sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

P-041 - O Aliado do Gigante - Clark Darlton [parte 2]

Isto não passa de um absurdo. Os moofs nunca tiveram a idéia de fazer política. São simples e sem orgulho. Disse há pouco que são telepatas e sugestores, mas...
Ninguém afirmou que o plano parte deles. Não são outra coisa do que os “peões” neste jogo de xadrez das Galáxias. Há alguém maior escondido atrás deles. Este alguém utiliza os moofs para obter influência sobre os zalitas, com cujo auxílio, por sua vez, pretende conquistar o Império.
E quem é este desconhecido?
Isso, regente, eu não sei — Rhodan hesitou um pouco: — Ninguém sabe ao certo se ele realmente existe, mas seus propósitos em relação aos moofs parecem confirmar sua existência. Minha gente vem lutando há semanas contra os moofs. Fazem isto para conservação do Império.
Que interesse o senhor tem no Império?
Thora que até então estivera calada, deu um pulo à frente.
Os terranos e nós somos aliados, regente. Nós os ajudamos quando os reformadores individuais e mais tarde os saltadores os atacaram. Por que não haverão de nos ajudar, quando se torna necessário?
Rhodan intimamente estava admirado da atitude de Thora. Esta jovem arcônida estava cada vez mais bela. Não poderia ter desejado um defensor melhor.
Os saltadores...? — O cérebro robotizado fez mais uma vez uma pausa. — Eles não têm boas intenções para com o Império. Teoricamente é possível que estejam por detrás dos moofs e dos planos do Zarlt.
Rhodan estava como se densos véus tivessem caído de seus olhos.
Os saltadores... Os comerciantes da Galáxia. Combinaria muito bem com o caráter deles, mandar outros na frente para apanharem as castanhas do fogo. Por outro lado, faltava aos saltadores o sentimento de solidariedade, sem o que um tal empreendimento haveria de fracassar.
Quem sabe, são os saltadores mesmo — concluiu Rhodan. — Um dia saberemos de tudo. Regente, eu já o informei de tudo. Gostaria agora de lhe fazer uma proposta.
Pois não, estou ouvindo.
Rhodan respirou profundamente e começou:
O senhor deixa comigo a Titan e suspende qualquer ação punitiva. Eu me obrigo a restabelecer a ordem em Zalit e a instalar o legítimo Zarlt.
Dê-me um pouco de tempo — pediu o regente.
A imagem permaneceu na tela e no alto-falante não se ouvia mais aquele zumbido regular. Numa distância de exatamente três anos-luz, bancos positrônicos de dados começaram a trabalhar. Retransmitiam-se informações recém-obtidas e comparavam-se os resultados. O cérebro robotizado tomou sua decisão. O resultado veio quinze segundos após o pedido de tempo.
Estou de acordo, Perry Rhodan da Terra, a nave Titan lhe ficará emprestada durante todo o tempo em que estiver em atividade para o Império. Qualquer ação punitiva será também sustada enquanto o senhor estiver comigo. No momento em que Demesor for punido e quem estiver atrás dos moofs for desmascarado, a Titan será sua para sempre. Aceita?
Aceito, regente. Thora e Crest poderão voltar para Árcon?
Não, eu não quero.
Foi a voz da jovem arcônida. Rhodan olhou para ela admirado. Antes que pudesse dizer alguma coisa, o cérebro o interrompeu:
Thora e Crest podem voltar a qualquer momento para Árcon, mas eu desejaria que eles permanecessem na Titan e, aliás, em posição de destaque.
Confirmado — disse Rhodan brevemente. Deu um olhar para Thora e perguntou: — Mais alguma pergunta?
Sim.
Rhodan ficou aguardando. Não podia imaginar o que o cérebro ainda queria saber dele. Não foi portanto casual sua grande admiração.
O senhor é descendente dos velhos arcônidas?
Por uns momentos se sentiu um pouco atrapalhado. Podia esperar por tudo, menos por esta pergunta, que o próprio cérebro podia responder melhor que ele.
Não sabemos se os terranos descendem dos arcônidas — respondeu. — Isto devia estar propriamente anotado no arquivo central de Árcon.
Não sei que tipo de mundo é a Terra e não conheço sua posição.
E não saberá tão cedo”, pensava Rhodan, suspeitando de repente das intenções do regente. Parece que queria saber a posição da Terra.
De qualquer maneira, a Terra não pertence ao Império, regente. Eu não sei até que ponto suas naves colonizadoras chegaram outrora, mas talvez uma delas foi capturada em nosso mundo. Um dia saberemos responder a esta pergunta.
Os terranos e os arcônidas devem ter, de qualquer maneira uma origem comum. A teoria de um desenvolvimento paralelo não tem nenhuma probabilidade e seria um acaso grande demais que tivessem surgido, independente uma da outra, duas inteligências com o mesmo grau de evolução. Mas, deixemos isto de lado.
Pensativo, Rhodan contemplava a refulgente semi-esfera.
De qualquer maneira, regente, o senhor sabe mais do que o que está falando.
Que quer dizer com isto?
Rhodan sorriu, olhando tranqüilamente para Thora.
O senhor calculou a distância de minha posição com uma diferença de apenas 2,75% anos-luz de meu cálculo. Como é que o senhor sabe qual é a duração de um ano em meu mundo?
O cérebro respondeu sem hesitar:
Consegui obter mensagens pelo rádio para poder chegar à conclusão de suas escalas de cálculo. Com isto não posso conhecer de maneira alguma a posição de seu mundo de origem. Um dia o senhor haverá de me comunicar esta posição.
É possível — disse Rhodan. — Uma última pergunta: Posso, sempre que for necessário, entrar em contato com o senhor?
A qualquer momento, nesta freqüência. Eu lhe agradeço, Perry Rhodan.
Passado um momento, a tela escureceu.
Rhodan desligou os aparelhos. Sentou-se lentamente na primeira poltrona, mostrando na testa uma ruga vertical.
O regente do Império... me agradecendo — murmurou hesitante. — Tudo isto será verdade, Crest e Thora? Podemos confiar nas palavras do cérebro robotizado? Está sendo sincero conosco? Há algum truque atrás de tudo isto?
Thora se levantou e pondo a mão no ombro de Perry:
Não, Perry, não acredito que haja truque. Um cérebro positrônico não pode se ocupar com mentiras e truques. Tem consciência do seu valor e crê, portanto em suas faculdades, que com mentira e astúcia somente se enfraqueceriam. Creio que o regente do Império o reconheceu sinceramente como um aliado. Com isto, já demos o primeiro passo para reconquistar o Império.
Rhodan ficou olhando para ela.
Não contra a vontade do regente. Quando, um dia, o cérebro reconhecer que homens ou arcônidas estão novamente em condições de tomar em suas mãos o poder, não haverá de se opor a esta idéia. Haverá de nos ajudar.
Que o destino lhe dê razão, Perry — disse Crest, calmo. — Que vamos fazer então agora, voltar para Zalit?
Sim, claro. Estão esperando por nós lá. Voltemos de imediato.
Possivelmente — chiou Gucky lá do seu canto — o Zarlt nos prepara uma recepção solene.
Não terá muito tempo para isto — respondeu Rhodan, e trocou um olhar confiante com Tiff, que regulava as coordenadas para o salto de volta. — Por que será que existe em Zalit um movimento clandestino? — olhou para o relógio. — Exatamente daqui a cinco horas, o diabo estará solto no quarto planeta de Voga. O Zarlt vai ter que empregar toda a sua potência bélica, para deter as pessoas que em toda parte estão dinamitando as instalações do exército e da frota espacial. E no meio desta confusão, desceremos na borda do espaçoporto, despercebidos e sem nenhuma amolação.
Gucky inclinou a cabeça, deixando transparecer nos olhos a certeza da vitória.
E então, vamos ajudar os revoltosos? Quem sabe uma pancadaria com a polícia secreta?
Rhodan balançou a cabeça e disse, lamentando:
Sinto muito, Gucky, mas não vai haver pancadaria. Somos hóspedes do Zarlt. Em caso de necessidade haveremos até de ajudá-lo a debelar a insurreição.
Ah, não acredito — disse ele ofegante. Imediatamente procurou ler o pensamento de Rhodan, mas encontrou uma barragem de defesa.
Teve então de fazer outra pergunta:
Amigos do Zarlt? Não estou compreendendo.
O necessário — disse-lhe Rhodan — é que o Zarlt não perceba nada disto. É o que me interessa. Tiff, a que distância estamos, mais ou menos?
Transição em dois minutos. A quatro horas-luz de Zalit, saímos do hiperespaço e com maior velocidade chegaremos na hora marcada.
Rhodan confirmou com a cabeça, sem dizer nada. Estava bastante ocupado com Gucky, observando sua fisionomia de zangado.
Os ratos-castores se tornam cômicos quando estão zangados...
3



