quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-048 - O Olho Vermelho do Sistema Beta - ClarK Darlton [parte 1]


Autor
CLARK DARLTON


Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES


Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Um adversário muito antigo, já quase esquecido, surge novamente. E Gucky fez questão de ver os lagartos voarem.

História da Terceira Potência em poucas palavras:

O foguete Stardust alcança a Lua e Perry Rhodan descobre a nave exploradora dos arcônidas, que realizou um pouso de emergência (vol. 1).
Instalação da Terceira Potência contra a resistência das grandes potências terrenas e defesa contra tentativas de invasão extraterrena (vols. 2 a 9).
Primeira intervenção da Terceira Potência nos acontecimentos galácticos. Perry Rhodan defronta-se com os tópsidas e procura solucionar o enigma galático (vols. 10 a 18).
A Stardust-III descobre o planeta Peregrino e Perry Rhodan alcança a imortalidade relativa (vol. 19).
Perry Rhodan regressa à Terra e luta por Vênus (vols. 20 a 24).
O Supercrânio ataca (vols. 25 a 27).
Chegada dos saltadores, que pretendem eliminar a concorrência potencial da Terra no comércio galático (vols. 28 a 37).
Primeiro contato de Perry Rhodan com Árcon e atuação como delegado do cérebro positrônico que exerce o governo no grupo estelar M-13 (vols. 38 a 42).

Para dar mais impressão de verdadeira Terra, Rhodan mandara seus dois cruzadores, Centauro e Terra, para se estabelecerem no planeta Três, se defenderem dos ataques, simulando que aquele planeta era realmente a invejada Terra dos homens.
Porém o planeta Quatro já estava ocupado pelos tópsidas, os quais...





= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Administrador da Terra e chefe da Terceira Potência.

Gucky — Contra ordem expressa de Rhodan, embarca clandestino, levado pela convicção do grande perigo, acaba salvando a situação.

Al-Khor — Comandante dos tópsidas, não crê em assombrações.

Major Deringhouse — Comandante do cruzador Centauro e chefe geral da expedição cuja finalidade é apresentar um planeta de Beta como sendo a nossa Terra, para desviar o ataque dos imperialistas saltadores.

Major McClears — Comandante do cruzador Terra.

Wor-Lök — Por medo do ditador é assassinado em pleno Conselho de Guerra.
1



Além dos dois arcônidas Crest e Thora, do rato-castor Gucky e dos próprios terranos, não havia ninguém, no Universo inteiro, que pudesse saber a posição do planeta Terra, com exceção de duas criaturas.
A primeira chamava-se Topthor. Era um comerciante das Galáxias da estirpe dos Superpesados, 1,60 m de altura e o mesmo tanto de largura, pele esverdeada e senhor absoluto de uma respeitável frota de espaçonaves.
A segunda era o cérebro positrônico, instalado na nau capitania do próprio Topthor, na mesma espaçonave com a qual tentara atacar a Terra, há meses atrás, ao descobri-la casualmente. Porém, nem o computador positrônico, nem Topthor, sabiam que os mutantes de Perry Rhodan haviam alterado completamente a programação dos dados, no setor de alimentação do computador.
Conforme esta alteração, passou a ser registrado como Terra o terceiro planeta do gigantesco sol Beta, 272 anos-luz do nosso sistema solar.
Uma alteração que provocaria um lamentável engano — lamentável para dois grandes povos das Galáxias — embora seu grande adversário, um terrano com o nome de Perry Rhodan, juntamente com seu pequeno planeta pátrio, ficariam excluídos dos dados lançados.
E era exatamente este o objetivo de Rhodan.
A Terra, isto é, a Humanidade, já estava evoluída e já havia realizado em seu planeta o que até então parecia mero sonho de idealistas.
A unificação da Terra num só governo não era mais utopia. Todos os povos da Terra tinham se unido, fronteiras e barreiras alfandegárias não mais existiam. O ministro das finanças da Terra, Homer G. Adams, introduziu um padrão monetário único, o chamado Solar, moeda de toda a Terra. As grandes nações e os pequenos estados de outrora tinham sua representação no Conselho Geral que se reunia periodicamente em Terrânia, capital do Mundo.
O fantasma da guerra era coisa do passado. O dinheiro colossal dispendido outrora com armamentos, servia agora para a construção de uma gigantesca frota espacial, dependente diretamente do governo mundial. Inicialmente, as unidades já existentes da frota eram comandadas pelos homens da Terceira Potência, um organismo estatal construído com o auxílio dos arcônidas.
Em Terrânia, situada no coração do deserto de Gobi, era grande a agitação. A megalópole, célula-mater da Terra unificada, aguardava com ansiedade o relatório de seu primeiro cidadão, que depois de uma ausência de seis meses, estava regressando ao planeta pátrio. Ninguém sabia o que havia sucedido neste meio ano, mas todos sabiam que a prolongada ausência de Perry Rhodan só podia ter sido causada por acontecimentos da maior gravidade.
O engenheiro-chefe Kowalski e o técnico de eletrônica Harper, haviam terminado o trabalho do dia e permaneciam sentados diante da televisão, em seu aposento coletivo, do qual compartilhavam ainda dois outros colegas, que faziam serão.
A tela mostrava o espaço. No fundo, estava a Via Láctea e, mais para frente, a sombra de uma espaçonave em forma de um torpedo. Uma única palavra indicava a estação que estava transmitindo: Terrânia.
Qualquer pessoa na Terra sabia que um grande acontecimento estava iminente. Certamente não havia ninguém que fosse perder esta transmissão. O governo mundial falaria a toda a população da Terra, provavelmente o próprio presidente — Perry Rhodan.
Acabou de chegar hoje — disse Kowalski, e Harper sabia de quem estava falando. Todo mundo vira a gigantesca esfera espacial quando descia. Uma nave, que a Terra nunca havia visto igual. Quilômetro e meio era o diâmetro do gigante do espaço. Com letras pretas, lia-se em sua fuselagem o nome: Titan.
Estou curioso para ouvir as novidades que nos traz.
Ele, Perry Rhodan, o homem que tinha unificado a Terra, e a transformado numa superpotência galáctica. Era, talvez, o único homem vivo que não tinha inimigos — pelo menos na Terra e entre os homens.
Lá fora, porém, no infinito do espaço...
Vamos ver — murmurou Harper, virando-se na poltrona. — De qualquer maneira, uma coisa não mudou ainda: as pausas na televisão. Parece que vai começar agora.
A cintilante Via Láctea desapareceu da tela, dando lugar ao rosto de um homem. Era o coronel Albrecht Klein, substituto de Rhodan. Durante a ausência do presidente, dirigia os negócios da Terceira Potência e do governo mundial, com o apoio decidido de Allan D. Mercant.
Amigos terranos!
O coronel Klein fez uma pausa muito enfática, olhando com um sorriso afável para a câmera, e portanto para quase dois bilhões de homens.
Perry Rhodan voltou de sua expedição ao espaço e vai informá-los dos acontecimentos mais importantes, sucintamente. Um relatório mais detalhado pode ser esperado para os próximos dias, de maneira que peço compreensão dos telespectadores, pelo fato de nosso presidente fazer apenas um resumo dos fatos. Passo assim a palavra a Perry Rhodan!
Coronel Klein se afastou com um sorriso e sua imagem desapareceu do vídeo.
Foi breve e indolor — observou Harper, olhando com interesse quando a câmera ainda apresentava a retirada de Klein e depois o ambiente onde já se encontravam os membros do Conselho do Governo, numa mesa em meia-lua.
Lá está ele.
Kowalski já havia visto Rhodan há mais tempo. O uniforme da Frota Espacial, bem talhado, salientava sua figura esbelta. Levantou-se com um leve sorriso, dirigindo-se ao estrado dos microfones. Apertou a mão do coronel Klein e ficou de pé diante da câmera, que levava a imagem por todas as partes da Terra, até mesmo para o menor povoado no centro da África. Centenas de tradutores convertiam suas palavras em todas as línguas da Terra, para as diversas regiões do mundo. Todos podiam compreendê-lo, embora falasse em inglês.
Terranos...
A voz de Rhodan soava um pouco cansada, embora seu sorriso fosse permanente. Em seus olhos castanhos parecia cintilar a perenidade do espaço infinito, que realmente se tornara sua segunda pátria. Mas esta perenidade não tinha o brilho de sempre; trazia laivos de preocupação no fundo de sua alma.
Nestes últimos seis meses, muita coisa mudou, tanto aqui na Terra como no espaço infinito. Vocês todos se lembrarão que iniciamos uma expedição para procurarmos o Império dos Arcônidas nas Galáxias, no conjunto sideral M-13, distante de nós trinta e quatro mil anos-luz. Encontramos Árcon, o sistema central, tivemos, porém uma amarga decepção. Há seis anos, os arcônidas foram substituídos por um cérebro positrônico de tamanho inimaginável, maior do que todo cérebro que existiu ou existe nas Galáxias.
Rhodan fez uma pausa curta, para dar ênfase a suas palavras. A câmera se afastou um pouco, fotografando agora os dois arcônidas Crest e Thora bem de perto. Harper assobiou baixinho, dizendo:
Que mulher fantástica, esta Thora, alta e esbelta. Os cabelos brancos e os olhos avermelhados não atrapalham nada. Não é propriamente bela, mas tem um encanto especial a que não posso resistir.
Rhodan apareceu de novo no vídeo.
Conseguimos tomar do Império a maior belonave até hoje construída no universo, a Titan. Atacado por inimigos externos, o cérebro positrônico se sentiu ameaçado, aliando-se a nós. Ajudamos o regente do Império Arcônida e granjeamos sua confiança, se é que se pode falar em confiança em se tratando de um cérebro robotizado. No decorrer das operações, se evidenciou cada vez mais que o grande Império e a nossa pequena Terra têm um inimigo comum, que deve ser tomado muito a sério, isto é, os saltadores. Vocês todos já ouviram falar nesta raça de humanóides, descendentes dos arcônidas. São também chamados de comerciantes das Galáxias. Foram eles que, há tempos, atacaram a Terra e foram rechaçados. O superpesado Topthor conhece a posição da Terra, ou pelo menos julga conhecer. Ele e o cérebro positrônico de sua nave.
Mas ainda existe alguém que gostaria de saber onde está a Terra: o gigantesco cérebro robotizado de Árcon. Terranos, nosso mundo não conhece inimigo mais perigoso do que este cérebro robotizado, que não suporta competir com outra potência. E a Terra está em vias de se tornar uma superpotência das Galáxias.”
Rhodan foi interrompido pelo aplauso geral dos delegados. Agradeceu-lhes, com um sinal de cabeça e continuou:
O cérebro positrônico de Árcon consiste de lógica fria e total ausência de compromissos. Não vê em nós a não ser um auxílio oportuno, que pode usar à vontade quando interessar a seus desígnios. A Terra, porém, não tem nenhum interesse em ser colônia de Árcon.
Irrompeu novo e vibrante aplauso. Harper e Kowalski batiam palmas com entusiasmo. A televisão exibia de novo Crest e Thora que evitavam qualquer manifestação de sentimento. Imóveis e calmos estavam eles em seus lugares. Nos olhos de Crest houve brilho breve, mas ninguém poderia dizer se era de indignação. Thora não deixava um momento de olhar para Rhodan. Seu olhar estava pregado em seus lábios, como que aguardando dele uma revelação.
Rhodan esperou até que se fizesse silêncio.
Volto a insistir na lógica fria do cérebro robotizado. Quando ele souber de nossa resolução, isto é, de não querermos mais continuar como seus criados, haverá de cair sobre nós, sem piedade e destruir-nos. Porém, não sabe onde se localiza o sistema solar no infinito do espaço... Ainda não sabe.
E Topthor não nos pode mais trair, porque nós alteramos os dados do computador eletrônico, alimentando-o com dados falsos. Se ele recorrer ao cérebro positrônico para saber da nossa posição, receberá a resposta de que a Terra é o terceiro planeta do grande sol Beta, em Orion, duzentos e setenta e dois anos-luz distante de nós.
Penso que os saltadores e talvez até mesmo o cérebro robotizado de Árcon destruam este terceiro planeta e acreditem piamente que destruíram a Terra. Conforme os catálogos dos arcônidas, este terceiro planeta é considerado inabitado, mas nós cuidaremos de fazer com que ninguém perceba isto. A Terra, oficialmente, deixará, pois, de existir. Só depois é que teremos tempo para construirmos nossa frota espacial, com calma, até que um dia possamos nos apresentar diante de Árcon de cabeça erguida e impor nossas condições. Não mais como povo dependente, mas, ao menos como nação soberana, de igual para igual.”
Novos aplausos, até mesmo por parte dos dois arcônidas, a quem era sumamente descabível que um robô dirigisse o grande Império. Harper comentou:
Que planos tem nosso Rhodan! Acho isto um pouco difícil. Mas compreendo que não há outra possibilidade. Portanto, desapareçamos de cena, até ficarmos mais fortes.
É fácil falar — respondeu Kowalski, olhando para o relógio. — Foi sucinto e não assustou ninguém, colocando-nos praticamente diante de fatos consumados. Estou curioso para ouvir o anunciado relatório. Serão verdadeiros romances de aventura. Seis meses no espaço não é brincadeira.
Não sabia como seu palpite estava perto da verdade. Harper ia responder, mas Rhodan continuou:
Terranos, expus-lhe, em poucas palavras, meu plano, para que compreendam mais tarde nosso modo de agir. Ainda esta semana, partirão dois dos nossos grandes cruzadores em direção a Orion para dar a um planeta não habitado a impressão de ser habitado. Temos que contar com o fato de o superpesado Topthor não demorar muito em destruir a odiada Terra. Que ele faça o que quiser.
Rhodan levantou a mão, cumprimentando. A imagem desapareceu, voltando o habitual sinal de Terrânia.
Kowalski se levantou, desligando o aparelho. Olhou para Harper.
Que diz de tudo isto? Não foi magnificamente planejado?
Não sei, não — respondeu Harper, meio duvidoso. — Num cálculo de aparência perfeita, sempre pode haver um pequeno engano. E está tudo acabado.
Bobagem! — Kowalski estava um tanto zangado. — Perry Rhodan não comete erro.
Harper abanou a cabeça e se levantou.
É possível, Kowalski, mas desta vez tenho a impressão de que está cometendo um. Permita Deus que eu esteja errado. Mas, uma coisa eu digo a você, caro amigo: se houver uma falha desta vez no cálculo, então... Deus nos acuda.
Kowalski não respondeu. Olhou calado para o amigo que desapareceu no outro aposento. Escutou ruído de talheres. Abriu-se uma garrafa.
O engenheiro-chefe da Polônia franziu a testa. O que poderia haver de errado no fato de os saltadores destruírem com sua frota um planeta desabitado, que julgavam ser a Terra, e isto a quase 300 anos-luz dali? O que poderia haver de errado em tudo isto?

