sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

P-041 - O Aliado do Gigante - Clark Darlton [parte 3]

Isto era uma pergunta e não uma constatação.
Bell esvaziou sua taça e fez um sinal à bela jovem de cabelos cor de cobre. Saboreou seus graciosos movimentos, muito mais do que o vinho que ela lhe entornava na taça. Ajudando um pouco a sorte, tocou com sua mão a pele bronzeada de seu braço. Era rígida, lisa e... fria.
O Zarlt percebeu, gritou uma palavra áspera para a moça, numa linguagem incompreensível. Ela se inclinou humilde, afastando-se imediatamente. Desculpando-se, disse Demesor para Bell:
Queira perdoar se a escrava foi muito ousada. Foi um descuido dela.
Oh — exclamou Bell — um descuido muito perdoável. Não a censure por isto. São jovens muito agradáveis.
O Zarlt sorriu um pouco sem jeito e Bell começou a pensar alguma coisa. Mas não apenas ele...
Acredita, Zarlt — perguntou Rhodan com muita firmeza — que seu domínio sobre o Império vai ser mais útil do que o do cérebro robotizado?
Por um instante, Demesor ficou paralisado com esta recusa camuflada. A cisma de que Rhodan não o haveria de ajudar parecia se confirmar. Quem sabe não tinha mais necessidade de sua proteção? Ou havia outros motivos?
Dominou-se num sorriso amargo.
O domínio de uma máquina sobre seres inteligentes é sempre prejudicial, e de qualquer maneira humilhante.
Mas uma máquina toma resoluções mais rápidas e muitas vezes ou quase sempre melhores. Isto o senhor não pode negar. Do contrário, não estariam tantos robôs em nossos serviços.
Robôs? — perguntou Demesor.
Rhodan percebeu que uma nuvem de terror passou pela mente do Zarlt.
Depois, este sorriu novamente, como se nada tivesse acontecido:
De fato, como o senhor diz, estão em nossos serviços. Esta é a única diferença. Nós não somos dominados por eles, mas eles é que obedecem a nós.
Se forem mais competentes que nós, a situação mudará por cento e oitenta graus — profetizou Rhodan com tranqüilidade. — No caso de Árcon, aconteceu assim.
O Zarlt se inclinou mais para frente.
O senhor pretende dizer com isto que o cérebro robotizado de Árcon agiu corretamente quando substituiu os arcônidas?
Sim — concordou Rhodan convencido — é isto mesmo que eu queria dizer.
Novamente, Demesor levou alguns segundos para digerir as palavras de Rhodan.
Os arcônidas estão em decadência e não estavam mais em condições de administrar o Império — concedeu ele, parecendo pronto para um compromisso. — Mas o cérebro tinha que procurar um regente melhor, antes de agir como agiu.
Rhodan sorriu consciente.
E quem sabe, ele procurou mesmo? Mas naquele tempo, Elton ainda era Zarlt de Zalit. Quem sabe ele achou que também Elton não estava em condições.
A resposta foi pelo menos, diplomática. O Zarlt reconheceu.
Batendo palmas, exclamou ele, com ares de bom anfitrião:
Moças, alegrem-nos um pouco com sua dança. Mas eu quero ainda uma resposta bem clara sua, Rhodan, à minha pergunta. Se podemos mesmo contar com seu apoio. Vamos atacar Árcon dentro de uma semana.
As seis moças apareceram obedientemente e foram para o palco. De algum lugar vinha pelos alto-falantes uma música suave. Muito harmoniosa e sedutora.
Até que enfim, ficou mais interessante — disse Bell, ignorando os graves problemas do Zarlt e sentando-se de tal maneira que pudesse ver melhor. Para felicidade de todos, o Zarlt tinha feito com que seus hóspedes sentassem bem em frente ao palco.
Rhodan, no entanto, resolveu pôr um ponto final naquela conversa de chove-não-molha.
O senhor terá uma resposta bem clara, Zarlt: Não o ajudaremos; e, aliás, por um motivo muito simples. Eu vou dizer qual é. Se o senhor não é capaz de superar a barreira de proteção de Árcon, também não será capaz de dirigir o Império. Será que fui bem claro?
Foi mais do que claro. Foi um rompimento evidente. O Zarlt o engoliu.
Seu sorriso se transformou um pouco, lançou um olhar severo para seus oficiais, avisando-os que não se precipitassem.
Sinto muito — disse ele. — Sinto realmente muito. O senhor vai compreender que, sob estas circunstâncias, não podemos mais considerá-los nossos hóspedes. Terão que deixar ainda hoje nosso mundo, em direção à extremidade da Galáxia. Nossos rastreadores de estrutura haverão de controlar isto.
Rhodan concordou calmamente.
Se é seu desejo, nós partimos. Sob estas condições... — e ele se levantou — ...não tem mais sentido ficarmos em sua companhia.
Bell permaneceu sentado. Estava de olhos fixos no palco, onde as seis moças haviam começado sua dança. A melodia sedosa parecia ter fundido os seis corpos rigorosamente iguais, cujos movimentos pareciam ser feitos por uma só peça.
Rhodan suspirou e sentou-se novamente. Marshall esboçava um sorriso a contragosto. As moças interessavam a ele de outra forma. Talvez soubessem de alguma coisa...
E novamente lhe aconteceu, pela segunda vez nesta noite, algo muito singular. Não encontrou nenhuma barreira de proteção, mas uma coisa bem diferente. Não sabia o que era, mas já tinha sentido isto uma vez nesta noite. Onde fora, mesmo? Lembrou-se. Foi lá fora, quando os três oficiais os cumprimentaram no portão de entrada. Um pensava no seu cunhado, o outro em ninharias e o terceiro não pensava absolutamente nada.
Era isso. E estas seis dançarinas também não pensavam em nada, ou melhor, não pensavam.
Foi desviado de seus pensamentos. A música mudou completamente. Tornou-se bem mais rápida. As pernas das moças voavam para o alto e começaram, sempre em ritmo cada vez mais acelerado, a pisotear o chão. Bell estava completamente amarrado pela música. Não despregava os olhos das dançarinas que agora desciam do palco e com passadas cadenciadas se dirigiam para os hóspedes. Jocosamente dançavam em torno deles e recuavam de modo gracioso, quando Bell tentava pegá-las.
Marshall recomeçou suas ponderações, mas, três segundos mais tarde, quando achou a solução, já era tarde demais.
As seis moças tinham se dividido de tal maneira que sempre duas delas estavam atrás de um dos hóspedes. Antes que Rhodan pudesse suspeitar o que estava acontecendo e antes que o aviso telepático de Marshall fosse recebido, foi ele abraçado por garras de ferro, que comprimiam os braços fortemente contra o corpo.
Com Marshall e Bell aconteceu a mesma coisa.
Principalmente para este último foi um golpe duro, que destruiu todas as suas doces ilusões, por assim dizer, com um movimento da mão. Sentiu a repentina proximidade das adoradas criaturas, mas não sabia o que fazer com elas. A pele das duas moças, que o seguravam, era lisa e fria. Fria como aço.
São robôs — disse Marshall em voz alta. — Uma bela armadilha.
Os cabelos vermelhos e eriçados de Bell se levantaram verticalmente, formando sua célebre escovinha. Os olhos estavam arregalados, mas não lhe foi possível virar a cabeça para ver os rostos das encantadoras bailarinas.
O Zarlt se levantou, dizendo:
Terminemos a comédia. Por muito tempo, tivemos que ouvir suas promessas, agora chegou ao fim. Se quiserem continuar vivos, terão que nos contar seus segredos. Mas antes que comecem a falar, vamos trocar de sala. Os senhores têm armas?
Por que suas dançarinas não vêm examinar? — aconselhou Bell, que aos poucos se encolerizava. Ainda estava tomado de susto.
Não houve outro remédio, a não ser depor as armas. Os braços de aço dos robôs-travesti não permitiam nenhuma resistência. Rhodan estava completamente calmo, pois sabia que Marshall já tinha transmitido seu alarme para a Titan há muito tempo. A luta estava começando.
Minha avó sempre dizia — continuou Bell furioso — que eu, homem inocente, cairia um dia nos braços de mulheres à-toa. Mas a pobre velha não podia saber naturalmente que seriam mulheres-robôs.
Mais cedo ou mais tarde você iria descobrir o truque — disse Marshall em tom de brincadeira.
O Zarlt e os oficiais fizeram um sinal aos seis robôs, uma ordem ininteligível. Então Rhodan, Bell e Marshall foram levantados sem nenhum esforço pelas “lindas jovens” e retirados da sala.

