Assim, por
exemplo, havia esquecido de destruir, antes de sair do submarino, as
comprometedoras radiografias. Ainda estavam no laboratório. O grande
perigo, porém, teria sua fase aguda somente depois de quatro
semanas. Além disso, podia voltar ao submarino a hora que quisesse,
para apanhar o esquecido.
Deixei a
solução deste assunto para mais tarde.
Certamente,
mais urgente do que a questão das radiografias era o caso do
registro de minhas vibrações corporais. A fechadura do meu quarto
estava programada de acordo com estas vibrações. Não fosse assim,
não teria reagido ao simples toque da mão.
Sentei-me
numa poltrona que parecia muito confortável e que realmente
ultrapassou toda expectativa. Ao receber o corpo, ele se adaptava
automaticamente às formas do mesmo. Os habitantes do planeta Terra
tinham alcançado um bom grau de tecnologia. Meio desconfiado,
comecei a examinar o banheiro. Havia até um dispositivo automático
de massagem. O robô especializado da cúpula submarina não lhe era
nada superior.
Cada vez
crescia mais a ânsia de chegar a uma livraria pública, pois não
seria prudente ficar fazendo perguntas a todo mundo. Podia causar
suspeitas. Se eu soubesse que existia uma “Enciclopédia
Terrana”,
onde estava toda a história do planeta a partir de 1.971, já teria
saído do hotel de Lisboa. Então saberia também que num volume
extra estava exposto um assunto muito misterioso, chamado comumente
de Exército
de Mutantes.
Acabei
deitando para descansar.
Os
esforços e preocupações do dia se faziam sentir.
Confiei
demais no meu sexto sentido. A história da Humanidade a partir de
1.971 era muito confusa e maior do que eu pensava. Começava com a
construção da Terceira Potência na desolada solidão do deserto
centro-asiático de Gobi. Soube de coisas que primeiro me deixaram
envergonhado e depois pálido de indignação.
Perry
Rhodan parecia ser não somente um lutador de extrema determinação
e de decisões rápidas, mas principalmente um homem ponderado,
mentalmente ágil, que sabia sempre com exatidão onde estava a maior
vantagem para ele. A tudo isso acrescia o fato de que se identificava
pessoalmente com a Humanidade.
Uma coisa
me deixou preocupado: Rhodan, com algumas espaçonaves conquistadas
em luta, penetrou nas profundezas das Galáxias, embora soubesse que
a Terra não estava em condições de se defender. E o mais admirável
é que, apesar disso, acabou desnorteando os mercadores galácticos e
o Império Arcônida.
A
“Enciclopédia Terrana” classifica o ano 1.984 como a segunda e
mais importante etapa na escalada ascendente da Terra. Rhodan deu um
golpe de inteligência ao fazer que todos os habitantes das Galáxias
acreditassem que a Terra tinha sido destruída por uma frota
invasora. Todos os seres inteligentes da Via Láctea acreditavam
mesmo que Rhodan tinha sumido em combate.
A partir
deste ano, pôde então se dedicar à construção e ao
fortalecimento da Terra, sem se preocupar com ataques de outros
mundos. Lá fora, no espaço, todos julgavam que a Terra não existia
mais. Assim, este planeta se tornou a maior potência do Universo.
Tomei
residência fixa no hotel e providenciei roupas mais adequadas. Meus
estudos diários na Biblioteca Pública começaram a dar na vista.
Apesar de todo o serviço automático da Biblioteca, havia sempre
aqui e ali pessoas de cuja atenção eu não conseguia escapar.
Assim,
falei um dia, em conversa, que precisava de uma obra de consulta para
meus exames. O assunto era muito amplo para ser assimilado em poucos
dias. É claro que me interessei acima de tudo pela reconstrução
militar e político-econômica. O Império Solar se compunha dos nove
planetas do Sol.
Marte,
Vênus e algumas luas de Júpiter, estavam ocupados por
colonizadores. Principalmente Vênus, que já formava uma boa colônia
dentro do Império.
A
navegação espacial tinha atingido o clímax. Havia uma enorme frota
comercial, além das belonaves, cujas reproduções na Enciclopédia
me deixavam de boca aberta.
Ao deixar
a Biblioteca, no quarto dia, sabia que não tinha nada mais a
procurar na Terra. Embora aceitasse as conclusões do capítulo final
da Enciclopédia, sem restrições, as informações sobre o Império
Estelar dos Arcônidas me pareciam falsas. Era inaceitável que o
poder do grande Império estivesse nas mãos de um robô.
Ao
penetrar no heliporto da Biblioteca, para pegar um táxi aéreo,
senti o primeiro aviso. Aquela sensação de alguma coisa que rebusca
a parte posterior do cérebro, já me era conhecida. Instintivamente
bloqueei meu conteúdo mental. Havia alguém tentando por via
telepática penetrar em meu pensamento.
Meu sexto
sentido estava de prontidão. Fiquei parado junto do parapeito do
terraço da Biblioteca, olhando para o belo panorama das sinuosas
auto-estradas. Ali terminavam as pistas de alta velocidade que
rasgavam todo o país.
Os
impulsos penetrantes vinham de trás, do lado direito. Senti a
confusão no fluxo tateante do desconhecido telepata. Por uns
minutos, ele desistiu de penetrar minha mente. Daí a pouco tentou de
novo, com maior intensidade. Devia ser um telepata fraco. Não
conseguiu penetrar-me.
Dirigi-me
para um táxi que estava pousando naquele momento. O telepata era
ainda jovem, de cabelos escuros. Passei tão perto dele, que, sem
querer, deu um passo para trás. Entrei na espaçosa cabina do táxi
aéreo, com muita calma, introduzi um solar na fenda do cobrador
automático.
— Hotel
Escorial! — disse eu alto e bem pronunciado.
O
piloto-robô confirmou com um movimento de cabeça e a porta se
fechou. O aparelho de vôo para curta distância recebia sua energia
elétrica por microondas. Concentrei-me no forte zumbido do motor e
agi como se o telepata não me interessasse. Ele fez mais uma
tentativa, antes de desistir. Finalmente, meu pequeno aparelho ganhou
altura.
“Teve
muita sorte”,
constatou meu sexto sentido. “Se
lhe tivessem mandado um telepata mais forte, você estaria perdido.”
Sabia que
não podia mais voltar para o hotel, então inclinei-me para frente,
para perto do microfone:
— Quero
descer do outro lado do Tejo, em Almada.
— Em que
lugar de Almada?
— O
velho cais dos pescadores.
O aparelho
deu uma guinada para o sul. Abaixo de mim cintilavam os anúncios no
alto dos arranha-céus. Num destes luminosos havia uma sigla muito
repetida por toda parte: CGC, três letras importantes: “Companhia
Geral do Cosmo.” Devia ser uma organização imensa. Conforme a
Enciclopédia, a CGC tinha sido criada por Rhodan.
O nome
Rhodan me impressionava cada vez mais. Quando estávamos quase na
desembocadura do Tejo e já víamos ao longe as luzes de Almada, meu
sexto sentido me alertou de novo de que não devia perder um segundo.
Já estavam atrás de mim, do contrário o telepata não me teria
seguido com tanta insistência.
Naturalmente,
tudo poderia ser um simples serviço de rotina da polícia, o que meu
bom senso acabou excluindo. Por mais despreparado que fosse, o
telepata não era um zé-ninguém. Se um homem desta categoria foi
destacado para sondar meus pensamentos, era porque desconfiavam de
algo.
Na
hipótese de não se tratar de um serviço de rotina da policia,
surgiria uma pergunta: Como e por que chegaram a suspeitar de mim?
O registro
das vibrações no hotel? Impossível! Isso poderia acontecer caso
tivessem dados a meu respeito. Na Terra, não havia mais fronteiras
entre os diversos estados. Sou igual a todo mundo, não poderia ter
chamado a atenção de ninguém. Onde estava o mistério? Fiquei
matutando até que uma idéia me fez tremer dos pés à cabeça.
“O
submarino!”,
dizia meu sexto sentido.
Acabei
concordando com a idéia. Era a única explicação plausível. Ao
deixar a tripulação no fundo do oceano, não sabia ainda da
existência do corpo de mutantes. Naturalmente o submarino estava
sendo considerado como perdido. Até que, com os meios modernos de
localização, chegaram a encontrá-lo. Além disso, o trânsito
marítimo era muito intenso, de forma que a localização do
submarino poderia até ter sido casual. Mas tudo isso não tinha
importância alguma. Foi encontrado e acabou.
Não devia
estar preocupado assim, pois a tripulação se mantinha em estado de
forte bloqueio hipnótico. Pela primeira vez, o conceito de exército
de mutantes foi tomando forma definida no meu pensamento.
Pessoas
dotadas de poderes parapsicológicos haveriam de conseguir romper o
bloqueio hipnótico provocado por mim. E aí, o pessoal do submarino
soltou o que sabia. O quadro estava completo, as peças estavam se
casando bem. Agora é que estava percebendo a gravidade das
radiografias esquecidas a bordo do submarino. Se caíram em mãos
competentes, então já estavam a par da minha existência.