* * *

Esta injustiça clama aos céus e eu vou apresentar minha queixa sobre estes fatos injustos.
A voz era muito estridente e o tom não apenas irritado, mas de veemente protesto. Porém não parecia exercer muita influência em Rhodan, pois sorria calmo, sossegando o interlocutor acariciando-lhe o pêlo da nuca.
Mas Gucky, por que tanta raiva assim? Você não merece realmente umas férias? Eu também fico por aqui.
Gucky continuava zangado. Estava ao lado da poltrona de Rhodan, de pé, com toda sua imponência, ostentando sua estatura de um metro e meio de altura. As orelhas compridas traíam uma audição acurada; o focinho longo e afunilado, um olfato fora do comum; o amplo traseiro com uma cauda volumosa espraiada em leque, demonstrava pouco entusiasmo para longas caminhadas. Gucky também não tinha necessidade disso. Era teleportador e podia se locomover para qualquer lugar sem o menor esforço. Podia também ler os pensamentos, era um grande telepata e, além de tudo, movia qualquer matéria à distância, graças à sua força mental, sem usar força física. Faculdade esta conhecida sob o nome de telecinese.
Gucky era realmente dotado de propriedades tão extraordinárias que quem o visse pela primeira vez não achava possível.
Está certo — disse ele meio zangado, deixando ver seu dente roedor, cuja ocupação predileta era roer cenouras. — Mas, dez mutantes voam para o espaço, só eu é que fico aqui.
Minha resolução está tomada — disse Rhodan, cortando qualquer tipo de argumentação, com certa energia.
Virando-se novamente para os homens que estavam reunidos, acompanhando com interesse o diálogo com Gucky, falou:
Major Deringhouse assume o comando da Centauro e major McClears o da Terra. Cada um dos cruzadores terá uma tripulação de quatrocentos homens e será equipado com compensadores estruturais. Ninguém poderá rastrear os hipersaltos. Além disso, dez membros do corpo de mutantes tomam parte na expedição. John Marshall é o seu chefe. Recebe de mim poderes absolutos. Apenas Deringhouse lhe dará ordens.
Ao lado de Rhodan estava um subordinado, homem espadaúdo, de cabelos vermelhos e hirsutos, de rosto largo. Nos seus olhos de um azul-claro pairava uma pergunta não expressa, quando, quase imperceptivelmente sacudiu a cabeça. Rhodan percebeu.
Que há, Bell? Alguma objeção?
Reginald Bell, o melhor amigo de Rhodan e seu íntimo confidente, antigo ministro da segurança da Terceira Potência, parecia um tanto desconcertado por ser interpelado assim à queima-roupa.
Não, está tudo claro. Queria apenas dar razão a Gucky.
O que quer dizer isto?
Acho injusto, quando exatamente nós é que sobramos. O que é que vamos fazer, quando a trezentos anos-luz daqui se decide a vida ou a morte da humanidade? Gucky é o melhor e eu... eu...
Oh... — e Rhodan começou a sorrir. — E você...?
Sou de qualquer maneira amigo de Gucky — foi tudo que Bell pôde alegar a seu favor.
Agachado em sua poltrona, Gucky esticou as orelhas e seus olhos brilhavam felizes.
Obrigado, velho companheiro de lutas, muito obrigado, não vou esquecer isso, mas tenho receio que nossos esforços sejam inúteis. O plano de combate está traçado. Desta vez não somos necessários.
Rhodan continuou sorrindo para ele.
Ainda bem que você compreendeu bem a situação, Gucky. As duas espaçonaves já estão prontas para decolar e vão iniciar o vôo para Beta ainda esta noite. Major Deringhouse, você conhece bem o plano. Juntamente com McClears você vai simular a defesa do terceiro planeta. Retire-se e desapareça, assim que o adversário tiver destruído totalmente o terceiro planeta. Somos obrigados a sacrificar este mundo, mas ele não possui vida inteligente. Os saltadores não demorarão a dar como completamente destruído o mundo dos homens. Até mesmo o cérebro robotizado de Árcon lhes será grato, do ponto de vista lógico. É pena, porque eu mesmo já estava me simpatizando com a cúpula de aço de Árcon.
Os dois cruzadores pesados eram naves esféricas de duzentos metros de diâmetro. Seus raios de ação eram praticamente ilimitados. Com saltos através do hiperespaço, podiam transpor distâncias inimagináveis na rapidez de segundos. Apenas a aferição positrônica das respectivas coordenadas consumia maior espaço de tempo que não estava, aliás, em proporção com a duração da viagem. O armamento consistia de radiadores de impulsos e de outros meios de destruição de proveniência arcônida. Poderosos envoltórios energéticos protegiam os cruzadores de qualquer ataque. Campos antigravitacionais neutralizavam quaisquer choques em manobras de frenagem, aterrissagem ou decolagem.
Crest pigarreou.
E o que acontece, então? — perguntou em voz baixa.
Rhodan o fitou por um instante:
Depois que a destruição da Terra for simulada, não é isto que quer dizer? Quem sabe precisamos então de anos e anos para atingirmos o objetivo, talvez um decênio. Mas com toda certeza, só podemos enfrentar Árcon novamente, quando não precisarmos mais nos esconder, ou seja, esconder a posição da Terra, de uma Terra que de repente começa a existir. Uma Terra que esteja em situação de impor condições ao cérebro robotizado de Árcon. Acho que isto é interessante para vocês, Crest e Thora.
Os dois arcônidas concordaram.
Bell começou a sorrir de uma hora para outra. Bateu nas costas de Gucky, deu uma piscadela para Rhodan e exclamou muito patético:
Com o nosso renascimento, algumas pessoas ficarão admiradas...

