quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-046 - Projeto Aço Arcônida - Kurt Brand [parte 2]


O que houve? — perguntou laconicamente.
Recebemos notícias vindas do planeta Exsar, e...
Por favor — interrompeu Gegul em tom áspero. De modo antipático, repeliu-a com um gesto da mão. — Ao menos agora, poderia deixar-me em paz com essas ninharias. Venho de Exsar; sei o que está acontecendo lá. Daqui a oito dias, o planeta Exsar será apenas um mundo empesteado...
Ora, inspetor-chefe! — interveio Arga Tasla em tom quase suplicante. — Todo mundo sabe disso. Mas duvido que o senhor saiba que sua ação foi observada. Há algumas horas as mensagens de hipercomunicação são expedidas para todos os quadrantes da Galáxia, e todas essas mensagens citam o nome do senhor, dizendo que a peste de Exsar é obra dos aras de Aralon.
O rosto de Gegul, que ainda há pouco era todo triunfo, ficou estarrecido. Os olhos arregalados fitaram a secretária.
O Conselho de Médicos já tomou conhecimento dessas mensagens de hipercomunicação? — gaguejou.
Antes que Arga Tasla pudesse responder, o ruído trovejante de uma nave espacial que decolava encheu a ante-sala. Gegul encolheu-se sob o ribombar, virou-se apressadamente para a janela e viu bem ao longe uma nave que disparava para o céu. Trazia o sinal de Aralon e estava assinalada como nave-médica.
Num vago pressentimento, perguntou a Tasla:
Aonde vai?
Para Exsar, inspetor-chefe. Leva uma carga de oitenta e quatro mil toneladas de soro g/Z 45. Isso representa todo o estoque de que dispomos. Três mil e seiscentos médicos estão a bordo. Há dez minutos todas as emissoras de Aralon transmitem nosso desmentido; as mensagens afirmam que não temos nada a ver com a epidemia surgida em Exsar. Como prova de boa vontade usaremos todo nosso estoque de g/Z 45 em Exsar sem cobrar nada. Há meia hora surgiu uma pergunta do cérebro robotizado de Árcon.
Gegul sabia perfeitamente quanto custava um quilo de soro g/Z 45. Era um dos medicamentos mais caros produzidos por Aralon. A epidemia do ritmo de três horas, que ele mesmo levara para Exsar, possuía o grau mais elevado de contágio.
Três mil e seiscentos médicos foram enviados a Exsar pelo Conselho de Médicos de Aralon.
Eram três mil e seiscentos candidatos à morte. Nem um por cento deles voltariam a ver Aralon. Depois do pouso no planeta contaminado, a nave ficaria sujeita a uma quarentena de cinqüenta anos.

* * *

Tifflor ouvia no seu receptor a mesma notícia, que era transmitida ininterruptamente pelo pequeno emissor de hipercomunicação. Sempre voltavam a ser citadas as palavras Gegul, Aralon, aras e uma expressão da qual não sabia o significado: epidemia do ritmo das três horas.
Ninguém tomara conhecimento da Gazela. Quem vê a morte diante dos olhos não está interessado nas visitas que possa receber.
Planando menos de quinhentos metros acima da superfície de Exsar, o tenente Tifflor disparava a cem quilômetros por hora no seu traje espacial, orientando as antenas direcionais ininterruptamente na direção do pequeno hiperemissor, cujas transmissões se tornavam cada vez mais fortes.
Tiff não precisava preocupar-se de ser descoberto. O pequenino campo de deflexão que cercava seu traje tornava-o invisível.
O campo antigravitacional levantou-o. Que nem uma folha tangida por uma correnteza de ar, descreveu uma curva ampla por cima das elevações que se estendiam a seus pés e descobriu o pequeno povoado que ficava atrás das mesmas. Era ali que funcionava ininterruptamente um pequeno transmissor, alarmando o Império de Árcon.
Quando penetrou no edifício baixo com a antena típica de hipercomunicação sobre o telhado, ninguém o deteve.
Tiff manteve ativado o campo de deflexão. O saltador que trabalhava no emissor não poderia ver o estranho, pois do contrário a presença de Perry Rhodan no grupo estelar M-13 deixaria de ser um segredo.
A porta estava aberta. Tiff sentiu-se curioso quando penetrou na casa. Era a primeira vez que via como moravam os mercadores galácticos que não viviam em naves espaciais.
Aquela residência estranha surpreendeu-o. Aquela casa, situada numa aldeia, irradiava conforto e bem-estar. Pela primeira vez, Tifflor sentiu certa simpatia por um saltador.
Quando a porta que dava para a sala em que ficava o hipertransmissor foi aberta, o mercador virou-se rapidamente. Por uma questão de precaução, Tiff apontou o projetor mental sobre ele, desprendeu-se do chão por meio do campo antigravitacional e planou em direção ao emissor.
Desligou o microfone. Não havia necessidade de que a conversa entre eles fosse irradiada por toda a Galáxia.
Depois identificou-se como arcônida. Quando o mercador, um homem baixo de cerca de quarenta anos, lançou-lhe um olhar perplexo, repetiu a mesma coisa em intercosmo.
Um arcônida? — perguntou o homem, e baixou lentamente a mão direita.
Tiff assentiu.
Por que você se esconde atrás do campo de deflexão? — perguntou o saltador em tom desconfiado.
Tiff foi diretamente ao assunto. Só permitiu que seu interlocutor tomasse a palavra quando havia dito tudo.
Com essa sua desconfiança você quer que a epidemia mate até o último saltador de Exsar? Será que os mortos espalhados pelas ruas ainda não bastam? Conte o que viu e farei o que estiver ao meu alcance para que ao menos alguns milhões sobrevivam à doença. Depende de você, meu caro.
Dali a duas horas, Tiff encontrava-se na capital do continente.
A vida praticamente se extinguira na cidade. Um hálito pestilento pairava sobre a metrópole. Tiff viu quadros horripilantes, enquanto planava por cima das casas.
Seu objetivo era a grande estação de hipercomunicação.
Ainda funcionava, mas no gigantesco edifício só havia mortos e moribundos. Não havia ninguém que pudesse ajudar Julian Tifflor.
Dentro de uma hora, conseguiu ligar o toca-fitas, cujo feitio lhe era estranho, ao transmissor. Uma fita sem fim começou a correr.
O hipertransmissor repetia ininterruptamente sua transmissão acusadora.
Era uma acusação contra Aralon e os aras.
Era uma acusação pessoal contra o inspetor-chefe, Gegul de Aralon.
Julian Tifflor partira do pressuposto de que o cérebro gigante de Árcon teria de ouvir a mensagem transmitida ininterruptamente pelo hipercomunicador. Sendo um dos elementos de Perry Rhodan, tivera muitas oportunidades de testemunhar o funcionamento lógico e preciso do cérebro positrônico robotizado. Em Aralon, receberiam um pedido de informações expedido em Árcon. Quando isso acontecesse os aras não teriam outra alternativa senão fazer o que estivesse ao seu alcance para deter o avanço mortal da epidemia.