Recostei-me
na poltrona macia de espuma de borracha.
Ainda bem
que não sabiam nada da minha antiga moradia, a cúpula da fossa
oceânica dos Açores. Do contrário não teriam designado para me
seguir um telepata jovem, de poderes insuficientes. Mas, com toda
certeza, possuíam grandes pistas.
O piloto
automático precisou de mais uma moeda para me levar até ao cais dos
pescadores em Almada. Coloquei um solar e imediatamente veio o troco
de dois sóis.
Liguei o
envoltório magnético e ouvi, com esforço, alguns impulsos
telepáticos. Não se compreendia nada.
A noite
que estava chegando tinha um céu suave e cheio de estrelas. No
pequeno cais, havia o cheiro indefinido de algas, cordames e peixes.
Era tudo como antes, embora não se usasse mais o alcatrão.
Passei por
pessoas alegres e fui à procura de um barco. Meu traje de mergulho
de profundidade estava do outro lado da desembocadura do Tejo.
Encontrei um barco, cujo proprietário o estava acabando de encostar.
Não podia me demorar com explicações, o tempo não dava para isto.
Ninguém percebeu o jato de raios da minha psico-pistola. Atingiu os
três homens, obrigando-os a fazer o que eu mandasse.
Cinco
minutos depois, estava bem longe do cais. O barco tinha um bom motor
elétrico, abastecido pelo banco de carga. Quase não fazia ruído.
Atravessamos
o Tejo, que nesta parte era bem largo e nos encaminhamos para o local
em que a auto-estrada chegava bem perto do litoral. Saltei, apliquei
mais um bloqueio hipnótico nos pescadores e me dirigi para a
estrada. Novamente, entrou em ação meu radiador. Um carro parou
perto de mim. A dona do carro, uma senhora já de idade, me levou uns
quinze quilômetros para o oeste. Encontrei com facilidade o trecho
de floresta. Fiquei olhando pensativo para a pequena viatura da
senhora que já ia longe. Parecia tudo tão simples. Mas a
preocupação crescia sempre.
Meu traje
de proteção estava intacto. Vesti-o, regulei o gerador de gravidade
e penetrei no mar, conservando-me sempre na superfície, para evitar
que me localizassem. Fiquei atento na escuta. Uma vez fui apanhado
pelo farol giratório de um navio. Deixei-me cair a pique,
imediatamente, ficando uns dez minutos debaixo d’água, para depois
emergir com cautela.
Ao chegar
até o submarino, dei uma volta bem grande em torno dele. Suspeitava
que estivessem à minha espera. Se fossem homens inteligentes,
haveriam de ter certeza de que as radiografias que eu esquecera me
dariam muita dor de cabeça.
Estava
sorrindo, abri um pouco o traje de proteção, deixando que a água
fresca me banhasse o rosto. Depois, com uma velocidade de 250
quilômetros por hora, o vibrador de ondas me levou para o oeste.
Os rapazes
vão esperar à toa no fundo do mar. O que eu sentia é que as
radiografias estavam nas mãos deles. Mas, não se podia fazer nada.
Enquanto
me dirigia para o oeste, ia estudando o que devia fazer. Tornava-se
urgente alterar as freqüências de minhas vibrações, pois,
certamente, já haviam tomado meus dados no hotel de Lisboa. Quando
aparecesse de novo, ninguém me reconheceria. Além disso, ainda
tinha que fortalecer meu corpo enfraquecido. Isto exigia, pelo menos,
um treino de quatro semanas em minha cúpula. A instalação adequada
para isto, o próprio Rico podia montar. Se tudo corresse bem, no
princípio de maio de 2.040, eu apareceria em Terrânia como um
cientista muito bem formado, equipado com os melhores diplomas. Tinha
intenção de trabalhar como engenheiro energético, porque este ramo
era realmente minha especialidade.
Ria
bastante dentro da água que eu cortava em grande velocidade. A vida
estava magnífica e a questão de Rhodan começou a me interessar.
Quem sabe, a esta altura, ele já sabia com quem estava lidando?
Se ele
fosse realmente inteligente, não me haveria de considerar
simplesmente um inimigo da Humanidade. E de fato, eu não era, nem
nunca fui isto. Gostava muito destes pequenos selvagens, orgulhosos e
de grande determinação, que agora estavam atingindo as estrelas.
Depois de
algum tempo, surgiram os Açores e com isso eu já estava em
segurança. Agora era mister prestar atenção para que não me
confundissem de novo com um peixe estranho. Provavelmente, aquele
trecho em que o submarino me encontrara devia ser até zona interdita
à pesca.
Com muita
cautela, mergulhei para o abismo. Deixei-me cair bem rapidamente, a
uma média de 20 graus, até às profundezas do fundo do mar. Ali
embaixo, eu estava em casa. Sentia-me tão bem como qualquer peixe.
De fato, a
região em volta da Ilha de São Miguel estava coalhada de
submarinos. Portanto minha teoria estava certa. Escorreguei pelas
fendas do solo, até que fui localizado pelo cérebro robotizado da
cúpula. Deixei-me sugar pela abertura da escotilha.
Rico
estava no seu posto. Protegi imediatamente minha “moradia”
contra localização submarina e, com o sugador a jato puxei um
montão de lama e lodo de encontro à cúpula.
A partir
daí, estava enclausurado por quatro semanas. Os homens maliciosos de
Terrânia, a capital do Império Solar, que me procurassem.
Era o dia
24 de abril do ano 2.040. Estava sentado numa confortável poltrona
da sala de espera do aeroporto de San Francisco esperando o clíper
para Terrânia. Há sete semanas, havia começado o jogo que me
levaria para o lugar desejado. Levei apenas três semanas para
completar minha instalação e para devolver ao meu corpo sua antiga
musculatura.
Estava
mais do que claro que eu não podia aparecer em Terrânia como um
cidadão qualquer. Eu precisava chegar a uma posição tal, que me
desse livre trânsito nos círculos competentes, para comprar naves
espaciais do menor tamanho possível, completamente automatizadas e
quanto possível mais velozes que a luz. Portanto, tinha que me
apresentar como cientista ou técnico com diplomas absolutamente em
ordem.
Nem com
tudo isso, seria aconselhável uma ida para Terrânia e lá, com um
sorriso amarelo no rosto, ficar suplicando um posto de chefia.
Por este
motivo, seguindo o protocolo geral de serviço, entrei, há duas
semanas, com um requerimento, acompanhado de todos os documentos
atinentes. Ontem chegou a resposta pela qual eu tanto esperava. Devia
me apresentar em Terrânia ao Departamento do Pessoal, levando todos
os diplomas no original.
Estava
agora olhando para a minha pasta de documentos onde guardava tudo que
eu havia conquistado nas semanas anteriores.
Um cidadão
de Terrânia deve, a qualquer momento poder provar onde ele nasceu e
de quem é filho. Sendo assim, escolhi a pequena Greenville, no
Estado de Maine, como minha cidade natal e com o radiador hipnótico
consegui que os documentos legítimos de nascimento fossem
registrados e tombados com datas anteriores, no arquivo municipal.
Os
funcionários da pequena repartição não compreenderam bem o que
fizeram. De qualquer maneira, podiam jurar que eu nascera em
Greenville, na extremidade sul do Lago Mosehead.
O próximo
passo fora com a Universidade de Portland, onde convenci o velho
diretor e dois outros professores de que eu tinha sido o melhor
aluno. Os raios hipnóticos me arranjaram todos os diplomas. Em
matemática, por exemplo, tinha sido magna
cum laude.
A terceira
fase não foi tão simples assim, pois desta vez, tinha que tratar
com cientistas e com um complicado plano didático de uma grande
academia espacial. A Academia para Vôo Espacial da Califórnia —
CASF — já existia antes, mas agora estava reorganizada de acordo
com os padrões dos arcônidas. Rhodan também tinha passado por esta
academia, se bem que já há muitos anos.
Escolhi
esta academia, porque, sem dúvida alguma, era a mais afamada do
mundo. Quem viesse de lá, podia contar com simpatia geral. Somente a
Academia de Terrânia era considerada superior, nela eram treinados
somente os que já haviam concluído os estudos normais. Outra coisa
também, eu não iria usar os raios hipnóticos em Terrânia.
Haveriam de me descobrir em pouco tempo.
Levei uns
quinze dias para conseguir os documentos com datas de anos atrás.
Tive que influenciar hipnoticamente mais de dez cientistas para
conseguir nos documentos originais a data desejada.
Munido
destes documentos, podia comprovar que havia cursado 15 semestres,
especialização — Técnica da Alta-Energia e Matérias em Geral: —
Matemática Super-dimensional. Fui, supostamente, promovido e recebi
o grau de doutor em 2.034.
