— Acalme-se!
— gritou. — A chegada dessa nave estava prevista.
Rhodan
afastou os homens das posições de combate. Apenas o posto número
1, que abrigava o transmissor fictício, continuou guarnecido. Rhodan
não quis arriscar-se a que nesse momento importante, talvez fosse o
mais importante da história da humanidade, um dos homens perdesse os
nervos. Porém, devia manter guarnecida ao menos uma das armas, para
não ficar inteiramente à mercê da nave estranha.
A
gigantesca esfera aproximou-se rapidamente. Rhodan acompanhou a
manobra. O piloto arcônida era um mestre na sua arte. Foi se
aproximando quase metro por metro, até que entre a linha equatorial
de sua nave e o envoltório externo da Ganymed só restou uma
abertura de oitocentos metros. Os campos energéticos tocaram-se,
iluminando-se nos pontos de contato.
Reginald
Bell não conseguiu dominar a impaciência.
— Nunca
vi um sujeito tão sem-vergonha — resmungou zangado. — Por que
será que chega tão perto de nós?
Rhodan
sorriu e deu de ombros.
— Pergunte
a ele.
Bell não
perdeu tempo. Furioso, bateu na tecla de emissão do tele
comunicador, fez a antena girar na direção da nave e expediu o
sinal arcônida de emissão.
A tela
iluminou-se, fios tremeluzentes começaram a reunir-se num quadro.
Bell começou a falar em arcônida antes que visse quem se encontrava
diante dele:
— Cruzador
espacial Ganymed para a nave de Árcon. Que manobra idiota é...
ooooh!
O quadro
na tela assumira contornos nítidos. Apavorado, Bell recuou um passo
e contemplou-o. Seus olhos semicerrados viram um ser que, pelos
instrumentos que se encontravam ao seu lado, devia medir pelo menos
três metros de altura. Encontrava-se a boa distância do receptor,
por isso foi projetado na tela em todo o tamanho.
Não havia
dúvida de que pertencia a uma raça humanóide. Tinha duas pernas da
grossura de colunas de templo egípcio e dois braços que pendiam
molemente à frente do corpo. A cabeça... bem, era realmente uma
cabeça, embora consistisse na figura geométrica exata de uma esfera
sem cabelos, tinha na frente três aberturas que serviam de olhos e
por baixo delas uma boca larga, cujos lábios pareciam ridículos de
tão estreitos. Não possuía nariz. Enquanto Bell ainda estava
rígido de pavor, Thora disse com um gemido:
— Meu
Deus! São naats! Permitiram que os naats subissem a bordo das naves
arcônidas.
No mesmo
instante Rhodan lembrou-se da suspeita que lhe ocorrera uma hora
antes. Teriam sido os naats, um povo colonial que habitava o quinto
planeta do sistema, que desferira o golpe de morte no Império? Será
que os naats assumiram o governo, os naats, esses seres simiescos
que, sempre que não tinham sob os pés as placas de metal
plastificado de uma nave, andavam de quatro, embora fossem dotados de
maior grau de inteligência do que seu aspecto dava a entender? Seria
por causa dos naats que os sinais codificados deixaram de ser
observados?
Reginald
Bell recuperou-se do susto.
— Gostaria
de saber — voltou a falar — para que serve essa manobra idiota.
Isso representa um perigo para as duas naves.
O
gigantesco naat observara com uma expressão um tanto estúpida a
cena que se apresentava na tela. Respondeu à pergunta de Bell com a
indiferença de quem diariamente trava vários diálogos com homens
terranos:
— Só
assim poderei rebocá-los. Falava o arcônida grosseiro usado em seu
mundo natal.
— Rebocar-nos?
— esbravejou Bell. — Estamos em condições de mover-nos sem
auxílio. Não precisamos de reboque.
— Sabe
onde deve pousar? — perguntou o naat.
— Queremos
pousar em Árcon, e é o que vamos fazer.
Rhodan fez
um sinal para Bell. Este recuou, trêmulo de raiva, cedendo o lugar
ao seu comandante.
— Sou
Rhodan, comandante da Ganymed — disse este em arcônida. — Quem é
o senhor, e quais são suas instruções?
O naat
parecia menos indiferente quando viu a figura de Rhodan, mais alta
que a de Bell, e ouviu a pergunta lacônica e tranqüila.
— Sou
Novaal — respondeu prontamente. — Comando esta nave imperial.
Recebi instruções para levar a sua para Naat, colocando-a no
espaçoporto de Naatral.
Rhodan
lembrou-se do ensino recebido. Naat era um mundo do tamanho de
Júpiter, que tinha uma gravitação mortal, é um clima semelhante
ao de Marte. Era um mundo de poeira. Os arcônidas admiravam-se de
que o mesmo pudera produzir alguma forma de vida e, ainda por cima,
de vida inteligente.
— Tenho
dois passageiros arcônidas a bordo — objetou Rhodan e colocou-se
numa posição tal que Thora e Crest entraram no campo de visão. —
Acredito que o senhor terá problemas, Novaal, se não der a estes
dois a oportunidade de irem a Árcon pelo caminho mais rápido. Não
sei se o nome Zoltral significa alguma coisa para o senhor.
Novaal fez
menção de executar um movimento que poderia ser uma mesura.
Realmente, a cultura arcônida conhecia um gesto de reverência que
muito se assemelhava à mesura terrena.
Mas a voz
do Naat continuava indiferente e até um pouco preguiçosa quando
respondeu:
— Sinto
não poder atender ao seu pedido. Recebi instruções de levá-los
para Naat. As autoridades competentes de Árcon estão informadas
sobre a presença de dois arcônidas a bordo dessa nave.
— Como
fará para levar-nos a Naat?
— Com o
raio de tração — respondeu Novaal em tom singelo.
Rhodan
refletiu apenas por uma fração de segundo. Depois fez um gesto de
concordância.
— Muito
bem. Por enquanto não tenho qualquer objeção. Acredito que aquilo
que o senhor deve fazer seja necessário. Mas previno-o de uma coisa:
se constatarmos que tem alguma intenção má, eu o farei desaparecer
juntamente com sua nave.
Não se
notou que a ameaça impressionasse Novaal. Este disse:
— De
acordo — e a palestra foi interrompida.
Thora nem
esperou que Rhodan tivesse tempo de virar-se.
— Por
que não exigiu que nos levasse imediatamente para Árcon? Por que
teve tanta pressa em concordar com suas exigências? Por que não o
ameaçou? Por que...
— Por
que faria uma coisa dessas? — interrompeu-a Rhodan laconicamente. —
Queria que arriscasse nossas vidas inutilmente?
— Inutilmente?
Quero ir para Árcon, não para Naat.
— É o
que todos queremos. Acontece que, segundo tudo indica, no momento não
desejam nossa presença em Árcon.
