Autor
K.
H. SCHEER
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
O produto do laboratório ataca —
e o mistério
dos moofs encontra sua solução.
A história
da Terceira Potência em poucas palavras:
1971 — O
foguete Stardust chega à Lua, e Perry Rhodan encontra a nave
exploradora dos arcônidas, que realizou um pouso de emergência
(vol. 1).
1972 —
Criação da Terceira Potência, que enfrenta a resistência das
grandes potências terrenas, e rechaça as tentativas de invasão
vindas do espaço (vols. 2 a 9).
1975 —
Primeira intervenção da Terceira Potência nos acontecimentos
galácticos. Perry Rhodan defronta-se com os tópsidas e procura
solucionar o mistério galáctico (vols. 10 a 18).
1976 — A
Stardust-III descobre o planeta Peregrino, e Perry Rhodan alcança o
dom da imortalidade relativa (vol. 19).
1980 —
Perry Rhodan regressa à Terra e luta por Vênus (vols. 20 a 24).
1981 —
Ataque do Supercrânio (vols. 25 a 27).
1982/1983
— Chegada dos saltadores, que pretendem eliminar a concorrência
potencial da Terra (vols. 28 a 37).
1984 —
Primeiro contato de Perry Rhodan com Árcon e sua nomeação como
plenipotenciário do cérebro positrônico que exerce o governo do
grupo estelar M-13 (vols. 38 a 43).
Quem
quiser continuar a ser reconhecido como plenipotenciário do
governante arcônida, não terá outra alternativa senão aceitar e
executar as ordens do mesmo.
Perry
Rhodan sabe disso, e seu psicólogo de robôs ainda o fortalece nessa
convicção.
E a ordem
do cérebro positrônico diz que Rhodan deve dirigir-se ao planeta
Moof onde se verifica o encontro entre O Homem e o Monstro...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Comandante da Titan e administrador da Terra.
Gucky
— Um ser que, quando em combate, é chamado de tenente Gucky.
Almirante
Vetron
— Cuja frota recebeu a tarefa de destruir o mundo nativo dos moofs.
Major
Chaney
— Que comanda uma perigosa missão de tropas de desembarque.
Dr.
Orson
Certch
— Especialista em robôs, sua atividade intelectual.
Trorth
— Uma criatura amável que gosta de fazer advertências.
Capitão
Marcus
Everson
— Imediato da Titan.
Os rostos
dos homens, que estavam parados por ali, pareciam petrificados. Atrás
deles acotovelavam-se os robôs pequenos e ágeis da divisão médica.
Vez por outra, ouvia-se um tilintar dos instrumentos que, segundo as
instruções recebidas, mantinham preparados para uma ação de
emergência.
Nas chapas
do peito e das costas das preciosas máquinas, brilhava o sinal do
serviço médico. Nunca falhavam e não conheciam o cansaço; foram
construídos especialmente para prestar ajuda a homens doentes.
Seus
braços instrumentais finos e multi-articulados estavam prontos para
entrar em ação. Apenas aguardavam as ordens dos médicos e
cientistas.
As
instruções ainda não vieram. Aqueles homens com os rostos que
pareciam máscaras, contemplaram o espetáculo de pavor. Olhavam pela
parede de plástico transparente da sala contígua. Um engenheiro da
seção de climatização e purificação de ar surgiu na tela. Sua
mão direita segurava uma das chaves da aparelhagem de distribuição.
Os alto-falantes acoplados ao aparelho transmitiam o cantar e o chiar
dos rolos de turbina.
Tudo
estava preparado para o passo decisivo; mas havia um homem que ainda
não conseguira decidir-se.
Perry
Rhodan, comandante da expedição de Árcon e primeiro governante da
União dos Povos Terranos apoiava ambas as mãos contra a parede
divisória, como se quisesse envolver os setecentos homens marcados
pelo destino com seus braços protetores.
Aquilo que
se desenrolava atrás da parede não era engraçado nem risível. O
comportamento de um grupo de homens doentes e desorientados só pode
provocar as reações naturais do humor do espectador se este não
sabe que se encontra diante de um aglomerado de sofredores.
E a bordo
do supercouraçado Titan não havia ninguém que não estivesse
informado sobre as causas daquelas palhaçadas.
Hipereuforia,
era assim que os médicos designavam aquele estado. Era um bem-estar
doentio, uma descontração embriagadora, um mergulho inconsciente e
involuntário na confusão dos impulsos cerebrais incontroláveis,
que obrigavam as pernas e os braços a executar tresloucados
movimentos de dança. As bocas emitiam balbucios de bebê e cantorias
estridentes.
Parecia
uma embriaguez total e bem-aventurada; na verdade, porém, não
passava de perigosa imersão nos abismos infindáveis da loucura.
Rhodan
contemplou a dança, o canto e os gritos dos doentes com uma sensação
de fraqueza. Homens sérios, galatonautas que sabiam raciocinar
objetivamente, técnicos e cientistas bem qualificados haviam sido
transformados em loucos tagarelas. Eram setecentos homens esquecidos
dos deveres que o serviço lhes impunha. Alguma coisa os transformara
naquilo que eram neste instante: um grupo de pobres criaturas
desamparadas.
— Faça
alguma coisa, faça alguma coisa! — exclamou Rhodan com um gemido.
O biólogo
Janus van Orgter mordeu o lábio inferior. A toxicóloga Tina
Sarbowna perdera sua mordacidade agressiva. Naquele instante era
apenas um ser humano, uma mulher sensível, uma cientista que sofria
por não saber o que fazer. Sua figura ossuda parecia inclinar-se sob
o peso dos cabelos grisalhos. Lançou um olhar estarrecido para a
sala contígua.
O grande
cirurgião Prof. Kärner, médico-chefe da Titan, abandonou numa
fração de segundo a idéia de cirurgia cerebral. Seria inútil.
Kärner não poderia fazer nada por essas criaturas; ninguém
poderia. “Ali
estão dançando, berrando e uivando os melhores dos meus homens”,
pensou Rhodan, “e
isso, apenas porque durante o pouco tempo no planeta Honur não
resistiram à tentação de segurar nos braços aqueles animaizinhos
encantadores, alegrando-se com sua tagarelice.”
Ninguém
poderia deixar de apaixonar-se por aquelas criaturas de apenas trinta
centímetros de altura, que tinham o formato de ursinho. Não havia
ninguém que não disputasse o prazer de acariciar o pêlo macio dos
maravilhosos nonus.
O coração
embrutecido do mais intolerante dos militares amolecia quando aqueles
ursinhos estendiam as patas rosadas e franziam o nariz esquisito. Os
nonus eram adoráveis demais. E não era por sua culpa que seus pêlos
largavam uma secreção criminosa. Nenhum ser vivo pode ser
responsabilizado pelas qualidades que a natureza lhe confere.
Os
setecentos tripulantes do supercouraçado Titan tiveram azar; apenas
isso. Sob o ponto de vista puramente objetivo, eles mesmos eram os
culpados pela infecção ou intoxicação, pois num mundo estranho
não se deve tocar, muito menos comer qualquer coisa que não tenha
sido cuidadosamente examinada.
Este fato
obrigou Rhodan a realizar um auto-diagnóstico. Formulou pesadas
auto-recriminações. Ele, que era o chefe supremo, havia recomendado
aos seus homens que adquirissem alguns dos encantadores ursinhos em
mãos dos nativos do planeta Honur. Seriam uma espécie de mascotes.
Uma coisa que pudesse distrair a gente não era nada má a bordo do
supercouraçado de 1.500 metros de diâmetro equipado com as armas
mais potentes da Galáxia.
Mas os
mascotes tiveram um efeito contrário ao desejado. Algum poder
estranho havia abusado daqueles ursinhos inocentes. Alguém fizera
muita questão de inutilizar a tripulação da Titan de uma forma bem
original. Esse alguém contara com o amor que o homem costuma dedicar
ao animal; transformara uma criatura inofensiva numa arma.
Rhodan
pousara naquele mundo solitário do grupo estelar M-13 apenas para
aguardar tranqüilamente, num ponto afastado das numerosas rotas de
naves espaciais, a chegada da Ganymed. O comandante recebera
instruções para trazer homens descansados e equipamentos da Terra,
que ficava a 34 mil anos-luz.
A situação
do Grande Império, que de algum tempo para cá não era governado
pelos arcônidas, mas por um gigantesco cérebro robotizado, não
permitiria que a Titan ficasse com uma tripulação inferior à
normal.
Por isso
Rhodan esperou até que os nativos, pacatos e primitivos, aparecessem
com aqueles lindos animaizinhos domésticos. Só mais tarde, depois
da pesada batalha travada em Honur, descobriu-se que aqueles animais
eram criados por inteligências desconhecidas. O veneno por eles
produzido era transformado, através de uma reação química, num
dos tóxicos mais nocivos da Galáxia.
Fora esta
a primeira indicação, uma indicação que apontava para seres
inteligentes que Crest, o arcônida, chamava de aras. A única coisa
que se sabia desses seres esquisitos era que haviam criado um
monopólio ainda mais esquisito.
