— Isto
não passa de um absurdo. Os moofs nunca tiveram a idéia de fazer
política. São simples e sem orgulho. Disse há pouco que são
telepatas e sugestores, mas...
— Ninguém
afirmou que o plano parte deles. Não são outra coisa do que os
“peões”
neste jogo de xadrez das Galáxias. Há alguém maior escondido atrás
deles. Este alguém utiliza os moofs para obter influência sobre os
zalitas, com cujo auxílio, por sua vez, pretende conquistar o
Império.
— E quem
é este desconhecido?
— Isso,
regente, eu não sei — Rhodan hesitou um pouco: — Ninguém sabe
ao certo se ele realmente existe, mas seus propósitos em relação
aos moofs parecem confirmar sua existência. Minha gente vem lutando
há semanas contra os moofs. Fazem isto para conservação do
Império.
— Que
interesse o senhor tem no Império?
Thora que
até então estivera calada, deu um pulo à frente.
— Os
terranos e nós somos aliados, regente. Nós os ajudamos quando os
reformadores individuais e mais tarde os saltadores os atacaram. Por
que não haverão de nos ajudar, quando se torna necessário?
Rhodan
intimamente estava admirado da atitude de Thora. Esta jovem arcônida
estava cada vez mais bela. Não poderia ter desejado um defensor
melhor.
— Os
saltadores...? — O cérebro robotizado fez mais uma vez uma pausa.
— Eles não têm boas intenções para com o Império. Teoricamente
é possível que estejam por detrás dos moofs e dos planos do Zarlt.
Rhodan
estava como se densos véus tivessem caído de seus olhos.
Os
saltadores... Os comerciantes da Galáxia. Combinaria muito bem com o
caráter deles, mandar outros na frente para apanharem as castanhas
do fogo. Por outro lado, faltava aos saltadores o sentimento de
solidariedade, sem o que um tal empreendimento haveria de fracassar.
— Quem
sabe, são os saltadores mesmo — concluiu Rhodan. — Um dia
saberemos de tudo. Regente, eu já o informei de tudo. Gostaria agora
de lhe fazer uma proposta.
— Pois
não, estou ouvindo.
Rhodan
respirou profundamente e começou:
— O
senhor deixa comigo a Titan e suspende qualquer ação punitiva. Eu
me obrigo a restabelecer a ordem em Zalit e a instalar o legítimo
Zarlt.
— Dê-me
um pouco de tempo — pediu o regente.
A imagem
permaneceu na tela e no alto-falante não se ouvia mais aquele
zumbido regular. Numa distância de exatamente três anos-luz, bancos
positrônicos de dados começaram a trabalhar. Retransmitiam-se
informações recém-obtidas e comparavam-se os resultados. O cérebro
robotizado tomou sua decisão. O resultado veio quinze segundos após
o pedido de tempo.
— Estou
de acordo, Perry Rhodan da Terra, a nave Titan lhe ficará emprestada
durante todo o tempo em que estiver em atividade para o Império.
Qualquer ação punitiva será também sustada enquanto o senhor
estiver comigo. No momento em que Demesor for punido e quem estiver
atrás dos moofs for desmascarado, a Titan será sua para sempre.
Aceita?
— Aceito,
regente. Thora e Crest poderão voltar para Árcon?
— Não,
eu não quero.
Foi a voz
da jovem arcônida. Rhodan olhou para ela admirado. Antes que pudesse
dizer alguma coisa, o cérebro o interrompeu:
— Thora
e Crest podem voltar a qualquer momento para Árcon, mas eu desejaria
que eles permanecessem na Titan e, aliás, em posição de destaque.
— Confirmado
— disse Rhodan brevemente. Deu um olhar para Thora e perguntou: —
Mais alguma pergunta?
— Sim.
Rhodan
ficou aguardando. Não podia imaginar o que o cérebro ainda queria
saber dele. Não foi portanto casual sua grande admiração.
— O
senhor é descendente dos velhos arcônidas?
Por uns
momentos se sentiu um pouco atrapalhado. Podia esperar por tudo,
menos por esta pergunta, que o próprio cérebro podia responder
melhor que ele.
— Não
sabemos se os terranos descendem dos arcônidas — respondeu. —
Isto devia estar propriamente anotado no arquivo central de Árcon.
— Não
sei que tipo de mundo é a Terra e não conheço sua posição.
“E
não saberá tão cedo”,
pensava Rhodan, suspeitando de repente das intenções do regente.
Parece que queria saber a posição da Terra.
— De
qualquer maneira, a Terra não pertence ao Império, regente. Eu não
sei até que ponto suas naves colonizadoras chegaram outrora, mas
talvez uma delas foi capturada em nosso mundo. Um dia saberemos
responder a esta pergunta.
— Os
terranos e os arcônidas devem ter, de qualquer maneira uma origem
comum. A teoria de um desenvolvimento paralelo não tem nenhuma
probabilidade e seria um acaso grande demais que tivessem surgido,
independente uma da outra, duas inteligências com o mesmo grau de
evolução. Mas, deixemos isto de lado.
Pensativo,
Rhodan contemplava a refulgente semi-esfera.
— De
qualquer maneira, regente, o senhor sabe mais do que o que está
falando.
— Que
quer dizer com isto?
Rhodan
sorriu, olhando tranqüilamente para Thora.
— O
senhor calculou a distância de minha posição com uma diferença de
apenas 2,75% anos-luz de meu cálculo. Como é que o senhor sabe qual
é a duração de um ano em meu mundo?
O cérebro
respondeu sem hesitar:
— Consegui
obter mensagens pelo rádio para poder chegar à conclusão de suas
escalas de cálculo. Com isto não posso conhecer de maneira alguma a
posição de seu mundo de origem. Um dia o senhor haverá de me
comunicar esta posição.
