quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-043 - Cuidado com os Microrobôs - Kurt Mahr [parte 1]



Autor
KURT MAHR



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Tropa de choque “Piquenique” —
só três homens escapam da peste de nonus.

A história da Terceira Potência em poucas palavras:

1971 — O foguete Stardust chega à Lua, e Perry Rhodan descobre a nave exploradora dos arcônidas (vol. 1).
1972 — Criação da Terceira Potência, que enfrenta a resistência das grandes potências terranas e rechaça as tentativas de invasão vindas do espaço (vols. 2 a 9).
1975 — Primeira intervenção da Terceira Potência nos acontecimentos galácticos. Perry Rhodan defronta-se com os tópsidas e procura solucionar o mistério galáctico (vols. 10 a 18).
1976 — A Stardust-III chega ao planeta Peregrino, e Perry Rhodan alcança a imortalidade relativa (vol. 19).
1980 — Perry Rhodan regressa à Terra com um atraso considerável e vê-se obrigado a lutar por Vênus (vols. 20 a 24).
1981 — O Supercrânio ataca (vols. 25 a 27).
1982183 — Chegada dos saltadores, que querem eliminar a concorrência que a Terra representa no comércio galático (vols. 28 a 37).
1984 — Primeiro contato de Perry Rhodan em Árcon e sua atuação como plenipotenciário do cérebro positrônico que exerce o governo no grupo estelar M-13 (vols. 38 a 42).
No momento em que uma força combatente de 700 homens nem pensa em obedecer às ordens do comandante, até mesmo uma gigantesca máquina de guerra como a Titan enfrenta uma situação bastante difícil. E o que é pior, os tripulantes atacados pela epidemia dos nonus estão praticamente mortos, pois a medicina humana não conhece qualquer antídoto contra a moléstia. Porém era necessário ter Cuidado com os Microrrobôs.



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência e comandante da Titan.

Julian Tifflor, apelidado de Tiff — um jovem tenente da frota espacial terrana que resolve fazer um piquenique.

Dr. Hayward — Descobridor do bacilo da epidemia dos nonus.

Major Chaney — Para quem a vida é “de uma beleza indescritível”.

O’Keefe e Halligan — Que não se suportam.

Nathan — Um hono que desenvolve uma atividade surpreendente.
1



O oficial alto e jovem parou diante de Rhodan e fez continência.
Às ordens, comandante — disse laconicamente.
Rhodan respondeu com um gesto indiferente.
Sente.
Tiff, ou melhor, Julian Tifflor, um jovem tenente da frota espacial terrana, aguçou o ouvido. Quando Rhodan o chamava pelo apelido, geralmente havia alguma novidade.
Tiff sentou. Depois do que Rhodan levou alguns minutos sem dizer uma única palavra, passou os olhos pelas telas que rodeavam toda a sala de comando, apenas para fazer um movimento. Olhou distraidamente para as massas gigantescas de estrelas da nebulosa M-13 e para o brilho apagado do vulto alongado da Ganymed, que permanecia imóvel a poucos quilômetros da Titan.
Estamos numa situação miserável — disse Rhodan subitamente, proferindo as palavras com tamanha violência que Tiff se assustou. — Recebemos uma tripulação descansada de oitocentos homens e um compensador estrutural para ser montado. Com mil e quinhentos homens a bordo devíamos ser uma nave potente, a mais potente que existe por aí. Acontece que só temos os oitocentos homens recém-chegados, pois setecentos estão doentes.
Algum desconhecido está atrás da nossa nuca e procura estrangular-nos. Enquanto não soubermos quem é e onde pode ser encontrado, não podemos fazer nada contra ele, a não ser destruir as naves robotizadas que enviou contra nós.”
Rhodan levantou a cabeça e fitou os olhos de Tiff:
Tiff, cá entre nós, o que faria o senhor se estivesse na minha situação?
Tiff ficou boquiaberto de espanto. Rhodan, o onipotente, pedia um conselho ao mais jovem dos seus tenentes!
Reagindo com a rapidez que lhe era peculiar, Tiff logo se deu conta de que este não era o momento para agradecer ou fazer qualquer demonstração de reverência pela confiança depositada nele. Rhodan aguardava uma resposta.
Nossa desgraça começou em Honur — recapitulou Tiff, depois de refletir ligeiramente. — Honur, o segundo planeta do Sol Thatrel, situado a quarenta e sete anos-luz de Árcon. Habitado por seres inteligentes, mas primitivos. Seres totalmente apáticos, descendentes dos colonos arcônidas da fase inicial da expansão.
Rhodan escutava atentamente, como se estivesse ouvindo pela primeira vez a história do planeta Honur. Tiff viu-o fazer um gesto animador.
Honur foi interditado para qualquer tipo de aproximação — prosseguiu Tiff. — Esse mundo não passa de uma armadilha de naves espaciais. Dezenas de naves destroçadas dos tempos antigos estão espalhadas por sua superfície.
Por quê?
É porque aqueles animaizinhos engraçados, que parecem uns ursinhos, chamados de nonus, carregam consigo um veneno que ataca os nervos, e carregam-no numa dose tamanha que penetra até as pontas dos pêlos. Basta que a mão humana ou humanóide o toque para infeccionar o indivíduo. O veneno libera-o de toda e qualquer inibição, faz com que perca as medidas, transforma-o num idiota irresponsável e sorridente, que não se alimenta mais e vegeta numa espécie de euforia.
A Titan pousou em Honur por ser este o ponto de encontro combinado com a Ganymed. Quem deu a sugestão de escolher Honur? Foi Thora, a arcônida.
O destino dos tripulantes da Titan foi igual ao das tripulações das outras naves que já pousaram em Honur. Os habitantes pareciam pacatos, aparência essa que resultava de sua apatia. Os pequenos nonus eram dóceis, e qualquer um os acariciava e levava para dentro da nave. A doença espalhou-se com a velocidade do vento. Apenas cinco homens foram poupados: o senhor, Crest, o arcônida, os mutantes Gucky e Sengu e eu.
No momento mais crítico uma nave espacial desconhecida atacou a Titan. A nave era tripulada por robôs. Conseguimos repelir o ataque. Apesar das condições em que se encontrava a tripulação, o senhor conseguiu guarnecer os comandos, decolar com a Titan e abandonar Honur.
Uma série de outras naves desconhecidas seguiu a Titan. Como fôssemos apenas cinco homens cercados de amotinados eufóricos não pudemos defender-nos. Pedimos que a Ganymed, que se encontrava na Terra, viesse em nosso auxílio. E esta acabou com a confusão.
A história é esta, não é mesmo, comandante?
Rhodan acenou com a cabeça e um sorriso aflorou aos seus lábios; parecia pensativo.
É assim que gosto de ver os meus homens! — disse. — Sempre se deve rememorar os fatos e tirar as respectivas conclusões. Não era o que pretendia fazer?
Sem dúvida, mas não sei...
Bobagem! Fale logo.
Tiff ergueu os ombros.
Pois bem. Tenho a impressão de que tudo que aconteceu em Honur não passa de uma trama rematada. Ninguém sabe quem recomendou a Thora que sugerisse Honur como ponto de encontro. Tenho certeza de que foi influenciada por alguém. Ou por algum agente do inimigo ou pelo próprio.
No início, tudo correu conforme os planos. A tripulação da Titan intoxicou-se, e se não houvesse a bordo cinco homens sadios, a nave teria sido uma vítima fácil da primeira nave robotizada. No entanto, conseguiu repelir o primeiro ataque. O inimigo percebeu que seu plano falhara em parte, motivo por que enviou uma esquadrilha mais potente. Não teríamos condições de defender-nos, mas felizmente pudemos contar com a Ganymed.”
De repente, estacou e fitou Rhodan. Este percebeu que seu interlocutor queria que dissesse alguma coisa.
Então é essa sua opinião — resmungou. — Que conselho me dá?
Não conhecemos o inimigo. Até agora só vimos seus robôs. Tem algum motivo para destruir-nos. Só poderemos defender-nos se soubermos onde encontrá-lo.
O único lugar em que entramos em contato, não com o próprio inimigo, mas com seus planos, é Honur.
Sou de opinião que, se não conseguirmos encontrar a pista do inimigo em Honur, não a encontraremos em lugar nenhum.”
Rhodan permaneceu sentado mais algum tempo, sem dizer uma palavra. Depois ergueu-se de um salto. Tiff levantou-se juntamente com ele. Rhodan colocou a mão sobre seu ombro.
Quer saber de uma coisa, Tiff? Para um homem que geralmente toma as decisões sozinho faz bem ouvir vez por outra a opinião de outra pessoa. Se não tivesse ouvido a sua, ainda teria minhas dúvidas sobre se devemos pedir socorro à Árcon ou se é preferível partirmos sozinhos em busca da pista. O senhor me ajudou a resolver o dilema.
O rosto de Tiff parecia sério, mas feliz. Rhodan tirou a mão de seu ombro e, com um sorriso, fez um gesto de ameaça.
Não conte a ninguém. Isso poderia afetar minha autoridade.
Tiff ficou em posição de sentido.
Naturalmente, comandante — exclamou.
Rhodan fez um gesto com a mão.
Não leve isto muito a sério. O senhor ocupará o lugar de co-piloto, até que os oitocentos homens recém-chegados estejam familiarizados com suas tarefas. Por enquanto permaneceremos no lugar em que nos encontramos. Mas acredito que dentro de uns oito ou dez dias poderemos partir.
Tiff perdera parte de sua timidez.
Como co-piloto eu devia saber para onde partiremos — disse com um sorriso.
Rhodan manteve-se impassível.
Não acaba de sugerir nosso destino? É claro que partiremos para Honur.

