domingo, 7 de outubro de 2012

P-001 - Missão Stardust - K. H. Scheer [parte 1]




Autor
K. H. Scheer


Digitalização
Vitório


Revisão
Arlindo_San

                                


O major Perry Rhodan, comandante da espaçonave Stardust, descobriu muito mais do que se supunha pudesse existir na Lua — ele veio a ser o primeiro homem a entrar em contato com outra raça.
Os arcônidas, provenientes de uma estrela distante e possuidores de um nível tão elevado de conhecimentos científicos e filosóficos que, perto deles, a Humanidade ainda estava centenas de milhares de anos atrasada.
Mas estes alienígenas, enormemente poderosos, recusavam-se a cooperar com os terrestres a menos que Perry Rhodan saísse vencedor do teste mais difícil a que um ser humano jamais se submetera...










= = = = = = = = = =  Personagens Principais  = = = = = = = = = =


Major Perry Rhodan — Comandante da nave Stardust.
Capitão Reginald Bell — Engenheiro eletrônico da Stardust.
Capitão Clark G. Fletcher — Astrônomo da Stardust.
Tenente-médico Eric Manoli — Médico de bordo da Stardust.
General Lesley Pounder — Chefe da Força Espacial dos Estados Unidos.
Dr. Fleet — Médico-chefe da Força Espacial dos Estados Unidos.
Allan D. Mercant — Chefe do Conselho Internacional de defesa.
Crest — Cientista-chefe da expedição organizada por uma raça desconhecida.
Thora — Comandante da nave dos arcônidas.
Professor Lehmann — Diretor da Academia de Tecnologia Espacial da Califórnia e pai espiritual da Stardust.




