quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-044 - O Homem e o Monstro - K. H. Scheer [parte 1]



Autor
K. H. SCHEER


Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
O produto do laboratório ataca — e o mistério
dos moofs encontra sua solução.

A história da Terceira Potência em poucas palavras:

1971 — O foguete Stardust chega à Lua, e Perry Rhodan encontra a nave exploradora dos arcônidas, que realizou um pouso de emergência (vol. 1).
1972 — Criação da Terceira Potência, que enfrenta a resistência das grandes potências terrenas, e rechaça as tentativas de invasão vindas do espaço (vols. 2 a 9).
1975 — Primeira intervenção da Terceira Potência nos acontecimentos galácticos. Perry Rhodan defronta-se com os tópsidas e procura solucionar o mistério galáctico (vols. 10 a 18).
1976 — A Stardust-III descobre o planeta Peregrino, e Perry Rhodan alcança o dom da imortalidade relativa (vol. 19).
1980 — Perry Rhodan regressa à Terra e luta por Vênus (vols. 20 a 24).
1981 — Ataque do Supercrânio (vols. 25 a 27).
1982/1983 — Chegada dos saltadores, que pretendem eliminar a concorrência potencial da Terra (vols. 28 a 37).
1984 — Primeiro contato de Perry Rhodan com Árcon e sua nomeação como plenipotenciário do cérebro positrônico que exerce o governo do grupo estelar M-13 (vols. 38 a 43).
Quem quiser continuar a ser reconhecido como plenipotenciário do governante arcônida, não terá outra alternativa senão aceitar e executar as ordens do mesmo.
Perry Rhodan sabe disso, e seu psicólogo de robôs ainda o fortalece nessa convicção.
E a ordem do cérebro positrônico diz que Rhodan deve dirigir-se ao planeta Moof onde se verifica o encontro entre O Homem e o Monstro...



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Comandante da Titan e administrador da Terra.

Gucky — Um ser que, quando em combate, é chamado de tenente Gucky.

Almirante Vetron — Cuja frota recebeu a tarefa de destruir o mundo nativo dos moofs.

Major Chaney — Que comanda uma perigosa missão de tropas de desembarque.

Dr. Orson Certch — Especialista em robôs, sua atividade intelectual.

Trorth — Uma criatura amável que gosta de fazer advertências.

Capitão Marcus Everson — Imediato da Titan.

