Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
S.
PEREIRA MAGALHÃES
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Um
adversário muito antigo, já quase esquecido, surge novamente. E
Gucky fez questão de ver os lagartos voarem.
História
da Terceira Potência em poucas palavras:
• O
foguete Stardust alcança a Lua e Perry Rhodan descobre a nave
exploradora dos arcônidas, que realizou um pouso de emergência
(vol. 1).
• Instalação
da Terceira Potência contra a resistência das grandes potências
terrenas e defesa contra tentativas de invasão extraterrena (vols. 2
a 9).
• Primeira
intervenção da Terceira Potência nos acontecimentos galácticos.
Perry Rhodan defronta-se com os tópsidas e procura solucionar o
enigma galático (vols. 10 a 18).
• A
Stardust-III descobre o planeta Peregrino e Perry Rhodan alcança a
imortalidade relativa (vol. 19).
• Perry
Rhodan regressa à Terra e luta por Vênus (vols. 20 a 24).
• O
Supercrânio ataca (vols. 25 a 27).
• Chegada
dos saltadores, que pretendem eliminar a concorrência potencial da
Terra no comércio galático (vols. 28 a 37).
• Primeiro
contato de Perry Rhodan com Árcon e atuação como delegado do
cérebro positrônico que exerce o governo no grupo estelar M-13
(vols. 38 a 42).
Para dar
mais impressão de verdadeira Terra, Rhodan mandara seus dois
cruzadores, Centauro e Terra, para se estabelecerem no planeta Três,
se defenderem dos ataques, simulando que aquele planeta era realmente
a invejada Terra dos homens.
Porém o
planeta Quatro já estava ocupado pelos tópsidas, os quais...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Administrador da Terra e chefe da Terceira Potência.
Gucky
— Contra ordem expressa de Rhodan, embarca clandestino, levado pela
convicção do grande perigo, acaba salvando a situação.
Al-Khor
— Comandante dos tópsidas, não crê em assombrações.
Major
Deringhouse
— Comandante do cruzador Centauro e chefe geral da expedição cuja
finalidade é apresentar um planeta de Beta como sendo a nossa Terra,
para desviar o ataque dos imperialistas saltadores.
Major
McClears
— Comandante do cruzador Terra.
Wor-Lök
— Por medo do ditador é assassinado em pleno Conselho de Guerra.
1
Além dos
dois arcônidas Crest e Thora, do rato-castor Gucky e dos próprios
terranos, não havia ninguém, no Universo inteiro, que pudesse saber
a posição do planeta Terra, com exceção de duas criaturas.
A primeira
chamava-se Topthor. Era um comerciante das Galáxias da estirpe dos
Superpesados, 1,60 m de altura e o mesmo tanto de largura, pele
esverdeada e senhor absoluto de uma respeitável frota de
espaçonaves.
A segunda
era o cérebro positrônico, instalado na nau capitania do próprio
Topthor, na mesma espaçonave com a qual tentara atacar a Terra, há
meses atrás, ao descobri-la casualmente. Porém, nem o computador
positrônico, nem Topthor, sabiam que os mutantes de Perry Rhodan
haviam alterado completamente a programação dos dados, no setor de
alimentação do computador.
Conforme
esta alteração, passou a ser registrado como Terra o terceiro
planeta do gigantesco sol Beta, 272 anos-luz do nosso sistema solar.
Uma
alteração que provocaria um lamentável engano — lamentável para
dois grandes povos das Galáxias — embora seu grande adversário,
um terrano com o nome de Perry Rhodan, juntamente com seu pequeno
planeta pátrio, ficariam excluídos dos dados lançados.
E era
exatamente este o objetivo de Rhodan.
A Terra,
isto é, a Humanidade, já estava evoluída e já havia realizado em
seu planeta o que até então parecia mero sonho de idealistas.
A
unificação da Terra num só governo não era mais utopia. Todos os
povos da Terra tinham se unido, fronteiras e barreiras alfandegárias
não mais existiam. O ministro das finanças da Terra, Homer G.
Adams, introduziu um padrão monetário único, o chamado Solar,
moeda de toda a Terra. As grandes nações e os pequenos estados de
outrora tinham sua representação no Conselho Geral que se reunia
periodicamente em Terrânia, capital do Mundo.
O fantasma
da guerra era coisa do passado. O dinheiro colossal dispendido
outrora com armamentos, servia agora para a construção de uma
gigantesca frota espacial, dependente diretamente do governo mundial.
Inicialmente, as unidades já existentes da frota eram comandadas
pelos homens da Terceira Potência, um organismo estatal construído
com o auxílio dos arcônidas.
Em
Terrânia, situada no coração do deserto de Gobi, era grande a
agitação. A megalópole, célula-mater da Terra unificada,
aguardava com ansiedade o relatório de seu primeiro cidadão, que
depois de uma ausência de seis meses, estava regressando ao planeta
pátrio. Ninguém sabia o que havia sucedido neste meio ano, mas
todos sabiam que a prolongada ausência de Perry Rhodan só podia ter
sido causada por acontecimentos da maior gravidade.
O
engenheiro-chefe Kowalski e o técnico de eletrônica Harper, haviam
terminado o trabalho do dia e permaneciam sentados diante da
televisão, em seu aposento coletivo, do qual compartilhavam ainda
dois outros colegas, que faziam serão.
A tela
mostrava o espaço. No fundo, estava a Via Láctea e, mais para
frente, a sombra de uma espaçonave em forma de um torpedo. Uma única
palavra indicava a estação que estava transmitindo: Terrânia.
Qualquer
pessoa na Terra sabia que um grande acontecimento estava iminente.
Certamente não havia ninguém que fosse perder esta transmissão. O
governo mundial falaria a toda a população da Terra, provavelmente
o próprio presidente — Perry Rhodan.
— Acabou
de chegar hoje — disse Kowalski, e Harper sabia de quem estava
falando. Todo mundo vira a gigantesca esfera espacial quando descia.
Uma nave, que a Terra nunca havia visto igual. Quilômetro e meio era
o diâmetro do gigante do espaço. Com letras pretas, lia-se em sua
fuselagem o nome: Titan.
— Estou
curioso para ouvir as novidades que nos traz.
Ele, Perry
Rhodan, o homem que tinha unificado a Terra, e a transformado numa
superpotência galáctica. Era, talvez, o único homem vivo que não
tinha inimigos — pelo menos na Terra e entre os homens.
Lá fora,
porém, no infinito do espaço...
— Vamos
ver — murmurou Harper, virando-se na poltrona. — De qualquer
maneira, uma coisa não mudou ainda: as pausas na televisão. Parece
que vai começar agora.
A
cintilante Via Láctea desapareceu da tela, dando lugar ao rosto de
um homem. Era o coronel Albrecht Klein, substituto de Rhodan. Durante
a ausência do presidente, dirigia os negócios da Terceira Potência
e do governo mundial, com o apoio decidido de Allan D. Mercant.
— Amigos
terranos!
O coronel
Klein fez uma pausa muito enfática, olhando com um sorriso afável
para a câmera, e portanto para quase dois bilhões de homens.
— Perry
Rhodan voltou de sua expedição ao espaço e vai informá-los dos
acontecimentos mais importantes, sucintamente. Um relatório mais
detalhado pode ser esperado para os próximos dias, de maneira que
peço compreensão dos telespectadores, pelo fato de nosso presidente
fazer apenas um resumo dos fatos. Passo assim a palavra a Perry
Rhodan!
Coronel
Klein se afastou com um sorriso e sua imagem desapareceu do vídeo.
— Foi
breve e indolor — observou Harper, olhando com interesse quando a
câmera ainda apresentava a retirada de Klein e depois o ambiente
onde já se encontravam os membros do Conselho do Governo, numa mesa
em meia-lua.
— Lá
está ele.
Kowalski
já havia visto Rhodan há mais tempo. O uniforme da Frota Espacial,
bem talhado, salientava sua figura esbelta. Levantou-se com um leve
sorriso, dirigindo-se ao estrado dos microfones. Apertou a mão do
coronel Klein e ficou de pé diante da câmera, que levava a imagem
por todas as partes da Terra, até mesmo para o menor povoado no
centro da África. Centenas de tradutores convertiam suas palavras em
todas as línguas da Terra, para as diversas regiões do mundo. Todos
podiam compreendê-lo, embora falasse em inglês.
— Terranos...
A voz de
Rhodan soava um pouco cansada, embora seu sorriso fosse permanente.
Em seus olhos castanhos parecia cintilar a perenidade do espaço
infinito, que realmente se tornara sua segunda pátria. Mas esta
perenidade não tinha o brilho de sempre; trazia laivos de
preocupação no fundo de sua alma.
— Nestes
últimos seis meses, muita coisa mudou, tanto aqui na Terra como no
espaço infinito. Vocês todos se lembrarão que iniciamos uma
expedição para procurarmos o Império dos Arcônidas nas Galáxias,
no conjunto sideral M-13, distante de nós trinta e quatro mil
anos-luz. Encontramos Árcon, o sistema central, tivemos, porém uma
amarga decepção. Há seis anos, os arcônidas foram substituídos
por um cérebro positrônico de tamanho inimaginável, maior do que
todo cérebro que existiu ou existe nas Galáxias.
Rhodan fez
uma pausa curta, para dar ênfase a suas palavras. A câmera se
afastou um pouco, fotografando agora os dois arcônidas Crest e Thora
bem de perto. Harper assobiou baixinho, dizendo:
— Que
mulher fantástica, esta Thora, alta e esbelta. Os cabelos brancos e
os olhos avermelhados não atrapalham nada. Não é propriamente
bela, mas tem um encanto especial a que não posso resistir.
Rhodan
apareceu de novo no vídeo.
