— O que
houve? — perguntou laconicamente.
— Recebemos
notícias vindas do planeta Exsar, e...
— Por
favor — interrompeu Gegul em tom áspero. De modo antipático,
repeliu-a com um gesto da mão. — Ao menos agora, poderia deixar-me
em paz com essas ninharias. Venho de Exsar; sei o que está
acontecendo lá. Daqui a oito dias, o planeta Exsar será apenas um
mundo empesteado...
— Ora,
inspetor-chefe! — interveio Arga Tasla em tom quase suplicante. —
Todo mundo sabe disso. Mas duvido que o senhor saiba que sua ação
foi observada. Há algumas horas as mensagens de hipercomunicação
são expedidas para todos os quadrantes da Galáxia, e todas essas
mensagens citam o nome do senhor, dizendo que a peste de Exsar é
obra dos aras de Aralon.
O rosto de
Gegul, que ainda há pouco era todo triunfo, ficou estarrecido. Os
olhos arregalados fitaram a secretária.
— O
Conselho de Médicos já tomou conhecimento dessas mensagens de
hipercomunicação? — gaguejou.
Antes que
Arga Tasla pudesse responder, o ruído trovejante de uma nave
espacial que decolava encheu a ante-sala. Gegul encolheu-se sob o
ribombar, virou-se apressadamente para a janela e viu bem ao longe
uma nave que disparava para o céu. Trazia o sinal de Aralon e estava
assinalada como nave-médica.
Num vago
pressentimento, perguntou a Tasla:
— Aonde
vai?
— Para
Exsar, inspetor-chefe. Leva uma carga de oitenta e quatro mil
toneladas de soro g/Z 45. Isso representa todo o estoque de que
dispomos. Três mil e seiscentos médicos estão a bordo. Há dez
minutos todas as emissoras de Aralon transmitem nosso desmentido; as
mensagens afirmam que não temos nada a ver com a epidemia surgida em
Exsar. Como prova de boa vontade usaremos todo nosso estoque de g/Z
45 em Exsar sem cobrar nada. Há meia hora surgiu uma pergunta do
cérebro robotizado de Árcon.
Gegul
sabia perfeitamente quanto custava um quilo de soro g/Z 45. Era um
dos medicamentos mais caros produzidos por Aralon. A epidemia do
ritmo de três horas, que ele mesmo levara para Exsar, possuía o
grau mais elevado de contágio.
Três mil
e seiscentos médicos foram enviados a Exsar pelo Conselho de Médicos
de Aralon.
Eram três
mil e seiscentos candidatos à morte. Nem um por cento deles
voltariam a ver Aralon. Depois do pouso no planeta contaminado, a
nave ficaria sujeita a uma quarentena de cinqüenta anos.
* * *
Tifflor
ouvia no seu receptor a mesma notícia, que era transmitida
ininterruptamente pelo pequeno emissor de hipercomunicação. Sempre
voltavam a ser citadas as palavras Gegul, Aralon, aras e uma
expressão da qual não sabia o significado: epidemia do ritmo das
três horas.
Ninguém
tomara conhecimento da Gazela. Quem vê a morte diante dos olhos não
está interessado nas visitas que possa receber.
Planando
menos de quinhentos metros acima da superfície de Exsar, o tenente
Tifflor disparava a cem quilômetros por hora no seu traje espacial,
orientando as antenas direcionais ininterruptamente na direção do
pequeno hiperemissor, cujas transmissões se tornavam cada vez mais
fortes.
Tiff não
precisava preocupar-se de ser descoberto. O pequenino campo de
deflexão que cercava seu traje tornava-o invisível.
O campo
antigravitacional levantou-o. Que nem uma folha tangida por uma
correnteza de ar, descreveu uma curva ampla por cima das elevações
que se estendiam a seus pés e descobriu o pequeno povoado que ficava
atrás das mesmas. Era ali que funcionava ininterruptamente um
pequeno transmissor, alarmando o Império de Árcon.
Quando
penetrou no edifício baixo com a antena típica de hipercomunicação
sobre o telhado, ninguém o deteve.
Tiff
manteve ativado o campo de deflexão. O saltador que trabalhava no
emissor não poderia ver o estranho, pois do contrário a presença
de Perry Rhodan no grupo estelar M-13 deixaria de ser um segredo.
A porta
estava aberta. Tiff sentiu-se curioso quando penetrou na casa. Era a
primeira vez que via como moravam os mercadores galácticos que não
viviam em naves espaciais.
Aquela
residência estranha surpreendeu-o. Aquela casa, situada numa aldeia,
irradiava conforto e bem-estar. Pela primeira vez, Tifflor sentiu
certa simpatia por um saltador.
Quando a
porta que dava para a sala em que ficava o hipertransmissor foi
aberta, o mercador virou-se rapidamente. Por uma questão de
precaução, Tiff apontou o projetor mental sobre ele, desprendeu-se
do chão por meio do campo antigravitacional e planou em direção ao
emissor.
Desligou o
microfone. Não havia necessidade de que a conversa entre eles fosse
irradiada por toda a Galáxia.
Depois
identificou-se como arcônida. Quando o mercador, um homem baixo de
cerca de quarenta anos, lançou-lhe um olhar perplexo, repetiu a
mesma coisa em intercosmo.
— Um
arcônida? — perguntou o homem, e baixou lentamente a mão direita.
Tiff
assentiu.
— Por
que você se esconde atrás do campo de deflexão? — perguntou o
saltador em tom desconfiado.
Tiff foi
diretamente ao assunto. Só permitiu que seu interlocutor tomasse a
palavra quando havia dito tudo.
— Com
essa sua desconfiança você quer que a epidemia mate até o último
saltador de Exsar? Será que os mortos espalhados pelas ruas ainda
não bastam? Conte o que viu e farei o que estiver ao meu alcance
para que ao menos alguns milhões sobrevivam à doença. Depende de
você, meu caro.
Dali a
duas horas, Tiff encontrava-se na capital do continente.
A vida
praticamente se extinguira na cidade. Um hálito pestilento pairava
sobre a metrópole. Tiff viu quadros horripilantes, enquanto planava
por cima das casas.
Seu
objetivo era a grande estação de hipercomunicação.
Ainda
funcionava, mas no gigantesco edifício só havia mortos e
moribundos. Não havia ninguém que pudesse ajudar Julian Tifflor.
Dentro de
uma hora, conseguiu ligar o toca-fitas, cujo feitio lhe era estranho,
ao transmissor. Uma fita sem fim começou a correr.
O
hipertransmissor repetia ininterruptamente sua transmissão
acusadora.
Era uma
acusação contra Aralon e os aras.
Era uma
acusação pessoal contra o inspetor-chefe, Gegul de Aralon.
Julian
Tifflor partira do pressuposto de que o cérebro gigante de Árcon
teria de ouvir a mensagem transmitida ininterruptamente pelo
hipercomunicador. Sendo um dos elementos de Perry Rhodan, tivera
muitas oportunidades de testemunhar o funcionamento lógico e preciso
do cérebro positrônico robotizado. Em Aralon, receberiam um pedido
de informações expedido em Árcon. Quando isso acontecesse os aras
não teriam outra alternativa senão fazer o que estivesse ao seu
alcance para deter o avanço mortal da epidemia.
* * *
Perry
Rhodan recebeu um chamado da sala de rádio.
— Permite
que lhe transmita uma emissão do arcônida Dugbox, que está sendo
transmitida pelo hipertransmissor de Exsar?
— Pode
mandar — ordenou Perry Rhodan.
Um sorriso
aflorou-lhe aos lábios quando logo de inicio reconheceu a voz de
Julian Tifflor. Mas o rosto logo assumiu uma expressão petrificada.
Bell. que estava deitado confortavelmente no sofá fitando o teto,
saltou e disse entre os dentes:
— Se eu
conseguir pôr as mãos no tal do Gegul, esse cara vai ver uma coisa.
Dizem que são médicos, mas não passam de monstros Perry, por que
não transformou esse mundo infernal de Aralon num sol?
— Porque
não sou vingador nem juiz, Bell. Não lemos o direito de julgar, e
sinto-me muito feliz por não carregar esta responsabilidade comigo.
4
Mal a
Gazela voltou a abrigar-se no hangar da Titan, a imensa nave
esférica, recorrendo ao compensador estrutural, afastou-se do
sistema solar a que pertencia o planeta Exsar sem que ninguém a
visse. Ainda sem ser notada, emergiu do hiperespaço nas proximidades
do planeta de Honur, no interior do grupo estelar M 13.
