Bell,
então, usou a pistola térmica e com a rapidez anterior, as solhas
se transformaram em vapor esfusiante e em gotas que caíam no chão e
endureciam. Enquanto atirava com a mão direita, a esquerda puxava o
mutante inconsciente. O buraco já tinha o tamanho necessário.
Via-se através dele apenas uma escuridão interminável.
Ao se
aproximar, recuou com um grito de horror. Vinha pelo corredor, na
direção deles, uma multidão de pernas, sobre as quais repousavam
troncos pesados, de cor cinza-escuro, troncos com quatro braços e
cabeçorras redondas, de olhos estarrecidos e sem vida.
Apesar da
escuridão, Bell percebeu pelo menos uns vinte, vinham meio
agachados, pois tinham três metros de altura, enquanto o corredor
mal chegava a dois. Estavam armados, com armas tão pesadas que um
ser humano dificilmente conseguiria carregar.
Eram bios
— criaturas repugnantes e artificiais que os aras criavam em Laros.
Bell já os tinha visto uma vez em Laros e pedira a Deus que nunca
tivesse de enfrentá-los.
Neste
momento, porém, tinha a certeza de que Deus não atendera seu
pedido.
3
Marshall
captou os pensamentos excitados e nervosos de Bell, enquanto ainda
estava descansando no degrau inferior. Tentou levantar-se e correr,
mas os braços e as pernas não lhe obedeceram. Continuou deitado,
tentando descobrir se o novo adversário emitia algum impulso. Pelos
pensamentos de Bell, podia-se concluir que se tratava de um grupo de
bios dos aras. Os aras, seus criadores e donos, tinham transmitido a
eles um certo grau de inteligência, exatamente tanto quanto
necessitavam para servirem como meros escravos: os bios não possuíam
nenhuma pretensão própria.
Antes
disso, porém, Marshall não captara nada, a não ser muitos
pensamentos dos colegas, todos acusando o horror pelo que viam.
Ao
sentir-se um pouco mais resistente, levantou-se. Com dificuldade
venceu dois degraus, tendo que parar para descansar. E enquanto
descansava, percebeu o primeiro sinal do adversário:
— Estão
aqui na nossa frente.
A resposta
telepática veio de imediato:
— Matai-os,
eles estão destruindo o sistema de refrigeração.
Chegou a
hora do comando de Bell:
— Fogo!
Vamos tocá-los daqui para fora.
A primeira
investida de Bell deu certo e ele estava triunfante. Mas Marshall
percebeu que não havia esperanças de uma vitória final. Teve então
uma idéia. Chamou Betty, que respondeu de imediato, embora a luta
recém-iniciada a prendesse totalmente.
— São
telepatas muito fracos, Betty, temos que tentar influenciá-los.
— Será
que conseguiremos? — perguntou ela.
— Vamos
experimentar.
— Já
tentei arrancar as armas de suas mãos horrorosas, mas possuem força
descomunal e eu não estou podendo me concentrar bem.
Betty
possuía realmente dois dons parapsíquicos distintos: era telepata e
telecineta ao mesmo tempo. Se lhe dessem tempo suficiente, poderia
decompor uma montanha de mil metros de altura, sem botar a mão nela.
Mas, tempo
ela não tinha, e os bios seguravam suas armas com mais firmeza do
que o rochedo, os blocos de pedra.
— Vamos
tocá-los para fora do corredor — disse Marshall, depois de Betty
lhe ter descrito a situação. — Vamos dar-lhes ordem de voltar e
deixar Bell sossegado.
Betty
concordou, sempre um pouco assustada.
— Bell
os rechaçou uns dois metros para trás. Nós estamos abrigados dos
dois lados da entrada, de maneira que terão que invadir primeiro, se
quiserem atirar em nós. Agora... agora estão atacando de novo.
Marshall
fez um esforço para se concentrar.
— Vamos
começar, Betty. Faça um grande esforço de concentração.
*
* *
Reginald
Bell estava quase certo de que esta seria a última luta que teria de
travar em sua vida.
As armas
dos bios eram muito poderosas. Se conseguissem ao menos uma vez sair
do corredor e penetrar no reservatório, ele, Bell, e todos os seus
estariam perdidos.
No
primeiro embate, Bell atingiu com tiros certeiros dois bios,
desencorajando com isto os outros atacantes, de tal maneira que
recuaram um pouco. Mas, apesar de todo o primitivismo de sua
inteligência, era apenas uma questão de tempo, até que chegassem à
idéia tão simples de que abrindo um outro corredor pela rocha,
chegariam ao reservatório, sem o perigo de um ataque direto.
— Estão
voltando — sussurrou Betty.
Bem perto
do chão, Bell esticou a cabeça, protegida pelo capacete, até o
ponto em que podia ver os bios que se aproximavam. Seguravam as armas
com as duas mãos superiores, enquanto que as duas outras pendiam
livremente, num poderoso, mas disforme e estranho tronco.
Bell
enfiou a mão com a arma pelo canto da parede e deu uma piscadela
para os dois telepatas.
— Deixem
chegar até cinco metros, rapazes. É o melhor ponto para um bom
tiro. Prestem atenção.
Já estava
com o dedo no botão de fogo contínuo. Viu também que os bios
ergueram as armas, já com o dedo no gatilho.
Mas o
primeiro ficou parado de um momento para o outro. O corredor era tão
estreito que tinham que caminhar um atrás do outro. Aconteceu então
que os outros se chocaram contra ele, que apesar de tudo, não perdeu
o equilíbrio. Abriu a bocarra, como se sentisse falta de ar, e por
uns segundos sua fisionomia simplória dava a impressão de
perplexidade.
Os bios
não usavam trajes espaciais. Para seus corpos abrutalhados e quase
sem diferença um do outro, não tinha a menor importância o local
onde estavam, contanto que a carga mecânica não fosse grande
demais.
Bell pôde
ver bem nítido como as pernas do primeiro monstro começaram a
tremer. Pesadamente, deu um passo para o lado e voltou. Bell escutou
qualquer coisa articulada, mas incompreensível. Após isso, toda a
tropa deu meia-volta, afastando-se pela escuridão adentro.
Bell
quedou perplexo, de olhos fixos na escuridão, não entendendo o que
se passava. Avançou uns passos na direção deles e com a luz da
lanterna os seguiu, até sumirem nas trevas.
— Estão
indo embora — dizia Betty feliz para Marshall, por via telepática,
de maneira que ninguém ouviu.
Só então
é que Marshall respirou aliviado e teve forças para subir os outros
degraus. Após caminhar uns minutos, viu claridade em sua frente.
Entrou, ofegante, num grande hall onde Bell e os seus haviam
rechaçado aquele ataque horrível dos bios, de uma maneira que
parecia milagre.
Naturalmente
Marshall informou a Bell de que maneira tinha acontecido aquele
milagre. Reginald abanou a cabeça pensativo:
— Como
você certamente já notou, eu sou um tanto céptico em relação a
vocês mutantes, mas devo dizer... — olhou para Marshall e piscou o
olho — ...meus respeitos.
Marshall
agradeceu, dizendo:
— Quero
ver o que se pode fazer por nós ainda.
Todos
estavam prestando atenção.
— Por
nós ainda? Será que você já tem algum indício sobre o paradeiro
dos três japoneses, onde as solhas os esconderam?
Marshall
fez sinal negativo com a cabeça.
— Não,
não tenho. Acho que não podemos achá-los por nossa própria força.
As instalações são muito extensas.
Fez uma
pausa, como se tivesse que pensar.
— Não —
continuou. — Estive refletindo um pouco sobre as solhas. Cá entre
nós, deveríamos arranjar um nome melhor para elas. É verdade que
isoladamente são seres, no máximo, semi-inteligentes. Porém, em
conjunto, formam unidades de qualquer tamanho e são capazes de
realizar coisas importantes, como acabamos de ver, não é?
— Claro
— respondeu Bell.
— E mais
uma coisa ainda.
— O quê?
— perguntou Bell.
— As
so... ou então, como devemos chamá-las? Os gons... estão em
contato com os aras de Laros, do contrário não teriam recebido
auxílio de lá.
— Muito
bem. E você sabe como isto acontece?
— Não
tenho a menor idéia — disse Bell.
— Pense
no caso de Goratchim — aconselhou-lhe Marshall. — Provavelmente
as solhas estavam ocupadas em sugá-lo. Lembre-se daquelas que caíram
de repente do teto. Você também não tem a impressão de que este
local é um viveiro de solhas e os gons ou solhas querem alimentar
seus embriões ou massa de origem com substância orgânica?
