quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

P-039 - O Mundo dos Três Planetas - K. H. Scheer [parte 1]

Autor
K. H. SCHEER



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização
e
Revisão
ARLINDO_SAN
O soberano de Árcon não passa de uma
marionete do grande cérebro positrônico...

História da Terceira Potência em poucas palavras:
1971 — O foguete Stardust chega à Lua, e Perry Rhodan encontra a nave exploradora dos arcônidas, que realizou um pouso de emergência (Perry Rhodan, volume 1).
1972 — Criação da Terceira Potência, que vence a resistência das grandes potências terranas e repele as tentativas de invasão de seres extraterrenos (volumes 2 a 9).
1975 — A Terceira Potência intervém pela primeira vez nos acontecimentos galácticos. No sistema de Vega, Perry Rhodan defronta-se com os tópsidas e procura resolver o enigma galático (volumes 10 a 18).
1976 — A bordo da Stardust-III, Perry Rhodan chega ao planeta Peregrino e juntamente com Bell consegue a imortalidade relativa, mas perde mais de quatro anos (volume 19).
1980 — Perry Rhodan regressa à Terra e tem de lutar por Vênus (volumes 20 a 24).
1981 — O Supercrânio ataca e a Terceira Potência se vê diante da provação mais difícil de sua história (volumes 25 a 27).
1982/83 — Os mercadores galácticos querem transformar a Terra num mundo colonial. Mas Perry Rhodan faz virar o feitiço contra o feiticeiro e conquista uma das bases mais importantes dos mercadores (volumes 28 a 37).
A Terra encontra-se no ano de 1984 do seu calendário. A Ganymed, uma nave espacial capturada aos mercadores galácticos, já iniciou seu avanço para Árcon.
Com isso, Perry Rhodan cumpriu uma promessa de treze anos, segundo a qual levaria Crest e Thora, os dois arcônidas, de volta ao seu mundo. Mas a recepção dispensada a estes deixa muito a desejar, pois em O Mundo dos Três Planetas houve uma profunda mudança de regime...



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Que se apresenta como Tan’Ro de Zeklon.

Reginald Bell — Que mostra quanto vale quando a situação se torna desesperadora.

Thora e Crest — Que depois de tanto tempo têm de recorrer a um transmissor fictício para regressar ao seu mundo.

John Marshall — Comandante do exército de mutantes da Terceira Potência.

Orcast XXI — Um soberano que não detém nenhum poder real.

Kenos — Um arcônida dotado de energia extraordinária.

Gucky — Cujo aparecimento inopinado espanta o Imperador.