— O que
é que eu tenho com isso? — continuou a esbravejar Thora. —
Afinal, sou uma Khasurn, e nenhum naat preto e ridículo me dirá o
que devo fazer. Chame-o e diga-lhe...
Mas o
olhar de Rhodan foi tão insistente que a fez perder o ânimo em meio
à fala. Fitou o homem alto que tinha diante de si com uma expressão
de pavor.
— Por
que não quer compreender? — disse baixinho, em tom enfático e.
apaziguador. — Treze anos terranos se passaram desde que viu Árcon
pela última vez. Não compreende que muita coisa pode acontecer em
treze anos? E, em relação a Árcon realmente aconteceu. Não estou
interessado em ferir seu orgulho, mas é bem possível que os Zoltral
já não gozem do mesmo prestígio que desfrutavam no tempo de sua
partida.
Thora
baixou os olhos. Por um instante permaneceu rígida. Depois de algum
tempo Rhodan fez um gesto para Crest, e este levou a mulher a uma
poltrona.
Rhodan
voltou ao seu lugar e, em palavras lacônicas, informou a tripulação
sobre o que acabara de acontecer. O posto de combate número 1
continuou a ser o único que permaneceu com sua guarnição. Rhodan
recomendou o máximo de atenção aos homens.
Ao que
parecia, Novaal conseguira aplicar o raio de tração na posição e
com a potência adequada. Os instrumentos indicaram um deslocamento a
pequena velocidade, sem que o desempenho dos propulsores da Ganymed
se tivesse alterado.
Rhodan
acompanhou a manobra com a maior atenção. Depois de alguns minutos,
convenceu-se de que o grande Novaal era um homem cauteloso. Nada
aconteceria à Ganymed aprisionada pelo raio de tração, se
continuasse a agir com o mesmo cuidado.
No
entanto, Rhodan parecia ser o único que se conformara com a
situação. Os oficiais da sala de comando deixavam perceber pelo
rosto a contrariedade que lhes causava a tática de apaziguamento de
seu comando. O único que poderia arriscar uma palavra era Reginald
Bell.
Com um
suspiro disse:
— Quem
imaginaria uma coisa destas! Sonhávamos com uma marcha triunfal e
estamos sendo rebocados que nem um calhambeque.
3
Demorou
algumas horas em acelerar as duas naves interligadas, a tal ponto que
poderiam contar com a chegada a Naat dentro de mais dez horas.
Thora
saíra da sala de comando e se recolhera ao camarote. Crest voltara
depois de acalmá-la o suficiente para fazê-lo acreditar que poderia
deixá-la só.
Depois da
palestra que Rhodan tivera com Novaal, o arcônida parecia mais
loquaz e menos abatido que antes. Ao que tudo indicava, a massa de
segredos envolvente do planeta de Árcon ultrapassara a medida em que
apenas poderia deprimi-lo, passando a despertar seu interesse
científico.
— Quer
saber de uma coisa? — perguntou, dirigindo-se a Rhodan que, sentado
diante da mesa de controle, acompanhava atentamente as indicações
dos instrumentos. — Houve um detalhe que me chamou a atenção mais
que qualquer outro fato.
Falava em
inglês. Rhodan fez uma leitura intermediária, anotou-a
apressadamente num papel qualquer e virou-se.
— O que
foi?
— Para
indicar sua graduação, Novaal usou a palavra “reekha”,
que na língua deles significa dirigente. No meu tempo esse título
não existia. Quem realmente chefiava uma nave de guerra era um
“has’athor”,
isto é, um almirante, ou simplesmente o “verc’athor”,
que vem a ser o comandante. Um dirigente pode mandar numa estação
de terra, mas numa nave...
Crest
sacudiu a cabeça.
— O que
se conclui daí? — perguntou Rhodan.
Crest
abriu as mãos.
— Não
tenho certeza. Talvez Novaal, que se chama de dirigente, esteja
subordinado a um oficial de patente mais alta que se encontra a bordo
do couraçado, e que ainda não apareceu.
Rhodan
parecia incrédulo.
— Será
que a conclusão é esta? Talvez tenha havido uma mudança de governo
em Árcon. Neste caso os novos governantes poderão dar outros nomes
às coisas antigas. Crest assustou-se.
— Pelo
amor de Deus! Suas suposições já vão tão longe? Uma mudança de
governo em...
Foi
interrompido. O intercomunicador chamou. Uma voz macabra disse:
— Seção
positrônica ao comandante. A resposta à sua pergunta é sim senhor,
e isto com uma probabilidade de 89,5 por cento.
Rhodan
franziu a testa.
— A
resposta à minha... — murmurou pensativo. — Ah, sim! Perguntei
se as unidades da frota arcônida eram dirigidas por robôs. Quase
que me esqueço. Obrigado.
Interrompeu-se
e olhou para Crest.
— O que
acha disso? — perguntou. — O cérebro positrônico está
convencido de que as naves arcônidas que exterminaram a frota dos
motuneses são robôs.
A simples
menção da expressão “cérebro
positrônico”
fez com que Crest aguçasse o ouvido.
— Robôs?
— perguntou espantado. — É claro que existem naves robotizadas.
Sua construção não é difícil. Acontece que a batalha contra os
motuneses foi travada a quarenta e seis anos-luz de Árcon. Para
dirigir com segurança uma nave teleguiada a essa distância
precisa-se de mecanismos muito mais aperfeiçoados que aqueles que
conheço — sacudiu a cabeça. — Acredito que o cérebro
positrônico esteja enganado.
Rhodan deu
de ombros.
— Afinal,
ele deixou uma probabilidade de 10,5 por cento para qualquer outro
tipo de explicação — disse com um sorriso significativo.
Levantou-se.
— Vamos
fazer um teste — disse com a voz tão alta que todas as pessoas que
se encontravam na sala de comando podiam ouvi-lo. — É a respeito
da nave imperial que nos está rebocando e de seu comandante.
Rostos
estupefatos fitaram-no.
— Qual é
a potência do raio de tração? — perguntou Rhodan.
Bell tinha
as indicações dos instrumentos diante dos olhos.
— Vinte
milhões de megawats.
Rhodan
voltou ao seu lugar.
— Por um
milésimo de segundo imprimiremos à nossa nave uma aceleração de
aproximadamente trinta milhões de megawats em sentido oposto —
anunciou. — Queremos conhecer a reação da nave imperial. As
reações devem ser registradas com referência ao tempo. Bem
entendido: não queremos fugir daquele sujeito.
Sentou e
atou os cintos em torno dos ombros.
— X
menos cinco minutos — disse em tom áspero.
Ninguém
sabia qual era a finalidade daquilo.
O
nervosismo tomou conta da sala de comando.
Um período
de aceleração de um milésimo de segundo não poderia ser
controlado pela mão de Rhodan. Programou o impulso acelerador mais
breve possível e introduziu-o no aparelho de pilotagem automática.
Depois de decorrido o tempo previsto, fez cumprir a programação.
