quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-043 - Cuidado com os Microrobôs - Kurt Mahr [parte 2]


Obrigado. Desejo o mesmo.
Tiff virou-se para voltar ao veículo. No momento em que fez o movimento sentiu uma pancada curta, mas violenta, no ombro. Girou instantaneamente sobre os calcanhares. Mas, por mais que forçasse a vista, não conseguiu enxergar nada no crepúsculo do anoitecer. A não ser o hono que continuava imóvel, sentado na pedra, as rochas espalhadas pelo vale e o grupo de cabanas junto ao paredão.
Mas tinha certeza de que, quando fosse inspecionar o traje protetor no interior da nave, encontraria um furo minúsculo na altura do ombro.
Caminhou apressadamente em direção ao veículo.

* * *

Os três honos pararam a dez metros da entrada da caverna. Chaney regulou o rádio de capacete de tal forma que sua voz fosse transmitida pelos alto-falantes externos.
O que desejam? — perguntou em arcônida.
Soubemos que vocês se acidentaram nesta área — respondeu um dos três. — Achamos que talvez precisem de auxílio.
Isso é muito gentil de sua parte — murmurou Hathome.
Chaney perguntou:
De que forma pretendem ajudar-nos?
Um dos honos respondeu:
Podemos mostrar-lhes um lugar em que as encostas do vale não são tão íngremes; e ainda poderíamos...
Hesitou um pouco, despertando a curiosidade de Chaney.
Poderiam o quê?
O hono refletiu um pouco. Depois de algum tempo disse, esticando as palavras:
Poderíamos mostrar-lhes a pista dos deuses.
Dos deuses?
Isso mesmo. Não estão procurando os deuses?
Chaney recapitulou instantaneamente. Na mitologia dos purificados havia deuses. Perry Rhodan estava convencido de que eram eles os responsáveis pela argonina.
Como soube disso? — perguntou Chaney.
O hono explicou que ouvira isso dos purificados, que ele mesmo não era nenhum purificado, mas um proscrito, e que os purificados haviam abandonado suas aldeias, motivo por que os proscritos conseguiram descobrir a pista dos deuses.
Chaney logo se decidiu.
Aguardem um instante — pediu aos honos.
Mandou que quatro dos seus homens saíssem da caverna e se postassem a dez metros da entrada.
Não aconteceu nada. Dali a dez minutos, os quatro continuavam tão ajuizados como no momento em que haviam saído da caverna. Ao que tudo indicava, a desgraça que atingira Dee e Crimson havia abandonado o vale, ou resolvera fazer uma pausa.
Chaney levantou-se.
Está bem — disse aos honos. — Ire mos com vocês.
Teremos que avançar pelo vale, na direção oeste — disse um deles. — Não deveremos ir muito longe. Mas amanhã de manhã...
Não se preocupem com a escuridão — interrompeu-o Chaney. — Temos lâmpadas fortes. Se não estiverem cansados, poderemos marchar durante a noite.
Chaney esperava que os honos recusassem. Mas parecia haver muita diferença entre os proscritos e os purificados. Os primeiros quase não conheciam a apatia e o desinteresse. Um deles respondeu:
Tanto melhor; assim chegaremos mais depressa.
Chaney perguntou-se por que aquele hono estaria tão interessado em mostrar a pista dos deuses a pessoas que nem sequer conhecia.
Ordenou aos homens que saíssem da conversa e seguissem os três honos, que já se haviam posto a caminho para o ocidente. Os holofotes portáteis foram preparados. Dentro de uma hora no máximo, o vale ficaria mergulhado numa escuridão completa.
Apesar do solo acidentado, a marcha prosseguia rapidamente. Os honos deslocavam-se agilmente nas pernas compridas, e a gravitação pouco intensa permitia aos terranos uma velocidade que em seu planeta não teriam agüentado por trinta minutos.
Pelos cálculos de Chaney, deviam percorrer cerca de doze quilômetros por hora. Depois que os honos tinham aludido à pista dos deuses, o cansaço se desvanecera.
Cerca de três quartas partes da noite deviam ter passado quando os honos estacaram e esperaram até que Chaney e seus homens se aproximassem.
O que houve? — perguntou Chaney.
Estamos quase chegando ao destino — respondeu um dos honos.
Que destino é esse? — perguntou Chaney.
É uma aldeia abandonada, onde começa a pista.
Ah! Vamos adiante.
O hono hesitou.
Eu... nós... — gaguejou.
Chaney sentia-se exausto. Estava nervoso sem que soubesse.
Eu, nós, o quê? Levem-nos até a aldeia.
Os deuses nos castigarão. Chaney mostrou um sorriso contrariado.
Os deuses? Pois pensava que vocês não acreditassem neles.
Não acreditamos da forma que os purificados crêem — respondeu o hono. — Mas não há a menor dúvida de que são poderosos.
Nós os protegeremos contra eles — prometeu Chaney. — Levem-nos até a aldeia.
Querem proteger-nos contra eles? Serão capazes disso?
Chaney teve a impressão de que havia uma leve ironia na pergunta e resolveu não forçar as coisas demais.
Acredito que sim — respondeu. — Ao menos faremos o que estiver ao nosso alcance.
O hono concordou com um gesto.
Estamos de acordo. Se os deuses quiserem fazer qualquer coisa contra nós, ficaremos escondidos atrás de suas costas.
E a marcha prosseguiu.
4