John Tifflor, apelidado de Tiff — Comandante de uma Gazela.
1



Caíram dos céus como um bando de mosquitos gordos e repugnantes. Seus ferrões eram pesados canhões energéticos. As vísceras abrigadas atrás de blindagens resistentes pulsavam num ritmo tão preciso que jamais seria atingido por qualquer combinação orgânica de células vivas.
O canto surdo e enervante dos ciclopes foi captado pelos microfones externos da nave e reproduzido fielmente pelos alto-falantes. Ao que parecia, não havia nada que pudesse interromper a marcha daqueles gigantes.
Apática e indiferente, reagindo apenas aos berros de comando dos seus oficiais, a massa de corpos escuros deslocou-se em direção às naves que pousavam. Parecia uma massa viscosa que escorria lentamente, mas não poderia ser detida.
Marcha dos ciclopes, quinto ato. A uma hora como esta, gostaria de ser compositor — ironizou o homem alto, sem realmente tornar-se irônico. — Se dependesse de mim, neste instante faria entrar em cena os tambores e as trombetas.
Ninguém riu. As cenas que se desenhavam nas telas impressionavam demais. O fundo sério dos acontecimentos era inconfundível.
Os naats, habitantes do planeta Naat, evidentemente foram escolhidos para tripular as naves espaciais que acabavam de pousar no espaçoporto de Naatral. No entanto, era bastante duvidoso que a maior parte daqueles gigantes de três metros de altura, com enormes crânios redondos, seria capaz de compreender o funcionamento complicado de uma nave de guerra arcônida.
Os naats eram seres de três olhos, pertencentes a uma raça colonial submetida ao domínio direto de Árcon, planeta central do Império. Estes pareciam ser, para o gigantesco cérebro robotizado que dirigia os destinos de Árcon, os representantes para uma solução provisória ideal. Bastava que um mecanismo de cálculo inteiramente mecanizado fosse capaz de entender o significado do conceito de ideal. Provavelmente o cérebro central de Árcon “raciocinava” em outros termos.
Face à degenerescência incontestável da raça, os arcônidas propriamente ditos se haviam tornado imprestáveis para qualquer tipo de atividade prática. Por isso, o cérebro recorria a seres de características estranhas às da raça, cuja lealdade incondicional evidentemente era mais importante que os dons espirituais, que geralmente constituíam um ingrediente essencial.
Isso não vai dar certo — afirmou Reginald Bell em tom sombrio. — Suas pernas-coluna vão pisotear as instalações. Além disso, pendurarão seu aparelho digestivo diretamente nas despensas, para alimentar-se o melhor possível. Estou falando em sentido figurado.
Ah, é? — disse Perry Rhodan, chefe da expedição de Árcon, com um pigarro.
Bell enrugou a testa.
Até parece que não se pode falar mais como uma pessoa civilizada — disse com a voz furiosa.
Seu olhar ameaçador provocou um sorriso fugaz no rosto de um ou outro dos circunstantes. Naquele momento, nenhum dos mil tripulantes da Ganymed seria capaz de uma manifestação de alegria mais intensa.
Praguejando, Bell caminhou pesadamente em direção as telas de visão global.
A sala de comando da segunda maior nave de guerra de que dispunha a Terceira Potência, dirigida por Perry Rhodan, ficava uns 760 metros acima do solo. Há poucos dias ainda se acreditava que não havia nada que pudesse contrapor-se ao potencial energético daquele gigante do espaço. Acreditava-se nisso até que a Ganymed foi capturada por uma nave arcônida robotizada, que a conduziu ao campo de pouso do quinto mundo do sistema através de um mecanismo de tele direção.
Desde então, a mais nova das naves da Humanidade jazia imóvel sobre os gigantescos discos de suas pernas telescópicas estendidas, cujo mecanismo hidráulico começara a ceder sob os efeitos da gravitação de Naat. Naquele mundo deserto, a força gravitacional era de 2,8g.
De uma hora para outra, o campo de pouso transformara-se de um local abandonado para um verdadeiro formigueiro. Ao que tudo indicava, o Grande Império pretendia desferir mais um golpe fulminante contra as raças coloniais revoltadas.
A utilização de criaturas não-humanas como os naats indicava claramente que a população de Árcon, que se contava por bilhões, já não era capaz de tripular as inúmeras naves espaciais do Império. Isto há alguns milênios teria sido mais que natural.
Sabia-se perfeitamente que a extraordinária capacidade de iniciativa não era exercida por seres vivos orgânicos, mas pelo maior cérebro robotizado do Universo conhecido.
Perry Rhodan estremeceu por dentro, quando avaliou o potencial da frota através das imagens projetadas na tela. O que viu de unidades espaciais, desde as menores até as mais pesadas, era uma coisa fabulosa.
Só de couraçados da classe Império contou mais de cem. Cada um deles tinha o tamanho e a potência da Stardust-III, que Rhodan deixara no sistema solar de seu mundo para servir de espinha dorsal à frota de defesa ali estacionada.
Se quiserem, eles nos mandam para o outro mundo com um simples movimento do dedo — murmurou o coronel Freyt em tom constrito.
Freyt era oficialmente o comandante da Ganymed, uma nave de 840 metros de altura por 220 de diâmetro.
Rhodan virou lentamente a cabeça. Freyt viu um rosto tenso.
Ficou magro”, foi a idéia que num instante acudiu ao coronel. Não sabia por quê, mas o fato o preocupava. Se os nervos de Rhodan também começassem a fraquejar, a prisão, até então tão suave, fatalmente se transformaria no extremo oposto.
Eles quem? — indagou Rhodan.
Freyt passou a ponta da língua pelos lábios. Um tanto inseguro, olhou em torno.
É claro que me refiro ao cérebro robotizado de Árcon — respondeu.
Vejo que o senhor pelo menos se exprimiu de forma incorreta. Aliás, acredito que ainda existam algumas opiniões errôneas a respeito da situação em que nos encontramos. Seria insensato procurarmos identificar os atos de uma máquina com os conceitos de justiça e injustiça. O robô não sabe estabelecer distinção entre os dois conceitos, pois não tem o menor interesse nisso. Para ele, só existe uma série de dados lógicos de interesse exclusivamente prático. Acontece que raramente, e só por acaso, um efeito final lógico corresponde àquilo que nós homens costumamos designar como justo. Compreenderam?
Rhodan olhou em torno. Não o haviam compreendido muito bem. O que se sabia perfeitamente era que a Ganymed estava sendo retida no espaçoporto de Naatral por um gigantesco potencial energético. O vôo em direção ao mundo dos arcônidas Crest e Thora terminara em fracasso. Nem sequer haviam ultrapassado a órbita do quinto planeta.
Nem por isso quero afirmar que, como conclusão dos nossos desejos, considero este mundo desértico — acrescentou Rhodan com um sorriso sutil. — Olhem ali embaixo. Os naats caminham para o interior das naves que acabam de pousar, onde serão utilizados pelos robôs segundo as qualidades de cada um. Estamos assistindo ao fim de uma raça altamente civilizada, que é a dos arcônidas. É muito difícil ganhar guerras por meio de povos estranhos. E o Grande Império encontra-se numa luta de vida ou morte. O que é de admirar, é que há vários milênios os velhos arcônidas previram a degenerescência de sua raça e tomaram suas providências. Quem possui os respectivos conhecimentos técnicos pode construir uma máquina gigante e programá-la de tal maneira que, num momento de perigo agudo, comece a agir independentemente. Foi o que aconteceu. O Conselho Galático de Árcon foi afastado de suas funções. Aquilo que vimos e as experiências pelas quais passamos, tudo foi concebido pela máquina. Nossas experiências com os arcônidas das melhores famílias revelam que essa gente, quando muito, é capaz de exasperar-se por um canteiro pisoteado. O cérebro robotizado já não os inclui em seus cálculos.
Sabe lá o que isso significa? — observou um membro da equipe matemática.
Rhodan respondeu com um gesto hesitante. Uma sombra desenhou-se em seu rosto.
Sem dúvida. Coisas horríveis estão para acontecer. O robô golpeará sempre que suspeitar de qualquer insubordinação às leis do Império. A programação da máquina é antiqüíssima. Os pressupostos em que se basearam os dados introduzidos no cérebro já estão superados. O robô tentará intervir nos destinos da Galáxia em termos de uma política colonial e expansionista que pertence ao passado. É bem possível que, por causa de um fato insignificante, um mundo seja destruído. A máquina continua com todo o poderio de antes. A frota imperial, que estava mofando, despertou de uma hora para outra.
Que prazer! Até parece que chegamos no momento exato — ironizou Reginald Bell. — Será que a esta hora você já nos pode contar como pretende chegar à sede do mundo de Árcon? Se for necessário, essa fera mecanizada nos fará morrer de fome no meio do espaço.
Isso é um conceito pouco preciso — resmungou Rhodan. — Eu... O que houve?
John Marshall, telepata e chefe do exército de mutantes a bordo da Ganymed, procurava ouvir com os olhos fechados os impulsos que só ele e outros mutantes poderiam compreender.
Thora está voltando — disse em voz velada. — Está muito exaltada; não, está extremamente abatida.
Marshall voltou a abrir os olhos. Viu diante de si o olhar chamejante de Rhodan.
Isso era de prever — disse o comandante em tom lacônico. — Está certa. Voltaremos a agir por conta própria; não temos outra alternativa. Crest...
O arcônida, que se encontrava num ponto mais afastado, despertou de sua letargia. Caminhou lentamente em direção aos painéis de controle. Seu cabelo branco emitia um brilho fluorescente sob o reflexo da luz das telas de imagem. Nessas telas, continuava a desfilar a parada deprimente dos ciclopes de três olhos. Parte dos naats andava de quatro. Só se levantavam e passavam a deslocar-se no seu andar balouçante quando se encontravam diante das comportas de ar das naves.
Crest, o cientista arcônida pertencente à antiga dinastia de Zoltral, revelou seu estado de espírito através do olhar apático e desinteressado.
É o fim — disse com a voz débil. — No momento em que uma máquina toma as rédeas do governo, a vida propriamente dita está perdida. Minha família foi destituída de suas funções há seis anos terranos. Orcast XXI, da família de Orcast, foi nomeado Imperador pelo cérebro robotizado. É claro que exerce suas funções apenas na aparência, o que também deve acontecer com os 128 membros do Conselho Galáctico. Não se iluda, meu amigo. Poderemos dar-nos por felizes se permitirem que voltemos para casa.
Rhodan exibiu os dentes num sorriso mordaz e contrariado.
Crest, nunca esperávamos conquistar ou salvar o Império pelo simples fato da nossa presença. Não nos consideramos tão grandes, nem tão importantes.
A raça humana tem mais força e grandeza do que se supõe. Os senhores são como eram meus antepassados há dez mil anos. Possuem uma ânsia enorme de dar um salto arrojado para a frente. Receio que, ao perceber o fato, o cérebro robotizado lhe cause dificuldades consideráveis. Não tente chegar a Árcon. Aí vem Thora.
Rhodan olhou para as telas. Um veículo oficial do administrador arcônida no mundo de Naat aproximava-se a alta velocidade. O carro atravessou a área extensa do campo sem a menor consideração pelas massas de nativos que marchavam em direção às naves.
Thora fez um gesto para Bell. Este desapareceu no elevador antigravitacional central. Iria abrir uma pequena comporta de ar, por onde pudesse entrar a arcônida.
Nas telas, viram Thora desaparecer nas gigantescas aletas de popa da Ganymed. Após dez minutos, a arcônida, entrou na central, desolada e exausta.
Seu rosto estreito estava vermelho. Envergava o uniforme elegante de comandante de uma nave de guerra arcônida. Na ombreira esquerda do macacão, brilhavam os símbolos da dinastia de Zoltral. Há seis anos qualquer um faria uma reverência diante dos mesmos. Hoje ninguém se curvava diante desse símbolo.
Respirando pesadamente, Thora deixou-se cair numa poltrona articulada. Quando sentiu a mão de Rhodan pousada em seu braço, abriu os olhos.
Está bem. Não falemos mais a respeito disso — disse Rhodan em voz baixa. — Esqueça. Sei perfeitamente que foi ofendida e repudiada por esse dorminhoco que usa o título de administrador de Naat. Naturalmente não nos pode dar permissão de decolar, porque o cérebro robotizado acha que não deva fazê-lo. Não é isso?
