quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-050 - Atlan, o Solitário do Tempo - K. H. Scheer [parte 2]


Assim, por exemplo, havia esquecido de destruir, antes de sair do submarino, as comprometedoras radiografias. Ainda estavam no laboratório. O grande perigo, porém, teria sua fase aguda somente depois de quatro semanas. Além disso, podia voltar ao submarino a hora que quisesse, para apanhar o esquecido.
Deixei a solução deste assunto para mais tarde.
Certamente, mais urgente do que a questão das radiografias era o caso do registro de minhas vibrações corporais. A fechadura do meu quarto estava programada de acordo com estas vibrações. Não fosse assim, não teria reagido ao simples toque da mão.
Sentei-me numa poltrona que parecia muito confortável e que realmente ultrapassou toda expectativa. Ao receber o corpo, ele se adaptava automaticamente às formas do mesmo. Os habitantes do planeta Terra tinham alcançado um bom grau de tecnologia. Meio desconfiado, comecei a examinar o banheiro. Havia até um dispositivo automático de massagem. O robô especializado da cúpula submarina não lhe era nada superior.
Cada vez crescia mais a ânsia de chegar a uma livraria pública, pois não seria prudente ficar fazendo perguntas a todo mundo. Podia causar suspeitas. Se eu soubesse que existia uma “Enciclopédia Terrana”, onde estava toda a história do planeta a partir de 1.971, já teria saído do hotel de Lisboa. Então saberia também que num volume extra estava exposto um assunto muito misterioso, chamado comumente de Exército de Mutantes.
Acabei deitando para descansar.
Os esforços e preocupações do dia se faziam sentir.

Confiei demais no meu sexto sentido. A história da Humanidade a partir de 1.971 era muito confusa e maior do que eu pensava. Começava com a construção da Terceira Potência na desolada solidão do deserto centro-asiático de Gobi. Soube de coisas que primeiro me deixaram envergonhado e depois pálido de indignação.
Perry Rhodan parecia ser não somente um lutador de extrema determinação e de decisões rápidas, mas principalmente um homem ponderado, mentalmente ágil, que sabia sempre com exatidão onde estava a maior vantagem para ele. A tudo isso acrescia o fato de que se identificava pessoalmente com a Humanidade.
Uma coisa me deixou preocupado: Rhodan, com algumas espaçonaves conquistadas em luta, penetrou nas profundezas das Galáxias, embora soubesse que a Terra não estava em condições de se defender. E o mais admirável é que, apesar disso, acabou desnorteando os mercadores galácticos e o Império Arcônida.
A “Enciclopédia Terrana” classifica o ano 1.984 como a segunda e mais importante etapa na escalada ascendente da Terra. Rhodan deu um golpe de inteligência ao fazer que todos os habitantes das Galáxias acreditassem que a Terra tinha sido destruída por uma frota invasora. Todos os seres inteligentes da Via Láctea acreditavam mesmo que Rhodan tinha sumido em combate.
A partir deste ano, pôde então se dedicar à construção e ao fortalecimento da Terra, sem se preocupar com ataques de outros mundos. Lá fora, no espaço, todos julgavam que a Terra não existia mais. Assim, este planeta se tornou a maior potência do Universo.
Tomei residência fixa no hotel e providenciei roupas mais adequadas. Meus estudos diários na Biblioteca Pública começaram a dar na vista. Apesar de todo o serviço automático da Biblioteca, havia sempre aqui e ali pessoas de cuja atenção eu não conseguia escapar.
Assim, falei um dia, em conversa, que precisava de uma obra de consulta para meus exames. O assunto era muito amplo para ser assimilado em poucos dias. É claro que me interessei acima de tudo pela reconstrução militar e político-econômica. O Império Solar se compunha dos nove planetas do Sol.
Marte, Vênus e algumas luas de Júpiter, estavam ocupados por colonizadores. Principalmente Vênus, que já formava uma boa colônia dentro do Império.
A navegação espacial tinha atingido o clímax. Havia uma enorme frota comercial, além das belonaves, cujas reproduções na Enciclopédia me deixavam de boca aberta.
Ao deixar a Biblioteca, no quarto dia, sabia que não tinha nada mais a procurar na Terra. Embora aceitasse as conclusões do capítulo final da Enciclopédia, sem restrições, as informações sobre o Império Estelar dos Arcônidas me pareciam falsas. Era inaceitável que o poder do grande Império estivesse nas mãos de um robô.
Ao penetrar no heliporto da Biblioteca, para pegar um táxi aéreo, senti o primeiro aviso. Aquela sensação de alguma coisa que rebusca a parte posterior do cérebro, já me era conhecida. Instintivamente bloqueei meu conteúdo mental. Havia alguém tentando por via telepática penetrar em meu pensamento.
Meu sexto sentido estava de prontidão. Fiquei parado junto do parapeito do terraço da Biblioteca, olhando para o belo panorama das sinuosas auto-estradas. Ali terminavam as pistas de alta velocidade que rasgavam todo o país.
Os impulsos penetrantes vinham de trás, do lado direito. Senti a confusão no fluxo tateante do desconhecido telepata. Por uns minutos, ele desistiu de penetrar minha mente. Daí a pouco tentou de novo, com maior intensidade. Devia ser um telepata fraco. Não conseguiu penetrar-me.
Dirigi-me para um táxi que estava pousando naquele momento. O telepata era ainda jovem, de cabelos escuros. Passei tão perto dele, que, sem querer, deu um passo para trás. Entrei na espaçosa cabina do táxi aéreo, com muita calma, introduzi um solar na fenda do cobrador automático.
Hotel Escorial! — disse eu alto e bem pronunciado.
O piloto-robô confirmou com um movimento de cabeça e a porta se fechou. O aparelho de vôo para curta distância recebia sua energia elétrica por microondas. Concentrei-me no forte zumbido do motor e agi como se o telepata não me interessasse. Ele fez mais uma tentativa, antes de desistir. Finalmente, meu pequeno aparelho ganhou altura.
Teve muita sorte”, constatou meu sexto sentido. “Se lhe tivessem mandado um telepata mais forte, você estaria perdido.”
Sabia que não podia mais voltar para o hotel, então inclinei-me para frente, para perto do microfone:
Quero descer do outro lado do Tejo, em Almada.
Em que lugar de Almada?
O velho cais dos pescadores.
O aparelho deu uma guinada para o sul. Abaixo de mim cintilavam os anúncios no alto dos arranha-céus. Num destes luminosos havia uma sigla muito repetida por toda parte: CGC, três letras importantes: “Companhia Geral do Cosmo.” Devia ser uma organização imensa. Conforme a Enciclopédia, a CGC tinha sido criada por Rhodan.
O nome Rhodan me impressionava cada vez mais. Quando estávamos quase na desembocadura do Tejo e já víamos ao longe as luzes de Almada, meu sexto sentido me alertou de novo de que não devia perder um segundo. Já estavam atrás de mim, do contrário o telepata não me teria seguido com tanta insistência.
Naturalmente, tudo poderia ser um simples serviço de rotina da polícia, o que meu bom senso acabou excluindo. Por mais despreparado que fosse, o telepata não era um zé-ninguém. Se um homem desta categoria foi destacado para sondar meus pensamentos, era porque desconfiavam de algo.
Na hipótese de não se tratar de um serviço de rotina da policia, surgiria uma pergunta: Como e por que chegaram a suspeitar de mim?
O registro das vibrações no hotel? Impossível! Isso poderia acontecer caso tivessem dados a meu respeito. Na Terra, não havia mais fronteiras entre os diversos estados. Sou igual a todo mundo, não poderia ter chamado a atenção de ninguém. Onde estava o mistério? Fiquei matutando até que uma idéia me fez tremer dos pés à cabeça.
O submarino!”, dizia meu sexto sentido.
Acabei concordando com a idéia. Era a única explicação plausível. Ao deixar a tripulação no fundo do oceano, não sabia ainda da existência do corpo de mutantes. Naturalmente o submarino estava sendo considerado como perdido. Até que, com os meios modernos de localização, chegaram a encontrá-lo. Além disso, o trânsito marítimo era muito intenso, de forma que a localização do submarino poderia até ter sido casual. Mas tudo isso não tinha importância alguma. Foi encontrado e acabou.
Não devia estar preocupado assim, pois a tripulação se mantinha em estado de forte bloqueio hipnótico. Pela primeira vez, o conceito de exército de mutantes foi tomando forma definida no meu pensamento.