Tiff sentiu que alguém o sacudia fortemente pelo ombro. Levantou-se sobressaltado.
Na penumbra reinante no interior do veículo, viu o rosto preocupado de O’Keefe.
Está chegando alguma coisa — informou O’Keefe.
Tiff pôs-se de pé. Ainda sonolento, esgueirou-se entre os bancos e os homens que dormiam. Dirigiu-se à poltrona do piloto.
A imagem do vale, projetada na tela, era fantasmagórica. A luminosidade das estrelas só penetrava até a metade das encostas. Abaixo da linha iluminada pelas estrelas, começava a área de profunda escuridão. Esta era interrompida apenas por um estreito feixe de luz produzido pelos raios vindos na vertical, desenhando uma faixa luminosa no fundo do vale.
Tiff teve de forçar a vista por bastante tempo até enxergar aquilo a que O’Keefe se referia. Abaixo da linha iluminada das encostas do vale, a escuridão não era completa. Pouco acima do fundo do vale, aproximadamente no lugar em que Tiff, recorrendo à memória, imaginava ficar a curva, viu-se uma mancha de fraca luminosidade. Tiff constatou que a intensidade da luz não era constante, e que a mancha não permanecia no mesmo lugar.
O que acha? — perguntou a O’Keefe.
O’Keefe resmungou:
Até parece um holofote manual visto de longe e encoberto pela curva da encosta.
Isso mesmo. Mas quem poderia andar com um holofote manual por aqui?
O’Keefe esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas antes que pudesse fazê-lo Tiff teve uma idéia e acrescentou:
Um instante. A que distância estamos do lugar em que Chaney realizou o pouso de emergência?
O’Keefe fez um gesto de concordância.
Era o que eu pretendia dizer. Talvez seja o major Chaney com seu grupo.
Muito bem. Coloque uma sonda. Se for Chaney, está conversando com seu pessoal. E ele usa o mesmo tipo de traje protetor que nós.
O’Keefe colocou a sonda eletromagnética, um instrumento que registrava todo o espectro de radio-ondas com uma sensibilidade fantástica. A sonda estava acoplada a um alto-falante comum. Mal O’Keefe a ligou, ouviu-se uma voz retumbante:
Pelo que diz, a aldeia fica logo atrás da curva, Halligan. Mantenha os olhos bem abertos.
E Halligan respondeu:
Sim senhor. É o que estou fazendo.
O’Keefe gemeu.
Oh, não! — fungou. — Os céus não me podem fazer tanto mal. Logo Halligan, este velho canibal.
A amizade disfarçada em inimizade que reinava entre os dois sargentos já não era novidade entre os homens da frota espacial terrana. Halligan e O’Keefe não podiam jogar pôquer por cinco minutos sem brigar. Em compensação lutaram em Vênus, ombro a ombro, usando armas um tanto primitivas e detendo as hordas de Tomisenkow por algumas horas, até que recebessem reforços e pudessem aprisionar o inimigo.
Tiff sorriu e transmitiu um sinal codificado que seria ouvido no receptor de capacete de Chaney. Depois disse:
O tenente Tifflor reportando. Esta mos logo atrás da curva com cinco Câmbios. Faça o favor de não tropeçar por cima de nosso hono que está sentado junto à encosta.
Por alguns segundos não se ouviu nada. A seguir, a voz espantada de Chaney soou no alto-falante:
Tifflor! O senhor me ouve?
Ouço-o perfeitamente. Colocamos uma sonda.
Muito bem. Iremos até aí. Dê um sinal com o holofote.
Tiff obedeceu. Poucos minutos depois o grupo de Chaney, conduzido pelos três honos, dobrou a curva. Tiff já descera de seu veículo. Explicou a Chaney que nos Câmbios só havia lugar para metade dos homens do grupo; a outra metade teria que dormir ao ar livre. Chaney não gostou nem um pouco, e Tiff ficou sabendo o que havia acontecido com o tenente Crimson e o sargento Dee.
Mas, passando o facho do farol pela encosta, descobriram uma caverna igual àquela em que o grupo de Chaney se mantivera escondido até a chegada dos honos. Chaney abrigou dois terços dos seus homens nessa caverna e colocou os restantes nos veículos. Ele mesmo e o sargento Halligan penetraram no Câmbio número 1. O’Keefe, que os vira chegar na tela, deitou se e fez de conta que estava dormindo enquanto entravam pela comporta.
Os três honos que haviam marchado à frente do grupo de Chaney juntaram-se ao outro, que dirigira o grupo de Tiff. Não houve maiores cumprimentos. Ao que parecia, o hono que estava dormindo nem chegou a acordar. Os outros três sentaram da mesma forma que ele e dormiram com as cabeças balouçantes.
Ao que tudo indicava, a tarefa de Chaney estava tomando um rumo feliz. A Titan foi informada imediatamente sobre as ocorrências e o oficial de plantão não procurou disfarçar o alívio que sentiu. Tiff pediu novas instruções e foi informado de que poderia prosseguir por conta própria na operação de busca em que os honos lhe serviam de guia. Não se fez questão de que um dos honos ou todos eles fossem forçados a fazer uma visita à Titan. Rhodan disse que achava perfeitamente plausível sua afirmativa de não pertencerem à casta dos purificados. Sendo assim, não acreditava que poderia tirar alguma coisa desses indivíduos através dos recursos psicanalíticos.
O que provocou certo nervosismo foi o fato de que Tiff, suspeitando de alguma coisa, examinou na manhã do dia seguinte os trajes protetores de Dee e Crimson e viu suas suspeitas confirmadas.
Em cada um dos trajes havia três perfurações muito finas. Ao contrário das que haviam sido encontradas no traje de Tiff, estas atravessavam o plástico. Colocaram os doentes num dos Câmbios, tiraram suas roupas e procuraram descobrir picadas em seu corpo. Não encontraram nada. Se houve alguma — e Tiff estava convencido de que houve — as feridas certamente se fecharam no dia anterior, sem deixar o menor vestígio.
O passo seguinte consistiu numa revista da aldeia abandonada. As cabanas, feitas com madeira semelhante ao bambu, eram de construção bastante primitiva. Consistiam de um único recinto. Pela sujeira que se espalhava no chão de terra batida concluía-se que a aldeia já devia ter sido abandonada muito antes do dia em que os terranos puseram os pés em Honur. Todavia, Tiff, Chaney e Hathome não pode riam deixar de reconhecer que não sabiam quase nada sobre as concepções de higiene reinantes entre os purificados. Era bem possível que a sujeira das cabanas fosse justamente o elemento em que se sentiam bem.
Durante o exame, os quatro honos mantiveram-se à distância. Ao que parecia, tinham medo das cabanas desabitadas. Tiff, porém, teve de pedir aos honos que se aproximassem, pois não conseguia encontrar a pista dos deuses.
Vieram em passos hesitantes. O indivíduo que guiara o grupo de Tiff, ao qual o sargento O’Keefe dera o apelido de Nathan, caminhava à frente dos outros.
Estamos procurando a pista dos deuses, mas não conseguimos encontrá-la — disse Tiff.
Não fica aqui — respondeu Nathan em tom compenetrado. — O senhor poderá encontrá-la mais adiante, no lugar em que começa a fenda na rocha.
Tiff examinou a fenda. Tinha menos de dois metros de largura e parecia estreitar-se ainda mais na parte dos fundos. Um regato jorrava tranqüilamente de dentro da pequena gruta. Daí se concluía que a inclinação da fenda não era muito acentuada.
No lugar em que a água jorrava do paredão, uma vegetação rasteira e de folhas duras cobria a rocha.
Tiff, Chaney e Hathome examinaram o solo nas proximidades da área coberta pela vegetação. Nathan e os outros honos olhavam-nos como quem não tem nada a ver com aquilo. Só depois de alguns minutos, Nathan começou a falar:
Vocês terão de entrar nessas moitas. Como vêem, há um lugar em que são mais ralas. É lá que começa a pista.
Tiff viu o lugar de vegetação mais rala, examinou-o e chegou à conclusão de que não se formara de maneira natural.
Está vendo estes galhos quebrados? — perguntou, dirigindo-se a Chaney.
Chaney confirmou com um aceno de cabeça.
Até parece que alguma coisa abriu caminho à força. E, pelos meus cálculos, isso deve ter acontecido há poucos dias.
Tiff ajoelhou-se.
Os galhos estão todos quebrados até as raízes — murmurou. — Até os troncos foram quebrados.
Chaney enfiou-se pela vegetação, abrindo caminho com os cotovelos. Desapareceu no interior da fenda. Tiff ouviu-o fungar de surpresa. Depois de algum tempo gritou:
Hathome! Tifflor! Venham cá!
Com um salto vigoroso Tiff atravessou a folhagem. Hathome seguiu de perto. O major Chaney estava agachado. Sua mão enluvada apontava a uma marca nítida deixada no solo, junto ao regato.
A impressão deixada no solo tinha cerca de um metro de comprimento e meio metro de largura. Estava subdividida em retângulos de cinqüenta centímetros de comprimento e vinte de largura.
Tiff examinou a marca por algum tempo, sem chegar a qualquer conclusão. Finalmente Chaney, que tinha avançado mais alguns metros, exclamou:
Aqui é bem mais nítida.
A segunda marca era um pouco mais comprida; tinha pouco menos de dois metros. Em tudo mais, era igual a outra, com exceção do corpo sujo e achatado de um nonus, estendido no interior da marca.
É uma esteira! — exclamou Tiff. — Uma simples esteira de tanque.
Chaney confirmou com um aceno de cabeça e apalpou o chão com o dedo.
Não há dúvida. Acontece que só se vê a marca de uma esteira. Onde terá ficado a da segunda?
Tiff avaliou a largura da marca.
Não acredito que exista outra esteira — disse.
Como?
Acha que se trata de um veículo de esteira única — interveio Hathome.
É isso mesmo. A marca tem meio metro de largura. Um veículo estreito pode equilibrar-se perfeitamente numa base destas.
Chaney refletiu.
É possível que o senhor tenha razão, Tifflor — confessou. — E o veículo só pode ser estreito, pois do contrário não conseguiria entrar aqui.
Tiff contemplou o cadáver do ursinho.
Se nos lembrarmos de que os únicos veículos dos purificados são suas pernas... — disse em tom pensativo.
...chegaremos à conclusão de que aquilo que temos diante de nós realmente é uma pista dos deuses — completou Chaney em tom resoluto.
Hathome não estava totalmente de acordo.
Se quisesse fazer o favor de explicar o que alguém pode fazer num buraco destes com um veículo de esteira, eu lhe ficaria muito grato. Por enquanto tenho a impressão...
Por quê? — interrompeu-o Chaney. — Entraram por aqui. Provavelmente levaram os honos a algum esconderijo. Pelo que sei a respeito dos purificados, eles não tinham certeza de que os honos saberiam deslocar-se com a velocidade necessária se não recorressem a um veículo.
É possível... — murmurou Hathome.
Procure superar esse ceticismo — disse Chaney em tom alegre. — A pista é esta, e nós a seguiremos.
Tiff virou ostensivamente a cabeça. Chaney percebeu o gesto.
Tem alguma dúvida? — perguntou.
Para falar com franqueza, tenho — respondeu Tiff. — Não conseguimos entra aqui com os Câmbios.
É verdade. Metade dos homens terão de ficar aqui, com os Câmbios, a fim de nos darem cobertura. Quanto ao mais, acredito que nossas armas serão suficientes para livrar-nos de qualquer incômodo que possa surgir.
Tiff lembrou-se das perfurações encontradas nos trajes espaciais, mas preferiu não formular qualquer objeção. Não tinha receio de contradizer Chaney, mas estava muito curioso para descobrir aonde o levaria a pista.
Não demoraria a chegar o instante em que a responsabilidade por essa atitude leviana representaria uma carga pesada para ele.
Chaney avançou mais um pouco para o interior da fenda. Via de regra o chão era firme, sendo formado de rocha compacta. Somente nas curvas do regato, onde a corrente deixara um pouco de areia ou seixos, aparecia a marca de esteira. Nesses lugares ainda havia arbustos e pequenas árvores; pelas deformações ou danos sofridos pelas plantas, podia-se tirar uma conclusão sobre o formato do veículo que abrira caminho por ali.
Devia ter cerca de um metro de altura e sua largura não seria muito maior que a da marca da esteira. Se tivesse mais de dois metros de comprimento, teria que consistir em partes articuladas, pois nos primeiros cem metros a fenda descrevia curvas tão fechadas que qualquer veículo inteiriço desse comprimento não conseguiria ultrapassá-las.
O que causou estranheza a Tiff foi o fato de que em três das oito marcas de esteira existentes nos primeiros cem metros encontraram um ursinho morto. Hathome murmurou em tom pouco convicto:
Até parece que a cada trinta metros um dos ursinhos foi atirado à frente das esteiras. Talvez seja uma espécie de sacrifício.
Seria inútil refletir a este respeito. A mentalidade dos purificados era tão conhecida que não havia a menor possibilidade de encontrarem uma resposta.
Voltaram à entrada da fenda. Os quatro honos, com Nathan à frente, continuavam a esperar em atitude compenetrada, mantendo-se fora da área coberta pela vegetação.
Encontraram a pista? — perguntou Nathan.
Encontramos — respondeu o major Chaney com a voz alta e alegre. — E vamos segui-la.
Nathan fez um gesto preocupado.
Sabem que nossas idéias sobre os deuses são muito diferentes daquelas que passam pela cabeça dos seres que se chamam de purificados — disse. — No entanto, acreditamos que os deuses são seres muito poderosos. Não sabemos se convém que vocês sigam a pista deles. Poderiam armar uma cilada e destruí-los.
O major Chaney parou perto de Nathan.
Escute aí, meu filho — disse em tom amável. — Se é assim, por que nos mostraram a pista? Queriam que a olhássemos e déssemos o fora?
Bem, não foi isso...
Então, o que foi?
Nathan lançou um olhar para seus companheiros de raça e respondeu em tom mais seguro:
Acreditávamos que vocês fossem seguir a pista. De qualquer maneira, não queremos deixar de preveni-los.
Virão conosco quando seguirmos a pista? — perguntou o major.
Nathan assustou-se.
Logo nós? Não poderíamos prestar muita ajuda a vocês.
Ora essa — disse Chaney, esticando as palavras. — Não pensei em ajuda. Apenas pensei que se interessassem em assisti à descoberta do esconderijo dos deuses.
Mais uma vez Nathan lançou um olhar para seus companheiros, que parecia um pedido de socorro.
Receio que nossa autoconfiança seja menor que a sua — confessou depois de algum tempo.
Chaney confirmou com um gesto da cabeça.
Já que estão com medo — disse — poderão ficar aqui, aguardando nosso regresso.