* * *

Rhodan, Bell, os dois arcônidas e Allan D. Mercant estavam à beira do espaçoporto quando as possantes esferas espaciais faziam a contagem regressiva. Os refletores inundavam o campo de aviação de uma claridade intensa. Mais ao longe, na outra extremidade do espaçoporto, a noite caía no deserto. Como imensa campânula, o céu envolvia os dois pesados cruzadores, incumbidos da mais extraordinária missão, que nave alguma jamais recebera. A história da humanidade é um rosário de guerras e missões de todos os tipos. Mas nunca um planeta foi dado como sendo a Terra, para ser destruído.
Mercant parecia mais jovem do que realmente era. Mas Rhodan pôde constatar que, nos últimos meses, o ex-chefe do Conselho Internacional de Defesa tinha envelhecido bastante. A tremenda responsabilidade que pesava em seus ombros consumia suas forças. Os cabelos louros em volta de sua careca central estavam bem grisalhos.
Lá vão eles e permita Deus que voltem logo! — exclamou em tom enfático, tendo o cuidado de não pisar um escaravelho que se arrastava pelo chão. Mercant, apesar de sua famosa rigidez no trabalho, ou talvez por este motivo, era um grande amigo dos animais. — Desta vez, felizmente, não vou ficar sozinho aqui na Terra.
Rhodan não perdia de vista as duas esferas cintilantes.
A Titan fica em permanente prontidão, Mercant — lembrou ele. — Assim que receber qualquer notícia alarmante de Deringhouse já estarei a caminho.
Mercant contraiu a fisionomia.
O que poderá acontecer de alarmante?
Você parece se esquecer de que nós não conhecemos o sistema Beta. Nossos dados se apóiam nos catálogos dos arcônidas. Pois bem, o terceiro planeta é um mundo de florestas virgens, onde talvez, só daqui a milhões de anos poderá existir vida. O que haverá, porém, no primeiro e no segundo planeta ou no quarto? Beta é um gigantesco sol avermelhado. Seu diâmetro é quatrocentas vezes maior que o do nosso sol. Eu até estranho muito que o terceiro planeta tenha mesmo ou deva ter vegetação.
Você é político, meu caro Mercant, não cientista. O tamanho do sol, nem mesmo sua irradiação de calor, não têm nenhuma importância, se os planetas estão bem afastados dele. As regiões de vida de um sistema dependem da proporção certa das distâncias e do calor irradiado ou respectivamente recebido. Teremos que aguardar que surpresas nos reserva esta segunda Terra — olhou para o relógio. — Em dois minutos eles decolam.”
Bell estava estranhamente calado, sem se mover, parado no meio da noite, olhando para a Centauro e para Terra. Rhodan sabia o que se passava em seu íntimo. Bell gostava de estar presente, quando se tratava de pregar uma peça nos saltadores. Mas agora tinha que ficar na Terra.
Mais um minuto.
Se o plano der certo — disse Crest, quebrando o silêncio — então a Terra venceu mais de uma batalha.
Esta é a finalidade do nosso plano — concordou Rhodan.
Os segundos voavam. Nada poderia agora interromper o rumo da história. Ninguém o pretendia também.
Agora — disse Crest.
Sem ruído, as duas colossais esferas espaciais se levantaram e penetraram no céu escuro. Os refletores do espaçoporto as seguiram por uns instantes. Depois as esferas reluzentes escaparam do alcance dos faróis e mergulharam no grande nada.
Rhodan deu um suspiro.
É isso, agora só nos resta aguardar. Esperamos que nossos cálculos estejam exatos. Uma fração mínima de erro seria fatal.
Crest, Thora e Mercant concordaram. Apenas Bell resmungou:
Matemática é meu lado fraco, quem sabe eu deveria ter seguido com eles.
Para estragar tudo? — disse-lhe Rhodan, sorrindo. — Não, é mesmo melhor que você cometa seus erros de cálculo aqui.
Mas esta brincadeira em nada melhorou o mau humor de Bell, que queria descarregar sua fossa em Gucky, mas não o encontrou.
2



