quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

P-039 - O Mundo dos Três Planetas - K. H. Scheer [parte 2]

Pois providencie uma programação sensata do robô — interveio Rhodan em tom um tanto áspero.
Orcast respondeu com um sorriso cansado.
Vocês são dotados da energia dos seus antepassados. Provavelmente não serão capazes de imaginar o que está acontecendo em Árcon I.
Convoque o Conselho Galáctico — disse Thora. — O cérebro não poderá deixar de submeter-se a uma decisão unânime do mesmo.
Não concordará com a introdução da decisão em sua memória — objetou Orcast.
Rhodan olhou para trás. Gucky confirmou a veracidade das palavras de Orcast. A situação parecia irreal. Uma profunda decepção ameaçou perturbar o raciocínio de Rhodan. Apesar de tudo acreditara que o Imperador detivesse certos poderes, ao menos no que dizia respeito à própria existência do Grande Império.
Depois da avaliação fundamental da situação, realizada a bordo da Ganymed, chegara à conclusão de que o soberano ao menos devia ter a possibilidade de receber visitas oficiais e decidir, no âmbito da corte, questões formais de política externa que não se revestisse de importância fundamental. Se não fosse assim, nunca teria decidido voar para o mundo de cristal e forçar uma entrevista. Subitamente viu-se diante de uma muralha alta e intransponível.
Exijo a convocação do Conselho Supremo — disse Thora em tom enérgico.
Isso seria inútil e perigoso — observou Rhodan. — Deixemos de lado esses jogos de palavras que não conduzem a nada. Assim que o Conselho souber, que a senhora e Crest se encontram aqui, o cérebro será informado automaticamente de que saímos da Ganymed contra suas instruções. Se isso acontecer, tudo estará perdido.
Virou-se para Orcast:
Eminência, realmente não existe nenhuma possibilidade de permitir nosso regresso ao quinto planeta? Peço que se coloque em nossa situação.
Orcast abriu os braços, num gesto de impotência.
Quando vocês se retirarem, e terão de retirar-se, levem com vocês a certeza de que falaram com um soberano fictício que não detém qualquer parcela de poder. Prometo sigilo sobre a visita. Uma vez que sou de opinião que sua pretensão não prejudicará o Império, poderei dar-lhes uma pequena indicação.
Orcast sorriu. O interesse e uma tensão contida brilharam em seus olhos avermelhados. Procurava encontrar o olhar de Thora.
Ainda existem homens como você. Procure lembrar-se do almirante Kenos, membro do Conselho e vencedor da última batalha do Império. Kenos não aceitou meu convite de comparecer à festa de hoje. É importante que você saiba que os autômatos robotizados fizeram de Kenos o coordenador geral do recrutamento. Cabe-lhe a tarefa de localizar povos auxiliares e arcônidas que ainda são capazes de certo grau de atividade. E, enfim encaminhá-los para Árcon III.
Rhodan aproximou-se lentamente. Tateante e a passos inseguros, chegou perto do soberano. A excitação parecia dominá-lo. Em tom áspero disse:
Eminência, trata-se de uma dica? De uma informação real? Peço uma resposta sincera.
Sempre sou sincero quando ninguém me impede de sê-lo — advertiu Orcast em tom suave. — Vá a ele e exponha-lhe a situação. Kenos serviu sob as ordens do Imperador Zoltral. Foi o melhor comandante de frota que o Império já teve. É a única coisa que posso fazer por vocês. Está na hora de irem embora. Meus convidados me aguardam.
Rhodan não perdeu mais tempo. Afastou as objeções de Thora e as indagações aflitas de Crest com um simples gesto. Perplexo, Orcast observou as reações instantâneas do visitante que ali entrara sem convite.
Gucky transmitiu as ordens por via telepática. Após poucos segundos, os membros do comando foram informados de tudo.
Retirem-se. Encontrar-nos-emos no local combinado — foi a instrução transmitida a todos.
Após isso Rhodan sentiu-se obrigado, a informar Orcast sobre as medidas de segurança que pretendia adotar.
Peço a compreensão de Vossa Eminência pela cautela que me vejo obrigado a exercer. Em nosso interesse, vejo-me obrigado a colocar um bloqueio hipnótico em sua mente. Qualquer observação irrefletida poderia pôr tudo a perder. Uma permissão oficial de Vossa Eminência tornaria mais fácil minha decisão a este respeito.
Orcast XXI lançou um olhar demorado sobre o rosto estreito e expressivo daquele homem esbelto. Depois de algum tempo, disse com um sorriso melancólico:
Vocês me privam de um prazer singular, que seria o de refletir sobre sua visita nos dias vazios da minha vida. Assim mesmo concedo-lhes a permissão que acabam de solicitar, desde que se comprometam a permitir que, no caso de alguma modificação profunda, eu os receba com todas as honras.
Rhodan inclinou-se ligeiramente. Esse arcônida, que na hora do pouso ainda era considerado um inimigo, passara a ser seu amigo. O hipno André Noir entrou em ação. Orcast mergulhou no fluido mental superpotente do mutante.
Quando entrou na ante-sala, o Imperador estava mergulhado num cochilo. Ao despertar, não se lembraria de já ter recebido um grupo de estranhos visitantes nos seus aposentos particulares.
Rhodan e seus companheiros chegaram à sala de controle do gigantesco palácio sem serem molestados. A festa aproximava-se do fim. Os hóspedes se retiravam daquele ambiente maravilhoso.
Rhodan passou junto a um dos membros da guarda pessoal dos naats, que estava submetido a um bloqueio sugestivo. Fora ele que lhes entregara os bilhetes luminosos de entrada. Rhodan devolveu-os, pois não havia dúvida de que, mais tarde, seria realizado um controle.
A enorme porta do pé de 1.500 metros de diâmetro, que sustentava o maior dos edifícios-funis de Árcon, estava aberta. Os homens desapareceram na escuridão.
O grande planador do parque público de veículos já os esperava no lugar combinado. Bell e os outros mutantes já haviam chegado. Com um chiado, a porta recuou diante do grupo que se aproximava.
Rhodan encomendara o veículo pelo serviço público de comunicações. Qualquer arcônida tinha o direito de recorrer gratuitamente a esses veículos para seu uso, quantas vezes quisesse.
Por um instante Rhodan contemplou a abertura cintilante do cano de um radiador energético.
Até que enfim — soou a voz áspera de Bell vinda do interior do veículo. — Daqui a pouco, o dia começará a raiar. O que houve?
Desçam imediatamente — ordenou Rhodan. — Vamos logo; saiam desse calhambeque. A distância que temos de vencer é muito grande. Nada de perguntas! Marshall, transmita a Betty que o comando chefiado pelo tenente Tifflor deve permanecer no seu esconderijo. Transmita também um relato resumido do fracasso da nossa entrevista. Desçam! Thora, mande o carro de volta à sua base.
Nervosa, Thora acionou os controles. Com um ligeiro zumbido o veículo pôs-se em movimento. Aumentando a velocidade, desapareceu na escuridão.
Um fracasso? — perguntou Bell, esticando as palavras. — Como?
