tiff.
O’Keefe apenas estava ajoelhado. Logo começou a disparar.
Traçou uma linha incandescente junto aos três fugitivos. Com isso viram-se obrigados a correr para a esquerda. Traçou uma segunda linha, à esquerda do grupo. Ficaram confusos. Um deles tropeçou e caiu, mas levantou-se muito depressa. Os outros corriam à sua frente.
O’Keefe aumentou a potência dos disparos. A rocha entrou em incandescência ao lado dos fugitivos. Procuraram escapar para outro lado. Mas O’Keefe mostrou-se implacável. Cercou-os com um fosso de lava e fogo.
Tiff viu-os caírem um atrás do outro. O calor deixara-os inconscientes. Lançou um olhar desconfiado para a nave-foguete e esteve a ponto de correr para os desmaiados.
Subitamente um forte rugido encheu o pavilhão. O veículo espacial levantou-se do chão em meio a uma nuvem de pó, permaneceu imóvel por um instante e disparou em direção ao teto. Tiff viu uma coisa que ainda não havia notado. No teto havia uma grande fenda, pela qual entrava uma luz avermelhada. Não existia nenhuma fonte de luz artificial, conforme Tiff supusera no início.
Com um ruído quase insuportável a nave passou pela fenda. Deixando para trás apenas um furacão que se espalhou em virtude da decolagem extremamente rápida. O barulho levou bastante tempo para ser amortecido pelas paredes do recinto.
O’Keefe foi-se levantando e fitou os três vultos imóveis.
Que patife! — disse numa fúria impotente.
Tiff compreendeu. Os três estiveram deitados dentro do campo de atuação do foguete. E, qualquer foguete do Império usava fluxos de partículas altamente aceleradas para decolar.
Esses coitados devem ter tanta radiatividade como um pedaço de chumbo que ficou dois anos dentro de um reator — murmurou O’Keefe.
Caminharam para lá; foram tranqüilamente, pois já não valia a pena ganhar tempo. Os três deuses pareciam dormir. Fecharam os olhos no momento em que desmaiaram. Ao vê-los assim, ninguém desconfiaria de que estavam tão impregnados de radiatividade.
O’Keefe e Halligan colocaram-nos de costas.
Eram os antigos acompanhantes de Nathan: os três honos que haviam mostrado ao major Chaney o caminho da aldeia abandonada.
De repente houve um movimento junto à entrada. Tiff ergueu-se abruptamente.
O que houve?
Não se preocupe — tranqüilizou-o Halligan. — É apenas o chefe.
O primeiro grupo de cinqüenta homens do contingente de Perry Rhodan precipitou-se para o interior do recinto. O próprio Rhodan ia na frente.
7



Levaram dez dias para revistar a base subterrânea. Depois disso, tiveram certeza de que em Honur já não havia deuses.
A pequena nave-foguete fora localizada pela Ganymed. Depois de expedir três mensagens, que não produziram qualquer resultado, foi derrubada. O único tripulante não resistiu à queda.
Devia-se supor que fosse Nathan.
O exame revelou que a base subterrânea servia principalmente para a produção de argonina. Em três enormes abóbadas de pedra os nonus eram criados em condições artificiais, que imitavam nos menores detalhes o ambiente real. O capim com que se alimentavam estava devidamente preparado. Digerindo o mesmo, os ursinhos produziam o terrível veneno.
Havia instalações nas quais se podia extrair em poucas horas as sobras de veneno de centenas de milhares de nonus, que eram acondicionadas em ampolas. O funcionamento de tudo aquilo era inteiramente automático. Quatro homens bastavam para vigiar a base.
Esses quatro homens estavam mortos. Não revelariam a ninguém os motivos pelos quais faziam esse jogo, às vezes tão grotesco, feito de confusão e fraude.
A única coisa que se podia fazer era formular teoria. A teoria de Rhodan era a seguinte:
Apesar destas gigantescas instalações tinham medo de nós. Deviam fazer o possível para neutralizar os tripulantes da Titan, passo a passo. Forçaram três Gazelas ao pouso e levaram o grupo dos Câmbios para o lugar em que queriam vê-los e onde os destruiriam
Antes disso haviam evacuado os verdadeiros honos. Durante a evacuação daquela aldeia, fizeram questão de deixar uma pista bastante visível, que poderiam apontar aos nosso homens.
