quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

P-047 - Gom Não Responde - Kurt Mahr [parte 2]


Bell, então, usou a pistola térmica e com a rapidez anterior, as solhas se transformaram em vapor esfusiante e em gotas que caíam no chão e endureciam. Enquanto atirava com a mão direita, a esquerda puxava o mutante inconsciente. O buraco já tinha o tamanho necessário. Via-se através dele apenas uma escuridão interminável.
Ao se aproximar, recuou com um grito de horror. Vinha pelo corredor, na direção deles, uma multidão de pernas, sobre as quais repousavam troncos pesados, de cor cinza-escuro, troncos com quatro braços e cabeçorras redondas, de olhos estarrecidos e sem vida.
Apesar da escuridão, Bell percebeu pelo menos uns vinte, vinham meio agachados, pois tinham três metros de altura, enquanto o corredor mal chegava a dois. Estavam armados, com armas tão pesadas que um ser humano dificilmente conseguiria carregar.
Eram bios — criaturas repugnantes e artificiais que os aras criavam em Laros. Bell já os tinha visto uma vez em Laros e pedira a Deus que nunca tivesse de enfrentá-los.
Neste momento, porém, tinha a certeza de que Deus não atendera seu pedido.
3



Marshall captou os pensamentos excitados e nervosos de Bell, enquanto ainda estava descansando no degrau inferior. Tentou levantar-se e correr, mas os braços e as pernas não lhe obedeceram. Continuou deitado, tentando descobrir se o novo adversário emitia algum impulso. Pelos pensamentos de Bell, podia-se concluir que se tratava de um grupo de bios dos aras. Os aras, seus criadores e donos, tinham transmitido a eles um certo grau de inteligência, exatamente tanto quanto necessitavam para servirem como meros escravos: os bios não possuíam nenhuma pretensão própria.
Antes disso, porém, Marshall não captara nada, a não ser muitos pensamentos dos colegas, todos acusando o horror pelo que viam.
Ao sentir-se um pouco mais resistente, levantou-se. Com dificuldade venceu dois degraus, tendo que parar para descansar. E enquanto descansava, percebeu o primeiro sinal do adversário:
Estão aqui na nossa frente.
A resposta telepática veio de imediato:
Matai-os, eles estão destruindo o sistema de refrigeração.
Chegou a hora do comando de Bell:
Fogo! Vamos tocá-los daqui para fora.
A primeira investida de Bell deu certo e ele estava triunfante. Mas Marshall percebeu que não havia esperanças de uma vitória final. Teve então uma idéia. Chamou Betty, que respondeu de imediato, embora a luta recém-iniciada a prendesse totalmente.
São telepatas muito fracos, Betty, temos que tentar influenciá-los.
Será que conseguiremos? — perguntou ela.
Vamos experimentar.
Já tentei arrancar as armas de suas mãos horrorosas, mas possuem força descomunal e eu não estou podendo me concentrar bem.
Betty possuía realmente dois dons parapsíquicos distintos: era telepata e telecineta ao mesmo tempo. Se lhe dessem tempo suficiente, poderia decompor uma montanha de mil metros de altura, sem botar a mão nela.
Mas, tempo ela não tinha, e os bios seguravam suas armas com mais firmeza do que o rochedo, os blocos de pedra.
Vamos tocá-los para fora do corredor — disse Marshall, depois de Betty lhe ter descrito a situação. — Vamos dar-lhes ordem de voltar e deixar Bell sossegado.
Betty concordou, sempre um pouco assustada.
Bell os rechaçou uns dois metros para trás. Nós estamos abrigados dos dois lados da entrada, de maneira que terão que invadir primeiro, se quiserem atirar em nós. Agora... agora estão atacando de novo.
Marshall fez um esforço para se concentrar.
Vamos começar, Betty. Faça um grande esforço de concentração.