Os rostos dos homens, que estavam parados por ali, pareciam petrificados. Atrás deles acotovelavam-se os robôs pequenos e ágeis da divisão médica. Vez por outra, ouvia-se um tilintar dos instrumentos que, segundo as instruções recebidas, mantinham preparados para uma ação de emergência.
Nas chapas do peito e das costas das preciosas máquinas, brilhava o sinal do serviço médico. Nunca falhavam e não conheciam o cansaço; foram construídos especialmente para prestar ajuda a homens doentes.
Seus braços instrumentais finos e multi-articulados estavam prontos para entrar em ação. Apenas aguardavam as ordens dos médicos e cientistas.
As instruções ainda não vieram. Aqueles homens com os rostos que pareciam máscaras, contemplaram o espetáculo de pavor. Olhavam pela parede de plástico transparente da sala contígua. Um engenheiro da seção de climatização e purificação de ar surgiu na tela. Sua mão direita segurava uma das chaves da aparelhagem de distribuição. Os alto-falantes acoplados ao aparelho transmitiam o cantar e o chiar dos rolos de turbina.
Tudo estava preparado para o passo decisivo; mas havia um homem que ainda não conseguira decidir-se.
Perry Rhodan, comandante da expedição de Árcon e primeiro governante da União dos Povos Terranos apoiava ambas as mãos contra a parede divisória, como se quisesse envolver os setecentos homens marcados pelo destino com seus braços protetores.
Aquilo que se desenrolava atrás da parede não era engraçado nem risível. O comportamento de um grupo de homens doentes e desorientados só pode provocar as reações naturais do humor do espectador se este não sabe que se encontra diante de um aglomerado de sofredores.
E a bordo do supercouraçado Titan não havia ninguém que não estivesse informado sobre as causas daquelas palhaçadas.
Hipereuforia, era assim que os médicos designavam aquele estado. Era um bem-estar doentio, uma descontração embriagadora, um mergulho inconsciente e involuntário na confusão dos impulsos cerebrais incontroláveis, que obrigavam as pernas e os braços a executar tresloucados movimentos de dança. As bocas emitiam balbucios de bebê e cantorias estridentes.
Parecia uma embriaguez total e bem-aventurada; na verdade, porém, não passava de perigosa imersão nos abismos infindáveis da loucura.
Rhodan contemplou a dança, o canto e os gritos dos doentes com uma sensação de fraqueza. Homens sérios, galatonautas que sabiam raciocinar objetivamente, técnicos e cientistas bem qualificados haviam sido transformados em loucos tagarelas. Eram setecentos homens esquecidos dos deveres que o serviço lhes impunha. Alguma coisa os transformara naquilo que eram neste instante: um grupo de pobres criaturas desamparadas.
Faça alguma coisa, faça alguma coisa! — exclamou Rhodan com um gemido.
O biólogo Janus van Orgter mordeu o lábio inferior. A toxicóloga Tina Sarbowna perdera sua mordacidade agressiva. Naquele instante era apenas um ser humano, uma mulher sensível, uma cientista que sofria por não saber o que fazer. Sua figura ossuda parecia inclinar-se sob o peso dos cabelos grisalhos. Lançou um olhar estarrecido para a sala contígua.
O grande cirurgião Prof. Kärner, médico-chefe da Titan, abandonou numa fração de segundo a idéia de cirurgia cerebral. Seria inútil. Kärner não poderia fazer nada por essas criaturas; ninguém poderia. “Ali estão dançando, berrando e uivando os melhores dos meus homens”, pensou Rhodan, “e isso, apenas porque durante o pouco tempo no planeta Honur não resistiram à tentação de segurar nos braços aqueles animaizinhos encantadores, alegrando-se com sua tagarelice.”
Ninguém poderia deixar de apaixonar-se por aquelas criaturas de apenas trinta centímetros de altura, que tinham o formato de ursinho. Não havia ninguém que não disputasse o prazer de acariciar o pêlo macio dos maravilhosos nonus.
O coração embrutecido do mais intolerante dos militares amolecia quando aqueles ursinhos estendiam as patas rosadas e franziam o nariz esquisito. Os nonus eram adoráveis demais. E não era por sua culpa que seus pêlos largavam uma secreção criminosa. Nenhum ser vivo pode ser responsabilizado pelas qualidades que a natureza lhe confere.
Os setecentos tripulantes do supercouraçado Titan tiveram azar; apenas isso. Sob o ponto de vista puramente objetivo, eles mesmos eram os culpados pela infecção ou intoxicação, pois num mundo estranho não se deve tocar, muito menos comer qualquer coisa que não tenha sido cuidadosamente examinada.
Este fato obrigou Rhodan a realizar um auto-diagnóstico. Formulou pesadas auto-recriminações. Ele, que era o chefe supremo, havia recomendado aos seus homens que adquirissem alguns dos encantadores ursinhos em mãos dos nativos do planeta Honur. Seriam uma espécie de mascotes. Uma coisa que pudesse distrair a gente não era nada má a bordo do supercouraçado de 1.500 metros de diâmetro equipado com as armas mais potentes da Galáxia.
Mas os mascotes tiveram um efeito contrário ao desejado. Algum poder estranho havia abusado daqueles ursinhos inocentes. Alguém fizera muita questão de inutilizar a tripulação da Titan de uma forma bem original. Esse alguém contara com o amor que o homem costuma dedicar ao animal; transformara uma criatura inofensiva numa arma.
Rhodan pousara naquele mundo solitário do grupo estelar M-13 apenas para aguardar tranqüilamente, num ponto afastado das numerosas rotas de naves espaciais, a chegada da Ganymed. O comandante recebera instruções para trazer homens descansados e equipamentos da Terra, que ficava a 34 mil anos-luz.
A situação do Grande Império, que de algum tempo para cá não era governado pelos arcônidas, mas por um gigantesco cérebro robotizado, não permitiria que a Titan ficasse com uma tripulação inferior à normal.
Por isso Rhodan esperou até que os nativos, pacatos e primitivos, aparecessem com aqueles lindos animaizinhos domésticos. Só mais tarde, depois da pesada batalha travada em Honur, descobriu-se que aqueles animais eram criados por inteligências desconhecidas. O veneno por eles produzido era transformado, através de uma reação química, num dos tóxicos mais nocivos da Galáxia.
Fora esta a primeira indicação, uma indicação que apontava para seres inteligentes que Crest, o arcônida, chamava de aras. A única coisa que se sabia desses seres esquisitos era que haviam criado um monopólio ainda mais esquisito.
Os aras consideravam-se os médicos da Galáxia. Descobrira-se apenas uns poucos seres dessa raça, mas estes não puderam ser interrogados.
Rhodan rememorou os acontecimentos mais recentes.
Depois que o coronel Freyt havia transferido oitocentos homens para a Titan, a nave voltou a ter condições de navegabilidade e de combate, muito embora as quarenta naves auxiliares do gigante espacial não pudessem ser tripuladas. Ainda acontecia que os colaboradores mais importantes de Rhodan haviam adoecido. Nem mesmo os homens e as mulheres do exército de mutantes poderiam desconfiar de que aqueles animaizinhos fossem tão perigosos.
Só Rhodan, Crest, o arcônida, Gucky, o ser peludo, o mutante Wuriu Sengu e o tenente Tifflor escaparam ao desastre, isso porque na época em que se verificou a intoxicação estavam fora da nave, realizando um vôo de patrulhamento. Eram as únicas pessoas sadias em meio à tripulação.
Outros homens, treinados nos combates travados no setor de Vega, foram colocados a bordo. Embora todos eles já tivessem passado por um processo arcônida de aprendizagem hipnótica, havia necessidade de familiarizá-los com as instalações do supercouraçado. Afinal, a Titan era o produto mais recente da construção espaçonáutica do Império.