Bell ouvia
com toda atenção.
— Pois
bem, isto seria uma explicação. Mas continue, homem sábio.
Marshall
sorriu e continuou:
— Os
gons ou as solhas são, pois, especialistas na digestão ou
assimilação de substância orgânica. Você se lembra de como a
nossa Gazela desapareceu? Acho que as solhas adultas também se
alimentam da mesma maneira. Nada seria então mais razoável para os
aras do que procurar neste planeta a substância de que necessitam
para a produção dos bios. Possuem aqui um fornecedor espontâneo.
Em Laros seria muito mais complicado, precisariam de um mecanismo
complexo para obter o mesmo resultado. Vou mais longe ainda: os aras
instalaram a base dos bios em Laros, só porque têm as solhas bem
próximas.
Seguiu-se
um longo silêncio. Depois Bell se manifestou:
— Acho
que você tem toda razão. Tudo que disse, realmente, tem fundamento.
— Levantou bruscamente a cabeça. — Mas...
— Mas eu
havia dito que poderia, sob certas condições, fazer algo em nosso
favor.
— Exatamente
a este ponto é que queria chegar.
Marshall
tinha simplesmente lido seu pensamento. Continuou sorrindo.
— Pois
bem. Já sabemos que nos encontramos no reservatório de ar de um
sistema de refrigeração. Provavelmente as solhas se multiplicam
melhor sob a temperatura de 14,3 graus, que constatamos durante umas
duas horas. Ao pensar num sistema de refrigeração, tenho
forçosamente que imaginar que em algum lugar tem de haver uma câmara
de vácuo... para compensar a elevação da pressão e para
descompressão adiabática do ar superaquecido, não é?
Bell
sorriu.
— Seu
método é extremamente indutivo. Não se pode fazer outra coisa do
que lhe dar razão.
Com um
sorriso tranqüilo, Marshall agradeceu o cumprimento.
— Essa
câmara de vácuo é que temos de encontrar. A única coisa com que
temos de nos acautelar, são os bios.
— Como
assim? Não são tão fáceis de serem influenciados telepaticamente?
— Tão
fáceis? — Marshall sorriu. — Betty e eu não somos sugestores.
Sem o auxílio do acaso, não o teríamos conseguido.
Depois,
ficando um pouco mais sério, continuou:
— Não,
não acredite que já estamos livres dos bios. Basta aparecer um
grupo um pouco maior, digamos de cinqüenta, então nós os telepatas
não conseguiremos mais nada.
— Não
acredito — disse Bell — que os aras mandem mais do que este
grupo.
— Eu
também não, mas não podemos ter certeza.
Bell
concordou, mudando de assunto:
— Portanto,
podemos ir, não é? Onde supõe que esteja a câmara de vácuo?
— Em
algum lugar por aí. Você naturalmente reparou que este corredor é
mais alto e mais largo que o anterior. Quem sabe se bifurca mais além
e recebe outros ramais? Temos de examinar estas bifurcações.
De dois em
dois, rastejavam-se, um ao lado do outro, para dentro do corredor.
Ras Tschubai e Tako Kakuta arrastavam com sacrifício o mutante de
duas cabeças.
Depois de
três quartos de hora, atingiram realmente o local onde desembocava
um corredor mais baixo que vinha do lado esquerdo. E a luz das
lanternas iluminaram uma outra bifurcação a cem metros daí.
— Muito
bem, — disse Bell. — Até aqui sua teoria está correta,
Marshall.
Marshall
disse qualquer coisa, concordando, depois falou:
— Aliás,
estou me lembrando de outra coisa.
— Do
quê?
— De que
maneira os bios vieram de Laros para cá? Acha que foi a pé?
Bell
gostou da pergunta.
— Puxa,
você é um homem inteligente. Mas vamos dar um jeito de, antes,
comer alguma coisa. Depois iremos procurar a espaçonave em que
vieram os bios. Se é que ainda está por aí.
Marshall
sorriu. Estava diante da saída da bifurcação. Bell reparou como
ele pegou a pistola térmica e apontou contra a parede da parte
bifurcada, mantendo o fogo por uns cinco segundos. Bell se aproximou,
olhando admirado para o ponto atingido. No mesmo instante, se sentiu
um vento brando que soprava do trecho bifurcado para o corredor
principal.
— Está
vendo, não é o corredor certo. Se houvesse uma câmara de vácuo em
sua extremidade, o vento teria soprado na direção oposta.
Bell ficou
olhando para ele, de olhos arregalados e de boca aberta.
— Se
você continuar assim — disse Bell — de boa vontade, terei que
lhe ceder meu posto a bordo da Titan.
*
* *
O método
de Marshall tornava supérfluo ter de examinar cada ramificação do
corredor até seu início. O método era infalível, como todos
estavam vendo. Num trecho de pouco mais de um quilômetro,
ramificavam-se do corredor principal quinze saídas. Marshall
procurava a décima segunda.
Depois de
fazer o tiro de experiência, surgiu um rombo na parede da entrada,
por onde penetraram. Após uma caminhada mais curta do que pensavam,
chegaram a um lugar onde uma cortina de solhas marrom-escura tapava o
caminho, hermeticamente.
Bell que
sempre se mantinha ao lado de Marshall, pegou a arma para afastar do
caminho aquele obstáculo. Porém Marshall puxou-lhe o braço para
baixo.
— Não
desse jeito — pediu ele. — Precisamos usar outra técnica, se
quisermos que a câmara de vácuo nos seja útil.
Marshall
sacou a arma, dirigindo-a contra a parede, mas antes de acioná-la,
avisou:
— Esteja
preparado. Dependendo das condições, teremos que atravessar aqui,
como as doninhas.
Bell
entendeu o que queria dizer. Quando Marshall começou a trabalhar na
parede com a pistola térmica, Bell estava puxando Goratchim por uma
dobra do maltratado traje espacial. E, ao se levantar a cortina de
solhas, para permitir a passagem da massa de ar quente para as partes
do corredor que estavam com pressão mais baixa, o mutante foi
arrastado tão fortemente, sendo atirado uns metros para dentro do
corredor.
Como já
previra Marshall, a cortina se abriu apenas por poucos segundos,
caindo depois ao solo e separando uma parte do corredor
hermeticamente da outra.
Este breve
intervalo foi suficiente para o pessoal de Bell. Sentiam-se
arquejantes devido ao esforço que o movimento mais rápido exigia,
principalmente em virtude da maior atração. Mas já estavam para
trás da cortina.
Alguns
metros para frente, havia uma outra cortina, idêntica à anterior,
também formada pelas solhas de Gom. Marshall as obrigou a abrir
caminho, do mesmo modo como com as outras.
Bell
consultava com freqüência o manômetro de pulso. Constatou que
depois de cada cortina — ao todo cinco — a pressão do ar era
umas duas atmosferas mais baixa do que a anterior. Depois da quinta
seção, a pressão ainda estava a duas atmosferas e meia. Ainda era
alta demais, para que pudessem tirar os trajes espaciais. Porém se
tornara apenas um décimo da pressão reinante normalmente em Gom.
Após a
última cortina, o corredor era muito sinuoso. Inteligentemente, os
gons tinham conseguido com a técnica mais simples possível, mas ao
mesmo tempo muito eficiente, que, por ocasião de uma repentina
compensação de pressão, a impetuosidade do ar não causasse
prejuízos. Estava obrigada a fazer muitas curvas e com isto perdia
em velocidade.
Já haviam
caminhado duas horas, quando, após uma curva, surgiu novamente uma
cortina de solhas. Dava impressão de ser muito mais volumosa do que
todas as outras pelas quais haviam passado. E quando Bell
experimentou dar o seu possante soco com a luva direita, notou que aí
não havia aquela elasticidade característica das anteriores, mas
antes, parecia uma parede sólida de cimento armado.
— Nada
de extraordinário — disse Marshall — aí atrás deve estar,
provavelmente, a grande câmara de vácuo. Este paredão tem que
suportar uma bela pressão.
A receita
patenteada de Marshall iria atuar também aí. Um rápido bombardeio
na parede obrigaria a cortina a ceder um pouco de lado e o ar
aquecido penetraria na câmara. Devido aos exercícios já repetidos,
Bell e os seus conseguiram entrar antes que se desse a compensação
de temperatura.