Os olhos de Thora umedeceram-se. Até então, ninguém vira a orgulhosa arcônida chorar.
O pior não foi isso — disse com uma calma forçada. — Esse cafajeste atreveu-se a dizer a mim, uma zoltral, que eu e os tripulantes da minha nave eventualmente poderíamos ser muito bem recebidos.
Ah, é?
Como ajudantes, comandados por algum robô! — exclamou. Seu rosto contorceu-se. — Imagine! Diz que devemos aguardar instruções nesse sentido, que serão expedidas pelo cérebro robotizado. Logo se conclui que nem sequer permitem nosso regresso. Perry, por tudo que me é e sempre me foi sagrado, faça alguma coisa! O Grande Império deixou de existir. Confesso aquilo que sempre procurei negar: meu povo está fraco, corrompido, sem moral, pouco inteligente e dominado por um tremendo cansaço.
Com algumas exceções, minha jovem senhora — disse Rhodan, esticando as palavras. — Com algumas exceções muito importantes. Uma delas está sentada diante de mim. Quer dizer que pretendem aprisionar-nos. Provavelmente a Ganymed também será bem recebida. Muito bem. Era o que eu imaginava.
Rhodan virou-se sobre os calcanhares. Os homens calaram-se sob o efeito de seu sorriso famoso e temível, que mais uma vez era tão meigo e amável que não poderia ser tranqüilizador.
Tenente Tifflor!
O oficial, ainda um rapaz, recém-saído da Academia Espacial e distinguido com o cometa de prata por sua excelente atuação na operação contra os saltadores, ficou em posição de sentido.
Tiff, que era o nome pelo qual costumavam chamá-lo, pensou que sua hora havia soado. Já conhecia essa expressão no rosto do chefe. Com esse mesmo sorriso, enviara-o a uma terrível missão secreta.
Sim senhor — disse o jovem de vinte anos.
Queira preparar a decolagem de uma nave de reconhecimento de grande alcance do tipo Gazela. Equipe-a para uma longa viagem. A nave deverá conduzir todo o potencial em armamento. As comportas externas permanecerão fechadas. Muito obrigado.
Mister Marshall. Reúna nove dos seus mutantes. As capacidades deverão completar-se. O senhor e os outros deverão formar um grupo bem experimentado a bordo da Gazela.
Bell, selecione quarenta homens experimentados do antigo comando do setor de Vega. Só quero voluntários. Tenente Tifflor, tome todas as providências para abrigar 55 homens a bordo da Gazela.
Coronel Freyt, a Ganymed continuará aqui sob seu comando. Os tripulantes deverão dormir e comer nos seus postos. Quando vier o sinal, deverá estar em condições de decolar dentro de dez segundos. Acha que conseguirá?”
Freyt ficou perplexo.
Em condições de decolar? — perguntou. — Com a Ganymed? Já tentamos isso. No momento em que aumentávamos o desempenho dos propulsores para dois milhões de toneladas, a potência de absorção dos campos de sucção aumentava para um valor mínimo de três milhões. Como poderemos decolar?
Quando receberem o sinal, poderão — respondeu Rhodan em tom indiferente. — Apenas se torna necessário que antes disso consigamos pousar em Árcon. Quer saber de uma coisa? Não gosto de dançar pela música de uma máquina. Pelas experiências que fiz com cérebros robotizados arcônidas, os mesmos sempre dispõem de um setor de segurança que os impede de excederem determinados limites. É bastante provável que aconteça a mesma coisa com este cérebro.
O senhor se esquece de que essa máquina acaba de causar um choque paralisante no administrador Sergh — interveio Crest em tom exaltado.
É verdade. Acontece que nós mesmos fomos culpados disso. Penetrei no palácio juntamente com Bell e Tako. Seja como for, pretendo dar uma olhada no tal Imperador; e eu o farei, não tenham a menor dúvida.
Thora arregalou os olhos de espanto. Voltara a ter diante de si o homem com que há treze anos antes se encontrara na lua terrana. Foi então que o mesmo começou a tutelá-la. Continuava praticamente o mesmo.
Tifflor retirou-se. Um trabalho febril começou a desenvolver-se a bordo da Ganymed.
Finalmente a pergunta zangada irrompeu da boca de Bell:
Grande mestre, será que você não poderia contar como espera fugir com a Gazela e de que forma pretende pousar em Árcon? Pelo que sei, encontramo-nos bem no meio de uma porção de projetores de campos energéticos.
Acontece que estes não reagem a oscilações de energias que se processam na quinta dimensão — respondeu Rhodan em tom áspero. — Basta pegar um transmissor fictício e, com o auxílio do mesmo, sair pelo espaço. Você sabe perfeitamente que nem mesmo os arcônidas dispõem dessa conquista da tecnologia.
Bell cerrou fortemente os olhos. Era o aparelho trazido do planeta Peregrino! Como não se lembrara disso?
Querem vir comigo?
Estas palavras eram dirigidas a Thora e Crest. Os dois trocaram um ligeiro olhar. Ninguém deixaria de notar uma ligeira palidez no rosto dos arcônidas.
Subitamente John Marshall, o telepata, teve sua atenção despertada por alguma coisa. Em atitude rija, parou diante da escotilha principal que se abria diante dele.
Rhodan franziu a sobrancelha. Um certo nervosismo apossou-se dele. O que teria percebido Marshall?
Quer pousar diretamente em Árcon? — perguntou Crest em tom inseguro.
Onde poderia ser? Tenho que falar com as pessoas que podem resolver alguma coisa. O que houve?
Marshall foi se aproximando. Seu impulso de advertência atingiu o cérebro de Rhodan. Mas este não conseguiu saber mais nada; sua capacidade telepática era muito fraca. Foi quando Thora decidiu revelar seu último segredo.
Não adiantaria continuar a calar os fatos — disse em voz baixa. — Perry, se o senhor pretende ir a Árcon, terá que resolver em qual dos planetas quer realizar esse intento.
A tensão de Rhodan dissipou-se. Marshall confirmou com um ligeiro sinal de cabeça: era isso.
Em qual dos planetas? — repetiu Rhodan desorientado. — Não compreendo. Árcon é um só, não é?
Pois aí está uma coisa que o senhor ainda não sabe, apesar do treinamento hipnótico a que foi submetido — interveio Crest. — Árcon é formado por três mundos e todos eles trazem este nome. O mundo número um, denominado mundo de cristal, é reservado exclusivamente a fins residenciais. O mundo número dois serve ao comércio galático, à indústria e ao abastecimento alimentar do sistema. O mundo número três é o planeta da guerra, da frota, dos estaleiros mais gigantescos do Universo e também serve de sede ao supercérebro robotizado. É o último segredo de minha raça, que acabo de lhe expor.
Rhodan sentou devagar; parecia pensativo. Num gesto pedantesco examinou a posição do cinto de seu traje espacial. Os pensamentos atropelavam-se em seu cérebro.
Três mundos? — disse muito baixo. — Santo Deus, como pode ser isso? Árcon é o terceiro planeta de seu sol, não é? Onde se localizam os dois astros restantes?
Um silêncio de chumbo encheu a ampla sala. A boca de Crest acabara de revelar mais um milagre. Falando com dificuldade, o arcônida explicou:
É um sistema triplo que descreve exatamente a mesma órbita e mantém uma distância uniforme de seiscentos e vinte milhões de quilômetros do sol. A posição dos três mundos sincronizados, que é como costumam ser chamados, corresponde aos vértices de um triângulo isósceles. As estações do ano nunca mudam nos três planetas, já que seu eixo não apresenta nenhuma inclinação e as órbitas são perfeitamente circulares. A temperatura média fica em torno de trinta e quatro graus centígrados da escala terrana. Árcon representa um fenômeno único na Via Láctea. Poucas semanas atrás ainda me sentia muito orgulhoso por isso.
Crest baixou a cabeça. O rosto de Rhodan empalideceu. Jamais contara com isso.
Seu cérebro executou uma série de cálculos automáticos. Aquela constelação por demais estranha de três astros sincronizados oferecia uma série enorme de problemas astronáuticos e matemáticos extremamente difíceis.
Uma idéia surgiu em seu cérebro. Dentro de poucos segundos, aquilo que não passara de uma suposição fugaz transformou-se em certeza.
Crest, espero que o senhor não pretenda que eu acredite que essa incrível coincidência de três planetas no que diz respeito à órbita, à distância do sol, à progressão no espaço e a outras coisas mais seja um produto da natureza.
O rosto sombrio de Crest iluminou-se. Um lampejo de orgulho, já extinto, de sua raça voltou a brilhar em seus olhos. E sua postura foi mais compenetrada. Na situação em que se encontravam, aquilo era um quadro digno de pena. Crest transformara-se num homem desiludido.
O senhor descobriu — disse em tom solene. — Há cerca de trinta mil anos de sua contagem de tempo Árcon, o mundo de cristal, era o terceiro planeta deste sol. Tornou-se muito pequeno. A enorme expansão do Império exigiu a separação entre as áreas de atividades econômicas, as áreas residenciais e as áreas de operação da frota espacial. Como meus antepassados tivessem em mente a centralização das instalações mais importantes, os antigos planetas números dois e quatro foram equipados com os propulsores de radiações mais potentes de todos os tempos. No curso de três mil anos, foram retirados lenta e cuidadosamente de suas órbitas primitivas e introduzidos na órbita do planeta de Árcon. Tudo isso foi feito segundo cálculos muito precisos.
Foi assim que surgiu a sincronização de três planetas que continuam a ser chamados de Árcon. Procure compreender, Perry: isto é Árcon! Uma vez levada a efeito a conjugação das órbitas, é muito difícil distinguir os planetas pelo aspecto exterior. O segredo foi revelado a pouquíssimos arcônidas. Agora, o senhor é um dos que têm conhecimento do fato. As dinastias mais antigas eram de opinião de que a crença, segundo a qual a constelação tríplice representava um fenômeno único e extraordinário, constituía um fator psicológico favorável. Procurou-se conseguir certa glorificação da raça para efeitos externos. Seres superiores como nós teriam que aspirar a um espaço vital superior. Acho que o senhor compreende.”
Rhodan expeliu ruidosamente o ar antes de responder com a voz comovida:
Devo confessar que seus antepassados me inspiram um respeito enorme. E fico-lhe muito grato por ter-me revelado esses fatos. Se não dispuséssemos desses dados, nossos cálculos para a transição conduziriam a um resultado surpreendente. Será que não poderia ter contado isso mais cedo?
Lançou um olhar de repreensão sobre seu interlocutor. Thora respondeu com um sorriso fugaz, cuja expressão dizia mais que a discussão acalorada entre os homens que se encontravam na sala de comando.
Depois de cinco minutos foi iniciada a programação da calculadora astronáutica. As estreitas fitas de plástico com os símbolos perfurados desapareceram no ventre insaciável da máquina.
Árcon I encontra-se justamente do lado oposto do sol — resmungou Bell. — É um azar. Será que o transmissor fictício conseguirá projetar-nos através da bola de fogo branco-incandescente?
Se para determinada forma de energia certo corpo perde a substância, podemos deixar de considerar esse corpo — respondeu Rhodan laconicamente. — Crest, preciso de dados sobre a inclinação da órbita em relação à elipse, a velocidade exata com que o planeta percorre a órbita e as relações gravitacionais.
O cientista arcônida pôs-se a trabalhar. Acima da sala de comando, no interior da ponta recém-construída da proa, um oficial muito nervoso da Ganymed preparava uma nave de reconhecimento de longa distância do tipo Gazela para a decolagem.
Essas naves recém-construídas, em forma de disco, cerca de 35 metros de diâmetro, estavam equipadas com propulsores na base de impulsos e geradores de campos de salto de transição. Eram máquinas eficientes para o combate, desde que o homem certo se encontrasse junto aos botões certos. Julian Tifflor era um desses homens.
A escotilha interna da enorme comporta de ar estava aberta. No momento, Tiff ainda achava muito natural que a escotilha externa permanecesse fechada. Mas, quando se punha a refletir sobre a maneira pela qual Rhodan pretenderia tirar a Gazela, sempre bastante volumosa, do hangar de proa, uma ligeira fraqueza apossava-se dele.
Com os olhos semicerrados, contemplava os homens da equipe técnica, que passavam apressadamente. Quando desapareceram na sala em que Rhodan mandara instalar o transmissor fictício retirado da Stardust-III, uma grande luz surgiu em seu espírito.
Por Júpiter! — cochichou, muito perplexo, de si para si. — Então será com isso?
2



