terça-feira, 8 de janeiro de 2013

P-038 - Avanço Para Árcon - Kurt Mahr [parte 2]

Acalme-se! — gritou. — A chegada dessa nave estava prevista.
Rhodan afastou os homens das posições de combate. Apenas o posto número 1, que abrigava o transmissor fictício, continuou guarnecido. Rhodan não quis arriscar-se a que nesse momento importante, talvez fosse o mais importante da história da humanidade, um dos homens perdesse os nervos. Porém, devia manter guarnecida ao menos uma das armas, para não ficar inteiramente à mercê da nave estranha.
A gigantesca esfera aproximou-se rapidamente. Rhodan acompanhou a manobra. O piloto arcônida era um mestre na sua arte. Foi se aproximando quase metro por metro, até que entre a linha equatorial de sua nave e o envoltório externo da Ganymed só restou uma abertura de oitocentos metros. Os campos energéticos tocaram-se, iluminando-se nos pontos de contato.
Reginald Bell não conseguiu dominar a impaciência.
Nunca vi um sujeito tão sem-vergonha — resmungou zangado. — Por que será que chega tão perto de nós?
Rhodan sorriu e deu de ombros.
Pergunte a ele.
Bell não perdeu tempo. Furioso, bateu na tecla de emissão do tele comunicador, fez a antena girar na direção da nave e expediu o sinal arcônida de emissão.
A tela iluminou-se, fios tremeluzentes começaram a reunir-se num quadro. Bell começou a falar em arcônida antes que visse quem se encontrava diante dele:
Cruzador espacial Ganymed para a nave de Árcon. Que manobra idiota é... ooooh!
O quadro na tela assumira contornos nítidos. Apavorado, Bell recuou um passo e contemplou-o. Seus olhos semicerrados viram um ser que, pelos instrumentos que se encontravam ao seu lado, devia medir pelo menos três metros de altura. Encontrava-se a boa distância do receptor, por isso foi projetado na tela em todo o tamanho.
Não havia dúvida de que pertencia a uma raça humanóide. Tinha duas pernas da grossura de colunas de templo egípcio e dois braços que pendiam molemente à frente do corpo. A cabeça... bem, era realmente uma cabeça, embora consistisse na figura geométrica exata de uma esfera sem cabelos, tinha na frente três aberturas que serviam de olhos e por baixo delas uma boca larga, cujos lábios pareciam ridículos de tão estreitos. Não possuía nariz. Enquanto Bell ainda estava rígido de pavor, Thora disse com um gemido:
Meu Deus! São naats! Permitiram que os naats subissem a bordo das naves arcônidas.
No mesmo instante Rhodan lembrou-se da suspeita que lhe ocorrera uma hora antes. Teriam sido os naats, um povo colonial que habitava o quinto planeta do sistema, que desferira o golpe de morte no Império? Será que os naats assumiram o governo, os naats, esses seres simiescos que, sempre que não tinham sob os pés as placas de metal plastificado de uma nave, andavam de quatro, embora fossem dotados de maior grau de inteligência do que seu aspecto dava a entender? Seria por causa dos naats que os sinais codificados deixaram de ser observados?
Reginald Bell recuperou-se do susto.
Gostaria de saber — voltou a falar — para que serve essa manobra idiota. Isso representa um perigo para as duas naves.
O gigantesco naat observara com uma expressão um tanto estúpida a cena que se apresentava na tela. Respondeu à pergunta de Bell com a indiferença de quem diariamente trava vários diálogos com homens terranos:
Só assim poderei rebocá-los. Falava o arcônida grosseiro usado em seu mundo natal.
Rebocar-nos? — esbravejou Bell. — Estamos em condições de mover-nos sem auxílio. Não precisamos de reboque.
Sabe onde deve pousar? — perguntou o naat.
Queremos pousar em Árcon, e é o que vamos fazer.
Rhodan fez um sinal para Bell. Este recuou, trêmulo de raiva, cedendo o lugar ao seu comandante.
Sou Rhodan, comandante da Ganymed — disse este em arcônida. — Quem é o senhor, e quais são suas instruções?
O naat parecia menos indiferente quando viu a figura de Rhodan, mais alta que a de Bell, e ouviu a pergunta lacônica e tranqüila.
Sou Novaal — respondeu prontamente. — Comando esta nave imperial. Recebi instruções para levar a sua para Naat, colocando-a no espaçoporto de Naatral.
Rhodan lembrou-se do ensino recebido. Naat era um mundo do tamanho de Júpiter, que tinha uma gravitação mortal, é um clima semelhante ao de Marte. Era um mundo de poeira. Os arcônidas admiravam-se de que o mesmo pudera produzir alguma forma de vida e, ainda por cima, de vida inteligente.
Tenho dois passageiros arcônidas a bordo — objetou Rhodan e colocou-se numa posição tal que Thora e Crest entraram no campo de visão. — Acredito que o senhor terá problemas, Novaal, se não der a estes dois a oportunidade de irem a Árcon pelo caminho mais rápido. Não sei se o nome Zoltral significa alguma coisa para o senhor.
Novaal fez menção de executar um movimento que poderia ser uma mesura. Realmente, a cultura arcônida conhecia um gesto de reverência que muito se assemelhava à mesura terrena.
Mas a voz do Naat continuava indiferente e até um pouco preguiçosa quando respondeu:
Sinto não poder atender ao seu pedido. Recebi instruções de levá-los para Naat. As autoridades competentes de Árcon estão informadas sobre a presença de dois arcônidas a bordo dessa nave.
Como fará para levar-nos a Naat?
Com o raio de tração — respondeu Novaal em tom singelo.
Rhodan refletiu apenas por uma fração de segundo. Depois fez um gesto de concordância.
Muito bem. Por enquanto não tenho qualquer objeção. Acredito que aquilo que o senhor deve fazer seja necessário. Mas previno-o de uma coisa: se constatarmos que tem alguma intenção má, eu o farei desaparecer juntamente com sua nave.
Não se notou que a ameaça impressionasse Novaal. Este disse:
De acordo — e a palestra foi interrompida.
Thora nem esperou que Rhodan tivesse tempo de virar-se.
Por que não exigiu que nos levasse imediatamente para Árcon? Por que teve tanta pressa em concordar com suas exigências? Por que não o ameaçou? Por que...
Por que faria uma coisa dessas? — interrompeu-a Rhodan laconicamente. — Queria que arriscasse nossas vidas inutilmente?
Inutilmente? Quero ir para Árcon, não para Naat.
É o que todos queremos. Acontece que, segundo tudo indica, no momento não desejam nossa presença em Árcon.