No
catálogo estelar dos arcônidas Honur figurava como um mundo
proibido Não havia nenhuma outra indicação relativa à proibição.
Isso não impediu Perry Rhodan de, há algum tempo, pousar em Honur.
Tivera que pagar o desrespeito à proibição com uma doença
contraída por todos os tripulantes de sua nave. O fato de que certos
ursinhos engraçados, com menos de trinta centímetros de
comprimento, soltavam através do pêlo uma toxina que envenenava os
nervos de quem os tocasse desavisadamente poderia, quando muito,
representar uma catástrofe. Porém esses animaizinhos inocentes que
segregavam o veneno eram um produto criado pelos aras. Assim sendo,
era um crime.
Os aras de
Aralon não pagaram pelo crime da forma que a gravidade de seu ato
exigia. Embora o tivessem cometido, eram os médicos mais geniais da
Galáxia, e o Império de Árcon ainda não estava em condições de
dispensar sua colaboração.
Num pouso
vertical, a Titan aproximou-se do cemitério de naves espaciais de
Honur. Era um marco terrível deixado pelas naves que não tinham
respeitado a proibição, e cujas tripulações acabaram sucumbindo
num alegre tumulto.
Para
Rhodan e seus subordinados, Honur não era um planeta proibido. Já
possuía o antídoto da doença. Os aras de Aralon tiveram de
entregá-lo. Até a extinção de sua raça não se esqueceriam do
primeiro encontro com o ser vindo do planeta Terra.
Perry
Rhodan lançou um olhar pensativo para o amigo.
— Bell,
você sabe que para muitas inteligências da Via Láctea meu nome
assume um significado idêntico ao que na Terra se atribui à palavra
diabo?
Bell
olhou-o espantado.
— E daí?
— perguntou em tom indiferente, mas logo assumiu um ar sério. —
Paciência. É o reverso da medalha. Você nunca poderá evitar isso.
Terá de conformar-se. Procure não pensar neste fato e o pior já
terá passado.
Perry
Rhodan também era apenas um homem. Nesse momento de descanso, sentiu
a responsabilidade como uma carga quase insuportável que lhe
comprimia os ombros. Saíra a fim de conquistar o Universo para a
Terra. Já dera o primeiro passo além do Sistema Solar. Agora temia
o segundo, porque sentia que seu poder repousava em bases pouco
seguras.
A Terra
estava sendo ameaçada pelos mercadores galácticos. Os aras, que
eram descendentes dos saltadores, obrigavam-nos, graças ao monopólio
de medicamentos que detinham, a atacar a Terra.
O ataque
seria desencadeado. Perry Rhodan tinha certeza absoluta. Por isso
mandara que o coronel Freyt regressasse à Terra com a Ganymed, a fim
de tomar todos os preparativos para uma defesa global. E, além da
Titan, a Ganymed era a única nave equipada com um transmissor
fictício.
Havia
apenas as duas naves, e não era possível construir outras do mesmo
tipo.
O que
significariam dois transmissores fictícios diante do ataque de duas
ou três mil naves de guerra dos saltadores?
Perry
Rhodan reconheceu com uma clareza solar os limites do poder que
detinha. Sabia que a Terra estaria perdida, se não encontrasse um
meio de frustrar o ataque que estava sendo planejado.
No
momento, não via como evitar a desgraça.
Bell
sentou a seu lado.
— Tomara
que não estejamos esperando demais do auxílio de Talamon. Há dias
não consigo livrar-me de um terrível pressentimento. Tenho a
impressão de que estamos correndo de olhos abertos para um fato que
subitamente nos atropelará — disse Perry Rhodan, como se estivesse
falando consigo mesmo.
Foi nesse
momento que a sala de rádio da Titan transmitiu a mensagem para o
camarote de Rhodan:
— O
patriarca Talamon decolou com todas as unidades de sua frota em
direção ao sistema de Gonom. Em Laros, que é a décima oitava lua
do antigo planeta Gom, será realizada daqui a três dias de Árcon a
assembléia dos saltadores e dos superpesados. Fim da mensagem
hipercondensada... Os dados astronômicos relativos ao sistema de
Gonom são os seguintes...
Rhodan
desligou. Levantou-se com um movimento ágil. O amigo, mais pesado,
levantou-se com um movimento lento.
Com a
assembléia que se realizaria dentro de três dias de Árcon na lua
Laros, situada no sistema de Gonom, o perigo que ameaçava a Terra
entraria num estágio muito mais ameaçador.
Perry
Rhodan não estava disposto a permitir que a reunião decorresse
tranqüilamente.
* * *
Santek,
que estava presidindo o Conselho de Médicos de Aralon, transmitiu a
informação de que a sentença de morte proferida contra o
inspetor-chefe Gegul fora executada e logo passou à ordem do dia.
Não
perdeu uma única palavra com a epidemia do ritmo de três horas
surgida em Exsar. Ele e os outros membros do Conselho não tinham o
menor interesse pelo destino de milhões de mercadores galácticos.
— Não
enviaremos observadores à assembléia. Este ponto já foi posto em
votação ontem. Todos conhecem o resultado.
“Numa
exposição lúcida o biólogo-chefe Keklos convenceu-nos de que, a
partir dos seus laboratórios, poderá realizar um serviço mais
discreto que o mais disfarçado dos observadores não descobrirá. Em
três naves dos saltadores, surgirão três doenças diferentes nos
sintomas, que provocarão o desassossego de que precisamos para
atingir nossos objetivos.
“Keklos
providenciará imediatamente uma demonstração de nossa capacidade
médica, que eliminará toda e qualquer suspeita de que estamos
empenhados num proveito material. Convencerá também os saltadores e
os superpesados de que a existência de todos nós só estará
garantida no momento em que Perry Rhodan e a Terra tiverem deixado de
existir.
“Posso
comunicar ao Conselho de Médicos que a posição do planeta Terra já
não é nenhum segredo para nós. Pelo contrário, está armazenada
na memória do cérebro positrônico instalado a bordo da nave
capitania de Topthor.”
A notícia
de Santek produziu o efeito de uma bomba.
Todos
reconheceram o enorme valor que possuía. Mas a desconfiança logo se
manifestou. Nakket indagou por que o superpesado Topthor guardara
este conhecimento só para ele por um tempo tão longo.
Mal a
indagação atingira o ouvido de Santek, o projetor se iluminou. Numa
imagem que correspondia ao quíntuplo do tamanho natural surgiu o
rosto quadrado e esverdeado de Topthor.
Santek
deixou que falasse. Esperava muita coisa da fala desajeitada do
velho.
A voz do
superpesado começou a trovejar quando relatou sua luta mais recente
com Perry Rhodan. Falava em tom realista, sem exageros e numa crítica
sadia. Entre outras coisas, disse o seguinte:
— Minha
frota devia ser considerada mais forte que a de Rhodan. Em minha
imaginação já o via destruído. Mas, de repente, agradeci aos
deuses por terem permitido que escapasse. As outras naves de guerra
de minha frota foram destruídas, e isso de maneira misteriosa. De
uma hora para outra desapareceram por completo. Rhodan pode ter dez
vezes mais inteligência que eu, mas o desaparecimento das minhas
naves nada tem a ver com a inteligência. Rhodan possui armas que não
têm igual no Universo. Sua força representa uma ameaça para nós.
Sua destruição e a de seu mundo, a Terra, garantirá nossa
segurança e a do Império de Árcon.
A fala de
Topthor ainda ressoava na sala quando a projeção se apagou. Os
rostos frios e cínicos dos aras sorriam uns para os outros. O velho
era seu porta-voz; era o representante dos seus interesses.
Santek
prosseguiu tranqüilamente:
— Faremos
um contrato com os mercadores galácticos e com os superpesados. Nós,
os aras, nos obrigaremos a prestar ajuda assim que surja qualquer
doença perigosa, e a fornecer-lhes todos os medicamentos constantes
de uma lista nominal com um desconto de cinqüenta por cento.
— Também
os medicamentos da série 08-KL-56? — perguntou Mulxc em tom sagaz.
Santek
exibiu um sorriso cínico.
— Poderemos
ser culpados se, depois da destruição de Rhodan e da Terra, em
todos os pontos surgirem novas epidemias e pestes, e se nós
conseguirmos produzir rapidamente, mas não rapidamente demais, os
respectivos antídotos? Oficialmente os preparados da série 08-KL-56
só serão fabricados em nossos laboratórios a partir do fim do ano.