A Partida



I

No prédio principal da Central de Nevada Fields, que abrigava o centro nervoso eletrônico da base espacial, reinava a atividade febril e aparentemente inútil que caracteriza os preparativos finais da partida de uma espaçonave. A única finalidade de todas as operações, dos avisos transmitidos pelos alto-falantes e dos cálculos detalhados era controlar mais uma vez os resultados que de há muito tinham sido apurados.
Os engenheiros que formavam a equipe responsável pela parte eletrônica da nave verificaram os inúmeros circuitos do computador astro-eletrônico, cuja finalidade consistia em proceder a eventuais correções de curso.
Realizaram, também, uma revisão no dispositivo automático B, um robô especial incumbido do controle da decolagem e da separação dos estágios e, ainda, do comando remoto.
O computador eletrônico C, que era o robô coordenador dos ecos de radar recebidos, e ainda a estação de comando das câmaras especiais teleguiadas do dispositivo de infralocalização, apresentava, como já se esperava, funcionamento perfeito. Os últimos cálculos de verificação, realizados através de computadores eletrônicos, estavam exatos até a décima casa decimal.
O engenheiro-chefe, responsável pela manutenção, comunicou que os dois dispositivos automáticos principais — dispositivos eletrônicos da decolagem e do controle remoto — estavam em perfeitas condições de funcionamento.
Fez-se tudo aquilo que já tinha sido feito em várias decolagens anteriores, numa rotina altamente especializada. Só uma pequena nuança de nervosismo poderia ter revelado a um observador experimentado que desta vez não se tratava do lançamento de uma espaçonave qualquer.
Os soldados, fortemente armados, que se encontravam na entrada norte do prédio principal, prestaram continência com um gesto displicente. O general Lesley Pounder, comandante da Base Aérea de Nevada Fields e chefe do Departamento de Pesquisas Espaciais, não fazia muita questão de que em oportunidades como esta a etiqueta militar fosse estritamente observada. Ficava satisfeito em saber que os homens estavam bem atentos nos seus postos.
Como havia sido planejado, o general Pounder entrou na sala principal do comando à meia-noite e quinze em ponto. Estava acompanhado do chefe do Estado Maior, o coronel Maurice e do diretor científico do projeto, o professor F. Lehmann, que se tornara famoso principalmente como diretor da Academia de Tecnologia Espacial da Califórnia.
A chegada dos personagens principais não causou a menor interrupção nas atividades que se desenvolviam no interior da sala. O general tinha chegado; era só isso.
Lesley Pounder, um homem quadrado no aspecto e no caráter, famoso entre os co­laboradores, e difamado em Washington pela intransigência com que insistia no cumprimento das suas exigências, aproximou-se da enorme tela de controle.
As imagens, que na sala de imprensa apareciam pouco nítidas, deslizavam, aqui, em tamanho natural na tela ligeiramente abaulada.
Pounder apoiou as mãos no encosto da poltrona giratória e permaneceu imóvel por alguns instantes. O professor Lehmann segurou os óculos sem aro com um gesto nervoso. Alguma coisa parecia arder dentro dele. Na sua opinião, havia coisas muito mais importantes para fazer do que voltar a inspecionar, em companhia do comandante das operações, coisas de importância secundária que já tinham sido controladas. Lançou um olhar de súplica ao chefe do Estado-Maior. O coronel Maurice ergueu os ombros de modo quase imperceptível. Tinham que aguardar. Ao que parecia, Pounder ainda tinha algumas perguntas a fazer, embora estivesse mais bem informado que muitos dos membros da sua equipe de cientistas.
— Isto é belo! De uma beleza empolgante! — disse Pounder em voz baixa, enquanto olhava para a tela. — Alguma coisa dentro de mim vive perguntando se não estamos indo longe demais. Os peritos do Departamento de Navegação Espacial continuam a achar que é rematada loucura arriscar o lançamento da Terra. Não é apenas a resistência do ar que temos de vencer. Além disso, devemos atingir a velocidade que resultaria, automaticamente, de um lançamento a partir da plataforma espacial. São exatamente 7,08 quilômetros por segundo, ou seja, 25.400 quilômetros por hora.
— É a velocidade em que a estação espacial tripulada percorre sua órbita, general — apressou-se o professor Lehmann a murmurar. — No nosso caso, essa velocidade não representa um fator decisivo. Peço licença para voltar a insistir nas enormes dificuldades que surgiriam na montagem da nave, com peças pré-fabricadas, realizada no espaço, fora da ação da gravidade. Já tivemos experiências bem amargas nesse setor. É bem mais fácil construir a nave na Terra do que a 1.730 quilômetros de altitude. E, em termos econômicos, isto representa uma diferença, a menos, de trezentos e cinqüenta milhões de dólares por unidade.
— Esse argumento causou uma impressão formidável em Washington — ironizou o general. — Bem, a esta altura, não se pode alterar mais nada. Façamos votos para que os resultados brilhantes dos vôos experimentais justifiquem o risco que, hoje, estamos assumindo. A bordo desta nave estarão quatro dos meus melhores homens, professor. Se alguma coisa não der certo, o senhor terá que se explicar comigo.
Lehmann empalideceu sob o olhar gélido do general. Mas o coronel Maurice, um estrategista hábil em manter perfeito o equilíbrio entre os interesses conflitantes da pesquisa científica e os do poderio militar, interveio com o tato que lhe era peculiar, levando a conversa para outro campo.
— General, peço licença para lembrar-lhe o pessoal da imprensa. Os repórteres já devem estar ardendo de curiosidade. Ainda não liberei informações mais detalhadas.
— Não poderíamos evitar isso, coronel? — resmungou Pounder. — No momento tenho coisas mais importantes para fazer.
— Acho conveniente atendê-los — respondeu o coronel de forma bem sugestiva.
O Dr. Fleet, perito em astrofísica, pigarreou. Era também o responsável pelas questões de medicina espacial, cabendo-lhe, ainda, cuidar da boa saúde dos cosmonautas.
De repente, Pounder sorriu.
— Muito bem. Falarei com eles. Mas só pelo circuito fechado de televisão.
Maurice sobressaltou-se. Os técnicos que os rodeavam riram disfarçadamente. Era outra das atitudes típicas do velho.
— Pelo amor de Deus, general. Essa gente conta com a sua presença pessoal. Foi o que eu lhes prometi.
— Pois, então, retire a promessa — sugeriu Pounder sem se mostrar impressionado.
— Mas vão dizer o diabo de nós nos editoriais — disse o chefe do Estado-Maior em tom suplicante.
— Neste caso, mandarei prender estes rapazes até que se tenham acalmado. Veremos. Ligue-me com eles.
Nas paredes nuas do abrigo de observação, os alto-falantes pareciam retornar à vida. A cabeça de Pounder apareceu numa tela. Com o seu mais cativante sorriso, desejou a todos uma manhã bem agradável. Logo após, o rosto do general tornou-se sério, não fazendo caso das feições contrariadas dos repórteres.
