quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-047 - Gom Não Responde - Kurt Mahr [parte 1]



Autor
KURT MAHR


Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES


Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Gom é onipresente — apostando corrida com a
morte na região de penumbra do planeta Gom.


A história da Terceira Potência em poucas palavras:

O foguete Stardust alcança a Lua e Perry Rhodan descobre a nave exploradora dos arcônidas, que realizou um pouso de emergência (vol. 1).
Instalação da Terceira Potência contra a resistência das grandes potências terrenas e defesa contra tentativas de invasão extraterrena (vols. 2 a 9).
Primeira intervenção da Terceira Potência nos acontecimentos galácticos. Perry Rhodan defronta-se com os tópsidas e procura solucionar o enigma galático (vols: 10 a 18).
A Stardust-III descobre o planeta Peregrino e Perry Rhodan alcança a imortalidade relativa (vol. 19).
Perry Rhodan regressa à Terra e luta por Vênus (vols. 20 a 24).
O Supercrânio ataca (vols. 25 a 27).
Chegada dos saltadores, que pretendem eliminar a concorrência potencial da Terra no comércio galático (vols. 28 a 37).
Primeiro contato de Perry Rhodan com Árcon e atuação como delegado do cérebro positrônico que exerce o governo no grupo estelar M-13 (vols. 38 a 42).

Para evitar maiores suspeitas, Bell e os mutantes tiveram de fugir às pressas, a bordo da Ganymed. Aproximando-se de um planeta pedregoso e estéril, foram atraídos por uma força irresistível. Eram os gons, uma massa orgânica, seres insignificantes em si, mas quando agrupados em centenas de milhares tornavam-se telepatas perigosíssimos...



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Chegou em Gom no momento exato...

Reginald Bell — Perdeu o contato com Rhodan. Encontra-se no mundo louco dos gons.

John Marshall — Observa tudo, percebe as forças telepáticas dos gons e consegue entrar em contato com eles. Convence-se de que são explorados pelos aras.

Ivã Goratchim — O detonador do Exército de Mutantes. Destruidor de 400 bios.

Betty Toufry — Tem os dons da telepatia e da telecinese, muito corajosa.

Tako Kakuta — Manifesta-se um gênio técnico, dominando um disco voador do adversário.

Wuriu Sengu e Ishibashi — Iam sendo devorados pelos gons, ansiosos por matéria orgânica.


1



A sombra já avançou um bom pedaço — disse Reginald Bell.
Depois de seis horas, a tempestade também terminara. As plantas carnudas, de folhas azuladas, que alguns minutos antes da tempestade tinham mergulhado no solo, como minhocas, tornavam a aparecer. Contorcendo-se, arrastavam-se para fora de seus esconderijos, alcançavam o chão e se erguiam na forma em que estavam antes. Depois continuavam completamente imóveis.
O clarão avermelhado do sol também avançara por uns palmos. Uma esguia agulha de pedra, rochosa, esquisita, formada certamente pela esmagadora atração da terra de Gom, que estava antes na sombra, era agora banhada pelo sol.
Bell e seu grupo estavam saindo da caverna, onde se abrigaram durante a intempérie. A primeira coisa que procuraram ver foram os destroços da Gazela, com a qual chegaram até ali. Amassada, despedaçada e comprimida de encontro ao solo pelo descomunal fenômeno de atração, ali estava, a menos de quinhentos metros da esguia torre de pedra, a famosa espaçonave. Fora vítima de Gom e daquela força misteriosa que a puxara do espaço, como se fosse um ímã potentíssimo.
Isto havia acontecido há mais de um dia, na contagem de tempo da Terra. Depois disso, não tiveram mais contato com Perry Rhodan que, muito longe no espaço, fora deste sistema, aguardava na nave capitania Titan o resultado da missão.
Mais ou menos um dia inteiro foi o que levaram, do ponto da queda da espaçonave até o local onde estavam agora. Tako Kakuta ficou inconsciente por longas horas e tiveram que carregá-lo. Das duas cabeças de Ivã Goratchim, uma tinha um grande galo, isto é, a de Ivanovitch, o mais moço. Ivã, o mais idoso, se lamuriava: as dores provocadas pelo ferimento na cabeça de Ivanovitch, ele as sentia através do sistema nervoso, que era um só.
A grande surpresa geral foi Betty Toufry. Depois que todos acabaram de sair dos escombros da Gazela, a opinião geral era que alguém devia penetrar novamente nos destroços para procurá-la e trazê-la a salvo, pois certamente estaria morrendo de medo lá dentro. Mas quando começaram a sair, um após o outro, do meio daquela confusão de ferro e plástico, deitando-se em terra para apalparem o corpo à procura de ferimentos, lá estava Betty, há muito tempo, sentada numa pedra e sorrindo para eles. Podia ler-lhes o pensamento e sabia exatamente o que estavam pensando no momento.
Reginald Bell lhe havia assegurado nunca ter visto uma jovem tão destemida assim. Betty sorria, irônica.
O vento, que soprava constantemente, trazia ondas de calor de até quinhentos graus absolutos do ponto em que caíra a Gazela até eles. Por isso, tentaram chegar até um trecho de penumbra. Primeiro, caminharam de pé, como homens. Quando notaram que a posição ereta dos orgulhosos terranos não era nada prática para vencerem o peso enorme provocado pela forte atração, começaram a andar de quatro.
Tinham conseguido chegar até a caverna, quando começou a pesada chuva, ou melhor, a pesada tempestade. Viram sumir pelo chão adentro as plantas de folhas grossas e azuladas. Ficaram surpresos. Dois ou três minutos depois, a primeira rajada de vento varreu o planalto e os teria carregado, não tivessem procurado abrigo atrás das pontas de pedra no rochedo. Esconderam-se numa caverna, esperando seis horas, até acabar a tempestade.
E agora lá estavam, isolados de qualquer ligação, num mundo tão grande como Saturno, cujo ano planetário tinha a duração de trinta meses da Terra. Girava em torno de seu eixo e expunha sempre a mesma face para o astro central do sistema Gonom. Sua órbita era, porém, muito excêntrica, de maneira que fortes oscilações produziam alterações periódicas quanto à posição do sol. Gom era um mundo de oxigênio, com uma gravitação na superfície de 1,9 e uma pressão do ar de vinte atmosferas.
Um mundo no qual o homem não poderia parar de pé mais que dois minutos e onde precisaria da proteção de trajes espaciais adequados, para não ser esmagado pela fortíssima pressão do ar. Um mundo onde viviam plantas azuis, de aspecto horrível, semi-inteligentes, mundo em que num hemisfério dominava a noite eterna e no outro, o dia sem fim. Um mundo em que, quem estivesse na região crepuscular teria sempre atrás de si a escuridão e em sua frente nada mais do que um fraco clarão avermelhado, para toda a eternidade.
Uma verdadeira ante-sala do inferno.
Assim era Gom.

* * *

Aí vem alguma coisa — disse John Marshall.
Reginald Bell fixou os olhos para fora da entrada da caverna.
Não estou vendo nada — disse ele.
Não há mesmo nada para ver — comentou Betty. — Que acha de tudo isso, Mr. Marshall?
Marshall abanou a cabeça.
Ouve-se, não sei o quê. Ouve-se uma coisa muito simples.
Exatamente, semi-inteligente.
Puxa vida... — lamuriou-se Bell. — Sei que vocês são telepatas. Mas eu também gostaria de entender alguma coisa, de saber o que está acontecendo...
John Marshall inclinou a cabeça para frente, como se estivesse ouvindo qualquer coisa. Remexeu-se e moveu um pouco os ombros.
Há impulsos mais fortes que os das plantas. — explicou ele — mas não se pode dizer que sentido têm.
Onde estão eles? — queria saber Bell.
Ali na frente.
Marshall apontou na direção de um rochedo chato, distante alguns metros da entrada da gruta. Bell ainda queria perguntar mais alguma coisa, mas no mesmo instante, seus olhos se arregalaram:
No lusco-fusco avermelhado, vagava alguma coisa em volta do rochedo. Parecia uma simples mancha escura, de formato oval, talvez de um metro quadrado. Veio dando volta pelo rochedo, na direção da caverna.
Quer vir para cá — sussurrou Marshall.
Bell estava com os olhos fixos na coisa. Não tinha propriamente contornos. Onde chegava, dava logo a impressão de que o chão ficava um pouco mais escuro.
Aconteceu que a mancha teve que passar entre duas daquelas plantas azuladas; mas as folhagens carnudas pareciam ter mais medo da mancha escura do que da própria tempestade. Esconderam-se com estranha rapidez e com um leve ruído de alguma coisa que roçava.
Reginald Bell sacou sua arma térmica e estava preparado para atirar.
Nada disso — sussurrou Marshall — é apenas curiosidade.
Aí surgiu a mancha na frente da entrada da caverna. Bell ficou novamente olhando. A mancha parecia mais uma camada de goma-laca marrom-escura. Bell não se sentiu muito encantado com tudo aquilo e se dirigiu a Marshall.
O que ela quer?
Marshall abanou a cabeça:
Nada de extraordinário. Apenas nos está estranhando.
Com o mesmo leve ruído de algo que está raspando, a mancha se pôs em movimento. Não voltou pelo mesmo caminho por que viera. Dobrou para a direita e contornou o bloco de pedra, onde se localizava a caverna. Minutos após havia desaparecido dos olhos de Bell.
Meu Deus do céu... que espécie de mundo é este?
Tama Yokida não parecia muito impressionado.
Posso ir buscá-la, senhor — disse se oferecendo. — Se o senhor quiser.
Deixe-a ir embora. Que serventia tem para nós?
Mal acabara de dizer isto, toda atenção de Bell se concentrou na atitude de Kitai Ishibashi, que estava perto da parede da caverna, de olhos fixos nas pedras.
O que é que há? — queria saber Bell.
Ishibashi gemia e se contorcia.
Eu estava pensando que lhe podia impor minha vontade. Mas provavelmente é tão boba, que não pode ser influenciada.
Bell riu secamente.
Acho que você tem razão. Não será mais inteligente que as plantas azuis que se escondem diante da tempestade.
Retirou-se da entrada da caverna. Passando diante de Marshall, resmungou pela segunda vez:
Santo Deus... Que mundo horrível.
E Marshall perguntou pensativo, porém, sem esperar resposta:
Afinal, que esperava de Gom?
Ivã Ivanovitch Goratchim, o mutante de duas cabeças, se apresentou, sem cerimônia, para manifestar sua opinião.
Uísque e belas mulheres — respondeu uma das duas cabeças, rindo.
Bell virou-se para trás. Ivã, o mais velho, consciente da falta, virou o rosto para o lado. Ivanovitch, o mais moço, ergueu a mão, apontando para Ivã.
Bell soltou o ar com os dentes trincados, produzindo o ruído típico, para que todos ouvissem:
Descida de emergência num inferno, escoltado por uma turma de doidos.