* * *

Os três teleportadores Tako Kakuta, Ras Tschubai e Gucky estavam ocupadíssimos, transportando o corpo de mutantes para os esconderijos preparados pelos revoltosos. Em dez minutos, no entanto, estava tudo terminado e a Titan já sem mutantes.
Thora e Crest estavam pela primeira vez sozinhos na gigantesca nave, sem contar com a tripulação, que naturalmente não podia influir em suas decisões.
Ainda há um ano atrás, Thora teria aproveitado a ocasião para roubar a nave de Rhodan e fugir com ela para Árcon, como já tentara uma vez. Hoje, porém, era tudo diferente.
Parece que Crest havia percebido os pensamentos dela. Começou a sorrir, com cara de quem sabia de tudo.
Você gosta de Rhodan, Thora? Pode falar sem acanhamento. Aliás, eu também gosto dele.
Talvez não teria sido assim, se tivéssemos encontrado em Árcon o habitual estado de coisas — disse ela confirmando indiretamente a suposição de Crest. — De maneira que...
Não poderíamos nunca imaginar um amigo e um aliado melhor, Thora. Ele se saiu com o cérebro robotizado melhor do que todos os arcônidas dos últimos seis anos juntos. Se perdêssemos Rhodan, perderíamos nosso futuro. Confiou-nos a Titan. Você sabe qual é a confiança necessária para fazer isso?
Sei sim — concordou Thora com simplicidade. — E dou razão a ele e a seus companheiros que estão neste planeta. O traidor Zarlt o prendeu e no momento não posso mostrar como gostaria de ajudá-lo. E talvez eu tenha ainda que fugir com a Titan como prometi. Isto me parece até uma traição.
Seria traição se agíssemos contra suas ordens — tranqüilizou Crest. Examinou cuidadosamente o painel ligado, que cobria todo o espaçoporto. — Você agora não quer descansar um pouco, Thora? Eu fico de prontidão e acordo você se houver alguma coisa.
Dormir, como posso dormir, se ele está em perigo?
O rosto do arcônida demonstrava admiração.
Você está tão preocupada com ele?
Confirmou com coragem e sem acanhamento.
Crest sorriu pensativo.
No entanto, você tem que descansar para estar com muita força na hora decisiva. Quem sabe, não vai demorar muito a hora da confirmação. Quero demonstrar a Rhodan que ele pode confiar em nós e que podemos lutar muito bem, quando for necessário. Portanto, por favor, me deixe sozinho agora.
Thora olhou para ele pensativa, depois concordou obediente, abandonando a Central.
Crest sabia que poderia chamá-la com um simples aperto de botão. Neste sentido, não havia na Titan propriamente separação de espaço. Ficou sozinho, preparado para uma noite muito longa.
Mas ele se enganou.
Foi uma noite muito curta.

* * *

Kitai Ishibashi era o segundo hipno do corpo de mutantes. Podia impor sua vontade a outras pessoas tão firmemente, que os atingidos continuariam convencidos de que agiam por própria iniciativa. Juntamente com Gucky e o vidente Wuriu Sengu, cujos olhos penetravam em qualquer matéria concreta, estava num esconderijo subterrâneo dos revoltosos. Era num parque, na periferia da cidade.
Gucky se esforçava para não perder o contato com John Marshall, o que não era lá muito fácil, já que as vibrações mentais do telepata estavam cada vez mais carregadas de impulsos estranhos. Havia muita probabilidade de que os impulsos fossem provenientes dos moofs.
Eles nos estão levando para o porão do palácio — informou Marshall a seus colegas telepatas. — Ainda não existe nenhum perigo, mas Perry ordena que Zernif aja como foi planejado. Não estou podendo receber mais notícias de vocês, a proximidade de um grande número de moofs o torna impossível. Também não sei se me estão entendendo, em todo caso, estamos mais ou menos a dez metros abaixo do nível do chão, num recinto abobadado grande e bem iluminado. Um instante... outro comunicado segue. Agora não posso...
Gucky resmungou furioso:
Puxa vida. Que será de novo? Que está acontecendo? Wuriu, você não consegue ver nada?
O mutante balançou a cabeça.
A distância é grande demais. Não sou feiticeiro. Não podemos nos aproximar mais do palácio?
O rato-castor queria responder, mas ficou calado.
Novos impulsos, mais fortes e mais intensos penetravam-lhe no cérebro.
Não era Marshall, não era ninguém que Gucky conhecia. Mas no meio de suas especulações, ouviu o chiado do transmissor que os mantinha em contato com a Titan. Era Crest.
Atenção para todos. A Titan está sendo atacada com grandes forças. De acordo com as ordens recebidas, haveremos de partir e aguardar na distância combinada. O comandante Freyt levará a Ganymed para um lugar seguro. Felicidades, Gucky. E tire Rhodan da armadilha. É de vocês agora que depende sua vida e o futuro do Império.
O receptor emudeceu. Crest já havia desligado.
Gucky deixou-se cair para trás sobre as patas traseiras, apoiando-se também na cauda para não perder o equilíbrio. Nos seus olhos havia uma pergunta muda, que ele não tinha coragem de pronunciar. Manteve curto contato com os demais telepatas, espalhados em outros grupos e constatou que todos haviam recebido a mensagem do arcônida.
Estava mais do que evidente de que o Zarlt não respeitava mais nada. Atacou abertamente a Titan e a Ganymed. Tinha aprisionado Rhodan.
Gucky soltou um ruído estridente e desafinado. Depois falou com voz incrivelmente clara:
Meus senhores revoltosos, Rogal, podem mostrar agora o que aprenderam. A revolução começou, nós vamos derrubar Demesor e seus capachos e libertar Rhodan. Vamos, o que estão esperando?
Rogal olhou cheio de estupefação para o rato-castor, que via hoje pela primeira vez. Ainda não podia compreender como um ente daquele tipo podia ser mais inteligente que um zalita. Mas logo em seguida largou aquela visão fascinante e, virando-se para seus companheiros de arma, exclamou com entusiasmo:
Viva o Império, viva Perry Rhodan!
Gucky tapou as grandes orelhas, quando a resposta ecoou pela abóbada.
Que estupidez, um telepata ter orelhas tão grandes...
5