O que é que eu tenho com isso? — continuou a esbravejar Thora. — Afinal, sou uma Khasurn, e nenhum naat preto e ridículo me dirá o que devo fazer. Chame-o e diga-lhe...
Mas o olhar de Rhodan foi tão insistente que a fez perder o ânimo em meio à fala. Fitou o homem alto que tinha diante de si com uma expressão de pavor.
Por que não quer compreender? — disse baixinho, em tom enfático e. apaziguador. — Treze anos terranos se passaram desde que viu Árcon pela última vez. Não compreende que muita coisa pode acontecer em treze anos? E, em relação a Árcon realmente aconteceu. Não estou interessado em ferir seu orgulho, mas é bem possível que os Zoltral já não gozem do mesmo prestígio que desfrutavam no tempo de sua partida.
Thora baixou os olhos. Por um instante permaneceu rígida. Depois de algum tempo Rhodan fez um gesto para Crest, e este levou a mulher a uma poltrona.
Rhodan voltou ao seu lugar e, em palavras lacônicas, informou a tripulação sobre o que acabara de acontecer. O posto de combate número 1 continuou a ser o único que permaneceu com sua guarnição. Rhodan recomendou o máximo de atenção aos homens.
Ao que parecia, Novaal conseguira aplicar o raio de tração na posição e com a potência adequada. Os instrumentos indicaram um deslocamento a pequena velocidade, sem que o desempenho dos propulsores da Ganymed se tivesse alterado.
Rhodan acompanhou a manobra com a maior atenção. Depois de alguns minutos, convenceu-se de que o grande Novaal era um homem cauteloso. Nada aconteceria à Ganymed aprisionada pelo raio de tração, se continuasse a agir com o mesmo cuidado.
No entanto, Rhodan parecia ser o único que se conformara com a situação. Os oficiais da sala de comando deixavam perceber pelo rosto a contrariedade que lhes causava a tática de apaziguamento de seu comando. O único que poderia arriscar uma palavra era Reginald Bell.
Com um suspiro disse:
Quem imaginaria uma coisa destas! Sonhávamos com uma marcha triunfal e estamos sendo rebocados que nem um calhambeque.

3



Demorou algumas horas em acelerar as duas naves interligadas, a tal ponto que poderiam contar com a chegada a Naat dentro de mais dez horas.
Thora saíra da sala de comando e se recolhera ao camarote. Crest voltara depois de acalmá-la o suficiente para fazê-lo acreditar que poderia deixá-la só.
Depois da palestra que Rhodan tivera com Novaal, o arcônida parecia mais loquaz e menos abatido que antes. Ao que tudo indicava, a massa de segredos envolvente do planeta de Árcon ultrapassara a medida em que apenas poderia deprimi-lo, passando a despertar seu interesse científico.
Quer saber de uma coisa? — perguntou, dirigindo-se a Rhodan que, sentado diante da mesa de controle, acompanhava atentamente as indicações dos instrumentos. — Houve um detalhe que me chamou a atenção mais que qualquer outro fato.
Falava em inglês. Rhodan fez uma leitura intermediária, anotou-a apressadamente num papel qualquer e virou-se.
O que foi?
Para indicar sua graduação, Novaal usou a palavra “reekha”, que na língua deles significa dirigente. No meu tempo esse título não existia. Quem realmente chefiava uma nave de guerra era um “has’athor”, isto é, um almirante, ou simplesmente o “verc’athor”, que vem a ser o comandante. Um dirigente pode mandar numa estação de terra, mas numa nave...
Crest sacudiu a cabeça.
O que se conclui daí? — perguntou Rhodan.
Crest abriu as mãos.
Não tenho certeza. Talvez Novaal, que se chama de dirigente, esteja subordinado a um oficial de patente mais alta que se encontra a bordo do couraçado, e que ainda não apareceu.
Rhodan parecia incrédulo.
Será que a conclusão é esta? Talvez tenha havido uma mudança de governo em Árcon. Neste caso os novos governantes poderão dar outros nomes às coisas antigas. Crest assustou-se.
Pelo amor de Deus! Suas suposições já vão tão longe? Uma mudança de governo em...
Foi interrompido. O intercomunicador chamou. Uma voz macabra disse:
Seção positrônica ao comandante. A resposta à sua pergunta é sim senhor, e isto com uma probabilidade de 89,5 por cento.
Rhodan franziu a testa.
A resposta à minha... — murmurou pensativo. — Ah, sim! Perguntei se as unidades da frota arcônida eram dirigidas por robôs. Quase que me esqueço. Obrigado.
Interrompeu-se e olhou para Crest.
O que acha disso? — perguntou. — O cérebro positrônico está convencido de que as naves arcônidas que exterminaram a frota dos motuneses são robôs.
A simples menção da expressão “cérebro positrônico” fez com que Crest aguçasse o ouvido.
Robôs? — perguntou espantado. — É claro que existem naves robotizadas. Sua construção não é difícil. Acontece que a batalha contra os motuneses foi travada a quarenta e seis anos-luz de Árcon. Para dirigir com segurança uma nave teleguiada a essa distância precisa-se de mecanismos muito mais aperfeiçoados que aqueles que conheço — sacudiu a cabeça. — Acredito que o cérebro positrônico esteja enganado.
Rhodan deu de ombros.
Afinal, ele deixou uma probabilidade de 10,5 por cento para qualquer outro tipo de explicação — disse com um sorriso significativo.
Levantou-se.
Vamos fazer um teste — disse com a voz tão alta que todas as pessoas que se encontravam na sala de comando podiam ouvi-lo. — É a respeito da nave imperial que nos está rebocando e de seu comandante.
Rostos estupefatos fitaram-no.
Qual é a potência do raio de tração? — perguntou Rhodan.
Bell tinha as indicações dos instrumentos diante dos olhos.
Vinte milhões de megawats.
Rhodan voltou ao seu lugar.
Por um milésimo de segundo imprimiremos à nossa nave uma aceleração de aproximadamente trinta milhões de megawats em sentido oposto — anunciou. — Queremos conhecer a reação da nave imperial. As reações devem ser registradas com referência ao tempo. Bem entendido: não queremos fugir daquele sujeito.
Sentou e atou os cintos em torno dos ombros.
X menos cinco minutos — disse em tom áspero.
Ninguém sabia qual era a finalidade daquilo.
O nervosismo tomou conta da sala de comando.
Um período de aceleração de um milésimo de segundo não poderia ser controlado pela mão de Rhodan. Programou o impulso acelerador mais breve possível e introduziu-o no aparelho de pilotagem automática. Depois de decorrido o tempo previsto, fez cumprir a programação.