Até lá não se falará mais em Perry Rhodan e em sua ridícula
Terra. Os saltadores e os superpesados só terão uma preocupação:
não desejarão contrair qualquer das doenças.
Fez uma
pausa e depois concluiu:
— Afinal,
devemos recuperar pela forma mais rápida e discreta o prejuízo
causado por Gegul.
A Titan
não provocou o menor ruído ao sair do hiperespaço. Todos superaram
rapidamente o choque da transição, que se manifestava através da
dor na nuca e do estado de semiconsciência. Na grande tela de visão
global, surgiu o sistema solar de Gonom, iluminando a sala de
comando.
Os últimos
controles do salto foram fornecidos pelos mais diversos setores da
nave esférica de 1.500 metros de diâmetro. O último controle,
destinado a verificar se o compensador estrutural ocultara a imersão
e a saída da Titan no hiperespaço, resultou num “tudo
OK”
transmitido à sala de comando.
Há vinte
horas-luz do pequeno sol vermelho de Gonom, a Titan voltara a
materializar-se no interior do grupo estelar M-13.
Gonom
ficava a 68 anos-luz de Árcon. O sol-anão, vermelho e muito feio,
possuía um único planeta anotado no catálogo estelar dos arcônidas
com o nome Gom.
O rosto
contrariado de Bell revelava o que pensava de tudo aquilo.
E Bell
tinha motivo para não ficar satisfeito com Gom.
O planeta
Gom, que era pouco menor que Saturno e possuía um diâmetro de
68.200 quilômetros, apresentava uma gravitação de 1.9 g. O fato de
que em sua superfície um objeto que na Terra pesaria cinqüenta
quilos quase chegaria a cem quilos não era tão grave. Mas acontecia
que seu tempo de rotação era idêntico ao tempo de translação em
torno do sol Gonom. E, segundo o catálogo estelar de Árcon, esse
tempo de translação era de 2,4 anos terranos. Isso significava que,
no grande planeta Gom, o dia durava 1,2 anos terranos e a noite
durava outro tanto.
— Pois
então, boa noite — disse Bell quando Crest, o arcônida, voltou a
lembrar esse fato.
— Ainda
há mais, Bell — disse Crest com um sorriso suspeito, que fez com
que Reginald Bell o fitasse atentamente. — Em Gom prevalecem
temperaturas extremas, furacões terríveis de mais de mil
quilômetros por hora correm furiosamente da face superaquecida
voltada para o sol em direção à face em que reina a noite. Além
disso, Gom ocupa um lugar especial entre os planetas porque, segundo
uma lenda que corre há milênios, nele se abriga uma forma de vida
terrível.
Até Perry
Rhodan aguçou o ouvido. Desde que quase naufragara em Honur,
considerava qualquer boato negativo sobre um planeta desconhecido
como informação extremamente importante.
Reginald
Bell não se sentia muito bem.
— Já
sei o bastante desse planeta — disse. — O simples fato de se ter
abastecido com dezoito luas o transforma aos meus olhos numa criatura
voraz.
Na tela de
visão global, brilhava o sol-anão vermelho de Gonom, produzindo uma
débil cintilância no planeta do tamanho de Saturno com suas
numerosas luas.
Os
rastreadores estruturais da Titan registravam constantemente as naves
dos saltadores e dos superpesados vindas do hiperespaço. Todas elas
se dirigiam à décima oitava lua, denominada Laros.
Laros
encontrava-se em oposição ao sol. Rhodan aguardava uma mensagem
codificada de Talamon.
* * *
O
biólogo-chefe Keklos chamava a atenção não apenas pelo seu
tamanho reduzido ou pelo reluzente jaleco branco de plástico com o
distintivo que emitia uma pálida luminosidade, mas principalmente
pela maneira de cumprimentar ou despedir-se de qualquer interlocutor.
Não
conseguia aproximar-se a menos de três metros das pessoas. Se alguém
o fizesse por ignorância ou esquecimento, não deveria admirar-se,
pois no mesmo instante a palestra, por mais interessante que fosse,
chegaria ao fim. Keklos dava bruscamente as costas e se afastava,
calando-se.
Mas esse
Keklos, ele mesmo um doente, era o mais genial dos biólogos e o mais
desconhecido de todos. Pouco mais de três dezenas de médicos dos
aras, com exceção daqueles que trabalhavam na lua de Laros, sabiam
quem era Keklos, o que fazia e o que sabia.
Keklos não
se preocupava com isso. Não se preocupava com coisa alguma, nem
mesmo com as leis divinas.
Muitas
vezes suas duras experiências representavam a morte de muitos seres
inteligentes. Não se detinha diante dos arcônidas, nem mesmo diante
dos aras, dos saltadores ou dos superpesados. Se as experiências por
ele realizadas traziam o extermínio de seres inteligentes, isso não
o interessava. Só estava interessado em alcançar seu objetivo.
E até
hoje sempre o conseguira.
Muito
satisfeito, contemplava os três bios que se encontravam diante dele,
separados por uma parede invisível de radiações. Representavam os
produtos mais recentes e sofisticados das retortas. Eram figuras de
três metros de altura, de estatura semelhante à dos homens, mas
providos de quatro braços. No lugar da cabeça alongada, traziam um
objeto de formato redondo.
O biólogo
continuava a examiná-los com muito interesse. Não conhecia a menor
emoção. Num movimento lento, pegou a arma de nêutrons, enquanto
com a outra mão movia a chave que desligava a parede das radiações,
que formava uma barreira invisível entre ele e os bios.
Apontou a
arma para o bio que se encontrava no centro. Este sabia o que o
aguardava. Um grito inarticulado saiu da boca redonda, que se abriu
como um diafragma. Mas o raio já estava saindo da arma portátil,
atingindo-o em cheio.
Até então
o impacto produzido por esta arma, que funcionava com base em ondas
de freqüência extremamente curta, representaria a destruição de
qualquer forma de vida orgânica.
Mas o bio
não morreu; apenas se sacudiu, até que Keklos suspendeu o terrível
bombardeio de radiações.
Num gesto
discreto, restabeleceu a barreira de radiações. Ao mesmo tempo
chamou seus colaboradores. Uma porta abriu-se atrás dele e três
aras entraram. Pararam a três metros de distância e aguardaram as
instruções do chefe.
— Vamos
realizar o teste de inteligência, a fim de verificar o grau de
imunidade dos bios face às radiações hipnóticas e mentais. Não
há mais necessidade de verificar a resistência ao fogo. Os
resultados já são conhecidos. Controlem o poder de expressão
verbal, e também a capacidade de armazenamento de dados. Até amanhã
de noite, deverei ter os dados sobre a resistência à tração da
estrutura de tendões, as manifestações de fadiga e...
As
instruções mais pavorosas foram transmitidas no fim, na presença
dos bios.
Um deles
começou a balbuciar.
Keklos
exaltou-se e ordenou com a voz fria:
— Levem
estes caras para fora! Chamem Moders!
Moders
chegou assim que os médicos-assistentes haviam desaparecido com os
bios.
O
gigantesco Moders que chamava a atenção pelos traços grosseiros de
seu rosto, parou a três metros do biólogo-chefe.
— Moders
— principiou o cientista, caminhando de um lado para outro. — As
instruções que ministrei em relação aos bios estão armazenadas.
Daqui em diante, o senhor cuidará do assunto. Devo dar certa atenção
aos saltadores e superpesados que estão realizando uma assembléia
por aqui. Se os resultados do teste, que será realizado amanhã,
forem favoráveis, use todos os meios disponíveis e force a produção
de bios, que deverá atingir cinco mil unidades por dia.
Continuaremos a seguir a orientação de que os bios não devem
receber estrutura óssea. Isso só nos faria perder tempo. A
estrutura de tendões de Sargon nos deu menos dor de cabeça.
“Cuide
para que os suprimentos de matéria-prima sejam remetidos
regularmente de Gom. Não preciso lembrar a carreira do
inspetor-chefe Gegul, que acabou no conversor.
“É só,
Moders. Pode retirar-se.”
Keklos, o
biólogo-chefe, era um monstro biológico, um ara que se esquecera de
que em todos os recantos da Via Láctea existe uma lei que diz: “Cure
os doentes, médico, mas nunca coloque os pacientes em perigo.”