* * *

Perry Rhodan recebeu um chamado da sala de rádio.
Permite que lhe transmita uma emissão do arcônida Dugbox, que está sendo transmitida pelo hipertransmissor de Exsar?
Pode mandar — ordenou Perry Rhodan.
Um sorriso aflorou-lhe aos lábios quando logo de inicio reconheceu a voz de Julian Tifflor. Mas o rosto logo assumiu uma expressão petrificada. Bell. que estava deitado confortavelmente no sofá fitando o teto, saltou e disse entre os dentes:
Se eu conseguir pôr as mãos no tal do Gegul, esse cara vai ver uma coisa. Dizem que são médicos, mas não passam de monstros Perry, por que não transformou esse mundo infernal de Aralon num sol?
Porque não sou vingador nem juiz, Bell. Não lemos o direito de julgar, e sinto-me muito feliz por não carregar esta responsabilidade comigo.
4



Mal a Gazela voltou a abrigar-se no hangar da Titan, a imensa nave esférica, recorrendo ao compensador estrutural, afastou-se do sistema solar a que pertencia o planeta Exsar sem que ninguém a visse. Ainda sem ser notada, emergiu do hiperespaço nas proximidades do planeta de Honur, no interior do grupo estelar M 13.
No catálogo estelar dos arcônidas Honur figurava como um mundo proibido Não havia nenhuma outra indicação relativa à proibição. Isso não impediu Perry Rhodan de, há algum tempo, pousar em Honur. Tivera que pagar o desrespeito à proibição com uma doença contraída por todos os tripulantes de sua nave. O fato de que certos ursinhos engraçados, com menos de trinta centímetros de comprimento, soltavam através do pêlo uma toxina que envenenava os nervos de quem os tocasse desavisadamente poderia, quando muito, representar uma catástrofe. Porém esses animaizinhos inocentes que segregavam o veneno eram um produto criado pelos aras. Assim sendo, era um crime.
Os aras de Aralon não pagaram pelo crime da forma que a gravidade de seu ato exigia. Embora o tivessem cometido, eram os médicos mais geniais da Galáxia, e o Império de Árcon ainda não estava em condições de dispensar sua colaboração.
Num pouso vertical, a Titan aproximou-se do cemitério de naves espaciais de Honur. Era um marco terrível deixado pelas naves que não tinham respeitado a proibição, e cujas tripulações acabaram sucumbindo num alegre tumulto.
Para Rhodan e seus subordinados, Honur não era um planeta proibido. Já possuía o antídoto da doença. Os aras de Aralon tiveram de entregá-lo. Até a extinção de sua raça não se esqueceriam do primeiro encontro com o ser vindo do planeta Terra.
Perry Rhodan lançou um olhar pensativo para o amigo.
Bell, você sabe que para muitas inteligências da Via Láctea meu nome assume um significado idêntico ao que na Terra se atribui à palavra diabo?
Bell olhou-o espantado.
E daí? — perguntou em tom indiferente, mas logo assumiu um ar sério. — Paciência. É o reverso da medalha. Você nunca poderá evitar isso. Terá de conformar-se. Procure não pensar neste fato e o pior já terá passado.
Perry Rhodan também era apenas um homem. Nesse momento de descanso, sentiu a responsabilidade como uma carga quase insuportável que lhe comprimia os ombros. Saíra a fim de conquistar o Universo para a Terra. Já dera o primeiro passo além do Sistema Solar. Agora temia o segundo, porque sentia que seu poder repousava em bases pouco seguras.
A Terra estava sendo ameaçada pelos mercadores galácticos. Os aras, que eram descendentes dos saltadores, obrigavam-nos, graças ao monopólio de medicamentos que detinham, a atacar a Terra.
O ataque seria desencadeado. Perry Rhodan tinha certeza absoluta. Por isso mandara que o coronel Freyt regressasse à Terra com a Ganymed, a fim de tomar todos os preparativos para uma defesa global. E, além da Titan, a Ganymed era a única nave equipada com um transmissor fictício.
Havia apenas as duas naves, e não era possível construir outras do mesmo tipo.
O que significariam dois transmissores fictícios diante do ataque de duas ou três mil naves de guerra dos saltadores?
Perry Rhodan reconheceu com uma clareza solar os limites do poder que detinha. Sabia que a Terra estaria perdida, se não encontrasse um meio de frustrar o ataque que estava sendo planejado.
No momento, não via como evitar a desgraça.
Bell sentou a seu lado.
Tomara que não estejamos esperando demais do auxílio de Talamon. Há dias não consigo livrar-me de um terrível pressentimento. Tenho a impressão de que estamos correndo de olhos abertos para um fato que subitamente nos atropelará — disse Perry Rhodan, como se estivesse falando consigo mesmo.
Foi nesse momento que a sala de rádio da Titan transmitiu a mensagem para o camarote de Rhodan:
O patriarca Talamon decolou com todas as unidades de sua frota em direção ao sistema de Gonom. Em Laros, que é a décima oitava lua do antigo planeta Gom, será realizada daqui a três dias de Árcon a assembléia dos saltadores e dos superpesados. Fim da mensagem hipercondensada... Os dados astronômicos relativos ao sistema de Gonom são os seguintes...
Rhodan desligou. Levantou-se com um movimento ágil. O amigo, mais pesado, levantou-se com um movimento lento.
Com a assembléia que se realizaria dentro de três dias de Árcon na lua Laros, situada no sistema de Gonom, o perigo que ameaçava a Terra entraria num estágio muito mais ameaçador.
Perry Rhodan não estava disposto a permitir que a reunião decorresse tranqüilamente.

* * *

Santek, que estava presidindo o Conselho de Médicos de Aralon, transmitiu a informação de que a sentença de morte proferida contra o inspetor-chefe Gegul fora executada e logo passou à ordem do dia.
Não perdeu uma única palavra com a epidemia do ritmo de três horas surgida em Exsar. Ele e os outros membros do Conselho não tinham o menor interesse pelo destino de milhões de mercadores galácticos.
Não enviaremos observadores à assembléia. Este ponto já foi posto em votação ontem. Todos conhecem o resultado.
Numa exposição lúcida o biólogo-chefe Keklos convenceu-nos de que, a partir dos seus laboratórios, poderá realizar um serviço mais discreto que o mais disfarçado dos observadores não descobrirá. Em três naves dos saltadores, surgirão três doenças diferentes nos sintomas, que provocarão o desassossego de que precisamos para atingir nossos objetivos.
Keklos providenciará imediatamente uma demonstração de nossa capacidade médica, que eliminará toda e qualquer suspeita de que estamos empenhados num proveito material. Convencerá também os saltadores e os superpesados de que a existência de todos nós só estará garantida no momento em que Perry Rhodan e a Terra tiverem deixado de existir.
Posso comunicar ao Conselho de Médicos que a posição do planeta Terra já não é nenhum segredo para nós. Pelo contrário, está armazenada na memória do cérebro positrônico instalado a bordo da nave capitania de Topthor.”
A notícia de Santek produziu o efeito de uma bomba.
Todos reconheceram o enorme valor que possuía. Mas a desconfiança logo se manifestou. Nakket indagou por que o superpesado Topthor guardara este conhecimento só para ele por um tempo tão longo.
Mal a indagação atingira o ouvido de Santek, o projetor se iluminou. Numa imagem que correspondia ao quíntuplo do tamanho natural surgiu o rosto quadrado e esverdeado de Topthor.
Santek deixou que falasse. Esperava muita coisa da fala desajeitada do velho.
A voz do superpesado começou a trovejar quando relatou sua luta mais recente com Perry Rhodan. Falava em tom realista, sem exageros e numa crítica sadia. Entre outras coisas, disse o seguinte:
Minha frota devia ser considerada mais forte que a de Rhodan. Em minha imaginação já o via destruído. Mas, de repente, agradeci aos deuses por terem permitido que escapasse. As outras naves de guerra de minha frota foram destruídas, e isso de maneira misteriosa. De uma hora para outra desapareceram por completo. Rhodan pode ter dez vezes mais inteligência que eu, mas o desaparecimento das minhas naves nada tem a ver com a inteligência. Rhodan possui armas que não têm igual no Universo. Sua força representa uma ameaça para nós. Sua destruição e a de seu mundo, a Terra, garantirá nossa segurança e a do Império de Árcon.
A fala de Topthor ainda ressoava na sala quando a projeção se apagou. Os rostos frios e cínicos dos aras sorriam uns para os outros. O velho era seu porta-voz; era o representante dos seus interesses.
Santek prosseguiu tranqüilamente:
Faremos um contrato com os mercadores galácticos e com os superpesados. Nós, os aras, nos obrigaremos a prestar ajuda assim que surja qualquer doença perigosa, e a fornecer-lhes todos os medicamentos constantes de uma lista nominal com um desconto de cinqüenta por cento.
Também os medicamentos da série 08-KL-56? — perguntou Mulxc em tom sagaz.
Santek exibiu um sorriso cínico.
Poderemos ser culpados se, depois da destruição de Rhodan e da Terra, em todos os pontos surgirem novas epidemias e pestes, e se nós conseguirmos produzir rapidamente, mas não rapidamente demais, os respectivos antídotos? Oficialmente os preparados da série 08-KL-56 só serão fabricados em nossos laboratórios a partir do fim do ano. Até lá não se falará mais em Perry Rhodan e em sua ridícula Terra. Os saltadores e os superpesados só terão uma preocupação: não desejarão contrair qualquer das doenças.
Fez uma pausa e depois concluiu:
Afinal, devemos recuperar pela forma mais rápida e discreta o prejuízo causado por Gegul.


