Autor
KURT
MAHR
Tradução
S.
PEREIRA MAGALHÃES
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Gom é onipresente — apostando
corrida com a
morte na região de penumbra do
planeta Gom.
A
história da Terceira Potência em poucas palavras:
• O
foguete Stardust alcança a Lua e Perry Rhodan descobre a nave
exploradora dos arcônidas, que realizou um pouso de emergência
(vol. 1).
• Instalação
da Terceira Potência contra a resistência das grandes potências
terrenas e defesa contra tentativas de invasão extraterrena (vols. 2
a 9).
• Primeira
intervenção da Terceira Potência nos acontecimentos galácticos.
Perry Rhodan defronta-se com os tópsidas e procura solucionar o
enigma galático (vols: 10 a 18).
• A
Stardust-III descobre o planeta Peregrino e Perry Rhodan alcança a
imortalidade relativa (vol. 19).
• Perry
Rhodan regressa à Terra e luta por Vênus (vols. 20 a 24).
• O
Supercrânio ataca (vols. 25 a 27).
• Chegada
dos saltadores, que pretendem eliminar a concorrência potencial da
Terra no comércio galático (vols. 28 a 37).
• Primeiro
contato de Perry Rhodan com Árcon e atuação como delegado do
cérebro positrônico que exerce o governo no grupo estelar M-13
(vols. 38 a 42).
Para
evitar maiores suspeitas, Bell e os mutantes tiveram de fugir às
pressas, a bordo da Ganymed. Aproximando-se de um planeta pedregoso e
estéril, foram atraídos por uma força irresistível. Eram os gons,
uma massa orgânica, seres insignificantes em si, mas quando
agrupados em centenas de milhares tornavam-se telepatas
perigosíssimos...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Chegou em Gom no momento exato...
Reginald
Bell
— Perdeu o contato com Rhodan. Encontra-se no mundo louco dos gons.
John
Marshall
— Observa tudo, percebe as forças telepáticas dos gons e consegue
entrar em contato com eles. Convence-se de que são explorados pelos
aras.
Ivã
Goratchim
— O detonador do Exército de Mutantes. Destruidor de 400 bios.
Betty
Toufry
— Tem os dons da telepatia e da telecinese, muito corajosa.
Tako
Kakuta
— Manifesta-se um gênio técnico, dominando um disco voador do
adversário.
Wuriu
Sengu
e Ishibashi
— Iam sendo devorados pelos gons, ansiosos por matéria orgânica.
1
— A
sombra já avançou um bom pedaço — disse Reginald Bell.
Depois de
seis horas, a tempestade também terminara. As plantas carnudas, de
folhas azuladas, que alguns minutos antes da tempestade tinham
mergulhado no solo, como minhocas, tornavam a aparecer.
Contorcendo-se, arrastavam-se para fora de seus esconderijos,
alcançavam o chão e se erguiam na forma em que estavam antes.
Depois continuavam completamente imóveis.
O clarão
avermelhado do sol também avançara por uns palmos. Uma esguia
agulha de pedra, rochosa, esquisita, formada certamente pela
esmagadora atração da terra de Gom, que estava antes na sombra, era
agora banhada pelo sol.
Bell e seu
grupo estavam saindo da caverna, onde se abrigaram durante a
intempérie. A primeira coisa que procuraram ver foram os destroços
da Gazela, com a qual chegaram até ali. Amassada, despedaçada e
comprimida de encontro ao solo pelo descomunal fenômeno de atração,
ali estava, a menos de quinhentos metros da esguia torre de pedra, a
famosa espaçonave. Fora vítima de Gom e daquela força misteriosa
que a puxara do espaço, como se fosse um ímã potentíssimo.
Isto havia
acontecido há mais de um dia, na contagem de tempo da Terra. Depois
disso, não tiveram mais contato com Perry Rhodan que, muito longe no
espaço, fora deste sistema, aguardava na nave capitania Titan o
resultado da missão.
Mais ou
menos um dia inteiro foi o que levaram, do ponto da queda da
espaçonave até o local onde estavam agora. Tako Kakuta ficou
inconsciente por longas horas e tiveram que carregá-lo. Das duas
cabeças de Ivã Goratchim, uma tinha um grande galo, isto é, a de
Ivanovitch, o mais moço. Ivã, o mais idoso, se lamuriava: as dores
provocadas pelo ferimento na cabeça de Ivanovitch, ele as sentia
através do sistema nervoso, que era um só.
A grande
surpresa geral foi Betty Toufry. Depois que todos acabaram de sair
dos escombros da Gazela, a opinião geral era que alguém devia
penetrar novamente nos destroços para procurá-la e trazê-la a
salvo, pois certamente estaria morrendo de medo lá dentro. Mas
quando começaram a sair, um após o outro, do meio daquela confusão
de ferro e plástico, deitando-se em terra para apalparem o corpo à
procura de ferimentos, lá estava Betty, há muito tempo, sentada
numa pedra e sorrindo para eles. Podia ler-lhes o pensamento e sabia
exatamente o que estavam pensando no momento.
Reginald
Bell lhe havia assegurado nunca ter visto uma jovem tão destemida
assim. Betty sorria, irônica.
O vento,
que soprava constantemente, trazia ondas de calor de até quinhentos
graus absolutos do ponto em que caíra a Gazela até eles. Por isso,
tentaram chegar até um trecho de penumbra. Primeiro, caminharam de
pé, como homens. Quando notaram que a posição ereta dos orgulhosos
terranos não era nada prática para vencerem o peso enorme provocado
pela forte atração, começaram a andar de quatro.
Tinham
conseguido chegar até a caverna, quando começou a pesada chuva, ou
melhor, a pesada tempestade. Viram sumir pelo chão adentro as
plantas de folhas grossas e azuladas. Ficaram surpresos. Dois ou três
minutos depois, a primeira rajada de vento varreu o planalto e os
teria carregado, não tivessem procurado abrigo atrás das pontas de
pedra no rochedo. Esconderam-se numa caverna, esperando seis horas,
até acabar a tempestade.
E agora lá
estavam, isolados de qualquer ligação, num mundo tão grande como
Saturno, cujo ano planetário tinha a duração de trinta meses da
Terra. Girava em torno de seu eixo e expunha sempre a mesma face para
o astro central do sistema Gonom. Sua órbita era, porém, muito
excêntrica, de maneira que fortes oscilações produziam alterações
periódicas quanto à posição do sol. Gom era um mundo de oxigênio,
com uma gravitação na superfície de 1,9 e uma pressão do ar de
vinte atmosferas.
Um mundo
no qual o homem não poderia parar de pé mais que dois minutos e
onde precisaria da proteção de trajes espaciais adequados, para não
ser esmagado pela fortíssima pressão do ar. Um mundo onde viviam
plantas azuis, de aspecto horrível, semi-inteligentes, mundo em que
num hemisfério dominava a noite eterna e no outro, o dia sem fim. Um
mundo em que, quem estivesse na região crepuscular teria sempre
atrás de si a escuridão e em sua frente nada mais do que um fraco
clarão avermelhado, para toda a eternidade.
Uma
verdadeira ante-sala do inferno.
Assim era
Gom.
*
* *
— Aí
vem alguma coisa — disse John Marshall.
Reginald
Bell fixou os olhos para fora da entrada da caverna.
— Não
estou vendo nada — disse ele.
— Não
há mesmo nada para ver — comentou Betty. — Que acha de tudo
isso, Mr. Marshall?
Marshall
abanou a cabeça.
— Ouve-se,
não sei o quê. Ouve-se uma coisa muito simples.
— Exatamente,
semi-inteligente.
— Puxa
vida... — lamuriou-se Bell. — Sei que vocês são telepatas. Mas
eu também gostaria de entender alguma coisa, de saber o que está
acontecendo...
John
Marshall inclinou a cabeça para frente, como se estivesse ouvindo
qualquer coisa. Remexeu-se e moveu um pouco os ombros.
— Há
impulsos mais fortes que os das plantas. — explicou ele — mas não
se pode dizer que sentido têm.
— Onde
estão eles? — queria saber Bell.
— Ali na
frente.
Marshall
apontou na direção de um rochedo chato, distante alguns metros da
entrada da gruta. Bell ainda queria perguntar mais alguma coisa, mas
no mesmo instante, seus olhos se arregalaram:
No
lusco-fusco avermelhado, vagava alguma coisa em volta do rochedo.
Parecia uma simples mancha escura, de formato oval, talvez de um
metro quadrado. Veio dando volta pelo rochedo, na direção da
caverna.
— Quer
vir para cá — sussurrou Marshall.
Bell
estava com os olhos fixos na coisa. Não tinha propriamente
contornos. Onde chegava, dava logo a impressão de que o chão ficava
um pouco mais escuro.
Aconteceu
que a mancha teve que passar entre duas daquelas plantas azuladas;
mas as folhagens carnudas pareciam ter mais medo da mancha escura do
que da própria tempestade. Esconderam-se com estranha rapidez e com
um leve ruído de alguma coisa que roçava.
Reginald
Bell sacou sua arma térmica e estava preparado para atirar.
— Nada
disso — sussurrou Marshall — é apenas curiosidade.
Aí surgiu
a mancha na frente da entrada da caverna. Bell ficou novamente
olhando. A mancha parecia mais uma camada de goma-laca marrom-escura.
Bell não se sentiu muito encantado com tudo aquilo e se dirigiu a
Marshall.
— O que
ela quer?
Marshall
abanou a cabeça:
— Nada
de extraordinário. Apenas nos está estranhando.