Na sala de comando reinava um silêncio mortal. Todos os olhares estavam presos no rosto duro, mas tranqüilo de Rhodan.
A experiência não trouxe nenhuma revelação. A única coisa que aconteceu foi que as luzes de controle dos propulsores se iluminaram e se apagaram tão depressa que o olho humano mal conseguia percebê-lo. A pressão causada pela aceleração foi absorvida pelo neutralizador e a distância entre as duas naves continuou inalterada.
Rhodan desatou os cintos.
Vejamos o que os instrumentos registraram — ordenou com um nervosismo mal disfarçado.
Os grampos dos instrumentos estalaram e folhas de plástico eram rasgadas por mãos fortes, produzindo um ruído arranhento. As folhas cobertas com as linhas coloridas desenhadas pelos instrumentos de registro acumularam-se na mesa de Rhodan.
Rhodan classificou o material.
Qual é a distância entre as naves? — perguntou enquanto executava o trabalho.
Mil e trezentos metros de um centro de gravidade a outro.
Rhodan assinalou algumas das folhas, afastando as outras. Crest e Bell estavam de pé atrás dele, olhando por cima de seu ombro.
Aqui está o impulso de aceleração que emitimos — disse Rhodan, apontando para uma das folhas. — A escala de tempo foi grandemente ampliada. Vinte centímetros correspondem a um milésimo de segundo. Quer dizer que esta faixa de vinte centímetros representa nosso impulso. Vejamos o que fez o raio de tração. Estava funcionando com uma potência de vinte milhões de megawats. Neste ponto, que corresponde a nove microssegundos, ou seja, nove milionésimos de segundo depois de nosso impulso, o desempenho cresce repentinamente para cinqüenta milhões de megawats. Está percebendo alguma coisa? São os vinte milhões de antes, e mais trinta milhões para compensar os trinta milhões de nosso impulso. Aqui o desempenho do raio de tração volta a baixar ao valor antigo; mais uma vez nove microssegundos depois do fim de nosso impulso. Compreenderam?
Reginald Bell não parecia muito impressionado. Enquanto Crest levou apenas um instante para interpretar o resultado da experiência, Bell atirou os lábios para frente e resmungou:
Compreendi, sim. Mas será que isso tem alguma importância?
Rhodan lançou-lhe um olhar sério e bateu na fita de plástico.
Nove microssegundos correspondem exatamente ao tempo que um raio de luz gastaria para ir da Ganymed à nave rebocadora e voltar. O tempo que a outra nave gastou para reagir à nossa manobra nem pode ser determinado. Dali se deduz que ao menos a direção técnica da nave arcônida está em mãos dum robô.
Bell respirava com dificuldade e fitou Rhodan com os olhos arregalados.
Quer dizer que esse... esse monstro é um... — gaguejou.
Novaal não — retificou Rhodan. — Mas quem realmente manda a bordo da nave de tração é um robô.
Deixou Bell de boca aberta e com um sorriso dirigiu-se a Crest.
Talvez a esta hora, o senhor já encare a opinião do cérebro positrônico com menos ceticismo. Parece que alguém em Árcon se cansou com seus patrícios decadentes e insolentes e preferiu tripular as naves com robôs e soldados recrutados nas colônias.
Novaal nem parecia ter notado o incidente; ao menos não chamou a Ganymed. Era mais um indício de que a opinião de Rhodan era correta.
Nas dez horas seguintes, o comboio de naves aproximou-se do quinto mundo do sistema de Naat. Na tela de imagem da Ganymed, o planeta foi se transformando de um ponto num disco luminoso, e de um disco num globo amarelo-sujo, no qual as duas naves pareciam precipitar-se.
Rhodan sentia-se dominado por certo nervosismo, que procurou ocultar aos outros, já que o mesmo lhe parecia infantil e super-romântico. Ansiava febrilmente pelo momento em que pela primeira vez pusesse o pé num mundo pertencente ao próprio sistema estelar arcônida.

* * *

Ali se estendia diante dele, o coração do Grande Império, a organização mais poderosa da história galáctica conservada na memória dos seres inteligentes.
Era verdade que tinha diante de si apenas o quinto planeta, um mundo de poeira habitado por ciclópicos seres simiescos, que poderiam ser tudo, menos verdadeiros arcônidas. Mas Naat distava apenas algumas unidades astronômicas de Árcon, o verdadeiro núcleo do coração do Grande Império.
Rhodan teve a sensação de quem penetra no átrio de um palácio cercado de mistérios. E justamente essa sensação lhe parecia representar um acesso de sentimentalismo e de infantilidade. Por isso preferiu guardá-la para si.
Viu que com seus companheiros não acontecia a mesma coisa. Com a testa enrugada e uma repugnância indisfarçada, contemplava o deserto de poeira que se estendia a seus pés, fustigada por uma tormenta que levantava nuvens de pó vermelho-amarelento.
Mal se distinguiam edifícios. A nave de tração teve que realizar uma manobra antes que os primeiros sinais da presença de seres inteligentes surgissem nas telas da Ganymed.
Viu-se uma cidade, amarela e cinzenta como o resto do planeta. Casas em forma de abóbada, algumas com excrescências em forma de torre na cumiada. Outras sem, enfileiravam-se em linha reta, abrindo alas para ruas. Eram sinais de uma civilização que crescera depressa demais.
Um imenso campo de pouso cercado pelos edifícios que costumam abrigar as instalações técnicas específicas da Astronáutica estendia-se além dos limites da cidade.
Do outro lado parecia haver áreas verdes, das quais só se via uma ponta. As cores vivas de um parque, não afetadas pelo pó e pela tormenta, brilharam nas telas. Rhodan acreditava que era lá que viviam os arcônidas incumbidos de representar o poderio do Império no Planeta Naat.
Novaal, ou melhor, o robô que o mesmo trazia a bordo, manobrou com segurança, colocando a Ganymed no campo de pouso. Os aparelhos ultra-sensíveis da nave não registraram a menor irregularidade quando o imenso torpedo apoiou as enormes pernas-coluna de popa firmemente no solo do planeta, mantendo o artefato na vertical.
Os neutralizadores venceram facilmente a terrível gravitação do planeta. Em todos os compartimentos da nave, os objetos tinham o mesmo peso da superfície da Terra.
A imensa nave de tração de Novaal permaneceu imóvel por algum tempo. De repente afastou-se e foi pousar a vários quilômetros da Ganymed.
Rhodan tirou os olhos da tela.
Chegamos! — disse em tom resignado.