— Conseguimos
tomar do Império a maior belonave até hoje construída no universo,
a Titan. Atacado por inimigos externos, o cérebro positrônico se
sentiu ameaçado, aliando-se a nós. Ajudamos o regente do Império
Arcônida e granjeamos sua confiança, se é que se pode falar em
confiança em se tratando de um cérebro robotizado. No decorrer das
operações, se evidenciou cada vez mais que o grande Império e a
nossa pequena Terra têm um inimigo comum, que deve ser tomado muito
a sério, isto é, os saltadores. Vocês todos já ouviram falar
nesta raça de humanóides, descendentes dos arcônidas. São também
chamados de comerciantes das Galáxias. Foram eles que, há tempos,
atacaram a Terra e foram rechaçados. O superpesado Topthor conhece a
posição da Terra, ou pelo menos julga conhecer. Ele e o cérebro
positrônico de sua nave.
“Mas
ainda existe alguém que gostaria de saber onde está a Terra: o
gigantesco cérebro robotizado de Árcon. Terranos, nosso mundo não
conhece inimigo mais perigoso do que este cérebro robotizado, que
não suporta competir com outra potência. E a Terra está em vias de
se tornar uma superpotência das Galáxias.”
Rhodan foi
interrompido pelo aplauso geral dos delegados. Agradeceu-lhes, com um
sinal de cabeça e continuou:
— O
cérebro positrônico de Árcon consiste de lógica fria e total
ausência de compromissos. Não vê em nós a não ser um auxílio
oportuno, que pode usar à vontade quando interessar a seus
desígnios. A Terra, porém, não tem nenhum interesse em ser colônia
de Árcon.
Irrompeu
novo e vibrante aplauso. Harper e Kowalski batiam palmas com
entusiasmo. A televisão exibia de novo Crest e Thora que evitavam
qualquer manifestação de sentimento. Imóveis e calmos estavam eles
em seus lugares. Nos olhos de Crest houve brilho breve, mas ninguém
poderia dizer se era de indignação. Thora não deixava um momento
de olhar para Rhodan. Seu olhar estava pregado em seus lábios, como
que aguardando dele uma revelação.
Rhodan
esperou até que se fizesse silêncio.
— Volto
a insistir na lógica fria do cérebro robotizado. Quando ele souber
de nossa resolução, isto é, de não querermos mais continuar como
seus criados, haverá de cair sobre nós, sem piedade e destruir-nos.
Porém, não sabe onde se localiza o sistema solar no infinito do
espaço... Ainda não sabe.
“E
Topthor não nos pode mais trair, porque nós alteramos os dados do
computador eletrônico, alimentando-o com dados falsos. Se ele
recorrer ao cérebro positrônico para saber da nossa posição,
receberá a resposta de que a Terra é o terceiro planeta do grande
sol Beta, em Orion, duzentos e setenta e dois anos-luz distante de
nós.
“Penso
que os saltadores e talvez até mesmo o cérebro robotizado de Árcon
destruam este terceiro planeta e acreditem piamente que destruíram a
Terra. Conforme os catálogos dos arcônidas, este terceiro planeta é
considerado inabitado, mas nós cuidaremos de fazer com que ninguém
perceba isto. A Terra, oficialmente, deixará, pois, de existir. Só
depois é que teremos tempo para construirmos nossa frota espacial,
com calma, até que um dia possamos nos apresentar diante de Árcon
de cabeça erguida e impor nossas condições. Não mais como povo
dependente, mas, ao menos como nação soberana, de igual para
igual.”
Novos
aplausos, até mesmo por parte dos dois arcônidas, a quem era
sumamente descabível que um robô dirigisse o grande Império.
Harper comentou:
— Que
planos tem nosso Rhodan! Acho isto um pouco difícil. Mas compreendo
que não há outra possibilidade. Portanto, desapareçamos de cena,
até ficarmos mais fortes.
— É
fácil falar — respondeu Kowalski, olhando para o relógio. — Foi
sucinto e não assustou ninguém, colocando-nos praticamente diante
de fatos consumados. Estou curioso para ouvir o anunciado relatório.
Serão verdadeiros romances de aventura. Seis meses no espaço não é
brincadeira.
Não sabia
como seu palpite estava perto da verdade. Harper ia responder, mas
Rhodan continuou:
— Terranos,
expus-lhe, em poucas palavras, meu plano, para que compreendam mais
tarde nosso modo de agir. Ainda esta semana, partirão dois dos
nossos grandes cruzadores em direção a Orion para dar a um planeta
não habitado a impressão de ser habitado. Temos que contar com o
fato de o superpesado Topthor não demorar muito em destruir a odiada
Terra. Que ele faça o que quiser.
Rhodan
levantou a mão, cumprimentando. A imagem desapareceu, voltando o
habitual sinal de Terrânia.
Kowalski
se levantou, desligando o aparelho. Olhou para Harper.
— Que
diz de tudo isto? Não foi magnificamente planejado?
— Não
sei, não — respondeu Harper, meio duvidoso. — Num cálculo de
aparência perfeita, sempre pode haver um pequeno engano. E está
tudo acabado.
— Bobagem!
— Kowalski estava um tanto zangado. — Perry Rhodan não comete
erro.
Harper
abanou a cabeça e se levantou.
— É
possível, Kowalski, mas desta vez tenho a impressão de que está
cometendo um. Permita Deus que eu esteja errado. Mas, uma coisa eu
digo a você, caro amigo: se houver uma falha desta vez no cálculo,
então... Deus nos acuda.
Kowalski
não respondeu. Olhou calado para o amigo que desapareceu no outro
aposento. Escutou ruído de talheres. Abriu-se uma garrafa.
O
engenheiro-chefe da Polônia franziu a testa. O que poderia haver de
errado no fato de os saltadores destruírem com sua frota um planeta
desabitado, que julgavam ser a Terra, e isto a quase 300 anos-luz
dali? O que poderia haver de errado em tudo isto?
* * *
— Esta
injustiça clama aos céus e eu vou apresentar minha queixa sobre
estes fatos injustos.
A voz era
muito estridente e o tom não apenas irritado, mas de veemente
protesto. Porém não parecia exercer muita influência em Rhodan,
pois sorria calmo, sossegando o interlocutor acariciando-lhe o pêlo
da nuca.
— Mas
Gucky, por que tanta raiva assim? Você não merece realmente umas
férias? Eu também fico por aqui.
Gucky
continuava zangado. Estava ao lado da poltrona de Rhodan, de pé, com
toda sua imponência, ostentando sua estatura de um metro e meio de
altura. As orelhas compridas traíam uma audição acurada; o focinho
longo e afunilado, um olfato fora do comum; o amplo traseiro com uma
cauda volumosa espraiada em leque, demonstrava pouco entusiasmo para
longas caminhadas. Gucky também não tinha necessidade disso. Era
teleportador e podia se locomover para qualquer lugar sem o menor
esforço. Podia também ler os pensamentos, era um grande telepata e,
além de tudo, movia qualquer matéria à distância, graças à sua
força mental, sem usar força física. Faculdade esta conhecida sob
o nome de telecinese.
Gucky era
realmente dotado de propriedades tão extraordinárias que quem o
visse pela primeira vez não achava possível.
— Está
certo — disse ele meio zangado, deixando ver seu dente roedor, cuja
ocupação predileta era roer cenouras. — Mas, dez mutantes voam
para o espaço, só eu é que fico aqui.
— Minha
resolução está tomada — disse Rhodan, cortando qualquer tipo de
argumentação, com certa energia.
Virando-se
novamente para os homens que estavam reunidos, acompanhando com
interesse o diálogo com Gucky, falou:
— Major
Deringhouse assume o comando da Centauro e major McClears o da Terra.
Cada um dos cruzadores terá uma tripulação de quatrocentos homens
e será equipado com compensadores estruturais. Ninguém poderá
rastrear os hipersaltos. Além disso, dez membros do corpo de
mutantes tomam parte na expedição. John Marshall é o seu chefe.
Recebe de mim poderes absolutos. Apenas Deringhouse lhe dará ordens.
Ao lado de
Rhodan estava um subordinado, homem espadaúdo, de cabelos vermelhos
e hirsutos, de rosto largo. Nos seus olhos de um azul-claro pairava
uma pergunta não expressa, quando, quase imperceptivelmente sacudiu
a cabeça. Rhodan percebeu.
— Que
há, Bell? Alguma objeção?
Reginald
Bell, o melhor amigo de Rhodan e seu íntimo confidente, antigo
ministro da segurança da Terceira Potência, parecia um tanto
desconcertado por ser interpelado assim à queima-roupa.
— Não,
está tudo claro. Queria apenas dar razão a Gucky.
— O que
quer dizer isto?
— Acho
injusto, quando exatamente nós é que sobramos. O que é que vamos
fazer, quando a trezentos anos-luz daqui se decide a vida ou a morte
da humanidade? Gucky é o melhor e eu... eu...
— Oh...
— e Rhodan começou a sorrir. — E você...?
— Sou de
qualquer maneira amigo de Gucky — foi tudo que Bell pôde alegar a
seu favor.
Agachado
em sua poltrona, Gucky esticou as orelhas e seus olhos brilhavam
felizes.
— Obrigado,
velho companheiro de lutas, muito obrigado, não vou esquecer isso,
mas tenho receio que nossos esforços sejam inúteis. O plano de
combate está traçado. Desta vez não somos necessários.
Rhodan
continuou sorrindo para ele.
— Ainda
bem que você compreendeu bem a situação, Gucky. As duas
espaçonaves já estão prontas para decolar e vão iniciar o vôo
para Beta ainda esta noite. Major Deringhouse, você conhece bem o
plano. Juntamente com McClears você vai simular a defesa do terceiro
planeta. Retire-se e desapareça, assim que o adversário tiver
destruído totalmente o terceiro planeta. Somos obrigados a
sacrificar este mundo, mas ele não possui vida inteligente. Os
saltadores não demorarão a dar como completamente destruído o
mundo dos homens. Até mesmo o cérebro robotizado de Árcon lhes
será grato, do ponto de vista lógico. É pena, porque eu mesmo já
estava me simpatizando com a cúpula de aço de Árcon.
Os dois
cruzadores pesados eram naves esféricas de duzentos metros de
diâmetro. Seus raios de ação eram praticamente ilimitados. Com
saltos através do hiperespaço, podiam transpor distâncias
inimagináveis na rapidez de segundos. Apenas a aferição
positrônica das respectivas coordenadas consumia maior espaço de
tempo que não estava, aliás, em proporção com a duração da
viagem. O armamento consistia de radiadores de impulsos e de outros
meios de destruição de proveniência arcônida. Poderosos
envoltórios energéticos protegiam os cruzadores de qualquer ataque.
