Isto era
uma pergunta e não uma constatação.
Bell
esvaziou sua taça e fez um sinal à bela jovem de cabelos cor de
cobre. Saboreou seus graciosos movimentos, muito mais do que o vinho
que ela lhe entornava na taça. Ajudando um pouco a sorte, tocou com
sua mão a pele bronzeada de seu braço. Era rígida, lisa e... fria.
O Zarlt
percebeu, gritou uma palavra áspera para a moça, numa linguagem
incompreensível. Ela se inclinou humilde, afastando-se
imediatamente. Desculpando-se, disse Demesor para Bell:
— Queira
perdoar se a escrava foi muito ousada. Foi um descuido dela.
— Oh —
exclamou Bell — um descuido muito perdoável. Não a censure por
isto. São jovens muito agradáveis.
O Zarlt
sorriu um pouco sem jeito e Bell começou a pensar alguma coisa. Mas
não apenas ele...
— Acredita,
Zarlt — perguntou Rhodan com muita firmeza — que seu domínio
sobre o Império vai ser mais útil do que o do cérebro robotizado?
Por um
instante, Demesor ficou paralisado com esta recusa camuflada. A cisma
de que Rhodan não o haveria de ajudar parecia se confirmar. Quem
sabe não tinha mais necessidade de sua proteção? Ou havia outros
motivos?
Dominou-se
num sorriso amargo.
— O
domínio de uma máquina sobre seres inteligentes é sempre
prejudicial, e de qualquer maneira humilhante.
— Mas
uma máquina toma resoluções mais rápidas e muitas vezes ou quase
sempre melhores. Isto o senhor não pode negar. Do contrário, não
estariam tantos robôs em nossos serviços.
— Robôs?
— perguntou Demesor.
Rhodan
percebeu que uma nuvem de terror passou pela mente do Zarlt.
Depois,
este sorriu novamente, como se nada tivesse acontecido:
— De
fato, como o senhor diz, estão em nossos serviços. Esta é a única
diferença. Nós não somos dominados por eles, mas eles é que
obedecem a nós.
— Se
forem mais competentes que nós, a situação mudará por cento e
oitenta graus — profetizou Rhodan com tranqüilidade. — No caso
de Árcon, aconteceu assim.
O Zarlt se
inclinou mais para frente.
— O
senhor pretende dizer com isto que o cérebro robotizado de Árcon
agiu corretamente quando substituiu os arcônidas?
— Sim —
concordou Rhodan convencido — é isto mesmo que eu queria dizer.
Novamente,
Demesor levou alguns segundos para digerir as palavras de Rhodan.
— Os
arcônidas estão em decadência e não estavam mais em condições
de administrar o Império — concedeu ele, parecendo pronto para um
compromisso. — Mas o cérebro tinha que procurar um regente melhor,
antes de agir como agiu.
Rhodan
sorriu consciente.
— E quem
sabe, ele procurou mesmo? Mas naquele tempo, Elton ainda era Zarlt de
Zalit. Quem sabe ele achou que também Elton não estava em
condições.
A resposta
foi pelo menos, diplomática. O Zarlt reconheceu.
Batendo
palmas, exclamou ele, com ares de bom anfitrião:
— Moças,
alegrem-nos um pouco com sua dança. Mas eu quero ainda uma resposta
bem clara sua, Rhodan, à minha pergunta. Se podemos mesmo contar com
seu apoio. Vamos atacar Árcon dentro de uma semana.
As seis
moças apareceram obedientemente e foram para o palco. De algum lugar
vinha pelos alto-falantes uma música suave. Muito harmoniosa e
sedutora.
— Até
que enfim, ficou mais interessante — disse Bell, ignorando os
graves problemas do Zarlt e sentando-se de tal maneira que pudesse
ver melhor. Para felicidade de todos, o Zarlt tinha feito com que
seus hóspedes sentassem bem em frente ao palco.
Rhodan, no
entanto, resolveu pôr um ponto final naquela conversa de
chove-não-molha.
— O
senhor terá uma resposta bem clara, Zarlt: Não o ajudaremos; e,
aliás, por um motivo muito simples. Eu vou dizer qual é. Se o
senhor não é capaz de superar a barreira de proteção de Árcon,
também não será capaz de dirigir o Império. Será que fui bem
claro?
Foi mais
do que claro. Foi um rompimento evidente. O Zarlt o engoliu.
Seu
sorriso se transformou um pouco, lançou um olhar severo para seus
oficiais, avisando-os que não se precipitassem.
— Sinto
muito — disse ele. — Sinto realmente muito. O senhor vai
compreender que, sob estas circunstâncias, não podemos mais
considerá-los nossos hóspedes. Terão que deixar ainda hoje nosso
mundo, em direção à extremidade da Galáxia. Nossos rastreadores
de estrutura haverão de controlar isto.
Rhodan
concordou calmamente.
— Se é
seu desejo, nós partimos. Sob estas condições... — e ele se
levantou — ...não tem mais sentido ficarmos em sua companhia.
Bell
permaneceu sentado. Estava de olhos fixos no palco, onde as seis
moças haviam começado sua dança. A melodia sedosa parecia ter
fundido os seis corpos rigorosamente iguais, cujos movimentos
pareciam ser feitos por uma só peça.
Rhodan
suspirou e sentou-se novamente. Marshall esboçava um sorriso a
contragosto. As moças interessavam a ele de outra forma. Talvez
soubessem de alguma coisa...
E
novamente lhe aconteceu, pela segunda vez nesta noite, algo muito
singular. Não encontrou nenhuma barreira de proteção, mas uma
coisa bem diferente. Não sabia o que era, mas já tinha sentido isto
uma vez nesta noite. Onde fora, mesmo? Lembrou-se. Foi lá fora,
quando os três oficiais os cumprimentaram no portão de entrada. Um
pensava no seu cunhado, o outro em ninharias e o terceiro não
pensava absolutamente nada.
Era isso.
E estas seis dançarinas também não pensavam em nada, ou melhor,
não pensavam.
Foi
desviado de seus pensamentos. A música mudou completamente.
Tornou-se bem mais rápida. As pernas das moças voavam para o alto e
começaram, sempre em ritmo cada vez mais acelerado, a pisotear o
chão. Bell estava completamente amarrado pela música. Não
despregava os olhos das dançarinas que agora desciam do palco e com
passadas cadenciadas se dirigiam para os hóspedes. Jocosamente
dançavam em torno deles e recuavam de modo gracioso, quando Bell
tentava pegá-las.
Marshall
recomeçou suas ponderações, mas, três segundos mais tarde, quando
achou a solução, já era tarde demais.
As seis
moças tinham se dividido de tal maneira que sempre duas delas
estavam atrás de um dos hóspedes. Antes que Rhodan pudesse
suspeitar o que estava acontecendo e antes que o aviso telepático de
Marshall fosse recebido, foi ele abraçado por garras de ferro, que
comprimiam os braços fortemente contra o corpo.
Com
Marshall e Bell aconteceu a mesma coisa.
Principalmente
para este último foi um golpe duro, que destruiu todas as suas doces
ilusões, por assim dizer, com um movimento da mão. Sentiu a
repentina proximidade das adoradas criaturas, mas não sabia o que
fazer com elas. A pele das duas moças, que o seguravam, era lisa e
fria. Fria como aço.
— São
robôs — disse Marshall em voz alta. — Uma bela armadilha.
Os cabelos
vermelhos e eriçados de Bell se levantaram verticalmente, formando
sua célebre escovinha. Os olhos estavam arregalados, mas não lhe
foi possível virar a cabeça para ver os rostos das encantadoras
bailarinas.
O Zarlt se
levantou, dizendo:
— Terminemos
a comédia. Por muito tempo, tivemos que ouvir suas promessas, agora
chegou ao fim. Se quiserem continuar vivos, terão que nos contar
seus segredos. Mas antes que comecem a falar, vamos trocar de sala.
Os senhores têm armas?
— Por
que suas dançarinas não vêm examinar? — aconselhou Bell, que aos
poucos se encolerizava. Ainda estava tomado de susto.
Não houve
outro remédio, a não ser depor as armas. Os braços de aço dos
robôs-travesti não permitiam nenhuma resistência. Rhodan estava
completamente calmo, pois sabia que Marshall já tinha transmitido
seu alarme para a Titan há muito tempo. A luta estava começando.
— Minha
avó sempre dizia — continuou Bell furioso — que eu, homem
inocente, cairia um dia nos braços de mulheres à-toa. Mas a pobre
velha não podia saber naturalmente que seriam mulheres-robôs.