Encontramos o veículo de esteira. É articulado e tem cerca de seis metros de comprimento. Os habitantes da aldeia — que são uns vinte — mal e mal conseguem acomodar-se no veículo. Se revistássemos outras aldeias e mantivéssemos os olhos bem abertos, encontraríamos pistas iguais a esta. Provavelmente não seriam tão nítidas.
Pois bem. Os deuses tentam destruir o grupo do major Chaney por meio de um ataque de mosquitos robotizados. Não conseguiram, porque Chaney se cuidou bastante. Por isso, guiaram seu grupo de Câmbios e aplacaram sua desconfiança. Levaram o grupo ao vale e lançaram os mosquitos ao ataque, isso num momento em que Chaney quase nem acreditava mais na existência de inimigos. O fato de eles mesmos terem escapado em tempo constitui indício de duas coisas:
Primeiro, eles mesmos também são sensíveis à argonina; depois, aqui em Honur não dispõem do antídoto.
Se não fosse assim, não teriam provocado desconfiança, fugindo precipitadamente.
Seja como for, foi neste ponto que começou a ser executado nosso plano específico. Além de outras possibilidades, também contava com esta e ministrei as instruções necessárias ao tenente Tifflor. O fato de que ele e mais dois sargentos escaparam sãos e salvos representa um acaso extremamente feliz.
Os três penetraram nesta base. Já conhecem a história. O que surpreende é somente o fato de lhes ter sido tão fácil chegar aos próprios deuses. Na minha opinião, isso aconteceu porque os deuses ainda não conhecem os padrões pelos quais devemos ser avaliados. Como fossem apenas três homens, confiavam tanto em sua superioridade técnica, que quase não se preocuparam, especialmente depois que os três haviam sido paralisados por meio do choque nervoso.
Esse erro foi nossa salvação. No momento em que Tifflor e os dois sargentos destruíram os restos de seu exército de robôs, antes que tivessem tempo para ativar os mesmos, perderam o controle e fugiram. Conseguimos impedir a fuga de três deles. Numa coerência fria, o quarto os matou, para que não pudessem revelar-nos nada.
É só. Acho que minhas suposições não ficam longe da verdade”.
Os ouvintes mantiveram-se em silêncio. Depois de algum tempo, Tiff fez um sinal e disse:
Gostaria que o senhor nos explicasse por que em Honur existem dois tipos de habitantes que diferem tão radicalmente entre si: os seres intoxicados pela argonina e os quatro com que acabamos de lidar.
Rhodan sorriu e deu uma pancadinha na testa.
Ah, sim. Ainda bem que o senhor lembrou este detalhe — subitamente sua voz assumiu uma seriedade ameaçadora. — Tenente Tifflor, vejo-me obrigado a repreendê-lo.
Tiff assustou-se. Rhodan tranqüilizou-o com um gesto.
A coisa não é tão grave. Se o senhor tivesse percebido, isso não teria alterado coisa alguma. Tenente Tifflor, qual é a cor da pele dos honos?
Tiff refletiu.
Marrom-avermelhada — respondeu.
E dos quatro deuses com que esteve em contato?
Uma luz nasceu no espírito de Tiff.
São incolores. Pertencem a um tipo albino.
Todos os quatro?
Sim senhor. Todos os quatro.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
Isso lhe devia ter dado que pensar, não é? Um albino não é nada de extraordinário, mas logo quatro, e em condições tão suspeitas. Isso levaria qualquer um a pensar um pouco...
Fez uma ligeira pausa. Tiff sabia o que viria em seguida.
Os deuses não são nonos. Não nasceram neste planeta. Pertencem a outra raça. Nosso amigo Crest examinou o cadáver do deus que se encontrava a bordo da nave derrubada pela Ganymed, e com isso voltaram à sua memória certas informações que nos teriam sido muito úteis se as tivéssemos recebido antes.
Existe uma variante da raça dos saltadores, os aras, com os quais já nos defrontamos. Seus contatos com a raça de mercadores são raríssimos. Vivem sua própria vida.