Campos antigravitacionais neutralizavam quaisquer choques em manobras
de frenagem, aterrissagem ou decolagem.
Crest
pigarreou.
— E o
que acontece, então? — perguntou em voz baixa.
Rhodan o
fitou por um instante:
— Depois
que a destruição da Terra for simulada, não é isto que quer
dizer? Quem sabe precisamos então de anos e anos para atingirmos o
objetivo, talvez um decênio. Mas com toda certeza, só podemos
enfrentar Árcon novamente, quando não precisarmos mais nos
esconder, ou seja, esconder a posição da Terra, de uma Terra que de
repente começa a existir. Uma Terra que esteja em situação de
impor condições ao cérebro robotizado de Árcon. Acho que isto é
interessante para vocês, Crest e Thora.
Os dois
arcônidas concordaram.
Bell
começou a sorrir de uma hora para outra. Bateu nas costas de Gucky,
deu uma piscadela para Rhodan e exclamou muito patético:
— Com o
nosso renascimento, algumas pessoas ficarão admiradas...
* * *
Rhodan,
Bell, os dois arcônidas e Allan D. Mercant estavam à beira do
espaçoporto quando as possantes esferas espaciais faziam a contagem
regressiva. Os refletores inundavam o campo de aviação de uma
claridade intensa. Mais ao longe, na outra extremidade do
espaçoporto, a noite caía no deserto. Como imensa campânula, o céu
envolvia os dois pesados cruzadores, incumbidos da mais
extraordinária missão, que nave alguma jamais recebera. A história
da humanidade é um rosário de guerras e missões de todos os tipos.
Mas nunca um planeta foi dado como sendo a Terra, para ser destruído.
Mercant
parecia mais jovem do que realmente era. Mas Rhodan pôde constatar
que, nos últimos meses, o ex-chefe do Conselho Internacional de
Defesa tinha envelhecido bastante. A tremenda responsabilidade que
pesava em seus ombros consumia suas forças. Os cabelos louros em
volta de sua careca central estavam bem grisalhos.
— Lá
vão eles e permita Deus que voltem logo! — exclamou em tom
enfático, tendo o cuidado de não pisar um escaravelho que se
arrastava pelo chão. Mercant, apesar de sua famosa rigidez no
trabalho, ou talvez por este motivo, era um grande amigo dos animais.
— Desta vez, felizmente, não vou ficar sozinho aqui na Terra.
Rhodan não
perdia de vista as duas esferas cintilantes.
— A
Titan fica em permanente prontidão, Mercant — lembrou ele. —
Assim que receber qualquer notícia alarmante de Deringhouse já
estarei a caminho.
Mercant
contraiu a fisionomia.
— O que
poderá acontecer de alarmante?
— Você
parece se esquecer de que nós não conhecemos o sistema Beta. Nossos
dados se apóiam nos catálogos dos arcônidas. Pois bem, o terceiro
planeta é um mundo de florestas virgens, onde talvez, só daqui a
milhões de anos poderá existir vida. O que haverá, porém, no
primeiro e no segundo planeta ou no quarto? Beta é um gigantesco sol
avermelhado. Seu diâmetro é quatrocentas vezes maior que o do nosso
sol. Eu até estranho muito que o terceiro planeta tenha mesmo ou
deva ter vegetação.
“Você é
político, meu caro Mercant, não cientista. O tamanho do sol, nem
mesmo sua irradiação de calor, não têm nenhuma importância, se
os planetas estão bem afastados dele. As regiões de vida de um
sistema dependem da proporção certa das distâncias e do calor
irradiado ou respectivamente recebido. Teremos que aguardar que
surpresas nos reserva esta segunda Terra — olhou para o relógio. —
Em dois minutos eles decolam.”
Bell
estava estranhamente calado, sem se mover, parado no meio da noite,
olhando para a Centauro e para Terra. Rhodan sabia o que se passava
em seu íntimo. Bell gostava de estar presente, quando se tratava de
pregar uma peça nos saltadores. Mas agora tinha que ficar na Terra.
Mais um
minuto.
— Se o
plano der certo — disse Crest, quebrando o silêncio — então a
Terra venceu mais de uma batalha.
— Esta é
a finalidade do nosso plano — concordou Rhodan.
Os
segundos voavam. Nada poderia agora interromper o rumo da história.
Ninguém o pretendia também.
— Agora
— disse Crest.
Sem ruído,
as duas colossais esferas espaciais se levantaram e penetraram no céu
escuro. Os refletores do espaçoporto as seguiram por uns instantes.
Depois as esferas reluzentes escaparam do alcance dos faróis e
mergulharam no grande nada.
Rhodan deu
um suspiro.
— É
isso, agora só nos resta aguardar. Esperamos que nossos cálculos
estejam exatos. Uma fração mínima de erro seria fatal.
Crest,
Thora e Mercant concordaram. Apenas Bell resmungou:
— Matemática
é meu lado fraco, quem sabe eu deveria ter seguido com eles.
— Para
estragar tudo? — disse-lhe Rhodan, sorrindo. — Não, é mesmo
melhor que você cometa seus erros de cálculo aqui.
Mas esta
brincadeira em nada melhorou o mau humor de Bell, que queria
descarregar sua fossa em Gucky, mas não o encontrou.
2
Depois que
a Centauro se materializou, após a transição, Deringhouse viu uma
coisa que lhe fez esquecer imediatamente a dor de cabeça causada
pela transição. Estava na cúpula de observação, próxima ao
equador da nave. O teto transparente dispensava qualquer tipo de tela
de vídeo. Dava a impressão de se estar pessoalmente no meio do
espaço.
A bombordo
surgia a nave gêmea, Terra.
Mas não
foi isto que impressionou tanto a Deringhouse, que aliás já
conhecia uma grande parte das Galáxias.
Foi a
estrela que estava diante das duas naves que avançavam com a
velocidade da luz.
Beta!
Como um
olho gigantesco alaranjado, a estrela flutuava no infinito do
Universo, a maior e a mais poderosa de todas as estrelas que
Deringhouse havia visto. Os outros sóis empalideceram perante o
brilho fosco do gigante. Parecia até que se envergonhavam devido às
suas ridículas claridades.
Era o sol
Beta, o gigante vermelho. Se o colocássemos em lugar do nosso sol,
suas protuberâncias chegariam até a órbita de Marte. Era menos
quente que o sol da Terra, porém suas dimensões inimagináveis
compensavam este fator.
Em volta
do sol Beta, gravitam quatorze planetas, cuja temperatura superficial
atinge cerca de dois mil e quinhentos graus centígrados. Quatorze
planetas, dos quais o terceiro deverá ocupar, falsamente, o lugar da
Terra.
Caso
Topthor não se lembre de outras coisas, de uma certamente não se
esquecerá: de que a Terra era o terceiro planeta do sistema solar.
Naturalmente, em pouco tempo perceberia seu erro, pois como poderia
um comerciante das Galáxias confundir Beta com o sol da Terra? —
assim explicava Rhodan, com um sorriso. — Mas então seria tarde
demais para corrigir o erro.
Um
sentimento de angústia se apoderou de Deringhouse, quando fitou o
gigantesco olho vermelho. Até então nunca tinha dado importância a
pressentimentos, mas desta vez parecia-lhe diferente. Talvez fosse
conseqüência da singularidade do plano, talvez também das
múltiplas incógnitas da equação; de qualquer modo, Deringhouse
tinha que reunir todas as forças para não sucumbir às suas
dúvidas.
De
qualquer maneira, estas dúvidas não adiantavam nada mesmo. Sentiu
um estremecimento e se levantou. Bem empertigado, deixou o
observatório e se dirigiu à central pela escada rolante, onde seu
primeiro-oficial, capitão Lamanche, já o esperava.
— Terminada
a última transição — anunciou o oficial mais idoso, repetindo
aliás o óbvio. — O objetivo está a dois dias-luz da Centauro.
— Obrigado
— disse Deringhouse e começou a olhar para a tela panorâmica.
Reproduzia com toda fidelidade o espaço em volta da nave, caso não
se ligasse para ampliação especial. Mas não era este o caso no
momento. — Está tudo normal?
— Perfeitamente,
Senhor.
McClears
aguarda suas diretrizes na Terra.
Deringhouse
sorriu satisfeito. Havia desaparecido sua incerteza.
— Ponha-me
em contato com ele — foi sua ordem calma.
Enquanto
esperava pelo aquecimento da tela do telecomunicador, tentou se
lembrar do que sabia a respeito do sistema solar que tinha à sua
frente. Não era muito. O terceiro planeta não era habitado, disso
não havia dúvida. Somente no quarto planeta é que devia haver vida
muito primitiva. Assim, pelo menos, dizia o catálogo sideral. A
superfície era em grande parte coberta de água, o que impedia a
evolução de uma raça verdadeiramente inteligente. Todas essas
afirmações estavam catalogadas.
No
entanto, tudo isso eram dados que poderiam estar certos, mas poderiam
também estar desatualizados. Ninguém tinha a menor idéia de quando
os arcônidas tinham descoberto o sistema Beta e quando o haviam
catalogado. Poderia ter sido já há séculos.
Major
McClears apareceu no vídeo.
— Aí
estamos — disse ele num tom firme, como se estivesse descobrindo um
novo Universo. — Que sol imenso, não acha?
— Gigantesco
— foi a resposta sucinta de Deringhouse. Sem o querer, seus olhos
pousaram na tela anexa, onde o olho vermelho cintilava, parecendo
observá-lo. — A gravitação deve ser fantástica.
— Nem
tanto, se mantivermos o distanciamento prescrito, Deringhouse. O
terceiro planeta está a alguns bilhões de quilômetros da
superfície da fotosfera.
— O
senhor não acha que nós deveríamos visitar antes o quarto planeta?
— Por
que razão?
— Porque
existe vida nele. Vida primitiva, mas vida.