— Mais
cedo ou mais tarde você iria descobrir o truque — disse Marshall
em tom de brincadeira.
O Zarlt e
os oficiais fizeram um sinal aos seis robôs, uma ordem
ininteligível. Então Rhodan, Bell e Marshall foram levantados sem
nenhum esforço pelas “lindas
jovens”
e retirados da sala.
*
* *
Os três
teleportadores Tako Kakuta, Ras Tschubai e Gucky estavam
ocupadíssimos, transportando o corpo de mutantes para os
esconderijos preparados pelos revoltosos. Em dez minutos, no entanto,
estava tudo terminado e a Titan já sem mutantes.
Thora e
Crest estavam pela primeira vez sozinhos na gigantesca nave, sem
contar com a tripulação, que naturalmente não podia influir em
suas decisões.
Ainda há
um ano atrás, Thora teria aproveitado a ocasião para roubar a nave
de Rhodan e fugir com ela para Árcon, como já tentara uma vez.
Hoje, porém, era tudo diferente.
Parece que
Crest havia percebido os pensamentos dela. Começou a sorrir, com
cara de quem sabia de tudo.
— Você
gosta de Rhodan, Thora? Pode falar sem acanhamento. Aliás, eu também
gosto dele.
— Talvez
não teria sido assim, se tivéssemos encontrado em Árcon o habitual
estado de coisas — disse ela confirmando indiretamente a suposição
de Crest. — De maneira que...
— Não
poderíamos nunca imaginar um amigo e um aliado melhor, Thora. Ele se
saiu com o cérebro robotizado melhor do que todos os arcônidas dos
últimos seis anos juntos. Se perdêssemos Rhodan, perderíamos nosso
futuro. Confiou-nos a Titan. Você sabe qual é a confiança
necessária para fazer isso?
— Sei
sim — concordou Thora com simplicidade. — E dou razão a ele e a
seus companheiros que estão neste planeta. O traidor Zarlt o prendeu
e no momento não posso mostrar como gostaria de ajudá-lo. E talvez
eu tenha ainda que fugir com a Titan como prometi. Isto me parece até
uma traição.
— Seria
traição se agíssemos contra suas ordens — tranqüilizou Crest.
Examinou cuidadosamente o painel ligado, que cobria todo o
espaçoporto. — Você agora não quer descansar um pouco, Thora? Eu
fico de prontidão e acordo você se houver alguma coisa.
— Dormir,
como posso dormir, se ele está em perigo?
O rosto do
arcônida demonstrava admiração.
— Você
está tão preocupada com ele?
Confirmou
com coragem e sem acanhamento.
Crest
sorriu pensativo.
— No
entanto, você tem que descansar para estar com muita força na hora
decisiva. Quem sabe, não vai demorar muito a hora da confirmação.
Quero demonstrar a Rhodan que ele pode confiar em nós e que podemos
lutar muito bem, quando for necessário. Portanto, por favor, me
deixe sozinho agora.
Thora
olhou para ele pensativa, depois concordou obediente, abandonando a
Central.
Crest
sabia que poderia chamá-la com um simples aperto de botão. Neste
sentido, não havia na Titan propriamente separação de espaço.
Ficou sozinho, preparado para uma noite muito longa.
Mas ele se
enganou.
Foi uma
noite muito curta.
*
* *
Kitai
Ishibashi era o segundo hipno do corpo de mutantes. Podia impor sua
vontade a outras pessoas tão firmemente, que os atingidos
continuariam convencidos de que agiam por própria iniciativa.
Juntamente com Gucky e o vidente Wuriu Sengu, cujos olhos penetravam
em qualquer matéria concreta, estava num esconderijo subterrâneo
dos revoltosos. Era num parque, na periferia da cidade.
Gucky se
esforçava para não perder o contato com John Marshall, o que não
era lá muito fácil, já que as vibrações mentais do telepata
estavam cada vez mais carregadas de impulsos estranhos. Havia muita
probabilidade de que os impulsos fossem provenientes dos moofs.
— Eles
nos estão levando para o porão do palácio — informou Marshall a
seus colegas telepatas. — Ainda não existe nenhum perigo, mas
Perry ordena que Zernif aja como foi planejado. Não estou podendo
receber mais notícias de vocês, a proximidade de um grande número
de moofs o torna impossível. Também não sei se me estão
entendendo, em todo caso, estamos mais ou menos a dez metros abaixo
do nível do chão, num recinto abobadado grande e bem iluminado. Um
instante... outro comunicado segue. Agora não posso...
Gucky
resmungou furioso:
— Puxa
vida. Que será de novo? Que está acontecendo? Wuriu, você não
consegue ver nada?
O mutante
balançou a cabeça.
— A
distância é grande demais. Não sou feiticeiro. Não podemos nos
aproximar mais do palácio?
O
rato-castor queria responder, mas ficou calado.
Novos
impulsos, mais fortes e mais intensos penetravam-lhe no cérebro.
Não era
Marshall, não era ninguém que Gucky conhecia. Mas no meio de suas
especulações, ouviu o chiado do transmissor que os mantinha em
contato com a Titan. Era Crest.
— Atenção
para todos. A Titan está sendo atacada com grandes forças. De
acordo com as ordens recebidas, haveremos de partir e aguardar na
distância combinada. O comandante Freyt levará a Ganymed para um
lugar seguro. Felicidades, Gucky. E tire Rhodan da armadilha. É de
vocês agora que depende sua vida e o futuro do Império.
O receptor
emudeceu. Crest já havia desligado.
Gucky
deixou-se cair para trás sobre as patas traseiras, apoiando-se
também na cauda para não perder o equilíbrio. Nos seus olhos havia
uma pergunta muda, que ele não tinha coragem de pronunciar. Manteve
curto contato com os demais telepatas, espalhados em outros grupos e
constatou que todos haviam recebido a mensagem do arcônida.
Estava
mais do que evidente de que o Zarlt não respeitava mais nada. Atacou
abertamente a Titan e a Ganymed. Tinha aprisionado Rhodan.
Gucky
soltou um ruído estridente e desafinado. Depois falou com voz
incrivelmente clara:
— Meus
senhores revoltosos, Rogal, podem mostrar agora o que aprenderam. A
revolução começou, nós vamos derrubar Demesor e seus capachos e
libertar Rhodan. Vamos, o que estão esperando?
Rogal
olhou cheio de estupefação para o rato-castor, que via hoje pela
primeira vez. Ainda não podia compreender como um ente daquele tipo
podia ser mais inteligente que um zalita. Mas logo em seguida largou
aquela visão fascinante e, virando-se para seus companheiros de
arma, exclamou com entusiasmo:
— Viva o
Império, viva Perry Rhodan!
Gucky
tapou as grandes orelhas, quando a resposta ecoou pela abóbada.
Que
estupidez, um telepata ter orelhas tão grandes...
5
Bell
gritou e esbravejou quando as duas “beldades”
o arrancaram do salão. O seu sonho era outro, ele o tinha imaginado
muito diferente. Por que motivo tinha que ser sempre tão afobado?
Rhodan e
Marshall tinham passado pelos mesmos dilemas, mas se mantinham calmos
e ponderados diante do inevitável. Com força bruta somente, não se
conseguia nada contra um robô, mesmo vestido de plástico como uma
graciosa donzela.
Desceram
num elevador. Um andar abaixo do solo oficial, ele parou. Demesor
saltou na frente, mostrando o caminho. Eram corredores muito
bifurcados, que a dez metros sob a terra formavam um mundo novo. A
luz amortecida vinha do teto e espalhava um ar de assombração.
Rhodan começou a ficar curioso para saber o que pretendiam com eles.
Suplício
e sevícia para lhes arrancar os segredos?
Caso fosse
isso, certamente não haveria mais os suplícios conhecidos na Idade
Média da Terra, mas tão somente uma auscultação técnica do
cérebro, onde não podia mais haver mentiras e informações
deficientes. Por fim lá estavam ainda os moofs a quem seria fácil
uma confrontação das declarações feitas.
Os
moofs...
De repente
Rhodan começou como que a ver escamas diante dos olhos, sentindo uma
pressão cada vez maior no cérebro e uma grande dor de cabeça. Bell
tinha parado de esbravejar. Parecia estar sonolento nos braços das
sedutoras donzelas, que na realidade nada mais eram do que robôs
desalmados. Marshall se mantinha passivo, parecendo ouvir qualquer
coisa.
Os moofs
estavam por detrás da repentina atividade do Zarlt. Só podia ser
isto.