Pessoas dotadas de poderes parapsicológicos haveriam de conseguir romper o bloqueio hipnótico provocado por mim. E aí, o pessoal do submarino soltou o que sabia. O quadro estava completo, as peças estavam se casando bem. Agora é que estava percebendo a gravidade das radiografias esquecidas a bordo do submarino. Se caíram em mãos competentes, então já estavam a par da minha existência.
Recostei-me na poltrona macia de espuma de borracha.
Ainda bem que não sabiam nada da minha antiga moradia, a cúpula da fossa oceânica dos Açores. Do contrário não teriam designado para me seguir um telepata jovem, de poderes insuficientes. Mas, com toda certeza, possuíam grandes pistas.
O piloto automático precisou de mais uma moeda para me levar até ao cais dos pescadores em Almada. Coloquei um solar e imediatamente veio o troco de dois sóis.
Liguei o envoltório magnético e ouvi, com esforço, alguns impulsos telepáticos. Não se compreendia nada.
A noite que estava chegando tinha um céu suave e cheio de estrelas. No pequeno cais, havia o cheiro indefinido de algas, cordames e peixes. Era tudo como antes, embora não se usasse mais o alcatrão.
Passei por pessoas alegres e fui à procura de um barco. Meu traje de mergulho de profundidade estava do outro lado da desembocadura do Tejo. Encontrei um barco, cujo proprietário o estava acabando de encostar. Não podia me demorar com explicações, o tempo não dava para isto. Ninguém percebeu o jato de raios da minha psico-pistola. Atingiu os três homens, obrigando-os a fazer o que eu mandasse.
Cinco minutos depois, estava bem longe do cais. O barco tinha um bom motor elétrico, abastecido pelo banco de carga. Quase não fazia ruído.
Atravessamos o Tejo, que nesta parte era bem largo e nos encaminhamos para o local em que a auto-estrada chegava bem perto do litoral. Saltei, apliquei mais um bloqueio hipnótico nos pescadores e me dirigi para a estrada. Novamente, entrou em ação meu radiador. Um carro parou perto de mim. A dona do carro, uma senhora já de idade, me levou uns quinze quilômetros para o oeste. Encontrei com facilidade o trecho de floresta. Fiquei olhando pensativo para a pequena viatura da senhora que já ia longe. Parecia tudo tão simples. Mas a preocupação crescia sempre.
Meu traje de proteção estava intacto. Vesti-o, regulei o gerador de gravidade e penetrei no mar, conservando-me sempre na superfície, para evitar que me localizassem. Fiquei atento na escuta. Uma vez fui apanhado pelo farol giratório de um navio. Deixei-me cair a pique, imediatamente, ficando uns dez minutos debaixo d’água, para depois emergir com cautela.
Ao chegar até o submarino, dei uma volta bem grande em torno dele. Suspeitava que estivessem à minha espera. Se fossem homens inteligentes, haveriam de ter certeza de que as radiografias que eu esquecera me dariam muita dor de cabeça.
Estava sorrindo, abri um pouco o traje de proteção, deixando que a água fresca me banhasse o rosto. Depois, com uma velocidade de 250 quilômetros por hora, o vibrador de ondas me levou para o oeste.
Os rapazes vão esperar à toa no fundo do mar. O que eu sentia é que as radiografias estavam nas mãos deles. Mas, não se podia fazer nada.
Enquanto me dirigia para o oeste, ia estudando o que devia fazer. Tornava-se urgente alterar as freqüências de minhas vibrações, pois, certamente, já haviam tomado meus dados no hotel de Lisboa. Quando aparecesse de novo, ninguém me reconheceria. Além disso, ainda tinha que fortalecer meu corpo enfraquecido. Isto exigia, pelo menos, um treino de quatro semanas em minha cúpula. A instalação adequada para isto, o próprio Rico podia montar. Se tudo corresse bem, no princípio de maio de 2.040, eu apareceria em Terrânia como um cientista muito bem formado, equipado com os melhores diplomas. Tinha intenção de trabalhar como engenheiro energético, porque este ramo era realmente minha especialidade.
Ria bastante dentro da água que eu cortava em grande velocidade. A vida estava magnífica e a questão de Rhodan começou a me interessar. Quem sabe, a esta altura, ele já sabia com quem estava lidando?
Se ele fosse realmente inteligente, não me haveria de considerar simplesmente um inimigo da Humanidade. E de fato, eu não era, nem nunca fui isto. Gostava muito destes pequenos selvagens, orgulhosos e de grande determinação, que agora estavam atingindo as estrelas.
Depois de algum tempo, surgiram os Açores e com isso eu já estava em segurança. Agora era mister prestar atenção para que não me confundissem de novo com um peixe estranho. Provavelmente, aquele trecho em que o submarino me encontrara devia ser até zona interdita à pesca.
Com muita cautela, mergulhei para o abismo. Deixei-me cair bem rapidamente, a uma média de 20 graus, até às profundezas do fundo do mar. Ali embaixo, eu estava em casa. Sentia-me tão bem como qualquer peixe.
De fato, a região em volta da Ilha de São Miguel estava coalhada de submarinos. Portanto minha teoria estava certa. Escorreguei pelas fendas do solo, até que fui localizado pelo cérebro robotizado da cúpula. Deixei-me sugar pela abertura da escotilha.
Rico estava no seu posto. Protegi imediatamente minha “moradia” contra localização submarina e, com o sugador a jato puxei um montão de lama e lodo de encontro à cúpula.
A partir daí, estava enclausurado por quatro semanas. Os homens maliciosos de Terrânia, a capital do Império Solar, que me procurassem.

Era o dia 24 de abril do ano 2.040. Estava sentado numa confortável poltrona da sala de espera do aeroporto de San Francisco esperando o clíper para Terrânia. Há sete semanas, havia começado o jogo que me levaria para o lugar desejado. Levei apenas três semanas para completar minha instalação e para devolver ao meu corpo sua antiga musculatura.
Estava mais do que claro que eu não podia aparecer em Terrânia como um cidadão qualquer. Eu precisava chegar a uma posição tal, que me desse livre trânsito nos círculos competentes, para comprar naves espaciais do menor tamanho possível, completamente automatizadas e quanto possível mais velozes que a luz. Portanto, tinha que me apresentar como cientista ou técnico com diplomas absolutamente em ordem.
Nem com tudo isso, seria aconselhável uma ida para Terrânia e lá, com um sorriso amarelo no rosto, ficar suplicando um posto de chefia.
Por este motivo, seguindo o protocolo geral de serviço, entrei, há duas semanas, com um requerimento, acompanhado de todos os documentos atinentes. Ontem chegou a resposta pela qual eu tanto esperava. Devia me apresentar em Terrânia ao Departamento do Pessoal, levando todos os diplomas no original.
Estava agora olhando para a minha pasta de documentos onde guardava tudo que eu havia conquistado nas semanas anteriores.
Um cidadão de Terrânia deve, a qualquer momento poder provar onde ele nasceu e de quem é filho. Sendo assim, escolhi a pequena Greenville, no Estado de Maine, como minha cidade natal e com o radiador hipnótico consegui que os documentos legítimos de nascimento fossem registrados e tombados com datas anteriores, no arquivo municipal.
Os funcionários da pequena repartição não compreenderam bem o que fizeram. De qualquer maneira, podiam jurar que eu nascera em Greenville, na extremidade sul do Lago Mosehead.
O próximo passo fora com a Universidade de Portland, onde convenci o velho diretor e dois outros professores de que eu tinha sido o melhor aluno. Os raios hipnóticos me arranjaram todos os diplomas. Em matemática, por exemplo, tinha sido magna cum laude.
A terceira fase não foi tão simples assim, pois desta vez, tinha que tratar com cientistas e com um complicado plano didático de uma grande academia espacial. A Academia para Vôo Espacial da Califórnia — CASF — já existia antes, mas agora estava reorganizada de acordo com os padrões dos arcônidas. Rhodan também tinha passado por esta academia, se bem que já há muitos anos.
Escolhi esta academia, porque, sem dúvida alguma, era a mais afamada do mundo. Quem viesse de lá, podia contar com simpatia geral. Somente a Academia de Terrânia era considerada superior, nela eram treinados somente os que já haviam concluído os estudos normais. Outra coisa também, eu não iria usar os raios hipnóticos em Terrânia. Haveriam de me descobrir em pouco tempo.
Levei uns quinze dias para conseguir os documentos com datas de anos atrás. Tive que influenciar hipnoticamente mais de dez cientistas para conseguir nos documentos originais a data desejada.
Munido destes documentos, podia comprovar que havia cursado 15 semestres, especialização — Técnica da Alta-Energia e Matérias em Geral: — Matemática Super-dimensional. Fui, supostamente, promovido e recebi o grau de doutor em 2.034.