Com o
mesmo leve ruído de algo que está raspando, a mancha se pôs em
movimento. Não voltou pelo mesmo caminho por que viera. Dobrou para
a direita e contornou o bloco de pedra, onde se localizava a caverna.
Minutos após havia desaparecido dos olhos de Bell.
— Meu
Deus do céu... que espécie de mundo é este?
Tama
Yokida não parecia muito impressionado.
— Posso
ir buscá-la, senhor — disse se oferecendo. — Se o senhor quiser.
— Deixe-a
ir embora. Que serventia tem para nós?
Mal
acabara de dizer isto, toda atenção de Bell se concentrou na
atitude de Kitai Ishibashi, que estava perto da parede da caverna, de
olhos fixos nas pedras.
— O que
é que há? — queria saber Bell.
Ishibashi
gemia e se contorcia.
— Eu
estava pensando que lhe podia impor minha vontade. Mas provavelmente
é tão boba, que não pode ser influenciada.
Bell riu
secamente.
— Acho
que você tem razão. Não será mais inteligente que as plantas
azuis que se escondem diante da tempestade.
Retirou-se
da entrada da caverna. Passando diante de Marshall, resmungou pela
segunda vez:
— Santo
Deus... Que mundo horrível.
E Marshall
perguntou pensativo, porém, sem esperar resposta:
— Afinal,
que esperava de Gom?
Ivã
Ivanovitch Goratchim, o mutante de duas cabeças, se apresentou, sem
cerimônia, para manifestar sua opinião.
— Uísque
e belas mulheres — respondeu uma das duas cabeças, rindo.
Bell
virou-se para trás. Ivã, o mais velho, consciente da falta, virou o
rosto para o lado. Ivanovitch, o mais moço, ergueu a mão, apontando
para Ivã.
Bell
soltou o ar com os dentes trincados, produzindo o ruído típico,
para que todos ouvissem:
— Descida
de emergência num inferno, escoltado por uma turma de doidos.
*
* *
Tentavam
entrar em contato com a Titan. A bordo da supernave estava Gucky, o
rato-castor, o mais forte telepata do Exército de Mutantes da Terra.
Betty e John Marshall conjugavam esforços no sentido de enviarem um
sinal a Gucky, com o fim de o deixar a par do lugar onde estavam e
principalmente da sua difícil situação.
Mas ao
invés de uma resposta de Gucky, recebiam apenas impulsos de
pensamentos desconexos, mas de tal intensidade, que Marshall
apostaria se tratar de impulsos de gons.
— E o
que é que o senhor nos propõe, então? Deveremos ficar residindo
aqui? — foi a pergunta irônica de Bell.
Marshall
sorriu.
— O
chefe de nosso grupo é você. Pensávamos até que tivesse uma idéia
melhor...
— Ah...
deixa de bobagem — resmungou Bell. — Com somente meu grau de
patente, não vamos conseguir nada. Mas estava pensando que você,
com sua super inteligência, nos fornecesse mais rapidamente uma boa
idéia.
Betty
Toufry pediu a palavra:
— Acho
que não podemos fazer outra coisa, apenas esperar. Rhodan sabe que
estamos em perigo. Pode também calcular onde nós estamos. Na minha
opinião, tudo está dependendo apenas de que agüentemos até que a
Titan consiga chegar a Gom.
— Se
soubesse, ao menos — disse Bell — qual é a extensão da
oscilação? O trecho de penumbra já se aproximou mais cem metros.
Se continuar assim, dentro de alguns dias podemos sair daqui, aliás
temos que sair daqui.
O halo
avermelhado que confinava o trecho do lusco-fusco havia subido um
pouco mais para o céu escuro. Uma corrente de ar constante aumentava
a temperatura na caverna, de oitenta para cem graus. Os dispositivos
de refrigeração nos trajes espaciais trabalhavam no volume máximo.
A contar
da queda da Gazela, haviam decorrido já quarenta horas. Este longo
tempo fora suportado relativamente bem, graças à observação das
flores azuis, graças à sensação de expectativa com os impulsos
telepáticos e graças às brincadeiras mútuas.
Daí para
frente, porém, a passividade começou a enervar. E, no entanto, a
única coisa que podiam fazer era esperar.
*
* *
Conseguiram
dormir um pouco. Quem estava incumbido de ficar de vigia era Ivã
Goratchim. Tinha que ficar acordado à entrada da caverna. Mas Ivã,
o mais velho, e Ivanovitch, o mais moço, não chegaram a um acordo
sobre quem deles havia recebido a ordem de ficar de plantão. Assim,
acabaram os dois dormindo.
Felizmente
nada aconteceu de anormal.
Bell se
arrastou até a saída da caverna e espiou. Seu primeiro olhar foi
para a agulha esguia do rochedo, por intermédio da qual calculava a
marcha da oscilação. O segundo olhar seria para os escombros da
Gazela projetada ao solo. Tinha que rastejar mais um pouco.
Seus olhos
se arregalaram, numa expressão de pânico, seu pessoal ouviu seu
grito rouco de desespero. Esfregou-os para clarear mais a vista,
porém o quadro era o mesmo. Os destroços tinham desaparecido.
Reginald
Bell vacilou um pouco, depois deu ordem a Wuriu Sengu, o vidente,
para que desse uma olhada no planalto à procura dos destroços da
Gazela. Talvez houvesse em Gom fenômenos vulcânicos que tivessem
aberto uma fenda no solo e, por aí, a espaçonave acidentada
desaparecera. Somente Wuriu Sengu, com suas faculdades pára-ópticas,
penetrava em qualquer tipo de matéria, como se esta fosse um vidro
bem transparente. Assim poderia descobrir alguma coisa.
Mas os
esforços de Sengu foram inúteis. A Gazela estava mesmo
desaparecida.
Bell, a
custo, tomou outra resolução. A contragosto, porque equivalia a
expor a grandes perigos um de seus auxiliares. Porém, numa situação
como aquela, nada era mais vital do que informações para o controle
das iniciativas.
Bell
virou-se para Tako Kakuta, o teleportador.
— Tako,
observe as coisas lá fora, mas não se detenha muito. Basta que você
apenas olhe o lugar onde estava a Gazela. Não faça nenhuma pesquisa
mais profunda. Volte o mais depressa possível para cá.
Num piscar
de olhos, Tako Kakuta já não estava mais ali.
— Não
vi nada — murmurou decepcionado Tako. — O chão está liso, dando
a impressão de envernizado. E da Gazela não existe mais nada.
Quase que
eletrizado, Marshall o interrompeu:
— Envernizado,
você disse? Que cor?
Tako
depois de refletir um pouco:
— Eu
diria... marrom-escuro ou castanho.
Bell
percebeu o fio do pensamento de Marshall.
— Você
crê, talvez, que a mancha de verniz engoliu a Gazela?
— Não
sei, não. Mas se o chão está marrom-escuro e parece envernizado...
— Qual é
o tamanho da mancha? — perguntou Bell a Tako.
— Não
cheguei a perceber onde ela terminava.
— Portanto,
maior do que o espaço de um metro quadrado?
— Naturalmente,
muito mais.
Bell
pretendia perguntar mais coisas, mas neste instante, levantaram-se
Ivã Goratchim, o mutante de duas cabeças, Kitai Ishibashi, Wuriu
Sengu e Tama Yokida no interior da caverna. De pé, embora um pouco
cambaleantes, chegaram até o grupo dos que discutiam e começaram a
abandonar a caverna.
Tudo se
passou tão rápido. Os quatro mutantes pareciam, com seus movimentos
coordenados, como que transformados em máquinas obedientes. Bell se
recuperou do susto, somente quando os homens já estavam alguns
metros para fora da caverna.
— Parem
— gritou ele. — Voltem todos, seus doidos.
Mas os
quatro mutantes continuaram andando. Parecia que nem ouviram as
palavras de Bell.
Bell se
pôs de imediato a rastejar atrás deles. Mas o grupo parecia
possuído de tal força, que a distância entre eles e Bell aumentava
rapidamente. Os mutantes pararam no rochedo, onde a mancha de verniz
havia aparecido.
Bell
gritava e praguejava. Finalmente ficou parado, puxou a pequena
pistola energética e berrou a pleno pulmão:
— Voltem
imediatamente, ou eu atiro. Foi como se não tivessem ouvido nada.
Continuaram
o caminho. Bell engatilhou a arma, mas antes que pudesse dispará-la,
ouviu Marshall que gritava atrás dele:
— Não,
não atire. Eles não têm culpa nenhuma.
Bell
virou-se para o lado, de forma que podia ver a caverna.
— Por
quê? Que está acontecendo?
— Influência
hipnótica de uma força enorme — respondeu Marshall. — Eles
estão obrigados a obedecer.
— Então
faça alguma coisa contra isto, por amor de Deus! — exclamou Bell.
— Não
posso. Estou feliz de que esta força mental não me apanhou. A força
é terrível, não se pode fazer nada contra.
O mutante
de duas cabeças, Ishibashi, Sengu e Yokida desapareceram atrás do
rochedo. Instantes depois, ressurgiram. Dirigiram-se para a direita,
onde estivera até então a nave acidentada. Caminhavam ainda eretos,
firmes. Bell não os perdia de vista. Depois, lamuriando e
praguejando, virou-se mais uma vez para o lado e voltou à caverna.
— Desculpe-me
— disse a Marshall — se fui um pouco áspero, mas este mundo
doido me deixa também doido.
Marshall
apenas sorriu.
— Bobagem,
isto é natural. Só gostaria de saber, quem é que, neste mundo
perdido de Deus, dispõe de tanta força hipnótica.