Depois que a Centauro se materializou, após a transição, Deringhouse viu uma coisa que lhe fez esquecer imediatamente a dor de cabeça causada pela transição. Estava na cúpula de observação, próxima ao equador da nave. O teto transparente dispensava qualquer tipo de tela de vídeo. Dava a impressão de se estar pessoalmente no meio do espaço.
A bombordo surgia a nave gêmea, Terra.
Mas não foi isto que impressionou tanto a Deringhouse, que aliás já conhecia uma grande parte das Galáxias.
Foi a estrela que estava diante das duas naves que avançavam com a velocidade da luz.
Beta!
Como um olho gigantesco alaranjado, a estrela flutuava no infinito do Universo, a maior e a mais poderosa de todas as estrelas que Deringhouse havia visto. Os outros sóis empalideceram perante o brilho fosco do gigante. Parecia até que se envergonhavam devido às suas ridículas claridades.
Era o sol Beta, o gigante vermelho. Se o colocássemos em lugar do nosso sol, suas protuberâncias chegariam até a órbita de Marte. Era menos quente que o sol da Terra, porém suas dimensões inimagináveis compensavam este fator.
Em volta do sol Beta, gravitam quatorze planetas, cuja temperatura superficial atinge cerca de dois mil e quinhentos graus centígrados. Quatorze planetas, dos quais o terceiro deverá ocupar, falsamente, o lugar da Terra.
Caso Topthor não se lembre de outras coisas, de uma certamente não se esquecerá: de que a Terra era o terceiro planeta do sistema solar. Naturalmente, em pouco tempo perceberia seu erro, pois como poderia um comerciante das Galáxias confundir Beta com o sol da Terra? — assim explicava Rhodan, com um sorriso. — Mas então seria tarde demais para corrigir o erro.
Um sentimento de angústia se apoderou de Deringhouse, quando fitou o gigantesco olho vermelho. Até então nunca tinha dado importância a pressentimentos, mas desta vez parecia-lhe diferente. Talvez fosse conseqüência da singularidade do plano, talvez também das múltiplas incógnitas da equação; de qualquer modo, Deringhouse tinha que reunir todas as forças para não sucumbir às suas dúvidas.
De qualquer maneira, estas dúvidas não adiantavam nada mesmo. Sentiu um estremecimento e se levantou. Bem empertigado, deixou o observatório e se dirigiu à central pela escada rolante, onde seu primeiro-oficial, capitão Lamanche, já o esperava.
Terminada a última transição — anunciou o oficial mais idoso, repetindo aliás o óbvio. — O objetivo está a dois dias-luz da Centauro.
Obrigado — disse Deringhouse e começou a olhar para a tela panorâmica. Reproduzia com toda fidelidade o espaço em volta da nave, caso não se ligasse para ampliação especial. Mas não era este o caso no momento. — Está tudo normal?
Perfeitamente, Senhor.
McClears aguarda suas diretrizes na Terra.
Deringhouse sorriu satisfeito. Havia desaparecido sua incerteza.
Ponha-me em contato com ele — foi sua ordem calma.
Enquanto esperava pelo aquecimento da tela do telecomunicador, tentou se lembrar do que sabia a respeito do sistema solar que tinha à sua frente. Não era muito. O terceiro planeta não era habitado, disso não havia dúvida. Somente no quarto planeta é que devia haver vida muito primitiva. Assim, pelo menos, dizia o catálogo sideral. A superfície era em grande parte coberta de água, o que impedia a evolução de uma raça verdadeiramente inteligente. Todas essas afirmações estavam catalogadas.
No entanto, tudo isso eram dados que poderiam estar certos, mas poderiam também estar desatualizados. Ninguém tinha a menor idéia de quando os arcônidas tinham descoberto o sistema Beta e quando o haviam catalogado. Poderia ter sido já há séculos.
Major McClears apareceu no vídeo.
Aí estamos — disse ele num tom firme, como se estivesse descobrindo um novo Universo. — Que sol imenso, não acha?
Gigantesco — foi a resposta sucinta de Deringhouse. Sem o querer, seus olhos pousaram na tela anexa, onde o olho vermelho cintilava, parecendo observá-lo. — A gravitação deve ser fantástica.
Nem tanto, se mantivermos o distanciamento prescrito, Deringhouse. O terceiro planeta está a alguns bilhões de quilômetros da superfície da fotosfera.
O senhor não acha que nós deveríamos visitar antes o quarto planeta?
Por que razão?
Porque existe vida nele. Vida primitiva, mas vida.
McClears deu uma olhada nos mapas.
O terceiro planeta está bem diante de nós, enquanto que o quarto está atrás do sol. Seria uma volta muito grande e, além disso, foi o terceiro planeta que nós...
Está certo, McClears, vamos combinar uma coisa: damos uma olhada no terceiro planeta e depois vamos para o quarto. Gostaria de saber quem vive em nossa vizinhança, para nos orientarmos quando os saltadores atacarem o terceiro planeta.
De acordo, Deringhouse. Permaneçamos com velocidade inferior à da luz.
Perfeitamente. Não sou a favor de um salto, porque quero ver tudo com calma, quando penetrarmos no sistema. Os saltadores acreditam encontrar aqui a Terra. Quem sabe já chegaram antes de nós, e estão aí com suas naves. Devemos ter muita cautela. Talvez nos devamos separar.
Os saltadores, sabia Deringhouse, eram os maiores inimigos no caminho da paz no Universo. A raça dos saltadores não devia ser classificada como guerreira. Eram comerciantes muito egoístas e com uma determinação exagerada de não permitir concorrência. Comerciavam com tudo e com todos, mas só sob as condições que eles próprios impusessem. Quem colocasse em risco seu monopólio seria afastado sem o menor escrúpulo. Para isto existiam os superpesados, sua tropa de assalto especial.
Mas aí estava Perry Rhodan, para fazer a justiça. Considerava o comércio pacífico e justo como uma garantia para a convivência das diversas raças. Exatamente por esta concepção, se havia transformado em adversário gratuito dos saltadores, que não tinham propriamente um planeta como pátria, mas viviam por toda parte nas Galáxias.
A luta duraria séculos. Com o truque de Rhodan, porém, devia terminar logo. E então...
Separar? — perguntou McClears, interrompendo as divagações de Deringhouse. — Por que isto? Será necessário?
Por minha causa, não. Permaneçamos então juntos — disse Deringhouse, deixando-se convencer. — Diminuiremos a velocidade nas proximidades do terceiro planeta, para observarmos um pouco. Depois iremos direto para o quarto planeta, também para observá-lo. Já que temos de dar a volta por Beta, sugiro que façamos duas transições curtas. As coordenadas exatas, darei logo mais. Vamos ficar em contato, McClears.
A tela apagou, mas as duas centrais de rádio continuaram ligadas.
Deringhouse virou-se para o capitão Lamanche:
Manter o curso. Vou para a cúpula de observação. Diga a Marshall que quero falar com ele.
Lamanche apertou o botão do intercomunicador.
Deringhouse deixou a central de comando e cinco minutos depois entrou de novo na cúpula de vidro. Embora não estivesse ligada nenhuma luz, o aposento irradiava leve clarão avermelhado. Os planetas externos estavam para trás da Centauro, no espaço infinito. Eram imensos mundos de gelo, isolados e em eterno crepúsculo, gravitando em suas órbitas, sem o menor sinal de vida.
O quinto planeta estava mais para frente, a bombordo, um gigante de reflexos avermelhados, duas vezes maior do que Júpiter. Análises espectrais mostravam que já estava fora da zona com possibilidade de vida.
Deringhouse sentou-se. Impressionado, estava ele de olhos fixos no vazio do gigantesco sistema. Mesmo com a velocidade da luz, seriam gastas semanas para atravessá-lo.
O sol Beta estava se tornando maior, mas ainda a dias-luz de distância. Se Deringhouse quisesse ser sincero, teria de confessar que a visão não o decepcionou. Era mais ou menos assim a idéia que fazia do gigantesco sol, quando ele, há muito tempo, o viu na constelação de Orion, numa noite tranqüila de sua terra natural. Mesmo da longínqua Terra, o olho vermelho cintilava, com cara de zangado e ameaçador, através dos espaços infinitos. Durante séculos-luz sempre exerceu uma grande atração sobre os espectadores. E o fato de o sol Beta alterar irregularmente sua luminosidade, dava aos espectadores a impressão de estar piscando, piscando através da imensidão. Ninguém, porém, seria capaz de dizer se era uma piscadela de simpatia, como acontece entre amigos, ou de ameaça, uma piscadela de admoestação: Cuidado, vermezinho Terra!
Atrás de Deringhouse, abriu-se uma porta.
O senhor quer falar comigo, major?
John Marshall tinha entrado na cúpula.
Claro que sua pergunta era supérflua, pois era telepata e sabia tudo que o comandante queria. Mas sempre fazia esforço para que ninguém percebesse seus dons.
Deringhouse respondeu apenas sacudindo a cabeça, sem olhar para trás.
Sente-se, Marshall, aqui, por favor. O que sabe sobre o sistema Beta?
Marshall sentou-se. Por alguns segundos, ficou contemplando o espaço vazio entre os planetas. Depois, seu olhar se deteve no cintilante sol gigantesco.
O sistema Beta será a grande encruzilhada da história da Humanidade — murmurou pensativo. — Rhodan não poderia ter procurado outro sistema solar tão apropriado para esse evento.
Deringhouse não respondeu nada. Contemplava calado a estrela cujos raios penetravam na cúpula, filtrados por grossos vidros, que os deixavam inofensivos. O sol Beta tinha raios vermelhos e quentes, mas não muito claros, para ofuscarem a vista.
O senhor não participa desta opinião? — perguntou o telepata, embora já soubesse da resposta.
Claro — confirmou o major. — Penso como você. Mas o sistema Beta não me parece simpático. Sua aparência me faz pensar em Marte e os homens fizeram de Marte o deus da guerra.
Certo, major. Mas o senhor bem sabe que mais tarde se percebeu o engano. Marte é um mundo pacífico, sem comparação nenhuma com este inferno de fogo em nossa frente. Quem sabe sua aparência também engana.
Esperamos que sim — respondeu Deringhouse, cuja voz não parecia muito convicta.
Depois, mudando de assunto, continuou:
Por que tanto cuidado com o sol Beta? Não pretendemos nada com ele, pois nos interessa apenas o terceiro planeta.
Marshall começou a sorrir sobre a maneira como seu superior imediato procurava escapar de seus próprios pressentimentos.
E o quarto? — lembrou-o Marshall.
Claro, este de um modo especial. O catálogo dos arcônidas assinala vida primitiva. Sua superfície deve ser noventa por cento água. Vamos examinar um pouco o único continente, atravessar a cadeia de ilhas e depois nos dirigiremos ao terceiro planeta, onde então esperamos pelos saltadores. Aposto como este Topthor está crente que este é o melhor momento para atacar a Terra. Mas vai ter uma surpresa...
Esperemos que não tenha mais tempo para esta surpresa — observou Marshall com alguma dúvida. — Se perceber cedo demais que está diante de uma Terra falsa, o plano de Rhodan cai por terra.
Deringhouse sacudiu a cabeça.
Daremos um jeito de que ele esqueça.