* * *

Reginald Bell estava quase certo de que esta seria a última luta que teria de travar em sua vida.
As armas dos bios eram muito poderosas. Se conseguissem ao menos uma vez sair do corredor e penetrar no reservatório, ele, Bell, e todos os seus estariam perdidos.
No primeiro embate, Bell atingiu com tiros certeiros dois bios, desencorajando com isto os outros atacantes, de tal maneira que recuaram um pouco. Mas, apesar de todo o primitivismo de sua inteligência, era apenas uma questão de tempo, até que chegassem à idéia tão simples de que abrindo um outro corredor pela rocha, chegariam ao reservatório, sem o perigo de um ataque direto.
Estão voltando — sussurrou Betty.
Bem perto do chão, Bell esticou a cabeça, protegida pelo capacete, até o ponto em que podia ver os bios que se aproximavam. Seguravam as armas com as duas mãos superiores, enquanto que as duas outras pendiam livremente, num poderoso, mas disforme e estranho tronco.
Bell enfiou a mão com a arma pelo canto da parede e deu uma piscadela para os dois telepatas.
Deixem chegar até cinco metros, rapazes. É o melhor ponto para um bom tiro. Prestem atenção.
Já estava com o dedo no botão de fogo contínuo. Viu também que os bios ergueram as armas, já com o dedo no gatilho.
Mas o primeiro ficou parado de um momento para o outro. O corredor era tão estreito que tinham que caminhar um atrás do outro. Aconteceu então que os outros se chocaram contra ele, que apesar de tudo, não perdeu o equilíbrio. Abriu a bocarra, como se sentisse falta de ar, e por uns segundos sua fisionomia simplória dava a impressão de perplexidade.
Os bios não usavam trajes espaciais. Para seus corpos abrutalhados e quase sem diferença um do outro, não tinha a menor importância o local onde estavam, contanto que a carga mecânica não fosse grande demais.
Bell pôde ver bem nítido como as pernas do primeiro monstro começaram a tremer. Pesadamente, deu um passo para o lado e voltou. Bell escutou qualquer coisa articulada, mas incompreensível. Após isso, toda a tropa deu meia-volta, afastando-se pela escuridão adentro.
Bell quedou perplexo, de olhos fixos na escuridão, não entendendo o que se passava. Avançou uns passos na direção deles e com a luz da lanterna os seguiu, até sumirem nas trevas.
Estão indo embora — dizia Betty feliz para Marshall, por via telepática, de maneira que ninguém ouviu.
Só então é que Marshall respirou aliviado e teve forças para subir os outros degraus. Após caminhar uns minutos, viu claridade em sua frente. Entrou, ofegante, num grande hall onde Bell e os seus haviam rechaçado aquele ataque horrível dos bios, de uma maneira que parecia milagre.
Naturalmente Marshall informou a Bell de que maneira tinha acontecido aquele milagre. Reginald abanou a cabeça pensativo:
Como você certamente já notou, eu sou um tanto céptico em relação a vocês mutantes, mas devo dizer... — olhou para Marshall e piscou o olho — ...meus respeitos.
Marshall agradeceu, dizendo:
Quero ver o que se pode fazer por nós ainda.
Todos estavam prestando atenção.
Por nós ainda? Será que você já tem algum indício sobre o paradeiro dos três japoneses, onde as solhas os esconderam?
Marshall fez sinal negativo com a cabeça.
Não, não tenho. Acho que não podemos achá-los por nossa própria força. As instalações são muito extensas.
Fez uma pausa, como se tivesse que pensar.
Não — continuou. — Estive refletindo um pouco sobre as solhas. Cá entre nós, deveríamos arranjar um nome melhor para elas. É verdade que isoladamente são seres, no máximo, semi-inteligentes. Porém, em conjunto, formam unidades de qualquer tamanho e são capazes de realizar coisas importantes, como acabamos de ver, não é?
Claro — respondeu Bell.
E mais uma coisa ainda.
O quê? — perguntou Bell.
As so... ou então, como devemos chamá-las? Os gons... estão em contato com os aras de Laros, do contrário não teriam recebido auxílio de lá.
Muito bem. E você sabe como isto acontece?
Não tenho a menor idéia — disse Bell.
Pense no caso de Goratchim — aconselhou-lhe Marshall. — Provavelmente as solhas estavam ocupadas em sugá-lo. Lembre-se daquelas que caíram de repente do teto. Você também não tem a impressão de que este local é um viveiro de solhas e os gons ou solhas querem alimentar seus embriões ou massa de origem com substância orgânica?
Bell ouvia com toda atenção.
Pois bem, isto seria uma explicação. Mas continue, homem sábio.
Marshall sorriu e continuou:
Os gons ou as solhas são, pois, especialistas na digestão ou assimilação de substância orgânica. Você se lembra de como a nossa Gazela desapareceu? Acho que as solhas adultas também se alimentam da mesma maneira. Nada seria então mais razoável para os aras do que procurar neste planeta a substância de que necessitam para a produção dos bios. Possuem aqui um fornecedor espontâneo. Em Laros seria muito mais complicado, precisariam de um mecanismo complexo para obter o mesmo resultado. Vou mais longe ainda: os aras instalaram a base dos bios em Laros, só porque têm as solhas bem próximas.
Seguiu-se um longo silêncio. Depois Bell se manifestou:
Acho que você tem toda razão. Tudo que disse, realmente, tem fundamento. — Levantou bruscamente a cabeça. — Mas...
Mas eu havia dito que poderia, sob certas condições, fazer algo em nosso favor.
Exatamente a este ponto é que queria chegar.
Marshall tinha simplesmente lido seu pensamento. Continuou sorrindo.
Pois bem. Já sabemos que nos encontramos no reservatório de ar de um sistema de refrigeração. Provavelmente as solhas se multiplicam melhor sob a temperatura de 14,3 graus, que constatamos durante umas duas horas. Ao pensar num sistema de refrigeração, tenho forçosamente que imaginar que em algum lugar tem de haver uma câmara de vácuo... para compensar a elevação da pressão e para descompressão adiabática do ar superaquecido, não é?
Bell sorriu.
Seu método é extremamente indutivo. Não se pode fazer outra coisa do que lhe dar razão.
Com um sorriso tranqüilo, Marshall agradeceu o cumprimento.
Essa câmara de vácuo é que temos de encontrar. A única coisa com que temos de nos acautelar, são os bios.
Como assim? Não são tão fáceis de serem influenciados telepaticamente?
Tão fáceis? — Marshall sorriu. — Betty e eu não somos sugestores. Sem o auxílio do acaso, não o teríamos conseguido.
Depois, ficando um pouco mais sério, continuou:
Não, não acredite que já estamos livres dos bios. Basta aparecer um grupo um pouco maior, digamos de cinqüenta, então nós os telepatas não conseguiremos mais nada.
Não acredito — disse Bell — que os aras mandem mais do que este grupo.
Eu também não, mas não podemos ter certeza.
Bell concordou, mudando de assunto:
Portanto, podemos ir, não é? Onde supõe que esteja a câmara de vácuo?
Em algum lugar por aí. Você naturalmente reparou que este corredor é mais alto e mais largo que o anterior. Quem sabe se bifurca mais além e recebe outros ramais? Temos de examinar estas bifurcações.
De dois em dois, rastejavam-se, um ao lado do outro, para dentro do corredor. Ras Tschubai e Tako Kakuta arrastavam com sacrifício o mutante de duas cabeças.
Depois de três quartos de hora, atingiram realmente o local onde desembocava um corredor mais baixo que vinha do lado esquerdo. E a luz das lanternas iluminaram uma outra bifurcação a cem metros daí.
Muito bem, — disse Bell. — Até aqui sua teoria está correta, Marshall.
Marshall disse qualquer coisa, concordando, depois falou:
Aliás, estou me lembrando de outra coisa.
Do quê?
De que maneira os bios vieram de Laros para cá? Acha que foi a pé?
Bell gostou da pergunta.
Puxa, você é um homem inteligente. Mas vamos dar um jeito de, antes, comer alguma coisa. Depois iremos procurar a espaçonave em que vieram os bios. Se é que ainda está por aí.
Marshall sorriu. Estava diante da saída da bifurcação. Bell reparou como ele pegou a pistola térmica e apontou contra a parede da parte bifurcada, mantendo o fogo por uns cinco segundos. Bell se aproximou, olhando admirado para o ponto atingido. No mesmo instante, se sentiu um vento brando que soprava do trecho bifurcado para o corredor principal.
Está vendo, não é o corredor certo. Se houvesse uma câmara de vácuo em sua extremidade, o vento teria soprado na direção oposta.
Bell ficou olhando para ele, de olhos arregalados e de boca aberta.
Se você continuar assim — disse Bell — de boa vontade, terei que lhe ceder meu posto a bordo da Titan.