Apenas
Marshall ficou de fora.
O
manômetro de Bell acusava a pressão de 0,05 atmosferas. Os trajes
espaciais elásticos, submetidos até então a uma pressão bem
elevada, estavam quase colados à pele, porém, agora, se estufaram
como balões disformes.
— Cinco
centésimos! — exclamou Bell para Marshall. — Precisamos de vinte
vezes mais do que isso.
Sob o jato
térmico de Marshall, levantou-se de novo a cortina das solhas,
deixando penetrar uma corrente de ar esfusiante. Bell viu que a
pressão, no seu manômetro, passou de 0,05 para 0,6 atmosferas.
— Só
mais um pequeno disparo — pediu ele a Marshall.
Marshall
obedeceu prontamente, arrastou-se pela terceira vez para a cortina
que se reerguia e pôde observar no seu manômetro que, com o último
bombardeio, a pressão dentro da câmara subiu a 0,97 atmosferas.
Sob a
claridade das lanternas do capacete, constatou-se que a câmara não
era tão grande como se supunha. Tinha uma forma arredondada —
aliás, os gons deviam ter predileção por esse tipo de construção
— mais ou menos vinte metros de altura e quinze de diâmetro.
As paredes
não estavam despidas como as das câmaras de ar rarefeito, onde os
bios os atacaram. Três quartos dela estavam recobertos com as solhas
de cor marrom-escura. Marshall falou categórico:
— Pensei
que fossem exatamente assim. Os gons não possuem um número imenso
de câmaras de vácuo. Quando uma delas se enche de ar, como é o
caso desta aqui, então só lhes resta tentar esvaziá-la novamente.
Não dispõem de meios mecânicos, como nós. Não têm, pois, outro
meio de expulsar o ar a não ser por reações químicas, ou melhor
reações em série, que consomem o ar.
Bell fez
uma fisionomia séria de quem entendia e aprovava.
— Muito
plausível. E as próprias solhas desencadeiam estas reações?
— Sem
dúvida alguma. Dependuram-se como cortinas nos corredores, por si
mesmas, por que então não vão poder provocar reações químicas
nos seus próprios corpos e conseguir controlá-las? Esperemos um
pouco. Conforme minha teoria, a pressão deve diminuir com o tempo,
provavelmente de maneira lenta, mas contínua.
Bell foi o
primeiro a despir, com muito cuidado, o traje espacial. Sabia que a
atmosfera das solhas era quase a mesma que a da Terra. Porém, não
sabia, como era a composição do ar no interior da instalação
subterrânea.
Aspirou
devagar, olhando calmamente em volta.
— Catinga
um pouco — ouviram-no dizer — mas pode-se respirar.
Mais do
que depressa, tiraram aquela indumentária plástica, colocando o
capacete de lado de tal forma que as lanternas estavam voltadas
contra as paredes, produzindo uma espécie de iluminação indireta.
Catingava,
realmente, isto é: havia um cheiro pouco comum, de início,
desagradável, no ar. Por certo seria conseqüência da transpiração
das solhas.
A refeição
que estavam tomando, era tudo, menos um banquete. Compunha-se
essencialmente de preparados concentrados que matavam a fome e a sede
ao mesmo tempo e davam ao corpo reserva suficiente para duas semanas.
Como sobremesa, Bell distribuiu uma barra de chocolate que havia
esquecido no bolso de seu traje espacial.
Ficaram
bastante tempo descansando. Tinham a feliz sensação de, sem os
tolhedores trajes plásticos, poderem respirar um ar fresco, pois o
mau cheiro de início, ninguém mais notava.
Durante
estas três horas, em que estiveram descansando estirados no chão, a
pressão na câmara desceu do valor inicial para 0,75 atmosferas. Os
gons que estavam nas paredes, cobriram-se com uma camada
marrom-escura, sendo que de vez em quando caía-lhes um pedaço no
chão. Constatava-se, portanto, no corpo das solhas uma reação à
pressão quando esta diminuía.
— A
natureza é mesmo maravilhosa — dizia Marshall pensativo —
criando tais seres. Dentro de sua categoria, eles são tão completos
como o homem.
E olhando
em torno e vendo o interesse geral em ouvi-lo, Marshall continuou:
— Vamos
agora resumir tudo que sabemos sobre estes seres de Gom, ou as
solhas, como dizemos. Primeiro: como indivíduos, são completamente
inofensivos para nós. Não dispõem de nenhum tipo de instrumentos
ou armas, são apenas semi-inteligentes, pelo menos enquanto não
forem influenciados de fora.
“Segundo:
o agrupamento ou a fusão de várias solhas num, digamos, supergom,
significa a soma de inteligência e produz um ser que não apenas é
capaz de pensar por si, mas sem dúvida, pode possuir dons
parapsíquicos. Tentem imaginar, por exemplo, que força telecinética
incrível seria necessária para puxar a Gazela, a milhares de
quilômetros de altura para uma aterrissagem em Gom, mais semelhante
a uma queda.
“Terceiro:
a lógica observada pelo supergom é completamente diferente da dos
homens. O supergom, portanto, não conhecerá nenhuma moral, conforme
os padrões humanos. Não podemos, pois, esperar, só para dar um
exemplo, que nos sejam gratos, à maneira dos homens, por um serviço
prestado. Por outro lado, se lhes fizermos algum mal, não precisamos
nos preocupar de que se vinguem ou fiquem nossos inimigos.
“Quarto:
O supergom tem a faculdade de se comunicar com um ser estranho, cujo
cérebro seja mais ou menos semelhante ao nosso. Estou me referindo
aos bios. Não quero fazer nenhuma comparação entre eles e nós.
Mas não há dúvida alguma de que o pouco de cérebro que os bios
possuem é semelhante ao cérebro dos aras e portanto é construído
como o nosso. Por conseguinte, deve haver também uma possibilidade
de nós nos entendermos com os gons. Temos que encontrá-la.”
Bell era o
ouvinte mais atento.
— O que
vamos ganhar, realmente, se conseguirmos este entendimento com os
gons?
— Primeiramente,
queremos sair daqui. Seria maravilhoso se conseguíssemos sair daqui
sem ter que cavar a fogo na rocha uma dúzia de buracos. Para isto
precisamos do apoio dos gons. E, em segundo lugar, é muito provável
que os gons tenham idéia de como podemos deixar este planeta do
inferno o mais rápido possível. Pensem apenas no fato de que,
conforme nossa hipótese, os aras extraem sua matéria-prima orgânica
dos gons. Sendo isto uma realidade, certamente enviam de vez em
quando uma espaçonave para Gom. Talvez nos próximos dias venha uma
e nós podemos tomá-la dos aras, caso os bios já tenham regressado
ou nós não encontremos a que está por aqui agora.
Bell ficou
ainda mais pensativo.
— Combinado
— respondeu finalmente. — Acha que conseguirá entrar em contato
com os gons?
— Vou
tentar — respondeu Marshall.
— Onde é
que está este supergom, na sua opinião? Todos nós estamos
convencidos de que toda esta instalação é dirigida por um grupo de
gons, não é verdade?
— Claro
que é — respondeu Marshall. — Não posso saber de quantos gons
se compõe um supergom. Dois ou três é certamente muito pouco. Mas
os que vimos lá embaixo nos dois aposentos arredondados, não podiam
ser um supergom? São pelo menos dez mil indivíduos.
— É
possível — disse Bell. — Mas não é lá tão interessante.
Procure mais um objetivo prático em seus pensamentos.
Marshall
fez um sinal afirmativo e olhou para Betty do outro lado. Betty
entendeu o olhar e virou-se para outro lado, para não ser
prejudicada em sua concentração, olhando o pobre do Ivã
desacordado. Marshall fez o mesmo. Além disso, se aproximou mais da
jovem, para facilitar o contato telepático.
Não era
nada fácil. Marshall acreditava que os gons não estavam muito em
condições de poder entender pensamentos terranos, assim como os
homens também não conseguiam bem decifrar seus impulsos mentais.
Não era, portanto, indicado esperar que os gons descobrissem as
intenções de Marshall ou que eles procurassem contato, por própria
iniciativa. Ele tinha que chamá-los, tinha que chamá-los do mesmo
modo como os gons chamaram pelos bios.
Porém,
não havia coisa mais difícil para o cérebro humano do que criar um
pensamento numa forma determinada. Os próprios órgãos que
transmitem os sons da fala têm tanta dificuldade em articular os
fonemas de línguas estranhas, assim é quase impossível ao cérebro
pensar em “pensamentos”
que não sejam humanos.