A natureza os dotou com um talento especial no terreno bioquímico. Não existe nenhuma doença na Galáxia que os aras não conheçam e saibam curar. E existem mais algumas que eles mesmos inventaram, e de que lançam mão sempre que acham que isso se torna necessário. É que, conforme diz Crest, não se deixam perturbar por qualquer espécie de escrúpulos.
Os aras são os maiores industriais de medicamentos de que a Galáxia tem conhecimento. Noventa e cinco por cento dos remédios consumidos na Via Láctea são produzidos por eles.
E noventa e cinco por cento de todos os tóxicos!
São estes os aras, tenente Tifflor. Não são honos, conforme acreditava. Todavia, não posso deixar de reconhecer que a idéia de enquadrá-los em outra raça não podia ocorrer imediatamente. O formato de seu corpo é quase idêntico ao dos honos.”
Virou-se, olhou para o teto, como se refletisse sobre alguma coisa e, olhando para as telas, prosseguiu:
Querem saber qual será nosso próximo passo. Pois eu lhes direi — voltou a virar-se para a platéia. — Devemos descobrir tudo que o Império Arcônida sabe a respeito dos aras. Devemos visitar os aras, ou atacá-los, se preferirem, para que fiquem cientes de que serão obrigados a deixar-nos em paz. Temos uma tarefa difícil para cumprir, e por isso não podemos tolerar que ninguém nos perturbe pelas costas.
Para obter as informações de que precisamos, teremos que dirigir-nos ao cérebro positrônico central de Árcon. Agora que nossas naves estão equipadas com compensadores estruturais e não precisamos recear mais que o cérebro positrônico constate e localize todas as etapas de nosso vôo, a viagem não nos deverá causar qualquer preocupação.
De qualquer maneira, teremos de cuidar-nos. Todavia, as informações que deveremos obter compensam amplamente o esforço de ficarmos com os olhos e ouvidos abertos.”
Os dezenove doentes que a missão Honur custara a Rhodan foram abrigados juntamente com os outros setecentos.
A base dos traficantes foi inutilizada de tal forma que nem dali a uma eternidade poderia servir novamente à produção de argonina.
Os quatro aras mortos foram sepultados na margem do lago. Rhodan não seria capaz de recusar esta última homenagem; ao mais traiçoeiro dos seus inimigos.
Com os homens ainda sadios, que pertenceram ao grupo de Chaney, foi formado um novo destacamento, comandado pelo tenente Hathome. O sargento Halligan também foi incorporado a este destacamento. Depois de arrumar suas coisas e despedir-se de Tiff, disse:
Sinto ter que deixá-lo. Bem que gostaria de pedir ao estado-maior que me deixasse com o senhor, mas..
Mas...?
Halligan fez um gesto de contrariedade.
Pois bem. Só há um motivo pelo qual não fiquei. Não suporto estar perto desse O’Keefe. Às vezes sabe ser bem bacana, mas geralmente é insuportável.
Tiff riu. Mas O’Keefe, que estava elaborando um relatório no fundo da sala, ficou de pé com um salto e, furioso, gritou:
Trate de dar o fora, senão ainda me verei obrigado a dar-lhe uma surra.
Halligan colocou sua bagagem no chão e ergueu os punhos.
Silêncio! — gritou a voz retumbante de Tiff. — Sargento O’Keefe, chamo sua atenção para o fato de que o sargento Halligan é um hóspede que se despede de nós. Faço questão que adapte seu comportamento a esta circunstância.
O’Keefe estacou. Subitamente começou a rir.
Nunca mais esse sujeito encontrará um bobo como este — fungou. — Ninguém será trouxa para aceitar um cara destes como hóspede.
Halligan voltou a segurar sua bagagem e, depois de despedir-se de Tiff segundo as regras militares, saiu em postura orgulhosa.





* * *
* *
*




Perry Rhodan sente-se desesperado. A nova missão em Honur revelou a identidade dos causadores da peste dos nonus, mas não lhes proporcionou o precioso soro que cura a doença artificial.
Será que o cérebro positrônico que governa Árcon conhece o antídoto?
Perry Rhodan espera que sim. Entra em contato com o robô, mas apenas para receber outra missão, à qual não pode fugir.
Perry Rhodan em O Homem e o Monstro irá viver lances de inimaginável emoção!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html