Autor
K.
H. SCHEER
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e
Revisão
ARLINDO_SAN
O
soberano de Árcon não passa de uma
marionete
do grande cérebro positrônico...
História
da Terceira Potência em poucas palavras:
1971
— O foguete Stardust chega à Lua, e Perry Rhodan encontra a nave
exploradora dos arcônidas, que realizou um pouso de emergência
(Perry Rhodan, volume 1).
1972
— Criação da Terceira Potência, que vence a resistência das
grandes potências terranas e repele as tentativas de invasão de
seres extraterrenos (volumes 2 a 9).
1975
— A Terceira Potência intervém pela primeira vez nos
acontecimentos galácticos. No sistema de Vega, Perry Rhodan
defronta-se com os tópsidas e procura resolver o enigma galático
(volumes 10 a 18).
1976
— A bordo da Stardust-III, Perry Rhodan chega ao planeta Peregrino
e juntamente com Bell consegue a imortalidade relativa, mas perde
mais de quatro anos (volume 19).
1980
— Perry Rhodan regressa à Terra e tem de lutar por Vênus (volumes
20 a 24).
1981
— O Supercrânio ataca e a Terceira Potência se vê diante da
provação mais difícil de sua história (volumes 25 a 27).
1982/83
— Os mercadores galácticos querem transformar a Terra num mundo
colonial. Mas Perry Rhodan faz virar o feitiço contra o feiticeiro e
conquista uma das bases mais importantes dos mercadores (volumes 28 a
37).
A
Terra encontra-se no ano de 1984 do seu calendário. A Ganymed, uma
nave espacial capturada aos mercadores galácticos, já iniciou seu
avanço para Árcon.
Com
isso, Perry Rhodan cumpriu uma promessa de treze anos, segundo a qual
levaria Crest e Thora, os dois arcônidas, de volta ao seu mundo. Mas
a recepção dispensada a estes deixa muito a desejar, pois em O
Mundo dos Três Planetas houve uma profunda mudança de regime...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Que se apresenta como Tan’Ro de Zeklon.
Reginald
Bell
— Que mostra quanto vale quando a situação se torna
desesperadora.
Thora
e Crest
— Que depois de tanto tempo têm de recorrer a um transmissor
fictício para regressar ao seu mundo.
John
Marshall
— Comandante do exército de mutantes da Terceira Potência.
Orcast
XXI
— Um soberano que não detém nenhum poder real.
Kenos
— Um arcônida dotado de energia extraordinária.
Gucky
— Cujo aparecimento inopinado espanta o Imperador.
John
Tifflor,
apelidado de Tiff
— Comandante de uma Gazela.
1
Caíram
dos céus como um bando de mosquitos gordos e repugnantes. Seus
ferrões eram pesados canhões energéticos. As vísceras abrigadas
atrás de blindagens resistentes pulsavam num ritmo tão preciso que
jamais seria atingido por qualquer combinação orgânica de células
vivas.
O
canto surdo e enervante dos ciclopes foi captado pelos microfones
externos da nave e reproduzido fielmente pelos alto-falantes. Ao que
parecia, não havia nada que pudesse interromper a marcha daqueles
gigantes.
Apática
e indiferente, reagindo apenas aos berros de comando dos seus
oficiais, a massa de corpos escuros deslocou-se em direção às
naves que pousavam. Parecia uma massa viscosa que escorria
lentamente, mas não poderia ser detida.
— Marcha
dos ciclopes, quinto ato. A uma hora como esta, gostaria de ser
compositor — ironizou o homem alto, sem realmente tornar-se
irônico. — Se dependesse de mim, neste instante faria entrar em
cena os tambores e as trombetas.
Ninguém
riu. As cenas que se desenhavam nas telas impressionavam demais. O
fundo sério dos acontecimentos era inconfundível.
Os
naats, habitantes do planeta Naat, evidentemente foram escolhidos
para tripular as naves espaciais que acabavam de pousar no
espaçoporto de Naatral. No entanto, era bastante duvidoso que a
maior parte daqueles gigantes de três metros de altura, com enormes
crânios redondos, seria capaz de compreender o funcionamento
complicado de uma nave de guerra arcônida.
Os
naats eram seres de três olhos, pertencentes a uma raça colonial
submetida ao domínio direto de Árcon, planeta central do Império.
Estes pareciam ser, para o gigantesco cérebro robotizado que dirigia
os destinos de Árcon, os representantes para uma solução
provisória ideal. Bastava que um mecanismo de cálculo inteiramente
mecanizado fosse capaz de entender o significado do conceito de
ideal. Provavelmente o cérebro central de Árcon “raciocinava”
em outros termos.
Face
à degenerescência incontestável da raça, os arcônidas
propriamente ditos se haviam tornado imprestáveis para qualquer tipo
de atividade prática. Por isso, o cérebro recorria a seres de
características estranhas às da raça, cuja lealdade incondicional
evidentemente era mais importante que os dons espirituais, que
geralmente constituíam um ingrediente essencial.
— Isso
não vai dar certo — afirmou Reginald Bell em tom sombrio. — Suas
pernas-coluna vão pisotear as instalações. Além disso, pendurarão
seu aparelho digestivo diretamente nas despensas, para alimentar-se o
melhor possível. Estou falando em sentido figurado.
— Ah,
é? — disse Perry Rhodan, chefe da expedição de Árcon, com um
pigarro.
Bell
enrugou a testa.
— Até
parece que não se pode falar mais como uma pessoa civilizada —
disse com a voz furiosa.
Seu
olhar ameaçador provocou um sorriso fugaz no rosto de um ou outro
dos circunstantes. Naquele momento, nenhum dos mil tripulantes da
Ganymed seria capaz de uma manifestação de alegria mais intensa.
Praguejando,
Bell caminhou pesadamente em direção as telas de visão global.
A
sala de comando da segunda maior nave de guerra de que dispunha a
Terceira Potência, dirigida por Perry Rhodan, ficava uns 760 metros
acima do solo. Há poucos dias ainda se acreditava que não havia
nada que pudesse contrapor-se ao potencial energético daquele
gigante do espaço. Acreditava-se nisso até que a Ganymed foi
capturada por uma nave arcônida robotizada, que a conduziu ao campo
de pouso do quinto mundo do sistema através de um mecanismo de tele
direção.
Desde
então, a mais nova das naves da Humanidade jazia imóvel sobre os
gigantescos discos de suas pernas telescópicas estendidas, cujo
mecanismo hidráulico começara a ceder sob os efeitos da gravitação
de Naat. Naquele mundo deserto, a força gravitacional era de 2,8g.
De
uma hora para outra, o campo de pouso transformara-se de um local
abandonado para um verdadeiro formigueiro. Ao que tudo indicava, o
Grande Império pretendia desferir mais um golpe fulminante contra as
raças coloniais revoltadas.
A
utilização de criaturas não-humanas como os naats indicava
claramente que a população de Árcon, que se contava por bilhões,
já não era capaz de tripular as inúmeras naves espaciais do
Império. Isto há alguns milênios teria sido mais que natural.
Sabia-se
perfeitamente que a extraordinária capacidade de iniciativa não era
exercida por seres vivos orgânicos, mas pelo maior cérebro
robotizado do Universo conhecido.
Perry
Rhodan estremeceu por dentro, quando avaliou o potencial da frota
através das imagens projetadas na tela. O que viu de unidades
espaciais, desde as menores até as mais pesadas, era uma coisa
fabulosa.
Só
de couraçados da classe Império contou mais de cem. Cada um deles
tinha o tamanho e a potência da Stardust-III, que Rhodan deixara no
sistema solar de seu mundo para servir de espinha dorsal à frota de
defesa ali estacionada.
— Se
quiserem, eles nos mandam para o outro mundo com um simples movimento
do dedo — murmurou o coronel Freyt em tom constrito.
Freyt
era oficialmente o comandante da Ganymed, uma nave de 840 metros de
altura por 220 de diâmetro.
Rhodan
virou lentamente a cabeça. Freyt viu um rosto tenso.
“Ficou
magro”,
foi a idéia que num instante acudiu ao coronel. Não sabia por quê,
mas o fato o preocupava. Se os nervos de Rhodan também começassem a
fraquejar, a prisão, até então tão suave, fatalmente se
transformaria no extremo oposto.
— Eles
quem? — indagou Rhodan.
Freyt
passou a ponta da língua pelos lábios. Um tanto inseguro, olhou em
torno.
— É
claro que me refiro ao cérebro robotizado de Árcon — respondeu.
— Vejo
que o senhor pelo menos se exprimiu de forma incorreta. Aliás,
acredito que ainda existam algumas opiniões errôneas a respeito da
situação em que nos encontramos. Seria insensato procurarmos
identificar os atos de uma máquina com os conceitos de justiça e
injustiça. O robô não sabe estabelecer distinção entre os dois
conceitos, pois não tem o menor interesse nisso. Para ele, só
existe uma série de dados lógicos de interesse exclusivamente
prático. Acontece que raramente, e só por acaso, um efeito final
lógico corresponde àquilo que nós homens costumamos designar como
justo. Compreenderam?