* * *

Tentavam entrar em contato com a Titan. A bordo da supernave estava Gucky, o rato-castor, o mais forte telepata do Exército de Mutantes da Terra. Betty e John Marshall conjugavam esforços no sentido de enviarem um sinal a Gucky, com o fim de o deixar a par do lugar onde estavam e principalmente da sua difícil situação.
Mas ao invés de uma resposta de Gucky, recebiam apenas impulsos de pensamentos desconexos, mas de tal intensidade, que Marshall apostaria se tratar de impulsos de gons.
E o que é que o senhor nos propõe, então? Deveremos ficar residindo aqui? — foi a pergunta irônica de Bell.
Marshall sorriu.
O chefe de nosso grupo é você. Pensávamos até que tivesse uma idéia melhor...
Ah... deixa de bobagem — resmungou Bell. — Com somente meu grau de patente, não vamos conseguir nada. Mas estava pensando que você, com sua super inteligência, nos fornecesse mais rapidamente uma boa idéia.
Betty Toufry pediu a palavra:
Acho que não podemos fazer outra coisa, apenas esperar. Rhodan sabe que estamos em perigo. Pode também calcular onde nós estamos. Na minha opinião, tudo está dependendo apenas de que agüentemos até que a Titan consiga chegar a Gom.
Se soubesse, ao menos — disse Bell — qual é a extensão da oscilação? O trecho de penumbra já se aproximou mais cem metros. Se continuar assim, dentro de alguns dias podemos sair daqui, aliás temos que sair daqui.
O halo avermelhado que confinava o trecho do lusco-fusco havia subido um pouco mais para o céu escuro. Uma corrente de ar constante aumentava a temperatura na caverna, de oitenta para cem graus. Os dispositivos de refrigeração nos trajes espaciais trabalhavam no volume máximo.
A contar da queda da Gazela, haviam decorrido já quarenta horas. Este longo tempo fora suportado relativamente bem, graças à observação das flores azuis, graças à sensação de expectativa com os impulsos telepáticos e graças às brincadeiras mútuas.
Daí para frente, porém, a passividade começou a enervar. E, no entanto, a única coisa que podiam fazer era esperar.

* * *

Conseguiram dormir um pouco. Quem estava incumbido de ficar de vigia era Ivã Goratchim. Tinha que ficar acordado à entrada da caverna. Mas Ivã, o mais velho, e Ivanovitch, o mais moço, não chegaram a um acordo sobre quem deles havia recebido a ordem de ficar de plantão. Assim, acabaram os dois dormindo.
Felizmente nada aconteceu de anormal.
Bell se arrastou até a saída da caverna e espiou. Seu primeiro olhar foi para a agulha esguia do rochedo, por intermédio da qual calculava a marcha da oscilação. O segundo olhar seria para os escombros da Gazela projetada ao solo. Tinha que rastejar mais um pouco.
Seus olhos se arregalaram, numa expressão de pânico, seu pessoal ouviu seu grito rouco de desespero. Esfregou-os para clarear mais a vista, porém o quadro era o mesmo. Os destroços tinham desaparecido.
Reginald Bell vacilou um pouco, depois deu ordem a Wuriu Sengu, o vidente, para que desse uma olhada no planalto à procura dos destroços da Gazela. Talvez houvesse em Gom fenômenos vulcânicos que tivessem aberto uma fenda no solo e, por aí, a espaçonave acidentada desaparecera. Somente Wuriu Sengu, com suas faculdades pára-ópticas, penetrava em qualquer tipo de matéria, como se esta fosse um vidro bem transparente. Assim poderia descobrir alguma coisa.
Mas os esforços de Sengu foram inúteis. A Gazela estava mesmo desaparecida.
Bell, a custo, tomou outra resolução. A contragosto, porque equivalia a expor a grandes perigos um de seus auxiliares. Porém, numa situação como aquela, nada era mais vital do que informações para o controle das iniciativas.
Bell virou-se para Tako Kakuta, o teleportador.
Tako, observe as coisas lá fora, mas não se detenha muito. Basta que você apenas olhe o lugar onde estava a Gazela. Não faça nenhuma pesquisa mais profunda. Volte o mais depressa possível para cá.
Num piscar de olhos, Tako Kakuta já não estava mais ali.
Não vi nada — murmurou decepcionado Tako. — O chão está liso, dando a impressão de envernizado. E da Gazela não existe mais nada.
Quase que eletrizado, Marshall o interrompeu:
Envernizado, você disse? Que cor?
Tako depois de refletir um pouco:
Eu diria... marrom-escuro ou castanho.
Bell percebeu o fio do pensamento de Marshall.
Você crê, talvez, que a mancha de verniz engoliu a Gazela?
Não sei, não. Mas se o chão está marrom-escuro e parece envernizado...
Qual é o tamanho da mancha? — perguntou Bell a Tako.
Não cheguei a perceber onde ela terminava.
Portanto, maior do que o espaço de um metro quadrado?
Naturalmente, muito mais.
Bell pretendia perguntar mais coisas, mas neste instante, levantaram-se Ivã Goratchim, o mutante de duas cabeças, Kitai Ishibashi, Wuriu Sengu e Tama Yokida no interior da caverna. De pé, embora um pouco cambaleantes, chegaram até o grupo dos que discutiam e começaram a abandonar a caverna.
Tudo se passou tão rápido. Os quatro mutantes pareciam, com seus movimentos coordenados, como que transformados em máquinas obedientes. Bell se recuperou do susto, somente quando os homens já estavam alguns metros para fora da caverna.
Parem — gritou ele. — Voltem todos, seus doidos.
Mas os quatro mutantes continuaram andando. Parecia que nem ouviram as palavras de Bell.
Bell se pôs de imediato a rastejar atrás deles. Mas o grupo parecia possuído de tal força, que a distância entre eles e Bell aumentava rapidamente. Os mutantes pararam no rochedo, onde a mancha de verniz havia aparecido.
Bell gritava e praguejava. Finalmente ficou parado, puxou a pequena pistola energética e berrou a pleno pulmão:
Voltem imediatamente, ou eu atiro. Foi como se não tivessem ouvido nada.
Continuaram o caminho. Bell engatilhou a arma, mas antes que pudesse dispará-la, ouviu Marshall que gritava atrás dele:
Não, não atire. Eles não têm culpa nenhuma.
Bell virou-se para o lado, de forma que podia ver a caverna.
Por quê? Que está acontecendo?
Influência hipnótica de uma força enorme — respondeu Marshall. — Eles estão obrigados a obedecer.
Então faça alguma coisa contra isto, por amor de Deus! — exclamou Bell.
Não posso. Estou feliz de que esta força mental não me apanhou. A força é terrível, não se pode fazer nada contra.
O mutante de duas cabeças, Ishibashi, Sengu e Yokida desapareceram atrás do rochedo. Instantes depois, ressurgiram. Dirigiram-se para a direita, onde estivera até então a nave acidentada. Caminhavam ainda eretos, firmes. Bell não os perdia de vista. Depois, lamuriando e praguejando, virou-se mais uma vez para o lado e voltou à caverna.
Desculpe-me — disse a Marshall — se fui um pouco áspero, mas este mundo doido me deixa também doido.
Marshall apenas sorriu.
Bobagem, isto é natural. Só gostaria de saber, quem é que, neste mundo perdido de Deus, dispõe de tanta força hipnótica.
Bell não respondeu. Observava os mutantes. Estes andavam sempre eretos no planalto, por entre os rochedos, como se não existisse aquela elevada atração da terra. Gritou-lhes muitas vezes, acreditando que através do receptor do capacete haveriam de ouvi-lo. Mas não houve resposta.
Depois de dez minutos, parecia que a situação se transformara. Ivã Goratchim, vacilou e caiu de joelhos. Bem rente dele, também caíram os dois japoneses. Bell lhes gritava que voltassem.
A seguir, puseram-se em movimento, mas desta vez, andavam de quatro. Tinham perdido aquela força inicial, sentiam-se fatigados. Seguiam o comando hipnótico, mas engatinhando.
Não adianta nada — disse John Marshall — os impulsos hipnóticos fortíssimos continuam a controlá-los.
Você consegue localizá-los? — perguntou Bell.
Não, com exatidão não. Estes impulsos vem da direção onde estava a nave acidentada.
Isto obrigou Bell a refletir um pouco. Tako havia afirmado que o lugar em que a Gazela havia caído estava coberto por uma camada de verniz bem extensa de cor marrom-escura. Aquela mancha esquisita, que haviam observado há pouco, parecia com verniz marrom-escuro. Marshall acompanhou um trecho de seu pensamento. A mancha era um ser orgânico, semi-inteligente.
Será que Marshall tinha razão? Será que a camada de verniz que cobria o local da queda da Gazela era realmente nada mais do que um ser vivo, da mesma espécie? Um ser que dispunha de grandes energias mentais?
Não se podia fazer nada pelos quatro mutantes, embora isso causasse tristeza a todos. Levaram uma hora para atingir o local onde estavam antes os destroços da Gazela. Um esforço hercúleo, tendo-se em consideração a pesadíssima atração, que dificultava todo movimento.
Durante todo este tempo, Bell tentou sem cessar se comunicar com os mutantes, através do rádio do capacete. Mas o resultado deu em nada.
Quando os mutantes chegaram ao local da queda, notou-se que com seus trajes espaciais brilhantes se arrastavam de um canto para o outro, como que procurando alguma coisa. Bell olhou para Marshall numa expressão de interrogação. Mas o chefe dos mutantes fez apenas um gesto, dando a entender que o estado de influenciação hipnótica ainda perdurava, e que seria muito improvável que os mutantes voltassem ao estado normal pelas próprias forças.
Seu destino, de um momento para o outro, tornara-se um enigma. Bell bem que lhes havia gritado que voltassem... mas no mesmo momento desapareceram.
O rosto de Bell estava banhado em suor. Sem olhar para Marshall, disse-lhe:
Desaparecidos como a Gazela. Que pensa de tudo isto, Marshall?
Já pensei muito a respeito — respondeu Marshall prontamente. — Plásticos e metais como estes com que a Gazela era confeccionada, têm um grande teor de hidrocarbonetos, portanto, substâncias orgânicas, numa taxa de oitenta e cinco por cento. As ligações metálicas só servem para maior reforço.
Fez uma pausa. Bell continuou a fitá-lo admirado.
E daí?
O monstro lá atrás — Marshall fez um sinal com a cabeça, apontando a direção, onde estivera antes a Gazela — está precisando renovar sua substância ou talvez ampliá-la; por este motivo devora matérias orgânicas, tanto plastimetais como também seres humanos.
Bell, abriu a boca de espanto.
O senhor tem uma imaginação tétrica.
Marshall encolheu os ombros e Bell lhe confessou em voz baixa que suas suposições nada tinham de absurdo.