Subitamente uma grande peça desprendeu-se do chão da sala dos tripulantes, cambaleou para o alto e caiu com um estrondo. Um homem soltou um grito estridente. Fora ferido no pé.
Isto é o fim — exclamou o Professor Kärner, perplexo. — Pelo amor de Deus! Se os mutantes utilizarem suas faculdades, teremos um desastre. Foi o telecineta Tama Yokida. Vi quando se concentrou. Dê a ordem!
O rosto de Rhodan apresentou uma expressão martirizada. Nos últimos dias, seu corpo alto ficara ligeiramente encurvado. Aquilo que os cientistas de bordo consideravam necessário repugnava ao fundo de sua alma.
Isso é absolutamente necessário? — cochichou. — Professor, afinal não posso fazer uma coisa dessas com meus homens.
O senhor pode e deve — interveio Tina Sarbowna com sua voz áspera e grave. Tinha um timbre que impunha respeito. Era a voz de uma mulher que conquistara seu lugar através do trabalho duro e do enorme saber.
Continuo convicto de que se trata de intoxicação. Não sabemos, ou melhor, ainda não sabemos, quais são os centros nervosos afetados. Uma coisa, porém, é certa: os doentes recusam qualquer tipo de alimento ou bebida. O definhamento físico já começou. Quer que seus comandados morram de fome?
Rhodan tirou as mãos suadas da parede transparente. Duas impressões que foram se evaporando ficaram no lugar das mesmas.
Stiller!
O engenheiro que aparecia na tela levantou a cabeça.
Comece. Mas não ande muito depressa.
Um estalido de chave interrompeu o silêncio. Vapores brancos saíram dos grandes insufladores de ar da sala dos tripulantes. Tangidos pela correnteza de ar e, em pequenas nuvens, começaram a envolver as cabeças convulsionadas e as bocas barulhentas.
O gás narcótico, completamente inofensivo, mas de ação extremamente rápida, permaneceu no recinto. Os exaustores do sistema de condicionamento de ar, cujas sereias de alarma começaram a uivar, haviam sido desligados por Stiller.
Os berros e a cantoria foram diminuindo. Numa sucessão cada vez mais rápida, os doentes foram mergulhando num sono benéfico. Reginald Bell, lugar-tenente de Rhodan, parecia ter um momento de lucidez antes de mergulhar na inconsciência. Até parecia que o infalível instinto para o perigo de que aquele homem baixote era dotado se rebelava.
A passos cambaleantes, caminhou em direção à parede transparente, abriu os lábios e, com uma expressão de espanto nos olhos azuis, caiu ao chão.
O silêncio passou a reinar na grande sala dos tripulantes da Titan. A mesma coisa aconteceu nos outros setores em que os doentes haviam sido trancados. As mulheres da tripulação haviam sido abrigadas no amplo camarote de Thora. Também lá, os risos insensatos cessaram.
Os exaustores voltaram a funcionar. Dentro de poucos segundos, aspiraram as nuvens de gás. Um novo suprimento de oxigênio foi introduzido nas salas.
Rhodan afastou-se com os ombros encurvados. Mais atrás os homens da equipe técnica estavam abrindo as escotilhas de segurança. Os robôs médicos começaram a precipitar-se para dentro da sala. Homens pertencentes à tripulação recém-chegada a bordo corriam com camas de campanha. A grande enfermaria da nave não poderia acolher todos os doentes.
Depois de libertados, os nonus se haviam espalhado para os quatro cantos. Também dos nativos, que haviam regredido a um nível de vida primitivo, não se via mais nada. Até parecia que jamais houvera vida em Honur.
E agora? — perguntou Rhodan em tom apático. — Já fizemos sua vontade. E agora?
Crest, o arcônida, adiantou-se. Seu rosto velho com uma expressão tão jovem estava cortado de rugas. Seus cabelos brancos brilhavam à luz difusa das lâmpadas.
Salte de volta para o sistema de Árcon — recomendou com a voz tranqüila. — Se houver um meio de ajudar essa gente, só poderá ser lá. Seria inútil voar à Terra. Os cientistas de seu planeta já possuem o saber médico da minha raça. E não podem fazer nada. A única esperança que nos resta é que talvez em Árcon tenham sido adquiridos novos conhecimentos.
O rosto de Rhodan espelhou a resistência interior.
Árcon! — disse, falando entre os dentes. — O senhor só pode estar sonhando, meu caro. Sua raça degenerada e imprestável pode ter feito qualquer coisa, menos realizar pesquisas que pudessem levar à descoberta de novos medicamentos. Já não têm a menor capacidade de agir.
Apesar disso deve tentar — disse Crest com a voz débil.
Quer que o cérebro robotizado nos tire a Titan, que conquistamos com tanto trabalho? — perguntou Rhodan. — Por enquanto meu tratado com o autômato está em vigor. Por esse tratado, o supercouraçado retirado de Árcon III é nosso, já que fizemos alguma coisa por ele. Mas, o que acontecerá se penetrarmos na área submetida à influência imediata do cérebro? O senhor pode responsabilizar-se pelos atos de uma máquina? Estaria em condições de formular um prognóstico bem fundamentado? Não acredito.
Não se amargure — respondeu Crest. — A Titan é sua. Mandei fazer um levantamento estatístico da situação.
Muito bem! Esse levantamento deve ter por fim calcular com que força devemos tossir para produzir um empuxo de 3 miligramas.
Os cientistas olharam-se em silêncio. O chefe estava próximo a um esgotamento nervoso. De repente, tornou-se muito tranqüilo e disse:
O que pretende fazer?
Kärner respirou aliviado e disse:
Iniciaremos imediatamente a alimentação artificial e lançaremos mão de injeções, para que os doentes continuem mergulhados num sono profundo. Com isso removemos o perigo imediato. Enquanto os doentes estiverem dormindo, faremos o que estiver ao nosso alcance para realizar uma identificação mais precisa dos sintomas da moléstia. As análises químicas e biológicas estão em andamento. Verificaremos se a argono-hexilamina age como um tóxico qualquer, ou se produz a ativação das toxinas normais resultantes do metabolismo orgânico. Quando tivermos descoberto isso, poderemos agir com maior eficiência. Por enquanto teremos de contentar-nos com o fato de que os homens estão dormindo.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça. Naquela fase dos acontecimentos não havia mais nada a dizer. Lançou ainda um olhar para a sala dos tripulantes. Homens e robôs estavam ocupados, montando as camas de campanha.
O doutor Certch quer falar-lhe com urgência — rangeu a voz saída de um alto-falante.
Rhodan levantou a cabeça. A tela exibia o rosto magro e cansado de um jovem. Há poucos meses o tenente Julian Tifflor nem de longe contaria com a possibilidade de pertencer ao estado-maior galatonáutico do supercouraçado. Seus olhos azuis haviam perdido a expressão sonhadora. A enorme carga de responsabilidade transformava até mesmo um jovem de vinte anos num oficial cônscio de sua missão.
Certch? — perguntou Rhodan em tom distraído. — Certch?
É o novo psicólogo de robôs — lembrou Tiff. — Para sermos mais precisos, a área dele é um setor da logística matemática.
Ah, sim. Já vou subir. Mande-o esperar na sala de comando.
Os médicos já se haviam retirado. De repente, Rhodan sentiu-se só e abandonado. Lançou mais um olhar para os companheiros inconscientes. Provavelmente era este o melhor meio de protegê-los contra quaisquer lesões corporais.
Rhodan sentia-se cansado. Foi caminhando em direção ao elevador antigravitacional mais próximo. No momento em que saiu do corredor que dava para a sala dos tripulantes, viu-se completamente só. Naquela gigantesca nave espacial mal se notava a presença de oitocentos homens. Poderiam com facilidade esconder-se na gigantesca esfera de 1.500 metros de diâmetro, dividida em inúmeros compartimentos.

