— Pois
providencie uma programação sensata do robô — interveio Rhodan
em tom um tanto áspero.
Orcast
respondeu com um sorriso cansado.
— Vocês
são dotados da energia dos seus antepassados. Provavelmente não
serão capazes de imaginar o que está acontecendo em Árcon I.
— Convoque
o Conselho Galáctico — disse Thora. — O cérebro não poderá
deixar de submeter-se a uma decisão unânime do mesmo.
— Não
concordará com a introdução da decisão em sua memória —
objetou Orcast.
Rhodan
olhou para trás. Gucky confirmou a veracidade das palavras de
Orcast. A situação parecia irreal. Uma profunda decepção ameaçou
perturbar o raciocínio de Rhodan. Apesar de tudo acreditara que o
Imperador detivesse certos poderes, ao menos no que dizia respeito à
própria existência do Grande Império.
Depois
da avaliação fundamental da situação, realizada a bordo da
Ganymed, chegara à conclusão de que o soberano ao menos devia ter a
possibilidade de receber visitas oficiais e decidir, no âmbito da
corte, questões formais de política externa que não se revestisse
de importância fundamental. Se não fosse assim, nunca teria
decidido voar para o mundo de cristal e forçar uma entrevista.
Subitamente viu-se diante de uma muralha alta e intransponível.
— Exijo
a convocação do Conselho Supremo — disse Thora em tom enérgico.
— Isso
seria inútil e perigoso — observou Rhodan. — Deixemos de lado
esses jogos de palavras que não conduzem a nada. Assim que o
Conselho souber, que a senhora e Crest se encontram aqui, o cérebro
será informado automaticamente de que saímos da Ganymed contra suas
instruções. Se isso acontecer, tudo estará perdido.
Virou-se
para Orcast:
— Eminência,
realmente não existe nenhuma possibilidade de permitir nosso
regresso ao quinto planeta? Peço que se coloque em nossa situação.
Orcast
abriu os braços, num gesto de impotência.
— Quando
vocês se retirarem, e terão de retirar-se, levem com vocês a
certeza de que falaram com um soberano fictício que não detém
qualquer parcela de poder. Prometo sigilo sobre a visita. Uma vez que
sou de opinião que sua pretensão não prejudicará o Império,
poderei dar-lhes uma pequena indicação.
Orcast
sorriu. O interesse e uma tensão contida brilharam em seus olhos
avermelhados. Procurava encontrar o olhar de Thora.
— Ainda
existem homens como você. Procure lembrar-se do almirante Kenos,
membro do Conselho e vencedor da última batalha do Império. Kenos
não aceitou meu convite de comparecer à festa de hoje. É
importante que você saiba que os autômatos robotizados fizeram de
Kenos o coordenador geral do recrutamento. Cabe-lhe a tarefa de
localizar povos auxiliares e arcônidas que ainda são capazes de
certo grau de atividade. E, enfim encaminhá-los para Árcon III.
Rhodan
aproximou-se lentamente. Tateante e a passos inseguros, chegou perto
do soberano. A excitação parecia dominá-lo. Em tom áspero disse:
— Eminência,
trata-se de uma dica? De uma informação real? Peço uma resposta
sincera.
— Sempre
sou sincero quando ninguém me impede de sê-lo — advertiu Orcast
em tom suave. — Vá a ele e exponha-lhe a situação. Kenos serviu
sob as ordens do Imperador Zoltral. Foi o melhor comandante de frota
que o Império já teve. É a única coisa que posso fazer por vocês.
Está na hora de irem embora. Meus convidados me aguardam.
Rhodan
não perdeu mais tempo. Afastou as objeções de Thora e as
indagações aflitas de Crest com um simples gesto. Perplexo, Orcast
observou as reações instantâneas do visitante que ali entrara sem
convite.
Gucky
transmitiu as ordens por via telepática. Após poucos segundos, os
membros do comando foram informados de tudo.
— Retirem-se.
Encontrar-nos-emos no local combinado — foi a instrução
transmitida a todos.
Após
isso Rhodan sentiu-se obrigado, a informar Orcast sobre as medidas de
segurança que pretendia adotar.
— Peço
a compreensão de Vossa Eminência pela cautela que me vejo obrigado
a exercer. Em nosso interesse, vejo-me obrigado a colocar um bloqueio
hipnótico em sua mente. Qualquer observação irrefletida poderia
pôr tudo a perder. Uma permissão oficial de Vossa Eminência
tornaria mais fácil minha decisão a este respeito.
Orcast
XXI lançou um olhar demorado sobre o rosto estreito e expressivo
daquele homem esbelto. Depois de algum tempo, disse com um sorriso
melancólico:
— Vocês
me privam de um prazer singular, que seria o de refletir sobre sua
visita nos dias vazios da minha vida. Assim mesmo concedo-lhes a
permissão que acabam de solicitar, desde que se comprometam a
permitir que, no caso de alguma modificação profunda, eu os receba
com todas as honras.
Rhodan
inclinou-se ligeiramente. Esse arcônida, que na hora do pouso ainda
era considerado um inimigo, passara a ser seu amigo. O hipno André
Noir entrou em ação. Orcast mergulhou no fluido mental superpotente
do mutante.
Quando
entrou na ante-sala, o Imperador estava mergulhado num cochilo. Ao
despertar, não se lembraria de já ter recebido um grupo de
estranhos visitantes nos seus aposentos particulares.
Rhodan
e seus companheiros chegaram à sala de controle do gigantesco
palácio sem serem molestados. A festa aproximava-se do fim. Os
hóspedes se retiravam daquele ambiente maravilhoso.
Rhodan
passou junto a um dos membros da guarda pessoal dos naats, que estava
submetido a um bloqueio sugestivo. Fora ele que lhes entregara os
bilhetes luminosos de entrada. Rhodan devolveu-os, pois não havia
dúvida de que, mais tarde, seria realizado um controle.
A
enorme porta do pé de 1.500 metros de diâmetro, que sustentava o
maior dos edifícios-funis de Árcon, estava aberta. Os homens
desapareceram na escuridão.
O
grande planador do parque público de veículos já os esperava no
lugar combinado. Bell e os outros mutantes já haviam chegado. Com um
chiado, a porta recuou diante do grupo que se aproximava.
Rhodan
encomendara o veículo pelo serviço público de comunicações.
Qualquer arcônida tinha o direito de recorrer gratuitamente a esses
veículos para seu uso, quantas vezes quisesse.
Por
um instante Rhodan contemplou a abertura cintilante do cano de um
radiador energético.
— Até
que enfim — soou a voz áspera de Bell vinda do interior do
veículo. — Daqui a pouco, o dia começará a raiar. O que houve?
— Desçam
imediatamente — ordenou Rhodan. — Vamos logo; saiam desse
calhambeque. A distância que temos de vencer é muito grande. Nada
de perguntas! Marshall, transmita a Betty que o comando chefiado pelo
tenente Tifflor deve permanecer no seu esconderijo. Transmita também
um relato resumido do fracasso da nossa entrevista. Desçam! Thora,
mande o carro de volta à sua base.
Nervosa,
Thora acionou os controles. Com um ligeiro zumbido o veículo pôs-se
em movimento. Aumentando a velocidade, desapareceu na escuridão.
— Um
fracasso? — perguntou Bell, esticando as palavras. — Como?
Crest
já caminhava junto aos titânicos muros externos. As faixas das vias
elevadas, que se estendiam em curvas graciosas, estavam profusamente
iluminadas.