Foi
difícil manter contato com todos os professores e estudantes. Mas
tive que fazê-lo para me familiarizar com os apelidos — qualidades
extraordinárias dos colegas e mestres e — com a vida acadêmica em
geral. Assim, bem preparado, tinha aberto o caminho para um campo de
ação de seis anos. Estava freqüentando um professor particular
podre de rico que, de acordo com o que se dizia, pertencia ao grupo
daqueles cientistas que em sua mocidade tinham tomado parte com Perry
Rhodan nas últimas incursões contra Árcon. Este senhor, já de
idade avançada, tinha cinco assistentes, os quais influenciei com
facilidade. Do professor Steinemann, especialista em Teoria de campo
de cinco dimensões, recebi atestados maravilhosos referentes a uma
atividade de seis anos contínuos.
De todos
estes documentos, mandei fotocópias autenticadas para Terrânia. Em
“O
Sistema Solar”,
conhecida publicação especializada, foi aberta a inscrição para o
concurso de Diretor de Banca Examinadora. Eu me inscrevi e ontem,
como já disse antes, chegou-me a resposta.
Até o
presente momento, tudo corria às mil maravilhas. Já tinha
despachado a mala pelo serviço automático direto do aeroporto. Na
minha pasta de mão, estavam somente os papéis importantes, meus
documentos pessoais e dinheiro. A venda de uns maravilhosos rubis do
meu tesouro da cúpula deram-me o montante de 15.820 solares. O
dinheiro estava depositado num banco particular de São Francisco.
Calculei bem e consegui que, com meus merecimentos confirmados pelo
professor Steinemann, esta quantia, relativamente elevada, pudesse
ser poupada. Tinha inventado algumas coisas que me deram algum
dinheiro.
Estava
convencido de não haver cometido nenhum erro substancial, já que as
freqüências de minhas vibrações celulares tinham sido alteradas.
Portanto, não podia mais ser identificado através dos dados do
hotel de Lisboa. Não mandei mudar a cor nem dos cabelos, nem dos
olhos. Conhecia muito bem os homens e seus pensamentos. Provavelmente
iriam supor que eu me apresentasse com máscara. E exatamente por
este motivo é que permaneci como era. Meus cabelos louros eram
normais para o tipo nórdico. Tinha apenas que ter cuidado com os
olhos, cujo brilho avermelhado me podia trair. Consegui modificá-los,
quando, por ocasião de uma leve conjuntivite, consultei o médico.
Naturalmente, tive que influenciá-lo com os raios hipnóticos.
Estava me
sentindo um pouco cansado e abatido. Meu subconsciente aflorava
constantemente à tona do meu espírito com leves censuras. Talvez,
pudesse encontrar em qualquer outro aeroporto da Terra um aparelho
mais veloz do que a luz. Mas alguma coisa me dizia que isto seria
possível somente na capital do Império Solar. Em outro lugar não
havia aqueles aparelhos ultra-rápidos, usados pela patrulha espacial
de Rhodan.
Havia me
informado com detalhes sobre os diversos tipos. Um moderno Space-Jet
era a construção mais adequada para mim. Um ronco ensurdecedor me
arrancou dos devaneios. O chamado Gobi-cliper estava aterrissando.
Fiquei observando as manobras de aterrissagem do aparelho vindo da
Europa. Era um projétil comprido e estreito com reduzida superfície
de sustentação, em forma de um delta, com dois possantes reatores
que serviam também para a decolagem vertical. Exatamente no ponto
preto, no meio do círculo vermelho, o aparelho tocou o solo tão
suavemente que não se notou o menor solavanco nos amortecedores.
Uma voz
robotizada começou a lançar no ar umas instruções de rotina:
— Clíper
do Extremo Oriente Zacho, Vôo 23-1712 para Terrânia, partida às
20:03 h. Favor tomarem seus lugares, o aparelho permanece no
aeroporto somente 10 minutos.
Estava na
hora. Peguei minha pasta, ajeitei os óculos escuros e caminhei para
os controles automáticos. Um pequeno helicóptero levou a mim e os
outros passageiros para o distante aparelho. O bojo devia ter uns cem
metros de comprimento. Pesados robôs de carga transportavam a
bagagem para os porões do aparelho.
Achei meu
lugar numa poltrona reclinável, mais ou menos no centro do delta de
sustentação. A decolagem foi suave. Sabia que aqueles aparelhos
trabalhavam com neutralizadores de pressão. Depois da suave subida
vertical, a pressão de aceleração atingia pelo menos dez graus.
Apesar disso, não se notava nada de desagradável. Na frente do
nariz pontiagudo do aparelho, via-se o espaço. O vôo para Terrânia
levava meia hora, agora as manobras de aterrissagem duravam outro
tanto.
A
metrópole que surgia a meus olhos quase me tirou a respiração.
Como o antigo deserto se transformou! Terrânia devia ter 14 milhões
de habitantes. Quem vivia e trabalhava ali tinha sempre alguma
relação com a navegação espacial. Da pequena base de 1.971,
cristalizou-se a soberba capital da Terra e do Império Solar.
Grande, bela e poderosa.
Aquele
quadro me impressionou.
Entrementes
o clíper já havia pousado. Um jovem oficial se dirigiu a mim.
Estava armado e no lado esquerdo do ombro tinha um emblema: um cometa
atravessado por uma seta.
— O
senhor é o Dr. Skörld Gonardson? — perguntou em voz um tanto
alta.
Fiz um
gesto de confirmação.
— Bem-vindo,
doutor. Estou incumbido de levá-lo a seu alojamento. Meu carro está
atrás da galeria. Posso pedir-lhe a passagem?
Entreguei-lhe
a estreita tira plástica. Tudo parecia bem mais organizado. Um
tremendo zumbido me obrigou instintivamente a virar para trás. Bem
afastado, um monstro redondo galgava os céus de Gobi. Quando as
ondas sonoras chegaram, a espaçonave já tinha desaparecido.
Acompanhei com os olhos embevecidos o gigantesco aparelho.
— É
apenas um cruzador pesado do tipo Terra — disse o tenente sorrindo.
— É somente uma escolta para o comboio regular de transporte para
o sistema Vega. Nós não temos coragem de deixar voar pelo espaço
afora estes cargueiros desarmados.
Piscou um
olho e sorriu feliz. Tive que voltar meu pensamento para a
“Enciclopédia Terrana”. Conforme ela, Rhodan estava morto desde
o ano 1.984 e a Terra tinha sido destruída. Que bela destruição
foi esta! A Galáxia inteira se deixou iludir por um único homem.
— Vamos
— disse eu. — Que calor horrível faz aqui!
— Espere
então o mês de junho — sorriu o jovem com naturalidade. —
Então, pessoas gordas fritam-se na própria gordura.
Olhou para
mim com tanta insistência que tive de rir, sem querer. Como se eu
tivesse alguma grama de gordura a mais.
— Não
há perigo, o senhor tem boa aparência — continuou ele sorrindo. —
Quer um cigarro?
— Obrigado,
não fumo. Considero o cigarro um mau hábito.
Fechou um
pouco a fisionomia e guardou o maço de cigarros.
— Muita
gente diz isto, doutor. Já que fui incumbido de cuidar do seu
bem-estar, vou controlar meu vício.
Fiquei
gostando do rapaz, tinha uma naturalidade muito cordial.
— Cuidar
do meu bem-estar?
Com a
ponta do dedo indicador, levantou um pouco a pala do boné e olhando
para mim calmamente, disse:
— Conforme
o capricho dos meus superiores, terei que bancar de vez em quando o
guarda de vigilância no setor da banca examinadora. Já que o senhor
será o chefe da T-18 será interessante não aborrecê-lo muito.
Franzi a
testa e instintivamente peguei minha pasta. Era uma revelação
sensacional.
Sorriu,
contente, e continuou a me examinar.
— Parece
que o senhor não sabe ainda de sua grande sorte, não é? Quando
chamamos candidatos para a capital, quer dizer que já estão
aceitos. Do contrário não viriam diretamente para Terrânia.
— Ah! —
disse eu. — E por que é interessante não me aborrecer?
Olhou
assustado em volta, antes de aproximar sua boca de meu ouvido:
— Afirma-se
que o conteúdo do tanque de óleo lubrificante na ala 18 se compõe
dos ossos dos tenentes que se tornaram desagradáveis. Um colega meu
ficou três horas em movimento espiral, indo à Lua e voltando, só
porque se recusou a engraxar as botas do chefe de física.
Confirmava
com acenos da cabeça, muito compenetrado, até que a admiração
estampada no meu rosto o obrigou a uma sonora gargalhada. Eu também
comecei a rir.
Os
terranos tinham muito senso de humor. Talvez fosse isso um componente
essencial do seu sucesso. Aquele tenente, por exemplo, parecia a
própria alegria de viver. Certamente, se transformaria em excelente
lutador, na hora necessária. Gente do seu tipo, na hora decisiva,
são verdadeiros heróis.