* * *

Passaram duas ou três horas. Falavam pouco entre si. Estavam sentados, muito apertados, sob a entrada da caverna e olhavam quase que constantemente para a direção onde tinham desaparecido os quatro mutantes. Este local ficava a cerca de seis quilômetros da caverna. Da posição mais elevada da entrada desta, podia-se ver bem. Notava-se também a mancha escura, quase sem contornos, da qual falara Tako Kakuta.
Os mutantes continuavam desaparecidos e todas as esperanças ainda alimentadas por Bell ruíram.
Houve então uma pequena discussão quando Tako e Ras Tschubai, o africano, assediaram Bell pedindo para ir até ao local da queda, com seus termo-irradiadores destruir a mancha marrom-escura.
Naturalmente Bell se recusava a permitir, depois de haver consultado Marshall.
Embora a ordem telepática que domina completamente os quatro mutantes não está atuando, os dois teleportadores podem atrair logo uma ordem idêntica, e sucumbirem — explicou John Marshall. — Quem quer que seja este desconhecido hipnotizador, conseguiu penetrar, a seis quilômetros de distância, com impulsos cerebrais em Ivã, Ishibashi, Sengu e Yokida. Por mero acaso, nós também não seguimos o mesmo caminho. Mas o perigo aumenta com a diminuição da distância.
Parecia haver lógica nestas palavras. Kakuta e Tschubai desistiram do intento.
Marshall e Betty Toufry tentavam repetidas vezes entrar em contato com Gucky, na Titan, mas a única coisa que conseguiam ouvir era um confuso murmúrio telepático.
Bell quebrava a cabeça, tentando descobrir um meio para melhorar sua situação e a dos seus auxiliares. Mas estes pensamentos pareciam palha seca. Não tinham nenhum ponto de apoio para nada. Cada idéia parecia mais absurda que a outra. Não podiam mesmo fazer coisa melhor do que esperar.
Os dezoito satélites de Gom percorriam suas órbitas num céu de penumbra, às vezes em grupo de dois, de três, até mesmo de cinco. Um deles, o maior, era Laros, que também era o mais distante.
Foi em Laros que os saltadores, em conluio com os aras, combinaram o ataque à Terra.
Bem longe, a uma distância de vinte horas-luz, estava a Titan, em expectativa, protegida por seus campos magnéticos de anti-rastreamento.
A questão do alimento começou a preocupar Bell. Cada traje espacial possuía um recipiente metálico com uma determinada quantidade de comida, sendo que a própria pessoa, por meio de um dispositivo adequado, podia se servir, sem ter que abrir o traje espacial.
A metade ou talvez dois terços da provisão já tinha sido consumida. No mais tardar dentro de vinte horas, teriam que encontrar um lugar em que pudessem despir o traje espacial. Só então, a reserva de víveres, que haviam trazido dos escombros da Gazela, lhes poderia ser útil.
Bell consultou o relógio de pulso. O ponteiro de segundos se arrastava como uma lagartixa cega no mostrador, e os outros dois ponteiros fosforescentes apontavam para números que não representavam nada para ninguém ali. Nove e dez... da manhã?... da noite? 28 de outubro de 1.984, tempo da Terra.
De repente, Marshall deu um pulo. Ao mesmo tempo, Betty deixou escapar um leve grito de surpresa.
Bell virou-se para o lado, perguntando:
Que foi que houve?
Marshall levantou a mão como resposta. Esticou a cabeça para frente, para ouvir alguma coisa.
Ras Tschubai, o teleportador, era quem estava mais próximo da saída. Virou a cabeça um pouco para trás, para ver Marshall, depois seus olhos se fixaram em qualquer coisa lá fora da caverna.
Ras tinha olhos muito penetrantes e não precisava de binóculo, que Bell estava toda hora comprimindo contra a viseira do capacete.
Ras continuava olhando para frente e via mesmo alguma coisa diferente.
A mancha marrom-escura estava começando a se mover. Na penumbra do lusco-fusco, sobressaía nitidamente contra o fundo cinza-claro do rochedo. Caminhava na direção da caverna.
Lá na frente — gritou Ras.
Bell observava com o binóculo. Não tinha pressa, ficou observando com calma, até que chegou à conclusão de que aquela coisa castanha caminhava firme na direção da caverna.
Está procurando, sondando nossa mente — disse Marshall. — E se encontrar alguém, naturalmente haverá de impor sua ordem hipnótica.
Bell sentiu um calafrio na espinha dorsal.
A massa marrom — massa é uma palavra muito imprópria — a “coisa” não era mais que uma fina camada no rochedo. Agora vinha se arrastando e se aproximava.
De telepatia, Bell não entendia muita coisa. Mas sabia que um telepata com dons hipnóticos, tinha primeiro que captar as vibrações mentais do cérebro estranho, para depois poder influenciá-lo.
A captação de ondas cerebrais não era muito diferente do processo de seleção de determinada freqüência num rádio receptor; naturalmente não havia dial nem botões de sintonização. E isso tornava o negócio um pouco mais difícil.
Apesar de tudo, não tinham muita razão para ficarem tranqüilos. A mancha marrom se aproximava com uma velocidade que eles, não obstante o empecilho da forte atração, jamais teriam atingido.
Bell tomou uma decisão rápida.
Temos que desaparecer daqui.
Marshall concordou:
Não temos nenhuma chance com este monstro.
Reuniram tudo, os víveres retirados da Gazela, as armas, os emissores portáteis que tinham maior alcance do que os transmissores do capacete, e o binóculo.
Foram se arrastando para fora da caverna, dirigiram-se na direção do rochedo, para dentro da escuridão, e engatinhavam no chão, o mais rápido que podiam.
Depois de haverem deixado a caverna, nem mesmo Ras Tschubai conseguia mais ver a mancha marrom-escura.
Coloquem-me a par do que estiver ocorrendo — pediu Bell aos dois telepatas. — Avisem-me assim que houver qualquer alteração.
Uma coisa está se alterando constantemente — murmurou Betty — A auscultação dos nossos pensamentos é cada vez mais nítida. A coisa está sempre mais próxima de nós.
Bell olhou para trás, mas não conseguiu ver outra coisa a não ser o planalto com suas agulhas de pedra. Nenhum sinal da mancha marrom.
Rastejaram uma meia hora. E esta meia hora não rendeu nem um quilômetro. Betty descansou uns instantes e depois falou:
Na minha opinião, vamos poder vê-la logo. Estou sentindo tão bem como se já estivesse atrás de mim.
Bell estava olhando para um dos maiores rochedos que havia por ali. Ergueu o braço para apontá-lo.
Ras, lá em cima, dê uma olhadela.
O afroterrano desapareceu. Durante alguns segundos, podia-se vê-lo lá em cima do rochedo, olhando fixamente para o trecho avermelhado da zona de luz. Depois voltou.
Ainda trezentos metros — anunciou laconicamente.
Bell estava de acordo.
Não tem mais sentido fugirmos dela. Em poucos minutos nos alcançará. Vamos nos entrincheirar lá atrás do rochedo.
Arrastaram-se até lá, para a mesma rocha onde há pouco estivera o teleportador Ras Tschubai, fazendo sondagem. Quando já estavam perto, notaram que a rocha se compunha de duas partes: uma base maciça e uma ponta esguia que se erguia por igual desde a base. Entre a rocha propriamente e a ponta esguia havia uma fenda de meio metro de largura: um parapeito ideal para atacar e defender.
Cada um se ajeitou o mais depressa possível. Betty acabou descobrindo, uns dois metros mais para cima, no paredão do rochedo, uma pequena saliência plana, onde se podia estender com relativo conforto. Apanhou a pistola térmica, arrastou-se uns metros para cima, com indizível esforço. Podia, de lá, atirar com facilidade nos que estivessem embaixo, através da fenda de meio metro.
Bell e Marshall se postaram bem atrás da abertura, de tal maneira que, durante um tiroteio, os fogos não se cruzariam. Tako Kakuta e Tschubai estavam de lado. Bell julgava que, durante um combate, certamente iminente, os dons parapsicológicos dos dois lhe seria de máxima utilidade.
Os minutos passavam lentos e pesados. Pareciam-lhes uma eternidade.
De súbito ouviu-se um grito de Betty.
Posso ver, vem justamente em nossa direção.
Que venha — respondeu Bell.
Esticou o braço direito um pouco para fora e esperou. Por alguns instantes, aquele deserto de pedras continuou como estava. Mas depois, uma sombra marrom de uma fina camada de verniz cobriu o chão claro, afastou pedras do caminho, passou por cima de outras e aproximou-se. Ouvia-se, concomitantemente, um leve ruído de algo que roçava ou se esfregava.
Esperar — murmurou Bell — deixar chegar bem perto.
Ouvindo Marshall tossir, Bell olhou preocupado para ele. O telepata percebeu o olhar nervoso do amigo e sorrindo, lhe disse:
Nada de novo... cinqüenta metros, quarenta, trinta...
Bell olhou mais uma vez para Betty lá em cima. Parecia não ter medo, calma na saliência da pedra, já mirando com a arma.
...vinte metros, quinze...
Fogo — gritou Bell.
Ouviu a voz de Marshall ao seu lado e viu os raios esbranquiçados de sua arma. Reparou bem para onde ele atirava, a fim de dirigir sua pontaria um pouco para a esquerda. Betty, de seu esconderijo, atacava outro setor do adversário, inacessível aos demais atiradores. O verniz se levantava em bolhas sibilantes e se transformava em fumaça acinzentada. Mas ondas de outras camadas se aproximavam, cobrindo o espaço vazio deixado pelo fogo intenso.
Tem pelo menos dois quilômetros de comprimento — exclamou Betty desesperada. — E meio de largura.
Marshall continuou atirando. Bell se levantou na base do rochedo para dominar melhor toda a topografia e, numa nova estratégia, para tentar cortar em dois pedaços o campo inimigo, de maneira a perderem a ligação um com o outro.
Foi, porém, uma tentativa frustrada, pois a largura era de mais ou menos meio quilômetro. Os claros deixados por Bell com seu fogo cerrado, em poucos segundos se encheram de novo com o marrom-escuro.
Voltou ao seu primeiro posto, quando percebeu que Marshall sozinho não conseguia impedir que o verniz chegasse até o rochedo onde estavam. Puxou o gatilho para frente, o que significava fogo contínuo, e despejou assim uma enorme descarga de raios térmicos no estranho ser.
Logo após, gritou para os dois teleportadores:
Vamos, desapareçam e procurem outra linha de combate.
Tako e Ras esperavam mesmo por esta ordem. Desapareceram no mesmo momento. E, depois de alguns segundos, em dois lugares diferentes do planalto, subiam densos rolos de fumaça de cor cinza-claro, o que naturalmente era sinal de que os mutantes tinham tido pleno sucesso na missão.
Mas, não houve mudança substancial no quadro geral. Parecia que o adversário não se preocupava muito com a quantidade de verniz que havia perdido em combate, nem com o calor horrível do solo que devia tostar seu ventre. O adversário não se desviava do objetivo. Perseguia-o com obstinação, com obstinação tão grande que Bell já estava contando nos dedos em quantos minutos sua posição na rocha seria atacada.
Naquela excitação toda, tinha ele se esquecido do grande perigo que representava para eles a força hipnótica desta coisa esquisita.
Marshall! — exclamou ele — arraste-se pela esquerda, contornando a agulha de pedra e atire de lá. Eu mantenho esta posição aqui.
Marshall obedeceu. Passou por Bell, contornou a ponta de pedra e quedou uns metros para a esquerda. Ali, os defensores tinham parcialmente aniquilado a camada do verniz marrom. Bell ouviu seus gritos de ira, ao rechaçar o inimigo. Mas parou de repente, exclamando:
Aqui há um esconderijo melhor, venha para cá!
Bell não hesitou muito, fez um sinal para Betty, que veio se arrastando e com dificuldade chegou ao lugar onde estava Marshall. Bell mantinha a posição até que Betty lhe comunicasse haver chegado perto de Marshall. Ainda teve tempo, durante o fogo cerrado, de chamar também os dois teleportadores.
Depois disso, arrastou-se até lá, o mais rápido que pôde. Tako Kakuta estava parado diante de uma espécie de buraco, acenando para ele. Uns poucos metros atrás de Bell, o misterioso verniz marrom-escuro avançava. Provocava pequenos estalidos ou um quase roçar de folhas secas. Passava agora pela rocha onde Bell estava deitado.
Com uma série de tiros, Tako manteve livre a fenda de saída. Bell o mandou para baixo, enquanto ele próprio se retirava, sempre atirando.
Até então não tivera tempo para se preocupar com o novo esconderijo. Agora, porém, que entrara mais com calma no interior, notou que aquilo era realmente uma galeria que num ângulo de quase cinqüenta graus conduzia para o fundo da terra, para um lugar bem profundo.
Bell foi atirado e empurrado até que, finalmente, de pernas para o ar, caiu de costas no grupo daqueles que haviam descido antes dele.
Alguém deu um grito de dor, mas a Bell não aconteceu nada.
Calma, pessoal — ordenou ele.
Virou-se um pouco e esticou a cabeça de tal maneira que o microfone externo do lado direito ficou na direção da saída da galeria. Com a respiração presa, tentou ouvir qualquer ruído lá de fora. Por alguns instantes, estava tudo silencioso. Mas aos poucos aquele leve roçar de folhas secas voltou, sempre aumentando. A arma já estava engatilhada na mão de Bell, quando o ruído estabilizou-se. Depois de esperar por alguns minutos, sempre atento, Bell voltou à posição normal.
Puxa vida, será que ninguém pode acender uma luz?
Acenderam-se duas lâmpadas de capacete e Bell começou a estudar o ambiente. O local onde estavam não era outra coisa senão o começo do prolongamento reto da galeria, que começava no solo do planalto.
Bell acendeu sua própria lanterna e a dirigiu no sentido da galeria. A luz era forte, mas não dava para chegar até o fim do corredor, que era em semicírculo, de piso plano, com três metros de largura e um e meio de altura.
A primeira etapa já foi superada — disse Bell. — O misterioso marrom-escuro, provavelmente não terá a intenção de descer para cá. Temos agora duas hipóteses. Primeira: Examinar esta galeria e descobrir se ela tem, em qualquer parte, uma outra saída. Segunda: Esperar até que o tal ruído de folhas secas termine, para retornarmos à superfície.
Betty pediu a palavra.
Estou sentindo que a coisa marrom-escura está à nossa procura. E não haverá de desistir tão cedo. Talvez seja melhor darmos uma inspeção nesta galeria. Enquanto o inimigo estiver atrás de nós, não podemos mesmo fazer outra coisa.
Bell aprovou a idéia.
Então, vamos embora. Não temos tempo para perder.
Tomou a frente do pequeno grupo. Recurvados, penetraram mais para o interior da galeria. A lanterna do capacete de Bell iluminava o caminho. Dava a impressão de que a galeria entrava ainda mais para baixo do solo. Seu traçado reto fez com que Bell, após poucos metros de caminhada, chegasse à conclusão de que não era obra do acaso, mas sim feita racionalmente.
Era este o único indício para tal suposição. Por este motivo, Bell não transmitiu a ninguém sua conclusão, esquecendo-se, porém, de que John Marshall e Betty Toufry podiam ler calmamente seu pensamento.
2