— É
possível — disse Rhodan. — Uma última pergunta: Posso, sempre
que for necessário, entrar em contato com o senhor?
— A
qualquer momento, nesta freqüência. Eu lhe agradeço, Perry Rhodan.
Passado um
momento, a tela escureceu.
Rhodan
desligou os aparelhos. Sentou-se lentamente na primeira poltrona,
mostrando na testa uma ruga vertical.
— O
regente do Império... me agradecendo — murmurou hesitante. —
Tudo isto será verdade, Crest e Thora? Podemos confiar nas palavras
do cérebro robotizado? Está sendo sincero conosco? Há algum truque
atrás de tudo isto?
Thora se
levantou e pondo a mão no ombro de Perry:
— Não,
Perry, não acredito que haja truque. Um cérebro positrônico não
pode se ocupar com mentiras e truques. Tem consciência do seu valor
e crê, portanto em suas faculdades, que com mentira e astúcia
somente se enfraqueceriam. Creio que o regente do Império o
reconheceu sinceramente como um aliado. Com isto, já demos o
primeiro passo para reconquistar o Império.
Rhodan
ficou olhando para ela.
— Não
contra a vontade do regente. Quando, um dia, o cérebro reconhecer
que homens ou arcônidas estão novamente em condições de tomar em
suas mãos o poder, não haverá de se opor a esta idéia. Haverá de
nos ajudar.
— Que o
destino lhe dê razão, Perry — disse Crest, calmo. — Que vamos
fazer então agora, voltar para Zalit?
— Sim,
claro. Estão esperando por nós lá. Voltemos de imediato.
— Possivelmente
— chiou Gucky lá do seu canto — o Zarlt nos prepara uma recepção
solene.
— Não
terá muito tempo para isto — respondeu Rhodan, e trocou um olhar
confiante com Tiff, que regulava as coordenadas para o salto de
volta. — Por que será que existe em Zalit um movimento
clandestino? — olhou para o relógio. — Exatamente daqui a cinco
horas, o diabo estará solto no quarto planeta de Voga. O Zarlt vai
ter que empregar toda a sua potência bélica, para deter as pessoas
que em toda parte estão dinamitando as instalações do exército e
da frota espacial. E no meio desta confusão, desceremos na borda do
espaçoporto, despercebidos e sem nenhuma amolação.
Gucky
inclinou a cabeça, deixando transparecer nos olhos a certeza da
vitória.
— E
então, vamos ajudar os revoltosos? Quem sabe uma pancadaria com a
polícia secreta?
Rhodan
balançou a cabeça e disse, lamentando:
— Sinto
muito, Gucky, mas não vai haver pancadaria. Somos hóspedes do
Zarlt. Em caso de necessidade haveremos até de ajudá-lo a debelar a
insurreição.
— Ah,
não acredito — disse ele ofegante. Imediatamente procurou ler o
pensamento de Rhodan, mas encontrou uma barragem de defesa.
Teve então
de fazer outra pergunta:
— Amigos
do Zarlt? Não estou compreendendo.
— O
necessário — disse-lhe Rhodan — é que o Zarlt não perceba nada
disto. É o que me interessa. Tiff, a que distância estamos, mais ou
menos?
— Transição
em dois minutos. A quatro horas-luz de Zalit, saímos do hiperespaço
e com maior velocidade chegaremos na hora marcada.
Rhodan
confirmou com a cabeça, sem dizer nada. Estava bastante ocupado com
Gucky, observando sua fisionomia de zangado.
Os
ratos-castores se tornam cômicos quando estão zangados...
3
André
Noir levantou-se cansado, enxugando o suor da testa. Olhou para os
olhos interrogadores de John Marshall.
— Então?
— Bloqueio
hipnótico pesado. Por certo provocado pelos moofs. Pode ter
acontecido também através de meios puramente técnicos. Não sei
até que ponto os zalitas chegaram neste assunto. De qualquer maneira
vou conseguir neutralizar o bloqueio. Em dez minutos, Rogal estará
cem por cento.
— Ótimo
— alegrou-se Marshall. — Poderei entrementes executar a ordem de
Rhodan e mobilizar os revoltosos. Terão que, num determinado
momento, armar uns quebra-cabeças para o Zarlt.
Deixou o
posto de saúde instalado pelo Dr. Haggard, ficando ali o hipno André
Noir com seu paciente.
Quando
voltou, daí a duas horas, com Ras Tschubai, encontrou Rogal já na
sala. O zalita estava bem recuperado e olhou para ele com olhos
claros e abertos. Parecia que estava livre de um grande peso.
— O
senhor é o telepata Marshall, sim, eu o estou reconhecendo.
Encontro-me na nave de Rhodan, como me disseram. Que aconteceu com
meus amigos? Será que...?
— Não,
Rogal, está tudo em ordem. Alguns de seus companheiros escaparam. Os
soldados do Zarlt foram assassinados quando atingiam o fim do caminho
secreto. Que aconteceu nos aposentos do Zarlt? O semblante de Rogal
se anuviou:
— Eu
fracassei — disse se acusando. — Cheguei despercebido até o
quarto do Zarlt e o encontrei dormindo em sua cama. Dei um tiro nele,
e tudo parecia como havíamos combinado. Aí apareceram os
guarda-costas e me prenderam. E uns dez minutos depois... estava em
frente ao Zarlt. Estava vivo, embora eu o tivesse visto morrer.
Marshall
lançou um olhar de interrogação para Noir, mas o hipno sorriu
resignado.