Foi difícil manter contato com todos os professores e estudantes. Mas tive que fazê-lo para me familiarizar com os apelidos — qualidades extraordinárias dos colegas e mestres e — com a vida acadêmica em geral. Assim, bem preparado, tinha aberto o caminho para um campo de ação de seis anos. Estava freqüentando um professor particular podre de rico que, de acordo com o que se dizia, pertencia ao grupo daqueles cientistas que em sua mocidade tinham tomado parte com Perry Rhodan nas últimas incursões contra Árcon. Este senhor, já de idade avançada, tinha cinco assistentes, os quais influenciei com facilidade. Do professor Steinemann, especialista em Teoria de campo de cinco dimensões, recebi atestados maravilhosos referentes a uma atividade de seis anos contínuos.
De todos estes documentos, mandei fotocópias autenticadas para Terrânia. Em “O Sistema Solar”, conhecida publicação especializada, foi aberta a inscrição para o concurso de Diretor de Banca Examinadora. Eu me inscrevi e ontem, como já disse antes, chegou-me a resposta.
Até o presente momento, tudo corria às mil maravilhas. Já tinha despachado a mala pelo serviço automático direto do aeroporto. Na minha pasta de mão, estavam somente os papéis importantes, meus documentos pessoais e dinheiro. A venda de uns maravilhosos rubis do meu tesouro da cúpula deram-me o montante de 15.820 solares. O dinheiro estava depositado num banco particular de São Francisco. Calculei bem e consegui que, com meus merecimentos confirmados pelo professor Steinemann, esta quantia, relativamente elevada, pudesse ser poupada. Tinha inventado algumas coisas que me deram algum dinheiro.
Estava convencido de não haver cometido nenhum erro substancial, já que as freqüências de minhas vibrações celulares tinham sido alteradas. Portanto, não podia mais ser identificado através dos dados do hotel de Lisboa. Não mandei mudar a cor nem dos cabelos, nem dos olhos. Conhecia muito bem os homens e seus pensamentos. Provavelmente iriam supor que eu me apresentasse com máscara. E exatamente por este motivo é que permaneci como era. Meus cabelos louros eram normais para o tipo nórdico. Tinha apenas que ter cuidado com os olhos, cujo brilho avermelhado me podia trair. Consegui modificá-los, quando, por ocasião de uma leve conjuntivite, consultei o médico. Naturalmente, tive que influenciá-lo com os raios hipnóticos.
Estava me sentindo um pouco cansado e abatido. Meu subconsciente aflorava constantemente à tona do meu espírito com leves censuras. Talvez, pudesse encontrar em qualquer outro aeroporto da Terra um aparelho mais veloz do que a luz. Mas alguma coisa me dizia que isto seria possível somente na capital do Império Solar. Em outro lugar não havia aqueles aparelhos ultra-rápidos, usados pela patrulha espacial de Rhodan.
Havia me informado com detalhes sobre os diversos tipos. Um moderno Space-Jet era a construção mais adequada para mim. Um ronco ensurdecedor me arrancou dos devaneios. O chamado Gobi-cliper estava aterrissando. Fiquei observando as manobras de aterrissagem do aparelho vindo da Europa. Era um projétil comprido e estreito com reduzida superfície de sustentação, em forma de um delta, com dois possantes reatores que serviam também para a decolagem vertical. Exatamente no ponto preto, no meio do círculo vermelho, o aparelho tocou o solo tão suavemente que não se notou o menor solavanco nos amortecedores.
Uma voz robotizada começou a lançar no ar umas instruções de rotina:
Clíper do Extremo Oriente Zacho, Vôo 23-1712 para Terrânia, partida às 20:03 h. Favor tomarem seus lugares, o aparelho permanece no aeroporto somente 10 minutos.
Estava na hora. Peguei minha pasta, ajeitei os óculos escuros e caminhei para os controles automáticos. Um pequeno helicóptero levou a mim e os outros passageiros para o distante aparelho. O bojo devia ter uns cem metros de comprimento. Pesados robôs de carga transportavam a bagagem para os porões do aparelho.
Achei meu lugar numa poltrona reclinável, mais ou menos no centro do delta de sustentação. A decolagem foi suave. Sabia que aqueles aparelhos trabalhavam com neutralizadores de pressão. Depois da suave subida vertical, a pressão de aceleração atingia pelo menos dez graus. Apesar disso, não se notava nada de desagradável. Na frente do nariz pontiagudo do aparelho, via-se o espaço. O vôo para Terrânia levava meia hora, agora as manobras de aterrissagem duravam outro tanto.
A metrópole que surgia a meus olhos quase me tirou a respiração. Como o antigo deserto se transformou! Terrânia devia ter 14 milhões de habitantes. Quem vivia e trabalhava ali tinha sempre alguma relação com a navegação espacial. Da pequena base de 1.971, cristalizou-se a soberba capital da Terra e do Império Solar. Grande, bela e poderosa.
Aquele quadro me impressionou.
Entrementes o clíper já havia pousado. Um jovem oficial se dirigiu a mim. Estava armado e no lado esquerdo do ombro tinha um emblema: um cometa atravessado por uma seta.
O senhor é o Dr. Skörld Gonardson? — perguntou em voz um tanto alta.
Fiz um gesto de confirmação.
Bem-vindo, doutor. Estou incumbido de levá-lo a seu alojamento. Meu carro está atrás da galeria. Posso pedir-lhe a passagem?
Entreguei-lhe a estreita tira plástica. Tudo parecia bem mais organizado. Um tremendo zumbido me obrigou instintivamente a virar para trás. Bem afastado, um monstro redondo galgava os céus de Gobi. Quando as ondas sonoras chegaram, a espaçonave já tinha desaparecido. Acompanhei com os olhos embevecidos o gigantesco aparelho.
É apenas um cruzador pesado do tipo Terra — disse o tenente sorrindo. — É somente uma escolta para o comboio regular de transporte para o sistema Vega. Nós não temos coragem de deixar voar pelo espaço afora estes cargueiros desarmados.
Piscou um olho e sorriu feliz. Tive que voltar meu pensamento para a “Enciclopédia Terrana”. Conforme ela, Rhodan estava morto desde o ano 1.984 e a Terra tinha sido destruída. Que bela destruição foi esta! A Galáxia inteira se deixou iludir por um único homem.
Vamos — disse eu. — Que calor horrível faz aqui!
Espere então o mês de junho — sorriu o jovem com naturalidade. — Então, pessoas gordas fritam-se na própria gordura.
Olhou para mim com tanta insistência que tive de rir, sem querer. Como se eu tivesse alguma grama de gordura a mais.
Não há perigo, o senhor tem boa aparência — continuou ele sorrindo. — Quer um cigarro?
Obrigado, não fumo. Considero o cigarro um mau hábito.
Fechou um pouco a fisionomia e guardou o maço de cigarros.
Muita gente diz isto, doutor. Já que fui incumbido de cuidar do seu bem-estar, vou controlar meu vício.
Fiquei gostando do rapaz, tinha uma naturalidade muito cordial.
Cuidar do meu bem-estar?
Com a ponta do dedo indicador, levantou um pouco a pala do boné e olhando para mim calmamente, disse:
Conforme o capricho dos meus superiores, terei que bancar de vez em quando o guarda de vigilância no setor da banca examinadora. Já que o senhor será o chefe da T-18 será interessante não aborrecê-lo muito.
Franzi a testa e instintivamente peguei minha pasta. Era uma revelação sensacional.
Sorriu, contente, e continuou a me examinar.
Parece que o senhor não sabe ainda de sua grande sorte, não é? Quando chamamos candidatos para a capital, quer dizer que já estão aceitos. Do contrário não viriam diretamente para Terrânia.
Ah! — disse eu. — E por que é interessante não me aborrecer?
Olhou assustado em volta, antes de aproximar sua boca de meu ouvido:
Afirma-se que o conteúdo do tanque de óleo lubrificante na ala 18 se compõe dos ossos dos tenentes que se tornaram desagradáveis. Um colega meu ficou três horas em movimento espiral, indo à Lua e voltando, só porque se recusou a engraxar as botas do chefe de física.
Confirmava com acenos da cabeça, muito compenetrado, até que a admiração estampada no meu rosto o obrigou a uma sonora gargalhada. Eu também comecei a rir.
Os terranos tinham muito senso de humor. Talvez fosse isso um componente essencial do seu sucesso. Aquele tenente, por exemplo, parecia a própria alegria de viver. Certamente, se transformaria em excelente lutador, na hora necessária. Gente do seu tipo, na hora decisiva, são verdadeiros heróis.