A bordo da Titan, o nervosismo aumentava.
Há dias, a gigantesca espaçonave pairava, imóvel, no espaço, aguardando uma comunicação — ou de Talamon, o superpesado de Laros, ou de Reginald Bell.
A Titan tinha chegado até aqui para aproveitar a última oportunidade que se lhe apresentava de evitar o ataque iminente dos saltadores contra a Terra. Atendendo a um convite dos aras, raça aparentada com os saltadores, os patriarcas dos saltadores haviam se reunido em Laros.
O décimo oitavo satélite de Gom era um ponto de encontro comum dos Aras.
Talamon era o único aliado que Perry Rhodan possuía entre as nações dos saltadores. O superpesado havia-lhe informado que não se podia contar de maneira alguma com uma desistência quanto ao plano de atacar a Terra. Foi por isso que Rhodan mandou, sob a proteção de Talamon, seu corpo de mutantes comandado por Bell para Laros. A missão era impedir a tal conferência dos saltadores.
Bell e seus companheiros já haviam conseguido abastecer com programação falsa o único posto positrônico dos saltadores que continha em sua memória os dados sobre a posição da Terra nas Galáxias. O aparelho era a positrônica da espaçonave dos saltadores que estava em mãos do superpesado Topthor. Este era amigo de Talamon, mas de maneira alguma seu correligionário. Topthor não podia, naturalmente, imaginar que, quando fosse buscar dados sobre a Terra, sua positrônica lhe haveria de fornecer indicações que diziam respeito à direção do sistema de Beta. Suspeitava, entretanto, de que Talamon não tinha uma atitude muito sincera em relação aos patriarcas dos saltadores e aos aras. Aliás, sem contar segredos, Talamon tinha confessado sua atitude, obrigando, no entanto, Topthor a manter sigilo, com promessas de enormes lucros.
Bell e os seus, infelizmente foram descobertos. Após violenta batalha, fugiram de Laros com a Gazela, que a grande nave de Talamon abrigava em seu bojo. Talamon, o amigo de Perry, teve realmente muita dificuldade em explicar aos patriarcas que não sabia nada a respeito da presença dos estranhos terranos.
Porém, após este triunfo inicial da bem sucedida fuga, Bell e os mutantes foram vítimas daquela inexplicável força que puxou a Gazela de encontro ao solo de Gom, como se fosse um brinquedo. Marshall tinha enviado uma mensagem telepática urgente a Rhodan, informando sobre os principais acontecimentos de Laros, incluindo naturalmente a programação falsa da positrônica de bordo dos saltadores.
Pela rota da desditosa Gazela, se podia deduzir facilmente que haveria de aterrissar em Gom. No final de seu comunicado, Marshall falou que Betty Toufry era de opinião de que aquele enorme campo energético que impedia a Gazela de se movimentar era de origem telecinética.
Esta foi a última comunicação do grupo de Bell.
Rhodan não podia saber se haviam sobrevivido ao pouso de emergência em Gom. Gucky, o mais poderoso dos telepatas do Exército de Mutantes, tinha, por mais de uma vez, julgado ouvir sinais. Porém este setor do espaço estava tão cheio de vibrações telepáticas, que mesmo Gucky não conseguia distinguir com segurança estes possíveis sinais do quase constante rumorejar telepático.
Mas ainda havia esperança.
Depois que Talamon conseguira afastar a suspeita que havia contra ele, a conferência de Laros continuava em seu ritmo normal. O prosseguimento da conferência foi ao mesmo tempo o motivo da permanente inatividade de Perry Rhodan. Imóvel no espaço, sob a proteção de seus campos de anti-localização, a Titan estava garantida. Se começasse a se movimentar, haveria o perigo de ser localizada. E ser localizada por Laros provocaria uma série de reações de acontecimentos indesejáveis.
Primeiramente, renovar-se-ia a suspeita contra Talamon. Depois iriam consultar os dados dos computadores do cérebro positrônico da espaçonave de Topthor. É verdade que nenhum cérebro orgânico jamais estaria em condições de distinguir dois resultados diferentes de computador, em se tratando de posições das Galáxias. Uma localização exata nas Galáxias tem três coordenadas de espaço, três de hiperimpulsos e duas de tempo. Além disso, ela se prende ainda a assim chamada “determinante de farol” que equaciona o caminho para o objetivo de qualquer posição nas Galáxias.
Tudo isto é uma confusão de números e de valores que ultrapassa a capacidade de qualquer cérebro. Mas se os saltadores tivessem alguma suspeita, haveriam de consultar uma outra positrônica maior e então examinar a seqüência de programações do aparelho de Topthor. Aí, viria à luz a trapalhada de Bell.
Para o bem de toda a Terra, Rhodan era obrigado a deixar na mão seu grande amigo Reginald Bell.

* * *

A caminhada continuava sem incidentes, mas com o tempo foi ficando muito monótona.
John Marshall e Betty Toufry assinalavam que os impulsos telepáticos se reduziam cada vez mais. Era sinal evidente de que Bell e seus companheiros se afastavam do ser marrom de Gom.
Examinaram as paredes do corredor sem emendas e lisas, confirmaram que continuavam retas e por isso se lamentavam, temendo não chegar nunca ao fim.
O único que nos últimos trinta minutos parecia ter descoberto algo de novo, era o próprio Bell. De tempo em tempo, parava um pouco, obrigando que todos fizessem uma pausa. Olhava para o pulso. Ninguém — fora os dois telepatas — poderia dizer se estava olhando para o relógio, para o regulador de dosagem, para o manômetro ou para o termômetro. Balançava a cabeça com admiração, murmurando qualquer coisa que ninguém entendia.
Quando repetiu esta cena pela décima vez, Marshall sorriu finalmente:
Por favor, diga a Ras e Tako, de uma vez por todas, o que lhe causa tanta admiração.
Bell olhou para ele surpreso, fazendo cair na sua face o clarão da lanterna do capacete.
Como é que é? Eu já lhe... Ah! É verdade... Diabo que carregue todos os telepatas.
Olhou então mais uma vez para o pulso.
Estava observando, há muito tempo — explicou ele — que a temperatura aqui embaixo é extraordinariamente baixa e constante ao mesmo tempo. Há meia hora que estamos com quatorze graus e alguma coisa mais. Centígrados, naturalmente. Regulei o termostato para o máximo de sensibilidade. A estabilidade da temperatura chega a quatro centésimos de um grau. Acho isto uma coisa surpreendente.
Marshall percebeu sem dificuldade a seqüência de seu pensamento.
E quando se pondera, além disso — disse ele completando a explicação de Bell; — que a galeria, tem toda a aparência de ter sido feita artificialmente, chegamos à conclusão de que não tem outra finalidade a não ser para guardar alguma coisa, que necessita de quatorze vírgula seis graus para ser protegida... em virtude da durabilidade ou por outro motivo qualquer.
Bell o acompanhou com muita concentração. No fim, fez apenas uma pequena correção:
Quatorze vírgula três e não seis. Na leitura de números, você falha um pouco.
Marshall sorriu e indagou:
Mas, é esta realmente a sua teoria?
Sim, estou plenamente convencido de que atrás destes paredões se esconde alguma coisa. O corredor foi construído por seres inteligentes e devem ter uma finalidade. Por exemplo, ligar os depósitos subterrâneos com o mundo lá fora. O corredor mesmo não pode ser um depósito. Do contrário teríamos encontrado alguma coisa. Quem sabe se o que está aqui armazenado é uma mercadoria muito importante, e, por isto, as entradas para o depósito são muito escondidas? Existe um grande número de raças nas Galáxias que tem uma predileção muito forte por portas invisíveis, inteiriças.
Mexeu-se para a esquerda e se arrastou uns metros para frente, bem rente à parede do corredor. Quando viu que não conseguiu nada, ficou de pé, ofegante, voltando ereto, quanto o permitia a altura do corredor. Bateu intencionalmente com as luvas do traje espacial contra a parede.
Mas a parede continuou parede. De uma passagem secreta que levava para um misterioso depósito, não havia o menor vestígio.
Bell ajoelhou-se, refletindo.
Quem sabe — disse ele — ainda não atingimos o objetivo. Este corredor só pode atuar como filtro se tiver o comprimento suficiente e, também se todas as variações de temperatura do caminho de entrada até a parte principal da instalação puderem ser amortecidas.
Olhou para Marshall:
Correto, vamos penetrar mais, prestando atenção no termômetro. Quando a temperatura se alterar, é porque já ultrapassamos o objetivo.

