Autor
KURT
MAHR
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Tropa de choque “Piquenique” —
só três homens escapam da peste
de nonus.
A
história da Terceira Potência em poucas palavras:
1971 — O
foguete Stardust chega à Lua, e Perry Rhodan descobre a nave
exploradora dos arcônidas (vol. 1).
1972 —
Criação da Terceira Potência, que enfrenta a resistência das
grandes potências terranas e rechaça as tentativas de invasão
vindas do espaço (vols. 2 a 9).
1975 —
Primeira intervenção da Terceira Potência nos acontecimentos
galácticos. Perry Rhodan defronta-se com os tópsidas e procura
solucionar o mistério galáctico (vols. 10 a 18).
1976 — A
Stardust-III chega ao planeta Peregrino, e Perry Rhodan alcança a
imortalidade relativa (vol. 19).
1980 —
Perry Rhodan regressa à Terra com um atraso considerável e vê-se
obrigado a lutar por Vênus (vols. 20 a 24).
1981 — O
Supercrânio ataca (vols. 25 a 27).
1982183 —
Chegada dos saltadores, que querem eliminar a concorrência que a
Terra representa no comércio galático (vols. 28 a 37).
1984 —
Primeiro contato de Perry Rhodan em Árcon e sua atuação como
plenipotenciário do cérebro positrônico que exerce o governo no
grupo estelar M-13 (vols. 38 a 42).
No momento
em que uma força combatente de 700 homens nem pensa em obedecer às
ordens do comandante, até mesmo uma gigantesca máquina de guerra
como a Titan enfrenta uma situação bastante difícil. E o que é
pior, os tripulantes atacados pela epidemia dos nonus estão
praticamente mortos, pois a medicina humana não conhece qualquer
antídoto contra a moléstia. Porém era necessário ter Cuidado com
os Microrrobôs.
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Chefe da Terceira Potência e comandante da Titan.
Julian
Tifflor,
apelidado de Tiff — um jovem tenente da frota espacial terrana que
resolve fazer um piquenique.
Dr.
Hayward
— Descobridor do bacilo da epidemia dos nonus.
Major
Chaney
— Para quem a vida é “de uma beleza indescritível”.
O’Keefe
e Halligan
— Que não se suportam.
Nathan
— Um hono
que desenvolve uma atividade surpreendente.
1
O oficial
alto e jovem parou diante de Rhodan e fez continência.
— Às
ordens, comandante — disse laconicamente.
Rhodan
respondeu com um gesto indiferente.
— Sente.
Tiff, ou
melhor, Julian Tifflor, um jovem tenente da frota espacial terrana,
aguçou o ouvido. Quando Rhodan o chamava pelo apelido, geralmente
havia alguma novidade.
Tiff
sentou. Depois do que Rhodan levou alguns minutos sem dizer uma única
palavra, passou os olhos pelas telas que rodeavam toda a sala de
comando, apenas para fazer um movimento. Olhou distraidamente para as
massas gigantescas de estrelas da nebulosa M-13 e para o brilho
apagado do vulto alongado da Ganymed, que permanecia imóvel a poucos
quilômetros da Titan.
— Estamos
numa situação miserável — disse Rhodan subitamente, proferindo
as palavras com tamanha violência que Tiff se assustou. —
Recebemos uma tripulação descansada de oitocentos homens e um
compensador estrutural para ser montado. Com mil e quinhentos homens
a bordo devíamos ser uma nave potente, a mais potente que existe por
aí. Acontece que só temos os oitocentos homens recém-chegados,
pois setecentos estão doentes.
“Algum
desconhecido está atrás da nossa nuca e procura estrangular-nos.
Enquanto não soubermos quem é e onde pode ser encontrado, não
podemos fazer nada contra ele, a não ser destruir as naves
robotizadas que enviou contra nós.”
Rhodan
levantou a cabeça e fitou os olhos de Tiff:
— Tiff,
cá entre nós, o que faria o senhor se estivesse na minha situação?
Tiff ficou
boquiaberto de espanto. Rhodan, o onipotente, pedia um conselho ao
mais jovem dos seus tenentes!
Reagindo
com a rapidez que lhe era peculiar, Tiff logo se deu conta de que
este não era o momento para agradecer ou fazer qualquer demonstração
de reverência pela confiança depositada nele. Rhodan aguardava uma
resposta.
— Nossa
desgraça começou em Honur — recapitulou Tiff, depois de refletir
ligeiramente. — Honur, o segundo planeta do Sol Thatrel, situado a
quarenta e sete anos-luz de Árcon. Habitado por seres inteligentes,
mas primitivos. Seres totalmente apáticos, descendentes dos colonos
arcônidas da fase inicial da expansão.
Rhodan
escutava atentamente, como se estivesse ouvindo pela primeira vez a
história do planeta Honur. Tiff viu-o fazer um gesto animador.
— Honur
foi interditado para qualquer tipo de aproximação — prosseguiu
Tiff. — Esse mundo não passa de uma armadilha de naves espaciais.
Dezenas de naves destroçadas dos tempos antigos estão espalhadas
por sua superfície.
— Por
quê?
— É
porque aqueles animaizinhos engraçados, que parecem uns ursinhos,
chamados de nonus, carregam consigo um veneno que ataca os nervos, e
carregam-no numa dose tamanha que penetra até as pontas dos pêlos.
Basta que a mão humana ou humanóide o toque para infeccionar o
indivíduo. O veneno libera-o de toda e qualquer inibição, faz com
que perca as medidas, transforma-o num idiota irresponsável e
sorridente, que não se alimenta mais e vegeta numa espécie de
euforia.
“A Titan
pousou em Honur por ser este o ponto de encontro combinado com a
Ganymed. Quem deu a sugestão de escolher Honur? Foi Thora, a
arcônida.
“O
destino dos tripulantes da Titan foi igual ao das tripulações das
outras naves que já pousaram em Honur. Os habitantes pareciam
pacatos, aparência essa que resultava de sua apatia. Os pequenos
nonus eram dóceis, e qualquer um os acariciava e levava para dentro
da nave. A doença espalhou-se com a velocidade do vento. Apenas
cinco homens foram poupados: o senhor, Crest, o arcônida, os
mutantes Gucky e Sengu e eu.
“No
momento mais crítico uma nave espacial desconhecida atacou a Titan.
A nave era tripulada por robôs. Conseguimos repelir o ataque. Apesar
das condições em que se encontrava a tripulação, o senhor
conseguiu guarnecer os comandos, decolar com a Titan e abandonar
Honur.
“Uma
série de outras naves desconhecidas seguiu a Titan. Como fôssemos
apenas cinco homens cercados de amotinados eufóricos não pudemos
defender-nos. Pedimos que a Ganymed, que se encontrava na Terra,
viesse em nosso auxílio. E esta acabou com a confusão.
“A
história é esta, não é mesmo, comandante?
Rhodan
acenou com a cabeça e um sorriso aflorou aos seus lábios; parecia
pensativo.
— É
assim que gosto de ver os meus homens! — disse. — Sempre se deve
rememorar os fatos e tirar as respectivas conclusões. Não era o que
pretendia fazer?
— Sem
dúvida, mas não sei...
— Bobagem!
Fale logo.
Tiff
ergueu os ombros.
— Pois
bem. Tenho a impressão de que tudo que aconteceu em Honur não passa
de uma trama rematada. Ninguém sabe quem recomendou a Thora que
sugerisse Honur como ponto de encontro. Tenho certeza de que foi
influenciada por alguém. Ou por algum agente do inimigo ou pelo
próprio.
“No
início, tudo correu conforme os planos. A tripulação da Titan
intoxicou-se, e se não houvesse a bordo cinco homens sadios, a nave
teria sido uma vítima fácil da primeira nave robotizada. No
entanto, conseguiu repelir o primeiro ataque. O inimigo percebeu que
seu plano falhara em parte, motivo por que enviou uma esquadrilha
mais potente. Não teríamos condições de defender-nos, mas
felizmente pudemos contar com a Ganymed.”
De
repente, estacou e fitou Rhodan. Este percebeu que seu interlocutor
queria que dissesse alguma coisa.
— Então
é essa sua opinião — resmungou. — Que conselho me dá?
— Não
conhecemos o inimigo. Até agora só vimos seus robôs. Tem algum
motivo para destruir-nos. Só poderemos defender-nos se soubermos
onde encontrá-lo.