De forma lacônica e em tom indiferente, como se estivesse explicando algo bem irrelevante, anunciou:
— Cavalheiros, a imagem que apareceu há alguns minutos nas telas existentes no interior do abrigo em que se encontram corresponde a um foguete de três estágios. Nos elementos que compõem o mesmo, foram introduzidas modificações importantes. A decolagem terá lugar dentro de três horas aproximadamente. Estão sendo realizados os preparativos finais. No momento, os quatro tripulantes ainda dormem um sono profundo que lhes descansará os nervos. Só serão despertados duas horas antes da decolagem.
Os repórteres ainda se mostravam indiferentes. Já havia tempo que as viagens espaciais tripuladas tinham deixado de ser novidade. Os olhos de Pounder estreitaram-se ligeiramente. Estava antegozando os trunfos que surpreenderiam os homens da imprensa.
— Em virtude de experiências passadas, o Comando de Exploração do Espaço decidiu não montar a nave espacial na estação orbital. Ninguém ignora as dificuldades e os fracassos das tentativas anteriores. Por isso, a primeira espaçonave que deverá pousar na Lua, partirá diretamente da Terra. A nave foi batizada com o nome de Stardust. O comandante da primeira missão lunar é o major Perry Rhodan, com trinta e cinco anos de idade, piloto de provas da Força Espacial, cosmonauta e físico nuclear, especializado em motores de radiação atômica. Acho que Rhodan é uma pessoa bastante conhecida, como sabem, foi o primeiro homem da Força Espacial que contornou a Lua.
Pounder fez outra pausa. Com grande satisfação registrou o barulhento e exaltado vozerio que seguiu suas palavras. Alguém, aos berros, pediu silêncio. A calma voltou a reinar no recinto.
— Muito obrigado — disse o general. — Os senhores estavam um pouco agitados. Peço-lhes que não formulem perguntas. O oficial encarregado das informações tratará disso logo após o lançamento. Meu tempo é muito curto de modo que devemos aproveitá-lo o máximo possível. A Stardust será tripulada por uma equipe de quatro homens rigorosamente selecionados. Além do major Rhodan, participam da expedição o capitão Reginald Bell, o capitão Clark G. Fletcher e o tenente-médico Eric Manoli. Um grupo de pessoas altamente especializadas tanto no terreno militar quanto no científico. Cada um deles é possuidor de pelo menos duas especializações distintas. Uma tripulação cujos membros se completam com uma perfeição que poucas vezes é alcançada. Os senhores receberão, depois, fotografias e dados adicionais sobre eles.
Ao que parecia, o general Pounder não estava disposto a brindar o auditório, que se mantinha cativo às suas palavras, com um discurso mais prolongado. Então, silenciando as vozes que começavam a se levantar, ao mesmo tempo em que olhava para o relógio, exclamou:
— Por obséquio, cavalheiros, as perguntas que estão formulando são em vão. Tudo o que lhes posso fornecer são dados genéricos. A Stardust está preparada para uma permanência de quatro semanas na Lua. O programa de exploração a ser cumprido pelos tripulantes está perfeitamente determinado. Depois da alunissagem bem sucedida de naves não tripuladas, resolvemos assumir o risco de enviar uma expedição de quatro homens à Lua e, queira Deus, não cometeremos qualquer equívoco. Como os senhores sabem, a partida da Terra consome uma quantidade enorme de energia, ainda mais que o último estágio da nave terá que descer na Lua e voltar com os seus próprios recursos, o que não seria possível com os engenhos convencionais de propulsão, ainda mais numa nave de apenas três estágios de dimensões relativamente reduzidas.
— Queremos dados técnicos! — gritou alguém, exaltado.
— Serão fornecidos — resmungou o general em resposta. — O comprimento total da nave é de 91,6 metros. O primeiro estágio tem 36,5 metros; o segundo, 24,7 e o terceiro, que constitui o módulo que descerá na Lua, 30,4. O peso máximo de decolagem, com os tanques de combustível completos e a carga útil, é de 6.850 toneladas, sendo a carga útil de 64,2 toneladas. Assim mesmo, o módulo lunar não parece muito maior que a maioria das naves de transporte. Isto acontece porque só o primeiro estágio é dotado de propelentes químicos. O segundo e o terceiro estágios conterão os primeiros mecanismos de propulsão nuclear.
Esta declaração foi a segunda bomba de Pounder. Ele a soltara de surpresa. Impassível, prosseguiu:
— O primeiro estágio usará, como combustível, a melhor composição química de que dispomos para esse fim: o N-trietil-borazan, cujo elemento combustível é o hidrogênio-boro. O oxigênio é fornecido pelo tradicional ácido nítrico, que desencadeia a reação de auto-ignição quando misturado na proporção de 1 para 4,9. A potência de empuxo é superior em 180% à da velha hidrazina, em idênticas condições estequiométricas. Os reatores do primeiro estágio são desligados a uma velocidade final de 10.115 quilômetros por hora e a uma altitude de 88 quilômetros. Nesse ponto, esse estágio se desprende. O segundo estágio já está equipado com os novos propulsores nucleares, cujo reator funciona a uma temperatura de 3.920 graus centígrados utilizando ligas especiais obtidas por condensação molecular. Os novos micro-reatores foram instalados em condições bastante favoráveis. Funcionam à base de plutônio. A energia puramente térmica por eles gerada é transmitida para as câmaras de compensação térmica ou de expansão, através de um elemento ativo intermediário. Como elemento de transmissão das radiações, utilizamos o para-hidrogênio líquido em estado de pureza quase absoluta, que é aquecido e eliminado pelos propulsores. Depois que conseguimos eliminar as perdas através da evaporação, o hidrogênio líquido passou a ser excelente elemento transmissor de radiação. Tivemos que solucionar problemas bastante difíceis, especialmente aqueles ligados ao ponto de ebulição extremamente baixo do hidrogênio líquido, que começa a ferver a uma temperatura de 252,78 graus centígrados abaixo de zero. O mecanismo de propulsão nuclear funciona a uma velocidade de escapamento de 10.102 metros por segundo, velocidade que, em hipótese alguma, poderia ser atingida através de uma reação química. Posteriormente, lhes serão fornecidos outros dados a respeito.
“A Stardust será lançada às três horas e dois minutos. Vai descer junto à cratera Newcomb, perto do pólo sul lunar. Estamos interessados em descobertas relativas à face oculta da Lua mas, devido às limitações da comunicação pelo rádio, deveremos manter um homem na face visível. Como é do conhecimento de todos, as ondas de rádio se propagam em linha reta. Os tripulantes farão, também, extensos passeios no solo lunar com um novo tipo de veículo exploratório. Por ora, isso é tudo, senhores. Transmiti-lhes todas as informações essenciais. Outros pormenores detalhados, inclusive técnicos lhes serão fornecidos pelo oficial encarregado pelo setor.”