A Titan não provocou o menor ruído ao sair do hiperespaço. Todos superaram rapidamente o choque da transição, que se manifestava através da dor na nuca e do estado de semiconsciência. Na grande tela de visão global, surgiu o sistema solar de Gonom, iluminando a sala de comando.
Os últimos controles do salto foram fornecidos pelos mais diversos setores da nave esférica de 1.500 metros de diâmetro. O último controle, destinado a verificar se o compensador estrutural ocultara a imersão e a saída da Titan no hiperespaço, resultou num “tudo OK” transmitido à sala de comando.
Há vinte horas-luz do pequeno sol vermelho de Gonom, a Titan voltara a materializar-se no interior do grupo estelar M-13.
Gonom ficava a 68 anos-luz de Árcon. O sol-anão, vermelho e muito feio, possuía um único planeta anotado no catálogo estelar dos arcônidas com o nome Gom.
O rosto contrariado de Bell revelava o que pensava de tudo aquilo.
E Bell tinha motivo para não ficar satisfeito com Gom.
O planeta Gom, que era pouco menor que Saturno e possuía um diâmetro de 68.200 quilômetros, apresentava uma gravitação de 1.9 g. O fato de que em sua superfície um objeto que na Terra pesaria cinqüenta quilos quase chegaria a cem quilos não era tão grave. Mas acontecia que seu tempo de rotação era idêntico ao tempo de translação em torno do sol Gonom. E, segundo o catálogo estelar de Árcon, esse tempo de translação era de 2,4 anos terranos. Isso significava que, no grande planeta Gom, o dia durava 1,2 anos terranos e a noite durava outro tanto.
Pois então, boa noite — disse Bell quando Crest, o arcônida, voltou a lembrar esse fato.
Ainda há mais, Bell — disse Crest com um sorriso suspeito, que fez com que Reginald Bell o fitasse atentamente. — Em Gom prevalecem temperaturas extremas, furacões terríveis de mais de mil quilômetros por hora correm furiosamente da face superaquecida voltada para o sol em direção à face em que reina a noite. Além disso, Gom ocupa um lugar especial entre os planetas porque, segundo uma lenda que corre há milênios, nele se abriga uma forma de vida terrível.
Até Perry Rhodan aguçou o ouvido. Desde que quase naufragara em Honur, considerava qualquer boato negativo sobre um planeta desconhecido como informação extremamente importante.
Reginald Bell não se sentia muito bem.
Já sei o bastante desse planeta — disse. — O simples fato de se ter abastecido com dezoito luas o transforma aos meus olhos numa criatura voraz.
Na tela de visão global, brilhava o sol-anão vermelho de Gonom, produzindo uma débil cintilância no planeta do tamanho de Saturno com suas numerosas luas.
Os rastreadores estruturais da Titan registravam constantemente as naves dos saltadores e dos superpesados vindas do hiperespaço. Todas elas se dirigiam à décima oitava lua, denominada Laros.
Laros encontrava-se em oposição ao sol. Rhodan aguardava uma mensagem codificada de Talamon.