“O único
lugar em que entramos em contato, não com o próprio inimigo, mas
com seus planos, é Honur.
“Sou de
opinião que, se não conseguirmos encontrar a pista do inimigo em
Honur, não a encontraremos em lugar nenhum.”
Rhodan
permaneceu sentado mais algum tempo, sem dizer uma palavra. Depois
ergueu-se de um salto. Tiff levantou-se juntamente com ele. Rhodan
colocou a mão sobre seu ombro.
— Quer
saber de uma coisa, Tiff? Para um homem que geralmente toma as
decisões sozinho faz bem ouvir vez por outra a opinião de outra
pessoa. Se não tivesse ouvido a sua, ainda teria minhas dúvidas
sobre se devemos pedir socorro à Árcon ou se é preferível
partirmos sozinhos em busca da pista. O senhor me ajudou a resolver o
dilema.
O rosto de
Tiff parecia sério, mas feliz. Rhodan tirou a mão de seu ombro e,
com um sorriso, fez um gesto de ameaça.
— Não
conte a ninguém. Isso poderia afetar minha autoridade.
Tiff ficou
em posição de sentido.
— Naturalmente,
comandante — exclamou.
Rhodan fez
um gesto com a mão.
— Não
leve isto muito a sério. O senhor ocupará o lugar de co-piloto, até
que os oitocentos homens recém-chegados estejam familiarizados com
suas tarefas. Por enquanto permaneceremos no lugar em que nos
encontramos. Mas acredito que dentro de uns oito ou dez dias
poderemos partir.
Tiff
perdera parte de sua timidez.
— Como
co-piloto eu devia saber para onde partiremos — disse com um
sorriso.
Rhodan
manteve-se impassível.
— Não
acaba de sugerir nosso destino? É claro que partiremos para Honur.
*
* *
A Titan
era uma nave gigantesca.
O diâmetro
do corpo esférico da nave chegava a mil e quinhentos metros. Era um
mundo em si, equipado com todos os requintes da tecnologia militar e
espacial dos arcônidas.
Enquanto
Rhodan mantinha com o mais jovem de seus tenentes a conversa que
ficaria gravada para sempre na memória deste último, algumas
centenas de metros “abaixo”
do lugar em que se encontravam aconteciam coisas totalmente diversas.
Num dos
laboratórios, os profissionais da medicina estavam empenhados em
desvendar o estranho mistério que envolvia os setecentos homens da
tripulação primitiva da Titan.
O trabalho
estava sendo dirigido pelo Dr. Eric Manoli, que chegara há apenas 12
horas a bordo da Ganymed. Era um dos quatro homens que, viajando numa
frágil nave de propulsão atômica, foram os primeiros terranos a
chegarem à Lua.
Manoli
trouxera uma grande equipe de médicos da Terra. Tinha certeza de que
conseguiria identificar a toxina que provocava o estado de euforia
entre os tripulantes da nave.
Na parede
dos fundos do amplo laboratório, via-se um homem sentado numa
cadeira, cujos braços, pernas e tronco estavam amarrados de tal
forma na cadeira que não conseguia mover-se.
Cantava
alegremente:
— ...over
the ocean, over the sea, when will Mathilda be waltzing with me...?
O fato de
misturar os textos de duas canções parecia diverti-lo
tremendamente. Procurou balançar-se na cadeira, e com isso fez com
que esta escorregasse para a frente.
— Fique
quieto, seu idiota! — gritou Manoli.
O homem
parou de cantar e olhou Manoli com a cara sorridente.
— Para
que tanta seriedade, doutorzinho? — perguntou. — A vida é tão
bela! Por que vamos martirizar-nos à toa?
Manoli
perdeu o autocontrole.
— Pois
você está me martirizando, seu idiota — gritou para o doente. —
Será que você não é capaz de voltar à razão?
— Razão?
— disse o homem com uma risadinha. — Estou sendo muito razoável.
Vocês é que são uns idiotas.
Hipereuforia,
era esta a palavra com que os médicos designavam o estado em que se
encontravam aquele homem e os outros seiscentos e noventa e nove
tripulantes. Mas tratava-se de um tipo de euforia que não se parecia
com nada que já se tivesse visto na Terra; ultrapassava todas as
medidas.
Por isso
Manoli e seus colaboradores lhe deram o nome de hipereuforia.
Tentavam
identificar o veneno. Procuraram localizá-lo naquele doente, que
fora isolado dos demais e trazido até ali sob forte vigilância.
Procuraram-no também no corpo dos raros nonus que deixaram
sobreviver para fins de experiência.
O pequeno
animal peludo estava preso numa sólida jaula. Lançando seu olhar
através das grades, contemplava os homens de jaleco branco com uma
expressão triste e cordata.
Subitamente
uma voz grave e tranqüila fez-se ouvir nos fundos do recinto:
— Acho
que é isto.
Manoli
deixou cair o recipiente que segurava, e virou-se sobre os
calcanhares. O Dr. Hayward, um verdadeiro gigante que há pouco
ingressara no serviço médico da frota espacial, sorria alegremente
diante de seu microscópio.
— É o
quê? — perguntou Manoli.
— O
veneno — respondeu Hayward tranqüilamente, fazendo um gesto em
direção ao microscópio.
Com uns
três ou quatro passos rápidos, Manoli colocou-se ao seu lado.
— Deixe-me
ver! — fungou.
Hayward
inclinou-se para o lado. Manoli olhou fixamente para dentro do
microscópio.
— Não
vejo nada! — queixou-se. — É uma substância incolor?
— Naturalmente
— respondeu Hayward.
— Não
pode ser colorida?
— Ainda
não tentei.
Manoli
fitou-o perplexo.
— Pois
tente! Acredita que todo mundo tem olhos de lince que nem o senhor?
Hayward
não se perturbou. Tirou a placa de material de dentro do
microscópio, pingou um líquido azul sobre a mesma e voltou a
empurrá-la para baixo da objetiva. Manoli suspirou aliviado.
— Até
que enfim...
O
microscópio mostrou uma fileira de cristais dodecaédricos.
— Tem
alguma idéia do que possa ser? — perguntou Manoli sem tirar o olho
do microscópio.
— Naturalmente
— resmungou Hayward. — É algum tipo de hexilamina. Será que não
é?
Manoli
acenou fortemente com a cabeça.
— Certamente.
O senhor tem toda razão. Esse negócio basta para uma análise
exata?
— Acredito
que sim.
— Pois
faça uma. Rápido!
*
* *
Mesmo com
os aparelhos arcônidas, a análise exata de uma hexilamina não é
nada fácil. Mas Hayward conseguiu concluí-la em hora e meia.
Dirigiu-se
a Manoli.
— Então?
— perguntou este.
— Entende
alguma coisa de física nuclear? — perguntou Hayward.
Manoli fez
uma careta.
— Escute
aqui, Hayward, gostaria que me contasse o que o senhor...
— Sim,
já sei. Acontece que para entender minhas explicações o senhor
precisa ter alguns conhecimentos de física nuclear.
— Por
quê?
— Já
ouviu falar no argon?
— Já; é
um gás raro.
— Não
se pode fazê-lo entrar em combinação com qualquer outro elemento.
A não ser que seja ionizado e que se consiga mantê-lo nesse estado.
Para fazer isso, pode-se encostá-lo a moléculas adequadamente
estruturadas, de tal forma que o átomo de argon seja ligado através
de um nêutron molecular, sem ser neutralizado.
— Ah, é?
— disse Manoli. — E daí?
— E daí?
Foi o que alguém fez com esta toxina. Trata-se de hexilamina
argônica, se me permite inventar um nome neste instante.
Manoli
piscou os olhos.
— Alguém?
O senhor acredita...?
Hayward
respondeu com um gesto tranqüilo.
— É
exatamente isso. Em nenhum lugar do Universo se encontrariam
quantidades suficientes de argon em estado natural. Este veneno foi
feito artificialmente.
*
* *
Ninguém
poderia duvidar do resultado da análise. E, agora que se conhecia a
natureza da toxina, não havia nenhuma dificuldade em isolar
quantidades suficientes da mesma em meio às demais secreções dos
nonus, a fim de realizar outros exames. Era fácil fabricar a toxina
com o líquido medular dos doentes.