* * *

O método de Marshall tornava supérfluo ter de examinar cada ramificação do corredor até seu início. O método era infalível, como todos estavam vendo. Num trecho de pouco mais de um quilômetro, ramificavam-se do corredor principal quinze saídas. Marshall procurava a décima segunda.
Depois de fazer o tiro de experiência, surgiu um rombo na parede da entrada, por onde penetraram. Após uma caminhada mais curta do que pensavam, chegaram a um lugar onde uma cortina de solhas marrom-escura tapava o caminho, hermeticamente.
Bell que sempre se mantinha ao lado de Marshall, pegou a arma para afastar do caminho aquele obstáculo. Porém Marshall puxou-lhe o braço para baixo.
Não desse jeito — pediu ele. — Precisamos usar outra técnica, se quisermos que a câmara de vácuo nos seja útil.
Marshall sacou a arma, dirigindo-a contra a parede, mas antes de acioná-la, avisou:
Esteja preparado. Dependendo das condições, teremos que atravessar aqui, como as doninhas.
Bell entendeu o que queria dizer. Quando Marshall começou a trabalhar na parede com a pistola térmica, Bell estava puxando Goratchim por uma dobra do maltratado traje espacial. E, ao se levantar a cortina de solhas, para permitir a passagem da massa de ar quente para as partes do corredor que estavam com pressão mais baixa, o mutante foi arrastado tão fortemente, sendo atirado uns metros para dentro do corredor.
Como já previra Marshall, a cortina se abriu apenas por poucos segundos, caindo depois ao solo e separando uma parte do corredor hermeticamente da outra.
Este breve intervalo foi suficiente para o pessoal de Bell. Sentiam-se arquejantes devido ao esforço que o movimento mais rápido exigia, principalmente em virtude da maior atração. Mas já estavam para trás da cortina.
Alguns metros para frente, havia uma outra cortina, idêntica à anterior, também formada pelas solhas de Gom. Marshall as obrigou a abrir caminho, do mesmo modo como com as outras.
Bell consultava com freqüência o manômetro de pulso. Constatou que depois de cada cortina — ao todo cinco — a pressão do ar era umas duas atmosferas mais baixa do que a anterior. Depois da quinta seção, a pressão ainda estava a duas atmosferas e meia. Ainda era alta demais, para que pudessem tirar os trajes espaciais. Porém se tornara apenas um décimo da pressão reinante normalmente em Gom.
Após a última cortina, o corredor era muito sinuoso. Inteligentemente, os gons tinham conseguido com a técnica mais simples possível, mas ao mesmo tempo muito eficiente, que, por ocasião de uma repentina compensação de pressão, a impetuosidade do ar não causasse prejuízos. Estava obrigada a fazer muitas curvas e com isto perdia em velocidade.
Já haviam caminhado duas horas, quando, após uma curva, surgiu novamente uma cortina de solhas. Dava impressão de ser muito mais volumosa do que todas as outras pelas quais haviam passado. E quando Bell experimentou dar o seu possante soco com a luva direita, notou que aí não havia aquela elasticidade característica das anteriores, mas antes, parecia uma parede sólida de cimento armado.
Nada de extraordinário — disse Marshall — aí atrás deve estar, provavelmente, a grande câmara de vácuo. Este paredão tem que suportar uma bela pressão.
A receita patenteada de Marshall iria atuar também aí. Um rápido bombardeio na parede obrigaria a cortina a ceder um pouco de lado e o ar aquecido penetraria na câmara. Devido aos exercícios já repetidos, Bell e os seus conseguiram entrar antes que se desse a compensação de temperatura.
Apenas Marshall ficou de fora.
O manômetro de Bell acusava a pressão de 0,05 atmosferas. Os trajes espaciais elásticos, submetidos até então a uma pressão bem elevada, estavam quase colados à pele, porém, agora, se estufaram como balões disformes.
Cinco centésimos! — exclamou Bell para Marshall. — Precisamos de vinte vezes mais do que isso.
Sob o jato térmico de Marshall, levantou-se de novo a cortina das solhas, deixando penetrar uma corrente de ar esfusiante. Bell viu que a pressão, no seu manômetro, passou de 0,05 para 0,6 atmosferas.
Só mais um pequeno disparo — pediu ele a Marshall.
Marshall obedeceu prontamente, arrastou-se pela terceira vez para a cortina que se reerguia e pôde observar no seu manômetro que, com o último bombardeio, a pressão dentro da câmara subiu a 0,97 atmosferas.
Sob a claridade das lanternas do capacete, constatou-se que a câmara não era tão grande como se supunha. Tinha uma forma arredondada — aliás, os gons deviam ter predileção por esse tipo de construção — mais ou menos vinte metros de altura e quinze de diâmetro.
As paredes não estavam despidas como as das câmaras de ar rarefeito, onde os bios os atacaram. Três quartos dela estavam recobertos com as solhas de cor marrom-escura. Marshall falou categórico:
Pensei que fossem exatamente assim. Os gons não possuem um número imenso de câmaras de vácuo. Quando uma delas se enche de ar, como é o caso desta aqui, então só lhes resta tentar esvaziá-la novamente. Não dispõem de meios mecânicos, como nós. Não têm, pois, outro meio de expulsar o ar a não ser por reações químicas, ou melhor reações em série, que consomem o ar.
Bell fez uma fisionomia séria de quem entendia e aprovava.
Muito plausível. E as próprias solhas desencadeiam estas reações?
Sem dúvida alguma. Dependuram-se como cortinas nos corredores, por si mesmas, por que então não vão poder provocar reações químicas nos seus próprios corpos e conseguir controlá-las? Esperemos um pouco. Conforme minha teoria, a pressão deve diminuir com o tempo, provavelmente de maneira lenta, mas contínua.
Bell foi o primeiro a despir, com muito cuidado, o traje espacial. Sabia que a atmosfera das solhas era quase a mesma que a da Terra. Porém, não sabia, como era a composição do ar no interior da instalação subterrânea.
Aspirou devagar, olhando calmamente em volta.
Catinga um pouco — ouviram-no dizer — mas pode-se respirar.
Mais do que depressa, tiraram aquela indumentária plástica, colocando o capacete de lado de tal forma que as lanternas estavam voltadas contra as paredes, produzindo uma espécie de iluminação indireta.
Catingava, realmente, isto é: havia um cheiro pouco comum, de início, desagradável, no ar. Por certo seria conseqüência da transpiração das solhas.
A refeição que estavam tomando, era tudo, menos um banquete. Compunha-se essencialmente de preparados concentrados que matavam a fome e a sede ao mesmo tempo e davam ao corpo reserva suficiente para duas semanas. Como sobremesa, Bell distribuiu uma barra de chocolate que havia esquecido no bolso de seu traje espacial.
Ficaram bastante tempo descansando. Tinham a feliz sensação de, sem os tolhedores trajes plásticos, poderem respirar um ar fresco, pois o mau cheiro de início, ninguém mais notava.
Durante estas três horas, em que estiveram descansando estirados no chão, a pressão na câmara desceu do valor inicial para 0,75 atmosferas. Os gons que estavam nas paredes, cobriram-se com uma camada marrom-escura, sendo que de vez em quando caía-lhes um pedaço no chão. Constatava-se, portanto, no corpo das solhas uma reação à pressão quando esta diminuía.
A natureza é mesmo maravilhosa — dizia Marshall pensativo — criando tais seres. Dentro de sua categoria, eles são tão completos como o homem.
E olhando em torno e vendo o interesse geral em ouvi-lo, Marshall continuou:
Vamos agora resumir tudo que sabemos sobre estes seres de Gom, ou as solhas, como dizemos. Primeiro: como indivíduos, são completamente inofensivos para nós. Não dispõem de nenhum tipo de instrumentos ou armas, são apenas semi-inteligentes, pelo menos enquanto não forem influenciados de fora.
Segundo: o agrupamento ou a fusão de várias solhas num, digamos, supergom, significa a soma de inteligência e produz um ser que não apenas é capaz de pensar por si, mas sem dúvida, pode possuir dons parapsíquicos. Tentem imaginar, por exemplo, que força telecinética incrível seria necessária para puxar a Gazela, a milhares de quilômetros de altura para uma aterrissagem em Gom, mais semelhante a uma queda.
Terceiro: a lógica observada pelo supergom é completamente diferente da dos homens. O supergom, portanto, não conhecerá nenhuma moral, conforme os padrões humanos. Não podemos, pois, esperar, só para dar um exemplo, que nos sejam gratos, à maneira dos homens, por um serviço prestado. Por outro lado, se lhes fizermos algum mal, não precisamos nos preocupar de que se vinguem ou fiquem nossos inimigos.
Quarto: O supergom tem a faculdade de se comunicar com um ser estranho, cujo cérebro seja mais ou menos semelhante ao nosso. Estou me referindo aos bios. Não quero fazer nenhuma comparação entre eles e nós. Mas não há dúvida alguma de que o pouco de cérebro que os bios possuem é semelhante ao cérebro dos aras e portanto é construído como o nosso. Por conseguinte, deve haver também uma possibilidade de nós nos entendermos com os gons. Temos que encontrá-la.”
Bell era o ouvinte mais atento.
O que vamos ganhar, realmente, se conseguirmos este entendimento com os gons?
Primeiramente, queremos sair daqui. Seria maravilhoso se conseguíssemos sair daqui sem ter que cavar a fogo na rocha uma dúzia de buracos. Para isto precisamos do apoio dos gons. E, em segundo lugar, é muito provável que os gons tenham idéia de como podemos deixar este planeta do inferno o mais rápido possível. Pensem apenas no fato de que, conforme nossa hipótese, os aras extraem sua matéria-prima orgânica dos gons. Sendo isto uma realidade, certamente enviam de vez em quando uma espaçonave para Gom. Talvez nos próximos dias venha uma e nós podemos tomá-la dos aras, caso os bios já tenham regressado ou nós não encontremos a que está por aqui agora.
Bell ficou ainda mais pensativo.
Combinado — respondeu finalmente. — Acha que conseguirá entrar em contato com os gons?