Estavam sentados, deitados ou agachados grudadinhos uns aos outros. Uma vez que não regatearam seu humor sinistro, a situação tornara-se suportável.
Os velhos guerreiros das primeiras batalhas travadas no longínquo setor de Vega estavam acostumados a muita coisa. Por isso não haveriam de estranhar sua permanência num alojamento que mais parecia uma lata de sardinhas que uma nave dotada de um envoltório rígido. Foi ao menos o que disseram.
Rhodan soltou uma gargalhada contagiante, e os homens também contorceram os lábios. Os homens que participavam dos comandos da Terceira Potência eram criaturas inteligentes; sabiam pensar por si e conheciam perfeitamente que plano audacioso o “velho” acabara de conceber.
Excepcionalmente em tom bastante acalorado e seguindo as inclinações de seu gênio, discutiram sobre o resultado provável da operação. Não perderam uma palavra para dizer que a missão era muito perigosa. Pertenciam a quase todas as nações do planeta Terra. Mas todos eles eram homens que aqui, a 34.000 anos-luz da pátria comum, arriscavam o pescoço para prestar um serviço ao seu mundo.
Praguejando e rindo, enfiaram-se no pequeno compartimento de carga da Gazela. Só assim se poderia designar a operação pela qual se alojaram para o interior do compartimento.
A cabina de comando, também muito pequena, mal e mal comportava as cabeças dirigentes da operação.
O ponteiro de segundos, tal qual o de um corriqueiro relógio de bordo saltitava por cima do mostrador. Nas telas da aparelhagem de localização ótica, aparecia o quadro desinteressante das paredes de uma comporta em tubo. Embora a Gazela-I estivesse prestes a ser lançada, a escotilha externa continuava fechada. E ninguém pensara em providenciar a realização do processo de compensação de pressão que se tornaria necessário.
Em compensação, o cano esquisito de um aparelho ainda mais esquisito estava dirigido sobre a pequena nave. O transmissor fictício vindo do planeta Peregrino possuía a capacidade de criar um campo de desmaterialização que envolvia corpos materialmente estáveis. O transmissor irradiava-os sob a forma de unidades energéticas da sexta dimensão para um ponto predeterminado.
Aquilo representava a coroação de um desenvolvimento tecnológico cujos princípios fundamentais só Perry Rhodan conhecia. O transmissor fictício prescindia da polarização de um receptor de igual tipo. Ele mesmo devolvia ao objeto a forma corpórea estável no lugar indicado.
O olhar de Rhodan estava grudado ao ponteiro de segundos. O microfone de bordo, pendurado diante dos seus lábios.
Peço a atenção de todos — soou a voz retumbante dos alto-falantes instalados em todos os cantos. — O lançamento será realizado dentro de quarenta e cinco segundos. Se tudo der certo, sairemos do hiperespaço nas camadas superiores da atmosfera de Árcon I. Durante a transição não existe o risco de sermos localizados. Estejam preparados caso, durante as manobras de aterrissagem, alguns gravos passem pelos campos de absorção. Teremos que descer depressa. Peço-lhes que tenham isso em mente. Fim.
Ouviu-se um ruído grave. O gerador da estação de força que supria o transmissor começara a funcionar. Nem mesmo Rhodan saberia dizer exatamente o que estava acontecendo no interior do aparelho. Aquilo era obra de uma tecnologia que ficava muito além da capacidade de compreensão do homem.
Bell acompanhou a contagem. Não conseguiu pronunciar a palavra zero, pois naquele instante uma força tremenda atingiu os homens. Só sentiram a tração dolorosa da desmaterialização.
Nas telas de bordo surgiu, no lugar em que um instante antes se encontrara a Gazela-I, uma espiral energética fosforescente, que logo desapareceu.
O trovejar dos propulsores da Ganymed tornou-se intermitente, até terminar num ponto morto. Lá fora, nas estações de controle automático do espaçoporto de Naatral, teriam a impressão de que mais uma vez o comandante se esforçara em vão para vencer a sucção magnética dos campos de amarração.
O engenheiro-chefe desligou os reatores. A Gazela continuava desaparecida.
Se isso der certo, eu durmo num leito de pregos — disse o coronel Freyt fora de si. — Foram embora mesmo? Com aquele caixote?
Olhou em torno, perplexo. Era isso mesmo. A pequenina Gazela, que naquele instante fora promovida à categoria de caixote, desaparecera sem deixar vestígio, como se nunca tivesse entrado no hangar de lançamento.
Está bem — disse Freyt em tom exaltado, falando entre os dentes. — Preparar a nave para a batalha. Se conseguirem voltar, receberemos o sinal convencionado. Fiquem de prontidão para a decolagem de urgência.

