— Obrigado.
Desejo o mesmo.
Tiff
virou-se para voltar ao veículo. No momento em que fez o movimento
sentiu uma pancada curta, mas violenta, no ombro. Girou
instantaneamente sobre os calcanhares. Mas, por mais que forçasse a
vista, não conseguiu enxergar nada no crepúsculo do anoitecer. A
não ser o hono que continuava imóvel, sentado na pedra, as rochas
espalhadas pelo vale e o grupo de cabanas junto ao paredão.
Mas tinha
certeza de que, quando fosse inspecionar o traje protetor no interior
da nave, encontraria um furo minúsculo na altura do ombro.
Caminhou
apressadamente em direção ao veículo.
*
* *
Os três
honos pararam a dez metros da entrada da caverna. Chaney regulou o
rádio de capacete de tal forma que sua voz fosse transmitida pelos
alto-falantes externos.
— O que
desejam? — perguntou em arcônida.
— Soubemos
que vocês se acidentaram nesta área — respondeu um dos três. —
Achamos que talvez precisem de auxílio.
— Isso é
muito gentil de sua parte — murmurou Hathome.
Chaney
perguntou:
— De que
forma pretendem ajudar-nos?
Um dos
honos respondeu:
— Podemos
mostrar-lhes um lugar em que as encostas do vale não são tão
íngremes; e ainda poderíamos...
Hesitou um
pouco, despertando a curiosidade de Chaney.
— Poderiam
o quê?
O hono
refletiu um pouco. Depois de algum tempo disse, esticando as
palavras:
— Poderíamos
mostrar-lhes a pista dos deuses.
— Dos
deuses?
— Isso
mesmo. Não estão procurando os deuses?
Chaney
recapitulou instantaneamente. Na mitologia dos purificados havia
deuses. Perry Rhodan estava convencido de que eram eles os
responsáveis pela argonina.
— Como
soube disso? — perguntou Chaney.
O hono
explicou que ouvira isso dos purificados, que ele mesmo não era
nenhum purificado, mas um proscrito, e que os purificados haviam
abandonado suas aldeias, motivo por que os proscritos conseguiram
descobrir a pista dos deuses.
Chaney
logo se decidiu.
— Aguardem
um instante — pediu aos honos.
Mandou que
quatro dos seus homens saíssem da caverna e se postassem a dez
metros da entrada.
Não
aconteceu nada. Dali a dez minutos, os quatro continuavam tão
ajuizados como no momento em que haviam saído da caverna. Ao que
tudo indicava, a desgraça que atingira Dee e Crimson havia
abandonado o vale, ou resolvera fazer uma pausa.
Chaney
levantou-se.
— Está
bem — disse aos honos. — Ire mos com vocês.
— Teremos
que avançar pelo vale, na direção oeste — disse um deles. —
Não deveremos ir muito longe. Mas amanhã de manhã...
— Não
se preocupem com a escuridão — interrompeu-o Chaney. — Temos
lâmpadas fortes. Se não estiverem cansados, poderemos marchar
durante a noite.
Chaney
esperava que os honos recusassem. Mas parecia haver muita diferença
entre os proscritos e os purificados. Os primeiros quase não
conheciam a apatia e o desinteresse. Um deles respondeu:
— Tanto
melhor; assim chegaremos mais depressa.
Chaney
perguntou-se por que aquele hono estaria tão interessado em mostrar
a pista dos deuses a pessoas que nem sequer conhecia.
Ordenou
aos homens que saíssem da conversa e seguissem os três honos, que
já se haviam posto a caminho para o ocidente. Os holofotes portáteis
foram preparados. Dentro de uma hora no máximo, o vale ficaria
mergulhado numa escuridão completa.
Apesar do
solo acidentado, a marcha prosseguia rapidamente. Os honos
deslocavam-se agilmente nas pernas compridas, e a gravitação pouco
intensa permitia aos terranos uma velocidade que em seu planeta não
teriam agüentado por trinta minutos.
Pelos
cálculos de Chaney, deviam percorrer cerca de doze quilômetros por
hora. Depois que os honos tinham aludido à pista dos deuses, o
cansaço se desvanecera.
Cerca de
três quartas partes da noite deviam ter passado quando os honos
estacaram e esperaram até que Chaney e seus homens se aproximassem.
— O que
houve? — perguntou Chaney.
— Estamos
quase chegando ao destino — respondeu um dos honos.
— Que
destino é esse? — perguntou Chaney.
— É uma
aldeia abandonada, onde começa a pista.
— Ah!
Vamos adiante.
O hono
hesitou.
— Eu...
nós... — gaguejou.
Chaney
sentia-se exausto. Estava nervoso sem que soubesse.
— Eu,
nós, o quê? Levem-nos até a aldeia.
— Os
deuses nos castigarão. Chaney mostrou um sorriso contrariado.
— Os
deuses? Pois pensava que vocês não acreditassem neles.
— Não
acreditamos da forma que os purificados crêem — respondeu o hono.
— Mas não há a menor dúvida de que são poderosos.
— Nós
os protegeremos contra eles — prometeu Chaney. — Levem-nos até a
aldeia.
— Querem
proteger-nos contra eles? Serão capazes disso?
Chaney
teve a impressão de que havia uma leve ironia na pergunta e resolveu
não forçar as coisas demais.
— Acredito
que sim — respondeu. — Ao menos faremos o que estiver ao nosso
alcance.
O hono
concordou com um gesto.
— Estamos
de acordo. Se os deuses quiserem fazer qualquer coisa contra nós,
ficaremos escondidos atrás de suas costas.
E a marcha
prosseguiu.
4
Tiff
sentiu que alguém o sacudia fortemente pelo ombro. Levantou-se
sobressaltado.
Na
penumbra reinante no interior do veículo, viu o rosto preocupado de
O’Keefe.
— Está
chegando alguma coisa — informou O’Keefe.
Tiff
pôs-se de pé. Ainda sonolento, esgueirou-se entre os bancos e os
homens que dormiam. Dirigiu-se à poltrona do piloto.
A imagem
do vale, projetada na tela, era fantasmagórica. A luminosidade das
estrelas só penetrava até a metade das encostas. Abaixo da linha
iluminada pelas estrelas, começava a área de profunda escuridão.
Esta era interrompida apenas por um estreito feixe de luz produzido
pelos raios vindos na vertical, desenhando uma faixa luminosa no
fundo do vale.
Tiff teve
de forçar a vista por bastante tempo até enxergar aquilo a que
O’Keefe se referia. Abaixo da linha iluminada das encostas do vale,
a escuridão não era completa. Pouco acima do fundo do vale,
aproximadamente no lugar em que Tiff, recorrendo à memória,
imaginava ficar a curva, viu-se uma mancha de fraca luminosidade.
Tiff constatou que a intensidade da luz não era constante, e que a
mancha não permanecia no mesmo lugar.
— O que
acha? — perguntou a O’Keefe.
O’Keefe
resmungou:
— Até
parece um holofote manual visto de longe e encoberto pela curva da
encosta.
— Isso
mesmo. Mas quem poderia andar com um holofote manual por aqui?
O’Keefe
esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas antes que pudesse fazê-lo
Tiff teve uma idéia e acrescentou:
— Um
instante. A que distância estamos do lugar em que Chaney realizou o
pouso de emergência?
O’Keefe
fez um gesto de concordância.
— Era o
que eu pretendia dizer. Talvez seja o major Chaney com seu grupo.
— Muito
bem. Coloque uma sonda. Se for Chaney, está conversando com seu
pessoal. E ele usa o mesmo tipo de traje protetor que nós.
O’Keefe
colocou a sonda eletromagnética, um instrumento que registrava todo
o espectro de radio-ondas com uma sensibilidade fantástica. A sonda
estava acoplada a um alto-falante comum. Mal O’Keefe a ligou,
ouviu-se uma voz retumbante:
— Pelo
que diz, a aldeia fica logo atrás da curva, Halligan. Mantenha os
olhos bem abertos.
E Halligan
respondeu:
— Sim
senhor. É o que estou fazendo.
O’Keefe
gemeu.