Crest já caminhava junto aos titânicos muros externos. As faixas das vias elevadas, que se estendiam em curvas graciosas, estavam profusamente iluminadas.
Rhodan explicou o resultado da visita. Concluiu com estas palavras:
Crest solicitará uma aeronave de maiores dimensões. Existem hangares oficiais que fornecem naves desse tipo. Não temos outra alternativa senão procurar o almirante Kenos antes do raiar do dia. É nosso último trunfo.
Calada, Thora levantou os olhos para o céu estrelado de Árcon. Numerosos sóis próximos uns dos outros encobriam a faixa da Via Láctea. O grupo estelar M-13 parecia ser uma galáxia distinta.
Dali a poucos minutos, Crest chegou com o planador aéreo. Era um veículo de feitio tipicamente arcônida. O grupo de dez pessoas entrou. Crest tomou lugar junto ao leme de botões.
Rhodan orientou-se com um olhar. Desligou o piloto automático.
Muito bem, vamos embora. Sabe onde fica a casa de Kenos.
É uma viagem bastante longa. Teremos que dar a volta por metade do planeta. Kenos leva vida de ermitão. Sua casa fica no cume de uma montanha muito alta. Quis se instalar o mais próximo possível das estrelas.
É um traço simpático do seu caráter. Peço-lhe que me dê algumas informações sobre sua personalidade.
As máquinas zumbiram e o planador subiu ao ar e ganhou velocidade. Mais uma vez puderam lançar um olhar sobre a área das colinas. A profusão de luzes derramadas pelos palácios da sede do governo iluminava a noite de Árcon. Mas, logo penetraram na escuridão. E a noite se tornaria cada vez mais profunda e impenetrável à medida que se deslocassem para o oeste. Fugiam do sol que se aproximava do horizonte.
4



O comando chefiado por Julian Tifflor chegara a dez minutos. Não fora fácil realizar a localização goniométrica do aparelho, já que o grupo se viu obrigado a desistir dos sinais de rádio convencionais. Foi Gucky quem indicou a direção com uma exatidão surpreendente.
Depois, que entrara sozinha no palácio de Kenos, que parecia um velho castelo, Thora desaparecera a quase quatro horas.
Seguindo as instruções de Rhodan, os homens do comando se espalharam pela área. Com as armas engatilhadas, ficavam com os olhos grudados na gigantesca casa-funil, cujo suporte estreito fora acomodado em meio a uma rocha íngreme por um grupo de arquitetos arrojados. Era uma visão estranha, tão irreal como o próprio planeta.
A cadeia de montanhas parecia deserta, desolada e entrecortada. Aqui ninguém se dera ao trabalho de amainar os aspectos selvagens da natureza. Até fizeram questão de aprofundar grandiosidade ao conjunto.
A casa de Kenos ficava por perto de 4.000 metros de altura. A atmosfera de Árcon I, um planeta de tamanho aproximadamente igual ao da Terra, já era bastante rarefeita.
Os telepatas procuraram captar os impulsos mentais de Thora. No entanto, só vez por outra um impulso muito débil chegou a eles. Ela se bloqueava, explicou Marshall muito nervoso.
Depois de quatro horas e meia, surgiu o alarma. Um dos guardas vira o vulto que se aproximava pelo ar através de sua mira infravermelha.
Não atirem! — foi a ordem que Rhodan mandou transmitir de um homem a outro. — Aguardem.
O aparelho pousou no platô de rocha em que terminava a estrada propriamente dita. Depois de chegar ali, a pessoa que quisesse fazer uma visita ao palácio de Kenos teria que realizar uma viagem aérea.
Uma arcônida de certa idade desceu do aparelho. Rhodan ouviu a voz grave que perguntou por ele.
Um instante depois, colocou a mão no boné a título de cumprimento.
Sou Perry Rhodan, madame. Podemos entrar?
Meu marido pede que o façam. Pelo que vejo já chamou seus homens.
Localizou o aparelho? — perguntou Rhodan.
Naturalmente — sorriu a mulher de idade. — Queira utilizar minha plataforma. Seja bem-vindo, meu amigo. Jamais um Zoltral baterá em vão à nossa porta.
Crest inclinou o corpo sem dizer uma palavra. Marshall confirmou com um gesto quase imperceptível da cabeça: as intenções eram honestas.
Tiff, o senhor nos seguirá com a Gazela — ordenou Rhodan em voz baixa. — Ande depressa. Todos a bordo. Também aqui, o dia não demorará a clarear.
O pequeno planador da arcônida subiu verticalmente junto aos enormes paredões de rocha. O palácio-funil aproximou-se. Enquanto passavam, Rhodan viu algumas torres de canhões energéticos escamoteadas. Kenos parecia um remanescente solitário dos tempos áureos do Império.
Sobrevoavam as paredes abauladas para fora e desceram suavemente na grande área interna. Aqui exibia-se o esplendor personalizado dos arcônidas distintos. Apenas, não se recorrera a qualquer tipo de iluminação.
Tifflor fez a Gazela pousar suavemente numa plataforma saliente. Os homens precipitaram-se para fora do aparelho.
Tenente Tifflor, mande os homens entrarem em forma. Não há nada que possa deleitar o olho de um velho guerreiro como uma tropa disciplinada. Marshall, seus especialistas se formarão em ângulo reto. Tiff, o senhor fará a apresentação.
Não averiguou nada? — perguntou Ras Tschubai, o teleportador, bastante nervoso.
Nada. A desconfiança é um péssimo presente para um anfitrião. Bell, venha comigo.
Os homens entraram em forma. Vozes de comando abafadas fizeram-se ouvir. A arcônida acompanhara tudo com a maior atenção. Quando seu olhar encontrou o de Rhodan, acenou com a cabeça.
Queiram acompanhar-me. Meu marido os espera. Peço-lhes que dispensem as explicações. Thora já nos informou sobre todos os detalhes.
Era o que Rhodan esperava. Suspirando intimamente, seguiu a arcônida. O fato de o almirante ter mandado a esposa ao seu encontro representava um bom sinal.
Quando se aproximaram do largo portal, uma luz forte acendeu-se. Rhodan viu um robusto arcônida que usava o uniforme vistoso da frota imperial. Dificilmente Rhodan já teria visto um rosto que o impressionasse tão profundamente. Era velho, muito velho, e a pele parecia resistente. Uma cabeleira branca descia pela testa, sob a qual um par de olhos enormes chispava um fogo incontido.
Perry Rhodan fez continência. Thora encarregou-se das apresentações. A esposa do velho almirante retirou-se discretamente.
Kenos aproximou-se a passos largos. Parecia uma rocha solitária em meio a uma comunidade vazia e decadente.
Rhodan sentiu o ritmo das pulsações aumentar quando o olhar do velho o atingiu. Era um homem que apesar da idade avançada não apresentava o menor sinal de decadência. O exame silencioso durou quase um minuto. Depois a voz profunda e retumbante se fez ouvir:
Eu lhe dou as boas-vindas, Excelência. A situação em que se encontram não é nada agradável; por isso não vamos perder muitas palavras. Aqui, por enquanto estão em segurança. Verei o que posso fazer pelos senhores. Gostaria de passar em revista o seu pessoal.