O corpo enorme e pesado de Everson fazia uma figura um tanto feliz na poltrona de piloto de encosto alto. Afinal, aquela poltrona fora dimensionada para um arcônida, e por isso não combinava com os contornos da figura hercúlea do capitão Everson.
Primeiro olhou para o relógio, depois para as telas gigantes de observação global e, finalmente, para as platinas novinhas em folha de seu uniforme.

* * *

Fazia poucas horas que o tenente Everson fora promovido a capitão. Era um motivo mais que suficiente para olhar vez por outra e disfarçadamente para as platinas.
Pigarreou e contemplou os homens apressados que guarneciam a sala de comando. A Titan estava pronta para decolar. Lá embaixo os conversores de alta potência da usina de força já rugiam em ponto morto. Os propulsores ainda estavam em silêncio.
Não é possível que me deixem sentado aqui sem mais esta nem aquela — refletiu Everson em voz alta.
O tenente Tanner, um homem magro, moreno, vivo e dotado de humor picante, permitiu-se um sorriso fugaz. O capitão Everson era um monstro de fleuma em figura de homem. Os tripulantes afirmavam com toda seriedade que o único meio de incutir alguma vida no capitão seria a privação total das rações alimentares.
Por ocasião de sua primeira atuação em combate, Marcus Everson provara que nem de longe essa afirmativa correspondia à realidade. Conforme as circunstâncias, o galatonauta que Rhodan acabara de guindar ao posto de imediato poderia transformar-se numa torrente furiosa. Mas isso era outro assunto.
Atenção! — gritou uma voz áspera e prolongada.
Os homens viraram-se e ficaram em posição de sentido. Everson contorceu o rosto numa expressão de dor, fechou os olhos, levou os dedos grossos ostensivamente ao ouvido. Lançou um olhar de recriminação ao homem que acabara de soltar o grito. Depois foi o fim do mundo.
Ao anunciar que a nave estava preparada para decolar, Everson imitou o ruído de um foguete em disparada. Perry Rhodan, que acabara de entrar na sala de comando, olhou para seu imediato.
Muito obrigado; pode continuar — disse.
Everson fungou e deixou-se cair na poltrona.
Trabalho bem feito, rapaz — disse num auto-elogio cochichado.
O velho ainda está abanando as orelhas — disse Tanner em tom irônico. — Já concluí a programação. Só quero ver esta canoa-gigante levantar do chão. É inacreditável que uma coisa destas possa voar.
Pois eu consigo — afirmou Everson numa modéstia compenetrada. — Isto é, posso tomar as medidas que a façam voar.
Parece que já se controlou — cochichou Tanner.
Subitamente os olhos de Everson assumiram uma expressão vivaz. Seu olhar foi rápido, mas abrangeu tudo.
OK. Já estava na hora. Isso lhe caiu sobre os nervos. O que deseja o Dr. Certch?
Tanner lançou um olhar perscrutador para o homenzinho excêntrico com o gigantesco crânio totalmente calvo.
O Dr. Orson Certch escolhera a profissão mais estranha da área das ciências modernas. Sempre houve psicólogos, mas estes costumavam preocupar-se com a vida íntima dos seres humanos.
Certch também era psicólogo, mas seu campo de atuação consistia no ambíguo substrato intelectual e sentimental dos robôs.
Surpreso, Everson sacudiu a pesada cabeça. As bochechas carnudas começaram a balançar.
Rhodan desviou-se para o lado, a fim de fugir da coisa que se aproximava apressadamente. O Dr. Certch girou sobre os calcanhares, para voltar a investir contra o comandante com a cabeça esticada para a frente e o dedo em riste.
Ainda bem que o encontrei — gritou a voz aguda. — Tenho necessidade absoluta de falar imediatamente com o senhor, necessidade absoluta.
A mão pequena e magra correu com uma velocidade incrível sobre os numerosos bolsos externos do uniforme. Finalmente Certch encontrou as anotações embaixo do cinto largo. O psicólogo de robôs chegava à altura do estômago de Rhodan. Mas, se havia alguém que pudesse formular uma previsão futura sobre os atos de uma máquina sem alma, esse alguém era o homenzinho com a gigantesca calva.
Vamos logo! — insistiu Certch, depois de ter sentado três vezes para levantar-se em seguida.
Desta vez também Rhodan tomou lugar numa poltrona articulada que ficava atrás da grande calculadora do setor B.
A fala entrecortada de Certch levava seus semelhantes ao desespero.
Rhodan começou a impacientar-se. Para Certch o relacionamento entre um comandante e seus colaboradores deve ser encarado como um tipo de amizade briguenta.
Crest me pediu que fizesse uns cálculos — chiou a voz de Certch. — É interessante! É perigoso! Preste atenção. Se executar o plano de voar para Árcon, saberemos o que vem a ser uma boa surpresa. O robô vai golpear, e o golpe será mais rápido e doloroso do que qualquer um de nós pode imaginar.
O sorriso ligeiro abandonou o rosto de Rhodan. Seu espírito despertou. Apenas os olhos pareciam indagar. Perturbado, Certch baixou o olhar, mas logo ergueu a cabeça. Mais uma vez pôs o dedo em riste.
O senhor quer saber por quê, não é? Pois a resposta é simples, mesmo para um leigo. Temos setecentos doentes a bordo, inclusive os mutantes. Por enquanto a cura é impossível. Se considerarmos o fato de que em Árcon também não existe nenhum remédio, a reação da máquina pode ser prevista com cem por cento de certeza. O cérebro sabe que os êxitos alcançados pelo senhor foram devidos principalmente à atuação dos mutantes. O robô possui uma nave do tipo da Titan. A lógica mecânica, de estrutura puramente matemática, dirá ao autômato que o senhor se tornou inútil, ou ao menos que vale menos. Se não contar com os recursos especiais de que dispunha, será considerado apenas um colaborador como qualquer outro. Entendido?
Os olhos de Certch piscaram nervosamente. Mais uma vez Rhodan não respondeu.
Pois bem, está entendido. O único ponto positivo de que o senhor dispõe no esquema dos cálculos positrônicos é sua rápida capacidade de decisão. O robô suspeita da existência de armas secretas. Mas uma simples suspeita não levará a uma valorização positiva no conjunto da interpretação. Quer dizer que a única coisa que resta será sua energia. E esta o colocará pouco acima do padrão de classificação de um naat ou de qualquer outra inteligência. E isso é muito pouco para que o senhor possa se arriscar a penetrar no campo de atuação direta do cérebro robotizado. É só. Não se meta nisso. Faço questão de preveni-lo.
Com um movimento rápido, Certch saltou da poltrona articulada. Os óculos desapareceram de cima do enorme nariz.
Um instante!
O psicólogo de robôs estacou.
Everson e Tanner, aquele par tão diferente sem dizer uma palavra. Tiff mantinha-se mais ao longe; estava pálido. De repente, a atmosfera na sala de comando se tornara bastante tensa.
Rhodan caminhou lentamente em direção ao cientista. Parou perto dele.
Entendo alguma coisa de logística positrônica, doutor. Acredito que sua interpretação da conduta do grande autômato se funda inteiramente na suposição de que em Árcon não existe nenhum remédio contra a doença contraída por nossos homens.
Correto! — confirmou o homenzinho.
O que acontecerá se houver um meio de curar a doença? E se o robô tiver conhecimento dessa situação?
Modificação de cento e oitenta graus na situação, a nosso favor.
Muito obrigado, doutor. Sabemos perfeitamente que em Árcon não se conhece qualquer soro contra essa doença. Não precisamos discutir mais sobre este ponto. Admitamos como certa a pior das hipóteses. Conhece a lei de Ulterman sobre a programação dos atos com base nos cálculos cibernéticos?
Certch começou a desconfiar. Encolheu mais um pouco.
Eu também a conheço. Vamos agir de acordo com ela, capitão Everson.
O gigante saltou do assento de piloto. Seu rosto não tinha mais nada de suave.
Transmita uma ordem ao médico-chefe. Thora, Bell e mais seis dos tripulantes doentes devem ser mantidos num sono leve. Quero que essas oito pessoas possam ser despertadas a qualquer momento. É só.
Everson voltou-se para o intercomunicador de bordo. O Dr. Certch parecia espantado.
O que pretende fazer? — perguntou com a voz gutural.
Pretendo agir de acordo com a lei de Ulterman — informou Rhodan. — Apresentaremos oito doentes. Os outros serão escondidos. Gucky e Sengu farão com que o robô receba algumas provas de suas capacidades extraordinárias. O robô não sabe que recebemos oitocentos tripulantes novos. Graças ao compensador estrutural, a breve excursão de Freyt à Terra não chegou ao conhecimento do robô. Devemos isso aos mercadores galácticos, que criaram um aparelho maravilhoso como este. Decolamos com setecentos homens e com setecentos homens regressaremos. É muito claro, não acha? Apresentaremos oito doentes. Não são tão importantes que possam representar um fator negativo na avaliação conjunta do nosso auxílio. Saberemos se existe algum remédio. Queira apontar qualquer detalhe que eu possa ter esquecido, Dr. Certch.
O cientista hesitou. Depois de algum tempo formulou a pergunta:
Tem certeza absoluta de que a Ganymed não foi localizada? Um salto pelo hiperespaço pode ser medido por meio das alterações estruturais que...
Perfeitamente. Acontece que o compensador constitui uma barreira absoluta a qualquer localização. Mais algum detalhe?
Nenhum — resmungou Certch. — Não há nenhuma falha, desde que existam os pressupostos que o senhor acaba de apontar. Os oito doentes não influirão muito. Serão um fator de pouca importância. Se fosse um robô, não gostaria de ter o senhor como inimigo. Farei uma revisão dos cálculos.
Rhodan seguiu o homenzinho com os olhos e disse:
Muito obrigado pelo aviso, doutor.
Certch exibiu um ligeiro sorriso e desapareceu.
Decolaremos daqui a dez minutos. Everson, o senhor levantará a nave. Tiff, avise Freyt. Diga-lhe que deve decolar um minuto antes de nós.
Rhodan ficou de pé atrás da poltrona do imediato e controlou as instruções transmitidas por Everson. Garand, o engenheiro-chefe, apareceu na tela por um instante. Seu rosto bochechudo estava banhado de suor.
Os avisos de que tudo estava em ordem, expedidos pelos diversos postos, foram chegando. Receberam a confirmação de Freyt.
Dali a nove minutos, a Ganymed, mostrada na tela, parecia despertar. A nave de 840 metros de comprimento e 200 metros de diâmetro encontrava-se a menos de três quilômetros, apoiada nas aletas de popa.
O furacão de fogo que irrompeu dos bocais de popa transformou o deserto poeirento e pedregoso numa cratera borbulhante. Freyt resolvera não utilizar a aparelhagem de desvio de partículas. Em Honur não havia nada que pudesse ser estragado.
Os alto-falantes do aparelho de captação de ruídos externos transmitiram o som infernal de um fim de mundo. O gigantesco cilindro elevou-se lentamente. O fluxo de impulsos expelido pelos propulsores passou do branco ao azulado, ao violeta, e finalmente tornou-se quase invisível.
Com um salto monstro, a Ganymed disparou para o céu. Um trovejar profundo sacudiu a paisagem desolada. Massas de ar incandescente, que emitiam uma estranha fosforescência, precipitaram-se no vácuo que a Ganymed abriu com sua decolagem apressada. Um furacão uivou, vindo do céu azul. Arrastou consigo massas de pedra liquefeita, para atirá-las ao solo mais adiante, numa turbulência desenfreada.
O couraçado desapareceu.
A decolagem da Titan, nave muitas vezes maior que a Ganymed, representou um aumento tremendo das forças desencadeadas. Os dezoito propulsores gigantescos montados na protuberância equatorial da esfera de 1.500 metros de diâmetro transformaram a área plana do deserto num oceano de lava.
Os homens abandonavam o planeta do sol-anão estranho com o entusiasmo fervoroso de deuses despreocupados. Na decolagem, desenvolveram uma aceleração que os levou ao espaço dentro de apenas quatro segundos.
O que ficou para trás foram massas de ar revolto e um solo borbulhante. Ficaram também os animais encantadores aos quais haviam dado o nome de nonus.
Os homens só haviam levado consigo suas preocupações e angústias. Pouco menos de dez minutos depois de terem mergulhado no espaço, as naves atingiram a velocidade da luz. A programação do autômato de regulagem de salto estava concluída. Árcon, o astro central do Grande Império, ficava apenas a quarenta e sete anos-luz.
Perry Rhodan deu ordens para que a transição através do espaço de cinco dimensões fosse realizada de forma normal. Isso significava que haveria um abalo estrutural facilmente localizável.
Tomara que isso não dê na vista! — murmurou Marcus Everson consigo mesmo, antes que as forças da desmaterialização o atingissem e levassem seu corpo para o campo do irreal.
O sol vermelho de Thatrel transformou-se num disco tremeluzente. Logo desapareceu.