— Oh,
não! — fungou. — Os céus não me podem fazer tanto mal. Logo
Halligan, este velho canibal.
A amizade
disfarçada em inimizade que reinava entre os dois sargentos já não
era novidade entre os homens da frota espacial terrana. Halligan e
O’Keefe não podiam jogar pôquer por cinco minutos sem brigar. Em
compensação lutaram em Vênus, ombro a ombro, usando armas um tanto
primitivas e detendo as hordas de Tomisenkow por algumas horas, até
que recebessem reforços e pudessem aprisionar o inimigo.
Tiff
sorriu e transmitiu um sinal codificado que seria ouvido no receptor
de capacete de Chaney. Depois disse:
— O
tenente Tifflor reportando. Esta mos logo atrás da curva com cinco
Câmbios. Faça o favor de não tropeçar por cima de nosso hono que
está sentado junto à encosta.
Por alguns
segundos não se ouviu nada. A seguir, a voz espantada de Chaney soou
no alto-falante:
— Tifflor!
O senhor me ouve?
— Ouço-o
perfeitamente. Colocamos uma sonda.
— Muito
bem. Iremos até aí. Dê um sinal com o holofote.
Tiff
obedeceu. Poucos minutos depois o grupo de Chaney, conduzido pelos
três honos, dobrou a curva. Tiff já descera de seu veículo.
Explicou a Chaney que nos Câmbios só havia lugar para metade dos
homens do grupo; a outra metade teria que dormir ao ar livre. Chaney
não gostou nem um pouco, e Tiff ficou sabendo o que havia acontecido
com o tenente Crimson e o sargento Dee.
Mas,
passando o facho do farol pela encosta, descobriram uma caverna igual
àquela em que o grupo de Chaney se mantivera escondido até a
chegada dos honos. Chaney abrigou dois terços dos seus homens nessa
caverna e colocou os restantes nos veículos. Ele mesmo e o sargento
Halligan penetraram no Câmbio número 1. O’Keefe, que os vira
chegar na tela, deitou se e fez de conta que estava dormindo enquanto
entravam pela comporta.
Os três
honos que haviam marchado à frente do grupo de Chaney juntaram-se ao
outro, que dirigira o grupo de Tiff. Não houve maiores cumprimentos.
Ao que parecia, o hono que estava dormindo nem chegou a acordar. Os
outros três sentaram da mesma forma que ele e dormiram com as
cabeças balouçantes.
Ao que
tudo indicava, a tarefa de Chaney estava tomando um rumo feliz. A
Titan foi informada imediatamente sobre as ocorrências e o oficial
de plantão não procurou disfarçar o alívio que sentiu. Tiff pediu
novas instruções e foi informado de que poderia prosseguir por
conta própria na operação de busca em que os honos lhe serviam de
guia. Não se fez questão de que um dos honos ou todos eles fossem
forçados a fazer uma visita à Titan. Rhodan disse que achava
perfeitamente plausível sua afirmativa de não pertencerem à casta
dos purificados. Sendo assim, não acreditava que poderia tirar
alguma coisa desses indivíduos através dos recursos psicanalíticos.
O que
provocou certo nervosismo foi o fato de que Tiff, suspeitando de
alguma coisa, examinou na manhã do dia seguinte os trajes protetores
de Dee e Crimson e viu suas suspeitas confirmadas.
Em cada um
dos trajes havia três perfurações muito finas. Ao contrário das
que haviam sido encontradas no traje de Tiff, estas atravessavam o
plástico. Colocaram os doentes num dos Câmbios, tiraram suas roupas
e procuraram descobrir picadas em seu corpo. Não encontraram nada.
Se houve alguma — e Tiff estava convencido de que houve — as
feridas certamente se fecharam no dia anterior, sem deixar o menor
vestígio.
O passo
seguinte consistiu numa revista da aldeia abandonada. As cabanas,
feitas com madeira semelhante ao bambu, eram de construção bastante
primitiva. Consistiam de um único recinto. Pela sujeira que se
espalhava no chão de terra batida concluía-se que a aldeia já
devia ter sido abandonada muito antes do dia em que os terranos
puseram os pés em Honur. Todavia, Tiff, Chaney e Hathome não pode
riam deixar de reconhecer que não sabiam quase nada sobre as
concepções de higiene reinantes entre os purificados. Era bem
possível que a sujeira das cabanas fosse justamente o elemento em
que se sentiam bem.
Durante o
exame, os quatro honos mantiveram-se à distância. Ao que parecia,
tinham medo das cabanas desabitadas. Tiff, porém, teve de pedir aos
honos que se aproximassem, pois não conseguia encontrar a pista dos
deuses.
Vieram em
passos hesitantes. O indivíduo que guiara o grupo de Tiff, ao qual o
sargento O’Keefe dera o apelido de Nathan, caminhava à frente dos
outros.
— Estamos
procurando a pista dos deuses, mas não conseguimos encontrá-la —
disse Tiff.
— Não
fica aqui — respondeu Nathan em tom compenetrado. — O senhor
poderá encontrá-la mais adiante, no lugar em que começa a fenda na
rocha.
Tiff
examinou a fenda. Tinha menos de dois metros de largura e parecia
estreitar-se ainda mais na parte dos fundos. Um regato jorrava
tranqüilamente de dentro da pequena gruta. Daí se concluía que a
inclinação da fenda não era muito acentuada.
No lugar
em que a água jorrava do paredão, uma vegetação rasteira e de
folhas duras cobria a rocha.
Tiff,
Chaney e Hathome examinaram o solo nas proximidades da área coberta
pela vegetação. Nathan e os outros honos olhavam-nos como quem não
tem nada a ver com aquilo. Só depois de alguns minutos, Nathan
começou a falar:
— Vocês
terão de entrar nessas moitas. Como vêem, há um lugar em que são
mais ralas. É lá que começa a pista.
Tiff viu o
lugar de vegetação mais rala, examinou-o e chegou à conclusão de
que não se formara de maneira natural.
— Está
vendo estes galhos quebrados? — perguntou, dirigindo-se a Chaney.
Chaney
confirmou com um aceno de cabeça.
— Até
parece que alguma coisa abriu caminho à força. E, pelos meus
cálculos, isso deve ter acontecido há poucos dias.
Tiff
ajoelhou-se.
— Os
galhos estão todos quebrados até as raízes — murmurou. — Até
os troncos foram quebrados.
Chaney
enfiou-se pela vegetação, abrindo caminho com os cotovelos.
Desapareceu no interior da fenda. Tiff ouviu-o fungar de surpresa.
Depois de algum tempo gritou:
— Hathome!
Tifflor! Venham cá!
Com um
salto vigoroso Tiff atravessou a folhagem. Hathome seguiu de perto. O
major Chaney estava agachado. Sua mão enluvada apontava a uma marca
nítida deixada no solo, junto ao regato.
A
impressão deixada no solo tinha cerca de um metro de comprimento e
meio metro de largura. Estava subdividida em retângulos de cinqüenta
centímetros de comprimento e vinte de largura.
Tiff
examinou a marca por algum tempo, sem chegar a qualquer conclusão.
Finalmente Chaney, que tinha avançado mais alguns metros, exclamou:
— Aqui é
bem mais nítida.
A segunda
marca era um pouco mais comprida; tinha pouco menos de dois metros.
Em tudo mais, era igual a outra, com exceção do corpo sujo e
achatado de um nonus, estendido no interior da marca.
— É uma
esteira! — exclamou Tiff. — Uma simples esteira de tanque.
Chaney
confirmou com um aceno de cabeça e apalpou o chão com o dedo.
— Não
há dúvida. Acontece que só se vê a marca de uma esteira. Onde
terá ficado a da segunda?
Tiff
avaliou a largura da marca.
— Não
acredito que exista outra esteira — disse.
— Como?
— Acha
que se trata de um veículo de esteira única — interveio Hathome.
— É
isso mesmo. A marca tem meio metro de largura. Um veículo estreito
pode equilibrar-se perfeitamente numa base destas.
Chaney
refletiu.