Vou tentar — respondeu Marshall.
Onde é que está este supergom, na sua opinião? Todos nós estamos convencidos de que toda esta instalação é dirigida por um grupo de gons, não é verdade?
Claro que é — respondeu Marshall. — Não posso saber de quantos gons se compõe um supergom. Dois ou três é certamente muito pouco. Mas os que vimos lá embaixo nos dois aposentos arredondados, não podiam ser um supergom? São pelo menos dez mil indivíduos.
É possível — disse Bell. — Mas não é lá tão interessante. Procure mais um objetivo prático em seus pensamentos.
Marshall fez um sinal afirmativo e olhou para Betty do outro lado. Betty entendeu o olhar e virou-se para outro lado, para não ser prejudicada em sua concentração, olhando o pobre do Ivã desacordado. Marshall fez o mesmo. Além disso, se aproximou mais da jovem, para facilitar o contato telepático.
Não era nada fácil. Marshall acreditava que os gons não estavam muito em condições de poder entender pensamentos terranos, assim como os homens também não conseguiam bem decifrar seus impulsos mentais. Não era, portanto, indicado esperar que os gons descobrissem as intenções de Marshall ou que eles procurassem contato, por própria iniciativa. Ele tinha que chamá-los, tinha que chamá-los do mesmo modo como os gons chamaram pelos bios.
Porém, não havia coisa mais difícil para o cérebro humano do que criar um pensamento numa forma determinada. Os próprios órgãos que transmitem os sons da fala têm tanta dificuldade em articular os fonemas de línguas estranhas, assim é quase impossível ao cérebro pensar em “pensamentos” que não sejam humanos.
Mas Marshall estava tentando.
Concentrou-se e pensou:
Estou chamando você.
O supergom não respondeu. Marshall chamou mais dez vezes, em espaços iguais e depois da décima vez, teve a impressão de que um pensamento estranho tentava de grande distância se entender com ele.
Modulou seu pedido de socorro para uma faixa diferente e o emitiu pela décima primeira vez. O pensamento estranho se apresentou de novo, desta vez mais nítido do que antes.
Marshall continuou modulando e a modulação diferente parecia influenciar os processos mentais do supergom. A resposta parecia cada vez mais nítida.
Estou aqui, que quer você, meu amigo estranho?
Betty também tinha ouvido e entendido. Olhou para Marshall, encorajando-o.
Nós tivemos que lhe causar muitos prejuízos, porque nos perdemos nesta instalação — pensava Marshall. — Ficaríamos felizes de não sermos obrigados a repeti-los. Você não nos pode mostrar uma saída?
A resposta veio de imediato:
Sim, se eu não conseguir matá-los.
Esta lógica esquisita deixou Marshall tão perplexo, que precisou de uns instantes para voltar novamente à modulação certa.
Por que você nos haveria de matar? Nossa morte não pode trazer nenhuma vantagem a você. Pelo contrário, nós nos defenderíamos e destruiríamos suas instalações.
Isto vocês não conseguem fazer, ela é grande demais. Vocês são corpos estranhos aqui dentro. Procuro matá-los para não correr nenhum risco.
Você não corre risco nenhum, se não nos matar. Não queremos outra coisa do que deixar esta instalação e este mundo.
Como resposta, veio uma pergunta de curiosidade:
De onde chegaram vocês?
De muito longe — respondeu Marshall despistando. — Nós não vínhamos para Gom, mas você nos obrigou a descer.
É verdade, os aras me deram esta ordem.
Os aras? São seus amigos?
Trabalho em sociedade com eles. Forneço-lhes substância orgânica, em troca eles constróem para mim as instalações subterrâneas, que me dão possibilidade de produzir tanta substância orgânica quanto possível.
Marshall percebeu uma leve vibração de hostilidade contida nestas palavras.
Os aras nos odeiam — disse Marshall com toda franqueza — querem atacar nossa pátria e nós, naturalmente, tentamos nos defender.
Os gons ouviam isto com todo interesse.
E vocês conseguirão isto?
Esperamos que sim — respondeu Marshall.
Vão destruir os aras?
Pergunta inteligente e bem calculada.
Talvez não exatamente destruir, mas expulsá-los de sua base em Laros — afirmou Marshall.
Com esta resposta, houve um momento de silêncio. Marshall notou que os gons deixavam transparecer uma onda de satisfação. Estava vendo nisto uma confirmação de suas suposições sobre as relações entre os aras e os gons e resolveu então explorar a situação.
Três dos meus companheiros — transmitiu com muita cautela, — ainda se encontram sob seu poder. Estou convencido de que não poderão ser úteis a você. Devolva-os.
Não recebeu resposta. Repetiu o pedido e os gons continuaram mudos. Marshall refletiu se era conveniente insistir. Mas neste momento, os gons se manifestaram.
Vou lhes mostrar o caminho — pensavam como se não tivessem ouvido a pergunta sobre os três japoneses — Sigam-no e abandonem esta instalação. Eu vou avisar os outros — o conceito não foi bem compreendido, podia significar “irmãos” ou “amigos”, de qualquer maneira estavam incluídas outras aglomerações de gons — para que não os incomodem. Quem sabe mesmo, poderão informar como vocês podem sair deste mundo.
Marshall resolveu não tocar mais no assunto de Ishibashi, Yokida e Sengu. Provavelmente, os gons não queriam ouvir falar nisso. No momento, mais importante do que a libertação dos prisioneiros, era que eles, Bell e os seus, voltassem ao espaço. Não se devia aborrecer os gons.
O pensamento de Marshall foi curto:
Eu lhe agradeço.
Mas como já supunha, os gons não entenderam a palavra “agradecer”. Sua mentalidade estava baseada fortemente nos conceitos objetivos e funcionais. Conceitos como gratidão, amor, ódio, e ira eram-lhes desconhecidos.
Os gons deram uma descrição do caminho que Bell e os seus tinham que seguir e garantiram que as cortinas-válvula se abririam no momento exato. Marshall repetiu pensamento por pensamento, de toda a instrução que recebera, garantindo-se assim contra possíveis enganos.
Interrompeu-se então a comunicação. Não houve despedida. Constataram que Marshall havia compreendido bem as instruções e “desligaram” simplesmente.
Marshall fez muito esforço durante este longo diálogo. Estava com a cabeça doendo. Virou-se de costas e ficou por uns instantes deitado, antes de relatar o diálogo a Bell.
Este não fez nenhum comentário. Bateu nas costas de Marshall e fez-lhe um sinal de agradecimento, foi tudo.
Deu então ordem ao pessoal que vestisse os trajes espaciais. Já estava na hora. A pressão na câmara não chegava a 0,6 atmosferas. A respiração já estava tão difícil como numa montanha de alguns milhares de metros de altitude.
Os gons deviam saber a hora exata em que o grupo se pôs em movimento. No mesmo instante, a cortina que separava a câmara do corredor, começou a abrir devagar. O equilíbrio de pressão entre a câmara e o setor interno do corredor restabeleceu-se imediatamente.
A reação das demais cortinas-válvula foi igual. Abriam-se à aproximação do grupo de Bell. A caminhada foi tranqüila.
Num espaço relativamente curto, chegaram ao corredor central de dois metros de altura. Dali voltaram até uma bifurcação onde Bell havia chegado. A bifurcação começou plana, mas depois começou a subir. Exatamente quatro horas depois do memorável diálogo com os gons, apareceu mais distante o foco de luz avermelhada, que o sol Gonom desenhava no lusco-fusco permanente.
Com suave aclive, o corredor desembocava numa rocha bem larga e um pouco mais alta que a estatura de um homem, formando na saída uma caverna afunilada.
Bell procurou orientar-se, mas fora do fato de que o trecho de penumbra não ia além de oito quilômetros, não reparou nada conhecido. O planalto, com as pontas de pedra espalhadas a esmo, com as plantas carnudas azuis, parecia ser o mesmo em toda parte de Gom.
Nestas circunstâncias — disse Bell, um tanto ofegante — acho eu que umas horas de repouso não farão mal a ninguém. Talvez ao acordarmos, este moço de duas cabeças terá voltado a si.
Veio mais uma vez para frente da saída da caverna, a fim de dar uma olhada no ambiente. Devia ser mais um ato de rotina, como qualquer pessoa de responsabilidade faz ao deixar os seus quando precisam descansar num local perigoso.
Mas, foi mais do que isto.
Nos receptores do capacete, o pessoal o ouviu respirar forte e com ruído. Ajoelhado como estava ali, tapava a vista dos outros. Viram, porém, sem saber de onde, uma claridade ofuscante e sentiram instantes depois que o chão tremia sob seus pés.
Bell virou para o lado, dizendo:
Nada de descansar, temos visitas.
Deixou-se cair para frente e se arrastou para o lado, a fim de que todos pudessem ver. Chegaram mais para frente e viram viaturas espaciais, em forma de discos semi-esféricos, de porte médio, que desciam às dúzias do céu quase escuro. Das turbinas da proa partiam fluxos de partículas incandescentes, freando à descida dos discos e proporcionando-lhes uma aterrissagem suave.
Num amplo semicírculo, com pequenos intervalos, estavam postados os discos voadores, em torno do rochedo, onde Bell e seus companheiros haviam instalado seu quartel-general. O raio do semicírculo tinha cerca de três quilômetros.
Por uns instantes, ficou tudo na mesma. Mas depois começou a movimentação nos discos. Bell pegou o binóculo e o comprimiu contra a viseira.
O que viu não era lá muito consolador. De cada disco, desceram cinco daqueles monstros, os bios, que os aras produziam em Laros. Considerando-se que haviam descido quarenta discos voadores, não era difícil calcular que o montante da força de combate era de duzentos destes seres horríveis.
Parecia que já estavam a par do objetivo, vinham de todos os lados para um só ponto, distante da caverna apenas cem metros. Dali, de armas preparadas, partiam em direção à caverna.
Parece-me que agora a situação se torna séria — disse Bell, sem perder a calma, ao menos aparentemente.
4