O nome
hexilamina argônica, inventado por Hayward, foi conservado. Além
dessa denominação química, a substância recebeu um nome mais
genérico. Face à quantidade considerável do gás raro que
continha, foi chamada de argonina.
Por
enquanto, permanecia desconhecido o mecanismo através do qual a
intoxicação levava à hipereuforia.
Mas um
fato que impressionava a ponto de suplantar a curiosidade de conhecer
esse mecanismo era a constatação irrefutável de que a argonina era
um produto artificial.
Rhodan
logo foi informado sobre os resultados do exame. Pediu que Hayward e
Manoli comparecessem à sua presença e lhe fornecessem um relato
minucioso. Mas não lhe contaram aquilo que mais gostaria de saber:
como foi que os nonus chegaram a carregar consigo uma toxina
artificial.
*
* *
Passaram-se
exatamente nove dias a partir da chegada da Ganymed até que a Titan,
uma vez montado o compensador estrutural e treinados os oitocentos
homens recém-chegados, estivesse pronta para seguir.
O
compensador estrutural era um aparelho apresado em mãos dos
mercadores galácticos, reconstruído na Terra a toda pressa. Criava
um campo defensivo, que absorvia e neutralizava os abalos estruturais
do complexo espaço-temporal de quarta dimensão, causados por
qualquer processo de transição de uma nave espacial. E esta, em
condições normais, podia ser localizada a uma distância de
centenas de anos-luz.
Uma nave
equipada com um compensador estrutural estava completamente protegida
contra a operação de rastreamento estrutural. Melhor dizendo:
contra a hiper-localização através do abalo provocado por uma
transição, isso enquanto não surgisse alguém que descobrisse
algum princípio capaz de neutralizar os efeitos do compensador
estrutural.
O
compensador que a Ganymed trouxera da Terra fora primitivamente
destinado à frota terrana comandada pelo major Deringhouse. O
coronel Freyt, comandante da Ganymed, asseverou que só a contragosto
Deringhouse entregara o aparelho.
O anúncio
de Rhodan, de que a Titan retornaria a Honur, provocou certo
nervosismo entre a nova tripulação. Ninguém ignorava o que
acontecera naquele planeta. O comandante teve de expedir uma
declaração adicional para dissipar o nervosismo entre seus homens.
Disse o
seguinte:
— Agora,
que conhecemos o perigo, este perdeu seus aspectos mais pavorosos.
Tomaremos todas as precauções quando pousarmos em Honur. E,
principalmente, temos a Ganymed, que nos dará cobertura.
“Além
disso, devemos dar-nos conta de que, a bem da nossa segurança e da
defesa da Terra, não podemos simplesmente dar as costas ao perigo.
Ele nos alcançaria.
“Temos
que descobrir o inimigo e obrigá-lo a ser razoável, ou destruí-lo.
Não temos outra alternativa.
“Para
fazer tudo isso, teremos de voltar para Honur.”
2
O sol de
Honur era um astro pequeno, cujo espectro apresentava um máximo de
raios infravermelhos. Em virtude disso, a luz emitida, em pleno dia,
era tão vermelha como a do sol terrano ao alvorecer ou ao
entardecer.
Honur era
um mundo leve e pequeno, cuja gravitação superficial era de 0,7 g.
A temperatura média, segundo os velhos registros arcônidas, era de
9,2 graus centígrados. Era inferior à da Terra, mas bastante
superior à de outros planetas, como por exemplo Marte, com o qual
Honur talvez pudesse ser comparado também sob outros aspectos.
A
superfície do planeta era seca. Não havia oceanos, apenas alguns
lagos. Em compensação havia cordilheiras, cujas cumeeiras atingiam
altitudes consideráveis.
Foi no pé
de um desses complexos montanhosos, cujas cumeeiras atingiam em média
quatro mil metros, junto a um pequeno lago, que a Titan pousou no dia
em que começou a desgraça.
Voltou a
pousar no mesmo lugar. A Ganymed ficara para trás, descrevendo uma
órbita bem ampla em torno do planeta. As salas de comando das duas
naves mantinham contato sonoro ininterrupto através do
telecomunicador.
Rhodan não
estava disposto a assumir o menor risco.
Não se
via nenhum sinal dos nativos — ou dos purificados, como eles mesmos
costumavam chamar-se. Logo após o primeiro pouso, instalaram-se
junto ao lago; mudos e imóveis, contemplavam a gigantesca nave.
Desta vez,
já fazia dez horas que a Titan tocara o solo, e nenhum dos
purificados havia dado a cara.
Estariam
participando do jogo? Será que não passavam de lacaios dos
desconhecidos que se chamavam de deuses?
Rhodan deu
suas instruções.
Um grupo
de busca comandado pelo tenente Tifflor recebeu ordens para
investigar a área em torno da Titan, num raio de cem quilômetros. A
rapidez com que os nativos haviam surgido depois do primeiro pouso da
Titan levava à conclusão de que devia haver ao menos uma povoação
nessa área. O grupo de Tifflor foi equipado com os câmbios,
veículos muito versáteis, que podiam locomover-se em terra, na água
e no ar, além de uma coleção de armas eficientíssimas. Sua tarefa
consistia em trazer ao menos um dos purificados, no qual seria
realizado o exame psíquico.
Outro
grupo, comandado pelo major Chaney, recebeu instruções para
descrever círculos bem amplos em torno do planeta, a bordo de naves
de esclarecimento de longo alcance do tipo Gazela, a fim de realizar
investigações sobre as características físicas daquele mundo.
Rhodan tinha certeza de que, se em Honur existisse qualquer
estabelecimento do inimigo desconhecido, o consumo de energia seria
tamanho que os instrumentos ultra-sensíveis das Gazelas não
deixariam de registrá-lo.
Rhodan
sabia perfeitamente que, caso o inimigo suspeitasse, não teria um
instante de dúvida sobre as reais intenções da Titan. Se possuísse
mentalidade humana ou humanóide, veria na operação de busca uma
forma de provocação e não deixaria de dar seu contragolpe.
A qualquer
momento teriam de contar com ataques lançados contra os dois grupos
de busca e contra a própria Titan. Outras Gazelas estavam preparadas
para saltar de bordo da nave-mãe, a fim de correr em auxílio de
Tifflor ou Chaney caso estes se vissem num aperto. Também a Ganymed
ficou de prontidão. Chaney e Tifflor receberam instruções para não
interromper por um segundo sequer o contato pelo telecomunicador.
Todas as
providências que estavam ao seu alcance haviam sido tomadas.
*
* *
Julian
Tifflor desempenhou suas funções com o entusiasmo de que só um
jovem oficial seria capaz. Seu grupo era formado por quatro câmbios.
Deslocando-se pouco acima do solo, os veículos subiam por um vale
que se abria em meio às montanhas. Tiff dera ordens para que o
contato com a Titan fosse mantido por períodos alternados de uma
hora por cada um dos veículos.
Cada
câmbio tinha uma tripulação de cinco homens. As máscaras
pressurizadas, de que precisariam quando saíssem da proteção das
naves para a atmosfera pobre em oxigênio, balançavam junto ao
queixo. Um movimento da mão bastaria para prendê-las e ativar o
compressor.
Cerca de
duas horas se haviam passado desde o momento em que tinham saído
pela comporta da Titan. Tiff fez questão de que os veículos se
deslocassem a velocidade reduzida, e sempre se mantivessem junto ao
solo.
Aquele
complexo de montanhas era um mundo desolado. Tiff seguiu o pequeno
curso de água que, descendo das cumeeiras, desembocava no lago junto
a cordilheira. Mas o efeito da água não chegava a mais de cem
metros de cada lado da correnteza. Uma faixa de estranha vegetação
de estepe, de aproximadamente duzentos metros de largura, cortava o
vale. Além dele, começava a rocha nua, que passava a formar paredes
quase verticais e subia a mais de mil metros, até atingir os flancos
das montanhas mais altas.
O brilho
avermelhado dos raios solares não chegava a penetrar até as
profundezas do vale. No fundo da depressão, onde se moviam os
veículos de Tifflor, reinava uma penumbra crepuscular, que era mais
um motivo para Tiff não se apressar na execução da operação de
busca.