Bell não
respondeu. Observava os mutantes. Estes andavam sempre eretos no
planalto, por entre os rochedos, como se não existisse aquela
elevada atração da terra. Gritou-lhes muitas vezes, acreditando que
através do receptor do capacete haveriam de ouvi-lo. Mas não houve
resposta.
Depois de
dez minutos, parecia que a situação se transformara. Ivã
Goratchim, vacilou e caiu de joelhos. Bem rente dele, também caíram
os dois japoneses. Bell lhes gritava que voltassem.
A seguir,
puseram-se em movimento, mas desta vez, andavam de quatro. Tinham
perdido aquela força inicial, sentiam-se fatigados. Seguiam o
comando hipnótico, mas engatinhando.
— Não
adianta nada — disse John Marshall — os impulsos hipnóticos
fortíssimos continuam a controlá-los.
— Você
consegue localizá-los? — perguntou Bell.
— Não,
com exatidão não. Estes impulsos vem da direção onde estava a
nave acidentada.
Isto
obrigou Bell a refletir um pouco. Tako havia afirmado que o lugar em
que a Gazela havia caído estava coberto por uma camada de verniz bem
extensa de cor marrom-escura. Aquela mancha esquisita, que haviam
observado há pouco, parecia com verniz marrom-escuro. Marshall
acompanhou um trecho de seu pensamento. A mancha era um ser orgânico,
semi-inteligente.
Será que
Marshall tinha razão? Será que a camada de verniz que cobria o
local da queda da Gazela era realmente nada mais do que um ser vivo,
da mesma espécie? Um ser que dispunha de grandes energias mentais?
Não se
podia fazer nada pelos quatro mutantes, embora isso causasse tristeza
a todos. Levaram uma hora para atingir o local onde estavam antes os
destroços da Gazela. Um esforço hercúleo, tendo-se em consideração
a pesadíssima atração, que dificultava todo movimento.
Durante
todo este tempo, Bell tentou sem cessar se comunicar com os mutantes,
através do rádio do capacete. Mas o resultado deu em nada.
Quando os
mutantes chegaram ao local da queda, notou-se que com seus trajes
espaciais brilhantes se arrastavam de um canto para o outro, como que
procurando alguma coisa. Bell olhou para Marshall numa expressão de
interrogação. Mas o chefe dos mutantes fez apenas um gesto, dando a
entender que o estado de influenciação hipnótica ainda perdurava,
e que seria muito improvável que os mutantes voltassem ao estado
normal pelas próprias forças.
Seu
destino, de um momento para o outro, tornara-se um enigma. Bell bem
que lhes havia gritado que voltassem... mas no mesmo momento
desapareceram.
O rosto de
Bell estava banhado em suor. Sem olhar para Marshall, disse-lhe:
— Desaparecidos
como a Gazela. Que pensa de tudo isto, Marshall?
— Já
pensei muito a respeito — respondeu Marshall prontamente. —
Plásticos e metais como estes com que a Gazela era confeccionada,
têm um grande teor de hidrocarbonetos, portanto, substâncias
orgânicas, numa taxa de oitenta e cinco por cento. As ligações
metálicas só servem para maior reforço.
Fez uma
pausa. Bell continuou a fitá-lo admirado.
— E daí?
— O
monstro lá atrás — Marshall fez um sinal com a cabeça, apontando
a direção, onde estivera antes a Gazela — está precisando
renovar sua substância ou talvez ampliá-la; por este motivo devora
matérias orgânicas, tanto plastimetais como também seres humanos.
Bell,
abriu a boca de espanto.
— O
senhor tem uma imaginação tétrica.
Marshall
encolheu os ombros e Bell lhe confessou em voz baixa que suas
suposições nada tinham de absurdo.
*
* *
Passaram
duas ou três horas. Falavam pouco entre si. Estavam sentados, muito
apertados, sob a entrada da caverna e olhavam quase que
constantemente para a direção onde tinham desaparecido os quatro
mutantes. Este local ficava a cerca de seis quilômetros da caverna.
Da posição mais elevada da entrada desta, podia-se ver bem.
Notava-se também a mancha escura, quase sem contornos, da qual
falara Tako Kakuta.
Os
mutantes continuavam desaparecidos e todas as esperanças ainda
alimentadas por Bell ruíram.
Houve
então uma pequena discussão quando Tako e Ras Tschubai, o africano,
assediaram Bell pedindo para ir até ao local da queda, com seus
termo-irradiadores destruir a mancha marrom-escura.
Naturalmente
Bell se recusava a permitir, depois de haver consultado Marshall.
— Embora
a ordem telepática que domina completamente os quatro mutantes não
está atuando, os dois teleportadores podem atrair logo uma ordem
idêntica, e sucumbirem — explicou John Marshall. — Quem quer que
seja este desconhecido hipnotizador, conseguiu penetrar, a seis
quilômetros de distância, com impulsos cerebrais em Ivã,
Ishibashi, Sengu e Yokida. Por mero acaso, nós também não seguimos
o mesmo caminho. Mas o perigo aumenta com a diminuição da
distância.
Parecia
haver lógica nestas palavras. Kakuta e Tschubai desistiram do
intento.
Marshall e
Betty Toufry tentavam repetidas vezes entrar em contato com Gucky, na
Titan, mas a única coisa que conseguiam ouvir era um confuso
murmúrio telepático.
Bell
quebrava a cabeça, tentando descobrir um meio para melhorar sua
situação e a dos seus auxiliares. Mas estes pensamentos pareciam
palha seca. Não tinham nenhum ponto de apoio para nada. Cada idéia
parecia mais absurda que a outra. Não podiam mesmo fazer coisa
melhor do que esperar.
Os dezoito
satélites de Gom percorriam suas órbitas num céu de penumbra, às
vezes em grupo de dois, de três, até mesmo de cinco. Um deles, o
maior, era Laros, que também era o mais distante.
Foi em
Laros que os saltadores, em conluio com os aras, combinaram o ataque
à Terra.
Bem longe,
a uma distância de vinte horas-luz, estava a Titan, em expectativa,
protegida por seus campos magnéticos de anti-rastreamento.
A questão
do alimento começou a preocupar Bell. Cada traje espacial possuía
um recipiente metálico com uma determinada quantidade de comida,
sendo que a própria pessoa, por meio de um dispositivo adequado,
podia se servir, sem ter que abrir o traje espacial.
A metade
ou talvez dois terços da provisão já tinha sido consumida. No mais
tardar dentro de vinte horas, teriam que encontrar um lugar em que
pudessem despir o traje espacial. Só então, a reserva de víveres,
que haviam trazido dos escombros da Gazela, lhes poderia ser útil.
Bell
consultou o relógio de pulso. O ponteiro de segundos se arrastava
como uma lagartixa cega no mostrador, e os outros dois ponteiros
fosforescentes apontavam para números que não representavam nada
para ninguém ali. Nove e dez... da manhã?... da noite? 28 de
outubro de 1.984, tempo da Terra.
De
repente, Marshall deu um pulo. Ao mesmo tempo, Betty deixou escapar
um leve grito de surpresa.
Bell
virou-se para o lado, perguntando:
— Que
foi que houve?
Marshall
levantou a mão como resposta. Esticou a cabeça para frente, para
ouvir alguma coisa.
Ras
Tschubai, o teleportador, era quem estava mais próximo da saída.
Virou a cabeça um pouco para trás, para ver Marshall, depois seus
olhos se fixaram em qualquer coisa lá fora da caverna.
Ras tinha
olhos muito penetrantes e não precisava de binóculo, que Bell
estava toda hora comprimindo contra a viseira do capacete.
Ras
continuava olhando para frente e via mesmo alguma coisa diferente.
A mancha
marrom-escura estava começando a se mover. Na penumbra do
lusco-fusco, sobressaía nitidamente contra o fundo cinza-claro do
rochedo. Caminhava na direção da caverna.
— Lá na
frente — gritou Ras.
Bell
observava com o binóculo. Não tinha pressa, ficou observando com
calma, até que chegou à conclusão de que aquela coisa castanha
caminhava firme na direção da caverna.
— Está
procurando, sondando nossa mente — disse Marshall. — E se
encontrar alguém, naturalmente haverá de impor sua ordem hipnótica.
Bell
sentiu um calafrio na espinha dorsal.
A massa
marrom — massa é uma palavra muito imprópria — a “coisa”
não era mais que uma fina camada no rochedo. Agora vinha se
arrastando e se aproximava.
De
telepatia, Bell não entendia muita coisa. Mas sabia que um telepata
com dons hipnóticos, tinha primeiro que captar as vibrações
mentais do cérebro estranho, para depois poder influenciá-lo.
A captação
de ondas cerebrais não era muito diferente do processo de seleção
de determinada freqüência num rádio receptor; naturalmente não
havia dial nem botões de sintonização. E isso tornava o negócio
um pouco mais difícil.
Apesar de
tudo, não tinham muita razão para ficarem tranqüilos. A mancha
marrom se aproximava com uma velocidade que eles, não obstante o
empecilho da forte atração, jamais teriam atingido.
Bell tomou
uma decisão rápida.
— Temos
que desaparecer daqui.
Marshall
concordou:
— Não
temos nenhuma chance com este monstro.
Reuniram
tudo, os víveres retirados da Gazela, as armas, os emissores
portáteis que tinham maior alcance do que os transmissores do
capacete, e o binóculo.
Foram se
arrastando para fora da caverna, dirigiram-se na direção do
rochedo, para dentro da escuridão, e engatinhavam no chão, o mais
rápido que podiam.
Depois de
haverem deixado a caverna, nem mesmo Ras Tschubai conseguia mais ver
a mancha marrom-escura.
— Coloquem-me
a par do que estiver ocorrendo — pediu Bell aos dois telepatas. —
Avisem-me assim que houver qualquer alteração.