— É
possível que o senhor tenha razão, Tifflor — confessou. — E o
veículo só pode ser estreito, pois do contrário não conseguiria
entrar aqui.
Tiff
contemplou o cadáver do ursinho.
— Se nos
lembrarmos de que os únicos veículos dos purificados são suas
pernas... — disse em tom pensativo.
— ...chegaremos
à conclusão de que aquilo que temos diante de nós realmente é uma
pista dos deuses — completou Chaney em tom resoluto.
Hathome
não estava totalmente de acordo.
— Se
quisesse fazer o favor de explicar o que alguém pode fazer num
buraco destes com um veículo de esteira, eu lhe ficaria muito grato.
Por enquanto tenho a impressão...
— Por
quê? — interrompeu-o Chaney. — Entraram por aqui. Provavelmente
levaram os honos a algum esconderijo. Pelo que sei a respeito dos
purificados, eles não tinham certeza de que os honos saberiam
deslocar-se com a velocidade necessária se não recorressem a um
veículo.
— É
possível... — murmurou Hathome.
— Procure
superar esse ceticismo — disse Chaney em tom alegre. — A pista é
esta, e nós a seguiremos.
Tiff virou
ostensivamente a cabeça. Chaney percebeu o gesto.
— Tem
alguma dúvida? — perguntou.
— Para
falar com franqueza, tenho — respondeu Tiff. — Não conseguimos
entra aqui com os Câmbios.
— É
verdade. Metade dos homens terão de ficar aqui, com os Câmbios, a
fim de nos darem cobertura. Quanto ao mais, acredito que nossas armas
serão suficientes para livrar-nos de qualquer incômodo que possa
surgir.
Tiff
lembrou-se das perfurações encontradas nos trajes espaciais, mas
preferiu não formular qualquer objeção. Não tinha receio de
contradizer Chaney, mas estava muito curioso para descobrir aonde o
levaria a pista.
Não
demoraria a chegar o instante em que a responsabilidade por essa
atitude leviana representaria uma carga pesada para ele.
Chaney
avançou mais um pouco para o interior da fenda. Via de regra o chão
era firme, sendo formado de rocha compacta. Somente nas curvas do
regato, onde a corrente deixara um pouco de areia ou seixos, aparecia
a marca de esteira. Nesses lugares ainda havia arbustos e pequenas
árvores; pelas deformações ou danos sofridos pelas plantas,
podia-se tirar uma conclusão sobre o formato do veículo que abrira
caminho por ali.
Devia ter
cerca de um metro de altura e sua largura não seria muito maior que
a da marca da esteira. Se tivesse mais de dois metros de comprimento,
teria que consistir em partes articuladas, pois nos primeiros cem
metros a fenda descrevia curvas tão fechadas que qualquer veículo
inteiriço desse comprimento não conseguiria ultrapassá-las.
O que
causou estranheza a Tiff foi o fato de que em três das oito marcas
de esteira existentes nos primeiros cem metros encontraram um ursinho
morto. Hathome murmurou em tom pouco convicto:
— Até
parece que a cada trinta metros um dos ursinhos foi atirado à frente
das esteiras. Talvez seja uma espécie de sacrifício.
Seria
inútil refletir a este respeito. A mentalidade dos purificados era
tão conhecida que não havia a menor possibilidade de encontrarem
uma resposta.
Voltaram à
entrada da fenda. Os quatro honos, com Nathan à frente, continuavam
a esperar em atitude compenetrada, mantendo-se fora da área coberta
pela vegetação.
— Encontraram
a pista? — perguntou Nathan.
— Encontramos
— respondeu o major Chaney com a voz alta e alegre. — E vamos
segui-la.
Nathan fez
um gesto preocupado.
— Sabem
que nossas idéias sobre os deuses são muito diferentes daquelas que
passam pela cabeça dos seres que se chamam de purificados — disse.
— No entanto, acreditamos que os deuses são seres muito poderosos.
Não sabemos se convém que vocês sigam a pista deles. Poderiam
armar uma cilada e destruí-los.
O major
Chaney parou perto de Nathan.
— Escute
aí, meu filho — disse em tom amável. — Se é assim, por que nos
mostraram a pista? Queriam que a olhássemos e déssemos o fora?
— Bem,
não foi isso...
— Então,
o que foi?
Nathan
lançou um olhar para seus companheiros de raça e respondeu em tom
mais seguro:
— Acreditávamos
que vocês fossem seguir a pista. De qualquer maneira, não queremos
deixar de preveni-los.
— Virão
conosco quando seguirmos a pista? — perguntou o major.
Nathan
assustou-se.
— Logo
nós? Não poderíamos prestar muita ajuda a vocês.
— Ora
essa — disse Chaney, esticando as palavras. — Não pensei em
ajuda. Apenas pensei que se interessassem em assisti à descoberta do
esconderijo dos deuses.
Mais uma
vez Nathan lançou um olhar para seus companheiros, que parecia um
pedido de socorro.
— Receio
que nossa autoconfiança seja menor que a sua — confessou depois de
algum tempo.
Chaney
confirmou com um gesto da cabeça.
— Já
que estão com medo — disse — poderão ficar aqui, aguardando
nosso regresso.
*
* *
A divisão
dos homens foi feita em dois grupos — o sargento Hathome comandaria
o grupo junto aos Câmbios, enquanto o outro acompanharia o major
Chaney e o tenente Tifflor ao longo da pista dos deuses — correu
sem maiores incidentes, com exceção de um pequeno episódio.
Este foi
proporcionado pelos sargentos Halligan e O’Keefe. Quando este
último ficou sabendo que Halligan participaria com ele da operação
de busca, apresentou-se imediatamente a Tiff.
— Assim
não é possível — fungou. — Eu e este trapaceiro de jogo do
Halligan não podemos pertencer ao mesmo grupo. Não será por minha
culpa, mas juro-lhe que dentro de uma hora alguém será assassinado.
Tiff
procurou aplacar a ira do sargento, mas antes que pudesse fazê-lo
ouviu a voz de Chaney no receptor de capacete.
— Chaney
chamando Tifflor! Queira apresentar-se.
Tifflor
respondeu imediatamente.
— Preste
atenção, tenente — disse Chaney. Pelo tom de voz, parecia que
começaria a rir a qualquer instante. — Neste momento estou falando
com o sargento Halligan, que diz que não está em condições de ir
conosco se o sargento O’Keefe fizer parte do grupo. Por acaso o
outro membro da dupla estará falando com o senhor neste instante?
Tiff
reprimiu o riso.
— Sim
senhor.
— Pois
diga-lhe a mesma coisa que acabo de falar com Halligan. Mandarei
rasgar seus trajes espaciais a faca se criarem qualquer problema
durante a marcha.
— Entendido.
Darei o recado.
Era claro
que O’Keefe acompanhara a conversa pelo receptor de capacete. Tiff
viu que revirava os olhos.
— Bem,
já que é assim... — disse Tiff.
O’Keefe
afastou-se sem dizer mais uma única palavra.
Mas ainda
houve uma surpresa de verdade, mas esta não tinha nada a ver com os
homens do grupo. Foi causada por Nathan, o hono. Dirigindo-se ao
major Chaney, disse:
— Andamos
pensando sobre o que disse. Gostaríamos de ir com vocês.
Chaney
teve bastante senso diplomático para não dar a perceber a leve
ironia que surgiu em sua mente.
— Não
tenho a menor objeção — disse.
E ficou
nisso.
*
* *
Sem contar
os quatro honos, eram vinte homens que se puseram a caminho sob o
comando do major Chaney. Partiram pelo meio-dia. Fora as armas, o
equipamento mais importante que levavam era um transmissor portátil
de alcance quase ilimitado. Fora retirado de um dos Câmbios e estava
acoplado a um gerador de emergência. Por meio dele poderiam manter
contato com os veículos. E não teriam a menor dificuldade em
comunicar-se com a Titan ou a Ganymed, se isso se tornasse
necessário.
O grupo de
cerca de trinta homens, que ficara nos Câmbios, fora instruído a
não sair dos veículos em hipótese alguma. Era bem verdade que
aquela coisa desconhecida que causara a doença de Dee e Crimson não
aparecera mais, mas nem por isso poderia concluir que dali em diante
não haveria mais nenhum perigo.