* * *

Três horas mais tarde, a temperatura ainda era 14,3 graus.
O ruído telepático como que apalpante do misterioso adversário tinha cessado. Podiam agora, sem nenhum perigo, voltar para o começo da galeria e sair pelo terreno afora. Mas ninguém pensava nisso. Estavam possuídos pela febre de achar o tal depósito.
De início foram apenas Marshall e Betty Toufry que repararam que a situação, tão monótona até então, estava mudando. Estavam recebendo impulsos de pensamentos, ainda confusos e pouco definidos, não permitindo uma compreensão suficiente. Mas, de qualquer maneira, indicavam que nas proximidades se abrigava um ser ao menos semi-inteligente.
Infelizmente, a faculdade de Betty e de Marshall para captar pensamentos estranhos era pouco dependente da posição, ou seja, da direção. Não podiam dizer mais do que “estou vendo alguma coisa em algum lugar”. Betty acreditava que os impulsos vinham “enviesados”.
Bell não sabia como agir. Reduziu o tempo de marcha, que se deveria chamar antes “tempo de se arrastar”, e esperou pela orientação dos mutantes.
Betty e Marshall registraram que os impulsos estavam mais intensos. Mas o corredor, pelo menos até o ponto em que as lanternas dos capacetes o iluminavam, continuava ainda vazio.
Bell se sentia, a cada segundo, mais nervoso. Há instantes já havia sacado da pistola energética e enquanto caminhava para o interior do corredor, sua mão direita empunhava, em posição de fogo, a terrível arma.
Assustou-se todo, quando Marshall atrás dele, gritou de repente:
Atenção!
De bruços no chão, perguntou Bell:
Que é que houve agora?
Alguém ou alguma coisa nos descobriu — respondeu Marshall afobado. — Sinto uma verdadeira bateria de impulsos inimigos.
Com maior nitidez do que ouviu até agora?
Um pouco. Mas não são ainda pensamentos claros.
Quer nos atacar?
Espere um pouco... não, não creio que possa fazer isso.
Maravilhoso — disse triunfante. — Com tais...
Alguém o pegou pelo braço. Ras Tschubai, o africano.
Silêncio — disse ele baixinho. — Estou ouvindo alguma coisa.
Bell prendeu a respiração. Outros não reagiram tão rapidamente quanto ele. Em seu receptor do capacete ouviu o som típico da respiração dos demais. Mais para trás, havia outros ruídos: de alguma coisa que roçava, como já ouvira uma vez, quando o monstro de Gom os atacou por umas duas horas.
Aí está o verniz de novo — resmungou ele. — Peguem as armas e prestem atenção para um não atingir o outro. Vamos para frente.
Estava agora com muita pressa e se arrastava para dentro da galeria com a maior rapidez possível. As informações de Marshall vinham regularmente em intervalos, sempre com aquela voz monótona:
Mais forte... mais forte...
Dizia respeito aos impulsos dos inimigos. O perigo estava, pois, iminente.
O que mais irritava Bell, é que o corredor parecia sempre vazio. O ruído, que tinha ouvido antes, devia vir mesmo do corredor. Onde estava, porém, o autor do barulho?
...Mais forte... mais forte... mais forte — anunciava Marshall.
Depois... estacou.
Onde?
Ali.
Marshall apontou através dos ombros de Bell. Mas Reginald não viu outra coisa a não ser um risco preto muito fino na parede, uns dois metros para trás.
Que é isto?
Marshall não respondeu. Empurrou Bell um pouco para o lado e engatinhou para frente. Na altura do risco preto, parou e estirou-se.
Venha aqui — chamou ele. — Olhe isto.
Bell se aproximou e os outros o seguiram.
O risco preto estava um centímetro acima do chão do corredor. O piso tinha aí um leve desnível e um suave aclive. Elevação esta que chegava até rente do risco preto e o tornava ainda mais estranho.
Dava a impressão de que alguém, com um lápis de ponta muito fina, tivesse traçado na parede clara aquela linha de mais ou menos meio metro, bem horizontal. Bell não via nenhum sentido naquilo.
Marshall percebeu seus pensamentos.
Dissolva a parede, com cuidado, ao longo do risco, aí você vai ver o que é isto.
Bell apanhou o irradiador térmico, apoiando-se nos cotovelos, regulou a saída dos raios térmicos para o grau mais fraco possível e dirigiu a arma para o pequeno desnível no chão do corredor. Com o fino jato energético do irradiador, o material se fundiu, escorreu e se espalhou com fumaça pelo solo.
Mais para cima — disse Marshall. Fez-se uma perfuração na parede e Bell pôde ver que o traço penetrava pela parede adentro como uma camada escura. A arma continuou trabalhando, abrindo um buraco entre a parede e o chão de tal dimensão que dava para alguém meter a cabeça, inclusive com o capacete. O que antes era um risco, mostrava-se agora como uma tampa delgada, marrom-escura, que fechava o buraco e ainda estava recoberta pela camada de pedra.
Bell reconheceu logo o que tinha diante de si. Com uma expressão de surpresa, baixou a arma, desligando-a depois.
Uma poça de verniz — murmurou. Quando encostou o capacete no chão, viu com um olho o estranho ser marrom-escuro. Notou que não se movia, apesar da temperatura da rocha em sua proximidade atingir talvez quatro vezes mais o calor de seu ambiente normal.
Sua cabeça formigava de teorias a respeito.
Virou-se para Marshall a fim de saber sua opinião. No mesmo momento Betty exclamou:
Atenção, está acontecendo uma coisa diferente.
Ela sentiu — tão nitidamente como John Marshall — que os odiosos impulsos inimigos que tinham suportado nos últimos quinze minutos haviam sumido repentinamente. Em lugar deles, surgiu então algo diferente, indefinível. Dava a impressão de que o estranho e misterioso ser, de onde saiam todos os impulsos, estava muito ocupado.
Alguns segundos depois, aquela poça de verniz, escondida na parede, começou a se mover. Com um leve chiado foi penetrando parede adentro. Bell tentou detê-la, mas a superfície lisa fez com que suas grossas luvas escorregassem. Alguns segundos depois, o ser misterioso havia desaparecido.
Quase que ao mesmo tempo, soprou uma forte rajada de vento fresco através do corredor. Veio tão inesperadamente, que Bell assustado virou para trás, procurando por onde havia entrado aquele vento forte.
Mas não conseguiu descobrir nada. O vento não veio de nenhum lugar e era muito fresco, como mostrou o termômetro. Em conseqüência do trabalho de Bell com o irradiador térmico, a temperatura, naquele lugar do corredor, onde foi descoberta a poça de verniz, tinha chegado a quarenta graus. O vento fresco que agora soprava através da galeria fez com que a temperatura baixasse. Em poucos minutos, desceu para mais ou menos quatorze graus. O vento cessou e o termômetro voltou aos 14,3 graus, permanecendo neste nível.
A operação foi tão clara, que ninguém precisava quebrar a cabeça: regulagem automática da temperatura pela adução de ar de um reservatório.
O que deixou Bell nervoso foi o fato de não saber onde estava este reservatório e de não ter nenhuma noção de como este ar foi posto em movimento.
A poça de verniz estava, no momento, desaparecida. Bell comprimiu o capacete contra o solo, olhou para dentro da perfuração que abrira com os raios térmicos e tomou uma resolução:
Vamos ao encalço da “coisa” misteriosa. Vai dar um pouco de trabalho, mas teremos que saber finalmente onde é que viemos parar.
Marshall ainda leu os pensamentos que revolviam a cabeça do Bell: provavelmente, não haveria nenhuma porta clandestina nas paredes do corredor. Se a instalação foi construída pelo ente de Gom, seria suficiente uma determinada porosidade das pedras para permitir passagem das partículas do verniz marrom-escuro cuja espessura não chegava a um décimo de milímetro.
Bell fez um sinal aos outros para que se afastassem um pouco e começou a alargar o buraco com o irradiador térmico. Regulou a arma para uns graus a mais, do que na vez anterior. Como conseqüência disto, a cavidade se ampliou muito mais depressa; houve uma outra compensação de temperatura, provocando um vento tão forte pelo corredor que era necessário se escorar em alguma coisa para não ser arrastado.
Betty Toufry e John Marshall revelaram que a sensação de cansaço e de esforço que o estranho ser transmitia de qualquer lugar, aumentava substancialmente.
Bell insistia numa determinada direção. A bifurcação do corredor começava no fundo da galeria e se aprofundava rapidamente. Depois de ter avançado uns cinco metros, tornava-se evidente que ele tinha razão: a poça de verniz reapareceu. Os raios térmicos ampliando a cavidade, deixavam ver com sua cintilância uma parte daquela massa marrom-escura. Parece que sentia muito a elevada temperatura ao redor e tentava fugir.