Mas
Marshall estava tentando.
Concentrou-se
e pensou:
— Estou
chamando você.
O supergom
não respondeu. Marshall chamou mais dez vezes, em espaços iguais e
depois da décima vez, teve a impressão de que um pensamento
estranho tentava de grande distância se entender com ele.
Modulou
seu pedido de socorro para uma faixa diferente e o emitiu pela décima
primeira vez. O pensamento estranho se apresentou de novo, desta vez
mais nítido do que antes.
Marshall
continuou modulando e a modulação diferente parecia influenciar os
processos mentais do supergom. A resposta parecia cada vez mais
nítida.
— Estou
aqui, que quer você, meu amigo estranho?
Betty
também tinha ouvido e entendido. Olhou para Marshall, encorajando-o.
— Nós
tivemos que lhe causar muitos prejuízos, porque nos perdemos nesta
instalação — pensava Marshall. — Ficaríamos felizes de não
sermos obrigados a repeti-los. Você não nos pode mostrar uma saída?
A resposta
veio de imediato:
— Sim,
se eu não conseguir matá-los.
Esta
lógica esquisita deixou Marshall tão perplexo, que precisou de uns
instantes para voltar novamente à modulação certa.
— Por
que você nos haveria de matar? Nossa morte não pode trazer nenhuma
vantagem a você. Pelo contrário, nós nos defenderíamos e
destruiríamos suas instalações.
— Isto
vocês não conseguem fazer, ela é grande demais. Vocês são corpos
estranhos aqui dentro. Procuro matá-los para não correr nenhum
risco.
— Você
não corre risco nenhum, se não nos matar. Não queremos outra coisa
do que deixar esta instalação e este mundo.
Como
resposta, veio uma pergunta de curiosidade:
— De
onde chegaram vocês?
— De
muito longe — respondeu Marshall despistando. — Nós não
vínhamos para Gom, mas você nos obrigou a descer.
— É
verdade, os aras me deram esta ordem.
— Os
aras? São seus amigos?
— Trabalho
em sociedade com eles. Forneço-lhes substância orgânica, em troca
eles constróem para mim as instalações subterrâneas, que me dão
possibilidade de produzir tanta substância orgânica quanto
possível.
Marshall
percebeu uma leve vibração de hostilidade contida nestas palavras.
— Os
aras nos odeiam — disse Marshall com toda franqueza — querem
atacar nossa pátria e nós, naturalmente, tentamos nos defender.
Os gons
ouviam isto com todo interesse.
— E
vocês conseguirão isto?
— Esperamos
que sim — respondeu Marshall.
— Vão
destruir os aras?
Pergunta
inteligente e bem calculada.
— Talvez
não exatamente destruir, mas expulsá-los de sua base em Laros —
afirmou Marshall.
Com esta
resposta, houve um momento de silêncio. Marshall notou que os gons
deixavam transparecer uma onda de satisfação. Estava vendo nisto
uma confirmação de suas suposições sobre as relações entre os
aras e os gons e resolveu então explorar a situação.
— Três
dos meus companheiros — transmitiu com muita cautela, — ainda se
encontram sob seu poder. Estou convencido de que não poderão ser
úteis a você. Devolva-os.
Não
recebeu resposta. Repetiu o pedido e os gons continuaram mudos.
Marshall refletiu se era conveniente insistir. Mas neste momento, os
gons se manifestaram.
— Vou
lhes mostrar o caminho — pensavam como se não tivessem ouvido a
pergunta sobre os três japoneses — Sigam-no e abandonem esta
instalação. Eu vou avisar os outros — o conceito não foi bem
compreendido, podia significar “irmãos”
ou “amigos”,
de qualquer maneira estavam incluídas outras aglomerações de gons
— para que não os incomodem. Quem sabe mesmo, poderão informar
como vocês podem sair deste mundo.
Marshall
resolveu não tocar mais no assunto de Ishibashi, Yokida e Sengu.
Provavelmente, os gons não queriam ouvir falar nisso. No momento,
mais importante do que a libertação dos prisioneiros, era que eles,
Bell e os seus, voltassem ao espaço. Não se devia aborrecer os
gons.
O
pensamento de Marshall foi curto:
— Eu lhe
agradeço.
Mas como
já supunha, os gons não entenderam a palavra “agradecer”.
Sua mentalidade estava baseada fortemente nos conceitos objetivos e
funcionais. Conceitos como gratidão, amor, ódio, e ira eram-lhes
desconhecidos.
Os gons
deram uma descrição do caminho que Bell e os seus tinham que seguir
e garantiram que as cortinas-válvula se abririam no momento exato.
Marshall repetiu pensamento por pensamento, de toda a instrução que
recebera, garantindo-se assim contra possíveis enganos.
Interrompeu-se
então a comunicação. Não houve despedida. Constataram que
Marshall havia compreendido bem as instruções e “desligaram”
simplesmente.
Marshall
fez muito esforço durante este longo diálogo. Estava com a cabeça
doendo. Virou-se de costas e ficou por uns instantes deitado, antes
de relatar o diálogo a Bell.
Este não
fez nenhum comentário. Bateu nas costas de Marshall e fez-lhe um
sinal de agradecimento, foi tudo.
Deu então
ordem ao pessoal que vestisse os trajes espaciais. Já estava na
hora. A pressão na câmara não chegava a 0,6 atmosferas. A
respiração já estava tão difícil como numa montanha de alguns
milhares de metros de altitude.
Os gons
deviam saber a hora exata em que o grupo se pôs em movimento. No
mesmo instante, a cortina que separava a câmara do corredor, começou
a abrir devagar. O equilíbrio de pressão entre a câmara e o setor
interno do corredor restabeleceu-se imediatamente.
A reação
das demais cortinas-válvula foi igual. Abriam-se à aproximação do
grupo de Bell. A caminhada foi tranqüila.
Num espaço
relativamente curto, chegaram ao corredor central de dois metros de
altura. Dali voltaram até uma bifurcação onde Bell havia chegado.
A bifurcação começou plana, mas depois começou a subir.
Exatamente quatro horas depois do memorável diálogo com os gons,
apareceu mais distante o foco de luz avermelhada, que o sol Gonom
desenhava no lusco-fusco permanente.
Com suave
aclive, o corredor desembocava numa rocha bem larga e um pouco mais
alta que a estatura de um homem, formando na saída uma caverna
afunilada.
Bell
procurou orientar-se, mas fora do fato de que o trecho de penumbra
não ia além de oito quilômetros, não reparou nada conhecido. O
planalto, com as pontas de pedra espalhadas a esmo, com as plantas
carnudas azuis, parecia ser o mesmo em toda parte de Gom.
— Nestas
circunstâncias — disse Bell, um tanto ofegante — acho eu que
umas horas de repouso não farão mal a ninguém. Talvez ao
acordarmos, este moço de duas cabeças terá voltado a si.
Veio mais
uma vez para frente da saída da caverna, a fim de dar uma olhada no
ambiente. Devia ser mais um ato de rotina, como qualquer pessoa de
responsabilidade faz ao deixar os seus quando precisam descansar num
local perigoso.
Mas, foi
mais do que isto.
Nos
receptores do capacete, o pessoal o ouviu respirar forte e com ruído.
Ajoelhado como estava ali, tapava a vista dos outros. Viram, porém,
sem saber de onde, uma claridade ofuscante e sentiram instantes
depois que o chão tremia sob seus pés.
Bell virou
para o lado, dizendo:
— Nada
de descansar, temos visitas.
Deixou-se
cair para frente e se arrastou para o lado, a fim de que todos
pudessem ver. Chegaram mais para frente e viram viaturas espaciais,
em forma de discos semi-esféricos, de porte médio, que desciam às
dúzias do céu quase escuro. Das turbinas da proa partiam fluxos de
partículas incandescentes, freando à descida dos discos e
proporcionando-lhes uma aterrissagem suave.
Num amplo
semicírculo, com pequenos intervalos, estavam postados os discos
voadores, em torno do rochedo, onde Bell e seus companheiros haviam
instalado seu quartel-general. O raio do semicírculo tinha cerca de
três quilômetros.
Por uns
instantes, ficou tudo na mesma. Mas depois começou a movimentação
nos discos. Bell pegou o binóculo e o comprimiu contra a viseira.