Rhodan
olhou em torno. Não o haviam compreendido muito bem. O que se sabia
perfeitamente era que a Ganymed estava sendo retida no espaçoporto
de Naatral por um gigantesco potencial energético. O vôo em direção
ao mundo dos arcônidas Crest e Thora terminara em fracasso. Nem
sequer haviam ultrapassado a órbita do quinto planeta.
— Nem
por isso quero afirmar que, como conclusão dos nossos desejos,
considero este mundo desértico — acrescentou Rhodan com um sorriso
sutil. — Olhem ali embaixo. Os naats caminham para o interior das
naves que acabam de pousar, onde serão utilizados pelos robôs
segundo as qualidades de cada um. Estamos assistindo ao fim de uma
raça altamente civilizada, que é a dos arcônidas. É muito difícil
ganhar guerras por meio de povos estranhos. E o Grande Império
encontra-se numa luta de vida ou morte. O que é de admirar, é que
há vários milênios os velhos arcônidas previram a degenerescência
de sua raça e tomaram suas providências. Quem possui os respectivos
conhecimentos técnicos pode construir uma máquina gigante e
programá-la de tal maneira que, num momento de perigo agudo, comece
a agir independentemente. Foi o que aconteceu. O Conselho Galático
de Árcon foi afastado de suas funções. Aquilo que vimos e as
experiências pelas quais passamos, tudo foi concebido pela máquina.
Nossas experiências com os arcônidas das melhores famílias revelam
que essa gente, quando muito, é capaz de exasperar-se por um
canteiro pisoteado. O cérebro robotizado já não os inclui em seus
cálculos.
— Sabe
lá o que isso significa? — observou um membro da equipe
matemática.
Rhodan
respondeu com um gesto hesitante. Uma sombra desenhou-se em seu
rosto.
— Sem
dúvida. Coisas horríveis estão para acontecer. O robô golpeará
sempre que suspeitar de qualquer insubordinação às leis do
Império. A programação da máquina é antiqüíssima. Os
pressupostos em que se basearam os dados introduzidos no cérebro já
estão superados. O robô tentará intervir nos destinos da Galáxia
em termos de uma política colonial e expansionista que pertence ao
passado. É bem possível que, por causa de um fato insignificante,
um mundo seja destruído. A máquina continua com todo o poderio de
antes. A frota imperial, que estava mofando, despertou de uma hora
para outra.
— Que
prazer! Até parece que chegamos no momento exato — ironizou
Reginald Bell. — Será que a esta hora você já nos pode contar
como pretende chegar à sede do mundo de Árcon? Se for necessário,
essa fera mecanizada nos fará morrer de fome no meio do espaço.
— Isso
é um conceito pouco preciso — resmungou Rhodan. — Eu... O que
houve?
John
Marshall, telepata e chefe do exército de mutantes a bordo da
Ganymed, procurava ouvir com os olhos fechados os impulsos que só
ele e outros mutantes poderiam compreender.
— Thora
está voltando — disse em voz velada. — Está muito exaltada;
não, está extremamente abatida.
Marshall
voltou a abrir os olhos. Viu diante de si o olhar chamejante de
Rhodan.
— Isso
era de prever — disse o comandante em tom lacônico. — Está
certa. Voltaremos a agir por conta própria; não temos outra
alternativa. Crest...
O
arcônida, que se encontrava num ponto mais afastado, despertou de
sua letargia. Caminhou lentamente em direção aos painéis de
controle. Seu cabelo branco emitia um brilho fluorescente sob o
reflexo da luz das telas de imagem. Nessas telas, continuava a
desfilar a parada deprimente dos ciclopes de três olhos. Parte dos
naats andava de quatro. Só se levantavam e passavam a deslocar-se no
seu andar balouçante quando se encontravam diante das comportas de
ar das naves.
Crest,
o cientista arcônida pertencente à antiga dinastia de Zoltral,
revelou seu estado de espírito através do olhar apático e
desinteressado.
— É
o fim — disse com a voz débil. — No momento em que uma máquina
toma as rédeas do governo, a vida propriamente dita está perdida.
Minha família foi destituída de suas funções há seis anos
terranos. Orcast XXI, da família de Orcast, foi nomeado Imperador
pelo cérebro robotizado. É claro que exerce suas funções apenas
na aparência, o que também deve acontecer com os 128 membros do
Conselho Galáctico. Não se iluda, meu amigo. Poderemos dar-nos por
felizes se permitirem que voltemos para casa.
Rhodan
exibiu os dentes num sorriso mordaz e contrariado.
— Crest,
nunca esperávamos conquistar ou salvar o Império pelo simples fato
da nossa presença. Não nos consideramos tão grandes, nem tão
importantes.
— A
raça humana tem mais força e grandeza do que se supõe. Os senhores
são como eram meus antepassados há dez mil anos. Possuem uma ânsia
enorme de dar um salto arrojado para a frente. Receio que, ao
perceber o fato, o cérebro robotizado lhe cause dificuldades
consideráveis. Não tente chegar a Árcon. Aí vem Thora.
Rhodan
olhou para as telas. Um veículo oficial do administrador arcônida
no mundo de Naat aproximava-se a alta velocidade. O carro atravessou
a área extensa do campo sem a menor consideração pelas massas de
nativos que marchavam em direção às naves.
Thora
fez um gesto para Bell. Este desapareceu no elevador
antigravitacional central. Iria abrir uma pequena comporta de ar, por
onde pudesse entrar a arcônida.
Nas
telas, viram Thora desaparecer nas gigantescas aletas de popa da
Ganymed. Após dez minutos, a arcônida, entrou na central, desolada
e exausta.
Seu
rosto estreito estava vermelho. Envergava o uniforme elegante de
comandante de uma nave de guerra arcônida. Na ombreira esquerda do
macacão, brilhavam os símbolos da dinastia de Zoltral. Há seis
anos qualquer um faria uma reverência diante dos mesmos. Hoje
ninguém se curvava diante desse símbolo.
Respirando
pesadamente, Thora deixou-se cair numa poltrona articulada. Quando
sentiu a mão de Rhodan pousada em seu braço, abriu os olhos.
— Está
bem. Não falemos mais a respeito disso — disse Rhodan em voz
baixa. — Esqueça. Sei perfeitamente que foi ofendida e repudiada
por esse dorminhoco que usa o título de administrador de Naat.
Naturalmente não nos pode dar permissão de decolar, porque o
cérebro robotizado acha que não deva fazê-lo. Não é isso?
Os
olhos de Thora umedeceram-se. Até então, ninguém vira a orgulhosa
arcônida chorar.
— O
pior não foi isso — disse com uma calma forçada. — Esse
cafajeste atreveu-se a dizer a mim, uma zoltral, que eu e os
tripulantes da minha nave eventualmente poderíamos ser muito bem
recebidos.
— Ah,
é?
— Como
ajudantes, comandados por algum robô! — exclamou. Seu rosto
contorceu-se. — Imagine! Diz que devemos aguardar instruções
nesse sentido, que serão expedidas pelo cérebro robotizado. Logo se
conclui que nem sequer permitem nosso regresso. Perry, por tudo que
me é e sempre me foi sagrado, faça alguma coisa! O Grande Império
deixou de existir. Confesso aquilo que sempre procurei negar: meu
povo está fraco, corrompido, sem moral, pouco inteligente e dominado
por um tremendo cansaço.
— Com
algumas exceções, minha jovem senhora — disse Rhodan, esticando
as palavras. — Com algumas exceções muito importantes. Uma delas
está sentada diante de mim. Quer dizer que pretendem aprisionar-nos.
Provavelmente a Ganymed também será bem recebida. Muito bem. Era o
que eu imaginava.
Rhodan
virou-se sobre os calcanhares. Os homens calaram-se sob o efeito de
seu sorriso famoso e temível, que mais uma vez era tão meigo e
amável que não poderia ser tranqüilizador.
— Tenente
Tifflor!
O
oficial, ainda um rapaz, recém-saído da Academia Espacial e
distinguido com o cometa de prata por sua excelente atuação na
operação contra os saltadores, ficou em posição de sentido.
Tiff,
que era o nome pelo qual costumavam chamá-lo, pensou que sua hora
havia soado. Já conhecia essa expressão no rosto do chefe. Com esse
mesmo sorriso, enviara-o a uma terrível missão secreta.
— Sim
senhor — disse o jovem de vinte anos.
— Queira
preparar a decolagem de uma nave de reconhecimento de grande alcance
do tipo Gazela. Equipe-a para uma longa viagem. A nave deverá
conduzir todo o potencial em armamento. As comportas externas
permanecerão fechadas. Muito obrigado.