Os aras
consideravam-se os médicos da Galáxia. Descobrira-se apenas uns
poucos seres dessa raça, mas estes não puderam ser interrogados.
Rhodan
rememorou os acontecimentos mais recentes.
Depois que
o coronel Freyt havia transferido oitocentos homens para a Titan, a
nave voltou a ter condições de navegabilidade e de combate, muito
embora as quarenta naves auxiliares do gigante espacial não pudessem
ser tripuladas. Ainda acontecia que os colaboradores mais importantes
de Rhodan haviam adoecido. Nem mesmo os homens e as mulheres do
exército de mutantes poderiam desconfiar de que aqueles animaizinhos
fossem tão perigosos.
Só
Rhodan, Crest, o arcônida, Gucky, o ser peludo, o mutante Wuriu
Sengu e o tenente Tifflor escaparam ao desastre, isso porque na época
em que se verificou a intoxicação estavam fora da nave, realizando
um vôo de patrulhamento. Eram as únicas pessoas sadias em meio à
tripulação.
Outros
homens, treinados nos combates travados no setor de Vega, foram
colocados a bordo. Embora todos eles já tivessem passado por um
processo arcônida de aprendizagem hipnótica, havia necessidade de
familiarizá-los com as instalações do supercouraçado. Afinal, a
Titan era o produto mais recente da construção espaçonáutica do
Império.
Subitamente
uma grande peça desprendeu-se do chão da sala dos tripulantes,
cambaleou para o alto e caiu com um estrondo. Um homem soltou um
grito estridente. Fora ferido no pé.
— Isto é
o fim — exclamou o Professor Kärner, perplexo. — Pelo amor de
Deus! Se os mutantes utilizarem suas faculdades, teremos um desastre.
Foi o telecineta Tama Yokida. Vi quando se concentrou. Dê a ordem!
O rosto de
Rhodan apresentou uma expressão martirizada. Nos últimos dias, seu
corpo alto ficara ligeiramente encurvado. Aquilo que os cientistas de
bordo consideravam necessário repugnava ao fundo de sua alma.
— Isso é
absolutamente necessário? — cochichou. — Professor, afinal não
posso fazer uma coisa dessas com meus homens.
— O
senhor pode e deve — interveio Tina Sarbowna com sua voz áspera e
grave. Tinha um timbre que impunha respeito. Era a voz de uma mulher
que conquistara seu lugar através do trabalho duro e do enorme
saber.
— Continuo
convicto de que se trata de intoxicação. Não sabemos, ou melhor,
ainda não sabemos, quais são os centros nervosos afetados. Uma
coisa, porém, é certa: os doentes recusam qualquer tipo de alimento
ou bebida. O definhamento físico já começou. Quer que seus
comandados morram de fome?
Rhodan
tirou as mãos suadas da parede transparente. Duas impressões que
foram se evaporando ficaram no lugar das mesmas.
— Stiller!
O
engenheiro que aparecia na tela levantou a cabeça.
— Comece.
Mas não ande muito depressa.
Um
estalido de chave interrompeu o silêncio. Vapores brancos saíram
dos grandes insufladores de ar da sala dos tripulantes. Tangidos pela
correnteza de ar e, em pequenas nuvens, começaram a envolver as
cabeças convulsionadas e as bocas barulhentas.
O gás
narcótico, completamente inofensivo, mas de ação extremamente
rápida, permaneceu no recinto. Os exaustores do sistema de
condicionamento de ar, cujas sereias de alarma começaram a uivar,
haviam sido desligados por Stiller.
Os berros
e a cantoria foram diminuindo. Numa sucessão cada vez mais rápida,
os doentes foram mergulhando num sono benéfico. Reginald Bell,
lugar-tenente de Rhodan, parecia ter um momento de lucidez antes de
mergulhar na inconsciência. Até parecia que o infalível instinto
para o perigo de que aquele homem baixote era dotado se rebelava.
A passos
cambaleantes, caminhou em direção à parede transparente, abriu os
lábios e, com uma expressão de espanto nos olhos azuis, caiu ao
chão.
O silêncio
passou a reinar na grande sala dos tripulantes da Titan. A mesma
coisa aconteceu nos outros setores em que os doentes haviam sido
trancados. As mulheres da tripulação haviam sido abrigadas no amplo
camarote de Thora. Também lá, os risos insensatos cessaram.
Os
exaustores voltaram a funcionar. Dentro de poucos segundos, aspiraram
as nuvens de gás. Um novo suprimento de oxigênio foi introduzido
nas salas.
Rhodan
afastou-se com os ombros encurvados. Mais atrás os homens da equipe
técnica estavam abrindo as escotilhas de segurança. Os robôs
médicos começaram a precipitar-se para dentro da sala. Homens
pertencentes à tripulação recém-chegada a bordo corriam com camas
de campanha. A grande enfermaria da nave não poderia acolher todos
os doentes.
Depois de
libertados, os nonus se haviam espalhado para os quatro cantos.
Também dos nativos, que haviam regredido a um nível de vida
primitivo, não se via mais nada. Até parecia que jamais houvera
vida em Honur.
— E
agora? — perguntou Rhodan em tom apático. — Já fizemos sua
vontade. E agora?
Crest, o
arcônida, adiantou-se. Seu rosto velho com uma expressão tão jovem
estava cortado de rugas. Seus cabelos brancos brilhavam à luz difusa
das lâmpadas.
— Salte
de volta para o sistema de Árcon — recomendou com a voz tranqüila.
— Se houver um meio de ajudar essa gente, só poderá ser lá.
Seria inútil voar à Terra. Os cientistas de seu planeta já possuem
o saber médico da minha raça. E não podem fazer nada. A única
esperança que nos resta é que talvez em Árcon tenham sido
adquiridos novos conhecimentos.
O rosto de
Rhodan espelhou a resistência interior.
— Árcon!
— disse, falando entre os dentes. — O senhor só pode estar
sonhando, meu caro. Sua raça degenerada e imprestável pode ter
feito qualquer coisa, menos realizar pesquisas que pudessem levar à
descoberta de novos medicamentos. Já não têm a menor capacidade de
agir.
— Apesar
disso deve tentar — disse Crest com a voz débil.
— Quer
que o cérebro robotizado nos tire a Titan, que conquistamos com
tanto trabalho? — perguntou Rhodan. — Por enquanto meu tratado
com o autômato está em vigor. Por esse tratado, o supercouraçado
retirado de Árcon III é nosso, já que fizemos alguma coisa por
ele. Mas, o que acontecerá se penetrarmos na área submetida à
influência imediata do cérebro? O senhor pode responsabilizar-se
pelos atos de uma máquina? Estaria em condições de formular um
prognóstico bem fundamentado? Não acredito.
— Não
se amargure — respondeu Crest. — A Titan é sua. Mandei fazer um
levantamento estatístico da situação.
— Muito
bem! Esse levantamento deve ter por fim calcular com que força
devemos tossir para produzir um empuxo de 3 miligramas.
Os
cientistas olharam-se em silêncio. O chefe estava próximo a um
esgotamento nervoso. De repente, tornou-se muito tranqüilo e disse:
— O que
pretende fazer?
Kärner
respirou aliviado e disse:
— Iniciaremos
imediatamente a alimentação artificial e lançaremos mão de
injeções, para que os doentes continuem mergulhados num sono
profundo. Com isso removemos o perigo imediato. Enquanto os doentes
estiverem dormindo, faremos o que estiver ao nosso alcance para
realizar uma identificação mais precisa dos sintomas da moléstia.
As análises químicas e biológicas estão em andamento.
Verificaremos se a argono-hexilamina age como um tóxico qualquer, ou
se produz a ativação das toxinas normais resultantes do metabolismo
orgânico. Quando tivermos descoberto isso, poderemos agir com maior
eficiência. Por enquanto teremos de contentar-nos com o fato de que
os homens estão dormindo.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça. Naquela fase dos acontecimentos
não havia mais nada a dizer. Lançou ainda um olhar para a sala dos
tripulantes. Homens e robôs estavam ocupados, montando as camas de
campanha.
— O
doutor Certch quer falar-lhe com urgência — rangeu a voz saída de
um alto-falante.
Rhodan
levantou a cabeça. A tela exibia o rosto magro e cansado de um
jovem. Há poucos meses o tenente Julian Tifflor nem de longe
contaria com a possibilidade de pertencer ao estado-maior
galatonáutico do supercouraçado. Seus olhos azuis haviam perdido a
expressão sonhadora. A enorme carga de responsabilidade transformava
até mesmo um jovem de vinte anos num oficial cônscio de sua missão.
— Certch?
— perguntou Rhodan em tom distraído. — Certch?
— É o
novo psicólogo de robôs — lembrou Tiff. — Para sermos mais
precisos, a área dele é um setor da logística matemática.
— Ah,
sim. Já vou subir. Mande-o esperar na sala de comando.