* * *

À uma hora em ponto, o Dr. Fleet encontrava-se diante dos quatro homens adormecidos. Estavam descansando, havia quatorze horas, sob o efeito da psiconarcotina.
O Dr. Fleet hesitou por alguns segundos antes da aplicação do elemento neutralizador dos efeitos narcóticos do soporífero. Teve um indefinível sentimento de compaixão. Com o despertar, retornariam os pensamentos, o espírito voltaria à lucidez e tudo aquilo, que com tanto esforço se procurou afastar dos quatro homens, voltaria a assaltá-los.
Um tripulante nervoso, sonolento, física e psiquicamente esgotado era um parceiro pouco adequado às máquinas de calcular insensíveis e aos mecanismos solicitados até o limite extremo da sua capacidade. Era indispensável que o espírito humano se mantivesse lúcido, pois só a ele caberia, em última instância, a decisão.
Evidentemente, ainda seriam realizados outros exames médicos de rotina, que demandariam cerca de uma hora. Outra hora seria dispendida pelos engenheiros encarregados do equipamento. Os homens subiriam a bordo da nave dez minutos antes da partida. E ficariam deitados em suas macias camas metálicas abstendo-se de qualquer esforço mental.
Com a partida da espaçonave, o período de repouso chegaria ao fim. Dali em diante, teria início uma luta encarniçada que forçaria o corpo e a mente até o extremo da resistência. Os homens enfrentariam um verdadeiro martírio no ventre de um monstro furioso feito de aço-molibdênio e fibras sintéticas.
As quatro camas baixas, com seus colchões de espuma que respiravam ativamente através de poros, estavam cercadas de uma luminosidade suave e acariciante. Parecia ser o máximo de conforto dispensado a homens que dali a pouco teriam que suportar tremendas provações.
O major Perry Rhodan, ás da Força Espacial, abriu os olhos. Praticamente sem a menor transição, passou do sono para um estado de perfeita lucidez.
— Cuidou de mim em primeiro lugar? — perguntou. Parecia antes uma constatação que uma indagação. Com grande satisfação o Dr. Fleet registrou a reação lúcida do comandante. Não havia dúvida, Rhodan estava de volta.
— Exatamente como tínhamos planejado — confirmou com voz abafada.
Rhodan ergueu-se num gesto comedido, respirando profundamente. Alguém afastou a coberta fina dotada de ventilação ativa. Ele trajava uma vestimenta ampla, cujo formato lembrava uma camisa que não exercia qualquer pressão sobre o corpo. Enquanto levantava, proferiu, em voz baixa, uma maldição que fez aflorar um sorriso aos lábios dos homens que o rodeavam. O gesto parecia provocar uma sensação de alívio nessa situação um tanto irreal.
— Doutor, se eu tivesse pernas tão lindas como as suas teria, pelo menos, um motivo para me conformar — observou Rhodan com um humor seco. Nos seus olhos havia uma luminosidade faiscante. Em compensação, o rosto estreito e magro permaneceu impassível.
Um ronco cavernoso fê-lo voltar a cabeça. Bastante interessado, observou o procedimento que faria despertar seu companheiro dileto, o capitão Clark G. Fletcher que, como ele, já tinha contornado a Lua. Rhodan ainda não sabia como aquele gigante bochechudo de pele delicada como um bebê e mãos maltratadas como uma faxineira poderia ser acomodado no espaço exíguo de uma nave espacial. Com o ronco que faria um mamute ao se levantar, Fletcher, especialista em astronomia e matemática e futuro doutor em física, levantou-se.
— Meu filho já chegou? — ressoou sua voz.
Ao que parecia, a partida iminente só lhe despertava um interesse secundário.
— Então, doutor, cuidou bem de minha esposa?
O Dr. Fleet soltou um suspiro abafado.
— Escute aqui, meu jovem, se o amigo acha que sua esposa é um milagre anatômico, suponho que está um pouco enganado. Ainda faltam três meses. Acalme-se, a natureza não tem pressa.
— Muito bem! — disse o gigante. — Vou sentar e esperar.
O terceiro membro da tripulação deu mostras do despertar por meio de um riso baixo e agradável. O tenente-médico Eric Manoli, também geólogo, era o homem mais calmo e retraído da tripulação. E, provavelmente, o dotado de melhor autodomínio. Cumprimentou os presentes com um gesto e lançou um rápido olhar ao relógio. Evidentemente, o Doutor Manoli observava estritamente a lei não escrita dos cosmonautas que, em termos claros e objetivos, dizia: “Nunca fale na partida da nave, a não ser que seja absolutamente necessário; você dormiu para revigorar o corpo e o espírito; não reduza os efeitos favoráveis do sono com a idéia de que é necessário encarar imediatamente toda a seriedade da situação.” Era uma fórmula simples, consagrada pela experiência.
— Tudo bem, Eric? — indagou Rhodan.
— Tudo bem — confirmou. E, voltando-se para Fletcher, continuou: — O que há com Bell? Parece que ele dorme o sono das montanhas?
O capitão Fletcher virou-se na cama. Sua mão direita deu um estalo no ombro rechonchudo daquele baixote que revelava uma tendência evidente para a obesidade.
Quem conhecesse bem o capitão Reginald Bell iria compará-lo a uma elástica bola de borracha. A gordura que apresentava era um meio excelente para iludir os incautos. A verdade é que, na centrífuga gigante, ele suportou melhor a força exigida de 18 G — ou seja dezoito vezes a aceleração da gravidade — que o Dr. Manoli, pequeno e ossudo.
— Não amole! — veio o resmungo que parecia sair de dentro do travesseiro de espuma. Um rosto largo, todo coberto de sardas saiu de dentro da massa de lençóis. Os olhos azuis, que pareciam descorados piscaram para Fletcher: — Estou acordado há uma hora — afirmou Bell, com a voz indolente. — A dose de soporífero foi muito fraca para um homem do meu tamanho.
— É claro que foi — concordou Rhodan com toda seriedade. — Admiro a sua paciência. Você deve ter respirado bem baixinho para não incomodar os outros.
— Por isso, você vai ser condecorado — disse Fletcher descendo de sua cama. — Mas, primeiro, são os pais em perspectiva e os sofredores. Aliás, gostaria de saber o que ainda falta examinar no nosso organismo.
Subitamente, Fletcher ficou em silêncio, olhando, embaraçado, para o comandante. Por pouco, ele teria violado a lei. Rhodan fez que não ouviu. E, bocejando, disse com estudada indiferença:
— Comecemos por ele, doutor, já que ele vai ser pai logo. É de se supor que nossa circulação esteja em ordem. Ainda assim, convém deixar as injeções neutralizadoras à mão.
Perry Rhodan começou a analisar suas próprias reações. Sentiu uma angústia martirizante no canto mais recôndito do subconsciente. A tagarelice dos homens nada mais era senão um ardil psicológico através do qual pretendiam se acalmar.
Eles sabiam que não deviam falar na partida iminente. Faziam de conta que aquilo era perfeitamente normal, uma viagem como todas as anteriores. Mas Rhodan sabia, e eles também, que cedo as coisas seriam bem mais sérias do que eles pensavam.
No que dizia respeito à força da inércia, a situação do homem que era impulsionado por um foguete de propulsão nuclear era muito diferente daquela que se experimentava quando do lançamento de uma nave comum. As pressões eram muito maiores e, maiores ainda, as que nasciam nas incontroláveis profundezas do espírito humano. Sentia-se medo. Era natural e ninguém jamais negou isso. Apenas, esses homens foram treinados, também, para controlar o medo e não se deixar dominar por ele, acontecesse o que acontecesse.
Rhodan observou, disfarçadamente, os homens de sua tripulação. Todos pareciam estar bem. Talvez Fletcher estivesse um pouco inquieto. Pensava demais no filho que estava por nascer. Se fosse por ele, desta vez Fletcher teria ficado em casa. Todavia, não era aconselhável desfalcar um grupo, cujos membros já se haviam adaptado tão perfeitamente uns aos outros. Um novo elemento admitido em cima da hora não se ajustaria bem ao conjunto. Por isso, Rhodan conformou-se com o fato consumado. De resto, não encontrou qualquer outro fator negativo.