O que viu
não era lá muito consolador. De cada disco, desceram cinco daqueles
monstros, os bios, que os aras produziam em Laros. Considerando-se
que haviam descido quarenta discos voadores, não era difícil
calcular que o montante da força de combate era de duzentos destes
seres horríveis.
Parecia
que já estavam a par do objetivo, vinham de todos os lados para um
só ponto, distante da caverna apenas cem metros. Dali, de armas
preparadas, partiam em direção à caverna.
— Parece-me
que agora a situação se torna séria — disse Bell, sem perder a
calma, ao menos aparentemente.
4
As
relações entre os aras e os gons eram de natureza mais complicada
do que Marshall podia suspeitar.
Para os
aras, os gons eram importantíssimos fornecedores de matérias-primas
orgânicas. Os aras não se contentavam com o que extraiam em
condições normais dos gons, sem prejudicar o conjunto deles.
Descobriram as condições em que as solhas se multiplicavam mais
depressa e instalaram colônias de bios recém-criados, para fazerem
as instalações, que proporcionassem aos gons uma procriação mais
rápida. Assim estes davam aos aras maior quantidade de matéria
orgânica.
As
possibilidades de relacionamento dos aras com os gons eram muito
restritas. Os aras não eram telepatas. No entanto, sabiam que os
gons eram dotados destes dons e ainda outros mais importantes. Também
não podiam ignorar que suas criaturas, os bios, eram feitos da mesma
substância dos gons, também até um certo ponto telepatas.
Os gons se
apoderaram da primeira instalação que os aras construíram. Somente
mais tarde é que os aras reconheceram que através dos bios poderiam
manter um entendimento melhor com os singulares seres de Gom. Mas
começaram a abusar deles.
Foi assim
que os aras ficaram sabendo alguma coisa de positivo sobre estes
estranhos seres, com os quais estavam entrando em contato.
Compreenderam que os gons, mormente quando reunidos em maior número,
são tudo, menos seres primitivos e que, mesmo para eles, os aras,
podiam se tornar, sob determinadas condições, extremamente
perigosos. Em atenção à sua mentalidade mais elevada, os aras
deixaram de tratar os gons como simples fornecedores de plasma
celular. E daquela data em diante, começaram a ver neles inimigos
potenciais, merecedores de atenção especial, já que se tratava de
uma base tão importante como Laros.
Desde esta
época, havia sempre um grupo permanente de bios em Gom, ao todo
vinte destes monstros criados em provetas, ocupados em terminar a
construção do viveiro subterrâneo das solhas. Pelo menos isto é o
que diziam aos gons. Na realidade, os bios eram para fiscalizar os
gons. E os poderosos aparelhos transmissores embutidos no corpo dos
autômatos de quatro braços, sem que os gons suspeitassem nada a
respeito, mantinham os aras a par de tudo que se passava no planeta.
O supergom
em cada seção da extensa instalação subterrânea, onde Bell com
sua gente havia penetrado, apelou pelos bios, na hora da dificuldade.
Marshall conseguiu influenciar hipnoticamente os bios, obrigando-os a
retroceder. Ao mesmo tempo, porém, os aras em Laros ficaram sabendo
de tudo através das emissoras automáticas embutidas nos bios. Da
informação até à suspeita de que se tratava das mesmas pessoas
que há pouco tempo atrás tinham causado tanto rebuliço em Laros e
depois da fuga foram forçados pelos gons a uma aterrissagem forçada
em Gom, era um caminho muito curto.
Os aras
colocaram os patriarcas dos saltadores, reunidos em conferência em
Laros, a par de tudo, e estes então decidiram que o mais prático
seria que os aras enviassem seus bios para prender os fugitivos.
Foi assim
que uma pequena frota de naves de patrulha, com bios a bordo, partiu
de Laros e aterrissou exatamente no local, onde instrumentos de alta
sensibilidade localizaram os mutantes e Bell.
Ninguém
se preocupava em Laros com o resultado da operação. Conheciam Gom e
sabiam que os fugitivos não estavam preparados para aquele ambiente.
Já era um grande milagre o fato de estarem ainda vivos. De qualquer
maneira, não podiam opor nenhuma resistência aos bios, que se
sentiam em casa e estavam equipados com armas poderosas.
A única
dificuldade consistia no fato de que os patriarcas haviam dado a
ordem de que ao menos um fugitivo devia ser apanhado vivo. Queriam
alguém para um exaustivo interrogatório. E os bios sabiam como
deveriam agir.
*
* *
Passou
pela mente de Bell retirar-se com os seus para os corredores de
aeração. Também pensou em se apoderar de um ou dois discos
voadores dos inimigos e lhes dar as costas definitivamente.
Esta
última alternativa o levou a permanecer na caverna o maior tempo
possível.
O singular
procedimento dos bios, que depois de estarem a apenas duzentos metros
da caverna, ao invés de iniciarem o ataque e aproveitar a grande
chance que tinham com toda a sua superioridade em número e em
material, se entrincheiraram atrás dos altos blocos de pedra e
depois não foram mais vistos, vinha de encontro aos planos de Bell.
Marshall e
Betty tentaram captar o conteúdo de seus pensamentos. Mas o cérebro
de um bio é tão reduzido, que não havendo um esforço enorme, não
se percebe nenhum impulso mental, nem a poucos metros de distância.
Alguns impulsos de pensamento chegavam até a caverna, vez por outra.
Isto acontecia quando um dos bios sentia dores, por ter levado um
tombo ou por se ter queimado e a dor provocava maiores vibrações no
cérebro. Outros pensamentos, não se podia esperar deles.
Muito mais
elucidadoras eram as nuvens de poeira que de vez em quando subiam por
detrás dos rochedos, onde os bios aparentemente se abrigaram. Bell
concluiu daí que o adversário estava preocupado em abrir caminhos
subterrâneos até a caverna. Depois de ter quebrado a cabeça com
esta hipótese inesperada, começou a pensar que talvez os bios
tivessem recebido ordem de apanhá-los vivos, para serem levados a
Laros e submetidos a interrogatório.
Falou a
respeito com Marshall, que classificou sua hipótese de plenamente
viável.
— Possuem
diversos tipos de armas — constatou Bell. — Esta nuvem de pó de
pedra, lá embaixo, parece ser causada por desintegrador. Eu diria
que em meia hora esses malucos podem surgir de qualquer lado a nossa
frente.
Marshall
ponderou, no entanto, que Bell, apesar da situação inquietante,
estava atrasando demais os preparativos. Designou o lugar para cada
um, na entrada da caverna, chamou a atenção de Betty Toufry para
que olhasse também para trás, porque ninguém poderia saber onde
surgiriam os bios. Falou tão ponderadamente como se tivesse, entre
cada palavra, um mundo de problemas a resolver.
E tinha
mesmo. Marshall seguia pensamentos dele e se admirou do grau de noção
de responsabilidade com que Bell cautelosamente chegou à conclusão,
que muitos já teriam tomado sem maiores ponderações.
— Tako!
— Pois
não, senhor.
— Você
consegue chegar e entrar num pulo num destes discos voadores?
O japonês
comprimiu os olhos numa fenda horizontal e fitou os veículos
espaciais do outro lado.
— Se o
senhor me der cinco minutos para concentração, com toda
probabilidade, chego.
Bell
sorriu contente.
— Bem,
então vamos fazê-lo logo. Talvez os discos não estejam vazios.
Suponho que em cada um deles há pelo menos um bio servindo de vigia,
pois os saltadores e os aras conhecem nossos truques. Leve a arma na
mão, quando saltar.
— Perfeitamente,
senhor. Que devo fazer com o disco, quando o tiver em mãos?
Os olhos
de Bell se arregalaram.
— O que
que deve fazer? Ora, trazer para cá, naturalmente, para que possamos
dizer adeus a este mundo infernal.
Tako
sorriu amável. Depois, agachou-se num canto, de onde podia ver uma
parte dos discos voadores, para se concentrar.
Os outros
se acomodavam em seus lugares, designados por Bell. Sem que ninguém
lhes falasse, sabiam todos que tudo dependeria de que Tako
conseguisse pegar depressa um daqueles discos. Para saberem do sim ou
do não, tinham que esperar e não podiam fazer outra coisa do que
procurar se salvar pela fuga.