* * *

Era um mundo que lembrava muito Vênus.
Devagar e a baixa altitude, os dois cruzadores percorriam a superfície do terceiro planeta. Dois continentes nadavam num imenso mar primitivo, recobertos de matas virgens bem cerradas, interrompidas raras vezes por enormes planaltos. Picos de montanhas alcantiladas penetravam nas nuvens que deslizavam a baixa altura. De permeio, havia amplos vales.
Parecia mesmo inacreditável que não houvesse aqui uma vida dotada de inteligência. Mas, por mais que procurassem, não encontraram o menor vestígio.
É claro que de lá de cima não se podia comprovar nada, mas uma coisa parecia certa: não havia seres inteligentes no terceiro planeta.
Apareceu na tela o rosto de McClears.
Esta é pois a Terra II — disse sem grande entusiasmo. — É pena, realmente, pois daria para outra coisa.
Você pensa em fazer dela uma colônia? — perguntou Deringhouse. — Você tem razão. Mas o plano de Rhodan é mais importante. Mais importante do que a existência deste planeta.
McClears pigarreou.
Vocês querem dar uma olhada no quarto planeta antes de descermos neste. Acham que devo acompanhá-los ou que devo ficar por aqui esperando.
Deringhouse fez uma pausa. Depois concordou:
Quem sabe é uma boa idéia nos separarmos agora. Em vinte horas, estarei de volta, não preciso mais do que isto para dar uma olhada neste “mundo d’água”. Assim que aparecer uma espaçonave dos saltadores, encontramo-nos na Terra II e agiremos conforme as ordens. Nossas centrais de rádio continuam ligadas.
McClears respirou aliviado.
Nesse ínterim eu terei tempo para observar bem a Terra II — parecia que, com estas palavras, pretendia consolar Deringhouse. — Assim que estiver de volta, lhe farei um relatório completo. Acha necessário prepararmos um ponto de apoio?
Na Terra II? — Deringhouse sacudiu a cabeça. — Não, não será preciso. Quando os saltadores atacarem, não nos devem encontrar na superfície do planeta. Seria muito perigoso — pensou uns instantes a respeito. — Você pode mandar um aparelho de telerreconhecimento, tipo Gazela, se quiser. Com a Terra, porém, é melhor ficar no espaço. Você não é da mesma opinião?
McClears aceitou a idéia.
Após uma série de instruções, informações e conselhos, Deringhouse se despediu e partiu com a Centauro para novo rumo. Rompeu a densa camada de nuvem do terceiro planeta e desapareceu no espaço infinito. A primeira transição levou a Centauro para um local, de onde os dois planetas podiam ser vistos ao lado do sol gigantesco. À direita, cintilava branca e resplandecente a camada de nuvens da Terra II, ao passo que à esquerda o quarto planeta brilhava numa luz azul-rosa, quase artificial. O planeta no espaço dava a impressão de uma gota de água do mar, pairando no infinito.
Enquanto que o cérebro de bordo calculava os dados para a segunda transição, Deringhouse contemplava aquela estranha gota d’água. Ao seu lado estava John Marshall, enquanto que o capitão Lamanche ocupava-se com os controles.
Tem uma aparência maravilhosa — disse Marshall, lendo os pensamentos do major.
Deringhouse confirmou.
Como um diamante azul recebendo raios de luz avermelhada. Um espetáculo magnífico. Planeta quatro do sistema Beta é uma expressão muito vazia para tanta beleza, vamos chamá-lo de Aqua?
O planeta das águas... Por que não? O nome combina muito bem com ele.
Portanto, seu nome será Aqua — confirmou Deringhouse. — Estou curioso para saber o que encontraremos nele.
Provavelmente água — chilreou uma voz aguda, meio tímida, do canto da central de controle. Deringhouse virou-se lentamente e ficou olhando para o lado escuro, aguardando que os olhos se adaptassem à escuridão.
John Marshall deu um pulo para trás, como se uma cobra o tivesse mordido.
Agachado no canto, estava Gucky, sorrindo meio acanhado, com o único dente roedor à mostra, como que pedindo desculpas com seus suaves olhos castanhos.
Você?!... — exclamou Deringhouse, quase caindo da poltrona.
Eu mesmo — confirmou Gucky, olhando para Marshall que ainda estava parado, perplexo com a inesperada aparição. — Não se esqueça de respirar, John, olha que o ser humano não agüenta mais do que três minutos sem oxigênio... e seria pena se você...
Marshall respirou profundamente.
Como é que você entrou aqui?
Gucky se encostou, apoiando-se na parede. Notou que Marshall estava menos tenso.
Você não vai acreditar, mas foi com a Centauro.
Não diga besteira, Gucky. Trouxe nove elementos do corpo de mutantes e você não constava da lista.
Que nada, você trouxe dez — disse Gucky tentando uma desculpa esfarrapada. — Naturalmente, Rhodan não sabe nada disso. Ficará bobo quando souber.
Marshall levantou-se devagar e caminhou para Gucky.
Receio que você ficará mais bobo ainda, meu caro. Por que tem sempre de desobedecer às instruções? Você entrou clandestino a bordo, quando foi isto?
Clandestino, não é bem o termo. Naturalmente, eu me teleportei de Terrânia para cá. Mas somente agora é que tive coragem de me apresentar. Não fique zangado comigo, John.
Marshall ficou olhando para o criminoso, que o fitava suplicante com seus olhos castanhos. O pêlo marrom-ferrugem estava liso, o que demonstrava o ânimo pacato do rato-castor. Há muito que o dente roedor estava escondido atrás dos beiços do focinho pontiagudo.
Gucky não sorria mais e isto queria dizer muita coisa.
Marshall fazia grande esforço para se manter sério.
Você tem que prestar contas a Rhodan, Gucky. Dele é que vai depender o castigo pela sua desobediência. Eu não o posso nem prender, pois como se pode deter um teleportador?
É verdade, já fiz esta pergunta a mim mesmo — chilreou Gucky com simplicidade.
Marshall respirava nervosamente.
Deringhouse se levantou, dirigiu-se até a tela panorâmica, como se não quisesse saber nada do assunto. O rato-castor pertencia ao corpo de mutantes. Portanto o incidente com Gucky era da alçada de Marshall.
Está bem — murmurou o telepata. — Deixemos de lado o assunto, até que Rhodan decida o que deve ser feito. Receio que você deva estar preparado para alguma coisa desagradável.
Se puder ser útil aqui em alguma coisa, não será tão sério assim — disse Gucky, parecendo já mais confiante. Andou um pouco para frente e ao lado de Deringhouse ficou olhando a tela panorâmica. — Isto é o quarto planeta? Que que há com ele?
Nada de especial. E o que poderia haver com ele? — disse Deringhouse, virando-se para Gucky e o encarando com severidade.
O pobre Gucky afastou-se assustado, dizendo:
Foi apenas uma idéia minha, porque você está olhando para ele de uma tal maneira...
Chamava de você a todos, sem distinção de hierarquia ou de idade. Isto talvez proviesse do fato de que todos o chamavam de você, pois ninguém ousaria chamar de senhor um rato-castor.
Estou raciocinando — corrigiu-o Deringhouse. — E espero o sinal para o próximo salto. Será ainda permitido raciocinar?
Gucky se levantou, olhou rapidamente para Marshall.
Permitido é sim, major. Mas, como a história da Humanidade comprova, já saiu uma infinidade de besteira daí. Bobagens estas que eu teria muito prazer em estudar, quando estava na Terra, para...
Pare! — gritou Deringhouse. — Com quem que você está aprendendo a falar desta maneira? Com estas frases rebuscadas? Horrível...
É assim que fala Bell, quando quer se expressar com elegância — defendeu-se o rato-castor. — Naturalmente me ensinou também outras coisas, mas...
É verdade, já ouvi falar disso — murmurou Deringhouse e se concentrou de novo na imagem da tela. — Bell não é um homem de maneiras finas e nunca o será.
Por uns instantes Gucky parecia meio desorientado, depois deixou à vista o dente roedor e voltou para o canto da central. Fez uma grande curva em tomo de Marshall. O telepata simulou compaixão e disse:
Não gostaria de estar na sua pele, quando Rhodan ficar a par de tudo, Gucky. Acho que desta vez não será tão complacente como em Aralon. |
Se eu conseguir salvar vocês todos da desgraça certa, haverá certamente complacência — disse Gucky com voz mais pausada e mais grave, estendendo-se no chão, como se quisesse dormir. — Aceito até entrar calmamente numa situação de encrenca, aí então vocês precisarão de mim.
Falou e fechou os olhos.
Marshall ficou olhando uns instantes para ele, depois voltou para sua poltrona junto dos controles. Não reparou em Lamanche. O francês soube se manter afastado do caso, sem se comprometer nem com um lado, nem com o outro.
Escute, Deringhouse, não acha bom avisarmos Rhodan? Quem sabe estão procurando Gucky e se preocupando demasiadamente com ele.
Do canto ouviu-se um gemido. Deringhouse fez um sinal para Marshall.
Preocupado? Quem é que vai se preocupar com um rato-castor tão desobediente? Aposto até que ninguém deu por falta de Gucky. Ninguém perceberá a ausência dele.
Outro ruído se fez ouvir do canto. Um pouco abafado, mas dava para se escutar.
É verdade — continuou Deringhouse — ninguém sentirá falta dele.
Do seu canto, Gucky ouvia tudo. Seu dente de roedor, porém, reluzia de tanta vontade de lutar. Ergueu-se e se plantou diante de Deringhouse:
Então, ninguém vai sentir falta de mim? E você ainda quer apostar? Pois bem, apostemos duas arrobas de cenoura e duas horas de coçar.
Duas horas de quê? — perguntou Deringhouse perplexo.
Duas horas de coçar. Simplesmente coçar, para aliviar a coceira. De preferência na nuca — explicava o rato-castor alegre. — Posso permitir o serviço até em prestações de meia hora. Bell cocou uma vez durante cinco horas...
Sim, é verdade. Já ouvi falar nisso — interrompeu o major, passando a mão pelos ralos cabelos. — Mas eu não caio nos seus truques. Aposte com quem quiser, mas não comigo. Virou-se para Lamanche: — Então, o que há? Pronto?
As coordenadas estão aí — disse o francês. — Podemos saltar.
Gucky voltou ao seu canto. Em outra oportunidade, ele lembraria Deringhouse da aposta.