*
* *
O major
Chaney cometeu um erro: acreditou que seu vôo era exatamente aquilo
que seria em condições normais em qualquer outro mundo, isto é,
uma tarefa rotineira destinada a “pôr
as mãos”
nos dados físicos e geográficos do planeta, segundo se diria na
gíria astronáutica.
Os
tripulantes das Gazelas não tinham muita coisa a fazer. O
dispositivo automático sincronizado mantinha os veículos numa
altitude constante de 30 mil metros. Também cuidava da mudança de
rota quando as naves saíam de um círculo para entrar em outro. E os
instrumentos de medição haviam sido construídos de maneira a
executarem suas tarefas sem auxílio humano.
Um tanto
contrariado, Chaney indagou-se por que o chefe não colocara os
veículos em órbita em vôo automático, sem tripulantes.
Não se
dava conta de que o piloto-robô não estaria em condições de lidar
com tarefas muito complicadas, como por exemplo uma batalha aérea.
Mas a
atitude era perfeitamente explicável. Durante as duas horas de
viagem que as Gazelas já tinham atrás de si, os instrumentos não
haviam registrado sequer um simples povoado dos purificados, quanto
mais alguma base do inimigo que poderia ser capaz de dispor de
aparelhos aptos para o combate aéreo.
*
* *
— Que
maldição! Justamente agora que pensava que iríamos ver a luz, o
sol se põe!
O sargento
O’Keefe estreitou os olhos e fitou a tela, na qual ainda há poucos
instantes vira as encostas do vale, que recuavam, e o planalto que
agora se estendia diante deles.
À
direita, bem ao longe, via-se o círculo vermelho e apagado do sol
Thatrel. Metade dele já havia desaparecido atrás da linha do
horizonte.
A vez de
manter contato com a Titan era do Câmbio que conduzia o tenente
Tifflor, o mesmo no qual o piloto, O’Keefe, acabara de manifestar
sua tristeza pela luz do dia que se desvanecia.
— Temos
diante de nós um planalto em que a visibilidade é muito boa —
disse Tiff ao oficial de plantão. — Peço instruções sobre se
devo prosseguir viagem de noite.
— O
chefe diz que não — respondeu o oficial. — Pare num lugar seguro
e aguarde o raiar do dia.
— Entendido.
Tiff
achava que não era conveniente sair do vale. Mandou que O’Keefe
conduzisse o veículo até a encosta sul e pousasse junto ao paredão.
Os outros Câmbios agiram da mesma forma.
As
sentinelas foram distribuídas; depois disso cessou o zumbido
trepidante dos motores antigravitacionais, e o silêncio espalhou-se
pelo interior dos veículos.
Julian
Tifflor incumbira-se de um dos períodos da guarda noturna.
Contrariando
seus hábitos, despertou imediatamente quando seu antecessor o
chamou.
— Alguma
coisa de especial? — cochichou.
— Não
senhor. Tudo calmo.
Tiff fez o
corpo rolar para baixo do assento em que estivera acomodado,
deixando-o livre para o companheiro.
Foi ao
lugar do piloto, acomodou-se no estofamento macio e acendeu um
cigarro.
A tela
mostrava o último setor do vale, profusamente iluminado pela
infinidade de estrelas da nebulosa. A luz era mais forte que a da
noite terrana de lua cheia. Tiff enxergava perfeitamente a uma
distância de pelo menos duzentos metros.
Um dos
aparelhos de telecomunicação estava pronto para entrar em
funcionamento. A luz verde do controle tinha um efeito tranqüilizante
em meio à escuridão. Naquela hora, o Câmbio número 4 mantinha
contato com a Titan, e o Câmbio número 1 estava pronto a entrar em
comunicação a qualquer instante.
Tudo
parecia em ordem. Tiff estava satisfeito.
Acabou de
fumar tranqüilamente, deixou que quinze minutos se passassem e
acendeu outro cigarro. Tomou um gole reconfortante da cafeteira que
seu antecessor deixara sobre a escrivaninha.
Para isso
teve que desviar os olhos da tela por alguns segundos. Quando acabou
de tomar seu café, voltou a colocar a cafeteira suavemente sobre a
escrivaninha e fitou outra vez o quadro da tela. Este se havia
modificado.
O vulto
alto e esguio de um purificado destacava-se contra a parede iluminada
pela luz das estrelas.
Tiff viu
que o desconhecido levantava o braço, como se quisesse fazer um
sinal. Passado um momento, repetiu o gesto.
Sem
desviar os olhos, Tiff comprimiu o botão que ligava o
telecomunicador. Outra tela iluminou-se.
— Saia
da linha! — ordenou Tiff. — Preciso falar com a Titan.
O quadro
da tela tremeluziu por um instante e voltou a assumir contornos
nítidos. Surgiu o rosto do capitão Brian, que se encontrava a bordo
da Titan.
— Tenho
uma novidade para o senhor — disse Tiff e acoplou o quadro da tela
ao aparelho de Brian.
— Por
que está fazendo sinais?
— Está
fazendo isso desde o momento em que apareceu. Provavelmente deseja
que um de nós vá até lá fora.
Brian
levantou os olhos. Tiff desacoplou a imagem, para que o capitão
pudesse ver seu interlocutor.
— É
claro que o senhor não vai fazer nada disso — ordenou.
Tiff
sorriu.
— Isso é
uma ordem ou um conselho?
O capitão
Brian sobressaltou-se.
— Por
quê? É claro que é um conselho. Tem outra sugestão?
— Poderia
sair...
— ...para
deixar que o envenenassem?
— Em
primeiro lugar, vestiria um traje espacial, e depois não tenho a
intenção de me aproximar do sujeito a ponto de poder dar a mão a
ele ou a qualquer nonus. Finalmente, tenho dezenove guarda-costas,
que poderão cuidar de mim.
Brian
cocou a cabeça.
— Bem —
resmungou — o chefe quer que lhe deixemos as mãos livres. Se
prometer que agirá com a maior cautela não meterei o bedelho. Tenha
cuidado! É possível que além desse sujeito haja outros cem
escondidos atrás da pedra mais próxima.
— Tomarei
cuidado — prometeu Tiff.
— Está
bem. Volte a acoplar a imagem. Obrigado.
A palestra
havia despertado os tripulantes do Câmbio número 1. Sentados nos
bancos, contemplavam a tela.
— O que
andou fazendo neste meio tempo? — perguntou Tiff. Durante a
palestra com Brian, não tivera tempo de vigiar o purificado.
— Levanta
a mão de minuto em minuto e faz um sinal — informou O’Keefe.
Tiff
enfiou o traje espacial. Era feito de plástico flexível. Fora
concebido para proteger a pessoa que o usasse, impedindo a penetração
de partículas de poeira cósmica. Por isso deveria estar em
condições de evitar que qualquer dos nonus ou o purificado tocasse
Tiff.
— O’Keefe,
avise os outros veículos. Ficaremos de prontidão número um.
Antes que
Tiff acabasse de fechar seu traje, chegaram as confirmações. Vinte
homens estavam a postos.
Tiff
estava satisfeito. Tirara a máscara pressurizada, pois o capacete do
traje espacial dispunha de aparelhagem própria para a renovação de
ar. Antes de fechá-lo, dirigiu-se a O’Keefe.
— Fique
em contato comigo. Não tome nenhuma providência sem que eu lhe dê
instruções para isso.
Fechou o
capacete esférico com o grande visor, as redes circulares dos
microfones externos e o pequeno funil do alto-falante.
Um cabo
abriu a comporta; dali a um minuto Tiff encontrava-se do lado de
fora. Viu que o purificado acabara de levantar o braço para dar seu
sinal. Quando Tiff saiu da sombra do veículo e do paredão, baixou-o
e permaneceu imóvel.
Tiff
aproximou-se a passos lentos. A mão direita segurava o radiador de
impulsos.
*
* *
— A
sonda de radar está com defeito — queixou-se o sargento Dee. —
Está emitindo impulsos sobrepostos.
O major
Chaney tinha algum conhecimento dessas coisas.
Tirou os
cintos e, atravessando a parte interna da Gazela, caminhou em direção
a Dee. Este limitou-se a indicar a tela oscilográfica. Normalmente
via-se nela a ponta grande marcando o impulso transmitido e, mais
abaixo, a ponta menor, o impulso refletido. A distância entre as
linhas que formavam os respectivos pólos servia de base ao cálculo
da distância entre o emissor e o refletor ou, no presente caso,
entre a Gazela e a superfície de Honur.