“Mister
Marshall. Reúna nove dos seus mutantes. As capacidades deverão
completar-se. O senhor e os outros deverão formar um grupo bem
experimentado a bordo da Gazela.
“Bell,
selecione quarenta homens experimentados do antigo comando do setor
de Vega. Só quero voluntários. Tenente Tifflor, tome todas as
providências para abrigar 55 homens a bordo da Gazela.
“Coronel
Freyt, a Ganymed continuará aqui sob seu comando. Os tripulantes
deverão dormir e comer nos seus postos. Quando vier o sinal, deverá
estar em condições de decolar dentro de dez segundos. Acha que
conseguirá?”
Freyt
ficou perplexo.
— Em
condições de decolar? — perguntou. — Com a Ganymed? Já
tentamos isso. No momento em que aumentávamos o desempenho dos
propulsores para dois milhões de toneladas, a potência de absorção
dos campos de sucção aumentava para um valor mínimo de três
milhões. Como poderemos decolar?
— Quando
receberem o sinal, poderão — respondeu Rhodan em tom indiferente.
— Apenas se torna necessário que antes disso consigamos pousar em
Árcon. Quer saber de uma coisa? Não gosto de dançar pela música
de uma máquina. Pelas experiências que fiz com cérebros
robotizados arcônidas, os mesmos sempre dispõem de um setor de
segurança que os impede de excederem determinados limites. É
bastante provável que aconteça a mesma coisa com este cérebro.
— O
senhor se esquece de que essa máquina acaba de causar um choque
paralisante no administrador Sergh — interveio Crest em tom
exaltado.
— É
verdade. Acontece que nós mesmos fomos culpados disso. Penetrei no
palácio juntamente com Bell e Tako. Seja como for, pretendo dar uma
olhada no tal Imperador; e eu o farei, não tenham a menor dúvida.
Thora
arregalou os olhos de espanto. Voltara a ter diante de si o homem com
que há treze anos antes se encontrara na lua terrana. Foi então que
o mesmo começou a tutelá-la. Continuava praticamente o mesmo.
Tifflor
retirou-se. Um trabalho febril começou a desenvolver-se a bordo da
Ganymed.
Finalmente
a pergunta zangada irrompeu da boca de Bell:
— Grande
mestre, será que você não poderia contar como espera fugir com a
Gazela e de que forma pretende pousar em Árcon? Pelo que sei,
encontramo-nos bem no meio de uma porção de projetores de campos
energéticos.
— Acontece
que estes não reagem a oscilações de energias que se processam na
quinta dimensão — respondeu Rhodan em tom áspero. — Basta pegar
um transmissor fictício e, com o auxílio do mesmo, sair pelo
espaço. Você sabe perfeitamente que nem mesmo os arcônidas dispõem
dessa conquista da tecnologia.
Bell
cerrou fortemente os olhos. Era o aparelho trazido do planeta
Peregrino! Como não se lembrara disso?
— Querem
vir comigo?
Estas
palavras eram dirigidas a Thora e Crest. Os dois trocaram um ligeiro
olhar. Ninguém deixaria de notar uma ligeira palidez no rosto dos
arcônidas.
Subitamente
John Marshall, o telepata, teve sua atenção despertada por alguma
coisa. Em atitude rija, parou diante da escotilha principal que se
abria diante dele.
Rhodan
franziu a sobrancelha. Um certo nervosismo apossou-se dele. O que
teria percebido Marshall?
— Quer
pousar diretamente em Árcon? — perguntou Crest em tom inseguro.
— Onde
poderia ser? Tenho que falar com
as pessoas que podem resolver alguma coisa. O que houve?
Marshall
foi se aproximando. Seu impulso de advertência atingiu o cérebro de
Rhodan. Mas este não conseguiu saber mais nada; sua capacidade
telepática era muito fraca. Foi quando Thora decidiu revelar seu
último segredo.
— Não
adiantaria continuar a calar os fatos — disse em voz baixa. —
Perry, se o senhor pretende ir a Árcon, terá que resolver em qual
dos planetas quer realizar esse intento.
A
tensão de Rhodan dissipou-se. Marshall confirmou com um ligeiro
sinal de cabeça: era isso.
— Em
qual dos planetas? — repetiu Rhodan desorientado. — Não
compreendo. Árcon é um só, não é?
— Pois
aí está uma coisa que o senhor ainda não sabe, apesar do
treinamento hipnótico a que foi submetido — interveio Crest. —
Árcon é formado por três mundos e todos eles trazem este nome. O
mundo número um, denominado mundo de cristal, é reservado
exclusivamente a fins residenciais. O mundo número dois serve ao
comércio galático, à indústria e ao abastecimento alimentar do
sistema. O mundo número três é o planeta da guerra, da frota, dos
estaleiros mais gigantescos do Universo e também serve de sede ao
supercérebro robotizado. É o último segredo de minha raça, que
acabo de lhe expor.
Rhodan
sentou devagar; parecia pensativo. Num gesto pedantesco examinou a
posição do cinto de seu traje espacial. Os pensamentos
atropelavam-se em seu cérebro.
— Três
mundos? — disse muito baixo. — Santo Deus, como pode ser isso?
Árcon é o terceiro planeta de seu sol, não é? Onde se localizam
os dois astros restantes?
Um
silêncio de chumbo encheu a ampla sala. A boca de Crest acabara de
revelar mais um milagre. Falando com dificuldade, o arcônida
explicou:
— É
um sistema triplo que descreve exatamente a mesma órbita e mantém
uma distância uniforme de seiscentos e vinte milhões de quilômetros
do sol. A posição dos três mundos sincronizados, que é como
costumam ser chamados, corresponde aos vértices de um triângulo
isósceles. As estações do ano nunca mudam nos três planetas, já
que seu eixo não apresenta nenhuma inclinação e as órbitas são
perfeitamente circulares. A temperatura média fica em torno de
trinta e quatro graus centígrados da escala terrana. Árcon
representa um fenômeno único na Via Láctea. Poucas semanas atrás
ainda me sentia muito orgulhoso por isso.
Crest
baixou a cabeça. O rosto de Rhodan empalideceu. Jamais contara com
isso.
Seu
cérebro executou uma série de cálculos automáticos. Aquela
constelação por demais estranha de três astros sincronizados
oferecia uma série enorme de problemas astronáuticos e matemáticos
extremamente difíceis.
Uma
idéia surgiu em seu cérebro. Dentro de poucos segundos, aquilo que
não passara de uma suposição fugaz transformou-se em certeza.
— Crest,
espero que o senhor não pretenda que eu acredite que essa incrível
coincidência de três planetas no que diz respeito à órbita, à
distância do sol, à progressão no espaço e a outras coisas mais
seja um produto da natureza.
O
rosto sombrio de Crest iluminou-se. Um lampejo de orgulho, já
extinto, de sua raça voltou a brilhar em seus olhos. E sua postura
foi mais compenetrada. Na situação em que se encontravam, aquilo
era um quadro digno de pena. Crest transformara-se num homem
desiludido.
— O
senhor descobriu — disse em tom solene. — Há cerca de trinta mil
anos de sua contagem de tempo Árcon, o mundo de cristal, era o
terceiro planeta deste sol. Tornou-se muito pequeno. A enorme
expansão do Império exigiu a separação entre as áreas de
atividades econômicas, as áreas residenciais e as áreas de
operação da frota espacial. Como meus antepassados tivessem em
mente a centralização das instalações mais importantes, os
antigos planetas números dois e quatro foram equipados com os
propulsores de radiações mais potentes de todos os tempos. No curso
de três mil anos, foram retirados lenta e cuidadosamente de suas
órbitas primitivas e introduzidos na órbita do planeta de Árcon.
Tudo isso foi feito segundo cálculos muito precisos.
“Foi
assim que surgiu a sincronização de três planetas que continuam a
ser chamados de Árcon. Procure compreender, Perry: isto é Árcon!
Uma vez levada a efeito a conjugação das órbitas, é muito difícil
distinguir os planetas pelo aspecto exterior. O segredo foi revelado
a pouquíssimos arcônidas. Agora, o senhor é um dos que têm
conhecimento do fato. As dinastias mais antigas eram de opinião de
que a crença, segundo a qual a constelação tríplice representava
um fenômeno único e extraordinário, constituía um fator
psicológico favorável. Procurou-se conseguir certa glorificação
da raça para efeitos externos. Seres superiores como nós teriam que
aspirar a um espaço vital superior. Acho que o senhor compreende.”
Rhodan
expeliu ruidosamente o ar antes de responder com a voz comovida:
— Devo
confessar que seus antepassados me inspiram um respeito enorme. E
fico-lhe muito grato por ter-me revelado esses fatos. Se não
dispuséssemos desses dados, nossos cálculos para a transição
conduziriam a um resultado surpreendente. Será que não poderia ter
contado isso mais cedo?