* * *

Quando voltaram do hiperespaço para a continuidade do tempo-espaço, o planeta Aqua estava apenas a dois minutos-luz deles. O dispositivo de retardamento diminuiu fortemente a velocidade da Centauro. Deringhouse ligou o sistema manual, para manobrar melhor a nave.
O planeta azul crescia a olhos vistos. Seu aspecto era de fato uma coisa nunca vista. Parecia realmente uma imensa gota d’água pairando no infinito, iluminada por um ciclópico feixe de luz avermelhada. O sol Beta tinha agora, aparentemente, o mesmo tamanho do sol da Terra e estava a muitos bilhões de quilômetros afastado. A luz precisava de muitas horas para vencer aquela distância.
Deringhouse apertou o botão do intercomunicador e fez a ligação com o laboratório de bordo.
Meier, aqui é a central. Providencie, durante o vôo, a mais completa análise do corpo celeste que temos em frente. Necessito da composição da atmosfera, dados sobre a rotação, sobre a translação e naturalmente sobre as estações do ano, dependentes da translação. Apresente-me os resultados, o mais rápido possível.
Entendido, comandante — foi a resposta.
Deringhouse desligou e se dirigiu a Marshall:
Estou curioso sobre o que haveremos de descobrir.
O telepata respondeu com um pequeno gesto.
Não compreendo bem seu interesse neste planeta, major. O senhor é o comandante e eu não gostaria de me intrometer em seus assuntos. Mas, se me permitir uma pergunta: qual é a razão do grande interesse seu por este planeta, o quarto, se nossa missão consiste em fazer com que os saltadores destruam o terceiro?
Talvez seja mesmo pura curiosidade — respondeu Deringhouse. — Mas meu pensamento principal é a segurança. Neste sistema, entram em questão, para seres inteligentes, apenas dois planetas: o terceiro e o quarto. Se o terceiro está destinado à destruição, queria apenas saber se o quarto se presta para ulteriores operações. Isso, você compreende, Marshall. Além disso, a nossa segurança exige que estejamos informados sobre as condições neste sistema, com exatidão. Acho que posso me responsabilizar pelo pequeno atraso. Não perdemos nada. Se os saltadores surgirem, receberemos imediatamente o chamado de McClears.
O telepata constatou que Deringhouse falou exatamente o que pensava.
Concordo com o senhor, major. Tem também a intenção de aterrissar em Aqua?
Depende das circunstâncias. Se puder contar como encontrar vida inteligente, tentarei naturalmente contatos...
Ouviu-se um zunido:
Desculpe, é do laboratório — disse Deringhouse interrompendo a conversa com Marshall.
Logo a seguir, apertou um botão e se apresentou:
Aqui é a central.
Aqui Meier, do laboratório. Os dados já existentes: o quarto planeta tem um dia de quarenta e oito horas. A translação em torno do sol Beta leva duzentos e setenta anos da Terra. A variação das estações do ano é, portanto, muito lenta e mesmo insignificante, pois quase não existe eclíptica. Atmosfera, respirável, um tanto pobre em oxigênio, rica em vapor. Um trecho de terra firme mais ou menos nas dimensões da Europa, forma o único continente, além de uma série de ilhas menores. O resto da superfície é de água. O mar não é muito fundo. É isto o que temos até o momento.
Obrigado, Meier.
Deringhouse permaneceu calado por uns instantes, olhando para a tela. O planeta azul já estava bem grande, enchendo quase todo o campo visual da tela. Ao brilho dos raios avermelhados do sol, destacavam-se os contornos do único trecho de terra, perdido na imensidão das águas. Se lá existissem seres inteligentes, deveriam viver principalmente do mar e dos seus produtos. Navegação marítima só poderia existir em pequena escala, pois, por que razão se iria atravessar o mar, se não havia outras praias? Uma espécie de civilização, completamente diferente, ter-se-ia desenvolvido aqui. Deringhouse estava ansioso para conhecê-la.
Procuremos no continente um bom local para aterrissar — resolveu ele, finalmente. — Os habitantes do planeta não devem conhecer a navegação aérea.
Quem? Habitantes? — perguntou Marshall, acentuadamente.
Não obteve resposta.
A Centauro deu uma volta em torno do planeta. Passou bem próxima do deserto azul das águas e se aproximou depois do litoral do continente. Os grupos de pequenas ilhas não demonstravam nenhum indício de civilização. Cobertas de densas florestas, lembravam as ilhas paradisíacas dos Mares do Sul. Enseadas de areia eram um convite para o repouso, mas Deringhouse não tinha em mente tirar férias. O que procurava eram seres inteligentes diferentes, e Aqua tinha que ter vida.
A primeira visão que prendeu a atenção de Deringhouse foi uma construção baixa, com cúpulas, nas imediações do litoral, a menos de dois quilômetros da praia. A água devia ser muito rasa neste trecho, pois se podia ver facilmente o fundo. A cúpula, na sua parte superior se elevava para fora d’água, tinha uma plataforma e um corrimão. Como vigias, as janelas se enfileiravam em redor do edifício, cuja parte inferior estava imersa na água e certamente iria até o fundo do mar.
A Centauro diminuiu a velocidade. Deringhouse dirigia com o olhar fixo no acontecimento. John Marshall chegou até ele, olhando também para a cúpula. Lamanche, como de hábito, ficou alheio ao que se passava. Sua preocupação eram os controles e realmente ele cuidava que o pesado cruzador seguisse sua rota.
Considerável desenvolvimento — disse o telepata. — Gostaria de saber por que construíram aquilo na água, quando têm tanto espaço em chão firme.
Deringhouse continuava olhando para o litoral, já bem próximo.
Você tem razão. Não se vê nada semelhante em terra. Eu esperaria, no mínimo, uma cidade por aqui, mas vejo só mata virgem, litoral arenoso e em parte cheio de rochas. Misterioso, verdadeiramente misterioso.
A cúpula ficou para trás, ao atingirem o litoral. Foram penetrando uns quilômetros. A seus pés, terra jamais tocada por ser inteligente, sem nenhum vestígio de trabalho que denotasse inteligência; o terreno subia brandamente, apresentava cadeias de montanha de pequeno porte, grandes estepes e florestas a perder de vista. De uma civilização, não se podia falar.
É uma coisa singular”, pensava Deringhouse, fitando o continente. “O planeta só tem este continente e a gente supõe que os habitantes teriam que aproveitar cada metro quadrado. Devia haver lá embaixo um emaranhado de casas e instalações, como em nossas capitais. E o que vemos? Nada, absolutamente nada. Onde estão os homens?
Se não tivéssemos visto a cúpula, eu diria que não há nada por aqui — disse Marshall sarcástico.
Mas a cúpula está aí. Existe vida em Aqua e nós temos que encontrar.
Com esta constatação, apoiou-se no espaldar da poltrona, parecendo completamente alheio ao que se passava ao redor dele. Marshall acenou amigavelmente para Lamanche e deixou a central, seguido por Gucky que lhe estava lendo os pensamentos. Marshall se dirigiu diretamente para o local da nave onde estavam reunidos os dez mutantes.
Mal havia fechado a porta da central, Deringhouse despertou de sua profunda meditação. Avançou um pouco mais para frente e postou-se diante da tela panorâmica, dizendo a seu oficial:
Qual é sua opinião, Lamanche?
O francês alteou os ombros, esperou um pouco e falou:
Não sabemos o que representa aquela cúpula. Quem sabe se trata até de uma espaçonave derrubada? Devemos examiná-la, aproximando-nos. Assim se confirmaria minha tese de que não há vida inteligente por aqui.
Deringhouse não parecia de maneira alguma satisfeito com esta resposta.
Espaçonave derrubada ou caída. Puxa, a cúpula é um edifício, está firme no chão! A minha pergunta é apenas, por quê? — parou de repente.
Lamanche levantou os olhos e acompanhou o olhar do comandante.
Na tela, ainda se via nitidamente a superfície do quarto planeta. Aos poucos, as cores se tornavam mais naturais.
E Lamanche viu também, nas bordas do grande planalto, as pequenas saliências, em forma de cúpulas. Estas saliências tinham um reflexo avermelhado com os raios do sol, fulgiam como se fossem de metal. Não somente seu aspecto, mas também sua disposição simétrica denunciavam sua origem artificial.
No mesmo instante, a Centauro começou a aterrissar.