Bell gritou e esbravejou quando as duas “beldades” o arrancaram do salão. O seu sonho era outro, ele o tinha imaginado muito diferente. Por que motivo tinha que ser sempre tão afobado?
Rhodan e Marshall tinham passado pelos mesmos dilemas, mas se mantinham calmos e ponderados diante do inevitável. Com força bruta somente, não se conseguia nada contra um robô, mesmo vestido de plástico como uma graciosa donzela.
Desceram num elevador. Um andar abaixo do solo oficial, ele parou. Demesor saltou na frente, mostrando o caminho. Eram corredores muito bifurcados, que a dez metros sob a terra formavam um mundo novo. A luz amortecida vinha do teto e espalhava um ar de assombração. Rhodan começou a ficar curioso para saber o que pretendiam com eles.
Suplício e sevícia para lhes arrancar os segredos?
Caso fosse isso, certamente não haveria mais os suplícios conhecidos na Idade Média da Terra, mas tão somente uma auscultação técnica do cérebro, onde não podia mais haver mentiras e informações deficientes. Por fim lá estavam ainda os moofs a quem seria fácil uma confrontação das declarações feitas.
Os moofs...
De repente Rhodan começou como que a ver escamas diante dos olhos, sentindo uma pressão cada vez maior no cérebro e uma grande dor de cabeça. Bell tinha parado de esbravejar. Parecia estar sonolento nos braços das sedutoras donzelas, que na realidade nada mais eram do que robôs desalmados. Marshall se mantinha passivo, parecendo ouvir qualquer coisa.
Os moofs estavam por detrás da repentina atividade do Zarlt. Só podia ser isto.
Rhodan sentiu um aumento dos impulsos. Vinham agora da mesma direção, isto é, da frente.
Tinham sido conduzidas para o local dos moofs.
Apesar de sua situação não muito digna de inveja, Rhodan ainda achou tempo para desenvolver apressadamente uma teoria. Um único moof, assim lhe ensinava sua experiência, não tinha força suficiente para impor sua vontade a um homem. Como telepata, ele era bom, isto não tinha dúvida. Mas, como sugestor, não era tanto.
Pois bem, o que aconteceria então, pensava Rhodan, quando quatro ou cinco moofs se concentrassem simultaneamente no cérebro do mesmo terrano? Bastaria a força dos cinco seres para dominarem a sua vontade?
Parece que os moofs tinham idênticas preocupações, pois Rhodan podia concluir agora com alguma certeza que não apenas um, mas no mínimo quatro ou cinco moofs o estavam sondando.
Era uma possibilidade com a qual não havia contado. E representava um sério perigo.
Comunicou sua suspeita a Marshall, que mostrou logo sua preocupação. Mas não lhes restava mais tempo para fazerem considerações sobre a situação.
O Zarlt se deteve diante de uma porta. Milfor começou a sorrir sadicamente e deu um soco nas costas de Bell, respondido logo por grito de rancor. Demesor abriu a porta e caminhou na frente. Os quatro oficiais e os seis robôs com seus prisioneiros seguiram atrás.
As suspeitas de Rhodan se confirmaram.
Era uma sala grande, abobadada, com boa iluminação. Em seus recipientes de vidro resistente à pressão, estavam em longa fila uma dúzia de moofs na parede de trás. Tubulações cintilantes ligavam as câmaras de compressão a um conjunto de purificarão do ar, que renovava constantemente a atmosfera de metano. Imóveis lá estavam os animais — gigantescas medusas com metro e meio de altura e com um diâmetro de um metro — em seus recipientes, olhando os recém-chegados com olhos redondos arregalados.
Rhodan sentiu uma onda dos impulsos sugestivos sobre ele. Com toda concentração de que era ainda capaz, tentou se defender da coação que lhe queriam impor. Os quatro braços das jovens-robôs prendiam-no com tanta firmeza, que não conseguia nenhum movimento. Não, com força física não se arranjava nada aqui.
A voz do Zarlt quebrou-lhe a concentrarão:
Como conseguiu, Rhodan, romper a muralha de proteção de Árcon? Fale, ou eu o mandarei para os meus cientistas.
Rhodan refletiu um pouco: os zalitas não sabiam nada das faculdades sugestivas dos moofs. O Zarlt estava convencido de que por meio dos moofs podia apenas averiguar a veracidade das afirmações de Rhodan. O Zarlt não sabia que ele próprio estava sob coação das medusas, que o manejavam à vontade. Demesor e seus quatro oficiais eram tão prisioneiros dos moofs como Rhodan, Marshall e Bell.
Mas também sem os moofs, não poderiam alterar seu ponto de vista, e somente este fato é que daria a última palavra para o julgamento que já tinha sido feito, mas não executado.
O senhor não vai saber nada por mim, Zarlt.
A corrente de força sugestiva que tinha enfraquecido um pouco, começou novamente. Rhodan reparou que Bell e Marshall não foram atingidos. Então precisaria de toda concentração para resistir ao ataque dos moofs reunidos contra ele.
O duelo foi mudo, mas somente para os outros.
Rhodan compreendeu a frase que de repente se tornou nítida em sua mente:
Você sabe quem somos? Por que se protege contra nós?
Porque sei quem são vocês. Rhodan pensou apenas e tinha certeza de que os doze moofs o entenderam. Foi a primeira vez que entrou em contato direto com seu inimigo, obrigado pelas circunstâncias.
Você tem que dizer ao Zarlt de que maneira Árcon pode ser conquistado.
Por que devo fazer isto? Será um Demesor capaz de dirigir o Império? Ou vocês querem saber?
Sim, queremos saber.
Em nome de quem?
Por uns instantes gloriosos, desapareceram todos os impulsos, a pressão também aliviou. Era como se os moofs tivessem interrompido seu trabalho para se aconselharem. Rhodan aproveitou a oportunidade para se comunicar mentalmente com Marshall:
Que aconteceu com os mutantes? Os revoltosos já estão atacando? Sabem o que está acontecendo conosco? Depressa, responda em voz alta em inglês. Não consigo me concentrar o suficiente para recebê-lo por telepatia.
Corpo dos mutantes está atacando. Começa a revolução. Já iniciou o ataque à Titan. Ainda uma meia hora... diz Gucky...
Não pôde continuar. Milfor que acabava de entrar, deu um soco na boca de Marshall.
Vocês não podem falar — ordenou Demesor furioso. — Somente quando forem interrogados. E eu lhe perguntei uma coisa, Rhodan.
Então espere um pouco — aconselhou Rhodan, calculando o que poderia acontecer em meia hora. Naturalmente ainda havia a possibilidade de dizer toda a verdade ao Zarlt. Ele não poderia fazer nada, pois não possuía o transmissor fictício. Além de tudo, seu domínio não iria além de meia hora, se tudo corresse bem. Então se apoderou de Rhodan uma vontade orgulhosa e inflexível de vencer. — Espere a vida toda.
Demesor era um homem de autodomínio, talvez também os moofs lhe deram uma ordem correspondente. De qualquer maneira nada respondeu, aguardando ainda o que estava para acontecer.
Os moofs não tiveram mais complacência. Com grande concentração atacaram de novo. Era uma onda avassaladora de impulsos doloridos que invadiam seu cérebro, ameaçando destruí-lo. Porém as faculdades mentais de Rhodan, graças à escola de hipnos de Crest, tinham evoluído muito. Estava, portanto em condições de formar uma barragem metal que enfraquecia os impulsos penetrantes dos moofs, não lhes permitindo uma atuação suficiente. Apesar de tudo, era um esforço super-humano tentar qualquer resistência.
Foi a maior batalha de sua vida.
Seus adversários continuavam imóveis nos recipientes, aparentemente adversários inofensivos e desarmados, quando não se estava em suas malhas. Mudos por natureza, e por este motivo telepatas, desenvolveram em seu mundo as forças espirituais, que, empregadas coordenadamente, representavam um poder incalculável.
Rhodan começou a suspeitar de que estavam depreciando os moofs — ou será que somente nos últimos dias é que aprenderam a usar sua força sugestiva planejadamente? Seu cérebro era como um rochedo no meio da rebentação: cada onda forte que o envolve, leva-lhe um pedacinho. E as ondas batiam cada vez mais fortes, mas depois de cada uma delas, as águas voltavam, permitindo ao rochedo uma pausa para respiração. Mas a maré subia, as ondas se tornavam mais fortes, o ataque horrível. Se durasse muito tempo, a rebentação destruiria o rochedo. Tempo...
Era tempo que Rhodan queria ganhar. Sentia que sua resistência se enfraquecia contra os impulsos sugestivos. Precisava de cada fibra de seu corpo para manter a defesa mental. Ainda estava agüentando, mas por quanto tempo?
Estava quase capitulando, quando de súbito os moofs se retiraram. Como um homem que vai com toda força contra uma porta muito firme, que inesperadamente se abre sozinha.
Mais vinte e cinco minutos...
Os olhos de Marshall se arregalaram. Rhodan sabia que os moofs tinham procurado uma outra vítima. Quem sabe, mais tarde se voltariam de novo contra ele, Rhodan. Mas agora, interessava aos moofs descobrir o mais fraco dos três prisioneiros.
Os zalitas agiam com absoluta calma. Estavam como que presos sob uma força mágica e pareciam ignorar o que acontecia. Mas Rhodan não teve piedade deles. Expôs-lhes o que aconteceria com o Império se chegassem ao poder e conseguissem afastar o cérebro robotizado. Seria um reino de marionetes, dirigido pelos moofs, atrás dos quais estaria alguém mais poderoso e sabido.
Não.
Compaixão no lugar errado podia significar a destruição de um grande reino e conduziria a uma centena de mundos à escravidão.
Rhodan, preocupado, dirigiu sua atenção para Marshall, que como telepata tinha experiência e energia suficiente para se defender dos ataques dos moofs.
Exatamente quatro minutos depois, as medusas desistiram.
Ainda antes que atacassem a terceira vítima, Rhodan se pôs em contato com Marshall:
Chame Gucky, deve vir depressa. Somente Gucky pode ajudar.
Chegou a vez de Bell. Também ele havia passado pela escola de hipnos dos arcônidas, que muito lhe aumentou os conhecimentos. Mas a potência de sua capacidade de resistência mental não era suficiente para agüentar cem por cento os ataques dos moofs.
Seu rosto se contraiu de dor e o suor lhe escorria pela testa, quando os impiedosos impulsos pareciam lhe devorar o cérebro. Os lábios começaram a tremer e seus olhos não viam mais onde estava o corpo.
A fila dos doze telepatas...
Tinha escolhido sua vítima.