André Noir levantou-se cansado, enxugando o suor da testa. Olhou para os olhos interrogadores de John Marshall.
Então?
Bloqueio hipnótico pesado. Por certo provocado pelos moofs. Pode ter acontecido também através de meios puramente técnicos. Não sei até que ponto os zalitas chegaram neste assunto. De qualquer maneira vou conseguir neutralizar o bloqueio. Em dez minutos, Rogal estará cem por cento.
Ótimo — alegrou-se Marshall. — Poderei entrementes executar a ordem de Rhodan e mobilizar os revoltosos. Terão que, num determinado momento, armar uns quebra-cabeças para o Zarlt.
Deixou o posto de saúde instalado pelo Dr. Haggard, ficando ali o hipno André Noir com seu paciente.
Quando voltou, daí a duas horas, com Ras Tschubai, encontrou Rogal já na sala. O zalita estava bem recuperado e olhou para ele com olhos claros e abertos. Parecia que estava livre de um grande peso.
O senhor é o telepata Marshall, sim, eu o estou reconhecendo. Encontro-me na nave de Rhodan, como me disseram. Que aconteceu com meus amigos? Será que...?
Não, Rogal, está tudo em ordem. Alguns de seus companheiros escaparam. Os soldados do Zarlt foram assassinados quando atingiam o fim do caminho secreto. Que aconteceu nos aposentos do Zarlt? O semblante de Rogal se anuviou:
Eu fracassei — disse se acusando. — Cheguei despercebido até o quarto do Zarlt e o encontrei dormindo em sua cama. Dei um tiro nele, e tudo parecia como havíamos combinado. Aí apareceram os guarda-costas e me prenderam. E uns dez minutos depois... estava em frente ao Zarlt. Estava vivo, embora eu o tivesse visto morrer.
Marshall lançou um olhar de interrogação para Noir, mas o hipno sorriu resignado.
Rogal balançou a cabeça:
Não, Marshall, não estou louco. Foi exatamente assim. Tinha assassinado o Zarlt e ele reviveu. Vi seu rosto derreter, mas depois estava ele ali: são e sem cicatrizes. Aí é que descobri a verdade. O Zarlt tinha um sósia, um robô feito à sua semelhança. No quarto de dormir do velho Zarlt, repousava o robô. Acho que contavam com a possibilidade de um caminho secreto e não queriam correr o risco. Eu matei o robô, o que naturalmente provocou imediatamente o alarma. Caí na esparrela do Zarlt. Foi tudo tão depressa que nem tive tempo de me matar, como era meu dever.
Estamos muito felizes com isto — disse Marshall, sorrindo e tranqüilizando o zalita. — Seu sacrifício seria inútil. Você não traiu nem delatou nada. E mesmo se isto acontecesse, seus amigos já estavam preparados. De qualquer maneira, sabemos agora que o Zarlt está precavido, ou esteve. Sua ação valeu a pena, devido a esta revelação. Acredite-me, as horas do ditador estão contadas, pois esperamos apenas que ele se coloque abertamente contra nós. Aí, podemos agir.
E quando será isto?
No mais tardar, amanhã. Rhodan está no momento no espaço, em Árcon, para combinar com o cérebro robotizado. Esperamos que traga bons resultados.
Rogal riu de repente. Como que um grande peso havia caído de seu coração.
Posso voltar para meus amigos?
Naturalmente, nós o levamos para lá. Apenas ainda uma pergunta: que fez o Zarlt com você, depois de o prender?
Mandou-me levar para um porão onde deveria ser ouvido. Mas, de súbito mudou suas ordens. Fui levado para um local onde havia doze recipientes com moofs. Deste momento em diante falta-me qualquer recordação. Não sei o que aconteceu.
Então os moofs. Diga uma coisa, Rogal, você sabe o que são propriamente os moofs?
Rogal fez sinal afirmativo.
Qualquer criança em Zalit sabe isto. Servem à camada dirigente, a fim de detectarem as mentiras, porque são telepatas. Ninguém pode pensar, sem ser descoberto pelos espiões moofs. São um grande perigo para a liberdade do indivíduo.
Você sabia disso? — admirou-se Marshall, sabendo então que o poder sugestivo dos moofs era ignorado. Os zalitas só não suspeitavam de que foram os moofs propriamente os iniciadores da planejada revolta contra o império. — Então sua primeira missão não será difícil: os moofs têm que ser destruídos.
Já começaram a ser destruídos — raciocinou Rogal. — Seus Mutantes mataram quase todos que havia em Zalit, mas diariamente chegam novas remessas deles.
Matem os moofs — repetiu Marshall. — Eles são a desgraça de Zalit. Quem sabe os próprios moofs não têm culpa, mas não podemos constatar isto, pois estão sob coação. Eles não contam isto, nem mesmo quando são ameaçados de morte. Destruam os recipientes pressurizados, que eles morrerão. E agora nós o levamos para seus amigos. Aqui está Ras Tschubai que vai cuidar disso. Ele sabe onde é agora o quartel-general. Passe bem, Rogal, nós nos encontraremos em breve.
O africano tocou de leve nos ombros de Rogal e lhe explicou amigavelmente, em poucas palavras, como seria o transporte. Marshall sorriu mais uma vez para os dois e deixou a sala.
Foi ao encontro de Bell, na Central.
Bell estava horrivelmente entediado, nada lhe era mais desagradável do que ficar esperando. Uma parte dos mutantes estava a caminho para manter contato com os revoltosos e lhes mostrar como tornar os moofs inofensivos. As notícias chegadas até então davam conta de que as conversações estavam em ótimo nível.
Apesar de tudo, o tempo trabalhava contra Rhodan e seus amigos. O Zarlt estava disposto, mesmo sem a influência sugestiva dos moofs, a destruir o cérebro robotizado de Árcon, assim que houvesse oportunidade. Rhodan não lhe contaria, por sua própria vontade, como havia rompido a barreira de proteção de Árcon. Mas havia outros meios para descobrir isto.