Lembro-me de um homem que conheci há muito tempo. Deu-me seu último pedaço de pão, porém, quando soube quem eu era, queria me matar. Perguntei pelo nome do jovem tenente. Chamava-se Tombe Gmuna, tinha 21 anos e estava acabando de sair da academia. Como ele mesmo disse, tinha 52 cursos por hipnose em Galatonáutica, estudos de Alta-Energia e de Armas. Mais um motivo para aumentar minha inquietação, que já era grande.
Gente como eu nota logo quando alguém joga verde para colher maduro, isto é, quer nos sondar. Mas o rosto de Gmuna, preto como o ébano, irradiava uma alegria e uma naturalidade juvenil, onde não cabia nenhuma segunda intenção. Ria muito e alto, era sincero, bem-humorado e prestativo. Apesar disso, de vez em quando fazia certas observações que me traziam uma tensão de nervos, lembrando-me as semanas anteriores. Já tinha sido testado antes mesmo de subir no helicóptero.
Daí em diante, estava certo de que ele não era um simples oficial da frota espacial. Se o pessoal de Rhodan era todo tão perigoso assim, então eu teria, no máximo, oito dias de tempo. Se, dentro deste período, não tivesse desaparecido, era sinal de que as coisas estavam bem. Meu instinto me dizia que devia, no máximo, chegar até seis dias só. Com toda certeza, não permitiriam a ninguém de entrar no espaçoporto, antes de conhecê-lo a fundo.

Minhas respostas pareciam satisfazer a Gmuna. O pequeno vestígio de um princípio de nervosismo havia desaparecido. Daí para frente, sentia-me mais natural. Tive a impressão de que sua tarefa já estava cumprida.
Saímos com o pequeno helicóptero do aeroporto e minutos depois surgia no horizonte a bolha incandescente de uma cúpula energética. Já a conhecia da “Enciclopédia Terrana”. Foi o ponto onde, há 69 anos, pousou o módulo lunar, comandado por Rhodan.
O espaçoporto, que estava debaixo de nós, era uma coisa gigantesca. Apesar da altura bem grande em que nos encontrávamos, não conseguia ver seus limites. Via galerias de dimensões fantásticas. Pelo menos, para mim, eram assustadoras.
Centro de acabamento das belonaves — explicou-me meu companheiro. — Imponente, não é?
Concordei com plena convicção.
Muito imponente!
Sobrevoamos o espaçoporto e tivemos que nos desviar de uma gigantesca esfera que aterrissava. Passamos depois sobre arranha-céus em que estavam instalados setores de administração.
De Terrânia mesmo, não se podia ver muita coisa. Aqui imperava a frota espacial solar. No comando desta, estava um homem, cujo nome, atualmente só se podia pronunciar com muita cautela. Estava convencido de que Perry Rhodan era um psicólogo muitíssimo inteligente. Ocultava-se no manto do silêncio, vivia em constante retiro e muito raramente aparecia diante das câmaras da Terravisão. Era a força operante que agia nos bastidores. É claro que não tinha a vaidade de querer aparecer.
O fato era que havia uma fantástica propaganda oral e uma justa glorificação de seus feitos. Eu tinha, porém, a certeza de que, cercado por seus colaboradores, Rhodan continuava sempre ativo. Era um homem, cuja fibra não permitia abandonar a obra imensa que criara.
Alguns segundos antes que um aviso de rádio desse a ordem para que todos os aparelhos descessem imediatamente, aterrissamos no amplo terraço de um edifício de cem andares.
Ao descer do helicóptero, com as pernas enrijecidas, Gmuna me puxou para o abrigo do nosso pequeno aparelho que ficou preso por grandes eletroímãs fixados na laje de cimento armado.
Não olhe para dentro — gritou-me o oficial bem alto.
Primeiro não compreendi o que ele queria dizer. Depois fomos atingidos pelas ondas de som.
Mais para o sul, quase na linha do horizonte, surgia uma espaçonave, incandescente, despejando raios de fogo. Cresceu para um imenso balão, passando sobre nós numa velocidade incrível. Um grande clarão iluminou o antigo deserto, hoje transformado num imenso canteiro industrial, raramente interrompido por pequenas manchas verdes.
Perplexo, acompanhava o rastro de fogo. Não eram fagulhas provenientes dos reatores de propulsão, mas tão-somente partículas superaquecidas da atmosfera na decolagem do monstro espacial.
Estava realmente atônito.
É uma nave do tipo Stardust? — perguntei quase gaguejando.
Maior, muito maior — explicou-me Gmuna. — Do tipo Império, com 1.500 metros de diâmetro. É a grande novidade. Deve ser um vôo experimental, creio eu. Venha, por favor.
Meio aturdido, segui o rapaz. Nem reparei nos controles robotizados do elevador de alta velocidade em que descíamos. Ainda estava pensando nas dimensões daquela espaçonave, que há pouco se projetara no espaço. Mil e quinhentos metros de diâmetro! Isto eu nunca tinha visto nem ouvido falar. Tive que me dominar para não fazer a pergunta se aquele gigante tinha sido construído na Terra.
É claro que sim. Não havia outra possibilidade. Estava muito confuso, principalmente incrédulo e disposto a acreditar que tudo não passava de uma bem montada miragem. Mas, minha lógica repetia com firmeza que Rhodan, desde 1.984, tinha tido 56 anos para se dedicar com exclusividade ao progresso da Terra, com toda calma e sem ser perturbado por nenhum inimigo. Desta forma, surgira aquele poderio tremendo, graças à visão inteligente de Rhodan.
Não, não podia mais odiar estes pequenos terranos. Pequenos, mas tão fortes. De outro lado, me sentia impaciente e desanimado. Eles, os terranos, não tinham o direito de saírem vendendo pelo cosmo afora o que descobriram por acaso. Se Rhodan, quando da sua primeira ida à Lua, não tivesse achado os escombros de uma espaçonave arcônida, a situação seria bem outra. Por muito favor, a Terra teria apenas chegado ao nível de uma pequena navegação espacial dentro do sistema solar.
Não podia estar satisfeito com o destino que me fizera dormir durante os anos mais importantes do progresso da Humanidade.
Havia ainda outra coisa que me fazia morrer de curiosidade. Qual era, propriamente, a idade de Perry Rhodan? Quando aparecia uma vez ou outra na televisão, sua postura atlética o colocava na quadra dos trinta anos. Mas isto tinha que ser uma máscara, sim uma máscara. Minhas pesquisas com o professor Steinemann provaram que Perry Rhodan nasceu a 8 de junho de 1.936. Portanto deveria estar agora completando 104 anos. Mesmo que tivesse usado toda técnica biológica de Árcon, já tinha de estar muito velho e acabado. Eu lhe daria, no máximo, mais dez anos de vida, com todos os recursos modernos.
Um simples cálculo de aritmética provava que Rhodan tinha toda razão de viver assim retirado e quase escondido. Um homem de 104 anos não pode mais ter força nem disposição para nada, nem mental, nem física.
Estava rindo sozinho. A “Enciclopédia Terrana” não dava explicação nenhuma para esta questão. Deixava a massa popular na crença de que Rhodan era um prodígio da natureza. De vez em quando, surgiam até vozes falando de uma relativa imortalidade, o que não deixava de ser uma grande asneira.
Despertei dos meus sonhos. Tombe Gmuna estava falando comigo:
O doutor possui os originais de seus diplomas?
Como? Sim, é claro. Já estamos no Departamento do Pessoal?
Não. Primeiro vem o da Defesa Solar.
Sorriu ingenuamente para mim, mas seus olhos pretos investigavam alguma coisa. Sentia aquela leve inquietação que mesmo pessoas íntegras sentem perante os representantes da lei.
Mais isso ainda — observei. — Pois bem, vamos! Você já refletiu que um homem da minha estatura também pode ter fome? A viagem foi cansativa.
Gmuna começou a rir de novo. Sua suspeita parecia ter sumido. Caminhei através de portas deslizantes. Se me colocassem agora diante de um aparelho de raios X, estaria tudo acabado. Era a incógnita em minha equação. Minha pistola de raios hipnóticos estava naturalmente na mala que despachei separadamente. Não podia me arriscar a trazê-la quando dos meus primeiros contatos.
Estava, pois, desprotegido. Tinha que esperar o exame médico. Este deveria ser feito logo após minha chegada. Se me dessem ao menos o prazo de um dia, estaria salvo. Meu equipamento especial estava num armário automático da cidade. A mala comum ainda encontrava-se em São Francisco. Estava tudo muito bem pensado, apenas a sorte é que não podia se esquecer de mim. Achava-me preparado para enfrentar os mutantes. Tinham de ser, naturalmente, telepatas. Embora soubesse que Rhodan se utilizasse dos mutantes para missões especiais no espaço, havia ainda a possibilidade de que quisessem me testar. Para isso, estava preparado, pois eu só permitia sair o pensamento que eu quisesse manifestar.