* * *

O conjunto propulsor da Titan foi acionado. Thora deu o alarma geral e a tripulação bem treinada colocou o gigante do espaço, exatamente em quatro minutos, em condição de defesa.
Mas uma luta, em que morrem principalmente os inocentes, deve ser evitada. Fugir era portanto a única possibilidade de frustrar o ataque da frota dos zalitas.
A Ganymed já estava a uma altura onde se iniciava o campo gravitacional e se atirou então numa aceleração incrível no céu já escuro de Zalit.
À beira do espaçoporto cintilavam os obuses. Feixes energéticos de intenso brilho perseguiam os fugitivos, esbarrando no entanto na barreira de proteção. As baterias estouravam de todos os lados tentando atingir a Titan.
Thora via como os raios energéticos se desfaziam em todos os sentidos ao se aproximarem da camada de proteção. Mais para o fundo, levantavam vôo os primeiros destróieres da frota zalita e subiam rápidos para atacarem a Titan de cima.
Thora ligou o intercomunicador:
Atenção geral. Partimos em dez segundos. Máxima velocidade com os neutralizadores ligados. Transição em onze minutos.
Ela certamente não sabia quantas aeronaves inimigas já sobrevoavam o campo e se preparavam para atacar. Porém tinha certeza de que Rhodan havia ficado neste mundo, e de que ela agira conforme estava combinado anteriormente. Julgava-se covarde, mas tinha que levar a nave para um lugar seguro — e devia também poupar a vida dos adversários.
Ainda cinco segundos.
Encontrava-se no maior dilema de sentimentos que jamais vivera. Vagarosamente aproximou a mão da alavanca de partida. Haveria de puxá-la com rapidez. Os reatores arcônidas descarregariam sua energia e a gigantesca espaçonave seria atirada com toda força no céu escuro, que na realidade não estava escuro, mas era um emaranhado de estrelas cintilantes.
O último segundo foi o mais longo. Mas passou também, e então pareceu-lhe que o espaçoporto de Tagnor se transformou num inferno.
A Titan se projetou para a noite a dentro e ultrapassou brincando as esquadrilhas dos destróieres que a esperavam. A camada protetora dos zalitas se dissolveu sob a ação da cúpula energética que havia em torno da belonave de Rhodan. Sem sustentação, como folhas secas, dez, vinte destróieres se precipitaram no abismo e explodiram, provocando clarões muito fortes. Só o deslocamento de ar da nave esférica de quilômetro e meio de diâmetro destruiu as baterias de mísseis a jato e as instalações subterrâneas do espaçoporto.
Thora não sabia nada disso. Estava de olhos fixos no painel de controle, sem reparar no tenente Tifflor, que calado, a uns metros de distância, estava sentado na poltrona do navegador, não perdendo a jovem arcônida de vista.
Tiff não podia compreender as verdadeiras razões para a contida ira de Thora. Supunha que sua expressão fechada provinha da destruição do inimigo. Não podia imaginar que era Rhodan o responsável pela explosão de sentimentos em Thora. O planeta desapareceu sob a Titan no abismo do infinito. A velocidade da luz foi atingida e deu-se a transição.
Quando a Titan voltou do hiperespaço para a quarta dimensão, a Ganymed estava a uma distância de 0,005 de segundos-luz. Os cálculos eram muito exatos, embora as duas naves já tivessem percorrido exatamente dois anos-luz.

* * *

Gucky se materializou diante dos olhos estupefatos dos revoltosos e infelizmente não teve tempo de pensar naqueles que o receberam com admiração. Estava preocupado com o pedido urgente de socorro de Rhodan.
Almirante Zernif, o senhor possui um mapa exato do palácio do Zarlt? Especialmente das instalações subterrâneas? É urgente.
O líder dos revoltosos chamou um homem.
Quando vocês descobriram o caminho secreto, não fizeram nenhum mapa?
Naturalmente, Rogal o tem.
Obrigado — disse Gucky, e desapareceu.
Permaneceram ali Zernif e algumas bocas abertas.

* * *

Rogal, sabia Gucky, se encontrava desde alguns minutos no mais avançado esconderijo. Devia estar a menos de cem metros da entrada do palácio. Um corredor levava até lá.
Gucky concentrou-se no seu objetivo e pulou.
Por medida de precaução, aterrissou em cima, neste caso um parque. Tudo era silêncio. O clarão avermelhado do palácio despertou em Gucky a vontade de agir por conta própria para libertar Rhodan, mas acabaram vencendo o bom senso e a cautela. Sabe Deus onde iria chegar se agisse sem cuidado?
Com mais duas teletransportações, chegou bem no centro do esconderijo. Rogal, de susto, quase caiu da caixa onde estava sentado. Os outros zalitas ficaram de olhos arregalados no rato-castor, como se estivessem vendo um fantasma. Gucky, apesar da situação seríssima, sorriu para todos, e contente deixou ver seu dente de roedor. Depois se aproximou de Rogal e disse:
Estou precisando do mapa do palácio, principalmente dos porões: Rhodan está em perigo.
Rogal se levantou. Começou a procurar em seus bolsos, acabando por fazer uma cara decepcionada.
Não o tenho comigo. Talvez esteja no nosso antigo alojamento. Sabe onde? Onde estivemos há pouco.
Acabou falando para o ar vazio, Gucky já estava longe. Enquanto Rogal ainda estava falando, o rato-castor já vasculhava o antigo alojamento, achando o mapa no bolso de um paletó de uniforme dependurado num prego. Com curto salto, foi ter com Wuriu Sengu e Kitai Ishibashi. Os dois mutantes estavam descontentes por ficarem sem fazer nada, não podendo ajudar os outros.
Onde você esteve o tempo todo — resmungou Sengu. — Que há com Rhodan?
Está preso, como vocês devem saber. — disse Gucky, estudando o mapa.
Depois de alguns instantes, já estava mais calmo.
Temos que ajudar, imediatamente, antes que seja tarde. Os moofs bloqueiam com seus fluxos sugestivos todos os impulsos telepáticos de Marshall. Não consigo mais me comunicar com ele. Por isso precisava deste mapa. Por ele vou calcular meu salto. Vou sozinho para sondar a situação. Volto depois e levo Wuriu. Assim que soubermos como estão os prisioneiros e os moofs, venho buscar Kitai e então atacaremos. Compreenderam?
Os dois japoneses estavam um pouco confusos, mas disseram que sim. Já conheciam bem Gucky, mas lhes parecia estranho que um Mickey Mouse um pouco ampliado perguntasse a dois homens adultos se tinham compreendido alguma coisa.
Gucky não entendendo bem o motivo da confusão, repetiu:
Quero saber se ficou tudo compreendido.
Desta vez disseram claramente que sim, mas Gucky já tinha desaparecido.
Por fim, poderia ler os pensamentos...
6