Rhodan
explicou o resultado da visita. Concluiu com estas palavras:
— Crest
solicitará uma aeronave de maiores dimensões. Existem hangares
oficiais que fornecem naves desse tipo. Não temos outra alternativa
senão procurar o almirante Kenos antes do raiar do dia. É nosso
último trunfo.
Calada,
Thora levantou os olhos para o céu estrelado de Árcon. Numerosos
sóis próximos uns dos outros encobriam a faixa da Via Láctea. O
grupo estelar M-13 parecia ser uma galáxia distinta.
Dali
a poucos minutos, Crest chegou com o planador aéreo. Era um veículo
de feitio tipicamente arcônida. O grupo de dez pessoas entrou. Crest
tomou lugar junto ao leme de botões.
Rhodan
orientou-se com um olhar. Desligou o piloto automático.
— Muito
bem, vamos embora. Sabe onde fica a casa de Kenos.
— É
uma viagem bastante longa. Teremos que dar a volta por metade do
planeta. Kenos leva vida de ermitão. Sua casa fica no cume de uma
montanha muito alta. Quis se instalar o mais próximo possível das
estrelas.
— É
um traço simpático do seu caráter. Peço-lhe que me dê algumas
informações sobre sua personalidade.
As
máquinas zumbiram e o planador subiu ao ar e ganhou velocidade. Mais
uma vez puderam lançar um olhar sobre a área das colinas. A
profusão de luzes derramadas pelos palácios da sede do governo
iluminava a noite de Árcon. Mas, logo penetraram na escuridão. E a
noite se tornaria cada vez mais profunda e impenetrável à medida
que se deslocassem para o oeste. Fugiam do sol que se aproximava do
horizonte.
4
O
comando chefiado por Julian Tifflor chegara a dez minutos. Não fora
fácil realizar a localização goniométrica do aparelho, já que o
grupo se viu obrigado a desistir dos sinais de rádio convencionais.
Foi Gucky quem indicou a direção com uma exatidão surpreendente.
Depois,
que entrara sozinha no palácio de Kenos, que parecia um velho
castelo, Thora desaparecera a quase quatro horas.
Seguindo
as instruções de Rhodan, os homens do comando se espalharam pela
área. Com as armas engatilhadas, ficavam com os olhos grudados na
gigantesca casa-funil, cujo suporte estreito fora acomodado em meio a
uma rocha íngreme por um grupo de arquitetos arrojados. Era uma
visão estranha, tão irreal como o próprio planeta.
A
cadeia de montanhas parecia deserta, desolada e entrecortada. Aqui
ninguém se dera ao trabalho de amainar os aspectos selvagens da
natureza. Até fizeram questão de aprofundar grandiosidade ao
conjunto.
A
casa de Kenos ficava por perto de 4.000 metros de altura. A atmosfera
de Árcon I, um planeta de tamanho aproximadamente igual ao da Terra,
já era bastante rarefeita.
Os
telepatas procuraram captar os impulsos mentais de Thora. No entanto,
só vez por outra um impulso muito débil chegou a eles. Ela se
bloqueava, explicou Marshall muito nervoso.
Depois
de quatro horas e meia, surgiu o alarma. Um dos guardas vira o vulto
que se aproximava pelo ar através de sua mira infravermelha.
— Não
atirem! — foi a ordem que Rhodan mandou transmitir de um homem a
outro. — Aguardem.
O
aparelho pousou no platô de rocha em que terminava a estrada
propriamente dita. Depois de chegar ali, a pessoa que quisesse fazer
uma visita ao palácio de Kenos teria que realizar uma viagem aérea.
Uma
arcônida de certa idade desceu do aparelho. Rhodan ouviu a voz grave
que perguntou por ele.
Um
instante depois, colocou a mão no boné a título de cumprimento.
— Sou
Perry Rhodan, madame. Podemos entrar?
— Meu
marido pede que o façam. Pelo que vejo já chamou seus homens.
— Localizou
o aparelho? — perguntou Rhodan.
— Naturalmente
— sorriu a mulher de idade. — Queira utilizar minha plataforma.
Seja bem-vindo, meu amigo. Jamais um Zoltral baterá em vão à nossa
porta.
Crest
inclinou o corpo sem dizer uma palavra. Marshall confirmou com um
gesto quase imperceptível da cabeça: as intenções eram honestas.
— Tiff,
o senhor nos seguirá com a Gazela — ordenou Rhodan em voz baixa. —
Ande depressa. Todos a bordo. Também aqui, o dia não demorará a
clarear.
O
pequeno planador da arcônida subiu verticalmente junto aos enormes
paredões de rocha. O palácio-funil aproximou-se. Enquanto passavam,
Rhodan viu algumas torres de canhões energéticos escamoteadas.
Kenos parecia um remanescente solitário dos tempos áureos do
Império.
Sobrevoavam
as paredes abauladas para fora e desceram suavemente na grande área
interna. Aqui exibia-se o esplendor personalizado dos arcônidas
distintos. Apenas, não se recorrera a qualquer tipo de iluminação.
Tifflor
fez a Gazela pousar suavemente numa plataforma saliente. Os homens
precipitaram-se para fora do aparelho.
— Tenente
Tifflor, mande os homens entrarem em forma. Não há nada que possa
deleitar o olho de um velho guerreiro como uma tropa disciplinada.
Marshall, seus especialistas se formarão em ângulo reto. Tiff, o
senhor fará a apresentação.
— Não
averiguou nada? — perguntou Ras Tschubai, o teleportador, bastante
nervoso.
— Nada.
A desconfiança é um péssimo presente para um anfitrião. Bell,
venha comigo.
Os
homens entraram em forma. Vozes de comando abafadas fizeram-se ouvir.
A arcônida acompanhara tudo com a maior atenção. Quando seu olhar
encontrou o de Rhodan, acenou com a cabeça.
— Queiram
acompanhar-me. Meu marido os espera. Peço-lhes que dispensem as
explicações. Thora já nos informou sobre todos os detalhes.
Era
o que Rhodan esperava. Suspirando intimamente, seguiu a arcônida. O
fato de o almirante ter mandado a esposa ao seu encontro representava
um bom sinal.
Quando
se aproximaram do largo portal, uma luz forte acendeu-se. Rhodan viu
um robusto arcônida que usava o uniforme vistoso da frota imperial.
Dificilmente Rhodan já teria visto um rosto que o impressionasse tão
profundamente. Era velho, muito velho, e a pele parecia resistente.
Uma cabeleira branca descia pela testa, sob a qual um par de olhos
enormes chispava um fogo incontido.
Perry
Rhodan fez continência. Thora encarregou-se das apresentações. A
esposa do velho almirante retirou-se discretamente.
Kenos
aproximou-se a passos largos. Parecia uma rocha solitária em meio a
uma comunidade vazia e decadente.
Rhodan
sentiu o ritmo das pulsações aumentar quando o olhar do velho o
atingiu. Era um homem que apesar da idade avançada não apresentava
o menor sinal de decadência. O exame silencioso durou quase um
minuto. Depois a voz profunda e retumbante se fez ouvir:
— Eu
lhe dou as boas-vindas, Excelência. A situação em que se encontram
não é nada agradável; por isso não vamos perder muitas palavras.
Aqui, por enquanto estão em segurança. Verei o que posso fazer
pelos senhores. Gostaria de passar em revista o seu pessoal.