— Uma
coisa está se alterando constantemente — murmurou Betty — A
auscultação dos nossos pensamentos é cada vez mais nítida. A
coisa está sempre mais próxima de nós.
Bell olhou
para trás, mas não conseguiu ver outra coisa a não ser o planalto
com suas agulhas de pedra. Nenhum sinal da mancha marrom.
Rastejaram
uma meia hora. E esta meia hora não rendeu nem um quilômetro. Betty
descansou uns instantes e depois falou:
— Na
minha opinião, vamos poder vê-la logo. Estou sentindo tão bem como
se já estivesse atrás de mim.
Bell
estava olhando para um dos maiores rochedos que havia por ali. Ergueu
o braço para apontá-lo.
— Ras,
lá em cima, dê uma olhadela.
O
afroterrano desapareceu. Durante alguns segundos, podia-se vê-lo lá
em cima do rochedo, olhando fixamente para o trecho avermelhado da
zona de luz. Depois voltou.
— Ainda
trezentos metros — anunciou laconicamente.
Bell
estava de acordo.
— Não
tem mais sentido fugirmos dela. Em poucos minutos nos alcançará.
Vamos nos entrincheirar lá atrás do rochedo.
Arrastaram-se
até lá, para a mesma rocha onde há pouco estivera o teleportador
Ras Tschubai, fazendo sondagem. Quando já estavam perto, notaram que
a rocha se compunha de duas partes: uma base maciça e uma ponta
esguia que se erguia por igual desde a base. Entre a rocha
propriamente e a ponta esguia havia uma fenda de meio metro de
largura: um parapeito ideal para atacar e defender.
Cada um se
ajeitou o mais depressa possível. Betty acabou descobrindo, uns dois
metros mais para cima, no paredão do rochedo, uma pequena saliência
plana, onde se podia estender com relativo conforto. Apanhou a
pistola térmica, arrastou-se uns metros para cima, com indizível
esforço. Podia, de lá, atirar com facilidade nos que estivessem
embaixo, através da fenda de meio metro.
Bell e
Marshall se postaram bem atrás da abertura, de tal maneira que,
durante um tiroteio, os fogos não se cruzariam. Tako Kakuta e
Tschubai estavam de lado. Bell julgava que, durante um combate,
certamente iminente, os dons parapsicológicos dos dois lhe seria de
máxima utilidade.
Os minutos
passavam lentos e pesados. Pareciam-lhes uma eternidade.
De súbito
ouviu-se um grito de Betty.
— Posso
ver, vem justamente em nossa direção.
— Que
venha — respondeu Bell.
Esticou o
braço direito um pouco para fora e esperou. Por alguns instantes,
aquele deserto de pedras continuou como estava. Mas depois, uma
sombra marrom de uma fina camada de verniz cobriu o chão claro,
afastou pedras do caminho, passou por cima de outras e aproximou-se.
Ouvia-se, concomitantemente, um leve ruído de algo que roçava ou se
esfregava.
— Esperar
— murmurou Bell — deixar chegar bem perto.
Ouvindo
Marshall tossir, Bell olhou preocupado para ele. O telepata percebeu
o olhar nervoso do amigo e sorrindo, lhe disse:
— Nada
de novo... cinqüenta metros, quarenta, trinta...
Bell olhou
mais uma vez para Betty lá em cima. Parecia não ter medo, calma na
saliência da pedra, já mirando com a arma.
— ...vinte
metros, quinze...
— Fogo —
gritou Bell.
Ouviu a
voz de Marshall ao seu lado e viu os raios esbranquiçados de sua
arma. Reparou bem para onde ele atirava, a fim de dirigir sua
pontaria um pouco para a esquerda. Betty, de seu esconderijo, atacava
outro setor do adversário, inacessível aos demais atiradores. O
verniz se levantava em bolhas sibilantes e se transformava em fumaça
acinzentada. Mas ondas de outras camadas se aproximavam, cobrindo o
espaço vazio deixado pelo fogo intenso.
— Tem
pelo menos dois quilômetros de comprimento — exclamou Betty
desesperada. — E meio de largura.
Marshall
continuou atirando. Bell se levantou na base do rochedo para dominar
melhor toda a topografia e, numa nova estratégia, para tentar cortar
em dois pedaços o campo inimigo, de maneira a perderem a ligação
um com o outro.
Foi,
porém, uma tentativa frustrada, pois a largura era de mais ou menos
meio quilômetro. Os claros deixados por Bell com seu fogo cerrado,
em poucos segundos se encheram de novo com o marrom-escuro.
Voltou ao
seu primeiro posto, quando percebeu que Marshall sozinho não
conseguia impedir que o verniz chegasse até o rochedo onde estavam.
Puxou o gatilho para frente, o que significava fogo contínuo, e
despejou assim uma enorme descarga de raios térmicos no estranho
ser.
Logo após,
gritou para os dois teleportadores:
— Vamos,
desapareçam e procurem outra linha de combate.
Tako e Ras
esperavam mesmo por esta ordem. Desapareceram no mesmo momento. E,
depois de alguns segundos, em dois lugares diferentes do planalto,
subiam densos rolos de fumaça de cor cinza-claro, o que naturalmente
era sinal de que os mutantes tinham tido pleno sucesso na missão.
Mas, não
houve mudança substancial no quadro geral. Parecia que o adversário
não se preocupava muito com a quantidade de verniz que havia perdido
em combate, nem com o calor horrível do solo que devia tostar seu
ventre. O adversário não se desviava do objetivo. Perseguia-o com
obstinação, com obstinação tão grande que Bell já estava
contando nos dedos em quantos minutos sua posição na rocha seria
atacada.
Naquela
excitação toda, tinha ele se esquecido do grande perigo que
representava para eles a força hipnótica desta coisa esquisita.
— Marshall!
— exclamou ele — arraste-se pela esquerda, contornando a agulha
de pedra e atire de lá. Eu mantenho esta posição aqui.
Marshall
obedeceu. Passou por Bell, contornou a ponta de pedra e quedou uns
metros para a esquerda. Ali, os defensores tinham parcialmente
aniquilado a camada do verniz marrom. Bell ouviu seus gritos de ira,
ao rechaçar o inimigo. Mas parou de repente, exclamando:
— Aqui
há um esconderijo melhor, venha para cá!
Bell não
hesitou muito, fez um sinal para Betty, que veio se arrastando e com
dificuldade chegou ao lugar onde estava Marshall. Bell mantinha a
posição até que Betty lhe comunicasse haver chegado perto de
Marshall. Ainda teve tempo, durante o fogo cerrado, de chamar também
os dois teleportadores.
Depois
disso, arrastou-se até lá, o mais rápido que pôde. Tako Kakuta
estava parado diante de uma espécie de buraco, acenando para ele.
Uns poucos metros atrás de Bell, o misterioso verniz marrom-escuro
avançava. Provocava pequenos estalidos ou um quase roçar de folhas
secas. Passava agora pela rocha onde Bell estava deitado.
Com uma
série de tiros, Tako manteve livre a fenda de saída. Bell o mandou
para baixo, enquanto ele próprio se retirava, sempre atirando.
Até então
não tivera tempo para se preocupar com o novo esconderijo. Agora,
porém, que entrara mais com calma no interior, notou que aquilo era
realmente uma galeria que num ângulo de quase cinqüenta graus
conduzia para o fundo da terra, para um lugar bem profundo.
Bell foi
atirado e empurrado até que, finalmente, de pernas para o ar, caiu
de costas no grupo daqueles que haviam descido antes dele.
Alguém
deu um grito de dor, mas a Bell não aconteceu nada.
— Calma,
pessoal — ordenou ele.
Virou-se
um pouco e esticou a cabeça de tal maneira que o microfone externo
do lado direito ficou na direção da saída da galeria. Com a
respiração presa, tentou ouvir qualquer ruído lá de fora. Por
alguns instantes, estava tudo silencioso. Mas aos poucos aquele leve
roçar de folhas secas voltou, sempre aumentando. A arma já estava
engatilhada na mão de Bell, quando o ruído estabilizou-se. Depois
de esperar por alguns minutos, sempre atento, Bell voltou à posição
normal.
— Puxa
vida, será que ninguém pode acender uma luz?
Acenderam-se
duas lâmpadas de capacete e Bell começou a estudar o ambiente. O
local onde estavam não era outra coisa senão o começo do
prolongamento reto da galeria, que começava no solo do planalto.
Bell
acendeu sua própria lanterna e a dirigiu no sentido da galeria. A
luz era forte, mas não dava para chegar até o fim do corredor, que
era em semicírculo, de piso plano, com três metros de largura e um
e meio de altura.
— A
primeira etapa já foi superada — disse Bell. — O misterioso
marrom-escuro, provavelmente não terá a intenção de descer para
cá. Temos agora duas hipóteses. Primeira: Examinar esta galeria e
descobrir se ela tem, em qualquer parte, uma outra saída. Segunda:
Esperar até que o tal ruído de folhas secas termine, para
retornarmos à superfície.
Betty
pediu a palavra.
— Estou
sentindo que a coisa marrom-escura está à nossa procura. E não
haverá de desistir tão cedo. Talvez seja melhor darmos uma inspeção
nesta galeria. Enquanto o inimigo estiver atrás de nós, não
podemos mesmo fazer outra coisa.
Bell
aprovou a idéia.
— Então,
vamos embora. Não temos tempo para perder.
Tomou a
frente do pequeno grupo. Recurvados, penetraram mais para o interior
da galeria. A lanterna do capacete de Bell iluminava o caminho. Dava
a impressão de que a galeria entrava ainda mais para baixo do solo.