Rogal
balançou a cabeça:
— Não,
Marshall, não estou louco. Foi exatamente assim. Tinha assassinado o
Zarlt e ele reviveu. Vi seu rosto derreter, mas depois estava ele
ali: são e sem cicatrizes. Aí é que descobri a verdade. O Zarlt
tinha um sósia, um robô feito à sua semelhança. No quarto de
dormir do velho Zarlt, repousava o robô. Acho que contavam com a
possibilidade de um caminho secreto e não queriam correr o risco. Eu
matei o robô, o que naturalmente provocou imediatamente o alarma.
Caí na esparrela do Zarlt. Foi tudo tão depressa que nem tive tempo
de me matar, como era meu dever.
— Estamos
muito felizes com isto — disse Marshall, sorrindo e tranqüilizando
o zalita. — Seu sacrifício seria inútil. Você não traiu nem
delatou nada. E mesmo se isto acontecesse, seus amigos já estavam
preparados. De qualquer maneira, sabemos agora que o Zarlt está
precavido, ou esteve. Sua ação valeu a pena, devido a esta
revelação. Acredite-me, as horas do ditador estão contadas, pois
esperamos apenas que ele se coloque abertamente contra nós. Aí,
podemos agir.
— E
quando será isto?
— No
mais tardar, amanhã. Rhodan está no momento no espaço, em Árcon,
para combinar com o cérebro robotizado. Esperamos que traga bons
resultados.
Rogal riu
de repente. Como que um grande peso havia caído de seu coração.
— Posso
voltar para meus amigos?
— Naturalmente,
nós o levamos para lá. Apenas ainda uma pergunta: que fez o Zarlt
com você, depois de o prender?
— Mandou-me
levar para um porão onde deveria ser ouvido. Mas, de súbito mudou
suas ordens. Fui levado para um local onde havia doze recipientes com
moofs. Deste momento em diante falta-me qualquer recordação. Não
sei o que aconteceu.
— Então
os moofs. Diga uma coisa, Rogal, você sabe o que são propriamente
os moofs?
Rogal fez
sinal afirmativo.
— Qualquer
criança em Zalit sabe isto. Servem à camada dirigente, a fim de
detectarem as mentiras, porque são telepatas. Ninguém pode pensar,
sem ser descoberto pelos espiões moofs. São um grande perigo para a
liberdade do indivíduo.
— Você
sabia disso? — admirou-se Marshall, sabendo então que o poder
sugestivo dos moofs era ignorado. Os zalitas só não suspeitavam de
que foram os moofs propriamente os iniciadores da planejada revolta
contra o império. — Então sua primeira missão não será
difícil: os moofs têm que ser destruídos.
— Já
começaram a ser destruídos — raciocinou Rogal. — Seus Mutantes
mataram quase todos que havia em Zalit, mas diariamente chegam novas
remessas deles.
— Matem
os moofs — repetiu Marshall. — Eles são a desgraça de Zalit.
Quem sabe os próprios moofs não têm culpa, mas não podemos
constatar isto, pois estão sob coação. Eles não contam isto, nem
mesmo quando são ameaçados de morte. Destruam os recipientes
pressurizados, que eles morrerão. E agora nós o levamos para seus
amigos. Aqui está Ras Tschubai que vai cuidar disso. Ele sabe onde é
agora o quartel-general. Passe bem, Rogal, nós nos encontraremos em
breve.
O africano
tocou de leve nos ombros de Rogal e lhe explicou amigavelmente, em
poucas palavras, como seria o transporte. Marshall sorriu mais uma
vez para os dois e deixou a sala.
Foi ao
encontro de Bell, na Central.
Bell
estava horrivelmente entediado, nada lhe era mais desagradável do
que ficar esperando. Uma parte dos mutantes estava a caminho para
manter contato com os revoltosos e lhes mostrar como tornar os moofs
inofensivos. As notícias chegadas até então davam conta de que as
conversações estavam em ótimo nível.
Apesar de
tudo, o tempo trabalhava contra Rhodan e seus amigos. O Zarlt estava
disposto, mesmo sem a influência sugestiva dos moofs, a destruir o
cérebro robotizado de Árcon, assim que houvesse oportunidade.
Rhodan não lhe contaria, por sua própria vontade, como havia
rompido a barreira de proteção de Árcon. Mas havia outros meios
para descobrir isto.
*
* *
O Zarlt
mandou reunir seus homens de confiança. Entre eles, ocupava o
primeiro lugar um oficial de nome Hemor, que Rhodan já conhecia
pessoalmente. Depois vinha Milfor, o chefe de armas, um zalita
ambicioso que contava com uma vaga possibilidade de chegar a ser
Zarlt, se acontecesse qualquer coisa a Demesor. Finalmente ainda eram
dignos de menção Cenets e Orbson, capangas do ditador Zarlt.
Os cinco
homens estavam sentados num aposento isolado do palácio, no último
andar, de onde se tinha uma vista panorâmica sobre toda a região do
espaçoporto. O movimento de naves de todos os tipos era enorme, pois
o Zarlt havia convocado para Tagnor a maior parte de sua frota. De
maneira alguma, ele iria permitir que Rhodan fugisse com a gigantesca
nave.
Milfor
olhou para Demesor com desconfiança.
— Por
que nos convocou? Será que não conhecemos nossos deveres?
— Espero
que sim, Milfor — disse o Zarlt. — Mas resolvi mudar de tática.
Até quando vamos esperar que este Rhodan resolva nos contar seus
segredos? Caso os senhores não se lembrem, já estamos esperando há
muitas semanas. Devemos deixar passar mais semanas, sem fazer nada?
Não, devemos agir.
Milfor
queria dizer alguma coisa, mas preferiu ficar calado.
Cenets
pediu a palavra:
— Agir?
Que entende você por agir? Devemos atacar Árcon, sem sabermos qual
é a força do cérebro robotizado? Conhecemos a espessura e a
natureza da barreira de segurança? Pode ela ser vencida por um salto
através do hiperespaço?