Na sala de
comando reinava um silêncio mortal. Todos os olhares estavam presos
no rosto duro, mas tranqüilo de Rhodan.
A
experiência não trouxe nenhuma revelação. A única coisa que
aconteceu foi que as luzes de controle dos propulsores se iluminaram
e se apagaram tão depressa que o olho humano mal conseguia
percebê-lo. A pressão causada pela aceleração foi absorvida pelo
neutralizador e a distância entre as duas naves continuou
inalterada.
Rhodan
desatou os cintos.
— Vejamos
o que os instrumentos registraram — ordenou com um nervosismo mal
disfarçado.
Os grampos
dos instrumentos estalaram e folhas de plástico eram rasgadas por
mãos fortes, produzindo um ruído arranhento. As folhas cobertas com
as linhas coloridas desenhadas pelos instrumentos de registro
acumularam-se na mesa de Rhodan.
Rhodan
classificou o material.
— Qual é
a distância entre as naves? — perguntou enquanto executava o
trabalho.
— Mil e
trezentos metros de um centro de gravidade a outro.
Rhodan
assinalou algumas das folhas, afastando as outras. Crest e Bell
estavam de pé atrás dele, olhando por cima de seu ombro.
— Aqui
está o impulso de aceleração que emitimos — disse Rhodan,
apontando para uma das folhas. — A escala de tempo foi grandemente
ampliada. Vinte centímetros correspondem a um milésimo de segundo.
Quer dizer que esta faixa de vinte centímetros representa nosso
impulso. Vejamos o que fez o raio de tração. Estava funcionando com
uma potência de vinte milhões de megawats. Neste ponto, que
corresponde a nove microssegundos, ou seja, nove milionésimos de
segundo depois de nosso impulso, o desempenho cresce repentinamente
para cinqüenta milhões de megawats. Está percebendo alguma coisa?
São os vinte milhões de antes, e mais trinta milhões para
compensar os trinta milhões de nosso impulso. Aqui o desempenho do
raio de tração volta a baixar ao valor antigo; mais uma vez nove
microssegundos depois do fim de nosso impulso. Compreenderam?
Reginald
Bell não parecia muito impressionado. Enquanto Crest levou apenas um
instante para interpretar o resultado da experiência, Bell atirou os
lábios para frente e resmungou:
— Compreendi,
sim. Mas será que isso tem alguma importância?
Rhodan
lançou-lhe um olhar sério e bateu na fita de plástico.
— Nove
microssegundos correspondem exatamente ao tempo que um raio de luz
gastaria para ir da Ganymed à nave rebocadora e voltar. O tempo que
a outra nave gastou para reagir à nossa manobra nem pode ser
determinado. Dali se deduz que ao menos a direção técnica da nave
arcônida está em mãos dum robô.
Bell
respirava com dificuldade e fitou Rhodan com os olhos arregalados.
— Quer
dizer que esse... esse monstro é um... — gaguejou.
— Novaal
não — retificou Rhodan. — Mas quem realmente manda a bordo da
nave de tração é um robô.
Deixou
Bell de boca aberta e com um sorriso dirigiu-se a Crest.
— Talvez
a esta hora, o senhor já encare a opinião do cérebro positrônico
com menos ceticismo. Parece que alguém em Árcon se cansou com seus
patrícios decadentes e insolentes e preferiu tripular as naves com
robôs e soldados recrutados nas colônias.
Novaal nem
parecia ter notado o incidente; ao menos não chamou a Ganymed. Era
mais um indício de que a opinião de Rhodan era correta.
Nas dez
horas seguintes, o comboio de naves aproximou-se do quinto mundo do
sistema de Naat. Na tela de imagem da Ganymed, o planeta foi se
transformando de um ponto num disco luminoso, e de um disco num globo
amarelo-sujo, no qual as duas naves pareciam precipitar-se.
Rhodan
sentia-se dominado por certo nervosismo, que procurou ocultar aos
outros, já que o mesmo lhe parecia infantil e super-romântico.
Ansiava febrilmente pelo momento em que pela primeira vez pusesse o
pé num mundo pertencente ao próprio sistema estelar arcônida.
*
* *
Ali se
estendia diante dele, o coração do Grande Império, a organização
mais poderosa da história galáctica conservada na memória dos
seres inteligentes.
Era
verdade que tinha diante de si apenas o quinto planeta, um mundo de
poeira habitado por ciclópicos seres simiescos, que poderiam ser
tudo, menos verdadeiros arcônidas. Mas Naat distava apenas algumas
unidades astronômicas de Árcon, o verdadeiro núcleo do coração
do Grande Império.
Rhodan
teve a sensação de quem penetra no átrio de um palácio cercado de
mistérios. E justamente essa sensação lhe parecia representar um
acesso de sentimentalismo e de infantilidade. Por isso preferiu
guardá-la para si.
Viu que
com seus companheiros não acontecia a mesma coisa. Com a testa
enrugada e uma repugnância indisfarçada, contemplava o deserto de
poeira que se estendia a seus pés, fustigada por uma tormenta que
levantava nuvens de pó vermelho-amarelento.
Mal se
distinguiam edifícios. A nave de tração teve que realizar uma
manobra antes que os primeiros sinais da presença de seres
inteligentes surgissem nas telas da Ganymed.
Viu-se uma
cidade, amarela e cinzenta como o resto do planeta. Casas em forma de
abóbada, algumas com excrescências em forma de torre na cumiada.
Outras sem, enfileiravam-se em linha reta, abrindo alas para ruas.
Eram sinais de uma civilização que crescera depressa demais.
Um imenso
campo de pouso cercado pelos edifícios que costumam abrigar as
instalações técnicas específicas da Astronáutica estendia-se
além dos limites da cidade.
Do outro
lado parecia haver áreas verdes, das quais só se via uma ponta. As
cores vivas de um parque, não afetadas pelo pó e pela tormenta,
brilharam nas telas. Rhodan acreditava que era lá que viviam os
arcônidas incumbidos de representar o poderio do Império no Planeta
Naat.
Novaal, ou
melhor, o robô que o mesmo trazia a bordo, manobrou com segurança,
colocando a Ganymed no campo de pouso. Os aparelhos ultra-sensíveis
da nave não registraram a menor irregularidade quando o imenso
torpedo apoiou as enormes pernas-coluna de popa firmemente no solo do
planeta, mantendo o artefato na vertical.
Os
neutralizadores venceram facilmente a terrível gravitação do
planeta. Em todos os compartimentos da nave, os objetos tinham o
mesmo peso da superfície da Terra.
A imensa
nave de tração de Novaal permaneceu imóvel por algum tempo. De
repente afastou-se e foi pousar a vários quilômetros da Ganymed.
Rhodan
tirou os olhos da tela.
— Chegamos!
— disse em tom resignado.
Algumas
horas passaram-se sem que acontecesse qualquer coisa. No início
Rhodan permanecera ininterruptamente diante da tela panorâmica,
esperando que alguém se interessasse pela nave estranha. Os
aparelhos de telecomunicação e hipercomunicação foram mantidos
constantemente em recepção.