* * *

A Titan era uma nave gigantesca.
O diâmetro do corpo esférico da nave chegava a mil e quinhentos metros. Era um mundo em si, equipado com todos os requintes da tecnologia militar e espacial dos arcônidas.
Enquanto Rhodan mantinha com o mais jovem de seus tenentes a conversa que ficaria gravada para sempre na memória deste último, algumas centenas de metros “abaixo” do lugar em que se encontravam aconteciam coisas totalmente diversas.
Num dos laboratórios, os profissionais da medicina estavam empenhados em desvendar o estranho mistério que envolvia os setecentos homens da tripulação primitiva da Titan.
O trabalho estava sendo dirigido pelo Dr. Eric Manoli, que chegara há apenas 12 horas a bordo da Ganymed. Era um dos quatro homens que, viajando numa frágil nave de propulsão atômica, foram os primeiros terranos a chegarem à Lua.
Manoli trouxera uma grande equipe de médicos da Terra. Tinha certeza de que conseguiria identificar a toxina que provocava o estado de euforia entre os tripulantes da nave.
Na parede dos fundos do amplo laboratório, via-se um homem sentado numa cadeira, cujos braços, pernas e tronco estavam amarrados de tal forma na cadeira que não conseguia mover-se.
Cantava alegremente:
...over the ocean, over the sea, when will Mathilda be waltzing with me...?
O fato de misturar os textos de duas canções parecia diverti-lo tremendamente. Procurou balançar-se na cadeira, e com isso fez com que esta escorregasse para a frente.
Fique quieto, seu idiota! — gritou Manoli.
O homem parou de cantar e olhou Manoli com a cara sorridente.
Para que tanta seriedade, doutorzinho? — perguntou. — A vida é tão bela! Por que vamos martirizar-nos à toa?
Manoli perdeu o autocontrole.
Pois você está me martirizando, seu idiota — gritou para o doente. — Será que você não é capaz de voltar à razão?
Razão? — disse o homem com uma risadinha. — Estou sendo muito razoável. Vocês é que são uns idiotas.
Hipereuforia, era esta a palavra com que os médicos designavam o estado em que se encontravam aquele homem e os outros seiscentos e noventa e nove tripulantes. Mas tratava-se de um tipo de euforia que não se parecia com nada que já se tivesse visto na Terra; ultrapassava todas as medidas.
Por isso Manoli e seus colaboradores lhe deram o nome de hipereuforia.
Tentavam identificar o veneno. Procuraram localizá-lo naquele doente, que fora isolado dos demais e trazido até ali sob forte vigilância. Procuraram-no também no corpo dos raros nonus que deixaram sobreviver para fins de experiência.
O pequeno animal peludo estava preso numa sólida jaula. Lançando seu olhar através das grades, contemplava os homens de jaleco branco com uma expressão triste e cordata.
Subitamente uma voz grave e tranqüila fez-se ouvir nos fundos do recinto:
Acho que é isto.
Manoli deixou cair o recipiente que segurava, e virou-se sobre os calcanhares. O Dr. Hayward, um verdadeiro gigante que há pouco ingressara no serviço médico da frota espacial, sorria alegremente diante de seu microscópio.
É o quê? — perguntou Manoli.
O veneno — respondeu Hayward tranqüilamente, fazendo um gesto em direção ao microscópio.
Com uns três ou quatro passos rápidos, Manoli colocou-se ao seu lado.
Deixe-me ver! — fungou.
Hayward inclinou-se para o lado. Manoli olhou fixamente para dentro do microscópio.
Não vejo nada! — queixou-se. — É uma substância incolor?
Naturalmente — respondeu Hayward.
Não pode ser colorida?
Ainda não tentei.
Manoli fitou-o perplexo.
Pois tente! Acredita que todo mundo tem olhos de lince que nem o senhor?
Hayward não se perturbou. Tirou a placa de material de dentro do microscópio, pingou um líquido azul sobre a mesma e voltou a empurrá-la para baixo da objetiva. Manoli suspirou aliviado.
Até que enfim...
O microscópio mostrou uma fileira de cristais dodecaédricos.
Tem alguma idéia do que possa ser? — perguntou Manoli sem tirar o olho do microscópio.
Naturalmente — resmungou Hayward. — É algum tipo de hexilamina. Será que não é?
Manoli acenou fortemente com a cabeça.
Certamente. O senhor tem toda razão. Esse negócio basta para uma análise exata?
Acredito que sim.
Pois faça uma. Rápido!

* * *

Mesmo com os aparelhos arcônidas, a análise exata de uma hexilamina não é nada fácil. Mas Hayward conseguiu concluí-la em hora e meia.
Dirigiu-se a Manoli.
Então? — perguntou este.
Entende alguma coisa de física nuclear? — perguntou Hayward.
Manoli fez uma careta.
Escute aqui, Hayward, gostaria que me contasse o que o senhor...
Sim, já sei. Acontece que para entender minhas explicações o senhor precisa ter alguns conhecimentos de física nuclear.
Por quê?
Já ouviu falar no argon?
Já; é um gás raro.
Não se pode fazê-lo entrar em combinação com qualquer outro elemento. A não ser que seja ionizado e que se consiga mantê-lo nesse estado. Para fazer isso, pode-se encostá-lo a moléculas adequadamente estruturadas, de tal forma que o átomo de argon seja ligado através de um nêutron molecular, sem ser neutralizado.
Ah, é? — disse Manoli. — E daí?
E daí? Foi o que alguém fez com esta toxina. Trata-se de hexilamina argônica, se me permite inventar um nome neste instante.
Manoli piscou os olhos.
Alguém? O senhor acredita...?
Hayward respondeu com um gesto tranqüilo.
É exatamente isso. Em nenhum lugar do Universo se encontrariam quantidades suficientes de argon em estado natural. Este veneno foi feito artificialmente.