McClears
deu uma olhada nos mapas.
— O
terceiro planeta está bem diante de nós, enquanto que o quarto está
atrás do sol. Seria uma volta muito grande e, além disso, foi o
terceiro planeta que nós...
— Está
certo, McClears, vamos combinar uma coisa: damos uma olhada no
terceiro planeta e depois vamos para o quarto. Gostaria de saber quem
vive em nossa vizinhança, para nos orientarmos quando os saltadores
atacarem o terceiro planeta.
— De
acordo, Deringhouse. Permaneçamos com velocidade inferior à da luz.
— Perfeitamente.
Não sou a favor de um salto, porque quero ver tudo com calma, quando
penetrarmos no sistema. Os saltadores acreditam encontrar aqui a
Terra. Quem sabe já chegaram antes de nós, e estão aí com suas
naves. Devemos ter muita cautela. Talvez nos devamos separar.
Os
saltadores, sabia Deringhouse, eram os maiores inimigos no caminho da
paz no Universo. A raça dos saltadores não devia ser classificada
como guerreira. Eram comerciantes muito egoístas e com uma
determinação exagerada de não permitir concorrência. Comerciavam
com tudo e com todos, mas só sob as condições que eles próprios
impusessem. Quem colocasse em risco seu monopólio seria afastado sem
o menor escrúpulo. Para isto existiam os superpesados, sua tropa de
assalto especial.
Mas aí
estava Perry Rhodan, para fazer a justiça. Considerava o comércio
pacífico e justo como uma garantia para a convivência das diversas
raças. Exatamente por esta concepção, se havia transformado em
adversário gratuito dos saltadores, que não tinham propriamente um
planeta como pátria, mas viviam por toda parte nas Galáxias.
A luta
duraria séculos. Com o truque de Rhodan, porém, devia terminar
logo. E então...
— Separar?
— perguntou McClears, interrompendo as divagações de Deringhouse.
— Por que isto? Será necessário?
— Por
minha causa, não. Permaneçamos então juntos — disse Deringhouse,
deixando-se convencer. — Diminuiremos a velocidade nas proximidades
do terceiro planeta, para observarmos um pouco. Depois iremos direto
para o quarto planeta, também para observá-lo. Já que temos de dar
a volta por Beta, sugiro que façamos duas transições curtas. As
coordenadas exatas, darei logo mais. Vamos ficar em contato,
McClears.
A tela
apagou, mas as duas centrais de rádio continuaram ligadas.
Deringhouse
virou-se para o capitão Lamanche:
— Manter
o curso. Vou para a cúpula de observação. Diga a Marshall que
quero falar com ele.
Lamanche
apertou o botão do intercomunicador.
Deringhouse
deixou a central de comando e cinco minutos depois entrou de novo na
cúpula de vidro. Embora não estivesse ligada nenhuma luz, o
aposento irradiava leve clarão avermelhado. Os planetas externos
estavam para trás da Centauro, no espaço infinito. Eram imensos
mundos de gelo, isolados e em eterno crepúsculo, gravitando em suas
órbitas, sem o menor sinal de vida.
O quinto
planeta estava mais para frente, a bombordo, um gigante de reflexos
avermelhados, duas vezes maior do que Júpiter. Análises espectrais
mostravam que já estava fora da zona com possibilidade de vida.
Deringhouse
sentou-se. Impressionado, estava ele de olhos fixos no vazio do
gigantesco sistema. Mesmo com a velocidade da luz, seriam gastas
semanas para atravessá-lo.
O sol Beta
estava se tornando maior, mas ainda a dias-luz de distância. Se
Deringhouse quisesse ser sincero, teria de confessar que a visão não
o decepcionou. Era mais ou menos assim a idéia que fazia do
gigantesco sol, quando ele, há muito tempo, o viu na constelação
de Orion, numa noite tranqüila de sua terra natural. Mesmo da
longínqua Terra, o olho vermelho cintilava, com cara de zangado e
ameaçador, através dos espaços infinitos. Durante séculos-luz
sempre exerceu uma grande atração sobre os espectadores. E o fato
de o sol Beta alterar irregularmente sua luminosidade, dava aos
espectadores a impressão de estar piscando, piscando através da
imensidão. Ninguém, porém, seria capaz de dizer se era uma
piscadela de simpatia, como acontece entre amigos, ou de ameaça, uma
piscadela de admoestação: Cuidado, vermezinho Terra!
Atrás de
Deringhouse, abriu-se uma porta.
— O
senhor quer falar comigo, major?
John
Marshall tinha entrado na cúpula.
Claro que
sua pergunta era supérflua, pois era telepata e sabia tudo que o
comandante queria. Mas sempre fazia esforço para que ninguém
percebesse seus dons.
Deringhouse
respondeu apenas sacudindo a cabeça, sem olhar para trás.
— Sente-se,
Marshall, aqui, por favor. O que sabe sobre o sistema Beta?
Marshall
sentou-se. Por alguns segundos, ficou contemplando o espaço vazio
entre os planetas. Depois, seu olhar se deteve no cintilante sol
gigantesco.
— O
sistema Beta será a grande encruzilhada da história da Humanidade —
murmurou pensativo. — Rhodan não poderia ter procurado outro
sistema solar tão apropriado para esse evento.
Deringhouse
não respondeu nada. Contemplava calado a estrela cujos raios
penetravam na cúpula, filtrados por grossos vidros, que os deixavam
inofensivos. O sol Beta tinha raios vermelhos e quentes, mas não
muito claros, para ofuscarem a vista.
— O
senhor não participa desta opinião? — perguntou o telepata,
embora já soubesse da resposta.
— Claro
— confirmou o major. — Penso como você. Mas o sistema Beta não
me parece simpático. Sua aparência me faz pensar em Marte e os
homens fizeram de Marte o deus da guerra.
— Certo,
major. Mas o senhor bem sabe que mais tarde se percebeu o engano.
Marte é um mundo pacífico, sem comparação nenhuma com este
inferno de fogo em nossa frente. Quem sabe sua aparência também
engana.
— Esperamos
que sim — respondeu Deringhouse, cuja voz não parecia muito
convicta.
Depois,
mudando de assunto, continuou:
— Por
que tanto cuidado com o sol Beta? Não pretendemos nada com ele, pois
nos interessa apenas o terceiro planeta.
Marshall
começou a sorrir sobre a maneira como seu superior imediato
procurava escapar de seus próprios pressentimentos.
— E o
quarto? — lembrou-o Marshall.
— Claro,
este de um modo especial. O catálogo dos arcônidas assinala vida
primitiva. Sua superfície deve ser noventa por cento água. Vamos
examinar um pouco o único continente, atravessar a cadeia de ilhas e
depois nos dirigiremos ao terceiro planeta, onde então esperamos
pelos saltadores. Aposto como este Topthor está crente que este é o
melhor momento para atacar a Terra. Mas vai ter uma surpresa...
— Esperemos
que não tenha mais tempo para esta surpresa — observou Marshall
com alguma dúvida. — Se perceber cedo demais que está diante de
uma Terra falsa, o plano de Rhodan cai por terra.
Deringhouse
sacudiu a cabeça.
— Daremos
um jeito de que ele esqueça.
* * *
Era um
mundo que lembrava muito Vênus.
Devagar e
a baixa altitude, os dois cruzadores percorriam a superfície do
terceiro planeta. Dois continentes nadavam num imenso mar primitivo,
recobertos de matas virgens bem cerradas, interrompidas raras vezes
por enormes planaltos. Picos de montanhas alcantiladas penetravam nas
nuvens que deslizavam a baixa altura. De permeio, havia amplos vales.
Parecia
mesmo inacreditável que não houvesse aqui uma vida dotada de
inteligência. Mas, por mais que procurassem, não encontraram o
menor vestígio.
É claro
que de lá de cima não se podia comprovar nada, mas uma coisa
parecia certa: não havia seres inteligentes no terceiro planeta.
Apareceu
na tela o rosto de McClears.
— Esta é
pois a Terra II — disse sem grande entusiasmo. — É pena,
realmente, pois daria para outra coisa.
— Você
pensa em fazer dela uma colônia? — perguntou Deringhouse. — Você
tem razão. Mas o plano de Rhodan é mais importante. Mais importante
do que a existência deste planeta.
McClears
pigarreou.
— Vocês
querem dar uma olhada no quarto planeta antes de descermos neste.
Acham que devo acompanhá-los ou que devo ficar por aqui esperando.
Deringhouse
fez uma pausa. Depois concordou:
— Quem
sabe é uma boa idéia nos separarmos agora. Em vinte horas, estarei
de volta, não preciso mais do que isto para dar uma olhada neste
“mundo d’água”. Assim que aparecer uma espaçonave dos
saltadores, encontramo-nos na Terra II e agiremos conforme as ordens.
Nossas centrais de rádio continuam ligadas.
McClears
respirou aliviado.
— Nesse
ínterim eu terei tempo para observar bem a Terra II — parecia que,
com estas palavras, pretendia consolar Deringhouse. — Assim que
estiver de volta, lhe farei um relatório completo. Acha necessário
prepararmos um ponto de apoio?
— Na
Terra II? — Deringhouse sacudiu a cabeça. — Não, não será
preciso. Quando os saltadores atacarem, não nos devem encontrar na
superfície do planeta. Seria muito perigoso — pensou uns instantes
a respeito. — Você pode mandar um aparelho de telerreconhecimento,
tipo Gazela, se quiser. Com a Terra, porém, é melhor ficar no
espaço. Você não é da mesma opinião?
McClears
aceitou a idéia.
Após uma
série de instruções, informações e conselhos, Deringhouse se
despediu e partiu com a Centauro para novo rumo. Rompeu a densa
camada de nuvem do terceiro planeta e desapareceu no espaço
infinito. A primeira transição levou a Centauro para um local, de
onde os dois planetas podiam ser vistos ao lado do sol gigantesco. À
direita, cintilava branca e resplandecente a camada de nuvens da
Terra II, ao passo que à esquerda o quarto planeta brilhava numa luz
azul-rosa, quase artificial. O planeta no espaço dava a impressão
de uma gota de água do mar, pairando no infinito.