As relações entre os aras e os gons eram de natureza mais complicada do que Marshall podia suspeitar.
Para os aras, os gons eram importantíssimos fornecedores de matérias-primas orgânicas. Os aras não se contentavam com o que extraiam em condições normais dos gons, sem prejudicar o conjunto deles. Descobriram as condições em que as solhas se multiplicavam mais depressa e instalaram colônias de bios recém-criados, para fazerem as instalações, que proporcionassem aos gons uma procriação mais rápida. Assim estes davam aos aras maior quantidade de matéria orgânica.
As possibilidades de relacionamento dos aras com os gons eram muito restritas. Os aras não eram telepatas. No entanto, sabiam que os gons eram dotados destes dons e ainda outros mais importantes. Também não podiam ignorar que suas criaturas, os bios, eram feitos da mesma substância dos gons, também até um certo ponto telepatas.
Os gons se apoderaram da primeira instalação que os aras construíram. Somente mais tarde é que os aras reconheceram que através dos bios poderiam manter um entendimento melhor com os singulares seres de Gom. Mas começaram a abusar deles.
Foi assim que os aras ficaram sabendo alguma coisa de positivo sobre estes estranhos seres, com os quais estavam entrando em contato. Compreenderam que os gons, mormente quando reunidos em maior número, são tudo, menos seres primitivos e que, mesmo para eles, os aras, podiam se tornar, sob determinadas condições, extremamente perigosos. Em atenção à sua mentalidade mais elevada, os aras deixaram de tratar os gons como simples fornecedores de plasma celular. E daquela data em diante, começaram a ver neles inimigos potenciais, merecedores de atenção especial, já que se tratava de uma base tão importante como Laros.
Desde esta época, havia sempre um grupo permanente de bios em Gom, ao todo vinte destes monstros criados em provetas, ocupados em terminar a construção do viveiro subterrâneo das solhas. Pelo menos isto é o que diziam aos gons. Na realidade, os bios eram para fiscalizar os gons. E os poderosos aparelhos transmissores embutidos no corpo dos autômatos de quatro braços, sem que os gons suspeitassem nada a respeito, mantinham os aras a par de tudo que se passava no planeta.
O supergom em cada seção da extensa instalação subterrânea, onde Bell com sua gente havia penetrado, apelou pelos bios, na hora da dificuldade. Marshall conseguiu influenciar hipnoticamente os bios, obrigando-os a retroceder. Ao mesmo tempo, porém, os aras em Laros ficaram sabendo de tudo através das emissoras automáticas embutidas nos bios. Da informação até à suspeita de que se tratava das mesmas pessoas que há pouco tempo atrás tinham causado tanto rebuliço em Laros e depois da fuga foram forçados pelos gons a uma aterrissagem forçada em Gom, era um caminho muito curto.
Os aras colocaram os patriarcas dos saltadores, reunidos em conferência em Laros, a par de tudo, e estes então decidiram que o mais prático seria que os aras enviassem seus bios para prender os fugitivos.
Foi assim que uma pequena frota de naves de patrulha, com bios a bordo, partiu de Laros e aterrissou exatamente no local, onde instrumentos de alta sensibilidade localizaram os mutantes e Bell.
Ninguém se preocupava em Laros com o resultado da operação. Conheciam Gom e sabiam que os fugitivos não estavam preparados para aquele ambiente. Já era um grande milagre o fato de estarem ainda vivos. De qualquer maneira, não podiam opor nenhuma resistência aos bios, que se sentiam em casa e estavam equipados com armas poderosas.
A única dificuldade consistia no fato de que os patriarcas haviam dado a ordem de que ao menos um fugitivo devia ser apanhado vivo. Queriam alguém para um exaustivo interrogatório. E os bios sabiam como deveriam agir.