— Não
sabemos ainda — concedeu o Zarlt. — Mas conseguiremos saber em
breve. Rhodan haverá de nos dizer.
— Eu
tenho receio — disse Hemor — que tenhamos que esperar muito por
isto. Ele, certamente, não nutre a menor intenção de nos contar
seus segredos.
— Por
certo ele não tem esta intenção — continuou Demesor. — Mas
podemos obrigá-lo a isto, pela força.
Milfor se
aproximou. Seus olhos brilhavam. Pela força, esta era a linguagem
que ele entendia. Riu friamente.
— Assim
você me agrada mais, Demesor. Pela força, esta é a única
possibilidade. Mas como pretende você pegar Rhodan com nossa força?
Ele é muito astuto e tem amigos maravilhosamente dotados. Nem mesmo
os moofs conseguem ler seus pensamentos.
— Nós o
convidamos para uma reunião — propôs Demesor. — Os robôs o
dominarão, já que os zalitas não o conseguem. Sob as abóbadas do
palácio, aprenderá a falar. Tenho a garantia dos meus cientistas.
— E se
ele não vier sozinho? — perguntou o cauteloso Cenets.
O Zarlt
teve um sorriso de menosprezo.
— Os
robôs darão conta até de dez Rhodans, Cenets, não se preocupe. E
então, quando soubermos como romper a barreira do sistema de Árcon,
começaremos a agir. Os dias de governo de robô estão contados.
Viva o Império zalita de Árcon.
— Viva o
Império Zalita — exclamaram os quatro homens, apoiando a solução
do Zarlt.
Soou como
uma conspiração e realmente era uma conspiração.
*
* *
Os amigos
do almirante Zernif partiram na hora combinada.
Em Tagnor
e em sua redondeza, foram pelos ares importantes edifícios do
governo e da frota espacial que dominava tudo no país. Até uma das
maiores espaçonaves explodiu em pleno espaçoporto. Por sorte, a
tripulação estava ocupada com serviços externos, de sorte que
apenas dois homens morreram.
Ao mesmo
tempo, foram atacadas as instalações policiais, onde morreram
muitos capachos de Demesor. Os civis, na cidade, olhavam a tudo com
indiferença e não tinham a menor vontade de ajudar os policiais.
No
interior, fábricas iam pelos ares e grandes depósitos de munição
foram destruídos. Somente agora é que se podia ver como era
perfeita a organização dos revoltosos. Um ataque fulminante deste
tipo jamais poderia ter sido preparado em poucas horas. Já deviam
estar planejando há muito tempo. A iniciativa de Rhodan apenas
apressara a marcha dos acontecimentos.
O Zarlt
deu o alarma geral.
Pequenas
unidades da frota espacial foram retiradas de Tagnor, a fim de
voltarem a seus portos de origem. Grandes carros transportavam as
tropas para lugares afastados, para abafarem qualquer tentativa de
rebelião.
Mas onde
se quisesse intervir, já era tarde. Os sabotadores já tinham
escapado e não havia ninguém que dissesse tê-los visto ou quisesse
dizer alguma coisa sobre eles.
E no meio
daquele caos, ninguém reparou que, à margem do gigantesco
espaçoporto, uma pequena nave esférica desceu do céu em pleno
crepúsculo, desaparecendo na escotilha aberta da Ganymed, com mais
de oitocentos metros de altura.
A
aterrissagem foi perfeita e imperceptível. No mesmo instante
cessaram os atos de sabotagem em Zalit.
De repente
estava tudo calmo, como se nunca tivesse havido uma rebelião em
Zalit.
*
* *
A noite
passou sem novidades.
Pelas oito
horas da manhã do dia seguinte, um carro se aproxima da Titan. Parou
diante da escotilha de entrada. Saltou um oficial, olhando muito para
cima, na esperança de que alguém o visse.
Por sorte,
assim aconteceu. O sargento Harnahan, por mero acaso, ligou o
videofone da escotilha e viu lá embaixo o multicolorido uniforme do
zalita. No primeiro instante julgou que o objeto colorido fosse um
gigantesco papagaio, mas depois reconheceu seu erro. Os oficiais de
Zalit eram todos assim, vestiam-se como se estivessem saindo de um
baile de máscaras.
Encolheu
os ombros, num sinal de indiferença. Por ele, os zalitas se podiam
fantasiar da cabeça aos pés, não era de sua conta.
Mas o que
estava procurando aquele sujeito? Ficou refletindo um pouco se havia
alguma proibição de abrir a escotilha. Não se lembrou de nenhuma
proibição deste tipo. De qualquer maneira, a entrada estava a mais
de dez metros acima do chão de cimento do espaçoporto. Se o rapaz
lá embaixo não fosse um saltador olímpico, não havia nenhum
perigo.
Harnahan
fez com que a escotilha escorregasse um pouco para o lado. Abriu-se
então uma fenda, suficientemente larga para enfiar a cabeça.
— Proibido
mendigar e andar à toa por aí — gritou ele lá para baixo.
O oficial
do Zarlt tremeu de medo. Era Hemor, que não contava com esta
recepção descortês. Sabia que o pessoal de Rhodan falava o
intercosmo.
— Venho
a mando do Zarlt — respondeu, sem dar atenção à descabida
admoestação. — Preciso falar com Rhodan.
— O
senhor que dizer senhor Rhodan, não é? — disse Harnahan, que
fazia questão de dar uma lição de boas maneiras. — Espere um
pouco, vou perguntar a ele se pode atendê-lo.
E antes
que Hemor pudesse responder qualquer coisa, a escotilha se fechou. O
zalita pulou de raiva, mas se dominou. O Zarlt tinha ordenado
serenidade e paciência. Mais tarde sobraria tempo para se vingar da
altivez de Rhodan. Assim, ficou Hemor abandonado sozinho e esperando.
