Autor
K.
H. Scheer
Digitalização
Vitório
Revisão
Arlindo_San
O major Perry
Rhodan, comandante da espaçonave Stardust, descobriu muito mais do que se supunha pudesse existir na Lua — ele veio a ser o primeiro homem a entrar em
contato com outra raça.
Os arcônidas,
provenientes de uma estrela distante e possuidores de um nível tão elevado de
conhecimentos científicos e filosóficos que, perto deles, a Humanidade ainda
estava centenas de milhares de anos atrasada.
Mas estes
alienígenas, enormemente poderosos, recusavam-se a cooperar com os terrestres a
menos que Perry Rhodan saísse vencedor do teste mais difícil a que um ser
humano jamais se submetera...
= = = = = = = = = =
Personagens Principais = = = = = = = = = =
Major Perry Rhodan — Comandante da nave Stardust.
Capitão Reginald Bell —
Engenheiro eletrônico da Stardust.
Capitão Clark G. Fletcher —
Astrônomo da Stardust.
Tenente-médico Eric Manoli — Médico de bordo da Stardust.
General Lesley Pounder — Chefe da Força Espacial dos Estados Unidos.
Dr. Fleet —
Médico-chefe da Força Espacial dos
Estados Unidos.
Allan D. Mercant — Chefe do Conselho Internacional de defesa.
Crest — Cientista-chefe da expedição organizada por uma raça desconhecida.
Thora — Comandante da nave dos arcônidas.
Professor
Lehmann — Diretor da Academia de Tecnologia Espacial da Califórnia e pai
espiritual da Stardust.
A Partida
I
No prédio principal da Central de Nevada Fields, que abrigava o
centro nervoso eletrônico da base espacial, reinava a atividade febril e aparentemente
inútil que caracteriza os preparativos finais da partida de uma espaçonave. A
única finalidade de todas as operações, dos avisos transmitidos pelos
alto-falantes e dos cálculos detalhados era controlar mais uma vez os
resultados que de há muito tinham sido apurados.
Os engenheiros que formavam a
equipe responsável pela parte eletrônica da nave verificaram os inúmeros
circuitos do computador astro-eletrônico, cuja finalidade consistia em proceder
a eventuais correções de curso.
Realizaram, também, uma
revisão no dispositivo automático B, um robô especial incumbido do controle da
decolagem e da separação dos estágios e, ainda, do comando remoto.
O computador eletrônico C,
que era o robô coordenador dos ecos de radar recebidos, e ainda a estação de
comando das câmaras especiais teleguiadas do dispositivo de infralocalização,
apresentava, como já se esperava, funcionamento perfeito. Os últimos cálculos
de verificação, realizados através de computadores eletrônicos, estavam exatos
até a décima casa decimal.
O engenheiro-chefe,
responsável pela manutenção, comunicou que os dois dispositivos automáticos
principais — dispositivos eletrônicos da decolagem e do controle remoto —
estavam em perfeitas condições de funcionamento.
Fez-se tudo aquilo que já
tinha sido feito em várias decolagens anteriores, numa rotina altamente
especializada. Só uma pequena nuança de nervosismo poderia ter revelado a um
observador experimentado que desta vez não se tratava do lançamento de uma
espaçonave qualquer.
Os soldados, fortemente
armados, que se encontravam na entrada norte do prédio principal, prestaram
continência com um gesto displicente. O general Lesley Pounder, comandante da
Base Aérea de Nevada Fields e chefe do Departamento de Pesquisas Espaciais, não
fazia muita questão de que em oportunidades como esta a etiqueta militar fosse
estritamente observada. Ficava satisfeito em saber que os homens estavam bem
atentos nos seus postos.
Como havia sido planejado, o
general Pounder entrou na sala principal do comando à meia-noite e quinze em
ponto. Estava acompanhado do chefe do Estado Maior, o coronel Maurice e do
diretor científico do projeto, o professor F. Lehmann, que se tornara famoso
principalmente como diretor da Academia de Tecnologia Espacial da Califórnia.
A chegada dos personagens
principais não causou a menor interrupção nas atividades que se desenvolviam no
interior da sala. O general tinha chegado; era só isso.
Lesley Pounder, um homem
quadrado no aspecto e no caráter, famoso entre os colaboradores, e difamado em
Washington pela intransigência com que insistia no cumprimento das suas
exigências, aproximou-se da enorme tela de controle.