II

Os assentos-leitos eram obras-primas de engenharia. Dotados de controle hidropneumáticos e controladores de nível que adaptavam o equilíbrio à mais leve mudança de peso, eram o máximo que se podia conceber em termos de conforto.
Desde as primeiras naves espaciais que se fazia questão, absoluta, de que os tripulantes se acomodassem sobre leitos especiais, enquanto estivessem usando os pesados trajes espaciais. As normas de segurança obrigavam os tripulantes a usar, inclusive, os capacetes pressurizados durante o lançamento.
É evidente que pequenas lesões ocorriam por vezes, como resultado das tremendas pressões causadas pela aceleração. O caso mais trágico e lamentável ocorreu quando da construção da primeira estação espacial. Um capacete mal ajustado provocou fratura da base do crânio de um dos tripulantes quando a aceleração chegou a
Perry Rhodan nunca usara o traje espacial durante a partida e este privilégio especial ele estendera aos demais membros de sua tripulação. Os técnicos, porém, achavam que isso era um risco desnecessário. A mais leve ruptura da parede externa da nave provocaria uma descompressão explosiva, isto é, uma violenta perda de pressão. E todos sabiam com que facilidade o sangue humano tendia, numa situação dessas, a entrar em ebulição.
Acontece que Rhodan sempre tivera uma boa estrela. As naves que ele tripulara nunca haviam sido atingidas por meteoros e nem sofreram qualquer dano em virtude das tremendas forças desencadeadas por ocasião da decolagem.
Os quatro homens estavam estendidos nos leitos, trajando seus uniformes azuis. Os pesados e desconfortáveis trajes espaciais estavam pendurados em suportes, colocados ao alcance da mão. Com isso, Rhodan livraria seus companheiros de uma provocação martirizante, evitando, também, pequenas contusões e escoriações que poderiam vir a ser dolorosas e, o que é pior, um problema a mais.
A última verificação geral havia sido concluída. Bem abaixo deles, a mais de oitenta metros, os técnicos iam se afastando. Acabavam de verificar a regulagem dos estabilizadores do primeiro estágio.
O capitão Bell, especialista em eletrônica e em motores de propulsão nuclear, precisara de mais algum tempo para a verificação dos instrumentos que lhe estavam afetos, enquanto que Rhodan já terminara de checar o mecanismo de auto-ignição e o sistema de direção por controle remoto.
Fletcher e o Dr. Manoli, que no momento nada tinham a fazer, estavam deitados atrás dos dois assentos principais. A cabine era muito apertada. Estava rodeada de inúmeros feixes de cabos, tubulações plásticas e painéis de instrumentos. Logo abaixo da sala de comando. Havia uma minúscula sala para repouso com uma mini-cozinha e instalação sanitária. Não era possível mais espaço do que o que haviam conseguido. Estes dois compartimentos ficavam logo abaixo do nariz do foguete.
Abaixo da cabine de comando e da de repouso, vinha o depósito de carga útil, no qual guardavam-se as provisões. O espaço abaixo do piso do depósito era região proibida para os tripulantes. Lá, ficavam os tanques isolados que continham hidrogênio líquido. Logo abaixo, estavam as instalações de bombeamento e os geradores de força. A espessa parede construída com uma liga especial indicava o fim da zona de segurança. Atrás dela abrigava-se o reator de plutônio, trabalhando num ritmo vertiginoso, e as monstruosas câmaras de combustão com seus condutos térmicos e válvulas de pressão.
A Stardust possuía um único reator principal e quatro reatores menores que pertenciam ao mecanismo de direção. A capacidade de empuxo do mecanismo de propulsão chegava a 1.120 toneladas a uma velocidade de radiação de 10.102 metros por segundo.
O ponteiro de minutos do relógio saltou para o mecanismo seguinte. Eram três ho­ras e um minuto. Faltavam, pois, sessenta segundos para o lançamento.
Rhodan voltou a cabeça. O movimento tornou-se um pouco difícil uma vez que ele estava literalmente afundado na camada de espuma de borracha que revestia os assentos-leitos.
— Tudo bem com vocês? — perguntou.
A resposta resumiu-se a um sorriso. Todos ouviam a voz monótona do encarregado pela contagem regressiva. O último minuto havia chegado. E, embora todos eles já tivessem inúmeras vezes ironizado aquele paulificante desfilar de números, desta vez até isso tinha mudado. A lembrança do reator atômico logo abaixo deles era como um pesadelo.
— ...dezoito, dezessete, dezesseis, quinze...
Rhodan aproximou o microfone dos lábios.
— Mensagem final da Stardust à Central — irrompeu sua voz pelos alto-falantes. Era ouvida em toda parte, inclusive no abrigo isolado para a imprensa. — Tudo bem a bordo. Voltaremos a chamar após a ejeção do primeiro estágio. Câmbio final.
— ...três, dois, um, zero, seqüência de ignição iniciada.
Era a mesma coisa de sempre. Eles sabiam que, apesar de todo o cuidado concernente ao isolamento acústico, o corpo do foguete constituía-se em um excelente corpo de ressonância. E nem mesmo a divisão por estágios podia alterar isso.
Ouviram o borbulhar e o chiado das turbobombas instaladas embaixo, no interior do primeiro estágio. Depois, teve início o ribombar, ainda hesitante, da pré-ignição, seguido imediatamente pelo barulho infernal das substâncias químicas que reagiam entre si. O N-trietil-borazan, que servia de combustível, misturou-se com o ácido nítrico que desprendia o oxigênio. O processo químico teve início, com monstruosa potência nas 42 câmaras de combustão do primeiro estágio.