Keklos
esperou até que Moders, que se encolhera com suas palavras, lhe
desse as costas. Depois disso, saiu por uma porta que só se abria
por meio da absorção de seu modelo de vibrações cerebrais.
Uma fita
levou-o rapidamente para baixo. Vez por outra uma luz saía da rocha
natural. Seu alcance era apenas de alguns metros. Ninguém
suspeitaria de que essas fontes de luz isoladas constituíam um
sistema de controle altamente sofisticado, que trabalhava com base
nas vibrações cerebrais e por isso não poderia ser enganado. Junto
a cada fonte de luz ainda havia um conglomerado de mortíferas armas
de radiações, que destruiriam qualquer pessoa não credenciada que
procurasse usar a fita para transportar-se aos laboratórios mais
secretos dos aras.
Uma enorme
porta blindada, que também só se abria diante do modelo de
vibrações cerebrais de Keklos, dava caminho para os laboratórios
III
e
C1. Com o passo seguinte dado por Keklos, uma camada de ar
tremeluzente desfez-se diante dele. Um campo de radiações
mortíferas fora automaticamente desativado.
Abriu a
porta seguinte, passou por uma comporta onde foi identificado e
penetrou na primeira sala do enorme complexo que formava o
laboratório III.
Não deu a
menor atenção aos aras que trabalhavam por ali. Caminhando pelo
amplo corredor central, passou pelas retortas, pelas encubadeiras,
por todo o conjunto de complicados aparelhos médicos. Dirigiu-se à
sala em cuja porta se via o sinal inconfundível de entrada proibida.
Keklos
teve de parar diante dessa porta. Comprimiu as palmas das mãos
contra a mesma. Subitamente ela deslizou para dentro da parede.
Keklos passou rápido e ficou parado, até que a porta voltasse a
fechar-se.
Viu-se
numa sala cujas paredes estavam revestidas de plástico azul,
inundado por uma luz intensa, também azul, que o obrigou a fechar os
olhos durante um instante. Ao contrário das outras salas do conjunto
que formava o laboratório III,
aqui
a temperatura era bastante fresca, quase fria.
O biólogo
Keklos estava sozinho.
Nem mesmo
Moders, seu colaborador mais chegado, fazia a menor idéia do segredo
que se ocultava aqui.
Neste
recinto, o prolongamento da vida orgânica já se transformara em
realidade.
Em passos
apressados, quase precipitados, Keklos dirigiu-se ao lugar em que
havia uma cadeira diante de um aparelho de aparência primitiva.
Quando
sentou, cada um dos seus movimentos exprimia a tensão e a
expectativa. Pegou o microscópio On que se encontrava à sua
direita. No momento em que a pequena esfera metálica negra que se
encontrava na extremidade do microscópio se dirigia sobre a massa
gelatinosa, a luz azul difusa apagou-se e uma escuridão impenetrável
passou a reinar na sala.
Imóvel,
Keklos esperava. Uma coisa cinzenta apareceu, tornou-se mais
luminosa, assumiu contornos definidos e acabou sendo reconhecida como
tela de imagem.
Keklos não
fez nenhum movimento. O microscópio On não exigia qualquer tipo de
regulagem. Regulava-se por si mesmo, mediante sua mini-positrônica.
Em redor de Keklos, os campos energéticos formados por feixes de
raios zumbiam e crepitavam. Parecia uma tabuada das bruxas,
resultante da combinação da medicina e da tecnologia dos aras.
O
biólogo-chefe Keklos era o homem que sabia fazer a mistura genial
dos dois ingredientes, para atingir seus objetivos.
Conteve a
respiração. Mais uma vez o microscópio On desvendava o misterioso
processo de envelhecimento das células, mas aqui...
Keklos era
um fanático. Esqueceu-se do tempo e da hora. Seus olhos não se
cansavam de contemplar a tela do microscópio On para enxergar o
milagre da juventude das células que segundo as leis da biologia já
deviam ter entrado na fase da atrofia.
Keklos
manteve-se num silêncio total. Não proferiu uma palavra, não
soltou um suspiro que exprimisse seu triunfo. Diante de seus olhos
estava traçado o caminho que lhe permitiria prometer a todos os
aras, já amanhã, um prolongamento de trinta por cento em suas
vidas.
“Daqui
a cem anos”,
pensou Keklos, “ainda
serei o biólogo-chefe; e daqui a cem anos já terei descoberto o
segredo da vida eterna. É uma pena que não consegui ficar com Thora
para realizar minhas experiências. Estou muito interessado em sua
estrutura celular. Também gostaria de saber por que essa mulher, ao
contrário da maioria dos arcônidas, ainda possui certo poder de
iniciativa. Para realizar a nossa série de experiências, não
poderei dispensar os indivíduos do segmento superior da sociedade
arcônida. Amanhã requisitarei dez deles por intermédio de Aralon.
Nos hospitais, há material de sobra...”
Recostou-se
e passou a mão pelos olhos cansados. A primeira fase da experiência
de cento e setenta e oito anos havia chegado ao fim.
Em sua
imaginação, o biólogo-chefe Keklos já via os aras como sucessores
dos arcônidas, dominando o império do grupo estelar M-13.
Não
julgava necessário incluir Perry Rhodan em seus cálculos.
* * *
O receptor
de hipercomunicação da nave capitania de Topthor emitiu o sinal de
chamada. Por coincidência, o velho superpesado se encontrava na sala
de comando. Virou-se e verificou que a transmissão estava sendo
recebida na freqüência de Talamon. Quando o rosto velho e
sorridente de Talamon surgiu na tela, berrou:
— Por
todos os deuses da Galáxia, Talamon, onde foi que você se meteu com
suas naves? Metade da Via Láctea andou à sua procura, inclusive eu.
E o quartel-general também o procurou.
O sorriso
no rosto de Talamon continuou, mas assumiu um ar matreiro.
— Topthor,
vou ligar o deformador. A palavra-chave será obsian.
Topthor
logo aguçou o ouvido. Lançou os olhos em torno.
— Dêem
o fora — disse aos membros do clã que se encontravam por ali.
Mal o
último deles havia saído da sala de comando do couraçado, moveu
algumas chaves do acessório do hipercomunicador, baseando-se na
palavra-código obsian.
O
relatório de Talamon foi recebido em linguagem clara. Topthor
parecia muito interessado naquilo que seu melhor amigo tinha a
informar. Não ficou zangado com o fato de que, apesar da transmissão
deformada, Talamon se exprimia com muita cautela e muitas vezes se
limitava a insinuações.
— Será
que não posso participar do negócio, Talamon? — disse, sondando a
fonte de ouro de que Talamon lhe falara por meio de circunlóquios.
— Pois é
por isso que estou chamando, meu velho — disse Talamon, e seu rosto
sorria para a sala de comando. — Basta que você disponha de cem
milhões em dinheiro para ganhar cinco vezes essa soma no prazo de um
mês.
O velho
Topthor não teve mais vontade de rir.
— Cem
milhões? Você só pode estar brincando. Onde vou arranjar uma soma
destas?
Todo mundo
conhecia o superpesado Topthor como uma pessoa que podia fazer tudo,
menos exagerar seus recursos. Ele e seu clã pertenciam aos nababos
do grupo estelar M-13. Bastava-lhe abrir o bolso para tirar cem
milhões, mas o velho manhoso gostava de tudo, menos gastar dinheiro.
Talamon
não disse uma única palavra sobre o aço Árcon-T que se encontrava
em Honur. Recorreu à explicação que inventara:
— Topthor,
não foi por simples comodidade que deixei de responder às
mensagens. Apesar do deformador, bastaria que alguém tivesse
interceptado nossas mensagens. E se eu as tivesse respondido, uma
única vez que fosse, o espia poderia saber em poucas horas por onde
andei com minha frota. Topthor, tenho em mãos o negócio de minha
vida. Reflita, meu velho. Você dispõe de dezoito horas. Fim,
Topthor.
A imagem
de Talamon apagou-se na tela. Topthor fitou a tela com uma expressão
pensativa.
Arriscar
cem milhões para receber quinhentos, sem disparar um tiro, sem
arriscar uma única nave, deixar de tirar as castanhas do fogo para
os saltadores...