Marshall
escutava com atenção se os gons no fundo da terra ou em outro lugar
emitiam qualquer impulso. Mas depois de gastar alguns minutos num
grande esforço telepático, sem nada conseguir, veio-lhe o
pensamento de que os gons podiam intervir nesta luta, para benefício
deles mesmos. Concentrou sua atenção na nuvem de vapor e de poeira
que subia aqui e ali, atrás dos imponentes rochedos. Sentiu que
ficava cada vez mais rala, na proporção em que os bios se
aprofundavam no solo.
De repente
Tako desapareceu, sem uma palavra, sem um sinal.
Marshall
reparou e fixou os olhos com muita firmeza na fila dos discos.
Naturalmente era difícil olhar todos ao mesmo tempo. Mas estava
convencido que Tako atingira seu objetivo num só pulo. Não apareceu
em nenhum lugar do planalto pedregoso.
Porém,
Bell, muito à frente, não notou o desaparecimento de Tako, por
isso, continuou olhando sem maior interesse para frente. Reparou
assim que uma das plantas azuis, que crescia à entrada da caverna,
começou a se mover. Olhou em redor e constatou o mesmo fenômeno.
Com movimentos trêmulos, as plantas mergulhavam para dentro da
cavidade, de onde brotavam.
Os olhos
de Bell perscrutaram o horizonte e descobriram no meio do quadrante
esquerdo uma faixa estreita, onde o halo avermelhado que o sol de
Gonom desenhava, estava mais esmaecido ainda do que de costume. Ali,
a claridade parecia se elevar mais, como que tocada por um longínquo
incêndio. Bell virou-se para trás e bradou para seus colegas:
— É
talvez a nossa salvação. Teremos uma tempestade.
O trecho
esmaecido cresceu um pouco mais, depois empalideceu contra o
horizonte e, alguns segundos após, veio o turbilhão de poeira e
cascalho fino.
— Todos,
dois metros para trás — ordenou Bell. — Pensem bem que cada
pedaço de pedra pesa aqui o dobro do que na Terra.
Ao se
afastar, reparou que Tako havia desaparecido. Marshall o informou de
que o japonês havia desaparecido há uns cinco minutos.
— Diabo!
— resmungou Bell. — E por que só me diz isto agora? E Tako não
dá sinal de vida?
Chamou
pelo japonês, mas Tako não respondeu. Apanhou então o pequeno
aparelho de transmissão e o ligou. Julgava que a força do
transmissor do capacete fosse insuficiente para atingir os pequenos
aparelhos espaciais, principalmente se o envoltório energético de
proteção estivesse ligado.
No momento
não chegou a refletir que nesta eventualidade não poderia esperar
resposta do japonês. Neste mesmo instante o inferno se desprendeu
sobre Gom. Nos segundos anteriores, de tanta excitação pelo japonês
desaparecido, ninguém dera atenção à tempestade iminente. Mas já
estava aí. O rápido, mas violento tremor de terra, não foi
suficiente para alertar os ocupantes da caverna.
Diante da
entrada, pairou de repente uma muralha de pó e pedras. Elevou-se
tanto, que não se via mais o céu escuro. Com estrondo agudo,
rolavam os blocos de pedra soltos que a ventania arrastava para o
planalto. Novos turbilhões de poeira toldaram o resto de claridade
que ainda havia.
O barulho
aumentava a cada segundo nos microfones de capacete de tal forma que
Bell teve que dar a ordem:
— Desligar
o microfone externo.
Mas a
ordem foi somente compreendida, após muita gesticulação. O
silêncio repentino foi muito benéfico. Mas lá fora, a trepidação
do ar era acompanhada de um sibilar constante.
— Liguem
as lanternas — gritou Bell, que não podia mais calcular o volume
da voz.
E as
lâmpadas se acenderam, iluminando apenas uns dois metros através da
opacidade da densa poeira levantada pela tempestade diante da caverna
e, em parte, para dentro dela. Os trajes espaciais estavam recobertos
por densa camada de poeira.
— Não
acredito que... — começou Bell, e o resto da frase devia ser, pelo
tom de voz, algo tranqüilizador.
Mas um
grito de horror de Betty interrompeu Bell.
— Olhem
os bios ali.
Na nuvem
de poeira que penetrava na gruta, mal se vislumbrava a figura de
Betty, que ocupava um posto na retaguarda. Bell via-lhe apenas o
braço que apontava enviesado para trás, na direção da caverna.
Mas viu bem nítido, por fração de segundo, entre duas rajadas de
poeira, o rosto redondo de um dos bios.
Instantes
após, tinha desaparecido. Mas logo depois, o braço enegrecido, como
tronco de árvore, surgiu da poeira, girando no ar o cano da arma.
Bell se encolerizou.
— Fogo —
gritou ele ofegante.
Ele mesmo
foi o primeiro a atirar. O raio energético incandescente penetrou na
escuridão da poeira. Um grito agudo e longo foi a resposta.
— Ali
estão outros — disse Betty. — Vêm de todos os lados.
Bell
queria recuar e respirar por uns segundos. Mas, por toda parte, o
clarão da lanterna descobria, com contornos indecisos, os vultos
gigantescos daqueles monstros que se aproximavam.
Bell
atirava, girando o corpo constantemente. Não sabia que estava
gritando como um possesso, sem ouvir, também, os gritos lancinantes
dos atingidos, tão fortes que os microfones — mesmo estando com o
volume baixo — recebiam e transmitiam. E quando mais tarde se
recordou da situação, achou que foi um milagre não ter atingido um
dos seus, durante a reação desesperada. Não se preocupou com
ninguém naquela hora, nem procurou saber se estavam conseguindo se
defender ou recuar.
A primeira
leva de bios estava destruída, enquanto atacavam. Mas para cada
morto, surgiam dois outros para substituir. O anel se apertava em
tomo daquele punhadinho de desesperados e podia-se prever o momento
em que os gigantes artificiais precisavam apenas avançar para tirar
as armas das mãos de seus reduzidos adversários e terminar a luta.
Se o combate não chegou a este desfecho, foi um verdadeiro milagre.
Depois de
ruírem os paredões da caverna, Bell tinha que lutar contra dois
inimigos simultâneos: contra os bios que com incrível tenacidade
voltavam sempre ao ataque, e contra a tempestade que ameaçava de
arrastá-lo, embora estivesse sempre deitado e comprimido contra a
rocha. Assim que pôde respirar um pouco, procurou se arrastar para
trás de um bloco de pedra, que lhe parecia suficientemente forte
para agüentar o vento. Mal fizera o primeiro movimento, quando
surgiu em sua frente uma sombra bem larga. Bell arrancou da arma, mas
com o movimento da cabeça, a lanterna do capacete atingiu a sombra e
deixou ver as duas cabeças.
— Ivã!
— gritou Bell, cheio de entusiasmo. — Você está chegando na
hora exata.
Ivã
Goratchim parecia não ouvir nada. E, como um sonâmbulo,
levantou-se, deu uns passos para frente e quedou firme como um
rochedo.
Em algum
lugar atrás da cortina de trevas, poeira e cascalhos, faiscou um
raio, tão claro que transformou a escuridão momentaneamente em
plena luz do dia. De algum lugar daquele caos, reboou o trovão, mais
forte que todos os ruídos que haviam chegado ao microfone até
então. Um tufão de ar quente apanhou Bell e os seus, atirando-os
uns metros para o alto e deixando-os cair logo a seguir no chão.
Depois
reinou silêncio, impenetrável silêncio escuro.
*
* *
A primeira
coisa que Bell sentiu, foi a sensação de que seu corpo tivesse sido
dissecado em centenas de pedaços doloridos. Assim que voltou a si do
desmaio, parecia ter medo de respirar. Qualquer movimento lhe causava
dor. Abrindo os olhos, viu que em redor deles ainda reinava a mesma
penumbra. Onde estava a tempestade, onde estavam os bios?
Virou-se
de lado, examinando o halo avermelhado do sol. Mas tudo que viu foi
um clarão vermelho no firmamento e uma muralha negra, impenetrável.
Dos bios
não havia vestígios.
— Marshall?
Betty...?
Não
esperava mesmo uma resposta, mas mal acabara de pronunciar os nomes,
quatro vozes diferentes responderam:
— Estamos
aqui, senhor Bell. Está tudo em ordem. Onde está o senhor?
As vozes
soavam alegres e fortes. Bell constatou satisfeito que estava
simplesmente perdido.
— Estou
aqui — respondeu. Levantou-se com dificuldade, gemendo de dores.