Rhodan suspirou aliviado. Sentiu em si a energia de antes. Como homem pragmático que era, compreendia essa fala muito melhor que as palavras espirituosas do Imperador.
Sem dizer uma palavra, deu um passo para o lado. Kenos caminhou em direção aos homens. Rhodan examinou a formação. Era modelar, conforme era de se esperar numa unidade de elite.
O berro de Tifflor rompeu o silêncio da noite. Mais de cem braços moveram-se. Mais de cinqüenta radiadores pesados brilharam à luz artificial. Logo ficaram imóveis como estátuas diante de um almirante desconhecido, cujo rosto enrugado enrijecera numa máscara impenetrável.
A apresentação de Tifflor foi realizada num arcônida impecável. Quando Kenos começou a caminhar diante das fileiras, Rhodan mal conseguiu reprimir um sorriso. Esse procedimento parecia ser usual em qualquer lugar em que existissem unidades disciplinadas.
Reginald Bell manifestou uma tosse grosseira. Sua postura dizia tudo. Rhodan lançou-lhe um olhar no qual havia uma terrível ameaça. Uma observação menos feliz poderia aborrecer ou mesmo ofender o homem que no momento era o elemento mais importante em Árcon.
Kenos cumprimentou o grupo com uma pancada da mão direita sobre o lado esquerdo do peito. Quando lhes voltou as costas, o berro de Tiff voltou a soar.
Respirando pesadamente, Kenos parou junto ao delicado corrimão do terraço, lançando um olhar vazio para a escuridão de seus jardins.
Com vinte milhões de homens desse tipo, a revolução no espaço mais amplo da ilha cósmica seria subjugada dentro de três anos — disse em tom exaltado.
Isso não é nada, almirante — disse Rhodan em tom tranqüilo. — Só o planeta Terra pode mobilizar cem milhões de homens. Basta que me entregue parte de sua frota de guerra e que coloque à minha disposição bases e portos de suprimento intergalácticos. Assim eu lhe provo que a boa impressão que acaba de colher nem chega aos pés da realidade.
Kenos virou-se abruptamente. Seus olhos chispavam fogo.
Suas palavras são grandiosas, terrano. Quem dominaria o Império se isso acontecesse? Vocês ou nós?
Nós, evidentemente — confessou Rhodan tranqüilamente.
Seria inútil tentar enganar um tático hábil como o almirante.
Kenos soltou uma gargalhada que Rhodan nunca esperaria de um arcônida.
Será que prometi demais? — interveio Thora com um olhar irônico para Rhodan. — Querem deixar a Galáxia de pernas para o ar. Acho que esses pequenos bárbaros são insolentes e grosseiros.
Ei, vamos devagar! — disse Bell. — O que acaba de dizer deve ser interpretado como uma ofensa, ou será que há um certo carinho nas palavras que acaba de proferir?
O homem começa a ficar melindroso — disse Thora em tom de espanto.
Um sorriso fugaz aflorou em seus lábios. O olhar que lançou sobre Rhodan causou um terrível embaraço no chefe da Terceira Potência.
Acontece que são honestos — constatou Kenos em tom pensativo. — Sempre que tive pela frente inimigos como estes, eu os admirei, mesmo que me visse obrigado a destruí-los. De qualquer maneira, acho que já passou a hora de brincar de esconder. Só mesmo um idiota ainda se impressionaria com o Grande Império. Qual é sua opinião sobre aquele homem inteligente e sem tutano, que vez por outra ainda é chamado de Imperador?
Rhodan não conseguiu reprimir o riso. Kenos tinha algo de estimulante.
Diria que é um homem culturalmente devastado. Em hipótese alguma seria capaz de governar um grande império. A mão pesada, que às vezes se torna necessária, falta-lhe tanto quanto o instinto seguro que nos leva a transigir, e que em última instância conduz ao êxito.
Kenos calou-se. Depois de algum tempo disse em tom rancoroso:
Vocês são perigosos, terranos. São tão perigosos que não devia ajudá-los. Se essa máquina não tivesse assumido o poder, eu os eliminaria como um fator de perigo que ameaça o Império. Mas, na situação em que nos encontramos, espero contar com sua amizade e auxílio. Ainda quero viver para ver os arcônidas partirem para o espaço.
Afinal, só tem cento e oitenta e sete anos de calendário terrano — disse Thora em tom de recriminação.
Kenos não disse mais nada. Na Terra distante, a contorção de seus lábios poderia ser interpretada como um sorriso condescendente. A seguir, interessou-se pelos homens do exército de mutantes. Pediu provas de suas capacidades singulares.
Gucky apresentou um espetáculo variado. Entre outros, fez o velho almirante empreender uma vertiginosa viagem aérea sobre o abismo da área interna da casa.
No momento em que foi colocado suavemente no solo, mais uma vez não disse nada. Bell exibiu um sorriso largo e benévolo, face ao qual Kenos finalmente dirigiu seus passos para a porta.
Venham comigo — murmurou. — Seus alojamentos estão preparados. Sabem lidar com um couraçado da classe Império? Conseguem executar uma transição perfeita?
Sabemos fazer isso até dormindo — afirmou Bell na sua modéstia.
Ah! Receberam treinamento hipnótico, não é? Amanhã serão passados em revista. Incluirei seu grupo no alistamento na qualidade de povo auxiliar de primeira categoria. O cérebro robotizado faz esforços desesperados para conseguir tripulações inteligentes e dotadas de vida real para as grandes unidades da frota. Afinal, os robôs não sabem fazer tudo.
Um ódio incontido vibrou nas últimas palavras. Rhodan começou a imaginar por que o almirante Kenos aceitava o risco de que, em breve, a longínqua Terra se tornasse mais poderosa do que convinha ao Império.
Estamos à sua disposição — afirmou Rhodan.
Muito bem. Deverão alegar que são descendentes de velhos emigrantes de Árcon. Inteligências de outro tipo não podem ser incluídas no nível mental número 1. Acredito que prefiram manter em segredo a verdadeira posição de seu mundo; por isso teremos de escolher um setor do nosso grupo. Em Zeklon V, existem pessoas de aspecto semelhante ao de vocês. Faço de conta que os tirei da guarda pessoal dos Zoltral. Todo mundo sabe que a antiga dinastia ainda mantém excelentes combatentes privados. Estão de acordo, ou acham que meu pedido representa um absurdo?
Rhodan mediu o velho com um olhar, antes de estender-lhe a mão segundo os costumes terranos.
Ninguém poderá sentir-se ofendido por ser comparado com um arcônida. Não permitam que a decadência de sua raça os faça esquecer seu passado grandioso. Estas palavras não representam nenhuma bajulação.
Kenos limitou-se a acenar com a cabeça.
Será que a família Zoltral concordará com o projeto? É possível que o cérebro robotizado realize uma verificação.
Deixe isso por minha conta. Quero que seu pessoal apareça ao raiar do dia para discutirmos a situação. Não podemos perder tempo.
Até que enfim encontramos alguém em Árcon que não pode perder tempo — murmurou Bell. — Minhas homenagens, minhas profundas homenagens. Não gostaria de encontrar-me com um indivíduo desses durante o apogeu do Império Arconídico. Você gostaria?