* * *

O biólogo-chefe Keklos chamava a atenção não apenas pelo seu tamanho reduzido ou pelo reluzente jaleco branco de plástico com o distintivo que emitia uma pálida luminosidade, mas principalmente pela maneira de cumprimentar ou despedir-se de qualquer interlocutor.
Não conseguia aproximar-se a menos de três metros das pessoas. Se alguém o fizesse por ignorância ou esquecimento, não deveria admirar-se, pois no mesmo instante a palestra, por mais interessante que fosse, chegaria ao fim. Keklos dava bruscamente as costas e se afastava, calando-se.
Mas esse Keklos, ele mesmo um doente, era o mais genial dos biólogos e o mais desconhecido de todos. Pouco mais de três dezenas de médicos dos aras, com exceção daqueles que trabalhavam na lua de Laros, sabiam quem era Keklos, o que fazia e o que sabia.
Keklos não se preocupava com isso. Não se preocupava com coisa alguma, nem mesmo com as leis divinas.
Muitas vezes suas duras experiências representavam a morte de muitos seres inteligentes. Não se detinha diante dos arcônidas, nem mesmo diante dos aras, dos saltadores ou dos superpesados. Se as experiências por ele realizadas traziam o extermínio de seres inteligentes, isso não o interessava. Só estava interessado em alcançar seu objetivo.
E até hoje sempre o conseguira.
Muito satisfeito, contemplava os três bios que se encontravam diante dele, separados por uma parede invisível de radiações. Representavam os produtos mais recentes e sofisticados das retortas. Eram figuras de três metros de altura, de estatura semelhante à dos homens, mas providos de quatro braços. No lugar da cabeça alongada, traziam um objeto de formato redondo.
O biólogo continuava a examiná-los com muito interesse. Não conhecia a menor emoção. Num movimento lento, pegou a arma de nêutrons, enquanto com a outra mão movia a chave que desligava a parede das radiações, que formava uma barreira invisível entre ele e os bios.
Apontou a arma para o bio que se encontrava no centro. Este sabia o que o aguardava. Um grito inarticulado saiu da boca redonda, que se abriu como um diafragma. Mas o raio já estava saindo da arma portátil, atingindo-o em cheio.
Até então o impacto produzido por esta arma, que funcionava com base em ondas de freqüência extremamente curta, representaria a destruição de qualquer forma de vida orgânica.
Mas o bio não morreu; apenas se sacudiu, até que Keklos suspendeu o terrível bombardeio de radiações.
Num gesto discreto, restabeleceu a barreira de radiações. Ao mesmo tempo chamou seus colaboradores. Uma porta abriu-se atrás dele e três aras entraram. Pararam a três metros de distância e aguardaram as instruções do chefe.
Vamos realizar o teste de inteligência, a fim de verificar o grau de imunidade dos bios face às radiações hipnóticas e mentais. Não há mais necessidade de verificar a resistência ao fogo. Os resultados já são conhecidos. Controlem o poder de expressão verbal, e também a capacidade de armazenamento de dados. Até amanhã de noite, deverei ter os dados sobre a resistência à tração da estrutura de tendões, as manifestações de fadiga e...
As instruções mais pavorosas foram transmitidas no fim, na presença dos bios.
Um deles começou a balbuciar.
Keklos exaltou-se e ordenou com a voz fria:
Levem estes caras para fora! Chamem Moders!
Moders chegou assim que os médicos-assistentes haviam desaparecido com os bios.
O gigantesco Moders que chamava a atenção pelos traços grosseiros de seu rosto, parou a três metros do biólogo-chefe.
Moders — principiou o cientista, caminhando de um lado para outro. — As instruções que ministrei em relação aos bios estão armazenadas. Daqui em diante, o senhor cuidará do assunto. Devo dar certa atenção aos saltadores e superpesados que estão realizando uma assembléia por aqui. Se os resultados do teste, que será realizado amanhã, forem favoráveis, use todos os meios disponíveis e force a produção de bios, que deverá atingir cinco mil unidades por dia. Continuaremos a seguir a orientação de que os bios não devem receber estrutura óssea. Isso só nos faria perder tempo. A estrutura de tendões de Sargon nos deu menos dor de cabeça.
Cuide para que os suprimentos de matéria-prima sejam remetidos regularmente de Gom. Não preciso lembrar a carreira do inspetor-chefe Gegul, que acabou no conversor.
É só, Moders. Pode retirar-se.”
Keklos, o biólogo-chefe, era um monstro biológico, um ara que se esquecera de que em todos os recantos da Via Láctea existe uma lei que diz: “Cure os doentes, médico, mas nunca coloque os pacientes em perigo.”
Keklos esperou até que Moders, que se encolhera com suas palavras, lhe desse as costas. Depois disso, saiu por uma porta que só se abria por meio da absorção de seu modelo de vibrações cerebrais.
Uma fita levou-o rapidamente para baixo. Vez por outra uma luz saía da rocha natural. Seu alcance era apenas de alguns metros. Ninguém suspeitaria de que essas fontes de luz isoladas constituíam um sistema de controle altamente sofisticado, que trabalhava com base nas vibrações cerebrais e por isso não poderia ser enganado. Junto a cada fonte de luz ainda havia um conglomerado de mortíferas armas de radiações, que destruiriam qualquer pessoa não credenciada que procurasse usar a fita para transportar-se aos laboratórios mais secretos dos aras.
Uma enorme porta blindada, que também só se abria diante do modelo de vibrações cerebrais de Keklos, dava caminho para os laboratórios III e C1. Com o passo seguinte dado por Keklos, uma camada de ar tremeluzente desfez-se diante dele. Um campo de radiações mortíferas fora automaticamente desativado.
Abriu a porta seguinte, passou por uma comporta onde foi identificado e penetrou na primeira sala do enorme complexo que formava o laboratório III.
Não deu a menor atenção aos aras que trabalhavam por ali. Caminhando pelo amplo corredor central, passou pelas retortas, pelas encubadeiras, por todo o conjunto de complicados aparelhos médicos. Dirigiu-se à sala em cuja porta se via o sinal inconfundível de entrada proibida.
Keklos teve de parar diante dessa porta. Comprimiu as palmas das mãos contra a mesma. Subitamente ela deslizou para dentro da parede. Keklos passou rápido e ficou parado, até que a porta voltasse a fechar-se.
Viu-se numa sala cujas paredes estavam revestidas de plástico azul, inundado por uma luz intensa, também azul, que o obrigou a fechar os olhos durante um instante. Ao contrário das outras salas do conjunto que formava o laboratório III, aqui a temperatura era bastante fresca, quase fria.
O biólogo Keklos estava sozinho.
Nem mesmo Moders, seu colaborador mais chegado, fazia a menor idéia do segredo que se ocultava aqui.
Neste recinto, o prolongamento da vida orgânica já se transformara em realidade.
Em passos apressados, quase precipitados, Keklos dirigiu-se ao lugar em que havia uma cadeira diante de um aparelho de aparência primitiva.
Quando sentou, cada um dos seus movimentos exprimia a tensão e a expectativa. Pegou o microscópio On que se encontrava à sua direita. No momento em que a pequena esfera metálica negra que se encontrava na extremidade do microscópio se dirigia sobre a massa gelatinosa, a luz azul difusa apagou-se e uma escuridão impenetrável passou a reinar na sala.
Imóvel, Keklos esperava. Uma coisa cinzenta apareceu, tornou-se mais luminosa, assumiu contornos definidos e acabou sendo reconhecida como tela de imagem.
Keklos não fez nenhum movimento. O microscópio On não exigia qualquer tipo de regulagem. Regulava-se por si mesmo, mediante sua mini-positrônica. Em redor de Keklos, os campos energéticos formados por feixes de raios zumbiam e crepitavam. Parecia uma tabuada das bruxas, resultante da combinação da medicina e da tecnologia dos aras.
O biólogo-chefe Keklos era o homem que sabia fazer a mistura genial dos dois ingredientes, para atingir seus objetivos.
Conteve a respiração. Mais uma vez o microscópio On desvendava o misterioso processo de envelhecimento das células, mas aqui...
Keklos era um fanático. Esqueceu-se do tempo e da hora. Seus olhos não se cansavam de contemplar a tela do microscópio On para enxergar o milagre da juventude das células que segundo as leis da biologia já deviam ter entrado na fase da atrofia.
Keklos manteve-se num silêncio total. Não proferiu uma palavra, não soltou um suspiro que exprimisse seu triunfo. Diante de seus olhos estava traçado o caminho que lhe permitiria prometer a todos os aras, já amanhã, um prolongamento de trinta por cento em suas vidas.
Daqui a cem anos”, pensou Keklos, “ainda serei o biólogo-chefe; e daqui a cem anos já terei descoberto o segredo da vida eterna. É uma pena que não consegui ficar com Thora para realizar minhas experiências. Estou muito interessado em sua estrutura celular. Também gostaria de saber por que essa mulher, ao contrário da maioria dos arcônidas, ainda possui certo poder de iniciativa. Para realizar a nossa série de experiências, não poderei dispensar os indivíduos do segmento superior da sociedade arcônida. Amanhã requisitarei dez deles por intermédio de Aralon. Nos hospitais, há material de sobra...”
Recostou-se e passou a mão pelos olhos cansados. A primeira fase da experiência de cento e setenta e oito anos havia chegado ao fim.
Em sua imaginação, o biólogo-chefe Keklos já via os aras como sucessores dos arcônidas, dominando o império do grupo estelar M-13.
Não julgava necessário incluir Perry Rhodan em seus cálculos.

* * *

O receptor de hipercomunicação da nave capitania de Topthor emitiu o sinal de chamada. Por coincidência, o velho superpesado se encontrava na sala de comando. Virou-se e verificou que a transmissão estava sendo recebida na freqüência de Talamon. Quando o rosto velho e sorridente de Talamon surgiu na tela, berrou:
Por todos os deuses da Galáxia, Talamon, onde foi que você se meteu com suas naves? Metade da Via Láctea andou à sua procura, inclusive eu. E o quartel-general também o procurou.
O sorriso no rosto de Talamon continuou, mas assumiu um ar matreiro.
Topthor, vou ligar o deformador. A palavra-chave será obsian.
Topthor logo aguçou o ouvido. Lançou os olhos em torno.
Dêem o fora — disse aos membros do clã que se encontravam por ali.
Mal o último deles havia saído da sala de comando do couraçado, moveu algumas chaves do acessório do hipercomunicador, baseando-se na palavra-código obsian.
O relatório de Talamon foi recebido em linguagem clara. Topthor parecia muito interessado naquilo que seu melhor amigo tinha a informar. Não ficou zangado com o fato de que, apesar da transmissão deformada, Talamon se exprimia com muita cautela e muitas vezes se limitava a insinuações.
Será que não posso participar do negócio, Talamon? — disse, sondando a fonte de ouro de que Talamon lhe falara por meio de circunlóquios.
Pois é por isso que estou chamando, meu velho — disse Talamon, e seu rosto sorria para a sala de comando. — Basta que você disponha de cem milhões em dinheiro para ganhar cinco vezes essa soma no prazo de um mês.
O velho Topthor não teve mais vontade de rir.
Cem milhões? Você só pode estar brincando. Onde vou arranjar uma soma destas?
Todo mundo conhecia o superpesado Topthor como uma pessoa que podia fazer tudo, menos exagerar seus recursos. Ele e seu clã pertenciam aos nababos do grupo estelar M-13. Bastava-lhe abrir o bolso para tirar cem milhões, mas o velho manhoso gostava de tudo, menos gastar dinheiro.
Talamon não disse uma única palavra sobre o aço Árcon-T que se encontrava em Honur. Recorreu à explicação que inventara:
Topthor, não foi por simples comodidade que deixei de responder às mensagens. Apesar do deformador, bastaria que alguém tivesse interceptado nossas mensagens. E se eu as tivesse respondido, uma única vez que fosse, o espia poderia saber em poucas horas por onde andei com minha frota. Topthor, tenho em mãos o negócio de minha vida. Reflita, meu velho. Você dispõe de dezoito horas. Fim, Topthor.
A imagem de Talamon apagou-se na tela. Topthor fitou a tela com uma expressão pensativa.
Arriscar cem milhões para receber quinhentos, sem disparar um tiro, sem arriscar uma única nave, deixar de tirar as castanhas do fogo para os saltadores...
Bastante contrariado, Topthor levantou-se e monologou:
Por que Talamon não me deu cinco minutos para pensar? É claro que participarei do negócio. Que droga! Já não estou gostando nem um pouco desta assembléia. Ganhar quinhentos milhões num mês sem arriscar a pele! Meus queridos aras, durante a última visita vocês foram gentis demais. Terei que decepcioná-los cruelmente. Afinal, não sou seu leão-de-chácara. Vocês mesmos terão de ver como conseguem convencer aquelas cabeças ocas. Eu tenho coisa mais importante a fazer: ganhar a soma insignificante de quinhentos milhões. Planetas proibidos e sóis que se encolhem. Isso até podia fazer com que me esquecesse de Perry Rhodan. Quem dera que eu soubesse no que consiste o grande negócio de Talamon.