* * *

Ninguém poderia duvidar do resultado da análise. E, agora que se conhecia a natureza da toxina, não havia nenhuma dificuldade em isolar quantidades suficientes da mesma em meio às demais secreções dos nonus, a fim de realizar outros exames. Era fácil fabricar a toxina com o líquido medular dos doentes.
O nome hexilamina argônica, inventado por Hayward, foi conservado. Além dessa denominação química, a substância recebeu um nome mais genérico. Face à quantidade considerável do gás raro que continha, foi chamada de argonina.
Por enquanto, permanecia desconhecido o mecanismo através do qual a intoxicação levava à hipereuforia.
Mas um fato que impressionava a ponto de suplantar a curiosidade de conhecer esse mecanismo era a constatação irrefutável de que a argonina era um produto artificial.
Rhodan logo foi informado sobre os resultados do exame. Pediu que Hayward e Manoli comparecessem à sua presença e lhe fornecessem um relato minucioso. Mas não lhe contaram aquilo que mais gostaria de saber: como foi que os nonus chegaram a carregar consigo uma toxina artificial.

* * *

Passaram-se exatamente nove dias a partir da chegada da Ganymed até que a Titan, uma vez montado o compensador estrutural e treinados os oitocentos homens recém-chegados, estivesse pronta para seguir.
O compensador estrutural era um aparelho apresado em mãos dos mercadores galácticos, reconstruído na Terra a toda pressa. Criava um campo defensivo, que absorvia e neutralizava os abalos estruturais do complexo espaço-temporal de quarta dimensão, causados por qualquer processo de transição de uma nave espacial. E esta, em condições normais, podia ser localizada a uma distância de centenas de anos-luz.
Uma nave equipada com um compensador estrutural estava completamente protegida contra a operação de rastreamento estrutural. Melhor dizendo: contra a hiper-localização através do abalo provocado por uma transição, isso enquanto não surgisse alguém que descobrisse algum princípio capaz de neutralizar os efeitos do compensador estrutural.
O compensador que a Ganymed trouxera da Terra fora primitivamente destinado à frota terrana comandada pelo major Deringhouse. O coronel Freyt, comandante da Ganymed, asseverou que só a contragosto Deringhouse entregara o aparelho.
O anúncio de Rhodan, de que a Titan retornaria a Honur, provocou certo nervosismo entre a nova tripulação. Ninguém ignorava o que acontecera naquele planeta. O comandante teve de expedir uma declaração adicional para dissipar o nervosismo entre seus homens.
Disse o seguinte:
Agora, que conhecemos o perigo, este perdeu seus aspectos mais pavorosos. Tomaremos todas as precauções quando pousarmos em Honur. E, principalmente, temos a Ganymed, que nos dará cobertura.
Além disso, devemos dar-nos conta de que, a bem da nossa segurança e da defesa da Terra, não podemos simplesmente dar as costas ao perigo. Ele nos alcançaria.
Temos que descobrir o inimigo e obrigá-lo a ser razoável, ou destruí-lo. Não temos outra alternativa.
Para fazer tudo isso, teremos de voltar para Honur.”
2



O sol de Honur era um astro pequeno, cujo espectro apresentava um máximo de raios infravermelhos. Em virtude disso, a luz emitida, em pleno dia, era tão vermelha como a do sol terrano ao alvorecer ou ao entardecer.
Honur era um mundo leve e pequeno, cuja gravitação superficial era de 0,7 g. A temperatura média, segundo os velhos registros arcônidas, era de 9,2 graus centígrados. Era inferior à da Terra, mas bastante superior à de outros planetas, como por exemplo Marte, com o qual Honur talvez pudesse ser comparado também sob outros aspectos.
A superfície do planeta era seca. Não havia oceanos, apenas alguns lagos. Em compensação havia cordilheiras, cujas cumeeiras atingiam altitudes consideráveis.
Foi no pé de um desses complexos montanhosos, cujas cumeeiras atingiam em média quatro mil metros, junto a um pequeno lago, que a Titan pousou no dia em que começou a desgraça.
Voltou a pousar no mesmo lugar. A Ganymed ficara para trás, descrevendo uma órbita bem ampla em torno do planeta. As salas de comando das duas naves mantinham contato sonoro ininterrupto através do telecomunicador.
Rhodan não estava disposto a assumir o menor risco.
Não se via nenhum sinal dos nativos — ou dos purificados, como eles mesmos costumavam chamar-se. Logo após o primeiro pouso, instalaram-se junto ao lago; mudos e imóveis, contemplavam a gigantesca nave.
Desta vez, já fazia dez horas que a Titan tocara o solo, e nenhum dos purificados havia dado a cara.
Estariam participando do jogo? Será que não passavam de lacaios dos desconhecidos que se chamavam de deuses?
Rhodan deu suas instruções.
Um grupo de busca comandado pelo tenente Tifflor recebeu ordens para investigar a área em torno da Titan, num raio de cem quilômetros. A rapidez com que os nativos haviam surgido depois do primeiro pouso da Titan levava à conclusão de que devia haver ao menos uma povoação nessa área. O grupo de Tifflor foi equipado com os câmbios, veículos muito versáteis, que podiam locomover-se em terra, na água e no ar, além de uma coleção de armas eficientíssimas. Sua tarefa consistia em trazer ao menos um dos purificados, no qual seria realizado o exame psíquico.
Outro grupo, comandado pelo major Chaney, recebeu instruções para descrever círculos bem amplos em torno do planeta, a bordo de naves de esclarecimento de longo alcance do tipo Gazela, a fim de realizar investigações sobre as características físicas daquele mundo. Rhodan tinha certeza de que, se em Honur existisse qualquer estabelecimento do inimigo desconhecido, o consumo de energia seria tamanho que os instrumentos ultra-sensíveis das Gazelas não deixariam de registrá-lo.
Rhodan sabia perfeitamente que, caso o inimigo suspeitasse, não teria um instante de dúvida sobre as reais intenções da Titan. Se possuísse mentalidade humana ou humanóide, veria na operação de busca uma forma de provocação e não deixaria de dar seu contragolpe.
A qualquer momento teriam de contar com ataques lançados contra os dois grupos de busca e contra a própria Titan. Outras Gazelas estavam preparadas para saltar de bordo da nave-mãe, a fim de correr em auxílio de Tifflor ou Chaney caso estes se vissem num aperto. Também a Ganymed ficou de prontidão. Chaney e Tifflor receberam instruções para não interromper por um segundo sequer o contato pelo telecomunicador.
Todas as providências que estavam ao seu alcance haviam sido tomadas.

* * *

Julian Tifflor desempenhou suas funções com o entusiasmo de que só um jovem oficial seria capaz. Seu grupo era formado por quatro câmbios. Deslocando-se pouco acima do solo, os veículos subiam por um vale que se abria em meio às montanhas. Tiff dera ordens para que o contato com a Titan fosse mantido por períodos alternados de uma hora por cada um dos veículos.
Cada câmbio tinha uma tripulação de cinco homens. As máscaras pressurizadas, de que precisariam quando saíssem da proteção das naves para a atmosfera pobre em oxigênio, balançavam junto ao queixo. Um movimento da mão bastaria para prendê-las e ativar o compressor.
Cerca de duas horas se haviam passado desde o momento em que tinham saído pela comporta da Titan. Tiff fez questão de que os veículos se deslocassem a velocidade reduzida, e sempre se mantivessem junto ao solo.
Aquele complexo de montanhas era um mundo desolado. Tiff seguiu o pequeno curso de água que, descendo das cumeeiras, desembocava no lago junto a cordilheira. Mas o efeito da água não chegava a mais de cem metros de cada lado da correnteza. Uma faixa de estranha vegetação de estepe, de aproximadamente duzentos metros de largura, cortava o vale. Além dele, começava a rocha nua, que passava a formar paredes quase verticais e subia a mais de mil metros, até atingir os flancos das montanhas mais altas.
O brilho avermelhado dos raios solares não chegava a penetrar até as profundezas do vale. No fundo da depressão, onde se moviam os veículos de Tifflor, reinava uma penumbra crepuscular, que era mais um motivo para Tiff não se apressar na execução da operação de busca.