* * *

O Zarlt mandou reunir seus homens de confiança. Entre eles, ocupava o primeiro lugar um oficial de nome Hemor, que Rhodan já conhecia pessoalmente. Depois vinha Milfor, o chefe de armas, um zalita ambicioso que contava com uma vaga possibilidade de chegar a ser Zarlt, se acontecesse qualquer coisa a Demesor. Finalmente ainda eram dignos de menção Cenets e Orbson, capangas do ditador Zarlt.
Os cinco homens estavam sentados num aposento isolado do palácio, no último andar, de onde se tinha uma vista panorâmica sobre toda a região do espaçoporto. O movimento de naves de todos os tipos era enorme, pois o Zarlt havia convocado para Tagnor a maior parte de sua frota. De maneira alguma, ele iria permitir que Rhodan fugisse com a gigantesca nave.
Milfor olhou para Demesor com desconfiança.
Por que nos convocou? Será que não conhecemos nossos deveres?
Espero que sim, Milfor — disse o Zarlt. — Mas resolvi mudar de tática. Até quando vamos esperar que este Rhodan resolva nos contar seus segredos? Caso os senhores não se lembrem, já estamos esperando há muitas semanas. Devemos deixar passar mais semanas, sem fazer nada? Não, devemos agir.
Milfor queria dizer alguma coisa, mas preferiu ficar calado.
Cenets pediu a palavra:
Agir? Que entende você por agir? Devemos atacar Árcon, sem sabermos qual é a força do cérebro robotizado? Conhecemos a espessura e a natureza da barreira de segurança? Pode ela ser vencida por um salto através do hiperespaço?
Não sabemos ainda — concedeu o Zarlt. — Mas conseguiremos saber em breve. Rhodan haverá de nos dizer.
Eu tenho receio — disse Hemor — que tenhamos que esperar muito por isto. Ele, certamente, não nutre a menor intenção de nos contar seus segredos.
Por certo ele não tem esta intenção — continuou Demesor. — Mas podemos obrigá-lo a isto, pela força.
Milfor se aproximou. Seus olhos brilhavam. Pela força, esta era a linguagem que ele entendia. Riu friamente.
Assim você me agrada mais, Demesor. Pela força, esta é a única possibilidade. Mas como pretende você pegar Rhodan com nossa força? Ele é muito astuto e tem amigos maravilhosamente dotados. Nem mesmo os moofs conseguem ler seus pensamentos.
Nós o convidamos para uma reunião — propôs Demesor. — Os robôs o dominarão, já que os zalitas não o conseguem. Sob as abóbadas do palácio, aprenderá a falar. Tenho a garantia dos meus cientistas.
E se ele não vier sozinho? — perguntou o cauteloso Cenets.
O Zarlt teve um sorriso de menosprezo.
Os robôs darão conta até de dez Rhodans, Cenets, não se preocupe. E então, quando soubermos como romper a barreira do sistema de Árcon, começaremos a agir. Os dias de governo de robô estão contados. Viva o Império zalita de Árcon.
Viva o Império Zalita — exclamaram os quatro homens, apoiando a solução do Zarlt.
Soou como uma conspiração e realmente era uma conspiração.