* * *

Perry Rhodan captou a mensagem de hipercomunicação expedida por Talamon. A mesma representava o sinal convencionado de que dentro de uma hora chegaria a menor das naves de Talamon, para recolher os mutantes com uma Gazela.
Bell levantou-se do assento do co-piloto.
Vou aprontar-me — disse em tom satisfeito. — Os mutantes já foram avisados.



Laros, a décima oitava lua do planeta Gom, era um mundo de oxigênio que, pelo diâmetro e gravitação, se aproximava das condições reinantes na Terra.
Dois grandes oceanos separavam os continentes baixos. Em Laros havia apenas oito cidades grandes. Comparados aos padrões arcônidas, eram cidades sem importância. Juntamente com seus conjuntos hospitalares apenas serviam de camuflagem aos centros de pesquisa subterrâneos dos aras. Numa extensão muito maior que em Aralon, a lua Laros fora transformada num só conjunto de cavernas. Mais de três milhões de médicos aras realizavam sob a superfície aparentemente inofensiva experiências que em hipótese alguma poderiam chegar ao conhecimento dos habitantes da Galáxia.
O Conselho Geral, que era a instância suprema da qual os médicos recebiam ordens, emitira uma diretiva destinada a proteger Laros e seus laboratórios secretos. Qualquer ara que pisasse no sistema, ali deveria permanecer até o fim de seus dias.
Apenas o biólogo-chefe Keklos e cinco dos seus colaboradores mais chegados estavam excluídos dos efeitos da diretiva.
Os médicos, que trabalhavam nos conjuntos hospitalares situados na superfície, não tinham a menor idéia de que, sob seus pés, três milhões de colegas estavam reduzidos à escravidão perpétua. Os médicos cativos realizavam experiências cujo objetivo consistia em um dia transformar o Império de Árcon num mundo pertencente aos aras.
O biólogo-chefe Keklos — que oficialmente exercia as funções de dirigente de todos os estabelecimentos hospitalares de Laros, nos quais se tratavam com exclusividade as doenças causadas por perturbações no metabolismo de minerais — recebeu o bioquímico Tragh, um homem de rosto desfigurado.
Os olhos de Tragh tremiam. Há trinta dias fora desterrado para Laros; mal e mal conseguira escapar à pena de morte. Mas ainda tinha razão para temer a ação da justiça. Era culpado por mais três crimes, ainda não esclarecidos. Foi nisso que pensou quando recebeu ordens para apresentar-se ao biólogo-chefe Keklos.
E agora via-se diante daquele homem poderoso e influente, verdadeiro soberano não coroado de Laros.
Keklos não o deixou em dúvida sobre os motivos do chamado. Lançou-lhe à face os crimes que na opinião do bioquímico ainda não haviam sido esclarecidos.
Não fique tremendo, seu desgraçado! — trovejou Keklos. — Poderia perfeitamente entregá-lo ao conversor, mas resolvi dar-lhe mais uma chance, Tragh.
Preste atenção!
As naves dos saltadores e dos superpesados chegam ininterruptamente a Laros. Os tripulantes sabem que com o pouso estão sujeitos a quarentena. Esta só será suspensa no momento em que uma junta médica tiver subido a bordo e constatado que a tripulação está em perfeitas condições de saúde e que a nave não é portadora de qualquer doença. Vimo-nos obrigados a adotar este procedimento em virtude do incidente surgido no planeta Exsar, onde irrompeu a epidemia do ritmo de três horas, cuja causa foi inexplicavelmente atribuída aos aras.
O senhor participará, na qualidade de bioquímico, do exame das naves que pousarem aqui. Mas sua tarefa principal não consistirá em ajudar a junta nos seus trabalhos, e sim em colocar um destes comprimidos nos aparelhos de ventilação de três naves em cada grupo de oito.
Se o senhor se desincumbir dessa tarefa de forma a deixar-me satisfeito, estarei em condições de entregar-lhe o indulto do Conselho Geral.
Assim que eu sair desta sala, o senhor se aproximará de minha escrivaninha, tirará três comprimidos e gravará na memória todos os detalhes registrados neste quadro luminoso.”
Keklos concluiu com uma ameaça desumana.
Se cometer qualquer erro, por menor que seja, terá uma aventura: será utilizado nas experiências de alguma das divisões de estudos de epidemias.
Perplexo, Tragh seguiu o homem temível com os olhos.
Não acreditava em nada do que o chefe acabara de dizer. Já se considerava um homem destinado à morte. Mas o desespero lhe impôs aquela esperança desarrazoada que faz com que o homem que se afoga procure agarrar-se a um cisco.
Correu para junto da escrivaninha, segurou avidamente os três comprimidos, colocou-os no bolso sem olhá-los e passou a estudar as indicações constantes do quadro luminoso. Só então compreendeu o plano terrível do biólogo-chefe.

* * *

Bell deu o alarma, embora naquele instante tivesse passado, juntamente com os mutantes, para a menor das naves de Talamon, que os levaria à Tal VI.
O que houve? — perguntou Perry com a voz tranqüila.
Pouca coisa — principiou Bell. Quando começava assim, sempre havia alguma coisa grave. — Você sabia que Laros é uma fortaleza dos fabricantes de venenos, Perry? Quem manda lá são exclusivamente os aras. Por acaso estou lendo uma dessas ordens de quarentena...
Um instante, Bell!
Reginald Bell viu na tela que Perry virava a cabeça. Ouviu a pergunta:
Crest, o senhor não sabia disso?
Crest, que era um dos líderes científicos do Império de Árcon, sacudiu a cabeça:
Há trezentos anos Laros era apenas uma base pouco importante de Árcon...
Bell ouviu que o amigo respirava pesadamente.
Perry Rhodan voltou a fitar a tela. Seu rosto exprimia uma tensão mantida sob controle com uma concentração extrema. Seu instinto infalível farejou a desgraça.
Bell também a farejou. Havia algo de errado nessa ordem de quarentena. Bell começou a esbravejar. À medida que lembrava os acontecimentos do planeta Exsar e lia as frases hipócritas dos aras, sua voz tornava-se cada vez mais incisiva.
Quando foi emitida essa ordem de quarentena, Bell?
Reginald Bell compreendeu a finalidade da pergunta. Perry Rhodan estava desconfiando de Talamon. Por isso apressou-se em responder:
Esta ordem ainda não tem cinco minutos. Acaba de chegar de Laros por meio do hipercomunicador.
OK! — Perry acenou com a cabeça. — Você já sabe como deve agir juntamente com os mutantes depois do pouso.
Muito bem — disse o gorducho com um sorriso. — Não estou preocupado por nossa causa, mas gostaria de saber o que os membros do clã de Talamon vão dizer à comissão dos aras quando se encontrar diante de nossa Gazela.
Você acha que os aras precisam ver a Gazela, Bell? — perguntou Perry em tom suave e desligou.
O palavrão proferido por Bell não chegou a ser recebido.