Árcon era o símbolo do poder, a célula-mater do Grande Império, o mundo da raça humanóide dos arcônidas. A iniciativa implacável e pragmática do gigantesco cérebro robotizado voltara a fazer de Árcon aquilo que sempre fora: o centro dominante da Galáxia conhecida.
Nas condições reinantes em Árcon, a penetração de duas grandes naves no espaço normal era um acontecimento corriqueiro. Aqui, onde se formara o ponto de confluência do comércio cósmico, o movimento de naves quase chegava a ser enlouquecedor.
Apesar disso, as naves de Rhodan foram localizadas imediatamente. As cinco mil fortalezas espaciais que formavam o círculo exterior de defesa solicitaram o sinal codificado. Rhodan só pôde transmitir o sinal já superado. Face a isso o cérebro robotizado instalado em Árcon III interveio diretamente.
A primeira surpresa surgiu logo após os primeiros contatos pelo rádio. O autômato, que se designava como o Grande Coordenador ou o Regente permitiu que os dois couraçados penetrassem no sistema interno. Depois Rhodan soube que há cinco dias, tempo padrão local, o mundo destinado ao comércio galático, Árcon II, voltara a ser liberado.
A notícia levou às suposições mais desencontradas a bordo da Titan. Quando Perry Rhodan penetrou pela primeira vez no sistema de Árcon, o grande robô que exercia o governo velava com um cuidado extremo para que ninguém se dirigisse aos três mundos de Árcon. Ao que parecia, nesse meio tempo as graves manifestações de decadência dos arcônidas haviam sido superadas a ponto de que a máquina poderia, sem perda de prestígio, conceder às numerosas raças de astronautas da Via Láctea a permissão de pousar em Árcon, conforme estavam acostumados.
Cruzaram a órbita do quinto planeta do sol Árcon. Mais uma vez pediram um sinal codificado. Os dois couraçados receberam instruções para utilizar o corredor de aproximação interplanetária 32-17. Com o tráfego espacial dessa área, era uma medida perfeitamente normal.
Localização na área verde, noventa e dois graus — soou a voz retumbante saída dos alto-falantes. — São naves grandes, couraçados da classe Império. Três unidades.
Marcus Everson, que desempenhava as funções de co-piloto, virou ligeiro a cabeça. Desconfiado, procurou o olhar de Rhodan.
Naves da classe Império? — fungou o capitão.
Vieram para nos comboiar. Calma a bordo; nada de nervosismo. Atenção, para todos os tripulantes. Não se deixem arrastar a uma ação precipitada. Quando aparecemos aqui pela primeira vez, a situação parecia bem pior. Praticamente fomos obrigados a pousar no quinto planeta. Neste meio tempo fizemos um tratado com o cérebro robotizado. Não se preocupem com as três unidades da frota arcônida. Qualquer nave armada que entre aqui será imediatamente escoltada. Isso resulta do simples instinto de conservação do autômato.
Ouviram a risada de Rhodan no alto-falante. Homens nervosos trocavam olhares preocupados. Tanner, que desempenhava as funções de primeiro-oficial de armas, tirou lentamente os dedos dos botões de acionamento das peças de artilharia.
Não façam nenhuma tolice — voltou a recomendar Rhodan.
As naves se aproximam, estão realizando manobra de adaptação — avisou o tenente Tifflor, que se encontrava na sala de observação.
O dispositivo automático transferiu a ligação. Três objetos brilhantes surgiram nas telas do setor verde.
Rapaz, são três naves da classe Império! — cochichou Everson. — São tripuladas por robôs, chefe?
Só em parte. Há poucos meses o cérebro ainda dependia exclusivamente da tele direção. Foi o que nos valeu. Se naquele tempo o Regente dispusesse de tripulantes capazes e pensantes, dificilmente teríamos escapado com a Titan que acabávamos de roubar.
Everson engasgou. Lançou um olhar de dúvida para o rosto do comandante.
Rhodan não se preocupou mais com as três naves-gigantes, que ainda há pouco tempo seriam consideradas as maiores de sua classe. Mas nesse meio tempo haviam surgido as novas unidades da classe Universo, que tinham 1.500 metros de diâmetro. A Titan era uma delas.
Rhodan sentiu uma ligeira angústia quando se lembrou da empresa tresloucada.
Com a Ganymed, uma nave pequena para as condições arcônidas, penetraram despreocupadamente num sistema solar cujos habitantes já conheciam a navegação espacial a velocidade superior à da luz numa época em que o homem ainda vivia em cavernas.
Rhodan resolvera arriscar o vôo para Árcon porque aqui esperava encontrar ajuda na luta contra o perigo representado pelos saltadores, que se tornara crítico. Além disso, cedera às insistências de Crest e Thora, que depois de uma ausência de treze anos estavam ansiosos para voltar para casa.
Ninguém poderia saber que seis anos antes o imperador de Árcon fora deposto. Muito menos se poderia supor que o gigantesco cérebro robotizado assumira o governo do Império dos Arcônidas.
Rhodan foi obrigado a pousar no quinto planeta, que era um mundo inóspito. Contrariando as instruções do cérebro positrônico, saíra dali numa nave de reconhecimento.
Não conseguira encontrar auxílio em Árcon I, o mundo de cristal. Por isso um almirante do imperador deposto, que ainda conservava a agilidade mental, levou-o a Árcon III juntamente com seu grupo de cinqüenta homens. Lá foram admitidos como força auxiliar.
A fuga com a Titan, uma nave novinha em folha, foi uma história memorável. Com um salto de três anos-luz, conseguiu escapar aos seus perseguidores. Seguiu-se o pouso involuntário no planeta Zalit, cujo ditador foi de opinião que poderia transformar Perry Rhodan num aliado para a luta contra o cérebro robotizado, que se tornara onipotente.
Rhodan mudou de idéia quando percebeu que os habitantes do planeta Zalit se encontravam sob o controle de seres parecidos com medusas, que possuíam dons telepáticos e sugestivos, e que Crest designara como moofs.
Seguiu-se uma luta feroz, cujo resultado favorável fez com que o cérebro robotizado reconhecesse Rhodan. Numa coerência lógica, o robô tentara fazer de Perry seu aliado. Era um ato coerente, pois o cérebro praticamente não dispunha de colaboradores vivos. Rhodan eliminara o perigo dos moofs e, como recompensa, recebera a nave apresada, Titan.
Foi em virtude da situação assim criada que Rhodan resolveu mandar que Freyt fosse à Terra com a Ganymed, uma vez que os setecentos homens que se encontravam a bordo da nave-gigante eram uma tripulação inferior ao normal.
No mundo de Honur, onde se pretendia aguardar tranqüilamente a chegada da nova leva de homens, acabou ocorrendo a intoxicação através daqueles estranhos seres.
E agora penetravam pela segunda vez no sistema de Árcon. Rhodan sentia-se muito preocupado, pois os homens mais experimentados de sua tripulação haviam adoecido. A atuação do cérebro robotizado poderia resultar numa catástrofe, se o mesmo percebesse que os mutantes não estavam em condições de entrar em ação. Rhodan jogou todas as chances numa única cartada.
No momento em que dois dos mundos de Árcon surgiram nas telas do ultralocalizador que funcionava a velocidade superior à da luz, Rhodan lembrou-se dos moofs. Esse assunto fora deixado totalmente de lado depois dos estranhos acontecimentos que se verificaram em Honur.
Quando Rhodan refletia sobre isso, o psicólogo de robôs, Dr. Certch, chamou pelo aparelho de comunicação audiovisual.
É Certch que está falando — foram suas primeiras palavras, totalmente supérfluas. — Disponho de novos dados. Já se deu conta de que o autômato não dará a menor importância às experiências pelas quais passamos? É claro que não o faria se estivesse informado sobre a existência de setecentos doentes a bordo da Titan. Uma vez que o senhor pretende apresentar apenas oito doentes, o cérebro concluirá que não vale a pena desenvolver esforços muito intensos para encontrar um remédio. Pouco lhe importa que oito criaturas insignificantes morram ou não. Não acha que estou com a razão?