Mas Bell continuava em seu encalço. Metro por metro, a bifurcação para dentro da rocha ia sendo derretida, sua largura se estreitava cada vez mais, quando a massa marrom se agitava.
De repente o feixe dos raios energéticos penetrou no vazio. A parede da frente da bifurcação mostrava então uma abertura arredondada. A massa desapareceu por aí, mergulhando na escuridão que reinava daí para frente.
Bell desligou a arma, quando viu a abertura com bom tamanho. Sentou-se à beira do buraco, esticando as pernas para dentro. Depois inclinou-se para frente, deixando que a lanterna do capacete lhe mostrasse o que havia na frente.
O que ele viu foi uma parte de um recinto aparentemente circular, que, apesar de não ter mais de dois metros de altura, parecia possuir grande diâmetro. Bell foi escorregando para frente, porém ainda se apoiando com as mãos na borda do grande orifício. Depois deixou-se cair.
Podem vir cá para baixo — gritou ele — mas cuidado ao pular.
Enquanto um atrás do outro saltava, Bell ia observando todo o aposento. Reparou que — em oposição com o corredor, pelo qual haviam passado — a rocha inteiriça aqui não era vista, pois as paredes e o chão estavam revestidos de uma camada escura que brilhava ao clarão da lanterna.
O verniz marrom que os havia seguido, parecia haver sumido. Bell não mais conseguiu vê-lo em parte alguma.
Não obstante, Marshall ainda constatou:
Aqui há uma grande concentração de impulsos de pensamentos, como se estivéssemos marchando através do cérebro de um ser gigantesco.
É perigoso? — indagou Bell.
Não. Não somos nem atingidos por eles.
Ao mesmo tempo, todas as lanternas se acenderam. Verificou-se então que realmente o espaço era arredondado e tinha uns trinta metros de diâmetro. Encontrava-se vazio. Não havia nenhum indício de sua finalidade.
Notava-se que Bell não estava muito contente.
Caminhamos quase meio dia e com o suor do rosto penetramos palmo a palmo nesta rocha... só para terminarmos num recinto subterrâneo vazio? Onde está o desgraçado verniz marrom que nos trouxe para cá?
Marshall interveio:
Pode estar muito bem aqui na redondeza. Contra este fundo escuro, será muito difícil reconhecê-lo.
Bell caminhou de joelhos mais alguns metros para frente, examinando o solo palmo a palmo. Ras Tschubai e Tako Kakuta queriam fazer o mesmo, mas neste mesmo instante ouviu-se um ruído de algo que estalava do teto. Bell virou-se imediatamente. Viu como uma parte da camada externa do preto brilhante se desprendia do teto e caía. No chão, entre Marshall e o japonês, havia uma extensão de cinco metros quadrados de uma camada muito fina. No mesmo instante da queda, quebrou-se em quatro pedaços e os quatro pedaços começaram a se mover. Com o típico ruído de roçar de folhas secas, transportaram-se do chão para a parede mais próxima.
Bell, de tanta estupefação, não sabia que decisão tomar. Ficou olhando para a parede, vendo-as sumir, através da camada escura, como antes também sumira aquela poça de verniz, que acabou levando todos para ali.
Poça de verniz...! — exclamou Bell. — Aqui só existe verniz.
Virou-se e olhou para o teto. O local de onde caíram os quatro seres de Gom ainda estava tão escuro como todo o teto, as paredes e o chão. Mas nada disso prejudicava a teoria de Bell.
Marshall e os dois teleportadores tinham desistido de procurar. Marshall continuou escutando, mas não captava outra coisa senão uma confusão indecifrável de pensamentos.
O que você acha disso? — perguntou a Bell.
Nada de novo — respondeu Bell meio irritado. Estas manchas de verniz continuam se divertindo, atapetando as paredes internas deste aposento, com seus próprios corpos.
E com que finalidade?
Quem poderá saber?
Marshall sacudiu os ombros. Queria perguntar alguma coisa, mas Betty o interrompeu:
Não sei por quê — disse ela baixo e meio nervosa, — mas tenho a impressão de que há uma terceira espécie de seres aqui na redondeza. Mais ou menos ali.
Apontou com a mão um trecho bem grande da parede. Bell se interessou imediatamente.
Marshall?
Abanando a cabeça, Marshall disse:
Não, não noto nada. Mas não fique preocupado, Betty sempre foi uma telepata superior a mim.
Bell se arrastou para o local que Betty havia assinalado. Cansado, levantou a mão para bater na parede. Mas já na primeira pancada, recuou com um grito meio entalado na garganta.
A mão não encontrou resistência. Ao tocar na parede, ouviu-se um ruído como se estivesse rasgando papel de seda. Com muita facilidade, abriu-se um buraco.
Aqui — murmurou Bell — aqui continua o caminho.
Atacou outros trechos da parede com o mesmo sucesso. Bastava bater para provocar riscos que logo se abriam em duas partes. Em menos de um minuto, já tinha aberto um rombo suficiente para a passagem de um homem.
Meio desconfiado, perguntou:
Marshall, não vê nada ainda?
Nada — respondeu Marshall.
Esquisito, muito esquisito mesmo — murmurou Bell.
Passaram pelo buraco e chegaram a um lugar, que até nos mínimos detalhes parecia com aquele que haviam deixado há pouco. Isto só foi observado depois que percorreram todo o espaço com as lanternas do capacete. A única diferença era um pequeno desnível no fundo.
Tenho impressão que vem de lá — disse Betty um tanto incerta.
Marshall, que estava muito atento, falou:
É verdade, ela tem razão. Estou sentindo alguma coisa, como que alguém que está dormindo e tem um pesadelo.
Bell se arrastou para o trecho do desnível. Depois da experiência anterior, foi-lhe fácil retirar a camada do chão. Bell a rebentou com a pesada luva.
A primeira coisa vista foi um pedaço de tecido cinza, semelhante a couro. Em alguns lugares, tinha ainda restos de uma camada que brilhava como prata... e isto deixou Bell meio perplexo.
Com uns golpes mais fortes, apareceu então algo que se assemelhava muito a um corpo humano. Mais um puxão, e aí estava uma cabeça, uma cabeça com um capacete. O vidro da viseira estava um pouco embaçado, mas o rosto da pessoa não foi difícil de reconhecer.
Era Ivanovitch.
Bell ouviu gritos desesperados atrás de si. Ele mesmo trabalhava calado e triste. Instantes depois descobriu também a cabeça de Ivã, o mais velho, sem o capacete, até que todo o corpo do mutante foi liberado daquele invólucro.
As duas cabeças estavam de olhos fechados, mas podia-se observar que as narinas tinham um leve movimento rítmico. O mutante respirava.
Batendo-lhe de leve nos ombros e puxando-o pelas pernas, Bell tentava despertá-lo. Por fim, Marshall o interrompeu.
Acho que não é tão fácil assim, Bell.
Provavelmente está ainda sob ação de influenciamento pós-hipnótico.
Mas, Santo Deus, como é que veio parar aqui? E onde estão os outros três, Ishibashi, Sengu e Yokida?
Bell olhou em volta. As lâmpadas dos capacetes inundavam o ambiente de luz. Não havia mais desníveis no chão. Se os três japoneses estivessem ali embaixo, não estariam naquela peça.
Olhe para seu traje espacial — falou Marshall. — Não dá a impressão de que tentaram sugá-lo?
Bell concordou. Tako Kakuta observava os pedaços da camada escura que Bell rebentara e jogara de lado.
Camadas de verniz, sem dúvida — afirmou ele. — O que muito me admira é que o senhor conseguiu rebentá-las com facilidade.
Admira, por quê?
Tako apanhou um daqueles pedaços e lhe mostrou:
Podem ser rasgados só num sentido. Repare... assim. Em outro sentido é impossível, como aliás em certos tipos de plásticos ou celofane. Só podem ser rasgados numa direção, e o senhor o fez corretamente.
Bell ouviu tudo muito pensativo. Depois voltou-se para Goratchim e com o auxílio de Marshall o puxou uns dois metros para o lado. Aí percebeu que o mutante não estava deitado no chão puro, mas em cima de uma camada marrom-escura de folhas vivas.
Mundo esquisito — disse Bell admirado. — Se a gente ao menos pudesse saber o que pretendem com tudo isto?
Talvez haveremos de saber, quando ele voltar a si — opinou Marshall.
Temos que levá-lo para fora — constatou Bell. — Aqui embaixo jamais voltará a si. Quando eu então...
Betty Toufry o interrompeu no meio da frase com um grito agudo de desespero:
Cuidado! Estão nos atacando.
Marshall se concentrou e ficou escutando.