* * *

O major Chaney cometeu um erro: acreditou que seu vôo era exatamente aquilo que seria em condições normais em qualquer outro mundo, isto é, uma tarefa rotineira destinada a “pôr as mãos” nos dados físicos e geográficos do planeta, segundo se diria na gíria astronáutica.
Os tripulantes das Gazelas não tinham muita coisa a fazer. O dispositivo automático sincronizado mantinha os veículos numa altitude constante de 30 mil metros. Também cuidava da mudança de rota quando as naves saíam de um círculo para entrar em outro. E os instrumentos de medição haviam sido construídos de maneira a executarem suas tarefas sem auxílio humano.
Um tanto contrariado, Chaney indagou-se por que o chefe não colocara os veículos em órbita em vôo automático, sem tripulantes.
Não se dava conta de que o piloto-robô não estaria em condições de lidar com tarefas muito complicadas, como por exemplo uma batalha aérea.
Mas a atitude era perfeitamente explicável. Durante as duas horas de viagem que as Gazelas já tinham atrás de si, os instrumentos não haviam registrado sequer um simples povoado dos purificados, quanto mais alguma base do inimigo que poderia ser capaz de dispor de aparelhos aptos para o combate aéreo.

* * *

Que maldição! Justamente agora que pensava que iríamos ver a luz, o sol se põe!
O sargento O’Keefe estreitou os olhos e fitou a tela, na qual ainda há poucos instantes vira as encostas do vale, que recuavam, e o planalto que agora se estendia diante deles.
À direita, bem ao longe, via-se o círculo vermelho e apagado do sol Thatrel. Metade dele já havia desaparecido atrás da linha do horizonte.
A vez de manter contato com a Titan era do Câmbio que conduzia o tenente Tifflor, o mesmo no qual o piloto, O’Keefe, acabara de manifestar sua tristeza pela luz do dia que se desvanecia.
Temos diante de nós um planalto em que a visibilidade é muito boa — disse Tiff ao oficial de plantão. — Peço instruções sobre se devo prosseguir viagem de noite.
O chefe diz que não — respondeu o oficial. — Pare num lugar seguro e aguarde o raiar do dia.
Entendido.
Tiff achava que não era conveniente sair do vale. Mandou que O’Keefe conduzisse o veículo até a encosta sul e pousasse junto ao paredão. Os outros Câmbios agiram da mesma forma.
As sentinelas foram distribuídas; depois disso cessou o zumbido trepidante dos motores antigravitacionais, e o silêncio espalhou-se pelo interior dos veículos.
Julian Tifflor incumbira-se de um dos períodos da guarda noturna.
Contrariando seus hábitos, despertou imediatamente quando seu antecessor o chamou.
Alguma coisa de especial? — cochichou.
Não senhor. Tudo calmo.
Tiff fez o corpo rolar para baixo do assento em que estivera acomodado, deixando-o livre para o companheiro.
Foi ao lugar do piloto, acomodou-se no estofamento macio e acendeu um cigarro.
A tela mostrava o último setor do vale, profusamente iluminado pela infinidade de estrelas da nebulosa. A luz era mais forte que a da noite terrana de lua cheia. Tiff enxergava perfeitamente a uma distância de pelo menos duzentos metros.
Um dos aparelhos de telecomunicação estava pronto para entrar em funcionamento. A luz verde do controle tinha um efeito tranqüilizante em meio à escuridão. Naquela hora, o Câmbio número 4 mantinha contato com a Titan, e o Câmbio número 1 estava pronto a entrar em comunicação a qualquer instante.
Tudo parecia em ordem. Tiff estava satisfeito.
Acabou de fumar tranqüilamente, deixou que quinze minutos se passassem e acendeu outro cigarro. Tomou um gole reconfortante da cafeteira que seu antecessor deixara sobre a escrivaninha.
Para isso teve que desviar os olhos da tela por alguns segundos. Quando acabou de tomar seu café, voltou a colocar a cafeteira suavemente sobre a escrivaninha e fitou outra vez o quadro da tela. Este se havia modificado.
O vulto alto e esguio de um purificado destacava-se contra a parede iluminada pela luz das estrelas.
Tiff viu que o desconhecido levantava o braço, como se quisesse fazer um sinal. Passado um momento, repetiu o gesto.
Sem desviar os olhos, Tiff comprimiu o botão que ligava o telecomunicador. Outra tela iluminou-se.
Saia da linha! — ordenou Tiff. — Preciso falar com a Titan.
O quadro da tela tremeluziu por um instante e voltou a assumir contornos nítidos. Surgiu o rosto do capitão Brian, que se encontrava a bordo da Titan.
Tenho uma novidade para o senhor — disse Tiff e acoplou o quadro da tela ao aparelho de Brian.
Por que está fazendo sinais?
Está fazendo isso desde o momento em que apareceu. Provavelmente deseja que um de nós vá até lá fora.
Brian levantou os olhos. Tiff desacoplou a imagem, para que o capitão pudesse ver seu interlocutor.
É claro que o senhor não vai fazer nada disso — ordenou.
Tiff sorriu.
Isso é uma ordem ou um conselho?
O capitão Brian sobressaltou-se.
Por quê? É claro que é um conselho. Tem outra sugestão?
Poderia sair...
...para deixar que o envenenassem?
Em primeiro lugar, vestiria um traje espacial, e depois não tenho a intenção de me aproximar do sujeito a ponto de poder dar a mão a ele ou a qualquer nonus. Finalmente, tenho dezenove guarda-costas, que poderão cuidar de mim.
Brian cocou a cabeça.
Bem — resmungou — o chefe quer que lhe deixemos as mãos livres. Se prometer que agirá com a maior cautela não meterei o bedelho. Tenha cuidado! É possível que além desse sujeito haja outros cem escondidos atrás da pedra mais próxima.
Tomarei cuidado — prometeu Tiff.
Está bem. Volte a acoplar a imagem. Obrigado.
A palestra havia despertado os tripulantes do Câmbio número 1. Sentados nos bancos, contemplavam a tela.
O que andou fazendo neste meio tempo? — perguntou Tiff. Durante a palestra com Brian, não tivera tempo de vigiar o purificado.
Levanta a mão de minuto em minuto e faz um sinal — informou O’Keefe.
Tiff enfiou o traje espacial. Era feito de plástico flexível. Fora concebido para proteger a pessoa que o usasse, impedindo a penetração de partículas de poeira cósmica. Por isso deveria estar em condições de evitar que qualquer dos nonus ou o purificado tocasse Tiff.
O’Keefe, avise os outros veículos. Ficaremos de prontidão número um.
Antes que Tiff acabasse de fechar seu traje, chegaram as confirmações. Vinte homens estavam a postos.
Tiff estava satisfeito. Tirara a máscara pressurizada, pois o capacete do traje espacial dispunha de aparelhagem própria para a renovação de ar. Antes de fechá-lo, dirigiu-se a O’Keefe.
Fique em contato comigo. Não tome nenhuma providência sem que eu lhe dê instruções para isso.
Fechou o capacete esférico com o grande visor, as redes circulares dos microfones externos e o pequeno funil do alto-falante.
Um cabo abriu a comporta; dali a um minuto Tiff encontrava-se do lado de fora. Viu que o purificado acabara de levantar o braço para dar seu sinal. Quando Tiff saiu da sombra do veículo e do paredão, baixou-o e permaneceu imóvel.
Tiff aproximou-se a passos lentos. A mão direita segurava o radiador de impulsos.