Os médicos
já se haviam retirado. De repente, Rhodan sentiu-se só e
abandonado. Lançou mais um olhar para os companheiros inconscientes.
Provavelmente era este o melhor meio de protegê-los contra quaisquer
lesões corporais.
Rhodan
sentia-se cansado. Foi caminhando em direção ao elevador
antigravitacional mais próximo. No momento em que saiu do corredor
que dava para a sala dos tripulantes, viu-se completamente só.
Naquela gigantesca nave espacial mal se notava a presença de
oitocentos homens. Poderiam com facilidade esconder-se na gigantesca
esfera de 1.500 metros de diâmetro, dividida em inúmeros
compartimentos.
O corpo
enorme e pesado de Everson fazia uma figura um tanto feliz na
poltrona de piloto de encosto alto. Afinal, aquela poltrona fora
dimensionada para um arcônida, e por isso não combinava com os
contornos da figura hercúlea do capitão Everson.
Primeiro
olhou para o relógio, depois para as telas gigantes de observação
global e, finalmente, para as platinas novinhas em folha de seu
uniforme.
*
* *
Fazia
poucas horas que o tenente Everson fora promovido a capitão. Era um
motivo mais que suficiente para olhar vez por outra e disfarçadamente
para as platinas.
Pigarreou
e contemplou os homens apressados que guarneciam a sala de comando. A
Titan estava pronta para decolar. Lá embaixo os conversores de alta
potência da usina de força já rugiam em ponto morto. Os
propulsores ainda estavam em silêncio.
— Não é
possível que me deixem sentado aqui sem mais esta nem aquela —
refletiu Everson em voz alta.
O tenente
Tanner, um homem magro, moreno, vivo e dotado de humor picante,
permitiu-se um sorriso fugaz. O capitão Everson era um monstro de
fleuma em figura de homem. Os tripulantes afirmavam com toda
seriedade que o único meio de incutir alguma vida no capitão seria
a privação total das rações alimentares.
Por
ocasião de sua primeira atuação em combate, Marcus Everson provara
que nem de longe essa afirmativa correspondia à realidade. Conforme
as circunstâncias, o galatonauta que Rhodan acabara de guindar ao
posto de imediato poderia transformar-se numa torrente furiosa. Mas
isso era outro assunto.
— Atenção!
— gritou uma voz áspera e prolongada.
Os homens
viraram-se e ficaram em posição de sentido. Everson contorceu o
rosto numa expressão de dor, fechou os olhos, levou os dedos grossos
ostensivamente ao ouvido. Lançou um olhar de recriminação ao homem
que acabara de soltar o grito. Depois foi o fim do mundo.
Ao
anunciar que a nave estava preparada para decolar, Everson imitou o
ruído de um foguete em disparada. Perry Rhodan, que acabara de
entrar na sala de comando, olhou para seu imediato.
— Muito
obrigado; pode continuar — disse.
Everson
fungou e deixou-se cair na poltrona.
— Trabalho
bem feito, rapaz — disse num auto-elogio cochichado.
— O
velho ainda está abanando as orelhas — disse Tanner em tom
irônico. — Já concluí a programação. Só quero ver esta
canoa-gigante levantar do chão. É inacreditável que uma coisa
destas possa voar.
— Pois
eu consigo — afirmou Everson numa modéstia compenetrada. — Isto
é, posso tomar as medidas que a façam voar.
— Parece
que já se controlou — cochichou Tanner.
Subitamente
os olhos de Everson assumiram uma expressão vivaz. Seu olhar foi
rápido, mas abrangeu tudo.
— OK. Já
estava na hora. Isso lhe caiu sobre os nervos. O que deseja o Dr.
Certch?
Tanner
lançou um olhar perscrutador para o homenzinho excêntrico com o
gigantesco crânio totalmente calvo.
O Dr.
Orson Certch escolhera a profissão mais estranha da área das
ciências modernas. Sempre houve psicólogos, mas estes costumavam
preocupar-se com a vida íntima dos seres humanos.
Certch
também era psicólogo, mas seu campo de atuação consistia no
ambíguo substrato intelectual e sentimental dos robôs.
Surpreso,
Everson sacudiu a pesada cabeça. As bochechas carnudas começaram a
balançar.
Rhodan
desviou-se para o lado, a fim de fugir da coisa que se aproximava
apressadamente. O Dr. Certch girou sobre os calcanhares, para voltar
a investir contra o comandante com a cabeça esticada para a frente e
o dedo em riste.
— Ainda
bem que o encontrei — gritou a voz aguda. — Tenho necessidade
absoluta de falar imediatamente com o senhor, necessidade absoluta.
A mão
pequena e magra correu com uma velocidade incrível sobre os
numerosos bolsos externos do uniforme. Finalmente Certch encontrou as
anotações embaixo do cinto largo. O psicólogo de robôs chegava à
altura do estômago de Rhodan. Mas, se havia alguém que pudesse
formular uma previsão futura sobre os atos de uma máquina sem alma,
esse alguém era o homenzinho com a gigantesca calva.
— Vamos
logo! — insistiu Certch, depois de ter sentado três vezes para
levantar-se em seguida.
Desta vez
também Rhodan tomou lugar numa poltrona articulada que ficava atrás
da grande calculadora do setor B.
A fala
entrecortada de Certch levava seus semelhantes ao desespero.
Rhodan
começou a impacientar-se. Para Certch o relacionamento entre um
comandante e seus colaboradores deve ser encarado como um tipo de
amizade briguenta.
— Crest
me pediu que fizesse uns cálculos — chiou a voz de Certch. — É
interessante! É perigoso! Preste atenção. Se executar o plano de
voar para Árcon, saberemos o que vem a ser uma boa surpresa. O robô
vai golpear, e o golpe será mais rápido e doloroso do que qualquer
um de nós pode imaginar.
O sorriso
ligeiro abandonou o rosto de Rhodan. Seu espírito despertou. Apenas
os olhos pareciam indagar. Perturbado, Certch baixou o olhar, mas
logo ergueu a cabeça. Mais uma vez pôs o dedo em riste.
— O
senhor quer saber por quê, não é? Pois a resposta é simples,
mesmo para um leigo. Temos setecentos doentes a bordo, inclusive os
mutantes. Por enquanto a cura é impossível. Se considerarmos o fato
de que em Árcon também não existe nenhum remédio, a reação da
máquina pode ser prevista com cem por cento de certeza. O cérebro
sabe que os êxitos alcançados pelo senhor foram devidos
principalmente à atuação dos mutantes. O robô possui uma nave do
tipo da Titan. A lógica mecânica, de estrutura puramente
matemática, dirá ao autômato que o senhor se tornou inútil, ou ao
menos que vale menos. Se não contar com os recursos especiais de que
dispunha, será considerado apenas um colaborador como qualquer
outro. Entendido?
Os olhos
de Certch piscaram nervosamente. Mais uma vez Rhodan não respondeu.
— Pois
bem, está entendido. O único ponto positivo de que o senhor dispõe
no esquema dos cálculos positrônicos é sua rápida capacidade de
decisão. O robô suspeita da existência de armas secretas. Mas uma
simples suspeita não levará a uma valorização positiva no
conjunto da interpretação. Quer dizer que a única coisa que resta
será sua energia. E esta o colocará pouco acima do padrão de
classificação de um naat ou de qualquer outra inteligência. E isso
é muito pouco para que o senhor possa se arriscar a penetrar no
campo de atuação direta do cérebro robotizado. É só. Não se
meta nisso. Faço questão de preveni-lo.
Com um
movimento rápido, Certch saltou da poltrona articulada. Os óculos
desapareceram de cima do enorme nariz.
— Um
instante!
O
psicólogo de robôs estacou.
Everson e
Tanner, aquele par tão diferente sem dizer uma palavra. Tiff
mantinha-se mais ao longe; estava pálido. De repente, a atmosfera na
sala de comando se tornara bastante tensa.
Rhodan
caminhou lentamente em direção ao cientista. Parou perto dele.
— Entendo
alguma coisa de logística positrônica, doutor. Acredito que sua
interpretação da conduta do grande autômato se funda inteiramente
na suposição de que em Árcon não existe nenhum remédio contra a
doença contraída por nossos homens.
— Correto!
— confirmou o homenzinho.
— O que
acontecerá se houver um meio de curar a doença? E se o robô tiver
conhecimento dessa situação?
— Modificação
de cento e oitenta graus na situação, a nosso favor.
— Muito
obrigado, doutor. Sabemos perfeitamente que em Árcon não se conhece
qualquer soro contra essa doença. Não precisamos discutir mais
sobre este ponto. Admitamos como certa a pior das hipóteses. Conhece
a lei de Ulterman sobre a programação dos atos com base nos
cálculos cibernéticos?
Certch
começou a desconfiar. Encolheu mais um pouco.
— Eu
também a conheço. Vamos agir de acordo com ela, capitão Everson.
O gigante
saltou do assento de piloto. Seu rosto não tinha mais nada de suave.