Bastante
contrariado, Topthor levantou-se e monologou:
— Por
que Talamon não me deu cinco minutos para pensar? É claro que
participarei do negócio. Que droga! Já não estou gostando nem um
pouco desta assembléia. Ganhar quinhentos milhões num mês sem
arriscar a pele! Meus queridos aras, durante a última visita vocês
foram gentis demais. Terei que decepcioná-los cruelmente. Afinal,
não sou seu leão-de-chácara. Vocês mesmos terão de ver como
conseguem convencer aquelas cabeças ocas. Eu tenho coisa mais
importante a fazer: ganhar a soma insignificante de quinhentos
milhões. Planetas proibidos e sóis que se encolhem. Isso até podia
fazer com que me esquecesse de Perry Rhodan. Quem dera que eu
soubesse no que consiste o grande negócio de Talamon.
* * *
Perry
Rhodan captou a mensagem de hipercomunicação expedida por Talamon.
A mesma representava o sinal convencionado de que dentro de uma hora
chegaria a menor das naves de Talamon, para recolher os mutantes com
uma Gazela.
Bell
levantou-se do assento do co-piloto.
— Vou
aprontar-me — disse em tom satisfeito. — Os mutantes já foram
avisados.
Laros, a
décima oitava lua do planeta Gom, era um mundo de oxigênio que,
pelo diâmetro e gravitação, se aproximava das condições
reinantes na Terra.
Dois
grandes oceanos separavam os continentes baixos. Em Laros havia
apenas oito cidades grandes. Comparados aos padrões arcônidas, eram
cidades sem importância. Juntamente com seus conjuntos hospitalares
apenas serviam de camuflagem aos centros de pesquisa subterrâneos
dos aras. Numa extensão muito maior que em Aralon, a lua Laros fora
transformada num só conjunto de cavernas. Mais de três milhões de
médicos aras realizavam sob a superfície aparentemente inofensiva
experiências que em hipótese alguma poderiam chegar ao conhecimento
dos habitantes da Galáxia.
O Conselho
Geral, que era a instância suprema da qual os médicos recebiam
ordens, emitira uma diretiva destinada a proteger Laros e seus
laboratórios secretos. Qualquer ara que pisasse no sistema, ali
deveria permanecer até o fim de seus dias.
Apenas o
biólogo-chefe Keklos e cinco dos seus colaboradores mais chegados
estavam excluídos dos efeitos da diretiva.
Os
médicos, que trabalhavam nos conjuntos hospitalares situados na
superfície, não tinham a menor idéia de que, sob seus pés, três
milhões de colegas estavam reduzidos à escravidão perpétua. Os
médicos cativos realizavam experiências cujo objetivo consistia em
um dia transformar o Império de Árcon num mundo pertencente aos
aras.
O
biólogo-chefe Keklos — que oficialmente exercia as funções de
dirigente de todos os estabelecimentos hospitalares de Laros, nos
quais se tratavam com exclusividade as doenças causadas por
perturbações no metabolismo de minerais — recebeu o bioquímico
Tragh, um homem de rosto desfigurado.
Os olhos
de Tragh tremiam. Há trinta dias fora desterrado para Laros; mal e
mal conseguira escapar à pena de morte. Mas ainda tinha razão para
temer a ação da justiça. Era culpado por mais três crimes, ainda
não esclarecidos. Foi nisso que pensou quando recebeu ordens para
apresentar-se ao biólogo-chefe Keklos.
E agora
via-se diante daquele homem poderoso e influente, verdadeiro soberano
não coroado de Laros.
Keklos não
o deixou em dúvida sobre os motivos do chamado. Lançou-lhe à face
os crimes que na opinião do bioquímico ainda não haviam sido
esclarecidos.
— Não
fique tremendo, seu desgraçado! — trovejou Keklos. — Poderia
perfeitamente entregá-lo ao conversor, mas resolvi dar-lhe mais uma
chance, Tragh.
“Preste
atenção!
“As
naves dos saltadores e dos superpesados chegam ininterruptamente a
Laros. Os tripulantes sabem que com o pouso estão sujeitos a
quarentena. Esta só será suspensa no momento em que uma junta
médica tiver subido a bordo e constatado que a tripulação está em
perfeitas condições de saúde e que a nave não é portadora de
qualquer doença. Vimo-nos obrigados a adotar este procedimento em
virtude do incidente surgido no planeta Exsar, onde irrompeu a
epidemia do ritmo de três horas, cuja causa foi inexplicavelmente
atribuída aos aras.
“O
senhor participará, na qualidade de bioquímico, do exame das naves
que pousarem aqui. Mas sua tarefa principal não consistirá em
ajudar a junta nos seus trabalhos, e sim em colocar um destes
comprimidos nos aparelhos de ventilação de três naves em cada
grupo de oito.
“Se o
senhor se desincumbir dessa tarefa de forma a deixar-me satisfeito,
estarei em condições de entregar-lhe o indulto do Conselho Geral.
“Assim
que eu sair desta sala, o senhor se aproximará de minha
escrivaninha, tirará três comprimidos e gravará na memória todos
os detalhes registrados neste quadro luminoso.”
Keklos
concluiu com uma ameaça desumana.
— Se
cometer qualquer erro, por menor que seja, terá uma aventura: será
utilizado nas experiências de alguma das divisões de estudos de
epidemias.
Perplexo,
Tragh seguiu o homem temível com os olhos.
Não
acreditava em nada do que o chefe acabara de dizer. Já se
considerava um homem destinado à morte. Mas o desespero lhe impôs
aquela esperança desarrazoada que faz com que o homem que se afoga
procure agarrar-se a um cisco.
Correu
para junto da escrivaninha, segurou avidamente os três comprimidos,
colocou-os no bolso sem olhá-los e passou a estudar as indicações
constantes do quadro luminoso. Só então compreendeu o plano
terrível do biólogo-chefe.
* * *
Bell deu o
alarma, embora naquele instante tivesse passado, juntamente com os
mutantes, para a menor das naves de Talamon, que os levaria à Tal
VI.
— O que
houve? — perguntou Perry com a voz tranqüila.
— Pouca
coisa — principiou Bell. Quando começava assim, sempre havia
alguma coisa grave. — Você sabia que Laros é uma fortaleza dos
fabricantes de venenos, Perry? Quem manda lá são exclusivamente os
aras. Por acaso estou lendo uma dessas ordens de quarentena...
— Um
instante, Bell!
Reginald
Bell viu na tela que Perry virava a cabeça. Ouviu a pergunta:
— Crest,
o senhor não sabia disso?
Crest, que
era um dos líderes científicos do Império de Árcon, sacudiu a
cabeça:
— Há
trezentos anos Laros era apenas uma base pouco importante de Árcon...
Bell ouviu
que o amigo respirava pesadamente.
Perry
Rhodan voltou a fitar a tela. Seu rosto exprimia uma tensão mantida
sob controle com uma concentração extrema. Seu instinto infalível
farejou a desgraça.
Bell
também a farejou. Havia algo de errado nessa ordem de quarentena.
Bell começou a esbravejar. À medida que lembrava os acontecimentos
do planeta Exsar e lia as frases hipócritas dos aras, sua voz
tornava-se cada vez mais incisiva.
— Quando
foi emitida essa ordem de quarentena, Bell?
Reginald
Bell compreendeu a finalidade da pergunta. Perry Rhodan estava
desconfiando de Talamon. Por isso apressou-se em responder:
— Esta
ordem ainda não tem cinco minutos. Acaba de chegar de Laros por meio
do hipercomunicador.
— OK! —
Perry acenou com a cabeça. — Você já sabe como deve agir
juntamente com os mutantes depois do pouso.
— Muito
bem — disse o gorducho com um sorriso. — Não estou preocupado
por nossa causa, mas gostaria de saber o que os membros do clã de
Talamon vão dizer à comissão dos aras quando se encontrar diante
de nossa Gazela.
— Você
acha que os aras precisam ver a Gazela, Bell? — perguntou Perry em
tom suave e desligou.
O palavrão
proferido por Bell não chegou a ser recebido.
* * *
Laros
possuía um espaçoporto de primeira classe, de dimensões
espantosas. Media mais de cem quilômetros de lado e oferecia lugar
para uma frota de tamanho médio. Sua pavimentação era tão
resistente que mesmo as naves arcônidas da classe Universo poderiam
pousar ali sem recorrer aos campos antigravitacionais.
Bell
encontrava-se ao lado do patriarca Talamon e fitava espantado o
enorme espaçoporto. O confidente de Rhodan tinha suas idéias a
respeito do mesmo, mas contrariamente ao seu costume não as
exprimia.