Algumas horas passaram-se sem que acontecesse qualquer coisa. No início Rhodan permanecera ininterruptamente diante da tela panorâmica, esperando que alguém se interessasse pela nave estranha. Os aparelhos de telecomunicação e hipercomunicação foram mantidos constantemente em recepção.
Mas ninguém apareceu. O tele comunicador permaneceu em silêncio, com exceção de algumas palestras distantes, que não tinham nada que ver com a Ganymed.
Depois de algum tempo, Rhodan colocou sentinelas regulares diante das telas e dos receptores e foi dormir. Antes instruiu seu representante a acordá-lo sem falta assim que houvesse alguma novidade.
Rhodan não dormiu muito bem, mas ninguém o perturbou. Dali a seis horas, quando se levantou, encontrou tudo conforme havia deixado. As telas continuavam apagadas e os receptores mudos. Ao que tudo indicava, a pessoa, que havia colocado a Ganymed no campo espacial praticamente deserto, se esquecera da mesma.
O fato apenas provocou uma ligeira impaciência em Rhodan. Mas havia a bordo da nave terrana uma pessoa que de forma alguma concordava com a situação atual. Ela levara horas procurando um responsável diante do qual pudesse lamentar-se.
Era Thora. Quando encontrou Rhodan, estava quase chorando.
Por que não faz nada? — disse com os olhos suplicantes, engolindo em seco.
O que podemos fazer? — perguntou Rhodan em tom delicado.
Decolar, irradiar uma mensagem, disparar um tiro de advertência... sei lá.
Rhodan virou-se. Seu assento de piloto estava ocupado pelo coronel Freyt, comandante da Ganymed.
Procure entrar em contato com a nave de tração através do tele comunicador — pediu.
Freyt regulou a antena direcional e emitiu um chamado em freqüência integral. O chamado teve de ser repetido cinco vezes antes que a nave respondesse.
O rosto de Novaal surgiu na tela.
Freyt levantou-se, cedendo o lugar a Rhodan.
Por que ninguém se interessa por nós? — perguntou Rhodan.
Não sei — respondeu Novaal. — Acha que alguém devia interessar-se pelos senhores?
A pergunta provocou risos em Rhodan.
É claro que sim. Quero saber por que estou parado aqui e quanto tempo durará isso.
O senhor está parado aqui porque a administração arcônida assim ordenou — disse Novaal.
Isso não é nenhum motivo — retrucou Rhodan em tom áspero. — Ao menos para mim não é.
Pois chame Sergh! — recomendou Novaal.
Quem é Sergh?
O administrador de Naat, um arcônida.
Será que atende pela freqüência integral?
Se não atender, o azar é seu. Não conheço sua freqüência oficial.
Muito bem — murmurou Rhodan. — Obrigado.
Terminou a palestra e voltou-se para Thora.
Conhece alguém cujo nome seja Sergh?
Thora sacudiu a cabeça. Rhodan modificou a posição da antena direcional. Orientou-a aproximadamente na direção da mancha verde que descobrira pouco antes do pouso junto ao campo espacial e ampliou a potência de saída, para não assumir qualquer risco quanto à recepção. Finalmente falou ao microfone:
O comandante da nave Ganymed deseja falar com o administrador Sergh.
Repetiu o chamado a intervalos regulares.
Depois de tê-lo feito trinta vezes sem que o destinatário se dignasse sequer a dar um pio, gritou furioso:
O comandante da nave Ganymed deseja falar com o administrador Sergh. Se esse idiota não responder imediatamente, a Ganymed preferirá abandonar este planeta para não esperar pelos arcônidas, que são uns chatos.

* * *

Ao que tudo indicava, o administrador estava muito ocupado, pois nem mesmo a pesada ofensa que acabara de lhe ser atirada conseguiu arrancar-lhe qualquer resposta.
Rhodan desligou o tele comunicador e virou-se para seus oficiais.
Prepare a decolagem, Freyt. Informe a tripulação. Introduzirei o programa.
A nave adquiriu vida. Os tripulantes correram para seus lugares. Dali a dez minutos a Ganymed estava pronta para decolar, e naquele mesmo instante o programa de decolagem de Rhodan estava pronto.
A tentativa infrutífera de entrar em contato com o administrador e o tratamento insolente dispensado à Ganymed, que teve que esperar horas a fio num campo em que nem pretendia pousar, provocaram a ira de Rhodan. Naquele momento agia por impulso, sem preocupar-se com as conseqüências da tentativa de decolar, ao que tudo indicava contra a vontade dos arcônidas.
Os canhões estavam guarnecidos. Enquanto o porto espacial continuasse vazio como estava, a Ganymed teria boas chances de deixar para trás o planeta inóspito.
Atenção! Decolar! — gritou Rhodan.
Luzes de controle acenderam-se. O zumbido dos reatores foi ouvido em todos os cantos da nave. Um instrumento de alarma começou a apitar. Rhodan aumentou o suprimento de energia dos propulsores. Outro instrumento de alarma fez-se ouvir. O ruído dos reatores modificou-se, crescendo num chiado agudo e furioso, cessou por uma fração de segundo e retornou sob a forma dum uivado quando Rhodan regulou o mecanismo para a potência máxima.
Rhodan deixou os reatores em funcionamento por um minuto. Por um minuto uivaram e rugiram, como se tivessem que movimentar um mundo.
A Ganymed não saiu do lugar.
Com uma pancada furiosa Rhodan colocou as chaves de controle na posição zero.
Terminou! — disse com um grito. — Não haverá nenhuma decolagem. Quero os dados sobre o campo de sucção que nos reteve.
O oficial do plantão de decolagem respondeu prontamente:
Potência variável. A cada momento excede em cinqüenta por cento a força de empuxo dos nossos propulsores.
Rhodan deixou a cabeça pender para a frente.
Que idiota que eu sou”, pensou desanimado. “Os arcônidas não o trouxeram para cá na intenção de deixá-lo ir embora dentro de poucas horas. Como pôde acreditar que não dispunham de nenhum meio de segurá-lo? Seguram você e toda a nave”.
Levantou a cabeça e fitou a tela. O campo de pouso estendido em torno da Ganymed era plano e não apresentava quaisquer contornos nítidos. Todavia, devia haver no subsolo do campo uma série de poderosos aparelhos capazes de produzir e projetar campos de sucção de potência inconcebível.
E agora?
Devia usar as armas? Bombardear o campo de pouso até destruir os projetores?
Não, nada disso. Ainda havia outros recursos.
O desânimo de Rhodan cedeu na medida em que um novo plano surgiu em sua mente e assumiu contornos definidos.
A noite desceu sobre Naat.