As imagens, que na sala de
imprensa apareciam pouco nítidas, deslizavam, aqui, em tamanho natural na tela
ligeiramente abaulada.
Pounder apoiou as mãos no
encosto da poltrona giratória e permaneceu imóvel por alguns instantes. O
professor Lehmann segurou os óculos sem aro com um gesto nervoso. Alguma coisa
parecia arder dentro dele. Na sua opinião, havia coisas muito mais importantes
para fazer do que voltar a inspecionar, em companhia do comandante das
operações, coisas de importância secundária que já tinham sido controladas.
Lançou um olhar de súplica ao chefe do Estado-Maior. O coronel Maurice ergueu
os ombros de modo quase imperceptível. Tinham que aguardar. Ao que parecia,
Pounder ainda tinha algumas perguntas a fazer, embora estivesse mais bem
informado que muitos dos membros da sua equipe de cientistas.
— Isto é belo! De uma beleza
empolgante! — disse Pounder em voz baixa, enquanto olhava para a tela. — Alguma
coisa dentro de mim vive perguntando se não estamos indo longe demais. Os
peritos do Departamento de Navegação Espacial continuam a achar que é rematada
loucura arriscar o lançamento da Terra. Não é apenas a resistência do ar que
temos de vencer. Além disso, devemos atingir a velocidade que resultaria,
automaticamente, de um lançamento a partir da plataforma espacial. São
exatamente 7,08
quilômetros por segundo, ou seja, 25.400 quilômetros
por hora.
— É a velocidade em que a estação
espacial tripulada percorre sua órbita, general — apressou-se o professor
Lehmann a murmurar. — No nosso caso, essa velocidade não representa um fator
decisivo. Peço licença para voltar a insistir nas enormes dificuldades que
surgiriam na montagem da nave, com peças pré-fabricadas, realizada no espaço,
fora da ação da gravidade. Já tivemos experiências bem amargas nesse setor. É
bem mais fácil construir a nave na Terra do que a 1.730 quilômetros
de altitude. E, em termos econômicos, isto representa uma diferença, a menos,
de trezentos e cinqüenta milhões de dólares por unidade.
— Esse argumento causou uma
impressão formidável em Washington — ironizou o general. — Bem, a esta altura,
não se pode alterar mais nada. Façamos votos para que os resultados brilhantes
dos vôos experimentais justifiquem o risco que, hoje, estamos assumindo. A
bordo desta nave estarão quatro dos meus melhores homens, professor. Se alguma
coisa não der certo, o senhor terá que se explicar comigo.
Lehmann empalideceu sob o
olhar gélido do general. Mas o coronel Maurice, um estrategista hábil em manter
perfeito o equilíbrio entre os interesses conflitantes da pesquisa científica e
os do poderio militar, interveio com o tato que lhe era peculiar, levando a
conversa para outro campo.
— General, peço licença para
lembrar-lhe o pessoal da imprensa. Os repórteres já devem estar ardendo de
curiosidade. Ainda não liberei informações mais detalhadas.
— Não poderíamos evitar isso,
coronel? — resmungou Pounder. — No momento tenho coisas mais importantes para
fazer.
— Acho conveniente atendê-los
— respondeu o coronel de forma bem sugestiva.
O Dr. Fleet, perito em
astrofísica, pigarreou. Era também o responsável pelas questões de medicina
espacial, cabendo-lhe, ainda, cuidar da boa saúde dos cosmonautas.
De repente, Pounder sorriu.
— Muito bem. Falarei com
eles. Mas só pelo circuito fechado de televisão.
Maurice sobressaltou-se. Os
técnicos que os rodeavam riram disfarçadamente. Era outra das atitudes típicas
do velho.
— Pelo amor de Deus, general.
Essa gente conta com a sua presença pessoal. Foi o que eu lhes prometi.
— Pois, então, retire a
promessa — sugeriu Pounder sem se mostrar impressionado.
— Mas vão dizer o diabo de
nós nos editoriais — disse o chefe do Estado-Maior em tom suplicante.
— Neste caso, mandarei
prender estes rapazes até que se tenham acalmado. Veremos. Ligue-me com eles.