Quem
conhecesse Bell saberia que esse silêncio representava uma ameaça.
O
hipercomunicador soou.
Era um
chamado de Laros.
“Há
ordens para não pousar. Em Laros existe o perigo de contaminação.”
— Por
que está rindo, Bell? — perguntou Talamon, que das outras vezes
costumara mostrar-se tão desconfiado.
Bell
escarneceu:
— Estou
rindo desse truque desmoralizado. Não é de admirar que esses
misturadores de venenos não tenham tido uma idéia melhor. Os aras
andam ocupados demais para espalhar as doenças. Tomara que lá
embaixo eu consiga agarrar o Gegul.
Não
conseguia esquecer o crime que Gegul cometera contra Exsar, um dos
planetas dos saltadores. Pedira ao arquivo da Titan todas as
informações relativas à terrível epidemia do ritmo de três
horas.
Reginald
Bell era uma criatura bonachona. Qualquer pessoa que conhecesse seu
lado fraco o enrolava, mas bastava sentir a menor intenção
criminosa para que deixasse de lado as brincadeiras. O procedimento
de Gegul foi um dos crimes mais repugnantes de que já tivera
conhecimento, e o desejo de pôr as mãos no criminoso correspondia à
natureza de Bell.
* * *
Quando os
robôs de combate dos aras apareceram diante das enormes comportas da
nave dos saltadores Xul II,
os
mercadores galácticos e os superpesados afastaram-se
precipitadamente.
Uma nave
do serviço médico dos aras aproximou-se velozmente, pouco acima das
naves cilíndricas dos saltadores. Ininterruptamente ouvia-se o
alarma de epidemia, um sinal conhecido e temido em todo o grupo
estelar M-13.
O alarma,
além de ser transmitido por via acústica e ótica, o era também
por meio de vibrações.
A pequena
nave do serviço médico ainda não havia percorrido metade da
extensão do campo espacial quando apareceram cinco naves de grandes
dimensões, pararam acima da Xul III
e
erigiram um campo protetor em torno do corpo cilíndrico dessa nave.
Pouco depois, surgiu uma nave gigante dos aras.
Parou
exatamente acima da Xul II.
Aos
poucos, foi-se abrindo a junta da quilha da nave, que media quase
trezentos metros de comprimento e mais de sessenta metros de largura.
A abertura se parecia com a boca de um monstro que estivesse pronto
para engolir a nave contaminada, a Xul II.
A nave
gigante desceu lentamente na vertical. Quando se encontrava cinqüenta
metros acima da Xul II,
a
nave cilíndrica desprendeu-se da superfície do campo de pouso, foi
erguida por potentes raios de tração e introduzida na abertura da
nave gigante.
A junta da
quilha voltou a fechar-se silenciosamente. Uma escotilha após a
outra foram se fechando. Era um quadro fantasmagórico. Era centenas
de naves espalhadas pelo gigantesco espaçoporto, a ação de socorro
dos aras foi acompanhada pelas telas de televisão. O comentador
evitou qualquer auto-elogio. A imagem foi transferida para um
laboratório.
Instrumentos
brilhantes, cuja finalidade nem os saltadores nem os superpesados
conheciam, apareciam nas telas. O rosto ascético de um ara surgiu no
campo de visão. Seu olhar hipnotizava os espectadores. Falava
lentamente, às vezes com a voz hesitante. Descreveu a doença que
acabara de ser descoberta a bordo da Xul II.
— Já
conhecemos essa doença, e dispomos do preparado que nos permite
curá-la.
O tom de
sua voz permaneceu inalterado. Suas palavras pareciam modestas.
Causou enorme impressão nas pessoas que se encontravam diante das
telas.
— Infelizmente
vejo-me obrigado a informá-los de que descobrimos hoje na Xul II
o
terceiro caso, que nos obrigou a isolar também esta nave. Mas
podemos garantir que restabeleceremos os três patriarcas, que
poderão participar da assembléia. Peço licença para despedir-me e
garantir-lhes uma feliz estada em Laros.
Foi o fim
da transmissão.
Para o
bioquímico Tragh, essas palavras também representaram o fim da
carreira e da vida. Quando a junta médica se retirou, também
procurou sair da Xul II
para
dirigir-se à nave dos aras que levaria o barco aparentemente
contaminado à ilha de isolamento de Merk.
Porém
dois aras o impediram de entrar na comporta. No mesmo instante,
farejou o perigo. Lançou os olhos pelo amplo convés, à procura de
socorro. O corredor da Xul II
estava
vazio.
Ninguém
ouviu o chiado de duas armas de radiações. Os assassinos guardaram
os instrumentos do crime nos bolsos e saíram da Xul II
com
os rostos sorridentes.
Não
pertenciam à junta médica.
Eram
funcionários do Serviço de Segurança.
Quando
entraram no escritório da nave, o maior deles, com um gesto
indiferente, entregou a arma.
— Missão
cumprida — disse laconicamente.
— Foi o
segundo caso deste ano em que um ara vendeu medicamentos, ainda não
liberados, aos arcônidas. E esse Tragh o fez quatro vezes. Bem,
recebeu a paga por isso.
Estas
palavras foram proferidas pelo homem que pegou a folha de plástico.
* * *
Talamon
acabara de pousar em Laros com sua nave capitania Tal VI.
Topthor
fizera o necessário para que o amigo pudesse descer junto à sua
nave.
Naquele
momento, a junta médica dos aras se retirava. Bell e seus mutantes
saíram do esconderijo com os rostos sombrios. Passaram menos de meia
hora nos mesmos. Aquilo que antes do pouso em Laros parecia um perigo
enorme, acabara revelando-se uma simples bagatela.
— Foi
uma tapeação — resmungou Bell para Talamon. — Os aras não têm
o menor interesse na saúde de vocês. Os misturadores de venenos só
querem fazer boa figura, para que o fracasso em Exsar caia no
esquecimento. Então, todos vocês foram minuciosamente examinados?
Talamon
limitou-se a lançar um olhar perplexo para Bell. O ímpeto com que o
ser da misteriosa Terra se apresentava diante dele era demasiado. Aos
poucos, começou a compreender por que Perry Rhodan conseguira levar
a Titan de Árcon apenas com um punhado de homens. Mas ainda não
sabia o que seus hóspedes pretendiam fazer em Laros. Nem Perry
Rhodan, nem Bell lhe haviam contado qualquer coisa a este respeito.
Os mutantes, que estavam sentados atrás dele, sem dizer uma palavra,
não reagiam às suas perguntas.
Talamon
compreendia ainda menos o que aquela moça estaria fazendo entre os
seres adultos da Terra. Vivia olhando para Betty Toufry, e quando
isso acontecia, Talamon, que era pai de mais de uma dezena de filhas,
mostrava um brilho de bondade paternal nos olhos.
Já o
mutante Ivã Goratchim com suas duas cabeças lhe inspirava certo
receio. O mesmo acontecia com o negro Ras Tschubai, que o chocava
devido à cor da pele.
— A
assembléia será realizada depois de amanhã, Talamon? A que horas?
— perguntou Bell, parando por acaso diante de um aparelho cuja
finalidade lhe era desconhecida. — O que é isso? — perguntou,
apontando para o aparelho.
Talamon
moveu sua massa de muitos quilos, aproximando-se sem desconfiar de
nada. O vulto largo de Bell encobria o aparelho.
— Isso...
— Talamon quase perdeu o fôlego. Com um movimento instantâneo,
moveu uma chave. Com um brilho esverdeado no rosto, gaguejou: —
Quem ligou o hipercomunicador?
Bell
sentiu um calafrio.
Fazia uma
hora que conversava abertamente com o patriarca. Mais de uma centena
de vezes mencionara o nome de Perry Rhodan. Dissera quantos estranhos
o superpesado escondera a bordo da Tal VI,
quanto
tempo a Gazela levaria para abrigar-se no hangar secreto e qual era
seu raio de ação.
Bell
lançou um olhar de desespero para John Marshall. Este fez um esforço
tremendo para acenar com a cabeça.
Tako
Kakuta, o teleportador japonês com rosto de criança, desapareceu
sem que ninguém o percebesse.
— Ninguém
de nós ligou o hipercomunicador — disse Kitai Ishibashi. Realizara
um controle instantâneo no cérebro dos colegas e em nenhum deles
encontrara o mais leve resquício de sentimento de culpa.