Mas
ninguém apareceu. O tele comunicador permaneceu em silêncio, com
exceção de algumas palestras distantes, que não tinham nada que
ver com a Ganymed.
Depois de
algum tempo, Rhodan colocou sentinelas regulares diante das telas e
dos receptores e foi dormir. Antes instruiu seu representante a
acordá-lo sem falta assim que houvesse alguma novidade.
Rhodan não
dormiu muito bem, mas ninguém o perturbou. Dali a seis horas, quando
se levantou, encontrou tudo conforme havia deixado. As telas
continuavam apagadas e os receptores mudos. Ao que tudo indicava, a
pessoa, que havia colocado a Ganymed no campo espacial praticamente
deserto, se esquecera da mesma.
O fato
apenas provocou uma ligeira impaciência em Rhodan. Mas havia a bordo
da nave terrana uma pessoa que de forma alguma concordava com a
situação atual. Ela levara horas procurando um responsável diante
do qual pudesse lamentar-se.
Era Thora.
Quando encontrou Rhodan, estava quase chorando.
— Por
que não faz nada? — disse com os olhos suplicantes, engolindo em
seco.
— O que
podemos fazer? — perguntou Rhodan em tom delicado.
— Decolar,
irradiar uma mensagem, disparar um tiro de advertência... sei lá.
Rhodan
virou-se. Seu assento de piloto estava ocupado pelo coronel Freyt,
comandante da Ganymed.
— Procure
entrar em contato com a nave de tração através do tele comunicador
— pediu.
Freyt
regulou a antena direcional e emitiu um chamado em freqüência
integral. O chamado teve de ser repetido cinco vezes antes que a nave
respondesse.
O rosto de
Novaal surgiu na tela.
Freyt
levantou-se, cedendo o lugar a Rhodan.
— Por
que ninguém se interessa por nós? — perguntou Rhodan.
— Não
sei — respondeu Novaal. — Acha que alguém devia interessar-se
pelos senhores?
A pergunta
provocou risos em Rhodan.
— É
claro que sim. Quero saber por que estou parado aqui e quanto tempo
durará isso.
— O
senhor está parado aqui porque a administração arcônida assim
ordenou — disse Novaal.
— Isso
não é nenhum motivo — retrucou Rhodan em tom áspero. — Ao
menos para mim não é.
— Pois
chame Sergh! — recomendou Novaal.
— Quem é
Sergh?
— O
administrador de Naat, um arcônida.
— Será
que atende pela freqüência integral?
— Se não
atender, o azar é seu. Não conheço sua freqüência oficial.
— Muito
bem — murmurou Rhodan. — Obrigado.
Terminou a
palestra e voltou-se para Thora.
— Conhece
alguém cujo nome seja Sergh?
Thora
sacudiu a cabeça. Rhodan modificou a posição da antena direcional.
Orientou-a aproximadamente na direção da mancha verde que
descobrira pouco antes do pouso junto ao campo espacial e ampliou a
potência de saída, para não assumir qualquer risco quanto à
recepção. Finalmente falou ao microfone:
— O
comandante da nave Ganymed deseja falar com o administrador Sergh.
Repetiu o
chamado a intervalos regulares.
Depois de
tê-lo feito trinta vezes sem que o destinatário se dignasse sequer
a dar um pio, gritou furioso:
— O
comandante da nave Ganymed deseja falar com o administrador Sergh. Se
esse idiota não responder imediatamente, a Ganymed preferirá
abandonar este planeta para não esperar pelos arcônidas, que são
uns chatos.
*
* *
Ao que
tudo indicava, o administrador estava muito ocupado, pois nem mesmo a
pesada ofensa que acabara de lhe ser atirada conseguiu arrancar-lhe
qualquer resposta.
Rhodan
desligou o tele comunicador e virou-se para seus oficiais.
— Prepare
a decolagem, Freyt. Informe a tripulação. Introduzirei o programa.
A nave
adquiriu vida. Os tripulantes correram para seus lugares. Dali a dez
minutos a Ganymed estava pronta para decolar, e naquele mesmo
instante o programa de decolagem de Rhodan estava pronto.
A
tentativa infrutífera de entrar em contato com o administrador e o
tratamento insolente dispensado à Ganymed, que teve que esperar
horas a fio num campo em que nem pretendia pousar, provocaram a ira
de Rhodan. Naquele momento agia por impulso, sem preocupar-se com as
conseqüências da tentativa de decolar, ao que tudo indicava contra
a vontade dos arcônidas.
Os canhões
estavam guarnecidos. Enquanto o porto espacial continuasse vazio como
estava, a Ganymed teria boas chances de deixar para trás o planeta
inóspito.
— Atenção!
Decolar! — gritou Rhodan.
Luzes de
controle acenderam-se. O zumbido dos reatores foi ouvido em todos os
cantos da nave. Um instrumento de alarma começou a apitar. Rhodan
aumentou o suprimento de energia dos propulsores. Outro instrumento
de alarma fez-se ouvir. O ruído dos reatores modificou-se, crescendo
num chiado agudo e furioso, cessou por uma fração de segundo e
retornou sob a forma dum uivado quando Rhodan regulou o mecanismo
para a potência máxima.
Rhodan
deixou os reatores em funcionamento por um minuto. Por um minuto
uivaram e rugiram, como se tivessem que movimentar um mundo.
A Ganymed
não saiu do lugar.
Com uma
pancada furiosa Rhodan colocou as chaves de controle na posição
zero.
— Terminou!
— disse com um grito. — Não haverá nenhuma decolagem. Quero os
dados sobre o campo de sucção que nos reteve.
O oficial
do plantão de decolagem respondeu prontamente:
— Potência
variável. A cada momento excede em cinqüenta por cento a força de
empuxo dos nossos propulsores.
Rhodan
deixou a cabeça pender para a frente.
“Que
idiota que eu sou”,
pensou desanimado. “Os
arcônidas não o trouxeram para cá na intenção de deixá-lo ir
embora dentro de poucas horas. Como pôde acreditar que não
dispunham de nenhum meio de segurá-lo? Seguram você e toda a nave”.
Levantou a
cabeça e fitou a tela. O campo de pouso estendido em torno da
Ganymed era plano e não apresentava quaisquer contornos nítidos.
Todavia, devia haver no subsolo do campo uma série de poderosos
aparelhos capazes de produzir e projetar campos de sucção de
potência inconcebível.
E agora?
Devia usar
as armas? Bombardear o campo de pouso até destruir os projetores?
Não, nada
disso. Ainda havia outros recursos.
O desânimo
de Rhodan cedeu na medida em que um novo plano surgiu em sua mente e
assumiu contornos definidos.
A noite
desceu sobre Naat.