Anunciou sua chegada por meio de uma furiosa tempestade com ventos até quatrocentos quilômetros por hora, que uivavam terrivelmente nos microfones externos da nave. A tempestade foi acompanhada de quedas de temperatura até oitenta graus centígrados abaixo de zero.
A escuridão da noite só foi completa por causa da nuvem impenetrável de poeira que a tempestade tangia como se fossem densas nuvens de neblina. Segundo acreditava Rhodan, em outras circunstâncias as noites naquela área da Galáxia seriam luminosas, como uma noite de verão da Suécia, face à enorme profusão de estrelas.
O projeto de Rhodan fora cuidadosamente preparado. Crest e Thora o haviam informado objetivamente sobre a disposição geral da cidade de Naat e as características da área coberta de parques em que viviam os raros arcônidas encontráveis no planeta.
O coronel Freyt foi informado sobre a missão que lhe cabia. Sabia que por algumas horas, talvez mesmo por alguns dias, teria que carregar todo o peso da responsabilidade pelo bem-estar dos ocupantes da nave. Além disso, era responsável pelas três pessoas que se dispunham a deixar a nave.
Eram Perry Rhodan, Reginald Bell e Tako Kakuta.
Rhodan não quis que essa caminhada fosse executada por outra pessoa: apenas ele mesmo e aqueles que lhe eram mais chegados. Era a caminhada que o levaria a Sergh, o administrador arcônida.
O plano de Rhodan provocara discussões violentas. Thora e Crest foram de opinião de que sua execução representaria um perigo de vida. Ao que tudo indicava para os arcônidas, a Ganymed e seus ocupantes eram prisioneiros. Teriam algumas objeções, os prisioneiros resolvessem agir por conta própria, mesmo que fosse apenas para fazer uma visita ao carcereiro.
Era esta a opinião dos dois arcônidas. Rhodan reconheceu que provavelmente estavam com a razão, mas explicou que assim mesmo pretendia empreender a caminhada. E, em Reginald Bell, encontrou uma pessoa que apoiou seu plano em cheio.
Tako Kakuta, o japonesinho de rosto infantil, concordara com um sorriso de confiança e não participara mais das discussões.
Três horas após o escurecer Rhodan e seus companheiros estavam prontos para partir. Usavam trajes transportadores arcônidas, verdadeiros milagres técnicos que envolviam seu portador, como uma vestimenta. Traziam um potente microrreator que gerava um campo gravitacional próprio, um campo de deflexão que desviava os raios luminosos e um campo protetor que absorvia os impactos de projéteis e armas de radiação.
Saíram pela comporta de popa. Por motivos facilmente compreensíveis, preferiram não abrir a larga escada de enrolar para chegar ao solo pelo caminho mais confortável. Confiaram seu peso, que a força gravitacional do planeta aumentara pelo fator 2.8, aos campos gravitacionais artificiais de seus trajes.
A capacidade dos neutralizadores era limitada. Os trajes eram capazes de neutralizar uma gravitação que chegava a 3 G. A solicitação energética que o planeta Naat representaria para os micro geradores representava o máximo de que eram capazes.
Rhodan calculara isso. Teriam que desistir da forma de locomoção confortável e segura que era o vôo, ainda mais que, sempre que havia sobrecarga de um dos campos, o mesmo recorria às reservas energéticas do outro. Se, por exemplo, os tiros absorvidos pelo campo defensivo excediam a medida de sua própria capacidade, o mesmo recorria à energia destinada ao campo de deflexão e ao de gravitação artificial. Uma pessoa, que fosse alvejada enquanto estivesse voando, poderia cair subitamente ou tornar-se visível.
Mas houve uma coisa enfatizada por Rhodan com mais força que a ordem de percorrer a pé os trinta quilômetros que separavam a Ganymed da sede da administração:
Até agora estávamos acostumados a lidar com seres que consideravam nossos trajes transportadores uma arma milagrosa. Nenhum dos inimigos com que nos defrontamos conhecia coisa igual, com exceção dos saltadores.
Acontece que são aparelhos arcônidas, e é com os arcônidas que estamos lidando. Para eles, os trajes transportadores de sua própria fabricação não representam nenhum milagre. Não acreditem que a invisibilidade ou o campo defensivo os livrará de todo e qualquer perigo.”
Por isso mesmo, Rhodan acreditava que o primeiro momento crítico de sua carreira poderia surgir no instante em que o grupo se afastasse da Ganymed, penetrando no campo de visão dos arcônidas.
Afastaram-se uns trinta metros da nave, segurando as armas na curva do cotovelo, prontas para disparar, e esperaram.
Os microfones externos dos capacetes registraram o uivo da tempestade e o crepitar do pó. O ruído deixou-os nervoso, pois sufocava qualquer outro. Mas Rhodan mandou que ficassem parados durante dez minutos, para acostumarem-se ao mesmo.
Nada aconteceu nesses dez minutos. Ninguém os havia observado, ou então não julgavam necessário barrar-lhes o caminho.
Em algum lugar o trajeto seria barrado. Rhodan não tinha a menor dúvida.
Rhodan comunicou a Freyt:
Fase B.
Era o código convencional. A fase A estaria concluída no momento em que se constatasse que nada se opunha ao início da marcha do grupo. O código e a ordem generalizada de exprimir-se com o maior laconismo inspirava-se numa reflexão. Os arcônidas, e também os naats, poderiam captar as mensagens de telecomunicação, desde que descobrissem a freqüência em que funcionavam os aparelhos terrenos. Mas não conheciam a língua usada por Rhodan, e mesmo os instrumentos mais eficientes só seriam capazes de reconstituir a língua inglesa com base nos fragmentos captados quando dispusessem dum volume suficiente de dados léxicos. Isso seria impedido através da linguagem codificada e da redução das mensagens ao mínimo.
Tudo isso não atingia as comunicações entre os três homens arrojados. As mesmas eram realizadas por meio de emissores e receptores eletromagnéticos convencionais, que ficariam regulados para um alcance mínimo, a não ser que surgisse uma situação toda especial.
Rhodan conduziu o grupo através do amplo campo de pouso. Para orientar sua conduta, dispunha apenas dos dados armazenados em sua memória durante o treinamento hipnótico, segundo os quais os arcônidas, que exercem funções administrativas em mundos coloniais, costumam levar a vida bastante despreocupados. Viviam segregados da população nativa, dentro de parques artificiais dotados de todos os requisitos imagináveis. Em meio a essas áreas verdes, erguiam-se as criações da arquitetura arcônida.
Rhodan sabia que na periferia dos parques havia um sistema eletrônico de vigilância que registrava a penetração de qualquer pessoa numa aparelhagem central. Seria necessário enganar ou contornar esse sistema de vigilância. Na opinião de Rhodan, isso não seria muito difícil.