* * *

A divisão dos homens foi feita em dois grupos — o sargento Hathome comandaria o grupo junto aos Câmbios, enquanto o outro acompanharia o major Chaney e o tenente Tifflor ao longo da pista dos deuses — correu sem maiores incidentes, com exceção de um pequeno episódio.
Este foi proporcionado pelos sargentos Halligan e O’Keefe. Quando este último ficou sabendo que Halligan participaria com ele da operação de busca, apresentou-se imediatamente a Tiff.
Assim não é possível — fungou. — Eu e este trapaceiro de jogo do Halligan não podemos pertencer ao mesmo grupo. Não será por minha culpa, mas juro-lhe que dentro de uma hora alguém será assassinado.
Tiff procurou aplacar a ira do sargento, mas antes que pudesse fazê-lo ouviu a voz de Chaney no receptor de capacete.
Chaney chamando Tifflor! Queira apresentar-se.
Tifflor respondeu imediatamente.
Preste atenção, tenente — disse Chaney. Pelo tom de voz, parecia que começaria a rir a qualquer instante. — Neste momento estou falando com o sargento Halligan, que diz que não está em condições de ir conosco se o sargento O’Keefe fizer parte do grupo. Por acaso o outro membro da dupla estará falando com o senhor neste instante?
Tiff reprimiu o riso.
Sim senhor.
Pois diga-lhe a mesma coisa que acabo de falar com Halligan. Mandarei rasgar seus trajes espaciais a faca se criarem qualquer problema durante a marcha.
Entendido. Darei o recado.
Era claro que O’Keefe acompanhara a conversa pelo receptor de capacete. Tiff viu que revirava os olhos.
Bem, já que é assim... — disse Tiff.
O’Keefe afastou-se sem dizer mais uma única palavra.
Mas ainda houve uma surpresa de verdade, mas esta não tinha nada a ver com os homens do grupo. Foi causada por Nathan, o hono. Dirigindo-se ao major Chaney, disse:
Andamos pensando sobre o que disse. Gostaríamos de ir com vocês.
Chaney teve bastante senso diplomático para não dar a perceber a leve ironia que surgiu em sua mente.
Não tenho a menor objeção — disse.
E ficou nisso.