As línguas de fogo que reluziam numa incandescência branca, romperam a escuridão da noite. O uivo da onda de compressão desencadeado pelo processo de ignição tomou conta do espaço até se perder no trovejar ensurdecedor do gigantesco mecanismo de propulsão.
A Stardust ergueu-se lentamente. À ascensão tranqüila, seguiu-se uma série de movimentos laterais inquietantes no terço superior da nave. Era o instante mais crítico do lançamento. Travava-se, naquele segundo, a luta entre os dispositivos de estabilização e o mecanismo de propulsão que parecia querer desequilibrar o gigantesco foguete que mal iniciara sua arrancada rumo ao espaço. Mas os dados fornecidos pelo computador de bordo indicavam que a perigosa inclinação já havia sido corrigida.
As exclamações de entusiasmo dos repórteres submergiram no barulho ensurdecedor. Parecia o fim do mundo. Era um barulho enorme e indescritível que só poderia ser superado pelo produzido pela explosão de um artefato nuclear. Nem mesmo no interior dos abrigos era possível compreender as palavras proferidas. Quem não usasse isoladores no ouvido, via-se condenado temporariamente a uma surdez absoluta. Os lábios se moviam e as mãos transmitiam sinais breves mas não se ouvia uma única palavra. E os gestos pareciam revelar um esforço intenso e uma grande tensão nervosa.
Afinal, a nave começou a ganhar velocidade e iniciou sua trajetória, como se estivesse ávida para entrar no seu elemento. O ruído parecia aumentar aos poucos. A torrente ígnea que escapava das câmaras de combustão chicoteava a plataforma com tremenda fúria que o céu tornou-se de um rubro sangüíneo. Instantes depois, em perfeito equilíbrio, o gigante subia verticalmente até que a esteira luminosa que o seguia fosse vista como um débil ponto de luz que aos poucos desaparecia no céu estrelado.
Ouviu-se um estalo vindo dos alto-falantes e o rosto do general Pounder surgiu na tela.
— A nave espacial Stardust foi lançada exatamente às três horas e dois minutos, conforme as previsões — comunicou com voz calma. — Não houve qualquer ocorrência extraordinária, tudo correu bem. Os senhores poderão ouvir os comunicados radiofônicos dos pilotos. Falta pouco para a separação do primeiro estágio. A aceleração máxima final é de 9,3G. Dentro de três minutos aproximadamente a nave Stardust deverá penetrar no campo alcançado pela estação orbital. Dali em diante os senhores voltarão a vê-la nitidamente, podendo acompanhar a separação do segundo estágio. Quero salientar mais uma vez que só deverão deixar o campo de Nevada Fields depois que a Stardust tiver pousado na Lua. Estamos guardando uma surpresa. É só.
O general Pounder concluiu com um sorriso.
Vinda do sistema de alto-falantes, ressoou outra voz, esta, de um dos técnicos.
— Cinco segundos para a separação do número um. Funcionamento perfeito, nenhum desvio de rumo... dois... um... contato!
O dispositivo eletrônico realizou a operação com incrível precisão. Não houve movimento de mãos ou de um dedo sequer. Apenas olhos febris que espreitavam, nervosos na sala de comando e, contrastando com esta ansiedade, a estóica paciência dos repórteres.
Nos alto-falantes, soou o sinal acústico que indicava o final da operação. E, de repente, surgiram dois corpos distintos na tela do radar. Neste instante, o sistema de aterrissagem por controle remoto assumiu o comando do primeiro estágio, trazendo-o de volta ao chão.
A tripulação dispunha de um intervalo de oito segundos. O computador de bordo já preparava a ignição do segundo estágio.
A voz de Rhodan soou, tranqüila.
— Rhodan falando. Nenhum desvio de curso. Indicações normais, vibrações dentro dos limites normais. Tripulação pronta para ignição do segundo estágio. Câmbio final.
Era tudo o que tinha a dizer e o bastante para os cientistas e supervisores da estação situada na Terra. Prosseguindo sem qualquer força propulsora, a Stardust precipitava-se em direção ao vazio do espaço. Rhodan lançou um rápido olhar ao redor de si. Tudo parecia em ordem para o capitão Bell; Fletcher e Manoli também tinham suportado muito bem a força de 9,3G.
Agora era a vez do mecanismo de propulsão atômica do segundo estágio. Rhodan sentiu a palma das mãos úmidas, mas seus sentidos experimentados não registraram qualquer ruído anormal. Reinava o mais absoluto silêncio.
Subitamente veio um arranque violento acompanhado de um uivo estridente que parecia invadir todas as moléculas do material de que era feito a nave. Mais uma vez, o corpo do foguete funcionou como câmara de ressonância.
Depois de alguns instantes, a aceleração subiu para 8 G. Com isso, teve início a tremenda sobrecarga imposta ao organismo dos tripulantes mal refeitos do primeiro esforço.
Rhodan sentiu o efeito do poderoso medicamento destinado a regular a circulação. Por enquanto o organismo estava suportando a provação, apenas a respiração transformara-se em verdadeiro martírio. Incapaz de mover um dedo, fitou, com os olhos embaçados, os painéis de controle situados em sua frente. Os sete segundos decorridos até o momento em que a tremenda pressão fosse reduzida ao valor normal de 1 G pareceram uma eternidade. Tratava-se de uma pausa para recuperação, fixada com base em cálculos exatos, nos quais se considerava a enorme potência do sistema de propulsão.