Harnahan não teve pressa. Usando um grande número de elevadores,
chegou finalmente à Central, e chamou daí Rhodan, usando o
intercomunicador. Rhodan ainda estava em sua cabina, depois de ter
gasto mais da metade da noite discutindo com os mutantes o planejado
ataque.
— Quem
quer falar comigo? — perguntou admirado. — Um oficial?
— Afirmou
que veio a mando do Zarlt — confirmou Harnahan com o rosto virado
para o videofone. — Parece que é urgente.
Rhodan
pulou da cama.
— Diga-lhe
que espere um pouco. Não permita entrar na nave. Eu desço até ele.
— Sozinho?
— Naturalmente,
ou você pensa que eu tenho medo de um zalita? Você pode ficar
olhando da escotilha.
Harnahan
desligou o intercomunicador e voltou para seu posto. O colorido
oficial ainda estava esperando no mesmo lugar.
— Você,
aí embaixo — gritou Harnahan abrindo a escotilha toda, para ficar
sentado no parapeito. Suas pernas ficaram balançando. — Espere um
pouco, Rhodan vem logo.
Foi um
pequeno exagero, pois Rhodan não teve nenhuma pressa. Finalmente
acabou de levantar, foi tomar seu café calmamente, depois de ter se
certificado quem é que queria visitá-lo. Conhecia Hemor. Foi o
oficial que o descobriu nos confins do sistema e o conduziu para
Zalit. Um íntimo confidente do Zarlt. Seria talvez melhor levar
consigo Marshall, que podia controlar os pensamentos de Hemor?
Mas
desistiu de levá-lo. De mais a mais, as intenções do Zarlt lhe
eram muito bem conhecidas. E Marshall necessitava de repouso depois
daquela noite do ataque.
Quando
chegou à escotilha, e por detrás tocou levemente no ombro de
Harnahan, o sargento quase caiu no abismo, de tanto medo. Rhodan o
amparou.
— Você
está tão assustado? — admirou-se Rhodan.
Harnahan
se compôs imediatamente.
— Não,
mas a visão do papagaio lá embaixo me deu sono. Ele tem uma cara
tão chata.
Rhodan
sorriu.
— Desça
a rampa, eu vou dar uma olhada lá no passarinho.
Hemor
estava esperando pacientemente. Até que enfim, sua paciência foi
recompensada. Rhodan chegou para dar o primeiro passo na armadilha
que lhe haviam preparado.
Hemor foi
de encontro ao odiado adversário, que ameaçava estragar todos os
planos.
— O
senhor não precisa se desculpar — começou ele, cortês e
sorridente. — Também o Zarlt nem sempre tem tempo para visitas
inesperadas — isto era uma indireta e talvez mesmo uma evidente
ameaça. — Ele teria grande honra de tê-lo hoje à noite como seu
hóspede. Não é nenhuma festa. É uma discussão da situação.
Rhodan não
escondeu a admiração.
— Discussão
da situação? Que tenho eu a ver com a situação em Zalit?
Hemor
cintilava ao sol do meio-dia.
— Muito,
suponho eu. Já que o senhor não quer desvendar ao Zarlt seus
segredos, nós atacaremos o cérebro robotizado sem o seu auxílio. O
Zarlt gostaria de informá-lo de suas intenções e depois pedir-lhe
que abandonasse Zalit. Mas queria dizer isto pessoalmente, e eu não
posso antecipá-lo.
Era tudo
muito bonito e tudo muito bem feito. Era para despertar a curiosidade
de Rhodan. E parece que foi bem sucedido.
— Então
vocês querem finalmente atacar Árcon... E eu devo abandonar Zalit?
O cérebro robotizado vai me perseguir.
— Ele
terá muito que fazer conosco — acentuou Hemor muito
autoconsciente. — Somos da opinião de que ele não vai mais se
preocupar com os senhores.
Estaria
Hemor falando a verdade? Rhodan já estava arrependido de ter vindo
sem Marshall. Não podia também recusar o convite do Zarlt, causaria
suspeita. Devia fazer tudo, como se confiasse nele e esperasse ser
seu aliado. Resolveu então mudar de assunto.
— Que
aconteceu ontem? Observamos algumas explosões na cidade e uma
intensa atividade no espaçoporto. Houve alguma coisa ruim?
— Alguns
acidentes, nada mais. O Zarlt vai informá-lo de tudo. Posso avisá-lo
de que o senhor irá?
— Haverei
de comparecer, levando comigo alguns dos meus conselheiros.
— Duas
horas antes do pôr do sol — confirmou Hemor, dirigindo-se para o
carro. Sem virar mais uma vez para trás, entrou no carro e fez um
gesto para o motorista. O veículo se pôs em movimento e passando
pela borda ao aeroporto, entrou na estrada asfaltada que levava para
a cidade.
O carro
que estava permanentemente à disposição de Rhodan, estava ainda no
mesmo lugar. Hoje à noite ele o levaria ao Zarlt.
Rhodan, de
repente, começou a ter dúvidas se era intenção deles que ele
voltasse novamente com o carro para a Titan.
*
* *
O dia
passou tranqüilo. Ras Tschubai estava a caminho com Tama Yokida,
desativando todos os moofs que encontrava. John Marshall, juntamente
com Zernif e o teleportador Tako Kakuta estavam percorrendo todos os
esconderijos dos revoltosos para preparar a rebelião decisiva contra
o Zarlt. Os comandos, daí em diante, estavam todos de prontidão. A
um simples aviso, começariam a agir. Cada grupo estava equipado com
um radiorreceptor, que lhes haveria de dar o sinal para iniciar o
movimento. Zernif voltou com Marshall para a Titan. Iria comandar a
ação do couraçado.