Lembro-me
de um homem que conheci há muito tempo. Deu-me seu último pedaço
de pão, porém, quando soube quem eu era, queria me matar. Perguntei
pelo nome do jovem tenente. Chamava-se Tombe Gmuna, tinha 21 anos e
estava acabando de sair da academia. Como ele mesmo disse, tinha 52
cursos por hipnose em Galatonáutica, estudos de Alta-Energia e de
Armas. Mais um motivo para aumentar minha inquietação, que já era
grande.
Gente como
eu nota logo quando alguém joga verde para colher maduro, isto é,
quer nos sondar. Mas o rosto de Gmuna, preto como o ébano, irradiava
uma alegria e uma naturalidade juvenil, onde não cabia nenhuma
segunda intenção. Ria muito e alto, era sincero, bem-humorado e
prestativo. Apesar disso, de vez em quando fazia certas observações
que me traziam uma tensão de nervos, lembrando-me as semanas
anteriores. Já tinha sido testado antes mesmo de subir no
helicóptero.
Daí em
diante, estava certo de que ele não era um simples oficial da frota
espacial. Se o pessoal de Rhodan era todo tão perigoso assim, então
eu teria, no máximo, oito dias de tempo. Se, dentro deste período,
não tivesse desaparecido, era sinal de que as coisas estavam bem.
Meu instinto me dizia que devia, no máximo, chegar até seis dias
só. Com toda certeza, não permitiriam a ninguém de entrar no
espaçoporto, antes de conhecê-lo a fundo.
Minhas
respostas pareciam satisfazer a Gmuna. O pequeno vestígio de um
princípio de nervosismo havia desaparecido. Daí para frente,
sentia-me mais natural. Tive a impressão de que sua tarefa já
estava cumprida.
Saímos
com o pequeno helicóptero do aeroporto e minutos depois surgia no
horizonte a bolha incandescente de uma cúpula energética. Já a
conhecia da “Enciclopédia Terrana”. Foi o ponto onde, há 69
anos, pousou o módulo lunar, comandado por Rhodan.
O
espaçoporto, que estava debaixo de nós, era uma coisa gigantesca.
Apesar da altura bem grande em que nos encontrávamos, não conseguia
ver seus limites. Via galerias de dimensões fantásticas. Pelo
menos, para mim, eram assustadoras.
— Centro
de acabamento das belonaves — explicou-me meu companheiro. —
Imponente, não é?
Concordei
com plena convicção.
— Muito
imponente!
Sobrevoamos
o espaçoporto e tivemos que nos desviar de uma gigantesca esfera que
aterrissava. Passamos depois sobre arranha-céus em que estavam
instalados setores de administração.
De
Terrânia mesmo, não se podia ver muita coisa. Aqui imperava a frota
espacial solar. No comando desta, estava um homem, cujo nome,
atualmente só se podia pronunciar com muita cautela. Estava
convencido de que Perry Rhodan era um psicólogo muitíssimo
inteligente. Ocultava-se no manto do silêncio, vivia em constante
retiro e muito raramente aparecia diante das câmaras da Terravisão.
Era a força operante que agia nos bastidores. É claro que não
tinha a vaidade de querer aparecer.
O fato era
que havia uma fantástica propaganda oral e uma justa glorificação
de seus feitos. Eu tinha, porém, a certeza de que, cercado por seus
colaboradores, Rhodan continuava sempre ativo. Era um homem, cuja
fibra não permitia abandonar a obra imensa que criara.
Alguns
segundos antes que um aviso de rádio desse a ordem para que todos os
aparelhos descessem imediatamente, aterrissamos no amplo terraço de
um edifício de cem andares.
Ao descer
do helicóptero, com as pernas enrijecidas, Gmuna me puxou para o
abrigo do nosso pequeno aparelho que ficou preso por grandes
eletroímãs fixados na laje de cimento armado.
— Não
olhe para dentro — gritou-me o oficial bem alto.
Primeiro
não compreendi o que ele queria dizer. Depois fomos atingidos pelas
ondas de som.
Mais para
o sul, quase na linha do horizonte, surgia uma espaçonave,
incandescente, despejando raios de fogo. Cresceu para um imenso
balão, passando sobre nós numa velocidade incrível. Um grande
clarão iluminou o antigo deserto, hoje transformado num imenso
canteiro industrial, raramente interrompido por pequenas manchas
verdes.
Perplexo,
acompanhava o rastro de fogo. Não eram fagulhas provenientes dos
reatores de propulsão, mas tão-somente partículas superaquecidas
da atmosfera na decolagem do monstro espacial.
Estava
realmente atônito.
— É uma
nave do tipo Stardust? — perguntei quase gaguejando.
— Maior,
muito maior — explicou-me Gmuna. — Do tipo Império, com 1.500
metros de diâmetro. É a grande novidade. Deve ser um vôo
experimental, creio eu. Venha, por favor.
Meio
aturdido, segui o rapaz. Nem reparei nos controles robotizados do
elevador de alta velocidade em que descíamos. Ainda estava pensando
nas dimensões daquela espaçonave, que há pouco se projetara no
espaço. Mil e quinhentos metros de diâmetro! Isto eu nunca tinha
visto nem ouvido falar. Tive que me dominar para não fazer a
pergunta se aquele gigante tinha sido construído na Terra.
É claro
que sim. Não havia outra possibilidade. Estava muito confuso,
principalmente incrédulo e disposto a acreditar que tudo não
passava de uma bem montada miragem. Mas, minha lógica repetia com
firmeza que Rhodan, desde 1.984, tinha tido 56 anos para se dedicar
com exclusividade ao progresso da Terra, com toda calma e sem ser
perturbado por nenhum inimigo. Desta forma, surgira aquele poderio
tremendo, graças à visão inteligente de Rhodan.
Não, não
podia mais odiar estes pequenos terranos. Pequenos, mas tão fortes.
De outro lado, me sentia impaciente e desanimado. Eles, os terranos,
não tinham o direito de saírem vendendo pelo cosmo afora o que
descobriram por acaso. Se Rhodan, quando da sua primeira ida à Lua,
não tivesse achado os escombros de uma espaçonave arcônida, a
situação seria bem outra. Por muito favor, a Terra teria apenas
chegado ao nível de uma pequena navegação espacial dentro do
sistema solar.
Não podia
estar satisfeito com o destino que me fizera dormir durante os anos
mais importantes do progresso da Humanidade.
Havia
ainda outra coisa que me fazia morrer de curiosidade. Qual era,
propriamente, a idade de Perry Rhodan? Quando aparecia uma vez ou
outra na televisão, sua postura atlética o colocava na quadra dos
trinta anos. Mas isto tinha que ser uma máscara, sim uma máscara.
Minhas pesquisas com o professor Steinemann provaram que Perry Rhodan
nasceu a 8 de junho de 1.936. Portanto deveria estar agora
completando 104 anos. Mesmo que tivesse usado toda técnica biológica
de Árcon, já tinha de estar muito velho e acabado. Eu lhe daria, no
máximo, mais dez anos de vida, com todos os recursos modernos.
Um simples
cálculo de aritmética provava que Rhodan tinha toda razão de viver
assim retirado e quase escondido. Um homem de 104 anos não pode mais
ter força nem disposição para nada, nem mental, nem física.
Estava
rindo sozinho. A “Enciclopédia Terrana” não dava explicação
nenhuma para esta questão. Deixava a massa popular na crença de que
Rhodan era um prodígio da natureza. De vez em quando, surgiam até
vozes falando de uma relativa imortalidade, o que não deixava de ser
uma grande asneira.
Despertei
dos meus sonhos. Tombe Gmuna estava falando comigo:
— O
doutor possui os originais de seus diplomas?
— Como?
Sim, é claro. Já estamos no Departamento do Pessoal?
— Não.
Primeiro vem o da Defesa Solar.
Sorriu
ingenuamente para mim, mas seus olhos pretos investigavam alguma
coisa. Sentia aquela leve inquietação que mesmo pessoas íntegras
sentem perante os representantes da lei.
— Mais
isso ainda — observei. — Pois bem, vamos! Você já refletiu que
um homem da minha estatura também pode ter fome? A viagem foi
cansativa.
Gmuna
começou a rir de novo. Sua suspeita parecia ter sumido. Caminhei
através de portas deslizantes. Se me colocassem agora diante de um
aparelho de raios X, estaria tudo acabado. Era a incógnita em minha
equação. Minha pistola de raios hipnóticos estava naturalmente na
mala que despachei separadamente. Não podia me arriscar a trazê-la
quando dos meus primeiros contatos.
Estava,
pois, desprotegido. Tinha que esperar o exame médico. Este deveria
ser feito logo após minha chegada. Se me dessem ao menos o prazo de
um dia, estaria salvo. Meu equipamento especial estava num armário
automático da cidade. A mala comum ainda encontrava-se em São
Francisco. Estava tudo muito bem pensado, apenas a sorte é que não
podia se esquecer de mim. Achava-me preparado para enfrentar os
mutantes. Tinham de ser, naturalmente, telepatas. Embora soubesse que
Rhodan se utilizasse dos mutantes para missões especiais no espaço,
havia ainda a possibilidade de que quisessem me testar. Para isso,
estava preparado, pois eu só permitia sair o pensamento que eu
quisesse manifestar.