Mas Chaney
viu uma coisa que deixara Dee nervoso: um terceiro impulso, muito
débil, se desenhava abaixo daquele que correspondia ao reflexo.
Chaney
girou alguns botões. Vez ou outra as imagens dos impulsos
desapareciam. Mas, quando reapareciam, sempre estava presente o
impulso menor, que levara Dee à conclusão de que alguma coisa não
estava em ordem.
O major
Chaney comunicou-se com as outras Gazelas. Em suas telas, aparecia
aquela imagem. E cada observador acreditara a mesma coisa que o
sargento Dee.
— Algo
não está em ordem — murmurou Chaney, que parecia perplexo. — O
terceiro impulso é verdadeiro. O osciloscópio está funcionando?
— Funciona
ininterruptamente.
— Pois
bem; nesse caso poderíamos...
Não teve
tempo para dizer o que poderiam fazer. Um terrível solavanco fez com
que Chaney e todos os homens que não estivessem presos aos cintos de
segurança caíssem ao chão. No mesmo instante as sereias de alarma
emitiram um som estridente.
Os homens
soltaram gritos de surpresa. Ainda confuso, Chaney levantou-se,
apoiando-se no encosto da poltrona. Sentiu uma estranha leveza no
estômago e percebeu Instantaneamente que ao menos o neutralizador
deixara de funcionar.
Viu que a
marca luminosa do altímetro descia rapidamente. Cambaleou o mais
rápido que pôde em direção ao telecomunicador. O rosto preocupado
do capitão Brian contemplava-o da tela.
— Estamos
caindo! — gritou Chaney, superando o barulho das sereias. —
Provavelmente fomos atingidos por um raio de tração.
Brian
confirmou com um aceno de cabeça.
— Registramos
sua posição — respondeu. — Procurem controlar os aparelhos.
Dentro de alguns minutos estaremos aí.
Brian
desapareceu da tela. Chaney enfiou-se na poltrona do piloto. Com um
gesto firme, empurrou o regulador dos propulsores à posição
máxima.
A Gazela
foi sacudida por outro solavanco. A queda fora neutralizada. Olhando
para o altímetro, Chaney viu que o veículo continuava a perder
altura. Mas a descida não era mais rápida que a de um vôo planado,
não muito inclinado.
Um sorriso
amargo passou pelo rosto de Chaney. Levou alguns segundos para avisar
os outros veículos. Todos eles controlaram a queda numa altitude de
seis mil metros e, descrevendo uma curva suave, aproximavam-se da
superfície do planeta.
Subitamente
Chaney teve uma idéia. A tela do telecomunicador ainda mostrava o
assento vazio do oficial que estava de plantão na sala de comando da
Titan. Mas Chaney acionou o alarma até que o capitão Brian voltasse
a aparecer.
— Tenho
uma sugestão, capitão — fungou Chaney. — Mande que os homens
voltem. Conseguimos controlar a queda e devemos realizar um pouso
sofrível. É bem possível que o inimigo apareça para verificar o
que foi derrubado. Os homens enviados pelo senhor poderiam
espantá-lo.
Brian logo
compreendeu.
— Está
bem. Mandarei que os homens esperem; aguardo seu pouso. Se este
correr normalmente, ninguém irá em seu auxílio.
— Obrigado.
Chaney
voltou-se aos tripulantes da Gazela.
— Estão
bem presos nos cintos? O estouro deverá ser bem forte. Encolham o
pescoço.
O tenente
Hathome, piloto do aparelho G-021, chamou pelo telecomunicador.
— Iniciarei
o pouso. O terreno é bastante favorável.
Chaney
confirmou com um sinal de cabeça.
— Muitas
felicidades, Hathome!
A G-021
foi o último aparelho que conseguiu controlar a queda. Por isso
Hathome foi o primeiro a chegar à superfície do planeta.
Chaney
lançou mais um olhar para a imagem de radar. Hathome dissera a
verdade: o piloto de um veículo que estava caindo não poderia
desejar terreno mais favorável. Era liso que nem uma mesa. Nas
extremidades do quadro, havia acidentes do terreno que atingiam uma
altura considerável; deviam ser montanhas. Ao que parecia, a área
que se estendia embaixo das três Gazelas era formada por um
planalto.
A G-021
surgia sob a forma de um pontinho luminoso. Chaney viu que, de um
momento para outro, reduziu a velocidade e modificou sua trajetória.
No alto-falante, que ainda mantinha contato com a G-021, ouviu-se um
zumbido ensurdecedor, o chiado do metal que se esfacelava e por fim
um tremendo estalo. Depois não se ouviu mais nada.
— Hathome!
Não houve
resposta.
— Hathome...!
Finalmente
ouviu-se uma voz débil.
— Sim
senhor...
— Resistiu?
— Acredito
que sim. Todo mundo já está de pé.
A atenção
de Chaney foi desviada para outro assunto. O altímetro indicava
cento e cinqüenta metros. A G-020 dispunha-se a pousar, juntamente
com a G-022.
Chaney
apoiou-se com toda força contra a mesa do piloto. No momento em que
o altímetro havia descido quase à marca zero, expeliu toda a
energia dos jatos de popa, para reduzir a velocidade.
Um enorme
solavanco sacudiu o veículo. Chaney viu que o mapa desenhado pelo
radar começou a girar e as sombras apagadas que se desenhavam nas
telas de televisão começaram a mover-se. Um barulho infernal abafou
os gemidos de pavor dos homens. Chaney reteve a respiração até
ouvir o estouro final, que indicava que a G-020 acabara de chocar-se
com um obstáculo: a viagem chegara ao fim.
A cabeça
de Chaney bateu contra um objeto duro; ficou inconsciente por alguns
segundos. Quando despertou, tudo estava em silêncio; só se ouviram
os ruídos provocados pelos trajes dos homens que procuravam
colocar-se de pé.
— Estão
todos aí? — perguntou Chaney.
Responderam
com um forte sim, felizes por terem escapado.
No
interior da Gazela reinava a escuridão. O suprimento de energia
deixara de funcionar, e com isso o emissor também estava
inutilizado. A tela do telecomunicador apagara-se.
— Vamos
dar o fora! — berrou Chaney. — Abriguem-se atrás da Gazela.
Baixaram
os capacetes sobre o rosto e desceram. A comporta funcionava
impecavelmente. Como fosse a única via de entrada e saída, fora
acoplada a um gerador de emergência indestrutível.
Chaney
aguardou tranqüilamente que cessasse o barulho vindo da comporta,
transmitido pelos alto-falantes externos. Por fim chamou pelo rádio
de capacete:
— Hathome!
Crimson!
Hathome
respondeu imediatamente, mas da G-022 veio esta resposta:
— O
tenente Crimson está inconsciente. Aqui fala o sargento Halligan.
— Quantos
dos seus homens continuam de pé, Halligan?
— Todos.
Apenas dois desmaiaram.
— Está
bem. Hathome, as instruções que vou transmitir também valem para o
senhor. Desçam, levando as armas, e procurem atingir a G-020.
Estamos abrigados à sombra da máquina. Não usem seus holofotes
manuais, mas apressem-se.
Hathome e
Halligan compreenderam. Chaney interrompeu o contato, pegou o pesado
desintegrador, que com o choque deslizara pela sala e amassara o pé
do painel de controle. Desceu pela comporta.
Lá fora a
visibilidade era melhor do que a que Chaney encontrara ao olhar a
tela. A profusão enorme de estrelas do grupo M-13, que encobria a
parte norte do firmamento, irradiava uma forte luminosidade.
Os homens
do grupo de Chaney agacharam-se à sombra do aparelho de forma
elíptica. Com as armas levantadas, fitavam a semi-escuridão.
Enquanto
esperavam, Chaney procurou adivinhar o que faria a Titan. Depois do
pouso, todos os contatos foram interrompidos. Se pudesse dar um
conselho ao capitão Brian, recomendaria que recolhesse a bordo o
resto das Gazelas, a não ser que quisesse partir imediatamente com a
própria nave. O campo de tração do inimigo fora bastante forte
para neutralizar a ação dos motores das Gazelas. Se o grupo de
salvamento enviado por Brian também usasse as naves de
reconhecimento, seu destino não seria diferente do das naves G-020,
G-021 e G-022.