Lançou
um olhar de repreensão sobre seu interlocutor. Thora respondeu com
um sorriso fugaz, cuja expressão dizia mais que a discussão
acalorada entre os homens que se encontravam na sala de comando.
Depois
de cinco minutos foi iniciada a programação da calculadora
astronáutica. As estreitas fitas de plástico com os símbolos
perfurados desapareceram no ventre insaciável da máquina.
— Árcon
I encontra-se justamente do lado oposto do sol — resmungou Bell. —
É um azar. Será que o transmissor fictício conseguirá
projetar-nos através da bola de fogo branco-incandescente?
— Se
para determinada forma de energia certo corpo perde a substância,
podemos deixar de considerar esse corpo — respondeu Rhodan
laconicamente. — Crest, preciso de dados sobre a inclinação da
órbita em relação à elipse, a velocidade exata com que o planeta
percorre a órbita e as relações gravitacionais.
O
cientista arcônida pôs-se a trabalhar. Acima da sala de comando, no
interior da ponta recém-construída da proa, um oficial muito
nervoso da Ganymed preparava uma nave de reconhecimento de longa
distância do tipo Gazela para a decolagem.
Essas
naves recém-construídas, em forma de disco, cerca de 35 metros de
diâmetro, estavam equipadas com propulsores na base de impulsos e
geradores de campos de salto de transição. Eram máquinas
eficientes para o combate, desde que o homem certo se encontrasse
junto aos botões certos. Julian Tifflor era um desses homens.
A
escotilha interna da enorme comporta de ar estava aberta. No momento,
Tiff ainda achava muito natural que a escotilha externa permanecesse
fechada. Mas, quando se punha a refletir sobre a maneira pela qual
Rhodan pretenderia tirar a Gazela, sempre bastante volumosa, do
hangar de proa, uma ligeira fraqueza apossava-se dele.
Com
os olhos semicerrados, contemplava os homens da equipe técnica, que
passavam apressadamente. Quando desapareceram na sala em que Rhodan
mandara instalar o transmissor fictício retirado da Stardust-III,
uma grande luz surgiu em seu espírito.
— Por
Júpiter! — cochichou, muito perplexo, de si para si. — Então
será com isso?
2
Estavam
sentados, deitados ou agachados grudadinhos uns aos outros. Uma vez
que não regatearam seu humor sinistro, a situação tornara-se
suportável.
Os
velhos guerreiros das primeiras batalhas travadas no longínquo setor
de Vega estavam acostumados a muita coisa. Por isso não haveriam de
estranhar sua permanência num alojamento que mais parecia uma lata
de sardinhas que uma nave dotada de um envoltório rígido. Foi ao
menos o que disseram.
Rhodan
soltou uma gargalhada contagiante, e os homens também contorceram os
lábios. Os homens que participavam dos comandos da Terceira Potência
eram criaturas inteligentes; sabiam pensar por si e conheciam
perfeitamente que plano audacioso o “velho”
acabara de conceber.
Excepcionalmente
em tom bastante acalorado e seguindo as inclinações de seu gênio,
discutiram sobre o resultado provável da operação. Não perderam
uma palavra para dizer que a missão era muito perigosa. Pertenciam a
quase todas as nações do planeta Terra. Mas todos eles eram homens
que aqui, a 34.000 anos-luz da pátria comum, arriscavam o pescoço
para prestar um serviço ao seu mundo.
Praguejando
e rindo, enfiaram-se no pequeno compartimento de carga da Gazela. Só
assim se poderia designar a operação pela qual se alojaram para o
interior do compartimento.
A
cabina de comando, também muito pequena, mal e mal comportava as
cabeças dirigentes da operação.
O
ponteiro de segundos, tal qual o de um corriqueiro relógio de bordo
saltitava por cima do mostrador. Nas telas da aparelhagem de
localização ótica, aparecia o quadro desinteressante das paredes
de uma comporta em tubo. Embora a Gazela-I estivesse prestes a ser
lançada, a escotilha externa continuava fechada. E ninguém pensara
em providenciar a realização do processo de compensação de
pressão que se tornaria necessário.
Em
compensação, o cano esquisito de um aparelho ainda mais esquisito
estava dirigido sobre a pequena nave. O transmissor fictício vindo
do planeta Peregrino possuía a capacidade de criar um campo de
desmaterialização que envolvia corpos materialmente estáveis. O
transmissor irradiava-os sob a forma de unidades energéticas da
sexta dimensão para um ponto predeterminado.
Aquilo
representava a coroação de um desenvolvimento tecnológico cujos
princípios fundamentais só Perry Rhodan conhecia. O transmissor
fictício prescindia da polarização de um receptor de igual tipo.
Ele mesmo devolvia ao objeto a forma corpórea estável no lugar
indicado.
O
olhar de Rhodan estava grudado ao ponteiro de segundos. O microfone
de bordo, pendurado diante dos seus lábios.
— Peço
a atenção de todos — soou a voz retumbante dos alto-falantes
instalados em todos os cantos. — O lançamento será realizado
dentro de quarenta e cinco segundos. Se tudo der certo, sairemos do
hiperespaço nas camadas superiores da atmosfera de Árcon I. Durante
a transição não existe o risco de sermos localizados. Estejam
preparados caso, durante as manobras de aterrissagem, alguns gravos
passem pelos campos de absorção. Teremos que descer depressa.
Peço-lhes que tenham isso em mente. Fim.
Ouviu-se
um ruído grave. O gerador da estação de força que supria o
transmissor começara a funcionar. Nem mesmo Rhodan saberia dizer
exatamente o que estava acontecendo no interior do aparelho. Aquilo
era obra de uma tecnologia que ficava muito além da capacidade de
compreensão do homem.
Bell
acompanhou a contagem. Não conseguiu pronunciar a palavra zero, pois
naquele instante uma força tremenda atingiu os homens. Só sentiram
a tração dolorosa da desmaterialização.
Nas
telas de bordo surgiu, no lugar em que um instante antes se
encontrara a Gazela-I, uma espiral energética fosforescente, que
logo desapareceu.
O
trovejar dos propulsores da Ganymed tornou-se intermitente, até
terminar num ponto morto. Lá fora, nas estações de controle
automático do espaçoporto de Naatral, teriam a impressão de que
mais uma vez o comandante se esforçara em vão para vencer a sucção
magnética dos campos de amarração.
O
engenheiro-chefe desligou os reatores. A Gazela continuava
desaparecida.
— Se
isso der certo, eu durmo num leito de pregos — disse o coronel
Freyt fora de si. — Foram embora mesmo? Com aquele caixote?
Olhou
em torno, perplexo. Era isso mesmo. A pequenina Gazela, que naquele
instante fora promovida à categoria de caixote, desaparecera sem
deixar vestígio, como se nunca tivesse entrado no hangar de
lançamento.
— Está
bem — disse Freyt em tom exaltado, falando entre os dentes. —
Preparar a nave para a batalha. Se conseguirem voltar, receberemos o
sinal convencionado. Fiquem de prontidão para a decolagem de
urgência.
*
* *
O
retorno à materialização corporal foi mais rápido e abrupto que
na transição normal de uma nave. Parecia que nada tinha acontecido.
A dor ligeira e martirizante na região da nuca não passava de um
reflexo nervoso, que não prejudicava a lucidez do espírito.
Julian
Tifflor ouviu no alto-falante de seu capacete a respiração ofegante
dos homens que recuperavam os sentidos. Ninguém gritou, ninguém
gemeu. Todos viram a luminosidade branca e ofuscante nas telas da
Gazela-I.
Tiff
atirou a mão para a frente. Mas a chave de engate do projetor de
campo de proteção já estava engastada na posição máxima. Nos
últimos instantes antes do lançamento, cuidara desse detalhe.
O
ar ambiente, enfurecido, chamejava em torno da Gazela, que descia
vertiginosamente. Bem embaixo estendiam-se, bem nítidas, as
paisagens do planeta que até então só conheciam por ouvir dizer.
— É
o mundo de cristal — disse Crest em meio ao barulho dos geradores.
— Encontramo-nos acima do continente equatorial. Sobrevoe esse mar
em forma de meia-lua e pouse em qualquer lugar nos desfiladeiros do
complexo montanhoso litorâneo.
Era
surpreendente que o arcônida que finalmente retornava ao seu mundo
encarasse o fato com tamanha objetividade.
Feixes
de impulsos violetas saíram dos bocais dianteiros do jato
direcional. Dentro de dois segundos a Gazela-I foi freada e ficou
submetida à força gravitacional do planeta.
— Se
eles nos localizarem agora, será o fim do mundo para nós — disse
Bell com a voz fraca. — Não poderão deixar de ver uma coisa
destas. Somos mais luminosos que um meteoro.