Rhodan
sentiu um aumento dos impulsos. Vinham agora da mesma direção, isto
é, da frente.
Tinham
sido conduzidas para o local dos moofs.
Apesar de
sua situação não muito digna de inveja, Rhodan ainda achou tempo
para desenvolver apressadamente uma teoria. Um único moof, assim lhe
ensinava sua experiência, não tinha força suficiente para impor
sua vontade a um homem. Como telepata, ele era bom, isto não tinha
dúvida. Mas, como sugestor, não era tanto.
Pois bem,
o que aconteceria então, pensava Rhodan, quando quatro ou cinco
moofs se concentrassem simultaneamente no cérebro do mesmo terrano?
Bastaria a força dos cinco seres para dominarem a sua vontade?
Parece que
os moofs tinham idênticas preocupações, pois Rhodan podia concluir
agora com alguma certeza que não apenas um, mas no mínimo quatro ou
cinco moofs o estavam sondando.
Era uma
possibilidade com a qual não havia contado. E representava um sério
perigo.
Comunicou
sua suspeita a Marshall, que mostrou logo sua preocupação. Mas não
lhes restava mais tempo para fazerem considerações sobre a
situação.
O Zarlt se
deteve diante de uma porta. Milfor começou a sorrir sadicamente e
deu um soco nas costas de Bell, respondido logo por grito de rancor.
Demesor abriu a porta e caminhou na frente. Os quatro oficiais e os
seis robôs com seus prisioneiros seguiram atrás.
As
suspeitas de Rhodan se confirmaram.
Era uma
sala grande, abobadada, com boa iluminação. Em seus recipientes de
vidro resistente à pressão, estavam em longa fila uma dúzia de
moofs na parede de trás. Tubulações cintilantes ligavam as câmaras
de compressão a um conjunto de purificarão do ar, que renovava
constantemente a atmosfera de metano. Imóveis lá estavam os animais
— gigantescas medusas com metro e meio de altura e com um diâmetro
de um metro — em seus recipientes, olhando os recém-chegados com
olhos redondos arregalados.
Rhodan
sentiu uma onda dos impulsos sugestivos sobre ele. Com toda
concentração de que era ainda capaz, tentou se defender da coação
que lhe queriam impor. Os quatro braços das jovens-robôs
prendiam-no com tanta firmeza, que não conseguia nenhum movimento.
Não, com força física não se arranjava nada aqui.
A voz do
Zarlt quebrou-lhe a concentrarão:
— Como
conseguiu, Rhodan, romper a muralha de proteção de Árcon? Fale, ou
eu o mandarei para os meus cientistas.
Rhodan
refletiu um pouco: os zalitas não sabiam nada das faculdades
sugestivas dos moofs. O Zarlt estava convencido de que por meio dos
moofs podia apenas averiguar a veracidade das afirmações de Rhodan.
O Zarlt não sabia que ele próprio estava sob coação das medusas,
que o manejavam à vontade. Demesor e seus quatro oficiais eram tão
prisioneiros dos moofs como Rhodan, Marshall e Bell.
Mas também
sem os moofs, não poderiam alterar seu ponto de vista, e somente
este fato é que daria a última palavra para o julgamento que já
tinha sido feito, mas não executado.
— O
senhor não vai saber nada por mim, Zarlt.
A corrente
de força sugestiva que tinha enfraquecido um pouco, começou
novamente. Rhodan reparou que Bell e Marshall não foram atingidos.
Então precisaria de toda concentração para resistir ao ataque dos
moofs reunidos contra ele.
O duelo
foi mudo, mas somente para os outros.
Rhodan
compreendeu a frase que de repente se tornou nítida em sua mente:
— Você
sabe quem somos? Por que se protege contra nós?
— Porque
sei quem são vocês. Rhodan pensou apenas e tinha certeza de que os
doze moofs o entenderam. Foi a primeira vez que entrou em contato
direto com seu inimigo, obrigado pelas circunstâncias.
— Você
tem que dizer ao Zarlt de que maneira Árcon pode ser conquistado.
— Por
que devo fazer isto? Será um Demesor capaz de dirigir o Império? Ou
vocês querem saber?
— Sim,
queremos saber.
— Em
nome de quem?
Por uns
instantes gloriosos, desapareceram todos os impulsos, a pressão
também aliviou. Era como se os moofs tivessem interrompido seu
trabalho para se aconselharem. Rhodan aproveitou a oportunidade para
se comunicar mentalmente com Marshall:
— Que
aconteceu com os mutantes? Os revoltosos já estão atacando? Sabem o
que está acontecendo conosco? Depressa, responda em voz alta em
inglês. Não consigo me concentrar o suficiente para recebê-lo por
telepatia.
— Corpo
dos mutantes está atacando. Começa a revolução. Já iniciou o
ataque à Titan. Ainda uma meia hora... diz Gucky...
Não pôde
continuar. Milfor que acabava de entrar, deu um soco na boca de
Marshall.
— Vocês
não podem falar — ordenou Demesor furioso. — Somente quando
forem interrogados. E eu lhe perguntei uma coisa, Rhodan.
— Então
espere um pouco — aconselhou Rhodan, calculando o que poderia
acontecer em meia hora. Naturalmente ainda havia a possibilidade de
dizer toda a verdade ao Zarlt. Ele não poderia fazer nada, pois não
possuía o transmissor fictício. Além de tudo, seu domínio não
iria além de meia hora, se tudo corresse bem. Então se apoderou de
Rhodan uma vontade orgulhosa e inflexível de vencer. — Espere a
vida toda.
Demesor
era um homem de autodomínio, talvez também os moofs lhe deram uma
ordem correspondente. De qualquer maneira nada respondeu, aguardando
ainda o que estava para acontecer.
Os moofs
não tiveram mais complacência. Com grande concentração atacaram
de novo. Era uma onda avassaladora de impulsos doloridos que invadiam
seu cérebro, ameaçando destruí-lo. Porém as faculdades mentais de
Rhodan, graças à escola de hipnos de Crest, tinham evoluído muito.
Estava, portanto em condições de formar uma barragem metal que
enfraquecia os impulsos penetrantes dos moofs, não lhes permitindo
uma atuação suficiente. Apesar de tudo, era um esforço
super-humano tentar qualquer resistência.
Foi a
maior batalha de sua vida.
Seus
adversários continuavam imóveis nos recipientes, aparentemente
adversários inofensivos e desarmados, quando não se estava em suas
malhas. Mudos por natureza, e por este motivo telepatas,
desenvolveram em seu mundo as forças espirituais, que, empregadas
coordenadamente, representavam um poder incalculável.
Rhodan
começou a suspeitar de que estavam depreciando os moofs — ou será
que somente nos últimos dias é que aprenderam a usar sua força
sugestiva planejadamente? Seu cérebro era como um rochedo no meio da
rebentação: cada onda forte que o envolve, leva-lhe um pedacinho. E
as ondas batiam cada vez mais fortes, mas depois de cada uma delas,
as águas voltavam, permitindo ao rochedo uma pausa para respiração.
Mas a maré subia, as ondas se tornavam mais fortes, o ataque
horrível. Se durasse muito tempo, a rebentação destruiria o
rochedo. Tempo...
Era tempo
que Rhodan queria ganhar. Sentia que sua resistência se enfraquecia
contra os impulsos sugestivos. Precisava de cada fibra de seu corpo
para manter a defesa mental. Ainda estava agüentando, mas por quanto
tempo?
Estava
quase capitulando, quando de súbito os moofs se retiraram. Como um
homem que vai com toda força contra uma porta muito firme, que
inesperadamente se abre sozinha.
Mais vinte
e cinco minutos...
Os olhos
de Marshall se arregalaram. Rhodan sabia que os moofs tinham
procurado uma outra vítima. Quem sabe, mais tarde se voltariam de
novo contra ele, Rhodan. Mas agora, interessava aos moofs descobrir o
mais fraco dos três prisioneiros.
Os zalitas
agiam com absoluta calma. Estavam como que presos sob uma força
mágica e pareciam ignorar o que acontecia. Mas Rhodan não teve
piedade deles. Expôs-lhes o que aconteceria com o Império se
chegassem ao poder e conseguissem afastar o cérebro robotizado.
Seria um reino de marionetes, dirigido pelos moofs, atrás dos quais
estaria alguém mais poderoso e sabido.
Não.
Compaixão
no lugar errado podia significar a destruição de um grande reino e
conduziria a uma centena de mundos à escravidão.
Rhodan,
preocupado, dirigiu sua atenção para Marshall, que como telepata
tinha experiência e energia suficiente para se defender dos ataques
dos moofs.