* * *

Sem contar os quatro honos, eram vinte homens que se puseram a caminho sob o comando do major Chaney. Partiram pelo meio-dia. Fora as armas, o equipamento mais importante que levavam era um transmissor portátil de alcance quase ilimitado. Fora retirado de um dos Câmbios e estava acoplado a um gerador de emergência. Por meio dele poderiam manter contato com os veículos. E não teriam a menor dificuldade em comunicar-se com a Titan ou a Ganymed, se isso se tornasse necessário.
O grupo de cerca de trinta homens, que ficara nos Câmbios, fora instruído a não sair dos veículos em hipótese alguma. Era bem verdade que aquela coisa desconhecida que causara a doença de Dee e Crimson não aparecera mais, mas nem por isso poderia concluir que dali em diante não haveria mais nenhum perigo.
No início Chaney e Tiff acreditaram que a fenda, tão estreita junto à entrada, não poderia avançar mais que um ou dois quilômetros rocha adentro. No entanto, marcharam até o escurecer. Porém só encontraram o mesmo regato, a rocha nua e, vez por outra, um montão de areia e pedregulho coberto de vegetação. Daí concluíram que a suposição inicial fora um tanto precipitada Era bem possível que o comprimento da fenda chegasse a algumas centenas de quilômetros.
Ainda bem que viam a marca de esteira na areia. Assim, pelo menos, tinham certeza quanto ao caminho seguido pelo inimigo desconhecido.
Quando escureceu de vez, Chaney mandou os homens descansarem. Colocou três sentinelas na vanguarda e na retaguarda do grupo. Equipados com faróis manuais, passariam a luz ininterruptamente por todos os cantos da fenda. Recomendou aos outros homens que baixassem o volume dos receptores de capacete e procurassem dormir.
A área em que resolveram descansar era tão apertada que não havia possibilidade de separar os quatro honos do resto do grupo. Escolheram um lugar para sentar em meio aos homens e puseram-se a dormir.
Tiff encontrara um lugar confortável junto à parede de rocha. Estava deitado perto de Nathan. Este colocara os braços longos e ossudos sobre as pernas e olhava fixamente para a frente; parecia refletir. Vez por outra o reflexo de um dos faróis iluminava seu rosto anguloso.
Gostaria de saber qual é a diferença entre vocês e os purificados — disse Tiff de repente.
Nathan sobressaltou-se como uma pessoa que desperta do estado de profunda meditação. Olhou para o lado e procurou descobrir quem lhe dirigia a palavra.
Ah, é você. A resposta é fácil. Não acreditamos nos deuses da mesma forma que os purificados.
Hum — fez Tiff. — Já ouvi isso várias vezes. Vocês não acreditam da mesma forma. Então, qual é sua crença?
Tiff percebeu que a pergunta não agradou a Nathan.
Para nós os deuses são seres poderosos — respondeu Nathan depois de algum tempo. — Mas não são verdadeiros deuses.
Qual é a diferença entre um ser poderoso e um deus?
Um ser poderoso não pode fazer milagres — respondeu Nathan prontamente.
Tiff teve a impressão de que no tom de voz de Nathan havia um ligeiro soluço.
O que vem a ser um milagre?
Nathan refletiu.
Se os deuses pudessem destruí-los simplesmente em virtude de seu desejo, sem recorrer a qualquer meio externo, isso seria um milagre.
Escute aí — protestou Tiff. — O exemplo que você acaba de citar não é nada gentil.
Nathan soltou um tipo de risadinha.
Mas é bastante compreensível.
Tem certeza de que os deuses desejam nossa destruição?
Tenho certeza absoluta.
Por quê?
Porque nunca toleraram que alguém seguisse seus passos.
Vocês nunca fizeram isso?
Nunca. Tememos os deuses.
Não sabem onde vivem?
Nathan fez um gesto de negação.
Entre os purificados corre uma lenda...
Hesitou, como se estivesse refletindo se devia confiar a informação a Tiff.
Uma lenda? — insistiu Tiff.
Isso mesmo. Os purificados acreditam que os deuses vivem embaixo da superfície. Se fossem deuses, ou mesmo que fossem apenas seres poderosos, como nós acreditamos, não teriam motivo para submeter-se ao incômodo de viverem embaixo do solo.
A conclusão era bastante plausível. Tiff refletiu sobre a lenda. Quando pretendia formular outra pergunta, viu que este adormecera. Ou então, fazia de conta que estava dormindo para fugir à curiosidade de Tiff.

* * *

Durante o resto da noite e no dia seguinte, até o fim da tarde, não houve qualquer acontecimento importante. A marcha prosseguiu; a fenda subia ligeiramente rocha adentro, sem que sua largura ou seu aspecto geral sofresse qualquer modificação. Nos trechos arenosos, continuava a aparecer a estranha marca do veículo de esteira.
No fim da tarde, a fenda abriu-se num vale. A transição foi rápida e surpreendente, e na penumbra ali reinante não pôde ser notada antes que chegassem ao local. Por isso alguns dos homens já estavam pisando a grama do vale quando Chaney mandou que parassem.
Iluminando o vale, Chaney percebeu que era redondo e tinha uns cinqüenta metros de diâmetro. As encostas subiam na vertical. O regato cujo leito haviam seguido parecia nascer no paredão do lado oposto e, ao atravessar o vale, proporcionava umidade suficiente para fazer nascer uma vegetação que, para o planeta de Honur, devia ser considerada abundante. O chão estava coberto por um capim alto e espesso, os arbustos cresciam de espaço a espaço e junto ao regato havia pequenas árvores.
Aquele vale fértil em meio ao deserto rochoso era um verdadeiro milagre. Até mesmo Chaney, um homem objetivo, pouco dado ao romantismo, levou algum tempo para recuperar-se da surpresa e começar a procurar a marca da esteira.
Era claro que na grama, que voltara a erguer-se depois de amassada, a marca não se conservaria por tanto tempo como no solo arenoso encontrado nas curvas do regato. Assim mesmo, porém, uma faixa estreita de folhas ressequidas indicava o rumo do veículo desconhecido.
Chaney hesitou, sem saber se devia mandar seus homens penetrarem no vale.
Não sei — disse, dirigindo-se a Tiff pelo rádio de capacete regulado num volume reduzido. — Não estou gostando disso. Quando estivermos lá dentro, basta que alguém feche a entrada, e estaremos numa armadilha.
Tiff olhou em torno. Dois dos faróis manuais ainda dirigiam seus amplos feixes de raios para o interior do vale. Ao que parecia, não havia outra saída.
Se necessário, a Titan poderia mandar algumas Gazelas para virem em nosso auxílio — disse Tiff. — Afinal, não estamos numa guerra de índios.
Chaney deu uma risada amarga.
Logo se vê que o senhor nunca se viu forçado a pousar com uma Gazela no planeta Honur.
Rhodan poderia vir com a Titan em peso — disse Tiff em defesa de seu ponto de vista. — De qualquer maneira, seria uma incoerência voltarmos daqui.
Chaney acenou com a cabeça e murmurou:
É verdade. Mas acho preferível ser um incoerente vivo que um coerente morto.
Mas acabou informando os veículos sobre a descoberta do vale. Depois mandou que uma patrulha de dez homens vasculhasse o terreno. Por fim não teve mais nenhuma dúvida em permitir que o grupo seguisse pela faixa de capim ressequido por onde havia passado a esteira, até atingir o paredão do lado oposto.
Na verdade, a pista terminava abruptamente poucos metros antes do paredão. Mas Chaney pretendia aguardar o raiar do dia seguinte para iniciar uma busca intensiva. Estava começando a escurecer, e no momento o mais importante era examinar a área em que iriam acampar e protegê-la contra qualquer ataque de surpresa.
Chaney mandou que alguns homens seguissem junto aos paredões, em torno do vale. Estes informaram que havia uma única caverna, e esta era tão pequena que não poderia abrigar mais de quatro homens. Chaney não gostou da notícia; desde o momento em que Dee e Crimson adoeceram, sentiu uma forte antipatia contra as áreas abertas.
Mas não tinha outro remédio senão conformar-se com a situação. Por meio dos desintegradores, poderia fundir a rocha e abrir uma caverna em que todo o grupo pudesse recolher-se. Mas o desempenho energético dos desintegradores seria tão intenso que os aparelhos o registrariam a milhares de quilômetros de distância. Chaney preferiu assumir o risco do pernoite ao ar livre.
Nos outros membros do grupo também se notava um nervosismo indisfarçável. Todos viram que nesse vale chegava ao fim a pista que haviam seguido. Só havia duas possibilidades: o veículo de esteira ainda se encontraria no vale, ou teria desaparecido nos paredões de rocha.
De qualquer maneira haviam chegado a um ponto decisivo.
Tiff procurou encontrar mais uma vez um lugar perto de Nathan. Mas o hono parecia ter percebido sua intenção e esquivou-se. Ao que tudo indicava, não sentia a menor vontade de submeter-se a outro interrogatório.