Assim, eu
era o Dr. Skörld Gonardson e nunca estivera em contato mais íntimo
com um submarino de pesca.
Atrás da
escrivaninha se levantou um homem de ombros largos, com uniforme do
Império Solar. Era um militar graduado.
— Kosnow
— disse, se apresentando. — Sente-se, por favor, doutor. Cigarro?
Um estojo
de metal de Zalos se abriu e Kosnow me contemplava com um sorriso
amável. Recusei, agradecendo, sabendo já que este oficial tinha
estado pelo menos uma vez no planeta do Império Arcônida chamado
Zalit, pois somente lá é que havia daquele metal zalos.
Olhei com
curiosidade para o lindo material de fluorescência esverdeada. Daria
muito na vista se eu não estranhasse a bela peça de arte.
— Obrigado,
não fumo. Diga-me por favor, que material é este? Posso vê-lo?
O
tenente-general pigarreou e com um simples aceno de cabeça pediu que
o tenente Gmuna deixasse o aposento.
— Naturalmente.
Não conheci ainda nenhum cientista que não perguntasse pela
procedência do material. Mas, por favor, acomode-se.
Meu sexto
sentido se apresentou “Muito
bem, isto foi um teste. Estão estudando você. Foi muito bem
arquitetado. Você tem que se dominar mais ainda.”
Estava
diante de um homem que pertencia ao estreito círculo dos
colaboradores íntimos de Rhodan. Kosnow era Ministro da Defesa.
Esperei
até que Evelyn Tunics acabasse de enfiar no automático a fita de
programação. Ainda tinha cinco minutos.
Fazia
exatamente uma hora que minha manobra de falsificação com o
estudante de medicina Flynn tinha sido descoberta. Naturalmente, o
médico-chefe do Serviço de Defesa não sabia que esteve sob
bloqueio hipnótico durante toda a consulta. Sem ninguém notar,
consegui escapar da radioscopia. Um médico assistente, sob coação,
foi obrigado a ficar diante do raio X e assim foi possível dar a
chapa toráxica deste estudante de medicina, como se fosse a minha.
Ainda não podia compreender, como hoje, seis dias depois da
consulta, tinham descoberto a mistificação. Recebi apenas um aviso
de Afonso Bonkun de que tinha havido de repente uma verificação.
Bonkun era
um auxiliar de laboratório, influenciado por mim. Informou-me
através de uma micro-emissora. Disse ainda que a comissão
examinadora estava sob a direção de uma telepata. Nesta altura, a
ligação foi cortada.
Estava
sentado no porão de controle da Banca Examinadora T-18. Evelyn
Tunics fazia o papel de matemática de programação. Há quatro
horas, havíamos recebido a incumbência de examinar com exatidão
uma espaçonave do tipo Space-Jet, completamente automatizada.
A lista de
controle para a disposição positrônica tinha sido cortada. Minha
função era fazer com que as instalações de alta energia
funcionassem perfeitamente.
Há duas
horas atrás, foram tomadas medidas especiais de precaução.
Primeiro, supus que me estavam seguindo a todo passo. Quando estava
para empreender a já bem preparada fuga, apareceu aquele homem, cujo
nome já me provocava sonhos terríveis. Meu estado de confusão na
frente dele era tremendo. Somente os olhos dele me desmontavam todo.
Parecia que seu olhar era uma radioscopia. Se havia alguém capaz de
conhecer as pessoas do meu tipo, era ele.
Este temor
contribuiu um pouco para a perda do meu autodomínio. Porém, havia
ainda outra coisa que me preocupava.
Perry
Rhodan, o administrador do Império Solar, era, ou um fiel sósia do
verdadeiro Rhodan, ou era o próprio Rhodan em carne e osso.
O homem
que acabava de entrar para a banca examinadora jamais podia ter 104
anos. Era um terrano de compleição atlética, cheio de energia,
movimentos elásticos, pele esticada e olhos claros. Era tão alto
como eu, apenas de ombros mais largos.
— Por
que você me olha tão fixamente assim? — perguntou ele.
— Estou
me lembrando da data do seu aniversário, senhor — respondi
gaguejando.
Raramente
vi um homem rir de modo tão franco assim. Virou a cabeça para trás
e a sua gargalhada tinha um timbre de tanta espontaneidade que não
pude deixar de acompanhá-lo.
Depois
disso, precisei de duas horas para me recuperar da dolorosa surpresa.
Gente do meu tipo pode se prejudicar com emoções tais, quanto à
saúde.
Quando me
senti em condições, ele ainda estava na banca examinadora. Ele se
interessava, pessoalmente, pelas máquinas vitais das naves.
Logo
depois, a jovem matemática me comunicou que o chefe pretendia
decolar pessoalmente com o Space-Jet. Isto queria dizer que tínhamos
de rever os pontos prescritos do bloco de controle, pelo menos duas
vezes.
Foi
realmente uma coincidência muito infeliz, que exatamente neste
momento a Defesa Espacial estava descobrindo minha falsificação com
a radiografia. Alguém havia desconfiado. Quem sabe, os dois
estudantes de medicina me haviam traído.
No
momento, Perry Rhodan estava deixando a grande banca examinadora.
Meus olhos o seguiram febrilmente. Será que este homem podia ter 104
anos? “Impossível”,
pensei. Talvez o verdadeiro Rhodan já estava morto há tempo e —
por motivos políticos — tinham que prolongar a sua imagem.
Nas telas
do porão, resplandeceu o aparelho, novo em folha. Uma construção
soberba, de conformação elíptica, com propulsão acima da
velocidade da luz, e com transição automática. Há seis dias,
minha única preocupação era encontrar uma nave assim. Agora,
tinham colocado a espaçonave dos meus sonhos diretamente diante do
meu nariz, dando-me até a possibilidade de examiná-la.
Se tudo
desse certo, na próxima noite eu desapareceria com o Space-Jet. Mas
agora era o próprio Rhodan quem ia dirigir. Os preparativos davam a
entender que ele haveria de ir além do sistema solar. Dependia
apenas da experiência com os motores de propulsão.
Tinha
ainda dois minutos.
— Pronto
— disse Evelyn.
Comprimi
automaticamente os botões do telecomando.
O conjunto
dos motores se pôs a funcionar no bojo do aparelho. Quando elevei a
força do empuxo para 40 mil toneladas, Evelyn reforçou o campo
energético.
Estava
chegando a hora. Nas duas pequenas telas para observação do lado de
fora, podia-se perceber alguns homens. Vinham como que casualmente
para a antecâmara da banca examinadora. Atrás deles, aparecia uma
mulher de porte esbelto, de cabelos louros. Nunca a vi antes, mas a
postura tensa de sua cabeça, como quem quer ouvir algo ao longe, me
dava a certeza de que se tratava de uma pessoa de faculdades
transcendentais.
Evelyn
estava ocupada com a segunda fita de programação. Levantei-me
depressa e me dirigi para as pesadas portas blindadas do porão.
Antes de abri-la, liguei o gerador de deflexão. Estava pendurado no
meu pescoço, ao lado do ativador celular. No entanto, sua função
era outra.
O desvio
da luminosidade me tornava invisível para olhos normais. Uma
localização por via energética era totalmente impossível,
porquanto eu usava uma voltagem muito baixa. Meu campo de desvio da
luminosidade era coberto pelos numerosos motores em volta.
Esgueirei-me
pelo vão da porta, corri para a parede abaulada do corredor central
e alcancei com uns bons pulos a entrada da galeria da tubulação de
ar condicionado. A simples fechadura não resistiu, empurrei a grade
para cima, entrei e fechei novamente, ficando depois parado.
Por cima
de mim, era a confusão de tubos do sistema de refrigeração do ar.
Mais ao longe estrugiam os motores de um daqueles aparelhos, pelo
qual eu daria a vida.
Momentos
depois, chegaram eles, uniformizados, com armas energéticas na mão.
No meio deles havia uma mulher loura. O tenente-general Kosnow estava
também presente.
Ao ver,
mais ao longe, o estudante de medicina, meio perturbado, cheguei à
conclusão de que foi por meio dele que eu fui desmascarado.
— Você
consegue identificá-lo? — perguntou Kosnow, em voz baixa.
A jovem
senhora sacudiu a cabeça. Estava em trajes civis, mas eu tinha
certeza de que pertencia ao corpo de mutantes de Rhodan. Estava muito
atento ao meu envoltório magnético, pois se eu me traísse com um
único impulso, estaria tudo perdido. Apesar do campo de desvio, não
conseguiria me livrar dela.
Foram para
frente, com muita cautela, como percebi. Dois robôs arcônidas
tomaram posição diante da entrada da galeria de ventilação.