No início
Chaney e Tiff acreditaram que a fenda, tão estreita junto à
entrada, não poderia avançar mais que um ou dois quilômetros rocha
adentro. No entanto, marcharam até o escurecer. Porém só
encontraram o mesmo regato, a rocha nua e, vez por outra, um montão
de areia e pedregulho coberto de vegetação. Daí concluíram que a
suposição inicial fora um tanto precipitada Era bem possível que o
comprimento da fenda chegasse a algumas centenas de quilômetros.
Ainda bem
que viam a marca de esteira na areia. Assim, pelo menos, tinham
certeza quanto ao caminho seguido pelo inimigo desconhecido.
Quando
escureceu de vez, Chaney mandou os homens descansarem. Colocou três
sentinelas na vanguarda e na retaguarda do grupo. Equipados com
faróis manuais, passariam a luz ininterruptamente por todos os
cantos da fenda. Recomendou aos outros homens que baixassem o volume
dos receptores de capacete e procurassem dormir.
A área em
que resolveram descansar era tão apertada que não havia
possibilidade de separar os quatro honos do resto do grupo.
Escolheram um lugar para sentar em meio aos homens e puseram-se a
dormir.
Tiff
encontrara um lugar confortável junto à parede de rocha. Estava
deitado perto de Nathan. Este colocara os braços longos e ossudos
sobre as pernas e olhava fixamente para a frente; parecia refletir.
Vez por outra o reflexo de um dos faróis iluminava seu rosto
anguloso.
— Gostaria
de saber qual é a diferença entre vocês e os purificados — disse
Tiff de repente.
Nathan
sobressaltou-se como uma pessoa que desperta do estado de profunda
meditação. Olhou para o lado e procurou descobrir quem lhe dirigia
a palavra.
— Ah, é
você. A resposta é fácil. Não acreditamos nos deuses da mesma
forma que os purificados.
— Hum —
fez Tiff. — Já ouvi isso várias vezes. Vocês não acreditam da
mesma forma. Então, qual é sua crença?
Tiff
percebeu que a pergunta não agradou a Nathan.
— Para
nós os deuses são seres poderosos — respondeu Nathan depois de
algum tempo. — Mas não são verdadeiros deuses.
— Qual é
a diferença entre um ser poderoso e um deus?
— Um ser
poderoso não pode fazer milagres — respondeu Nathan prontamente.
Tiff teve
a impressão de que no tom de voz de Nathan havia um ligeiro soluço.
— O que
vem a ser um milagre?
Nathan
refletiu.
— Se os
deuses pudessem destruí-los simplesmente em virtude de seu desejo,
sem recorrer a qualquer meio externo, isso seria um milagre.
— Escute
aí — protestou Tiff. — O exemplo que você acaba de citar não é
nada gentil.
Nathan
soltou um tipo de risadinha.
— Mas é
bastante compreensível.
— Tem
certeza de que os deuses desejam nossa destruição?
— Tenho
certeza absoluta.
— Por
quê?
— Porque
nunca toleraram que alguém seguisse seus passos.
— Vocês
nunca fizeram isso?
— Nunca.
Tememos os deuses.
— Não
sabem onde vivem?
Nathan fez
um gesto de negação.
— Entre
os purificados corre uma lenda...
Hesitou,
como se estivesse refletindo se devia confiar a informação a Tiff.
— Uma
lenda? — insistiu Tiff.
— Isso
mesmo. Os purificados acreditam que os deuses vivem embaixo da
superfície. Se fossem deuses, ou mesmo que fossem apenas seres
poderosos, como nós acreditamos, não teriam motivo para submeter-se
ao incômodo de viverem embaixo do solo.
A
conclusão era bastante plausível. Tiff refletiu sobre a lenda.
Quando pretendia formular outra pergunta, viu que este adormecera. Ou
então, fazia de conta que estava dormindo para fugir à curiosidade
de Tiff.
*
* *
Durante o
resto da noite e no dia seguinte, até o fim da tarde, não houve
qualquer acontecimento importante. A marcha prosseguiu; a fenda subia
ligeiramente rocha adentro, sem que sua largura ou seu aspecto geral
sofresse qualquer modificação. Nos trechos arenosos, continuava a
aparecer a estranha marca do veículo de esteira.
No fim da
tarde, a fenda abriu-se num vale. A transição foi rápida e
surpreendente, e na penumbra ali reinante não pôde ser notada antes
que chegassem ao local. Por isso alguns dos homens já estavam
pisando a grama do vale quando Chaney mandou que parassem.
Iluminando
o vale, Chaney percebeu que era redondo e tinha uns cinqüenta metros
de diâmetro. As encostas subiam na vertical. O regato cujo leito
haviam seguido parecia nascer no paredão do lado oposto e, ao
atravessar o vale, proporcionava umidade suficiente para fazer nascer
uma vegetação que, para o planeta de Honur, devia ser considerada
abundante. O chão estava coberto por um capim alto e espesso, os
arbustos cresciam de espaço a espaço e junto ao regato havia
pequenas árvores.
Aquele
vale fértil em meio ao deserto rochoso era um verdadeiro milagre.
Até mesmo Chaney, um homem objetivo, pouco dado ao romantismo, levou
algum tempo para recuperar-se da surpresa e começar a procurar a
marca da esteira.
Era claro
que na grama, que voltara a erguer-se depois de amassada, a marca não
se conservaria por tanto tempo como no solo arenoso encontrado nas
curvas do regato. Assim mesmo, porém, uma faixa estreita de folhas
ressequidas indicava o rumo do veículo desconhecido.
Chaney
hesitou, sem saber se devia mandar seus homens penetrarem no vale.
— Não
sei — disse, dirigindo-se a Tiff pelo rádio de capacete regulado
num volume reduzido. — Não estou gostando disso. Quando estivermos
lá dentro, basta que alguém feche a entrada, e estaremos numa
armadilha.
Tiff olhou
em torno. Dois dos faróis manuais ainda dirigiam seus amplos feixes
de raios para o interior do vale. Ao que parecia, não havia outra
saída.
— Se
necessário, a Titan poderia mandar algumas Gazelas para virem em
nosso auxílio — disse Tiff. — Afinal, não estamos numa guerra
de índios.
Chaney deu
uma risada amarga.
— Logo
se vê que o senhor nunca se viu forçado a pousar com uma Gazela no
planeta Honur.
— Rhodan
poderia vir com a Titan em peso — disse Tiff em defesa de seu ponto
de vista. — De qualquer maneira, seria uma incoerência voltarmos
daqui.
Chaney
acenou com a cabeça e murmurou:
— É
verdade. Mas acho preferível ser um incoerente vivo que um coerente
morto.
Mas acabou
informando os veículos sobre a descoberta do vale. Depois mandou que
uma patrulha de dez homens vasculhasse o terreno. Por fim não teve
mais nenhuma dúvida em permitir que o grupo seguisse pela faixa de
capim ressequido por onde havia passado a esteira, até atingir o
paredão do lado oposto.
Na
verdade, a pista terminava abruptamente poucos metros antes do
paredão. Mas Chaney pretendia aguardar o raiar do dia seguinte para
iniciar uma busca intensiva. Estava começando a escurecer, e no
momento o mais importante era examinar a área em que iriam acampar e
protegê-la contra qualquer ataque de surpresa.
Chaney
mandou que alguns homens seguissem junto aos paredões, em torno do
vale. Estes informaram que havia uma única caverna, e esta era tão
pequena que não poderia abrigar mais de quatro homens. Chaney não
gostou da notícia; desde o momento em que Dee e Crimson adoeceram,
sentiu uma forte antipatia contra as áreas abertas.
Mas não
tinha outro remédio senão conformar-se com a situação. Por meio
dos desintegradores, poderia fundir a rocha e abrir uma caverna em
que todo o grupo pudesse recolher-se. Mas o desempenho energético
dos desintegradores seria tão intenso que os aparelhos o
registrariam a milhares de quilômetros de distância. Chaney
preferiu assumir o risco do pernoite ao ar livre.