Enquanto
que o cérebro de bordo calculava os dados para a segunda transição,
Deringhouse contemplava aquela estranha gota d’água. Ao seu lado
estava John Marshall, enquanto que o capitão Lamanche ocupava-se com
os controles.
— Tem
uma aparência maravilhosa — disse Marshall, lendo os pensamentos
do major.
Deringhouse
confirmou.
— Como
um diamante azul recebendo raios de luz avermelhada. Um espetáculo
magnífico. Planeta quatro do sistema Beta é uma expressão muito
vazia para tanta beleza, vamos chamá-lo de Aqua?
— O
planeta das águas... Por que não? O nome combina muito bem com ele.
— Portanto,
seu nome será Aqua — confirmou Deringhouse. — Estou curioso para
saber o que encontraremos nele.
— Provavelmente
água — chilreou uma voz aguda, meio tímida, do canto da central
de controle. Deringhouse virou-se lentamente e ficou olhando para o
lado escuro, aguardando que os olhos se adaptassem à escuridão.
John
Marshall deu um pulo para trás, como se uma cobra o tivesse mordido.
Agachado
no canto, estava Gucky, sorrindo meio acanhado, com o único dente
roedor à mostra, como que pedindo desculpas com seus suaves olhos
castanhos.
— Você?!...
— exclamou Deringhouse, quase caindo da poltrona.
— Eu
mesmo — confirmou Gucky, olhando para Marshall que ainda estava
parado, perplexo com a inesperada aparição. — Não se esqueça de
respirar, John, olha que o ser humano não agüenta mais do que três
minutos sem oxigênio... e seria pena se você...
Marshall
respirou profundamente.
— Como é
que você entrou aqui?
Gucky se
encostou, apoiando-se na parede. Notou que Marshall estava menos
tenso.
— Você
não vai acreditar, mas foi com a Centauro.
— Não
diga besteira, Gucky. Trouxe nove elementos do corpo de mutantes e
você não constava da lista.
— Que
nada, você trouxe dez — disse Gucky tentando uma desculpa
esfarrapada. — Naturalmente, Rhodan não sabe nada disso. Ficará
bobo quando souber.
Marshall
levantou-se devagar e caminhou para Gucky.
— Receio
que você ficará mais bobo ainda, meu caro. Por que tem sempre de
desobedecer às instruções? Você entrou clandestino a bordo,
quando foi isto?
— Clandestino,
não é bem o termo. Naturalmente, eu me teleportei de Terrânia para
cá. Mas somente agora é que tive coragem de me apresentar. Não
fique zangado comigo, John.
Marshall
ficou olhando para o criminoso, que o fitava suplicante com seus
olhos castanhos. O pêlo marrom-ferrugem estava liso, o que
demonstrava o ânimo pacato do rato-castor. Há muito que o dente
roedor estava escondido atrás dos beiços do focinho pontiagudo.
Gucky não
sorria mais e isto queria dizer muita coisa.
Marshall
fazia grande esforço para se manter sério.
— Você
tem que prestar contas a Rhodan, Gucky. Dele é que vai depender o
castigo pela sua desobediência. Eu não o posso nem prender, pois
como se pode deter um teleportador?
— É
verdade, já fiz esta pergunta a mim mesmo — chilreou Gucky com
simplicidade.
Marshall
respirava nervosamente.
Deringhouse
se levantou, dirigiu-se até a tela panorâmica, como se não
quisesse saber nada do assunto. O rato-castor pertencia ao corpo de
mutantes. Portanto o incidente com Gucky era da alçada de Marshall.
— Está
bem — murmurou o telepata. — Deixemos de lado o assunto, até que
Rhodan decida o que deve ser feito. Receio que você deva estar
preparado para alguma coisa desagradável.
— Se
puder ser útil aqui em alguma coisa, não será tão sério assim —
disse Gucky, parecendo já mais confiante. Andou um pouco para frente
e ao lado de Deringhouse ficou olhando a tela panorâmica. — Isto é
o quarto planeta? Que que há com ele?
— Nada
de especial. E o que poderia haver com ele? — disse Deringhouse,
virando-se para Gucky e o encarando com severidade.
O pobre
Gucky afastou-se assustado, dizendo:
— Foi
apenas uma idéia minha, porque você está olhando para ele de uma
tal maneira...
Chamava de
você a todos, sem distinção de hierarquia ou de idade. Isto talvez
proviesse do fato de que todos o chamavam de você, pois ninguém
ousaria chamar de senhor um rato-castor.
— Estou
raciocinando — corrigiu-o Deringhouse. — E espero o sinal para o
próximo salto. Será ainda permitido raciocinar?
Gucky se
levantou, olhou rapidamente para Marshall.
— Permitido
é sim, major. Mas, como a história da Humanidade comprova, já saiu
uma infinidade de besteira daí. Bobagens estas que eu teria muito
prazer em estudar, quando estava na Terra, para...
— Pare!
— gritou Deringhouse. — Com quem que você está aprendendo a
falar desta maneira? Com estas frases rebuscadas? Horrível...
— É
assim que fala Bell, quando quer se expressar com elegância —
defendeu-se o rato-castor. — Naturalmente me ensinou também outras
coisas, mas...
— É
verdade, já ouvi falar disso — murmurou Deringhouse e se
concentrou de novo na imagem da tela. — Bell não é um homem de
maneiras finas e nunca o será.
Por uns
instantes Gucky parecia meio desorientado, depois deixou à vista o
dente roedor e voltou para o canto da central. Fez uma grande curva
em tomo de Marshall. O telepata simulou compaixão e disse:
— Não
gostaria de estar na sua pele, quando Rhodan ficar a par de tudo,
Gucky. Acho que desta vez não será tão complacente como em Aralon.
|
— Se eu
conseguir salvar vocês todos da desgraça certa, haverá certamente
complacência — disse Gucky com voz mais pausada e mais grave,
estendendo-se no chão, como se quisesse dormir. — Aceito até
entrar calmamente numa situação de encrenca, aí então vocês
precisarão de mim.
Falou e
fechou os olhos.
Marshall
ficou olhando uns instantes para ele, depois voltou para sua poltrona
junto dos controles. Não reparou em Lamanche. O francês soube se
manter afastado do caso, sem se comprometer nem com um lado, nem com
o outro.
— Escute,
Deringhouse, não acha bom avisarmos Rhodan? Quem sabe estão
procurando Gucky e se preocupando demasiadamente com ele.
Do canto
ouviu-se um gemido. Deringhouse fez um sinal para Marshall.
— Preocupado?
Quem é que vai se preocupar com um rato-castor tão desobediente?
Aposto até que ninguém deu por falta de Gucky. Ninguém perceberá
a ausência dele.
Outro
ruído se fez ouvir do canto. Um pouco abafado, mas dava para se
escutar.
— É
verdade — continuou Deringhouse — ninguém sentirá falta dele.
Do seu
canto, Gucky ouvia tudo. Seu dente de roedor, porém, reluzia de
tanta vontade de lutar. Ergueu-se e se plantou diante de Deringhouse:
— Então,
ninguém vai sentir falta de mim? E você ainda quer apostar? Pois
bem, apostemos duas arrobas de cenoura e duas horas de coçar.
— Duas
horas de quê? — perguntou Deringhouse perplexo.
— Duas
horas de coçar. Simplesmente coçar, para aliviar a coceira. De
preferência na nuca — explicava o rato-castor alegre. — Posso
permitir o serviço até em prestações de meia hora. Bell cocou uma
vez durante cinco horas...
— Sim, é
verdade. Já ouvi falar nisso — interrompeu o major, passando a mão
pelos ralos cabelos. — Mas eu não caio nos seus truques. Aposte
com quem quiser, mas não comigo. Virou-se para Lamanche: — Então,
o que há? Pronto?
— As
coordenadas estão aí — disse o francês. — Podemos saltar.
Gucky
voltou ao seu canto. Em outra oportunidade, ele lembraria Deringhouse
da aposta.
* * *
Quando
voltaram do hiperespaço para a continuidade do tempo-espaço, o
planeta Aqua estava apenas a dois minutos-luz deles. O dispositivo de
retardamento diminuiu fortemente a velocidade da Centauro.
Deringhouse ligou o sistema manual, para manobrar melhor a nave.
O planeta
azul crescia a olhos vistos. Seu aspecto era de fato uma coisa nunca
vista. Parecia realmente uma imensa gota d’água pairando no
infinito, iluminada por um ciclópico feixe de luz avermelhada. O sol
Beta tinha agora, aparentemente, o mesmo tamanho do sol da Terra e
estava a muitos bilhões de quilômetros afastado. A luz precisava de
muitas horas para vencer aquela distância.
Deringhouse
apertou o botão do intercomunicador e fez a ligação com o
laboratório de bordo.
— Meier,
aqui é a central. Providencie, durante o vôo, a mais completa
análise do corpo celeste que temos em frente. Necessito da
composição da atmosfera, dados sobre a rotação, sobre a
translação e naturalmente sobre as estações do ano, dependentes
da translação. Apresente-me os resultados, o mais rápido possível.
— Entendido,
comandante — foi a resposta.
Deringhouse
desligou e se dirigiu a Marshall:
— Estou
curioso sobre o que haveremos de descobrir.
O telepata
respondeu com um pequeno gesto.
— Não
compreendo bem seu interesse neste planeta, major. O senhor é o
comandante e eu não gostaria de me intrometer em seus assuntos. Mas,
se me permitir uma pergunta: qual é a razão do grande interesse seu
por este planeta, o quarto, se nossa missão consiste em fazer com
que os saltadores destruam o terceiro?
— Talvez
seja mesmo pura curiosidade — respondeu Deringhouse. — Mas meu
pensamento principal é a segurança. Neste sistema, entram em
questão, para seres inteligentes, apenas dois planetas: o terceiro e
o quarto. Se o terceiro está destinado à destruição, queria
apenas saber se o quarto se presta para ulteriores operações. Isso,
você compreende, Marshall. Além disso, a nossa segurança exige que
estejamos informados sobre as condições neste sistema, com
exatidão. Acho que posso me responsabilizar pelo pequeno atraso. Não
perdemos nada. Se os saltadores surgirem, receberemos imediatamente o
chamado de McClears.