* * *

O retorno à materialização corporal foi mais rápido e abrupto que na transição normal de uma nave. Parecia que nada tinha acontecido. A dor ligeira e martirizante na região da nuca não passava de um reflexo nervoso, que não prejudicava a lucidez do espírito.
Julian Tifflor ouviu no alto-falante de seu capacete a respiração ofegante dos homens que recuperavam os sentidos. Ninguém gritou, ninguém gemeu. Todos viram a luminosidade branca e ofuscante nas telas da Gazela-I.
Tiff atirou a mão para a frente. Mas a chave de engate do projetor de campo de proteção já estava engastada na posição máxima. Nos últimos instantes antes do lançamento, cuidara desse detalhe.
O ar ambiente, enfurecido, chamejava em torno da Gazela, que descia vertiginosamente. Bem embaixo estendiam-se, bem nítidas, as paisagens do planeta que até então só conheciam por ouvir dizer.
É o mundo de cristal — disse Crest em meio ao barulho dos geradores. — Encontramo-nos acima do continente equatorial. Sobrevoe esse mar em forma de meia-lua e pouse em qualquer lugar nos desfiladeiros do complexo montanhoso litorâneo.
Era surpreendente que o arcônida que finalmente retornava ao seu mundo encarasse o fato com tamanha objetividade.
Feixes de impulsos violetas saíram dos bocais dianteiros do jato direcional. Dentro de dois segundos a Gazela-I foi freada e ficou submetida à força gravitacional do planeta.
Se eles nos localizarem agora, será o fim do mundo para nós — disse Bell com a voz fraca. — Não poderão deixar de ver uma coisa destas. Somos mais luminosos que um meteoro.
Encontramo-nos do lado do sol — interrompeu-o Rhodan. — Peço silêncio. Estas palestras não servem para nada. Tiff, coloque a nave em velocidade normal e faça de conta que está em casa. Altitude cinco mil metros, nem um único metro a mais. Velocidade equivalente a cinco vezes a do som. Um arcônida distinto não voa mais depressa quando quer contemplar seu mundo de cima.
Por aqui devem existir estações de localização — insistiu Bell.
Sem dúvida. Acontece que as mesmas já não nos dizem respeito. Uma vez que nos encontramos no interior das camadas atmosféricas, os goniômetros automáticos não devem ter o menor interesse por nós. Uma estação robotizada sempre age segundo sua programação. Por isso mesmo, considera inocente qualquer objeto que se desloque numa altura permitida. Se tivéssemos vindo do espaço num vôo normal, já teriam atirado contra nós.
Rhodan calou-se. Sabia perfeitamente o que o esperava em Árcon I. Era impossível que alguém ou alguma coisa se espantasse com a aeronave, por mais inesperada que fosse sua aparição.
Conforme sabia, o planeta tríplice conhecido pelo nome conjunto de Árcon dispunha de uma cadeia externa e de uma cadeia interna de fortificações. A cadeia externa era formada por cerca de 5.000 fortalezas espaciais montadas em plataformas, cujo tremendo poder de fogo a Ganymed já tivera oportunidade de experimentar.
O círculo de defesa interno correspondia aos planetas 5, 6, 7 e 8 que, face à interdição de tráfego espacial para Árcon atualmente vigente, ainda serviam de pontos de transbordo do comércio intergaláctico.
Face a isso, o cérebro robotizado de Árcon III estaria raciocinando com lógica se chegasse à conclusão de que qualquer aeronave que se encontrasse na atmosfera do planeta não era digna de atenção.
Foram estas, em última análise, as reflexões que levaram Rhodan a arriscar a operação.
Tifflor concluíra a manobra de desaceleração do vôo de mergulho da Gazela-I. Deslocando-se em vôo aerodinâmico, passou por cima do litoral do pequeno mar.
O silêncio passou a reinar a bordo da nave de reconhecimento. Todos os olhares estavam presos às telas de imagem. Até mesmo no compartimento de carga, todos permaneceram calados.
A rota da nave acompanhava o litoral sul do mar. Lançaram os olhos em todas as direções, mas não viram nenhuma casa.
O terreno se parecia com um parque gigantesco, estendido até onde a vista alcançava, e parecia ter perdido sua configuração natural até mesmo nos menores detalhes.
Aquilo era um produto da criatividade de alguns artistas talentosos e da loucura de outros, que conquistaram ao antigo terreno agreste tudo aquilo que era belo, atraente e fascinante.
Rhodan suspirou pela primeira vez quando surgiu um rio de mais de quatro quilômetros de largura. Pouco antes da foz as massas de água, contrariando todas as leis naturais, subiam numa curva elegante para o céu límpido. Seguiam uma linha parabólica quase vertical, formando um gigantesco arco de torrentes turbilhonantes e espumejantes, cuja beleza arrebatadora enchia as telas em miríades de reflexos luminosos.
Dê algumas voltas em torno do arco aquático — exclamou Thora apressadamente. — Depressa, Tiff. Nenhum arcônida que estivesse realizando um vôo de passeio deixaria de render seu tributo de admiração ao arco dos Zoltral.
Reginald Bell praguejou em tom violento e com a voz potente. Rhodan limitou-se a enxugar o suor da testa. Tifflor entrou na curva com um olhar de resignação e reduziu a velocidade.
A Gazela chamará a atenção pelo seu formato — queixou-se Marshall. — Thora, será que estamos procedendo corretamente?
O disco voador não despertará a atenção de ninguém. Quando muito, será considerada uma nova construção, nascida em algum cérebro fecundo. Ninguém se exaltará por isso. O senhor ainda não conhece Árcon, John.
O arco formado pela torrente de quatro quilômetros de largura tinha mais de três mil metros de altura. Bem embaixo dele erguia-se um palácio-funil com jardins internos que pareciam um sonho. Ainda havia uma plataforma panorâmica suspensa no ar que, enquanto a nave se aproximava, subiu da área interna do funil como tivesse sido subtraída à gravitação.
Ao que parecia, alguém se dava ao trabalho de cumprimentar condignamente a nave de reconhecimento que voava mais devagar.
Tiff arriscou um mergulho por baixo do arco aquático. Até Rhodan encolheu a cabeça num gesto instintivo, quando a luz ofuscante do sol branco de Árcon subitamente foi dissociada e irradiada em inúmeros reflexos coloridos.
Thora estava muito quieta. Sem dizer uma palavra, apontou para baixo. Finalmente falou com a voz embaraçada:
Este é meu torrão natal, Perry. É ali que fui criada. É a sede dos Zoltral.
Rhodan havia suposto isso, pois Thora já ligara o nome de sua dinastia àquela maravilha técnica.
Tifflor já estava subindo quando Rhodan disse como que ao acaso:
Acho que este arco aquático de um campo antigravitacional cuidadosamente orientado.
Se esse campo gravitacional falhar, as pessoas que se encontram na casa-funil morrerão como ratos — resmungou Bell numa conclusão lógica, mas pouco gentil.
Seu bárbaro — disse Thora, que voltara a sorrir. — O senhor não compreende que uma raça de nível cultural elevado vive na busca constante de novas formas de beleza? A lei da uniformização e da estilização, que ainda é observada na Terra, aqui foi abandonada há oito mil anos. Por nada no mundo, queremos ser comprimidos num esquema aplicável às residências particulares. Por isso o arco aquático dos Zoltral nunca será imitado. Se alguém o fizesse, estaria infringindo uma lei não escrita. Nenhum parque se parece com o outro e ninguém criará o mesmo animal doméstico que o vizinho.
A maravilha de uma civilização super-sofisticada ficou para trás. Sem demonstrar a menor emoção, Tifflor voltou à rota antiga. Um sorriso matreiro apareceu no rosto de Bell. O olhar de advertência de Rhodan chegou tarde.
Se é assim, seus cirurgiões nunca usarão o mesmo método para realizar uma operação de apendicite, não é? Se quisesse proceder de forma absolutamente original, deveria começar a cortar na sola do pé. É uma loucura!
Os arcônidas não possuem apêndice. — disse Crest com um sorriso delicado. — No entanto, é verdade que até as ciências médicas tendem para a ausência de padronização. Um operador que tenha personalidade usará ao menos um fundo musical diferente para realizar o mesmo tipo de intervenção. Senhor Tifflor, faça o favor de sobrevoar a área da paisagem primitiva. Foi ali que cacei meu primeiro sáurio, quando ainda era um jovem estudante de sapiência.
Tiff descreveu uma curva. Viram uma gigantesca península que se parecia com as selvas fumegantes de Vênus. Criaturas apavorantes voavam de encontro a um campo energético invisível, que compelia as criaturas aladas suavemente a retornarem ao seu habitat.
Isso também deve ser artificial, não é? — fungou Bell confuso. — Como poderemos saber quando começamos a ficar loucos?
Na Terra, não existem parques naturais? — retrucou Thora com a voz irritada. — Por que uma raça altamente desenvolvida não pode transformar o ambiente natural segundo seus desejos? Em Árcon I, dificilmente haverá uma pedra que se encontre no mesmo lugar em que foi deixada pelas forças da natureza.