* * *

Passou pela mente de Bell retirar-se com os seus para os corredores de aeração. Também pensou em se apoderar de um ou dois discos voadores dos inimigos e lhes dar as costas definitivamente.
Esta última alternativa o levou a permanecer na caverna o maior tempo possível.
O singular procedimento dos bios, que depois de estarem a apenas duzentos metros da caverna, ao invés de iniciarem o ataque e aproveitar a grande chance que tinham com toda a sua superioridade em número e em material, se entrincheiraram atrás dos altos blocos de pedra e depois não foram mais vistos, vinha de encontro aos planos de Bell.
Marshall e Betty tentaram captar o conteúdo de seus pensamentos. Mas o cérebro de um bio é tão reduzido, que não havendo um esforço enorme, não se percebe nenhum impulso mental, nem a poucos metros de distância. Alguns impulsos de pensamento chegavam até a caverna, vez por outra. Isto acontecia quando um dos bios sentia dores, por ter levado um tombo ou por se ter queimado e a dor provocava maiores vibrações no cérebro. Outros pensamentos, não se podia esperar deles.
Muito mais elucidadoras eram as nuvens de poeira que de vez em quando subiam por detrás dos rochedos, onde os bios aparentemente se abrigaram. Bell concluiu daí que o adversário estava preocupado em abrir caminhos subterrâneos até a caverna. Depois de ter quebrado a cabeça com esta hipótese inesperada, começou a pensar que talvez os bios tivessem recebido ordem de apanhá-los vivos, para serem levados a Laros e submetidos a interrogatório.
Falou a respeito com Marshall, que classificou sua hipótese de plenamente viável.
Possuem diversos tipos de armas — constatou Bell. — Esta nuvem de pó de pedra, lá embaixo, parece ser causada por desintegrador. Eu diria que em meia hora esses malucos podem surgir de qualquer lado a nossa frente.
Marshall ponderou, no entanto, que Bell, apesar da situação inquietante, estava atrasando demais os preparativos. Designou o lugar para cada um, na entrada da caverna, chamou a atenção de Betty Toufry para que olhasse também para trás, porque ninguém poderia saber onde surgiriam os bios. Falou tão ponderadamente como se tivesse, entre cada palavra, um mundo de problemas a resolver.
E tinha mesmo. Marshall seguia pensamentos dele e se admirou do grau de noção de responsabilidade com que Bell cautelosamente chegou à conclusão, que muitos já teriam tomado sem maiores ponderações.
Tako!
Pois não, senhor.
Você consegue chegar e entrar num pulo num destes discos voadores?
O japonês comprimiu os olhos numa fenda horizontal e fitou os veículos espaciais do outro lado.
Se o senhor me der cinco minutos para concentração, com toda probabilidade, chego.
Bell sorriu contente.
Bem, então vamos fazê-lo logo. Talvez os discos não estejam vazios. Suponho que em cada um deles há pelo menos um bio servindo de vigia, pois os saltadores e os aras conhecem nossos truques. Leve a arma na mão, quando saltar.
Perfeitamente, senhor. Que devo fazer com o disco, quando o tiver em mãos?
Os olhos de Bell se arregalaram.
O que que deve fazer? Ora, trazer para cá, naturalmente, para que possamos dizer adeus a este mundo infernal.
Tako sorriu amável. Depois, agachou-se num canto, de onde podia ver uma parte dos discos voadores, para se concentrar.
Os outros se acomodavam em seus lugares, designados por Bell. Sem que ninguém lhes falasse, sabiam todos que tudo dependeria de que Tako conseguisse pegar depressa um daqueles discos. Para saberem do sim ou do não, tinham que esperar e não podiam fazer outra coisa do que procurar se salvar pela fuga.
Marshall escutava com atenção se os gons no fundo da terra ou em outro lugar emitiam qualquer impulso. Mas depois de gastar alguns minutos num grande esforço telepático, sem nada conseguir, veio-lhe o pensamento de que os gons podiam intervir nesta luta, para benefício deles mesmos. Concentrou sua atenção na nuvem de vapor e de poeira que subia aqui e ali, atrás dos imponentes rochedos. Sentiu que ficava cada vez mais rala, na proporção em que os bios se aprofundavam no solo.
De repente Tako desapareceu, sem uma palavra, sem um sinal.
Marshall reparou e fixou os olhos com muita firmeza na fila dos discos. Naturalmente era difícil olhar todos ao mesmo tempo. Mas estava convencido que Tako atingira seu objetivo num só pulo. Não apareceu em nenhum lugar do planalto pedregoso.
Porém, Bell, muito à frente, não notou o desaparecimento de Tako, por isso, continuou olhando sem maior interesse para frente. Reparou assim que uma das plantas azuis, que crescia à entrada da caverna, começou a se mover. Olhou em redor e constatou o mesmo fenômeno. Com movimentos trêmulos, as plantas mergulhavam para dentro da cavidade, de onde brotavam.
Os olhos de Bell perscrutaram o horizonte e descobriram no meio do quadrante esquerdo uma faixa estreita, onde o halo avermelhado que o sol de Gonom desenhava, estava mais esmaecido ainda do que de costume. Ali, a claridade parecia se elevar mais, como que tocada por um longínquo incêndio. Bell virou-se para trás e bradou para seus colegas:
É talvez a nossa salvação. Teremos uma tempestade.
O trecho esmaecido cresceu um pouco mais, depois empalideceu contra o horizonte e, alguns segundos após, veio o turbilhão de poeira e cascalho fino.
Todos, dois metros para trás — ordenou Bell. — Pensem bem que cada pedaço de pedra pesa aqui o dobro do que na Terra.
Ao se afastar, reparou que Tako havia desaparecido. Marshall o informou de que o japonês havia desaparecido há uns cinco minutos.
Diabo! — resmungou Bell. — E por que só me diz isto agora? E Tako não dá sinal de vida?
Chamou pelo japonês, mas Tako não respondeu. Apanhou então o pequeno aparelho de transmissão e o ligou. Julgava que a força do transmissor do capacete fosse insuficiente para atingir os pequenos aparelhos espaciais, principalmente se o envoltório energético de proteção estivesse ligado.
No momento não chegou a refletir que nesta eventualidade não poderia esperar resposta do japonês. Neste mesmo instante o inferno se desprendeu sobre Gom. Nos segundos anteriores, de tanta excitação pelo japonês desaparecido, ninguém dera atenção à tempestade iminente. Mas já estava aí. O rápido, mas violento tremor de terra, não foi suficiente para alertar os ocupantes da caverna.
Diante da entrada, pairou de repente uma muralha de pó e pedras. Elevou-se tanto, que não se via mais o céu escuro. Com estrondo agudo, rolavam os blocos de pedra soltos que a ventania arrastava para o planalto. Novos turbilhões de poeira toldaram o resto de claridade que ainda havia.
O barulho aumentava a cada segundo nos microfones de capacete de tal forma que Bell teve que dar a ordem:
Desligar o microfone externo.
Mas a ordem foi somente compreendida, após muita gesticulação. O silêncio repentino foi muito benéfico. Mas lá fora, a trepidação do ar era acompanhada de um sibilar constante.
Liguem as lanternas — gritou Bell, que não podia mais calcular o volume da voz.
E as lâmpadas se acenderam, iluminando apenas uns dois metros através da opacidade da densa poeira levantada pela tempestade diante da caverna e, em parte, para dentro dela. Os trajes espaciais estavam recobertos por densa camada de poeira.
Não acredito que... — começou Bell, e o resto da frase devia ser, pelo tom de voz, algo tranqüilizador.
Mas um grito de horror de Betty interrompeu Bell.
Olhem os bios ali.
Na nuvem de poeira que penetrava na gruta, mal se vislumbrava a figura de Betty, que ocupava um posto na retaguarda. Bell via-lhe apenas o braço que apontava enviesado para trás, na direção da caverna. Mas viu bem nítido, por fração de segundo, entre duas rajadas de poeira, o rosto redondo de um dos bios.
Instantes após, tinha desaparecido. Mas logo depois, o braço enegrecido, como tronco de árvore, surgiu da poeira, girando no ar o cano da arma. Bell se encolerizou.
Fogo — gritou ele ofegante.
Ele mesmo foi o primeiro a atirar. O raio energético incandescente penetrou na escuridão da poeira. Um grito agudo e longo foi a resposta.
Ali estão outros — disse Betty. — Vêm de todos os lados.
Bell queria recuar e respirar por uns segundos. Mas, por toda parte, o clarão da lanterna descobria, com contornos indecisos, os vultos gigantescos daqueles monstros que se aproximavam.
Bell atirava, girando o corpo constantemente. Não sabia que estava gritando como um possesso, sem ouvir, também, os gritos lancinantes dos atingidos, tão fortes que os microfones — mesmo estando com o volume baixo — recebiam e transmitiam. E quando mais tarde se recordou da situação, achou que foi um milagre não ter atingido um dos seus, durante a reação desesperada. Não se preocupou com ninguém naquela hora, nem procurou saber se estavam conseguindo se defender ou recuar.
A primeira leva de bios estava destruída, enquanto atacavam. Mas para cada morto, surgiam dois outros para substituir. O anel se apertava em tomo daquele punhadinho de desesperados e podia-se prever o momento em que os gigantes artificiais precisavam apenas avançar para tirar as armas das mãos de seus reduzidos adversários e terminar a luta. Se o combate não chegou a este desfecho, foi um verdadeiro milagre.
Depois de ruírem os paredões da caverna, Bell tinha que lutar contra dois inimigos simultâneos: contra os bios que com incrível tenacidade voltavam sempre ao ataque, e contra a tempestade que ameaçava de arrastá-lo, embora estivesse sempre deitado e comprimido contra a rocha. Assim que pôde respirar um pouco, procurou se arrastar para trás de um bloco de pedra, que lhe parecia suficientemente forte para agüentar o vento. Mal fizera o primeiro movimento, quando surgiu em sua frente uma sombra bem larga. Bell arrancou da arma, mas com o movimento da cabeça, a lanterna do capacete atingiu a sombra e deixou ver as duas cabeças.
Ivã! — gritou Bell, cheio de entusiasmo. — Você está chegando na hora exata.
Ivã Goratchim parecia não ouvir nada. E, como um sonâmbulo, levantou-se, deu uns passos para frente e quedou firme como um rochedo.
Em algum lugar atrás da cortina de trevas, poeira e cascalhos, faiscou um raio, tão claro que transformou a escuridão momentaneamente em plena luz do dia. De algum lugar daquele caos, reboou o trovão, mais forte que todos os ruídos que haviam chegado ao microfone até então. Um tufão de ar quente apanhou Bell e os seus, atirando-os uns metros para o alto e deixando-os cair logo a seguir no chão.
Depois reinou silêncio, impenetrável silêncio escuro.