Infelizmente,
Chaney não dispunha mais de nenhum telecomunicador através do qual
pudesse informar a Titan sobre a experiência pela qual acabara de
passar.
Enquanto
ainda estava quebrando a cabeça sobre isso, ouviu um estalo no
receptor de capacete. A voz do sargento Halligan disse:
— Estamos
vendo seu aparelho. Dentro de quinze minutos estaremos aí.
— Está
bem — respondeu Chaney. — Ouviu alguma coisa de Hathome?
— Por
enquanto não.
No
entanto, Hathome chamou de uma distância maior.
— Neste
momento estamos passando pelo aparelho de Crimson. Calculo que ainda
levaremos meia hora para chegar aí.
Preocupado,
Chaney lançou os olhos em torno. Não esperara que as três gazelas
fossem tocar o solo tão longe uma da outra. Muita coisa poderia
acontecer em meia hora; ainda mais que desde o pouso forçado. Já se
haviam passado quinze minutos.
No
entanto, não viu nada de suspeito. A única coisa que Chaney pôde
fazer foi insistir mais uma vez para que Hathome e Halligan se
apressassem.
*
* *
Tiff parou
a dez metros da figura esguia.
— O que
deseja? — perguntou em arcônida.
Os
purificados, batizados de honos pelos tripulantes da Titan, falavam
um dialeto arcônida.
A figura
esguia mexeu-se. Tiff viu que o hono se dispunha a aproximar-se mais
alguns metros.
— Pare!
Fique onde está! Quero saber o que deseja.
O hono
obedeceu.
— Quero
mostrar-lhe uma coisa — respondeu. Sua voz chegava a ser ridícula,
de tão aguda que soava naquela atmosfera pobre em oxigênio.
— O que
é? — perguntou Tiff. — Será um rebanho de nonus que possamos
acariciar para nos envenenarmos?
— Não
fale tão mal sobre nossos nonus — respondeu prontamente o hono. —
São criaturas queridas. Não poderíamos viver sem elas. Quero
mostrar-lhe uma coisa muito diferente: uma pista dos deuses.
Tiff riu.
— Então
os deuses de vocês deixam pistas? Desde quando?
Na
verdade, não estava com uma disposição tão brincalhona. Perry
Rhodan tinha certeza de que atrás dos deuses dos honos se ocultavam
os inimigos invisíveis. Por isso, a oferta deveria parecer muito
tentadora, caso Tiff não se desse conta imediatamente de que um
verdadeiro hono nunca seria capaz de trair seus deuses. Mesmo que
estes fossem desajeitados a ponto de deixar pistas.
O homem
estava representando. E para fazer isso desenvolvia uma atividade
pouco usual num hono.
Tiff não
tinha a menor dúvida de que o inimigo desconhecido pretendia
armar-lhe uma cilada.
Procurou
ganhar tempo.
— Por
que quer nos mostrar a pista dos deuses? — perguntou.
O hono
ergueu ambos os braços, num gesto de esclarecimento. Era outro
comportamento pouco usual. Os gestos representam um esforço físico,
e por isso os honos costumavam evitá-los sempre que podiam.
— Pertenço
a um grupo que os outros membros da minha raça designam como a dos
menos purificados — explicou. — De certa forma somos indivíduos
proscritos; mantemos pouco contato com os purificados. Soubemos o que
aconteceu com vocês e estamos dispostos a ajudar.
— Quem
me garante que você não quer atrair-me a uma armadilha?
O hono não
se apressou na resposta.
— Como
poderia fazer uma coisa dessas? — perguntou depois de algum tempo.
— Afinal,
vocês são muito mais poderosos que nós, e podem matar-me a
qualquer momento, se tiverem qualquer desconfiança. Acha que eu me
exporia a um perigo destes?
Tiff havia
tomado sua decisão.
— Como
pretende levar-nos para lá? — perguntou. — Está disposto a
caminhar à frente dos nossos veículos?
— Estou,
se não permitirem que entre nos mesmos.
Tiff
sacudiu a cabeça.
— Isso é
impossível. Você esteve em contato com os nonus; intoxicaria os
homens.
— Sim,
já sei.
— Quer
dizer que vai caminhar na frente?
— Vou.
— Nesta
área existem povoações dos purificados?
— Existem,
mas estão abandonadas.
Tiff
sobressaltou-se.
— Abandonadas?
— Isso
mesmo. Os purificados abandonaram suas aldeias e retiraram-se para as
montanhas.
— Por
quê?
— Não
sei. Não assistimos à sua mudança. De repente notamos que haviam
desaparecido.
Tiff tinha
certeza sobre o motivo que levara os purificados a mudar seu local de
residência: era a vontade dos deuses. O inimigo invisível sabia tão
bem quanto Perry Rhodan que, se os homens da Titan conseguissem
apoderar-se de um dos purificados e o interrogassem, aplicando os
recursos de que dispunham, teriam dado um bom passo à frente.
Tiff achou
que a informação que acabara de obter era muito importante.
Assegurou ao nono que os cinco veículos o seguiriam e voltou à sua
nave.
A primeira
coisa que viu ao entrar na mesma foi o rosto preocupado de Brian
projetado na tela.
— Desacople
a imagem — ordenou Brian. — Aconteceu uma coisa muito grave.
Tiff
desacoplou a imagem externa, para que o capitão Brian pudesse vê-lo.
— Chaney,
Crimson e Hathome foram obrigados a realizar um pouso de emergência
com suas Gazelas — exclamou Brian. — Perdemos o contato com eles.
O local do pouso fica a uns cento e cinqüenta quilômetros ao
nordeste. O chefe deu ordens para que o senhor procurasse localizar
as Gazelas. Seria inútil enviar outros aparelhos, pois os mesmos
também seriam forçados a realizar um pouso de emergência.
Tiff
empurrara o capacete para trás; cocou a cabeça. Em palavras
lacônicas, informou o capitão Brian sobre a palestra que acabara de
manter com o hono. Brian logo compreendeu onde queria chegar e
repeliu-o com um gesto.
— Se
acredita que o chefe vai enviar um terceiro grupo de reconhecimento,
está redondamente enganado — interrompeu a fala de Tiff. — Não
podemos dispensar nenhum dos homens que se encontram a bordo. A única
coisa que pode fazer é dividir seu grupo. Um deles poderá seguir o
hono, enquanto outro sai em busca do grupo de Chaney.
O rosto de
Tiff exprimiu contrariedade.
— Só
mesmo o diabo poderia ter-lhe dado uma sugestão destas — constatou
com a maior falta de reverência. — Num mundo como este, cinco
Câmbios representam o mínimo indispensável à sobrevivência.
Brian
confirmou com um aceno de cabeça.
— Sei
disso. Acontece que o senhor tem toda liberdade para mandar embora o
hono e utilizar todos os veículos na busca de Chaney.
Tiff
suspirou.
— Diga
ao chefe que suas ordens serão cumpridas — falou depois de algum
tempo.
Brian
sorriu.
— OK.
Não interrompa o contato.
Tiff
voltou a transferir a comunicação para o Câmbio número 4. Depois
disso, levantou-se do assento de piloto, deixando-o livre para o
sargento O’Keefe. Mandou que este se aproximasse do hono e o
seguisse.
O’Keefe
lançou um olhar desconfiado para Tiff. Este compreendeu o que
pretendia dizer.
— Antes
de mais nada, precisamos sair deste vale e chegar ao planalto. A
seguir, veremos o que devemos fazer. Se o hono caminhar
espontaneamente na direção norte-nordeste, não teremos motivo para
criar cabelos brancos, não é mesmo?
Um sorriso
largo tomou conta do rosto de O’Keefe.
— É
verdade.
O motor
começou a funcionar com um zumbido. Dirigindo cautelosamente,
O’Keefe tirou o câmbio da sombra do paredão e o deslizou em
direção ao hono. Olhando em torno, Tiff certificou-se de que os
outros veículos o seguiam, mantendo a formação habitual.
3
O major
Chaney sabia perfeitamente que, para manter-se vivo, teria de contar
ao menos por algumas horas com seus próprios recursos. Sabia ainda
melhor que Rhodan que qualquer outra Gazela que tentasse aproximar-se
do local em que se encontrava seria atingida pela força irresistível
do raio de tração. Ficaria tal qual os três aparelhos que já
estavam jogados naquele vale.