— Transmita
uma ordem ao médico-chefe. Thora, Bell e mais seis dos tripulantes
doentes devem ser mantidos num sono leve. Quero que essas oito
pessoas possam ser despertadas a qualquer momento. É só.
Everson
voltou-se para o intercomunicador de bordo. O Dr. Certch parecia
espantado.
— O que
pretende fazer? — perguntou com a voz gutural.
— Pretendo
agir de acordo com a lei de Ulterman — informou Rhodan. —
Apresentaremos oito doentes. Os outros serão escondidos. Gucky e
Sengu farão com que o robô receba algumas provas de suas
capacidades extraordinárias. O robô não sabe que recebemos
oitocentos tripulantes novos. Graças ao compensador estrutural, a
breve excursão de Freyt à Terra não chegou ao conhecimento do
robô. Devemos isso aos mercadores galácticos, que criaram um
aparelho maravilhoso como este. Decolamos com setecentos homens e com
setecentos homens regressaremos. É muito claro, não acha?
Apresentaremos oito doentes. Não são tão importantes que possam
representar um fator negativo na avaliação conjunta do nosso
auxílio. Saberemos se existe algum remédio. Queira apontar qualquer
detalhe que eu possa ter esquecido, Dr. Certch.
O
cientista hesitou. Depois de algum tempo formulou a pergunta:
— Tem
certeza absoluta de que a Ganymed não foi localizada? Um salto pelo
hiperespaço pode ser medido por meio das alterações estruturais
que...
— Perfeitamente.
Acontece que o compensador constitui uma barreira absoluta a qualquer
localização. Mais algum detalhe?
— Nenhum
— resmungou Certch. — Não há nenhuma falha, desde que existam
os pressupostos que o senhor acaba de apontar. Os oito doentes não
influirão muito. Serão um fator de pouca importância. Se fosse um
robô, não gostaria de ter o senhor como inimigo. Farei uma revisão
dos cálculos.
Rhodan
seguiu o homenzinho com os olhos e disse:
— Muito
obrigado pelo aviso, doutor.
Certch
exibiu um ligeiro sorriso e desapareceu.
— Decolaremos
daqui a dez minutos. Everson, o senhor levantará a nave. Tiff, avise
Freyt. Diga-lhe que deve decolar um minuto antes de nós.
Rhodan
ficou de pé atrás da poltrona do imediato e controlou as instruções
transmitidas por Everson. Garand, o engenheiro-chefe, apareceu na
tela por um instante. Seu rosto bochechudo estava banhado de suor.
Os avisos
de que tudo estava em ordem, expedidos pelos diversos postos, foram
chegando. Receberam a confirmação de Freyt.
Dali a
nove minutos, a Ganymed, mostrada na tela, parecia despertar. A nave
de 840 metros de comprimento e 200 metros de diâmetro encontrava-se
a menos de três quilômetros, apoiada nas aletas de popa.
O furacão
de fogo que irrompeu dos bocais de popa transformou o deserto
poeirento e pedregoso numa cratera borbulhante. Freyt resolvera não
utilizar a aparelhagem de desvio de partículas. Em Honur não havia
nada que pudesse ser estragado.
Os
alto-falantes do aparelho de captação de ruídos externos
transmitiram o som infernal de um fim de mundo. O gigantesco cilindro
elevou-se lentamente. O fluxo de impulsos expelido pelos propulsores
passou do branco ao azulado, ao violeta, e finalmente tornou-se quase
invisível.
Com um
salto monstro, a Ganymed disparou para o céu. Um trovejar profundo
sacudiu a paisagem desolada. Massas de ar incandescente, que emitiam
uma estranha fosforescência, precipitaram-se no vácuo que a Ganymed
abriu com sua decolagem apressada. Um furacão uivou, vindo do céu
azul. Arrastou consigo massas de pedra liquefeita, para atirá-las ao
solo mais adiante, numa turbulência desenfreada.
O
couraçado desapareceu.
A
decolagem da Titan, nave muitas vezes maior que a Ganymed,
representou um aumento tremendo das forças desencadeadas. Os dezoito
propulsores gigantescos montados na protuberância equatorial da
esfera de 1.500 metros de diâmetro transformaram a área plana do
deserto num oceano de lava.
Os homens
abandonavam o planeta do sol-anão estranho com o entusiasmo
fervoroso de deuses despreocupados. Na decolagem, desenvolveram uma
aceleração que os levou ao espaço dentro de apenas quatro
segundos.
O que
ficou para trás foram massas de ar revolto e um solo borbulhante.
Ficaram também os animais encantadores aos quais haviam dado o nome
de nonus.
Os homens
só haviam levado consigo suas preocupações e angústias. Pouco
menos de dez minutos depois de terem mergulhado no espaço, as naves
atingiram a velocidade da luz. A programação do autômato de
regulagem de salto estava concluída. Árcon, o astro central do
Grande Império, ficava apenas a quarenta e sete anos-luz.
Perry
Rhodan deu ordens para que a transição através do espaço de cinco
dimensões fosse realizada de forma normal. Isso significava que
haveria um abalo estrutural facilmente localizável.
— Tomara
que isso não dê na vista! — murmurou Marcus Everson consigo
mesmo, antes que as forças da desmaterialização o atingissem e
levassem seu corpo para o campo do irreal.
O sol
vermelho de Thatrel transformou-se num disco tremeluzente. Logo
desapareceu.
Árcon era
o símbolo do poder, a célula-mater do Grande Império, o mundo da
raça humanóide dos arcônidas. A iniciativa implacável e
pragmática do gigantesco cérebro robotizado voltara a fazer de
Árcon aquilo que sempre fora: o centro dominante da Galáxia
conhecida.
Nas
condições reinantes em Árcon, a penetração de duas grandes naves
no espaço normal era um acontecimento corriqueiro. Aqui, onde se
formara o ponto de confluência do comércio cósmico, o movimento de
naves quase chegava a ser enlouquecedor.
Apesar
disso, as naves de Rhodan foram localizadas imediatamente. As cinco
mil fortalezas espaciais que formavam o círculo exterior de defesa
solicitaram o sinal codificado. Rhodan só pôde transmitir o sinal
já superado. Face a isso o cérebro robotizado instalado em Árcon
III interveio diretamente.
A primeira
surpresa surgiu logo após os primeiros contatos pelo rádio. O
autômato, que se designava como o Grande Coordenador ou o Regente
permitiu que os dois couraçados penetrassem no sistema interno.
Depois Rhodan soube que há cinco dias, tempo padrão local, o mundo
destinado ao comércio galático, Árcon II, voltara a ser liberado.
A notícia
levou às suposições mais desencontradas a bordo da Titan. Quando
Perry Rhodan penetrou pela primeira vez no sistema de Árcon, o
grande robô que exercia o governo velava com um cuidado extremo para
que ninguém se dirigisse aos três mundos de Árcon. Ao que parecia,
nesse meio tempo as graves manifestações de decadência dos
arcônidas haviam sido superadas a ponto de que a máquina poderia,
sem perda de prestígio, conceder às numerosas raças de astronautas
da Via Láctea a permissão de pousar em Árcon, conforme estavam
acostumados.
Cruzaram a
órbita do quinto planeta do sol Árcon. Mais uma vez pediram um
sinal codificado. Os dois couraçados receberam instruções para
utilizar o corredor de aproximação interplanetária 32-17. Com o
tráfego espacial dessa área, era uma medida perfeitamente normal.
— Localização
na área verde, noventa e dois graus — soou a voz retumbante saída
dos alto-falantes. — São naves grandes, couraçados da classe
Império. Três unidades.
Marcus
Everson, que desempenhava as funções de co-piloto, virou ligeiro a
cabeça. Desconfiado, procurou o olhar de Rhodan.
— Naves
da classe Império? — fungou o capitão.
— Vieram
para nos comboiar. Calma a bordo; nada de nervosismo. Atenção, para
todos os tripulantes. Não se deixem arrastar a uma ação
precipitada. Quando aparecemos aqui pela primeira vez, a situação
parecia bem pior. Praticamente fomos obrigados a pousar no quinto
planeta. Neste meio tempo fizemos um tratado com o cérebro
robotizado. Não se preocupem com as três unidades da frota
arcônida. Qualquer nave armada que entre aqui será imediatamente
escoltada. Isso resulta do simples instinto de conservação do
autômato.
Ouviram a
risada de Rhodan no alto-falante. Homens nervosos trocavam olhares
preocupados. Tanner, que desempenhava as funções de
primeiro-oficial de armas, tirou lentamente os dedos dos botões de
acionamento das peças de artilharia.
— Não
façam nenhuma tolice — voltou a recomendar Rhodan.
— As
naves se aproximam, estão realizando manobra de adaptação —
avisou o tenente Tifflor, que se encontrava na sala de observação.
O
dispositivo automático transferiu a ligação. Três objetos
brilhantes surgiram nas telas do setor verde.
— Rapaz,
são três naves da classe Império! — cochichou Everson. — São
tripuladas por robôs, chefe?