Evitaria o encontro enquanto pudesse — confessou Rhodan. — OK. Dê o fora de forma aos homens. Ainda poderão descansar três horas. Depois as coisas começarão a ficar sérias.
5



Transportador número dezoito, em forma — berrou a voz não modulada saída do alto-falante embutido na torre de canhões coberta de aço que encimava o grande autômato registrador.
Cinqüenta e três pares de pernas enfiadas em botas de canos indo até o joelho. Os calçados eram feitos de couro vermelho-natural cheio de bordados. O comando começou a deslocar-se ao ritmo da música monótona.
O controle do registro estava concluído. Depois que Kenos lhes entregara os cartões de identificação, os homens foram levados em planadores aéreos ao grande espaçoporto militar do planeta de cristal. Era o único lugar em Árcon I que não se destinava à recreação e às belas artes. Aqui tudo se inspirava num pragmatismo frio. Por isso a residência mais próxima ficava a mais de trezentos quilômetros.
Kenos e os arcônidas do estado-maior encontravam-se atrás da barreira energética. Rhodan não teve permissão para entrar no gigantesco espaçoporto. Só Thora e Crest, aos quais Kenos atribuíra as funções de comandante e engenheiro-chefe, puderam passar pelos controles. Mas o cérebro robotizado nem sequer achou que deveria incorporá-los ao grupo dos 53 homens recrutados no planeta colonial de Zeklon V.
Os dois arcônidas, seres distintos infinitamente superiores aos zeklons, foram transportados num pequeno veículo oficial. Com Rhodan, Bell e Tifflor eram exatamente 53 seres vivos orgânicos que caminhavam sobre o revestimento metálico do espaçoporto.
Ivã Goratchim, um mutante de pele verde e cabeça dupla, capaz de desencadear com a força de sua mente uma mini-reação nuclear nos compostos do cálcio e do carbono, cambaleava sobre as pernas disformes atrás da última fila do grupo. Carregava Gucky nos braços, já que as curtas patas traseiras do rato-castor não conseguiriam acompanhar a velocidade do grupo.
O rato-castor era o único ser que não fora enfiado no uniforme colorido e espalhafatoso da guarda pessoal dos Zoltral. Além disso, Kenos julgara preferível não pendurar no ombro daquela criatura de um metro de altura um radiador energético do mesmo tamanho.
O cérebro registrou Goratchim e Gucky como seres estranhos dotados de qualidades especiais. Tornara-se necessário ressaltar o dom telepático de Gucky. Goratchim era considerado um armazenador de dados, já que as duas cabeças possuíam uma extraordinária capacidade de memorização.
Rhodan marchava à esquerda do grupo. Usava calças verde-garrafa de tecido fino sobre as botas vermelhas; uma blusa larga, segura pelo cinto com o coldre, cujas ombreiras estavam cobertas por símbolos estranhos. As cabeças dos membros do grupo estavam cobertas por grossos capacetes de fibra artificial com equipamentos de radio-comunicação embutidos.
Depois de terem dado dez passos, as primeiras gotas de suor começaram a porejar em sua pele. Depois de cinco minutos de marcha sob o sol causticante de Árcon, estavam completamente molhados.
Ouviram-se duras imprecações. Caminharam cada vez mais zangados e cansados em direção ao pequeno transportador no 18, cuja comporta inferior de passageiros já estava aberta.
Silêncio no grupo — soou a voz de Rhodan. — Que diabo! Procurem controlar-se. Afinal, não é nenhum prazer andar sobre chapas de metal aquecidas.
Estas botas de sola fina até parecem uma torradeira de ondas curtas — esbravejou Bell com a voz abafada. — Mais cinco minutos, e começo a dançar.
Um sorriso fugaz surgiu no rosto de Rhodan. Sabia perfeitamente que poderia confiar em seus homens.
Robôs de combate arcônidas surgiram diante da nave. Tratava-se de um veículo espacial auxiliar da classe Good Hope.
A voz de comando de Rhodan soou pela área deserta. A coluna parou pouco antes de atingir a comporta.
Elegante e orgulhosa, Thora desceu do carro. Seu olhar era um tanto malicioso, o que fez Rhodan transpirar ainda mais. Lançou um olhar furioso atrás dela.
Assim que tiver uma oportunidade eu a farei voar pelos ares — prometeu Anne Sloane, a telecineta. — Será que tudo isso é necessário?
Silêncio — resmungou Marshall. — Por enquanto não há problema. Mas o futuro me parece um tanto misterioso.
Thora expedira seu aviso. Acompanhada de Crest, desapareceu no interior da nave.
Entrem um por um, com os cartões de identificação na mão esquerda — soou a voz metálica de um robô.
Um atrás do outro passaram pelo segundo controle. Os impulsos dos cartões de identificação foram apalpados antes que a grade se levantasse para deixar passar um homem de cada vez.
Os músculos do rosto de Rhodan entesaram-se quando chegou a vez de Goratchim. Mas o autômato não hesitou nem um pouco. Para ele o aspecto exterior do homem era totalmente indiferente. Carregava seu cartão, e era quanto bastava. Rhodan foi o último a passar pelo controle.
Lançou um ligeiro olhar para os arcônidas que se mantinham à espera. Entre eles, só o almirante Kenos sabia da fraude que acabara de ser cometida. Provavelmente felicitavam-se por terem arrancado da família de Zoltral esses elementos excelentes de Zeklon V.
Rhodan subiu no elevador antigravitacional. Um robô mandou-os à grande cantina da tripulação, onde teriam que esperar. A decolagem foi realizada em poucos segundos.
Onde está Thora? — cochichou Rhodan. — Dê uma olhada por aí.
Wuriu Sengu, o espia, perdeu o brilho dos olhos. Fitou rijamente as paredes maciças de aço, que face à capacidade extraordinária de que era dotado não representavam nenhum obstáculo à visão. Quadros nítidos surgiram diante de sua visão mental.
Está na sala de comando. Crest está ao seu lado. A nave está sendo teleguiada.
Muito bem. Quero que todos prestem atenção. Quando estivermos a sós, falaremos em inglês. A nave está viajando para Árcon III, o planeta da guerra. Somos ocupantes de primeiro nível de um couraçado. Se conseguirmos passar ilesos pelos novos controles, não haverá maior demora. Reconhecemos o treinamento hipnótico a que fomos submetidos. É a única maneira de explicar nosso elevado quociente intelectual. Provavelmente em parte serão elevados demais. É bem possível que em alguns casos o autômato desconfie. Precisamos contornar esse fator de perigo através de uma série de decisões e respostas individuais.
Quando estivermos a bordo de uma nave espacial da classe da Stardust, as coisas estarão bem melhores. Uma vez que, em Árcon I, não existem as menores condições para isso, tivemos que dar um jeito de chegar ao número três. Acho que o cérebro está sendo muito gentil ao providenciar nosso transporte. Nossa Gazela estará bem guardada nas mãos do almirante. Oportunamente voltaremos para buscar a nave. Portanto, previnam-se e recapitulem as instruções. Antes de mais nada, não se esqueçam de seus novos nomes. Constam dos cartões de identificação. Exercíamos as funções de guardas palacianos dos Zoltral. Mais alguma dúvida?”