Três
horas antes do pôr do sol, Rhodan mantinha uma conversa com os
mutantes na sala. Estavam ainda presentes os dois arcônidas, Bell e
o tenente Tifflor, como homem de ligação com a Ganymed.
— O
Zarlt me convidou para uma conversa. Bell e John Marshall me
acompanharão. Nossos armamentos serão os irradiadores de agulha.
Estou farejando uma traição. Por isso, o corpo dos mutantes fica de
prontidão especial. O elemento de ligação com John Marshall é
Betty Toufry. Preste atenção, Betty, você deve permanecer
constantemente em contato telepático com Marshall, entendido? —
esperou até que a jovem, ainda muita nova, telepata e telecineta,
tivesse feito um sinal, confirmando. Depois continuou: — Thora
assume o comando da Titan. A qualquer sinal sério de ataque,
levantar vôo. Perfeitamente, Thora, eu disse: levantar vôo. E
aliás, transposição para dois anos-luz, para um ponto cujas
coordenadas estão na mesa de navegação. Comandante Freyt será
instruído por Tiff. A Titan e a Ganymed não podem ficar expostas a
nenhum perigo, embora eu não creia que alguém possa romper a camada
de proteção. Mas acima de tudo, pretendo evitar derramamento inútil
de sangue.
Gucky, que
todo enrolado, estava aparentemente alheio à palestra, esticou-se
todo, atingindo mais de um metro de comprimento. Nos seus olhos
castanhos e inteligentes havia uma censura íntima.
— E nós
— perguntou ele — devemos desaparecer com a Titan enquanto aqui
se desenrola um verdadeiro espetáculo?
Sorrindo,
Rhodan balançou a cabeça.
— Quem é
que disse isto? Antes que a Titan parta, os teleportadores levarão
todos os membros do corpo de mutantes para os esconderijos preparados
pelos revoltosos. Zernif também irá junto. As operações contra o
Zarlt começam então imediatamente. Está tudo acertado. Só a hora
exata é que tem de ser marcada ainda. E quem vai marcar esta hora é
o Zarlt.
Gucky
respirou aliviado.
— E eu
já estava pensando que nós íamos dormir, enquanto você agüentaria
tudo sozinho aqui em Zalit.
Rhodan,
subitamente, parou de sorrir.
— Tenho
o pressentimento — disse ele — de que sozinho não daria conta,
Gucky. Hoje à noite poderia haver uma decisão.
*
* *
O ser
esquisito era redondo, tinha o diâmetro de um metro, e mais ou menos
a mesma altura. Jazia imóvel dentro de um recipiente pressurizado de
vidro, que continha uma pesada atmosfera de metano, sem a qual os
moofs não podiam existir.
O
recipiente estava num aposento fechado do palácio, não longe da
sala em que se realizaria hoje à noite a conversa com Rhodan.
Como o
fazia diariamente, o moof sondava os pensamentos de todos os zalitas
que estavam no palácio. Não havia nenhum traidor entre eles, como
constatava rapidamente. Depois, porém, se concentrou todo no Zarlt e
deu o quadro de seus pensamentos:
— Zarlt
Demesor, quais são suas intenções hoje à noite?
Demesor
estava em seus aposentos particulares, trocando de roupa, quando viu
a pergunta, que se lhe apresentava como algo corpóreo diante dos
olhos. Sabia que um dos moofs estava tentando contato com ele. Eram
realmente servidores leais e de confiança.
— Convidei
Rhodan. Você vai vigiar seus pensamentos e me avisar se ele planeja
alguma traição.
O Zarlt
sabia que o moof o entendia. A confirmação veio logo.
— Rhodan
é um inimigo de Zalit. Deve ser assassinado. Nós o ajudaremos nesta
tarefa, mas você deve ter muito cuidado, pois ele tem colegas, que
são telepatas tão bons como nós, e lêem pensamentos. Eu vou dar
um jeito de que você e todos que tomam parte na reunião recebam um
bloqueio de proteção.
Demesor
viu confirmadas suas suspeitas. Rhodan também tinha telepatas. Ainda
bem que o moof o havia prevenido.
— Obrigado
— disse ele bem alto. — Tinha esquecido isto. Será que Rhodan
sabe o que o espera?
— Ele
ficará sem suspeitar de nada, até que você tenha agido, e então
será tarde para ele. Quando ficar preso, mande-o para mim. Vamos
saber se ele diz a verdade.
— Devo
fazer com que ele fale primeiro — lembrou Demesor.
— Isso
não será difícil, Zarlt. Traga-o para nós, na sala grande dos
telepatas, não se esqueça.
Por uns
momentos, Demesor julgou ver nesta exigência uma espécie de ameaça,
mas logo depois seus temores se dissiparam, como que soprados por um
grande vento. Naturalmente, o moof tinha razão quando fazia questão
de ouvir Rhodan. Um bom telepata não podia trazer à luz do dia os
mais secretos pensamentos do prisioneiro?
Zarlt
Demesor sorria. Começou a antegozar a mui promissora noite que se
aproximava.
4
Bell,
experimentava a posição correta de seu uniforme.
— Será
que hoje aparecerão algumas donzelas? — perguntou com interesse
contido, procurando esticar seu cabelo eriçado. — Afinal devem
existir belas moças em Zalit.
— Belezas
de olhos vermelhos com cabelos cor de cobre? — Rhodan meneou a
cabeça e piscou para Marshall, que estava esperando impaciente na
porta. — Suponho que o Zarlt tenha outros cuidados do que pensar
nessas coisas. Você vai ter que renunciar à boa companhia das
damas.
— Puxa...
exatamente hoje? Então deixe o cabelo como está. Pode ficar de pé
como uma escova. Quem sabe, as mulheres não são mesmo bonitas.