O telepata
constatou que Deringhouse falou exatamente o que pensava.
— Concordo
com o senhor, major. Tem também a intenção de aterrissar em Aqua?
— Depende
das circunstâncias. Se puder contar como encontrar vida inteligente,
tentarei naturalmente contatos...
Ouviu-se
um zunido:
— Desculpe,
é do laboratório — disse Deringhouse interrompendo a conversa com
Marshall.
Logo a
seguir, apertou um botão e se apresentou:
— Aqui é
a central.
— Aqui
Meier, do laboratório. Os dados já existentes: o quarto planeta tem
um dia de quarenta e oito horas. A translação em torno do sol Beta
leva duzentos e setenta anos da Terra. A variação das estações do
ano é, portanto, muito lenta e mesmo insignificante, pois quase não
existe eclíptica. Atmosfera, respirável, um tanto pobre em
oxigênio, rica em vapor. Um trecho de terra firme mais ou menos nas
dimensões da Europa, forma o único continente, além de uma série
de ilhas menores. O resto da superfície é de água. O mar não é
muito fundo. É isto o que temos até o momento.
— Obrigado,
Meier.
Deringhouse
permaneceu calado por uns instantes, olhando para a tela. O planeta
azul já estava bem grande, enchendo quase todo o campo visual da
tela. Ao brilho dos raios avermelhados do sol, destacavam-se os
contornos do único trecho de terra, perdido na imensidão das águas.
Se lá existissem seres inteligentes, deveriam viver principalmente
do mar e dos seus produtos. Navegação marítima só poderia existir
em pequena escala, pois, por que razão se iria atravessar o mar, se
não havia outras praias? Uma espécie de civilização,
completamente diferente, ter-se-ia desenvolvido aqui. Deringhouse
estava ansioso para conhecê-la.
— Procuremos
no continente um bom local para aterrissar — resolveu ele,
finalmente. — Os habitantes do planeta não devem conhecer a
navegação aérea.
— Quem?
Habitantes? — perguntou Marshall, acentuadamente.
Não
obteve resposta.
A Centauro
deu uma volta em torno do planeta. Passou bem próxima do deserto
azul das águas e se aproximou depois do litoral do continente. Os
grupos de pequenas ilhas não demonstravam nenhum indício de
civilização. Cobertas de densas florestas, lembravam as ilhas
paradisíacas dos Mares do Sul. Enseadas de areia eram um convite
para o repouso, mas Deringhouse não tinha em mente tirar férias. O
que procurava eram seres inteligentes diferentes, e Aqua tinha que
ter vida.
A primeira
visão que prendeu a atenção de Deringhouse foi uma construção
baixa, com cúpulas, nas imediações do litoral, a menos de dois
quilômetros da praia. A água devia ser muito rasa neste trecho,
pois se podia ver facilmente o fundo. A cúpula, na sua parte
superior se elevava para fora d’água, tinha uma plataforma e um
corrimão. Como vigias, as janelas se enfileiravam em redor do
edifício, cuja parte inferior estava imersa na água e certamente
iria até o fundo do mar.
A Centauro
diminuiu a velocidade. Deringhouse dirigia com o olhar fixo no
acontecimento. John Marshall chegou até ele, olhando também para a
cúpula. Lamanche, como de hábito, ficou alheio ao que se passava.
Sua preocupação eram os controles e realmente ele cuidava que o
pesado cruzador seguisse sua rota.
— Considerável
desenvolvimento — disse o telepata. — Gostaria de saber por que
construíram aquilo na água, quando têm tanto espaço em chão
firme.
Deringhouse
continuava olhando para o litoral, já bem próximo.
— Você
tem razão. Não se vê nada semelhante em terra. Eu esperaria, no
mínimo, uma cidade por aqui, mas vejo só mata virgem, litoral
arenoso e em parte cheio de rochas. Misterioso, verdadeiramente
misterioso.
A cúpula
ficou para trás, ao atingirem o litoral. Foram penetrando uns
quilômetros. A seus pés, terra jamais tocada por ser inteligente,
sem nenhum vestígio de trabalho que denotasse inteligência; o
terreno subia brandamente, apresentava cadeias de montanha de pequeno
porte, grandes estepes e florestas a perder de vista. De uma
civilização, não se podia falar.
“É
uma coisa singular”,
pensava Deringhouse, fitando o continente. “O
planeta só tem este continente e a gente supõe que os habitantes
teriam que aproveitar cada metro quadrado. Devia haver lá embaixo um
emaranhado de casas e instalações, como em nossas capitais. E o que
vemos? Nada, absolutamente nada. Onde estão os homens?”
— Se não
tivéssemos visto a cúpula, eu diria que não há nada por aqui —
disse Marshall sarcástico.
— Mas a
cúpula está aí. Existe vida em Aqua e nós temos que encontrar.
Com esta
constatação, apoiou-se no espaldar da poltrona, parecendo
completamente alheio ao que se passava ao redor dele. Marshall acenou
amigavelmente para Lamanche e deixou a central, seguido por Gucky que
lhe estava lendo os pensamentos. Marshall se dirigiu diretamente para
o local da nave onde estavam reunidos os dez mutantes.
Mal havia
fechado a porta da central, Deringhouse despertou de sua profunda
meditação. Avançou um pouco mais para frente e postou-se diante da
tela panorâmica, dizendo a seu oficial:
— Qual é
sua opinião, Lamanche?
O francês
alteou os ombros, esperou um pouco e falou:
— Não
sabemos o que representa aquela cúpula. Quem sabe se trata até de
uma espaçonave derrubada? Devemos examiná-la, aproximando-nos.
Assim se confirmaria minha tese de que não há vida inteligente por
aqui.
Deringhouse
não parecia de maneira alguma satisfeito com esta resposta.
— Espaçonave
derrubada ou caída. Puxa, a cúpula é um edifício, está firme no
chão! A minha pergunta é apenas, por quê? — parou de repente.
Lamanche
levantou os olhos e acompanhou o olhar do comandante.
Na tela,
ainda se via nitidamente a superfície do quarto planeta. Aos poucos,
as cores se tornavam mais naturais.
E Lamanche
viu também, nas bordas do grande planalto, as pequenas saliências,
em forma de cúpulas. Estas saliências tinham um reflexo avermelhado
com os raios do sol, fulgiam como se fossem de metal. Não somente
seu aspecto, mas também sua disposição simétrica denunciavam sua
origem artificial.
No mesmo
instante, a Centauro começou a aterrissar.
* * *
Na reunião
dos mutantes houve um grande grito de surpresa, quando Marshall
entrou acompanhado de Gucky.
— Que
surpresa agradável! — exclamou Ras Tschubai, o africano
teleportador, todo contente. — Você é a arma secreta nesta
missão?
— Nada
de arma secreta — murmurou Marshall — o malandro penetrou
clandestinamente a bordo, contra ordem expressa de Rhodan.
O africano
fez uma cara de espanto:
— Então,
Gucky, eu não quero estar na sua pele.
— Ele
não tem um pêlo grosso e lindo — disse a jovem Betty Toufry,
inclinando-se, para coçar sua nuca.
Gucky
estava feliz. Aliás, gostava muito da jovem telepata, cujas
faculdades paranormais eram muito semelhantes às suas, pois Betty
era também telecineta.
— Rhodan
vai desculpar você, Gucky, não se preocupe — comentou Betty.
— Se
você der uma palavra a meu favor, com toda certeza — disse Gucky,
parecendo mais confiante.
O
perscrutador japonês Doitsu Ataka sacudiu a cabeça.
— Disciplina
é isto: fazer somente o que o chefe manda. Agora, para mim está
bem. A vida não será mais tão monótona, pois Gucky sempre inventa
umas gozações.
Marshall
lançou um olhar de desaprovação para o japonês. O rapaz falou de
disciplina e foi o primeiro a quebrá-la. Mas Gucky aproveitou a
situação a seu favor.
— Você
tem razão, Ataka — disse ele contente. — Quem é que sabe até
quando estaremos vivos? Por que não podemos estar alegres? Rhodan
quer que nós todos morramos, naturalmente só aparentemente.
Portanto, vamos morrer, pelo menos, alegres. Proponho um torneio de
coçar e me apresento como voluntário para...
Marshall
achou conveniente mudar de assunto.
— Prestem
bem atenção ao que vou dizer — disse ele, cortando todo sorriso.
— Acabamos de descobrir, neste quarto planeta, que o comandante
apelidou de Aqua, os primeiros indícios de vida inteligente. Vamos
aterrissar. Ninguém sabe o que vamos encontrar, uma coisa está fora
de dúvida: isto não tem nada que ver com nossa missão verdadeira.
Foi,
infelizmente, uma dedução falsa, ilógica, mas Marshall só o
percebeu mais tarde, como os outros também.
No
momento, não lhes sobrou tempo para pensar.
O alarme
tocava por toda a nave. Por uns instantes, Marshall parecia
paralisado, como que ouvindo a si mesmo; depois, um estremecimento
percorreu todo seu corpo.
— Deringhouse,
que está acontecendo? Seus pensamentos são caóticos e confusos...
Ouviu-se
um zumbido estridente.
A tela do
intercomunicador, que liga entre si todas as seções da nave,
acendeu. Nela apareceu a imagem de Deringhouse, com fisionomia de
atônito e indeciso.
—Atenção
geral — disse com voz áspera. — Prontidão de emergência.
Ocupar todos os postos de defesa. Alguém está exercendo todos os
controles sobre a Centauro e nos está puxando para baixo. Estamos
aterrissando.
Fez uma
pausa, como se estivesse pensando, depois continuou:
— Marshall,
seus mutantes devem estar preparados. Talvez precisemos de seu
auxílio.
— Que
está se passando com a nave? — perguntou Marshall. Já
experimentou...?
— Inútil,
caímos sob a ação de poderosos raios de atração, que paralisaram
todos os nossos controles. Para lhe ser sincero, Marshall, não tenho
intenção de me defender contra os inimigos. Aguardemos, pois, para
saber o que pretendem de nós.