Bell cochichou em tom indiferente:
Mais uma vez você está sendo muito modesto. Tem que ser justamente uma nave da classe Império? Não podemos guarnecer sequer um dos postos de combate. Por que não pegamos uma nave menor?
Rhodan lançou um olhar aos mutantes. Sengu sacudiu a cabeça. Dali se concluiu que não estavam sendo vigiados por meio de um circuito de televisão.
Tenho a impressão de que você subestima terrivelmente o planeta Árcon III. Se tivermos uma chance de escapar, isso só poderá ser feito num gigante superforte. Não vejo por que iríamos contentar-nos com um barco menor.
E a Ganymed? — interveio Marshall em tom objetivo.
Uma expressão sombria surgiu no rosto de Rhodan. O grande problema acabara de ser formulado.
Aguardemos — decidiu Perry. — Freyt recebeu suas instruções. Se conseguirmos chegar ao número cinco, isso acontecerá de supetão. Qualquer instalação mecânica é prejudicada se, nas suas imediações, uma gigantesca nave sai ruidosamente do hiperespaço. Além disso, Freyt dispõe de um transmissor fictício. As reflexões e os planos prematuros têm uma qualidade desagradável: em noventa e nove por certo dos casos não dão certo. Veremos o que nos confiam no planeta três. Se não conseguirmos entrar pelo menos num cruzador pesado, então...
...então desistiremos, não é? — interrompeu Bell.
Rhodan mordeu o lábio inferior. O arrojo e a energia de sempre brilhavam no fundo dos seus olhos.
...então veremos o que faremos — completou. — Certa vez um homem muito inteligente disse que não há nada mais fácil que enganar uma máquina, desde que se conheça a mentalidade mecânica do respectivo robô. Daremos uma olhada naquilo.
Uma tela iluminou-se. Thora surgiu na mesma.
Pousaremos dentro de quinze minutos — disse com a voz fria e reservada de uma comandante arcônida. — Tan’Ro, você se encarregará da saída dos homens pela comporta. Aguardem novas instruções.
Rhodan, que em seu cartão de identificação constava sob o nome de Tan’Ro, fez continência à moda terrana. A essa altura, era altamente provável que estivessem submetidos a alguma forma de tele-observação.
A tela voltou a apagar-se. O silêncio instalou-se na sala. Os olhos de Rhodan examinaram os outros. Viu olhos chamejantes numa tensão febril.
Pois bem, vamos adiante — disse o comandante. — Viva o Império a cujo serviço nos colocamos. Ivã, não se meta em brigas. Entendido?
As duas cabeças do mutante de dois metros e cinqüenta encararam-se.
Combinado, irmão — disse Ivanovitch, o mais jovem dos dois, com a voz aguda.
Esquecerei que foi você que encontrou sua mente meio segundo depois que acordei.
Chegamos a um acordo no sentido de que foi um terço de segundo — chiou a outra cabeça. — Acontece que consegui outras provas de que, quem acordou em primeiro lugar, fui eu. Está bem, não vamos brigar, mas oportunamente conversaremos a respeito.
O corpo titânico submetido ao controle das duas cabeças permaneceu calmo.
Gente, que brincadeirinha não vamos ter! — rejubilou-se Gucky com a voz abafada. Sua cauda em forma de colher estalou contra o chão. — Será uma coisa, chefe! Quando chegar a hora, não se esqueça de dar o sinal.
Seu convencido — cochichou Bell. — Não pense que as coisas serão tão fáceis.
Gucky exibiu seu gigantesco dente roedor.
Silêncio — interveio a voz nervosa de Rhodan na discussão que se ia formando. — Wuriu, já consegue ver alguma coisa?
Um planeta em forma de meia-lua está crescendo. Daqui a pouco devemos chegar.
Sem dizer uma palavra, Rhodan segurou o radiador de impulsos. Foram obrigados a deixar para trás as armas leves que traziam nos coldres, já que não pertenciam ao equipamento padronizado. Em compensação receberam os últimos modelos dos artefatos guerreiros dos arcônidas.
Está fazendo muito calor para um combate corpo a corpo — resmungou Rhodan com um sorriso desagradável. — Ah, está na hora.
O trovejar surdo dos projetores energéticos sacudiu a nave. Ouviu-se um uivo e um chiado agudo. A nave penetrava, ao que tudo indicava, em velocidade bastante elevada, na atmosfera de algum astro.
Poucos segundos depois todas as telas acenderam-se. Os homens viraram-se instintivamente.
Vocês têm permissão de ver Árcon III — declarou Thora. — Estou em contato com o Grande Coordenador. Ele lhes dá as boas-vindas. Fim.
Só as imagens permaneceram vivas. Os homens encararam-se perplexos. Já sabiam qual era o nome que o cérebro robotizado do mundo da guerra se atribuíra.
O Grande Coordenador, heim? — repetiu Rhodan em tom seco. — Será que aquilo possui certa ambição? Silêncio, nada de discussões. Santo Deus, abram os olhos...
Rhodan interrompeu-se. Perplexo, olhou para as telas. Por baixo da nave auxiliar que se deslocava em queda livre, deslizavam velozmente as paisagens que não eram verdadeiras paisagens. Uma fábrica encostava-se à outra, as usinas gigantescas sucediam-se em seqüência ininterrupta. Não se via uma única planta, uma elevação que pudesse ser considerada um acidente geográfico.
Era uma superfície totalmente lisa, que parecia ser formada exclusivamente de aço, plástico e outras substâncias artificiais. Só os mares primitivos continuavam intocados.
Pelo que se dizia, só em Árcon III havia mais de 25.000 estaleiros espaciais. Todo esse mundo estava reservado exclusivamente à construção de naves. Uma metrópole ligava-se à outra sem quebra de continuidade.
Os inúmeros espaçoportos com suas gigantescas estações de rádio eram o único fator de dissociação daquele quadro compacto de tecnologia. Além disso, sabia-se que a maior parte de Árcon III fora escavada sob a superfície. Certas unidades muito importantes da indústria espacial, inclusive as destinadas à produção de propulsores, ficavam 5.000 metros abaixo da superfície. Era a indústria militar mais gigantesca da Galáxia.
De parte em parte erguiam-se as abóbadas fluorescentes dos enormes campos energéticos. Árcon III era um pouco maior que a Terra. Sua gravitação média era de 1,3g.
Os espaçoportos formigavam de naves esféricas, desde as pequenas até as grandes gigantes do espaço. Ali estava reunida uma frota cujo poderio chegava ao infinito.
Já começo a compreender como surge um Império — disse Rhodan, esticando as palavras. — Cavalheiros, diante disso não passamos de miseráveis anões. Será que realmente decolamos com o objetivo de assumir o controle desse conjunto gigantesco?
Olhou em torno, numa atitude quase desolada. Não obteve resposta. Bem adiante deles, surgiu a maior abóbada energética que já haviam visto. Na altura reduzida em que se encontravam, não era possível abranger com a vista toda a área coberta pela usina. A extremidade superior da abóbada protetora avançava até as camadas superiores da atmosfera.