* * *

Laros possuía um espaçoporto de primeira classe, de dimensões espantosas. Media mais de cem quilômetros de lado e oferecia lugar para uma frota de tamanho médio. Sua pavimentação era tão resistente que mesmo as naves arcônidas da classe Universo poderiam pousar ali sem recorrer aos campos antigravitacionais.
Bell encontrava-se ao lado do patriarca Talamon e fitava espantado o enorme espaçoporto. O confidente de Rhodan tinha suas idéias a respeito do mesmo, mas contrariamente ao seu costume não as exprimia.
Quem conhecesse Bell saberia que esse silêncio representava uma ameaça.
O hipercomunicador soou.
Era um chamado de Laros.
Há ordens para não pousar. Em Laros existe o perigo de contaminação.”
Por que está rindo, Bell? — perguntou Talamon, que das outras vezes costumara mostrar-se tão desconfiado.
Bell escarneceu:
Estou rindo desse truque desmoralizado. Não é de admirar que esses misturadores de venenos não tenham tido uma idéia melhor. Os aras andam ocupados demais para espalhar as doenças. Tomara que lá embaixo eu consiga agarrar o Gegul.
Não conseguia esquecer o crime que Gegul cometera contra Exsar, um dos planetas dos saltadores. Pedira ao arquivo da Titan todas as informações relativas à terrível epidemia do ritmo de três horas.
Reginald Bell era uma criatura bonachona. Qualquer pessoa que conhecesse seu lado fraco o enrolava, mas bastava sentir a menor intenção criminosa para que deixasse de lado as brincadeiras. O procedimento de Gegul foi um dos crimes mais repugnantes de que já tivera conhecimento, e o desejo de pôr as mãos no criminoso correspondia à natureza de Bell.

* * *

Quando os robôs de combate dos aras apareceram diante das enormes comportas da nave dos saltadores Xul II, os mercadores galácticos e os superpesados afastaram-se precipitadamente.
Uma nave do serviço médico dos aras aproximou-se velozmente, pouco acima das naves cilíndricas dos saltadores. Ininterruptamente ouvia-se o alarma de epidemia, um sinal conhecido e temido em todo o grupo estelar M-13.
O alarma, além de ser transmitido por via acústica e ótica, o era também por meio de vibrações.
A pequena nave do serviço médico ainda não havia percorrido metade da extensão do campo espacial quando apareceram cinco naves de grandes dimensões, pararam acima da Xul III e erigiram um campo protetor em torno do corpo cilíndrico dessa nave. Pouco depois, surgiu uma nave gigante dos aras.
Parou exatamente acima da Xul II. Aos poucos, foi-se abrindo a junta da quilha da nave, que media quase trezentos metros de comprimento e mais de sessenta metros de largura. A abertura se parecia com a boca de um monstro que estivesse pronto para engolir a nave contaminada, a Xul II.
A nave gigante desceu lentamente na vertical. Quando se encontrava cinqüenta metros acima da Xul II, a nave cilíndrica desprendeu-se da superfície do campo de pouso, foi erguida por potentes raios de tração e introduzida na abertura da nave gigante.
A junta da quilha voltou a fechar-se silenciosamente. Uma escotilha após a outra foram se fechando. Era um quadro fantasmagórico. Era centenas de naves espalhadas pelo gigantesco espaçoporto, a ação de socorro dos aras foi acompanhada pelas telas de televisão. O comentador evitou qualquer auto-elogio. A imagem foi transferida para um laboratório.
Instrumentos brilhantes, cuja finalidade nem os saltadores nem os superpesados conheciam, apareciam nas telas. O rosto ascético de um ara surgiu no campo de visão. Seu olhar hipnotizava os espectadores. Falava lentamente, às vezes com a voz hesitante. Descreveu a doença que acabara de ser descoberta a bordo da Xul II.
Já conhecemos essa doença, e dispomos do preparado que nos permite curá-la.
O tom de sua voz permaneceu inalterado. Suas palavras pareciam modestas. Causou enorme impressão nas pessoas que se encontravam diante das telas.
Infelizmente vejo-me obrigado a informá-los de que descobrimos hoje na Xul II o terceiro caso, que nos obrigou a isolar também esta nave. Mas podemos garantir que restabeleceremos os três patriarcas, que poderão participar da assembléia. Peço licença para despedir-me e garantir-lhes uma feliz estada em Laros.
Foi o fim da transmissão.
Para o bioquímico Tragh, essas palavras também representaram o fim da carreira e da vida. Quando a junta médica se retirou, também procurou sair da Xul II para dirigir-se à nave dos aras que levaria o barco aparentemente contaminado à ilha de isolamento de Merk.
Porém dois aras o impediram de entrar na comporta. No mesmo instante, farejou o perigo. Lançou os olhos pelo amplo convés, à procura de socorro. O corredor da Xul II estava vazio.
Ninguém ouviu o chiado de duas armas de radiações. Os assassinos guardaram os instrumentos do crime nos bolsos e saíram da Xul II com os rostos sorridentes.
Não pertenciam à junta médica.
Eram funcionários do Serviço de Segurança.
Quando entraram no escritório da nave, o maior deles, com um gesto indiferente, entregou a arma.
Missão cumprida — disse laconicamente.
Foi o segundo caso deste ano em que um ara vendeu medicamentos, ainda não liberados, aos arcônidas. E esse Tragh o fez quatro vezes. Bem, recebeu a paga por isso.
Estas palavras foram proferidas pelo homem que pegou a folha de plástico.