* * *

Na reunião dos mutantes houve um grande grito de surpresa, quando Marshall entrou acompanhado de Gucky.
Que surpresa agradável! — exclamou Ras Tschubai, o africano teleportador, todo contente. — Você é a arma secreta nesta missão?
Nada de arma secreta — murmurou Marshall — o malandro penetrou clandestinamente a bordo, contra ordem expressa de Rhodan.
O africano fez uma cara de espanto:
Então, Gucky, eu não quero estar na sua pele.
Ele não tem um pêlo grosso e lindo — disse a jovem Betty Toufry, inclinando-se, para coçar sua nuca.
Gucky estava feliz. Aliás, gostava muito da jovem telepata, cujas faculdades paranormais eram muito semelhantes às suas, pois Betty era também telecineta.
Rhodan vai desculpar você, Gucky, não se preocupe — comentou Betty.
Se você der uma palavra a meu favor, com toda certeza — disse Gucky, parecendo mais confiante.
O perscrutador japonês Doitsu Ataka sacudiu a cabeça.
Disciplina é isto: fazer somente o que o chefe manda. Agora, para mim está bem. A vida não será mais tão monótona, pois Gucky sempre inventa umas gozações.
Marshall lançou um olhar de desaprovação para o japonês. O rapaz falou de disciplina e foi o primeiro a quebrá-la. Mas Gucky aproveitou a situação a seu favor.
Você tem razão, Ataka — disse ele contente. — Quem é que sabe até quando estaremos vivos? Por que não podemos estar alegres? Rhodan quer que nós todos morramos, naturalmente só aparentemente. Portanto, vamos morrer, pelo menos, alegres. Proponho um torneio de coçar e me apresento como voluntário para...
Marshall achou conveniente mudar de assunto.
Prestem bem atenção ao que vou dizer — disse ele, cortando todo sorriso. — Acabamos de descobrir, neste quarto planeta, que o comandante apelidou de Aqua, os primeiros indícios de vida inteligente. Vamos aterrissar. Ninguém sabe o que vamos encontrar, uma coisa está fora de dúvida: isto não tem nada que ver com nossa missão verdadeira.
Foi, infelizmente, uma dedução falsa, ilógica, mas Marshall só o percebeu mais tarde, como os outros também.
No momento, não lhes sobrou tempo para pensar.
O alarme tocava por toda a nave. Por uns instantes, Marshall parecia paralisado, como que ouvindo a si mesmo; depois, um estremecimento percorreu todo seu corpo.
Deringhouse, que está acontecendo? Seus pensamentos são caóticos e confusos...
Ouviu-se um zumbido estridente.
A tela do intercomunicador, que liga entre si todas as seções da nave, acendeu. Nela apareceu a imagem de Deringhouse, com fisionomia de atônito e indeciso.
Atenção geral — disse com voz áspera. — Prontidão de emergência. Ocupar todos os postos de defesa. Alguém está exercendo todos os controles sobre a Centauro e nos está puxando para baixo. Estamos aterrissando.
Fez uma pausa, como se estivesse pensando, depois continuou:
Marshall, seus mutantes devem estar preparados. Talvez precisemos de seu auxílio.
Que está se passando com a nave? — perguntou Marshall. Já experimentou...?
Inútil, caímos sob a ação de poderosos raios de atração, que paralisaram todos os nossos controles. Para lhe ser sincero, Marshall, não tenho intenção de me defender contra os inimigos. Aguardemos, pois, para saber o que pretendem de nós.
Não acha estranho, que uma raça, de cuja atividade não conseguimos ver nada na superfície de Aqua, tenha desenvolvido meios técnicos tão avançados de poder subjugar por forças mentais uma nave tão grande como a Centauro?
Deringhouse esboçou um leve sorriso.
É exatamente o que estou querendo descobrir. O que estamos presenciando é paradoxal e impossível. Que existisse aqui neste mundo uma civilização não me admiraria muito. Mas, deste jeito...?
Marshall percebeu como o assoalho a seus pés estremeceu todo. Depois veio um solavanco que quase o derrubou. Após o quê, reinou silêncio.
Deringhouse, diante da tela, deu uma olhada para o lado, antes de se dirigir aos que o viam.
Já aterrissamos — disse sem expressão na voz. — Encontramo-nos no meio de um planalto rochoso. Estamos cercados por cúpulas de metal cintilante. Mas não vejo armas. De homens ou outros seres vivos, não há nenhum sinal. Devemos esperar até que os desconhecidos queiram entrar em contato conosco. Pensem, porém, numa coisa: não estamos indefesos, meus senhores. Ao menor vestígio de uma ação hostil do lado oposto, nós nos defendemos sem consideração. Mas não seremos os primeiros a iniciar a guerra. Sem o meu comando, não abriremos fogo.
Marshall ouviu como os postos de defesa estavam se preparando para se manterem de prontidão. Deu algumas instruções aos mutantes e deixou o aposento para se dirigir ao posto de comando, de onde se tinha uma vista melhor. Em caso de emergência, podia-se dali mesmo comandar o ataque dos mutantes.
Deringhouse estava de pé diante da galeria panorâmica, observando toda a circunferência da Centauro já ancorada. Lançou um rápido olhar para Marshall, sem se perturbar em suas observações. Lamanche estava sentado fora dos controles do envoltório energético, que estavam desligados.
Não podem saber de onde viemos, embora possuam rastreadores estruturais — disse Deringhouse meio incerto. — A Centauro e a Terra estão equipadas com os compensadores correspondentes. Ninguém pode localizar nossos hipersaltos. Esta arma me tranqüiliza.
Apesar disso, puxaram-nos do espaço — disse o telepata pensativo.
Não tem importância, Marshall. Confesso que no início estávamos impotentes e tínhamos que nos submeter aos fatos, mas agora, creio eu, já podemos bombardear suas instalações. Mas não vejo razão para isto. Queremos saber primeiro como são e quem são eles.
Olhou novamente para a tela, Marshall o acompanhava.
O pesado cruzador estava parado num amplo planalto. A uma distância de trezentos metros estava a primeira cúpula metálica, que escondia um trecho da beira da floresta. No horizonte cintilavam os picos de montanhas distantes, ao sol do meio-dia. A segunda cúpula estava mais à direita, depois a terceira e a quarta. Formavam um círculo em cujo centro estava a Centauro.
Lamanche acordou de sua letargia.
Uma verdadeira cilada, uma teia de aranha invisível — dizia ele acabrunhado.
Estamos presos, exatamente no foco dos raios de atração. Jamais teria imaginado que estes fulanos chegariam a tanto. Por que não se manifestam?
Devem ter seus motivos — respondeu o comandante. Estava de olhos fixos num determinado ponto à margem da floresta. — Acho que nossa curiosidade será satisfeita em pouco tempo. Lá vem uma viatura.
Os outros dois homens também estavam olhando.
Das sombras das árvores enormes, de conformação esquisita, despregava-se uma coisa escura, rolando lentamente pela planície afora. Deringhouse ligou o dispositivo de ampliação. Agora se via mais nitidamente. Era uma espécie de carro blindado, embora sem a torre de artilharia. Em compensação, a cúpula semi-esférica era de um material diáfano. Carros deste tipo eram utilizados freqüentemente para exploração de mundos desconhecidos, principalmente quando a atmosfera pudesse ser nociva.
Atrás da cúpula viam-se, com pouca nitidez, os contornos de algumas figuras. A distância não permitia ver detalhes.
Deringhouse virou-se para trás e olhou para Marshall.
Nenhuma novidade? Ainda não há impulsos de pensamentos?
Sim, mas muito insignificantes. Estão se protegendo, já tiveram que lidar com telepatas. Talvez sejam também telepatas e conhecem as medidas de segurança necessárias, para se protegerem das radiações do cérebro.
Deringhouse mexia na regulagem da ampliação da imagem e nada respondeu. Notou-se nos seus olhos um brilho maior quando observava o carro se aproximando. Queria dizer alguma coisa, mas acabou ficando calado. Marshall reparou que as mãos do comandante tremiam.
Gucky!... — enviou sua ordem telepática. — Teleporte-se imediatamente para a central.
O pensamento ainda não tinha terminado, quando o ar estremeceu no meio da central e do nada surgiu o rato-castor. Ouviu a ordem de Marshall e veio no mesmo instante.
Que há? — chilreou ele, bem disposto como sempre.
Estamos entrando em contato com os estranhos, Gucky. Infelizmente estão protegendo o pensamento. Temos que saber com quem estamos lidando. Você podia...
Se posso!... — disse Gucky entusiasmado, mas continuou com um sorriso malicioso: — não é verdade, você vai dizer uma palavrinha a meu favor, quando o chefe...
Isto é suborno — disse Deringhouse, sem olhar para trás. — Mas está bem, eu o defenderei, se você dentro de dez segundos me disser quem é que se aproxima de nós naquela viatura. Talvez eu me engane, mas os contornos daquelas figuras apagadas me parecem conhecidos...
Marshall teve um calafrio.
Conhecidos... Meu Deus... Eu tive a mesma impressão com os impulsos dos pensamentos. Será um acaso?
Por que discutir? — perguntou Gucky. — Tenho apenas cinco segundos. Até logo...
Nova cintilação no ar e o lugar onde estava Gucky ficou vazio.
Dois segundos depois, já estava de volta. No seu semblante, lia-se grande espanto. Com as orelhas de pé o pêlo eriçado, sentou-se nas patas traseiras, apoiando-se na ampla cauda.
Não, uma coisa desta... — disse, soltando um longo suspiro. — Quem teria pensado, como o mundo é pequeno, aliás, o mundo, não: como o universo é pequeno!
Mas o que houve? — insistiu Deringhouse, já irritado, deixando de lado a tela panorâmica. — Não nos deixe malucos, Gucky, como são eles?
Fale logo, Gucky — acudiu Marshall, que não podia mais se livrar de uma sensação esquisita. Começou a suspeitar que estavam diante de uma terrível surpresa. — Você os viu?
O rato-castor fez que sim, vagarosamente.
Materializei-me no carro, no meio deles. Por motivo de precaução, mantive a respiração, porque nunca se sabe se a atmosfera é apropriada para nossos pulmões. Mas meus cuidados foram inúteis. Respiram o nosso ar. E ficaram espantados quando me viram.
Puxa vida, Gucky! — gritou Deringhouse, com o rosto vermelho. — Quero saber como parecem eles. São seres da água?
Que idéia maluca é esta? — perguntou Gucky, que não perdia a calma. — Você acredita que peixes inteligentes montaram uma base terrestre aqui? Já se ouviu besteira maior?
Gucky — disse Deringhouse, alteando a voz. — Você talvez não saiba como é importante, mas eu lhe peço mais uma vez para responder minha pergunta: como é que parecem os estranhos? E o que quer dizer sua expressão: “o Universo é tão pequeno”...?
Vocês não me vão acreditar, mas eles se parecem com os tópsidas. E se me posso expressar mais claramente, sem decepcioná-los, gostaria de jurar que são os tópsidas.
Para Deringhouse e para Marshall foi como se uma mão gelada lhes apertasse o pescoço. É verdade que já se haviam passado dez anos desde que estes sáurios altamente desenvolvidos e muito inteligentes tinham sido encontrados no sistema Vega. Mas as escaramuças com eles ainda estavam bem impregnadas na memória dos dois homens. Os tópsidas, de estatura mais ou menos idêntica à do homem, tinham duas pernas e dois braços, geralmente utilizados como braços mesmo. Os dedos das mãos eram seis, o corpo era coberto por uma camada de escamas marrom-escuras. A cabeça era de um lagarto grande, com a conformação característica dos sáurios; os olhos redondos, negros e móveis pareciam ver tudo que acontecia num raio de 180 graus.
Tópsidas! — falou Deringhouse, respirando profundamente. Depois comentou: — É só o que nos faltava. Estes miseráveis crocodilos devem estar metidos em toda parte?
Eles dominam seu pequeno império sideral — disse Marshall, pensando nervosamente. — Se não me engano, este império é em algum lugar da Constelação de Orion, portanto aqui nesta região.
Sim, afastado da Terra por oitocentos anos-luz. É bem longe daqui.
Nem tanto assim — contradisse Marshall. — De qualquer maneira, está na mesma direção. Não é, pois, de se estranhar que tenham uma base por aqui.
Num mundo desabitado? Por que motivo?
Gucky tinha ouvido a conversa de cabeça baixa, aparentemente sem maior interesse. Mas chegou a hora de intervir:
Por que vocês estão quebrando a cabeça com isso? Perguntem diretamente a eles, o que estão fazendo aqui. Olhem aí, já estão chegando.
Deringhouse deu a volta para chegar à tela. A viatura com uma pequena cúpula já estava parada a uns trinta metros da Centauro. Não havia dúvida de que os sáurios já sabiam há mais tempo que se tratava de uma belonave dos arcônidas. Quem sabe, esta circunstância poderia ser aproveitada de uma maneira ou de outra.
A cúpula da viatura se abriu e dela saíram três sáurios. Usavam uma espécie de uniforme que lhes encobria parcialmente o corpo de escamas. Todos traziam o radiador energético num coldre preso ao cinto. Davam a impressão de arrogância. A julgar pelas aparências, a superioridade estava com a tripulação da Centauro, mas Marshall sabia muito bem que os tópsidas, por índole, não conheciam o medo. E não conhecendo o medo, estavam acostumados a lutar até a última gota de sangue, mesmo numa situação sem saída. O medo de um ditador era maior que o da morte.
Têm nervos de aço — dizia Deringhouse, que havia conhecido os tópsidas como comandante dos ágeis caças espaciais. — Colocam-se simplesmente diante das bocas de nossos canhões e esperam para ver o que vamos fazer. Poderíamos transformá-los em átomos.
...o que não resultaria em vantagem para ninguém — permitiu-se Lamanche observar.
Querem que eu os faça correr daqui? — ofereceu-se Gucky prontamente.
Você ficou maluco? — perguntou Deringhouse. — Quero saber o que procuram aqui e o que querem de nós. Marshall, você vai me acompanhar. Vamos dar uma olhada nos rapazes. Esperamos que entre eles não haja ninguém que nos conheça.
Não há possibilidade disso. Para eles, nós parecemos todos iguais, como eles para nós. Eu não conseguiria distinguir um do outro. Mas que lhes vamos dizer quando nos perguntarem quem somos?
Deringhouse deu as últimas instruções a Lamanche e se dirigiu para a porta com Marshall.
Não podem, em hipótese alguma, saber que somos da Terra. Expliquemos a eles que pertencemos a um ramo dos saltadores. Provavelmente haverão de acreditar, embora os saltadores não costumem usar naves esféricas. Acho bom assim, porque não são muito amigos dos arcônidas e sabem que também os saltadores não se dão bem com os arcônidas.
Tenho a impressão — dizia Gucky caminhando atrás dos dois homens — de que aqui começa uma trama. Esperemos para ver.
Lamanche ficou olhando para eles.
Se correr tudo bem, Jean — disse ele para si mesmo — vou devorar três robôs de combate no almoço. Sem mostarda.
Ao que Gucky, virando-se na porta, acrescentou:
Sem mostarda, esta é a condição.
3