Rhodan sabia que se encontravam próximos à sede do cérebro central que se designava como o Grande Coordenador. Kenos explicara que as instalações ocupavam uma área de aproximadamente dez mil quilômetros quadrados, e isso apesar da conhecida micro tecnologia dos arcônidas.
Pelo que se dizia, as sucessivas gerações de técnicos haviam trabalhado naquela obra por mais de 8.000 anos. Os setores foram sendo ligados progressivamente, até que não havia mais nenhum saber ou conhecimento que ainda pudesse ser armazenado nas células positrônicas. Ninguém saberia dizer até que profundidade o cérebro penetrava no solo. Era inteiramente autônomo. Suas usinas energéticas ainda funcionariam por milhões de anos.
Não poderemos esperar tanto tempo — murmurou Rhodan para si mesmo.
A nave auxiliar descreveu uma curva bem ampla em torno da abóbada energética. Logo depois outro espaçoporto surgiu diante deles.
Dentro de poucos minutos seguiu-se um pouso exemplar. As máquinas pararam. As escotilhas de segurança da sala da tripulação abriram-se com um chiado.
Desçam e entrem imediatamente em forma — foi a ordem que o robô transmitiu pelos alto-falantes.
Os homens saíram apressadamente. Não houve outro controle. Perfilaram-se junto a uma das colunas de aterissagem da nave esférica de sessenta metros de diâmetro e aguardaram até que Thora e Crest aparecessem.
Mesmo que aqueles homens tivessem vontade e disposição para uma troca de idéias, nesse ambiente as discussões, os planos e as esperanças perderiam seu sentido.
À frente, ao lado e atrás do lugar em que haviam pousado, as naves formavam filas ininterruptas. Mais adiante, à sua direita, mais de cinqüenta vultos gigantescos subiam ao céu límpido, onde também brilhava o sol branco de Árcon.
Gigantescas esferas de oitocentos metros de diâmetro, da classe Império, estavam dispostas em filas ordenadas. Mas não eram elas que deixavam Rhodan sem fala. Embora essas naves pudessem perfeitamente mergulhar um astronauta humano em complexos de inferioridade.
Não! — gaguejou Rhodan consigo mesmo. — Oh, não!
Ouviu a respiração pesada da arcônida, que também tinha os olhos fitos no milagre.
Logo após as fileiras de naves da classe Império, mais dois vultos gigantescos, também de formato esférico, erguiam-se para o céu. Se as naves da classe Império podiam ser consideradas muito grandes, essas unidades eram verdadeiros supergigantes.
Seu imenso cinturão, abrigo dos propulsores, e situado exatamente no plano equatorial do corpo esférico, começavam na altura em que terminavam as cúpulas polares superiores das naves da classe Império. Face a isso seu tamanho podia ser avaliado com uma precisão razoável.
Eram duas montanhas, que apesar da distância não podiam ser vistas em toda a altura. Rhodan fechou os olhos, para abri-los com mais força.
Sempre pensei que os gigantes da classe Império fossem as naves mais poderosas de sua frota — observou com a voz gaguejante. — Pelo amor de Deus, Thora, o que é isso? Esses gigantes devem ter uns mil e quinhentos metros de diâmetro. Quem construiu aquilo?
A arcônida estava muito pálida. Respondeu em tom apressado:
Foi ainda durante o governo de minha dinastia que surgiu o plano de construir supercouraçados desse tamanho. São as naves da classe Universo, se não me engano. Nunca chegaram a construí-las, ao menos até o tempo da minha partida, treze anos atrás. Mas, nos últimos anos, aconteceu uma infinidade de coisas.
Rhodan não conseguia tirar os olhos dos dois supercouraçados. Nem desconfiava de que seus homens o contemplavam numa terrível tensão nervosa, até que Bell disse com um gemido:
Ainda acabo enlouquecendo. Já conheço este olhar. Meu amigo, não se deixe dominar pela megalomania. Jamais nos entregarão um barco desses.
Pelo menos mil e quinhentos metros — sussurrou Rhodan imerso em suas reflexões. — Mil e quinhentos metros, sem contar as colunas de sustentação. Calculo que tem cem vezes o poder de fogo da Stardust-III. É inacreditável. Está bem, não direi mais uma única palavra. Oportunamente conversaremos a respeito.
Thora estava entrando num carrinho que flutuava pouco acima do solo, sustentado por um pequeno campo de repulsão.
O ritmo de uma música súbita e barulhenta arrancou Rhodan de suas reflexões. Seu cérebro trabalhava febrilmente na elaboração de um novo plano. Constantemente, voltava os olhos para as montanhas de aço arcônida. Ao lado delas, as naves da classe Império eram uns veículos bem delicados.
Dou as boas-vindas de Árcon III aos defensores do Império — disse uma voz retumbante.
A música voltou a soar. Viram o veículo de grandes dimensões que se aproximava. A extensa área da plataforma comportava mais de cinqüenta pessoas.
Desta vez não precisariam marchar sob o sol causticante.
Falem, conversem — foi a ordem que Rhodan mandou transmitir de homem para homem. — Demonstrem alegria e curiosidade, riam. Isso faz parte do jogo. Afinal, somos seres vivos. Vamos logo! Não façam o papel de gente anestesiada. Afinal, a surpresa não pode durar para sempre.
Um grupo de homens alegres e conversadores subiu à plataforma baixa do veículo. Antes que o mesmo se pusesse em movimento, Rhodan lançou mais um olhar sobre os couraçados da superclasse. Depois pensou no destino longínquo: “o espaçoporto era gigantesco”.

6



O Tempo de rotação em torno do eixo do terceiro planeta sincronizado do sistema interno de Árcon correspondia a 28,4 horas, segundo os padrões terranos.
Se em todos os mundos do Universo, a noite ou o crepúsculo descem vez por outra sobre uma das faces, isso não acontecia nesse astro extraordinário.
Os robôs não precisavam de sono, nem de pausas ou férias. O ruído de milhões de máquinas e linhas de montagem inteiramente automatizadas formava o ritmo de um mundo que não conhecia a escuridão.
No hemisfério em que reinava a noite, os sóis atômicos substituíam o astro natural. Bilhões de instalações fixas de controle e robôs móveis trabalhavam ininterruptamente.
Em Árcon III, onde antes da intervenção do gigantesco cérebro central de controle, reinara o silêncio cadavérico de um império moribundo, hoje havia despertado para uma nova atividade. Há seis anos terranos o silêncio parara.
A maior das máquinas de guerra da Galáxia iniciara a produção em série de naves espaciais com tamanho élan, que até parecia que desejava de arrancar, de um dia para outro, os velhos tempos da política de conquista dos abismos melancólicos do esquecimento.
Rhodan tentara avaliar apenas o problema do abastecimento de matérias-primas. O planeta Árcon III estava totalmente explorado. Nele não seria encontrado nenhum torrão de minério digno de ser extraído do solo.