Com a voz rouca, Rhodan gritou um tudo bem! e a resposta que se seguiu foi, para ele, ininteligível. Após isso, veio o segundo intervalo de aceleração do estágio número dois. Ainda não estava esgotada a reserva de combustível.
Três segundos depois da segunda ignição foi ultrapassada a velocidade de deslocamento da Terra. Os indicadores dos velocímetros indicavam 11,5 quilômetros por segundo.
Os reatores do segundo estágio se extinguiram a uma velocidade de 20 quilômetros por segundo. Novamente a separação se realizou de modo súbito, sem a menor transição de tal modo que a ausência de gravidade que se seguiu produziu o efeito de uma tremenda martelada. Os tripulantes sentiram-se impelidos para cima. Uma força selvagem parecia comprimir seus corpos contra os cintos que os prendiam nos leitos.
Por alguns instantes, Rhodan perdeu a consciência. Quando voltou a abrir os olhos, viu, através da vermelhidão que parecia envolvê-lo, que já se encontravam no espaço exterior.
A correção de rumo já tinha sido levada a efeito. Bem atrás deles, o segundo estágio, que já podia ser visto nas telas, estava sendo conduzido para o curso de retorno pelo controle de Terra. A essa altura, a Stardust já ultrapassara a órbita da estação espacial. Prosseguindo em velocidade constante, encontrava-se a 3.250 quilômetros acima da superfície da Terra.
Agora dispunham de alguns minutos de descanso. Teoricamente a velocidade da nave, no momento, devia ser suficiente para liberá-la em definitivo da ação da gravidade terrestre. Ainda segundo a teoria, estaria em condição de atingir qualquer ponto do universo independentemente de qualquer propulsão.
Todavia, um enorme abismo separa a teoria da prática. A gravidade da Terra tinha sido superada, mas a Terra ainda se fazia sentir, influenciando o vôo da espaçonave. Além disso, o simples prosseguimento da viagem não bastava. Ainda tinham que ser realizadas inúmeras manobras, para as quais a essa altura não se dispunha de dados precisos. Os desvios de rota, por ínfimos que fossem, tinham sido calculados e corrigidos. E também era necessário corrigir diferenças ainda menores nos valores-limites teóricos da velocidade, que, ultimamente, tinham causado dificuldades por ocasião das manobras de aproximação.
O leito de Rhodan dobrou-se, formando uma macia poltrona. O painel de instrumentos acompanhou o movimento, ficando, agora, em frente a ele, e não acima. Foi uma sensação de alívio.
Reginald Bell recuperou-se com expressões menos sociáveis. O capitão Fletcher fez ouvir uma tosse áspera e seca. Nos cantos da sua boca havia sangue coagulado.
— Foi duro, muito mais duro que das outras vezes — disse Rhodan com voz grave. — Nos últimos segundos, levaram-nos a 15,4 G. Com isso, atravessamos o perigoso cinturão de radiação. O que houve com você, Fletcher?
Fletcher estava pálido. Seu rosto bochechudo perdera as cores sadias. Apenas o brilho do seu cabelo continuava inalterado. E, torcendo os lábios num gesto triste, gemeu:
— É o diabo. Seria bom que eu descesse antes de fazer mais tolices. Com 7 G ainda estava com a ponta da língua entre os dentes. Foi uma estupidez. A primeira coisa que se ensina a qualquer aluno da academia é que deve abster-se de gestos dessa espécie. Logo eu...
Ao concluir, encolheu os ombros. Seu rosto contorcia-se de dor. Rhodan lançou-lhe um olhar perscrutador. E disfarçou a expressão indagadora com um sorriso frio.
As solas magnéticas das botas de Bell estavam na chapa metálica do piso. Cambaleando, lutava para equilibrar-se. Enquanto o sistema de propulsão da Stardust estivesse parado, não tinham peso. Sem dizer uma palavra, venceu os poucos passos que o separavam de Manoli, erguendo e voltando a colocar no piso as solas magnéticas com movimentos pesados. Depois de segurar ligeiramente o pulso de Manoli, fez um sinal de alívio.
— Está bem — disse laconicamente. — Logo estará de volta. O pulso trabalha que nem um mecanismo de relógio. Mostre a língua, Fletcher. Vamos logo! Abra a boca!
Um filete de sangue escorreu-lhe por entre os lábios. Era problema para o Dr. Manoli.
O comandante girou para a direita o regulador de volume e os sons confusos do rádio tornaram-se audíveis. Enquanto isso, o Dr. Manoli se recuperava. Rhodan ouviu o leve chiado do mecanismo hidropneumático. O leito de Manoli transformou-se em poltrona e alguns instantes depois, ele estava de pé ao lado de Fletcher.
— Que sorte! — disse o médico. — Não chegou a cortar a língua, foi apenas um ferimento quase superficial. Preciso de uns dez minutos. É possível?
— É. Pode começar, doutor. Bell, registre na fita magnética os últimos valores do computador central. Quero um cálculo de controle. Vamos adiar as etapas seguintes por doze minutos. Avise-me logo que terminar. Poderemos compensar a perda de tempo com quatro segundos de potência total.
Alguns instantes depois, o rosto de Rhodan apareceu na tela da estação da Terra. Pounder, que estava de pé diante do microfone, nervoso e inquieto, respirou aliviado.
— Stardust para Nevada Fields — soou a voz forte e clara na sala da Central de Comando. — O capitão Fletcher sofreu um ferimento leve. Mordeu a língua. Manoli está estancando o sangue. O ferimento poderá ser tratado com extrato de plasma. Preciso de um adiamento de doze minutos. Câmbio.