Momentos
depois, atingi a parte superior da galeria, subindo os degraus
existentes ali. A galeria terminava exatamente ao lado de um amplo
portão de entrada para o porão de controle subterrâneo. Mais para
frente se erguia do chão a poderosa laje de cimento armado da sala
de exames. A uns dez metros dali, eles haviam deixado seus
helicópteros. Era realmente como eu supunha: com as grandes
distâncias, não era interessante usar carros.
Com muito
cuidado, tirei de trás do ventilador de sucção, onde a havia
guardado há quatro dias, minha pistola de raios energéticos. Se
meus cálculos não falhassem, dentro de três minutos o inferno
escancararia suas portas. Até então já deviam ter percebido que eu
não estava mais no porão de controle.
A trava de
mola da portinhola voltou ao seu lugar sem nenhum estalo. Inclusive,
eu havia até lubrificado a dobradiça. Fui saindo sem o menor ruído.
Lá fora, o primeiro aparelho estava desocupado. Junto dos outros
helicópteros havia guardas; eram quatro. Tudo corria dentro do
planejado. As dificuldades começariam agora.
Entrei
pela porta meio aberta e sentei diretamente no posto do piloto. Meu
sexto sentido se manifestou:
“Você
deve voltar. A cova do leão ainda é o melhor esconderijo. Você vai
ver!”
Os raios
sugestores começaram a trabalhar. Os quatro guardas se viraram,
olharam com alguma hesitação para mim, e colocaram suas terríveis
armas no chão, no momento em que as sirenes de alarme começaram
tocar no porão.
Era a
hora. Liguei o motor e puxei o helicóptero vertical. Esperei um
segundo, como mandava a lógica do meu plano, pois eles tinham de ver
que quem fugia era eu. Estava calmo e equilibrado quando me inclinei
no sentido da porta aberta. A uma altura de vinte metros, abri fogo
contra os dois robôs que vinham correndo pelo portão de entrada.
Na sala da
banca examinadora ecoou o ronco do motor do helicóptero. Depois, o
breve silêncio foi cortado pelo reflexo dos raios energéticos e,
por fim, pela explosão de dois aparelhos igualmente atingidos.
Com a mão
esquerda, liguei o campo de desvio da luz. Aconteceu que alguns
homens da tropa de investigação surgiram.
Reconheceram-me
imediatamente, porém não reagiram pois a região toda estava sob
meu fogo e os aparelhos estacionados eram um montão de chamas. Para
mim era suficiente o fato de eles me terem visto. Com um último
olhar, percebi que não havia ferido ninguém. Não era mesmo minha
intenção, pois tinha certeza de que ninguém me considerava um
inimigo, que tivesse de ser exterminado a qualquer preço. Por que,
então, tinha eu que matá-los?
Sobrevoei
três quilômetros de zona de segurança, entre a seção das bancas
examinadoras T-18 e os gigantescos estaleiros onde eram fabricadas as
espaçonaves mais leves, tipo Gazela.
Antes que
alguém lá embaixo soubesse do que havia acontecido do outro lado da
zona de segurança, eu já estava aterrissando.
Meu
macacão azul-claro indicava que eu era engenheiro da diretoria.
Conduzi o aparelho por entre as torres antigravitacionais do
estaleiro, saltei e deixei o helicóptero ali mesmo, gritando para os
homens:
— Deixem
tudo como está e fechem as portas. Houve um atentado no T-18. Onde
encontro o engenheiro de serviço?
A reação
foi rápida. Estes rapazes valorosos e inteligentes se deixaram
iludir por uns instantes, e isto me era suficiente.
— Está
no centro de ligações, senhor — gritou um homem.
Correu e
alarmou a todos os outros.
Acenei com
a mão direita e desapareci atrás da primeira torre de gravitação,
onde um possante reator catalítico estava à espera de transporte.
Assim que me senti protegido dos olhares alheios, liguei de novo meu
campo de desvio da luz, que me dava a certeza de estar completamente
invisível.
Daí em
diante, meu plano era cronometrado. Tinha que conseguir fazer em
trinta minutos o caminho percorrido pelo helicóptero. A partida de
Rhodan estava marcada para as 13:30 h. Parecia-me improvável que ele
fosse adiar a partida. Como Evelyn me havia dito, devia se tratar de
um caso especial.
Agora, não
era realmente difícil vencer três quilômetros em meia hora. Mesmo
assim, tinha que contar com dificuldades e imprevistos. Iniciei uma
corrida quase de resistência, saltando barreiras e passando por
entre pessoas nervosas que acabavam de ser informadas por um oficial
da segurança, todo banhado de suor, de que o procurado se fazia
desaparecer com o desvio da luz. Ninguém o podia ver.
O oficial
era Tombe Gmuna. Passei tão perto dele. Quase nos encostamos. Claro
que não me viu. Ninguém teria de voltar a pé para o lugar de onde
havia fugido há poucos minutos. Mas era a chance que se me oferecia.
Tinha de aproveitá-la enquanto ainda existia. Gente do meu tipo não
hesita, nestas horas.
Diante da
cerca divisória do trecho interditado, fiquei parado, meditando.
Numa atividade sem precedentes, todos estavam à minha procura.
Diante de mim, aquela extensão enorme de cimento armado, sem o menor
vestígio de vegetação. Ali estava a saliência abobadada das
instalações subterrâneas da banca examinadora. Cada vez mais, os
aparelhos aterrissavam no local. Comandos e comandos de robôs,
pareciam ao longe pequenos pontos escuros.
Não ia
poder manter por muito tempo minha preciosa arma, pois haveria
certamente um rastreamento energético. Muito preocupado, coloquei-a
próxima à cerca e continuei minha corrida. Não tinha mais tempo
para procurar os esconderijos onde havia guardado uma grande parte de
meu equipamento especializado. As coisas que ainda estavam comigo
eram o gerador do desvio da luz e a hipno-pistola, que contra os
mutantes era totalmente inoperante. Mesmo homens de mente firme
conseguiam se defender de sua influência.
Do ponto
de vista prático, só dispunha mesmo do meu instinto de conservação
que, no momento, me aconselhava a arranjar um mapa. Pois, bem perto
de mim, havia um aparelho preparado, de construção correspondente
aos meus planos, já que não me foi possível me apossar de um
Space-Jet.
O caminho
para alcançar o meu intento era muito longo. Para conseguir vencê-lo
havia necessidade de instrumentos funcionando perfeitamente, gêneros
alimentícios e água fresca. Precisaria também de uma bem montada
positrônica a fim de calcular os saltos para a navegação nas
Galáxias e também de algumas horas com o intento de colocar as
coordenadas nas fitas de programação.
Estava
chegando ao fim do meu caminho, dos meus objetivos, tinha apenas que
contar com um fator, aliás, muito importante. Este fator se chamava
Perry Rhodan. Um trágico destino me levou de encontro ao homem mais
perigoso da Terra, exatamente no momento em que não me interessava
de maneira alguma este encontro.
Durante
minha desabalada corrida, surpreendi-me sorrindo sozinho. O sujeito
me agradara, realmente, este bárbaro de olhos claros, de gestos
sempre comedidos. Pertencia ao tipo de homens que a gente ou ama, ou
odeia. Certamente, seria um amigo fantástico, quando queria.
Como
inimigo, eu o respeitava mais ainda, contando, naturalmente que
Rhodan ainda era o mesmo de 69 anos atrás, quando iniciou seu plano
arrojado. Pois, alguma coisa dentro de mim me dizia que Rhodan ainda
era o mesmo.
Com isto,
foi se esclarecendo para mim o grande enigma, isto é, como este
homem tinha conseguido chegar aos 104 anos fisicamente jovem e com o
espírito ágil e sadio. Se não soubesse, por estudos, o dia de seu
nascimento, teria que lhe dar, no máximo, 37 anos.
Atingi o
porão exatamente depois de 15 minutos. Daí para frente, tinha de me
esgueirar por entre os robôs que vinham de todos os lados. Foi mais
fácil do que eu pensava, pois ninguém esperava minha volta. Seria
realmente uma idéia maluca. Um pouco mais longe, parecia que todos
os técnicos e engenheiros dos estaleiros de Terrânia estavam
reunidos em assembléia. O céu, acima das gigantescas instalações,
estava coberto por espaçonaves.
Com a
maior calma, continuei andando ao longo da muralha de cimento armado,
até descobrir a pequena pista para decolagem de espaçonaves leves.
Estava num rebaixamento artificial do solo, equipado com grandes
elevadores. Era daqui que partiam os vôos de experiência.
Diante do
aparelho estava Rhodan, cercado de cientistas e oficiais. A senhora
loura não estava mais com eles. Talvez tivesse sido requisitada para
a grande caçada à minha pessoa. No presente momento, o lugar mais
seguro era realmente ao lado deste grande homem, que estava ali, tão
simplesmente, ao lado de seus mais íntimos colaboradores. O
tenente-general Kosnow também estava presente.
Cheguei
ainda mais perto, até que consegui passar entre os trens de
aterrissagem do Space-Jet. Devido sua conformação elíptica, suas
medidas externas eram 35 metros por 20.