Uma frota mercante bem dirigida estava a caminho ininterruptamente, para trazer as mercadorias que se tornavam necessárias. Nos espaçoportos dos planetas 5, 6, 7 e 8, onde era permitido o transbordo, eram negociadas mercadorias que muitas vezes teriam de ser transportadas através de enormes distâncias galácticas.
Também em Árcon II, o mundo destinado à produção de artigos industriais úteis ao povo, as fábricas estavam trabalhando. Árcon produzia em benefício do Império.
Rhodan logo desistiu de compreender, com a inteligência, qualquer problema setorial que fosse daquela gigantesca organização. Era impossível!
Todavia, descobrira o motivo lógico para a construção de um cérebro robotizado de tamanhas dimensões. Mesmo os velhos arcônidas, que ainda se mantinham em atividade, já não seriam capazes de controlar os problemas que se apresentavam, e que se contariam pelos milhões. Só mesmo uma máquina seria capaz disso, e essa máquina, face aos inúmeros circuitos específicos, teria que ocupar um enorme espaço.
Faziam 32 horas que o comando se encontrava no mundo da mecanização total. Poucas vezes, haviam visto um arcônida. Em compensação, os seres vindos de todos os setores da Galáxia submetidos ao domínio do Império eram muito numerosos.
O gigante robotizado estava prestes a submeter até mesmo as raças subdesenvolvidas a um treinamento hipnótico intensivo, pois só assim estaria em condições de tripular suas naves.
Praticamente de hora em hora, enormes esquadrilhas rugiam em direção ao espaço. Cada uma tinha um objetivo bem fixado.
Pelas notícias que circulavam, na área do grupo estelar M-13 estavam sendo travadas as batalhas mais terríveis de que se tinha notícia desde a criação do Império.
Os mundos coloniais revoltados, que há mais de quinhentos anos começaram a sacudir o jugo do Império debilitado, subitamente viram-se colocados diante de uma alternativa: a submissão incondicional ou a destruição total. Logicamente o cérebro robotizado não estava interessado em saber quantos seres vivos seriam eliminados, ou se sua atuação resultaria numa injustiça gritante.
Rhodan sentiu-se próximo a um colapso psíquico total sempre que pensava na possibilidade de uma descoberta casual do planeta Terra.
O pavilhão era baixo, amplo e sem qualquer toque pessoal. Seria para abrigar as tripulações recém-recrutadas. A cada raça era destinada uma área específica, da qual só devia sair em caso de necessidade. Os alimentos e as bebidas eram fornecidos com uma rapidez extraordinária sempre que alguém o desejasse.
O local servia principalmente de encontro à raça ciclópica dos naats. A área por eles ocupada era contígua àquela destinada aos homens do grupo de Rhodan.
Os mutantes exerceram uma vigilância extraordinária. Um barulho infernal enchia o recinto. As brigas eram corriqueiras. Eram principalmente os naats que procuravam encrenca a todo instante, já que isso correspondia ao seu gênio.
Num lugar mais distante, vultos de pele azul e cabeça grande estavam agachados no solo. Não havia exemplares de raças não-humanas. Era sabido que mesmo o autômato robotizado funcionava segundo os princípios adotados pelos velhos conquistadores arcônidas.
Os seres não-humanóides, que não respiravam oxigênio, sempre foram os inimigos mais encarniçados do Império. As grandes operações da frota especial visavam principalmente a esses seres.
A área destinada aos humanos estava guarnecida de confortáveis poltronas articuladas. O cérebro fazia tudo que estava ao seu alcance para deixar satisfeitas as tripulações que conseguia recrutar.
Bell lançou um olhar desconfiado para os ciclopes de três olhos. Mais uma vez brigaram, até que os robôs de combate os separassem. Nessa operação, as máquinas não demonstravam a menor delicadeza.
O berreiro dos gigantes de três metros amainou um pouco, sendo substituído por um murmúrio abafado.
Se há treze anos alguém me dissesse onde estaria a esta hora, eu teria gritado sem parar — observou Bell em tom melancólico. — Já começo a compreender por que fomos recebidos com tamanha gentileza.
Um robusto europeu pertencente ao comando soltou um apito estridente. Com um largo sorriso, contemplou o robô de serviço que se aproximava, anotando solicitamente o pedido que lhe era formulado.
Não vamos exagerar — advertiu Rhodan em tom nervoso. — Tenho a impressão de que já estamos com a faca na garganta. Tifflor, já se recuperou do exame?
Com um sorriso melancólico Tiff, pôs as mãos no crânio. Nas têmporas, viam-se duas manchas roxas.
Não agüentaria isso mais uma vez — gemeu. — A máquina quis saber por que todos nós temos um quociente intelectual tão elevado. Sinto dizer isto, mas tenho a impressão de que a máquina está muito desconfiada.
O grupo tornou-se um pouco menos barulhento.
Vamos chegar mais perto uns dos outros — resmungou Rhodan. — Quando Kakuta voltar, levantem-se imediatamente para dar um brinde. Se preferirem podem dançar. O importante é que ele fique ao abrigo das vistas alheias.
Chefe, tenho uma forte desconfiança de que o senhor será enfiado mais uma vez nesse detector de vibrações cerebrais — disse o sargento Rous em tom preocupado. — Ninguém escapou disso, mas com o senhor foi muito mais demorado. Perguntaram a cada um de nós como um habitante de Zeklon V pode ter um quociente intelectual que equivale ao dobro do que é encontrado nos cientistas mais importantes de Árcon.
Rhodan apresentava um rosto inexpressivo. Estava desconfiado de que seria submetido mais uma vez à prova de vibrações cerebrais. Evidentemente, o dispositivo automático recorrera às suas instalações especializadas para examinar os dotes mentais dos homens que o almirante Kenos lhe Havia mandado. Isso aconteceu em menos de doze horas após a chegada.
Rhodan sentia as palmas das mãos úmidas quando se lembrava da reluzente sala metálica com os detectores enfileirados. Os olhos de Bell eram grandes e indagadores. Também despertara a atenção do mecanismo por seu quociente intelectual extremamente elevado.
Vamos aguardar — voltou a dizer Rhodan. — Isso leva algum tempo. Thora fará o que estiver ao seu alcance para que nos confiem uma das naves grandes. O cérebro só pensa em termos lógico-pragmáticos, sem permitir que qualquer tipo de sensibilidade desvie o curso do seu raciocínio. Por isso deve ser mais que evidente que entregará as melhores naves às tripulações mais bem dotadas. Seiko, mantenha-se no grupo. Onde está Tako?
Marshall baixou a cabeça e pôs-se a escutar
Não estou captando nenhum impulso — disse em voz baixa. — Os inúmeros campos energéticos perturbam a comunicação.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça. Aos poucos sua calma começava a irritar os outros. Os homens estavam atentos como nunca. Havia alguma coisa no ar.

* * *

Tako Kakuta, o teleportador japonês, voltou com um salto rápido para o luxuoso quarto, no momento em que o robô de serviço entrava na sala.
O autocontrole de Thora foi exemplar. Não dirigiu a palavra à máquina. Sem o menor ruído, aquela imitação sempre sorridente de um arcônida, dirigida por um dispositivo positrônico, retirou-se do recinto.
Venha — disse em voz baixa.