— Consolo
bem fraco, hein? — murmurou Marshall, entrando nervoso, pé ante
pé. — Só queria saber se você não tem outros cuidados, Bell?
— Não,
não tenho não — confessou Bell, sorrindo.
Rhodan
experimentou a carga de seu irradiador de agulhas, antes de pôr a
arma em seu bolso traseiro. Depois perguntou a seus dois
companheiros:
— Tudo
pronto? Então vamos indo. Três minutos mais tarde, a escotilha de
saída se fechava atrás deles, com um ruído surdo. Sem olhar para
trás, subiram no carro do Zarlt, que partiu imediatamente,
atravessando o campo de pouso e atingindo a estrada asfaltada. Aí
aumentou sensivelmente a velocidade, avançando em direção à
silhueta da cidade. Os contornos característicos das construções
em forma de funil se destacavam clara e nitidamente contra o fundo de
um céu bem iluminado. Só daí a duas horas é que o sol se
esconderia.
Já
estavam atingindo os subúrbios com seus parques verdejantes. Rhodan
sabia que aí havia corredores e compartimentos subterrâneos, onde
os revoltosos estavam de prontidão. Bastava que Marshall desse
apenas o comando telepático, Betty Toufry o apanharia e o
retransmitiria... e a revolução irromperia.
Mas ainda
não tinha chegado o momento. Ninguém sabia o que pretendia o Zarlt.
O
imponente palácio apareceu. Com a altura de cento e cinqüenta
metros, sobressaía a todas as outras construções. Ao esplendor do
sol de Voga, já bem inclinado, brilhavam as paredes inclinadas para
fora. Rhodan reparou que a guarda habitual no portão de entrada, não
tinha sido reforçada. Isto parecia meio suspeito, tendo em vista os
acontecimentos do dia anterior. Olhando para o lado, reparou ainda
que havia um moof novo no gramado do jardim. Devia ser um substituto,
pois o outro tinha sido vítima de algum atentado.
Já estava
sentindo o pensamento inquiridor e sugestivo das medusas. O
costumeiro pedido de deixar no posto de entrada qualquer tipo de
arma. A força de sugestão que se escondia atrás da intimação foi
fraca e sem importância. Rhodan ignorou a intimação, do mesmo modo
como Bell e Marshall.
O carro
parou.
— O
rapaz bem que podia abrir a porta do carro para a gente — observou
Bell em inglês — já que não nos consideram como hóspedes
legítimos.
— Isto
não é costume aqui — explicou-lhe Rhodan, saltando do carro. —
Além disso, não é uma recepção oficial, mas uma simples visita.
— Se é
tão simples assim, saberemos depois — respondeu Bell cheio de
desconfiança. — Eu tenho o pressentimento de que...
Não teve
tempo de terminar, porque do portal interior emergiram dois zalitas
multicoloridos, com fuzis energéticos nos ombros. As armas davam
qualquer impressão, menos a de assustar. Coronha e cano estavam
enfeitados ricamente com peças de ouro e prata. A correia de
tiracolo era de um bordado finíssimo.
— Meu
Deus! — disse Bell espantado. — Será tudo isto uma opereta em
que temos de bancar estadistas?
Marshall
conteve o sorriso. Penetrou imediatamente nos pensamentos dos três
sentinelas e encontrou apenas impressões superficiais. O primeiro
pensava em tudo, menos no seu dever de recepcionar os hóspedes do
Zarlt, que lhe eram completamente indiferentes. O outro estava
raciocinando com muita atenção como poderia pregar uma peça no
irmão de sua esposa que havia descoberto qualquer coisa de sua
amante. E... o terceiro, para espanto de Marshall, não pensava
absolutamente nada.
Não
sobrou mais tempo para fazer novos estudos psicológicos. Os três
sentinelas se detiveram na frente deles, bateram os calcanhares e
apresentaram as maravilhosas armas. Depois dando meia-volta, se
retiraram lentamente em marcha.
Rhodan fez
um sinal para Bell e Marshall.
Com passos
comedidos, seguiram os batedores.
Um
elevador os levou a um andar bem elevado. Aqui foram novamente
recebidos por três guardas de opereta. Marshall não teve
oportunidade de examiná-los, pois sentiu de repente fortes impulsos
que se dirigiam a ele, vindos de diversas direções. Não eram
comandos de sugestão e estava certo de que ele era o único a
recebê-los. Antes que pudesse ter maior clareza a respeito do que
significava aquilo, os impulsos diminuíram e desapareceram. O
incidente mal tivera a duração de trinta segundos.
Seguiram o
oficial por um corredor comprido e levemente recurvado. Marshall
pensava com profundidade o que significavam os impulsos. Estavam
sendo pesquisados pelos moofs? Se fosse este o caso, a esta hora os
moofs já saberiam quem eram seus adversários.
Mas não
sabiam isto já há muito tempo?
Os três
sentinelas pararam outra vez e apresentaram armas. Abriu-se uma porta
e no fundo havia uma sala pequena, tendo no centro uma mesa lisa. Ali
estavam sentadas cinco pessoas. Mais atrás se erguia um estrado
emoldurado por cortinas coloridas.
Quatro
zalitas se mantiveram sentados. O Zarlt se levantou e foi ao encontro
de seus hóspedes, estendendo a mão.
— Bem-vindo,
Perry Rhodan, o senhor é pontual.
Rhodan
pegou a mão, mas não retribuiu o aperto. Bell e Marshall foram
cumprimentados do mesmo modo. O primeiro franziu a testa, como se
tivesse pegado numa coisa desagradável. Parece que o Zarlt não
percebeu nada.
— E
agora posso apresentar-lhes meus oficiais. Alguns os senhores já
conhecem: Hemor e Cenets. Este é Milfor, chefe do armamento. Orbson
é o almirante, comandante das patrulhas. E agora, por favor, tomem
seus lugares. Eu tenho a honra de lhes oferecer qualquer coisa para
comer. Assim se pode conversar melhor.