Seu traçado reto fez com que Bell, após poucos metros de caminhada,
chegasse à conclusão de que não era obra do acaso, mas sim feita
racionalmente.
Era este o
único indício para tal suposição. Por este motivo, Bell não
transmitiu a ninguém sua conclusão, esquecendo-se, porém, de que
John Marshall e Betty Toufry podiam ler calmamente seu pensamento.
2
A bordo da
Titan, o nervosismo aumentava.
Há dias,
a gigantesca espaçonave pairava, imóvel, no espaço, aguardando uma
comunicação — ou de Talamon, o superpesado de Laros, ou de
Reginald Bell.
A Titan
tinha chegado até aqui para aproveitar a última oportunidade que se
lhe apresentava de evitar o ataque iminente dos saltadores contra a
Terra. Atendendo a um convite dos aras, raça aparentada com os
saltadores, os patriarcas dos saltadores haviam se reunido em Laros.
O décimo
oitavo satélite de Gom era um ponto de encontro comum dos Aras.
Talamon
era o único aliado que Perry Rhodan possuía entre as nações dos
saltadores. O superpesado havia-lhe informado que não se podia
contar de maneira alguma com uma desistência quanto ao plano de
atacar a Terra. Foi por isso que Rhodan mandou, sob a proteção de
Talamon, seu corpo de mutantes comandado por Bell para Laros. A
missão era impedir a tal conferência dos saltadores.
Bell e
seus companheiros já haviam conseguido abastecer com programação
falsa o único posto positrônico dos saltadores que continha em sua
memória os dados sobre a posição da Terra nas Galáxias. O
aparelho era a positrônica da espaçonave dos saltadores que estava
em mãos do superpesado Topthor. Este era amigo de Talamon, mas de
maneira alguma seu correligionário. Topthor não podia,
naturalmente, imaginar que, quando fosse buscar dados sobre a Terra,
sua positrônica lhe haveria de fornecer indicações que diziam
respeito à direção do sistema de Beta. Suspeitava, entretanto, de
que Talamon não tinha uma atitude muito sincera em relação aos
patriarcas dos saltadores e aos aras. Aliás, sem contar segredos,
Talamon tinha confessado sua atitude, obrigando, no entanto, Topthor
a manter sigilo, com promessas de enormes lucros.
Bell e os
seus, infelizmente foram descobertos. Após violenta batalha, fugiram
de Laros com a Gazela, que a grande nave de Talamon abrigava em seu
bojo. Talamon, o amigo de Perry, teve realmente muita dificuldade em
explicar aos patriarcas que não sabia nada a respeito da presença
dos estranhos terranos.
Porém,
após este triunfo inicial da bem sucedida fuga, Bell e os mutantes
foram vítimas daquela inexplicável força que puxou a Gazela de
encontro ao solo de Gom, como se fosse um brinquedo. Marshall tinha
enviado uma mensagem telepática urgente a Rhodan, informando sobre
os principais acontecimentos de Laros, incluindo naturalmente a
programação falsa da positrônica de bordo dos saltadores.
Pela rota
da desditosa Gazela, se podia deduzir facilmente que haveria de
aterrissar em Gom. No final de seu comunicado, Marshall falou que
Betty Toufry era de opinião de que aquele enorme campo energético
que impedia a Gazela de se movimentar era de origem telecinética.
Esta foi a
última comunicação do grupo de Bell.
Rhodan não
podia saber se haviam sobrevivido ao pouso de emergência em Gom.
Gucky, o mais poderoso dos telepatas do Exército de Mutantes, tinha,
por mais de uma vez, julgado ouvir sinais. Porém este setor do
espaço estava tão cheio de vibrações telepáticas, que mesmo
Gucky não conseguia distinguir com segurança estes possíveis
sinais do quase constante rumorejar telepático.
Mas ainda
havia esperança.
Depois que
Talamon conseguira afastar a suspeita que havia contra ele, a
conferência de Laros continuava em seu ritmo normal. O
prosseguimento da conferência foi ao mesmo tempo o motivo da
permanente inatividade de Perry Rhodan. Imóvel no espaço, sob a
proteção de seus campos de anti-localização, a Titan estava
garantida. Se começasse a se movimentar, haveria o perigo de ser
localizada. E ser localizada por Laros provocaria uma série de
reações de acontecimentos indesejáveis.
Primeiramente,
renovar-se-ia a suspeita contra Talamon. Depois iriam consultar os
dados dos computadores do cérebro positrônico da espaçonave de
Topthor. É verdade que nenhum cérebro orgânico jamais estaria em
condições de distinguir dois resultados diferentes de computador,
em se tratando de posições das Galáxias. Uma localização exata
nas Galáxias tem três coordenadas de espaço, três de
hiperimpulsos e duas de tempo. Além disso, ela se prende ainda a
assim chamada “determinante
de farol”
que equaciona o caminho para o objetivo de qualquer posição nas
Galáxias.
Tudo isto
é uma confusão de números e de valores que ultrapassa a capacidade
de qualquer cérebro. Mas se os saltadores tivessem alguma suspeita,
haveriam de consultar uma outra positrônica maior e então examinar
a seqüência de programações do aparelho de Topthor. Aí, viria à
luz a trapalhada de Bell.
Para o bem
de toda a Terra, Rhodan era obrigado a deixar na mão seu grande
amigo Reginald Bell.
*
* *
A
caminhada continuava sem incidentes, mas com o tempo foi ficando
muito monótona.
John
Marshall e Betty Toufry assinalavam que os impulsos telepáticos se
reduziam cada vez mais. Era sinal evidente de que Bell e seus
companheiros se afastavam do ser marrom de Gom.
Examinaram
as paredes do corredor sem emendas e lisas, confirmaram que
continuavam retas e por isso se lamentavam, temendo não chegar nunca
ao fim.
O único
que nos últimos trinta minutos parecia ter descoberto algo de novo,
era o próprio Bell. De tempo em tempo, parava um pouco, obrigando
que todos fizessem uma pausa. Olhava para o pulso. Ninguém — fora
os dois telepatas — poderia dizer se estava olhando para o relógio,
para o regulador de dosagem, para o manômetro ou para o termômetro.
Balançava a cabeça com admiração, murmurando qualquer coisa que
ninguém entendia.
Quando
repetiu esta cena pela décima vez, Marshall sorriu finalmente:
— Por
favor, diga a Ras e Tako, de uma vez por todas, o que lhe causa tanta
admiração.
Bell olhou
para ele surpreso, fazendo cair na sua face o clarão da lanterna do
capacete.
— Como é
que é? Eu já lhe... Ah! É verdade... Diabo que carregue todos os
telepatas.
Olhou
então mais uma vez para o pulso.
— Estava
observando, há muito tempo — explicou ele — que a temperatura
aqui embaixo é extraordinariamente baixa e constante ao mesmo tempo.
Há meia hora que estamos com quatorze graus e alguma coisa mais.
Centígrados, naturalmente. Regulei o termostato para o máximo de
sensibilidade. A estabilidade da temperatura chega a quatro
centésimos de um grau. Acho isto uma coisa surpreendente.
Marshall
percebeu sem dificuldade a seqüência de seu pensamento.
— E
quando se pondera, além disso — disse ele completando a explicação
de Bell; — que a galeria, tem toda a aparência de ter sido feita
artificialmente, chegamos à conclusão de que não tem outra
finalidade a não ser para guardar alguma coisa, que necessita de
quatorze vírgula seis graus para ser protegida... em virtude da
durabilidade ou por outro motivo qualquer.
Bell o
acompanhou com muita concentração. No fim, fez apenas uma pequena
correção:
— Quatorze
vírgula três e não seis. Na leitura de números, você falha um
pouco.
Marshall
sorriu e indagou:
— Mas, é
esta realmente a sua teoria?
— Sim,
estou plenamente convencido de que atrás destes paredões se esconde
alguma coisa. O corredor foi construído por seres inteligentes e
devem ter uma finalidade. Por exemplo, ligar os depósitos
subterrâneos com o mundo lá fora. O corredor mesmo não pode ser um
depósito. Do contrário teríamos encontrado alguma coisa. Quem sabe
se o que está aqui armazenado é uma mercadoria muito importante, e,
por isto, as entradas para o depósito são muito escondidas? Existe
um grande número de raças nas Galáxias que tem uma predileção
muito forte por portas invisíveis, inteiriças.
Mexeu-se
para a esquerda e se arrastou uns metros para frente, bem rente à
parede do corredor. Quando viu que não conseguiu nada, ficou de pé,
ofegante, voltando ereto, quanto o permitia a altura do corredor.
Bateu intencionalmente com as luvas do traje espacial contra a
parede.
Mas a
parede continuou parede. De uma passagem secreta que levava para um
misterioso depósito, não havia o menor vestígio.
Bell
ajoelhou-se, refletindo.
— Quem
sabe — disse ele — ainda não atingimos o objetivo. Este corredor
só pode atuar como filtro se tiver o comprimento suficiente e,
também se todas as variações de temperatura do caminho de entrada
até a parte principal da instalação puderem ser amortecidas.
Olhou para
Marshall:
— Correto,
vamos penetrar mais, prestando atenção no termômetro. Quando a
temperatura se alterar, é porque já ultrapassamos o objetivo.
*
* *
Três
horas mais tarde, a temperatura ainda era 14,3 graus.
O ruído
telepático como que apalpante do misterioso adversário tinha
cessado. Podiam agora, sem nenhum perigo, voltar para o começo da
galeria e sair pelo terreno afora. Mas ninguém pensava nisso.
Estavam possuídos pela febre de achar o tal depósito.