* * *

Não é nada confortável dormir dentro de um traje espacial. É verdade que o capacete fornece certo apoio à cabeça, mas esse apoio só é proporcionado pela parte traseira do mesmo. Alguém que não esteja acostumado a dormir de costas terá de passar um mau bocado.
Tiff acordou mais de uma vez. Praguejou por causa do desconforto do capacete. Procurou melhor posição e tentou adormecer.
Em certo momento escorregou da pedra que lhe servia de apoio e, enquanto se esforçava para levantar-se, acordou de vez.
Durante uns cinco ou dez minutos ficou deitado, imóvel, fitando o trecho circular do céu estrelado que era recortado pelos paredões do vale. Esforçou-se para dormir de novo.
Quase no subconsciente, percebeu que havia algo por ali que não estava certo. Movendo-se devagar e cautelosamente, deixou-se escorregar da pedra na qual subira com tanto trabalho. Com isso a cabeça ficou em posição quase vertical. Pôs-se a observar.
Alguns minutos se passaram. Tiff já estava praticamente convencido de que se deixara enganar por alguma coisa quando viu o movimento. A visão era estranha, mas inconfundível. Alguma coisa rastejava cautelosamente pelo capim, alguns metros do lugar em que se encontravam seus pés.
No início apenas sentiu curiosidade. As sentinelas escaladas por Chaney ocupavam todas as posições estratégicas do vale. Nenhuma pessoa desconhecida penetraria ali sem ser notada, mesmo que viesse por cima.
De repente, Tiff olhou para o lugar em que Nathan se sentara ao anoitecer, e que ficava a uns dez metros do ponto em que ele mesmo se deitara para dormir.
A luz das estrelas foi suficiente para que notasse que o lugar estava vazio.
Tiff ergueu-se e procurou descobrir os outros honos, que se haviam sentado perto de Nathan. Também tinham desaparecido.
A princípio Tiff desconfiou de que estivessem arrependidos da decisão de seguirem a pista dos deuses e, para não expor-se ao ridículo, pretendiam fugir às escondidas. Mas achou que valia a pena examinar o problema mais detidamente.
Ergueu-se sobre os cotovelos, deixou-se cair para a frente e rastejou na direção em que vira o vulto que se movia. Tateando e vendo, seguiu o rastro amplo que seguia pelo capim. O que lhe deu de pensar foi que o rastejante não se dirigia à saída do vale, mas seguia para a direita, em direção ao paredão.
Seguiu o rastro e logo começou a aproximar-se do paredão; não viu os honos. Pouco antes de chegar ao paredão, uns vinte metros à direita do lugar em que se encontrava a fileira de homens que dormiam, voltou a descobrir o movimento apressado e confuso que pouco antes lhe despertara a atenção.
Sem pensar duas vezes, levantou-se de vez e com dois grandes saltos chegou ao paredão. A idéia de que isso o poderia expor a algum perigo só lhe veio à mente quando uma força invisível o agarrou. Esta o atirou para trás. Tiff teve a impressão que uma granada estava explodindo em seu cérebro.
Tiff caiu de lado e por alguns segundos ficou quase inconsciente. Fazendo um esforço tremendo, conseguiu erguer-se sobre os cotovelos e fitou o paredão. De repente, espantado, observou que os honos — ou aquilo que ele tinha percebido, pensando que eram eles — desapareceram.
Notou o perigo sem compreendê-lo. Com um movimento rápido, regulou o rádio de capacete para o volume máximo e gritou:
Alarma! Os honos fugiram!
Por um instante, não ouviu no seu receptor outra coisa além do ruído dos homens que despertavam, erguendo-se lentamente e girando os botões de seus rádios de capacete. Finalmente ouviu a voz de Chaney, que soou tranqüila e paternal:
Por que tanto nervosismo, Tiff? O que nos importam os honos se a vida é tão bela?
5



O ataque à Titan começou no meio da noite. Não pegou a nave desprevenida. A partir do momento em que a nave pousara pela segunda vez no planeta Honur, os homens não tinham outra coisa a fazer senão ficar com os olhos abertos.
E o ataque foi desencadeado de maneira tão estranha que nem por um instante se poderia duvidar do resultado da luta. Hordas imensas de robôs surgiram dos vales, das margens do lago e da planície e marcharam em direção à nave.
Perry Rhodan se encontrava na sala de comando. Deixou que os robôs se aproximassem, até que revelaram suas verdadeiras intenções por meio de salvas disparadas de uma espécie de radiadores de impulsos.
Os campos protetores da Titan não tiveram a menor dificuldade em absorver o impacto. Os raios de desintegração disparados pelas grandes peças de artilharia da nave abriram enormes clareiras nas fileiras de robôs, tangendo nuvens reluzentes de poeira metálica por cima da superfície do lago.
As máquinas estranhas espalharam-se Os raios energéticos ofuscantes por eles disparados chiavam sem cessar de encontro aos campos protetores invisíveis e perdiam-se em meio a fogos de artifício coloridos.
Depois que algumas salvas potentes; haviam destruído cerca de metade do exército de robôs, os homens, que guarneciam os postos de artilharia da Titan, tiveram de recorrer ao fogo dirigido. Pelas estimativas, o número total de robôs devia ser de cerca de oito mil. Eram do tipo daqueles que, por ocasião do primeiro pouso da Titan no planeta Honur, tentaram atacar a nave.
As fileiras de robôs foram minguando. Em nenhum ponto conseguiram aproximar-se da Titan a mais de cem metros que correspondiam à distância dos campos defensivos. Alguns robôs que avançaram demais derreteram-se sob a ação energética dos campos.
Depois de duas horas de batalha não havia mais nenhum robô que se movesse.
Em compensação, a bordo da Titan começaram a refletir sobre as finalidades do ataque. O inimigo não poderia estar mal informado a ponto de acreditar que poderia conquistar a Titan com oito mil, ou mesmo dez mil robôs.
Quais seriam suas intenções?
Os receptores automáticos, que mesmo durante o combate continuaram a funcionar, registrando as mensagens, sabiam a resposta. Depois de suspenso o combate, o oficial de rádio retornou ao seu lugar e retirou do aparelho uma mensagem de telecomunicação expedida pelo grupo de veículos:
O comando Chaney-Tifflor foi atacado por inimigos desconhecidos. Posição...
Seguiram-se alguns dados que permitiram a localização exata do pequeno vale nos mapas. A mensagem ainda dizia que o alarma fora expedido pelo tenente Tifflor.
A finalidade do ataque de robôs desencadeado contra a Titan consistira unicamente em desviar as atenções do grupo que se encontrava empenhado numa operação de busca nas montanhas.
Alguns minutos depois, a estação dos Câmbios ainda captara a seguinte mensagem:
Não se preocupem por nossa causa. Estamos bem. A vida é tão bela.
Também este texto foi retransmitido fielmente à Titan.
O pânico tomou conta da sala de comando. Todos correram para seus lugares e estenderam a mão. Preparavam-se para executar o movimento que teriam de fazer no instante em que Rhodan ordenasse a decolagem instantânea.
Mas isso não aconteceu. Com um ligeiro sorriso, Rhodan pediu aos homens que conservassem a calma.
Acho que no momento não podemos fazer nada por esses coitados — acrescentou.
Não explicou porque acreditava que mais tarde talvez pudesse fazer alguma coisa.
Para aumentar ainda mais a confusão entre a oficialidade, mandou que o grupo de Câmbios regressasse à Titan pelo caminho mais rápido.
Algum tempo depois, quando os Câmbios já se encontravam a caminho, a nave captou uma mensagem curta e esquisita, transmitida pela onda comum:
Somos três e vamos fazer um piquenique...
Pelo que dizia a pessoa que recebera a mensagem, a voz que transmitira a mensagem era de Tiff — e vinha com um sotaque de quem acabara de tomar duas garrafas de uísque escocês. Os oficiais que se encontravam na sala de comando pensavam que a argonina era responsável pela alegria de Tiff. Naturalmente. O que poderia ser? Mas o sorriso matreiro de Rhodan lhes deu o que pensar.