* * *

Os amigos do almirante Zernif partiram na hora combinada.
Em Tagnor e em sua redondeza, foram pelos ares importantes edifícios do governo e da frota espacial que dominava tudo no país. Até uma das maiores espaçonaves explodiu em pleno espaçoporto. Por sorte, a tripulação estava ocupada com serviços externos, de sorte que apenas dois homens morreram.
Ao mesmo tempo, foram atacadas as instalações policiais, onde morreram muitos capachos de Demesor. Os civis, na cidade, olhavam a tudo com indiferença e não tinham a menor vontade de ajudar os policiais.
No interior, fábricas iam pelos ares e grandes depósitos de munição foram destruídos. Somente agora é que se podia ver como era perfeita a organização dos revoltosos. Um ataque fulminante deste tipo jamais poderia ter sido preparado em poucas horas. Já deviam estar planejando há muito tempo. A iniciativa de Rhodan apenas apressara a marcha dos acontecimentos.
O Zarlt deu o alarma geral.
Pequenas unidades da frota espacial foram retiradas de Tagnor, a fim de voltarem a seus portos de origem. Grandes carros transportavam as tropas para lugares afastados, para abafarem qualquer tentativa de rebelião.
Mas onde se quisesse intervir, já era tarde. Os sabotadores já tinham escapado e não havia ninguém que dissesse tê-los visto ou quisesse dizer alguma coisa sobre eles.
E no meio daquele caos, ninguém reparou que, à margem do gigantesco espaçoporto, uma pequena nave esférica desceu do céu em pleno crepúsculo, desaparecendo na escotilha aberta da Ganymed, com mais de oitocentos metros de altura.
A aterrissagem foi perfeita e imperceptível. No mesmo instante cessaram os atos de sabotagem em Zalit.
De repente estava tudo calmo, como se nunca tivesse havido uma rebelião em Zalit.