Assim, eu era o Dr. Skörld Gonardson e nunca estivera em contato mais íntimo com um submarino de pesca.
Atrás da escrivaninha se levantou um homem de ombros largos, com uniforme do Império Solar. Era um militar graduado.
Kosnow — disse, se apresentando. — Sente-se, por favor, doutor. Cigarro?
Um estojo de metal de Zalos se abriu e Kosnow me contemplava com um sorriso amável. Recusei, agradecendo, sabendo já que este oficial tinha estado pelo menos uma vez no planeta do Império Arcônida chamado Zalit, pois somente lá é que havia daquele metal zalos.
Olhei com curiosidade para o lindo material de fluorescência esverdeada. Daria muito na vista se eu não estranhasse a bela peça de arte.
Obrigado, não fumo. Diga-me por favor, que material é este? Posso vê-lo?
O tenente-general pigarreou e com um simples aceno de cabeça pediu que o tenente Gmuna deixasse o aposento.
Naturalmente. Não conheci ainda nenhum cientista que não perguntasse pela procedência do material. Mas, por favor, acomode-se.
Meu sexto sentido se apresentou “Muito bem, isto foi um teste. Estão estudando você. Foi muito bem arquitetado. Você tem que se dominar mais ainda.”
Estava diante de um homem que pertencia ao estreito círculo dos colaboradores íntimos de Rhodan. Kosnow era Ministro da Defesa.

Esperei até que Evelyn Tunics acabasse de enfiar no automático a fita de programação. Ainda tinha cinco minutos.
Fazia exatamente uma hora que minha manobra de falsificação com o estudante de medicina Flynn tinha sido descoberta. Naturalmente, o médico-chefe do Serviço de Defesa não sabia que esteve sob bloqueio hipnótico durante toda a consulta. Sem ninguém notar, consegui escapar da radioscopia. Um médico assistente, sob coação, foi obrigado a ficar diante do raio X e assim foi possível dar a chapa toráxica deste estudante de medicina, como se fosse a minha. Ainda não podia compreender, como hoje, seis dias depois da consulta, tinham descoberto a mistificação. Recebi apenas um aviso de Afonso Bonkun de que tinha havido de repente uma verificação.
Bonkun era um auxiliar de laboratório, influenciado por mim. Informou-me através de uma micro-emissora. Disse ainda que a comissão examinadora estava sob a direção de uma telepata. Nesta altura, a ligação foi cortada.
Estava sentado no porão de controle da Banca Examinadora T-18. Evelyn Tunics fazia o papel de matemática de programação. Há quatro horas, havíamos recebido a incumbência de examinar com exatidão uma espaçonave do tipo Space-Jet, completamente automatizada.
A lista de controle para a disposição positrônica tinha sido cortada. Minha função era fazer com que as instalações de alta energia funcionassem perfeitamente.
Há duas horas atrás, foram tomadas medidas especiais de precaução. Primeiro, supus que me estavam seguindo a todo passo. Quando estava para empreender a já bem preparada fuga, apareceu aquele homem, cujo nome já me provocava sonhos terríveis. Meu estado de confusão na frente dele era tremendo. Somente os olhos dele me desmontavam todo. Parecia que seu olhar era uma radioscopia. Se havia alguém capaz de conhecer as pessoas do meu tipo, era ele.
Este temor contribuiu um pouco para a perda do meu autodomínio. Porém, havia ainda outra coisa que me preocupava.
Perry Rhodan, o administrador do Império Solar, era, ou um fiel sósia do verdadeiro Rhodan, ou era o próprio Rhodan em carne e osso.
O homem que acabava de entrar para a banca examinadora jamais podia ter 104 anos. Era um terrano de compleição atlética, cheio de energia, movimentos elásticos, pele esticada e olhos claros. Era tão alto como eu, apenas de ombros mais largos.
Por que você me olha tão fixamente assim? — perguntou ele.
Estou me lembrando da data do seu aniversário, senhor — respondi gaguejando.
Raramente vi um homem rir de modo tão franco assim. Virou a cabeça para trás e a sua gargalhada tinha um timbre de tanta espontaneidade que não pude deixar de acompanhá-lo.
Depois disso, precisei de duas horas para me recuperar da dolorosa surpresa. Gente do meu tipo pode se prejudicar com emoções tais, quanto à saúde.
Quando me senti em condições, ele ainda estava na banca examinadora. Ele se interessava, pessoalmente, pelas máquinas vitais das naves.
Logo depois, a jovem matemática me comunicou que o chefe pretendia decolar pessoalmente com o Space-Jet. Isto queria dizer que tínhamos de rever os pontos prescritos do bloco de controle, pelo menos duas vezes.
Foi realmente uma coincidência muito infeliz, que exatamente neste momento a Defesa Espacial estava descobrindo minha falsificação com a radiografia. Alguém havia desconfiado. Quem sabe, os dois estudantes de medicina me haviam traído.
No momento, Perry Rhodan estava deixando a grande banca examinadora. Meus olhos o seguiram febrilmente. Será que este homem podia ter 104 anos? “Impossível”, pensei. Talvez o verdadeiro Rhodan já estava morto há tempo e — por motivos políticos — tinham que prolongar a sua imagem.
Nas telas do porão, resplandeceu o aparelho, novo em folha. Uma construção soberba, de conformação elíptica, com propulsão acima da velocidade da luz, e com transição automática. Há seis dias, minha única preocupação era encontrar uma nave assim. Agora, tinham colocado a espaçonave dos meus sonhos diretamente diante do meu nariz, dando-me até a possibilidade de examiná-la.
Se tudo desse certo, na próxima noite eu desapareceria com o Space-Jet. Mas agora era o próprio Rhodan quem ia dirigir. Os preparativos davam a entender que ele haveria de ir além do sistema solar. Dependia apenas da experiência com os motores de propulsão.
Tinha ainda dois minutos.
Pronto — disse Evelyn.
Comprimi automaticamente os botões do telecomando.
O conjunto dos motores se pôs a funcionar no bojo do aparelho. Quando elevei a força do empuxo para 40 mil toneladas, Evelyn reforçou o campo energético.
Estava chegando a hora. Nas duas pequenas telas para observação do lado de fora, podia-se perceber alguns homens. Vinham como que casualmente para a antecâmara da banca examinadora. Atrás deles, aparecia uma mulher de porte esbelto, de cabelos louros. Nunca a vi antes, mas a postura tensa de sua cabeça, como quem quer ouvir algo ao longe, me dava a certeza de que se tratava de uma pessoa de faculdades transcendentais.
Evelyn estava ocupada com a segunda fita de programação. Levantei-me depressa e me dirigi para as pesadas portas blindadas do porão. Antes de abri-la, liguei o gerador de deflexão. Estava pendurado no meu pescoço, ao lado do ativador celular. No entanto, sua função era outra.
O desvio da luminosidade me tornava invisível para olhos normais. Uma localização por via energética era totalmente impossível, porquanto eu usava uma voltagem muito baixa. Meu campo de desvio da luminosidade era coberto pelos numerosos motores em volta.
Esgueirei-me pelo vão da porta, corri para a parede abaulada do corredor central e alcancei com uns bons pulos a entrada da galeria da tubulação de ar condicionado. A simples fechadura não resistiu, empurrei a grade para cima, entrei e fechei novamente, ficando depois parado.
Por cima de mim, era a confusão de tubos do sistema de refrigeração do ar. Mais ao longe estrugiam os motores de um daqueles aparelhos, pelo qual eu daria a vida.
Momentos depois, chegaram eles, uniformizados, com armas energéticas na mão. No meio deles havia uma mulher loura. O tenente-general Kosnow estava também presente.
Ao ver, mais ao longe, o estudante de medicina, meio perturbado, cheguei à conclusão de que foi por meio dele que eu fui desmascarado.
Você consegue identificá-lo? — perguntou Kosnow, em voz baixa.
A jovem senhora sacudiu a cabeça. Estava em trajes civis, mas eu tinha certeza de que pertencia ao corpo de mutantes de Rhodan. Estava muito atento ao meu envoltório magnético, pois se eu me traísse com um único impulso, estaria tudo perdido. Apesar do campo de desvio, não conseguiria me livrar dela.
Foram para frente, com muita cautela, como percebi. Dois robôs arcônidas tomaram posição diante da entrada da galeria de ventilação.