Exatamente
quatro minutos depois, as medusas desistiram.
Ainda
antes que atacassem a terceira vítima, Rhodan se pôs em contato com
Marshall:
— Chame
Gucky, deve vir depressa. Somente Gucky pode ajudar.
Chegou a
vez de Bell. Também ele havia passado pela escola de hipnos dos
arcônidas, que muito lhe aumentou os conhecimentos. Mas a potência
de sua capacidade de resistência mental não era suficiente para
agüentar cem por cento os ataques dos moofs.
Seu rosto
se contraiu de dor e o suor lhe escorria pela testa, quando os
impiedosos impulsos pareciam lhe devorar o cérebro. Os lábios
começaram a tremer e seus olhos não viam mais onde estava o corpo.
A fila dos
doze telepatas...
Tinha
escolhido sua vítima.
*
* *
O conjunto
propulsor da Titan foi acionado. Thora deu o alarma geral e a
tripulação bem treinada colocou o gigante do espaço, exatamente em
quatro minutos, em condição de defesa.
Mas uma
luta, em que morrem principalmente os inocentes, deve ser evitada.
Fugir era portanto a única possibilidade de frustrar o ataque da
frota dos zalitas.
A Ganymed
já estava a uma altura onde se iniciava o campo gravitacional e se
atirou então numa aceleração incrível no céu já escuro de
Zalit.
À beira
do espaçoporto cintilavam os obuses. Feixes energéticos de intenso
brilho perseguiam os fugitivos, esbarrando no entanto na barreira de
proteção. As baterias estouravam de todos os lados tentando atingir
a Titan.
Thora via
como os raios energéticos se desfaziam em todos os sentidos ao se
aproximarem da camada de proteção. Mais para o fundo, levantavam
vôo os primeiros destróieres da frota zalita e subiam rápidos para
atacarem a Titan de cima.
Thora
ligou o intercomunicador:
— Atenção
geral. Partimos em dez segundos. Máxima velocidade com os
neutralizadores ligados. Transição em onze minutos.
Ela
certamente não sabia quantas aeronaves inimigas já sobrevoavam o
campo e se preparavam para atacar. Porém tinha certeza de que Rhodan
havia ficado neste mundo, e de que ela agira conforme estava
combinado anteriormente. Julgava-se covarde, mas tinha que levar a
nave para um lugar seguro — e devia também poupar a vida dos
adversários.
Ainda
cinco segundos.
Encontrava-se
no maior dilema de sentimentos que jamais vivera. Vagarosamente
aproximou a mão da alavanca de partida. Haveria de puxá-la com
rapidez. Os reatores arcônidas descarregariam sua energia e a
gigantesca espaçonave seria atirada com toda força no céu escuro,
que na realidade não estava escuro, mas era um emaranhado de
estrelas cintilantes.
O último
segundo foi o mais longo. Mas passou também, e então pareceu-lhe
que o espaçoporto de Tagnor se transformou num inferno.
A Titan se
projetou para a noite a dentro e ultrapassou brincando as
esquadrilhas dos destróieres que a esperavam. A camada protetora dos
zalitas se dissolveu sob a ação da cúpula energética que havia em
torno da belonave de Rhodan. Sem sustentação, como folhas secas,
dez, vinte destróieres se precipitaram no abismo e explodiram,
provocando clarões muito fortes. Só o deslocamento de ar da nave
esférica de quilômetro e meio de diâmetro destruiu as baterias de
mísseis a jato e as instalações subterrâneas do espaçoporto.
Thora não
sabia nada disso. Estava de olhos fixos no painel de controle, sem
reparar no tenente Tifflor, que calado, a uns metros de distância,
estava sentado na poltrona do navegador, não perdendo a jovem
arcônida de vista.
Tiff não
podia compreender as verdadeiras razões para a contida ira de Thora.
Supunha que sua expressão fechada provinha da destruição do
inimigo. Não podia imaginar que era Rhodan o responsável pela
explosão de sentimentos em Thora. O planeta desapareceu sob a Titan
no abismo do infinito. A velocidade da luz foi atingida e deu-se a
transição.
Quando a
Titan voltou do hiperespaço para a quarta dimensão, a Ganymed
estava a uma distância de 0,005 de segundos-luz. Os cálculos eram
muito exatos, embora as duas naves já tivessem percorrido exatamente
dois anos-luz.
*
* *
Gucky se
materializou diante dos olhos estupefatos dos revoltosos e
infelizmente não teve tempo de pensar naqueles que o receberam com
admiração. Estava preocupado com o pedido urgente de socorro de
Rhodan.
— Almirante
Zernif, o senhor possui um mapa exato do palácio do Zarlt?
Especialmente das instalações subterrâneas? É urgente.
O líder
dos revoltosos chamou um homem.
— Quando
vocês descobriram o caminho secreto, não fizeram nenhum mapa?
— Naturalmente,
Rogal o tem.
— Obrigado
— disse Gucky, e desapareceu.
Permaneceram
ali Zernif e algumas bocas abertas.
*
* *
Rogal,
sabia Gucky, se encontrava desde alguns minutos no mais avançado
esconderijo. Devia estar a menos de cem metros da entrada do palácio.
Um corredor levava até lá.
Gucky
concentrou-se no seu objetivo e pulou.
Por medida
de precaução, aterrissou em cima, neste caso um parque. Tudo era
silêncio. O clarão avermelhado do palácio despertou em Gucky a
vontade de agir por conta própria para libertar Rhodan, mas acabaram
vencendo o bom senso e a cautela. Sabe Deus onde iria chegar se
agisse sem cuidado?
Com mais
duas teletransportações, chegou bem no centro do esconderijo.
Rogal, de susto, quase caiu da caixa onde estava sentado. Os outros
zalitas ficaram de olhos arregalados no rato-castor, como se
estivessem vendo um fantasma. Gucky, apesar da situação seríssima,
sorriu para todos, e contente deixou ver seu dente de roedor. Depois
se aproximou de Rogal e disse:
— Estou
precisando do mapa do palácio, principalmente dos porões: Rhodan
está em perigo.
Rogal se
levantou. Começou a procurar em seus bolsos, acabando por fazer uma
cara decepcionada.
— Não o
tenho comigo. Talvez esteja no nosso antigo alojamento. Sabe onde?
Onde estivemos há pouco.
Acabou
falando para o ar vazio, Gucky já estava longe. Enquanto Rogal ainda
estava falando, o rato-castor já vasculhava o antigo alojamento,
achando o mapa no bolso de um paletó de uniforme dependurado num
prego. Com curto salto, foi ter com Wuriu Sengu e Kitai Ishibashi. Os
dois mutantes estavam descontentes por ficarem sem fazer nada, não
podendo ajudar os outros.
— Onde
você esteve o tempo todo — resmungou Sengu. — Que há com
Rhodan?
— Está
preso, como vocês devem saber. — disse Gucky, estudando o mapa.
Depois de
alguns instantes, já estava mais calmo.
— Temos
que ajudar, imediatamente, antes que seja tarde. Os moofs bloqueiam
com seus fluxos sugestivos todos os impulsos telepáticos de
Marshall. Não consigo mais me comunicar com ele. Por isso precisava
deste mapa. Por ele vou calcular meu salto. Vou sozinho para sondar a
situação. Volto depois e levo Wuriu. Assim que soubermos como estão
os prisioneiros e os moofs, venho buscar Kitai e então atacaremos.
Compreenderam?
Os dois
japoneses estavam um pouco confusos, mas disseram que sim. Já
conheciam bem Gucky, mas lhes parecia estranho que um Mickey Mouse um
pouco ampliado perguntasse a dois homens adultos se tinham
compreendido alguma coisa.
Gucky não
entendendo bem o motivo da confusão, repetiu:
— Quero
saber se ficou tudo compreendido.
Desta vez
disseram claramente que sim, mas Gucky já tinha desaparecido.
Por fim,
poderia ler os pensamentos...
6
Com
minucioso cuidado, o rato-castor observava o mapa. Sentado sobre as
patas traseiras, segurava o pedaço de papel com as patas dianteiras
que pareciam mãos humanas, embora fossem menores e cobertas de pêlo.
Alguém que o visse assim, não acreditaria que ele, em capacidade e
inteligência, superasse os homens em geral. Não havia nenhum
mutante que fosse capaz de dominar ao mesmo tempo a telepatia, a
telecinese e a teleportação. Nenhum, a não ser Gucky. Seu
quociente intelectual se equiparava ao de Rhodan, se bem que nunca
houvesse cursado uma escola de hipnose. O segredo de sua força
estava em sua aparência simples.