* * *

A noite passou sem novidades.
Pelas oito horas da manhã do dia seguinte, um carro se aproxima da Titan. Parou diante da escotilha de entrada. Saltou um oficial, olhando muito para cima, na esperança de que alguém o visse.
Por sorte, assim aconteceu. O sargento Harnahan, por mero acaso, ligou o videofone da escotilha e viu lá embaixo o multicolorido uniforme do zalita. No primeiro instante julgou que o objeto colorido fosse um gigantesco papagaio, mas depois reconheceu seu erro. Os oficiais de Zalit eram todos assim, vestiam-se como se estivessem saindo de um baile de máscaras.
Encolheu os ombros, num sinal de indiferença. Por ele, os zalitas se podiam fantasiar da cabeça aos pés, não era de sua conta.
Mas o que estava procurando aquele sujeito? Ficou refletindo um pouco se havia alguma proibição de abrir a escotilha. Não se lembrou de nenhuma proibição deste tipo. De qualquer maneira, a entrada estava a mais de dez metros acima do chão de cimento do espaçoporto. Se o rapaz lá embaixo não fosse um saltador olímpico, não havia nenhum perigo.
Harnahan fez com que a escotilha escorregasse um pouco para o lado. Abriu-se então uma fenda, suficientemente larga para enfiar a cabeça.
Proibido mendigar e andar à toa por aí — gritou ele lá para baixo.
O oficial do Zarlt tremeu de medo. Era Hemor, que não contava com esta recepção descortês. Sabia que o pessoal de Rhodan falava o intercosmo.
Venho a mando do Zarlt — respondeu, sem dar atenção à descabida admoestação. — Preciso falar com Rhodan.
O senhor que dizer senhor Rhodan, não é? — disse Harnahan, que fazia questão de dar uma lição de boas maneiras. — Espere um pouco, vou perguntar a ele se pode atendê-lo.
E antes que Hemor pudesse responder qualquer coisa, a escotilha se fechou. O zalita pulou de raiva, mas se dominou. O Zarlt tinha ordenado serenidade e paciência. Mais tarde sobraria tempo para se vingar da altivez de Rhodan. Assim, ficou Hemor abandonado sozinho e esperando. Harnahan não teve pressa. Usando um grande número de elevadores, chegou finalmente à Central, e chamou daí Rhodan, usando o intercomunicador. Rhodan ainda estava em sua cabina, depois de ter gasto mais da metade da noite discutindo com os mutantes o planejado ataque.
Quem quer falar comigo? — perguntou admirado. — Um oficial?
Afirmou que veio a mando do Zarlt — confirmou Harnahan com o rosto virado para o videofone. — Parece que é urgente.
Rhodan pulou da cama.
Diga-lhe que espere um pouco. Não permita entrar na nave. Eu desço até ele.
Sozinho?
Naturalmente, ou você pensa que eu tenho medo de um zalita? Você pode ficar olhando da escotilha.
Harnahan desligou o intercomunicador e voltou para seu posto. O colorido oficial ainda estava esperando no mesmo lugar.
Você, aí embaixo — gritou Harnahan abrindo a escotilha toda, para ficar sentado no parapeito. Suas pernas ficaram balançando. — Espere um pouco, Rhodan vem logo.
Foi um pequeno exagero, pois Rhodan não teve nenhuma pressa. Finalmente acabou de levantar, foi tomar seu café calmamente, depois de ter se certificado quem é que queria visitá-lo. Conhecia Hemor. Foi o oficial que o descobriu nos confins do sistema e o conduziu para Zalit. Um íntimo confidente do Zarlt. Seria talvez melhor levar consigo Marshall, que podia controlar os pensamentos de Hemor?
Mas desistiu de levá-lo. De mais a mais, as intenções do Zarlt lhe eram muito bem conhecidas. E Marshall necessitava de repouso depois daquela noite do ataque.
Quando chegou à escotilha, e por detrás tocou levemente no ombro de Harnahan, o sargento quase caiu no abismo, de tanto medo. Rhodan o amparou.
Você está tão assustado? — admirou-se Rhodan.
Harnahan se compôs imediatamente.
Não, mas a visão do papagaio lá embaixo me deu sono. Ele tem uma cara tão chata.
Rhodan sorriu.
Desça a rampa, eu vou dar uma olhada lá no passarinho.
Hemor estava esperando pacientemente. Até que enfim, sua paciência foi recompensada. Rhodan chegou para dar o primeiro passo na armadilha que lhe haviam preparado.
Hemor foi de encontro ao odiado adversário, que ameaçava estragar todos os planos.
O senhor não precisa se desculpar — começou ele, cortês e sorridente. — Também o Zarlt nem sempre tem tempo para visitas inesperadas — isto era uma indireta e talvez mesmo uma evidente ameaça. — Ele teria grande honra de tê-lo hoje à noite como seu hóspede. Não é nenhuma festa. É uma discussão da situação.
Rhodan não escondeu a admiração.
Discussão da situação? Que tenho eu a ver com a situação em Zalit?
Hemor cintilava ao sol do meio-dia.
Muito, suponho eu. Já que o senhor não quer desvendar ao Zarlt seus segredos, nós atacaremos o cérebro robotizado sem o seu auxílio. O Zarlt gostaria de informá-lo de suas intenções e depois pedir-lhe que abandonasse Zalit. Mas queria dizer isto pessoalmente, e eu não posso antecipá-lo.
Era tudo muito bonito e tudo muito bem feito. Era para despertar a curiosidade de Rhodan. E parece que foi bem sucedido.
Então vocês querem finalmente atacar Árcon... E eu devo abandonar Zalit? O cérebro robotizado vai me perseguir.
Ele terá muito que fazer conosco — acentuou Hemor muito autoconsciente. — Somos da opinião de que ele não vai mais se preocupar com os senhores.
Estaria Hemor falando a verdade? Rhodan já estava arrependido de ter vindo sem Marshall. Não podia também recusar o convite do Zarlt, causaria suspeita. Devia fazer tudo, como se confiasse nele e esperasse ser seu aliado. Resolveu então mudar de assunto.
Que aconteceu ontem? Observamos algumas explosões na cidade e uma intensa atividade no espaçoporto. Houve alguma coisa ruim?
Alguns acidentes, nada mais. O Zarlt vai informá-lo de tudo. Posso avisá-lo de que o senhor irá?
Haverei de comparecer, levando comigo alguns dos meus conselheiros.
Duas horas antes do pôr do sol — confirmou Hemor, dirigindo-se para o carro. Sem virar mais uma vez para trás, entrou no carro e fez um gesto para o motorista. O veículo se pôs em movimento e passando pela borda ao aeroporto, entrou na estrada asfaltada que levava para a cidade.
O carro que estava permanentemente à disposição de Rhodan, estava ainda no mesmo lugar. Hoje à noite ele o levaria ao Zarlt.
Rhodan, de repente, começou a ter dúvidas se era intenção deles que ele voltasse novamente com o carro para a Titan.