— Encontramo-nos
do lado do sol — interrompeu-o Rhodan. — Peço silêncio. Estas
palestras não servem para nada. Tiff, coloque a nave em velocidade
normal e faça de conta que está em casa. Altitude cinco mil metros,
nem um único metro a mais. Velocidade equivalente a cinco vezes a do
som. Um arcônida distinto não voa mais depressa quando quer
contemplar seu mundo de cima.
— Por
aqui devem existir estações de localização — insistiu Bell.
— Sem
dúvida. Acontece que as mesmas já não nos dizem respeito. Uma vez
que nos encontramos no interior das camadas atmosféricas, os
goniômetros automáticos não devem ter o menor interesse por nós.
Uma estação robotizada sempre age segundo sua programação. Por
isso mesmo, considera inocente qualquer objeto que se desloque numa
altura permitida. Se tivéssemos vindo do espaço num vôo normal, já
teriam atirado contra nós.
Rhodan
calou-se. Sabia perfeitamente o que o esperava em Árcon I. Era
impossível que alguém ou alguma coisa se espantasse com a aeronave,
por mais inesperada que fosse sua aparição.
Conforme
sabia, o planeta tríplice conhecido pelo nome conjunto de Árcon
dispunha de uma cadeia externa e de uma cadeia interna de
fortificações. A cadeia externa era formada por cerca de 5.000
fortalezas espaciais montadas em plataformas, cujo tremendo poder de
fogo a Ganymed já tivera oportunidade de experimentar.
O
círculo de defesa interno correspondia aos planetas 5, 6, 7 e 8 que,
face à interdição de tráfego espacial para Árcon atualmente
vigente, ainda serviam de pontos de transbordo do comércio
intergaláctico.
Face
a isso, o cérebro robotizado de Árcon III estaria raciocinando com
lógica se chegasse à conclusão de que qualquer aeronave que se
encontrasse na atmosfera do planeta não era digna de atenção.
Foram
estas, em última análise, as reflexões que levaram Rhodan a
arriscar a operação.
Tifflor
concluíra a manobra de desaceleração do vôo de mergulho da
Gazela-I. Deslocando-se em vôo aerodinâmico, passou por cima do
litoral do pequeno mar.
O
silêncio passou a reinar a bordo da nave de reconhecimento. Todos os
olhares estavam presos às telas de imagem. Até mesmo no
compartimento de carga, todos permaneceram calados.
A
rota da nave acompanhava o litoral sul do mar. Lançaram os olhos em
todas as direções, mas não viram nenhuma casa.
O
terreno se parecia com um parque gigantesco, estendido até onde a
vista alcançava, e parecia ter perdido sua configuração natural
até mesmo nos menores detalhes.
Aquilo
era um produto da criatividade de alguns artistas talentosos e da
loucura de outros, que conquistaram ao antigo terreno agreste tudo
aquilo que era belo, atraente e fascinante.
Rhodan
suspirou pela primeira vez quando surgiu um rio de mais de quatro
quilômetros de largura. Pouco antes da foz as massas de água,
contrariando todas as leis naturais, subiam numa curva elegante para
o céu límpido. Seguiam uma linha parabólica quase vertical,
formando um gigantesco arco de torrentes turbilhonantes e
espumejantes, cuja beleza arrebatadora enchia as telas em miríades
de reflexos luminosos.
— Dê
algumas voltas em torno do arco aquático — exclamou Thora
apressadamente. — Depressa, Tiff. Nenhum arcônida que estivesse
realizando um vôo de passeio deixaria de render seu tributo de
admiração ao arco dos Zoltral.
Reginald
Bell praguejou em tom violento e com a voz potente. Rhodan limitou-se
a enxugar o suor da testa. Tifflor entrou na curva com um olhar de
resignação e reduziu a velocidade.
— A
Gazela chamará a atenção pelo seu formato — queixou-se Marshall.
— Thora, será que estamos procedendo corretamente?
— O
disco voador não despertará a atenção de ninguém. Quando muito,
será considerada uma nova construção, nascida em algum cérebro
fecundo. Ninguém se exaltará por isso. O senhor ainda não conhece
Árcon, John.
O
arco formado pela torrente de quatro quilômetros de largura tinha
mais de três mil metros de altura. Bem embaixo dele erguia-se um
palácio-funil com jardins internos que pareciam um sonho. Ainda
havia uma plataforma panorâmica suspensa no ar que, enquanto a nave
se aproximava, subiu da área interna do funil como tivesse sido
subtraída à gravitação.
Ao
que parecia, alguém se dava ao trabalho de cumprimentar
condignamente a nave de reconhecimento que voava mais devagar.
Tiff
arriscou um mergulho por baixo do arco aquático. Até Rhodan
encolheu a cabeça num gesto instintivo, quando a luz ofuscante do
sol branco de Árcon subitamente foi dissociada e irradiada em
inúmeros reflexos coloridos.
Thora
estava muito quieta. Sem dizer uma palavra, apontou para baixo.
Finalmente falou com a voz embaraçada:
— Este
é meu torrão natal, Perry. É ali que fui criada. É a sede dos
Zoltral.
Rhodan
havia suposto isso, pois Thora já ligara o nome de sua dinastia
àquela maravilha técnica.
Tifflor
já estava subindo quando Rhodan disse como que ao acaso:
— Acho
que este arco aquático de um campo antigravitacional cuidadosamente
orientado.
— Se
esse campo gravitacional falhar, as pessoas que se encontram na
casa-funil morrerão como ratos — resmungou Bell numa conclusão
lógica, mas pouco gentil.
— Seu
bárbaro — disse Thora, que voltara a sorrir. — O senhor não
compreende que uma raça de nível cultural elevado vive na busca
constante de novas formas de beleza? A lei da uniformização e da
estilização, que ainda é observada na Terra, aqui foi abandonada
há oito mil anos. Por nada no mundo, queremos ser comprimidos num
esquema aplicável às residências particulares. Por isso o arco
aquático dos Zoltral nunca será imitado. Se alguém o fizesse,
estaria infringindo uma lei não escrita. Nenhum parque se parece com
o outro e ninguém criará o mesmo animal doméstico que o vizinho.
A
maravilha de uma civilização super-sofisticada ficou para trás.
Sem demonstrar a menor emoção, Tifflor voltou à rota antiga. Um
sorriso matreiro apareceu no rosto de Bell. O olhar de advertência
de Rhodan chegou tarde.
— Se
é assim, seus cirurgiões nunca usarão o mesmo método para
realizar uma operação de apendicite, não é? Se quisesse proceder
de forma absolutamente original, deveria começar a cortar na sola do
pé. É uma loucura!
— Os
arcônidas não possuem apêndice. — disse Crest com um sorriso
delicado. — No entanto, é verdade que até as ciências médicas
tendem para a ausência de padronização. Um operador que tenha
personalidade usará ao menos um fundo musical diferente para
realizar o mesmo tipo de intervenção. Senhor Tifflor, faça o favor
de sobrevoar a área da paisagem primitiva. Foi ali que cacei meu
primeiro sáurio, quando ainda era um jovem estudante de sapiência.
Tiff
descreveu uma curva. Viram uma gigantesca península que se parecia
com as selvas fumegantes de Vênus. Criaturas apavorantes voavam de
encontro a um campo energético invisível, que compelia as criaturas
aladas suavemente a retornarem ao seu habitat.
— Isso
também deve ser artificial, não é? — fungou Bell confuso. —
Como poderemos saber quando começamos a ficar loucos?
— Na
Terra, não existem parques naturais? — retrucou Thora com a voz
irritada. — Por que uma raça altamente desenvolvida não pode
transformar o ambiente natural segundo seus desejos? Em Árcon I,
dificilmente haverá uma pedra que se encontre no mesmo lugar em que
foi deixada pelas forças da natureza.
Bell
ficou calado. Desorientado, olhou em torno, mas só viu uma série de
rostos confusos. As impressões eram imponentes demais. Mas, o que
mais impressionava os homens era o fato de que ninguém se preocupava
com sua presença. Até parecia que Árcon nunca travara uma guerra
ou conquistara todo um grupo estelar. Árcon I, o mundo de cristal,
era o sacrário residencial isolado de um povo que já há dezenas de
milhares de anos sentira que se colocaria numa situação deprimente
e antinatural caso montasse seus lares nas proximidades das
instalações industriais.
Rhodan
transmitiu algumas instruções lacônicas. Os homens que
participavam da operação ainda contavam com um ataque de surpresa.
Mas
não aconteceu nada. As aeronaves com que se encontravam passavam
tranqüilamente por eles. Até parecia que a nave de reconhecimento
terrana pertencia ao planeta.
A
costa oriental do mar em meia-lua surgiu diante deles. As ilhas que a
margeavam serviam de áreas residenciais completamente autônomas. Em
Árcon I, não havia cidades. Rhodan não compreendia onde poderiam
morar os dez milhões de arcônidas. O vazio aparente só poderia ser
explicado pelo tamanho do planeta, cuja superfície servia
exclusivamente à residências e recreação dos seus habitantes.