* * *

A sonda de radar está com defeito — queixou-se o sargento Dee. — Está emitindo impulsos sobrepostos.
O major Chaney tinha algum conhecimento dessas coisas.
Tirou os cintos e, atravessando a parte interna da Gazela, caminhou em direção a Dee. Este limitou-se a indicar a tela oscilográfica. Normalmente via-se nela a ponta grande marcando o impulso transmitido e, mais abaixo, a ponta menor, o impulso refletido. A distância entre as linhas que formavam os respectivos pólos servia de base ao cálculo da distância entre o emissor e o refletor ou, no presente caso, entre a Gazela e a superfície de Honur.
Mas Chaney viu uma coisa que deixara Dee nervoso: um terceiro impulso, muito débil, se desenhava abaixo daquele que correspondia ao reflexo.
Chaney girou alguns botões. Vez ou outra as imagens dos impulsos desapareciam. Mas, quando reapareciam, sempre estava presente o impulso menor, que levara Dee à conclusão de que alguma coisa não estava em ordem.
O major Chaney comunicou-se com as outras Gazelas. Em suas telas, aparecia aquela imagem. E cada observador acreditara a mesma coisa que o sargento Dee.
Algo não está em ordem — murmurou Chaney, que parecia perplexo. — O terceiro impulso é verdadeiro. O osciloscópio está funcionando?
Funciona ininterruptamente.
Pois bem; nesse caso poderíamos...
Não teve tempo para dizer o que poderiam fazer. Um terrível solavanco fez com que Chaney e todos os homens que não estivessem presos aos cintos de segurança caíssem ao chão. No mesmo instante as sereias de alarma emitiram um som estridente.
Os homens soltaram gritos de surpresa. Ainda confuso, Chaney levantou-se, apoiando-se no encosto da poltrona. Sentiu uma estranha leveza no estômago e percebeu Instantaneamente que ao menos o neutralizador deixara de funcionar.
Viu que a marca luminosa do altímetro descia rapidamente. Cambaleou o mais rápido que pôde em direção ao telecomunicador. O rosto preocupado do capitão Brian contemplava-o da tela.
Estamos caindo! — gritou Chaney, superando o barulho das sereias. — Provavelmente fomos atingidos por um raio de tração.
Brian confirmou com um aceno de cabeça.
Registramos sua posição — respondeu. — Procurem controlar os aparelhos. Dentro de alguns minutos estaremos aí.
Brian desapareceu da tela. Chaney enfiou-se na poltrona do piloto. Com um gesto firme, empurrou o regulador dos propulsores à posição máxima.
A Gazela foi sacudida por outro solavanco. A queda fora neutralizada. Olhando para o altímetro, Chaney viu que o veículo continuava a perder altura. Mas a descida não era mais rápida que a de um vôo planado, não muito inclinado.
Um sorriso amargo passou pelo rosto de Chaney. Levou alguns segundos para avisar os outros veículos. Todos eles controlaram a queda numa altitude de seis mil metros e, descrevendo uma curva suave, aproximavam-se da superfície do planeta.
Subitamente Chaney teve uma idéia. A tela do telecomunicador ainda mostrava o assento vazio do oficial que estava de plantão na sala de comando da Titan. Mas Chaney acionou o alarma até que o capitão Brian voltasse a aparecer.
Tenho uma sugestão, capitão — fungou Chaney. — Mande que os homens voltem. Conseguimos controlar a queda e devemos realizar um pouso sofrível. É bem possível que o inimigo apareça para verificar o que foi derrubado. Os homens enviados pelo senhor poderiam espantá-lo.
Brian logo compreendeu.
Está bem. Mandarei que os homens esperem; aguardo seu pouso. Se este correr normalmente, ninguém irá em seu auxílio.
Obrigado.
Chaney voltou-se aos tripulantes da Gazela.
Estão bem presos nos cintos? O estouro deverá ser bem forte. Encolham o pescoço.
O tenente Hathome, piloto do aparelho G-021, chamou pelo telecomunicador.
Iniciarei o pouso. O terreno é bastante favorável.
Chaney confirmou com um sinal de cabeça.
Muitas felicidades, Hathome!
A G-021 foi o último aparelho que conseguiu controlar a queda. Por isso Hathome foi o primeiro a chegar à superfície do planeta.
Chaney lançou mais um olhar para a imagem de radar. Hathome dissera a verdade: o piloto de um veículo que estava caindo não poderia desejar terreno mais favorável. Era liso que nem uma mesa. Nas extremidades do quadro, havia acidentes do terreno que atingiam uma altura considerável; deviam ser montanhas. Ao que parecia, a área que se estendia embaixo das três Gazelas era formada por um planalto.
A G-021 surgia sob a forma de um pontinho luminoso. Chaney viu que, de um momento para outro, reduziu a velocidade e modificou sua trajetória. No alto-falante, que ainda mantinha contato com a G-021, ouviu-se um zumbido ensurdecedor, o chiado do metal que se esfacelava e por fim um tremendo estalo. Depois não se ouviu mais nada.
Hathome!
Não houve resposta.
Hathome...!
Finalmente ouviu-se uma voz débil.
Sim senhor...
Resistiu?
Acredito que sim. Todo mundo já está de pé.
A atenção de Chaney foi desviada para outro assunto. O altímetro indicava cento e cinqüenta metros. A G-020 dispunha-se a pousar, juntamente com a G-022.
Chaney apoiou-se com toda força contra a mesa do piloto. No momento em que o altímetro havia descido quase à marca zero, expeliu toda a energia dos jatos de popa, para reduzir a velocidade.
Um enorme solavanco sacudiu o veículo. Chaney viu que o mapa desenhado pelo radar começou a girar e as sombras apagadas que se desenhavam nas telas de televisão começaram a mover-se. Um barulho infernal abafou os gemidos de pavor dos homens. Chaney reteve a respiração até ouvir o estouro final, que indicava que a G-020 acabara de chocar-se com um obstáculo: a viagem chegara ao fim.
A cabeça de Chaney bateu contra um objeto duro; ficou inconsciente por alguns segundos. Quando despertou, tudo estava em silêncio; só se ouviram os ruídos provocados pelos trajes dos homens que procuravam colocar-se de pé.
Estão todos aí? — perguntou Chaney.
Responderam com um forte sim, felizes por terem escapado.
No interior da Gazela reinava a escuridão. O suprimento de energia deixara de funcionar, e com isso o emissor também estava inutilizado. A tela do telecomunicador apagara-se.
Vamos dar o fora! — berrou Chaney. — Abriguem-se atrás da Gazela.
Baixaram os capacetes sobre o rosto e desceram. A comporta funcionava impecavelmente. Como fosse a única via de entrada e saída, fora acoplada a um gerador de emergência indestrutível.
Chaney aguardou tranqüilamente que cessasse o barulho vindo da comporta, transmitido pelos alto-falantes externos. Por fim chamou pelo rádio de capacete:
Hathome! Crimson!
Hathome respondeu imediatamente, mas da G-022 veio esta resposta:
O tenente Crimson está inconsciente. Aqui fala o sargento Halligan.
Quantos dos seus homens continuam de pé, Halligan?
Todos. Apenas dois desmaiaram.
Está bem. Hathome, as instruções que vou transmitir também valem para o senhor. Desçam, levando as armas, e procurem atingir a G-020. Estamos abrigados à sombra da máquina. Não usem seus holofotes manuais, mas apressem-se.
Hathome e Halligan compreenderam. Chaney interrompeu o contato, pegou o pesado desintegrador, que com o choque deslizara pela sala e amassara o pé do painel de controle. Desceu pela comporta.
Lá fora a visibilidade era melhor do que a que Chaney encontrara ao olhar a tela. A profusão enorme de estrelas do grupo M-13, que encobria a parte norte do firmamento, irradiava uma forte luminosidade.
Os homens do grupo de Chaney agacharam-se à sombra do aparelho de forma elíptica. Com as armas levantadas, fitavam a semi-escuridão.
Enquanto esperavam, Chaney procurou adivinhar o que faria a Titan. Depois do pouso, todos os contatos foram interrompidos. Se pudesse dar um conselho ao capitão Brian, recomendaria que recolhesse a bordo o resto das Gazelas, a não ser que quisesse partir imediatamente com a própria nave. O campo de tração do inimigo fora bastante forte para neutralizar a ação dos motores das Gazelas. Se o grupo de salvamento enviado por Brian também usasse as naves de reconhecimento, seu destino não seria diferente do das naves G-020, G-021 e G-022.
Infelizmente, Chaney não dispunha mais de nenhum telecomunicador através do qual pudesse informar a Titan sobre a experiência pela qual acabara de passar.
Enquanto ainda estava quebrando a cabeça sobre isso, ouviu um estalo no receptor de capacete. A voz do sargento Halligan disse:
Estamos vendo seu aparelho. Dentro de quinze minutos estaremos aí.
Está bem — respondeu Chaney. — Ouviu alguma coisa de Hathome?
Por enquanto não.
No entanto, Hathome chamou de uma distância maior.
Neste momento estamos passando pelo aparelho de Crimson. Calculo que ainda levaremos meia hora para chegar aí.
Preocupado, Chaney lançou os olhos em torno. Não esperara que as três gazelas fossem tocar o solo tão longe uma da outra. Muita coisa poderia acontecer em meia hora; ainda mais que desde o pouso forçado. Já se haviam passado quinze minutos.
No entanto, não viu nada de suspeito. A única coisa que Chaney pôde fazer foi insistir mais uma vez para que Hathome e Halligan se apressassem.