* * *

Talamon acabara de pousar em Laros com sua nave capitania Tal VI.
Topthor fizera o necessário para que o amigo pudesse descer junto à sua nave.
Naquele momento, a junta médica dos aras se retirava. Bell e seus mutantes saíram do esconderijo com os rostos sombrios. Passaram menos de meia hora nos mesmos. Aquilo que antes do pouso em Laros parecia um perigo enorme, acabara revelando-se uma simples bagatela.
Foi uma tapeação — resmungou Bell para Talamon. — Os aras não têm o menor interesse na saúde de vocês. Os misturadores de venenos só querem fazer boa figura, para que o fracasso em Exsar caia no esquecimento. Então, todos vocês foram minuciosamente examinados?
Talamon limitou-se a lançar um olhar perplexo para Bell. O ímpeto com que o ser da misteriosa Terra se apresentava diante dele era demasiado. Aos poucos, começou a compreender por que Perry Rhodan conseguira levar a Titan de Árcon apenas com um punhado de homens. Mas ainda não sabia o que seus hóspedes pretendiam fazer em Laros. Nem Perry Rhodan, nem Bell lhe haviam contado qualquer coisa a este respeito. Os mutantes, que estavam sentados atrás dele, sem dizer uma palavra, não reagiam às suas perguntas.
Talamon compreendia ainda menos o que aquela moça estaria fazendo entre os seres adultos da Terra. Vivia olhando para Betty Toufry, e quando isso acontecia, Talamon, que era pai de mais de uma dezena de filhas, mostrava um brilho de bondade paternal nos olhos.
Já o mutante Ivã Goratchim com suas duas cabeças lhe inspirava certo receio. O mesmo acontecia com o negro Ras Tschubai, que o chocava devido à cor da pele.
A assembléia será realizada depois de amanhã, Talamon? A que horas? — perguntou Bell, parando por acaso diante de um aparelho cuja finalidade lhe era desconhecida. — O que é isso? — perguntou, apontando para o aparelho.
Talamon moveu sua massa de muitos quilos, aproximando-se sem desconfiar de nada. O vulto largo de Bell encobria o aparelho.
Isso... — Talamon quase perdeu o fôlego. Com um movimento instantâneo, moveu uma chave. Com um brilho esverdeado no rosto, gaguejou: — Quem ligou o hipercomunicador?
Bell sentiu um calafrio.
Fazia uma hora que conversava abertamente com o patriarca. Mais de uma centena de vezes mencionara o nome de Perry Rhodan. Dissera quantos estranhos o superpesado escondera a bordo da Tal VI, quanto tempo a Gazela levaria para abrigar-se no hangar secreto e qual era seu raio de ação.
Bell lançou um olhar de desespero para John Marshall. Este fez um esforço tremendo para acenar com a cabeça.
Tako Kakuta, o teleportador japonês com rosto de criança, desapareceu sem que ninguém o percebesse.
Ninguém de nós ligou o hipercomunicador — disse Kitai Ishibashi. Realizara um controle instantâneo no cérebro dos colegas e em nenhum deles encontrara o mais leve resquício de sentimento de culpa.
Com uma rapidez surpreendente, o superpesado recuperou a capacidade de ação.
Com uma ligeireza de que ninguém o julgaria capaz saltou para junto do intercomunicador de bordo:
Fechar todas as comportas! Ninguém poderá sair!
Bell limitou-se a acenar com a cabeça.
O que estava em jogo não era apenas a vida das pessoas que se encontravam a bordo, mas a de todos os membros do clã.
Mal Talamon desligou o intercomunicador, ouviu-se um chamado vindo da sala de rádio:
O patriarca Topthor quer fazer-lhe uma visita.
Não estou a bordo! — berrou o velho, que não parava de fungar.
Senhor, eu disse ao patriarca que Talamon está presente...
Soltando uma das pragas dos superpesados, Talamon voltou a desligar para soltar um grito.
O ar começou a tremer diante dele. E em meio ao tremor, formou-se um ser. Tako Kakuta voltara a materializar-se diante do superpesado.
Dando todas as mostras de pavor, o velho foi recuando passo a passo até esbarrar na parede. Fitava aquele homem pequeno e franzino, que estava apresentando seu relato a Bell.
Por onde teria andado ele?”
Na central do hipertransmissor da lua Laros?”
Quando? Pois há poucos minutos, eu o vi sentado junto ao negro.”
Ó deuses estelares, e o hipercomunicador... — Bell gritou em meio aos gemidos desesperados de Talamon:
Desta vez os deuses estelares não meteram os dedos nisso.
Talamon sempre fora um homem muito cortês. Muitas vezes não compreendia ou custava a compreender a linguagem figurada de Bell, cujas metáforas sempre estavam adaptadas às condições terranas. Nervoso como estava, também desta vez não compreendeu nada. Talamon, o ponderado, o inteligente, o honesto, o superpesado que nunca era abandonado pela presença de espírito. Talamon explodiu e berrou tão furiosamente para Bell que quase chegou a derrubá-lo.
Falou nos deuses, dizendo que os mesmos não tinham dedos, e que não compreendia como alguém podia blasfemar contra eles numa situação como esta. Talamon nem se lembrou que não costumava ser muito religioso, e que muitas vezes a ambição do lucro o fizera esquecer os deuses.
Naqueles segundos, jurou a plenos pulmões que nunca mais se desviaria da senda da virtude e da obediência aos mandamentos dos deuses.
Se não fosse a parede contra a qual se recostava teria fugido da gargalhada de Bell. Parado diante dele, mal e mal conseguiu colocar as mãos nos ombros de Talamon e disse:
Acalme-se, Talamon!
O ser, que para Talamon era um monstrinho amarelo com olhos de formato estranho, também se encontrava ao lado de Reginald Bell.
As intenções de Tako Kakuta eram as melhores possíveis. Apenas queria mostrar-lhe que a arte de dissolver-se no ar e desaparecer não representava nada de especial.
Mas Kakuta conseguiu exatamente o contrário. Talamon procurou segurar-se em Bell. O tremeluzir do ar quase lhe rouba o juízo.
Talamon — gritou Bell — a estação de rádio da Titan deve ter deformado nossa transmissão de hipercomunicação. Não há outra explicação. Há uma hora os aras que se encontram na central da grande estação de hipercomunicação andam que nem uns doidos, porque não conseguem transmitir nem receber qualquer mensagem inteligível. Homem, será que você ainda anda tapado?
O velho martirizou-se:
Bell, quem dera que o senhor pudesse falar numa língua que também eu possa entender. O que significa andar tapado?

* * *

Será que esse gorducho enlouqueceu? — berrou Perry Rhodan e no mesmo instante transformou-se no “reator instantâneo”.
Agiu. Enquanto as três dezenas de pessoas que se encontravam a seu lado pareciam ter sofrido um ataque.
O hipercomunicador transmitia a voz de Bell.
E o que não dizia esse sujeito!
Mas não demorou que tudo passasse.
Sem sair do seu assento e sem preocupar-se com a segurança da Titan, Perry Rhodan fez com que a estação de hipercomunicação da nave funcionasse como transmissor de interferência.
De início funcionava apenas na freqüência de Talamon, mas logo os técnicos tiveram de entrar em ação. Rhodan exigiu que fizessem o impossível. Dali a um minuto, participou da operação, causando uma admiração irrestrita no próprio engenheiro-chefe do setor de rádio.
Nenhuma transmissão de hipercomunicação pode sair de Laros ou ser recebida lá. Quero que os aras tomem conhecimento. Bradger, por que não acopla o 16-cento e quatro ao emissor de freqüência circular? Vamos logo! Deixe o espanto para depois...
A agitação continuou por dez minutos. Rhodan tangia sua equipe com uma velocidade que fazia com que um após o outro fossem ficando pelo caminho.
Quando a interferência do emissor da Titan chiava em todas as freqüências, Rhodan enxugou o suor da testa, com uma calma tremenda acendeu um cigarro e perguntou em voz baixa:
Estou curioso para ver por quanto tempo Bell nos oferecerá este espetáculo.
Sua voz parecia calma como sempre. Seus olhos não brilhavam, nenhum músculo da face se movia.
Sua calma impôs-se a todos, da mesma maneira que dera aos técnicos de radio uma demonstração prática de seu saber.
O chefe voltou para o assento do piloto e acomodou-se. Na gigantesca sala de comando da Titan, não se ouvia outro ruído. As outras pessoas, que ali se encontravam, respiravam silenciosamente e não se atreviam a fazer o menor movimento.
Gucky, o rato-castor, era o único ser que não conhecia essa forma de reverência. Teleportou-se para o colo de Perry, que não parecia muito satisfeito com a visita. Estava prestes a espantar Gucky com um movimento da mão, quando este começou a chiar:
Chefe, você não acha que esses vermes devem estar roendo o setor de memória do hipercomunicador de Laros e logo terão passado pelo mesmo?
Era a fala típica de Reginald Bell, e naquele instante Perry Rhodan também não a entendia. Embora não o demonstrasse, estava desgastado por dentro. O espetáculo que Bell lhe oferecera com essa transmissão de hipercomunicação não tinha igual.
Gucky, você veio para me chatear?
O rato-castor, que era um excelente telepata, lia a mente de Perry como num livro aberto. Cochichou baixinho:
Perry, os primeiros dez segundos da transmissão de Bell estão armazenados nos aparelhos dos aras. Se arrancarem esse estéreo, nossa ação em Laros entrará pelo cano.
A observação de Gucky expôs o calcanhar de Aquiles da situação em que se encontravam.
Chefe, deixe-me saltar! Mostrarei uma coisa aos aras! Deixe, sim, Perry?
Esse moleque do Gucky sabia implorar que nem uma criancinha, mas quem dali concluísse as qualidades do rato-castor, estaria cometendo um engano vergonhoso.
Esse ser em forma de animal, mas que não era nenhum animal, era inteligente como um homem e dominava a teleportação, a telecinese, a arte de ler os pensamentos e outras faculdades que jaziam em seu espírito. Era frio, impetuoso, esperto e sabia lidar com qualquer situação.
E encontravam-se diante de uma situação que teria de ser resolvida por Gucky, se não quisessem deixar cair num abismo tudo que Perry Rhodan conseguira realizar.
Volte são e salvo, Gucky — disse Perry, dando permissão para saltar.
No mesmo instante, o rato-castor desapareceu de seu colo.
Laros ficava a vinte horas-luz da Titan!

* * *

O biólogo-chefe Keklos ficou satisfeito ao ouvir que a grande nave cargueira, repleta de matérias-primas, decolara de Gom.
A carga chegou na hora exata para a assembléia dos patriarcas dos saltadores”, pensou muito feliz e transmitiu suas instruções.