Com minucioso cuidado, o rato-castor observava o mapa. Sentado sobre as patas traseiras, segurava o pedaço de papel com as patas dianteiras que pareciam mãos humanas, embora fossem menores e cobertas de pêlo. Alguém que o visse assim, não acreditaria que ele, em capacidade e inteligência, superasse os homens em geral. Não havia nenhum mutante que fosse capaz de dominar ao mesmo tempo a telepatia, a telecinese e a teleportação. Nenhum, a não ser Gucky. Seu quociente intelectual se equiparava ao de Rhodan, se bem que nunca houvesse cursado uma escola de hipnose. O segredo de sua força estava em sua aparência simples.
E que coisa... um animal e, no entanto, superior ao homem...
A voz estridente de Gucky se fez ouvir:
Daqui até a entrada do palácio são exatamente duzentos e sessenta e oito metros. No meu último contato, Marshall estava a duzentos e cinqüenta metros mais ou menos. Isto quer dizer que a abóbada subterrânea se encontra em nossa direção. Já conhecemos portanto a orientação e vou dar um pulo até o palácio, indo dez metros para baixo do solo. Depois tenho que me materializar num lugar onde Bell e Rhodan estavam há poucos minutos.
Wuriu estava pensativo.
Devo ir junto? Olha que eu sei ver através das paredes...
Eu venho buscá-lo imediatamente. Gucky fez-lhe um gesto tranqüilizante e desapareceu.
Quando conseguiu enxergar de novo, estava num corredor, não longe de uma saída de elevador. Havia silêncio completo, não se ouvindo o menor ruído.
Mas Gucky não estava preparado para isto. Sua mente sensível reagiu rápida. Mas os pensamentos de Rhodan e Bell estavam demasiadamente sobrecarregados com os impulsos dos moofs. A intensividade destes impulsos indicava uma separação mínima de sua fonte de origem. Talvez os prisioneiros estivessem atrás da próxima porta.
Gucky deu um salto de volta e apanhou Wuriu. Depois Kitai. Os dois japoneses tinham na mão suas pequenas mas eficientes pistolas energéticas, prontas para atirar. Gucky dispensava qualquer arma.
Então, Wuriu, está vendo qualquer coisa?
Gucky constatou que os fluxos de pensamento de Marshall estavam submersos no turbilhão dos impulsos dos moofs. Gucky sentia como era grande a tentativa das medusas-telepatas para colocarem o terrano sob o domínio de sua vontade.
De repente Marshall ficou completamente livre. Começou então o segundo e decisivo ataque a Bell. Não havia dúvida de que os moofs sairiam então vitoriosos.
Marshall se pôs imediatamente em contato com Gucky, cujas tentativas de rastreamento ele já percebera.
Onde está você, Gucky? Pegaram Bell e ele não vai agüentar muito. Responda.
O rato-castor estava esperando a resposta do vidente. Wuriu acenou de súbito com a cabeça, enquanto olhava fixamente para a parede próxima.
Eu os estou vendo — cochichou emocionado. — A menos de dez metros daqui. Aquela porta lá — apontou para a segunda porta. — Parece que pegaram Bell. Que estão fazendo aquelas moças lá dentro?
Que moças? — perguntou Gucky admirado. E ele apreciava mais as moças que lhe cocavam o pêlo do que os homens preguiçosos. — Existem moças lá dentro?
São elas que seguram Rhodan, Bell e Marshall — anunciou Wuriu estupefato, dando impressão de estar muito inquieto. — Bell não reage mais.
Uma limpeza geral do cérebro lhe fará muito bem — cochichou o rato-castor meio contente com o castigo.
Na realidade, porém, seu pensamento era muito diferente. Os moofs podiam estar preparados para alguma coisa.
Atacaremos em dez segundos, Marshall.
Cuidado — veio a resposta. — O Zarlt e os oficiais estão com as nossas armas. Os robôs, seis ao todo, têm que ser postos fora de combate. Os moofs...
Robôs? Wuriu não viu nenhum robô.
Têm a forma de moças jovens. Nós fomos enganados.
Gucky fez uma cara de espanto e foi pena que ninguém pôde saber disso. Depois, fez um gesto de ameaça:
Wuriu, Kitai, vocês sabem o que têm que fazer. Kitai vai cuidar dos moofs, fazendo com que seu fluxo de sugestionamento fique interrompido por tanto tempo, até que eu me possa dedicar a eles. Wuriu, você vai receber os zalitas... — e Gucky parecia muito eufórico... — e eu vou receber as virgens do santuário.
Quem, mesmo? — perguntou Wuriu de boca aberta e de olhos arregalados. — As moças?
Por que não? — respondeu Gucky, parando na frente da tal porta. — Ou alguém de vocês vai ser testemunha de que eu não liquidei com seis delas ao mesmo tempo?
Os japoneses ficaram calados. Realmente, nunca tinham visto coisa semelhante.