Nos outros
membros do grupo também se notava um nervosismo indisfarçável.
Todos viram que nesse vale chegava ao fim a pista que haviam seguido.
Só havia duas possibilidades: o veículo de esteira ainda se
encontraria no vale, ou teria desaparecido nos paredões de rocha.
De
qualquer maneira haviam chegado a um ponto decisivo.
Tiff
procurou encontrar mais uma vez um lugar perto de Nathan. Mas o hono
parecia ter percebido sua intenção e esquivou-se. Ao que tudo
indicava, não sentia a menor vontade de submeter-se a outro
interrogatório.
*
* *
Não é
nada confortável dormir dentro de um traje espacial. É verdade que
o capacete fornece certo apoio à cabeça, mas esse apoio só é
proporcionado pela parte traseira do mesmo. Alguém que não esteja
acostumado a dormir de costas terá de passar um mau bocado.
Tiff
acordou mais de uma vez. Praguejou por causa do desconforto do
capacete. Procurou melhor posição e tentou adormecer.
Em certo
momento escorregou da pedra que lhe servia de apoio e, enquanto se
esforçava para levantar-se, acordou de vez.
Durante
uns cinco ou dez minutos ficou deitado, imóvel, fitando o trecho
circular do céu estrelado que era recortado pelos paredões do vale.
Esforçou-se para dormir de novo.
Quase no
subconsciente, percebeu que havia algo por ali que não estava certo.
Movendo-se devagar e cautelosamente, deixou-se escorregar da pedra na
qual subira com tanto trabalho. Com isso a cabeça ficou em posição
quase vertical. Pôs-se a observar.
Alguns
minutos se passaram. Tiff já estava praticamente convencido de que
se deixara enganar por alguma coisa quando viu o movimento. A visão
era estranha, mas inconfundível. Alguma coisa rastejava
cautelosamente pelo capim, alguns metros do lugar em que se
encontravam seus pés.
No início
apenas sentiu curiosidade. As sentinelas escaladas por Chaney
ocupavam todas as posições estratégicas do vale. Nenhuma pessoa
desconhecida penetraria ali sem ser notada, mesmo que viesse por
cima.
De
repente, Tiff olhou para o lugar em que Nathan se sentara ao
anoitecer, e que ficava a uns dez metros do ponto em que ele mesmo se
deitara para dormir.
A luz das
estrelas foi suficiente para que notasse que o lugar estava vazio.
Tiff
ergueu-se e procurou descobrir os outros honos, que se haviam sentado
perto de Nathan. Também tinham desaparecido.
A
princípio Tiff desconfiou de que estivessem arrependidos da decisão
de seguirem a pista dos deuses e, para não expor-se ao ridículo,
pretendiam fugir às escondidas. Mas achou que valia a pena examinar
o problema mais detidamente.
Ergueu-se
sobre os cotovelos, deixou-se cair para a frente e rastejou na
direção em que vira o vulto que se movia. Tateando e vendo, seguiu
o rastro amplo que seguia pelo capim. O que lhe deu de pensar foi que
o rastejante não se dirigia à saída do vale, mas seguia para a
direita, em direção ao paredão.
Seguiu o
rastro e logo começou a aproximar-se do paredão; não viu os honos.
Pouco antes de chegar ao paredão, uns vinte metros à direita do
lugar em que se encontrava a fileira de homens que dormiam, voltou a
descobrir o movimento apressado e confuso que pouco antes lhe
despertara a atenção.
Sem pensar
duas vezes, levantou-se de vez e com dois grandes saltos chegou ao
paredão. A idéia de que isso o poderia expor a algum perigo só lhe
veio à mente quando uma força invisível o agarrou. Esta o atirou
para trás. Tiff teve a impressão que uma granada estava explodindo
em seu cérebro.
Tiff caiu
de lado e por alguns segundos ficou quase inconsciente. Fazendo um
esforço tremendo, conseguiu erguer-se sobre os cotovelos e fitou o
paredão. De repente, espantado, observou que os honos — ou aquilo
que ele tinha percebido, pensando que eram eles — desapareceram.
Notou o
perigo sem compreendê-lo. Com um movimento rápido, regulou o rádio
de capacete para o volume máximo e gritou:
— Alarma!
Os honos fugiram!
Por um
instante, não ouviu no seu receptor outra coisa além do ruído dos
homens que despertavam, erguendo-se lentamente e girando os botões
de seus rádios de capacete. Finalmente ouviu a voz de Chaney, que
soou tranqüila e paternal:
— Por
que tanto nervosismo, Tiff? O que nos importam os honos se a vida é
tão bela?
5
O ataque à
Titan começou no meio da noite. Não pegou a nave desprevenida. A
partir do momento em que a nave pousara pela segunda vez no planeta
Honur, os homens não tinham outra coisa a fazer senão ficar com os
olhos abertos.
E o ataque
foi desencadeado de maneira tão estranha que nem por um instante se
poderia duvidar do resultado da luta. Hordas imensas de robôs
surgiram dos vales, das margens do lago e da planície e marcharam em
direção à nave.
Perry
Rhodan se encontrava na sala de comando. Deixou que os robôs se
aproximassem, até que revelaram suas verdadeiras intenções por
meio de salvas disparadas de uma espécie de radiadores de impulsos.
Os campos
protetores da Titan não tiveram a menor dificuldade em absorver o
impacto. Os raios de desintegração disparados pelas grandes peças
de artilharia da nave abriram enormes clareiras nas fileiras de
robôs, tangendo nuvens reluzentes de poeira metálica por cima da
superfície do lago.
As
máquinas estranhas espalharam-se Os raios energéticos ofuscantes
por eles disparados chiavam sem cessar de encontro aos campos
protetores invisíveis e perdiam-se em meio a fogos de artifício
coloridos.
Depois que
algumas salvas potentes; haviam destruído cerca de metade do
exército de robôs, os homens, que guarneciam os postos de
artilharia da Titan, tiveram de recorrer ao fogo dirigido. Pelas
estimativas, o número total de robôs devia ser de cerca de oito
mil. Eram do tipo daqueles que, por ocasião do primeiro pouso da
Titan no planeta Honur, tentaram atacar a nave.
As
fileiras de robôs foram minguando. Em nenhum ponto conseguiram
aproximar-se da Titan a mais de cem metros que correspondiam à
distância dos campos defensivos. Alguns robôs que avançaram demais
derreteram-se sob a ação energética dos campos.
Depois de
duas horas de batalha não havia mais nenhum robô que se movesse.
Em
compensação, a bordo da Titan começaram a refletir sobre as
finalidades do ataque. O inimigo não poderia estar mal informado a
ponto de acreditar que poderia conquistar a Titan com oito mil, ou
mesmo dez mil robôs.
Quais
seriam suas intenções?
Os
receptores automáticos, que mesmo durante o combate continuaram a
funcionar, registrando as mensagens, sabiam a resposta. Depois de
suspenso o combate, o oficial de rádio retornou ao seu lugar e
retirou do aparelho uma mensagem de telecomunicação expedida pelo
grupo de veículos:
— O
comando Chaney-Tifflor foi atacado por inimigos desconhecidos.
Posição...
Seguiram-se
alguns dados que permitiram a localização exata do pequeno vale nos
mapas. A mensagem ainda dizia que o alarma fora expedido pelo tenente
Tifflor.
A
finalidade do ataque de robôs desencadeado contra a Titan consistira
unicamente em desviar as atenções do grupo que se encontrava
empenhado numa operação de busca nas montanhas.
Alguns
minutos depois, a estação dos Câmbios ainda captara a seguinte
mensagem:
— Não
se preocupem por nossa causa. Estamos bem. A vida é tão bela.
Também
este texto foi retransmitido fielmente à Titan.
O pânico
tomou conta da sala de comando. Todos correram para seus lugares e
estenderam a mão. Preparavam-se para executar o movimento que teriam
de fazer no instante em que Rhodan ordenasse a decolagem instantânea.
Mas isso
não aconteceu. Com um ligeiro sorriso, Rhodan pediu aos homens que
conservassem a calma.