Momentos depois, atingi a parte superior da galeria, subindo os degraus existentes ali. A galeria terminava exatamente ao lado de um amplo portão de entrada para o porão de controle subterrâneo. Mais para frente se erguia do chão a poderosa laje de cimento armado da sala de exames. A uns dez metros dali, eles haviam deixado seus helicópteros. Era realmente como eu supunha: com as grandes distâncias, não era interessante usar carros.
Com muito cuidado, tirei de trás do ventilador de sucção, onde a havia guardado há quatro dias, minha pistola de raios energéticos. Se meus cálculos não falhassem, dentro de três minutos o inferno escancararia suas portas. Até então já deviam ter percebido que eu não estava mais no porão de controle.
A trava de mola da portinhola voltou ao seu lugar sem nenhum estalo. Inclusive, eu havia até lubrificado a dobradiça. Fui saindo sem o menor ruído. Lá fora, o primeiro aparelho estava desocupado. Junto dos outros helicópteros havia guardas; eram quatro. Tudo corria dentro do planejado. As dificuldades começariam agora.
Entrei pela porta meio aberta e sentei diretamente no posto do piloto. Meu sexto sentido se manifestou:
Você deve voltar. A cova do leão ainda é o melhor esconderijo. Você vai ver!
Os raios sugestores começaram a trabalhar. Os quatro guardas se viraram, olharam com alguma hesitação para mim, e colocaram suas terríveis armas no chão, no momento em que as sirenes de alarme começaram tocar no porão.
Era a hora. Liguei o motor e puxei o helicóptero vertical. Esperei um segundo, como mandava a lógica do meu plano, pois eles tinham de ver que quem fugia era eu. Estava calmo e equilibrado quando me inclinei no sentido da porta aberta. A uma altura de vinte metros, abri fogo contra os dois robôs que vinham correndo pelo portão de entrada.
Na sala da banca examinadora ecoou o ronco do motor do helicóptero. Depois, o breve silêncio foi cortado pelo reflexo dos raios energéticos e, por fim, pela explosão de dois aparelhos igualmente atingidos.
Com a mão esquerda, liguei o campo de desvio da luz. Aconteceu que alguns homens da tropa de investigação surgiram.
Reconheceram-me imediatamente, porém não reagiram pois a região toda estava sob meu fogo e os aparelhos estacionados eram um montão de chamas. Para mim era suficiente o fato de eles me terem visto. Com um último olhar, percebi que não havia ferido ninguém. Não era mesmo minha intenção, pois tinha certeza de que ninguém me considerava um inimigo, que tivesse de ser exterminado a qualquer preço. Por que, então, tinha eu que matá-los?
Sobrevoei três quilômetros de zona de segurança, entre a seção das bancas examinadoras T-18 e os gigantescos estaleiros onde eram fabricadas as espaçonaves mais leves, tipo Gazela.
Antes que alguém lá embaixo soubesse do que havia acontecido do outro lado da zona de segurança, eu já estava aterrissando.
Meu macacão azul-claro indicava que eu era engenheiro da diretoria. Conduzi o aparelho por entre as torres antigravitacionais do estaleiro, saltei e deixei o helicóptero ali mesmo, gritando para os homens:
Deixem tudo como está e fechem as portas. Houve um atentado no T-18. Onde encontro o engenheiro de serviço?
A reação foi rápida. Estes rapazes valorosos e inteligentes se deixaram iludir por uns instantes, e isto me era suficiente.
Está no centro de ligações, senhor — gritou um homem.
Correu e alarmou a todos os outros.
Acenei com a mão direita e desapareci atrás da primeira torre de gravitação, onde um possante reator catalítico estava à espera de transporte. Assim que me senti protegido dos olhares alheios, liguei de novo meu campo de desvio da luz, que me dava a certeza de estar completamente invisível.
Daí em diante, meu plano era cronometrado. Tinha que conseguir fazer em trinta minutos o caminho percorrido pelo helicóptero. A partida de Rhodan estava marcada para as 13:30 h. Parecia-me improvável que ele fosse adiar a partida. Como Evelyn me havia dito, devia se tratar de um caso especial.
Agora, não era realmente difícil vencer três quilômetros em meia hora. Mesmo assim, tinha que contar com dificuldades e imprevistos. Iniciei uma corrida quase de resistência, saltando barreiras e passando por entre pessoas nervosas que acabavam de ser informadas por um oficial da segurança, todo banhado de suor, de que o procurado se fazia desaparecer com o desvio da luz. Ninguém o podia ver.
O oficial era Tombe Gmuna. Passei tão perto dele. Quase nos encostamos. Claro que não me viu. Ninguém teria de voltar a pé para o lugar de onde havia fugido há poucos minutos. Mas era a chance que se me oferecia. Tinha de aproveitá-la enquanto ainda existia. Gente do meu tipo não hesita, nestas horas.
Diante da cerca divisória do trecho interditado, fiquei parado, meditando. Numa atividade sem precedentes, todos estavam à minha procura. Diante de mim, aquela extensão enorme de cimento armado, sem o menor vestígio de vegetação. Ali estava a saliência abobadada das instalações subterrâneas da banca examinadora. Cada vez mais, os aparelhos aterrissavam no local. Comandos e comandos de robôs, pareciam ao longe pequenos pontos escuros.
Não ia poder manter por muito tempo minha preciosa arma, pois haveria certamente um rastreamento energético. Muito preocupado, coloquei-a próxima à cerca e continuei minha corrida. Não tinha mais tempo para procurar os esconderijos onde havia guardado uma grande parte de meu equipamento especializado. As coisas que ainda estavam comigo eram o gerador do desvio da luz e a hipno-pistola, que contra os mutantes era totalmente inoperante. Mesmo homens de mente firme conseguiam se defender de sua influência.
Do ponto de vista prático, só dispunha mesmo do meu instinto de conservação que, no momento, me aconselhava a arranjar um mapa. Pois, bem perto de mim, havia um aparelho preparado, de construção correspondente aos meus planos, já que não me foi possível me apossar de um Space-Jet.
O caminho para alcançar o meu intento era muito longo. Para conseguir vencê-lo havia necessidade de instrumentos funcionando perfeitamente, gêneros alimentícios e água fresca. Precisaria também de uma bem montada positrônica a fim de calcular os saltos para a navegação nas Galáxias e também de algumas horas com o intento de colocar as coordenadas nas fitas de programação.
Estava chegando ao fim do meu caminho, dos meus objetivos, tinha apenas que contar com um fator, aliás, muito importante. Este fator se chamava Perry Rhodan. Um trágico destino me levou de encontro ao homem mais perigoso da Terra, exatamente no momento em que não me interessava de maneira alguma este encontro.
Durante minha desabalada corrida, surpreendi-me sorrindo sozinho. O sujeito me agradara, realmente, este bárbaro de olhos claros, de gestos sempre comedidos. Pertencia ao tipo de homens que a gente ou ama, ou odeia. Certamente, seria um amigo fantástico, quando queria.
Como inimigo, eu o respeitava mais ainda, contando, naturalmente que Rhodan ainda era o mesmo de 69 anos atrás, quando iniciou seu plano arrojado. Pois, alguma coisa dentro de mim me dizia que Rhodan ainda era o mesmo.
Com isto, foi se esclarecendo para mim o grande enigma, isto é, como este homem tinha conseguido chegar aos 104 anos fisicamente jovem e com o espírito ágil e sadio. Se não soubesse, por estudos, o dia de seu nascimento, teria que lhe dar, no máximo, 37 anos.
Atingi o porão exatamente depois de 15 minutos. Daí para frente, tinha de me esgueirar por entre os robôs que vinham de todos os lados. Foi mais fácil do que eu pensava, pois ninguém esperava minha volta. Seria realmente uma idéia maluca. Um pouco mais longe, parecia que todos os técnicos e engenheiros dos estaleiros de Terrânia estavam reunidos em assembléia. O céu, acima das gigantescas instalações, estava coberto por espaçonaves.
Com a maior calma, continuei andando ao longo da muralha de cimento armado, até descobrir a pequena pista para decolagem de espaçonaves leves. Estava num rebaixamento artificial do solo, equipado com grandes elevadores. Era daqui que partiam os vôos de experiência.
Diante do aparelho estava Rhodan, cercado de cientistas e oficiais. A senhora loura não estava mais com eles. Talvez tivesse sido requisitada para a grande caçada à minha pessoa. No presente momento, o lugar mais seguro era realmente ao lado deste grande homem, que estava ali, tão simplesmente, ao lado de seus mais íntimos colaboradores. O tenente-general Kosnow também estava presente.
Cheguei ainda mais perto, até que consegui passar entre os trens de aterrissagem do Space-Jet. Devido sua conformação elíptica, suas medidas externas eram 35 metros por 20.