— Só em
parte. Há poucos meses o cérebro ainda dependia exclusivamente da
tele direção. Foi o que nos valeu. Se naquele tempo o Regente
dispusesse de tripulantes capazes e pensantes, dificilmente teríamos
escapado com a Titan que acabávamos de roubar.
Everson
engasgou. Lançou um olhar de dúvida para o rosto do comandante.
Rhodan não
se preocupou mais com as três naves-gigantes, que ainda há pouco
tempo seriam consideradas as maiores de sua classe. Mas nesse meio
tempo haviam surgido as novas unidades da classe Universo, que tinham
1.500 metros de diâmetro. A Titan era uma delas.
Rhodan
sentiu uma ligeira angústia quando se lembrou da empresa
tresloucada.
Com a
Ganymed, uma nave pequena para as condições arcônidas, penetraram
despreocupadamente num sistema solar cujos habitantes já conheciam a
navegação espacial a velocidade superior à da luz numa época em
que o homem ainda vivia em cavernas.
Rhodan
resolvera arriscar o vôo para Árcon porque aqui esperava encontrar
ajuda na luta contra o perigo representado pelos saltadores, que se
tornara crítico. Além disso, cedera às insistências de Crest e
Thora, que depois de uma ausência de treze anos estavam ansiosos
para voltar para casa.
Ninguém
poderia saber que seis anos antes o imperador de Árcon fora deposto.
Muito menos se poderia supor que o gigantesco cérebro robotizado
assumira o governo do Império dos Arcônidas.
Rhodan foi
obrigado a pousar no quinto planeta, que era um mundo inóspito.
Contrariando as instruções do cérebro positrônico, saíra dali
numa nave de reconhecimento.
Não
conseguira encontrar auxílio em Árcon I, o mundo de cristal. Por
isso um almirante do imperador deposto, que ainda conservava a
agilidade mental, levou-o a Árcon III juntamente com seu grupo de
cinqüenta homens. Lá foram admitidos como força auxiliar.
A fuga com
a Titan, uma nave novinha em folha, foi uma história memorável. Com
um salto de três anos-luz, conseguiu escapar aos seus perseguidores.
Seguiu-se o pouso involuntário no planeta Zalit, cujo ditador foi de
opinião que poderia transformar Perry Rhodan num aliado para a luta
contra o cérebro robotizado, que se tornara onipotente.
Rhodan
mudou de idéia quando percebeu que os habitantes do planeta Zalit se
encontravam sob o controle de seres parecidos com medusas, que
possuíam dons telepáticos e sugestivos, e que Crest designara como
moofs.
Seguiu-se
uma luta feroz, cujo resultado favorável fez com que o cérebro
robotizado reconhecesse Rhodan. Numa coerência lógica, o robô
tentara fazer de Perry seu aliado. Era um ato coerente, pois o
cérebro praticamente não dispunha de colaboradores vivos. Rhodan
eliminara o perigo dos moofs e, como recompensa, recebera a nave
apresada, Titan.
Foi em
virtude da situação assim criada que Rhodan resolveu mandar que
Freyt fosse à Terra com a Ganymed, uma vez que os setecentos homens
que se encontravam a bordo da nave-gigante eram uma tripulação
inferior ao normal.
No mundo
de Honur, onde se pretendia aguardar tranqüilamente a chegada da
nova leva de homens, acabou ocorrendo a intoxicação através
daqueles estranhos seres.
E agora
penetravam pela segunda vez no sistema de Árcon. Rhodan sentia-se
muito preocupado, pois os homens mais experimentados de sua
tripulação haviam adoecido. A atuação do cérebro robotizado
poderia resultar numa catástrofe, se o mesmo percebesse que os
mutantes não estavam em condições de entrar em ação. Rhodan
jogou todas as chances numa única cartada.
No momento
em que dois dos mundos de Árcon surgiram nas telas do
ultralocalizador que funcionava a velocidade superior à da luz,
Rhodan lembrou-se dos moofs. Esse assunto fora deixado totalmente de
lado depois dos estranhos acontecimentos que se verificaram em Honur.
Quando
Rhodan refletia sobre isso, o psicólogo de robôs, Dr. Certch,
chamou pelo aparelho de comunicação audiovisual.
— É
Certch que está falando — foram suas primeiras palavras,
totalmente supérfluas. — Disponho de novos dados. Já se deu conta
de que o autômato não dará a menor importância às experiências
pelas quais passamos? É claro que não o faria se estivesse
informado sobre a existência de setecentos doentes a bordo da Titan.
Uma vez que o senhor pretende apresentar apenas oito doentes, o
cérebro concluirá que não vale a pena desenvolver esforços muito
intensos para encontrar um remédio. Pouco lhe importa que oito
criaturas insignificantes morram ou não. Não acha que estou com a
razão?
— Acabo
de pensar nisso.
— Muito
bem. Mas ainda existe o problema dos moofs. Para o cérebro, a
remoção desse perigo será muito importante. Afinal, o senhor
provou que a revolta dos zalitas foi causada exclusivamente pela
atuação dos moofs.
— É
verdade, e também não é — respondeu Rhodan. — Informei o
cérebro de que os moofs nunca teriam agido assim por sua livre e
espontânea vontade. O feitio orgânico desses seres inteligentes
basta para impedi-los de exercerem uma influência decisiva na
política galáctica. Atrás dos moofs há outras inteligências, que
praticamente abusam desses seres.
— É aí
que eu quero chegar. Não acredito que o robô ainda não percebeu
isso. A rapidez com que o cérebro permitiu nossa entrada é
espantosa. Recebemos licença de pousar. Daí se conclui que estão
querendo algo do senhor. Uma vez que dispõe de uma tripulação apta
a entrar em combate na nave mais poderosa de todos os tempos,
pretenderão que o senhor, ou melhor nós, executemos outra missão,
já que o senhor se obrigou a defender os interesses do Grande
Império. Prepare-se para ver o robô liquidar o problema da doença
com uma observação muito ligeira. Considerará perdidos os oito
homens. Isso resulta da lógica positrônica, que não conhece
sentimentos.
“Cheguei
à conclusão de que seremos imediatamente mandados de volta ao
espaço, a fim de liquidar em definitivo o perigo dos moofs. Afinal,
o cérebro está convencido de que ainda dispomos do exército de
mutantes. Acredito que receberemos ordens para nos dirigirmos ao
mundo daqueles monstros. E nem pense em recusar obediência a esta
ordem em meio a esta gigantesca fortaleza espacial. A fuga que
empreendeu há algum tempo foi um golpe de surpresa. Não conseguirá
repetir a façanha.”
— Compreendi,
Dr. Certch — disse Rhodan. — Muito obrigado. Já me lembrei
disso. O que diria se eu tivesse a intenção de me dirigir ao mundo
dos moofs?
— Seria
uma surpresa — disse Certch em tom de perplexidade.
— Não
parece que seria um procedimento lógico? Não dispomos da menor
indicação sobre a atuação desses seres que Crest chama de aras.
Em minha opinião são responsáveis por tudo, inclusive pela
revolução que eclodiu em Zalit. Logo, será apenas natural que
procuremos desvendar o mistério no mundo dos moofs. Afinal, com o
logro que pretendo pregar ao cérebro não poderei fazer com que ele
conclua necessariamente que devemos preocupar-nos antes de mais nada
com os médicos galácticos. Para isso teria de apresentar setecentos
doentes e não apenas oito.
Certch
respondeu:
— Pelo
amor de Deus, não fale nos setecentos. Seria o fim. Mas, se acredita
que no planeta dos moofs encontrará uma indicação mais precisa, vá
para lá. Só gostaria de saber por que nessas circunstâncias
resolveu ir a Árcon. Poderíamos ter seguido diretamente para o
mundo dos moofs.
— Acontece
que preciso de alguns dados sobre o mundo dos moofs, seu sabe-tudo de
uma figa — respondeu Rhodan.
— Perdão
— disse Certch com um sorriso. — Apenas queria confirmar minha
genialidade. Para isso preciso formular algumas objeções.
A terrível
praga que Rhodan soltou perdeu-se nos microfones desligados.
Obedecendo
às instruções recebidas, os dois couraçados deslocaram-se a uma
velocidade inferior em dez por cento à da luz. No interior do
sistema de Árcon, não eram permitidas velocidades mais elevadas.
Mas mesmo
a essa velocidade, os dois planetas visíveis do mundo sincronizado
aproximaram-se rapidamente.
Com o
desenvolvimento da raça Árcon, o mundo primitivo dos arcônidas,
tornara-se muito pequeno. Por isso os antepassados — extremamente
ativos — dos atuais habitantes de Árcon recorreram à sua
tecnologia fenomenal e arrastaram os antigos planetas II e IV das
suas órbitas naturais, incorporando-os praticamente ao terceiro
mundo.