Com uma
rapidez surpreendente, o superpesado recuperou a capacidade de ação.
Com uma
ligeireza de que ninguém o julgaria capaz saltou para junto do
intercomunicador de bordo:
— Fechar
todas as comportas! Ninguém poderá sair!
Bell
limitou-se a acenar com a cabeça.
O que
estava em jogo não era apenas a vida das pessoas que se encontravam
a bordo, mas a de todos os membros do clã.
Mal
Talamon desligou o intercomunicador, ouviu-se um chamado vindo da
sala de rádio:
— O
patriarca Topthor quer fazer-lhe uma visita.
— Não
estou a bordo! — berrou o velho, que não parava de fungar.
— Senhor,
eu disse ao patriarca que Talamon está presente...
Soltando
uma das pragas dos superpesados, Talamon voltou a desligar para
soltar um grito.
O ar
começou a tremer diante dele. E em meio ao tremor, formou-se um ser.
Tako Kakuta voltara a materializar-se diante do superpesado.
Dando
todas as mostras de pavor, o velho foi recuando passo a passo até
esbarrar na parede. Fitava aquele homem pequeno e franzino, que
estava apresentando seu relato a Bell.
“Por
onde teria andado ele?”
“Na
central do hipertransmissor da lua Laros?”
“Quando?
Pois há poucos minutos, eu o vi sentado junto ao negro.”
— Ó
deuses estelares, e o hipercomunicador... — Bell gritou em meio aos
gemidos desesperados de Talamon:
— Desta
vez os deuses estelares não meteram os dedos nisso.
Talamon
sempre fora um homem muito cortês. Muitas vezes não compreendia ou
custava a compreender a linguagem figurada de Bell, cujas metáforas
sempre estavam adaptadas às condições terranas. Nervoso como
estava, também desta vez não compreendeu nada. Talamon, o
ponderado, o inteligente, o honesto, o superpesado que nunca era
abandonado pela presença de espírito. Talamon explodiu e berrou tão
furiosamente para Bell que quase chegou a derrubá-lo.
Falou nos
deuses, dizendo que os mesmos não tinham dedos, e que não
compreendia como alguém podia blasfemar contra eles numa situação
como esta. Talamon nem se lembrou que não costumava ser muito
religioso, e que muitas vezes a ambição do lucro o fizera esquecer
os deuses.
Naqueles
segundos, jurou a plenos pulmões que nunca mais se desviaria da
senda da virtude e da obediência aos mandamentos dos deuses.
Se não
fosse a parede contra a qual se recostava teria fugido da gargalhada
de Bell. Parado diante dele, mal e mal conseguiu colocar as mãos nos
ombros de Talamon e disse:
— Acalme-se,
Talamon!
O ser, que
para Talamon era um monstrinho amarelo com olhos de formato estranho,
também se encontrava ao lado de Reginald Bell.
As
intenções de Tako Kakuta eram as melhores possíveis. Apenas queria
mostrar-lhe que a arte de dissolver-se no ar e desaparecer não
representava nada de especial.
Mas Kakuta
conseguiu exatamente o contrário. Talamon procurou segurar-se em
Bell. O tremeluzir do ar quase lhe rouba o juízo.
— Talamon
— gritou Bell — a estação de rádio da Titan deve ter deformado
nossa transmissão de hipercomunicação. Não há outra explicação.
Há uma hora os aras que se encontram na central da grande estação
de hipercomunicação andam que nem uns doidos, porque não conseguem
transmitir nem receber qualquer mensagem inteligível. Homem, será
que você ainda anda tapado?
O velho
martirizou-se:
— Bell,
quem dera que o senhor pudesse falar numa língua que também eu
possa entender. O que significa andar tapado?
* * *
— Será
que esse gorducho enlouqueceu? — berrou Perry Rhodan e no mesmo
instante transformou-se no “reator
instantâneo”.
Agiu.
Enquanto as três dezenas de pessoas que se encontravam a seu lado
pareciam ter sofrido um ataque.
O
hipercomunicador transmitia a voz de Bell.
E o que
não dizia esse sujeito!
Mas não
demorou que tudo passasse.
Sem sair
do seu assento e sem preocupar-se com a segurança da Titan, Perry
Rhodan fez com que a estação de hipercomunicação da nave
funcionasse como transmissor de interferência.
De início
funcionava apenas na freqüência de Talamon, mas logo os técnicos
tiveram de entrar em ação. Rhodan exigiu que fizessem o impossível.
Dali a um minuto, participou da operação, causando uma admiração
irrestrita no próprio engenheiro-chefe do setor de rádio.
— Nenhuma
transmissão de hipercomunicação pode sair de Laros ou ser recebida
lá. Quero que os aras tomem conhecimento. Bradger, por que não
acopla o 16-cento e quatro ao emissor de freqüência circular? Vamos
logo! Deixe o espanto para depois...
A agitação
continuou por dez minutos. Rhodan tangia sua equipe com uma
velocidade que fazia com que um após o outro fossem ficando pelo
caminho.
Quando a
interferência do emissor da Titan chiava em todas as freqüências,
Rhodan enxugou o suor da testa, com uma calma tremenda acendeu um
cigarro e perguntou em voz baixa:
— Estou
curioso para ver por quanto tempo Bell nos oferecerá este
espetáculo.
Sua voz
parecia calma como sempre. Seus olhos não brilhavam, nenhum músculo
da face se movia.
Sua calma
impôs-se a todos, da mesma maneira que dera aos técnicos de radio
uma demonstração prática de seu saber.
O chefe
voltou para o assento do piloto e acomodou-se. Na gigantesca sala de
comando da Titan, não se ouvia outro ruído. As outras pessoas, que
ali se encontravam, respiravam silenciosamente e não se atreviam a
fazer o menor movimento.
Gucky, o
rato-castor, era o único ser que não conhecia essa forma de
reverência. Teleportou-se para o colo de Perry, que não parecia
muito satisfeito com a visita. Estava prestes a espantar Gucky com um
movimento da mão, quando este começou a chiar:
— Chefe,
você não acha que esses vermes devem estar roendo o setor de
memória do hipercomunicador de Laros e logo terão passado pelo
mesmo?
Era a fala
típica de Reginald Bell, e naquele instante Perry Rhodan também não
a entendia. Embora não o demonstrasse, estava desgastado por dentro.
O espetáculo que Bell lhe oferecera com essa transmissão de
hipercomunicação não tinha igual.
— Gucky,
você veio para me chatear?
O
rato-castor, que era um excelente telepata, lia a mente de Perry como
num livro aberto. Cochichou baixinho:
— Perry,
os primeiros dez segundos da transmissão de Bell estão armazenados
nos aparelhos dos aras. Se arrancarem esse estéreo, nossa ação em
Laros entrará pelo cano.
A
observação de Gucky expôs o calcanhar de Aquiles da situação em
que se encontravam.
— Chefe,
deixe-me saltar! Mostrarei uma coisa aos aras! Deixe, sim, Perry?
Esse
moleque do Gucky sabia implorar que nem uma criancinha, mas quem dali
concluísse as qualidades do rato-castor, estaria cometendo um engano
vergonhoso.
Esse ser
em forma de animal, mas que não era nenhum animal, era inteligente
como um homem e dominava a teleportação, a telecinese, a arte de
ler os pensamentos e outras faculdades que jaziam em seu espírito.
Era frio, impetuoso, esperto e sabia lidar com qualquer situação.
E
encontravam-se diante de uma situação que teria de ser resolvida
por Gucky, se não quisessem deixar cair num abismo tudo que Perry
Rhodan conseguira realizar.
— Volte
são e salvo, Gucky — disse Perry, dando permissão para saltar.
No mesmo
instante, o rato-castor desapareceu de seu colo.
Laros
ficava a vinte horas-luz da Titan!
* * *
O
biólogo-chefe Keklos ficou satisfeito ao ouvir que a grande nave
cargueira, repleta de matérias-primas, decolara de Gom.
“A
carga chegou na hora exata para a assembléia dos patriarcas dos
saltadores”,
pensou muito feliz e transmitiu suas instruções.
* * *
Bell
estremeceu. Um peso de cinqüenta quilos pousara em seus ombros.