* * *

Era claro que Rhodan não tinha certeza absoluta. Mesmo intoxicado, Tiff poderia lembrar-se da senha “piquenique”, Talvez quisesse divertir-se, enganando seu comandante ao lhe dar o sinal convencionado.
Mas Rhodan duvidava de que alguém que se encontrasse sob os efeitos da argonina fosse capaz de praticar uma brincadeira premeditada. O mais provável era que Tiff conseguira livrar-se da embriagues geral com mais dois elementos.
Agora teria que fazer alguma coisa que Rhodan odiava por sua própria natureza: esperar, esperar pelo resultado do piquenique.
Havia outra coisa quase tão penosa como a espera: Rhodan tinha de guardar para si o que sabia, suportando pacientemente os rostos desolados ou perplexos de seus companheiros.
Mas o risco era muito grande. Tinham de contar com a possibilidade de que o inimigo captasse qualquer mensagem transmitida pelo rádio ou pelo telecomunicador. Sem dúvida, a essa altura já dominava a língua inglesa. Se por qualquer descuido fosse feita uma alusão, por mais leve que fosse, ao verdadeiro estado de Tiff — o que poderia acontecer, por exemplo, numa palestra com a Ganymed — o piquenique de Tiff não duraria nem mais um minuto, e teriam de começar tudo de novo.
Só lhe restava esperar e calar a boca.