* * *

A primeira coisa que Bell sentiu, foi a sensação de que seu corpo tivesse sido dissecado em centenas de pedaços doloridos. Assim que voltou a si do desmaio, parecia ter medo de respirar. Qualquer movimento lhe causava dor. Abrindo os olhos, viu que em redor deles ainda reinava a mesma penumbra. Onde estava a tempestade, onde estavam os bios?
Virou-se de lado, examinando o halo avermelhado do sol. Mas tudo que viu foi um clarão vermelho no firmamento e uma muralha negra, impenetrável.
Dos bios não havia vestígios.
Marshall? Betty...?
Não esperava mesmo uma resposta, mas mal acabara de pronunciar os nomes, quatro vozes diferentes responderam:
Estamos aqui, senhor Bell. Está tudo em ordem. Onde está o senhor?
As vozes soavam alegres e fortes. Bell constatou satisfeito que estava simplesmente perdido.
Estou aqui — respondeu. Levantou-se com dificuldade, gemendo de dores. Apoiou-se numa pedra lisa e olhou por cima dela. Mais ou menos cinqüenta metros para frente, descobriu Ivã, o mutante de duas cabeças, que também estava de olhos fixos na estranha muralha negra.
Já vou indo — disse Bell.
Ao ver Ivã, se lembrou do milagre que havia salvado a ele e aos seus do ataque dos bios.
Ivã voltou a si de repente, levantou-se, compreendendo num instante, intuitivamente a situação.
O dom mais importante de Ivã não era o fato de ter duas cabeças; sua singularidade era a propriedade de poder atuar como detonador vivo. Era-lhe muito fácil, em virtude de sua incrível força de vontade, produzir um processo de fusão dos núcleos atômicos do carbono ou do cálcio. O resultado era, sempre que se apresentasse uma massa suficiente de um dos dois elementos, uma explosão semelhante à da bomba de hidrogênio.
Não restava dúvida nenhuma de que Ivã havia empregado este meio, para afastar os bios. Sob o domínio da vontade de Ivã, a força de combate dos aras de duzentos gigantes armados até os dentes fora reduzida a um facho atômico. E somente o fato de que as fusões de cálcio e de carbono se realizam mais lentamente do que os de hidrogênio é que livrou os colegas de Ivã de ir pelos ares do mesmo modo como as criaturas artificiais dos aras.
Enquanto se arrastava com sacrifício na rocha onde estava o mutante de duas cabeças, Bell ia remoendo estes pensamentos. Um calafrio lhe percorreu a espinha dorsal, ao pensar que desta vez, realmente, passara raspando pela beira de uma terrível catástrofe.
Gastou meia hora para percorrer aqueles cinqüenta metros. Arrastou-se em volta do rochedo, deixando-se escorregar de costas, para respirar melhor e para aliviar-se das dores enormes em quase todo corpo. Atrás do rochedo, se encontravam seus quatro companheiros: Ivã, Marshall, Betty e Ras Tschubai. Marshall e o africano estavam mais ou menos sentados, apoiados nas pedras. Ivã e Betty estavam deitados no chão.
Na próxima vez — murmurou Bell para o mutante de duas cabeças, após se haver refeito um pouco do cansaço daquela caminhada — vocês dois, por favor, acordem meia hora mais cedo e organizem seu “espetáculo pirotécnico” enquanto o objetivo estiver a uma distância mais segura, não é verdade?
Ivã, o mais velho, abriu o rosto num sorriso. Ivanovitch, o mais moço, no entanto, se sentia meio culpado.
Eu havia despertado uns segundos antes de Ivã — disse ele se lamentando — mas o malandro não queria voltar a si.
Ah! Vocês estão ouvindo, “o malandro”? Até que enfim ele concorda que eu sou o mais velho. Terá ainda que...
Ah!... deixem de bobagem — interveio Bell. — Vocês dois foram maravilhosos. Acho que não estaríamos vivos sem vocês.
Virou-se, dirigindo-se a Marshall:
Que espécie de paredão é aquilo lá em cima?
Marshall fez uma fisionomia mais séria e retardou a resposta.
São os gons — disse finalmente.
Os gons? — repetiu Bell atônito, de olhos arregalados. — Que estão fazendo lá?
Até o momento, não tinha dado muita atenção ao paredão escuro. Reparou então que este se erguia do chão em suave inclinação, usando os blocos grandes de pedra, em volta, como pontos de apoio. A borda externa tinha mais ou menos seis metros acima do solo, num diâmetro de cerca de dez.
Deitou-se de costas no chão e ficou olhando para o céu. Aí, então, compreendeu o que pretendiam os gons.
A tempestade continuava com a mesma violência. Por cima da muralha soprava o tufão, turbilhonando nuvens de pó e de cascalhos e, se o microfone estivesse ligado com um pouco mais de volume, poder-se-ia ouvir o intenso bramido.
A muralha viva dos gons os protegia naquele recorte entre as rochas. Os gons vieram para que Bell e os seus não fossem projetados ao longe pelo furacão.
Surpreendente — disse Bell extasiado — por que fizeram tudo isto?
É realmente um pouco difícil de se compreender — interveio Marshall. — Mantiveram-se em contato comigo, assim que recuperei os sentidos, e os impulsos estavam incrivelmente nítidos. Deve ser uma multidão enorme de gons que aí se reuniram. Mas não disseram nada mais, a não ser que haviam construído uma barreira contra a tempestade e ficariam ali até que a mesma terminasse. Se você quiser saber de mim, a razão por que assim agiram, está no caminho errado.
Puxa vida, então pergunte você mesmo.
Marshall sorriu meio sem jeito.
É isso mesmo. Se lhes perguntar por que fizeram isso, a resposta será invariavelmente: Para protegê-los contra a tempestade. Não compreendem que este “por quê” possa ter outra significação.
Bell aceitou a explicação, pensativo.
Seres misteriosos — balbuciou ele. — Que aconteceu a vocês? — perguntou, mudando de assunto e se dirigindo a todos.
Betty foi a primeira a se manifestar:
Fiz uma bela viagem aérea. Mas devo ter aterrissado muito brandamente em qualquer lugar. Quando recuperei os sentidos, estava rente à muralha dos gons. Marshall, Tschubai e Goratchim já estavam aqui. Por isso vim me arrastando para cá.
A mesma coisa aconteceu com Marshall, Tschubai e com o mutante de duas cabeças.
Felizmente correu tudo bem — suspirou Bell. — Poderia ter sido muito pior se...
Interrompeu-se no meio da frase, ficou de olhos fixos no espaço, disfarçando um sentimento mais triste.
Marshall fez um sinal para ele.
É isso mesmo. Estaria tudo mais ou menos em ordem se ao menos soubéssemos onde se encontra Tako.
Num gesto sem sentido, Bell deu um tapa na cabeça, atingindo apenas o capacete.
Meu Deus! — admirou-se. — Devo ter levado uma batida na cabeça, do contrário não o teria esquecido.

* * *

No mesmo instante em que aterrissou no pequeno disco voador, Tako Kakuta percebeu que tinha caído numa cilada. O espaço interno do veículo era arredondado, como o próprio disco. Não tinha janela, nem painel de controle. Tanto o chão, como o teto e as paredes eram lisos, sem nenhum adorno. Um banco simples corria em volta da circunferência.
Não havia ninguém dentro. A teoria de Reginald Bell, de que, dentro de cada aparelho havia pelo menos um bio, para vigiá-lo, estava, portanto errada.
Tako sentiu o leve abalo, com que o disco voador começou a se mover, mal tinha entrado. Compreendeu que algum dispositivo distante registrara sua chegada e o estava agora transportando para algum lugar.
Tako era calmo e não se precipitou em tomar sua decisão. Tinha duas opções: sair do disco, tão facilmente como havia entrado ou permanecer ali, para ver onde ia terminar a viagem. Momentos depois, Tako achou que seria um empreendimento inútil, como também perigoso, ver para onde terminaria a viagem. A pequena nave provinha de Laros e foi telecomandada de lá. Quem haveria de duvidar que voltaria para lá?
Mas havia outro argumento que o seduzia. Era técnico de profissão, trabalhava como técnico antes de se tornar um dos auxiliares de Perry Rhodan. O que aconteceria se conseguisse examinar o mecanismo de telecomando, se desligasse o receptor e dirigisse ele mesmo o disco voador? A técnica dos aras seria muita diferente da dos terranos? Seria tão diferente que um terrano não poderia compreendê-la?
Tako sabia que não era assim. A técnica dos aras se baseava na dos arcônidas. E esta, ele conhecia profundamente.
Resolveu ficar. A pistola térmica que ele mesmo regulara para fogo de longo alcance — a fim de atingir de uma vez só todos os bios que se encontrassem a bordo do disco — foi calibrada agora para raios energéticos de curto alcance.
Começou então a dissolver as chapas que formavam o revestimento debaixo do banco circular, separando-as de seus suportes. Chapa por chapa ia virando e caindo no chão. E quanto mais progredia a operação, mais convencido estava do acerto de sua decisão. Diante dele, estava não apenas o conjunto do mecanismo de tração com o respectivo receptor, que recebia os sinais do telecomando e os transformava automaticamente. Havia também o gerador para produção do campo de gravidade artificial na cabina, a câmara de televisão que refletia seus impulsos para a tela do telecomando e, por fim, o conjunto de dois desintegradores embutidos na carcaça externa da pequena espaçonave.
Viu que fizera uma grande descoberta. Tratava-se agora de saber se conseguiria utilizá-la.
A distância de Gom para Laros, numa nave deste tipo, seria mais ou menos de uma hora. Se não quisesse chegar à perigosa vizinhança da base, teria que agir depressa.
Com movimentos rápidos e precisos, dissolveu a fiação para o receptor de telecomando e interrompeu os contatos de tal forma que o conjunto de propulsão não receberia mais nenhum impulso de fora.
Depois examinou o próprio conjunto de propulsão e constatou que, naquele mesmo momento, ele tinha deixado de funcionar.
A pequena espaçonave se movimentava em queda livre pelo espaço. Tako chegou à conclusão de que o mais importante seria saber para onde é que estava se movimentando.