Os grupos
de Crimson e Hathome haviam atingido o aparelho G-020. Enquanto o
grupo estava a caminho, Crimson recuperara os sentidos e passara a
locomover-se sobre as próprias pernas.
Ao todo
trinta e cinco homens estavam reunidos em torno de Chaney. Todos, bem
armados. Chaney tinha certeza de que poderia repelir qualquer ataque
aberto, a não ser que seu grupo se defrontasse com um verdadeiro
exército.
Além
disso, os homens usavam trajes protetores espaciais, motivo por que
nem mesmo um rebanho de nonus poderia fazer-lhes qualquer mal.
As horas
foram passando; sobre as cumeeiras que se desenhavam ao sudeste
surgiu o vermelho-escuro do amanhecer.
Quando o
sol surgiu por cima do paredão que fechava o vale, Chaney
convenceu-se de que seria inútil esperar mais. O inimigo não
apareceria. Talvez estivesse satisfeito em ter derrubado os aparelhos
e não tinha o menor interesse em saber quem eram as pessoas que
obrigara a vir ao solo; ou então sabia que se tratava de uma força
de combate que não poderia enfrentar.
Chaney
ordenou a marcha de regresso. Sabia que a Titan se encontrava ao
sul-sudoeste, a cerca de trezentos quilômetros de distância.
No ponto
em que se encontrava a G-020, não seria possível empreender uma
marcha na direção sul-sudoeste. O vale seguia quase exatamente a
direção leste-oeste o suas encostas eram tão íngremes que Chaney
não poderia esperar que os homens conseguissem escalar as mesmas,
embora a gravitação fosse muito reduzida. Consolou-se com a idéia
de que em algum lugar o vale deveria ter um fim, ou apresentar uma
ramificação que conduzisse para o sul.
Durante a
marcha para o oeste passaram junto aos destroços da G-022 e da
G-021. Chaney fez de conta não ouvir as graçolas cochichadas por
seus homens, que disseram que, se soubessem disso, teriam continuado
no lugar onde se encontravam. O que importava era que as duas Gazelas
ficaram tão avariadas com o pouso de emergência quanto o aparelho
de Chaney. Não serviriam para mais nada; até mesmo os
telecomunicadores estavam inutilizados.
Com o
correr das horas, o sol foi subindo por cima da encosta e produziu
tamanho calor no vale estreito e baixo que os homens se viram
obrigados a ligar a aparelhagem de condicionamento de ar de seus
capacetes.
Chaney
olhou em volta, procurando um lugar para descansar. Descobriu uma
caverna situada na encosta norte. Mandou que dois homens a
examinassem e soube que era um lugar apropriado para o descanso.
Estava
prestes a mandar que seus homens seguissem à direita, mas no momento
em que estava abrindo a boca o sargento Dee exclamou:
— Ó...
vejam só! Que coisa linda! Estava parado, apontando com o braço
para o interior do vale.
Chaney
olhou na direção indicada, mas não viu nada de extraordinário.
Muito menos viu qualquer coisa que pudesse ser considerada linda.
— O que
está vendo? — perguntou, dirigindo-se a Dee.
Dee
levantou também o outro braço e bateu palmas com as mãos
enluvadas, provocando estalos nos receptores externos.
— Que
coisa maravilhosa! — exclamou encantado. — É um quadro
impagável!
Chaney
zangou-se.
— Com os
mil demônios. O que é tão maravilhoso e impagável? Faça o favor
de responder quando eu lhe dirijo uma pergunta, sargento!
Dee
continuava a bater palmas.
— Por
que tanta grosseria, Chaney? — disse com uma risada. — Logo
quando me sinto tão...
Por um
instante Chaney perdeu o auto-controle. Antes que conseguisse
recuperá-lo, o tenente Crimson soltou uma risada de bode:
— O
homem está com a razão, Chaney. Deixe-o ser feliz. Há alguma coisa
errada nisso?
Chaney
virou-se abruptamente e fitou Crimson.
De repente
compreendeu.
— Para a
caverna! — gritou com a voz rouca. — Corram! Hathome e Halligan,
ajudem-me a levar estes idiotas.
Hathome e
Halligan já estavam preparados para correr. Voltaram e ajudaram o
major Chaney a levar Dee e Crimson até a caverna. Os dois não
resistiram. Apenas riam e escarneciam das pessoas que levavam a vida
muito a sério.
Chaney
olhou em torno. O vale estava deserto, tal qual estivera desde o
início. Não havia o menor sinal de vida: nenhum animal, nenhuma
planta. E o comportamento idiota de Dee e Crimson só poderia ser
explicado se houvesse animais por ali. Ou melhor, se houvesse nonus.
Chaney,
seus companheiros e os dois malucos — foi esta a expressão usada
pelo sargento Halligan — chegaram à entrada da caverna sem serem
molestados. Trinta homens do grupo estavam sentados junto às paredes
da caverna, enquanto cinco se mantinham junto à entrada, de armas
levantadas, cobrindo a retirada de Chaney.
Este
mandou que Dee e Crimson fossem levados para o interior da caverna,
onde seriam vigiados. Depois teve tempo para examinar a si mesmo.
Haveria algum indício de que, dali a alguns minutos, também acharia
que o mundo é lindo e que a vida é uma alegria constante?
Não,
estava tudo normal.
Hathome,
que estava de pé ao seu lado, parecia ter notado que Chaney acabara
de perscrutar seu interior.
— Tudo
em ordem, major? — perguntou.
Chaney
fitou-o, zangado e alegre ao mesmo tempo.
— Não
fique rindo. Será que já está achando que a vida é a coisa mais
bela que se possa imaginar?
Hathome
sacudiu a cabeça.
— De
forma alguma — respondeu, ficando em posição de sentido.
Chaney
ficou satisfeito.
Deitou no
chão pouco antes da entrada da caverna e examinou o vale.
O que
poderia ter acontecido com Dee e Crimson?
Essas
reflexões levaram-no diretamente à indagação sobre a proteção
que a caverna poderia oferecer se surgisse uma situação mais séria.
Além disso, precisava saber de que forma Dee e Crimson haviam sido
infectados. E com isso, Chaney voltou ao ponto de partida de suas
reflexões.
Olhou
atentamente para todos os pontos do vale e procurou descobrir
qualquer coisa que pudesse representar um perigo. Não encontrou
nada.
Chaney
ficou imerso em seus pensamentos. O sol continuou na sua trajetória
e ultrapassou a encosta norte do vale. As sombras cobriram a entrada
da caverna. Chaney teve a impressão de ter cochilado um pouco quando
foi acordado pela voz nervosa de um dos homens de seu grupo:
— Alguma
coisa se aproxima. Chaney levantou-se. O homem que se encontrava ao
seu lado estendeu o braço para fora da caverna. Chaney lançou os
olhos para o leste e viu três vultos longos e esguios, que acabavam
de sair de trás de uma rocha e caminhavam em direção à caverna.
Capas largas e coloridas cobriam os ombros.
Eram
honos.
Chaney
estava bem desperto.
— Preparem
as armas! — ordenou. Não era por causa dos três honos. Mas podia
haver outros nas proximidades, dispostos a esperar um momento
favorável para lançar-se ao ataque. Os três que a sentinela havia
descoberto continuavam a caminhar em direção à caverna. Ao que
parecia, sabiam que existia alguém escondido ali.
*
* *
— De
quem é este traje espacial? — perguntou Tiff.
O’Keefe
virou o rosto. Franziu a testa e respondeu:
— É do
senhor.
Tiff
sobressaltou-se e começou a rir.
— Muito
bem. Onde fui arranjar este buraco?
O’Keefe
passou o leme a outra pessoa e levantou-se. O buraco que existia nas
costas do pesado traje era minúsculo, mas naquela superfície lisa
tornava-se perfeitamente visível.
Tiff tirou
o traje do suporte e virou-o. O buraco não atravessava o plástico.
— Hum —
fez Tiff. — Alguma coisa deve ter-me furado. Mas o ferrão não
teve força para perfurar isto.
O’Keefe
parecia desolado.
— Quem
sabe se o defeito não passou despercebido a bordo da Titan e...