* * *

O dia passou tranqüilo. Ras Tschubai estava a caminho com Tama Yokida, desativando todos os moofs que encontrava. John Marshall, juntamente com Zernif e o teleportador Tako Kakuta estavam percorrendo todos os esconderijos dos revoltosos para preparar a rebelião decisiva contra o Zarlt. Os comandos, daí em diante, estavam todos de prontidão. A um simples aviso, começariam a agir. Cada grupo estava equipado com um radiorreceptor, que lhes haveria de dar o sinal para iniciar o movimento. Zernif voltou com Marshall para a Titan. Iria comandar a ação do couraçado.
Três horas antes do pôr do sol, Rhodan mantinha uma conversa com os mutantes na sala. Estavam ainda presentes os dois arcônidas, Bell e o tenente Tifflor, como homem de ligação com a Ganymed.
O Zarlt me convidou para uma conversa. Bell e John Marshall me acompanharão. Nossos armamentos serão os irradiadores de agulha. Estou farejando uma traição. Por isso, o corpo dos mutantes fica de prontidão especial. O elemento de ligação com John Marshall é Betty Toufry. Preste atenção, Betty, você deve permanecer constantemente em contato telepático com Marshall, entendido? — esperou até que a jovem, ainda muita nova, telepata e telecineta, tivesse feito um sinal, confirmando. Depois continuou: — Thora assume o comando da Titan. A qualquer sinal sério de ataque, levantar vôo. Perfeitamente, Thora, eu disse: levantar vôo. E aliás, transposição para dois anos-luz, para um ponto cujas coordenadas estão na mesa de navegação. Comandante Freyt será instruído por Tiff. A Titan e a Ganymed não podem ficar expostas a nenhum perigo, embora eu não creia que alguém possa romper a camada de proteção. Mas acima de tudo, pretendo evitar derramamento inútil de sangue.
Gucky, que todo enrolado, estava aparentemente alheio à palestra, esticou-se todo, atingindo mais de um metro de comprimento. Nos seus olhos castanhos e inteligentes havia uma censura íntima.
E nós — perguntou ele — devemos desaparecer com a Titan enquanto aqui se desenrola um verdadeiro espetáculo?
Sorrindo, Rhodan balançou a cabeça.
Quem é que disse isto? Antes que a Titan parta, os teleportadores levarão todos os membros do corpo de mutantes para os esconderijos preparados pelos revoltosos. Zernif também irá junto. As operações contra o Zarlt começam então imediatamente. Está tudo acertado. Só a hora exata é que tem de ser marcada ainda. E quem vai marcar esta hora é o Zarlt.
Gucky respirou aliviado.
E eu já estava pensando que nós íamos dormir, enquanto você agüentaria tudo sozinho aqui em Zalit.
Rhodan, subitamente, parou de sorrir.
Tenho o pressentimento — disse ele — de que sozinho não daria conta, Gucky. Hoje à noite poderia haver uma decisão.

* * *

O ser esquisito era redondo, tinha o diâmetro de um metro, e mais ou menos a mesma altura. Jazia imóvel dentro de um recipiente pressurizado de vidro, que continha uma pesada atmosfera de metano, sem a qual os moofs não podiam existir.
O recipiente estava num aposento fechado do palácio, não longe da sala em que se realizaria hoje à noite a conversa com Rhodan.
Como o fazia diariamente, o moof sondava os pensamentos de todos os zalitas que estavam no palácio. Não havia nenhum traidor entre eles, como constatava rapidamente. Depois, porém, se concentrou todo no Zarlt e deu o quadro de seus pensamentos:
Zarlt Demesor, quais são suas intenções hoje à noite?
Demesor estava em seus aposentos particulares, trocando de roupa, quando viu a pergunta, que se lhe apresentava como algo corpóreo diante dos olhos. Sabia que um dos moofs estava tentando contato com ele. Eram realmente servidores leais e de confiança.
Convidei Rhodan. Você vai vigiar seus pensamentos e me avisar se ele planeja alguma traição.
O Zarlt sabia que o moof o entendia. A confirmação veio logo.
Rhodan é um inimigo de Zalit. Deve ser assassinado. Nós o ajudaremos nesta tarefa, mas você deve ter muito cuidado, pois ele tem colegas, que são telepatas tão bons como nós, e lêem pensamentos. Eu vou dar um jeito de que você e todos que tomam parte na reunião recebam um bloqueio de proteção.
Demesor viu confirmadas suas suspeitas. Rhodan também tinha telepatas. Ainda bem que o moof o havia prevenido.
Obrigado — disse ele bem alto. — Tinha esquecido isto. Será que Rhodan sabe o que o espera?
Ele ficará sem suspeitar de nada, até que você tenha agido, e então será tarde para ele. Quando ficar preso, mande-o para mim. Vamos saber se ele diz a verdade.
Devo fazer com que ele fale primeiro — lembrou Demesor.
Isso não será difícil, Zarlt. Traga-o para nós, na sala grande dos telepatas, não se esqueça.
Por uns momentos, Demesor julgou ver nesta exigência uma espécie de ameaça, mas logo depois seus temores se dissiparam, como que soprados por um grande vento. Naturalmente, o moof tinha razão quando fazia questão de ouvir Rhodan. Um bom telepata não podia trazer à luz do dia os mais secretos pensamentos do prisioneiro?
Zarlt Demesor sorria. Começou a antegozar a mui promissora noite que se aproximava.