— Não
acha estranho, que uma raça, de cuja atividade não conseguimos ver
nada na superfície de Aqua, tenha desenvolvido meios técnicos tão
avançados de poder subjugar por forças mentais uma nave tão grande
como a Centauro?
Deringhouse
esboçou um leve sorriso.
— É
exatamente o que estou querendo descobrir. O que estamos presenciando
é paradoxal e impossível. Que existisse aqui neste mundo uma
civilização não me admiraria muito. Mas, deste jeito...?
Marshall
percebeu como o assoalho a seus pés estremeceu todo. Depois veio um
solavanco que quase o derrubou. Após o quê, reinou silêncio.
Deringhouse,
diante da tela, deu uma olhada para o lado, antes de se dirigir aos
que o viam.
— Já
aterrissamos — disse sem expressão na voz. — Encontramo-nos no
meio de um planalto rochoso. Estamos cercados por cúpulas de metal
cintilante. Mas não vejo armas. De homens ou outros seres vivos, não
há nenhum sinal. Devemos esperar até que os desconhecidos queiram
entrar em contato conosco. Pensem, porém, numa coisa: não estamos
indefesos, meus senhores. Ao menor vestígio de uma ação hostil do
lado oposto, nós nos defendemos sem consideração. Mas não seremos
os primeiros a iniciar a guerra. Sem o meu comando, não abriremos
fogo.
Marshall
ouviu como os postos de defesa estavam se preparando para se manterem
de prontidão. Deu algumas instruções aos mutantes e deixou o
aposento para se dirigir ao posto de comando, de onde se tinha uma
vista melhor. Em caso de emergência, podia-se dali mesmo comandar o
ataque dos mutantes.
Deringhouse
estava de pé diante da galeria panorâmica, observando toda a
circunferência da Centauro já ancorada. Lançou um rápido olhar
para Marshall, sem se perturbar em suas observações. Lamanche
estava sentado fora dos controles do envoltório energético, que
estavam desligados.
— Não
podem saber de onde viemos, embora possuam rastreadores estruturais —
disse Deringhouse meio incerto. — A Centauro e a Terra estão
equipadas com os compensadores correspondentes. Ninguém pode
localizar nossos hipersaltos. Esta arma me tranqüiliza.
— Apesar
disso, puxaram-nos do espaço — disse o telepata pensativo.
— Não
tem importância, Marshall. Confesso que no início estávamos
impotentes e tínhamos que nos submeter aos fatos, mas agora, creio
eu, já podemos bombardear suas instalações. Mas não vejo razão
para isto. Queremos saber primeiro como são e quem são eles.
Olhou
novamente para a tela, Marshall o acompanhava.
O pesado
cruzador estava parado num amplo planalto. A uma distância de
trezentos metros estava a primeira cúpula metálica, que escondia um
trecho da beira da floresta. No horizonte cintilavam os picos de
montanhas distantes, ao sol do meio-dia. A segunda cúpula estava
mais à direita, depois a terceira e a quarta. Formavam um círculo
em cujo centro estava a Centauro.
Lamanche
acordou de sua letargia.
— Uma
verdadeira cilada, uma teia de aranha invisível — dizia ele
acabrunhado.
— Estamos
presos, exatamente no foco dos raios de atração. Jamais teria
imaginado que estes fulanos chegariam a tanto. Por que não se
manifestam?
— Devem
ter seus motivos — respondeu o comandante. Estava de olhos fixos
num determinado ponto à margem da floresta. — Acho que nossa
curiosidade será satisfeita em pouco tempo. Lá vem uma viatura.
Os outros
dois homens também estavam olhando.
Das
sombras das árvores enormes, de conformação esquisita,
despregava-se uma coisa escura, rolando lentamente pela planície
afora. Deringhouse ligou o dispositivo de ampliação. Agora se via
mais nitidamente. Era uma espécie de carro blindado, embora sem a
torre de artilharia. Em compensação, a cúpula semi-esférica era
de um material diáfano. Carros deste tipo eram utilizados
freqüentemente para exploração de mundos desconhecidos,
principalmente quando a atmosfera pudesse ser nociva.
Atrás da
cúpula viam-se, com pouca nitidez, os contornos de algumas figuras.
A distância não permitia ver detalhes.
Deringhouse
virou-se para trás e olhou para Marshall.
— Nenhuma
novidade? Ainda não há impulsos de pensamentos?
— Sim,
mas muito insignificantes. Estão se protegendo, já tiveram que
lidar com telepatas. Talvez sejam também telepatas e conhecem as
medidas de segurança necessárias, para se protegerem das radiações
do cérebro.
Deringhouse
mexia na regulagem da ampliação da imagem e nada respondeu.
Notou-se nos seus olhos um brilho maior quando observava o carro se
aproximando. Queria dizer alguma coisa, mas acabou ficando calado.
Marshall reparou que as mãos do comandante tremiam.
— Gucky!...
— enviou sua ordem telepática. — Teleporte-se imediatamente para
a central.
O
pensamento ainda não tinha terminado, quando o ar estremeceu no meio
da central e do nada surgiu o rato-castor. Ouviu a ordem de Marshall
e veio no mesmo instante.
— Que
há? — chilreou ele, bem disposto como sempre.
— Estamos
entrando em contato com os estranhos, Gucky. Infelizmente estão
protegendo o pensamento. Temos que saber com quem estamos lidando.
Você podia...
— Se
posso!... — disse Gucky entusiasmado, mas continuou com um sorriso
malicioso: — não é verdade, você vai dizer uma palavrinha a meu
favor, quando o chefe...
— Isto é
suborno — disse Deringhouse, sem olhar para trás. — Mas está
bem, eu o defenderei, se você dentro de dez segundos me disser quem
é que se aproxima de nós naquela viatura. Talvez eu me engane, mas
os contornos daquelas figuras apagadas me parecem conhecidos...
Marshall
teve um calafrio.
— Conhecidos...
Meu Deus... Eu tive a mesma impressão com os impulsos dos
pensamentos. Será um acaso?
— Por
que discutir? — perguntou Gucky. — Tenho apenas cinco segundos.
Até logo...
Nova
cintilação no ar e o lugar onde estava Gucky ficou vazio.
Dois
segundos depois, já estava de volta. No seu semblante, lia-se grande
espanto. Com as orelhas de pé o pêlo eriçado, sentou-se nas patas
traseiras, apoiando-se na ampla cauda.
— Não,
uma coisa desta... — disse, soltando um longo suspiro. — Quem
teria pensado, como o mundo é pequeno, aliás, o mundo, não: como o
universo é pequeno!
— Mas o
que houve? — insistiu Deringhouse, já irritado, deixando de lado a
tela panorâmica. — Não nos deixe malucos, Gucky, como são eles?
— Fale
logo, Gucky — acudiu Marshall, que não podia mais se livrar de uma
sensação esquisita. Começou a suspeitar que estavam diante de uma
terrível surpresa. — Você os viu?
O
rato-castor fez que sim, vagarosamente.
— Materializei-me
no carro, no meio deles. Por motivo de precaução, mantive a
respiração, porque nunca se sabe se a atmosfera é apropriada para
nossos pulmões. Mas meus cuidados foram inúteis. Respiram o nosso
ar. E ficaram espantados quando me viram.
— Puxa
vida, Gucky! — gritou Deringhouse, com o rosto vermelho. — Quero
saber como parecem eles. São seres da água?
— Que
idéia maluca é esta? — perguntou Gucky, que não perdia a calma.
— Você acredita que peixes inteligentes montaram uma base
terrestre aqui? Já se ouviu besteira maior?
— Gucky
— disse Deringhouse, alteando a voz. — Você talvez não saiba
como é importante, mas eu lhe peço mais uma vez para responder
minha pergunta: como é que parecem os estranhos? E o que quer dizer
sua expressão: “o
Universo é tão pequeno”...?
— Vocês
não me vão acreditar, mas eles se parecem com os tópsidas. E se me
posso expressar mais claramente, sem decepcioná-los, gostaria de
jurar que são os tópsidas.
Para
Deringhouse e para Marshall foi como se uma mão gelada lhes
apertasse o pescoço. É verdade que já se haviam passado dez anos
desde que estes sáurios altamente desenvolvidos e muito inteligentes
tinham sido encontrados no sistema Vega. Mas as escaramuças com eles
ainda estavam bem impregnadas na memória dos dois homens. Os
tópsidas, de estatura mais ou menos idêntica à do homem, tinham
duas pernas e dois braços, geralmente utilizados como braços mesmo.
Os dedos das mãos eram seis, o corpo era coberto por uma camada de
escamas marrom-escuras. A cabeça era de um lagarto grande, com a
conformação característica dos sáurios; os olhos redondos, negros
e móveis pareciam ver tudo que acontecia num raio de 180 graus.
— Tópsidas!
— falou Deringhouse, respirando profundamente. Depois comentou: —
É só o que nos faltava. Estes miseráveis crocodilos devem estar
metidos em toda parte?
— Eles
dominam seu pequeno império sideral — disse Marshall, pensando
nervosamente. — Se não me engano, este império é em algum lugar
da Constelação de Orion, portanto aqui nesta região.
— Sim,
afastado da Terra por oitocentos anos-luz. É bem longe daqui.
— Nem
tanto assim — contradisse Marshall. — De qualquer maneira, está
na mesma direção. Não é, pois, de se estranhar que tenham uma
base por aqui.
— Num
mundo desabitado? Por que motivo?
Gucky
tinha ouvido a conversa de cabeça baixa, aparentemente sem maior
interesse. Mas chegou a hora de intervir:
— Por
que vocês estão quebrando a cabeça com isso? Perguntem diretamente
a eles, o que estão fazendo aqui. Olhem aí, já estão chegando.
Deringhouse
deu a volta para chegar à tela. A viatura com uma pequena cúpula já
estava parada a uns trinta metros da Centauro. Não havia dúvida de
que os sáurios já sabiam há mais tempo que se tratava de uma
belonave dos arcônidas. Quem sabe, esta circunstância poderia ser
aproveitada de uma maneira ou de outra.