Rhodan
sentou ao centro, tendo à sua direita e esquerda, Marshall e Bell.
Bem em frente a ele, sentou-se Demesor, tendo de um lado, Hemor e
Milfor e do outro, Cenets e Orbson.
Nesse meio
tempo em que eram trocadas amabilidades mais ou menos vazias,
Marshall teve sua primeira desilusão.
Concentrou-se
em sua missão e queria começar pesquisando os pensamentos do
subconsciente dos zalitas. Naturalmente iria começar com o Zarlt
Demesor.
Deu com o
bloqueio de defesa de um moof. E não podia ser outra coisa, pois
ninguém não telepata poderia por si mesmo, a não ser depois de
muitos anos de treinamento, conseguir um autobloqueio deste tipo.
Fora disso, ainda era necessário um certo dom de sugestão. E os
moofs possuíam as duas coisas. Portanto, já estavam dentro dos
fatos.
Tentou a
mesma coisa com os quatro oficiais e teve de constatar que havia o
mesmo fenômeno com eles. Era-lhe, pois, impossível ler o pensamento
dos cinco zalitas sentados à sua frente. Era uma grande vantagem
para eles, com a qual ninguém havia contado. Muito menos Marshall.
Tinha que
prevenir Rhodan, que também era um telepata fraco com faculdades
limitadas.
— Não,
foram apenas alguns acidentes — dizia o Zarlt no momento,
respondendo assim uma pergunta de Rhodan sobre as razões da
intranqüilidade do dia anterior. — Desordem. Isto sempre acontece.
Os culpados já foram punidos.
Rhodan
sorriu afavelmente. Estava recebendo no mesmo instante a comunicação
telepática de Marshall. Não apenas os pensamentos do Zarlt e de
seus vassalos permaneciam escondidos, como também havia o perigo de
que os moofs lessem seus pensamentos, de Rhodan e de seus
companheiros, e começassem a agir. O único meio para impedir isto
era um bloqueio de proteção.
Sem que
Demesor e seus oficiais o notassem, começou a batalha entre os
telepatas. Rhodan e Bell não podiam quase fazer outra coisa do que
protegerem seus pensamentos. Marshall, pelo contrário, tentava
romper o bloqueio do Zarlt e chegar até o ponto de partida das
irradiações, o moof.
Criados
traziam travessas com os frutos de Zalit e também bebidas de
diversas espécies. Rhodan preferiu suco de frutas, o que não
impediu Bell de se dedicar ao vinho vigoroso. Com muito prazer,
olhava para as moças que vinham para reencher os copos.
As jovens
zalitas eram realmente bonitas. O Zarlt tinha bom gosto, até mesmo
Bell, conhecedor do assunto, tinha que conceder isto. As graciosas
zalitas circulavam de um lado para outro, impedindo sempre que os
copos ficassem vazios. Bell bebeu mais para apreciar os belos
movimentos das jovens, cuja simetria começou a fasciná-lo.
— Está
gostando delas? — perguntou o Zarlt com um sorriso. E quando Bell,
encantado, fez que sim, ele acrescentou: — O senhor pode servir-se
delas, mesmo fora da mesa.
Bell olhou
espantado para o alto.
— Ó,
não... não é isso que estou querendo dizer — disse Demesor
sorrindo. — Quero dizer que o senhor pode dançar com elas.
— Sabe
ler pensamentos? — deixou Bell escapar de repente.
Um leve
rubor de acanhamento tomou conta de seu rosto.
Rhodan
tentou ajudá-lo naquele apuro:
— Sua
frase foi um pouco ambígua, Zarlt — disse Rhodan num leve tom de
censura amigável, que ninguém levou a mal. — Mas ninguém terá
nada a objetar contra uma bela dança.
— Conversemos
primeiro sobre os assuntos que nos preocupam, isto é, sobre nossa
estratégia — disse Demesor, meio forçado. — Estou me referindo
à nossa ação comum contra Árcon.
Rhodan
franziu a testa.
— Contra
Árcon? — repetiu admirado.
— Quero
dizer naturalmente contra o cérebro robotizado — disse se
corrigindo. — Exatamente pelo fato de que amamos o Império,
queremos afastar a hegemonia de um robô. O senhor deve compreender
isto, embora seja originário de um outro sistema, talvez mesmo de
uma outra parte da Galáxia.
“Muito
inteligente este pessoal”,
pensou Rhodan. “Mais
sem nenhuma malícia, portanto, devo pensar na Terra e trair minha
posição. Os moofs saberão então com quem estão lidando, e muito
mais ainda os seus mandantes. Talvez Demesor mesmo não saiba por que
diz isto. Os moofs o dominam.”
— Sim,
meu sistema não pertence a Árcon, por esta razão, o destino do
Império me poderia ser indiferente. Infelizmente, porém, fui
envolvido no conflito, o cérebro me persegue e necessito de uma
certa proteção, que o senhor por amizade me proporcionou. Tenho que
lhe ser grato.
Milfor se
inclinou para frente e fitou Rhodan friamente.
— Agora
é o momento em que o senhor pode provar sua gratidão.
Este
avanço direto por certo foi desagradável ao Zarlt, como se podia
ver claramente em sua fisionomia. Tentou entrar como intermediário:
— Milfor
não foi feliz no seu modo de falar, Rhodan. É claro que eu também
conto com o fato de que o senhor nos haverá de ajudar em nosso
plano. Aliás, o senhor já nos prometeu. Trata-se principalmente,
como o senhor sabe, do anel de proteção de Árcon. Parece-nos
impossível rompê-lo. O senhor o conseguiu.

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