O que mais o preocupava eram as instalações de segurança das casas. Se é que pudesse chamar de casas essas construções que de fora se pareciam com um funil equilibrado sobre a ponta. Era de imaginar que o dispositivo de segurança da casa ocupada pelo administrador devia ser de uma eficiência extraordinária. Provavelmente só Tako Kakuta, o teleportador, conseguiria penetrar na mesma sem enfrentar qualquer obstáculo. Justamente por isso, Rhodan resolvera levá-lo.
Depois de duas horas e meia de marcha, Rhodan examinou o terreno pelo dispositivo de pontaria infravermelho de sua arma. Era o único aparelho de busca que haviam levado pois, de outra forma, sua mobilidade ficaria prejudicada. Viu as construções redondas e achatadas que assinalavam a periferia do campo de pouso e atrás delas a muralha robusta de árvores e arbustos que limitava a zona residencial dos arcônidas.
As construções, ao que tudo indicava, não estavam sendo vigiadas, e não havia ninguém no interior delas. Reforçavam a impressão imposta a qualquer pessoa que visse o campo de pouso: o tempo em que o enorme porto espacial fora construído para preencher as grandes finalidades já pertencia ao passado.
O grupo passou entre duas das construções redondas sem encontrar o menor obstáculo e deteve-se a uns trinta metros do parque.
Fase B, segunda parte — disse Rhodan.
A título de resposta, o coronel Freyt transmitiu o sinal convencionado: três apitos, dois longos e um breve.
Rhodan dirigiu-se ao japonês.
Tako, está na sua hora.
Sim senhor.
A vegetação alta e robusta quebrava a força da tempestade. Rhodan viu que o japonês fitava a folhagem como se procurasse alguma coisa. De repente seu corpo dissolveu-se no nada.
Tako “saltara”. O dom parapsicológico da teleportação permitira-lhe ultrapassar sem qualquer problema o limite do sistema de vigilância arcônida. Se não tivesse acontecido algum imprevisto, a essa hora devia encontrar-se no interior do parque.
Rhodan esperou três minutos. No fim desse prazo, Tako Kakuta comunicou-se através do rádio de capacete, por meio dum pigarro quase imperceptível. Rhodan enviou nova mensagem ao coronel Freyt:
Fase C imediatamente.
O japonês caminhou a passos largos do lugar em que fora parar depois do salto até o local que Rhodan e Bell o aguardavam. Vinte minutos depois de ter aparecido surgiu entre a folhagem. Rhodan foi ao seu encontro, até chegar perto da linha em que costumava funcionar o sistema de vigilância.
Tako Kakuta aproximou-se dele e, no momento em que quase chegou a tocá-lo, executou outro salto. Rhodan deu um passo rápido, cruzando a linha crítica. Tinha certeza de que o sistema de vigilância, que continuaria a registrar a presença de uma única pessoa no seu campo de atividade, não suspeitaria de nada.
O japonês, que saiu do interior do parque, evidentemente não representava nada de anormal para a vigilância. O instrumento registrou sua presença quando se aproximou do limite, mas não expediu qualquer aviso. E agora que Tako executou outro salto para o interior do parque, não saberia distinguir entre Rhodan e o japonês. Rhodan desejava que o instrumento não se preocuparia pelo fato de que uma pessoa que se deu ao trabalho de atravessar metade do parque para chegar ao limite da zona crítica subitamente teria mudado de idéia, voltando ao cruzar a mesma.
Uma vez que ainda seria necessário proporcionar a Bell a oportunidade de penetrar na área do parque, Rhodan esforçou-se para deixar o limite para trás o mais depressa possível. Caminhou cerca de um quilômetro em linha reta, em sentido perpendicular ao limite do parque. Tinha certeza de que os sensores do sistema de vigilância não chegavam até lá.
Enquanto isso, Tako Kakuta voltou a pôr-se a caminho da fronteira. Vindo de uma área que o sistema de vigilância não poderia considerar crítico, repetiu a manobra, desaparecendo no mesmo instante em que Reginald Bell transpôs a linha fronteiriça.
Para o sistema de vigilância tudo continuava como antes: era um único homem que se encontrava no interior de seu campo de atividade.
Reginald Bell seguiu a pista de Rhodan, que se desenhava nitidamente em meio ao capim. Por algum tempo sentiu-se perturbado por alguma coisa: era um ruído cuja origem não conseguia identificar.
Levou algum tempo para descobrir que não era nenhum ruído, mas a ausência dum ruído. A tempestade acabara.
Bell não acreditava que realmente tivesse acabado. Os arcônidas deviam possuir alguma instalação que isolava suas áreas residenciais das condições climáticas adversas do planeta em que se haviam instalado.
Bell sentiu certa admiração pela habilidade dos arcônidas em satisfazer suas exigências de conforto pessoal até o extremo limite.
Levou quinze minutos para encontrar Rhodan. Estava sentado na grama, ao pé de uma árvore gigantesca e estranha, olhando através do dispositivo de pontaria ótica de sua arma. Por pouco, Bell não tropeça por cima dele. Os arcônidas não haviam feito nada para afastar a escuridão reinante no parque.
Que quadro fantástico! — murmurou Rhodan.
Bell olhou para trás. Tako ainda não havia chegado. Deitou no solo, colocou o pesado desintegrador automático na posição mais cômoda que as circunstâncias permitiam e ligou o dispositivo ótico infravermelho.
O quadro que se lhe ofereceu não retratava as cores genuínas. O raio refletido desenhava-se num branco ofuscante enquanto o resto do campo permanecia negro. Com isso, a visão tornou-se ainda mais estranha.
Bell não ignorava o que se ofereceria à sua vista, pois possuía o saber arcônida. Sabia que as casas dos arcônidas eram construídas sob a forma de enormes funis, porque sua arquitetura, fortemente impregnada de psicologia, considerava esse formato como aquele que proporcionava ao morador o máximo de individualidade e privacidade.
Mas saber uma coisa e vê-la, são duas coisas completamente diferentes. Bell conteve a respiração diante da visão fabulosa e fantástica. Viu, desenhadas num branco-pálido e brilhante, os contornos estranhos das árvores e dos arbustos que cresciam num chão coberto de grama. De espaço a espaço, como que espalhadas ao acaso, as construções afuniladas banhavam-se em luz. O tamanho das mesmas variava como o das pedras espalhadas pela areia. Havia casas pequenas, em forma de pavilhão que ofereciam um quadro gracioso, semi-ocultas pelas árvores. Eram funis residenciais que deviam ter de dez a trinta metros de altura, e edifícios gigantescos cujo ponto mais alto devia distar mais de cem metros do solo.