Apoiou-se numa pedra lisa e olhou por cima dela. Mais ou menos
cinqüenta metros para frente, descobriu Ivã, o mutante de duas
cabeças, que também estava de olhos fixos na estranha muralha
negra.
— Já
vou indo — disse Bell.
Ao ver
Ivã, se lembrou do milagre que havia salvado a ele e aos seus do
ataque dos bios.
Ivã
voltou a si de repente, levantou-se, compreendendo num instante,
intuitivamente a situação.
O dom mais
importante de Ivã não era o fato de ter duas cabeças; sua
singularidade era a propriedade de poder atuar como detonador vivo.
Era-lhe muito fácil, em virtude de sua incrível força de vontade,
produzir um processo de fusão dos núcleos atômicos do carbono ou
do cálcio. O resultado era, sempre que se apresentasse uma massa
suficiente de um dos dois elementos, uma explosão semelhante à da
bomba de hidrogênio.
Não
restava dúvida nenhuma de que Ivã havia empregado este meio, para
afastar os bios. Sob o domínio da vontade de Ivã, a força de
combate dos aras de duzentos gigantes armados até os dentes fora
reduzida a um facho atômico. E somente o fato de que as fusões de
cálcio e de carbono se realizam mais lentamente do que os de
hidrogênio é que livrou os colegas de Ivã de ir pelos ares do
mesmo modo como as criaturas artificiais dos aras.
Enquanto
se arrastava com sacrifício na rocha onde estava o mutante de duas
cabeças, Bell ia remoendo estes pensamentos. Um calafrio lhe
percorreu a espinha dorsal, ao pensar que desta vez, realmente,
passara raspando pela beira de uma terrível catástrofe.
Gastou
meia hora para percorrer aqueles cinqüenta metros. Arrastou-se em
volta do rochedo, deixando-se escorregar de costas, para respirar
melhor e para aliviar-se das dores enormes em quase todo corpo. Atrás
do rochedo, se encontravam seus quatro companheiros: Ivã, Marshall,
Betty e Ras Tschubai. Marshall e o africano estavam mais ou menos
sentados, apoiados nas pedras. Ivã e Betty estavam deitados no chão.
— Na
próxima vez — murmurou Bell para o mutante de duas cabeças, após
se haver refeito um pouco do cansaço daquela caminhada — vocês
dois, por favor, acordem meia hora mais cedo e organizem seu
“espetáculo
pirotécnico”
enquanto o objetivo estiver a uma distância mais segura, não é
verdade?
Ivã, o
mais velho, abriu o rosto num sorriso. Ivanovitch, o mais moço, no
entanto, se sentia meio culpado.
— Eu
havia despertado uns segundos antes de Ivã — disse ele se
lamentando — mas o malandro não queria voltar a si.
— Ah!
Vocês estão ouvindo, “o
malandro”?
Até que enfim ele concorda que eu sou o mais velho. Terá ainda
que...
— Ah!...
deixem de bobagem — interveio Bell. — Vocês dois foram
maravilhosos. Acho que não estaríamos vivos sem vocês.
Virou-se,
dirigindo-se a Marshall:
— Que
espécie de paredão é aquilo lá em cima?
Marshall
fez uma fisionomia mais séria e retardou a resposta.
— São
os gons — disse finalmente.
— Os
gons? — repetiu Bell atônito, de olhos arregalados. — Que estão
fazendo lá?
Até o
momento, não tinha dado muita atenção ao paredão escuro. Reparou
então que este se erguia do chão em suave inclinação, usando os
blocos grandes de pedra, em volta, como pontos de apoio. A borda
externa tinha mais ou menos seis metros acima do solo, num diâmetro
de cerca de dez.
Deitou-se
de costas no chão e ficou olhando para o céu. Aí, então,
compreendeu o que pretendiam os gons.
A
tempestade continuava com a mesma violência. Por cima da muralha
soprava o tufão, turbilhonando nuvens de pó e de cascalhos e, se o
microfone estivesse ligado com um pouco mais de volume, poder-se-ia
ouvir o intenso bramido.
A muralha
viva dos gons os protegia naquele recorte entre as rochas. Os gons
vieram para que Bell e os seus não fossem projetados ao longe pelo
furacão.
— Surpreendente
— disse Bell extasiado — por que fizeram tudo isto?
— É
realmente um pouco difícil de se compreender — interveio Marshall.
— Mantiveram-se em contato comigo, assim que recuperei os sentidos,
e os impulsos estavam incrivelmente nítidos. Deve ser uma multidão
enorme de gons que aí se reuniram. Mas não disseram nada mais, a
não ser que haviam construído uma barreira contra a tempestade e
ficariam ali até que a mesma terminasse. Se você quiser saber de
mim, a razão por que assim agiram, está no caminho errado.
— Puxa
vida, então pergunte você mesmo.
Marshall
sorriu meio sem jeito.
— É
isso mesmo. Se lhes perguntar por que fizeram isso, a resposta será
invariavelmente: Para protegê-los contra a tempestade. Não
compreendem que este “por
quê”
possa ter outra significação.
Bell
aceitou a explicação, pensativo.
— Seres
misteriosos — balbuciou ele. — Que aconteceu a vocês? —
perguntou, mudando de assunto e se dirigindo a todos.
Betty foi
a primeira a se manifestar:
— Fiz
uma bela viagem aérea. Mas devo ter aterrissado muito brandamente em
qualquer lugar. Quando recuperei os sentidos, estava rente à muralha
dos gons. Marshall, Tschubai e Goratchim já estavam aqui. Por isso
vim me arrastando para cá.
A mesma
coisa aconteceu com Marshall, Tschubai e com o mutante de duas
cabeças.
— Felizmente
correu tudo bem — suspirou Bell. — Poderia ter sido muito pior
se...
Interrompeu-se
no meio da frase, ficou de olhos fixos no espaço, disfarçando um
sentimento mais triste.
Marshall
fez um sinal para ele.
— É
isso mesmo. Estaria tudo mais ou menos em ordem se ao menos
soubéssemos onde se encontra Tako.
Num gesto
sem sentido, Bell deu um tapa na cabeça, atingindo apenas o
capacete.
— Meu
Deus! — admirou-se. — Devo ter levado uma batida na cabeça, do
contrário não o teria esquecido.
*
* *
No mesmo
instante em que aterrissou no pequeno disco voador, Tako Kakuta
percebeu que tinha caído numa cilada. O espaço interno do veículo
era arredondado, como o próprio disco. Não tinha janela, nem painel
de controle. Tanto o chão, como o teto e as paredes eram lisos, sem
nenhum adorno. Um banco simples corria em volta da circunferência.
Não havia
ninguém dentro. A teoria de Reginald Bell, de que, dentro de cada
aparelho havia pelo menos um bio, para vigiá-lo, estava, portanto
errada.
Tako
sentiu o leve abalo, com que o disco voador começou a se mover, mal
tinha entrado. Compreendeu que algum dispositivo distante registrara
sua chegada e o estava agora transportando para algum lugar.
Tako era
calmo e não se precipitou em tomar sua decisão. Tinha duas opções:
sair do disco, tão facilmente como havia entrado ou permanecer ali,
para ver onde ia terminar a viagem. Momentos depois, Tako achou que
seria um empreendimento inútil, como também perigoso, ver para onde
terminaria a viagem. A pequena nave provinha de Laros e foi
telecomandada de lá. Quem haveria de duvidar que voltaria para lá?
Mas havia
outro argumento que o seduzia. Era técnico de profissão, trabalhava
como técnico antes de se tornar um dos auxiliares de Perry Rhodan. O
que aconteceria se conseguisse examinar o mecanismo de telecomando,
se desligasse o receptor e dirigisse ele mesmo o disco voador? A
técnica dos aras seria muita diferente da dos terranos? Seria tão
diferente que um terrano não poderia compreendê-la?
Tako sabia
que não era assim. A técnica dos aras se baseava na dos arcônidas.
E esta, ele conhecia profundamente.
Resolveu
ficar. A pistola térmica que ele mesmo regulara para fogo de longo
alcance — a fim de atingir de uma vez só todos os bios que se
encontrassem a bordo do disco — foi calibrada agora para raios
energéticos de curto alcance.
Começou
então a dissolver as chapas que formavam o revestimento debaixo do
banco circular, separando-as de seus suportes. Chapa por chapa ia
virando e caindo no chão. E quanto mais progredia a operação, mais
convencido estava do acerto de sua decisão. Diante dele, estava não
apenas o conjunto do mecanismo de tração com o respectivo receptor,
que recebia os sinais do telecomando e os transformava
automaticamente. Havia também o gerador para produção do campo de
gravidade artificial na cabina, a câmara de televisão que refletia
seus impulsos para a tela do telecomando e, por fim, o conjunto de
dois desintegradores embutidos na carcaça externa da pequena
espaçonave.