De início
foram apenas Marshall e Betty Toufry que repararam que a situação,
tão monótona até então, estava mudando. Estavam recebendo
impulsos de pensamentos, ainda confusos e pouco definidos, não
permitindo uma compreensão suficiente. Mas, de qualquer maneira,
indicavam que nas proximidades se abrigava um ser ao menos
semi-inteligente.
Infelizmente,
a faculdade de Betty e de Marshall para captar pensamentos estranhos
era pouco dependente da posição, ou seja, da direção. Não podiam
dizer mais do que “estou
vendo alguma coisa em algum lugar”.
Betty acreditava que os impulsos vinham “enviesados”.
Bell não
sabia como agir. Reduziu o tempo de marcha, que se deveria chamar
antes “tempo
de se arrastar”,
e esperou pela orientação dos mutantes.
Betty e
Marshall registraram que os impulsos estavam mais intensos. Mas o
corredor, pelo menos até o ponto em que as lanternas dos capacetes o
iluminavam, continuava ainda vazio.
Bell se
sentia, a cada segundo, mais nervoso. Há instantes já havia sacado
da pistola energética e enquanto caminhava para o interior do
corredor, sua mão direita empunhava, em posição de fogo, a
terrível arma.
Assustou-se
todo, quando Marshall atrás dele, gritou de repente:
— Atenção!
De bruços
no chão, perguntou Bell:
— Que é
que houve agora?
— Alguém
ou alguma coisa nos descobriu — respondeu Marshall afobado. —
Sinto uma verdadeira bateria de impulsos inimigos.
— Com
maior nitidez do que ouviu até agora?
— Um
pouco. Mas não são ainda pensamentos claros.
— Quer
nos atacar?
— Espere
um pouco... não, não creio que possa fazer isso.
— Maravilhoso
— disse triunfante. — Com tais...
Alguém o
pegou pelo braço. Ras Tschubai, o africano.
— Silêncio
— disse ele baixinho. — Estou ouvindo alguma coisa.
Bell
prendeu a respiração. Outros não reagiram tão rapidamente quanto
ele. Em seu receptor do capacete ouviu o som típico da respiração
dos demais. Mais para trás, havia outros ruídos: de alguma coisa
que roçava, como já ouvira uma vez, quando o monstro de Gom os
atacou por umas duas horas.
— Aí
está o verniz de novo — resmungou ele. — Peguem as armas e
prestem atenção para um não atingir o outro. Vamos para frente.
Estava
agora com muita pressa e se arrastava para dentro da galeria com a
maior rapidez possível. As informações de Marshall vinham
regularmente em intervalos, sempre com aquela voz monótona:
— Mais
forte... mais forte...
Dizia
respeito aos impulsos dos inimigos. O perigo estava, pois, iminente.
O que mais
irritava Bell, é que o corredor parecia sempre vazio. O ruído, que
tinha ouvido antes, devia vir mesmo do corredor. Onde estava, porém,
o autor do barulho?
— ...Mais
forte... mais forte... mais forte — anunciava Marshall.
Depois...
estacou.
— Onde?
— Ali.
Marshall
apontou através dos ombros de Bell. Mas Reginald não viu outra
coisa a não ser um risco preto muito fino na parede, uns dois metros
para trás.
— Que é
isto?
Marshall
não respondeu. Empurrou Bell um pouco para o lado e engatinhou para
frente. Na altura do risco preto, parou e estirou-se.
— Venha
aqui — chamou ele. — Olhe isto.
Bell se
aproximou e os outros o seguiram.
O risco
preto estava um centímetro acima do chão do corredor. O piso tinha
aí um leve desnível e um suave aclive. Elevação esta que chegava
até rente do risco preto e o tornava ainda mais estranho.
Dava a
impressão de que alguém, com um lápis de ponta muito fina, tivesse
traçado na parede clara aquela linha de mais ou menos meio metro,
bem horizontal. Bell não via nenhum sentido naquilo.
Marshall
percebeu seus pensamentos.
— Dissolva
a parede, com cuidado, ao longo do risco, aí você vai ver o que é
isto.
Bell
apanhou o irradiador térmico, apoiando-se nos cotovelos, regulou a
saída dos raios térmicos para o grau mais fraco possível e dirigiu
a arma para o pequeno desnível no chão do corredor. Com o fino jato
energético do irradiador, o material se fundiu, escorreu e se
espalhou com fumaça pelo solo.
— Mais
para cima — disse Marshall. Fez-se uma perfuração na parede e
Bell pôde ver que o traço penetrava pela parede adentro como uma
camada escura. A arma continuou trabalhando, abrindo um buraco entre
a parede e o chão de tal dimensão que dava para alguém meter a
cabeça, inclusive com o capacete. O que antes era um risco,
mostrava-se agora como uma tampa delgada, marrom-escura, que fechava
o buraco e ainda estava recoberta pela camada de pedra.
Bell
reconheceu logo o que tinha diante de si. Com uma expressão de
surpresa, baixou a arma, desligando-a depois.
— Uma
poça de verniz — murmurou. Quando encostou o capacete no chão,
viu com um olho o estranho ser marrom-escuro. Notou que não se
movia, apesar da temperatura da rocha em sua proximidade atingir
talvez quatro vezes mais o calor de seu ambiente normal.
Sua cabeça
formigava de teorias a respeito.
Virou-se
para Marshall a fim de saber sua opinião. No mesmo momento Betty
exclamou:
— Atenção,
está acontecendo uma coisa diferente.
Ela sentiu
— tão nitidamente como John Marshall — que os odiosos impulsos
inimigos que tinham suportado nos últimos quinze minutos haviam
sumido repentinamente. Em lugar deles, surgiu então algo diferente,
indefinível. Dava a impressão de que o estranho e misterioso ser,
de onde saiam todos os impulsos, estava muito ocupado.
Alguns
segundos depois, aquela poça de verniz, escondida na parede, começou
a se mover. Com um leve chiado foi penetrando parede adentro. Bell
tentou detê-la, mas a superfície lisa fez com que suas grossas
luvas escorregassem. Alguns segundos depois, o ser misterioso havia
desaparecido.
Quase que
ao mesmo tempo, soprou uma forte rajada de vento fresco através do
corredor. Veio tão inesperadamente, que Bell assustado virou para
trás, procurando por onde havia entrado aquele vento forte.
Mas não
conseguiu descobrir nada. O vento não veio de nenhum lugar e era
muito fresco, como mostrou o termômetro. Em conseqüência do
trabalho de Bell com o irradiador térmico, a temperatura, naquele
lugar do corredor, onde foi descoberta a poça de verniz, tinha
chegado a quarenta graus. O vento fresco que agora soprava através
da galeria fez com que a temperatura baixasse. Em poucos minutos,
desceu para mais ou menos quatorze graus. O vento cessou e o
termômetro voltou aos 14,3 graus, permanecendo neste nível.
A operação
foi tão clara, que ninguém precisava quebrar a cabeça: regulagem
automática da temperatura pela adução de ar de um reservatório.
O que
deixou Bell nervoso foi o fato de não saber onde estava este
reservatório e de não ter nenhuma noção de como este ar foi posto
em movimento.
A poça de
verniz estava, no momento, desaparecida. Bell comprimiu o capacete
contra o solo, olhou para dentro da perfuração que abrira com os
raios térmicos e tomou uma resolução:
— Vamos
ao encalço da “coisa”
misteriosa. Vai dar um pouco de trabalho, mas teremos que saber
finalmente onde é que viemos parar.
Marshall
ainda leu os pensamentos que revolviam a cabeça do Bell:
provavelmente, não haveria nenhuma porta clandestina nas paredes do
corredor. Se a instalação foi construída pelo ente de Gom, seria
suficiente uma determinada porosidade das pedras para permitir
passagem das partículas do verniz marrom-escuro cuja espessura não
chegava a um décimo de milímetro.
Bell fez
um sinal aos outros para que se afastassem um pouco e começou a
alargar o buraco com o irradiador térmico. Regulou a arma para uns
graus a mais, do que na vez anterior. Como conseqüência disto, a
cavidade se ampliou muito mais depressa; houve uma outra compensação
de temperatura, provocando um vento tão forte pelo corredor que era
necessário se escorar em alguma coisa para não ser arrastado.
Betty
Toufry e John Marshall revelaram que a sensação de cansaço e de
esforço que o estranho ser transmitia de qualquer lugar, aumentava
substancialmente.
Bell
insistia numa determinada direção. A bifurcação do corredor
começava no fundo da galeria e se aprofundava rapidamente. Depois de
ter avançado uns cinco metros, tornava-se evidente que ele tinha
razão: a poça de verniz reapareceu. Os raios térmicos ampliando a
cavidade, deixavam ver com sua cintilância uma parte daquela massa
marrom-escura. Parece que sentia muito a elevada temperatura ao redor
e tentava fugir.
Mas Bell
continuava em seu encalço. Metro por metro, a bifurcação para
dentro da rocha ia sendo derretida, sua largura se estreitava cada
vez mais, quando a massa marrom se agitava.
De repente
o feixe dos raios energéticos penetrou no vazio. A parede da frente
da bifurcação mostrava então uma abertura arredondada. A massa
desapareceu por aí, mergulhando na escuridão que reinava daí para
frente.
Bell
desligou a arma, quando viu a abertura com bom tamanho. Sentou-se à
beira do buraco, esticando as pernas para dentro. Depois inclinou-se
para frente, deixando que a lanterna do capacete lhe mostrasse o que
havia na frente.