Pounder ergueu-se. Seu olhar lançado em direção ao professor Lehmann disse tudo. O cientista confirmou com ligeiro aceno de cabeça. Era perfeitamente possível. Havia uma margem de segurança prevenindo contra incidentes inesperados como esse.
O computador começou a trabalhar. Alguns segundos depois, os valores corrigidos estavam disponíveis. Foram transmitidos automaticamente para a Stardust por meio de uma antena direcional especial. O painel iluminou-se diante do capitão Bell. As calculadoras automáticas da nave, pequenas mas eficientes, acusaram o recebimento. Para todos os efeitos, num instante foram inutilizados os resultados de uma série enorme de cálculos. Novas cifras cruzaram o espaço e, em poucos segundos, um plano de vôo foi inutilizado e convertido em valores inteiramente novos.
Os dedos de Bell martelaram o teclado para registrar os dados recebidos. Rhodan transmitiu as informações de rotina relativas a radiações, resultados das mediações, temperatura, pressão da cabine e estado de saúde dos tripulantes.
Manoli não gastou mais que onze minutos para colocar Fletcher em condições. Os pequenos pontos estavam praticamente invisíveis.
Fletcher olhou, encabulado, para os companheiros.
— Da próxima vez, use o dedo, neném — disse Rhodan. — Ele agüenta mais que a língua.
Os encostos das poltronas voltaram a inclinar-se para trás. Logo após teve início a música assombrosa daquele mecanismo, cujo funcionamento ainda encaravam com receio e expectativa.
Era o mecanismo de propulsão nuclear que, no segundo estágio, revelara um funcionamento excelente em idênticas condições.
Voltou-se a ouvir o ronco selvagem e sentiu-se o solavanco pesado. A aceleração, porém, só subiu para 2,1G. Isso não causou qualquer dificuldade para Rhodan e sua tripulação.
Seguida por um raio chamejante de hidrogênio aquecido a uma temperatura elevadíssima, a nave foi impulsionada numa velocidade vertiginosa para as profundezas do espaço.
Uma vez superados totalmente os problemas da decolagem, surgiram as dificuldades mais sérias de uma viagem espacial.
Rhodan ouviu o barulho retumbante, agora uniforme, emitido pelo mecanismo de propulsão atômica. A chama branco-azulada, suspensa no espaço vazio, seguia de perto a nave. Resultava da combustão do hidrogênio líquido, submetido a um processo de expansão forçada na câmara aquecida pela energia atômica.
O abastecimento do reator seria suficiente para mais de um ano. Todavia, era necessário ter cautela com o elemento irradiante. A reserva dele era limitada. Uma vez esgotados os tanques, não havia mais nenhum elemento que pudesse ser expelido da câmara de combustão. Dessa forma, até mesmo o mais eficiente dos reatores se tornaria inútil.
Respirando pesadamente no seu leito, enquanto transmitia a intervalos regulares seus breves comunicados para os receptores da estação espacial, Rhodan pensava nesse mecanismo propulsor, maravilhoso mas ainda primitivo.
Por enquanto, o empuxo só podia ser obtido indiretamente através do elemento intermediário formador do jato de propulsão. Será que um dia o homem conseguiria construir um mecanismo propulsor atômico puro? Seria um motor superpotente, cujo limite de velocidade ficaria situado perto da velocidade da luz.
Com grande esforço, Rhodan torceu os lábios. Sentia vontade de rir. Ao que parecia, Reginald Bell entretinha pensamentos semelhantes. Subitamente, gemeu:
— Juro que para os heróis de romance tudo é mais simples. Eles não têm o problema da compressão provocada pelo impulso da nave, e nunca mordem a própria língua. Como vai, Fletcher? Será que você agüenta? Vai demorar mais alguns minutos. Daqui a cinco segundos subimos para 8,4G. Tudo bem?
— Tudo bem — fungou o gigante pelo intercomunicador. Nos fones de ouvido percebia-se a sua respiração ruidosa. — Tudo bem. Santo Deus, estamos a caminho. Um dia contarei a meu filho. Seus olhos serão redondos e brilhantes que nem bolinhas de mármore polido.
Fletcher ficou calado. Sentia um cansaço profundo. Só mesmo uma pessoa de organismo resistente, bem treinada, conseguiria falar claramente a um nível de compressão ligeiramente superior a 2 G. E, embora todos os tripulantes fossem capazes disso, o Dr. Manoli abriu mão da oportunidade. Em compensação, deu mostras dos seus sentimentos através da sombra de um sorriso suave.
Estavam a caminho. A decolagem ficara para trás. O que estava por vir dependeria da capacidade de raciocínio e de reações extremamente rápidas. As forças de compressão, horríveis mas inevitáveis, estavam praticamente superadas. Haviam deixado para trás a Terra, aquela gigantesca bola verde-azulada que se afastava lentamente. Podiam sentir-se superiores à vida ligada à Terra; no momento essa sensação ainda os dominava.
Só a mente cristalina de Rhodan não acompanhou esse sentimento. Ninguém percebeu o brilho desconfiado dos seus olhos. Ainda não tinham chegado. Ainda não tinham pousado na Lua. E ainda não estavam preparados para a volta à Terra. Desta vez, o programa não previa apenas um contorno relativamente seguro da Lua, mas um pouso extremamente difícil no satélite da Terra.



           


                                                

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