Nas paredes nuas do abrigo de
observação, os alto-falantes pareciam retornar à vida. A cabeça de Pounder
apareceu numa tela. Com o seu mais cativante sorriso, desejou a todos uma manhã
bem agradável. Logo após, o rosto do general tornou-se sério, não fazendo caso
das feições contrariadas dos repórteres.
De forma lacônica e em tom
indiferente, como se estivesse explicando algo bem irrelevante, anunciou:
— Cavalheiros, a imagem que
apareceu há alguns minutos nas telas existentes no interior do abrigo em que se
encontram corresponde a um foguete de três estágios. Nos elementos que compõem
o mesmo, foram introduzidas modificações importantes. A decolagem terá lugar dentro
de três horas aproximadamente. Estão sendo realizados os preparativos finais.
No momento, os quatro tripulantes ainda dormem um sono profundo que lhes
descansará os nervos. Só serão despertados duas horas antes da decolagem.
Os repórteres ainda se mostravam
indiferentes. Já havia tempo que as viagens espaciais tripuladas tinham deixado
de ser novidade. Os olhos de Pounder estreitaram-se ligeiramente. Estava
antegozando os trunfos que surpreenderiam os homens da imprensa.
— Em virtude de experiências passadas,
o Comando de Exploração do Espaço decidiu não montar a nave espacial na estação
orbital. Ninguém ignora as dificuldades e os fracassos das tentativas
anteriores. Por isso, a primeira espaçonave que deverá pousar na Lua, partirá
diretamente da Terra. A nave foi batizada com o nome de Stardust. O comandante da primeira missão lunar é o major Perry
Rhodan, com trinta e cinco anos de idade, piloto de provas da Força Espacial,
cosmonauta e físico nuclear, especializado em motores de radiação atômica. Acho
que Rhodan é uma pessoa bastante conhecida, como sabem, foi o primeiro homem da
Força Espacial que contornou a Lua.
Pounder fez outra pausa. Com
grande satisfação registrou o barulhento e exaltado vozerio que seguiu suas
palavras. Alguém, aos berros, pediu silêncio. A calma voltou a reinar no
recinto.
— Muito obrigado — disse o
general. — Os senhores estavam um pouco agitados. Peço-lhes que não formulem
perguntas. O oficial encarregado das informações tratará disso logo após o
lançamento. Meu tempo é muito curto de modo que devemos aproveitá-lo o máximo
possível. A Stardust será
tripulada por uma equipe de quatro homens rigorosamente selecionados. Além do
major Rhodan, participam da expedição o capitão Reginald Bell, o capitão Clark
G. Fletcher e o tenente-médico Eric Manoli. Um grupo de pessoas altamente
especializadas tanto no terreno militar quanto no científico. Cada um deles é
possuidor de pelo menos duas especializações distintas. Uma tripulação cujos
membros se completam com uma perfeição que poucas vezes é alcançada. Os
senhores receberão, depois, fotografias e dados adicionais sobre eles.
Ao que parecia, o general
Pounder não estava disposto a brindar o auditório, que se mantinha cativo às
suas palavras, com um discurso mais prolongado. Então, silenciando as vozes que
começavam a se levantar, ao mesmo tempo em que olhava para o relógio, exclamou:
— Por obséquio, cavalheiros,
as perguntas que estão formulando são em vão. Tudo o que lhes posso fornecer
são dados genéricos. A Stardust está
preparada para uma permanência de quatro semanas na Lua. O programa de
exploração a ser cumprido pelos tripulantes está perfeitamente determinado.
Depois da alunissagem bem sucedida de naves não tripuladas, resolvemos assumir
o risco de enviar uma expedição de quatro homens à Lua e, queira Deus, não
cometeremos qualquer equívoco. Como os senhores sabem, a partida da Terra
consome uma quantidade enorme de energia, ainda mais que o último estágio da
nave terá que descer na Lua e voltar com os seus próprios recursos, o que não
seria possível com os engenhos convencionais de propulsão, ainda mais numa nave
de apenas três estágios de dimensões relativamente reduzidas.
— Queremos dados técnicos! —
gritou alguém, exaltado.
— Serão fornecidos —
resmungou o general em resposta. — O comprimento total da nave é de 91,6 metros . O primeiro
estágio tem 36,5 metros ;
o segundo, 24,7 e o terceiro, que constitui o módulo que descerá na Lua, 30,4.