Fiquei
parado, bem debaixo da escotilha de serviço, tentando ouvir
possíveis ruídos, pois era provável que havia gente dentro do
aparelho. Rhodan estava a menos de cinco metros de mim. Seu rosto,
normalmente um tanto anguloso e duro, estava mais relaxado. Tive a
impressão de que ele não se preocupava nem um pouco com minha fuga.
Em compensação, quem estava muito nervoso era Kosnow, o Ministro de
Segurança. Ouvi-o falar alto e depressa. Rhodan não dava uma
palavra. Vez por outra, contraía os lábios e voltava com uma
expressão de amável ironia nos olhos, examinando o excitado
Ministro de Segurança.
— Determine
o bloqueio do espaçoporto, Peter — disse Rhodan com voz calma. —
Ele veio para cá com o intuito de arranjar uma espaçonave. Chame-o
abertamente pelo rádio e peça que ele se comunique com você.
Acho que
nunca vi um homem tão desconcertante em minha vida. Kosnow ficou
pálido.
— Por
favor... será que...
— Exatamente
isto. Por que vocês pretendem matá-lo? Ofereçam-lhe toda
hospitalidade, em meu nome, e peçam-lhe que espere até meu
regresso. Apenas impeçam que ele arranje uma espaçonave. Não
precisam fazer mais do que isto.
— Mas,
senhor, eu sou de opinião de que...
Rhodan
olhou tranqüilo para o relógio. Já estava com o traje espacial.
— Não
me torne a vida mais difícil, Peter. Ele está sozinho e
desesperado. Sua atuação até hoje é muito interessante. É
admirável a precisão com que tem trabalhado, para conseguir todos
estes diplomas. Tudo isto tem de ter um sentido. Peça para ele se
apresentar. Depois, veremos o resto. Em três dias, estarei de volta.
Chame seu pessoal para fora do aparelho.
Afastei-me
depressa da escotilha, quando doze rapazes uniformizados pularam para
fora do aparelho. Um jovem capitão fazia a comunicação em voz alta
e eu comecei a sorrir quando ele dizia que o procurado não estava
dentro do aparelho.
Rhodan
acenou confirmando, despedindo-se pessoalmente de cada um. Aproveitei
estes rápidos segundos para subir pela escada de bordo feita de
material plástico. O único esforço que fazia era para não
provocar o menor ruído. A escotilha estava aberta e atrás dela
havia um pequeno corredor em semicírculo que conduzia para a central
de comando. Apesar de suas dimensões, o aparelho era chato, em forma
de um disco, com quatro reatores para decolagem vertical e para
aterrissagem. O mecanismo de propulsão estava bem no centro. Passei
através da forte parede blindada para a central e dei uma olhada em
volta. As telas panorâmicas já estavam em funcionamento. Era como
se a gente estivesse diante de uma parede transparente. Rhodan
desapareceu sob o bojo chato do aparelho. Estava na hora de eu agir.
Atrás da
central, saía o corredor que levava para os aposentos da tripulação.
Lá, naturalmente, seria descoberto logo. Escolhi, pois, para meu
esconderijo, um armário de parede. Achei nele quatro trajes
espaciais, iguais ao que Rhodan estava usando. As mochilas continham
microrreatores para produção de energia para refrigeração e para
o dispositivo de purificação do ar. Fora disso, os uniformes
possuíam um projetor do campo de proteção, para a formação do
envoltório magnético.
Pulei para
dentro do armário de parede, estudei bem o ambiente e fechei a
porta. Momentos depois, Rhodan entrou na nave.
Meu
coração batia calmo e normal. Depois de apalpar todo o armário,
encontrei uma pistola energética, o que me deixou bem mais
tranqüilo. A poucos metros de mim, o homem mais misterioso do
sistema solar se preparava para decolar. Talvez fosse uma viagem de
inspeção a uma base comercial ou militar fundada por ele no
Império. Rhodan era o tipo do homem que se preocupava com tudo.
Cinco
minutos depois, começou a funcionar o conjunto de instalações para
fornecimento necessário dos campos energéticos. Instantes após,
senti um leve puxar do campo de neutralização da gravidade e... já
estávamos longe.
O som
cavernoso dos reatores me encheu de grande contentamento. Minha
memória fotográfica estava repleta de imagens dos tempos antigos.
Imagens belas e promissoras. Rhodan pessoalmente me estava
proporcionando, sem o querer, a oportunidade por que esperei tanto
tempo.
“Mas
você perdeu 69 anos dormindo”,
dizia-me meu sexto sentido.
Fiquei
irritado com a idéia. Sempre as mesmas admoestações. Mas desta vez
tinha dado certo.
As dores
eram terríveis e insuportáveis. Começaram na cabeça e pouco
depois foram para a coluna vertebral. Agora era o corpo todo que me
doía. Depois da transição através do hiperespaço, sentia-me
aniquilado dentro do armário. A minha sorte foi que Rhodan não
percebeu nada do que se passava, devido ao tremendo ronco dos
motores.
Realmente,
estava sofrendo bastante. A dor era tanta que parecia tomar todo meu
corpo. Sentia uma vontade louca de gritar, mas era imperioso que não
o fizesse. Com as últimas forças do meu ser, consegui me dominar um
pouco, reconhecendo que realmente havia subestimado a pessoa de
Rhodan. Devia ter a saúde de um homem primitivo, e o treinamento de
um atleta de grandes performances.
Logo após
a primeira rematerialização, comecei a gemer de dores. E uns cinco
minutos depois, Rhodan já estava na segunda transição. Agora,
depois do terceiro salto, minhas forças chegaram ao fim.
Não
estava acostumado a viajar pelo espaço desta maneira. Logo após a
decolagem no espaçoporto de Gobi, consegui, apesar da escuridão
reinante no armário, achar e vestir um traje espacial.
Sentia-me
preparado para qualquer eventualidade. Era meu plano aguardar até
que Rhodan tivesse conseguido a primeira transição e depois,
obrigá-lo, sob a mira da arma, a fazer o que eu queria. Poderia ter
feito isto, já desde o início, mas, não sei por quê, preferi
esperar um pouco. Talvez fosse porque, conforme meus cálculos
errados, estivéssemos ainda muito próximos da Terra Com isso, perdi
uma ótima oportunidade. Naturalmente, não poderia imaginar que
haveria de me sentir tão mal após a primeira transição, que não
tinha mais força para levantar a mão. Agora, estava eu ali, me
contorcendo de dores e cheio de remorsos, num esconderijo indigno.
Seria um golpe errado, em tais circunstâncias, querer ameaçar um
homem que estava acostumado com todos estes efeitos. Mesmo com a
possibilidade de tudo virar contra mim, ainda teria de esperar.
Bastaria que ele simplesmente e por acaso abrisse agora o armário,
para que eu caísse em suas mãos.
Assim,
fiquei ali, bem quieto, crente de que minha rápida ativação
celular me deixaria em boas condições dentro de uma hora.
Naturalmente tudo estaria na dependência de que este bárbaro de
olhos claros me desse realmente os 60 minutos.
Além das
dores físicas, fui acometido também de uma terrível psicose de
fobia. Rhodan havia saltado três vezes através do espaço. A julgar
pela dor sofrida na rematerialização, teria ele, em cada salto,
percorrido uma distância muito grande. Para onde é que me estava
levando? Estaria eu ainda em condições de achar meu caminho entre
as estrelas? O que aconteceria se ele me levasse para uma região que
me fosse completamente desconhecida?
Tinha que
usar de todas as forças para dominar a revolta dos meus instintos.
Se ao menos, gente do meu tipo, pudesse não sentir esta terrível
dor da rematerialização!
Quando as
máquinas voltaram novamente a funcionar a toda força, e portanto
com maior ruído, aproveitei o ensejo para gemer de dor, um pouco
mais alto. Não adiantou muito, mas ao menos pude ouvir minha própria
voz.
Procurei
através de um equilíbrio emocional ter ódio de Rhodan. Mas por
mais que me esforçasse, não me foi possível achar motivos para
odiá-lo. Alguma coisa em meu íntimo me impedia de ver maldade ou
injustiça neste homem. Portanto, jamais poderia odiá-lo. O máximo
que podia fazer, nesta situação, era lamentar as dores de cabeça
que eu estava suportando. Ele não tinha culpa.
“Rhodan
não tem nada que ver com isto, seu bobo”,
dizia meu sexto sentido.
Comecei a
esperar e a desejar que os minutos passassem mais depressa. Cada
minuto era para mim a ameaça de uma nova transição, que me faria
sofrer ainda mais. Depois de passar uma meia hora sem novidade,
concluí que Rhodan estava chegando ao seu objetivo. Eu calculava que
ele estivesse descendo em qualquer sistema solar por aí, com
velocidade não superior à da luz. Se não fosse assim, com os
fantásticos equipamentos que possui, já teria dado outros saltos.