E que
coisa... um animal e, no entanto, superior ao homem...
A voz
estridente de Gucky se fez ouvir:
— Daqui
até a entrada do palácio são exatamente duzentos e sessenta e oito
metros. No meu último contato, Marshall estava a duzentos e
cinqüenta metros mais ou menos. Isto quer dizer que a abóbada
subterrânea se encontra em nossa direção. Já conhecemos portanto
a orientação e vou dar um pulo até o palácio, indo dez metros
para baixo do solo. Depois tenho que me materializar num lugar onde
Bell e Rhodan estavam há poucos minutos.
Wuriu
estava pensativo.
— Devo
ir junto? Olha que eu sei ver através das paredes...
— Eu
venho buscá-lo imediatamente. Gucky fez-lhe um gesto tranqüilizante
e desapareceu.
Quando
conseguiu enxergar de novo, estava num corredor, não longe de uma
saída de elevador. Havia silêncio completo, não se ouvindo o menor
ruído.
Mas Gucky
não estava preparado para isto. Sua mente sensível reagiu rápida.
Mas os pensamentos de Rhodan e Bell estavam demasiadamente
sobrecarregados com os impulsos dos moofs. A intensividade destes
impulsos indicava uma separação mínima de sua fonte de origem.
Talvez os prisioneiros estivessem atrás da próxima porta.
Gucky deu
um salto de volta e apanhou Wuriu. Depois Kitai. Os dois japoneses
tinham na mão suas pequenas mas eficientes pistolas energéticas,
prontas para atirar. Gucky dispensava qualquer arma.
— Então,
Wuriu, está vendo qualquer coisa?
Gucky
constatou que os fluxos de pensamento de Marshall estavam submersos
no turbilhão dos impulsos dos moofs. Gucky sentia como era grande a
tentativa das medusas-telepatas para colocarem o terrano sob o
domínio de sua vontade.
De repente
Marshall ficou completamente livre. Começou então o segundo e
decisivo ataque a Bell. Não havia dúvida de que os moofs sairiam
então vitoriosos.
Marshall
se pôs imediatamente em contato com Gucky, cujas tentativas de
rastreamento ele já percebera.
— Onde
está você, Gucky? Pegaram Bell e ele não vai agüentar muito.
Responda.
O
rato-castor estava esperando a resposta do vidente. Wuriu acenou de
súbito com a cabeça, enquanto olhava fixamente para a parede
próxima.
— Eu os
estou vendo — cochichou emocionado. — A menos de dez metros
daqui. Aquela porta lá — apontou para a segunda porta. — Parece
que pegaram Bell. Que estão fazendo aquelas moças lá dentro?
— Que
moças? — perguntou Gucky admirado. E ele apreciava mais as moças
que lhe cocavam o pêlo do que os homens preguiçosos. — Existem
moças lá dentro?
— São
elas que seguram Rhodan, Bell e Marshall — anunciou Wuriu
estupefato, dando impressão de estar muito inquieto. — Bell não
reage mais.
— Uma
limpeza geral do cérebro lhe fará muito bem — cochichou o
rato-castor meio contente com o castigo.
Na
realidade, porém, seu pensamento era muito diferente. Os moofs
podiam estar preparados para alguma coisa.
— Atacaremos
em dez segundos, Marshall.
— Cuidado
— veio a resposta. — O
Zarlt e os oficiais estão com as nossas armas. Os robôs, seis ao
todo, têm que ser postos fora de combate. Os moofs...
— Robôs?
Wuriu não viu nenhum robô.
— Têm
a
forma de moças jovens. Nós fomos enganados.
Gucky fez
uma cara de espanto e foi pena que ninguém pôde saber disso.
Depois, fez um gesto de ameaça:
— Wuriu,
Kitai, vocês sabem o que têm que fazer. Kitai vai cuidar dos moofs,
fazendo com que seu fluxo de sugestionamento fique interrompido por
tanto tempo, até que eu me possa dedicar a eles. Wuriu, você vai
receber os zalitas... — e Gucky parecia muito eufórico... — e eu
vou receber as virgens do santuário.
— Quem,
mesmo? — perguntou Wuriu de boca aberta e de olhos arregalados. —
As moças?
— Por
que não? — respondeu Gucky, parando na frente da tal porta. — Ou
alguém de vocês vai ser testemunha de que eu não liquidei com seis
delas ao mesmo tempo?
Os
japoneses ficaram calados. Realmente, nunca tinham visto coisa
semelhante.
*
* *
Bell
estava quase reduzido a zero, não só espiritual, mas também
fisicamente. Se ainda continuava de pé, era porque os fortes braços
das jovens-robôs o seguravam. Os cinco zalitas estavam de lado,
olhando estoicamente o que iria acontecer. Um único moof seria
suficiente para controlá-los. Sua capacidade de resistência era bem
menor que a dos terranos.
Rhodan e
Marshall estavam completamente livres. Pelo menos onze dos moofs
estavam concentrados em Bell, que não podia agüentar um ataque
assim.
— Se
Gucky não aparecer logo — murmurou Rhodan, — não sei o que vai
acontecer.
— Já
estão ali fora, no corredor — sussurrou Marshall. — Em poucos
segundos...
Kitai se
materializou com Gucky, que logo tornou a desaparecer. Um segundo
depois, estava de volta com Wuriu, cuja pistola energética entrou em
ação imediatamente. Os zalitas nem sentiram a morte. Antes de terem
tempo de esboçar um movimento de resistência, já estavam mortos.
Kitai era
um sugestor muito competente. Para o gabarito dos moofs, devia ser
então um gigante. Antes que as medusas pudessem notar a alteração,
e mudar de atitude, foram atingidas por fortes impulsos de tal
maneira, que abandonaram imediatamente sua vítima. Bell estava
sonolento nos braços das duas moças, seus olhos se mantinham
fechados, mas ainda vivia.
Os fluxos
de energia telecinética de Gucky se concentraram de início nos dois
robôs que seguravam Rhodan. Obrigou seus braços a se abrirem
lentamente, centímetro por centímetro, até que Rhodan conseguiu
sozinho se desvencilhar deles. Rígidos e imóveis, os dois
exemplares de belas bailarinas continuaram ali estatelados, incapazes
de se moverem. Gucky os mantinha presos, mas não podia permanecer
assim por muito tempo, pois havia muita coisa que fazer. Fez um sinal
para Wuriu, sem olhar diretamente para ele.
— Dê
uma descarga de raios nos robôs, embora elas sejam tão
encantadoras.
Segundos
depois, as duas bailarinas estavam reduzidas a insignificantes restos
de metais fundidos e material plástico carbonizado.
Gucky se
horrorizou:
— Nunca
teria pensado — disse com o chiado característico — que aquelas
tão lindas moças fossem de aço!
Marshall
foi também libertado e seus dois robôs destruídos.
Chegou
então a vez de Bell. Gucky tinha que tomar cuidado para que seu
amigo não caísse no chão como um saco de chumbo, quando os robôs
o libertassem. Mas o problema se resolveu do modo mais simples: Bell
voltou a si.
Abriu os
olhos. Num relance de vista, sorriu comovido, e compreendeu logo a
situação.
— Ah...
Gucky, naturalmente. Quando Gucky fareja qualquer rabo de saia,
ninguém o segura.
O
rato-castor ficou por uns instantes meio vexado com o exagero,
permanecendo incapaz de qualquer reação. Mas depois, todo contente
deixou aparecer seu dente roedor, acenando amigavelmente.
— Não
haveria de querer roubá-las de você. Pode ficar com todas elas,
obrigado — disse virando-se para Rhodan:
— E
agora, desliguemos os moofs, senhor e mestre.
Kitai já
tinha conseguido dominar completamente os moofs. As criaturas
esquisitas estavam como que paralisadas, imóveis nos recipientes.
Podiam perceber qual seria seu fim.
— Gucky
— gritou Bell desesperado — livra-me destes monstros.
O
rato-castor virou-se com calma e ficou observando com o dente roedor
cintilante e o pêlo eriçado aquele quadro idílico. Parecia se
divertir imensamente vendo Bell abraçado com duas lindas mulheres.
— Você
sente alguma dor? — perguntou com malícia.
— Liberte-me,
que eu lhe dou as duas. Quem sabe você conseguirá programá-las
para cocarem seu pêlo.
Gucky
sorriu:
— Não
preciso delas, conheço alguém que faz isto muito melhor.