A cúpula
da viatura se abriu e dela saíram três sáurios. Usavam uma espécie
de uniforme que lhes encobria parcialmente o corpo de escamas. Todos
traziam o radiador energético num coldre preso ao cinto. Davam a
impressão de arrogância. A julgar pelas aparências, a
superioridade estava com a tripulação da Centauro, mas Marshall
sabia muito bem que os tópsidas, por índole, não conheciam o medo.
E não conhecendo o medo, estavam acostumados a lutar até a última
gota de sangue, mesmo numa situação sem saída. O medo de um
ditador era maior que o da morte.
— Têm
nervos de aço — dizia Deringhouse, que havia conhecido os tópsidas
como comandante dos ágeis caças espaciais. — Colocam-se
simplesmente diante das bocas de nossos canhões e esperam para ver o
que vamos fazer. Poderíamos transformá-los em átomos.
— ...o
que não resultaria em vantagem para ninguém — permitiu-se
Lamanche observar.
— Querem
que eu os faça correr daqui? — ofereceu-se Gucky prontamente.
— Você
ficou maluco? — perguntou Deringhouse. — Quero saber o que
procuram aqui e o que querem de nós. Marshall, você vai me
acompanhar. Vamos dar uma olhada nos rapazes. Esperamos que entre
eles não haja ninguém que nos conheça.
— Não
há possibilidade disso. Para eles, nós parecemos todos iguais, como
eles para nós. Eu não conseguiria distinguir um do outro. Mas que
lhes vamos dizer quando nos perguntarem quem somos?
Deringhouse
deu as últimas instruções a Lamanche e se dirigiu para a porta com
Marshall.
— Não
podem, em hipótese alguma, saber que somos da Terra. Expliquemos a
eles que pertencemos a um ramo dos saltadores. Provavelmente haverão
de acreditar, embora os saltadores não costumem usar naves
esféricas. Acho bom assim, porque não são muito amigos dos
arcônidas e sabem que também os saltadores não se dão bem com os
arcônidas.
— Tenho
a impressão — dizia Gucky caminhando atrás dos dois homens — de
que aqui começa uma trama. Esperemos para ver.
Lamanche
ficou olhando para eles.
— Se
correr tudo bem, Jean — disse ele para si mesmo — vou devorar
três robôs de combate no almoço. Sem mostarda.
Ao que
Gucky, virando-se na porta, acrescentou:
— Sem
mostarda, esta é a condição.
3
Quando a
escotilha da saída principal da Centauro se abriu, a mais de
cinqüenta metros do solo, John Marshall percebeu um ruído
desagradável no lado de trás.
A escada
rolante, brilhando como prata, estirou-se da escotilha para o chão
lá embaixo. Deringhouse apalpou a coronha da arma, para ver se não
estava presa. Depois subiu no degrau superior, que imediatamente
começou a movimentar-se para baixo.
Marshall o
seguiu.
Os três
sáurios estavam imóveis diante da gigantesca nave, esperando,
convencidos de sua força. Para eles eram dois prisioneiros, e seus
olhos negros e redondos eram um misto de expectativa e de malícia. A
aparência dos dois homens parece que não os surpreendeu.
Marshall
se lembrou do que acontecera outrora no sistema Vega. Lá, pela
primeira vez, os terranos se defrontaram com a raça dos sáurios.
Rhodan conseguiu tirar deles a grande belonave arcônida Stardust
III. Por fim, conseguiram expulsar os tópsidas, reinando depois a
calma.
E agora se
defrontam novamente, aliás de maneira bem diversa, pelo menos
conforme os planos de Deringhouse.
As mãos
dos tópsidas, verdadeiras garras, já empunhavam as armas. Marshall
penetrou-lhes o pensamento e não achou nada, a não ser curiosidade
misturada com grande atenção. Estavam muito seguros de si.
Quando
Deringhouse saltou da escada rolante e se encaminhou para os três
sáurios, a tensão entre os homens e os tópsidas parecia uma
muralha invisível. O major parou a dez metros deles, sempre com a
mão direita na coronha de sua pistola energética. Nos lábios, um
leve sorriso. Conhecia bem a mentalidade dos sáurios, para não
duvidar de qualquer emboscada.
Marshall
se mantinha a alguns passos atrás de Deringhouse, tentando decifrar
os pensamentos do adversário e ver suas intenções. O resultado era
mínimo.
Antes que
os dois terranos pudessem dizer uma palavra, falou o tópsida em puro
intercosmo:
— Os
senhores se encontram em território de nossa soberania e serão
portanto solicitados a ficar sujeitos às nossas ordens. Não lhes
acontecerá nada, se não quiserem resistir. Quem são os senhores?
Deringhouse
não aparentou a menor surpresa.
— Não
tínhamos nenhuma intenção de descer em seu território, fomos
forçados a Isto. Sou um saltador, da estirpe de Gatzel.
O tópsida
fez um sinal com a cabeça.
— É o
que estávamos pensando, estranho. Sua aeronave, no entanto, é de
origem arcônida. Conhecemos bem este tipo.
— Tem
razão — respondeu Deringhouse, com um sorriso calmo. — Tipo
cruzador pesado. Nós o tomamos dos arcônidas, por ocasião de um
ataque. O senhor tem alguma objeção a fazer?
O tópsida
começou a sorrir, mas não com espontaneidade.
— Não,
contra isto não temos absolutamente nada. Os arcônidas não podem
ser considerados nossos amigos. Que pretendem os senhores neste
sistema? Não há nada para se comerciar, e quando houver, nós
mesmos o faremos.
Deringhouse
ergueu os ombros.
— Estávamos
em vôo de rotina, quando descobrimos este mundo. Quem sabe teria
vida, pensávamos nós e começamos a examiná-lo. Não achamos nada,
a não ser estas misteriosas cúpulas.
— Pertencem
ao nosso sistema de proteção — explicou o tópsida. — O planeta
das águas foi por nós descoberto há muitos anos e nós o ocupamos.
Serve-nos de base.
— Pelo
menos até que alguém se mexa, tudo estará em ordem — disse
Deringhouse com um pouco de cautela. — E já que parece não
existir nativos por aqui...
O tópsida
continuava sorrindo.
— Existem
alguns. Aceitaram o nosso domínio.
Houve uma
curta pausa, depois:
— Não
lhes sobrou outra alternativa. Deringhouse não conseguiu ocultar por
mais tempo sua admiração.
— Nativos?
Neste mundo? Não vimos nada disto durante nosso vôo.
— Os
senhores não têm, certamente, os instrumentos necessários para
observar a vida sob a água.
Na mesma
hora, Deringhouse e Marshall compreenderam tudo. É claro que num
mundo como este, seres inteligentes teriam que se desenvolver na
água. E se os tópsidas julgaram conveniente estabelecer uma base
neste planeta, devia se tratar de um ser vivo que merecesse mais
respeito.
Marshall
estava pensando na grande construção das cúpulas, feita a poucos
metros da praia. Seu formato não tinha relação nenhuma com as
instalações habituais dos tópsidas. Certamente haviam sido
construídas na água, para que os habitantes do mar entrassem em
contato com seus senhores.
Aos
poucos, foi se projetando uma imagem mais clara na mente de Marshall.
— Meu
nome é Al-Khor — disse o tópsida do meio. — Sou comandante da
base nesta parte do continente. Posso lhes pedir o favor de deporem
as armas? Não gostaria que, por um motivo qualquer, surgisse um
conflito entre nós e os saltadores. Assim que eu liberar sua nave,
receberão de volta suas armas.
Deringhouse
hesitou um pouco. Uma multidão de idéias passou por sua cabeça,
sem que conseguisse colocá-las em ordem. Como a pedir socorro, deu
uma olhada para Marshall. O telepata fez sinal que sim. Sabia já há
muito que os tópsidas realmente faziam questão de não pôr em
risco a paz existente entre eles e os saltadores.
— Está
certo — respondeu Deringhouse, retirando a pistola energética da
cintura. — Queremos nos submeter às suas ordens.
Um dos
sáurios apanhou a arma com as garras pontudas e a ficou olhando com
interesse. Marshall também entregou as armas.
— Como
compensação — propôs Deringhouse — dê-nos a garantia de que o
senhor não nos deterá contra nossa vontade e nos autorize a
qualquer momento a pedirmos as armas de volta e deixarmos este
planeta.
Al-Khor
continuava sorrindo.
— É
claro que lhes damos a garantia, com todo prazer. Ninguém vai
impedi-los de usufruírem de nossa hospitalidade, se não nos
quiserem dar este prazer. Mas antes, creio eu, devemos conversar um
pouco. Certamente o senhor terá alguma coisa para nos contar. E a
vida, creia-me o senhor, numa base tão solitária como o “mundo
d’água”
é muito monótona. Venha, por favor.
— E a
minha tripulação? Não gostaria que uma ação impensada deles...
— Não
nos opomos a que o senhor dê instruções à sua tripulação —
interrompeu Al-Khor. — Dê-lhes o conselho de não abandonarem a
nave e de não tomarem nenhuma iniciativa.
Deringhouse
aceitou a idéia e ligou o minitransmissor de pulso.
— Lamanche
— disse ele em inglês — estamos aceitando, na aparência, as
condições dos tópsidas. Ponha-se em contato com McClears. Ele deve
vir para cá e aguardar novas ordens. Por enquanto não existe perigo
iminente. Fim.
— Entendido
— foi a resposta curta. Al-Khor comprimiu desconfiado os olhos
redondos:
— Por
que não falam intercosmo?
— Meu
substituto é muito jovem, Al-Khor, só entende o dialeto de minha
estirpe. Disse a ele que ficasse tranqüilo e esperasse a nossa
volta.
O tópsida
parecia contente. Com a mão estendida, num sinal de convite, indicou
a porta aberta da viatura de cúpula e deu a preferência para seus
hóspedes não voluntários.
Ainda com
o carro em movimento, Marshall fez contato com Gucky e lhe transmitiu
o plano de Deringhouse, que tinha acabado de ler telepaticamente.

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