Bell ficou calado. Desorientado, olhou em torno, mas só viu uma série de rostos confusos. As impressões eram imponentes demais. Mas, o que mais impressionava os homens era o fato de que ninguém se preocupava com sua presença. Até parecia que Árcon nunca travara uma guerra ou conquistara todo um grupo estelar. Árcon I, o mundo de cristal, era o sacrário residencial isolado de um povo que já há dezenas de milhares de anos sentira que se colocaria numa situação deprimente e antinatural caso montasse seus lares nas proximidades das instalações industriais.
Rhodan transmitiu algumas instruções lacônicas. Os homens que participavam da operação ainda contavam com um ataque de surpresa.
Mas não aconteceu nada. As aeronaves com que se encontravam passavam tranqüilamente por eles. Até parecia que a nave de reconhecimento terrana pertencia ao planeta.
A costa oriental do mar em meia-lua surgiu diante deles. As ilhas que a margeavam serviam de áreas residenciais completamente autônomas. Em Árcon I, não havia cidades. Rhodan não compreendia onde poderiam morar os dez milhões de arcônidas. O vazio aparente só poderia ser explicado pelo tamanho do planeta, cuja superfície servia exclusivamente à residências e recreação dos seus habitantes.
Sobrevoaram algumas das estranhas construções, que tinham de fora o aspecto de enormes cálices de champanha, cujos cabos estavam presos ao solo. Imensas e graciosas, numa demonstração de estática genial, as paredes abriam-se para o exterior.
Também aqui se notava a tendência para o isolamento. Geralmente os jardins e terraços estavam voltados para o espaço interior, cercado pelas paredes da construção afunilada. No quinto planeta do sistema, Rhodan tivera oportunidade de examinar detidamente um palácio semelhante àquele.
No formato exterior, não havia nenhuma diferença digna de nota, o que parecia estar em contradição com a doutrina da desestilização. Ao que parecia, as construções erguidas nas ilhas destinavam-se às massas. A personalização não podia chegar ao ponto no qual se pudesse dar uma casa a cada família.
Rhodan abanou lentamente a cabeça. Havia algo de errado nesse mundo. Aliás, Árcon I lembrava o planeta Peregrino, cujos habitantes foram ainda mais longe. Não se contentaram em remodelar um planeta já existente segundo seus desejos. Construíram seu próprio mundo. Mas ao que parecia, os arcônidas não estavam longe do objetivo final, pois até mesmo as residências destinadas a famílias de nível menos elevado demonstravam uma tendência exagerada para o isolamento. Os gigantescos palácios de apartamentos estavam repletos de pequeninos jardins suspensos, que davam mostras das características individuais dos moradores.
Tifflor adaptou-se ao tráfego aéreo mais intenso. As primeiras vias expressas tornaram-se visíveis. As faixas cintilantes, lindas como um conto de fadas, passavam sobre a superfície de água como se tudo aquilo fosse obra da natureza. Não se via nenhuma coluna de sustentação, o que provava que também aqui se recorrera aos campos energéticos de sustentação.
Bell estava sentado diante do posto de armamentos da nave sem dizer uma palavra. Sempre que uma aeronave penetrava na área de fogo de sua mira, o polegar aproximava-se instintivamente dos botões vermelhos.
Sobrevoaram a costa. O complexo montanhoso a que Crest se referira não era uma cadeia de montanhas como qualquer outra, pois os arcônidas o haviam modificado ao seu gosto.
Gigantescas cabeças e estátuas esculpidas na pedra surgiram diante deles. O remate de tudo era formado por uma figura abstrata de alguns quilômetros de comprimento, que enfeitava a cumeeira da mais alta das cadeias de montanhas.
Ofuscado por tanto brilho, Rhodan fechou os olhos. A Gazela, que se aproximava lentamente, foi envolvida pela torrente de luzes refletidas.
Essas figuras simbolizam a conquista da Galáxia — explicou Crest em tom solene. — Foram criadas pelos artistas mais famosos daquele tempo. Eucolard gastou toda a vida trabalhando com um radiador energético comum, com o qual fundiu as diversas cenas. Não utilizou bocais de jato, como os outros artistas costumam fazer. Depois de concluída a obra, recorreu durante 8,3 horas a todo o volume energético do planeta Árcon para, num processo cuidadosamente executado, transformar a rocha. Com isso, a figura passou a ser formada pelo mais puro diamante. Os cálculos para a lapidação adequada foram realizados pelo cérebro robotizado. Os canhões de vibração da nossa frota concluíram, sob a orientação de Eucolard, a mensagem relativa à nossa história.
Diamante! — gemeu Tifflor sem querer.
Aqui não passa de um material corriqueiro. Na Terra, essa forma de carbono puro ainda é considerada uma preciosidade — disse Crest com a voz entrecortada.
Não se deixem distrair mais — ordenou Rhodan em tom áspero. — Crest, onde fica o local em que deveremos pousar?
Ficava a duzentos quilômetros ao leste. No momento em que Tifflor pousou o aparelho no desfiladeiro, ficou sabendo que a sede do governo arcônida não ficava a mais de trezentos quilômetros dali.
Uma estrada de cristal passava por cima do desfiladeiro estreito. Rhodan foi o primeiro a sair da comporta de ar. A seus pés, rumorejavam as águas cor de coral de um riacho. Uma rocha saliente proporcionava um abrigo excelente à pequena nave.
Rhodan lançou um olhar perscrutador em torno de si. Era um lugar solitário; nenhum arcônida se perderia nessa área. Aos poucos, foi descontraindo os músculos tensos e passou a aspirar intensamente o ar puro e balsâmico.
Os membros do comando guardaram um estranho silêncio enquanto desciam da nave. O ar era tépido, mas não era um calor úmido. Os termômetros de bordo indicavam uma temperatura de 25 graus centígrados no fundo do desfiladeiro naturalmente refrigerado. Cem metros acima de suas cabeças, brilhava a faixa da rodovia que, naquele ponto, era puramente energética. Thora explicou:
Gostamos de deslocar-nos vez por outra em veículos de superfície, nos quais podemos admirar mais detidamente as belezas de cada lugar. A rede de estradas foi construída exclusivamente para fins de recreação e descanso. Evidentemente nunca será usada por alguém que tenha pressa.
Perry Rhodan engoliu ruidosa e intensamente. Teve a impressão de que seu cérebro passara a descrever um movimento de rotação. Tudo aquilo não era novidade para ele. Durante o treinamento hipnótico, lhe haviam sido transmitidas informações detalhadas sobre o estilo de vida de Árcon. Acontece que o saber teórico e a contemplação direta são coisas muito diferentes. Rhodan sentiu-se dominado pela admiração. Lembrou-se dos problemas da Terra.
Lá ainda discutiam sobre a construção de vias expressas, que representavam uma necessidade premente. Enquanto isso, aqui muitos bilhões foram investidos com a finalidade exclusiva de permitir aos habitantes uma ocasional viagem de recreio em antiquados veículos de superfície.
A contradição era tamanha que um cérebro humano normal não poderia absorvê-la de uma hora para outra. Por isso, Rhodan decidiu seguir o único procedimento adequado.
A sede do governo, situada na chamada Colina dos Sábios, fica aproximadamente a trezentos quilômetros. O pôr do sol se verificará daqui a quatro horas. Descansem e procurem libertar-se das impressões que acabam de atingi-los. Gente dominada por um vazio complexo de inferioridade não me serve. De qualquer maneira, mantenham as armas de prontidão. Sempre é possível que alguém nos descubra, embora seja pouco provável. E é bom que não se esqueçam de que este mundo aparentemente tão pacífico é apenas uma parte de um grande todo. Numa reduzida distância cósmica, dois planetas bastante semelhantes a este descrevem suas órbitas em torno do mesmo sol. E ali, o panorama que se oferece ao visitante é totalmente diverso. Lá não poderíamos ter voado à vontade de um lado para outro. Por isso, peço-lhes pelo amor de Deus que não acreditem que o perigo já passou. Só poderemos retornar à Ganymed quando obtivermos uma licença de decolagem regular. Daqui a algumas horas, me porei a caminho para falar pessoalmente com o Imperador. Crest e Thora me acompanharão.
E... — Rhodan hesitou por um instante — não creiam que uma decolagem não permitida seria tão bem sucedida como nosso pouso em Árcon. No momento em que pusermos o nariz no espaço contra a vontade do cérebro robotizado, centenas de canhões instalados em naves nos transformarão num montão de cinzas. Se as negociações que pretendemos realizar não forem coroadas de êxito, estaremos praticamente perdidos. É só. Durmam, conversem ou passeiem. Mas concentrem-se sobre suas tarefas.”
Rhodan tirou o desajeitado traje espacial. Sombras profundas desceram pelo desfiladeiro. Muito acima daquele grupo silencioso, um veículo estranho passou pela fita reluzente que representava a estrada. Seus ocupantes não pararam. Com tantas maravilhas, aquela fresta de rocha não era digna de admiração.
3