Após uma
hora, minha dor de cabeça começou a diminuir e um pouco depois a
regeneração do meu sistema nervoso estava concluída. A pulsação
do meu ativador era forte. Sentia novo vigor e um bem-estar geral. O
microdispositivo, como sempre, ligara automaticamente. Trabalhava com
plena carga. Caí numa gostosa sonolência, acordando de repente,
após uns quinze minutos. O ronco dos reatores estava agora mais
forte, podendo ser somente a inversão dos motores para uma forte
frenagem. Rhodan estava realmente se preparando para aterrissagem.
O
pensamento nos perigos, que a nova situação me traria, me fez
estremecer todo. Podia me encontrar em qualquer lugar, apenas não
num mundo onde teria todo apoio. Aí, eu não teria chance nenhuma.
Levantei-me afobado, apanhando a arma. Minhas idéias começaram a se
atropelar. Que devia mesmo fazer?
O zumbido
era infernal: ronco cavernoso misturado com silvos agudos. Era os
quatro reatores que abrandavam a queda. Nervosamente procurei pela
fechadura da portinhola. Tudo, menos descer, tudo menos aterrissar, é
o que martelava em minha cabeça. Destravei a porta e a abri. A menos
de três metros de mim, estava a poltrona do piloto, virada um pouco
para o lado.
Rhodan
olhou-me imóvel. O cano cintilante de sua pistola energética
apontava para mim, pois já estava informado sobre minha presença a
bordo, antes mesmo de eu me ter anunciado com tanto ruído. Eu estava
realmente perplexo, como foi que percebeu minha presença?
“Sua
mente, seu bobo, você esqueceu”,
disse novamente meu sexto sentido.
Aí é que
fiquei sabendo que meu adversário possuía também poderes
telepáticos. Ele me localizou mentalmente na hora em que relaxei
minha defesa mental.
— Deponha
a arma, arcônida, e volte para o armário.
Aquelas
palavras, ditas com tanta calma, me chocaram. Rhodan agia friamente,
como uma máquina. Não parecia nem surpreendido, nem assustado. Além
disso, percebeu imediatamente qual era o tipo de clandestino que
tinha a bordo. Para ele não havia dúvida nenhuma de que eu era o
fugitivo do deserto de Gobi. Nunca havia encontrado um habitante da
Terra tão perigoso assim. Rhodan era um lutador com excelentes
reflexos.
Já que eu
não dava mostras de querer obedecer à sua ordem, ele apertou um
botão. O choque da gravidade de, pelo menos, 5 gravos, me atirou no
chão. Caí com tanta força, que quase perdi os sentidos.
Ouvi sua
risada sonora, aumentando mais ainda meu rancor. Aquele pequeno
bárbaro se atreveu, com um truque ridículo, a fazer cair por terra
um almirante da frota arcônida e cientista do Grande Império! Uma
fúria tremenda se apoderou de mim, deixou-me obcecado e surdo,
fazendo-me esquecer toda dor e dando-me forças incríveis.
Nas telas
panorâmicas, brilhava a superfície de um planeta deserto. Estávamos
ainda a 200 metros dele, quando me preparei para saltar. Rhodan,
naquele instante, estava ocupado com os controles. Quando olhou para
trás, eu já o havia atingido. Vi seu olhar assustado, provavelmente
me julgava incapacitado para lutar. Se ele, em contato com meu povo,
já tinha sua experiência formada, comigo ele se enganava. Se,
conforme a “Enciclopédia Terrana”, todos os arcônidas eram
fracos e desajeitados, eu, pelo menos, possuía outros dotes.
Puxei-o da
poltrona, pelas costas, atirei-o ao chão com um pesado soco no
ombro, peguei sua perna no ar e a comprimi contra a barriga.
A reação
de Rhodan foi muito rápida, pois girando o corpo, escapou de um
segundo golpe, ficando, porém, ainda deitado no chão. Atirei-me
contra ele, para lhe aplicar o golpe de Dagor, isto é, comprimir
perto da laringe a artéria que irriga o cérebro, até que a pessoa
perca os sentidos. Se ele não tivesse experiência neste golpe, em
poucos segundos teria que ficar inconsciente. Suas mãos atingiram
minha nuca, mas eu sabia deste golpe.
“Assim
não vai não, seu bárbaro”,
pensei.
Quando
triunfante comecei dar minha gargalhada da vitória, aconteceu o que
era inevitável, devido ao meu gesto impensado.
A
espaçonave chocou-se com um barulho horroroso de encontro ao solo do
planeta. Olhei rapidamente para as telas que mostravam apenas altas
labaredas e nuvens de poeira.
Uma força
irresistível arrancou-me da posição de ajoelhado, desmanchou-me o
golpe que estava aplicando e jogou-me de costas. Rhodan sumiu de
repente. Devia ter sido atirado para qualquer canto. Percebi logo que
o aparelho havia batido relativamente com pouca força e num ângulo
bem favorável. Teria sido, mais ou menos, uma aterrissagem forçada.
Estava
meio aturdido e minha ira violenta já estava desaparecendo, tão
depressa como chegou. Meio desesperado, tentei libertar minhas pernas
que estavam presas em alguma coisa. Ao tentar me levantar, senti um
forte estampido, seguido por um chiado agudo de ar que escapava. O
automático do meu traje espacial estava bom. O capacete abriu na
frente, antes que a descompressão do ar me arrancasse todo ar dos
pulmões. Fiquei sabendo então que estávamos num mundo sem camada
atmosférica.
Densa
nuvem de fumaça irrompia das fendas abertas no assoalho e o grupo
principal de propulsão estava em chamas. As terríveis descargas
elétricas pareciam sair dos acumuladores do sistema de reversão,
eram restos de energia que, por alguma brecha, estavam escapando.
A
instalação de refrigeração, que estava perfeita, começou com seu
alarme estridente, indicando que já era tempo de abandonar a nave em
chamas. Em plena lucidez de espírito, eu me perguntei como era
possível pegar fogo, num lugar onde não havia ar. Não havia uma
grama de oxigênio. Impressionou-me o fato de que o alarme continuava
forte. Os tanques com o oxigênio líquido deviam estar arrebentados.
Já que eles estavam na parte inferior do aparelho, o fogo encontrava
o alimento necessário. Independente disso, eram suficientes as
pesadas descargas elétricas, que produziam chamas intensas, capazes
de derreter parcialmente a pequena espaçonave.
Surgiu uma
figura na minha frente, irreconhecível, naturalmente, pela fumaça
azul-escuro, mas só podia ser Rhodan. Senti suas mãos, quando, com
esforço incrível, me libertou da incômoda posição em que estava.
Meus pés estavam livres.
Rhodan
desapareceu, parece que subindo para a escotilha de emergência. O
dispositivo de aquecimento do meu traje espacial começou também a
dar alarme. Não podia absorver calor superior a 150 graus Celsius.
Apesar disso, ainda estava procurando minha arma. Sem o radiador
energético, não queria sair da nave, onde alguém certamente me
esperava, e desta vez, sem estar preocupado com os controles na nave.
O alarme era cada vez mais forte e lá no lugar onde meus pés
estavam presos, irrompeu um fogo muito impetuoso. Sem o traje
espacial estaria carbonizado ou asfixiado. Tateando, consegui
alcançar o início da escada de emergência, e arrastei-me para
cima. A escotilha, da largura de um homem, não tinha comporta. Sua
finalidade era só para casos de emergência. Subi mais um pouco e
deixei-me escorregar no próprio aparelho, que estava meio inclinado.
O metal estava praticamente incandescente. Caí bem na frente da proa
do aparelho, que de fato estava inutilizado.
Por uns
instantes, continuei deitado na areia, onde caíra, até que abrindo
os olhos, dei com Rhodan. Ele não me fez nada. Fiquei olhando para o
céu, de um azul-escuro, com um sol amarelado, que me parecia muito
grande. Parecia o olho traiçoeiro de um gigante sanguinário.
Ergui a
arma e dei uma olhada em volta.
Rhodan já
ia muito longe. Havia me libertado da má posição em que eu ficara
preso na queda, mas depois me deixou entregue à minha própria
sorte. Foi realmente muito nobre por parte dele. Quando percebi seu
plano, comecei a dar risada.
Longe de
nós, talvez uns dois quilômetros, sobressaía do deserto uma grande
cúpula de aço. Só podia ser uma base dos terranos. Liguei o rádio
do meu capacete e disse bem calmo no microfone:
— Alô,
bárbaro, eu o tenho na minha pontaria. Você acredita que eu vou
deixá-lo entrar na cúpula?
Disparei a
arma. O tiro ofuscante pôde ser bem ouvido, sinal de que ainda havia
por aqui um restinho de uma antiga camada de ar. A dez metros de
Rhodan se abriu a cratera da explosão e havia em torno uma nuvem de
pó de pedra.
Ouvi-o
praguejar, através do meu receptor de capacete. Portanto estava com
seu aparelho ligado.
— Muito
obrigado, bárbaro, agora estamos quites. Você me libertou da
poltrona e eu, de propósito, atirei para não pegar em você.
Comecei
novamente a rir, pois ainda podia rir.

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