Tako espremeu-se pela porta entreaberta. O pequeno desintegrador do arsenal da Gazela desapareceu sob a vestimenta em forma de blusa.
Se pegarem o senhor com isso, nosso jogo estará perdido — disse em tom indiferente. — Salte de volta, mas não se esqueça das instruções. Perry deverá insistir, de qualquer maneira, na afirmação de que eu lhe dei um treinamento hipnótico de primeira classe. Minha qualidade de comandante da dinastia de Zoltral foi reconhecida. A probabilidade de ser identificada como Thora é extremamente remota. Os comprovantes são perfeitos.
Tako despediu-se com um gesto, antes de desaparecer num fugaz fenômeno luminoso.
Recuaram apressadamente da poltrona articulada vazia, que no mesmo instante passou a abrigar um vulto. Rhodan levantou-se de um salto. Sua exclamação fez com que os homens levantassem os braços. Tako estava perfeitamente escondido.
Você demorou muito — cochichou Rhodan apressadamente. — O que aconteceu? Houve algum problema?
Thora foi interrogada hoje pela segunda vez. Não compreende o motivo. Seja como for, foi investida no comando da Veast Ark. Amanhã deveremos subir a bordo. O treinamento ficará a cargo de Crest, que no momento está sendo submetido a um processo de aprendizagem hipnótica.
De que tipo é a nave? — perguntou Rhodan ansiosamente. — É um cruzador? Ou será uma nave da classe Império?
Uma expressão de medo e insegurança surgiu no rostinho infantil de Tako.
É pior do que isso, chefe! A Veast Ark é um dos novos supergigantes. Aconteceu exatamente aquilo que o senhor previa. Nossos quocientes intelectuais extremamente elevados e o treinamento aprimorado que possuímos levaram o cérebro a nos enviar para a nova máquina.
Rhodan cerrou as pálpebras. Então era isso mesmo!
Eu sabia! Não poderia ser de outra maneira, a não ser que o cérebro não fosse capaz de extrair dos fatos conseqüências lógicas e coerentes. Só não seríamos colocados a bordo do gigante caso existisse outra tripulação de igual categoria. Por que você acha que isso é ruim?
Thora parecia muito preocupada. Os novos supercouraçados da classe Universo contêm as conquistas mais recentes da ciência arcônida. Neles existem máquinas que ainda não conhecemos. Além disso, têm um dispositivo automático de segurança inteiramente positronizado, que mantém contato direto com o robô central, seja qual for a distância. Acho que não será possível provocar a decolagem com uma tripulação de apenas cinqüenta homens.
Se necessário, eu faço isso com trinta homens — disse Rhodan em tom frio. — Basta que haja uma chave direta de emergência como a da Stardust para que eu controle todos os propulsores a partir da sala de comando. Não haverá problema.
Levantou-se abruptamente e pegou o capacete. Os naats lançaram olhares curiosos em sua direção.
De repente, os homens tornaram-se muito silenciosos. Seus olhares diziam tudo. Se não estavam enganados, o “velho” acabara de tomar uma decisão que, de uma hora para outra, traria o êxito ou a destruição.
Andando fora de forma, saíram do pavilhão e dirigiram-se aos alojamentos. Lá fora sentiram-se ofuscados pela luz de um sol atômico que brilhava nas alturas. Um planador antigravitacional teleguiado levava um gigantesco moldador de impulsos à oficina de reparos que se encontrava por perto.
Descansem e acalmem os nervos! — ordenou Rhodan. — Permaneceremos a bordo enquanto for possível. O tempo não significa coisa alguma, a não ser que surja algum acontecimento que transforme um segundo numa preciosidade insubstituível. Marshall, mantenha sua equipe de prontidão. Para sairmos daqui, o senhor terá que engajar todas as forças.
Um grupo de monstros barulhentos passou perto deles. Eram os gigantescos blindados destinados às operações de terra que rolavam em direção aos couraçados da classe da Stardust.
As intenções do Grande Coordenador são as melhores possíveis — disse Bell em tom irônico. — Só estou curioso para saber quem ele colocará embaixo de nosso nariz quando estivermos a bordo.
Rhodan lançou um olhar para o quadro gigantesco da abóbada energética. Sob ela ficava uma entidade mecânica que a inteligência humana não podia compreender.
A bolha energética emitia um brilho frio e ameaçador. Nenhum poder da Via Láctea poderia rompê-la — com exceção de um único.
Veremos, Grande Coordenador — cochichou Rhodan. — Veremos!
7



Um verdadeiro labirinto de milhares de corredores, salas enormes e cubículos apertadíssimos fora instalado pelos engenheiros astronáuticos mais experimentados da Galáxia naquele vulto esférico de 1.500 metros de diâmetro, que parecia de fora formar uma massa compacta.
Não havia nenhum recanto, nenhuma área, por menor que fosse, que não preenchesse alguma finalidade.
O grande elevador central, que atravessava o corpo esférico em linha reta, de pólo a pólo, constituía o único elemento de orientação. Era um couraçado no qual uma tripulação de mil pessoas poderia desaparecer por completo. Os gigantescos salões que abrigavam as usinas geradoras estavam subdivididos em vários planos. Em seu interior, alguém poderia perder-se.
Rhodan viu-se diante de um problema cuja solução necessariamente demandaria um certo tempo. Pela própria natureza das coisas, seria impossível abrangê-lo num relance.
Fazia quatro dias de Árcon que se encontravam a bordo da Veast Ark. Crest, que ali estava sendo identificado por outro nome, fez o que esteve ao seu alcance para instruir os cosmonautas e os técnicos do comando.
As dependências mais importantes já eram conhecidas. Todos procuravam não se afastar muito do elevador central, pois se o fizessem se perderiam irremediavelmente.
O aprendizado hipnótico de Rhodan revelara-se um tanto deficiente. Havia naquela nave pavilhões e salas cujo formato, determinado pela respectiva finalidade, muitas vezes era tão estranho que não se poderia pensar em compreendê-los num curto espaço de tempo.
A idéia de que o cérebro não se deixaria enganar por muito tempo pesava em sua mente. Por isso realizou esforços tremendos para identificar principalmente os postos de controle mais importantes e inspecionar os aparelhos instalados nos mesmos.
O mecanismo de pilotagem era quase idêntico ao da Stardust-III. A central instalada no centro geométrico da nave abrigava um mecanismo sincronizador inteiramente positronizado cuja perfeição era tamanha, que sem a menor dúvida seria capaz de controlar os propulsores, as centrais energéticas e a aparelhagem auxiliar, desde que o aparelho de controle montado no interior da central concordasse com isso.
Abaulado em semicírculo e enfeitado por algumas telas de imagem, o colosso blindado ficava logo atrás das mesas de controle em meia-lua instaladas diante dos assentos dos pilotos.
Tratava-se de uma estação retransmissora do grande robô. Um exame cauteloso realizado pelos mutantes revelara que o pequeno cérebro robotizado fora programado especialmente para as tarefas de controle da nave. A qualquer momento poderia intervir nas operações normais e interromper as mesmas, sendo capaz de paralisar mecanismos potentes e interromper séries de cálculos em pleno processamento.

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