Sua Eminência dos mil olhos, que tudo vê e tudo sabe, Senhor de Árcon e dos mundos da ilha deserta, sua Magnificência Imperial, Orcast, o Vigésimo-Primeiro, divindade da estirpe dos decanos do Universo, houve por bem abrir a dança das águas cantantes.
O Imperador Orcast XXI, um espírito que gostava de zombar do seu tempo, conhecido como um espírito cínico, gentil e um parceiro cativante em qualquer conversação, além de criador de notáveis obras de arte, resolveu levantar a direita e estender a quina da mão para a frente. Em conseqüência disso, o robô de observação individualizada que controlava o jogo automático das águas perdeu parte de sua compostura mecânica.
Numa ironia mesclada de compreensão, o Imperador franziu as sobrancelhas cuidadosamente tratadas, quando o chefe do cerimonial disse em tom de desespero:
A palma da mão para a frente, Eminência. O dispositivo positrônico de observação precisa de todo o fluxo dos impulsos irradiados pela mão de Vossa Magnificência.
Orcast desistiu; sempre costumava desistir quando alguém investia contra ele com palavras insistentes ou ordens ríspidas. Sua mão direita girou. O trovejar grave do interior da esfera de águas flutuantes modulou-se num zumbido rítmico, que poucos segundos depois se desfez numa série imensa de sons harmônicos.
A esfera aquática de mil metros de diâmetro começou a pulverizar-se sob o influxo das componentes antigravitacionais. Lindos reflexos coloridos surgiram em meio ao elemento flutuante e ondulante, que começou a formar-se semelhante à obra-prima mais recente no campo das figuras geométricas.
A massa de convidados teve sua atenção despertada pela obra de arte. Resolveram mudar de posição, para poderem olhar para cima. O jogo artístico desenrolava-se pouco acima da área interna do palácio de cristal.
É uma coisa deslumbrante — confessou Orcast diante dos seus hóspedes prediletos. — Mas gostaria realmente de saber por que a tal da divindade da estirpe dos decanos do Universo não tem permissão de estender a mão segundo seus desejos. Tenho a impressão de que não há muita coisa atrás de minha tão propalada divindade.
As observações do soberano foram brindadas com uma série de risos discretos. Com um sorriso irônico, Orcast demonstrou sua satisfação com o embaraço do chefe do cerimonial.
Seja como for — repetiu — seja como for, meu espírito onisciente não está em condições de reprimir a bárbara sensação de fome do seu organismo evidentemente menos espirituoso, conforme manda a etiqueta. Meus cumprimentos, Offentur. Sua composição deverá ter seu lugar na galeria das obras de arte moderna.
Orcast levantou-se do leito pulsante. Passou os olhos pela amplidão do parque redondo. Bem acima dele, um sol atômico surgido de repente transformou as massas de águas cativas numa nuvem de vapores fosforescentes.
A festa já durava três horas. Os presentes compreenderam que o Imperador gostaria de tomar sua refeição a sós. De qualquer maneira, os filósofos da geração mais jovem eram de opinião que a introdução dos chamados alimentos na boca e sua trituração ofendia a estética e os bons costumes tanto quanto o processo de digestão puramente orgânico. Segundo Epfantrim, o velho, existe uma ligação tão estreita entre as duas formas de atividade que um espírito verdadeiramente puro não pode deixar de estabelecer comparações e extrair suas conclusões durante o cerimonial da refeição.
Orcast era um dos adeptos da nova corrente filosófica. Por isso caminhou discretamente em direção à faixa transportadora do palácio, que o conduziu até uns oitocentos metros para cima, sob as aclamações dos convidados.
O sorriso habitual de Orcast desvaneceu-se. Lançou um olhar preocupado sobre o círculo de 1.500 metros de seu palácio. A vida ainda pulsava no mais belo dos parques de Árcon. Ainda se conversava animadamente sobre as mais insignificantes das insignificâncias. Por quanto tempo?
Orcast sentiu-se exausto. Uma festividade ininterrupta de quatro horas exigia muito do corpo e do intelecto. Para fazer jus à fama que desfrutava, tinha de ser espirituoso e engraçado.
O escravo pessoal dedicado, um membro da raça fiel de ciclopes dos naats, acomodou o soberano em seus braços robustos.
Um campo energético transparente recuou diante dos impulsos orgânicos do homem que se aproximava.
Orcast estava longe de todo aquele movimento. Sem dizer uma palavra, deixou que o titã de três olhos lhe tirasse a roupa e o envolvesse em capas macias e perfumadas.
Com uma sensação agradável, abandonou-se às vibrações ativantes de seu leito.
Que coisa enfadonha, Tranto! — queixou-se em tom de recriminação. — Você não sabe que uma das suas tarefas consiste em manter afastados de mim compositores diletantes do tipo de Offentur? A dádiva pequena que oferece agride meus sentidos. Aliás, resta saber se, aquilo que apresentou, pode ser considerado uma dádiva. Eu me permitirei algum descanso. Isso deve ser uma das poucas coisas que a Magnificência Imperial ainda tem que permitir. É um fato lamentável que só o indivíduo, que sabe adquirir uma visão irônica de si mesmo, pode superar sem a perda total das energias que lhe restam.
O ciclope retirou-se, andando de quatro. Sabia que Orcast não esperava nenhuma resposta.
Lá fora, diante da parede panorâmica aberta do pequeno aposento de repouso, ouviram-se risos alegres. Robôs que levavam as bebidas mais deliciosas da Galáxia deslizavam de um terraço para outro.
Por um instante, Orcast ficou admirado com a estranha atitude de seu escravo pessoal. Desde quando o ciclope costumava investir que nem um louco contra a porta?
Orcast perdeu-se numa série de idéias preguiçosas sobre o sentido ou a falta de sentido da existência. Só despertou quando o pequeno ser peludo surgiu diante dele. Gucky um ser vindo de um mundo distante, esboçou um sorriso cordial com seu único dente roedor.
Olá, meu velho! — chiou o rato-castor num intercosmo impecável. — Permita que me apresente. Sou o tenente Guck, membro de um comando especial da Terceira Potência.
Escorregando sobre o largo traseiro, Gucky foi-se aproximando. Seu rosto de rato irradiava felicidade. Orcast possuía bastante autodomínio para exprimir a sensação de surpresa e de pânico que se apossou dele apenas por um ligeiro pigarro.
Que coisa deliciosa! — disse, colocando no rosto sua costumeira máscara de sorriso. — Até parece que vejo diante de mim o ser mais inteligente de um dos meus planetas.
Infelizmente está enganado — disse o rato-castor em tom pouco convencional. — Dá licença?
Por uma fração de segundo, seu olhar caiu sobre o painel de controle oculto atrás de um canteiro de lindas plantas. Orcast começou a perceber o perigo que o ameaçava quando a chave que ativa os campos energéticos de defesa desceu num movimento abrupto.
OK — disse o ser desconhecido, usando uma expressão que lhe era totalmente estranha.
Orcast fez menção de levantar-se. Mas uma força invisível comprimiu seu corpo contra o leito.
Sou o tenente Guck do exército de mutantes — voltou a salientar o rato-castor. — Nunca ouviu falar nisso, não é? Como vim parar aqui? Não é isto que está pensando? É simples, meu chapa. Acontece que eu sou... é verdade, não devo repetir nada. Bem, além do mais também sou um teleportador. Não me diga que está ficando nervoso! Recebi ordens para não exasperá-lo.
O sorriso de Gucky tornou-se ainda mais gentil. O nariz de rato franziu-se bem para o alto e as delicadas patas dianteiras com suas mãozinhas balançavam no ar.
Orcast lutou para controlar-se. Os conhecimentos que possuía sobre as experiências da ciência parapsicológica bastavam para que compreendesse o surgimento repentino daquele ser. As forças, que estavam atuando aqui, não podiam ser controladas pela aparelhagem de segurança superaperfeiçoada.
Gucky afrouxou a constrição espiritual. Orcast começou a respirar profundamente. Seu espírito despertou de uma hora para outra, fato que o rato-castor dotado de capacidades telepáticas não deixou de perceber.
Deixe de tolices, meu velho — pediu apressadamente. — Esperamos quase quatro horas para vê-lo a sós. Queremos uma pequena entrevista: só isto. O chefe não pretende agarrá-lo pela gola. Bem... será que esses panos têm gola?
Os grandes olhos de Gucky, aos quais devia seu nome, inspecionaram a vestimenta perfumada.
Ao que parece não têm — constatou. — O senhor pensa demais, meu chapa. Eu lhe garanto que não conseguirá comprimir o botão embutido na parede atrás de sua cabeça.