O que ele
viu foi uma parte de um recinto aparentemente circular, que, apesar
de não ter mais de dois metros de altura, parecia possuir grande
diâmetro. Bell foi escorregando para frente, porém ainda se
apoiando com as mãos na borda do grande orifício. Depois deixou-se
cair.
— Podem
vir cá para baixo — gritou ele — mas cuidado ao pular.
Enquanto
um atrás do outro saltava, Bell ia observando todo o aposento.
Reparou que — em oposição com o corredor, pelo qual haviam
passado — a rocha inteiriça aqui não era vista, pois as paredes e
o chão estavam revestidos de uma camada escura que brilhava ao
clarão da lanterna.
O verniz
marrom que os havia seguido, parecia haver sumido. Bell não mais
conseguiu vê-lo em parte alguma.
Não
obstante, Marshall ainda constatou:
— Aqui
há uma grande concentração de impulsos de pensamentos, como se
estivéssemos marchando através do cérebro de um ser gigantesco.
— É
perigoso? — indagou Bell.
— Não.
Não somos nem atingidos por eles.
Ao mesmo
tempo, todas as lanternas se acenderam. Verificou-se então que
realmente o espaço era arredondado e tinha uns trinta metros de
diâmetro. Encontrava-se vazio. Não havia nenhum indício de sua
finalidade.
Notava-se
que Bell não estava muito contente.
— Caminhamos
quase meio dia e com o suor do rosto penetramos palmo a palmo nesta
rocha... só para terminarmos num recinto subterrâneo vazio? Onde
está o desgraçado verniz marrom que nos trouxe para cá?
Marshall
interveio:
— Pode
estar muito bem aqui na redondeza. Contra este fundo escuro, será
muito difícil reconhecê-lo.
Bell
caminhou de joelhos mais alguns metros para frente, examinando o solo
palmo a palmo. Ras Tschubai e Tako Kakuta queriam fazer o mesmo, mas
neste mesmo instante ouviu-se um ruído de algo que estalava do teto.
Bell virou-se imediatamente. Viu como uma parte da camada externa do
preto brilhante se desprendia do teto e caía. No chão, entre
Marshall e o japonês, havia uma extensão de cinco metros quadrados
de uma camada muito fina. No mesmo instante da queda, quebrou-se em
quatro pedaços e os quatro pedaços começaram a se mover. Com o
típico ruído de roçar de folhas secas, transportaram-se do chão
para a parede mais próxima.
Bell, de
tanta estupefação, não sabia que decisão tomar. Ficou olhando
para a parede, vendo-as sumir, através da camada escura, como antes
também sumira aquela poça de verniz, que acabou levando todos para
ali.
— Poça
de verniz...! — exclamou Bell. — Aqui só existe verniz.
Virou-se e
olhou para o teto. O local de onde caíram os quatro seres de Gom
ainda estava tão escuro como todo o teto, as paredes e o chão. Mas
nada disso prejudicava a teoria de Bell.
Marshall e
os dois teleportadores tinham desistido de procurar. Marshall
continuou escutando, mas não captava outra coisa senão uma confusão
indecifrável de pensamentos.
— O que
você acha disso? — perguntou a Bell.
— Nada
de novo — respondeu Bell meio irritado. Estas manchas de verniz
continuam se divertindo, atapetando as paredes internas deste
aposento, com seus próprios corpos.
— E com
que finalidade?
— Quem
poderá saber?
Marshall
sacudiu os ombros. Queria perguntar alguma coisa, mas Betty o
interrompeu:
— Não
sei por quê — disse ela baixo e meio nervosa, — mas tenho a
impressão de que há uma terceira espécie de seres aqui na
redondeza. Mais ou menos ali.
Apontou
com a mão um trecho bem grande da parede. Bell se interessou
imediatamente.
— Marshall?
Abanando a
cabeça, Marshall disse:
— Não,
não noto nada. Mas não fique preocupado, Betty sempre foi uma
telepata superior a mim.
Bell se
arrastou para o local que Betty havia assinalado. Cansado, levantou a
mão para bater na parede. Mas já na primeira pancada, recuou com um
grito meio entalado na garganta.
A mão não
encontrou resistência. Ao tocar na parede, ouviu-se um ruído como
se estivesse rasgando papel de seda. Com muita facilidade, abriu-se
um buraco.
— Aqui —
murmurou Bell — aqui continua o caminho.
Atacou
outros trechos da parede com o mesmo sucesso. Bastava bater para
provocar riscos que logo se abriam em duas partes. Em menos de um
minuto, já tinha aberto um rombo suficiente para a passagem de um
homem.
Meio
desconfiado, perguntou:
— Marshall,
não vê nada ainda?
— Nada —
respondeu Marshall.
— Esquisito,
muito esquisito mesmo — murmurou Bell.
Passaram
pelo buraco e chegaram a um lugar, que até nos mínimos detalhes
parecia com aquele que haviam deixado há pouco. Isto só foi
observado depois que percorreram todo o espaço com as lanternas do
capacete. A única diferença era um pequeno desnível no fundo.
— Tenho
impressão que vem de lá — disse Betty um tanto incerta.
Marshall,
que estava muito atento, falou:
— É
verdade, ela tem razão. Estou sentindo alguma coisa, como que alguém
que está dormindo e tem um pesadelo.
Bell se
arrastou para o trecho do desnível. Depois da experiência anterior,
foi-lhe fácil retirar a camada do chão. Bell a rebentou com a
pesada luva.
A primeira
coisa vista foi um pedaço de tecido cinza, semelhante a couro. Em
alguns lugares, tinha ainda restos de uma camada que brilhava como
prata... e isto deixou Bell meio perplexo.
Com uns
golpes mais fortes, apareceu então algo que se assemelhava muito a
um corpo humano. Mais um puxão, e aí estava uma cabeça, uma cabeça
com um capacete. O vidro da viseira estava um pouco embaçado, mas o
rosto da pessoa não foi difícil de reconhecer.
Era
Ivanovitch.
Bell ouviu
gritos desesperados atrás de si. Ele mesmo trabalhava calado e
triste. Instantes depois descobriu também a cabeça de Ivã, o mais
velho, sem o capacete, até que todo o corpo do mutante foi liberado
daquele invólucro.
As duas
cabeças estavam de olhos fechados, mas podia-se observar que as
narinas tinham um leve movimento rítmico. O mutante respirava.
Batendo-lhe
de leve nos ombros e puxando-o pelas pernas, Bell tentava
despertá-lo. Por fim, Marshall o interrompeu.
— Acho
que não é tão fácil assim, Bell.
Provavelmente
está ainda sob ação de influenciamento pós-hipnótico.
— Mas,
Santo Deus, como é que veio parar aqui? E onde estão os outros
três, Ishibashi, Sengu e Yokida?
Bell olhou
em volta. As lâmpadas dos capacetes inundavam o ambiente de luz. Não
havia mais desníveis no chão. Se os três japoneses estivessem ali
embaixo, não estariam naquela peça.
— Olhe
para seu traje espacial — falou Marshall. — Não dá a impressão
de que tentaram sugá-lo?
Bell
concordou. Tako Kakuta observava os pedaços da camada escura que
Bell rebentara e jogara de lado.
— Camadas
de verniz, sem dúvida — afirmou ele. — O que muito me admira é
que o senhor conseguiu rebentá-las com facilidade.
— Admira,
por quê?
Tako
apanhou um daqueles pedaços e lhe mostrou:
— Podem
ser rasgados só num sentido. Repare... assim. Em outro sentido é
impossível, como aliás em certos tipos de plásticos ou celofane.
Só podem ser rasgados numa direção, e o senhor o fez corretamente.
Bell ouviu
tudo muito pensativo. Depois voltou-se para Goratchim e com o auxílio
de Marshall o puxou uns dois metros para o lado. Aí percebeu que o
mutante não estava deitado no chão puro, mas em cima de uma camada
marrom-escura de folhas vivas.
— Mundo
esquisito — disse Bell admirado. — Se a gente ao menos pudesse
saber o que pretendem com tudo isto?
— Talvez
haveremos de saber, quando ele voltar a si — opinou Marshall.
— Temos
que levá-lo para fora — constatou Bell. — Aqui embaixo jamais
voltará a si. Quando eu então...
Betty
Toufry o interrompeu no meio da frase com um grito agudo de
desespero:
— Cuidado!
Estão nos atacando.
Marshall
se concentrou e ficou escutando.
— Ela
tem razão — disse, muito assustado. — Temos que sair daqui, as
solhas querem nos prender.
— Betty,
para fora — ordenou Bell. — Todos ou outros me ajudam aqui com o
Ivã.
Betty se
arrastou o mais depressa que pôde. Ao chegar à parede, gritou:
— Não
consigo mais achar o risco. E a resposta de Bell foi:
— Então,
faça um outro.
Betty se
pôs ao trabalho. Porém, ou se deu uma alteração qualquer com as
solhas, ou Betty não estava preparada para este tipo de trabalho,
como Bell.
Quando os
homens chegaram com o corpo inerte de Goratchim, Betty suspirava
desesperada:
— Não
consigo...
Sem dizer
uma palavra, Bell deixou cair o braço do mutante que estava
arrastando, levantou a mão e deu um grande soco na parede. Sentiu
que a parede cedeu com o pesado golpe. Entretanto como uma película
de borracha elástica levemente esticada, voltou outra vez ao lugar.
Bell se levantou e se lançou com toda força contra a parede. Mas o
resultado não foi melhor.
Alguma
coisa havia mudado a substância das solhas neste meio tempo.
— Afastem-se
— ordenou Bell — temos que fazer fogo.