Acabo de pensar nisso.
Muito bem. Mas ainda existe o problema dos moofs. Para o cérebro, a remoção desse perigo será muito importante. Afinal, o senhor provou que a revolta dos zalitas foi causada exclusivamente pela atuação dos moofs.
É verdade, e também não é — respondeu Rhodan. — Informei o cérebro de que os moofs nunca teriam agido assim por sua livre e espontânea vontade. O feitio orgânico desses seres inteligentes basta para impedi-los de exercerem uma influência decisiva na política galáctica. Atrás dos moofs há outras inteligências, que praticamente abusam desses seres.
É aí que eu quero chegar. Não acredito que o robô ainda não percebeu isso. A rapidez com que o cérebro permitiu nossa entrada é espantosa. Recebemos licença de pousar. Daí se conclui que estão querendo algo do senhor. Uma vez que dispõe de uma tripulação apta a entrar em combate na nave mais poderosa de todos os tempos, pretenderão que o senhor, ou melhor nós, executemos outra missão, já que o senhor se obrigou a defender os interesses do Grande Império. Prepare-se para ver o robô liquidar o problema da doença com uma observação muito ligeira. Considerará perdidos os oito homens. Isso resulta da lógica positrônica, que não conhece sentimentos.
Cheguei à conclusão de que seremos imediatamente mandados de volta ao espaço, a fim de liquidar em definitivo o perigo dos moofs. Afinal, o cérebro está convencido de que ainda dispomos do exército de mutantes. Acredito que receberemos ordens para nos dirigirmos ao mundo daqueles monstros. E nem pense em recusar obediência a esta ordem em meio a esta gigantesca fortaleza espacial. A fuga que empreendeu há algum tempo foi um golpe de surpresa. Não conseguirá repetir a façanha.”
Compreendi, Dr. Certch — disse Rhodan. — Muito obrigado. Já me lembrei disso. O que diria se eu tivesse a intenção de me dirigir ao mundo dos moofs?
Seria uma surpresa — disse Certch em tom de perplexidade.
Não parece que seria um procedimento lógico? Não dispomos da menor indicação sobre a atuação desses seres que Crest chama de aras. Em minha opinião são responsáveis por tudo, inclusive pela revolução que eclodiu em Zalit. Logo, será apenas natural que procuremos desvendar o mistério no mundo dos moofs. Afinal, com o logro que pretendo pregar ao cérebro não poderei fazer com que ele conclua necessariamente que devemos preocupar-nos antes de mais nada com os médicos galácticos. Para isso teria de apresentar setecentos doentes e não apenas oito.
Certch respondeu:
Pelo amor de Deus, não fale nos setecentos. Seria o fim. Mas, se acredita que no planeta dos moofs encontrará uma indicação mais precisa, vá para lá. Só gostaria de saber por que nessas circunstâncias resolveu ir a Árcon. Poderíamos ter seguido diretamente para o mundo dos moofs.
Acontece que preciso de alguns dados sobre o mundo dos moofs, seu sabe-tudo de uma figa — respondeu Rhodan.
Perdão — disse Certch com um sorriso. — Apenas queria confirmar minha genialidade. Para isso preciso formular algumas objeções.
A terrível praga que Rhodan soltou perdeu-se nos microfones desligados.
Obedecendo às instruções recebidas, os dois couraçados deslocaram-se a uma velocidade inferior em dez por cento à da luz. No interior do sistema de Árcon, não eram permitidas velocidades mais elevadas.
Mas mesmo a essa velocidade, os dois planetas visíveis do mundo sincronizado aproximaram-se rapidamente.
Com o desenvolvimento da raça Árcon, o mundo primitivo dos arcônidas, tornara-se muito pequeno. Por isso os antepassados — extremamente ativos — dos atuais habitantes de Árcon recorreram à sua tecnologia fenomenal e arrastaram os antigos planetas II e IV das suas órbitas naturais, incorporando-os praticamente ao terceiro mundo.
Dessa forma um sistema tríplice surgiu dentro do sistema. Eram três dos planetas, dois dos quais trazidos artificialmente, que há 15 mil anos de tempo terrano gravitavam em torno do sol Árcon em órbitas exatamente iguais, mantendo a mesma inclinação dos eixos e a mesma velocidade no percurso de sua órbita.
Era Árcon! O planeta número um, que era o mundo de cristal, servia exclusivamente a fins residenciais. O planeta número dois ficou reservado ao comércio e à indústria galáctica. O planeta número três era o planeta da guerra; servia de sede à maior frota espacial de todos os tempos e ao cérebro robotizado.
Tudo indicava que os arcônidas o haviam construído para a eternidade. Nada se alterara no arranjo interestelar por eles criado, com exceção dos descendentes mais longínquos, levados à decadência devido à supersaciedade econômica e cultural.
A indecisão e o relaxamento dos costumes fizeram com que o robô-gigante, programado há vários milênios, passasse a dirigir a história do Império. Ao que tudo indicava, os velhos arcônidas imaginavam que uma raça que vive na abundância e no bem-estar excessivo acaba fisicamente debilitada.
Os homens mergulharam nessa bruxaria galáctica, sem desconfiar de que com isso se submeteriam de forma indireta às normas pragmáticas do cérebro positrônico.
Rhodan tirou os olhos arrebatados do panorama dos dois mundos. Do ponto em que se encontrava a Titan, não podia ver Árcon I. Estava encoberto pelo sol chamejante.
Uma chave deu um estalo. O rosto de Tifflor surgiu na tela.
Rhodan deu uma ordem:
Tiff, chame o Regente pela onda de hiperfreqüência que já é conhecida. Transmita o sinal de urgência. Solicito uma entrevista antes do pouso. Transmita o intercâmbio pelas telas da sala de comando. Obrigado.
Lá adiante, além da parede blindada de plástico transparente, os enormes aparelhos de hipercomunicação do supercouraçado entraram em funcionamento. Os homens que se encontravam na sala de comando trocaram olhares expressivos. Chegara o momento decisivo.
Contato estabelecido, passarei a ligação para o senhor — ouviu-se a voz de Tiff.
Rhodan girou lentamente o assento de piloto para a direita. Num dos setores das telas de visão global, surgiu o colorido confuso da transmissão que estava sendo captada. Depois de alguns segundos, as linhas assumiram contornos precisos. Viu-se a corcova blindada em meio ao grande pavilhão. Era um setor minúsculo do cérebro, mas parecia ser um dos mais importantes.
Rhodan, da Terra, falando ao Grande Coordenador — disse Perry para dentro do microfone. Seu rosto continuava impassível.
Estou ouvindo! — soou a voz fria e monótona. O robô não parecia conhecer a curiosidade.
Não formulou nenhuma pergunta sobre o motivo da chamada.
Peço que seja preparada imediatamente uma equipe médica arcônida. Tenho oito doentes a bordo.
Qual é a doença?
É desconhecida. Ao que parece, trata-se de uma intoxicação. Depois de concluída a luta em Zalit, pousei no mundo de Honur para treinar minha tripulação com toda calma. Surgiram certos animaizinhos. Descobrimos muito tarde que os mesmos segregavam substâncias venenosas.
Aguarde!
De um instante para outro, as linhas tremeluzentes voltaram a cobrir a tela. Rhodan estremeceu ao toque suave de uma pata de animal. De repente Gucky, o ser peludo, surgira ao lado de seu assento.
Os grandes olhos cinzentos do rato-castor pareciam interrogar. Com mais ou menos um metro de altura, o mais capaz dos seres vivos que se encontravam a bordo estava sentado sobre o traseiro que lhe conferia o aspecto esquisito.
Algum problema?” — foi a mensagem telepática emitida pela versão ampliada do ratinho de desenho animado.