Quando a escotilha da saída principal da Centauro se abriu, a mais de cinqüenta metros do solo, John Marshall percebeu um ruído desagradável no lado de trás.
A escada rolante, brilhando como prata, estirou-se da escotilha para o chão lá embaixo. Deringhouse apalpou a coronha da arma, para ver se não estava presa. Depois subiu no degrau superior, que imediatamente começou a movimentar-se para baixo.
Marshall o seguiu.
Os três sáurios estavam imóveis diante da gigantesca nave, esperando, convencidos de sua força. Para eles eram dois prisioneiros, e seus olhos negros e redondos eram um misto de expectativa e de malícia. A aparência dos dois homens parece que não os surpreendeu.
Marshall se lembrou do que acontecera outrora no sistema Vega. Lá, pela primeira vez, os terranos se defrontaram com a raça dos sáurios. Rhodan conseguiu tirar deles a grande belonave arcônida Stardust III. Por fim, conseguiram expulsar os tópsidas, reinando depois a calma.
E agora se defrontam novamente, aliás de maneira bem diversa, pelo menos conforme os planos de Deringhouse.
As mãos dos tópsidas, verdadeiras garras, já empunhavam as armas. Marshall penetrou-lhes o pensamento e não achou nada, a não ser curiosidade misturada com grande atenção. Estavam muito seguros de si.
Quando Deringhouse saltou da escada rolante e se encaminhou para os três sáurios, a tensão entre os homens e os tópsidas parecia uma muralha invisível. O major parou a dez metros deles, sempre com a mão direita na coronha de sua pistola energética. Nos lábios, um leve sorriso. Conhecia bem a mentalidade dos sáurios, para não duvidar de qualquer emboscada.
Marshall se mantinha a alguns passos atrás de Deringhouse, tentando decifrar os pensamentos do adversário e ver suas intenções. O resultado era mínimo.
Antes que os dois terranos pudessem dizer uma palavra, falou o tópsida em puro intercosmo:
Os senhores se encontram em território de nossa soberania e serão portanto solicitados a ficar sujeitos às nossas ordens. Não lhes acontecerá nada, se não quiserem resistir. Quem são os senhores?
Deringhouse não aparentou a menor surpresa.
Não tínhamos nenhuma intenção de descer em seu território, fomos forçados a Isto. Sou um saltador, da estirpe de Gatzel.
O tópsida fez um sinal com a cabeça.
É o que estávamos pensando, estranho. Sua aeronave, no entanto, é de origem arcônida. Conhecemos bem este tipo.
Tem razão — respondeu Deringhouse, com um sorriso calmo. — Tipo cruzador pesado. Nós o tomamos dos arcônidas, por ocasião de um ataque. O senhor tem alguma objeção a fazer?
O tópsida começou a sorrir, mas não com espontaneidade.
Não, contra isto não temos absolutamente nada. Os arcônidas não podem ser considerados nossos amigos. Que pretendem os senhores neste sistema? Não há nada para se comerciar, e quando houver, nós mesmos o faremos.
Deringhouse ergueu os ombros.
Estávamos em vôo de rotina, quando descobrimos este mundo. Quem sabe teria vida, pensávamos nós e começamos a examiná-lo. Não achamos nada, a não ser estas misteriosas cúpulas.
Pertencem ao nosso sistema de proteção — explicou o tópsida. — O planeta das águas foi por nós descoberto há muitos anos e nós o ocupamos. Serve-nos de base.
Pelo menos até que alguém se mexa, tudo estará em ordem — disse Deringhouse com um pouco de cautela. — E já que parece não existir nativos por aqui...
O tópsida continuava sorrindo.
Existem alguns. Aceitaram o nosso domínio.
Houve uma curta pausa, depois:
Não lhes sobrou outra alternativa. Deringhouse não conseguiu ocultar por mais tempo sua admiração.
Nativos? Neste mundo? Não vimos nada disto durante nosso vôo.
Os senhores não têm, certamente, os instrumentos necessários para observar a vida sob a água.
Na mesma hora, Deringhouse e Marshall compreenderam tudo. É claro que num mundo como este, seres inteligentes teriam que se desenvolver na água. E se os tópsidas julgaram conveniente estabelecer uma base neste planeta, devia se tratar de um ser vivo que merecesse mais respeito.
Marshall estava pensando na grande construção das cúpulas, feita a poucos metros da praia. Seu formato não tinha relação nenhuma com as instalações habituais dos tópsidas. Certamente haviam sido construídas na água, para que os habitantes do mar entrassem em contato com seus senhores.
Aos poucos, foi se projetando uma imagem mais clara na mente de Marshall.
Meu nome é Al-Khor — disse o tópsida do meio. — Sou comandante da base nesta parte do continente. Posso lhes pedir o favor de deporem as armas? Não gostaria que, por um motivo qualquer, surgisse um conflito entre nós e os saltadores. Assim que eu liberar sua nave, receberão de volta suas armas.
Deringhouse hesitou um pouco. Uma multidão de idéias passou por sua cabeça, sem que conseguisse colocá-las em ordem. Como a pedir socorro, deu uma olhada para Marshall. O telepata fez sinal que sim. Sabia já há muito que os tópsidas realmente faziam questão de não pôr em risco a paz existente entre eles e os saltadores.
Está certo — respondeu Deringhouse, retirando a pistola energética da cintura. — Queremos nos submeter às suas ordens.
Um dos sáurios apanhou a arma com as garras pontudas e a ficou olhando com interesse. Marshall também entregou as armas.
Como compensação — propôs Deringhouse — dê-nos a garantia de que o senhor não nos deterá contra nossa vontade e nos autorize a qualquer momento a pedirmos as armas de volta e deixarmos este planeta.
Al-Khor continuava sorrindo.
É claro que lhes damos a garantia, com todo prazer. Ninguém vai impedi-los de usufruírem de nossa hospitalidade, se não nos quiserem dar este prazer. Mas antes, creio eu, devemos conversar um pouco. Certamente o senhor terá alguma coisa para nos contar. E a vida, creia-me o senhor, numa base tão solitária como o “mundo d’água” é muito monótona. Venha, por favor.
E a minha tripulação? Não gostaria que uma ação impensada deles...
Não nos opomos a que o senhor dê instruções à sua tripulação — interrompeu Al-Khor. — Dê-lhes o conselho de não abandonarem a nave e de não tomarem nenhuma iniciativa.
Deringhouse aceitou a idéia e ligou o minitransmissor de pulso.
Lamanche — disse ele em inglês — estamos aceitando, na aparência, as condições dos tópsidas. Ponha-se em contato com McClears. Ele deve vir para cá e aguardar novas ordens. Por enquanto não existe perigo iminente. Fim.
Entendido — foi a resposta curta. Al-Khor comprimiu desconfiado os olhos redondos:
Por que não falam intercosmo?
Meu substituto é muito jovem, Al-Khor, só entende o dialeto de minha estirpe. Disse a ele que ficasse tranqüilo e esperasse a nossa volta.
O tópsida parecia contente. Com a mão estendida, num sinal de convite, indicou a porta aberta da viatura de cúpula e deu a preferência para seus hóspedes não voluntários.
Ainda com o carro em movimento, Marshall fez contato com Gucky e lhe transmitiu o plano de Deringhouse, que tinha acabado de ler telepaticamente.

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