— Você
não está pensando em... — disse Bell ciumento, mas Gucky o
interrompeu:
— Estou
pensando em você, velho amigo. Para eu libertá-lo, você tem que
prometer que durante ao menos cinco horas, me...
— Certo,
eu prometo. Mas vamos depressa.
Bell se
sentiu livre. E ainda cambaleando, foi na direção de Kitai,
arrancou-lhe das mãos a pistola energética e voltou contra os dois
robôs, que estavam completamente passivos. O Zarlt a quem obedeciam
já estava morto.
Bell
avançou com a arma contra os rostos das dançarinas, exclamando:
— E
agora eu vou destruir vocês, suas... suas... — e não achou a
palavra apropriada.
— Vocês
nunca mais levarão homens decentes a pensamentos bobos, isso eu lhes
posso garantir. Vamos, virem-se de costas. Vamos, depressa — as
duas bailarinas não reagiram, continuando mudas em seus lugares.
— Não
querem obedecer? Pois bem, passem bem, adeus, e minhas saudações às
outras quatro no céu dos robôs.
Depois que
as graciosas figuras se transformaram em plástico fumegante e em
metal fundido, Gucky, horrorizado, tapou o nariz, e gritou,
virando-se para Marshall:
— ...e
quando eu me recordo que quase... não. Nem se deve mais pensar
nisso. Foi uma vergonha...
Gucky
havia acompanhado a tudo com interesse e não queria mais saber da
tragédia. Olhando para Kitai, disse:
— Vou
levá-las para o terraço em suas gaiolas e simplesmente vou jogar
essas medusas para baixo. Quebrando os recipientes, sai a atmosfera
de metano e elas terão uma morte tranqüila.
Rhodan,
que até o momento se abstivera de qualquer comentário, falou:
— Não
vamos matá-las, Gucky. Basta que Kitai lhes sugira peremptoriamente
que, daqui por diante, elas têm que servir a um novo amo. Devem
ficar passivas até que as apanhemos. Na Titan, há espaço
suficiente para doze moofs.
Bell
arregalou os olhos e disse:
— Você
vai instalar um jardim zoológico na Titan?
Rhodan
abanou a cabeça:
— Meu
caro amigo, você, de vez em quando, fica com a cabeça oca. Você
sabe que os moofs pouco ou nada nos interessam.
— E
então?
— E
interessa muito menos aos pobres coitados que foram por eles atacados
em Zalit. Quem sabe, com o tempo os moofs se tornam mais sociáveis.
Por isso é que pretendo instalar um zoológico. Entendido?
— Pareço
tão burro assim? — perguntou Bell com simplicidade. Parecia estar
já bem refeito da refrega.
Gucky
cochichou:
— Já
houve tempo em que também eu pensava sofrer da vista — disse ele
com ironia.
Bell
olhou-o, mas estava por demais preocupado com seus próprios
pensamentos, para compreender a indireta lançada contra ele.
Rhodan
olhou mais uma vez na direção da parede, onde há pouco tempo
estavam o Zarlt e seus oficiais.
— Lá
fora está acontecendo muita coisa. Acho bom avisarmos o almirante
Zernif da morte do Zarlt. Isto pode poupar a vida de milhares de
zalitas. Quando souberem que o Zarlt está morto, haverão de depor
as armas. Neste sentido, Wuriu fez um bom trabalho, embora eu não
esteja de acordo com este tipo de castigo dos culpados.
Por alguns
momentos, Marshall estava concentrado em si mesmo. Depois, ergueu a
cabeça.
— Os
revoltosos atacam o palácio. Estão rebentando tudo que encontram
pelo caminho. Guardas palacianos, soldados, empregados...
— Vamos
depressa — disse Rhodan. — Não percamos tempo em comunicar aos
zalitas que estão livres. Eu mesmo tenho muita necessidade de
conversar com nosso velho amigo.
— Com
quem? — perguntou Bell.
— Exatamente,
com nosso velho amigo: o cérebro robotizado de Árcon.
*
* *
Thora já
estava dormindo há algumas horas, quando o tenente Tifflor a
acordou.
— Desculpe,
senhora, Crest não teve oportunidade de avisá-la pelo
intercomunicador. Pede que o procure imediatamente na Central.
Thora se
levantou.
— Que
aconteceu, Tiff?
— Nada,
minha senhora, por enquanto nada.
Thora não
fez mais perguntas. Esperou até que Tiff fechasse a porta do
camarote, depois se levantou e em dez minutos estava com Crest.
O
cientista arcônida, mal virou a cabeça, quando Thora entrou. Tiff
estava sentado na frente do computador de navegação, colhendo
algumas informações. Todos os painéis estavam ligados e mostravam
com nitidez todo o espaço em volta da Titan.
Thora
reconheceu os pequenos exploradores robotizados de Árcon, entre eles
maiores unidades de combate e cruzadores. Mais para o fundo,
gigantescas naves espaciais do tipo Stardust espreitavam: esferas
espaciais com diâmetro de oitocentos metros.
— Que
significa tudo isto? — perguntou Thora procurando na tela a
Ganymed. O gigantesco torpedo flutuava, aparentemente parado, a
alguns quilômetros de distância. Na realidade, os dois gigantes se
moviam, por queda livre, na direção de Voga. — Será que vão nos
atacar? São naves do Zarlt?
Crest
desviou os olhos dos instrumentos, por uns instantes.
— Até
agora não se deu nenhum ataque, Thora. São unidades do Império.
Todas controladas por robôs. Ainda não sei bem o que representa
tudo isto. Será que o cérebro robotizado teria esquecido o que
combinou com Rhodan?
Thora nada
respondeu. Acompanhava com toda calma o movimento da frota. Seus
olhos tinham um brilho frio. Quando finalmente falou, sua voz soou
fria e resoluta:
— A
frota de Árcon... Se nos atacarem, Crest, levarão uma lição tal,
que nem Orcast nem o cérebro haverão de esquecer. Somos donos da
nave mais poderosa do Universo. Nunca permitiremos que a tirem de
nós.
Crest teve
tempo de sorrir, admirado. Depois disse com tranqüilidade:
— Até
agora não houve ataque, estou procurando contato com o comandante,
quer ele seja homem ou robô. Quem sabe não está a par do que foi
combinado com o cérebro robotizado. Na confusão do momento, tudo é
possível.
— Mas se
houver um ataque... — começou Thora, mas Crest a interrompeu:
— Então
nos defenderemos, naturalmente. Não é, Tiff?
Parece que
o jovem tenente estava esperando pela pergunta:
— Estão
se adaptando ao nosso movimento, pacificamente. Não se fala em
ataque. É um movimento de vigilância. Que podemos concluir daí?
— Não
sei ainda — respondeu Crest, tentando ligação pelo videofone com
o comandante Freyt na Ganymed. — Super-prontidão, comandante. Ao
menor sinal de ataque, fogo de todas as baterias. Deixar ligado o
envoltório protetor. Em caso de necessidade, use sem escrúpulo o
transmissor fictício.
— Compreendido
— foi a resposta firme.
Duas
fortalezas inexpugnáveis estavam esperando para entrar em ação.
Thora perguntou de repente:
— Quando
voltamos para Zalit? Não podemos ficar aqui, simplesmente esperando.
Rhodan não tem possibilidade de nos ouvir.
— Tem os
mutantes e os grupos de resistência do seu lado. Não estou
preocupado com ele. Mas não gostaria de destruir as naves do cérebro
robotizado...
— Por
que não perguntamos ao próprio cérebro?
Crest
olhou surpreso para Thora. Depois concordou:
— Naturalmente,
seria uma saída. Por que não tive essa idéia antes? Tiff, consiga
a ligação com o supertransmissor. Thora vai ajudá-lo.
Desta vez,
demorou quase vinte minutos antes que aparecesse no grande painel da
instalação de super-rádio a semi-esfera de aço cintilante. A voz
mecânica estava exatamente tão fria e impessoal, como no primeiro
contato:
— Estou
localizando vocês. Apresentem-se. Identificação.
— Thora
do clã de Zoltral — respondeu ela sem constrangimento. — Por que
não está mantendo o que prometeu, regente? Não deu a Rhodan plena
liberdade de movimento?
— Explique
melhor do que se trata.
— Do que
se trata? — respondeu Thora zangada. — Sua frota nos cercou. O
senhor quer a todo custo experimentar nossas armas?
— Ninguém
os está atacando. Estão sendo apenas vigiados. Podem mudar a
qualquer momento de posição, o que aliás lhes recomendo. Voltem
para Zalit, a missão de Rhodan está terminada. O Zarlt está morto.