Rhodan
suspirou aliviado. Sentiu em si a energia de antes. Como homem
pragmático que era, compreendia essa fala muito melhor que as
palavras espirituosas do Imperador.
Sem
dizer uma palavra, deu um passo para o lado. Kenos caminhou em
direção aos homens. Rhodan examinou a formação. Era modelar,
conforme era de se esperar numa unidade de elite.
O
berro de Tifflor rompeu o silêncio da noite. Mais de cem braços
moveram-se. Mais de cinqüenta radiadores pesados brilharam à luz
artificial. Logo ficaram imóveis como estátuas diante de um
almirante desconhecido, cujo rosto enrugado enrijecera numa máscara
impenetrável.
A
apresentação de Tifflor foi realizada num arcônida impecável.
Quando Kenos começou a caminhar diante das fileiras, Rhodan mal
conseguiu reprimir um sorriso. Esse procedimento parecia ser usual em
qualquer lugar em que existissem unidades disciplinadas.
Reginald
Bell manifestou uma tosse grosseira. Sua postura dizia tudo. Rhodan
lançou-lhe um olhar no qual havia uma terrível ameaça. Uma
observação menos feliz poderia aborrecer ou mesmo ofender o homem
que no momento era o elemento mais importante em Árcon.
Kenos
cumprimentou o grupo com uma pancada da mão direita sobre o lado
esquerdo do peito. Quando lhes voltou as costas, o berro de Tiff
voltou a soar.
Respirando
pesadamente, Kenos parou junto ao delicado corrimão do terraço,
lançando um olhar vazio para a escuridão de seus jardins.
— Com
vinte milhões de homens desse tipo, a revolução no espaço mais
amplo da ilha cósmica seria subjugada dentro de três anos — disse
em tom exaltado.
— Isso
não é nada, almirante — disse Rhodan em tom tranqüilo. — Só o
planeta Terra pode mobilizar cem milhões de homens. Basta que me
entregue parte de sua frota de guerra e que coloque à minha
disposição bases e portos de suprimento intergalácticos. Assim eu
lhe provo que a boa impressão que acaba de colher nem chega aos pés
da realidade.
Kenos
virou-se abruptamente. Seus olhos chispavam fogo.
— Suas
palavras são grandiosas, terrano. Quem dominaria o Império se isso
acontecesse? Vocês ou nós?
— Nós,
evidentemente — confessou Rhodan tranqüilamente.
Seria
inútil tentar enganar um tático hábil como o almirante.
Kenos
soltou uma gargalhada que Rhodan nunca esperaria de um arcônida.
— Será
que prometi demais? — interveio Thora com um olhar irônico para
Rhodan. — Querem deixar a Galáxia de pernas para o ar. Acho que
esses pequenos bárbaros são insolentes e grosseiros.
— Ei,
vamos devagar! — disse Bell. — O que acaba de dizer deve ser
interpretado como uma ofensa, ou será que há um certo carinho nas
palavras que acaba de proferir?
— O
homem começa a ficar melindroso — disse Thora em tom de espanto.
Um
sorriso fugaz aflorou em seus lábios. O olhar que lançou sobre
Rhodan causou um terrível embaraço no chefe da Terceira Potência.
— Acontece
que são honestos — constatou Kenos em tom pensativo. — Sempre
que tive pela frente inimigos como estes, eu os admirei, mesmo que me
visse obrigado a destruí-los. De qualquer maneira, acho que já
passou a hora de brincar de esconder. Só mesmo um idiota ainda se
impressionaria com o Grande Império. Qual é sua opinião sobre
aquele homem inteligente e sem tutano, que vez por outra ainda é
chamado de Imperador?
Rhodan
não conseguiu reprimir o riso. Kenos tinha algo de estimulante.
— Diria
que é um homem culturalmente devastado. Em hipótese alguma seria
capaz de governar um grande império. A mão pesada, que às vezes se
torna necessária, falta-lhe tanto quanto o instinto seguro que nos
leva a transigir, e que em última instância conduz ao êxito.
Kenos
calou-se. Depois de algum tempo disse em tom rancoroso:
— Vocês
são perigosos, terranos. São tão perigosos que não devia
ajudá-los. Se essa máquina não tivesse assumido o poder, eu os
eliminaria como um fator de perigo que ameaça o Império. Mas, na
situação em que nos encontramos, espero contar com sua amizade e
auxílio. Ainda quero viver para ver os arcônidas partirem para o
espaço.
— Afinal,
só tem cento e oitenta e sete anos de calendário terrano — disse
Thora em tom de recriminação.
Kenos
não disse mais nada. Na Terra distante, a contorção de seus lábios
poderia ser interpretada como um sorriso condescendente. A seguir,
interessou-se pelos homens do exército de mutantes. Pediu provas de
suas capacidades singulares.
Gucky
apresentou um espetáculo variado. Entre outros, fez o velho
almirante empreender uma vertiginosa viagem aérea sobre o abismo da
área interna da casa.
No
momento em que foi colocado suavemente no solo, mais uma vez não
disse nada. Bell exibiu um sorriso largo e benévolo, face ao qual
Kenos finalmente dirigiu seus passos para a porta.
— Venham
comigo — murmurou. — Seus alojamentos estão preparados. Sabem
lidar com um couraçado da classe Império? Conseguem executar uma
transição perfeita?
— Sabemos
fazer isso até dormindo — afirmou Bell na sua modéstia.
— Ah!
Receberam treinamento hipnótico, não é? Amanhã serão passados em
revista. Incluirei seu grupo no alistamento na qualidade de povo
auxiliar de primeira categoria. O cérebro robotizado faz esforços
desesperados para conseguir tripulações inteligentes e dotadas de
vida real para as grandes unidades da frota. Afinal, os robôs não
sabem fazer tudo.
Um
ódio incontido vibrou nas últimas palavras. Rhodan começou a
imaginar por que o almirante Kenos aceitava o risco de que, em breve,
a longínqua Terra se tornasse mais poderosa do que convinha ao
Império.
— Estamos
à sua disposição — afirmou Rhodan.
— Muito
bem. Deverão alegar que são descendentes de velhos emigrantes de
Árcon. Inteligências de outro tipo não podem ser incluídas no
nível mental número 1. Acredito que prefiram manter em segredo a
verdadeira posição de seu mundo; por isso teremos de escolher um
setor do nosso grupo. Em Zeklon V, existem pessoas de aspecto
semelhante ao de vocês. Faço de conta que os tirei da guarda
pessoal dos Zoltral. Todo mundo sabe que a antiga dinastia ainda
mantém excelentes combatentes privados. Estão de acordo, ou acham
que meu pedido representa um absurdo?
Rhodan
mediu o velho com um olhar, antes de estender-lhe a mão segundo os
costumes terranos.
— Ninguém
poderá sentir-se ofendido por ser comparado com um arcônida. Não
permitam que a decadência de sua raça os faça esquecer seu passado
grandioso. Estas palavras não representam nenhuma bajulação.
Kenos
limitou-se a acenar com a cabeça.
— Será
que a família Zoltral concordará com o projeto? É possível que o
cérebro robotizado realize uma verificação.
— Deixe
isso por minha conta. Quero que seu pessoal apareça ao raiar do dia
para discutirmos a situação. Não podemos perder tempo.
— Até
que enfim encontramos alguém em Árcon que não pode perder tempo —
murmurou Bell. — Minhas homenagens, minhas profundas homenagens.
Não gostaria de encontrar-me com um indivíduo desses durante o
apogeu do Império Arconídico. Você gostaria?