* * *

Tiff parou a dez metros da figura esguia.
O que deseja? — perguntou em arcônida.
Os purificados, batizados de honos pelos tripulantes da Titan, falavam um dialeto arcônida.
A figura esguia mexeu-se. Tiff viu que o hono se dispunha a aproximar-se mais alguns metros.
Pare! Fique onde está! Quero saber o que deseja.
O hono obedeceu.
Quero mostrar-lhe uma coisa — respondeu. Sua voz chegava a ser ridícula, de tão aguda que soava naquela atmosfera pobre em oxigênio.
O que é? — perguntou Tiff. — Será um rebanho de nonus que possamos acariciar para nos envenenarmos?
Não fale tão mal sobre nossos nonus — respondeu prontamente o hono. — São criaturas queridas. Não poderíamos viver sem elas. Quero mostrar-lhe uma coisa muito diferente: uma pista dos deuses.
Tiff riu.
Então os deuses de vocês deixam pistas? Desde quando?
Na verdade, não estava com uma disposição tão brincalhona. Perry Rhodan tinha certeza de que atrás dos deuses dos honos se ocultavam os inimigos invisíveis. Por isso, a oferta deveria parecer muito tentadora, caso Tiff não se desse conta imediatamente de que um verdadeiro hono nunca seria capaz de trair seus deuses. Mesmo que estes fossem desajeitados a ponto de deixar pistas.
O homem estava representando. E para fazer isso desenvolvia uma atividade pouco usual num hono.
Tiff não tinha a menor dúvida de que o inimigo desconhecido pretendia armar-lhe uma cilada.
Procurou ganhar tempo.
Por que quer nos mostrar a pista dos deuses? — perguntou.
O hono ergueu ambos os braços, num gesto de esclarecimento. Era outro comportamento pouco usual. Os gestos representam um esforço físico, e por isso os honos costumavam evitá-los sempre que podiam.
Pertenço a um grupo que os outros membros da minha raça designam como a dos menos purificados — explicou. — De certa forma somos indivíduos proscritos; mantemos pouco contato com os purificados. Soubemos o que aconteceu com vocês e estamos dispostos a ajudar.
Quem me garante que você não quer atrair-me a uma armadilha?
O hono não se apressou na resposta.
Como poderia fazer uma coisa dessas? — perguntou depois de algum tempo.
Afinal, vocês são muito mais poderosos que nós, e podem matar-me a qualquer momento, se tiverem qualquer desconfiança. Acha que eu me exporia a um perigo destes?
Tiff havia tomado sua decisão.
Como pretende levar-nos para lá? — perguntou. — Está disposto a caminhar à frente dos nossos veículos?
Estou, se não permitirem que entre nos mesmos.
Tiff sacudiu a cabeça.
Isso é impossível. Você esteve em contato com os nonus; intoxicaria os homens.
Sim, já sei.
Quer dizer que vai caminhar na frente?
Vou.
Nesta área existem povoações dos purificados?
Existem, mas estão abandonadas.
Tiff sobressaltou-se.
Abandonadas?
Isso mesmo. Os purificados abandonaram suas aldeias e retiraram-se para as montanhas.
Por quê?
Não sei. Não assistimos à sua mudança. De repente notamos que haviam desaparecido.
Tiff tinha certeza sobre o motivo que levara os purificados a mudar seu local de residência: era a vontade dos deuses. O inimigo invisível sabia tão bem quanto Perry Rhodan que, se os homens da Titan conseguissem apoderar-se de um dos purificados e o interrogassem, aplicando os recursos de que dispunham, teriam dado um bom passo à frente.
Tiff achou que a informação que acabara de obter era muito importante. Assegurou ao nono que os cinco veículos o seguiriam e voltou à sua nave.
A primeira coisa que viu ao entrar na mesma foi o rosto preocupado de Brian projetado na tela.
Desacople a imagem — ordenou Brian. — Aconteceu uma coisa muito grave.
Tiff desacoplou a imagem externa, para que o capitão Brian pudesse vê-lo.
Chaney, Crimson e Hathome foram obrigados a realizar um pouso de emergência com suas Gazelas — exclamou Brian. — Perdemos o contato com eles. O local do pouso fica a uns cento e cinqüenta quilômetros ao nordeste. O chefe deu ordens para que o senhor procurasse localizar as Gazelas. Seria inútil enviar outros aparelhos, pois os mesmos também seriam forçados a realizar um pouso de emergência.
Tiff empurrara o capacete para trás; cocou a cabeça. Em palavras lacônicas, informou o capitão Brian sobre a palestra que acabara de manter com o hono. Brian logo compreendeu onde queria chegar e repeliu-o com um gesto.
Se acredita que o chefe vai enviar um terceiro grupo de reconhecimento, está redondamente enganado — interrompeu a fala de Tiff. — Não podemos dispensar nenhum dos homens que se encontram a bordo. A única coisa que pode fazer é dividir seu grupo. Um deles poderá seguir o hono, enquanto outro sai em busca do grupo de Chaney.
O rosto de Tiff exprimiu contrariedade.
Só mesmo o diabo poderia ter-lhe dado uma sugestão destas — constatou com a maior falta de reverência. — Num mundo como este, cinco Câmbios representam o mínimo indispensável à sobrevivência.
Brian confirmou com um aceno de cabeça.
Sei disso. Acontece que o senhor tem toda liberdade para mandar embora o hono e utilizar todos os veículos na busca de Chaney.
Tiff suspirou.
Diga ao chefe que suas ordens serão cumpridas — falou depois de algum tempo.
Brian sorriu.
OK. Não interrompa o contato.
Tiff voltou a transferir a comunicação para o Câmbio número 4. Depois disso, levantou-se do assento de piloto, deixando-o livre para o sargento O’Keefe. Mandou que este se aproximasse do hono e o seguisse.
O’Keefe lançou um olhar desconfiado para Tiff. Este compreendeu o que pretendia dizer.
Antes de mais nada, precisamos sair deste vale e chegar ao planalto. A seguir, veremos o que devemos fazer. Se o hono caminhar espontaneamente na direção norte-nordeste, não teremos motivo para criar cabelos brancos, não é mesmo?
Um sorriso largo tomou conta do rosto de O’Keefe.
É verdade.
O motor começou a funcionar com um zumbido. Dirigindo cautelosamente, O’Keefe tirou o câmbio da sombra do paredão e o deslizou em direção ao hono. Olhando em torno, Tiff certificou-se de que os outros veículos o seguiam, mantendo a formação habitual.
3