Apoiados sobre cabos relativamente finos, às vezes bastante compridos, os funis eram verdadeiros milagres da estática e resistência de materiais. E constituíam mais uma indicação de que a civilização arcônida passara, especialmente no terreno privado, a não se conformar com aquilo que a tecnologia oferecia, preferindo moldar esta por seus próprios desejos.
De repente o japonês surgiu diante de Rhodan e Bell.
Está pronto? — perguntou Rhodan.
Sim senhor — respondeu Tako. — Examinei a maior parte dos edifícios de perto. Se, conforme supomos, Sergh ocupa o maior deles, devemos seguir pela direita.
Qual é a distância?
Cerca de seis quilômetros.
Que maldição! — praguejou Bell. — Andar seis quilômetros na bandeja do diabo!
Façamos votos de que os arcônidas estejam dormindo — tranqüilizou-o Rhodan. — O sistema de vigilância não reagiu, e assim estão despreocupados. A situação só se tornará crítica quando penetrarmos na casa de Sergh.

4



No palácio de Sergh, se é que podia ser chamado assim, era capaz de provocar um acesso de agorafobia numa pessoa que se mantivesse nas proximidades do cabo do funil e levantasse os olhos, contemplando as paredes inclinadas para fora.
Era o único edifício cujas paredes brilhavam sob uma luz opalescente, que já a uma distância de três quilômetros indicara o caminho ao grupo. O funil de Sergh era um dos poucos de cujas paredes inclinadas saíam, de parte em parte, vias descaídas apoiadas sobre a coluna que, atravessando o parque, levavam a outros edifícios ou à cidade de Naatral.
Pelos cálculos de Rhodan, o funil devia ter cerca de cento e oitenta metros de altura. Por certo, não abrigava apenas a residência de Sergh, mas algumas repartições importantes da administração.
A marcha de Rhodan correu sem incidentes. Vez por outra os microfones externos dos capacetes transmitiram ruídos que, segundo parecia, provinham de veículos arcônidas. Mas os intrusos não chegaram a ver nenhum desses veículos, muito menos se encontraram com qualquer arcônida.
Da Ganymed não veio nenhuma novidade.
Além das vias elevadas que ligavam o funil de Sergh com o mundo exterior, o mesmo ainda possuía a entrada usual nesse tipo de arquitetura, situada no cabo do funil. Era um portal largo, cuja soleira ficava a dois metros acima do solo.
Provavelmente teria que ser atingido por meio da fita transportadora dobrável.
Por um instante, Rhodan brincou com a idéia de se aproximar do portal até que o aviso automático reagisse, e esperar que o dono da casa fosse bastante ingênuo para descer a fita e abrir a porta.
Mas logo abandonou a idéia.
Nada de brincadeiras”, pensou.
Encontravam-se a trinta metros da parede externa do cabo. Rhodan sabia que o aviso automático só reagiria quando o visitante se aproximasse a uma distância de doze metros.
Durante quinze minutos mantiveram-se em silêncio, observando a gigantesca construção. Mas não havia nenhum indício que pudesse revelar se os homens, que se encontravam no interior do prédio, estavam acordados ou não. As paredes do funil afastavam o mundo exterior e faziam com que nada do que acontecesse no seu interior pudesse ser percebido do lado de fora.
O que estamos esperando? — perguntou Bell impaciente. — Não temos tempo a perder.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
Tako!
Estou pronto.
Preste atenção, Tako. Dar-lhe-ei mais uma vez um resumo das indicações mais importantes. O funil é oco. As paredes internas são dispostas em forma de terraço. Nos terraços inferiores, geralmente há jardins. Acima deles ficam as peças usadas para residência e escritório. Algumas se abrem para o lado de dentro, outras são isoladas por meio de paredes. Não entre ali com a idéia de que verá uma residência de feitio terreno. O funil forma um mundo por si. Por dentro, provavelmente parece maior que de fora. O mais importante de tudo: só faça uso de sua arma quando sua vida estiver em jogo e o senhor não puder colocar-se em segurança por meio de um salto. Entendido?
Entendido.
Muito bem. Aguardo seu regresso dentro de quinze minutos, para apresentar o primeiro relatório.
Sim senhor.
Quando a última sílaba ainda soava nos ouvidos dos companheiros, Tako já havia desaparecido.
A primeira impressão que se apossou de Tako Kakuta no interior do funil foi a de que uma força turbulenta o impelia para cima. Isto o fez bater, com um ruído surdo, contra um dos pavimentos de terraço presos à parede.
Um tanto confuso, deu-se conta de que os arcônidas haviam providenciado para que a gravitação no interior de suas residências correspondesse à de Árcon. Portanto, equivalia aproximadamente à da Terra. Acontece que o traje transportador estava regulado para a gravitação de 2,8 g, reinante do lado de fora.
Corrigiu o erro e desceu suavemente sobre um canteiro de flores macio.
Rastejou para trás de um arbusto e examinou os arredores.
O interior do funil estava profusamente iluminado. Tako aterrizara no pavimento inferior, isto é, no lugar em que terminava o cabo do funil. O primeiro pavimento formava, por assim dizer, a base dos pavimentos em forma de terraço situados mais acima. Era circular e tinha o diâmetro do cabo do funil, fechando-o como se fosse uma tampa.
O círculo de aproximadamente trinta metros de diâmetro era ocupado por um jardim. Tako abriu o capacete, para completar as impressões que estava recebendo. Sentiu-se atordoado por uma miríade de perfumes diferentes, que o faziam prender a respiração, provocando ânsias de espirrar.
Estreitas veredas cortavam a profusão de flores, árvores e arbustos. Tako ouviu o ruído de água. Provavelmente haviam construído um riacho artificial.
Depois de se ter saciado nas belezas do jardim, Tako dirigiu o olhar para cima. Imponentes e graciosas, as paredes do funil abriam-se; atingiam uma altura em que os olhos mal podiam segui-las face à iluminação sempre igual, perdendo-se na periferia de um círculo negro.
Era o céu! O céu noturno de Naat. De certa forma, o japonês sentiu-se tranqüilizado ao notar que mesmo em meio a esse esplendor artificial não estava totalmente isolado do ambiente natural. A visão do céu, mesmo reduzido a uma mancha negra, espantou parte da depressão que Tako sentira no início.
Examinou cuidadosamente a disposição dos terraços. Pelos seus cálculos, a altura de cada um deles devia ser de quatro ou cinco metros. Dessa forma o funil estaria dividido em quarenta ou cinqüenta terraços superpostos.