Ela tem razão — disse, muito assustado. — Temos que sair daqui, as solhas querem nos prender.
Betty, para fora — ordenou Bell. — Todos ou outros me ajudam aqui com o Ivã.
Betty se arrastou o mais depressa que pôde. Ao chegar à parede, gritou:
Não consigo mais achar o risco. E a resposta de Bell foi:
Então, faça um outro.
Betty se pôs ao trabalho. Porém, ou se deu uma alteração qualquer com as solhas, ou Betty não estava preparada para este tipo de trabalho, como Bell.
Quando os homens chegaram com o corpo inerte de Goratchim, Betty suspirava desesperada:
Não consigo...
Sem dizer uma palavra, Bell deixou cair o braço do mutante que estava arrastando, levantou a mão e deu um grande soco na parede. Sentiu que a parede cedeu com o pesado golpe. Entretanto como uma película de borracha elástica levemente esticada, voltou outra vez ao lugar. Bell se levantou e se lançou com toda força contra a parede. Mas o resultado não foi melhor.
Alguma coisa havia mudado a substância das solhas neste meio tempo.
Afastem-se — ordenou Bell — temos que fazer fogo.
Antes que estivesse com a arma em posição de atirar, começou atrás dele um forte ruído de algo que se esfregava. Bell não se deixou perturbar com isto, mas os outros se entreolharam e Marshall gritou:
Elas vêm por trás de nós. Desprendem-se, às dúzias das paredes, do chão e do teto. Vamos depressa.
Bell atirava. A substância das solhas não estava preparada para os raios esfuziantes e poderosos da pistola térmica. Quase que instantaneamente, Bell abriu um rombo que era suficiente até para o corpo avantajado de Goratchim. Segundos depois, já estavam todos do outro lado.
Passaram a ouvir o mesmo ruído ou chiado de sempre, como no aposento que haviam abandonado há pouco. E agora, com a luz das lanternas, estavam vendo as solhas em grandes grupos escorregar do teto ou das paredes e saírem do chão. E aquele buraco — feito há pouco por Bell — estava se alargando cada vez mais. Algumas solhas se desprendiam da fina parede, aumentando assim o rombo, até o chão. Proporcionavam assim uma passagem cômoda para as demais solhas que estavam prontas para o ataque.
Avante! — gritava Bell. — Temos que tentar chegar até o buraco por onde entramos.
Arrastavam com pressa o mutante de duas cabeças, Bell não tirava mais da mão a pistola térmica. Por onde que os seres de Gom avançassem, recebiam o fogo direto de sua mão firme.
Ainda não se podia imaginar o que pretendiam fazer as solhas. Não tinham armas, nem naturais, nem mecânicas. Não tinham braços, nem pernas, nem boca.
Mas todos sabiam que elas conseguiam dominar seus adversários. Um exemplo disso era o forte Goratchim, com seu traje espacial semi-dissolvido.
Puxando o pesado corpo do mutante, chegaram até a metade do aposento. Betty percorreu com sua lanterna do capacete todo o recinto. Mas não conseguia mais ver a abertura pela qual entraram. Marshall foi ajudá-la na procura, enquanto que Bell e os dois teleportadores se incumbiam de afastar com as armas de fogo as solhas que atacavam.
Um minuto depois, não havia mais dúvida: não existia mais o buraco, as solhas o haviam tapado.
Pelo rosto de Bell, corria o suor.
Temos que cavar nós mesmos uma outra galeria, — foi sua resolução. — Vamos, ponham Ivã ali ao lado da parede.
Ele mesmo foi à frente e começou a trabalhar com sua pistola. Não se importava com o calor sufocante que se irradiava da pedra incandescente, que desta vez, infelizmente não provocava aquela lufada de ar fresco, para amenizar a quentura. Com a temperatura externa de trezentos graus centígrados, o calor penetrava no traje espacial, apesar do dispositivo automático de refrigeração, atingindo a casa dos quarenta graus.
Mas também para as solhas a temperatura estava demasiadamente elevada. Formavam um semicírculo em torno das pessoas que, ou estavam assistindo ao trabalho de Bell, ou estavam de costas esperando preparadas para atirar, caso atacassem de novo.
A saída começava a abrir-se metro por metro. Atrás de Bell, vinha primeiro Goratchim, que era arrastado, e depois os outros. Quando as solhas começaram a atacar, Marshall abriu um fogo tão cerrado que matou um grande número delas. As demais perderam o interesse da perseguição.
Neste meio tempo, Bell estava refletindo que para atingir o corredor central, devia abrir o trilho um pouco mais para cima. Calculou bem o ângulo certo e começou então a escavar degraus na rocha. O trabalho a mais não tinha importância, já que Marshall estava em condições de rechaçar as investidas do traiçoeiro adversário.
Betty, no entanto, afirmava que a ordem de ataque era transmitida telepaticamente a cada instante.
Para evitar qualquer investida de surpresa das solhas, Marshall ficou parado no primeiro degrau. Cada degrau fora feito com trinta centímetros de altura e metro e meio de comprimento. Se Marshall encolhesse um pouco as pernas, tinha espaço suficiente para deitar-se comodamente.
Acima dele Bell, Betty, os dois teleportadores e Ivã Goratchim, ainda inconsciente, continuavam o caminho. Alguns minutos depois, Marshall não percebeu nada mais, a não ser o jogo de luzes que se cruzavam.
Sua lanterna se dirigia sempre reta para dentro da galeria. Durante uns quinze minutos, a situação foi de calma absoluta. Mas após este intervalo, os microfones do capacete começaram a captar aquele ruído de alguma coisa que roçava. Outra vez, Marshall intranqüilizou-se.
As solhas estavam de volta.
Marshall as observou com calma, quando elas, hesitando, se aproximavam do reflexo da lâmpada. Não conseguiu verificar se elas sentiam a claridade. Mas o ruído continuava o mesmo.
Naturalmente estava de arma em punho, preparado. Esperava paciente que a primeira solha atingisse a base do degrau. Já ia apertar o gatilho, pois estava certo de que o degrau não era nenhum empecilho para elas.
Mas tirou o dedo do gatilho, quando reparou que o ser esquisito bateu contra a rocha, escorregou alguns centímetros e quedou imóvel.
Chegaram outras solhas e sendo o corredor um pouco estreito, vinham umas sobre as outras. Mas a cada uma delas acontecia o mesmo que à primeira: chocavam-se contra a parede de pedra, escorregavam uns centímetros para trás e permaneciam imóveis.
Marshall teve uma idéia. Deixou a arma de lado, por uns momentos, pegou na primeira solha que estava por cima, observou se as outras não estavam coladas nela, e a puxou para seu degrau, recuando ele mesmo para o degrau superior.
Observou que o ser de Gom, pouco menor que a superfície do degrau, movendo-se um pouco de um lado para o outro, chocou-se de encontro à rocha a seus pés, escorregou um pouco para trás. Empurrou-se mais para frente, até que mais da metade de seu corpo ficou pendendo no ar. O estranho ser perdeu o equilíbrio e caiu sobre sua companheira que a esperava embaixo, imobilizando-se.
Marshall pegou-a novamente e trouxe para cima do degrau. Seu senso científico não lhe permitia tirar uma conclusão importante de uma só experiência.
Mas sua experiência foi interrompida. Primeiro, julgara ter ouvido um grito, mas quando o ruído esquisito se repetiu, notou que se tratava de um sinal telepático. Em contraste com a confusão de impulsos que vinha dos aposentos arredondados, em contraste com o comando inimigo que levava as solhas ao ataque, e em contraste com os longínquos, mas bem compreensíveis pensamentos de seus colegas, causava-lhe a impressão de que provinha de um cérebro, muito semelhante ao do homem.
A mensagem telepática dizia:
Ajudem-nos, matem os estranhos.
Marshall sabia que Betty também teria ouvido o pedido de socorro, tão bem como ele. Sabia ainda que Bell poderia se utilizar de qualquer arma quando o negócio ficasse sério. Pois Marshall tinha certeza de que o pedido de socorro partira das solhas, ou melhor, falando do conjunto de todas as solhas ali reunidas e de que aquele pedido se dirigia a um cérebro que, como os homens, não entendia nada da telepatia do ser de Gom.
Com uma descarga, matou as solhas que se tinham agrupado no degrau inferior. Virou-se para trás, e correu escada acima. Conversou com Betty. Ela tinha recebido e compreendido o pedido de socorro das solhas e informou a Bell de tudo. Mas até o presente momento, não havia nenhum indício de que alguém tivesse a intenção de vir em socorro das solhas.