— Evitaria
o encontro enquanto pudesse — confessou Rhodan. — OK. Dê o fora
de forma aos homens. Ainda poderão descansar três horas. Depois as
coisas começarão a ficar sérias.
5
— Transportador
número dezoito, em forma — berrou a voz não modulada saída do
alto-falante embutido na torre de canhões coberta de aço que
encimava o grande autômato registrador.
Cinqüenta
e três pares de pernas enfiadas em botas de canos indo até o
joelho. Os calçados eram feitos de couro vermelho-natural cheio de
bordados. O comando começou a deslocar-se ao ritmo da música
monótona.
O
controle do registro estava concluído. Depois que Kenos lhes
entregara os cartões de identificação, os homens foram levados em
planadores aéreos ao grande espaçoporto militar do planeta de
cristal. Era o único lugar em Árcon I que não se destinava à
recreação e às belas artes. Aqui tudo se inspirava num pragmatismo
frio. Por isso a residência mais próxima ficava a mais de trezentos
quilômetros.
Kenos
e os arcônidas do estado-maior encontravam-se atrás da barreira
energética. Rhodan não teve permissão para entrar no gigantesco
espaçoporto. Só Thora e Crest, aos quais Kenos atribuíra as
funções de comandante e engenheiro-chefe, puderam passar pelos
controles. Mas o cérebro robotizado nem sequer achou que deveria
incorporá-los ao grupo dos 53 homens recrutados no planeta colonial
de Zeklon V.
Os
dois arcônidas, seres distintos infinitamente superiores aos
zeklons, foram transportados num pequeno veículo oficial. Com
Rhodan, Bell e Tifflor eram exatamente 53 seres vivos orgânicos que
caminhavam sobre o revestimento metálico do espaçoporto.
Ivã
Goratchim, um mutante de pele verde e cabeça dupla, capaz de
desencadear com a força de sua mente uma mini-reação nuclear nos
compostos do cálcio e do carbono, cambaleava sobre as pernas
disformes atrás da última fila do grupo. Carregava Gucky nos
braços, já que as curtas patas traseiras do rato-castor não
conseguiriam acompanhar a velocidade do grupo.
O
rato-castor era o único ser que não fora enfiado no uniforme
colorido e espalhafatoso da guarda pessoal dos Zoltral. Além disso,
Kenos julgara preferível não pendurar no ombro daquela criatura de
um metro de altura um radiador energético do mesmo tamanho.
O
cérebro registrou Goratchim e Gucky como seres estranhos dotados de
qualidades especiais. Tornara-se necessário ressaltar o dom
telepático de Gucky. Goratchim era considerado um armazenador de
dados, já que as duas cabeças possuíam uma extraordinária
capacidade de memorização.
Rhodan
marchava à esquerda do grupo. Usava calças verde-garrafa de tecido
fino sobre as botas vermelhas; uma blusa larga, segura pelo cinto com
o coldre, cujas ombreiras estavam cobertas por símbolos estranhos.
As cabeças dos membros do grupo estavam cobertas por grossos
capacetes de fibra artificial com equipamentos de radio-comunicação
embutidos.
Depois
de terem dado dez passos, as primeiras gotas de suor começaram a
porejar em sua pele. Depois de cinco minutos de marcha sob o sol
causticante de Árcon, estavam completamente molhados.
Ouviram-se
duras imprecações. Caminharam cada vez mais zangados e cansados em
direção ao pequeno transportador no
18, cuja comporta inferior de passageiros já estava aberta.
— Silêncio
no grupo — soou a voz de Rhodan. — Que diabo! Procurem
controlar-se. Afinal, não é nenhum prazer andar sobre chapas de
metal aquecidas.
— Estas
botas de sola fina até parecem uma torradeira de ondas curtas —
esbravejou Bell com a voz abafada. — Mais cinco minutos, e começo
a dançar.
Um
sorriso fugaz surgiu no rosto de Rhodan. Sabia perfeitamente que
poderia confiar em seus homens.
Robôs
de combate arcônidas surgiram diante da nave. Tratava-se de um
veículo espacial auxiliar da classe Good Hope.
A
voz de comando de Rhodan soou pela área deserta. A coluna parou
pouco antes de atingir a comporta.
Elegante
e orgulhosa, Thora desceu do carro. Seu olhar era um tanto malicioso,
o que fez Rhodan transpirar ainda mais. Lançou um olhar furioso
atrás dela.
— Assim
que tiver uma oportunidade eu a farei voar pelos ares — prometeu
Anne Sloane, a telecineta. — Será que tudo isso é necessário?
— Silêncio
— resmungou Marshall. — Por enquanto não há problema. Mas o
futuro me parece um tanto misterioso.
Thora
expedira seu aviso. Acompanhada de Crest, desapareceu no interior da
nave.
— Entrem
um por um, com os cartões de identificação na mão esquerda —
soou a voz metálica de um robô.
Um
atrás do outro passaram pelo segundo controle. Os impulsos dos
cartões de identificação foram apalpados antes que a grade se
levantasse para deixar passar um homem de cada vez.
Os
músculos do rosto de Rhodan entesaram-se quando chegou a vez de
Goratchim. Mas o autômato não hesitou nem um pouco. Para ele o
aspecto exterior do homem era totalmente indiferente. Carregava seu
cartão, e era quanto bastava. Rhodan foi o último a passar pelo
controle.
Lançou
um ligeiro olhar para os arcônidas que se mantinham à espera. Entre
eles, só o almirante Kenos sabia da fraude que acabara de ser
cometida. Provavelmente felicitavam-se por terem arrancado da família
de Zoltral esses elementos excelentes de Zeklon V.
Rhodan
subiu no elevador antigravitacional. Um robô mandou-os à grande
cantina da tripulação, onde teriam que esperar. A decolagem foi
realizada em poucos segundos.
— Onde
está Thora? — cochichou Rhodan. — Dê uma olhada por aí.
Wuriu
Sengu, o espia, perdeu o brilho dos olhos. Fitou rijamente as paredes
maciças de aço, que face à capacidade extraordinária de que era
dotado não representavam nenhum obstáculo à visão. Quadros
nítidos surgiram diante de sua visão mental.
— Está
na sala de comando. Crest está ao seu lado. A nave está sendo
teleguiada.
— Muito
bem. Quero que todos prestem atenção. Quando estivermos a sós,
falaremos em inglês. A nave está viajando para Árcon III, o
planeta da guerra. Somos ocupantes de primeiro nível de um
couraçado. Se conseguirmos passar ilesos pelos novos controles, não
haverá maior demora. Reconhecemos o treinamento hipnótico a que
fomos submetidos. É a única maneira de explicar nosso elevado
quociente intelectual. Provavelmente em parte serão elevados demais.
É bem possível que em alguns casos o autômato desconfie.
Precisamos contornar esse fator de perigo através de uma série de
decisões e respostas individuais.
“Quando
estivermos a bordo de uma nave espacial da classe da Stardust, as
coisas estarão bem melhores. Uma vez que, em Árcon I, não existem
as menores condições para isso, tivemos que dar um jeito de chegar
ao número três. Acho que o cérebro está sendo muito gentil ao
providenciar nosso transporte. Nossa Gazela estará bem guardada nas
mãos do almirante. Oportunamente voltaremos para buscar a nave.
Portanto, previnam-se e recapitulem as instruções. Antes de mais
nada, não se esqueçam de seus novos nomes. Constam dos cartões de
identificação. Exercíamos as funções de guardas palacianos dos
Zoltral. Mais alguma dúvida?”