Anunciou
sua chegada por meio de uma furiosa tempestade com ventos até
quatrocentos quilômetros por hora, que uivavam terrivelmente nos
microfones externos da nave. A tempestade foi acompanhada de quedas
de temperatura até oitenta graus centígrados abaixo de zero.
A
escuridão da noite só foi completa por causa da nuvem impenetrável
de poeira que a tempestade tangia como se fossem densas nuvens de
neblina. Segundo acreditava Rhodan, em outras circunstâncias as
noites naquela área da Galáxia seriam luminosas, como uma noite de
verão da Suécia, face à enorme profusão de estrelas.
O projeto
de Rhodan fora cuidadosamente preparado. Crest e Thora o haviam
informado objetivamente sobre a disposição geral da cidade de Naat
e as características da área coberta de parques em que viviam os
raros arcônidas encontráveis no planeta.
O coronel
Freyt foi informado sobre a missão que lhe cabia. Sabia que por
algumas horas, talvez mesmo por alguns dias, teria que carregar todo
o peso da responsabilidade pelo bem-estar dos ocupantes da nave. Além
disso, era responsável pelas três pessoas que se dispunham a deixar
a nave.
Eram Perry
Rhodan, Reginald Bell e Tako Kakuta.
Rhodan não
quis que essa caminhada fosse executada por outra pessoa: apenas ele
mesmo e aqueles que lhe eram mais chegados. Era a caminhada que o
levaria a Sergh, o administrador arcônida.
O plano de
Rhodan provocara discussões violentas. Thora e Crest foram de
opinião de que sua execução representaria um perigo de vida. Ao
que tudo indicava para os arcônidas, a Ganymed e seus ocupantes eram
prisioneiros. Teriam algumas objeções, os prisioneiros resolvessem
agir por conta própria, mesmo que fosse apenas para fazer uma visita
ao carcereiro.
Era esta a
opinião dos dois arcônidas. Rhodan reconheceu que provavelmente
estavam com a razão, mas explicou que assim mesmo pretendia
empreender a caminhada. E, em Reginald Bell, encontrou uma pessoa que
apoiou seu plano em cheio.
Tako
Kakuta, o japonesinho de rosto infantil, concordara com um sorriso de
confiança e não participara mais das discussões.
Três
horas após o escurecer Rhodan e seus companheiros estavam prontos
para partir. Usavam trajes transportadores arcônidas, verdadeiros
milagres técnicos que envolviam seu portador, como uma vestimenta.
Traziam um potente microrreator que gerava um campo gravitacional
próprio, um campo de deflexão que desviava os raios luminosos e um
campo protetor que absorvia os impactos de projéteis e armas de
radiação.
Saíram
pela comporta de popa. Por motivos facilmente compreensíveis,
preferiram não abrir a larga escada de enrolar para chegar ao solo
pelo caminho mais confortável. Confiaram seu peso, que a força
gravitacional do planeta aumentara pelo fator 2.8, aos campos
gravitacionais artificiais de seus trajes.
A
capacidade dos neutralizadores era limitada. Os trajes eram capazes
de neutralizar uma gravitação que chegava a 3 G. A solicitação
energética que o planeta Naat representaria para os micro geradores
representava o máximo de que eram capazes.
Rhodan
calculara isso. Teriam que desistir da forma de locomoção
confortável e segura que era o vôo, ainda mais que, sempre que
havia sobrecarga de um dos campos, o mesmo recorria às reservas
energéticas do outro. Se, por exemplo, os tiros absorvidos pelo
campo defensivo excediam a medida de sua própria capacidade, o mesmo
recorria à energia destinada ao campo de deflexão e ao de
gravitação artificial. Uma pessoa, que fosse alvejada enquanto
estivesse voando, poderia cair subitamente ou tornar-se visível.
Mas houve
uma coisa enfatizada por Rhodan com mais força que a ordem de
percorrer a pé os trinta quilômetros que separavam a Ganymed da
sede da administração:
— Até
agora estávamos acostumados a lidar com seres que consideravam
nossos trajes transportadores uma arma milagrosa. Nenhum dos inimigos
com que nos defrontamos conhecia coisa igual, com exceção dos
saltadores.
“Acontece
que são aparelhos arcônidas, e é com os arcônidas que estamos
lidando. Para eles, os trajes transportadores de sua própria
fabricação não representam nenhum milagre. Não acreditem que a
invisibilidade ou o campo defensivo os livrará de todo e qualquer
perigo.”
Por isso
mesmo, Rhodan acreditava que o primeiro momento crítico de sua
carreira poderia surgir no instante em que o grupo se afastasse da
Ganymed, penetrando no campo de visão dos arcônidas.
Afastaram-se
uns trinta metros da nave, segurando as armas na curva do cotovelo,
prontas para disparar, e esperaram.
Os
microfones externos dos capacetes registraram o uivo da tempestade e
o crepitar do pó. O ruído deixou-os nervoso, pois sufocava qualquer
outro. Mas Rhodan mandou que ficassem parados durante dez minutos,
para acostumarem-se ao mesmo.
Nada
aconteceu nesses dez minutos. Ninguém os havia observado, ou então
não julgavam necessário barrar-lhes o caminho.
Em algum
lugar o trajeto seria barrado. Rhodan não tinha a menor dúvida.
Rhodan
comunicou a Freyt:
— Fase
B.
Era o
código convencional. A fase A estaria concluída no momento em que
se constatasse que nada se opunha ao início da marcha do grupo. O
código e a ordem generalizada de exprimir-se com o maior laconismo
inspirava-se numa reflexão. Os arcônidas, e também os naats,
poderiam captar as mensagens de telecomunicação, desde que
descobrissem a freqüência em que funcionavam os aparelhos terrenos.
Mas não conheciam a língua usada por Rhodan, e mesmo os
instrumentos mais eficientes só seriam capazes de reconstituir a
língua inglesa com base nos fragmentos captados quando dispusessem
dum volume suficiente de dados léxicos. Isso seria impedido através
da linguagem codificada e da redução das mensagens ao mínimo.
Tudo isso
não atingia as comunicações entre os três homens arrojados. As
mesmas eram realizadas por meio de emissores e receptores
eletromagnéticos convencionais, que ficariam regulados para um
alcance mínimo, a não ser que surgisse uma situação toda
especial.
Rhodan
conduziu o grupo através do amplo campo de pouso. Para orientar sua
conduta, dispunha apenas dos dados armazenados em sua memória
durante o treinamento hipnótico, segundo os quais os arcônidas, que
exercem funções administrativas em mundos coloniais, costumam levar
a vida bastante despreocupados. Viviam segregados da população
nativa, dentro de parques artificiais dotados de todos os requisitos
imagináveis. Em meio a essas áreas verdes, erguiam-se as criações
da arquitetura arcônida.
Rhodan
sabia que na periferia dos parques havia um sistema eletrônico de
vigilância que registrava a penetração de qualquer pessoa numa
aparelhagem central. Seria necessário enganar ou contornar esse
sistema de vigilância. Na opinião de Rhodan, isso não seria muito
difícil.