O peso máximo de decolagem, com os tanques de combustível completos e a carga
útil, é de 6.850 toneladas, sendo a carga útil de 64,2 toneladas. Assim mesmo,
o módulo lunar não parece muito maior que a maioria das naves de transporte.
Isto acontece porque só o primeiro estágio é dotado de propelentes químicos. O
segundo e o terceiro estágios conterão os primeiros mecanismos de propulsão
nuclear.
Esta declaração foi a segunda
bomba de Pounder. Ele a soltara de surpresa. Impassível, prosseguiu:
— O primeiro estágio usará,
como combustível, a melhor composição química de que dispomos para esse fim: o N-trietil-borazan, cujo elemento
combustível é o hidrogênio-boro. O oxigênio é fornecido pelo tradicional ácido
nítrico, que desencadeia a reação de auto-ignição quando misturado na proporção
de 1 para 4,9. A potência de empuxo é superior em 180% à da velha hidrazina, em
idênticas condições estequiométricas. Os reatores do primeiro estágio são
desligados a uma velocidade final de 10.115 quilômetros
por hora e a uma altitude de 88 quilômetros . Nesse ponto, esse estágio se
desprende. O segundo estágio já está equipado com os novos propulsores
nucleares, cujo reator funciona a uma temperatura de 3.920 graus centígrados
utilizando ligas especiais obtidas por condensação molecular. Os novos
micro-reatores foram instalados em condições bastante favoráveis. Funcionam à
base de plutônio. A energia puramente térmica por eles gerada é transmitida
para as câmaras de compensação térmica ou de expansão, através de um elemento
ativo intermediário. Como elemento de transmissão das radiações, utilizamos o
para-hidrogênio líquido em estado de pureza quase absoluta, que é aquecido e
eliminado pelos propulsores. Depois que conseguimos eliminar as perdas através
da evaporação, o hidrogênio líquido passou a ser excelente elemento transmissor
de radiação. Tivemos que solucionar problemas bastante difíceis, especialmente
aqueles ligados ao ponto de ebulição extremamente baixo do hidrogênio líquido,
que começa a ferver a uma temperatura de 252,78 graus centígrados abaixo de
zero. O mecanismo de propulsão nuclear funciona a uma velocidade de escapamento
de 10.102 metros
por segundo, velocidade que, em hipótese alguma, poderia ser atingida através
de uma reação química. Posteriormente, lhes serão fornecidos outros dados a
respeito.
“A Stardust será lançada às três horas e dois minutos. Vai descer
junto à cratera Newcomb, perto do pólo sul lunar. Estamos interessados em
descobertas relativas à face oculta da Lua mas, devido às limitações da
comunicação pelo rádio, deveremos manter um homem na face visível. Como é do
conhecimento de todos, as ondas de rádio se propagam em linha reta. Os
tripulantes farão, também, extensos passeios no solo lunar com um novo tipo de
veículo exploratório. Por ora, isso é tudo, senhores. Transmiti-lhes todas as
informações essenciais. Outros pormenores detalhados, inclusive técnicos lhes
serão fornecidos pelo oficial encarregado pelo setor.”
* * *
À uma hora em ponto, o Dr.
Fleet encontrava-se diante dos quatro homens adormecidos. Estavam descansando,
havia quatorze horas, sob o efeito da psiconarcotina.
O Dr. Fleet hesitou por
alguns segundos antes da aplicação do elemento neutralizador dos efeitos
narcóticos do soporífero. Teve um indefinível sentimento de compaixão. Com o
despertar, retornariam os pensamentos, o espírito voltaria à lucidez e tudo
aquilo, que com tanto esforço se procurou afastar dos quatro homens, voltaria a
assaltá-los.
Um tripulante nervoso,
sonolento, física e psiquicamente esgotado era um parceiro pouco adequado às
máquinas de calcular insensíveis e aos mecanismos solicitados até o limite extremo
da sua capacidade. Era indispensável que o espírito humano se mantivesse
lúcido, pois só a ele caberia, em última instância, a decisão.
Evidentemente, ainda seriam
realizados outros exames médicos de rotina, que demandariam cerca de uma hora.
Outra hora seria dispendida pelos engenheiros encarregados do equipamento. Os
homens subiriam a bordo da nave dez minutos antes da partida. E ficariam
deitados em suas macias camas metálicas abstendo-se de qualquer esforço mental.