— Acho
que no momento não podemos fazer nada por esses coitados —
acrescentou.
Não
explicou porque acreditava que mais tarde talvez pudesse fazer alguma
coisa.
Para
aumentar ainda mais a confusão entre a oficialidade, mandou que o
grupo de Câmbios regressasse à Titan pelo caminho mais rápido.
Algum
tempo depois, quando os Câmbios já se encontravam a caminho, a nave
captou uma mensagem curta e esquisita, transmitida pela onda comum:
— Somos
três e vamos fazer um piquenique...
Pelo que
dizia a pessoa que recebera a mensagem, a voz que transmitira a
mensagem era de Tiff — e vinha com um sotaque de quem acabara de
tomar duas garrafas de uísque escocês. Os oficiais que se
encontravam na sala de comando pensavam que a argonina era
responsável pela alegria de Tiff. Naturalmente. O que poderia ser?
Mas o sorriso matreiro de Rhodan lhes deu o que pensar.
*
* *
Era claro
que Rhodan não tinha certeza absoluta. Mesmo intoxicado, Tiff
poderia lembrar-se da senha “piquenique”, Talvez quisesse
divertir-se, enganando seu comandante ao lhe dar o sinal
convencionado.
Mas Rhodan
duvidava de que alguém que se encontrasse sob os efeitos da argonina
fosse capaz de praticar uma brincadeira premeditada. O mais provável
era que Tiff conseguira livrar-se da embriagues geral com mais dois
elementos.
Agora
teria que fazer alguma coisa que Rhodan odiava por sua própria
natureza: esperar, esperar pelo resultado do piquenique.
Havia
outra coisa quase tão penosa como a espera: Rhodan tinha de guardar
para si o que sabia, suportando pacientemente os rostos desolados ou
perplexos de seus companheiros.
Mas o
risco era muito grande. Tinham de contar com a possibilidade de que o
inimigo captasse qualquer mensagem transmitida pelo rádio ou pelo
telecomunicador. Sem dúvida, a essa altura já dominava a língua
inglesa. Se por qualquer descuido fosse feita uma alusão, por mais
leve que fosse, ao verdadeiro estado de Tiff — o que poderia
acontecer, por exemplo, numa palestra com a Ganymed — o piquenique
de Tiff não duraria nem mais um minuto, e teriam de começar tudo de
novo.
Só lhe
restava esperar e calar a boca.
*
* *
Tiff
compreendeu imediatamente o que havia acontecido. A pior das
hipóteses previstas nas instruções que levara acabara de ocorrer.
Depois do
alarma de Tiff e da resposta alegre do major Chaney, a confusão
tomou conta do vale. Faróis acenderam-se, iluminando homens que
davam saltos grotescos em meio ao capim. Os gritos de surpresa dos
homens que ainda não haviam sido intoxicados misturaram-se às
manifestações de júbilo daqueles que já haviam absorvido a
argonina em seu organismo.
As
manifestações de alegria tornavam-se cada vez mais ruidosas, e os
gritos de surpresa foram diminuindo.
Arrastando-se
rente ao solo, Tiff dirigiu-se ao lugar em que ao anoitecer os homens
de Chaney haviam descoberto uma caverna. Enquanto isso gritava:
— Quem
ainda não estiver doente, dirija-se à caverna.
Ficou
gritando até que, na sua opinião, qualquer homem sadio o teria
ouvido e estaria em condições de seguir suas instruções. Já
havia chegado à caverna. Só encontrou um único homem.
— Quem
está aí? — perguntou Tiff.
— O
sagrado O’Keefe — respondeu o vulto.
— Está
armado?
— Além
de estar armado ainda tenho em mãos o transmissor.
— Excelente!
Tiff pegou
o aparelho e transmitiu a mensagem que os tripulantes da Titan só
puderam ouvir depois de terminada a batalha contra os robôs. Depois
ordenou a O’Keefe:
— Ligue
os aparelhos para a altura mínima, sargento. Não nos devem ouvir
nem a três metros de distância.
O’Keefe
obedeceu sem dizer uma palavra. Depois perguntou:
— E
agora?
— Espere
— murmurou Tiff. — Não quero contar a mesma história duas
vezes.
Um hora
depois do momento em que tivera início a confusão, Tiff tinha
certeza quase absoluta de que além dele mesmo e de O’Keefe ninguém
havia escapado ao ataque traiçoeiro.
Lá fora,
no vale, os homens intoxicados pela argonina gritavam e uivavam que
nem os loucos, gozando a vida. Os receptores regulados para o volume
mínimo traziam o ruído abafado da algazarra.
Quando um
vulto disforme foi se arrastando lentamente pelo capim,
aproximando-se da caverna, Tiff pensou que se tratasse de um dos
intoxicados, que estivesse à procura de um divertimento diferente.
Mas pouco
antes de chegar ao paredão, o vulto ergueu-se e perguntou com a voz
abafada:
— É o
tenente Tifflor?
Tiff
deu-se a conhecer.
— Halligan?
É o senhor?
— Sim
senhor.
— Entre
e baixe o volume de seu rádio. Por que demorou tanto?
— Fiquei
esperando até que os animais que andaram zumbido por aí tivessem
desaparecido.
— Chegou
a vê-los? — perguntou Tiff surpreso.
— Vi
perfeitamente. Estava ao lado de um dos idiotas que eles pegaram em
primeiro lugar. Andou dirigindo a luz do seu farol para todos os
lados, e por isso tive uma visão nítida dos mosquitos.
Halligan
rastejou para o interior da caverna. Alguém soltou um forte gemido.
— Pelo
amor de Deus! — suspirou Halligan. — Não venha me dizer que é
esse sapo do O’Keefe!
— É
isso mesmo — disse O’Keefe por entre os dentes. — Vou dizer-lhe
uma coisa. Se...
— Silêncio!
— exclamou Tiff em tom enérgico. — Não temos tempo para esse
tipo de brincadeira.
Duas horas
após o início do ataque, o céu começou a adquirir uma tonalidade
vermelha. Tiff sabia que a essa hora não apareceria mais ninguém
que não estivesse doente. Eram vinte ao todo. A argonina pesava na
consciência de dezessete deles. Ou melhor, na consciência do
inimigo misterioso que estavam procurando.
Mais uma
vez Tiff pegou o transmissor, acoplou-o ao alto-falante externo do
capacete e pôs-se a cantar no tom de ébrio:
— Somos
três e vamos fazer um piquenique.
Dirigindo-se
aos dois sargentos, disse:
— É
claro que daqui em diante vamos fingir-nos de loucos que nem aqueles
ali fora. Acredito que o inimigo está vigiando atentamente o vale.
Não deve descobrir que ainda não estamos doentes. Vamos prosseguir
na busca, e se agirmos com habilidade, poderemos dizer que nunca
tivemos tantas chances como agora.
Assim que
a escuridão havia cedido um pouco, saíram da caverna e
misturaram-se aos homens que se encontravam sob a influência da
argonina, pulando que nem crianças.
O’Keefe
e Halligan logo se adaptaram ao seu papel. Saltavam de um lado para o
outro e cantavam canções idiotas.
Tiff teve
certa dificuldade em representar a comédia. Os dezessete homens
corriam pelo capim como meninos e não queriam saber de nada. Apenas
na alegria de viver. Assim, ofereciam um espetáculo bastante triste,
apesar da alegria aparente que apenas fora provocada pela toxina,
arrependeu-se por não ter revelado suas preocupações a Chaney, no
momento em que descobriram a marca deixada pelo veículo de esteira.
Talvez este tivesse concordado em levar um contingente menos
numeroso.
Um dos
doentes esbarrou pesadamente em Tiff, despertando-o das suas
reflexões.
— Por
que tanta tristeza, companheiro? Não gosta da vida?
Era
Chaney. Tiff olhou-o. Não saberia dizer se Chaney o reconhecia.
— Gosto,
amigo — respondeu Tiff com o rosto radiante. — Nunca me senti
mais feliz que neste instante.
— Pois
venha comigo. Vamos cantar.