O major Chaney sabia perfeitamente que, para manter-se vivo, teria de contar ao menos por algumas horas com seus próprios recursos. Sabia ainda melhor que Rhodan que qualquer outra Gazela que tentasse aproximar-se do local em que se encontrava seria atingida pela força irresistível do raio de tração. Ficaria tal qual os três aparelhos que já estavam jogados naquele vale.
Os grupos de Crimson e Hathome haviam atingido o aparelho G-020. Enquanto o grupo estava a caminho, Crimson recuperara os sentidos e passara a locomover-se sobre as próprias pernas.
Ao todo trinta e cinco homens estavam reunidos em torno de Chaney. Todos, bem armados. Chaney tinha certeza de que poderia repelir qualquer ataque aberto, a não ser que seu grupo se defrontasse com um verdadeiro exército.
Além disso, os homens usavam trajes protetores espaciais, motivo por que nem mesmo um rebanho de nonus poderia fazer-lhes qualquer mal.
As horas foram passando; sobre as cumeeiras que se desenhavam ao sudeste surgiu o vermelho-escuro do amanhecer.
Quando o sol surgiu por cima do paredão que fechava o vale, Chaney convenceu-se de que seria inútil esperar mais. O inimigo não apareceria. Talvez estivesse satisfeito em ter derrubado os aparelhos e não tinha o menor interesse em saber quem eram as pessoas que obrigara a vir ao solo; ou então sabia que se tratava de uma força de combate que não poderia enfrentar.
Chaney ordenou a marcha de regresso. Sabia que a Titan se encontrava ao sul-sudoeste, a cerca de trezentos quilômetros de distância.
No ponto em que se encontrava a G-020, não seria possível empreender uma marcha na direção sul-sudoeste. O vale seguia quase exatamente a direção leste-oeste o suas encostas eram tão íngremes que Chaney não poderia esperar que os homens conseguissem escalar as mesmas, embora a gravitação fosse muito reduzida. Consolou-se com a idéia de que em algum lugar o vale deveria ter um fim, ou apresentar uma ramificação que conduzisse para o sul.
Durante a marcha para o oeste passaram junto aos destroços da G-022 e da G-021. Chaney fez de conta não ouvir as graçolas cochichadas por seus homens, que disseram que, se soubessem disso, teriam continuado no lugar onde se encontravam. O que importava era que as duas Gazelas ficaram tão avariadas com o pouso de emergência quanto o aparelho de Chaney. Não serviriam para mais nada; até mesmo os telecomunicadores estavam inutilizados.
Com o correr das horas, o sol foi subindo por cima da encosta e produziu tamanho calor no vale estreito e baixo que os homens se viram obrigados a ligar a aparelhagem de condicionamento de ar de seus capacetes.
Chaney olhou em volta, procurando um lugar para descansar. Descobriu uma caverna situada na encosta norte. Mandou que dois homens a examinassem e soube que era um lugar apropriado para o descanso.
Estava prestes a mandar que seus homens seguissem à direita, mas no momento em que estava abrindo a boca o sargento Dee exclamou:
Ó... vejam só! Que coisa linda! Estava parado, apontando com o braço para o interior do vale.
Chaney olhou na direção indicada, mas não viu nada de extraordinário. Muito menos viu qualquer coisa que pudesse ser considerada linda.
O que está vendo? — perguntou, dirigindo-se a Dee.
Dee levantou também o outro braço e bateu palmas com as mãos enluvadas, provocando estalos nos receptores externos.
Que coisa maravilhosa! — exclamou encantado. — É um quadro impagável!
Chaney zangou-se.
Com os mil demônios. O que é tão maravilhoso e impagável? Faça o favor de responder quando eu lhe dirijo uma pergunta, sargento!
Dee continuava a bater palmas.
Por que tanta grosseria, Chaney? — disse com uma risada. — Logo quando me sinto tão...
Por um instante Chaney perdeu o auto-controle. Antes que conseguisse recuperá-lo, o tenente Crimson soltou uma risada de bode:
O homem está com a razão, Chaney. Deixe-o ser feliz. Há alguma coisa errada nisso?
Chaney virou-se abruptamente e fitou Crimson.
De repente compreendeu.
Para a caverna! — gritou com a voz rouca. — Corram! Hathome e Halligan, ajudem-me a levar estes idiotas.
Hathome e Halligan já estavam preparados para correr. Voltaram e ajudaram o major Chaney a levar Dee e Crimson até a caverna. Os dois não resistiram. Apenas riam e escarneciam das pessoas que levavam a vida muito a sério.
Chaney olhou em torno. O vale estava deserto, tal qual estivera desde o início. Não havia o menor sinal de vida: nenhum animal, nenhuma planta. E o comportamento idiota de Dee e Crimson só poderia ser explicado se houvesse animais por ali. Ou melhor, se houvesse nonus.
Chaney, seus companheiros e os dois malucos — foi esta a expressão usada pelo sargento Halligan — chegaram à entrada da caverna sem serem molestados. Trinta homens do grupo estavam sentados junto às paredes da caverna, enquanto cinco se mantinham junto à entrada, de armas levantadas, cobrindo a retirada de Chaney.
Este mandou que Dee e Crimson fossem levados para o interior da caverna, onde seriam vigiados. Depois teve tempo para examinar a si mesmo. Haveria algum indício de que, dali a alguns minutos, também acharia que o mundo é lindo e que a vida é uma alegria constante?
Não, estava tudo normal.
Hathome, que estava de pé ao seu lado, parecia ter notado que Chaney acabara de perscrutar seu interior.
Tudo em ordem, major? — perguntou.
Chaney fitou-o, zangado e alegre ao mesmo tempo.
Não fique rindo. Será que já está achando que a vida é a coisa mais bela que se possa imaginar?
Hathome sacudiu a cabeça.
De forma alguma — respondeu, ficando em posição de sentido.
Chaney ficou satisfeito.
Deitou no chão pouco antes da entrada da caverna e examinou o vale.
O que poderia ter acontecido com Dee e Crimson?
Essas reflexões levaram-no diretamente à indagação sobre a proteção que a caverna poderia oferecer se surgisse uma situação mais séria. Além disso, precisava saber de que forma Dee e Crimson haviam sido infectados. E com isso, Chaney voltou ao ponto de partida de suas reflexões.
Olhou atentamente para todos os pontos do vale e procurou descobrir qualquer coisa que pudesse representar um perigo. Não encontrou nada.
Chaney ficou imerso em seus pensamentos. O sol continuou na sua trajetória e ultrapassou a encosta norte do vale. As sombras cobriram a entrada da caverna. Chaney teve a impressão de ter cochilado um pouco quando foi acordado pela voz nervosa de um dos homens de seu grupo:
Alguma coisa se aproxima. Chaney levantou-se. O homem que se encontrava ao seu lado estendeu o braço para fora da caverna. Chaney lançou os olhos para o leste e viu três vultos longos e esguios, que acabavam de sair de trás de uma rocha e caminhavam em direção à caverna. Capas largas e coloridas cobriam os ombros.
Eram honos.
Chaney estava bem desperto.
Preparem as armas! — ordenou. Não era por causa dos três honos. Mas podia haver outros nas proximidades, dispostos a esperar um momento favorável para lançar-se ao ataque. Os três que a sentinela havia descoberto continuavam a caminhar em direção à caverna. Ao que parecia, sabiam que existia alguém escondido ali.