* * *

Bell ficou meia hora chamando pelo japonês Tako. Acabou desistindo contrariado. Marshall teve a idéia de que talvez os gons pudessem saber o que havia acontecido com Tako. Mas não respondiam à pergunta.
Isto estava ligado ao fato de que, neste momento, eles estavam muito ocupados. Marshall recebia um grande número de impulsos, contra os quais seu chamado mais fraco não podia prevalecer.
Não podia descobrir o que pretendiam os gons. Porém, momentos depois, chegou a perceber.
A muralha começou a se dissolver. As nuvens de poeira que a tempestade tinha levantado acima do rochedo, estavam agora menos densas. A procela acabara e os gons abandonavam o posto de vigilância.
Marshall regulou o microfone externo para maior sensibilidade. Pôde ouvir com nitidez o ruído farfalhante com que as solhas se retiravam do seu aglomeramento nas rochas. Minutos depois, a muralha não existia mais. Na direção da flácida luz avermelhada do sol, marchava uma avalanche enorme, marrom-escura, de solhas que cobriam o longo desnível do terreno.
Enquanto se arrastavam naquela direção, podia-se ver que apenas transpunham os desníveis do terreno, sem retirar nada do caminho. As pedras sobre as quais a vanguarda do grande manto marrom já havia passado, surgiam instantes após como estavam antes. Até mesmo os discos voadores, que haviam trazido os bios, os gons deixavam intactos.
Bell estava olhando para os aparelhos dos aras.
Vamos pegar um deles — disse Bell — não confio muito neles. Até a Titan, levaremos talvez duas ou três semanas. Mas é melhor do que nada.
Calcule um pouco mais — falou Marshall — temos que dar uma volta enorme para escaparmos dos aras e dos saltadores. Não creio que estes aparelhos estejam armados. Além disso, vocês não estão reparando nada?
Não, o quê?
Eram quarenta aparelhos, agora são trinta e nove.
Bell os contou um por um. Marshall estava certo.
Quem sabe, um deles foi devorado pelos gons? — indagou Bell, indeciso.
Não creio, não — continuou Marshall. — O nosso japonês é que desapareceu com um deles.

* * *

Assim que Ivã Goratchim fez uso de suas incríveis faculdades mentais, sabia-se em Laros o terrível destino dos duzentos bios desintegrados por ele.
A reação dos três patriarcas, Siptar, Vontran e Cekztel constou apenas de um conselho que deram aos aras, como bons amigos:
Realmente, a força que vocês enviaram foi muito pequena, mandem mil bios, que nós vamos ver como as coisas se passam.
Os aras ouviram o conselho um tanto cépticos. Embora não o confessassem perante os saltadores, a perda de duzentos bios foi um duro golpe para eles. Em Laros não havia ao todo mais do que setecentos bios. E agora eram só quinhentos. Não estavam, pois, em condições de seguir o conselho dos patriarcas dos saltadores. O que também não deixavam transparecer.
Além de tudo, os aras estavam plenamente conscientes de que estavam tratando com um adversário que não podia ser menosprezado. Seu ponto de apoio em Laros, o mais afastado das grandes rotas espaciais, era-lhes de inestimável importância — era o grande laboratório e o quartel-general dos bios, cujo comércio lhes rendia fortunas fabulosas. Por este motivo, reagiam de uma maneira esquisita quando alguém se intrometia em seu modo de pensar e de agir.
Mas, nestas circunstâncias, era um pouco diferente. Alguém aterrissara em Gom. Este alguém não se imiscuía em seus negócios. Porém dava mostras de que estava disposto a liquidar seus bios. E o interessante é que este alguém era um fugitivo desesperado, obrigado a cair e se esfacelar no solo do planeta, atraído, pelas forças dos gons a serviço dos próprios aras.
Muitos, entre os aras, desconfiavam de que os gons tinham se aliado aos fugitivos. Mas era difícil achar provas contra ou a favor desta suspeita.
Neste estado de coisas, os aras deliberaram enviar quatrocentos bios para Gom. Entretanto, fizeram uma coisa, que jamais haviam feito nos longos anos de “cooperação” com os gons: ordenaram aos gons, sob ameaça de severos castigos, de prenderem os fugitivos e entregá-los aos bios.
Vários bios transmitiram esta ordem de Laros a Gom por meio de amplificadores mecânicos para telepatia. O tipo de castigo ameaçado pelos aras foi explicado em palavras claras: destruição, pelo menos da metade, da substância das solhas, com aplicação de bombas atômicas.
Gom não respondeu. Os aras sabiam, naturalmente, que uma mensagem deste tipo só poderia ser captada quando os gons se reunissem em quantidade suficiente para formarem uma inteligência. Mas a estatística comprovava que estas reuniões eram muito freqüentes em Gom.
Embora a ordem não tivesse tido resposta, os aras estavam convencidos de que foram compreendidos.
No meio daquela confusão toda e de apuros por que corriam os aras, passou completamente despercebido um pequeno incidente: a estação de relês do telecomando registrou que, pelo menos, uma parcela dos tripulantes havia regressado num dos discos voadores. Já que o prazo fixado pelos aras para a operação dos bios em Gom tinha se esgotado, a estação de relês deu a partida ao disco voador e o trazia de volta a Laros. Mais ou menos meia hora após a partida, a pequena nave escapou do telecomando e não foi mais localizada.
A estação de relês transmitiu a comunicação do ocorrido. Veio, no entanto, a notícia de Gom de que todos os duzentos bios foram destruídos pelo inimigo. Assim, ninguém estava dando importância a uma coisa tão ridícula como a saída de um único disco voador, onde poderia estar, no máximo, um tripulante.
5



O problema mais importante e ao mesmo tempo mais complicado, Tako resolveu da maneira mais simples possível. De posse do traje espacial protetor, não lhe foi muito difícil dissolver inúmeras chapas da parte superior do disco, de forma que ao menos de trinta em trinta graus havia uma abertura para visibilidade. É verdade que, na fração de um segundo, todo o ar que havia no interior da nave, foi expelido. Mas, nenhuma peça dos motores de propulsão, do sistema de defesa ou dos demais instrumentos dependia do consumo de ar. Tako havia tomado todas as providências para não afetar em nada a estabilidade estática do aparelho.
Constatou que estava bem longe de Gom, conseguindo ainda ver o enorme planeta do tamanho de uma laranja. Na frente, no sentido da trajetória do aparelho, havia ainda um outro corpo celeste um pouco menor, de um branco amarelado, que Tako identificou como Laros. Conhecendo bem o tamanho do planeta e de suas dezoito luas, não lhe foi muito difícil, calcular, com relativa exatidão, que havia percorrido três quartos da rota Gom-Laros.
Não se preocupou com as dificuldades que surgiriam com um vôo nestas condições. Preocupava-se apenas em manter elevado o moral, que naturalmente teria perdido caso pensasse que um homem, dirigindo uma nave espacial avariada, sem outros meios a não ser os do olho nu, haveria forçosamente de fracassar.
Estava tentando botar em marcha os motores de propulsão.

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