— A
probabilidade de que isso tenha acontecido é inferior a 0,1 por mil
— respondeu Tiff com um gesto de desprezo. — Os instrumentos de
controle constatariam até mesmo um furo cujo diâmetro fosse cem
vezes menor. Se o furo já existisse enquanto o traje se encontrava a
bordo da Titan, o mesmo não teria saído da nave.
O’Keefe
respirou profundamente.
— Quer
dizer...
Tiff
acenou com a cabeça.
— Quer
dizer que alguma coisa tentou furar-me enquanto conversava com o hono
— completou.
O’Keefe
cocou a cabeça.
— O
senhor devia chamá-lo às falas — sugeriu.
— Para
quê? Se tiver alguma coisa com isso, vai fingir-se de bobo, e se não
tiver, se sentirá ofendido. Nada disso. Seguiremos tranqüilamente
atrás dele e aguardaremos para ver o que tem a nos oferecer.
O’Keefe
resmungou, bastante contrariado, e voltou ao seu assento. Tomou a
direção do Cambio das mãos do homem que o substituíra e continuou
a seguir o hono, que caminhava a passos largos diante da fileira de
veículos.
Já fazia
tempo que o sol nascera. Ao atingir o planalto, o hono tomara a
direção nordeste. Tiff não separara seu grupo, já que a direção
tomada pelo hono era aproximadamente a mesma em que Chaney realizara
o pouso de emergência com suas Gazelas.
O planalto
era ainda mais desolado que o vale pelo qual os Câmbios haviam
subido, partindo do ponto em que se encontrava a Titan. Não havia
nenhuma elevação que tivesse mais de um metro, com exceção de
alguns enormes blocos de pedra, que o vento parecia ter tangido
encosta abaixo. Fora algumas frestas estreitas que se abriam na
rocha, o solo parecia fundido numa única peça. Em nenhum lugar
poderia crescer uma planta. A única coisa viva era o vento, que
varria a área com um uivo monótono.
Tiff tomou
a medida da temperatura externa. Era de 52 graus centígrados. A
rocha parecia incandescente. De noite seria exatamente o contrário.
Admirou o
hono, que caminhava a passos seguros, sem preocupar-se com o calor
martirizante.
O’Keefe
surpreendeu-se bastante quando o magricela desapareceu de um momento
para outro, como se tivesse sido tragado pela rocha. De repente
estacou.
— Que
diabo! Onde se meteu?
O hono
continuava desaparecido.
— Onde
foi que o viu pela última vez? — perguntou Tiff, depois de
certificar-se que não se via o menor vestígio do hono na tela.
— Foi
ali à direita, a uns vinte metros; daqui... ah, aí está.
O
magricela saiu da rocha que nem uma rolha de champanha, parou e
gesticulou com os braços. Era um quadro bizarro.
— Vá
até lá — ordenou Tiff.
O’Keefe
levou o Câmbio até o local em que estava o hono. Ao aproximar-se,
viu um traço escuro que, começando pouco atrás do hono,
atravessava a rocha até a linha do horizonte.
— Não
vai querer atrair-nos para essa fresta — resmungou Keefe. —
Nenhum dos Câmbios caberia na mesma.
Tiff não
lhe deu atenção. Procurou entender os gestos do hono. Este apontava
alternadamente para si, para o chão à sua frente, para o Câmbio e
para o nordeste. Ao fazer o último gesto, a mão descia.
— Se o
entendi bem, pretende entrar na fresta e quer que nós continuemos
acima da superfície, descendo mais adiante — disse Tiff. — Mais
adiante a fresta deve ter largura suficiente para abrigar os
veículos.
O’Keefe
levou o veículo para além do hono e seguiu junto à fresta. Tiff
viu o hono fazer um gesto de concordância e desaparecer novamente no
interior da fresta.
— Isso
mesmo — disse, dirigindo-se a O’Keefe. — Prossiga.
Tiveram
uma grande surpresa ao constatarem que depois de alguns quilômetros
a fresta tão insignificante se alargava, abrindo-se num verdadeiro
vale. O fundo desta depressão ficava uns duzentos metros abaixo do
nível do planalto, continuando a descer à medida que se estendia
para o nordeste.
O’Keefe
seguiu até a beira do vale e fez com que os instrumentos de captação
de imagens procurassem localizar o hono.
Acabou
descobrindo-o mais ou menos na mesma altura em que estavam parados os
Câmbios.
— Meu
Deus! — exclamou O’Keefe. — Como deve ter corrido esse sujeito.
Na tela,
via-se perfeitamente que o hono olhava para cima. Ao ver o Câmbio,
cuja popa passara um metro ou metro e meio acima da beira do vale,
gesticulou com ambos os braços. Foi um gesto violento, de que um dos
apáticos purificados jamais teria sido capaz.
O’Keefe
virou-se.
— Quer
que desça?
Tiff
aceitou.
— Desça
devagar; tome cuidado.
Manipulando
cautelosamente os controles, Tiff fez com que o veículo passasse
para além da extremidade do vale, onde ficou imóvel por um instante
no ar rarefeito. Finalmente desceu. Os outros Câmbios seguiram-no
prontamente, e até mesmo em vôo livre conseguiram manter a formação
costumeira.
Dali a dez
minutos O’Keefe parou o veículo pouco acima do fundo do vale. O
hono aguardava-os a uns cinqüenta metros de distância, e acenou com
os braços. O’Keefe seguiu-o sem aguardar as instruções de Tiff.
Dali a
meia hora, o vale descreveu uma curva fechada para o norte, que era
inexplicável tal qual a própria existência do vale. O hono dobrou
a curva e prosseguiu mais algumas horas, levando os Câmbios cada vez
mais para o norte.
O sol já
havia atravessado a linha do zênite e a encosta do vale começou a
projetar sombras longas e escuras.
Mais
adiante, a depressão descrevia outra curva, desta vez de noventa
graus e levava exatamente para o leste. No lugar em que a curva era
mais pronunciada o hono parou, virou-se para os Câmbios, apontou com
as mãos para o chão e sentou.
O’Keefe
aproximou-se a dez metros do hono. Na tela, a curva da encosta leste
recuou um pouco, abrindo um amplo panorama. O’Keefe, que dedicava
toda a atenção às manobras do veículo, não viu o quadro
desvendado para além da encosta que recuava.
Mas Tiff
mantinha os olhos bem abertos. Viu a fenda estreita que se abria no
paredão oposto e o filete de água que jorrava.
Viu que a
rocha porosa logo absorvia o líquido. Viu a manchinha de vegetação
raquítica nutrida pela água, e o grupo de choças arruinadas que se
erguiam junto ao paredão.
— Pare!
— gritou Tiff.
O’Keefe
sobressaltou-se e desligou o motor.
— O
quê...?
Tiff
apontou para a tela.
— Olhe!
O’Keefe
assobiou baixinho por entre os dentes quando viu a aldeiazinha.
— Ah! —
disse em tom vivo. — Deve ser a cidade secreta das montanhas.
— Ao que
parece está abandonada — observou Tiff.
— Parece
que sim. Aliás, o hono disse que os purificados fugiram.
Tiff
confirmou com um aceno de cabeça.
— Vou
descer — disse.
O’Keefe
murmurou:
— Está
bem. Mas faça o favor de usar um traje sem furo.
Dali a
dois minutos Tiff saiu do veículo, passando pela comporta. Sentado
numa pedra, o hono mantinha a cabeça inclinada para a frente e não
fazia o menor movimento. Tiff parou a três metros dele.
— Ei! —
gritou.
O hono
levantou-se de um salto. Parecia que estivera dormindo.
— Sei
que está cansado — disse Tiff. — Mas gostaria de saber por que
nos trouxe até aqui.
O hono
respondeu:
— Não
disse que iria mostrar-lhes a pista dos deuses?
— É
verdade.
— Pois
começa aqui.
— Onde?
— Ali,
naquelas casas.
— Mostre.
O hono fez
um gesto de recusa.
— Agora
não. Daqui a pouco vai escurecer e estou cansado.
Tiff
refletiu.
— Onde
vai dormir? — perguntou.
— Aqui
mesmo.
— Por
que não dorme nas cabanas? Seria mais confortável.
O hono
fitou Tiff como se duvidasse das faculdades mentais do tenente.
— Ali,
onde os deuses expulsaram os purificados? Prefiro não dormir.
Tiff deu
de ombros.
— Faça
o que quiser. Desejo-lhe uma boa noite.

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