Fiquei parado, bem debaixo da escotilha de serviço, tentando ouvir possíveis ruídos, pois era provável que havia gente dentro do aparelho. Rhodan estava a menos de cinco metros de mim. Seu rosto, normalmente um tanto anguloso e duro, estava mais relaxado. Tive a impressão de que ele não se preocupava nem um pouco com minha fuga. Em compensação, quem estava muito nervoso era Kosnow, o Ministro de Segurança. Ouvi-o falar alto e depressa. Rhodan não dava uma palavra. Vez por outra, contraía os lábios e voltava com uma expressão de amável ironia nos olhos, examinando o excitado Ministro de Segurança.
Determine o bloqueio do espaçoporto, Peter — disse Rhodan com voz calma. — Ele veio para cá com o intuito de arranjar uma espaçonave. Chame-o abertamente pelo rádio e peça que ele se comunique com você.
Acho que nunca vi um homem tão desconcertante em minha vida. Kosnow ficou pálido.
Por favor... será que...
Exatamente isto. Por que vocês pretendem matá-lo? Ofereçam-lhe toda hospitalidade, em meu nome, e peçam-lhe que espere até meu regresso. Apenas impeçam que ele arranje uma espaçonave. Não precisam fazer mais do que isto.
Mas, senhor, eu sou de opinião de que...
Rhodan olhou tranqüilo para o relógio. Já estava com o traje espacial.
Não me torne a vida mais difícil, Peter. Ele está sozinho e desesperado. Sua atuação até hoje é muito interessante. É admirável a precisão com que tem trabalhado, para conseguir todos estes diplomas. Tudo isto tem de ter um sentido. Peça para ele se apresentar. Depois, veremos o resto. Em três dias, estarei de volta. Chame seu pessoal para fora do aparelho.
Afastei-me depressa da escotilha, quando doze rapazes uniformizados pularam para fora do aparelho. Um jovem capitão fazia a comunicação em voz alta e eu comecei a sorrir quando ele dizia que o procurado não estava dentro do aparelho.
Rhodan acenou confirmando, despedindo-se pessoalmente de cada um. Aproveitei estes rápidos segundos para subir pela escada de bordo feita de material plástico. O único esforço que fazia era para não provocar o menor ruído. A escotilha estava aberta e atrás dela havia um pequeno corredor em semicírculo que conduzia para a central de comando. Apesar de suas dimensões, o aparelho era chato, em forma de um disco, com quatro reatores para decolagem vertical e para aterrissagem. O mecanismo de propulsão estava bem no centro. Passei através da forte parede blindada para a central e dei uma olhada em volta. As telas panorâmicas já estavam em funcionamento. Era como se a gente estivesse diante de uma parede transparente. Rhodan desapareceu sob o bojo chato do aparelho. Estava na hora de eu agir.
Atrás da central, saía o corredor que levava para os aposentos da tripulação. Lá, naturalmente, seria descoberto logo. Escolhi, pois, para meu esconderijo, um armário de parede. Achei nele quatro trajes espaciais, iguais ao que Rhodan estava usando. As mochilas continham microrreatores para produção de energia para refrigeração e para o dispositivo de purificação do ar. Fora disso, os uniformes possuíam um projetor do campo de proteção, para a formação do envoltório magnético.
Pulei para dentro do armário de parede, estudei bem o ambiente e fechei a porta. Momentos depois, Rhodan entrou na nave.
Meu coração batia calmo e normal. Depois de apalpar todo o armário, encontrei uma pistola energética, o que me deixou bem mais tranqüilo. A poucos metros de mim, o homem mais misterioso do sistema solar se preparava para decolar. Talvez fosse uma viagem de inspeção a uma base comercial ou militar fundada por ele no Império. Rhodan era o tipo do homem que se preocupava com tudo.
Cinco minutos depois, começou a funcionar o conjunto de instalações para fornecimento necessário dos campos energéticos. Instantes após, senti um leve puxar do campo de neutralização da gravidade e... já estávamos longe.
O som cavernoso dos reatores me encheu de grande contentamento. Minha memória fotográfica estava repleta de imagens dos tempos antigos. Imagens belas e promissoras. Rhodan pessoalmente me estava proporcionando, sem o querer, a oportunidade por que esperei tanto tempo.
Mas você perdeu 69 anos dormindo”, dizia-me meu sexto sentido.
Fiquei irritado com a idéia. Sempre as mesmas admoestações. Mas desta vez tinha dado certo.

As dores eram terríveis e insuportáveis. Começaram na cabeça e pouco depois foram para a coluna vertebral. Agora era o corpo todo que me doía. Depois da transição através do hiperespaço, sentia-me aniquilado dentro do armário. A minha sorte foi que Rhodan não percebeu nada do que se passava, devido ao tremendo ronco dos motores.
Realmente, estava sofrendo bastante. A dor era tanta que parecia tomar todo meu corpo. Sentia uma vontade louca de gritar, mas era imperioso que não o fizesse. Com as últimas forças do meu ser, consegui me dominar um pouco, reconhecendo que realmente havia subestimado a pessoa de Rhodan. Devia ter a saúde de um homem primitivo, e o treinamento de um atleta de grandes performances.
Logo após a primeira rematerialização, comecei a gemer de dores. E uns cinco minutos depois, Rhodan já estava na segunda transição. Agora, depois do terceiro salto, minhas forças chegaram ao fim.
Não estava acostumado a viajar pelo espaço desta maneira. Logo após a decolagem no espaçoporto de Gobi, consegui, apesar da escuridão reinante no armário, achar e vestir um traje espacial.
Sentia-me preparado para qualquer eventualidade. Era meu plano aguardar até que Rhodan tivesse conseguido a primeira transição e depois, obrigá-lo, sob a mira da arma, a fazer o que eu queria. Poderia ter feito isto, já desde o início, mas, não sei por quê, preferi esperar um pouco. Talvez fosse porque, conforme meus cálculos errados, estivéssemos ainda muito próximos da Terra Com isso, perdi uma ótima oportunidade. Naturalmente, não poderia imaginar que haveria de me sentir tão mal após a primeira transição, que não tinha mais força para levantar a mão. Agora, estava eu ali, me contorcendo de dores e cheio de remorsos, num esconderijo indigno. Seria um golpe errado, em tais circunstâncias, querer ameaçar um homem que estava acostumado com todos estes efeitos. Mesmo com a possibilidade de tudo virar contra mim, ainda teria de esperar. Bastaria que ele simplesmente e por acaso abrisse agora o armário, para que eu caísse em suas mãos.
Assim, fiquei ali, bem quieto, crente de que minha rápida ativação celular me deixaria em boas condições dentro de uma hora. Naturalmente tudo estaria na dependência de que este bárbaro de olhos claros me desse realmente os 60 minutos.
Além das dores físicas, fui acometido também de uma terrível psicose de fobia. Rhodan havia saltado três vezes através do espaço. A julgar pela dor sofrida na rematerialização, teria ele, em cada salto, percorrido uma distância muito grande. Para onde é que me estava levando? Estaria eu ainda em condições de achar meu caminho entre as estrelas? O que aconteceria se ele me levasse para uma região que me fosse completamente desconhecida?
Tinha que usar de todas as forças para dominar a revolta dos meus instintos. Se ao menos, gente do meu tipo, pudesse não sentir esta terrível dor da rematerialização!
Quando as máquinas voltaram novamente a funcionar a toda força, e portanto com maior ruído, aproveitei o ensejo para gemer de dor, um pouco mais alto. Não adiantou muito, mas ao menos pude ouvir minha própria voz.
Procurei através de um equilíbrio emocional ter ódio de Rhodan. Mas por mais que me esforçasse, não me foi possível achar motivos para odiá-lo. Alguma coisa em meu íntimo me impedia de ver maldade ou injustiça neste homem. Portanto, jamais poderia odiá-lo. O máximo que podia fazer, nesta situação, era lamentar as dores de cabeça que eu estava suportando. Ele não tinha culpa.
Rhodan não tem nada que ver com isto, seu bobo”, dizia meu sexto sentido.
Comecei a esperar e a desejar que os minutos passassem mais depressa. Cada minuto era para mim a ameaça de uma nova transição, que me faria sofrer ainda mais. Depois de passar uma meia hora sem novidade, concluí que Rhodan estava chegando ao seu objetivo. Eu calculava que ele estivesse descendo em qualquer sistema solar por aí, com velocidade não superior à da luz. Se não fosse assim, com os fantásticos equipamentos que possui, já teria dado outros saltos.