O que mais
o preocupava eram as instalações de segurança das casas. Se é que
pudesse chamar de casas essas construções que de fora se pareciam
com um funil equilibrado sobre a ponta. Era de imaginar que o
dispositivo de segurança da casa ocupada pelo administrador devia
ser de uma eficiência extraordinária. Provavelmente só Tako
Kakuta, o teleportador, conseguiria penetrar na mesma sem enfrentar
qualquer obstáculo. Justamente por isso, Rhodan resolvera levá-lo.
Depois de
duas horas e meia de marcha, Rhodan examinou o terreno pelo
dispositivo de pontaria infravermelho de sua arma. Era o único
aparelho de busca que haviam levado pois, de outra forma, sua
mobilidade ficaria prejudicada. Viu as construções redondas e
achatadas que assinalavam a periferia do campo de pouso e atrás
delas a muralha robusta de árvores e arbustos que limitava a zona
residencial dos arcônidas.
As
construções, ao que tudo indicava, não estavam sendo vigiadas, e
não havia ninguém no interior delas. Reforçavam a impressão
imposta a qualquer pessoa que visse o campo de pouso: o tempo em que
o enorme porto espacial fora construído para preencher as grandes
finalidades já pertencia ao passado.
O grupo
passou entre duas das construções redondas sem encontrar o menor
obstáculo e deteve-se a uns trinta metros do parque.
— Fase
B, segunda parte — disse Rhodan.
A título
de resposta, o coronel Freyt transmitiu o sinal convencionado: três
apitos, dois longos e um breve.
Rhodan
dirigiu-se ao japonês.
— Tako,
está na sua hora.
— Sim
senhor.
A
vegetação alta e robusta quebrava a força da tempestade. Rhodan
viu que o japonês fitava a folhagem como se procurasse alguma coisa.
De repente seu corpo dissolveu-se no nada.
Tako
“saltara”.
O dom parapsicológico da teleportação permitira-lhe ultrapassar
sem qualquer problema o limite do sistema de vigilância arcônida.
Se não tivesse acontecido algum imprevisto, a essa hora devia
encontrar-se no interior do parque.
Rhodan
esperou três minutos. No fim desse prazo, Tako Kakuta comunicou-se
através do rádio de capacete, por meio dum pigarro quase
imperceptível. Rhodan enviou nova mensagem ao coronel Freyt:
— Fase C
imediatamente.
O japonês
caminhou a passos largos do lugar em que fora parar depois do salto
até o local que Rhodan e Bell o aguardavam. Vinte minutos depois de
ter aparecido surgiu entre a folhagem. Rhodan foi ao seu encontro,
até chegar perto da linha em que costumava funcionar o sistema de
vigilância.
Tako
Kakuta aproximou-se dele e, no momento em que quase chegou a tocá-lo,
executou outro salto. Rhodan deu um passo rápido, cruzando a linha
crítica. Tinha certeza de que o sistema de vigilância, que
continuaria a registrar a presença de uma única pessoa no seu campo
de atividade, não suspeitaria de nada.
O japonês,
que saiu do interior do parque, evidentemente não representava nada
de anormal para a vigilância. O instrumento registrou sua presença
quando se aproximou do limite, mas não expediu qualquer aviso. E
agora que Tako executou outro salto para o interior do parque, não
saberia distinguir entre Rhodan e o japonês. Rhodan desejava que o
instrumento não se preocuparia pelo fato de que uma pessoa que se
deu ao trabalho de atravessar metade do parque para chegar ao limite
da zona crítica subitamente teria mudado de idéia, voltando ao
cruzar a mesma.
Uma vez
que ainda seria necessário proporcionar a Bell a oportunidade de
penetrar na área do parque, Rhodan esforçou-se para deixar o limite
para trás o mais depressa possível. Caminhou cerca de um quilômetro
em linha reta, em sentido perpendicular ao limite do parque. Tinha
certeza de que os sensores do sistema de vigilância não chegavam
até lá.
Enquanto
isso, Tako Kakuta voltou a pôr-se a caminho da fronteira. Vindo de
uma área que o sistema de vigilância não poderia considerar
crítico, repetiu a manobra, desaparecendo no mesmo instante em que
Reginald Bell transpôs a linha fronteiriça.
Para o
sistema de vigilância tudo continuava como antes: era um único
homem que se encontrava no interior de seu campo de atividade.
Reginald
Bell seguiu a pista de Rhodan, que se desenhava nitidamente em meio
ao capim. Por algum tempo sentiu-se perturbado por alguma coisa: era
um ruído cuja origem não conseguia identificar.
Levou
algum tempo para descobrir que não era nenhum ruído, mas a ausência
dum ruído. A tempestade acabara.
Bell não
acreditava que realmente tivesse acabado. Os arcônidas deviam
possuir alguma instalação que isolava suas áreas residenciais das
condições climáticas adversas do planeta em que se haviam
instalado.
Bell
sentiu certa admiração pela habilidade dos arcônidas em satisfazer
suas exigências de conforto pessoal até o extremo limite.
Levou
quinze minutos para encontrar Rhodan. Estava sentado na grama, ao pé
de uma árvore gigantesca e estranha, olhando através do dispositivo
de pontaria ótica de sua arma. Por pouco, Bell não tropeça por
cima dele. Os arcônidas não haviam feito nada para afastar a
escuridão reinante no parque.
— Que
quadro fantástico! — murmurou Rhodan.
Bell olhou
para trás. Tako ainda não havia chegado. Deitou no solo, colocou o
pesado desintegrador automático na posição mais cômoda que as
circunstâncias permitiam e ligou o dispositivo ótico infravermelho.
O quadro
que se lhe ofereceu não retratava as cores genuínas. O raio
refletido desenhava-se num branco ofuscante enquanto o resto do campo
permanecia negro. Com isso, a visão tornou-se ainda mais estranha.
Bell não
ignorava o que se ofereceria à sua vista, pois possuía o saber
arcônida. Sabia que as casas dos arcônidas eram construídas sob a
forma de enormes funis, porque sua arquitetura, fortemente impregnada
de psicologia, considerava esse formato como aquele que proporcionava
ao morador o máximo de individualidade e privacidade.
Mas saber
uma coisa e vê-la, são duas coisas completamente diferentes. Bell
conteve a respiração diante da visão fabulosa e fantástica. Viu,
desenhadas num branco-pálido e brilhante, os contornos estranhos das
árvores e dos arbustos que cresciam num chão coberto de grama. De
espaço a espaço, como que espalhadas ao acaso, as construções
afuniladas banhavam-se em luz. O tamanho das mesmas variava como o
das pedras espalhadas pela areia. Havia casas pequenas, em forma de
pavilhão que ofereciam um quadro gracioso, semi-ocultas pelas
árvores. Eram funis residenciais que deviam ter de dez a trinta
metros de altura, e edifícios gigantescos cujo ponto mais alto devia
distar mais de cem metros do solo.