Viu que
fizera uma grande descoberta. Tratava-se agora de saber se
conseguiria utilizá-la.
A
distância de Gom para Laros, numa nave deste tipo, seria mais ou
menos de uma hora. Se não quisesse chegar à perigosa vizinhança da
base, teria que agir depressa.
Com
movimentos rápidos e precisos, dissolveu a fiação para o receptor
de telecomando e interrompeu os contatos de tal forma que o conjunto
de propulsão não receberia mais nenhum impulso de fora.
Depois
examinou o próprio conjunto de propulsão e constatou que, naquele
mesmo momento, ele tinha deixado de funcionar.
A pequena
espaçonave se movimentava em queda livre pelo espaço. Tako chegou à
conclusão de que o mais importante seria saber para onde é que
estava se movimentando.
*
* *
Bell ficou
meia hora chamando pelo japonês Tako. Acabou desistindo contrariado.
Marshall teve a idéia de que talvez os gons pudessem saber o que
havia acontecido com Tako. Mas não respondiam à pergunta.
Isto
estava ligado ao fato de que, neste momento, eles estavam muito
ocupados. Marshall recebia um grande número de impulsos, contra os
quais seu chamado mais fraco não podia prevalecer.
Não podia
descobrir o que pretendiam os gons. Porém, momentos depois, chegou a
perceber.
A muralha
começou a se dissolver. As nuvens de poeira que a tempestade tinha
levantado acima do rochedo, estavam agora menos densas. A procela
acabara e os gons abandonavam o posto de vigilância.
Marshall
regulou o microfone externo para maior sensibilidade. Pôde ouvir com
nitidez o ruído farfalhante com que as solhas se retiravam do seu
aglomeramento nas rochas. Minutos depois, a muralha não existia
mais. Na direção da flácida luz avermelhada do sol, marchava uma
avalanche enorme, marrom-escura, de solhas que cobriam o longo
desnível do terreno.
Enquanto
se arrastavam naquela direção, podia-se ver que apenas transpunham
os desníveis do terreno, sem retirar nada do caminho. As pedras
sobre as quais a vanguarda do grande manto marrom já havia passado,
surgiam instantes após como estavam antes. Até mesmo os discos
voadores, que haviam trazido os bios, os gons deixavam intactos.
Bell
estava olhando para os aparelhos dos aras.
— Vamos
pegar um deles — disse Bell — não confio muito neles. Até a
Titan, levaremos talvez duas ou três semanas. Mas é melhor do que
nada.
— Calcule
um pouco mais — falou Marshall — temos que dar uma volta enorme
para escaparmos dos aras e dos saltadores. Não creio que estes
aparelhos estejam armados. Além disso, vocês não estão reparando
nada?
— Não,
o quê?
— Eram
quarenta aparelhos, agora são trinta e nove.
Bell os
contou um por um. Marshall estava certo.
— Quem
sabe, um deles foi devorado pelos gons? — indagou Bell, indeciso.
— Não
creio, não — continuou Marshall. — O nosso japonês é que
desapareceu com um deles.
*
* *
Assim que
Ivã Goratchim fez uso de suas incríveis faculdades mentais,
sabia-se em Laros o terrível destino dos duzentos bios desintegrados
por ele.
A reação
dos três patriarcas, Siptar, Vontran e Cekztel constou apenas de um
conselho que deram aos aras, como bons amigos:
— Realmente,
a força que vocês enviaram foi muito pequena, mandem mil bios, que
nós vamos ver como as coisas se passam.
Os aras
ouviram o conselho um tanto cépticos. Embora não o confessassem
perante os saltadores, a perda de duzentos bios foi um duro golpe
para eles. Em Laros não havia ao todo mais do que setecentos bios. E
agora eram só quinhentos. Não estavam, pois, em condições de
seguir o conselho dos patriarcas dos saltadores. O que também não
deixavam transparecer.
Além de
tudo, os aras estavam plenamente conscientes de que estavam tratando
com um adversário que não podia ser menosprezado. Seu ponto de
apoio em Laros, o mais afastado das grandes rotas espaciais, era-lhes
de inestimável importância — era o grande laboratório e o
quartel-general dos bios, cujo comércio lhes rendia fortunas
fabulosas. Por este motivo, reagiam de uma maneira esquisita quando
alguém se intrometia em seu modo de pensar e de agir.
Mas,
nestas circunstâncias, era um pouco diferente. Alguém aterrissara
em Gom. Este alguém não se imiscuía em seus negócios. Porém dava
mostras de que estava disposto a liquidar seus bios. E o interessante
é que este alguém era um fugitivo desesperado, obrigado a cair e se
esfacelar no solo do planeta, atraído, pelas forças dos gons a
serviço dos próprios aras.
Muitos,
entre os aras, desconfiavam de que os gons tinham se aliado aos
fugitivos. Mas era difícil achar provas contra ou a favor desta
suspeita.
Neste
estado de coisas, os aras deliberaram enviar quatrocentos bios para
Gom. Entretanto, fizeram uma coisa, que jamais haviam feito nos
longos anos de “cooperação”
com os gons: ordenaram aos gons, sob ameaça de severos castigos, de
prenderem os fugitivos e entregá-los aos bios.
Vários
bios transmitiram esta ordem de Laros a Gom por meio de
amplificadores mecânicos para telepatia. O tipo de castigo ameaçado
pelos aras foi explicado em palavras claras: destruição, pelo menos
da metade, da substância das solhas, com aplicação de bombas
atômicas.
Gom não
respondeu. Os aras sabiam, naturalmente, que uma mensagem deste tipo
só poderia ser captada quando os gons se reunissem em quantidade
suficiente para formarem uma inteligência. Mas a estatística
comprovava que estas reuniões eram muito freqüentes em Gom.
Embora a
ordem não tivesse tido resposta, os aras estavam convencidos de que
foram compreendidos.
No meio
daquela confusão toda e de apuros por que corriam os aras, passou
completamente despercebido um pequeno incidente: a estação de relês
do telecomando registrou que, pelo menos, uma parcela dos tripulantes
havia regressado num dos discos voadores. Já que o prazo fixado
pelos aras para a operação dos bios em Gom tinha se esgotado, a
estação de relês deu a partida ao disco voador e o trazia de volta
a Laros. Mais ou menos meia hora após a partida, a pequena nave
escapou do telecomando e não foi mais localizada.
A estação
de relês transmitiu a comunicação do ocorrido. Veio, no entanto, a
notícia de Gom de que todos os duzentos bios foram destruídos pelo
inimigo. Assim, ninguém estava dando importância a uma coisa tão
ridícula como a saída de um único disco voador, onde poderia
estar, no máximo, um tripulante.
5
O problema
mais importante e ao mesmo tempo mais complicado, Tako resolveu da
maneira mais simples possível. De posse do traje espacial protetor,
não lhe foi muito difícil dissolver inúmeras chapas da parte
superior do disco, de forma que ao menos de trinta em trinta graus
havia uma abertura para visibilidade. É verdade que, na fração de
um segundo, todo o ar que havia no interior da nave, foi expelido.
Mas, nenhuma peça dos motores de propulsão, do sistema de defesa ou
dos demais instrumentos dependia do consumo de ar. Tako havia tomado
todas as providências para não afetar em nada a estabilidade
estática do aparelho.
Constatou
que estava bem longe de Gom, conseguindo ainda ver o enorme planeta
do tamanho de uma laranja. Na frente, no sentido da trajetória do
aparelho, havia ainda um outro corpo celeste um pouco menor, de um
branco amarelado, que Tako identificou como Laros. Conhecendo bem o
tamanho do planeta e de suas dezoito luas, não lhe foi muito
difícil, calcular, com relativa exatidão, que havia percorrido três
quartos da rota Gom-Laros.
Não se
preocupou com as dificuldades que surgiriam com um vôo nestas
condições. Preocupava-se apenas em manter elevado o moral, que
naturalmente teria perdido caso pensasse que um homem, dirigindo uma
nave espacial avariada, sem outros meios a não ser os do olho nu,
haveria forçosamente de fracassar.
Estava
tentando botar em marcha os motores de propulsão.

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