* * *

Bell estava quase reduzido a zero, não só espiritual, mas também fisicamente. Se ainda continuava de pé, era porque os fortes braços das jovens-robôs o seguravam. Os cinco zalitas estavam de lado, olhando estoicamente o que iria acontecer. Um único moof seria suficiente para controlá-los. Sua capacidade de resistência era bem menor que a dos terranos.
Rhodan e Marshall estavam completamente livres. Pelo menos onze dos moofs estavam concentrados em Bell, que não podia agüentar um ataque assim.
Se Gucky não aparecer logo — murmurou Rhodan, — não sei o que vai acontecer.
Já estão ali fora, no corredor — sussurrou Marshall. — Em poucos segundos...
Kitai se materializou com Gucky, que logo tornou a desaparecer. Um segundo depois, estava de volta com Wuriu, cuja pistola energética entrou em ação imediatamente. Os zalitas nem sentiram a morte. Antes de terem tempo de esboçar um movimento de resistência, já estavam mortos.
Kitai era um sugestor muito competente. Para o gabarito dos moofs, devia ser então um gigante. Antes que as medusas pudessem notar a alteração, e mudar de atitude, foram atingidas por fortes impulsos de tal maneira, que abandonaram imediatamente sua vítima. Bell estava sonolento nos braços das duas moças, seus olhos se mantinham fechados, mas ainda vivia.
Os fluxos de energia telecinética de Gucky se concentraram de início nos dois robôs que seguravam Rhodan. Obrigou seus braços a se abrirem lentamente, centímetro por centímetro, até que Rhodan conseguiu sozinho se desvencilhar deles. Rígidos e imóveis, os dois exemplares de belas bailarinas continuaram ali estatelados, incapazes de se moverem. Gucky os mantinha presos, mas não podia permanecer assim por muito tempo, pois havia muita coisa que fazer. Fez um sinal para Wuriu, sem olhar diretamente para ele.
Dê uma descarga de raios nos robôs, embora elas sejam tão encantadoras.
Segundos depois, as duas bailarinas estavam reduzidas a insignificantes restos de metais fundidos e material plástico carbonizado.
Gucky se horrorizou:
Nunca teria pensado — disse com o chiado característico — que aquelas tão lindas moças fossem de aço!
Marshall foi também libertado e seus dois robôs destruídos.
Chegou então a vez de Bell. Gucky tinha que tomar cuidado para que seu amigo não caísse no chão como um saco de chumbo, quando os robôs o libertassem. Mas o problema se resolveu do modo mais simples: Bell voltou a si.
Abriu os olhos. Num relance de vista, sorriu comovido, e compreendeu logo a situação.
Ah... Gucky, naturalmente. Quando Gucky fareja qualquer rabo de saia, ninguém o segura.
O rato-castor ficou por uns instantes meio vexado com o exagero, permanecendo incapaz de qualquer reação. Mas depois, todo contente deixou aparecer seu dente roedor, acenando amigavelmente.
Não haveria de querer roubá-las de você. Pode ficar com todas elas, obrigado — disse virando-se para Rhodan:
E agora, desliguemos os moofs, senhor e mestre.
Kitai já tinha conseguido dominar completamente os moofs. As criaturas esquisitas estavam como que paralisadas, imóveis nos recipientes. Podiam perceber qual seria seu fim.
Gucky — gritou Bell desesperado — livra-me destes monstros.
O rato-castor virou-se com calma e ficou observando com o dente roedor cintilante e o pêlo eriçado aquele quadro idílico. Parecia se divertir imensamente vendo Bell abraçado com duas lindas mulheres.
Você sente alguma dor? — perguntou com malícia.
Liberte-me, que eu lhe dou as duas. Quem sabe você conseguirá programá-las para cocarem seu pêlo.
Gucky sorriu:
Não preciso delas, conheço alguém que faz isto muito melhor.
Você não está pensando em... — disse Bell ciumento, mas Gucky o interrompeu:
Estou pensando em você, velho amigo. Para eu libertá-lo, você tem que prometer que durante ao menos cinco horas, me...
Certo, eu prometo. Mas vamos depressa.
Bell se sentiu livre. E ainda cambaleando, foi na direção de Kitai, arrancou-lhe das mãos a pistola energética e voltou contra os dois robôs, que estavam completamente passivos. O Zarlt a quem obedeciam já estava morto.
Bell avançou com a arma contra os rostos das dançarinas, exclamando:
E agora eu vou destruir vocês, suas... suas... — e não achou a palavra apropriada.
Vocês nunca mais levarão homens decentes a pensamentos bobos, isso eu lhes posso garantir. Vamos, virem-se de costas. Vamos, depressa — as duas bailarinas não reagiram, continuando mudas em seus lugares.
Não querem obedecer? Pois bem, passem bem, adeus, e minhas saudações às outras quatro no céu dos robôs.
Depois que as graciosas figuras se transformaram em plástico fumegante e em metal fundido, Gucky, horrorizado, tapou o nariz, e gritou, virando-se para Marshall:
...e quando eu me recordo que quase... não. Nem se deve mais pensar nisso. Foi uma vergonha...
Gucky havia acompanhado a tudo com interesse e não queria mais saber da tragédia. Olhando para Kitai, disse:
Vou levá-las para o terraço em suas gaiolas e simplesmente vou jogar essas medusas para baixo. Quebrando os recipientes, sai a atmosfera de metano e elas terão uma morte tranqüila.
Rhodan, que até o momento se abstivera de qualquer comentário, falou:
Não vamos matá-las, Gucky. Basta que Kitai lhes sugira peremptoriamente que, daqui por diante, elas têm que servir a um novo amo. Devem ficar passivas até que as apanhemos. Na Titan, há espaço suficiente para doze moofs.
Bell arregalou os olhos e disse:
Você vai instalar um jardim zoológico na Titan?
Rhodan abanou a cabeça:
Meu caro amigo, você, de vez em quando, fica com a cabeça oca. Você sabe que os moofs pouco ou nada nos interessam.
E então?
E interessa muito menos aos pobres coitados que foram por eles atacados em Zalit. Quem sabe, com o tempo os moofs se tornam mais sociáveis. Por isso é que pretendo instalar um zoológico. Entendido?
Pareço tão burro assim? — perguntou Bell com simplicidade. Parecia estar já bem refeito da refrega.
Gucky cochichou:
Já houve tempo em que também eu pensava sofrer da vista — disse ele com ironia.
Bell olhou-o, mas estava por demais preocupado com seus próprios pensamentos, para compreender a indireta lançada contra ele.
Rhodan olhou mais uma vez na direção da parede, onde há pouco tempo estavam o Zarlt e seus oficiais.
Lá fora está acontecendo muita coisa. Acho bom avisarmos o almirante Zernif da morte do Zarlt. Isto pode poupar a vida de milhares de zalitas. Quando souberem que o Zarlt está morto, haverão de depor as armas. Neste sentido, Wuriu fez um bom trabalho, embora eu não esteja de acordo com este tipo de castigo dos culpados.
Por alguns momentos, Marshall estava concentrado em si mesmo. Depois, ergueu a cabeça.
Os revoltosos atacam o palácio. Estão rebentando tudo que encontram pelo caminho. Guardas palacianos, soldados, empregados...
Vamos depressa — disse Rhodan. — Não percamos tempo em comunicar aos zalitas que estão livres. Eu mesmo tenho muita necessidade de conversar com nosso velho amigo.
Com quem? — perguntou Bell.
Exatamente, com nosso velho amigo: o cérebro robotizado de Árcon.

* * *

Thora já estava dormindo há algumas horas, quando o tenente Tifflor a acordou.
Desculpe, senhora, Crest não teve oportunidade de avisá-la pelo intercomunicador. Pede que o procure imediatamente na Central.
Thora se levantou.
Que aconteceu, Tiff?
Nada, minha senhora, por enquanto nada.
Thora não fez mais perguntas. Esperou até que Tiff fechasse a porta do camarote, depois se levantou e em dez minutos estava com Crest.
O cientista arcônida, mal virou a cabeça, quando Thora entrou. Tiff estava sentado na frente do computador de navegação, colhendo algumas informações. Todos os painéis estavam ligados e mostravam com nitidez todo o espaço em volta da Titan.
Thora reconheceu os pequenos exploradores robotizados de Árcon, entre eles maiores unidades de combate e cruzadores. Mais para o fundo, gigantescas naves espaciais do tipo Stardust espreitavam: esferas espaciais com diâmetro de oitocentos metros.
Que significa tudo isto? — perguntou Thora procurando na tela a Ganymed. O gigantesco torpedo flutuava, aparentemente parado, a alguns quilômetros de distância. Na realidade, os dois gigantes se moviam, por queda livre, na direção de Voga. — Será que vão nos atacar? São naves do Zarlt?
Crest desviou os olhos dos instrumentos, por uns instantes.
Até agora não se deu nenhum ataque, Thora. São unidades do Império. Todas controladas por robôs. Ainda não sei bem o que representa tudo isto. Será que o cérebro robotizado teria esquecido o que combinou com Rhodan?
Thora nada respondeu. Acompanhava com toda calma o movimento da frota. Seus olhos tinham um brilho frio. Quando finalmente falou, sua voz soou fria e resoluta:
A frota de Árcon... Se nos atacarem, Crest, levarão uma lição tal, que nem Orcast nem o cérebro haverão de esquecer. Somos donos da nave mais poderosa do Universo. Nunca permitiremos que a tirem de nós.
Crest teve tempo de sorrir, admirado. Depois disse com tranqüilidade:
Até agora não houve ataque, estou procurando contato com o comandante, quer ele seja homem ou robô. Quem sabe não está a par do que foi combinado com o cérebro robotizado. Na confusão do momento, tudo é possível.
Mas se houver um ataque... — começou Thora, mas Crest a interrompeu:
Então nos defenderemos, naturalmente. Não é, Tiff?
Parece que o jovem tenente estava esperando pela pergunta:
Estão se adaptando ao nosso movimento, pacificamente. Não se fala em ataque. É um movimento de vigilância. Que podemos concluir daí?
Não sei ainda — respondeu Crest, tentando ligação pelo videofone com o comandante Freyt na Ganymed. — Super-prontidão, comandante. Ao menor sinal de ataque, fogo de todas as baterias. Deixar ligado o envoltório protetor. Em caso de necessidade, use sem escrúpulo o transmissor fictício.
Compreendido — foi a resposta firme.
Duas fortalezas inexpugnáveis estavam esperando para entrar em ação. Thora perguntou de repente:
Quando voltamos para Zalit? Não podemos ficar aqui, simplesmente esperando. Rhodan não tem possibilidade de nos ouvir.
Tem os mutantes e os grupos de resistência do seu lado. Não estou preocupado com ele. Mas não gostaria de destruir as naves do cérebro robotizado...
Por que não perguntamos ao próprio cérebro?
Crest olhou surpreso para Thora. Depois concordou:
Naturalmente, seria uma saída. Por que não tive essa idéia antes? Tiff, consiga a ligação com o supertransmissor. Thora vai ajudá-lo.
Desta vez, demorou quase vinte minutos antes que aparecesse no grande painel da instalação de super-rádio a semi-esfera de aço cintilante. A voz mecânica estava exatamente tão fria e impessoal, como no primeiro contato:
Estou localizando vocês. Apresentem-se. Identificação.
Thora do clã de Zoltral — respondeu ela sem constrangimento. — Por que não está mantendo o que prometeu, regente? Não deu a Rhodan plena liberdade de movimento?
Explique melhor do que se trata.
Do que se trata? — respondeu Thora zangada. — Sua frota nos cercou. O senhor quer a todo custo experimentar nossas armas?
Ninguém os está atacando. Estão sendo apenas vigiados. Podem mudar a qualquer momento de posição, o que aliás lhes recomendo. Voltem para Zalit, a missão de Rhodan está terminada. O Zarlt está morto.
Por uns instantes, Thora ficou sem palavras. Respirou profundamente e disse:
O Zarlt morreu? A revolução acabou?
Os traidores do Império foram castigados. O novo Zarlt será nomeado hoje ainda. Será o almirante Zernif, se as informações estão corretas. Rhodan está esperando vocês de volta, Thora da estirpe dos Zoltral. Não o faça esperar. Aguardo um relatório mais completo.
O painel apagou.
Thora demorou uns instantes até se dirigir a Crest.
Rhodan venceu, como estou feliz.
Crest apenas sorria.
Você esperava outra coisa?
Tiff, calcule as coordenadas e os impulsos energéticos de volta a Zalit. A Ganymed nos seguirá. Vou avisar o comandante Freyt.
Tiff começou seu trabalho.
Com um fino sorriso, Crest ainda acompanhou os passos da felicíssima arcônida. Depois levou a mão decididamente para as alavancas de controle.
7