Por uns
instantes, Thora ficou sem palavras. Respirou profundamente e disse:
— O
Zarlt morreu? A revolução acabou?
— Os
traidores do Império foram castigados. O novo Zarlt será nomeado
hoje ainda. Será o almirante Zernif, se as informações estão
corretas. Rhodan está esperando vocês de volta, Thora da estirpe
dos Zoltral. Não o faça esperar. Aguardo um relatório mais
completo.
O painel
apagou.
Thora
demorou uns instantes até se dirigir a Crest.
— Rhodan
venceu, como estou feliz.
Crest
apenas sorria.
— Você
esperava outra coisa?
— Tiff,
calcule as coordenadas e os impulsos energéticos de volta a Zalit. A
Ganymed nos seguirá. Vou avisar o comandante Freyt.
Tiff
começou seu trabalho.
Com um
fino sorriso, Crest ainda acompanhou os passos da felicíssima
arcônida. Depois levou a mão decididamente para as alavancas de
controle.
7
Os
revoltosos tinham atacado o palácio e haviam prendido os oficiais da
guarda. A ordem do almirante Zernif era rigorosa: evitar vítimas
desnecessárias. Sabia, por intermédio de Rhodan, qual havia sido o
papel dos moofs e tinha certeza de que os soldados do falecido Zarlt,
depois de libertados da coação sugestiva, voltariam a ser leais ao
Império.
Quando a
notícia da morte do Zarlt se espalhou, as últimas tropas depuseram
as armas. De todas as direções, chegavam as unidades da frota,
desciam e se colocavam incondicionalmente sob o comando do almirante
Zernif, que já tinha sido proclamado pelos revoltosos o novo Zarlt.
Em poucas
horas, a ordem e a calma reinavam em Zalit. Zernif tomou conta
provisoriamente dos negócios do ditador e seu primeiro ato oficial
foi colocar o cérebro robotizado a par dos acontecimentos. Não
esqueceu de mencionar o papel decisivo de Rhodan na libertação de
Zalit.
Depois
recebeu Rhodan e seus amigos íntimos. O corpo dos mutantes foi
levado para uma sala especial, onde os esperava uma lauta mesa. A
maioria dos mutantes não tinha tido oportunidade de entrar
diretamente em ação, o que não os impedia de saborear as iguarias
oferecidas.
Finalmente,
Rhodan, Bell, Marshall e Gucky foram levados à presença de Zernif.
O velho
zalita se levantou à chegada dos amigos. Com os braços estendidos,
foi ao encontro de Rhodan.
— Não
sei como lhes poderei agradecer. Pertencem a uma parte desconhecida
da Via Láctea, mas foram vocês que salvaram o Império de Árcon.
Se eu não estiver em condições de lhes pagar um dia esta grande
dívida, o cérebro robotizado certamente...
— Ela já
pagou antecipadamente — sorriu Bell, mostrando da janela, de onde
se via uma grande parte do espaçoporto. Uma enorme sombra descia
neste momento do céu brilhante e pousava suave como uma pena. — A
Titan; ela é o grande presente do Império a Perry Rhodan. Um
presente realmente de rei.
Rhodan
também estava à janela, olhando. Pediu a Zernif:
— Envie
uma mensagem tranqüilizadora à espaçonave. Talvez o senhor mande
buscar Crest e Thora e trazê-los para cá.
Pelo
videofone, Zernif deu a ordem.
— Mas
nem todos os problemas estão resolvidos — disse, dirigindo-se aos
hóspedes. — A causa propriamente dita do malogrado levante contra
Árcon são os moofs. Há ainda um grande número deles em nosso
planeta, e podem provocar uma nova desgraça.
— Os
senhores devem apenas conseguir que eles não possam fazer isto.
Mandem instalar nas abóbadas do palácio uns aposentos à prova de
irradiação e levem para lá todos os moofs. Por que devemos
matá-los? São relativamente inofensivos. Vou falar com o regente,
ele cuidará deles. E cortem toda nova remessa para cá. Isto é
importante. Se observarem os dois conselhos, Zalit nunca mais será
vítima das estranhas medusas.
— Ainda
hoje darei ordens a respeito — prometeu o novo Zarlt. — Os
acontecimentos nos serviram de lição. Sabemos quais os perigos que
nos ameaçam, se relaxarmos na vigilância. Mesmo o maior cérebro
positrônico do Universo jamais será infalível. E o homem nunca
poderá ser totalmente substituído.
— Espero
que sim — concordou Rhodan. — Também o cérebro chegará a esta
conclusão. Mas mesmo assim, sempre haverá um futuro para Árcon.
O
almirante Zarlt Zernif passava a mão distraidamente alisando o pêlo
de Gucky.
— O
senhor tem colaboradores competentíssimos — constatou com
admiração.
O
rato-castor estava sentado numa cadeira, apoiando as costas no
espaldar, ricamente esculpido. Suas patas dianteiras, bem limpas,
estavam sobre a mesa. O dente roedor brilhava com todo fulgor,
demonstrando a boa disposição de seu dono, que apesar de toda sua
aparência esquisita, podia representar um enorme perigo para os
inimigos.
— Caso o
senhor venha a precisar novamente de nossa ajuda... — disse Gucky.
Mas Zernif
atalhou logo:
— Espero
que não seja mais necessário. Foi um tempo muito difícil, sob a
ditadura de Demesor e de seus moofs.
— Como
seria tudo tão simples — observou Rhodan secamente — se fosse
apenas seus moofs. Infelizmente não foram eles. Mas um dia, este
segredo se desvendará.
Gucky
ainda sorria. Parecia muito feliz. Zernif se abaixou até ele,
acariciou-lhe o pêlo marrom-ferrugem.
— Você
está feliz, porque tudo já acabou, não é verdade?
Os olhos
de Gucky tinham um brilho especial de uma alegria muito íntima.
— Sim.
Mas eu tenho também outros motivos muito mais importantes, para
estar contente, caro Zarlt. Vou presenciar uma grande festa e...
Infelizmente
não chegou a explicar com mais detalhes em que consistia esta grande
festa, pois neste momento, Thora e Crest foram introduzidos no
recinto. Seus olhos cintilavam de felicidade e orgulho. Com muita
dignidade, caminharam até em frente ao Zarlt, inclinaram-se
respeitosamente e cumprimentaram Rhodan.
— Soubemos
há pouco, através do cérebro robotizado, do que aconteceu —
disse Crest — e seguindo o conselho do regente, voltamos para
Zalit. Ele pede, Perry, que entre em contato com ele imediatamente. O
Zarlt Zernif foi confirmado no posto.
— E a
Titan?
— Tudo
em ordem. A Ganymed deve chegar a qualquer momento.
Rhodan se
levantou.
— Desculpe,
Zarlt Zernif, se tenho que cuidar primeiro dos meus deveres. Tenho
quer ir até a Titan e falar com o cérebro regente do Império. Em
meia hora, estarei de volta. Bell, você cuida do corpo de mutantes.
Atenção para que não bebam vinho demais.
Bell fez
uma cara de quem não gostou.
— Não
vai acontecer isto, pois já notei que quem vai servir são robôs de
verdade e não moças.
Gucky riu
às soltas. Thora estava olhando sem compreender, do mesmo modo como
Crest. Marshall sorria feliz.
— Meu
amigo fala por experiência amarga — explicou Rhodan ao Zarlt,
sorrindo. — Até logo.
Saiu da
sala, fechando a porta atrás de si.
Gucky
parou de rir. Desceu da cadeira e se dirigiu à porta. Chegando ali,
virou-se para trás e ficou olhando a reunião com ar de provocação.
— E
então? — disse ele, soltando um agudo assobio. — Estão pensando
que eu quero morrer de sede? O que estamos esperando ainda?
Como que
manejada por mãos invisíveis, a porta se abriu.
E Gucky
ficou flutuando acima da soleira da porta...
O que,
além de suas outras faculdades, era realmente um retrocesso à
primitividade.
*
* *
Aos poucos
o painel se acendeu. Apareceu a cúpula cintilante, brilhando de
dentro para fora como prata polida.
— Estava
esperando seu chamado — disse uma voz impessoal, ao invés de
qualquer outra saudação. — Sua atuação em Zalit me convenceu de
que o senhor pensa e age no sentido do Império. A Titan ficará
daqui em diante em seu poder. Seus comandantes oficiais serão Thora
e Crest, da estirpe do Zoltral. Tenho uma outra missão para o
senhor.