Sobrevoaram
algumas das estranhas construções, que tinham de fora o aspecto de
enormes cálices de champanha, cujos cabos estavam presos ao solo.
Imensas e graciosas, numa demonstração de estática genial, as
paredes abriam-se para o exterior.
Também
aqui se notava a tendência para o isolamento. Geralmente os jardins
e terraços estavam voltados para o espaço interior, cercado pelas
paredes da construção afunilada. No quinto planeta do sistema,
Rhodan tivera oportunidade de examinar detidamente um palácio
semelhante àquele.
No
formato exterior, não havia nenhuma diferença digna de nota, o que
parecia estar em contradição com a doutrina da desestilização. Ao
que parecia, as construções erguidas nas ilhas destinavam-se às
massas. A personalização não podia chegar ao ponto no qual se
pudesse dar uma casa a cada família.
Rhodan
abanou lentamente a cabeça. Havia algo de errado nesse mundo. Aliás,
Árcon I lembrava o planeta Peregrino, cujos habitantes foram ainda
mais longe. Não se contentaram em remodelar um planeta já existente
segundo seus desejos. Construíram seu próprio mundo. Mas ao que
parecia, os arcônidas não estavam longe do objetivo final, pois até
mesmo as residências destinadas a famílias de nível menos elevado
demonstravam uma tendência exagerada para o isolamento. Os
gigantescos palácios de apartamentos estavam repletos de pequeninos
jardins suspensos, que davam mostras das características individuais
dos moradores.
Tifflor
adaptou-se ao tráfego aéreo mais intenso. As primeiras vias
expressas tornaram-se visíveis. As faixas cintilantes, lindas como
um conto de fadas, passavam sobre a superfície de água como se tudo
aquilo fosse obra da natureza. Não se via nenhuma coluna de
sustentação, o que provava que também aqui se recorrera aos campos
energéticos de sustentação.
Bell
estava sentado diante do posto de armamentos da nave sem dizer uma
palavra. Sempre que uma aeronave penetrava na área de fogo de sua
mira, o polegar aproximava-se instintivamente dos botões vermelhos.
Sobrevoaram
a costa. O complexo montanhoso a que Crest se referira não era uma
cadeia de montanhas como qualquer outra, pois os arcônidas o haviam
modificado ao seu gosto.
Gigantescas
cabeças e estátuas esculpidas na pedra surgiram diante deles. O
remate de tudo era formado por uma figura abstrata de alguns
quilômetros de comprimento, que enfeitava a cumeeira da mais alta
das cadeias de montanhas.
Ofuscado
por tanto brilho, Rhodan fechou os olhos. A Gazela, que se aproximava
lentamente, foi envolvida pela torrente de luzes refletidas.
— Essas
figuras simbolizam a conquista da Galáxia — explicou Crest em tom
solene. — Foram criadas pelos artistas mais famosos daquele tempo.
Eucolard gastou toda a vida trabalhando com um radiador energético
comum, com o qual fundiu as diversas cenas. Não utilizou bocais de
jato, como os outros artistas costumam fazer. Depois de concluída a
obra, recorreu durante 8,3 horas a todo o volume energético do
planeta Árcon para, num processo cuidadosamente executado,
transformar a rocha. Com isso, a figura passou a ser formada pelo
mais puro diamante. Os cálculos para a lapidação adequada foram
realizados pelo cérebro robotizado. Os canhões de vibração da
nossa frota concluíram, sob a orientação de Eucolard, a mensagem
relativa à nossa história.
— Diamante!
— gemeu Tifflor sem querer.
— Aqui
não passa de um material corriqueiro. Na Terra, essa forma de
carbono puro ainda é considerada uma preciosidade — disse Crest
com a voz entrecortada.
— Não
se deixem distrair mais — ordenou Rhodan em tom áspero. — Crest,
onde fica o local em que deveremos pousar?
Ficava
a duzentos quilômetros ao leste. No momento em que Tifflor pousou o
aparelho no desfiladeiro, ficou sabendo que a sede do governo
arcônida não ficava a mais de trezentos quilômetros dali.
Uma
estrada de cristal passava por cima do desfiladeiro estreito. Rhodan
foi o primeiro a sair da comporta de ar. A seus pés, rumorejavam as
águas cor de coral de um riacho. Uma rocha saliente proporcionava um
abrigo excelente à pequena nave.
Rhodan
lançou um olhar perscrutador em torno de si. Era um lugar solitário;
nenhum arcônida se perderia nessa área. Aos poucos, foi
descontraindo os músculos tensos e passou a aspirar intensamente o
ar puro e balsâmico.
Os
membros do comando guardaram um estranho silêncio enquanto desciam
da nave. O ar era tépido, mas não era um calor úmido. Os
termômetros de bordo indicavam uma temperatura de 25 graus
centígrados no fundo do desfiladeiro naturalmente refrigerado. Cem
metros acima de suas cabeças, brilhava a faixa da rodovia que,
naquele ponto, era puramente energética. Thora explicou:
— Gostamos
de deslocar-nos vez por outra em veículos de superfície, nos quais
podemos admirar mais detidamente as belezas de cada lugar. A rede de
estradas foi construída exclusivamente para fins de recreação e
descanso. Evidentemente nunca será usada por alguém que tenha
pressa.
Perry
Rhodan engoliu ruidosa e intensamente. Teve a impressão de que seu
cérebro passara a descrever um movimento de rotação. Tudo aquilo
não era novidade para ele. Durante o treinamento hipnótico, lhe
haviam sido transmitidas informações detalhadas sobre o estilo de
vida de Árcon. Acontece que o saber teórico e a contemplação
direta são coisas muito diferentes. Rhodan sentiu-se dominado pela
admiração. Lembrou-se dos problemas da Terra.
Lá
ainda discutiam sobre a construção de vias expressas, que
representavam uma necessidade premente. Enquanto isso, aqui muitos
bilhões foram investidos com a finalidade exclusiva de permitir aos
habitantes uma ocasional viagem de recreio em antiquados veículos de
superfície.
A
contradição era tamanha que um cérebro humano normal não poderia
absorvê-la de uma hora para outra. Por isso, Rhodan decidiu seguir o
único procedimento adequado.
— A
sede do governo, situada na chamada Colina dos Sábios, fica
aproximadamente a trezentos quilômetros. O pôr do sol se verificará
daqui a quatro horas. Descansem e procurem libertar-se das impressões
que acabam de atingi-los. Gente dominada por um vazio complexo de
inferioridade não me serve. De qualquer maneira, mantenham as armas
de prontidão. Sempre é possível que alguém nos descubra, embora
seja pouco provável. E é bom que não se esqueçam de que este
mundo aparentemente tão pacífico é apenas uma parte de um grande
todo. Numa reduzida distância cósmica, dois planetas bastante
semelhantes a este descrevem suas órbitas em torno do mesmo sol. E
ali, o panorama que se oferece ao visitante é totalmente diverso. Lá
não poderíamos ter voado à vontade de um lado para outro. Por
isso, peço-lhes pelo amor de Deus que não acreditem que o perigo já
passou. Só poderemos retornar à Ganymed quando obtivermos uma
licença de decolagem regular. Daqui a algumas horas, me porei a
caminho para falar pessoalmente com o Imperador. Crest e Thora me
acompanharão.
“E...
— Rhodan hesitou por um instante — não creiam que uma decolagem
não permitida seria tão bem sucedida como nosso pouso em Árcon. No
momento em que pusermos o nariz no espaço contra a vontade do
cérebro robotizado, centenas de canhões instalados em naves nos
transformarão num montão de cinzas. Se as negociações que
pretendemos realizar não forem coroadas de êxito, estaremos
praticamente perdidos. É só. Durmam, conversem ou passeiem. Mas
concentrem-se sobre suas tarefas.”
Rhodan
tirou o desajeitado traje espacial. Sombras profundas desceram pelo
desfiladeiro. Muito acima daquele grupo silencioso, um veículo
estranho passou pela fita reluzente que representava a estrada. Seus
ocupantes não pararam. Com tantas maravilhas, aquela fresta de rocha
não era digna de admiração.
3
— Sua
Eminência dos mil olhos, que tudo vê e tudo sabe, Senhor de Árcon
e dos mundos da ilha deserta, sua Magnificência Imperial, Orcast, o
Vigésimo-Primeiro, divindade da estirpe dos decanos do Universo,
houve por bem abrir a dança das águas cantantes.
O
Imperador Orcast XXI, um espírito que gostava de zombar do seu
tempo, conhecido como um espírito cínico, gentil e um parceiro
cativante em qualquer conversação, além de criador de notáveis
obras de arte, resolveu levantar a direita e estender a quina da mão
para a frente. Em conseqüência disso, o robô de observação
individualizada que controlava o jogo automático das águas perdeu
parte de sua compostura mecânica.