Bell
cochichou em tom indiferente:
— Mais
uma vez você está sendo muito modesto. Tem que ser justamente uma
nave da classe Império? Não podemos guarnecer sequer um dos postos
de combate. Por que não pegamos uma nave menor?
Rhodan
lançou um olhar aos mutantes. Sengu sacudiu a cabeça. Dali se
concluiu que não estavam sendo vigiados por meio de um circuito de
televisão.
— Tenho
a impressão de que você subestima terrivelmente o planeta Árcon
III. Se tivermos uma chance de escapar, isso só poderá ser feito
num gigante superforte. Não vejo por que iríamos contentar-nos com
um barco menor.
— E
a Ganymed? — interveio Marshall em tom objetivo.
Uma
expressão sombria surgiu no rosto de Rhodan. O grande problema
acabara de ser formulado.
— Aguardemos
— decidiu Perry. — Freyt recebeu suas instruções. Se
conseguirmos chegar ao número cinco, isso acontecerá de supetão.
Qualquer instalação mecânica é prejudicada se, nas suas
imediações, uma gigantesca nave sai ruidosamente do hiperespaço.
Além disso, Freyt dispõe de um transmissor fictício. As reflexões
e os planos prematuros têm uma qualidade desagradável: em noventa e
nove por certo dos casos não dão certo. Veremos o que nos confiam
no planeta três. Se não conseguirmos entrar pelo menos num cruzador
pesado, então...
— ...então
desistiremos, não é? — interrompeu Bell.
Rhodan
mordeu o lábio inferior. O arrojo e a energia de sempre brilhavam no
fundo dos seus olhos.
— ...então
veremos o que faremos — completou. — Certa vez um homem muito
inteligente disse que não há nada mais fácil que enganar uma
máquina, desde que se conheça a mentalidade mecânica do respectivo
robô. Daremos uma olhada naquilo.
Uma
tela iluminou-se. Thora surgiu na mesma.
— Pousaremos
dentro de quinze minutos — disse com a voz fria e reservada de uma
comandante arcônida. — Tan’Ro, você se encarregará da saída
dos homens pela comporta. Aguardem novas instruções.
Rhodan,
que em seu cartão de identificação constava sob o nome de Tan’Ro,
fez continência à moda terrana. A essa altura, era altamente
provável que estivessem submetidos a alguma forma de
tele-observação.
A
tela voltou a apagar-se. O silêncio instalou-se na sala. Os olhos de
Rhodan examinaram os outros. Viu olhos chamejantes numa tensão
febril.
— Pois
bem, vamos adiante — disse o comandante. — Viva o Império a cujo
serviço nos colocamos. Ivã, não se meta em brigas. Entendido?
As
duas cabeças do mutante de dois metros e cinqüenta encararam-se.
— Combinado,
irmão — disse Ivanovitch, o mais jovem dos dois, com a voz aguda.
— Esquecerei
que foi você que encontrou sua mente meio segundo depois que
acordei.
— Chegamos
a um acordo no sentido de que foi um terço de segundo — chiou a
outra cabeça. — Acontece que consegui outras provas de que, quem
acordou em primeiro lugar, fui eu. Está bem, não vamos brigar, mas
oportunamente conversaremos a respeito.
O
corpo titânico submetido ao controle das duas cabeças permaneceu
calmo.
— Gente,
que brincadeirinha não vamos ter! — rejubilou-se Gucky com a voz
abafada. Sua cauda em forma de colher estalou contra o chão. —
Será uma coisa, chefe! Quando chegar a hora, não se esqueça de dar
o sinal.
— Seu
convencido — cochichou Bell. — Não pense que as coisas serão
tão fáceis.
Gucky
exibiu seu gigantesco dente roedor.
— Silêncio
— interveio a voz nervosa de Rhodan na discussão que se ia
formando. — Wuriu, já consegue ver alguma coisa?
— Um
planeta em forma de meia-lua está crescendo. Daqui a pouco devemos
chegar.
Sem
dizer uma palavra, Rhodan segurou o radiador de impulsos. Foram
obrigados a deixar para trás as armas leves que traziam nos coldres,
já que não pertenciam ao equipamento padronizado. Em compensação
receberam os últimos modelos dos artefatos guerreiros dos arcônidas.
— Está
fazendo muito calor para um combate corpo a corpo — resmungou
Rhodan com um sorriso desagradável. — Ah, está na hora.
O
trovejar surdo dos projetores energéticos sacudiu a nave. Ouviu-se
um uivo e um chiado agudo. A nave penetrava, ao que tudo indicava, em
velocidade bastante elevada, na atmosfera de algum astro.
Poucos
segundos depois todas as telas acenderam-se. Os homens viraram-se
instintivamente.
— Vocês
têm permissão de ver Árcon III — declarou Thora. — Estou em
contato com o Grande Coordenador. Ele lhes dá as boas-vindas. Fim.
Só
as imagens permaneceram vivas. Os homens encararam-se perplexos. Já
sabiam qual era o nome que o cérebro robotizado do mundo da guerra
se atribuíra.
— O
Grande Coordenador, heim? — repetiu Rhodan em tom seco. — Será
que aquilo possui certa ambição? Silêncio, nada de discussões.
Santo Deus, abram os olhos...
Rhodan
interrompeu-se. Perplexo, olhou para as telas. Por baixo da nave
auxiliar que se deslocava em queda livre, deslizavam velozmente as
paisagens que não eram verdadeiras paisagens. Uma fábrica
encostava-se à outra, as usinas gigantescas sucediam-se em seqüência
ininterrupta. Não se via uma única planta, uma elevação que
pudesse ser considerada um acidente geográfico.
Era
uma superfície totalmente lisa, que parecia ser formada
exclusivamente de aço, plástico e outras substâncias artificiais.
Só os mares primitivos continuavam intocados.
Pelo
que se dizia, só em Árcon III havia mais de 25.000 estaleiros
espaciais. Todo esse mundo estava reservado exclusivamente à
construção de naves. Uma metrópole ligava-se à outra sem quebra
de continuidade.
Os
inúmeros espaçoportos com suas gigantescas estações de rádio
eram o único fator de dissociação daquele quadro compacto de
tecnologia. Além disso, sabia-se que a maior parte de Árcon III
fora escavada sob a superfície. Certas unidades muito importantes da
indústria espacial, inclusive as destinadas à produção de
propulsores, ficavam 5.000 metros abaixo da superfície. Era a
indústria militar mais gigantesca da Galáxia.
De
parte em parte erguiam-se as abóbadas fluorescentes dos enormes
campos energéticos. Árcon III era um pouco maior que a Terra. Sua
gravitação média era de 1,3g.
Os
espaçoportos formigavam de naves esféricas, desde as pequenas até
as grandes gigantes do espaço. Ali estava reunida uma frota cujo
poderio chegava ao infinito.
— Já
começo a compreender como surge um Império — disse Rhodan,
esticando as palavras. — Cavalheiros, diante disso não passamos de
miseráveis anões. Será que realmente decolamos com o objetivo de
assumir o controle desse conjunto gigantesco?
Olhou
em torno, numa atitude quase desolada. Não obteve resposta. Bem
adiante deles, surgiu a maior abóbada energética que já haviam
visto. Na altura reduzida em que se encontravam, não era possível
abranger com a vista toda a área coberta pela usina. A extremidade
superior da abóbada protetora avançava até as camadas superiores
da atmosfera.