* * *

Tiff compreendeu imediatamente o que havia acontecido. A pior das hipóteses previstas nas instruções que levara acabara de ocorrer.
Depois do alarma de Tiff e da resposta alegre do major Chaney, a confusão tomou conta do vale. Faróis acenderam-se, iluminando homens que davam saltos grotescos em meio ao capim. Os gritos de surpresa dos homens que ainda não haviam sido intoxicados misturaram-se às manifestações de júbilo daqueles que já haviam absorvido a argonina em seu organismo.
As manifestações de alegria tornavam-se cada vez mais ruidosas, e os gritos de surpresa foram diminuindo.
Arrastando-se rente ao solo, Tiff dirigiu-se ao lugar em que ao anoitecer os homens de Chaney haviam descoberto uma caverna. Enquanto isso gritava:
Quem ainda não estiver doente, dirija-se à caverna.
Ficou gritando até que, na sua opinião, qualquer homem sadio o teria ouvido e estaria em condições de seguir suas instruções. Já havia chegado à caverna. Só encontrou um único homem.
Quem está aí? — perguntou Tiff.
O sagrado O’Keefe — respondeu o vulto.
Está armado?
Além de estar armado ainda tenho em mãos o transmissor.
Excelente!
Tiff pegou o aparelho e transmitiu a mensagem que os tripulantes da Titan só puderam ouvir depois de terminada a batalha contra os robôs. Depois ordenou a O’Keefe:
Ligue os aparelhos para a altura mínima, sargento. Não nos devem ouvir nem a três metros de distância.
O’Keefe obedeceu sem dizer uma palavra. Depois perguntou:
E agora?
Espere — murmurou Tiff. — Não quero contar a mesma história duas vezes.
Um hora depois do momento em que tivera início a confusão, Tiff tinha certeza quase absoluta de que além dele mesmo e de O’Keefe ninguém havia escapado ao ataque traiçoeiro.
Lá fora, no vale, os homens intoxicados pela argonina gritavam e uivavam que nem os loucos, gozando a vida. Os receptores regulados para o volume mínimo traziam o ruído abafado da algazarra.
Quando um vulto disforme foi se arrastando lentamente pelo capim, aproximando-se da caverna, Tiff pensou que se tratasse de um dos intoxicados, que estivesse à procura de um divertimento diferente.
Mas pouco antes de chegar ao paredão, o vulto ergueu-se e perguntou com a voz abafada:
É o tenente Tifflor?
Tiff deu-se a conhecer.
Halligan? É o senhor?
Sim senhor.
Entre e baixe o volume de seu rádio. Por que demorou tanto?
Fiquei esperando até que os animais que andaram zumbido por aí tivessem desaparecido.
Chegou a vê-los? — perguntou Tiff surpreso.
Vi perfeitamente. Estava ao lado de um dos idiotas que eles pegaram em primeiro lugar. Andou dirigindo a luz do seu farol para todos os lados, e por isso tive uma visão nítida dos mosquitos.
Halligan rastejou para o interior da caverna. Alguém soltou um forte gemido.
Pelo amor de Deus! — suspirou Halligan. — Não venha me dizer que é esse sapo do O’Keefe!
É isso mesmo — disse O’Keefe por entre os dentes. — Vou dizer-lhe uma coisa. Se...
Silêncio! — exclamou Tiff em tom enérgico. — Não temos tempo para esse tipo de brincadeira.
Duas horas após o início do ataque, o céu começou a adquirir uma tonalidade vermelha. Tiff sabia que a essa hora não apareceria mais ninguém que não estivesse doente. Eram vinte ao todo. A argonina pesava na consciência de dezessete deles. Ou melhor, na consciência do inimigo misterioso que estavam procurando.
Mais uma vez Tiff pegou o transmissor, acoplou-o ao alto-falante externo do capacete e pôs-se a cantar no tom de ébrio:
Somos três e vamos fazer um piquenique.
Dirigindo-se aos dois sargentos, disse:
É claro que daqui em diante vamos fingir-nos de loucos que nem aqueles ali fora. Acredito que o inimigo está vigiando atentamente o vale. Não deve descobrir que ainda não estamos doentes. Vamos prosseguir na busca, e se agirmos com habilidade, poderemos dizer que nunca tivemos tantas chances como agora.
Assim que a escuridão havia cedido um pouco, saíram da caverna e misturaram-se aos homens que se encontravam sob a influência da argonina, pulando que nem crianças.
O’Keefe e Halligan logo se adaptaram ao seu papel. Saltavam de um lado para o outro e cantavam canções idiotas.
Tiff teve certa dificuldade em representar a comédia. Os dezessete homens corriam pelo capim como meninos e não queriam saber de nada. Apenas na alegria de viver. Assim, ofereciam um espetáculo bastante triste, apesar da alegria aparente que apenas fora provocada pela toxina, arrependeu-se por não ter revelado suas preocupações a Chaney, no momento em que descobriram a marca deixada pelo veículo de esteira. Talvez este tivesse concordado em levar um contingente menos numeroso.
Um dos doentes esbarrou pesadamente em Tiff, despertando-o das suas reflexões.
Por que tanta tristeza, companheiro? Não gosta da vida?
Era Chaney. Tiff olhou-o. Não saberia dizer se Chaney o reconhecia.
Gosto, amigo — respondeu Tiff com o rosto radiante. — Nunca me senti mais feliz que neste instante.
Pois venha comigo. Vamos cantar.
Sem aguardar resposta, Chaney começou a entoar uma canção. Tiff cantou algumas estrofes. Depois deu um salto alegre para o lado, executou uma cambalhota em meio ao capim, soltou alguns gritos histéricos e escapou à disposição musical de Chaney.
Halligan e O’Keefe já haviam atingido o paredão que ficava do lado oposto. Mantinham-se à direita e à esquerda do lugar em que Tiff havia visto o hono pela última vez.
Tiff apoiou-se sobre a cabeça e deixou que os joelhos dobrassem lentamente. A barriga da perna bateu num objeto que já vira há algum tempo, e que preferira não tocar, pois sabia que o vale estava sendo observado pelo inimigo.
Exultando de alegria, rebolou pelo chão e acabou pondo a mão no minúsculo objeto. O convite que formulou a seguir era o sinal de bater em retirada, combinado com os dois sargentos:
Vamos cantar a canção de Clementina!
Encontraram-se na caverna, depois de terem gasto mais de quinze minutos para percorrer os cinqüenta metros sem despertar a atenção do inimigo. Um dos doentes gritou atrás deles:
O que vão fazer nessa caverna? Fiquem aqui mesmo, pois o sol está brilhando.
Tiff não perdeu a cabeça. Respondeu prontamente:
Já voltamos. Por enquanto a caverna está tão quentinha e acolhedora.
O doente convenceu-se com estas palavras.
Tomara que isso também tenha acontecido com o inimigo”, pensou Tiff.
No interior da caverna examinaram o pequeno objeto. Haviam saído para procurar a pista dos honos, mas no momento aquele aparelho parecia mais importante.
Parecia ser feito de uma única peça. Tiff teve de usar um disparo finíssimo do desintegrador para soltar a tampa, pois só assim poderia ver o que havia no interior do objeto.
O instrumento era produto de uma tecnologia estranha. Mas nunca pode existir tanta diferença entre os princípios de funcionamento dos objetos destinados a fins idênticos que um técnico não sabia identificar um garfo como um garfo, um pente como um pente e um codificador como um codificador.
O que tinham na mão era um codificador. Pelo que constatou Tiff, o aparelho estava em condições de irradiar ao menos dez sinais codificados através de um hiper-transmissor, mesmo que apenas pudesse fazê-lo com uma potência extremamente reduzida.
Um dos honos devia ter perdido o aparelho em meio à confusão. Provavelmente era aquele que havia atirado em Tiff.
Um dos honos! Desde quando esses seres possuem aparelhos como este?” — pensou o tenente.
Essa idéia levou Tiff à indagação sobre a credibilidade que a história dos purificados e os não-purificados ainda poderia merecer. Será que Nathan e seus amigos não agiam por ordem dos deuses? Não teriam recebido a incumbência de atrair os inimigos dos mesmos a uma armadilha segura?
Se fosse assim, deviam estar em condições de comunicar-se com os deuses. Por meio do codificador, por exemplo.
A conclusão era lógica e Tiff não tinha motivo para acreditar que não fosse verdadeira. Mas lembrava-se perfeitamente dos honos, dos purificados, que conhecera por ocasião do primeiro pouso da Titan em Honur. Eram seres pacatos, apáticos, que quase chegavam a ser tolos, e cuja única ocupação consistia em brincar com os nonos.
O que se teria de fazer com seres desse tipo para levá-los a executar um trabalho definido e bem orientado, como o que acabava de ser realizado por Nathan e seus companheiros?
Tiff foi interrompido em meio às suas reflexões. O sargento O’Keefe pigarreou, a fim de chamar a atenção.
Também encontrei uma coisa. Quem sabe se...
Não pense que só você encontrou alguma coisa! — interveio Halligan acaloradamente. — Tenho certeza de que aquilo que eu encontrei é mais interessante...
Tiff riu.
Pois mostrem! — disse.
Os dois sargentos puseram as mãos sob os olhos de Tiff. Os achados eram idênticos. Mas, mesmo apresentados em duplicata, despertaram bastante interesse para provocar uma tremenda exaltação em Tiff.
Pegou cautelosamente o objeto que O’Keefe segurava. Era pequeno, medindo cerca de cinco centímetros, formado por cinco peças articuladas. Quatro dessas peças tinham o aspecto de dois pares de asas, enquanto a quinta devia representar o corpo do estranho ser. Não havia uma cabeça bem identificada; no lugar via-se uma ponta comprida, que ia afinando na extremidade. Na base, mostrava um círculo formado por quinze pontinhos que emitiam um brilho cristalino.
Era um dos mosquitos que Halligan vira durante a noite.
Face ao estado de nervos em que Halligan se encontrava ao observar o objeto e à iluminação escassa, não seria nada difícil enganar-se sobre a verdadeira natureza daqueles seres. Tiff, que segurava o objeto na mão, percebeu suas características ao ver a ponta metálica e o formato regular das articulações das asas:
O mosquito não era um ser dotado de constituição orgânica. Tratava-se de um mini-robô.
Demorou algum tempo até que Halligan e O’Keefe acreditassem nesse fato. O que mais os intrigava era a idéia de que nenhum homem seria capaz de construir um robô teleguiado de dimensões tão minúsculas. Porém Tiff recordou a habilidade demonstrada, por exemplo, pelos ferrônios do sistema de Vega, que criaram verdadeiras maravilhas no terreno da micro tecnologia. Assim, foi vencendo suas dúvidas passo a passo.
Mas, o que é mesmo de admirar não é isso — disse finalmente. — Cada um destes animaizinhos, ou melhor, destas maquinazinhas, tem de ser dirigido independentemente dos outros. Não adiantaria nada se, num ataque como o que foi desencadeado na noite passada, a nuvem fosse guiada em conjunto; nesse caso, a esta hora os mosquitos ainda não teriam concluído seu trabalho.
Para orientar um enxame desses mini-robôs em pleno combate, expedir comandos numa fração de centésimo de segundo, revogá-los e substituí-los por outros, precisa-se recorrer ao controle automático de um dispositivo positrônico. Nenhum ser vivo poderia dispor de visão tão ampla e de tamanho poder de reação. É bem verdade que, ao que tudo indica, mesmo um dispositivo positrônico enfrentaria dificuldades, pois os mosquitos que temos diante de nós devem ter batido no paredão e caído.” O’Keefe e Halligan ficaram espantados.
Aliás, sou de opinião que em Honur não encontraremos o inimigo propriamente dito, mas um sistema altamente sofisticado formado por um cérebro positrônico e um contingente de robôs por ele comandados — prosseguiu Tiff em tom pensativo. — Isso se encontrarmos alguma coisa. Acho que, se não fosse assim, já deveríamos ter achado algum sinal do inimigo. É claro que isto não passa de uma suposição.
Não acredita que os quatro honos... — principiou Halligan.
Tiff sacudiu a cabeça
Não. Acredito que apenas estava executando ordens de alguém.
Halligan ficou calado. Também O’Keefe mergulhou nos seus pensamentos. Depois de algum tempo, Tiff disse:
Hoje de noite procuraremos seguir o; honos.
Os dois sargentos levantaram a cabeça.
Os quatro honos? Pois o senhor sabe para onde...?
Vi o último deles ali, diante do paredão, no lugar em que encontramos o codificador. Tenho certeza de que nesse ponto deve haver outra saída.
O’Keefe olhou fixamente para fora da caverna.
Não vejo nada — disse em tom obstinado.
Não é de admirar — disse Tiff com uma risada — Teriam que ser muito tolos para deixar o buraco aberto.
Acha que é uma espécie de portão camuflado? — perguntou Halligan.
Isso mesmo.
E como pretende fazer para abri-lo?
Tiff pôs o dedo no codificador.
Com isto — respondeu. — Um dos dez sinais emitidos pelo mesmo deve ser aquele que abre essa saída, ou entrada, conforme se queira. Só assim se explica que os honos puderam fugir tão depressa.
Olhou Halligan e O’Keefe com uma expressão séria.
Não pode ser de outra forma — concluiu.