Dessa
forma um sistema tríplice surgiu dentro do sistema. Eram três dos
planetas, dois dos quais trazidos artificialmente, que há 15 mil
anos de tempo terrano gravitavam em torno do sol Árcon em órbitas
exatamente iguais, mantendo a mesma inclinação dos eixos e a mesma
velocidade no percurso de sua órbita.
Era Árcon!
O planeta número um, que era o mundo de cristal, servia
exclusivamente a fins residenciais. O planeta número dois ficou
reservado ao comércio e à indústria galáctica. O planeta número
três era o planeta da guerra; servia de sede à maior frota espacial
de todos os tempos e ao cérebro robotizado.
Tudo
indicava que os arcônidas o haviam construído para a eternidade.
Nada se alterara no arranjo interestelar por eles criado, com exceção
dos descendentes mais longínquos, levados à decadência devido à
supersaciedade econômica e cultural.
A
indecisão e o relaxamento dos costumes fizeram com que o
robô-gigante, programado há vários milênios, passasse a dirigir a
história do Império. Ao que tudo indicava, os velhos arcônidas
imaginavam que uma raça que vive na abundância e no bem-estar
excessivo acaba fisicamente debilitada.
Os homens
mergulharam nessa bruxaria galáctica, sem desconfiar de que com isso
se submeteriam de forma indireta às normas pragmáticas do cérebro
positrônico.
Rhodan
tirou os olhos arrebatados do panorama dos dois mundos. Do ponto em
que se encontrava a Titan, não podia ver Árcon I. Estava encoberto
pelo sol chamejante.
Uma chave
deu um estalo. O rosto de Tifflor surgiu na tela.
Rhodan deu
uma ordem:
— Tiff,
chame o Regente pela onda de hiperfreqüência que já é conhecida.
Transmita o sinal de urgência. Solicito uma entrevista antes do
pouso. Transmita o intercâmbio pelas telas da sala de comando.
Obrigado.
Lá
adiante, além da parede blindada de plástico transparente, os
enormes aparelhos de hipercomunicação do supercouraçado entraram
em funcionamento. Os homens que se encontravam na sala de comando
trocaram olhares expressivos. Chegara o momento decisivo.
— Contato
estabelecido, passarei a ligação para o senhor — ouviu-se a voz
de Tiff.
Rhodan
girou lentamente o assento de piloto para a direita. Num dos setores
das telas de visão global, surgiu o colorido confuso da transmissão
que estava sendo captada. Depois de alguns segundos, as linhas
assumiram contornos precisos. Viu-se a corcova blindada em meio ao
grande pavilhão. Era um setor minúsculo do cérebro, mas parecia
ser um dos mais importantes.
— Rhodan,
da Terra, falando ao Grande Coordenador — disse Perry para dentro
do microfone. Seu rosto continuava impassível.
— Estou
ouvindo! — soou a voz fria e monótona. O robô não parecia
conhecer a curiosidade.
Não
formulou nenhuma pergunta sobre o motivo da chamada.
— Peço
que seja preparada imediatamente uma equipe médica arcônida. Tenho
oito doentes a bordo.
— Qual é
a doença?
— É
desconhecida. Ao que parece, trata-se de uma intoxicação. Depois de
concluída a luta em Zalit, pousei no mundo de Honur para treinar
minha tripulação com toda calma. Surgiram certos animaizinhos.
Descobrimos muito tarde que os mesmos segregavam substâncias
venenosas.
— Aguarde!
De um
instante para outro, as linhas tremeluzentes voltaram a cobrir a
tela. Rhodan estremeceu ao toque suave de uma pata de animal. De
repente Gucky, o ser peludo, surgira ao lado de seu assento.
Os grandes
olhos cinzentos do rato-castor pareciam interrogar. Com mais ou menos
um metro de altura, o mais capaz dos seres vivos que se encontravam a
bordo estava sentado sobre o traseiro que lhe conferia o aspecto
esquisito.
“Algum
problema?”
— foi a mensagem telepática emitida pela versão ampliada do
ratinho de desenho animado.
Rhodan
compreendeu a pergunta. Seu treinamento telepático já avançara
bastante. Já conseguia entender o verdadeiro sentido de um bom
emissor e formular suas respostas pela mesma via.
Rhodan fez
um gesto quase imperceptível de recusa. As patas rosadas de Gucky
continuaram apoiadas sobre a braçadeira da poltrona. De repente, a
abóbada de aço voltou a surgir na tela.
— Os
dados foram examinados. O planeta Honur está fechado ao tráfego há
quatro mil anos. A secreção cutânea das inteligências inferiores
que o habitam, enquanto não purificada, causa a destruição de
centros nervosos orgânicos. Depois de passar por um processo
químico, o veneno serve de matéria-prima para a fabricação de um
tóxico bastante conhecido, chamado kan’or.
Há oitocentos anos a frota arcônida destruiu o comércio galático
da substância. Mais alguma pergunta?
Rhodan
empalideceu ligeiramente. Atrás dele, o biólogo Janus van Orgter
entrou apressadamente na sala de comando. Respirando de modo agitado,
aproximou-se de Rhodan.
— Não
tínhamos a menor idéia do perigo — respondeu apressadamente. —
Oito dos meus homens entraram em contato direto com os animais. Seu
estado inspira sérios cuidados. Thora, membro da dinastia de
Zoltral, é uma das doentes. Assumi o comando da Titan. Peço auxílio
com a máxima urgência.
A reação
do cérebro foi rápida. Do alto-falante não saiu nem uma pergunta
inútil. Já sabia por que Rhodan teria pousado em Honur.
— Os
sintomas são conhecidos. O senhor foi imprudente. Pouse em Árcon
II. Procurarei ajudar. Por que disse que o chamado era urgente?
Rhodan
suprimiu uma maldição. O Dr. Certch surgira. Agitou ambos os braços
num gesto de súplica. O que quis dizer era que, para o robô, o
pedido de cura dos doentes jamais seria considerado urgente. Rhodan
compreendeu. Era muito difícil adaptar o pensamento orgânico,
condicionado pelo sentimento, à lógica fria de uma calculadora
monstruosa.
— Descobri
dados sobre a verdadeira causa da revolta dos zalitas. Os próprios
moofs foram submetidos a alguma influência. A intoxicação de meus
homens fazia parte do plano. Posteriormente fornecerei outros dados.
Encontramos uma instalação camuflada dos bioquímicos galácticos,
que segundo Crest, um membro da família de Zoltral, costumam ser
chamados de aras.
— De que
tipo eram as instalações?
— Tratava-se
de um laboratório gigantesco, no qual eram criados os animais que
costumamos chamar de nonus. A secreção do organismo dos mesmos era
transformada em tóxicos. Tenho certeza de que a solução do
problema deve ser procurada junto a esses aras. Solicito dados mais
precisos. Onde poderemos encontrar esses seres? A única indicação
que encontramos nos fichários de bordo diz que os aras detêm o
monopólio médico-biológico da Galáxia. Onde poderemos
encontrá-los?
A tela
cobriu-se com uma luminosidade fluorescente.
— Resposta
negativa. Vejamos — disse o Dr. Certch.
A imagem
da abóbada de aço voltou a ser projetada na tela. Numa reação
extremamente rápida, o cérebro identificou os pontos importantes da
pergunta que acabara de ser formulada. Recusou, sem usar a palavra
recusa.
— Em
toda parte e em lugar algum. Nosso tratado não prevê que percamos
um tempo precioso. Seria um contra-senso se passássemos o problema
dos moofs para o segundo plano. Recuso fornecer-lhes dados ambíguos
sobre a raça dos aras.
— Pois
os dados são ambíguos? — perguntou Rhodan.
— São.
Meus registros não revelam nada de positivo. Se a cura dos seus
doentes for impossível, teremos que abandoná-los ao seu destino.
Rhodan da Terra, eu lhe faço a seguinte proposta. Se sua suposição
de que os moofs agem segundo as ordens dos aras for correta, é bem
provável que no próprio planeta dos moofs encontre novos dados em
favor dessa suposição. Mas o senhor terá de apressar-se, pois já
enviamos uma frota parcialmente robotizada, comandada pelo almirante
Vetron, para destruir o sexto planeta do sistema da estrela Moof. Não
vi outra solução. O senhor não me informou no devido tempo sobre
suas descobertas mais recentes.
— Retire
a ordem! — exclamou Rhodan muito exaltado. — O senhor vai
destruir as poucas pistas de que poderemos dispor.
— O
ataque ainda não foi iniciado. Pouse imediatamente e apresente seus
doentes. Verificarei num tempo muito reduzido se posso ajudar ou não.
Fim.
Rhodan
gritou mais algumas perguntas, mas percebeu que a máquina
interrompera o contato. Virou-se com o rosto pálido.
Até
Certch manteve-se em silêncio. Crest, o cientista arcônida,
aproximou-se em passos comedidos. Nas telas de observação global os
planetas visíveis de Árcon já apareciam com o tamanho de uma maçã.
Um impulso
de advertência das três naves de escolta foi captado. Everson disse
com a voz baixa:
— A
manobra de frenagem será iniciada daqui a dois minutos.