Rhodan
sabia que se encontravam próximos à sede do cérebro central que se
designava como o Grande Coordenador. Kenos explicara que as
instalações ocupavam uma área de aproximadamente dez mil
quilômetros quadrados, e isso apesar da conhecida micro tecnologia
dos arcônidas.
Pelo
que se dizia, as sucessivas gerações de técnicos haviam trabalhado
naquela obra por mais de 8.000 anos. Os setores foram sendo ligados
progressivamente, até que não havia mais nenhum saber ou
conhecimento que ainda pudesse ser armazenado nas células
positrônicas. Ninguém saberia dizer até que profundidade o cérebro
penetrava no solo. Era inteiramente autônomo. Suas usinas
energéticas ainda funcionariam por milhões de anos.
— Não
poderemos esperar tanto tempo — murmurou Rhodan para si mesmo.
A
nave auxiliar descreveu uma curva bem ampla em torno da abóbada
energética. Logo depois outro espaçoporto surgiu diante deles.
Dentro
de poucos minutos seguiu-se um pouso exemplar. As máquinas pararam.
As escotilhas de segurança da sala da tripulação abriram-se com um
chiado.
— Desçam
e entrem imediatamente em forma — foi a ordem que o robô
transmitiu pelos alto-falantes.
Os
homens saíram apressadamente. Não houve outro controle.
Perfilaram-se junto a uma das colunas de aterissagem da nave esférica
de sessenta metros de diâmetro e aguardaram até que Thora e Crest
aparecessem.
Mesmo
que aqueles homens tivessem vontade e disposição para uma troca de
idéias, nesse ambiente as discussões, os planos e as esperanças
perderiam seu sentido.
À
frente, ao lado e atrás do lugar em que haviam pousado, as naves
formavam filas ininterruptas. Mais adiante, à sua direita, mais de
cinqüenta vultos gigantescos subiam ao céu límpido, onde também
brilhava o sol branco de Árcon.
Gigantescas
esferas de oitocentos metros de diâmetro, da classe Império,
estavam dispostas em filas ordenadas. Mas não eram elas que deixavam
Rhodan sem fala. Embora essas naves pudessem perfeitamente mergulhar
um astronauta humano em complexos de inferioridade.
— Não!
— gaguejou Rhodan consigo mesmo. — Oh, não!
Ouviu
a respiração pesada da arcônida, que também tinha os olhos fitos
no milagre.
Logo
após as fileiras de naves da classe Império, mais dois vultos
gigantescos, também de formato esférico, erguiam-se para o céu. Se
as naves da classe Império podiam ser consideradas muito grandes,
essas unidades eram verdadeiros supergigantes.
Seu
imenso cinturão, abrigo dos propulsores, e situado exatamente no
plano equatorial do corpo esférico, começavam na altura em que
terminavam as cúpulas polares superiores das naves da classe
Império. Face a isso seu tamanho podia ser avaliado com uma precisão
razoável.
Eram
duas montanhas, que apesar da distância não podiam ser vistas em
toda a altura. Rhodan fechou os olhos, para abri-los com mais força.
— Sempre
pensei que os gigantes da classe Império fossem as naves mais
poderosas de sua frota — observou com a voz gaguejante. — Pelo
amor de Deus, Thora, o que é isso? Esses gigantes devem ter uns mil
e quinhentos metros de diâmetro. Quem construiu aquilo?
A
arcônida estava muito pálida. Respondeu em tom apressado:
— Foi
ainda durante o governo de minha dinastia que surgiu o plano de
construir supercouraçados desse tamanho. São as naves da classe
Universo, se não me engano. Nunca chegaram a construí-las, ao menos
até o tempo da minha partida, treze anos atrás. Mas, nos últimos
anos, aconteceu uma infinidade de coisas.
Rhodan
não conseguia tirar os olhos dos dois supercouraçados. Nem
desconfiava de que seus homens o contemplavam numa terrível tensão
nervosa, até que Bell disse com um gemido:
— Ainda
acabo enlouquecendo. Já conheço este olhar. Meu amigo, não se
deixe dominar pela megalomania. Jamais nos entregarão um barco
desses.
— Pelo
menos mil e quinhentos metros — sussurrou Rhodan imerso em suas
reflexões. — Mil e quinhentos metros, sem contar as colunas de
sustentação. Calculo que tem cem vezes o poder de fogo da
Stardust-III. É inacreditável. Está bem, não direi mais uma única
palavra. Oportunamente conversaremos a respeito.
Thora
estava entrando num carrinho que flutuava pouco acima do solo,
sustentado por um pequeno campo de repulsão.
O
ritmo de uma música súbita e barulhenta arrancou Rhodan de suas
reflexões. Seu cérebro trabalhava febrilmente na elaboração de um
novo plano. Constantemente, voltava os olhos para as montanhas de aço
arcônida. Ao lado delas, as naves da classe Império eram uns
veículos bem delicados.
— Dou
as boas-vindas de Árcon III aos defensores do Império — disse uma
voz retumbante.
A
música voltou a soar. Viram o veículo de grandes dimensões que se
aproximava. A extensa área da plataforma comportava mais de
cinqüenta pessoas.
Desta
vez não precisariam marchar sob o sol causticante.
— Falem,
conversem — foi a ordem que Rhodan mandou transmitir de homem para
homem. — Demonstrem alegria e curiosidade, riam. Isso faz parte do
jogo. Afinal, somos seres vivos. Vamos logo! Não façam o papel de
gente anestesiada. Afinal, a surpresa não pode durar para sempre.
Um
grupo de homens alegres e conversadores subiu à plataforma baixa do
veículo. Antes que o mesmo se pusesse em movimento, Rhodan lançou
mais um olhar sobre os couraçados da superclasse. Depois pensou no
destino longínquo: “o
espaçoporto era gigantesco”.
6
O
Tempo de rotação em torno do eixo do terceiro planeta sincronizado
do sistema interno de Árcon correspondia a 28,4 horas, segundo os
padrões terranos.
Se
em todos os mundos do Universo, a noite ou o crepúsculo descem vez
por outra sobre uma das faces, isso não acontecia nesse astro
extraordinário.
Os
robôs não precisavam de sono, nem de pausas ou férias. O ruído de
milhões de máquinas e linhas de montagem inteiramente automatizadas
formava o ritmo de um mundo que não conhecia a escuridão.
No
hemisfério em que reinava a noite, os sóis atômicos substituíam o
astro natural. Bilhões de instalações fixas de controle e robôs
móveis trabalhavam ininterruptamente.
Em
Árcon III, onde antes da intervenção do gigantesco cérebro
central de controle, reinara o silêncio cadavérico de um império
moribundo, hoje havia despertado para uma nova atividade. Há seis
anos terranos o silêncio parara.
A
maior das máquinas de guerra da Galáxia iniciara a produção em
série de naves espaciais com tamanho élan, que até parecia que
desejava de arrancar, de um dia para outro, os velhos tempos da
política de conquista dos abismos melancólicos do esquecimento.
Rhodan
tentara avaliar apenas o problema do abastecimento de
matérias-primas. O planeta Árcon III estava totalmente explorado.
Nele não seria encontrado nenhum torrão de minério digno de ser
extraído do solo.