Antes que
estivesse com a arma em posição de atirar, começou atrás dele um
forte ruído de algo que se esfregava. Bell não se deixou perturbar
com isto, mas os outros se entreolharam e Marshall gritou:
— Elas
vêm por trás de nós. Desprendem-se, às dúzias das paredes, do
chão e do teto. Vamos depressa.
Bell
atirava. A substância das solhas não estava preparada para os raios
esfuziantes e poderosos da pistola térmica. Quase que
instantaneamente, Bell abriu um rombo que era suficiente até para o
corpo avantajado de Goratchim. Segundos depois, já estavam todos do
outro lado.
Passaram a
ouvir o mesmo ruído ou chiado de sempre, como no aposento que haviam
abandonado há pouco. E agora, com a luz das lanternas, estavam vendo
as solhas em grandes grupos escorregar do teto ou das paredes e
saírem do chão. E aquele buraco — feito há pouco por Bell —
estava se alargando cada vez mais. Algumas solhas se desprendiam da
fina parede, aumentando assim o rombo, até o chão. Proporcionavam
assim uma passagem cômoda para as demais solhas que estavam prontas
para o ataque.
— Avante!
— gritava Bell. — Temos que tentar chegar até o buraco por onde
entramos.
Arrastavam
com pressa o mutante de duas cabeças, Bell não tirava mais da mão
a pistola térmica. Por onde que os seres de Gom avançassem,
recebiam o fogo direto de sua mão firme.
Ainda não
se podia imaginar o que pretendiam fazer as solhas. Não tinham
armas, nem naturais, nem mecânicas. Não tinham braços, nem pernas,
nem boca.
Mas todos
sabiam que elas conseguiam dominar seus adversários. Um exemplo
disso era o forte Goratchim, com seu traje espacial semi-dissolvido.
Puxando o
pesado corpo do mutante, chegaram até a metade do aposento. Betty
percorreu com sua lanterna do capacete todo o recinto. Mas não
conseguia mais ver a abertura pela qual entraram. Marshall foi
ajudá-la na procura, enquanto que Bell e os dois teleportadores se
incumbiam de afastar com as armas de fogo as solhas que atacavam.
Um minuto
depois, não havia mais dúvida: não existia mais o buraco, as
solhas o haviam tapado.
Pelo rosto
de Bell, corria o suor.
— Temos
que cavar nós mesmos uma outra galeria, — foi sua resolução. —
Vamos, ponham Ivã ali ao lado da parede.
Ele mesmo
foi à frente e começou a trabalhar com sua pistola. Não se
importava com o calor sufocante que se irradiava da pedra
incandescente, que desta vez, infelizmente não provocava aquela
lufada de ar fresco, para amenizar a quentura. Com a temperatura
externa de trezentos graus centígrados, o calor penetrava no traje
espacial, apesar do dispositivo automático de refrigeração,
atingindo a casa dos quarenta graus.
Mas também
para as solhas a temperatura estava demasiadamente elevada. Formavam
um semicírculo em torno das pessoas que, ou estavam assistindo ao
trabalho de Bell, ou estavam de costas esperando preparadas para
atirar, caso atacassem de novo.
A saída
começava a abrir-se metro por metro. Atrás de Bell, vinha primeiro
Goratchim, que era arrastado, e depois os outros. Quando as solhas
começaram a atacar, Marshall abriu um fogo tão cerrado que matou um
grande número delas. As demais perderam o interesse da perseguição.
Neste meio
tempo, Bell estava refletindo que para atingir o corredor central,
devia abrir o trilho um pouco mais para cima. Calculou bem o ângulo
certo e começou então a escavar degraus na rocha. O trabalho a mais
não tinha importância, já que Marshall estava em condições de
rechaçar as investidas do traiçoeiro adversário.
Betty, no
entanto, afirmava que a ordem de ataque era transmitida
telepaticamente a cada instante.
Para
evitar qualquer investida de surpresa das solhas, Marshall ficou
parado no primeiro degrau. Cada degrau fora feito com trinta
centímetros de altura e metro e meio de comprimento. Se Marshall
encolhesse um pouco as pernas, tinha espaço suficiente para
deitar-se comodamente.
Acima dele
Bell, Betty, os dois teleportadores e Ivã Goratchim, ainda
inconsciente, continuavam o caminho. Alguns minutos depois, Marshall
não percebeu nada mais, a não ser o jogo de luzes que se cruzavam.
Sua
lanterna se dirigia sempre reta para dentro da galeria. Durante uns
quinze minutos, a situação foi de calma absoluta. Mas após este
intervalo, os microfones do capacete começaram a captar aquele ruído
de alguma coisa que roçava. Outra vez, Marshall intranqüilizou-se.
As solhas
estavam de volta.
Marshall
as observou com calma, quando elas, hesitando, se aproximavam do
reflexo da lâmpada. Não conseguiu verificar se elas sentiam a
claridade. Mas o ruído continuava o mesmo.
Naturalmente
estava de arma em punho, preparado. Esperava paciente que a primeira
solha atingisse a base do degrau. Já ia apertar o gatilho, pois
estava certo de que o degrau não era nenhum empecilho para elas.
Mas tirou
o dedo do gatilho, quando reparou que o ser esquisito bateu contra a
rocha, escorregou alguns centímetros e quedou imóvel.
Chegaram
outras solhas e sendo o corredor um pouco estreito, vinham umas sobre
as outras. Mas a cada uma delas acontecia o mesmo que à primeira:
chocavam-se contra a parede de pedra, escorregavam uns centímetros
para trás e permaneciam imóveis.
Marshall
teve uma idéia. Deixou a arma de lado, por uns momentos, pegou na
primeira solha que estava por cima, observou se as outras não
estavam coladas nela, e a puxou para seu degrau, recuando ele mesmo
para o degrau superior.
Observou
que o ser de Gom, pouco menor que a superfície do degrau, movendo-se
um pouco de um lado para o outro, chocou-se de encontro à rocha a
seus pés, escorregou um pouco para trás. Empurrou-se mais para
frente, até que mais da metade de seu corpo ficou pendendo no ar. O
estranho ser perdeu o equilíbrio e caiu sobre sua companheira que a
esperava embaixo, imobilizando-se.
Marshall
pegou-a novamente e trouxe para cima do degrau. Seu senso científico
não lhe permitia tirar uma conclusão importante de uma só
experiência.
Mas sua
experiência foi interrompida. Primeiro, julgara ter ouvido um grito,
mas quando o ruído esquisito se repetiu, notou que se tratava de um
sinal telepático. Em contraste com a confusão de impulsos que vinha
dos aposentos arredondados, em contraste com o comando inimigo que
levava as solhas ao ataque, e em contraste com os longínquos, mas
bem compreensíveis pensamentos de seus colegas, causava-lhe a
impressão de que provinha de um cérebro, muito semelhante ao do
homem.
A mensagem
telepática dizia:
— Ajudem-nos,
matem os estranhos.
Marshall
sabia que Betty também teria ouvido o pedido de socorro, tão bem
como ele. Sabia ainda que Bell poderia se utilizar de qualquer arma
quando o negócio ficasse sério. Pois Marshall tinha certeza de que
o pedido de socorro partira das solhas, ou melhor, falando do
conjunto de todas as solhas ali reunidas e de que aquele pedido se
dirigia a um cérebro que, como os homens, não entendia nada da
telepatia do ser de Gom.
Com uma
descarga, matou as solhas que se tinham agrupado no degrau inferior.
Virou-se para trás, e correu escada acima. Conversou com Betty. Ela
tinha recebido e compreendido o pedido de socorro das solhas e
informou a Bell de tudo. Mas até o presente momento, não havia
nenhum indício de que alguém tivesse a intenção de vir em socorro
das solhas.
*
* *
Bell não
tinha mais esperança de atingir o corredor central, pelo qual haviam
penetrado no fundo da rocha. De repente, porém, sob o fogo de sua
pistola térmica, a parede da frente de sua nova abertura artificial
se dissolveu, caindo em pedaços, deixando à vista um grande rombo
escuro. O espaço lá dentro parecia ter uma pressão atmosférica
bem pequena, pois uma rajada de vento quente quase atirou Bell
através do recém-surgido buraco, levantando poeira e estilhaços de
pedra em redor dele.
No mesmo
instante, Betty ouviu o grito desesperado:
— Estão
no reservatório do oeste, eles, os estranhos.
Não tinha
muita certeza se o que ela tinha entendido como oeste, era mesmo
oeste. Mas foi assim que o transmitiu a Bell.
— Suponhamos
que com as palavras “eles”
e “os
estranhos”
estão se referindo a nós, então em pouco tempo vamos ter muito que
fazer. Somente quero saber de quem as solhas lá embaixo estão
esperando auxílio.
Não havia
ainda acabado de falar as últimas palavras “esperando
auxílio”,
quando um jato de luz de uma das lanternas caiu sobre uma parede
lateral do grande salão em que se encontravam. Em geral, as paredes
e o chão eram de pedra pura, mas neste local, que Ras Tschubai
iluminava agora, havia uma espécie de cortina feita com a substância
de um marrom brilhante do corpo das solhas.
Bell não
teve dúvida de que aquela cortina esquisita encobria uma saída,
provavelmente um corredor, que serviria para o arejamento e para a
manutenção de uma temperatura constante nas instalações
subterrâneas.
Lançou um
olhar de desânimo sobre o inconsciente Goratchim, murmurando:
— Não
há por onde, temos que continuar a arrastá-lo. Vamos, para fora.
Apontou
para a cortina. Tako Kakuta chegou até lá, desfechou um enorme soco
de mão fechada e teve de constatar que a massa corpórea do ser de
Gom não havia perdido nada de sua poderosa elasticidade.

Nenhum comentário:
Postar um comentário