Os revoltosos tinham atacado o palácio e haviam prendido os oficiais da guarda. A ordem do almirante Zernif era rigorosa: evitar vítimas desnecessárias. Sabia, por intermédio de Rhodan, qual havia sido o papel dos moofs e tinha certeza de que os soldados do falecido Zarlt, depois de libertados da coação sugestiva, voltariam a ser leais ao Império.
Quando a notícia da morte do Zarlt se espalhou, as últimas tropas depuseram as armas. De todas as direções, chegavam as unidades da frota, desciam e se colocavam incondicionalmente sob o comando do almirante Zernif, que já tinha sido proclamado pelos revoltosos o novo Zarlt.
Em poucas horas, a ordem e a calma reinavam em Zalit. Zernif tomou conta provisoriamente dos negócios do ditador e seu primeiro ato oficial foi colocar o cérebro robotizado a par dos acontecimentos. Não esqueceu de mencionar o papel decisivo de Rhodan na libertação de Zalit.
Depois recebeu Rhodan e seus amigos íntimos. O corpo dos mutantes foi levado para uma sala especial, onde os esperava uma lauta mesa. A maioria dos mutantes não tinha tido oportunidade de entrar diretamente em ação, o que não os impedia de saborear as iguarias oferecidas.
Finalmente, Rhodan, Bell, Marshall e Gucky foram levados à presença de Zernif.
O velho zalita se levantou à chegada dos amigos. Com os braços estendidos, foi ao encontro de Rhodan.
Não sei como lhes poderei agradecer. Pertencem a uma parte desconhecida da Via Láctea, mas foram vocês que salvaram o Império de Árcon. Se eu não estiver em condições de lhes pagar um dia esta grande dívida, o cérebro robotizado certamente...
Ela já pagou antecipadamente — sorriu Bell, mostrando da janela, de onde se via uma grande parte do espaçoporto. Uma enorme sombra descia neste momento do céu brilhante e pousava suave como uma pena. — A Titan; ela é o grande presente do Império a Perry Rhodan. Um presente realmente de rei.
Rhodan também estava à janela, olhando. Pediu a Zernif:
Envie uma mensagem tranqüilizadora à espaçonave. Talvez o senhor mande buscar Crest e Thora e trazê-los para cá.
Pelo videofone, Zernif deu a ordem.
Mas nem todos os problemas estão resolvidos — disse, dirigindo-se aos hóspedes. — A causa propriamente dita do malogrado levante contra Árcon são os moofs. Há ainda um grande número deles em nosso planeta, e podem provocar uma nova desgraça.
Os senhores devem apenas conseguir que eles não possam fazer isto. Mandem instalar nas abóbadas do palácio uns aposentos à prova de irradiação e levem para lá todos os moofs. Por que devemos matá-los? São relativamente inofensivos. Vou falar com o regente, ele cuidará deles. E cortem toda nova remessa para cá. Isto é importante. Se observarem os dois conselhos, Zalit nunca mais será vítima das estranhas medusas.
Ainda hoje darei ordens a respeito — prometeu o novo Zarlt. — Os acontecimentos nos serviram de lição. Sabemos quais os perigos que nos ameaçam, se relaxarmos na vigilância. Mesmo o maior cérebro positrônico do Universo jamais será infalível. E o homem nunca poderá ser totalmente substituído.
Espero que sim — concordou Rhodan. — Também o cérebro chegará a esta conclusão. Mas mesmo assim, sempre haverá um futuro para Árcon.
O almirante Zarlt Zernif passava a mão distraidamente alisando o pêlo de Gucky.
O senhor tem colaboradores competentíssimos — constatou com admiração.
O rato-castor estava sentado numa cadeira, apoiando as costas no espaldar, ricamente esculpido. Suas patas dianteiras, bem limpas, estavam sobre a mesa. O dente roedor brilhava com todo fulgor, demonstrando a boa disposição de seu dono, que apesar de toda sua aparência esquisita, podia representar um enorme perigo para os inimigos.
Caso o senhor venha a precisar novamente de nossa ajuda... — disse Gucky.
Mas Zernif atalhou logo:
Espero que não seja mais necessário. Foi um tempo muito difícil, sob a ditadura de Demesor e de seus moofs.
Como seria tudo tão simples — observou Rhodan secamente — se fosse apenas seus moofs. Infelizmente não foram eles. Mas um dia, este segredo se desvendará.
Gucky ainda sorria. Parecia muito feliz. Zernif se abaixou até ele, acariciou-lhe o pêlo marrom-ferrugem.
Você está feliz, porque tudo já acabou, não é verdade?
Os olhos de Gucky tinham um brilho especial de uma alegria muito íntima.
Sim. Mas eu tenho também outros motivos muito mais importantes, para estar contente, caro Zarlt. Vou presenciar uma grande festa e...
Infelizmente não chegou a explicar com mais detalhes em que consistia esta grande festa, pois neste momento, Thora e Crest foram introduzidos no recinto. Seus olhos cintilavam de felicidade e orgulho. Com muita dignidade, caminharam até em frente ao Zarlt, inclinaram-se respeitosamente e cumprimentaram Rhodan.
Soubemos há pouco, através do cérebro robotizado, do que aconteceu — disse Crest — e seguindo o conselho do regente, voltamos para Zalit. Ele pede, Perry, que entre em contato com ele imediatamente. O Zarlt Zernif foi confirmado no posto.
E a Titan?
Tudo em ordem. A Ganymed deve chegar a qualquer momento.
Rhodan se levantou.
Desculpe, Zarlt Zernif, se tenho que cuidar primeiro dos meus deveres. Tenho quer ir até a Titan e falar com o cérebro regente do Império. Em meia hora, estarei de volta. Bell, você cuida do corpo de mutantes. Atenção para que não bebam vinho demais.
Bell fez uma cara de quem não gostou.
Não vai acontecer isto, pois já notei que quem vai servir são robôs de verdade e não moças.
Gucky riu às soltas. Thora estava olhando sem compreender, do mesmo modo como Crest. Marshall sorria feliz.
Meu amigo fala por experiência amarga — explicou Rhodan ao Zarlt, sorrindo. — Até logo.
Saiu da sala, fechando a porta atrás de si.
Gucky parou de rir. Desceu da cadeira e se dirigiu à porta. Chegando ali, virou-se para trás e ficou olhando a reunião com ar de provocação.
E então? — disse ele, soltando um agudo assobio. — Estão pensando que eu quero morrer de sede? O que estamos esperando ainda?
Como que manejada por mãos invisíveis, a porta se abriu.
E Gucky ficou flutuando acima da soleira da porta...
O que, além de suas outras faculdades, era realmente um retrocesso à primitividade.