Rhodan compreendeu a pergunta. Seu treinamento telepático já avançara bastante. Já conseguia entender o verdadeiro sentido de um bom emissor e formular suas respostas pela mesma via.
Rhodan fez um gesto quase imperceptível de recusa. As patas rosadas de Gucky continuaram apoiadas sobre a braçadeira da poltrona. De repente, a abóbada de aço voltou a surgir na tela.
Os dados foram examinados. O planeta Honur está fechado ao tráfego há quatro mil anos. A secreção cutânea das inteligências inferiores que o habitam, enquanto não purificada, causa a destruição de centros nervosos orgânicos. Depois de passar por um processo químico, o veneno serve de matéria-prima para a fabricação de um tóxico bastante conhecido, chamado kan’or. Há oitocentos anos a frota arcônida destruiu o comércio galático da substância. Mais alguma pergunta?
Rhodan empalideceu ligeiramente. Atrás dele, o biólogo Janus van Orgter entrou apressadamente na sala de comando. Respirando de modo agitado, aproximou-se de Rhodan.
Não tínhamos a menor idéia do perigo — respondeu apressadamente. — Oito dos meus homens entraram em contato direto com os animais. Seu estado inspira sérios cuidados. Thora, membro da dinastia de Zoltral, é uma das doentes. Assumi o comando da Titan. Peço auxílio com a máxima urgência.
A reação do cérebro foi rápida. Do alto-falante não saiu nem uma pergunta inútil. Já sabia por que Rhodan teria pousado em Honur.
Os sintomas são conhecidos. O senhor foi imprudente. Pouse em Árcon II. Procurarei ajudar. Por que disse que o chamado era urgente?
Rhodan suprimiu uma maldição. O Dr. Certch surgira. Agitou ambos os braços num gesto de súplica. O que quis dizer era que, para o robô, o pedido de cura dos doentes jamais seria considerado urgente. Rhodan compreendeu. Era muito difícil adaptar o pensamento orgânico, condicionado pelo sentimento, à lógica fria de uma calculadora monstruosa.
Descobri dados sobre a verdadeira causa da revolta dos zalitas. Os próprios moofs foram submetidos a alguma influência. A intoxicação de meus homens fazia parte do plano. Posteriormente fornecerei outros dados. Encontramos uma instalação camuflada dos bioquímicos galácticos, que segundo Crest, um membro da família de Zoltral, costumam ser chamados de aras.
De que tipo eram as instalações?
Tratava-se de um laboratório gigantesco, no qual eram criados os animais que costumamos chamar de nonus. A secreção do organismo dos mesmos era transformada em tóxicos. Tenho certeza de que a solução do problema deve ser procurada junto a esses aras. Solicito dados mais precisos. Onde poderemos encontrar esses seres? A única indicação que encontramos nos fichários de bordo diz que os aras detêm o monopólio médico-biológico da Galáxia. Onde poderemos encontrá-los?
A tela cobriu-se com uma luminosidade fluorescente.
Resposta negativa. Vejamos — disse o Dr. Certch.
A imagem da abóbada de aço voltou a ser projetada na tela. Numa reação extremamente rápida, o cérebro identificou os pontos importantes da pergunta que acabara de ser formulada. Recusou, sem usar a palavra recusa.
Em toda parte e em lugar algum. Nosso tratado não prevê que percamos um tempo precioso. Seria um contra-senso se passássemos o problema dos moofs para o segundo plano. Recuso fornecer-lhes dados ambíguos sobre a raça dos aras.
Pois os dados são ambíguos? — perguntou Rhodan.
São. Meus registros não revelam nada de positivo. Se a cura dos seus doentes for impossível, teremos que abandoná-los ao seu destino. Rhodan da Terra, eu lhe faço a seguinte proposta. Se sua suposição de que os moofs agem segundo as ordens dos aras for correta, é bem provável que no próprio planeta dos moofs encontre novos dados em favor dessa suposição. Mas o senhor terá de apressar-se, pois já enviamos uma frota parcialmente robotizada, comandada pelo almirante Vetron, para destruir o sexto planeta do sistema da estrela Moof. Não vi outra solução. O senhor não me informou no devido tempo sobre suas descobertas mais recentes.
Retire a ordem! — exclamou Rhodan muito exaltado. — O senhor vai destruir as poucas pistas de que poderemos dispor.
O ataque ainda não foi iniciado. Pouse imediatamente e apresente seus doentes. Verificarei num tempo muito reduzido se posso ajudar ou não. Fim.
Rhodan gritou mais algumas perguntas, mas percebeu que a máquina interrompera o contato. Virou-se com o rosto pálido.
Até Certch manteve-se em silêncio. Crest, o cientista arcônida, aproximou-se em passos comedidos. Nas telas de observação global os planetas visíveis de Árcon já apareciam com o tamanho de uma maçã.
Um impulso de advertência das três naves de escolta foi captado. Everson disse com a voz baixa:
A manobra de frenagem será iniciada daqui a dois minutos.
Pode pousar — disse Crest em tom tranqüilizador. — Se o cérebro afirma que o exame será realizado num tempo muito curto, isso significa que na pior das hipóteses levará meia hora. Se até lá não for descoberto nenhum antídoto entre o estoque de medicamentos existente no planeta, poderemos decolar imediatamente. Não adiantaria esperar mais. O robô não fará um esforço extraordinário para salvar alguns seres humanos.
A situação é exatamente esta — exclamou Certch. — Nem devíamos pousar.
Os olhos de Gucky seguiram o comandante que caminhava de um lado para outro. Uma melancolia profunda brilhava nos grandes olhos da criatura peluda. Sentia a angústia de Rhodan.
Quem é esse almirante Vetron, Crest? O senhor o conhece?
Apenas pelo nome. É um oficial espacial da geração nova. Executará as ordens do cérebro sem a menor hesitação.
Esse rapaz estragará nossas esperanças — disse Rhodan. — Dr. Certch, qual é o conselho que o senhor nos dá?
O doutor Certch respondeu:
Vamos pousar, aguardar o resultado do exame, voltar a colocar os doentes a bordo e arrancar do robô poderes plenos para liquidar o problema de Moof por nossa conta. Quando nos aproximarmos do planeta Moof, o senhor deverá estar em condições de suspender imediatamente o ataque.
Rhodan voltou ao seu assento. O aparelho de pilotagem automática já acendera uma luz vermelha. As três naves de escolta haviam iniciado a frenagem. Os dois planetas já se apresentavam com o tamanho de uma abóbora.
Dentro de poucos segundos, os propulsores da Titan rugiram. A velocidade foi reduzida por meio de uma contra propulsão de quinhentos quilômetros por segundo ao quadrado. A central de tele direção de Árcon II entrou em contato com a nave.
Enquanto os propulsores de correção de rota do supercouraçado ribombavam, colocando a nave no rumo correto, Rhodan anunciou pelos microfones de bordo:
O comandante a todos os tripulantes. Pousaremos dentro de quinze minutos aproximadamente. Tomem todas as precauções para que os doentes não possam ser encontrados. Peço que os médicos continuem no posto de emergência. Se necessário usem gás narcótico. Não deverá haver qualquer grito ou exclamação comprometedora, pois não sabemos se receberemos visita ou não.
Atenção, Professor Kärner. Leve Thora, Bell e os outros seis doentes escolhidos à enfermaria. Provavelmente serão levados por robôs. Apague todos os vestígios da utilização da clínica. Tudo deverá estar limpo. Retire as camas de campanha. Provavelmente voltaremos a decolar depois de uma breve permanência no planeta. Aceitarei a sugestão do robô, para eliminar qualquer possibilidade da ocorrência de complicações mais sérias. Ainda acontece que não temos outra alternativa senão pousar em Moof VI, onde tentaremos colher novos dados que nos sirvam para esclarecer os acontecimentos. No momento é só. Entrem em prontidão provisória. Fim.”
Rhodan desligou no momento em que o supergigante penetrou com um rugido nas camadas superiores da atmosfera de Árcon II.