* * *

De quem é este traje espacial? — perguntou Tiff.
O’Keefe virou o rosto. Franziu a testa e respondeu:
É do senhor.
Tiff sobressaltou-se e começou a rir.
Muito bem. Onde fui arranjar este buraco?
O’Keefe passou o leme a outra pessoa e levantou-se. O buraco que existia nas costas do pesado traje era minúsculo, mas naquela superfície lisa tornava-se perfeitamente visível.
Tiff tirou o traje do suporte e virou-o. O buraco não atravessava o plástico.
Hum — fez Tiff. — Alguma coisa deve ter-me furado. Mas o ferrão não teve força para perfurar isto.
O’Keefe parecia desolado.
Quem sabe se o defeito não passou despercebido a bordo da Titan e...
A probabilidade de que isso tenha acontecido é inferior a 0,1 por mil — respondeu Tiff com um gesto de desprezo. — Os instrumentos de controle constatariam até mesmo um furo cujo diâmetro fosse cem vezes menor. Se o furo já existisse enquanto o traje se encontrava a bordo da Titan, o mesmo não teria saído da nave.
O’Keefe respirou profundamente.
Quer dizer...
Tiff acenou com a cabeça.
Quer dizer que alguma coisa tentou furar-me enquanto conversava com o hono — completou.
O’Keefe cocou a cabeça.
O senhor devia chamá-lo às falas — sugeriu.
Para quê? Se tiver alguma coisa com isso, vai fingir-se de bobo, e se não tiver, se sentirá ofendido. Nada disso. Seguiremos tranqüilamente atrás dele e aguardaremos para ver o que tem a nos oferecer.
O’Keefe resmungou, bastante contrariado, e voltou ao seu assento. Tomou a direção do Cambio das mãos do homem que o substituíra e continuou a seguir o hono, que caminhava a passos largos diante da fileira de veículos.
Já fazia tempo que o sol nascera. Ao atingir o planalto, o hono tomara a direção nordeste. Tiff não separara seu grupo, já que a direção tomada pelo hono era aproximadamente a mesma em que Chaney realizara o pouso de emergência com suas Gazelas.
O planalto era ainda mais desolado que o vale pelo qual os Câmbios haviam subido, partindo do ponto em que se encontrava a Titan. Não havia nenhuma elevação que tivesse mais de um metro, com exceção de alguns enormes blocos de pedra, que o vento parecia ter tangido encosta abaixo. Fora algumas frestas estreitas que se abriam na rocha, o solo parecia fundido numa única peça. Em nenhum lugar poderia crescer uma planta. A única coisa viva era o vento, que varria a área com um uivo monótono.
Tiff tomou a medida da temperatura externa. Era de 52 graus centígrados. A rocha parecia incandescente. De noite seria exatamente o contrário.
Admirou o hono, que caminhava a passos seguros, sem preocupar-se com o calor martirizante.
O’Keefe surpreendeu-se bastante quando o magricela desapareceu de um momento para outro, como se tivesse sido tragado pela rocha. De repente estacou.
Que diabo! Onde se meteu?
O hono continuava desaparecido.
Onde foi que o viu pela última vez? — perguntou Tiff, depois de certificar-se que não se via o menor vestígio do hono na tela.
Foi ali à direita, a uns vinte metros; daqui... ah, aí está.
O magricela saiu da rocha que nem uma rolha de champanha, parou e gesticulou com os braços. Era um quadro bizarro.
Vá até lá — ordenou Tiff.
O’Keefe levou o Câmbio até o local em que estava o hono. Ao aproximar-se, viu um traço escuro que, começando pouco atrás do hono, atravessava a rocha até a linha do horizonte.
Não vai querer atrair-nos para essa fresta — resmungou Keefe. — Nenhum dos Câmbios caberia na mesma.
Tiff não lhe deu atenção. Procurou entender os gestos do hono. Este apontava alternadamente para si, para o chão à sua frente, para o Câmbio e para o nordeste. Ao fazer o último gesto, a mão descia.
Se o entendi bem, pretende entrar na fresta e quer que nós continuemos acima da superfície, descendo mais adiante — disse Tiff. — Mais adiante a fresta deve ter largura suficiente para abrigar os veículos.
O’Keefe levou o veículo para além do hono e seguiu junto à fresta. Tiff viu o hono fazer um gesto de concordância e desaparecer novamente no interior da fresta.
Isso mesmo — disse, dirigindo-se a O’Keefe. — Prossiga.
Tiveram uma grande surpresa ao constatarem que depois de alguns quilômetros a fresta tão insignificante se alargava, abrindo-se num verdadeiro vale. O fundo desta depressão ficava uns duzentos metros abaixo do nível do planalto, continuando a descer à medida que se estendia para o nordeste.
O’Keefe seguiu até a beira do vale e fez com que os instrumentos de captação de imagens procurassem localizar o hono.
Acabou descobrindo-o mais ou menos na mesma altura em que estavam parados os Câmbios.
Meu Deus! — exclamou O’Keefe. — Como deve ter corrido esse sujeito.
Na tela, via-se perfeitamente que o hono olhava para cima. Ao ver o Câmbio, cuja popa passara um metro ou metro e meio acima da beira do vale, gesticulou com ambos os braços. Foi um gesto violento, de que um dos apáticos purificados jamais teria sido capaz.
O’Keefe virou-se.
Quer que desça?
Tiff aceitou.
Desça devagar; tome cuidado.
Manipulando cautelosamente os controles, Tiff fez com que o veículo passasse para além da extremidade do vale, onde ficou imóvel por um instante no ar rarefeito. Finalmente desceu. Os outros Câmbios seguiram-no prontamente, e até mesmo em vôo livre conseguiram manter a formação costumeira.
Dali a dez minutos O’Keefe parou o veículo pouco acima do fundo do vale. O hono aguardava-os a uns cinqüenta metros de distância, e acenou com os braços. O’Keefe seguiu-o sem aguardar as instruções de Tiff.
Dali a meia hora, o vale descreveu uma curva fechada para o norte, que era inexplicável tal qual a própria existência do vale. O hono dobrou a curva e prosseguiu mais algumas horas, levando os Câmbios cada vez mais para o norte.
O sol já havia atravessado a linha do zênite e a encosta do vale começou a projetar sombras longas e escuras.
Mais adiante, a depressão descrevia outra curva, desta vez de noventa graus e levava exatamente para o leste. No lugar em que a curva era mais pronunciada o hono parou, virou-se para os Câmbios, apontou com as mãos para o chão e sentou.
O’Keefe aproximou-se a dez metros do hono. Na tela, a curva da encosta leste recuou um pouco, abrindo um amplo panorama. O’Keefe, que dedicava toda a atenção às manobras do veículo, não viu o quadro desvendado para além da encosta que recuava.
Mas Tiff mantinha os olhos bem abertos. Viu a fenda estreita que se abria no paredão oposto e o filete de água que jorrava.
Viu que a rocha porosa logo absorvia o líquido. Viu a manchinha de vegetação raquítica nutrida pela água, e o grupo de choças arruinadas que se erguiam junto ao paredão.
Pare! — gritou Tiff.
O’Keefe sobressaltou-se e desligou o motor.
O quê...?
Tiff apontou para a tela.
Olhe!
O’Keefe assobiou baixinho por entre os dentes quando viu a aldeiazinha.
Ah! — disse em tom vivo. — Deve ser a cidade secreta das montanhas.
Ao que parece está abandonada — observou Tiff.
Parece que sim. Aliás, o hono disse que os purificados fugiram.
Tiff confirmou com um aceno de cabeça.
Vou descer — disse.
O’Keefe murmurou:
Está bem. Mas faça o favor de usar um traje sem furo.
Dali a dois minutos Tiff saiu do veículo, passando pela comporta. Sentado numa pedra, o hono mantinha a cabeça inclinada para a frente e não fazia o menor movimento. Tiff parou a três metros dele.
Ei! — gritou.
O hono levantou-se de um salto. Parecia que estivera dormindo.
Sei que está cansado — disse Tiff. — Mas gostaria de saber por que nos trouxe até aqui.
O hono respondeu:
Não disse que iria mostrar-lhes a pista dos deuses?
É verdade.
Pois começa aqui.
Onde?
Ali, naquelas casas.
Mostre.
O hono fez um gesto de recusa.
Agora não. Daqui a pouco vai escurecer e estou cansado.
Tiff refletiu.
Onde vai dormir? — perguntou.
Aqui mesmo.
Por que não dorme nas cabanas? Seria mais confortável.
O hono fitou Tiff como se duvidasse das faculdades mentais do tenente.
Ali, onde os deuses expulsaram os purificados? Prefiro não dormir.
Tiff deu de ombros.
Faça o que quiser. Desejo-lhe uma boa noite.

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