4



Bell, experimentava a posição correta de seu uniforme.
Será que hoje aparecerão algumas donzelas? — perguntou com interesse contido, procurando esticar seu cabelo eriçado. — Afinal devem existir belas moças em Zalit.
Belezas de olhos vermelhos com cabelos cor de cobre? — Rhodan meneou a cabeça e piscou para Marshall, que estava esperando impaciente na porta. — Suponho que o Zarlt tenha outros cuidados do que pensar nessas coisas. Você vai ter que renunciar à boa companhia das damas.
Puxa... exatamente hoje? Então deixe o cabelo como está. Pode ficar de pé como uma escova. Quem sabe, as mulheres não são mesmo bonitas.
Consolo bem fraco, hein? — murmurou Marshall, entrando nervoso, pé ante pé. — Só queria saber se você não tem outros cuidados, Bell?
Não, não tenho não — confessou Bell, sorrindo.
Rhodan experimentou a carga de seu irradiador de agulhas, antes de pôr a arma em seu bolso traseiro. Depois perguntou a seus dois companheiros:
Tudo pronto? Então vamos indo. Três minutos mais tarde, a escotilha de saída se fechava atrás deles, com um ruído surdo. Sem olhar para trás, subiram no carro do Zarlt, que partiu imediatamente, atravessando o campo de pouso e atingindo a estrada asfaltada. Aí aumentou sensivelmente a velocidade, avançando em direção à silhueta da cidade. Os contornos característicos das construções em forma de funil se destacavam clara e nitidamente contra o fundo de um céu bem iluminado. Só daí a duas horas é que o sol se esconderia.
Já estavam atingindo os subúrbios com seus parques verdejantes. Rhodan sabia que aí havia corredores e compartimentos subterrâneos, onde os revoltosos estavam de prontidão. Bastava que Marshall desse apenas o comando telepático, Betty Toufry o apanharia e o retransmitiria... e a revolução irromperia.
Mas ainda não tinha chegado o momento. Ninguém sabia o que pretendia o Zarlt.
O imponente palácio apareceu. Com a altura de cento e cinqüenta metros, sobressaía a todas as outras construções. Ao esplendor do sol de Voga, já bem inclinado, brilhavam as paredes inclinadas para fora. Rhodan reparou que a guarda habitual no portão de entrada, não tinha sido reforçada. Isto parecia meio suspeito, tendo em vista os acontecimentos do dia anterior. Olhando para o lado, reparou ainda que havia um moof novo no gramado do jardim. Devia ser um substituto, pois o outro tinha sido vítima de algum atentado.
Já estava sentindo o pensamento inquiridor e sugestivo das medusas. O costumeiro pedido de deixar no posto de entrada qualquer tipo de arma. A força de sugestão que se escondia atrás da intimação foi fraca e sem importância. Rhodan ignorou a intimação, do mesmo modo como Bell e Marshall.
O carro parou.
O rapaz bem que podia abrir a porta do carro para a gente — observou Bell em inglês — já que não nos consideram como hóspedes legítimos.
Isto não é costume aqui — explicou-lhe Rhodan, saltando do carro. — Além disso, não é uma recepção oficial, mas uma simples visita.
Se é tão simples assim, saberemos depois — respondeu Bell cheio de desconfiança. — Eu tenho o pressentimento de que...
Não teve tempo de terminar, porque do portal interior emergiram dois zalitas multicoloridos, com fuzis energéticos nos ombros. As armas davam qualquer impressão, menos a de assustar. Coronha e cano estavam enfeitados ricamente com peças de ouro e prata. A correia de tiracolo era de um bordado finíssimo.
Meu Deus! — disse Bell espantado. — Será tudo isto uma opereta em que temos de bancar estadistas?
Marshall conteve o sorriso. Penetrou imediatamente nos pensamentos dos três sentinelas e encontrou apenas impressões superficiais. O primeiro pensava em tudo, menos no seu dever de recepcionar os hóspedes do Zarlt, que lhe eram completamente indiferentes. O outro estava raciocinando com muita atenção como poderia pregar uma peça no irmão de sua esposa que havia descoberto qualquer coisa de sua amante. E... o terceiro, para espanto de Marshall, não pensava absolutamente nada.
Não sobrou mais tempo para fazer novos estudos psicológicos. Os três sentinelas se detiveram na frente deles, bateram os calcanhares e apresentaram as maravilhosas armas. Depois dando meia-volta, se retiraram lentamente em marcha.
Rhodan fez um sinal para Bell e Marshall.
Com passos comedidos, seguiram os batedores.
Um elevador os levou a um andar bem elevado. Aqui foram novamente recebidos por três guardas de opereta. Marshall não teve oportunidade de examiná-los, pois sentiu de repente fortes impulsos que se dirigiam a ele, vindos de diversas direções. Não eram comandos de sugestão e estava certo de que ele era o único a recebê-los. Antes que pudesse ter maior clareza a respeito do que significava aquilo, os impulsos diminuíram e desapareceram. O incidente mal tivera a duração de trinta segundos.
Seguiram o oficial por um corredor comprido e levemente recurvado. Marshall pensava com profundidade o que significavam os impulsos. Estavam sendo pesquisados pelos moofs? Se fosse este o caso, a esta hora os moofs já saberiam quem eram seus adversários.
Mas não sabiam isto já há muito tempo?
Os três sentinelas pararam outra vez e apresentaram armas. Abriu-se uma porta e no fundo havia uma sala pequena, tendo no centro uma mesa lisa. Ali estavam sentadas cinco pessoas. Mais atrás se erguia um estrado emoldurado por cortinas coloridas.
Quatro zalitas se mantiveram sentados. O Zarlt se levantou e foi ao encontro de seus hóspedes, estendendo a mão.
Bem-vindo, Perry Rhodan, o senhor é pontual.