O aspecto dos diversos pavimentos era extremamente variável. Nichos abertos alternavam numa seqüência variável com paredes de vidro ou janelas. Vez por outra, havia plataformas que sobressaíam da estrutura dos terraços. Eram lugares destinados à apreciação do panorama ou ao pouso de veículos aéreos.
O parque em que Tako pousara também cobria os três pavimentos seguintes, em parte sob a forma de jardins suspensos, fazendo com que os contornos dos terraços ficassem ocultos pela vegetação profusa que descia dos mesmos. Em alguns lugares, estranhas construções de plástico sobressaíam entre o verde. Tako não teve a menor dúvida de que se tratava de pedaços de pontes pendurados em meio ao verde, para que os arcônidas tivessem oportunidade de passear ao ar livre.
Procurou descobrir escadas ou corredores verticais que ligassem os terraços, mas não encontrou nada. Provavelmente teriam sido instalados nos fundos das salas, junto à parede externa do funil, portanto não podiam ser vistos do lugar em que Tako se encontrava.
O japonês olhou o relógio. Gastara pouco menos de dez minutos para orientar-se. Já sabia como era o interior do funil, ao menos em suas linhas gerais. Mas ainda não havia visto nenhum arcônida.
Estariam todos dormindo?
Tako arriscou mais um salto reduzido, que o deixou no corredor circular do quinto terraço, contado de baixo. O parque e os jardins suspensos ficaram sob ele. Lá de cima viu o riacho e o pequeno lago cuja água provocava o ruído escutado lá embaixo.
Encontrava-se num trecho do corredor aberto para o interior do funil, onde apenas estava protegido por um corrimão, talvez de um metro de altura. À direita e à esquerda abriam-se paredes altas, que se ligavam ao terraço imediatamente superior. E o corredor aberto estava separado das peças contíguas por meio de portas.
Tako voltou-se para a direita e ficou satisfeito ao notar que a porta, que tinha diante de si, se abriu quando se encontrava a três passos da mesma, conforme era usual entre os arcônidas.
A sala que ficava atrás da porta estava iluminada. Junto à parede havia algumas mesas, e as chaves e escalas nelas existentes indicavam que se tratava de emissores de telecomunicação. Algumas poltronas articuladas de modelo arcônida pareciam perdidas no meio da sala. A parede oposta estava coberta por várias telas. Ainda junto da parede oposta às janelas, havia uma abertura circular no teto. Tako caminhou rapidamente em direção à parede, colocou-se embaixo da abertura e, conforme esperava, sentiu imediatamente a tração suave do campo de antigravidade. Bastaria que se empurrasse ligeiramente para que o campo o conduzisse rápida e seguramente ao pavimento superior. Era um elevador antigravitacional, do mesmo modelo usado nas naves espaciais terranas.
Um olhar para o relógio o fez perceber que estava na hora de voltar. Quatorze minutos já se haviam passado desde o momento em que deixara Rhodan e Bell.
Fechando os olhos, memorizou o lugar em que os dois o aguardavam.
Saltou.

* * *

Sergh de Teffron, da estirpe dos Hugral, radicado em Naat pela decisão sábia do Imperador, geralmente não fazia a menor idéia de qual era a fase do dia fora das paredes de seu funil. Como arcônida e, mais que isso, membro de uma família muito conceituada, teria uma impressão de ridículo ou de repugnância, conforme sua disposição momentânea, se alguém manifestasse a idéia de que ele, Sergh, deveria regular seu dia segundo a divisão arbitrária entre as horas de luz e escuridão, criada pela natureza.
Sergh orientava-se pelos seus desejos e necessidades. Não tinha a menor idéia da situação vantajosa que ocupava em comparação com os naats, e mesmo em comparação com muitos arcônidas que ocupavam posições inferiores. Era detentor de um cargo cujas atribuições eram exercidas por uma série de máquinas muito eficientes e um grande contingente de subordinados. Morava num funil que mesmo em Árcon raras vezes encontrava um igual. E isso, não apenas quanto ao tamanho, mas também quanto às instalações da máquina de morar. Quanto ao cargo que ocupava, nada tinha que fazer senão estar presente. De resto, gastava o tempo seguindo suas inclinações.
Aliás, o verbo seguir pode levar a erro. Seria preferível se disséssemos que as esperava deitado. A ocupação principal dos arcônidas daqueles tempos, que era o jogo simultâneo, era exercida nessa posição. Não havia outra postura que melhor correspondesse à decadência e à apatia daqueles seres.
Contudo, Sergh costumava passar algumas horas do dia nos jardins maravilhosos dos pavimentos inferiores. Deitado na grama ou balançando-se na parte suspensa, costumava conversar com um dos seus subordinados ou com algum hóspede.
Foi o que aconteceu naquele dia. Desta vez o parceiro escolhido fora Ghorn, seu jovem representante. Este não se sentiu nada feliz em ter que abandonar a cômoda posição de repouso e ver-se obrigado a afastar-se da tela fictícia, onde surgiram as figuras geométricas abstratas criadas por seus pensamentos. Figuras que deslizavam, dançavam, e iam-se colorindo de acordo com as regras do jogo simultâneo. Mas Sergh era o único homem que realmente mandava naquele palácio, e apesar de toda apatia de Ghorn, este não se atreveria a deixar de cumprir qualquer de seus desejos.
Foram descendo juntos por uma série de poços antigravitacionais, até atingir o pavimento inferior. Deitaram na beira da lagoa em que desembocava o riacho. Sergh perguntou:
Por que será que no jogo simultâneo é fácil produzir uma figura azul de treze faces, mas nunca uma figura vermelha desse tipo?
Ghorn respirou aliviado. Receava que o tema fosse mais enfadonho.
Naturalmente não sei, Senhor — respondeu prontamente. — Mas suponho que nosso cérebro não é capaz de formular o pensamento correspondente. Uma figura vermelha de treze faces corresponde a uma configuração de pensamento que se torna impossível num cérebro arcônida.
Sergh entusiasmou-se.
Interessante, muito interessante — exclamou. — Sou praticamente da mesma opinião. Estou convicto — ergueu-se alguns centímetros sobre os braços e olhou para um canteiro coberto de flores fareh de caule longo — de que poderíamos ganhar uma série de aspectos novos, se pudéssemos convencer certas inteligências estranhas a participar dum jogo simultâneo. Ou então — voltou a erguer-se — devíamos obrigar seres estranhos a colocar-se à nossa disposição para os jogos simultâneos. Os naats, por exemplo...
Seguiu suas idéias. Depois de deixar passar o tempo exigido pelo respeito, Ghorn observou:

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