Rhodan
necessitou de alguns instantes para se recuperar da emoção que
sentiu. Como podia o cérebro positrônico incumbi-lo de uma missão?
— Sinto
muito, regente, mas não terminei ainda minha presente missão. Os
moofs foram os instigadores indiretos do planejado ataque a Árcon.
Tenho que descobrir quem são seus mandantes.
— Pois
era esta a missão que eu lhe queria dar — respondeu o regente
objetivamente. — Nossas intenções coincidem. O senhor permanece
ainda uma semana, de acordo com seu modo de calcular o tempo, em
Zalit, para poder ajudar Zernif em suas ações de limpeza. Peço-lhe
que entre em contato comigo novamente amanhã. Por favor, providencie
que os dois arcônidas estejam presentes. Receberá então todas as
informações com mais detalhes à medida do que me for possível.
— O
senhor não tem nenhum indício — perguntou Rhodan — quem são
estes desconhecidos?
— Até o
momento, não — confessou o cérebro robotizado. — O senhor pegou
vivo, um número maior destes moofs, como pude saber. Não leve
todos, mas apenas três deles para sua nave. Quem sabe haverá de
descobrir algo, que nos vai interessar muito.
Rhodan
reparou com curiosidade que o cérebro havia dito “nos”.
Este fato, aparentemente insignificante, era da maior importância. O
regente já estava identificando Perry Rhodan com o Império dos
Arcônidas.
— Obrigado
pela sugestão, regente. Amanhã, por estas mesmas horas, haverei de
chamá-lo.
— Eu
aguardo — foi a única resposta. E o painel apagou.
Rhodan não
voltou imediatamente para Tagnor. Por quase meia hora, permaneceu
ainda na central da espaçonave, tranqüilo, entregue a seus
pensamentos. O quadro geral começou a ficar mais claro. Árcon era
governada por um robô. Porém este robô era suficientemente
inteligente para compreender que não podia prescindir do auxílio de
homens. Ou talvez, o tivessem programado desta forma, quem sabe? Sob
qualquer hipótese, ele, Rhodan, já estava agindo oficialmente em
missão do grande Cérebro.
Não seria
isto já um grande progresso?
Voltou de
carro para a festa.
*
* *
A noite já
ia bem avançada, quando Crest procurou Rhodan em seu camarote
particular. Era um aposento grande e instalado com muito conforto,
cujo painel arredondado reproduzia de cada vez um trecho do espaço
em volta. No momento, servia apenas como branda claridade para
iluminação.
— Você!
— admirou-se Rhodan.
O arcônida
passou a mão pelos cabelos brancos e procurou uma poltrona.
Sentou-se com um suspiro.
— Gostaria
de falar um pouco com o senhor, Rhodan. Durante o dia todo, não
houve oportunidade para isto.
— Grande
confusão hoje, não foi? — disse Rhodan sorrindo. — Diz respeito
à conversa com o Cérebro amanhã?
— Não,
Perry. Diz respeito a Thora e a mim.
— Você
está me deixando espantado, Crest.
Parecia
difícil ao cientista achar palavras adequadas para exprimir o que o
preocupava.
— O
cérebro robotizado lhe deu uma missão, o que é um bom sinal. Ele o
reconhece, Perry. E também a nós. Sei que Thora e eu somos os
comandantes oficiais da Titan. Mas o senhor sabe, melhor do que eu,
quem é o comandante verdadeiro. Para que toda esta comédia? Por que
que o regente não diz francamente que o senhor é quem dirige e
governa a Titan?
— Até
mesmo um robô tem seus sentimentos de tradição — disse Rhodan
sorrindo e compreendendo os apuros do seu mais velho amigo. — Não
é muito lógico que o cérebro confie a melhor e a mais poderosa
espaçonave do Império a um estranho, muito mais quando este
estranho lhe roubou a mencionada espaçonave. De outro lado,
reconheceu que uma aliança com este estranho pode ser de grande
vantagem para o Império. Daí, o compromisso. E é por este motivo
que você se preocupa e me procura no meio da noite?
— Não,
propriamente não, Perry. Gostaria apenas de saber da sua opinião.
Além disso, ainda não é tão tarde assim. Thora tem as mesmas
preocupações. Além disso, Perry, o senhor devia se preocupar mais
com Thora. Acho que está se passando uma grande transformação
nela, de grande importância. Eu quase acreditaria que ela concorda
com as minhas intenções secretas. Lembra-se, há treze anos atrás,
falávamos deste assunto.
— Há
treze anos atrás? — ficou Rhodan refletindo, depois se lembrou. —
Ah... você pensa na idéia de restaurar o Império dos Arcônidas.
É, mas não estou bem certo, se o orgulho e a consciência de
tradição dela vai admitir que um dia um terrano possa substituir o
cérebro positrônico.
Crest
sorriu brandamente. Havia brilho intenso em seus olhos.
— Seu
orgulho e sentimento de raça, certamente não, Perry, mas o seu
amor, sim.
— Seu
amor...?
— Sim,
seu amor à Pátria... e a você também, Perry, ou você é cego?
Rhodan
fitou Crest.
— Não
cego, propriamente, Crest. Mas, faltou-me até hoje tempo. Também me
separam de Thora mundos e eternidades.
— Isto
se pode modificar, quando se quer. E quem sabe você terá que
modificar um dia, Perry.
Levantou-se
e caminhou para a porta.
— Boa
noite, e pense um pouco a respeito. Agora você tem tempo.
Rhodan
ficou olhando para a porta fechada.
Dois
segundos depois, estava ele de pé, vestindo a jaqueta, caminhando
para o corredor. Ainda viu Crest desaparecendo numa curva.
O elevador
antigravitacional levou Rhodan para o assim chamado tombadilho do
chefe, no centro da espaçonave. Thora ocupava um apartamento bem
perto dos aposentos dos mutantes. Bell também residia aí.
Quando
passou pela porta deste último, esta se abriu. Com um grunhido de
contentamento, Gucky deu uma olhadela pelo corredor, mas fechou de
novo a porta, sorrindo de feliz, para si mesmo. Depois sentou-se e
começou a pensar:
— Você?
— cochichou ele admirado. — O que está fazendo aqui? — nos
seus olhos castanhos havia um brilho de cômica malícia. O dente de
roedor lhe saía da boca. Sorria feliz, como se tivesse descoberto
uma plantação inteira de cenoura. — Ah... compreendo. Tarde
demais. Rhodan, muito tarde. Sou ou não sou telepata? Mas de
qualquer maneira, muito divertimento. Sou um cavalheiro, sei guardar
segredos.
Rindo de
contente e assobiando muito desafinado, foi embora, desaparecendo nos
aposentos dos mutantes.
Por um
momento, Rhodan se aborreceu, por não haver dominado seus
pensamentos. Depois surgiu nele a curiosidade de saber o que fazia
Gucky tão tarde da noite junto com Bell.
Voltou uns
passos e enfiou a cabeça no camarote de Bell.
Bell
estava de pé, com os cabelos eriçados, no lavatório, deixando o
jato frio da torneira correr fortemente sobre as articulações dos
dedos da mão direita. Sua fisionomia parecia a de um condenado à
forca.
— Que
aconteceu? — perguntou Rhodan preocupado. — Pancadaria com seu
amigo?
— Com
Gucky? — bocejou Bell, esfregando as articulações, aparentemente
rígidas. — Pancadaria? Não, pelo contrário. Prometi uma coisa ao
Gucky, lembra-se? De lhe cocar o pêlo durante cinco horas e isto não
é brincadeira. E eu cumpri apenas duas horas.
Rhodan
sorriu e fechou a porta.
— Providencie
um pouco de esparadrapo e gaze — aconselhou amigavelmente. — Da
próxima vez, você será mais precavido com suas promessas. Boa
noite.
Ainda
estava rindo, quando bateu à porta de Thora.
Ela olhou
para ele, como se fosse uma assombração.
— Você...?
Rhodan
fechou a porta, depois de ter entrado no camarote.
— Thora,
tenho que conversar com você...
*
* *
*
*
*
O
regente positrônico de Árcon reconhece Perry como aliado, embora
com alguma restrição, e assim legaliza a transferência da Titan
para as mãos dos terranos.
A
perigosa missão, que Perry Rhodan e seu corpo de mutantes receberam
do regente e do Império, ainda não havia terminado, embora a ordem
antiga já tivesse sido restabelecida em Zalit.
A nova
aventura de Rhodan conta como a Titan foi vitima de uma cilada no
espaço. Em S.O.S.: Espaçonave Titan o imprevisível acontece.

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