* * *

Aos poucos o painel se acendeu. Apareceu a cúpula cintilante, brilhando de dentro para fora como prata polida.
Estava esperando seu chamado — disse uma voz impessoal, ao invés de qualquer outra saudação. — Sua atuação em Zalit me convenceu de que o senhor pensa e age no sentido do Império. A Titan ficará daqui em diante em seu poder. Seus comandantes oficiais serão Thora e Crest, da estirpe do Zoltral. Tenho uma outra missão para o senhor.
Rhodan necessitou de alguns instantes para se recuperar da emoção que sentiu. Como podia o cérebro positrônico incumbi-lo de uma missão?
Sinto muito, regente, mas não terminei ainda minha presente missão. Os moofs foram os instigadores indiretos do planejado ataque a Árcon. Tenho que descobrir quem são seus mandantes.
Pois era esta a missão que eu lhe queria dar — respondeu o regente objetivamente. — Nossas intenções coincidem. O senhor permanece ainda uma semana, de acordo com seu modo de calcular o tempo, em Zalit, para poder ajudar Zernif em suas ações de limpeza. Peço-lhe que entre em contato comigo novamente amanhã. Por favor, providencie que os dois arcônidas estejam presentes. Receberá então todas as informações com mais detalhes à medida do que me for possível.
O senhor não tem nenhum indício — perguntou Rhodan — quem são estes desconhecidos?
Até o momento, não — confessou o cérebro robotizado. — O senhor pegou vivo, um número maior destes moofs, como pude saber. Não leve todos, mas apenas três deles para sua nave. Quem sabe haverá de descobrir algo, que nos vai interessar muito.
Rhodan reparou com curiosidade que o cérebro havia dito “nos”. Este fato, aparentemente insignificante, era da maior importância. O regente já estava identificando Perry Rhodan com o Império dos Arcônidas.
Obrigado pela sugestão, regente. Amanhã, por estas mesmas horas, haverei de chamá-lo.
Eu aguardo — foi a única resposta. E o painel apagou.
Rhodan não voltou imediatamente para Tagnor. Por quase meia hora, permaneceu ainda na central da espaçonave, tranqüilo, entregue a seus pensamentos. O quadro geral começou a ficar mais claro. Árcon era governada por um robô. Porém este robô era suficientemente inteligente para compreender que não podia prescindir do auxílio de homens. Ou talvez, o tivessem programado desta forma, quem sabe? Sob qualquer hipótese, ele, Rhodan, já estava agindo oficialmente em missão do grande Cérebro.
Não seria isto já um grande progresso?
Voltou de carro para a festa.

* * *

A noite já ia bem avançada, quando Crest procurou Rhodan em seu camarote particular. Era um aposento grande e instalado com muito conforto, cujo painel arredondado reproduzia de cada vez um trecho do espaço em volta. No momento, servia apenas como branda claridade para iluminação.
Você! — admirou-se Rhodan.
O arcônida passou a mão pelos cabelos brancos e procurou uma poltrona. Sentou-se com um suspiro.
Gostaria de falar um pouco com o senhor, Rhodan. Durante o dia todo, não houve oportunidade para isto.
Grande confusão hoje, não foi? — disse Rhodan sorrindo. — Diz respeito à conversa com o Cérebro amanhã?
Não, Perry. Diz respeito a Thora e a mim.
Você está me deixando espantado, Crest.
Parecia difícil ao cientista achar palavras adequadas para exprimir o que o preocupava.
O cérebro robotizado lhe deu uma missão, o que é um bom sinal. Ele o reconhece, Perry. E também a nós. Sei que Thora e eu somos os comandantes oficiais da Titan. Mas o senhor sabe, melhor do que eu, quem é o comandante verdadeiro. Para que toda esta comédia? Por que que o regente não diz francamente que o senhor é quem dirige e governa a Titan?
Até mesmo um robô tem seus sentimentos de tradição — disse Rhodan sorrindo e compreendendo os apuros do seu mais velho amigo. — Não é muito lógico que o cérebro confie a melhor e a mais poderosa espaçonave do Império a um estranho, muito mais quando este estranho lhe roubou a mencionada espaçonave. De outro lado, reconheceu que uma aliança com este estranho pode ser de grande vantagem para o Império. Daí, o compromisso. E é por este motivo que você se preocupa e me procura no meio da noite?
Não, propriamente não, Perry. Gostaria apenas de saber da sua opinião. Além disso, ainda não é tão tarde assim. Thora tem as mesmas preocupações. Além disso, Perry, o senhor devia se preocupar mais com Thora. Acho que está se passando uma grande transformação nela, de grande importância. Eu quase acreditaria que ela concorda com as minhas intenções secretas. Lembra-se, há treze anos atrás, falávamos deste assunto.
Há treze anos atrás? — ficou Rhodan refletindo, depois se lembrou. — Ah... você pensa na idéia de restaurar o Império dos Arcônidas. É, mas não estou bem certo, se o orgulho e a consciência de tradição dela vai admitir que um dia um terrano possa substituir o cérebro positrônico.
Crest sorriu brandamente. Havia brilho intenso em seus olhos.
Seu orgulho e sentimento de raça, certamente não, Perry, mas o seu amor, sim.
Seu amor...?
Sim, seu amor à Pátria... e a você também, Perry, ou você é cego?
Rhodan fitou Crest.
Não cego, propriamente, Crest. Mas, faltou-me até hoje tempo. Também me separam de Thora mundos e eternidades.
Isto se pode modificar, quando se quer. E quem sabe você terá que modificar um dia, Perry.
Levantou-se e caminhou para a porta.
Boa noite, e pense um pouco a respeito. Agora você tem tempo.
Rhodan ficou olhando para a porta fechada.
Dois segundos depois, estava ele de pé, vestindo a jaqueta, caminhando para o corredor. Ainda viu Crest desaparecendo numa curva.
O elevador antigravitacional levou Rhodan para o assim chamado tombadilho do chefe, no centro da espaçonave. Thora ocupava um apartamento bem perto dos aposentos dos mutantes. Bell também residia aí.
Quando passou pela porta deste último, esta se abriu. Com um grunhido de contentamento, Gucky deu uma olhadela pelo corredor, mas fechou de novo a porta, sorrindo de feliz, para si mesmo. Depois sentou-se e começou a pensar:
Você? — cochichou ele admirado. — O que está fazendo aqui? — nos seus olhos castanhos havia um brilho de cômica malícia. O dente de roedor lhe saía da boca. Sorria feliz, como se tivesse descoberto uma plantação inteira de cenoura. — Ah... compreendo. Tarde demais. Rhodan, muito tarde. Sou ou não sou telepata? Mas de qualquer maneira, muito divertimento. Sou um cavalheiro, sei guardar segredos.
Rindo de contente e assobiando muito desafinado, foi embora, desaparecendo nos aposentos dos mutantes.
Por um momento, Rhodan se aborreceu, por não haver dominado seus pensamentos. Depois surgiu nele a curiosidade de saber o que fazia Gucky tão tarde da noite junto com Bell.
Voltou uns passos e enfiou a cabeça no camarote de Bell.
Bell estava de pé, com os cabelos eriçados, no lavatório, deixando o jato frio da torneira correr fortemente sobre as articulações dos dedos da mão direita. Sua fisionomia parecia a de um condenado à forca.
Que aconteceu? — perguntou Rhodan preocupado. — Pancadaria com seu amigo?
Com Gucky? — bocejou Bell, esfregando as articulações, aparentemente rígidas. — Pancadaria? Não, pelo contrário. Prometi uma coisa ao Gucky, lembra-se? De lhe cocar o pêlo durante cinco horas e isto não é brincadeira. E eu cumpri apenas duas horas.
Rhodan sorriu e fechou a porta.
Providencie um pouco de esparadrapo e gaze — aconselhou amigavelmente. — Da próxima vez, você será mais precavido com suas promessas. Boa noite.
Ainda estava rindo, quando bateu à porta de Thora.
Ela olhou para ele, como se fosse uma assombração.
Você...?
Rhodan fechou a porta, depois de ter entrado no camarote.
Thora, tenho que conversar com você...






* * *
* *
*













O regente positrônico de Árcon reconhece Perry como aliado, embora com alguma restrição, e assim legaliza a transferência da Titan para as mãos dos terranos.
A perigosa missão, que Perry Rhodan e seu corpo de mutantes receberam do regente e do Império, ainda não havia terminado, embora a ordem antiga já tivesse sido restabelecida em Zalit.
A nova aventura de Rhodan conta como a Titan foi vitima de uma cilada no espaço. Em S.O.S.: Espaçonave Titan o imprevisível acontece.

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