— Pode
pousar — disse Crest em tom tranqüilizador. — Se o cérebro
afirma que o exame será realizado num tempo muito curto, isso
significa que na pior das hipóteses levará meia hora. Se até lá
não for descoberto nenhum antídoto entre o estoque de medicamentos
existente no planeta, poderemos decolar imediatamente. Não
adiantaria esperar mais. O robô não fará um esforço
extraordinário para salvar alguns seres humanos.
— A
situação é exatamente esta — exclamou Certch. — Nem devíamos
pousar.
Os olhos
de Gucky seguiram o comandante que caminhava de um lado para outro.
Uma melancolia profunda brilhava nos grandes olhos da criatura
peluda. Sentia a angústia de Rhodan.
— Quem é
esse almirante Vetron, Crest? O senhor o conhece?
— Apenas
pelo nome. É um oficial espacial da geração nova. Executará as
ordens do cérebro sem a menor hesitação.
— Esse
rapaz estragará nossas esperanças — disse Rhodan. — Dr. Certch,
qual é o conselho que o senhor nos dá?
O doutor
Certch respondeu:
— Vamos
pousar, aguardar o resultado do exame, voltar a colocar os doentes a
bordo e arrancar do robô poderes plenos para liquidar o problema de
Moof por nossa conta. Quando nos aproximarmos do planeta Moof, o
senhor deverá estar em condições de suspender imediatamente o
ataque.
Rhodan
voltou ao seu assento. O aparelho de pilotagem automática já
acendera uma luz vermelha. As três naves de escolta haviam iniciado
a frenagem. Os dois planetas já se apresentavam com o tamanho de uma
abóbora.
Dentro de
poucos segundos, os propulsores da Titan rugiram. A velocidade foi
reduzida por meio de uma contra propulsão de quinhentos quilômetros
por segundo ao quadrado. A central de tele direção de Árcon II
entrou em contato com a nave.
Enquanto
os propulsores de correção de rota do supercouraçado ribombavam,
colocando a nave no rumo correto, Rhodan anunciou pelos microfones de
bordo:
— O
comandante a todos os tripulantes. Pousaremos dentro de quinze
minutos aproximadamente. Tomem todas as precauções para que os
doentes não possam ser encontrados. Peço que os médicos continuem
no posto de emergência. Se necessário usem gás narcótico. Não
deverá haver qualquer grito ou exclamação comprometedora, pois não
sabemos se receberemos visita ou não.
“Atenção,
Professor Kärner. Leve Thora, Bell e os outros seis doentes
escolhidos à enfermaria. Provavelmente serão levados por robôs.
Apague todos os vestígios da utilização da clínica. Tudo deverá
estar limpo. Retire as camas de campanha. Provavelmente voltaremos a
decolar depois de uma breve permanência no planeta. Aceitarei a
sugestão do robô, para eliminar qualquer possibilidade da
ocorrência de complicações mais sérias. Ainda acontece que não
temos outra alternativa senão pousar em Moof VI, onde tentaremos
colher novos dados que nos sirvam para esclarecer os acontecimentos.
No momento é só. Entrem em prontidão provisória. Fim.”
Rhodan
desligou no momento em que o supergigante penetrou com um rugido nas
camadas superiores da atmosfera de Árcon II.
*
* *
Árcon II
era um astro que tinha a superfície aproximadamente igual à da
Terra. Sua gravitação chegava a 0,7G. Era um conjunto tecnologizado
e industrializado que não apresentava a menor solução de
continuidade, um mundo de fábricas dantescas dirigidas por robôs e
de gigantescos portos espaciais. Além disso, era o ponto capital do
comércio intergaláctico.
O sol
branquicento de Árcon brilhava num céu nevoado, em que não se via
nenhuma nuvem. O segundo planeta do grupo sincronizado de três era a
grande potência econômica da Via Láctea. Os artigos produzidos aí
não somente eram de alta qualidade, mas sua quantidade era
suficiente para inundar todos os mundos coloniais. Não havia
praticamente nada que não fosse fabricado em Árcon II.
O
espaçoporto de Olp’Duor
formigava de naves mercantes de todos os tipos. Rhodan teve
oportunidade de admirar as construções de seres humanóides e de
criaturas totalmente estranhas.
Estranhas
figuras levantavam-se do solo de espaço a espaço. E criaturas ainda
mais estranhas saíam das escotilhas de suas naves, envergando trajes
protetores mais ou menos pesados.
As
instalações de carga e descarga do espaçoporto, inteiramente
automatizadas, trabalhavam a toda força. Pelos cálculos de Crest, o
valor das mercadorias descarregadas em Olp’Duor chegava a oito
bilhões de solares de moeda terrana por dia. Acontece que este era
apenas um dos trezentos espaçoportos.
Pesados
cargueiros partiam ininterruptamente em direção ao céu. Outros
chegavam ruidosos. A profusão de propulsores e máquinas que se
amontoavam naquele campo era inimaginável.
A forma
esférica predominava apenas nos veículos espaciais arcônidas. Via
de regra viam-se construções em forma de cilindro, ou com outro
formato bastante esguio. Ali chegavam os mensageiros de raças
estranhas, a maioria das quais descendia de antigos emigrantes
arcônidas.
Não
apresentavam a menor semelhança com seus ascendentes. Os milênios,
e mesmo dezenas de milênios passados fora de Árcon representaram um
ponto final na evolução biológica arcônida.
Os
descendentes mais remotos dos antigos colonos já se haviam adaptado
ao novo ambiente. As múltiplas influências a que estiveram
submetidos não poderiam deixar de desempenhar seu papel. A
intensidade da gravitação de outros astros, as radiações
cósmicas, a temperatura, a composição da atmosfera e o ambiente
bioquímico produziram transformações físicas e mentais que faziam
com que, em muitos casos, aqueles seres não mais possuíssem braços
e pernas como os velhos arcônidas.
Mas todos
pensavam, viviam e trabalhavam. Rhodan dissera em certa oportunidade
que Árcon II era um formigueiro cósmico.
Os
arcônidas eram raríssimos. Sempre que surgiam, revelavam o cansaço
típico de sua raça. O cérebro robotizado recorrera a um processo
compulsório de aprendizado hipnótico, mas verificou-se que o
autômato que se orientava por uma programação antiqüíssima
confundia os conceitos de saber e de desempenho físico.
Os
cérebros dos arcônidas, cujos ideais eram muito diferentes,
dificilmente poderiam ser despertados de sua letargia. E, quando isso
acontecesse, o organismo predisposto para a indolência não
conseguia acompanhá-los.
Na
verdade, Árcon estava no fim. As iniciativas que decidiam o destino
do Império partiam de um robô gigante, construído por milhares de
gerações de técnicos e cientistas. Rhodan sabia que a máquina e
seus acessórios ocupavam uma área de 10 mil quilômetros quadrados.
O
supercouraçado Titan fora teleguiado para a extremidade leste do
campo de pouso.
O poderio
corporificado pelo supercouraçado só poderia ser avaliado por quem
dele se aproximasse, vindo de uma distância considerável. Depois de
pousada, a supernave tinha o aspecto de uma montanha esférica de
1.500 metros de altura, cercada no centro por uma protuberância
circular em cujo interior poderia ser abrigada a maior parte das
naves mercantes pousadas em Olp’Duor. Cada um dos dezoito
propulsores da Titan tinha as dimensões de pequenas naves.
No
interior desse corpo esférico feito de aço de Árcon e de energia
solar concentrada e facilmente controlada, oitocentos homens sadios
esperavam, enquanto os setecentos doentes nada sabiam do pouso
realizado em Árcon II.
Fazia
menos de uma hora que o tenente Tanner se encontrava diante do órgão
de fogo, nome que se dava ao instrumento central de controle de tiro.
Os canhões de impulsos e de desintegração aguardavam, no zumbido
dos campos energéticos de orientação e irradiação, escondidos
atrás das escotilhas das torres blindadas, que por enquanto
permaneciam fechadas.
A Titan
estava pronta para entrar em combate, tal qual a Ganymed pousada a
menos de mil metros de distância.
A área
fora fechada hermeticamente para qualquer tipo de tráfego. Apesar
disso as telas dos amplificadores automáticos registravam um número
sempre crescente de seres estranhos, que fitavam o gigante com um
misto de curiosidade e medo.
Até então
só haviam sido construídas duas unidades do tipo Universo. A Titan
era uma delas.
Por isso,
em nenhum lugar o gigante da classe Universo poderia despertar maior
curiosidade que no espaçoporto do segundo planeta de Árcon.
Rhodan
olhou para o relógio. As enormes telas da galeria panorâmica
mostravam o terreno tal qual era: estava atulhado de naves espaciais
de todos os tipos, comandos de robôs e pesada aparelhagem de carga e
descarga.
— O
senhor se enganou, meu caro — disse Rhodan, dirigindo-se a Crest. —
O exame está demorando mais que trinta minutos.