Com a partida da espaçonave,
o período de repouso chegaria ao fim. Dali em diante, teria início uma luta
encarniçada que forçaria o corpo e a mente até o extremo da resistência. Os
homens enfrentariam um verdadeiro martírio no ventre de um monstro furioso
feito de aço-molibdênio e fibras sintéticas.
As quatro camas baixas, com
seus colchões de espuma que respiravam ativamente através de poros, estavam
cercadas de uma luminosidade suave e acariciante. Parecia ser o máximo de
conforto dispensado a homens que dali a pouco teriam que suportar tremendas
provações.
O major Perry Rhodan, ás da
Força Espacial, abriu os olhos. Praticamente sem a menor transição, passou do
sono para um estado de perfeita lucidez.
— Cuidou de mim em primeiro
lugar? — perguntou. Parecia antes uma constatação que uma indagação. Com grande
satisfação o Dr. Fleet registrou a reação lúcida do comandante. Não havia
dúvida, Rhodan estava de volta.
— Exatamente como tínhamos
planejado — confirmou com voz abafada.
Rhodan ergueu-se num gesto
comedido, respirando profundamente. Alguém afastou a coberta fina dotada de
ventilação ativa. Ele trajava uma vestimenta ampla, cujo formato lembrava uma
camisa que não exercia qualquer pressão sobre o corpo. Enquanto levantava,
proferiu, em voz baixa, uma maldição que fez aflorar um sorriso aos lábios dos
homens que o rodeavam. O gesto parecia provocar uma sensação de alívio nessa
situação um tanto irreal.
— Doutor, se eu tivesse
pernas tão lindas como as suas teria, pelo menos, um motivo para me conformar —
observou Rhodan com um humor seco. Nos seus olhos havia uma luminosidade
faiscante. Em compensação, o rosto estreito e magro permaneceu impassível.
Um ronco cavernoso fê-lo
voltar a cabeça. Bastante interessado, observou o procedimento que faria
despertar seu companheiro dileto, o capitão Clark G. Fletcher que, como ele, já
tinha contornado a Lua. Rhodan ainda não sabia como aquele gigante bochechudo
de pele delicada como um bebê e mãos maltratadas como uma faxineira poderia ser
acomodado no espaço exíguo de uma nave espacial. Com o ronco que faria um
mamute ao se levantar, Fletcher, especialista em astronomia e matemática e
futuro doutor em física, levantou-se.
— Meu filho já chegou? —
ressoou sua voz.
Ao que parecia, a partida
iminente só lhe despertava um interesse secundário.
— Então, doutor, cuidou bem
de minha esposa?
O Dr. Fleet soltou um suspiro
abafado.
— Escute aqui, meu jovem, se
o amigo acha que sua esposa é um milagre anatômico, suponho que está um pouco
enganado. Ainda faltam três meses. Acalme-se, a natureza não tem pressa.
— Muito bem! — disse o
gigante. — Vou sentar e esperar.
O terceiro membro da
tripulação deu mostras do despertar por meio de um riso baixo e agradável. O
tenente-médico Eric Manoli, também geólogo, era o homem mais calmo e retraído
da tripulação. E, provavelmente, o dotado de melhor autodomínio. Cumprimentou
os presentes com um gesto e lançou um rápido olhar ao relógio. Evidentemente, o
Doutor Manoli observava estritamente a lei não escrita dos cosmonautas que, em
termos claros e objetivos, dizia: “Nunca fale na partida da nave, a não ser que
seja absolutamente necessário; você dormiu para revigorar o corpo e o espírito;
não reduza os efeitos favoráveis do sono com a idéia de que é necessário
encarar imediatamente toda a seriedade da situação.” Era uma fórmula simples,
consagrada pela experiência.
— Tudo bem, Eric? — indagou
Rhodan.
— Tudo bem — confirmou. E, voltando-se
para Fletcher, continuou: — O que há com Bell? Parece que ele dorme o sono das
montanhas?
O capitão Fletcher virou-se
na cama. Sua mão direita deu um estalo no ombro rechonchudo daquele baixote que
revelava uma tendência evidente para a obesidade.