Após uma hora, minha dor de cabeça começou a diminuir e um pouco depois a regeneração do meu sistema nervoso estava concluída. A pulsação do meu ativador era forte. Sentia novo vigor e um bem-estar geral. O microdispositivo, como sempre, ligara automaticamente. Trabalhava com plena carga. Caí numa gostosa sonolência, acordando de repente, após uns quinze minutos. O ronco dos reatores estava agora mais forte, podendo ser somente a inversão dos motores para uma forte frenagem. Rhodan estava realmente se preparando para aterrissagem.
O pensamento nos perigos, que a nova situação me traria, me fez estremecer todo. Podia me encontrar em qualquer lugar, apenas não num mundo onde teria todo apoio. Aí, eu não teria chance nenhuma. Levantei-me afobado, apanhando a arma. Minhas idéias começaram a se atropelar. Que devia mesmo fazer?
O zumbido era infernal: ronco cavernoso misturado com silvos agudos. Era os quatro reatores que abrandavam a queda. Nervosamente procurei pela fechadura da portinhola. Tudo, menos descer, tudo menos aterrissar, é o que martelava em minha cabeça. Destravei a porta e a abri. A menos de três metros de mim, estava a poltrona do piloto, virada um pouco para o lado.
Rhodan olhou-me imóvel. O cano cintilante de sua pistola energética apontava para mim, pois já estava informado sobre minha presença a bordo, antes mesmo de eu me ter anunciado com tanto ruído. Eu estava realmente perplexo, como foi que percebeu minha presença?
Sua mente, seu bobo, você esqueceu”, disse novamente meu sexto sentido.
Aí é que fiquei sabendo que meu adversário possuía também poderes telepáticos. Ele me localizou mentalmente na hora em que relaxei minha defesa mental.
Deponha a arma, arcônida, e volte para o armário.
Aquelas palavras, ditas com tanta calma, me chocaram. Rhodan agia friamente, como uma máquina. Não parecia nem surpreendido, nem assustado. Além disso, percebeu imediatamente qual era o tipo de clandestino que tinha a bordo. Para ele não havia dúvida nenhuma de que eu era o fugitivo do deserto de Gobi. Nunca havia encontrado um habitante da Terra tão perigoso assim. Rhodan era um lutador com excelentes reflexos.
Já que eu não dava mostras de querer obedecer à sua ordem, ele apertou um botão. O choque da gravidade de, pelo menos, 5 gravos, me atirou no chão. Caí com tanta força, que quase perdi os sentidos.
Ouvi sua risada sonora, aumentando mais ainda meu rancor. Aquele pequeno bárbaro se atreveu, com um truque ridículo, a fazer cair por terra um almirante da frota arcônida e cientista do Grande Império! Uma fúria tremenda se apoderou de mim, deixou-me obcecado e surdo, fazendo-me esquecer toda dor e dando-me forças incríveis.
Nas telas panorâmicas, brilhava a superfície de um planeta deserto. Estávamos ainda a 200 metros dele, quando me preparei para saltar. Rhodan, naquele instante, estava ocupado com os controles. Quando olhou para trás, eu já o havia atingido. Vi seu olhar assustado, provavelmente me julgava incapacitado para lutar. Se ele, em contato com meu povo, já tinha sua experiência formada, comigo ele se enganava. Se, conforme a “Enciclopédia Terrana”, todos os arcônidas eram fracos e desajeitados, eu, pelo menos, possuía outros dotes.
Puxei-o da poltrona, pelas costas, atirei-o ao chão com um pesado soco no ombro, peguei sua perna no ar e a comprimi contra a barriga.
A reação de Rhodan foi muito rápida, pois girando o corpo, escapou de um segundo golpe, ficando, porém, ainda deitado no chão. Atirei-me contra ele, para lhe aplicar o golpe de Dagor, isto é, comprimir perto da laringe a artéria que irriga o cérebro, até que a pessoa perca os sentidos. Se ele não tivesse experiência neste golpe, em poucos segundos teria que ficar inconsciente. Suas mãos atingiram minha nuca, mas eu sabia deste golpe.
Assim não vai não, seu bárbaro”, pensei.
Quando triunfante comecei dar minha gargalhada da vitória, aconteceu o que era inevitável, devido ao meu gesto impensado.
A espaçonave chocou-se com um barulho horroroso de encontro ao solo do planeta. Olhei rapidamente para as telas que mostravam apenas altas labaredas e nuvens de poeira.
Uma força irresistível arrancou-me da posição de ajoelhado, desmanchou-me o golpe que estava aplicando e jogou-me de costas. Rhodan sumiu de repente. Devia ter sido atirado para qualquer canto. Percebi logo que o aparelho havia batido relativamente com pouca força e num ângulo bem favorável. Teria sido, mais ou menos, uma aterrissagem forçada.
Estava meio aturdido e minha ira violenta já estava desaparecendo, tão depressa como chegou. Meio desesperado, tentei libertar minhas pernas que estavam presas em alguma coisa. Ao tentar me levantar, senti um forte estampido, seguido por um chiado agudo de ar que escapava. O automático do meu traje espacial estava bom. O capacete abriu na frente, antes que a descompressão do ar me arrancasse todo ar dos pulmões. Fiquei sabendo então que estávamos num mundo sem camada atmosférica.
Densa nuvem de fumaça irrompia das fendas abertas no assoalho e o grupo principal de propulsão estava em chamas. As terríveis descargas elétricas pareciam sair dos acumuladores do sistema de reversão, eram restos de energia que, por alguma brecha, estavam escapando.
A instalação de refrigeração, que estava perfeita, começou com seu alarme estridente, indicando que já era tempo de abandonar a nave em chamas. Em plena lucidez de espírito, eu me perguntei como era possível pegar fogo, num lugar onde não havia ar. Não havia uma grama de oxigênio. Impressionou-me o fato de que o alarme continuava forte. Os tanques com o oxigênio líquido deviam estar arrebentados. Já que eles estavam na parte inferior do aparelho, o fogo encontrava o alimento necessário. Independente disso, eram suficientes as pesadas descargas elétricas, que produziam chamas intensas, capazes de derreter parcialmente a pequena espaçonave.
Surgiu uma figura na minha frente, irreconhecível, naturalmente, pela fumaça azul-escuro, mas só podia ser Rhodan. Senti suas mãos, quando, com esforço incrível, me libertou da incômoda posição em que estava. Meus pés estavam livres.
Rhodan desapareceu, parece que subindo para a escotilha de emergência. O dispositivo de aquecimento do meu traje espacial começou também a dar alarme. Não podia absorver calor superior a 150 graus Celsius. Apesar disso, ainda estava procurando minha arma. Sem o radiador energético, não queria sair da nave, onde alguém certamente me esperava, e desta vez, sem estar preocupado com os controles na nave. O alarme era cada vez mais forte e lá no lugar onde meus pés estavam presos, irrompeu um fogo muito impetuoso. Sem o traje espacial estaria carbonizado ou asfixiado. Tateando, consegui alcançar o início da escada de emergência, e arrastei-me para cima. A escotilha, da largura de um homem, não tinha comporta. Sua finalidade era só para casos de emergência. Subi mais um pouco e deixei-me escorregar no próprio aparelho, que estava meio inclinado. O metal estava praticamente incandescente. Caí bem na frente da proa do aparelho, que de fato estava inutilizado.
Por uns instantes, continuei deitado na areia, onde caíra, até que abrindo os olhos, dei com Rhodan. Ele não me fez nada. Fiquei olhando para o céu, de um azul-escuro, com um sol amarelado, que me parecia muito grande. Parecia o olho traiçoeiro de um gigante sanguinário.
Ergui a arma e dei uma olhada em volta.
Rhodan já ia muito longe. Havia me libertado da má posição em que eu ficara preso na queda, mas depois me deixou entregue à minha própria sorte. Foi realmente muito nobre por parte dele. Quando percebi seu plano, comecei a dar risada.
Longe de nós, talvez uns dois quilômetros, sobressaía do deserto uma grande cúpula de aço. Só podia ser uma base dos terranos. Liguei o rádio do meu capacete e disse bem calmo no microfone:
Alô, bárbaro, eu o tenho na minha pontaria. Você acredita que eu vou deixá-lo entrar na cúpula?
Disparei a arma. O tiro ofuscante pôde ser bem ouvido, sinal de que ainda havia por aqui um restinho de uma antiga camada de ar. A dez metros de Rhodan se abriu a cratera da explosão e havia em torno uma nuvem de pó de pedra.
Ouvi-o praguejar, através do meu receptor de capacete. Portanto estava com seu aparelho ligado.
Muito obrigado, bárbaro, agora estamos quites. Você me libertou da poltrona e eu, de propósito, atirei para não pegar em você.
Comecei novamente a rir, pois ainda podia rir.




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