* * *

Bell não tinha mais esperança de atingir o corredor central, pelo qual haviam penetrado no fundo da rocha. De repente, porém, sob o fogo de sua pistola térmica, a parede da frente de sua nova abertura artificial se dissolveu, caindo em pedaços, deixando à vista um grande rombo escuro. O espaço lá dentro parecia ter uma pressão atmosférica bem pequena, pois uma rajada de vento quente quase atirou Bell através do recém-surgido buraco, levantando poeira e estilhaços de pedra em redor dele.
No mesmo instante, Betty ouviu o grito desesperado:
Estão no reservatório do oeste, eles, os estranhos.
Não tinha muita certeza se o que ela tinha entendido como oeste, era mesmo oeste. Mas foi assim que o transmitiu a Bell.
Suponhamos que com as palavras “eles” e “os estranhos” estão se referindo a nós, então em pouco tempo vamos ter muito que fazer. Somente quero saber de quem as solhas lá embaixo estão esperando auxílio.
Não havia ainda acabado de falar as últimas palavras “esperando auxílio”, quando um jato de luz de uma das lanternas caiu sobre uma parede lateral do grande salão em que se encontravam. Em geral, as paredes e o chão eram de pedra pura, mas neste local, que Ras Tschubai iluminava agora, havia uma espécie de cortina feita com a substância de um marrom brilhante do corpo das solhas.
Bell não teve dúvida de que aquela cortina esquisita encobria uma saída, provavelmente um corredor, que serviria para o arejamento e para a manutenção de uma temperatura constante nas instalações subterrâneas.
Lançou um olhar de desânimo sobre o inconsciente Goratchim, murmurando:
Não há por onde, temos que continuar a arrastá-lo. Vamos, para fora.
Apontou para a cortina. Tako Kakuta chegou até lá, desfechou um enorme soco de mão fechada e teve de constatar que a massa corpórea do ser de Gom não havia perdido nada de sua poderosa elasticidade.

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