Uma
frota mercante bem dirigida estava a caminho ininterruptamente, para
trazer as mercadorias que se tornavam necessárias. Nos espaçoportos
dos planetas 5, 6, 7 e 8, onde era permitido o transbordo, eram
negociadas mercadorias que muitas vezes teriam de ser transportadas
através de enormes distâncias galácticas.
Também
em Árcon II, o mundo destinado à produção de artigos industriais
úteis ao povo, as fábricas estavam trabalhando. Árcon produzia em
benefício do Império.
Rhodan
logo desistiu de compreender, com a inteligência, qualquer problema
setorial que fosse daquela gigantesca organização. Era impossível!
Todavia,
descobrira o motivo lógico para a construção de um cérebro
robotizado de tamanhas dimensões. Mesmo os velhos arcônidas, que
ainda se mantinham em atividade, já não seriam capazes de controlar
os problemas que se apresentavam, e que se contariam pelos milhões.
Só mesmo uma máquina seria capaz disso, e essa máquina, face aos
inúmeros circuitos específicos, teria que ocupar um enorme espaço.
Faziam
32 horas que o comando se encontrava no mundo da mecanização total.
Poucas vezes, haviam visto um arcônida. Em compensação, os seres
vindos de todos os setores da Galáxia submetidos ao domínio do
Império eram muito numerosos.
O
gigante robotizado estava prestes a submeter até mesmo as raças
subdesenvolvidas a um treinamento hipnótico intensivo, pois só
assim estaria em condições de tripular suas naves.
Praticamente
de hora em hora, enormes esquadrilhas rugiam em direção ao espaço.
Cada uma tinha um objetivo bem fixado.
Pelas
notícias que circulavam, na área do grupo estelar M-13 estavam
sendo travadas as batalhas mais terríveis de que se tinha notícia
desde a criação do Império.
Os
mundos coloniais revoltados, que há mais de quinhentos anos
começaram a sacudir o jugo do Império debilitado, subitamente
viram-se colocados diante de uma alternativa: a submissão
incondicional ou a destruição total. Logicamente o cérebro
robotizado não estava interessado em saber quantos seres vivos
seriam eliminados, ou se sua atuação resultaria numa injustiça
gritante.
Rhodan
sentiu-se próximo a um colapso psíquico total sempre que pensava na
possibilidade de uma descoberta casual do planeta Terra.
O
pavilhão era baixo, amplo e sem qualquer toque pessoal. Seria para
abrigar as tripulações recém-recrutadas. A cada raça era
destinada uma área específica, da qual só devia sair em caso de
necessidade. Os alimentos e as bebidas eram fornecidos com uma
rapidez extraordinária sempre que alguém o desejasse.
O
local servia principalmente de encontro à raça ciclópica dos
naats. A área por eles ocupada era contígua àquela destinada aos
homens do grupo de Rhodan.
Os
mutantes exerceram uma vigilância extraordinária. Um barulho
infernal enchia o recinto. As brigas eram corriqueiras. Eram
principalmente os naats que procuravam encrenca a todo instante, já
que isso correspondia ao seu gênio.
Num
lugar mais distante, vultos de pele azul e cabeça grande estavam
agachados no solo. Não havia exemplares de raças não-humanas. Era
sabido que mesmo o autômato robotizado funcionava segundo os
princípios adotados pelos velhos conquistadores arcônidas.
Os
seres não-humanóides, que não respiravam oxigênio, sempre foram
os inimigos mais encarniçados do Império. As grandes operações da
frota especial visavam principalmente a esses seres.
A
área destinada aos humanos estava guarnecida de confortáveis
poltronas articuladas. O cérebro fazia tudo que estava ao seu
alcance para deixar satisfeitas as tripulações que conseguia
recrutar.
Bell
lançou um olhar desconfiado para os ciclopes de três olhos. Mais
uma vez brigaram, até que os robôs de combate os separassem. Nessa
operação, as máquinas não demonstravam a menor delicadeza.
O
berreiro dos gigantes de três metros amainou um pouco, sendo
substituído por um murmúrio abafado.
— Se
há treze anos alguém me dissesse onde estaria a esta hora, eu teria
gritado sem parar — observou Bell em tom melancólico. — Já
começo a compreender por que fomos recebidos com tamanha gentileza.
Um
robusto europeu pertencente ao comando soltou um apito estridente.
Com um largo sorriso, contemplou o robô de serviço que se
aproximava, anotando solicitamente o pedido que lhe era formulado.
— Não
vamos exagerar — advertiu Rhodan em tom nervoso. — Tenho a
impressão de que já estamos com a faca na garganta. Tifflor, já se
recuperou do exame?
Com
um sorriso melancólico Tiff, pôs as mãos no crânio. Nas têmporas,
viam-se duas manchas roxas.
— Não
agüentaria isso mais uma vez — gemeu. — A máquina quis saber
por que todos nós temos um quociente intelectual tão elevado. Sinto
dizer isto, mas tenho a impressão de que a máquina está muito
desconfiada.
O
grupo tornou-se um pouco menos barulhento.
— Vamos
chegar mais perto uns dos outros — resmungou Rhodan. — Quando
Kakuta voltar, levantem-se imediatamente para dar um brinde. Se
preferirem podem dançar. O importante é que ele fique ao abrigo das
vistas alheias.
— Chefe,
tenho uma forte desconfiança de que o senhor será enfiado mais uma
vez nesse detector de vibrações cerebrais — disse o sargento Rous
em tom preocupado. — Ninguém escapou disso, mas com o senhor foi
muito mais demorado. Perguntaram a cada um de nós como um habitante
de Zeklon V pode ter um quociente intelectual que equivale ao dobro
do que é encontrado nos cientistas mais importantes de Árcon.
Rhodan
apresentava um rosto inexpressivo. Estava desconfiado de que seria
submetido mais uma vez à prova de vibrações cerebrais.
Evidentemente, o dispositivo automático recorrera às suas
instalações especializadas para examinar os dotes mentais dos
homens que o almirante Kenos lhe Havia mandado. Isso aconteceu em
menos de doze horas após a chegada.
Rhodan
sentia as palmas das mãos úmidas quando se lembrava da reluzente
sala metálica com os detectores enfileirados. Os olhos de Bell eram
grandes e indagadores. Também despertara a atenção do mecanismo
por seu quociente intelectual extremamente elevado.
— Vamos
aguardar — voltou a dizer Rhodan. — Isso leva algum tempo. Thora
fará o que estiver ao seu alcance para que nos confiem uma das naves
grandes. O cérebro só pensa em termos lógico-pragmáticos, sem
permitir que qualquer tipo de sensibilidade desvie o curso do seu
raciocínio. Por isso deve ser mais que evidente que entregará as
melhores naves às tripulações mais bem dotadas. Seiko, mantenha-se
no grupo. Onde está Tako?
Marshall
baixou a cabeça e pôs-se a escutar
— Não
estou captando nenhum impulso — disse em voz baixa. — Os inúmeros
campos energéticos perturbam a comunicação.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça. Aos poucos sua calma começava a
irritar os outros. Os homens estavam atentos como nunca. Havia alguma
coisa no ar.
*
* *
Tako
Kakuta, o teleportador japonês, voltou com um salto rápido para o
luxuoso quarto, no momento em que o robô de serviço entrava na
sala.
O
autocontrole de Thora foi exemplar. Não dirigiu a palavra à
máquina. Sem o menor ruído, aquela imitação sempre sorridente de
um arcônida, dirigida por um dispositivo positrônico, retirou-se do
recinto.
— Venha
— disse em voz baixa.