Rhodan pegou a mão, mas não retribuiu o aperto. Bell e Marshall foram cumprimentados do mesmo modo. O primeiro franziu a testa, como se tivesse pegado numa coisa desagradável. Parece que o Zarlt não percebeu nada.
E agora posso apresentar-lhes meus oficiais. Alguns os senhores já conhecem: Hemor e Cenets. Este é Milfor, chefe do armamento. Orbson é o almirante, comandante das patrulhas. E agora, por favor, tomem seus lugares. Eu tenho a honra de lhes oferecer qualquer coisa para comer. Assim se pode conversar melhor.
Rhodan sentou ao centro, tendo à sua direita e esquerda, Marshall e Bell. Bem em frente a ele, sentou-se Demesor, tendo de um lado, Hemor e Milfor e do outro, Cenets e Orbson.
Nesse meio tempo em que eram trocadas amabilidades mais ou menos vazias, Marshall teve sua primeira desilusão.
Concentrou-se em sua missão e queria começar pesquisando os pensamentos do subconsciente dos zalitas. Naturalmente iria começar com o Zarlt Demesor.
Deu com o bloqueio de defesa de um moof. E não podia ser outra coisa, pois ninguém não telepata poderia por si mesmo, a não ser depois de muitos anos de treinamento, conseguir um autobloqueio deste tipo. Fora disso, ainda era necessário um certo dom de sugestão. E os moofs possuíam as duas coisas. Portanto, já estavam dentro dos fatos.
Tentou a mesma coisa com os quatro oficiais e teve de constatar que havia o mesmo fenômeno com eles. Era-lhe, pois, impossível ler o pensamento dos cinco zalitas sentados à sua frente. Era uma grande vantagem para eles, com a qual ninguém havia contado. Muito menos Marshall.
Tinha que prevenir Rhodan, que também era um telepata fraco com faculdades limitadas.
Não, foram apenas alguns acidentes — dizia o Zarlt no momento, respondendo assim uma pergunta de Rhodan sobre as razões da intranqüilidade do dia anterior. — Desordem. Isto sempre acontece. Os culpados já foram punidos.
Rhodan sorriu afavelmente. Estava recebendo no mesmo instante a comunicação telepática de Marshall. Não apenas os pensamentos do Zarlt e de seus vassalos permaneciam escondidos, como também havia o perigo de que os moofs lessem seus pensamentos, de Rhodan e de seus companheiros, e começassem a agir. O único meio para impedir isto era um bloqueio de proteção.
Sem que Demesor e seus oficiais o notassem, começou a batalha entre os telepatas. Rhodan e Bell não podiam quase fazer outra coisa do que protegerem seus pensamentos. Marshall, pelo contrário, tentava romper o bloqueio do Zarlt e chegar até o ponto de partida das irradiações, o moof.
Criados traziam travessas com os frutos de Zalit e também bebidas de diversas espécies. Rhodan preferiu suco de frutas, o que não impediu Bell de se dedicar ao vinho vigoroso. Com muito prazer, olhava para as moças que vinham para reencher os copos.
As jovens zalitas eram realmente bonitas. O Zarlt tinha bom gosto, até mesmo Bell, conhecedor do assunto, tinha que conceder isto. As graciosas zalitas circulavam de um lado para outro, impedindo sempre que os copos ficassem vazios. Bell bebeu mais para apreciar os belos movimentos das jovens, cuja simetria começou a fasciná-lo.
Está gostando delas? — perguntou o Zarlt com um sorriso. E quando Bell, encantado, fez que sim, ele acrescentou: — O senhor pode servir-se delas, mesmo fora da mesa.
Bell olhou espantado para o alto.
Ó, não... não é isso que estou querendo dizer — disse Demesor sorrindo. — Quero dizer que o senhor pode dançar com elas.
Sabe ler pensamentos? — deixou Bell escapar de repente.
Um leve rubor de acanhamento tomou conta de seu rosto.
Rhodan tentou ajudá-lo naquele apuro:
Sua frase foi um pouco ambígua, Zarlt — disse Rhodan num leve tom de censura amigável, que ninguém levou a mal. — Mas ninguém terá nada a objetar contra uma bela dança.
Conversemos primeiro sobre os assuntos que nos preocupam, isto é, sobre nossa estratégia — disse Demesor, meio forçado. — Estou me referindo à nossa ação comum contra Árcon.
Rhodan franziu a testa.
Contra Árcon? — repetiu admirado.
Quero dizer naturalmente contra o cérebro robotizado — disse se corrigindo. — Exatamente pelo fato de que amamos o Império, queremos afastar a hegemonia de um robô. O senhor deve compreender isto, embora seja originário de um outro sistema, talvez mesmo de uma outra parte da Galáxia.
Muito inteligente este pessoal”, pensou Rhodan. “Mais sem nenhuma malícia, portanto, devo pensar na Terra e trair minha posição. Os moofs saberão então com quem estão lidando, e muito mais ainda os seus mandantes. Talvez Demesor mesmo não saiba por que diz isto. Os moofs o dominam.
Sim, meu sistema não pertence a Árcon, por esta razão, o destino do Império me poderia ser indiferente. Infelizmente, porém, fui envolvido no conflito, o cérebro me persegue e necessito de uma certa proteção, que o senhor por amizade me proporcionou. Tenho que lhe ser grato.
Milfor se inclinou para frente e fitou Rhodan friamente.
Agora é o momento em que o senhor pode provar sua gratidão.
Este avanço direto por certo foi desagradável ao Zarlt, como se podia ver claramente em sua fisionomia. Tentou entrar como intermediário:
Milfor não foi feliz no seu modo de falar, Rhodan. É claro que eu também conto com o fato de que o senhor nos haverá de ajudar em nosso plano. Aliás, o senhor já nos prometeu. Trata-se principalmente, como o senhor sabe, do anel de proteção de Árcon. Parece-nos impossível rompê-lo. O senhor o conseguiu.

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