Apoiados
sobre cabos relativamente finos, às vezes bastante compridos, os
funis eram verdadeiros milagres da estática e resistência de
materiais. E constituíam mais uma indicação de que a civilização
arcônida passara, especialmente no terreno privado, a não se
conformar com aquilo que a tecnologia oferecia, preferindo moldar
esta por seus próprios desejos.
De repente
o japonês surgiu diante de Rhodan e Bell.
— Está
pronto? — perguntou Rhodan.
— Sim
senhor — respondeu Tako. — Examinei a maior parte dos edifícios
de perto. Se, conforme supomos, Sergh ocupa o maior deles, devemos
seguir pela direita.
— Qual é
a distância?
— Cerca
de seis quilômetros.
— Que
maldição! — praguejou Bell. — Andar seis quilômetros na
bandeja do diabo!
— Façamos
votos de que os arcônidas estejam dormindo — tranqüilizou-o
Rhodan. — O sistema de vigilância não reagiu, e assim estão
despreocupados. A situação só se tornará crítica quando
penetrarmos na casa de Sergh.
4
No palácio
de Sergh, se é que podia ser chamado assim, era capaz de provocar um
acesso de agorafobia
numa pessoa que se mantivesse nas proximidades do cabo do funil e
levantasse os olhos, contemplando as paredes inclinadas para fora.
Era o
único edifício cujas paredes brilhavam sob uma luz opalescente, que
já a uma distância de três quilômetros indicara o caminho ao
grupo. O funil de Sergh era um dos poucos de cujas paredes inclinadas
saíam, de parte em parte, vias descaídas apoiadas sobre a coluna
que, atravessando o parque, levavam a outros edifícios ou à cidade
de Naatral.
Pelos
cálculos de Rhodan, o funil devia ter cerca de cento e oitenta
metros de altura. Por certo, não abrigava apenas a residência de
Sergh, mas algumas repartições importantes da administração.
A marcha
de Rhodan correu sem incidentes. Vez por outra os microfones externos
dos capacetes transmitiram ruídos que, segundo parecia, provinham de
veículos arcônidas. Mas os intrusos não chegaram a ver nenhum
desses veículos, muito menos se encontraram com qualquer arcônida.
Da Ganymed
não veio nenhuma novidade.
Além das
vias elevadas que ligavam o funil de Sergh com o mundo exterior, o
mesmo ainda possuía a entrada usual nesse tipo de arquitetura,
situada no cabo do funil. Era um portal largo, cuja soleira ficava a
dois metros acima do solo.
Provavelmente
teria que ser atingido por meio da fita transportadora dobrável.
Por um
instante, Rhodan brincou com a idéia de se aproximar do portal até
que o aviso automático reagisse, e esperar que o dono da casa fosse
bastante ingênuo para descer a fita e abrir a porta.
Mas logo
abandonou a idéia.
“Nada
de brincadeiras”,
pensou.
Encontravam-se
a trinta metros da parede externa do cabo. Rhodan sabia que o aviso
automático só reagiria quando o visitante se aproximasse a uma
distância de doze metros.
Durante
quinze minutos mantiveram-se em silêncio, observando a gigantesca
construção. Mas não havia nenhum indício que pudesse revelar se
os homens, que se encontravam no interior do prédio, estavam
acordados ou não. As paredes do funil afastavam o mundo exterior e
faziam com que nada do que acontecesse no seu interior pudesse ser
percebido do lado de fora.
— O que
estamos esperando? — perguntou Bell impaciente. — Não temos
tempo a perder.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Tako!
— Estou
pronto.
— Preste
atenção, Tako. Dar-lhe-ei mais uma vez um resumo das indicações
mais importantes. O funil é oco. As paredes internas são dispostas
em forma de terraço. Nos terraços inferiores, geralmente há
jardins. Acima deles ficam as peças usadas para residência e
escritório. Algumas se abrem para o lado de dentro, outras são
isoladas por meio de paredes. Não entre ali com a idéia de que verá
uma residência de feitio terreno. O funil forma um mundo por si. Por
dentro, provavelmente parece maior que de fora. O mais importante de
tudo: só faça uso de sua arma quando sua vida estiver em jogo e o
senhor não puder colocar-se em segurança por meio de um salto.
Entendido?
— Entendido.
— Muito
bem. Aguardo seu regresso dentro de quinze minutos, para apresentar o
primeiro relatório.
— Sim
senhor.
Quando a
última sílaba ainda soava nos ouvidos dos companheiros, Tako já
havia desaparecido.
A primeira
impressão que se apossou de Tako Kakuta no interior do funil foi a
de que uma força turbulenta o impelia para cima. Isto o fez bater,
com um ruído surdo, contra um dos pavimentos de terraço presos à
parede.
Um tanto
confuso, deu-se conta de que os arcônidas haviam providenciado para
que a gravitação no interior de suas residências correspondesse à
de Árcon. Portanto, equivalia aproximadamente à da Terra. Acontece
que o traje transportador estava regulado para a gravitação de 2,8
g, reinante do lado de fora.
Corrigiu o
erro e desceu suavemente sobre um canteiro de flores macio.
Rastejou
para trás de um arbusto e examinou os arredores.
O interior
do funil estava profusamente iluminado. Tako aterrizara no pavimento
inferior, isto é, no lugar em que terminava o cabo do funil. O
primeiro pavimento formava, por assim dizer, a base dos pavimentos em
forma de terraço situados mais acima. Era circular e tinha o
diâmetro do cabo do funil, fechando-o como se fosse uma tampa.
O círculo
de aproximadamente trinta metros de diâmetro era ocupado por um
jardim. Tako abriu o capacete, para completar as impressões que
estava recebendo. Sentiu-se atordoado por uma miríade de perfumes
diferentes, que o faziam prender a respiração, provocando ânsias
de espirrar.
Estreitas
veredas cortavam a profusão de flores, árvores e arbustos. Tako
ouviu o ruído de água. Provavelmente haviam construído um riacho
artificial.
Depois de
se ter saciado nas belezas do jardim, Tako dirigiu o olhar para cima.
Imponentes e graciosas, as paredes do funil abriam-se; atingiam uma
altura em que os olhos mal podiam segui-las face à iluminação
sempre igual, perdendo-se na periferia de um círculo negro.
Era o céu!
O céu noturno de Naat. De certa forma, o japonês sentiu-se
tranqüilizado ao notar que mesmo em meio a esse esplendor artificial
não estava totalmente isolado do ambiente natural. A visão do céu,
mesmo reduzido a uma mancha negra, espantou parte da depressão que
Tako sentira no início.
Examinou
cuidadosamente a disposição dos terraços. Pelos seus cálculos, a
altura de cada um deles devia ser de quatro ou cinco metros. Dessa
forma o funil estaria dividido em quarenta ou cinqüenta terraços
superpostos.