Sem
aguardar resposta, Chaney começou a entoar uma canção. Tiff cantou
algumas estrofes. Depois deu um salto alegre para o lado, executou
uma cambalhota em meio ao capim, soltou alguns gritos histéricos e
escapou à disposição musical de Chaney.
Halligan e
O’Keefe já haviam atingido o paredão que ficava do lado oposto.
Mantinham-se à direita e à esquerda do lugar em que Tiff havia
visto o hono pela última vez.
Tiff
apoiou-se sobre a cabeça e deixou que os joelhos dobrassem
lentamente. A barriga da perna bateu num objeto que já vira há
algum tempo, e que preferira não tocar, pois sabia que o vale estava
sendo observado pelo inimigo.
Exultando
de alegria, rebolou pelo chão e acabou pondo a mão no minúsculo
objeto. O convite que formulou a seguir era o sinal de bater em
retirada, combinado com os dois sargentos:
— Vamos
cantar a canção de Clementina!
Encontraram-se
na caverna, depois de terem gasto mais de quinze minutos para
percorrer os cinqüenta metros sem despertar a atenção do inimigo.
Um dos doentes gritou atrás deles:
— O que
vão fazer nessa caverna? Fiquem aqui mesmo, pois o sol está
brilhando.
Tiff não
perdeu a cabeça. Respondeu prontamente:
— Já
voltamos. Por enquanto a caverna está tão quentinha e acolhedora.
O doente
convenceu-se com estas palavras.
“Tomara
que isso também tenha acontecido com o inimigo”,
pensou Tiff.
No
interior da caverna examinaram o pequeno objeto. Haviam saído para
procurar a pista dos honos, mas no momento aquele aparelho parecia
mais importante.
Parecia
ser feito de uma única peça. Tiff teve de usar um disparo finíssimo
do desintegrador para soltar a tampa, pois só assim poderia ver o
que havia no interior do objeto.
O
instrumento era produto de uma tecnologia estranha. Mas nunca pode
existir tanta diferença entre os princípios de funcionamento dos
objetos destinados a fins idênticos que um técnico não sabia
identificar um garfo como um garfo, um pente como um pente e um
codificador como um codificador.
O que
tinham na mão era um codificador. Pelo que constatou Tiff, o
aparelho estava em condições de irradiar ao menos dez sinais
codificados através de um hiper-transmissor, mesmo que apenas
pudesse fazê-lo com uma potência extremamente reduzida.
Um dos
honos devia ter perdido o aparelho em meio à confusão.
Provavelmente era aquele que havia atirado em Tiff.
“Um
dos
honos! Desde quando esses seres possuem aparelhos como este?”
— pensou o tenente.
Essa idéia
levou Tiff à indagação sobre a credibilidade que a história dos
purificados e os não-purificados ainda poderia merecer. Será que
Nathan e seus amigos não agiam por ordem dos deuses? Não teriam
recebido a incumbência de atrair os inimigos dos mesmos a uma
armadilha segura?
Se fosse
assim, deviam estar em condições de comunicar-se com os deuses. Por
meio do codificador, por exemplo.
A
conclusão era lógica e Tiff não tinha motivo para acreditar que
não fosse verdadeira. Mas lembrava-se perfeitamente dos honos, dos
purificados, que conhecera por ocasião do primeiro pouso da Titan em
Honur. Eram seres pacatos, apáticos, que quase chegavam a ser tolos,
e cuja única ocupação consistia em brincar com os nonos.
O que se
teria de fazer com seres desse tipo para levá-los a executar um
trabalho definido e bem orientado, como o que acabava de ser
realizado por Nathan e seus companheiros?
Tiff foi
interrompido em meio às suas reflexões. O sargento O’Keefe
pigarreou, a fim de chamar a atenção.
— Também
encontrei uma coisa. Quem sabe se...
— Não
pense que só você encontrou alguma coisa! — interveio Halligan
acaloradamente. — Tenho certeza de que aquilo que eu encontrei é
mais interessante...
Tiff riu.
— Pois
mostrem! — disse.
Os dois
sargentos puseram as mãos sob os olhos de Tiff. Os achados eram
idênticos. Mas, mesmo apresentados em duplicata, despertaram
bastante interesse para provocar uma tremenda exaltação em Tiff.
Pegou
cautelosamente o objeto que O’Keefe segurava. Era pequeno, medindo
cerca de cinco centímetros, formado por cinco peças articuladas.
Quatro dessas peças tinham o aspecto de dois pares de asas, enquanto
a quinta devia representar o corpo do estranho ser. Não havia uma
cabeça bem identificada; no lugar via-se uma ponta comprida, que ia
afinando na extremidade. Na base, mostrava um círculo formado por
quinze pontinhos que emitiam um brilho cristalino.
Era um dos
mosquitos que Halligan vira durante a noite.
Face ao
estado de nervos em que Halligan se encontrava ao observar o objeto e
à iluminação escassa, não seria nada difícil enganar-se sobre a
verdadeira natureza daqueles seres. Tiff, que segurava o objeto na
mão, percebeu suas características ao ver a ponta metálica e o
formato regular das articulações das asas:
O mosquito
não era um ser dotado de constituição orgânica. Tratava-se de um
mini-robô.
Demorou
algum tempo até que Halligan e O’Keefe acreditassem nesse fato. O
que mais os intrigava era a idéia de que nenhum homem seria capaz de
construir um robô teleguiado de dimensões tão minúsculas. Porém
Tiff recordou a habilidade demonstrada, por exemplo, pelos ferrônios
do sistema de Vega, que criaram verdadeiras maravilhas no terreno da
micro tecnologia. Assim, foi vencendo suas dúvidas passo a passo.
— Mas, o
que é mesmo de admirar não é isso — disse finalmente. — Cada
um destes animaizinhos, ou melhor, destas maquinazinhas, tem de ser
dirigido independentemente dos outros. Não adiantaria nada se, num
ataque como o que foi desencadeado na noite passada, a nuvem fosse
guiada em conjunto; nesse caso, a esta hora os mosquitos ainda não
teriam concluído seu trabalho.
“Para
orientar um enxame desses mini-robôs em pleno combate, expedir
comandos numa fração de centésimo de segundo, revogá-los e
substituí-los por outros, precisa-se recorrer ao controle automático
de um dispositivo positrônico. Nenhum ser vivo poderia dispor de
visão tão ampla e de tamanho poder de reação. É bem verdade que,
ao que tudo indica, mesmo um dispositivo positrônico enfrentaria
dificuldades, pois os mosquitos que temos diante de nós devem ter
batido no paredão e caído.” O’Keefe e Halligan ficaram
espantados.
— Aliás,
sou de opinião que em Honur não encontraremos o inimigo
propriamente dito, mas um sistema altamente sofisticado formado por
um cérebro positrônico e um contingente de robôs por ele
comandados — prosseguiu Tiff em tom pensativo. — Isso se
encontrarmos alguma coisa. Acho que, se não fosse assim, já
deveríamos ter achado algum sinal do inimigo. É claro que isto não
passa de uma suposição.
— Não
acredita que os quatro honos... — principiou Halligan.
Tiff
sacudiu a cabeça
— Não.
Acredito que apenas estava executando ordens de alguém.
Halligan
ficou calado. Também O’Keefe mergulhou nos seus pensamentos.
Depois de algum tempo, Tiff disse:
— Hoje
de noite procuraremos seguir o; honos.
Os dois
sargentos levantaram a cabeça.
— Os
quatro honos? Pois o senhor sabe para onde...?
— Vi o
último deles ali, diante do paredão, no lugar em que encontramos o
codificador. Tenho certeza de que nesse ponto deve haver outra saída.
O’Keefe
olhou fixamente para fora da caverna.
— Não
vejo nada — disse em tom obstinado.
— Não é
de admirar — disse Tiff com uma risada — Teriam que ser muito
tolos para deixar o buraco aberto.
— Acha
que é uma espécie de portão camuflado? — perguntou Halligan.
— Isso
mesmo.
— E como
pretende fazer para abri-lo?
Tiff pôs
o dedo no codificador.