Quem conhecesse bem o capitão
Reginald Bell iria compará-lo a uma elástica bola de borracha. A gordura que
apresentava era um meio excelente para iludir os incautos. A verdade é que, na
centrífuga gigante, ele suportou melhor a força exigida de 18 G — ou seja dezoito vezes a
aceleração da gravidade — que o Dr. Manoli, pequeno e ossudo.
— Não amole! — veio o
resmungo que parecia sair de dentro do travesseiro de espuma. Um rosto largo,
todo coberto de sardas saiu de dentro da massa de lençóis. Os olhos azuis, que
pareciam descorados piscaram para Fletcher: — Estou acordado há uma hora —
afirmou Bell, com a voz indolente. — A dose de soporífero foi muito fraca para
um homem do meu tamanho.
— É claro que foi — concordou
Rhodan com toda seriedade. — Admiro a sua paciência. Você deve ter respirado
bem baixinho para não incomodar os outros.
— Por isso, você vai ser
condecorado — disse Fletcher descendo de sua cama. — Mas, primeiro, são os pais
em perspectiva e os sofredores. Aliás, gostaria de saber o que ainda falta
examinar no nosso organismo.
Subitamente, Fletcher ficou
em silêncio, olhando, embaraçado, para o comandante. Por pouco, ele teria
violado a lei. Rhodan fez que não ouviu. E, bocejando, disse com estudada
indiferença:
— Comecemos por ele, doutor,
já que ele vai ser pai logo. É de se supor que nossa circulação esteja em
ordem. Ainda assim, convém deixar as injeções neutralizadoras à mão.
Perry Rhodan começou a
analisar suas próprias reações. Sentiu uma angústia martirizante no canto mais
recôndito do subconsciente. A tagarelice dos homens nada mais era senão um
ardil psicológico através do qual pretendiam se acalmar.
Eles sabiam que não deviam
falar na partida iminente. Faziam de conta que aquilo era perfeitamente normal,
uma viagem como todas as anteriores. Mas Rhodan sabia, e eles também, que cedo
as coisas seriam bem mais sérias do que eles pensavam.
No que dizia respeito à força
da inércia, a situação do homem que era impulsionado por um foguete de
propulsão nuclear era muito diferente daquela que se experimentava quando do
lançamento de uma nave comum. As pressões eram muito maiores e, maiores ainda,
as que nasciam nas incontroláveis profundezas do espírito humano. Sentia-se
medo. Era natural e ninguém jamais negou isso. Apenas, esses homens foram
treinados, também, para controlar o medo e não se deixar dominar por ele,
acontecesse o que acontecesse.
Rhodan observou,
disfarçadamente, os homens de sua tripulação. Todos pareciam estar bem. Talvez
Fletcher estivesse um pouco inquieto. Pensava demais no filho que estava por
nascer. Se fosse por ele, desta vez Fletcher teria ficado em casa. Todavia, não
era aconselhável desfalcar um grupo, cujos membros já se haviam adaptado tão
perfeitamente uns aos outros. Um novo elemento admitido em cima da hora não se
ajustaria bem ao conjunto. Por isso, Rhodan conformou-se com o fato consumado.
De resto, não encontrou qualquer outro fator negativo.
II
Os assentos-leitos eram
obras-primas de engenharia. Dotados de controle hidropneumáticos e
controladores de nível que adaptavam o equilíbrio à mais leve mudança de peso,
eram o máximo que se podia conceber em termos de conforto.
Desde as primeiras naves
espaciais que se fazia questão, absoluta, de que os tripulantes se acomodassem
sobre leitos especiais, enquanto estivessem usando os pesados trajes espaciais.
As normas de segurança obrigavam os tripulantes a usar, inclusive, os capacetes
pressurizados durante o lançamento.
É evidente que pequenas
lesões ocorriam por vezes, como resultado das tremendas pressões causadas pela
aceleração. O caso mais trágico e lamentável ocorreu quando da construção da
primeira estação espacial. Um capacete mal ajustado provocou fratura da base do
crânio de um dos tripulantes quando a aceleração chegou a
Perry Rhodan nunca usara o
traje espacial durante a partida e este privilégio especial ele estendera aos
demais membros de sua tripulação. Os técnicos, porém, achavam que isso era um
risco desnecessário. A mais leve ruptura da parede externa da nave provocaria
uma descompressão explosiva, isto é, uma violenta perda de pressão. E todos
sabiam com que facilidade o sangue humano tendia, numa situação dessas, a
entrar em ebulição.