O aspecto
dos diversos pavimentos era extremamente variável. Nichos abertos
alternavam numa seqüência variável com paredes de vidro ou
janelas. Vez por outra, havia plataformas que sobressaíam da
estrutura dos terraços. Eram lugares destinados à apreciação do
panorama ou ao pouso de veículos aéreos.
O parque
em que Tako pousara também cobria os três pavimentos seguintes, em
parte sob a forma de jardins suspensos, fazendo com que os contornos
dos terraços ficassem ocultos pela vegetação profusa que descia
dos mesmos. Em alguns lugares, estranhas construções de plástico
sobressaíam entre o verde. Tako não teve a menor dúvida de que se
tratava de pedaços de pontes pendurados em meio ao verde, para que
os arcônidas tivessem oportunidade de passear ao ar livre.
Procurou
descobrir escadas ou corredores verticais que ligassem os terraços,
mas não encontrou nada. Provavelmente teriam sido instalados nos
fundos das salas, junto à parede externa do funil, portanto não
podiam ser vistos do lugar em que Tako se encontrava.
O japonês
olhou o relógio. Gastara pouco menos de dez minutos para
orientar-se. Já sabia como era o interior do funil, ao menos em suas
linhas gerais. Mas ainda não havia visto nenhum arcônida.
Estariam
todos dormindo?
Tako
arriscou mais um salto reduzido, que o deixou no corredor circular do
quinto terraço, contado de baixo. O parque e os jardins suspensos
ficaram sob ele. Lá de cima viu o riacho e o pequeno lago cuja água
provocava o ruído escutado lá embaixo.
Encontrava-se
num trecho do corredor aberto para o interior do funil, onde apenas
estava protegido por um corrimão, talvez de um metro de altura. À
direita e à esquerda abriam-se paredes altas, que se ligavam ao
terraço imediatamente superior. E o corredor aberto estava separado
das peças contíguas por meio de portas.
Tako
voltou-se para a direita e ficou satisfeito ao notar que a porta, que
tinha diante de si, se abriu quando se encontrava a três passos da
mesma, conforme era usual entre os arcônidas.
A sala que
ficava atrás da porta estava iluminada. Junto à parede havia
algumas mesas, e as chaves e escalas nelas existentes indicavam que
se tratava de emissores de telecomunicação. Algumas poltronas
articuladas de modelo arcônida pareciam perdidas no meio da sala. A
parede oposta estava coberta por várias telas. Ainda junto da parede
oposta às janelas, havia uma abertura circular no teto. Tako
caminhou rapidamente em direção à parede, colocou-se embaixo da
abertura e, conforme esperava, sentiu imediatamente a tração suave
do campo de antigravidade. Bastaria que se empurrasse ligeiramente
para que o campo o conduzisse rápida e seguramente ao pavimento
superior. Era um elevador antigravitacional, do mesmo modelo usado
nas naves espaciais terranas.
Um olhar
para o relógio o fez perceber que estava na hora de voltar. Quatorze
minutos já se haviam passado desde o momento em que deixara Rhodan e
Bell.
Fechando
os olhos, memorizou o lugar em que os dois o aguardavam.
Saltou.
*
* *
Sergh de
Teffron, da estirpe dos Hugral, radicado em Naat pela decisão sábia
do Imperador, geralmente não fazia a menor idéia de qual era a fase
do dia fora das paredes de seu funil. Como arcônida e, mais que
isso, membro de uma família muito conceituada, teria uma impressão
de ridículo ou de repugnância, conforme sua disposição
momentânea, se alguém manifestasse a idéia de que ele, Sergh,
deveria regular seu dia segundo a divisão arbitrária entre as horas
de luz e escuridão, criada pela natureza.
Sergh
orientava-se pelos seus desejos e necessidades. Não tinha a menor
idéia da situação vantajosa que ocupava em comparação com os
naats, e mesmo em comparação com muitos arcônidas que ocupavam
posições inferiores. Era detentor de um cargo cujas atribuições
eram exercidas por uma série de máquinas muito eficientes e um
grande contingente de subordinados. Morava num funil que mesmo em
Árcon raras vezes encontrava um igual. E isso, não apenas quanto ao
tamanho, mas também quanto às instalações da máquina de morar.
Quanto ao cargo que ocupava, nada tinha que fazer senão estar
presente. De resto, gastava o tempo seguindo suas inclinações.
Aliás, o
verbo seguir pode levar a erro. Seria preferível se disséssemos que
as esperava deitado. A ocupação principal dos arcônidas daqueles
tempos, que era o jogo simultâneo, era exercida nessa posição. Não
havia outra postura que melhor correspondesse à decadência e à
apatia daqueles seres.
Contudo,
Sergh costumava passar algumas horas do dia nos jardins maravilhosos
dos pavimentos inferiores. Deitado na grama ou balançando-se na
parte suspensa, costumava conversar com um dos seus subordinados ou
com algum hóspede.
Foi o que
aconteceu naquele dia. Desta vez o parceiro escolhido fora Ghorn, seu
jovem representante. Este não se sentiu nada feliz em ter que
abandonar a cômoda posição de repouso e ver-se obrigado a
afastar-se da tela fictícia, onde surgiram as figuras geométricas
abstratas criadas por seus pensamentos. Figuras que deslizavam,
dançavam, e iam-se colorindo de acordo com as regras do jogo
simultâneo. Mas Sergh era o único homem que realmente mandava
naquele palácio, e apesar de toda apatia de Ghorn, este não se
atreveria a deixar de cumprir qualquer de seus desejos.
Foram
descendo juntos por uma série de poços antigravitacionais, até
atingir o pavimento inferior. Deitaram na beira da lagoa em que
desembocava o riacho. Sergh perguntou:
— Por
que será que no jogo simultâneo é fácil produzir uma figura azul
de treze faces, mas nunca uma figura vermelha desse tipo?
Ghorn
respirou aliviado. Receava que o tema fosse mais enfadonho.
— Naturalmente
não sei, Senhor — respondeu prontamente. — Mas suponho que nosso
cérebro não é capaz de formular o pensamento correspondente. Uma
figura vermelha de treze faces corresponde a uma configuração de
pensamento que se torna impossível num cérebro arcônida.
Sergh
entusiasmou-se.
— Interessante,
muito interessante — exclamou. — Sou praticamente da mesma
opinião. Estou convicto — ergueu-se alguns centímetros sobre os
braços e olhou para um canteiro coberto de flores fareh
de caule longo — de que poderíamos ganhar uma série de aspectos
novos, se pudéssemos convencer certas inteligências estranhas a
participar dum jogo simultâneo. Ou então — voltou a erguer-se —
devíamos obrigar seres estranhos a colocar-se à nossa disposição
para os jogos simultâneos. Os naats, por exemplo...
Seguiu
suas idéias. Depois de deixar passar o tempo exigido pelo respeito,
Ghorn observou:

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