* * *

Árcon II era um astro que tinha a superfície aproximadamente igual à da Terra. Sua gravitação chegava a 0,7G. Era um conjunto tecnologizado e industrializado que não apresentava a menor solução de continuidade, um mundo de fábricas dantescas dirigidas por robôs e de gigantescos portos espaciais. Além disso, era o ponto capital do comércio intergaláctico.
O sol branquicento de Árcon brilhava num céu nevoado, em que não se via nenhuma nuvem. O segundo planeta do grupo sincronizado de três era a grande potência econômica da Via Láctea. Os artigos produzidos aí não somente eram de alta qualidade, mas sua quantidade era suficiente para inundar todos os mundos coloniais. Não havia praticamente nada que não fosse fabricado em Árcon II.
O espaçoporto de Olp’Duor formigava de naves mercantes de todos os tipos. Rhodan teve oportunidade de admirar as construções de seres humanóides e de criaturas totalmente estranhas.
Estranhas figuras levantavam-se do solo de espaço a espaço. E criaturas ainda mais estranhas saíam das escotilhas de suas naves, envergando trajes protetores mais ou menos pesados.
As instalações de carga e descarga do espaçoporto, inteiramente automatizadas, trabalhavam a toda força. Pelos cálculos de Crest, o valor das mercadorias descarregadas em Olp’Duor chegava a oito bilhões de solares de moeda terrana por dia. Acontece que este era apenas um dos trezentos espaçoportos.
Pesados cargueiros partiam ininterruptamente em direção ao céu. Outros chegavam ruidosos. A profusão de propulsores e máquinas que se amontoavam naquele campo era inimaginável.
A forma esférica predominava apenas nos veículos espaciais arcônidas. Via de regra viam-se construções em forma de cilindro, ou com outro formato bastante esguio. Ali chegavam os mensageiros de raças estranhas, a maioria das quais descendia de antigos emigrantes arcônidas.
Não apresentavam a menor semelhança com seus ascendentes. Os milênios, e mesmo dezenas de milênios passados fora de Árcon representaram um ponto final na evolução biológica arcônida.
Os descendentes mais remotos dos antigos colonos já se haviam adaptado ao novo ambiente. As múltiplas influências a que estiveram submetidos não poderiam deixar de desempenhar seu papel. A intensidade da gravitação de outros astros, as radiações cósmicas, a temperatura, a composição da atmosfera e o ambiente bioquímico produziram transformações físicas e mentais que faziam com que, em muitos casos, aqueles seres não mais possuíssem braços e pernas como os velhos arcônidas.
Mas todos pensavam, viviam e trabalhavam. Rhodan dissera em certa oportunidade que Árcon II era um formigueiro cósmico.
Os arcônidas eram raríssimos. Sempre que surgiam, revelavam o cansaço típico de sua raça. O cérebro robotizado recorrera a um processo compulsório de aprendizado hipnótico, mas verificou-se que o autômato que se orientava por uma programação antiqüíssima confundia os conceitos de saber e de desempenho físico.
Os cérebros dos arcônidas, cujos ideais eram muito diferentes, dificilmente poderiam ser despertados de sua letargia. E, quando isso acontecesse, o organismo predisposto para a indolência não conseguia acompanhá-los.
Na verdade, Árcon estava no fim. As iniciativas que decidiam o destino do Império partiam de um robô gigante, construído por milhares de gerações de técnicos e cientistas. Rhodan sabia que a máquina e seus acessórios ocupavam uma área de 10 mil quilômetros quadrados.
O supercouraçado Titan fora teleguiado para a extremidade leste do campo de pouso.
O poderio corporificado pelo supercouraçado só poderia ser avaliado por quem dele se aproximasse, vindo de uma distância considerável. Depois de pousada, a supernave tinha o aspecto de uma montanha esférica de 1.500 metros de altura, cercada no centro por uma protuberância circular em cujo interior poderia ser abrigada a maior parte das naves mercantes pousadas em Olp’Duor. Cada um dos dezoito propulsores da Titan tinha as dimensões de pequenas naves.
No interior desse corpo esférico feito de aço de Árcon e de energia solar concentrada e facilmente controlada, oitocentos homens sadios esperavam, enquanto os setecentos doentes nada sabiam do pouso realizado em Árcon II.
Fazia menos de uma hora que o tenente Tanner se encontrava diante do órgão de fogo, nome que se dava ao instrumento central de controle de tiro. Os canhões de impulsos e de desintegração aguardavam, no zumbido dos campos energéticos de orientação e irradiação, escondidos atrás das escotilhas das torres blindadas, que por enquanto permaneciam fechadas.
A Titan estava pronta para entrar em combate, tal qual a Ganymed pousada a menos de mil metros de distância.
A área fora fechada hermeticamente para qualquer tipo de tráfego. Apesar disso as telas dos amplificadores automáticos registravam um número sempre crescente de seres estranhos, que fitavam o gigante com um misto de curiosidade e medo.
Até então só haviam sido construídas duas unidades do tipo Universo. A Titan era uma delas.
Por isso, em nenhum lugar o gigante da classe Universo poderia despertar maior curiosidade que no espaçoporto do segundo planeta de Árcon.
Rhodan olhou para o relógio. As enormes telas da galeria panorâmica mostravam o terreno tal qual era: estava atulhado de naves espaciais de todos os tipos, comandos de robôs e pesada aparelhagem de carga e descarga.
O senhor se enganou, meu caro — disse Rhodan, dirigindo-se a Crest. — O exame está demorando mais que trinta minutos.
Nesse instante o rato-castor voltou de sua terceira excursão. O ser dotado da capacidade da teleportação materializou-se em plena sala de comando. Quando o rato-castor, de mais ou menos um metro de altura, subitamente apareceu diante dele, o capitão Everson recuou, proferindo uma praga.
Gucky sorriu com seu enorme dente roedor. Depois saltitou sobre as curtas patas traseiras em direção ao painel principal.
Então? — perguntou Rhodan laconicamente.
Com um gemido, Gucky subiu à poltrona mais próxima. Suas orelhas redondas de rato puseram-se de pé para ouvir o que os outros diziam.
As coisas vão mal, chefe. Ainda estão naquela clínica. Quatro arcônidas os examinam, juntamente com alguns robôs. Ao que parece, não têm a intenção de fazer-lhes mal. Apareci por alguns segundos. Eles azularam.
Gucky soltou uma risada estridente. Na região da nuca as cerdas macias de seu pêlo marrom-avermelhado puseram-se de pé.
Não quero que você use o vocabulário baixo de Bell — resmungou Rhodan. — Azularam... ora, onde já se ouviu uma coisa dessa!
Pois bem, deram o fora a cento e vinte por hora — chiou Gucky. — Foi uma brincadeirinha e tanto.
Crest, faça o favor de dar um jeito nas maneiras relaxadas deste oficial — ordenou Rhodan.
Tenente Guck — chiou o rato-castor em tom de entusiasmo. — Sou eu. É assim que eu gosto. Não quero que ninguém me chame de Gucky quando estou em serviço.
Rhodan reprimiu um sorriso. Subitamente o rato-castor estremeceu. Seus grandes olhos de veludo enrijeceram.
Thora está chegando — disse com a voz monótona. — Sinto seus impulsos. Ainda está doente.
Rhodan voltou a olhar para o relógio. Os oito doentes ainda não haviam voltado. Fazia uma hora que o comando de robôs viera buscá-los.
A campainha do telecomunicador que funcionava à velocidade da luz deu um sinal. O coronel Freyt, comandante do couraçado Ganymed, apareceu na tela.
Um veículo grande surgiu em nossas telas. Os doentes estão voltando. Além disso, uma coisa gigantesca com braços e dedos para segurar está se aproximando. Parece uma máquina de carregar. Peço instruções.
Aguarde. O cérebro entrará em contato conosco. Pedi água e mantimentos. Temos necessidade absoluta de reforçar nossas provisões antes do pouso. O senhor precisa de mantimentos para quinhentas pessoas. Pegue tudo que possa conseguir. O cérebro prometeu elaborar uma lista de provisões. Aquela máquina trabalha com uma precisão enorme; por isso deverão carregar tudo de que uma grande tripulação possa precisar.
Freyt contorceu os lábios. Uma expressão de repugnância parecia brilhar em seus olhos.
São alimentos sintéticos. Não é a minha predileção.
Outros povos, outros costumes. O senhor não faz a menor idéia do que a química arcônida consegue fabricar por meio de excelente fotossíntese. Por que vamos percorrer o caminho mais longo do animal de corte, se podemos produzir diretamente uma carne melhor, mais pura e obtida de maneira mais humana? Não acredite que lhe oferecerão alimentos de aspecto repugnante. Os habitantes de Árcon sabem viver, e eles se alimentam há milênios com os produtos da fotossíntese artificial. Portanto, abra as escotilhas de carga e ponha os robôs para trabalhar.
Freyt pôs a mão no boné. A tela apagou-se. Dali a dez minutos o comando robotizado de escolta anunciou sua presença diante da comporta número 28. Thora, Bell e mais seis homens foram entregues sem o menor comentário.
Rhodan correu para baixo. Respirando pesadamente, inclinou-se sobre o rosto pálido e emagrecido da jovem arcônida. Thora parecia encantadora no seu desamparo, mas sua respiração era tranqüila.
Está mergulhada em sono profundo — constatou o Professor Kärner. — Quer dizer que o resultado do exame foi negativo. E agora?
Sem dizer uma palavra Rhodan colocou sobre os braços o corpo leve de Thora. Ainda sem dizer uma palavra, a colocou sobre uma confortável cama pneumática da clínica da nave. Recebera um quarto individual. No recinto ao lado dormiam Anne Sloane, Ishy Matsu e uma moça, Betty Toufry.
Constantemente havia médicos de plantão. Se os mutantes bem dotados dessem curso às suas forças, a nave poderia ser destruída.
Faça o favor de cuidar de Thora — disse Perry abatido e com a voz baixa.
A toxicóloga Tina Sarbowna lançou-lhe um olhar perscrutador.
O senhor bem que precisaria de algumas horas de descanso — disse a mulher magra. — Por que vai transformar-se num feixe de nervos? Isso não ajudará ninguém.
Tem razão. Dormirei um pouco — disse Rhodan distraído.
Dali a cinco minutos, as máquinas de carregamento também surgiram diante das comportas inferiores da Titan. Uma atividade febril teve início. Os gritos estridentes de Tifflor foram ouvidos em toda parte. Fora destacado para desempenhar as funções de oficial intendente.
Grandes quantidades de alimentos de todos os tipos foram colocadas a bordo. Seguiram-se as peças de reposição, os medicamentos, os trajes espaciais, os robôs de guerra, os veículos de superfície e os blindados antigravitacionais. A Titan foi recheada por máquinas incansáveis: parecia até que teria de conquistar um império estelar.
O carregamento dos suprimentos durou quatro horas, segundo o relógio de bordo. Durante esse tempo, o cérebro não entrou em contato com a nave. Rhodan começou a inquietar-se.
A Ganymed anunciou que estava pronta para decolar. Freyt ainda informou o seguinte:
Colocaram a bordo mais de duzentos objetos medonhos. As instruções de uso também nos foram entregues. Trata-se de blindados flutuantes, que se deslocam sobre o campo energético, a pouco menos de um metro sobre a superfície do solo. Estão equipados com canhões de radiações. Ainda recebemos mil e quinhentos robôs de guerra. São iguais aos que nos deram tanto trabalho logo após a fuga. No mais, estou preparado para a decolagem.
Rhodan respondeu:
Estamo-nos transformando em verdadeiros aliados. Estou curioso para ver a conta final. Aguarde instruções minhas. Espero receber alguma notícia daqui a pouco. Fim.
No momento em que Rhodan desligou, chegou o chamado do Regente robotizado. Na tela especial do intercomunicador, surgiu o jogo de cores que confundia a mente.
Pouco depois reconheceu-se a cúpula de aço que abrigava a chave mestra do aparelho.
O autômato passou diretamente ao assunto.
A cura dos doentes é impossível — disse a voz retumbante vinda dos alto-falantes. — Não conseguimos neutralizar a toxina. Os medicamentos de que dispomos falharam, pois não se trata de danos causados por germes. Procure colher novos dados em Moof. Decole imediatamente. As coordenadas do salto ainda lhe serão fornecidas. O sol Moof fica a trinta e seis anos-luz. Atenção para estes esclarecimentos:
Ordenei a destruição do planeta por não ter condições de submeter à minha vontade seres vivos dotados de capacidades supersensoriais. Os dados fornecidos pelo senhor modificaram a situação. Pela presente concedo-lhe plenos poderes para intervir nos acontecimentos segundo seu arbítrio. Decolem e ordenem o regresso do almirante Vetron, fazendo uso do poder de comando que ora lhe é concedido. O ataque da frota já foi iniciado.”
É uma loucura! — gemeu Rhodan no microfone.
É uma ação razoável sob os pressupostos anteriores. Mas face ao aparecimento do senhor, perde sua finalidade. Mantenha-me informado sobre a situação. Exijo a rendição incondicional dos moofs. Se esses seres estiverem em contato com os aras, deixo a seu critério a decisão sobre as medidas que deverão ser tomadas. Apresse-se. Fim.
E os doentes? — gritou Rhodan.
Devemos considerá-los perdidos.
Rapaz! — exclamou Everson perplexo. — Isso que é laconismo. Numa situação desta, eu teria realizado umas vinte conferências. Eu...
A programação está chegando — soou a voz de Tiff nos alto-falantes.
Fora incumbido do controle do cérebro central da nave.
Os dados sobre o salto foram chegando. Vieram sob a forma de um impulso de apenas oito segundos. Seguiu-se um breve chiado.
Aí estão os dados sobre o planeta — disse Rhodan em tom amargurado. — Receio que um dia isso acabe com os meus nervos. Prepare tudo para a decolagem, Everson. Suspender a prontidão de combate.
O coronel Freyt voltou a chamar. Informou que também acabara de receber os dados.

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