— Com
isto — respondeu. — Um dos dez sinais emitidos pelo mesmo deve
ser aquele que abre essa saída, ou entrada, conforme se queira. Só
assim se explica que os honos puderam fugir tão depressa.
Olhou
Halligan e O’Keefe com uma expressão séria.
— Não
pode ser de outra forma — concluiu.
*
* *
O dia
passou-se sem que os doentes tivessem parado com sua algazarra, por
meia hora que fosse. Depois que a argonina se misturara ao líquido
encefálico e, em proporção menor, ao sangue e ao líquido
linfático, o cansaço, a fome e a sede sumiam. O organismo doente
ativava todas as reservas de energia de que podia dispor, não
permitindo qualquer pausa no estado de hipereuforia.
Para Tiff
e os dois sargentos, o dia foi muito cansativo. Não há nada pior
que ficar imóvel, espreitando um desconhecido.
Por várias
vezes Tiff pôs as mãos no; pequeno aparelho de transmissão e
recepção, para enviar uma pequena mensagem à Titan. O tédio quase
chegava a induzir a opinião de que uma pequena mensagem, concebida
no mesmo tom exultante que a expedida na noite anterior, não poderia
causar o menor prejuízo, mesmo que o inimigo interceptasse todas as
comunicações. Mas o raciocínio acabou por vencer. Uma pessoa
intoxicada pela argonina só teria uma capacidade extremamente
limitada dei executar uma seqüência causal e lógica de atos; e os
movimentos necessários para pôr um transmissor a funcionar exigia
uma seqüência causal e lógica de atos. Assim que o doente tivesse
movido a primeira chave e girado o primeiro botão, encontraria outra
ocupação que lhe desse um prazer muito maior. Então, largaria o
transmissor num canto qualquer. Uma mensagem alegre ainda poderia
encontrar explicação, mas duas mensagens provocariam suspeitas no
inimigo.
Ao
escurecer, Tiff, Halligan e O’Keefe voltaram a misturar-se com os
doentes. Desta vez carregavam, além das armas, o transmissor e o
pequeno codificador.
Aproximaram-se
discretamente do paredão de rocha. Halligan e O’Keefe tentavam a
escalada escorregando e caindo propositadamente, mas nem por isso de
forma menos dolorosa, uma vez que não sabiam quanto tempo levaria
Tiff para abrir o portão de pedra. O tenente fez com que o pequeno
aparelho irradiasse todos os sinais codificados registrados em sua
fita.
A cada
sinal que emitia aguardava, por algum tempo, aguçando o ouvido. Não
tinha a menor idéia das situações que seriam despertadas pelos
sinais. Era perfeitamente possível que depois de um deles os
mosquitos robotizados voltassem a precipitar-se no vale.
Não
aconteceu nada disso. Ao contrário do que esperava Tiff, a operação
correu sem o menor incidente. Depois de expedir o quarto sinal
codificado, uma faixa do paredão recuou subitamente à sua frente e
girou para o lado, antes que ele tivesse tempo de chamar os dois
sargentos. A abertura que se formara tinha cerca de três metros de
largura e dois metros de altura.
Halligan e
O’Keefe caíram paredão abaixo. Cambaleando e balbuciando que nem
dois bêbados, tropeçaram para dentro do buraco escuro. Tiff
seguiu-os e insistiu para que penetrassem mais um pedaço no corredor
que parecia começar logo após a abertura. Depois virou-se e,
prendendo a respiração, aguardou para ver se o portão se fechava
automaticamente, ou se para isso haveria necessidade de outro sinal.
Fechou-se
automaticamente. Embora Tiff e os dois sargentos pensassem que uma
pequena eternidade se havia passado, apenas trinta segundos
decorreram do momento em que o portão se abriu até aquele em que
voltou a fechar-se. Nenhum dos homens intoxicados pela argonina havia
notado o fenômeno. Tiff agira acertadamente ao executar a operação
no escuro.
— Acenda
a luz — ordenou Tiff em meio à escuridão.
O raio
intenso de um farol manual rompeu a escuridão, iluminando um
corredor revestido de plástico, que tinha a mesma largura e altura
do porão aberto na rocha, e descia num declive suave a uma
profundidade incomensurável.
— Vamos
andando — ordenou Tiff. — Fiquem com as armas engatilhadas. É
bem possível que em algum lugar a abertura do portão tenha
provocado a emissão de um sinal. Devem estar esperando por nós em
qualquer ponto, se é que não virão ao nosso encontro.
Mas o
corredor continuava escuro e silencioso. A algazarra dos doentes mal
chegava aos receptores de capacete.
O sargento
O’Keefe caminhou à frente do grupo. Halligan e Tiff marcharam lado
a lado, logo atrás dele. O’Keefe avançava a passos vigorosos,
resmungando de impaciência. Parecia que tinha vontade de dizer
alguma coisa. Mas suas palavras transformaram-se num grito de pavor,
que foi partilhado por Tiff e Halligan.
O chão
sob os pés começara a mover-se. O’Keefe perdeu o equilíbrio e
caiu. O farol escorregou-lhe da mão e apagou-se. Tiff ouviu o ruído
provocado pelo deslocamento de ar.
— Faça
luz, O’Keefe.
O’Keefe
chiou alguma coisa entre os dentes; felizmente ninguém entendeu.
Tiff ouviu suas mãos enluvadas baterem no chão. Finalmente soltou
um suspiro de alívio; depois de algum tempo o farol foi aceso.
Ao que
parecia, o ambiente continuava a ser o mesmo. O revestimento de
plástico conferira um aspecto tão uniforme ao soalho, às paredes e
ao teto do corredor que o olho humano não encontraria qualquer ponto
de referência pelo qual pudesse orientar-se. Tiff pôs a mão num
dos bolsos externos do seu traje e tirou o estojo que já servira
para guardar pontas de lapiseira. Atirou-o num ângulo inclinado
contra uma das paredes laterais.
O
resultado foi surpreendente. O estojo foi repelido pela parede com
uma violência inacreditável e, em vez de seguir as leis da
reflexão, retornou pela mesma trajetória resultante do arremesso de
Tiff. Passando junto ao capacete de Halligan, emitiu um chiado e, ao
bater na parede oposta, voltou a ricochetear e desapareceu do feixe
de luz projetado pelo holofote de O’Keefe.
Tiff
ajoelhou-se e com a mão direita apalpou cuidadosamente o chão. Mas,
por mais que ampliasse sua pesquisa, não encontrou ali nenhuma das
estranhas características que as paredes possuíam. Mas, quando
estendeu a mão para o lado e tocou a parede com a pontinha do
indicador, sua mão foi atirada para trás com uma violência
inacreditável.
— Estamos
numa fita rolante — murmurou. — Ela se desloca a uma velocidade
de cem quilômetros por hora. Toda a largura do chão é tomada pela
fita.
Os dois
sargentos pareciam perplexos; calados, aguardavam instruções. Tiff
refletiu. Não sabia se o funcionamento da fita era automático, ou
se alguém recorrera a esse meio fácil de transportar os intrusos ao
lugar em que desejava vê-los colocados.
De
qualquer maneira, Tiff não tinha a menor vontade de cair nos braços
de um comitê de recepção do inimigo a uma velocidade de cem
quilômetros por hora.
— Halligan,
vá para a frente — ordenou Tiff. — Mantenha o desintegrador
preparado para disparar a qualquer momento. Quando eu lhe der o
sinal, corte o chão um metro à sua frente, de uma parede a outra.
Acho que com isso nossa viagem chegará ao fim. Mas por enquanto não
podemos desejar coisa melhor que viajar de forma tão confortável.
Halligan
colocou-se a um passo diante de O’Keefe e manteve o cano de sua
arma apontado para baixo. Pelos cálculos de Tiff, em caso de
necessidade Halligan não levaria mais de um segundo para cortar a
fita, e dez segundos se passariam ao todo até que esta se
imobilizasse. Haveria um forte solavanco, mas estavam preparados.
Tiff olhou
para o relógio. Já fazia uns quinze minutos que se deslocavam a
alta velocidade quando O’Keefe avisou os companheiros de que uma
modificação se anunciava mais à frente.

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