Nesse
instante o rato-castor voltou de sua terceira excursão. O ser dotado
da capacidade da teleportação materializou-se em plena sala de
comando. Quando o rato-castor, de mais ou menos um metro de altura,
subitamente apareceu diante dele, o capitão Everson recuou,
proferindo uma praga.
Gucky
sorriu com seu enorme dente roedor. Depois saltitou sobre as curtas
patas traseiras em direção ao painel principal.
— Então?
— perguntou Rhodan laconicamente.
Com um
gemido, Gucky subiu à poltrona mais próxima. Suas orelhas redondas
de rato puseram-se de pé para ouvir o que os outros diziam.
— As
coisas vão mal, chefe. Ainda estão naquela clínica. Quatro
arcônidas os examinam, juntamente com alguns robôs. Ao que parece,
não têm a intenção de fazer-lhes mal. Apareci por alguns
segundos. Eles azularam.
Gucky
soltou uma risada estridente. Na região da nuca as cerdas macias de
seu pêlo marrom-avermelhado puseram-se de pé.
— Não
quero que você use o vocabulário baixo de Bell — resmungou
Rhodan. — Azularam... ora, onde já se ouviu uma coisa dessa!
— Pois
bem, deram o fora a cento e vinte por hora — chiou Gucky. — Foi
uma brincadeirinha e tanto.
— Crest,
faça o favor de dar um jeito nas maneiras relaxadas deste oficial —
ordenou Rhodan.
— Tenente
Guck
— chiou o rato-castor em tom de entusiasmo. — Sou eu. É assim
que eu gosto. Não quero que ninguém me chame de Gucky quando estou
em serviço.
Rhodan
reprimiu um sorriso. Subitamente o rato-castor estremeceu. Seus
grandes olhos de veludo enrijeceram.
— Thora
está chegando — disse com a voz monótona. — Sinto seus
impulsos. Ainda está doente.
Rhodan
voltou a olhar para o relógio. Os oito doentes ainda não haviam
voltado. Fazia uma hora que o comando de robôs viera buscá-los.
A
campainha do telecomunicador que funcionava à velocidade da luz deu
um sinal. O coronel Freyt, comandante do couraçado Ganymed, apareceu
na tela.
— Um
veículo grande surgiu em nossas telas. Os doentes estão voltando.
Além disso, uma coisa gigantesca com braços e dedos para segurar
está se aproximando. Parece uma máquina de carregar. Peço
instruções.
— Aguarde.
O cérebro entrará em contato conosco. Pedi água e mantimentos.
Temos necessidade absoluta de reforçar nossas provisões antes do
pouso. O senhor precisa de mantimentos para quinhentas pessoas. Pegue
tudo que possa conseguir. O cérebro prometeu elaborar uma lista de
provisões. Aquela máquina trabalha com uma precisão enorme; por
isso deverão carregar tudo de que uma grande tripulação possa
precisar.
Freyt
contorceu os lábios. Uma expressão de repugnância parecia brilhar
em seus olhos.
— São
alimentos sintéticos. Não é a minha predileção.
— Outros
povos, outros costumes. O senhor não faz a menor idéia do que a
química arcônida consegue fabricar por meio de excelente
fotossíntese. Por que vamos percorrer o caminho mais longo do animal
de corte, se podemos produzir diretamente uma carne melhor, mais pura
e obtida de maneira mais humana? Não acredite que lhe oferecerão
alimentos de aspecto repugnante. Os habitantes de Árcon sabem viver,
e eles se alimentam há milênios com os produtos da fotossíntese
artificial. Portanto, abra as escotilhas de carga e ponha os robôs
para trabalhar.
Freyt pôs
a mão no boné. A tela apagou-se. Dali a dez minutos o comando
robotizado de escolta anunciou sua presença diante da comporta
número 28. Thora, Bell e mais seis homens foram entregues sem o
menor comentário.
Rhodan
correu para baixo. Respirando pesadamente, inclinou-se sobre o rosto
pálido e emagrecido da jovem arcônida. Thora parecia encantadora no
seu desamparo, mas sua respiração era tranqüila.
— Está
mergulhada em sono profundo — constatou o Professor Kärner. —
Quer dizer que o resultado do exame foi negativo. E agora?
Sem dizer
uma palavra Rhodan colocou sobre os braços o corpo leve de Thora.
Ainda sem dizer uma palavra, a colocou sobre uma confortável cama
pneumática da clínica da nave. Recebera um quarto individual. No
recinto ao lado dormiam Anne Sloane, Ishy Matsu e uma moça, Betty
Toufry.
Constantemente
havia médicos de plantão. Se os mutantes bem dotados dessem curso
às suas forças, a nave poderia ser destruída.
— Faça
o favor de cuidar de Thora — disse Perry abatido e com a voz baixa.
A
toxicóloga Tina Sarbowna lançou-lhe um olhar perscrutador.
— O
senhor bem que precisaria de algumas horas de descanso — disse a
mulher magra. — Por que vai transformar-se num feixe de nervos?
Isso não ajudará ninguém.
— Tem
razão. Dormirei um pouco — disse Rhodan distraído.
Dali a
cinco minutos, as máquinas de carregamento também surgiram diante
das comportas inferiores da Titan. Uma atividade febril teve início.
Os gritos estridentes de Tifflor foram ouvidos em toda parte. Fora
destacado para desempenhar as funções de oficial intendente.
Grandes
quantidades de alimentos de todos os tipos foram colocadas a bordo.
Seguiram-se as peças de reposição, os medicamentos, os trajes
espaciais, os robôs de guerra, os veículos de superfície e os
blindados antigravitacionais. A Titan foi recheada por máquinas
incansáveis: parecia até que teria de conquistar um império
estelar.
O
carregamento dos suprimentos durou quatro horas, segundo o relógio
de bordo. Durante esse tempo, o cérebro não entrou em contato com a
nave. Rhodan começou a inquietar-se.
A Ganymed
anunciou que estava pronta para decolar. Freyt ainda informou o
seguinte:
— Colocaram
a bordo mais de duzentos objetos medonhos. As instruções de uso
também nos foram entregues. Trata-se de blindados flutuantes, que se
deslocam sobre o campo energético, a pouco menos de um metro sobre a
superfície do solo. Estão equipados com canhões de radiações.
Ainda recebemos mil e quinhentos robôs de guerra. São iguais aos
que nos deram tanto trabalho logo após a fuga. No mais, estou
preparado para a decolagem.
Rhodan
respondeu:
— Estamo-nos
transformando em verdadeiros aliados. Estou curioso para ver a conta
final. Aguarde instruções minhas. Espero receber alguma notícia
daqui a pouco. Fim.
No momento
em que Rhodan desligou, chegou o chamado do Regente robotizado. Na
tela especial do intercomunicador, surgiu o jogo de cores que
confundia a mente.
Pouco
depois reconheceu-se a cúpula de aço que abrigava a chave mestra do
aparelho.
O autômato
passou diretamente ao assunto.
— A cura
dos doentes é impossível — disse a voz retumbante vinda dos
alto-falantes. — Não conseguimos neutralizar a toxina. Os
medicamentos de que dispomos falharam, pois não se trata de danos
causados por germes. Procure colher novos dados em Moof. Decole
imediatamente. As coordenadas do salto ainda lhe serão fornecidas. O
sol Moof fica a trinta e seis anos-luz. Atenção para estes
esclarecimentos:
“Ordenei
a destruição do planeta por não ter condições de submeter à
minha vontade seres vivos dotados de capacidades supersensoriais. Os
dados fornecidos pelo senhor modificaram a situação. Pela presente
concedo-lhe plenos poderes para intervir nos acontecimentos segundo
seu arbítrio. Decolem e ordenem o regresso do almirante Vetron,
fazendo uso do poder de comando que ora lhe é concedido. O ataque da
frota já foi iniciado.”
— É uma
loucura! — gemeu Rhodan no microfone.
— É uma
ação razoável sob os pressupostos anteriores. Mas face ao
aparecimento do senhor, perde sua finalidade. Mantenha-me informado
sobre a situação. Exijo a rendição incondicional dos moofs. Se
esses seres estiverem em contato com os aras, deixo a seu critério a
decisão sobre as medidas que deverão ser tomadas. Apresse-se. Fim.
— E os
doentes? — gritou Rhodan.
— Devemos
considerá-los perdidos.
— Rapaz!
— exclamou Everson perplexo. — Isso que é laconismo. Numa
situação desta, eu teria realizado umas vinte conferências. Eu...
— A
programação está chegando — soou a voz de Tiff nos
alto-falantes.
Fora
incumbido do controle do cérebro central da nave.
Os dados
sobre o salto foram chegando. Vieram sob a forma de um impulso de
apenas oito segundos. Seguiu-se um breve chiado.
— Aí
estão os dados sobre o planeta — disse Rhodan em tom amargurado. —
Receio que um dia isso acabe com os meus nervos. Prepare tudo para a
decolagem, Everson. Suspender a prontidão de combate.
O coronel
Freyt voltou a chamar. Informou que também acabara de receber os
dados.

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