Numa
ironia mesclada de compreensão, o Imperador franziu as sobrancelhas
cuidadosamente tratadas, quando o chefe do cerimonial disse em tom de
desespero:
— A
palma da mão para a frente, Eminência. O dispositivo positrônico
de observação precisa de todo o fluxo dos impulsos irradiados pela
mão de Vossa Magnificência.
Orcast
desistiu; sempre costumava desistir quando alguém investia contra
ele com palavras insistentes ou ordens ríspidas. Sua mão direita
girou. O trovejar grave do interior da esfera de águas flutuantes
modulou-se num zumbido rítmico, que poucos segundos depois se desfez
numa série imensa de sons harmônicos.
A
esfera aquática de mil metros de diâmetro começou a pulverizar-se
sob o influxo das componentes antigravitacionais. Lindos reflexos
coloridos surgiram em meio ao elemento flutuante e ondulante, que
começou a formar-se semelhante à obra-prima mais recente no campo
das figuras geométricas.
A
massa de convidados teve sua atenção despertada pela obra de arte.
Resolveram mudar de posição, para poderem olhar para cima. O jogo
artístico desenrolava-se pouco acima da área interna do palácio de
cristal.
— É
uma coisa deslumbrante — confessou Orcast diante dos seus hóspedes
prediletos. — Mas gostaria realmente de saber por que a tal da
divindade da estirpe dos decanos do Universo não tem permissão de
estender a mão segundo seus desejos. Tenho a impressão de que não
há muita coisa atrás de minha tão propalada divindade.
As
observações do soberano foram brindadas com uma série de risos
discretos. Com um sorriso irônico, Orcast demonstrou sua satisfação
com o embaraço do chefe do cerimonial.
— Seja
como for — repetiu — seja como for, meu espírito onisciente não
está em condições de reprimir a bárbara sensação de fome do seu
organismo evidentemente menos espirituoso, conforme manda a etiqueta.
Meus cumprimentos, Offentur. Sua composição deverá ter seu lugar
na galeria das obras de arte moderna.
Orcast
levantou-se do leito pulsante. Passou os olhos pela amplidão do
parque redondo. Bem acima dele, um sol atômico surgido de repente
transformou as massas de águas cativas numa nuvem de vapores
fosforescentes.
A
festa já durava três horas. Os presentes compreenderam que o
Imperador gostaria de tomar sua refeição a sós. De qualquer
maneira, os filósofos da geração mais jovem eram de opinião que a
introdução dos chamados alimentos na boca e sua trituração
ofendia a estética e os bons costumes tanto quanto o processo de
digestão puramente orgânico. Segundo Epfantrim, o velho, existe uma
ligação tão estreita entre as duas formas de atividade que um
espírito verdadeiramente puro não pode deixar de estabelecer
comparações e extrair suas conclusões durante o cerimonial da
refeição.
Orcast
era um dos adeptos da nova corrente filosófica. Por isso caminhou
discretamente em direção à faixa transportadora do palácio, que o
conduziu até uns oitocentos metros para cima, sob as aclamações
dos convidados.
O
sorriso habitual de Orcast desvaneceu-se. Lançou um olhar preocupado
sobre o círculo de 1.500 metros de seu palácio. A vida ainda
pulsava no mais belo dos parques de Árcon. Ainda se conversava
animadamente sobre as mais insignificantes das insignificâncias. Por
quanto tempo?
Orcast
sentiu-se exausto. Uma festividade ininterrupta de quatro horas
exigia muito do corpo e do intelecto. Para fazer jus à fama que
desfrutava, tinha de ser espirituoso e engraçado.
O
escravo pessoal dedicado, um membro da raça fiel de ciclopes dos
naats, acomodou o soberano em seus braços robustos.
Um
campo energético transparente recuou diante dos impulsos orgânicos
do homem que se aproximava.
Orcast
estava longe de todo aquele movimento. Sem dizer uma palavra, deixou
que o titã de três olhos lhe tirasse a roupa e o envolvesse em
capas macias e perfumadas.
Com
uma sensação agradável, abandonou-se às vibrações ativantes de
seu leito.
— Que
coisa enfadonha, Tranto! — queixou-se em tom de recriminação. —
Você não sabe que uma das suas tarefas consiste em manter afastados
de mim compositores diletantes do tipo de Offentur? A dádiva pequena
que oferece agride meus sentidos. Aliás, resta saber se, aquilo que
apresentou, pode ser considerado uma dádiva. Eu me permitirei algum
descanso. Isso deve ser uma das poucas coisas que a Magnificência
Imperial ainda tem que permitir. É um fato lamentável que só o
indivíduo, que sabe adquirir uma visão irônica de si mesmo, pode
superar sem a perda total das energias que lhe restam.
O
ciclope retirou-se, andando de quatro. Sabia que Orcast não esperava
nenhuma resposta.
Lá
fora, diante da parede panorâmica aberta do pequeno aposento de
repouso, ouviram-se risos alegres. Robôs que levavam as bebidas mais
deliciosas da Galáxia deslizavam de um terraço para outro.
Por
um instante, Orcast ficou admirado com a estranha atitude de seu
escravo pessoal. Desde quando o ciclope costumava investir que nem um
louco contra a porta?
Orcast
perdeu-se numa série de idéias preguiçosas sobre o sentido ou a
falta de sentido da existência. Só despertou quando o pequeno ser
peludo surgiu diante dele. Gucky um ser vindo de um mundo distante,
esboçou um sorriso cordial com seu único dente roedor.
— Olá,
meu velho! — chiou o rato-castor num intercosmo impecável. —
Permita que me apresente. Sou o tenente Guck, membro de um comando
especial da Terceira Potência.
Escorregando
sobre o largo traseiro, Gucky foi-se aproximando. Seu rosto de rato
irradiava felicidade. Orcast possuía bastante autodomínio para
exprimir a sensação de surpresa e de pânico que se apossou dele
apenas por um ligeiro pigarro.
— Que
coisa deliciosa! — disse, colocando no rosto sua costumeira máscara
de sorriso. — Até parece que vejo diante de mim o ser mais
inteligente de um dos meus planetas.
— Infelizmente
está enganado — disse o rato-castor em tom pouco convencional. —
Dá licença?
Por
uma fração de segundo, seu olhar caiu sobre o painel de controle
oculto atrás de um canteiro de lindas plantas. Orcast começou a
perceber o perigo que o ameaçava quando a chave que ativa os campos
energéticos de defesa desceu num movimento abrupto.
— OK
— disse o ser desconhecido, usando uma expressão que lhe era
totalmente estranha.
Orcast
fez menção de levantar-se. Mas uma força invisível comprimiu seu
corpo contra o leito.
— Sou
o tenente Guck do exército de mutantes — voltou a salientar o
rato-castor. — Nunca ouviu falar nisso, não é? Como vim parar
aqui? Não é isto que está pensando? É simples, meu chapa.
Acontece que eu sou... é verdade, não devo repetir nada. Bem, além
do mais também sou um teleportador. Não me diga que está ficando
nervoso! Recebi ordens para não exasperá-lo.
O
sorriso de Gucky tornou-se ainda mais gentil. O nariz de rato
franziu-se bem para o alto e as delicadas patas dianteiras com suas
mãozinhas balançavam no ar.
Orcast
lutou para controlar-se. Os conhecimentos que possuía sobre as
experiências da ciência parapsicológica bastavam para que
compreendesse o surgimento repentino daquele ser. As forças, que
estavam atuando aqui, não podiam ser controladas pela aparelhagem de
segurança superaperfeiçoada.
Gucky
afrouxou a constrição espiritual. Orcast começou a respirar
profundamente. Seu espírito despertou de uma hora para outra, fato
que o rato-castor dotado de capacidades telepáticas não deixou de
perceber.
— Deixe
de tolices, meu velho — pediu apressadamente. — Esperamos quase
quatro horas para vê-lo a sós. Queremos uma pequena entrevista: só
isto. O chefe não pretende agarrá-lo pela gola. Bem... será que
esses panos têm gola?
Os
grandes olhos de Gucky, aos quais devia seu nome, inspecionaram a
vestimenta perfumada.
— Ao
que parece não têm — constatou. — O senhor pensa demais, meu
chapa. Eu lhe garanto que não conseguirá comprimir o botão
embutido na parede atrás de sua cabeça.
Orcast
XXI desistiu. Começou a compreender que se via diante de um poder
que ainda não podia compreender. Face à sua tendência para o novo,
o extravagante e o abstrato, a curiosidade começou a instalar-se em
sua mente. Quem seria o ser que se atrevia a proporcionar uma
surpresa dessas ao Imperador?
Gucky
registrou o impulso mental irradiado pelo homem deitado à sua
frente. Orcast voltou a estremecer quando o ar começou a tremular
diante de sua vista e um vulto pequeno e amarelo se materializou.