* * *

Bell estremeceu. Um peso de cinqüenta quilos pousara em seus ombros. Antes que compreendesse o que era, ouviu a voz fininha de Gucky:
Gorducho, você me arranjou um trabalho muito bonito! Os aras já estavam para se atirar em cima da memória do hipercomunicador, e por pouco não ouvem sua voz. Fiz umas brincadeiras com esses fazedores de pílulas. Quando estavam completamente prostrados, na memória do hipercomunicador não havia outra coisa senão os lamentos dos dervixes. O chefe ainda anda preocupado, pois não sabe quem mais pode ter ouvido sua voz por essas estrelas afora. Até logo mais — Bell não sentia mais aquele peso no ombro.
Ninguém riu da brincadeira do rato-castor. Ainda estavam gelados de susto, e foi esta a impressão que Gucky levou à Titan.
O rato-castor voltou a materializar-se no colo de Perry Rhodan.
Perry suspirou aliviado. Gucky fez de conta que não percebia nada, mas no seu íntimo sentiu-se orgulhoso pela preocupação que o chefe sentira por ele.
Chefe — chiou — no momento não podemos contar com o gordo, nem com os outros. Li os pensamentos de Marshall. Procura desesperadamente descobrir quem lhes pregou a peça com o hipercomunicador.
A coisa está começando bem — limitou-se Rhodan a responder.

* * *

Topthor estava sentado diante de Talamon. Examinava atentamente o amigo.
Talamon parecia doente. A maneira de cumprimentar Topthor fora pouco calorosa. Ele não viera para passar algumas horas conversando, mas sim para colher mais algumas informações sobre o grande negócio.
Como bom negociante, procurou antes de mais nada descongelar Talamon.
Cekztel também deve chegar hoje, meu caro! — revelou.
Cekztel era chefe de todos os clãs dos superpesados.
Talamon não pensava em outra coisa senão nas transmissões de hipercomunicação realizadas a partir de sua nave.
Ah, é? — disse por uma questão de cortesia.
Topthor tentou a aproximação de outro lado.
Desta vez Rhodan e a Terra estão perdidos.
Você acha? — perguntou Talamon.
Topthor esbravejou:
Será que você só pensa nesse grande negócio?
Em quê...?
Topthor nunca fora uma pessoa muito bem-humorada, mas agora seu senso de humor era praticamente nulo. Bateu com o punho na mesa.
Diga logo o que houve com você, meu velho. Nem pensa no seu grande negócio, pouco lhe importa que Cekztel venha e o fato de que dentro em breve já não teremos que temer Rhodan e sua Terra não o interessa nem um pouco. Talamon, será que ainda somos amigos?
Se não fôssemos, eu lhe teria oferecido participação no meu negócio? — esquivou-se Talamon.
Você não está respondendo à minha pergunta — trovejou a velha raposa. — Você tem problemas? Pois também tenho. Os aras me dão dor de cabeça.
Finalmente Talamon mostrou-se interessado. Inclinou-se para a frente e, embora estivessem a sós, falou aos cochichos:
Topthor, em minha nave há um vil traidor. Um indivíduo do meu clã quer me vender. Se conseguir, a nave chamada Tal VI deixará de existir.
Isso tem algo a ver com seu grande negócio? — indagou Topthor.
Em parte, Topthor. Por isso no momento não sei se será conveniente para você ser meu sócio.
O superpesado riu a plenos pulmões.
Sirvo muito bem para o negocio, Talamon. Sou o único superpesado que sabe onde pode ser encontrado o planeta Terra. É isso mesmo, Talamon. Os dados estão no meu cérebro positrônico de bordo, muito bem armazenados e... — sua voz reduziu-se a um cochicho. — Quer saber de uma coisa? Codifiquei o setor de memória de tal maneira que jamais um ara conseguirá os dados sem meu consentimento.
Os olhos de Talamon iluminaram-se. Sabia que Topthor seria incapaz de enganá-lo.
Quer dizer que você gosta deles tanto quanto eu, Topthor. Ainda prefiro o tal do Perry Rhodan...
O outro logo mordeu a isca, com tamanha força que Talamon teve de esforçar-se ao máximo para não trair sua alegria. O amigo trovejou:
Eu também! Quase explodi quando ouvi falar no crime que praticaram contra o planeta Exsar. E quando me disseram que Aralon estava lançando uma ação de socorro gratuita, as vendas me caíram dos olhos. Tenho vontade de mandar a assembléia para os ares.
Será que não foi você quem colocou a bomba no planeta de Goszul? — perguntou Talamon em tom sarcástico e sentiu que sua disposição de espírito melhorava.
Tolice! — resmungou Topthor. — Mas de repente a idéia de lançar um ataque contra Rhodan não me dá mais o menor prazer. Diga-me uma coisa: você é fá do Rhodan? Você não fala mal dele, e isso não corresponde ao seu gênio.
Topthor, você acha que a gente deve falar mal de um ser que teve o direito e a possibilidade de nos matar, mas não usou esse direito e essa possibilidade? É só por isso que o clã de Talamon ainda existe, Topthor.
Topthor levantou-se abruptamente.
Lançou um olhar prolongado e pensativo para o amigo. Este sustentou o olhar. Dois seres, cada um com mais de seiscentos quilos, ambos velhos, inteligentes e espertos, endurecidos em muitas batalhas espaciais sangrentas, acenaram com a cabeça.
Topthor disse em tom grave:
Se não estou enganado, continuo vivo apenas porque em certa batalha Rhodan achou preferível não me transformar numa nuvem de gases. Mas não preciso dormir em cima disso, Talamon. Agora este Rhodan começa a me causar preocupações por um lado do qual nunca esperava qualquer problema. Até amanhã, Talamon, até amanhã.


A estranha rigidez desapareceu do rosto de John Marshall. Com um gesto que espelhava o cansaço, passou a mão pela testa, passou os dedos pelos cabelos escuros e esticou o corpo.
Voltara a ser o velho John Marshall, um dos colaboradores mais antigos de Perry Rhodan e um de seus melhores telepatas.
Lançou um olhar eloqüente para Reginald Bell.
E daí?
John Marshall continuou sentado; um sorriso débil esboçou-se em seus lábios.
Topthor é o único sobrevivente que conhece a posição de nosso sistema solar e da Terra.
Bell e seu comando de mutantes ainda se encontravam no camarote particular de Talamon. Sabiam que naquele momento aquela raposa sagaz, Topthor, fazia uma visita à nave. Marshall não deixara passar a oportunidade. Graças à sua capacidade telepática, “lera” a conversa travada entre Talamon e Topthor, acoplando sua mente aos pensamentos dos dois interlocutores. Dessa forma, acabara por descobrir o segredo mais precioso de Topthor.
Bell não tirava os olhos de John Marshall. Os mutantes fizeram a mesma coisa. Quase chegaram a esquecer o terrível incidente com o hipercomunicador. Só Marshall pensou no caso, pois ao acompanhar a conversa dos superpesados, sentira a preocupação de Talamon e a indagação de quem poderia ter ligado o aparelho.
Marshall ofereceu outra parte do segredo de Topthor.
Os dados astronáuticos da Terra estão guardados no setor de memória de sua calculadora positrônica.
O sorriso gostoso de Bell fez com que John Marshall se retirasse, depois de acrescentar apressadamente estas palavras:
Topthor garantiu-se por todos os lados.
Reginald Bell, que além de Perry Rhodan era o único homem que havia recebido o grau mais elevado de ensinamento arcônida através do processo hipnótico, pediu que John Marshall lhe fornecesse todos os dados.
Escutava com o rosto inexpressivo. Frio, sem deixar impressionar-se por qualquer tipo de emoção. Lógico até as últimas conseqüências, refletiu sobre o problema de como seus mutantes poderiam aproximar-se do cérebro positrônico de bordo da nave de Topthor, contornar as barreiras de segurança e atingir a memória do aparelho.
Em tom lacônico e numa formulação objetiva e inconfundível, dirigiu outras perguntas a John Marshall. O telepata concentrou-se ao máximo.
Quando Topthor revelou ao amigo o grande segredo, os dados sobre a posição da Terra, pensara muito satisfeito nos dispositivos de segurança que mandara colocar para proteger o saber armazenado contra qualquer pessoa que quisesse apoderar-se dele indevidamente.

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