* * *

O dia passou-se sem que os doentes tivessem parado com sua algazarra, por meia hora que fosse. Depois que a argonina se misturara ao líquido encefálico e, em proporção menor, ao sangue e ao líquido linfático, o cansaço, a fome e a sede sumiam. O organismo doente ativava todas as reservas de energia de que podia dispor, não permitindo qualquer pausa no estado de hipereuforia.
Para Tiff e os dois sargentos, o dia foi muito cansativo. Não há nada pior que ficar imóvel, espreitando um desconhecido.
Por várias vezes Tiff pôs as mãos no; pequeno aparelho de transmissão e recepção, para enviar uma pequena mensagem à Titan. O tédio quase chegava a induzir a opinião de que uma pequena mensagem, concebida no mesmo tom exultante que a expedida na noite anterior, não poderia causar o menor prejuízo, mesmo que o inimigo interceptasse todas as comunicações. Mas o raciocínio acabou por vencer. Uma pessoa intoxicada pela argonina só teria uma capacidade extremamente limitada dei executar uma seqüência causal e lógica de atos; e os movimentos necessários para pôr um transmissor a funcionar exigia uma seqüência causal e lógica de atos. Assim que o doente tivesse movido a primeira chave e girado o primeiro botão, encontraria outra ocupação que lhe desse um prazer muito maior. Então, largaria o transmissor num canto qualquer. Uma mensagem alegre ainda poderia encontrar explicação, mas duas mensagens provocariam suspeitas no inimigo.
Ao escurecer, Tiff, Halligan e O’Keefe voltaram a misturar-se com os doentes. Desta vez carregavam, além das armas, o transmissor e o pequeno codificador.
Aproximaram-se discretamente do paredão de rocha. Halligan e O’Keefe tentavam a escalada escorregando e caindo propositadamente, mas nem por isso de forma menos dolorosa, uma vez que não sabiam quanto tempo levaria Tiff para abrir o portão de pedra. O tenente fez com que o pequeno aparelho irradiasse todos os sinais codificados registrados em sua fita.
A cada sinal que emitia aguardava, por algum tempo, aguçando o ouvido. Não tinha a menor idéia das situações que seriam despertadas pelos sinais. Era perfeitamente possível que depois de um deles os mosquitos robotizados voltassem a precipitar-se no vale.
Não aconteceu nada disso. Ao contrário do que esperava Tiff, a operação correu sem o menor incidente. Depois de expedir o quarto sinal codificado, uma faixa do paredão recuou subitamente à sua frente e girou para o lado, antes que ele tivesse tempo de chamar os dois sargentos. A abertura que se formara tinha cerca de três metros de largura e dois metros de altura.
Halligan e O’Keefe caíram paredão abaixo. Cambaleando e balbuciando que nem dois bêbados, tropeçaram para dentro do buraco escuro. Tiff seguiu-os e insistiu para que penetrassem mais um pedaço no corredor que parecia começar logo após a abertura. Depois virou-se e, prendendo a respiração, aguardou para ver se o portão se fechava automaticamente, ou se para isso haveria necessidade de outro sinal.
Fechou-se automaticamente. Embora Tiff e os dois sargentos pensassem que uma pequena eternidade se havia passado, apenas trinta segundos decorreram do momento em que o portão se abriu até aquele em que voltou a fechar-se. Nenhum dos homens intoxicados pela argonina havia notado o fenômeno. Tiff agira acertadamente ao executar a operação no escuro.
Acenda a luz — ordenou Tiff em meio à escuridão.
O raio intenso de um farol manual rompeu a escuridão, iluminando um corredor revestido de plástico, que tinha a mesma largura e altura do porão aberto na rocha, e descia num declive suave a uma profundidade incomensurável.
Vamos andando — ordenou Tiff. — Fiquem com as armas engatilhadas. É bem possível que em algum lugar a abertura do portão tenha provocado a emissão de um sinal. Devem estar esperando por nós em qualquer ponto, se é que não virão ao nosso encontro.
Mas o corredor continuava escuro e silencioso. A algazarra dos doentes mal chegava aos receptores de capacete.
O sargento O’Keefe caminhou à frente do grupo. Halligan e Tiff marcharam lado a lado, logo atrás dele. O’Keefe avançava a passos vigorosos, resmungando de impaciência. Parecia que tinha vontade de dizer alguma coisa. Mas suas palavras transformaram-se num grito de pavor, que foi partilhado por Tiff e Halligan.
O chão sob os pés começara a mover-se. O’Keefe perdeu o equilíbrio e caiu. O farol escorregou-lhe da mão e apagou-se. Tiff ouviu o ruído provocado pelo deslocamento de ar.
Faça luz, O’Keefe.
O’Keefe chiou alguma coisa entre os dentes; felizmente ninguém entendeu. Tiff ouviu suas mãos enluvadas baterem no chão. Finalmente soltou um suspiro de alívio; depois de algum tempo o farol foi aceso.
Ao que parecia, o ambiente continuava a ser o mesmo. O revestimento de plástico conferira um aspecto tão uniforme ao soalho, às paredes e ao teto do corredor que o olho humano não encontraria qualquer ponto de referência pelo qual pudesse orientar-se. Tiff pôs a mão num dos bolsos externos do seu traje e tirou o estojo que já servira para guardar pontas de lapiseira. Atirou-o num ângulo inclinado contra uma das paredes laterais.
O resultado foi surpreendente. O estojo foi repelido pela parede com uma violência inacreditável e, em vez de seguir as leis da reflexão, retornou pela mesma trajetória resultante do arremesso de Tiff. Passando junto ao capacete de Halligan, emitiu um chiado e, ao bater na parede oposta, voltou a ricochetear e desapareceu do feixe de luz projetado pelo holofote de O’Keefe.
Tiff ajoelhou-se e com a mão direita apalpou cuidadosamente o chão. Mas, por mais que ampliasse sua pesquisa, não encontrou ali nenhuma das estranhas características que as paredes possuíam. Mas, quando estendeu a mão para o lado e tocou a parede com a pontinha do indicador, sua mão foi atirada para trás com uma violência inacreditável.
Estamos numa fita rolante — murmurou. — Ela se desloca a uma velocidade de cem quilômetros por hora. Toda a largura do chão é tomada pela fita.
Os dois sargentos pareciam perplexos; calados, aguardavam instruções. Tiff refletiu. Não sabia se o funcionamento da fita era automático, ou se alguém recorrera a esse meio fácil de transportar os intrusos ao lugar em que desejava vê-los colocados.
De qualquer maneira, Tiff não tinha a menor vontade de cair nos braços de um comitê de recepção do inimigo a uma velocidade de cem quilômetros por hora.
Halligan, vá para a frente — ordenou Tiff. — Mantenha o desintegrador preparado para disparar a qualquer momento. Quando eu lhe der o sinal, corte o chão um metro à sua frente, de uma parede a outra. Acho que com isso nossa viagem chegará ao fim. Mas por enquanto não podemos desejar coisa melhor que viajar de forma tão confortável.
Halligan colocou-se a um passo diante de O’Keefe e manteve o cano de sua arma apontado para baixo. Pelos cálculos de Tiff, em caso de necessidade Halligan não levaria mais de um segundo para cortar a fita, e dez segundos se passariam ao todo até que esta se imobilizasse. Haveria um forte solavanco, mas estavam preparados.
Tiff olhou para o relógio. Já fazia uns quinze minutos que se deslocavam a alta velocidade quando O’Keefe avisou os companheiros de que uma modificação se anunciava mais à frente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html