Acontece que Rhodan sempre
tivera uma boa estrela. As naves que ele tripulara nunca haviam sido atingidas
por meteoros e nem sofreram qualquer dano em virtude das tremendas forças
desencadeadas por ocasião da decolagem.
Os quatro homens estavam
estendidos nos leitos, trajando seus uniformes azuis. Os pesados e
desconfortáveis trajes espaciais estavam pendurados em suportes, colocados ao
alcance da mão. Com isso, Rhodan livraria seus companheiros de uma provocação
martirizante, evitando, também, pequenas contusões e escoriações que poderiam
vir a ser dolorosas e, o que é pior, um problema a mais.
A última verificação geral
havia sido concluída. Bem abaixo deles, a mais de oitenta metros, os técnicos
iam se afastando. Acabavam de verificar a regulagem dos estabilizadores do
primeiro estágio.
O capitão Bell, especialista
em eletrônica e em motores de propulsão nuclear, precisara de mais algum tempo
para a verificação dos instrumentos que lhe estavam afetos, enquanto que Rhodan
já terminara de checar o mecanismo de auto-ignição e o sistema de direção por
controle remoto.
Fletcher e o Dr. Manoli, que
no momento nada tinham a fazer, estavam deitados atrás dos dois assentos
principais. A cabine era muito apertada. Estava rodeada de inúmeros feixes de
cabos, tubulações plásticas e painéis de instrumentos. Logo abaixo da sala de
comando. Havia uma minúscula sala para repouso com uma mini-cozinha e
instalação sanitária. Não era possível mais espaço do que o que haviam
conseguido. Estes dois compartimentos ficavam logo abaixo do nariz do foguete.
Abaixo da cabine de comando e
da de repouso, vinha o depósito de carga útil, no qual guardavam-se as
provisões. O espaço abaixo do piso do depósito era região proibida para os
tripulantes. Lá, ficavam os tanques isolados que continham hidrogênio líquido.
Logo abaixo, estavam as instalações de bombeamento e os geradores de força. A
espessa parede construída com uma liga especial indicava o fim da zona de
segurança. Atrás dela abrigava-se o reator de plutônio, trabalhando num ritmo
vertiginoso, e as monstruosas câmaras de combustão com seus condutos térmicos e
válvulas de pressão.
A Stardust possuía um único reator principal e quatro reatores
menores que pertenciam ao mecanismo de direção. A capacidade de empuxo do
mecanismo de propulsão chegava a 1.120 toneladas a uma velocidade de radiação
de 10.102 metros
por segundo.
O ponteiro de minutos do
relógio saltou para o mecanismo seguinte. Eram três horas e um minuto.
Faltavam, pois, sessenta segundos para o lançamento.
Rhodan voltou a cabeça. O
movimento tornou-se um pouco difícil uma vez que ele estava literalmente
afundado na camada de espuma de borracha que revestia os assentos-leitos.
— Tudo bem com vocês? —
perguntou.
A resposta resumiu-se a um
sorriso. Todos ouviam a voz monótona do encarregado pela contagem regressiva. O
último minuto havia chegado. E, embora todos eles já tivessem inúmeras vezes
ironizado aquele paulificante desfilar de números, desta vez até isso tinha
mudado. A lembrança do reator atômico logo abaixo deles era como um pesadelo.
— ...dezoito, dezessete, dezesseis,
quinze...
Rhodan aproximou o microfone
dos lábios.
— Mensagem final da Stardust à Central — irrompeu sua voz
pelos alto-falantes. Era ouvida em toda parte, inclusive no abrigo isolado para
a imprensa. — Tudo bem a bordo. Voltaremos a chamar após a ejeção do primeiro
estágio. Câmbio final.
— ...três, dois, um, zero,
seqüência de ignição iniciada.
Era a mesma coisa de sempre.
Eles sabiam que, apesar de todo o cuidado concernente ao isolamento acústico, o
corpo do foguete constituía-se em um excelente corpo de ressonância. E nem
mesmo a divisão por estágios podia alterar isso.
Ouviram o borbulhar e o
chiado das turbobombas instaladas embaixo, no interior do primeiro estágio.