Tako
espremeu-se pela porta entreaberta. O pequeno desintegrador do
arsenal da Gazela desapareceu sob a vestimenta em forma de blusa.
— Se
pegarem o senhor com isso, nosso jogo estará perdido — disse em
tom indiferente. — Salte de volta, mas não se esqueça das
instruções. Perry deverá insistir, de qualquer maneira, na
afirmação de que eu lhe dei um treinamento hipnótico de primeira
classe. Minha qualidade de comandante da dinastia de Zoltral foi
reconhecida. A probabilidade de ser identificada como Thora é
extremamente remota. Os comprovantes são perfeitos.
Tako
despediu-se com um gesto, antes de desaparecer num fugaz fenômeno
luminoso.
Recuaram
apressadamente da poltrona articulada vazia, que no mesmo instante
passou a abrigar um vulto. Rhodan levantou-se de um salto. Sua
exclamação fez com que os homens levantassem os braços. Tako
estava perfeitamente escondido.
— Você
demorou muito — cochichou Rhodan apressadamente. — O que
aconteceu? Houve algum problema?
— Thora
foi interrogada hoje pela segunda vez. Não compreende o motivo. Seja
como for, foi investida no comando da Veast Ark. Amanhã deveremos
subir a bordo. O treinamento ficará a cargo de Crest, que no momento
está sendo submetido a um processo de aprendizagem hipnótica.
— De
que tipo é a nave? — perguntou Rhodan ansiosamente. — É um
cruzador? Ou será uma nave da classe Império?
Uma
expressão de medo e insegurança surgiu no rostinho infantil de
Tako.
— É
pior do que isso, chefe! A Veast Ark é um dos novos supergigantes.
Aconteceu exatamente aquilo que o senhor previa. Nossos quocientes
intelectuais extremamente elevados e o treinamento aprimorado que
possuímos levaram o cérebro a nos enviar para a nova máquina.
Rhodan
cerrou as pálpebras. Então era isso mesmo!
— Eu
sabia! Não poderia ser de outra maneira, a não ser que o cérebro
não fosse capaz de extrair dos fatos conseqüências lógicas e
coerentes. Só não seríamos colocados a bordo do gigante caso
existisse outra tripulação de igual categoria. Por que você acha
que isso é ruim?
— Thora
parecia muito preocupada. Os novos supercouraçados da classe
Universo contêm as conquistas mais recentes da ciência arcônida.
Neles existem máquinas que ainda não conhecemos. Além disso, têm
um dispositivo automático de segurança inteiramente positronizado,
que mantém contato direto com o robô central, seja qual for a
distância. Acho que não será possível provocar a decolagem com
uma tripulação de apenas cinqüenta homens.
— Se
necessário, eu faço isso com trinta homens — disse Rhodan em tom
frio. — Basta que haja uma chave direta de emergência como a da
Stardust para que eu controle todos os propulsores a partir da sala
de comando. Não haverá problema.
Levantou-se
abruptamente e pegou o capacete. Os naats lançaram olhares curiosos
em sua direção.
De
repente, os homens tornaram-se muito silenciosos. Seus olhares diziam
tudo. Se não estavam enganados, o “velho”
acabara de tomar uma decisão que, de uma hora para outra, traria o
êxito ou a destruição.
Andando
fora de forma, saíram do pavilhão e dirigiram-se aos alojamentos.
Lá fora sentiram-se ofuscados pela luz de um sol atômico que
brilhava nas alturas. Um planador antigravitacional teleguiado levava
um gigantesco moldador de impulsos à oficina de reparos que se
encontrava por perto.
— Descansem
e acalmem os nervos! — ordenou Rhodan. — Permaneceremos a bordo
enquanto for possível. O tempo não significa coisa alguma, a não
ser que surja algum acontecimento que transforme um segundo numa
preciosidade insubstituível. Marshall, mantenha sua equipe de
prontidão. Para sairmos daqui, o senhor terá que engajar todas as
forças.
Um
grupo de monstros barulhentos passou perto deles. Eram os gigantescos
blindados destinados às operações de terra que rolavam em direção
aos couraçados da classe da Stardust.
— As
intenções do Grande Coordenador são as melhores possíveis —
disse Bell em tom irônico. — Só estou curioso para saber quem ele
colocará embaixo de nosso nariz quando estivermos a bordo.
Rhodan
lançou um olhar para o quadro gigantesco da abóbada energética.
Sob ela ficava uma entidade mecânica que a inteligência humana não
podia compreender.
A
bolha energética emitia um brilho frio e ameaçador. Nenhum poder da
Via Láctea poderia rompê-la — com exceção de um único.
— Veremos,
Grande Coordenador — cochichou Rhodan. — Veremos!
7
Um
verdadeiro labirinto de milhares de corredores, salas enormes e
cubículos apertadíssimos fora instalado pelos engenheiros
astronáuticos mais experimentados da Galáxia naquele vulto esférico
de 1.500 metros de diâmetro, que parecia de fora formar uma massa
compacta.
Não
havia nenhum recanto, nenhuma área, por menor que fosse, que não
preenchesse alguma finalidade.
O
grande elevador central, que atravessava o corpo esférico em linha
reta, de pólo a pólo, constituía o único elemento de orientação.
Era um couraçado no qual uma tripulação de mil pessoas poderia
desaparecer por completo. Os gigantescos salões que abrigavam as
usinas geradoras estavam subdivididos em vários planos. Em seu
interior, alguém poderia perder-se.
Rhodan
viu-se diante de um problema cuja solução necessariamente
demandaria um certo tempo. Pela própria natureza das coisas, seria
impossível abrangê-lo num relance.
Fazia
quatro dias de Árcon que se encontravam a bordo da Veast Ark. Crest,
que ali estava sendo identificado por outro nome, fez o que esteve ao
seu alcance para instruir os cosmonautas e os técnicos do comando.
As
dependências mais importantes já eram conhecidas. Todos procuravam
não se afastar muito do elevador central, pois se o fizessem se
perderiam irremediavelmente.
O
aprendizado hipnótico de Rhodan revelara-se um tanto deficiente.
Havia naquela nave pavilhões e salas cujo formato, determinado pela
respectiva finalidade, muitas vezes era tão estranho que não se
poderia pensar em compreendê-los num curto espaço de tempo.
A
idéia de que o cérebro não se deixaria enganar por muito tempo
pesava em sua mente. Por isso realizou esforços tremendos para
identificar principalmente os postos de controle mais importantes e
inspecionar os aparelhos instalados nos mesmos.
O
mecanismo de pilotagem era quase idêntico ao da Stardust-III. A
central instalada no centro geométrico da nave abrigava um mecanismo
sincronizador inteiramente positronizado cuja perfeição era
tamanha, que sem a menor dúvida seria capaz de controlar os
propulsores, as centrais energéticas e a aparelhagem auxiliar, desde
que o aparelho de controle montado no interior da central concordasse
com isso.
Abaulado
em semicírculo e enfeitado por algumas telas de imagem, o colosso
blindado ficava logo atrás das mesas de controle em meia-lua
instaladas diante dos assentos dos pilotos.
Tratava-se
de uma estação retransmissora do grande robô. Um exame cauteloso
realizado pelos mutantes revelara que o pequeno cérebro robotizado
fora programado especialmente para as tarefas de controle da nave. A
qualquer momento poderia intervir nas operações normais e
interromper as mesmas, sendo capaz de paralisar mecanismos potentes e
interromper séries de cálculos em pleno processamento.

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