Orcast XXI desistiu. Começou a compreender que se via diante de um poder que ainda não podia compreender. Face à sua tendência para o novo, o extravagante e o abstrato, a curiosidade começou a instalar-se em sua mente. Quem seria o ser que se atrevia a proporcionar uma surpresa dessas ao Imperador?
Gucky registrou o impulso mental irradiado pelo homem deitado à sua frente. Orcast voltou a estremecer quando o ar começou a tremular diante de sua vista e um vulto pequeno e amarelo se materializou.
Tako Kakuta, que também era teleportador, inclinou-se com um sorriso. Em sua mãozinha delicada balançava uma pesada arma de impulsos, que logo desapareceu no interior do estojo que trazia a tiracolo. Orcast teve oportunidade de constatar que o desconhecido usava a vestimenta dos servos do palácio. Entre outras idéias que lhe acudiram, o Imperador teve a de que a festa movimentada representara uma boa oportunidade para penetrar no palácio sem ser percebido. A curiosidade voltou a tomar conta dele.
Sua Excelência, o Presidente Perry Rhodan, chefe da Terceira Potência, pede um pouco de paciência — disse o homem delicado a título de cumprimento. — Sua Excelência tem de vencer algumas dificuldades, provenientes principalmente de eficientíssimo sistema de vigilância robotizada de Vossa Magnificência. Ainda recebi instruções para garantir que não se trata de um assalto. Estamos interessados apenas numa breve entrevista, que pretendemos conduzir segundo às normas de cortesia e de respeito devidos a Vossa Magnificência. Em nome de Sua Excelência peço a compreensão de Vossa Magnificência.
Orcast prestou atenção às palavras. Ainda não sabia quem era essa gente estranha. Não se enquadrava em qualquer esquema. Tinham algo de extraordinário, não apenas quanto às capacidades extra-sensoriais de que pareciam dotados.
Os senhores me vêem numa atitude de expectativa — disse com um sorriso cortês. — Como é mesmo o nome de seu soberano? Rhodan?
Tako Kakuta sentiu-se feliz ao constatar que o Imperador se dirigia a ele na terceira pessoa, o que afinal não deixava de ser uma certa forma de cortesia.
Confirmou as palavras de Orcast, cuja posição ficou mais descontraída.
Estava esperando!
O campo energético tremeluzente diante da porta de entrada havia desaparecido. Dentro de poucos minutos, um homem de estatura elevada surgiu na luz difusa da iluminação indireta.
Rhodan tirou do ombro a capa vermelha que assinalava um servo não-arcônida, pondo à mostra o uniforme singelo da Terceira Potência.
André Noir, um francês gordo e bonachão dotado de intensas capacidades hipnóticas preferiu não submeter o Imperador à sua constrição mental, pois o mesmo já estava preso ao leito pela força irradiada por Gucky. O homem era mais inofensivo que uma criança, desde que o equipamento de segurança fosse desligado em tempo.
Fique na ante-sala, Noir — cochichou Rhodan apressadamente. — Mantenha o ciclope sob controle. Preciso de dez minutos. Onde está Kitai Ishibashi?
Está no grande centro de controle, juntamente com Marshall e Anne Sloane. Estão controlando os guardas.
Rhodan fez um ligeiro sinal com a cabeça. Atrás dele, Thora e Crest mantinham-se em ansiosa expectativa. Fora relativamente fácil penetrar no palácio, depois que os teleportadores haviam verificado a situação. O mecanismo de portaria fora muito mais fácil de enganar que aquele instalado no quinto mundo do sistema de Árcon. No planeta de cristal, não havia conspiradores nem seres hostis pertencentes a outras raças.
Rhodan lançou um olhar perscrutador sobre o Imperador que estava pousado no leito. Orcast era um arcônida não muito velho. Apesar disso sua postura apresentava sinais de decadência. Ao que tudo indicava, sentia-se exausto, e tal informação foi transmitida através de um breve impulso telepático de Gucky.
Tako Kakuta ficou em posição de sentido. Rhodan irradiava certa frieza impessoal, atrás da qual procurava ocultar o nervosismo que começou a apossar-se dele. Então era este o soberano do Grande Império!
Rhodan sentiu que os músculos da face se contraíam. O fluido do desconhecido e do perigo envolvia seu espírito. Apesar da situação um tanto infeliz em que se encontrava, Orcast XXI corporificava o apogeu e a decadência de um povo admirável. Rhodan viu-se obrigado a reprimir um sentimento de repugnância instintiva e de conformismo.
Cumprimentou o Imperador em palavras ligeiras e precisas. Os olhos dos dois homens encontraram-se. Com um único olhar, Orcast examinou aquele homem de estatura elevada. Logo adivinhou que aquele desconhecido possuía tudo aquilo que nunca chegara a adquirir. Uma torrente de energia e determinação pessoal ameaçava subjugar o Imperador. Ergueu-se lentamente sobre o cotovelo, com a permissão de Gucky.
Rhodan foi extremamente lacônico. Seu pedido de desculpas pela entrada não consentida nos aposentos do Imperador não eliminava a infração cometida, mas ao menos Rhodan deixou claro que estava perfeitamente ciente de ter praticado um ato inconveniente. Orcast limitou-se a acenar com a cabeça. Perdera seu sorriso tão conhecido. Numa atitude cada vez mais apressada, examinou os traços do rosto do desconhecido.
Lamento incomodá-lo a uma hora destas — voltou a dizer Rhodan. — Infelizmente não tive outra alternativa.
Vocês poderiam ter solicitado uma audiência — disse Orcast com um pigarro, lançando um olhar para Gucky.
Uma das características da minha raça consiste em não tentar coisas impossíveis, Eminência. Infelizmente não sou nenhum compositor de jogos aquáticos, mas apenas um homem que precisa tratar de um assunto muito importante para o bem-estar do Império de Vossa Magnificência. Nestas condições, teria sido inútil incomodar os funcionários da corte.
A leve ironia de Rhodan foi entendida. Com um suspiro, Rhodan deixou-se cair no leito.
Ainda isso — gemeu. — Não espalhem sua ironia causticante na sala de repouso de um soberano que fora destas quatro paredes quase não manda mais nada. Acredito que já estou adivinhando a pretensão extraordinária de vocês. O Império está sendo administrado por um autômato. O que pretendem fazer se, mesmo com toda boa-vontade, não estou em condições de ajudá-los?
Rhodan estremeceu interiormente. Sentiu a profunda resignação do Imperador. Gucky irradiou um impulso de pavor.
É como uma partícula de pó num furacão — foi a informação cochichada em inglês que chegou ao ouvido de Rhodan.
Perry controlou-se. Seu sorriso exprimia compaixão. Quando fez um sinal para que os arcônidas se aproximassem, começou a desconfiar de que o arriscado avanço, que os levara à presença de Orcast XXI, fora totalmente inútil. Esse homem já não tinha o poder de influenciar as decisões do cérebro robotizado.
Thora e Crest entraram na sala. A primeira andava ereta, em atitude orgulhosa, enquanto Crest arrastava ligeiramente os pés. Orcast voltou a sobressaltar-se. Um verdadeiro espanto desenhou-se nos traços de seu jovem rosto, que parecia tão velho.
Já nos conhecemos, Orcast — disse Thora com a voz fria. — O palácio da minha família passou a pertencer a você. Vim reclamar os meus direitos. É bem verdade que Crest, cientista-chefe do Conselho, achou que isso seria inútil. Peço que decida imediatamente. Não temos tempo a perder.
Rhodan seguiu atentamente a discussão apaixonada que se iniciou. Finalmente, sentiu-se dominado pelo cansaço.
Orcast dizia a verdade, fato que Gucky confirmava a toda hora. Esse soberano aparente do maior dos impérios da história nem sequer sabia que treze anos atrás Thora e Crest haviam sido mandados ao espaço à procura do planeta da vida eterna.
Orcast também não sabia que a nave espacial de Rhodan estava sendo retida em Naat. Lamentou profunda e, ao que parecia, sinceramente que não podia prestar qualquer auxílio, por menor que fosse.
Thora não resistiu. Sem dizer uma palavra, caiu sobre outro leito.
Orcast parecia confuso. As revelações sobre o pouso de emergência de Thora na lua terrana e seu regresso a bordo de uma nave terrana, realizado depois de tanto tempo, representaram uma surpresa excessiva. Antes, nunca o Imperador sentira com tamanha intensidade sua impotência de governo. Era o que se depreendia de suas palavras:
Teria muito prazer em autorizar seu pouso neste planeta e deixar o tempo de sua permanência ao seu inteiro arbítrio. Mas, na situação em que me encontro não posso fazer outra coisa senão manifestar minha gratidão por terem salvo representantes tão valorosos do meu povo. Não posso fazer nada por vocês, a não ser que queiram ver uma ajuda na garantia de saírem do palácio sem serem molestados. Não tenho poderes de revogar qualquer decisão do cérebro robotizado.

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html