Tako
Kakuta, que também era teleportador, inclinou-se com um sorriso. Em
sua mãozinha delicada balançava uma pesada arma de impulsos, que
logo desapareceu no interior do estojo que trazia a tiracolo. Orcast
teve oportunidade de constatar que o desconhecido usava a vestimenta
dos servos do palácio. Entre outras idéias que lhe acudiram, o
Imperador teve a de que a festa movimentada representara uma boa
oportunidade para penetrar no palácio sem ser percebido. A
curiosidade voltou a tomar conta dele.
— Sua
Excelência, o Presidente Perry Rhodan, chefe da Terceira Potência,
pede um pouco de paciência — disse o homem delicado a título de
cumprimento. — Sua Excelência tem de vencer algumas dificuldades,
provenientes principalmente de eficientíssimo sistema de vigilância
robotizada de Vossa Magnificência. Ainda recebi instruções para
garantir que não se trata de um assalto. Estamos interessados apenas
numa breve entrevista, que pretendemos conduzir segundo às normas de
cortesia e de respeito devidos a Vossa Magnificência. Em nome de Sua
Excelência peço a compreensão de Vossa Magnificência.
Orcast
prestou atenção às palavras. Ainda não sabia quem era essa gente
estranha. Não se enquadrava em qualquer esquema. Tinham algo de
extraordinário, não apenas quanto às capacidades extra-sensoriais
de que pareciam dotados.
— Os
senhores me vêem numa atitude de expectativa — disse com um
sorriso cortês. — Como é mesmo o nome de seu soberano? Rhodan?
Tako
Kakuta sentiu-se feliz ao constatar que o Imperador se dirigia a ele
na terceira pessoa, o que afinal não deixava de ser uma certa forma
de cortesia.
Confirmou
as palavras de Orcast, cuja posição ficou mais descontraída.
Estava
esperando!
O
campo energético tremeluzente diante da porta de entrada havia
desaparecido. Dentro de poucos minutos, um homem de estatura elevada
surgiu na luz difusa da iluminação indireta.
Rhodan
tirou do ombro a capa vermelha que assinalava um servo não-arcônida,
pondo à mostra o uniforme singelo da Terceira Potência.
André
Noir, um francês gordo e bonachão dotado de intensas capacidades
hipnóticas preferiu não submeter o Imperador à sua constrição
mental, pois o mesmo já estava preso ao leito pela força irradiada
por Gucky. O homem era mais inofensivo que uma criança, desde que o
equipamento de segurança fosse desligado em tempo.
— Fique
na ante-sala, Noir — cochichou Rhodan apressadamente. — Mantenha
o ciclope sob controle. Preciso de dez minutos. Onde está Kitai
Ishibashi?
— Está
no grande centro de controle, juntamente com Marshall e Anne Sloane.
Estão controlando os guardas.
Rhodan
fez um ligeiro sinal com a cabeça. Atrás dele, Thora e Crest
mantinham-se em ansiosa expectativa. Fora relativamente fácil
penetrar no palácio, depois que os teleportadores haviam verificado
a situação. O mecanismo de portaria fora muito mais fácil de
enganar que aquele instalado no quinto mundo do sistema de Árcon. No
planeta de cristal, não havia conspiradores nem seres hostis
pertencentes a outras raças.
Rhodan
lançou um olhar perscrutador sobre o Imperador que estava pousado no
leito. Orcast era um arcônida não muito velho. Apesar disso sua
postura apresentava sinais de decadência. Ao que tudo indicava,
sentia-se exausto, e tal informação foi transmitida através de um
breve impulso telepático de Gucky.
Tako
Kakuta ficou em posição de sentido. Rhodan irradiava certa frieza
impessoal, atrás da qual procurava ocultar o nervosismo que começou
a apossar-se dele. Então era este o soberano do Grande Império!
Rhodan
sentiu que os músculos da face se contraíam. O fluido do
desconhecido e do perigo envolvia seu espírito. Apesar da situação
um tanto infeliz em que se encontrava, Orcast XXI corporificava o
apogeu e a decadência de um povo admirável. Rhodan viu-se obrigado
a reprimir um sentimento de repugnância instintiva e de conformismo.
Cumprimentou
o Imperador em palavras ligeiras e precisas. Os olhos dos dois homens
encontraram-se. Com um único olhar, Orcast examinou aquele homem de
estatura elevada. Logo adivinhou que aquele desconhecido possuía
tudo aquilo que nunca chegara a adquirir. Uma torrente de energia e
determinação pessoal ameaçava subjugar o Imperador. Ergueu-se
lentamente sobre o cotovelo, com a permissão de Gucky.
Rhodan
foi extremamente lacônico. Seu pedido de desculpas pela entrada não
consentida nos aposentos do Imperador não eliminava a infração
cometida, mas ao menos Rhodan deixou claro que estava perfeitamente
ciente de ter praticado um ato inconveniente. Orcast limitou-se a
acenar com a cabeça. Perdera seu sorriso tão conhecido. Numa
atitude cada vez mais apressada, examinou os traços do rosto do
desconhecido.
— Lamento
incomodá-lo a uma hora destas — voltou a dizer Rhodan. —
Infelizmente não tive outra alternativa.
— Vocês
poderiam ter solicitado uma audiência — disse Orcast com um
pigarro, lançando um olhar para Gucky.
— Uma
das características da minha raça consiste em não tentar coisas
impossíveis, Eminência. Infelizmente não sou nenhum compositor de
jogos aquáticos, mas apenas um homem que precisa tratar de um
assunto muito importante para o bem-estar do Império de Vossa
Magnificência. Nestas condições, teria sido inútil incomodar os
funcionários da corte.
A
leve ironia de Rhodan foi entendida. Com um suspiro, Rhodan deixou-se
cair no leito.
— Ainda
isso — gemeu. — Não espalhem sua ironia causticante na sala de
repouso de um soberano que fora destas quatro paredes quase não
manda mais nada. Acredito que já estou adivinhando a pretensão
extraordinária de vocês. O Império está sendo administrado por um
autômato. O que pretendem fazer se, mesmo com toda boa-vontade, não
estou em condições de ajudá-los?
Rhodan
estremeceu interiormente. Sentiu a profunda resignação do
Imperador. Gucky irradiou um impulso de pavor.
— É
como uma partícula de pó num furacão — foi a informação
cochichada em inglês que chegou ao ouvido de Rhodan.
Perry
controlou-se. Seu sorriso exprimia compaixão. Quando fez um sinal
para que os arcônidas se aproximassem, começou a desconfiar de que
o arriscado avanço, que os levara à presença de Orcast XXI, fora
totalmente inútil. Esse homem já não tinha o poder de influenciar
as decisões do cérebro robotizado.
Thora
e Crest entraram na sala. A primeira andava ereta, em atitude
orgulhosa, enquanto Crest arrastava ligeiramente os pés. Orcast
voltou a sobressaltar-se. Um verdadeiro espanto desenhou-se nos
traços de seu jovem rosto, que parecia tão velho.
— Já
nos conhecemos, Orcast — disse Thora com a voz fria. — O palácio
da minha família passou a pertencer a você. Vim reclamar os meus
direitos. É bem verdade que Crest, cientista-chefe do Conselho,
achou que isso seria inútil. Peço que decida imediatamente. Não
temos tempo a perder.
Rhodan
seguiu atentamente a discussão apaixonada que se iniciou.
Finalmente, sentiu-se dominado pelo cansaço.
Orcast
dizia a verdade, fato que Gucky confirmava a toda hora. Esse soberano
aparente do maior dos impérios da história nem sequer sabia que
treze anos atrás Thora e Crest haviam sido mandados ao espaço à
procura do planeta da vida eterna.
Orcast
também não sabia que a nave espacial de Rhodan estava sendo retida
em Naat. Lamentou profunda e, ao que parecia, sinceramente que não
podia prestar qualquer auxílio, por menor que fosse.
Thora
não resistiu. Sem dizer uma palavra, caiu sobre outro leito.
Orcast
parecia confuso. As revelações sobre o pouso de emergência de
Thora na lua terrana e seu regresso a bordo de uma nave terrana,
realizado depois de tanto tempo, representaram uma surpresa
excessiva. Antes, nunca o Imperador sentira com tamanha intensidade
sua impotência de governo. Era o que se depreendia de suas palavras:
— Teria
muito prazer em autorizar seu pouso neste planeta e deixar o tempo de
sua permanência ao seu inteiro arbítrio. Mas, na situação em que
me encontro não posso fazer outra coisa senão manifestar minha
gratidão por terem salvo representantes tão valorosos do meu povo.
Não posso fazer nada por vocês, a não ser que queiram ver uma
ajuda na garantia de saírem do palácio sem serem molestados. Não
tenho poderes de revogar qualquer decisão do cérebro robotizado.

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