Antes que compreendesse o que era, ouviu a voz fininha de Gucky:
— Gorducho,
você me arranjou um trabalho muito bonito! Os aras já estavam para
se atirar em cima da memória do hipercomunicador, e por pouco não
ouvem sua voz. Fiz umas brincadeiras com
esses
fazedores de pílulas. Quando estavam completamente prostrados, na
memória do hipercomunicador não havia outra coisa senão os
lamentos dos dervixes. O chefe ainda anda preocupado, pois não sabe
quem mais pode ter ouvido sua voz por essas estrelas afora. Até logo
mais — Bell não sentia mais aquele peso no ombro.
Ninguém
riu da brincadeira do rato-castor. Ainda estavam gelados de susto, e
foi esta a impressão que Gucky levou à Titan.
O
rato-castor voltou a materializar-se no colo de Perry Rhodan.
Perry
suspirou aliviado. Gucky fez de conta que não percebia nada, mas no
seu íntimo sentiu-se orgulhoso pela preocupação que o chefe
sentira por ele.
— Chefe
— chiou — no momento não podemos contar com o gordo, nem com os
outros. Li os pensamentos de Marshall. Procura desesperadamente
descobrir quem lhes pregou a peça com o hipercomunicador.
— A
coisa está começando bem — limitou-se Rhodan a responder.
* * *
Topthor
estava sentado diante de Talamon. Examinava atentamente o amigo.
Talamon
parecia doente. A maneira de cumprimentar Topthor fora pouco
calorosa. Ele não viera para passar algumas horas conversando, mas
sim para colher mais algumas informações sobre o grande negócio.
Como bom
negociante, procurou antes de mais nada descongelar Talamon.
— Cekztel
também deve chegar hoje, meu caro! — revelou.
Cekztel
era chefe de todos os clãs dos superpesados.
Talamon
não pensava em outra coisa senão nas transmissões de
hipercomunicação realizadas a partir de sua nave.
— Ah, é?
— disse por uma questão de cortesia.
Topthor
tentou a aproximação de outro lado.
— Desta
vez Rhodan e a Terra estão perdidos.
— Você
acha? — perguntou Talamon.
Topthor
esbravejou:
— Será
que você só pensa nesse grande negócio?
— Em
quê...?
Topthor
nunca fora uma pessoa muito bem-humorada, mas agora seu senso de
humor era praticamente nulo. Bateu com o punho na mesa.
— Diga
logo o que houve com você, meu velho. Nem pensa no seu grande
negócio, pouco lhe importa que Cekztel venha e o fato de que dentro
em breve já não teremos que temer Rhodan e sua Terra não o
interessa nem um pouco. Talamon, será que ainda somos amigos?
— Se não
fôssemos, eu lhe teria oferecido participação no meu negócio? —
esquivou-se Talamon.
— Você
não está respondendo à minha pergunta — trovejou a velha raposa.
— Você tem problemas? Pois também tenho. Os aras me dão dor de
cabeça.
Finalmente
Talamon mostrou-se interessado. Inclinou-se para a frente e, embora
estivessem a sós, falou aos cochichos:
— Topthor,
em minha nave há um vil traidor. Um indivíduo do meu clã quer me
vender. Se conseguir, a nave chamada Tal VI
deixará
de existir.
— Isso
tem algo a ver com seu grande negócio? — indagou Topthor.
— Em
parte, Topthor. Por isso no momento não sei se será conveniente
para você ser meu sócio.
O
superpesado riu a plenos pulmões.
— Sirvo
muito bem para o negocio, Talamon. Sou o único superpesado que sabe
onde pode ser encontrado o planeta Terra. É isso mesmo, Talamon. Os
dados estão no meu cérebro positrônico de bordo, muito bem
armazenados e... — sua voz reduziu-se a um cochicho. — Quer saber
de uma coisa? Codifiquei o setor de memória de tal maneira que
jamais um ara conseguirá os dados sem meu consentimento.
Os olhos
de Talamon iluminaram-se. Sabia que Topthor seria incapaz de
enganá-lo.
— Quer
dizer que você gosta deles tanto quanto eu, Topthor. Ainda prefiro o
tal do Perry Rhodan...
O outro
logo mordeu a isca, com tamanha força que Talamon teve de
esforçar-se ao máximo para não trair sua alegria. O amigo
trovejou:
— Eu
também! Quase explodi quando ouvi falar no crime que praticaram
contra o planeta Exsar. E quando me disseram que Aralon estava
lançando uma ação de socorro gratuita, as vendas me caíram dos
olhos. Tenho vontade de mandar a assembléia para os ares.
— Será
que não foi você quem colocou a bomba no planeta de Goszul? —
perguntou Talamon em tom sarcástico e sentiu que sua disposição de
espírito melhorava.
— Tolice!
— resmungou Topthor. — Mas de repente a idéia de lançar um
ataque contra Rhodan não me dá mais o menor prazer. Diga-me uma
coisa: você é fá do Rhodan? Você não fala mal dele, e isso não
corresponde ao seu gênio.
— Topthor,
você acha que a gente deve falar mal de um ser que teve o direito e
a possibilidade de nos matar, mas não usou esse direito e essa
possibilidade? É só por isso que o clã de Talamon ainda existe,
Topthor.
Topthor
levantou-se abruptamente.
Lançou um
olhar prolongado e pensativo para o amigo. Este sustentou o olhar.
Dois seres, cada um com mais de seiscentos quilos, ambos velhos,
inteligentes e espertos, endurecidos em muitas batalhas espaciais
sangrentas, acenaram com a cabeça.
Topthor
disse em tom grave:
— Se não
estou enganado, continuo vivo apenas porque em certa batalha Rhodan
achou preferível não me transformar numa nuvem de gases. Mas não
preciso dormir em cima disso, Talamon. Agora este Rhodan começa a me
causar preocupações por um lado do qual nunca esperava qualquer
problema. Até amanhã, Talamon, até amanhã.
A estranha
rigidez desapareceu do rosto de John Marshall. Com um gesto que
espelhava o cansaço, passou a mão pela testa, passou os dedos pelos
cabelos escuros e esticou o corpo.
Voltara a
ser o velho John Marshall, um dos colaboradores mais antigos de Perry
Rhodan e um de seus melhores telepatas.
Lançou um
olhar eloqüente para Reginald Bell.
— E daí?
John
Marshall continuou sentado; um sorriso débil esboçou-se em seus
lábios.
— Topthor
é o único sobrevivente que conhece a posição de nosso sistema
solar e da Terra.
Bell e seu
comando de mutantes ainda se encontravam no camarote particular de
Talamon. Sabiam que naquele momento aquela raposa sagaz, Topthor,
fazia uma visita à nave. Marshall não deixara passar a
oportunidade. Graças à sua capacidade telepática, “lera”
a conversa travada entre Talamon e Topthor, acoplando sua mente aos
pensamentos dos dois interlocutores. Dessa forma, acabara por
descobrir o segredo mais precioso de Topthor.
Bell não
tirava os olhos de John Marshall. Os mutantes fizeram a mesma coisa.
Quase chegaram a esquecer o terrível incidente com o
hipercomunicador. Só Marshall pensou no caso, pois ao acompanhar a
conversa dos superpesados, sentira a preocupação de Talamon e a
indagação de quem poderia ter ligado o aparelho.
Marshall
ofereceu outra parte do segredo de Topthor.
— Os
dados astronáuticos da Terra estão guardados no setor de memória
de sua calculadora positrônica.
O sorriso
gostoso de Bell fez com que John Marshall se retirasse, depois de
acrescentar apressadamente estas palavras:
— Topthor
garantiu-se por todos os lados.
Reginald
Bell, que além de Perry Rhodan era o único homem que havia recebido
o grau mais elevado de ensinamento arcônida através do processo
hipnótico, pediu que John Marshall lhe fornecesse todos os dados.
Escutava
com o rosto inexpressivo. Frio, sem deixar impressionar-se por
qualquer tipo de emoção. Lógico até as últimas conseqüências,
refletiu sobre o problema de como seus mutantes poderiam aproximar-se
do cérebro positrônico de bordo da nave de Topthor, contornar as
barreiras de segurança e atingir a memória do aparelho.
Em tom
lacônico e numa formulação objetiva e inconfundível, dirigiu
outras perguntas a John Marshall. O telepata concentrou-se ao máximo.
Quando
Topthor revelou ao amigo o grande segredo, os dados sobre a posição
da Terra, pensara muito satisfeito nos dispositivos de segurança que
mandara colocar para proteger o saber armazenado contra qualquer
pessoa que quisesse apoderar-se dele indevidamente.

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