Depois, teve início o ribombar, ainda hesitante, da pré-ignição, seguido
imediatamente pelo barulho infernal das substâncias químicas que reagiam entre
si. O N-trietil-borazan, que servia
de combustível, misturou-se com o ácido nítrico que desprendia o oxigênio. O
processo químico teve início, com monstruosa potência nas 42 câmaras de
combustão do primeiro estágio.
As línguas de fogo que
reluziam numa incandescência branca, romperam a escuridão da noite. O uivo da
onda de compressão desencadeado pelo processo de ignição tomou conta do espaço
até se perder no trovejar ensurdecedor do gigantesco mecanismo de propulsão.
A Stardust ergueu-se lentamente. À ascensão tranqüila, seguiu-se
uma série de movimentos laterais inquietantes no terço superior da nave. Era o
instante mais crítico do lançamento. Travava-se, naquele segundo, a luta entre
os dispositivos de estabilização e o mecanismo de propulsão que parecia querer
desequilibrar o gigantesco foguete que mal iniciara sua arrancada rumo ao
espaço. Mas os dados fornecidos pelo computador de bordo indicavam que a
perigosa inclinação já havia sido corrigida.
As exclamações de entusiasmo
dos repórteres submergiram no barulho ensurdecedor. Parecia o fim do mundo. Era
um barulho enorme e indescritível que só poderia ser superado pelo produzido
pela explosão de um artefato nuclear. Nem mesmo no interior dos abrigos era
possível compreender as palavras proferidas. Quem não usasse isoladores no
ouvido, via-se condenado temporariamente a uma surdez absoluta. Os lábios se
moviam e as mãos transmitiam sinais breves mas não se ouvia uma única palavra.
E os gestos pareciam revelar um esforço intenso e uma grande tensão nervosa.
Afinal, a nave começou a
ganhar velocidade e iniciou sua trajetória, como se estivesse ávida para entrar
no seu elemento. O ruído parecia aumentar aos poucos. A torrente ígnea que
escapava das câmaras de combustão chicoteava a plataforma com tremenda fúria
que o céu tornou-se de um rubro sangüíneo. Instantes depois, em perfeito
equilíbrio, o gigante subia verticalmente até que a esteira luminosa que o seguia
fosse vista como um débil ponto de luz que aos poucos desaparecia no céu
estrelado.
Ouviu-se um estalo vindo dos
alto-falantes e o rosto do general Pounder surgiu na tela.
— A nave espacial Stardust foi lançada exatamente às
três horas e dois minutos, conforme as previsões — comunicou com voz calma. —
Não houve qualquer ocorrência extraordinária, tudo correu bem. Os senhores
poderão ouvir os comunicados radiofônicos dos pilotos. Falta pouco para a
separação do primeiro estágio. A aceleração máxima final é de 9,3G. Dentro de
três minutos aproximadamente a nave Stardust
deverá penetrar no campo alcançado pela estação orbital. Dali em diante
os senhores voltarão a vê-la nitidamente, podendo acompanhar a separação do
segundo estágio. Quero salientar mais uma vez que só deverão deixar o campo de
Nevada Fields depois que a Stardust tiver
pousado na Lua. Estamos guardando uma surpresa. É só.
O general Pounder concluiu
com um sorriso.
Vinda do sistema de
alto-falantes, ressoou outra voz, esta, de um dos técnicos.
— Cinco segundos para a
separação do número um. Funcionamento perfeito, nenhum desvio de rumo...
dois... um... contato!
O dispositivo eletrônico
realizou a operação com incrível precisão. Não houve movimento de mãos ou de um
dedo sequer. Apenas olhos febris que espreitavam, nervosos na sala de comando
e, contrastando com esta ansiedade, a estóica paciência dos repórteres.
Nos alto-falantes, soou o
sinal acústico que indicava o final da operação. E, de repente, surgiram dois
corpos distintos na tela do radar. Neste instante, o sistema de aterrissagem
por controle remoto assumiu o comando do primeiro estágio, trazendo-o de volta
ao chão.
A tripulação dispunha de um
intervalo de oito segundos. O computador de bordo já preparava a ignição do
segundo estágio.
A voz de Rhodan soou,
tranqüila.
— Rhodan falando. Nenhum
desvio de curso. Indicações normais, vibrações dentro dos limites normais.
Tripulação pronta para ignição do segundo estágio. Câmbio final.
Era tudo o que tinha a dizer
e o bastante para os cientistas e supervisores da estação situada na Terra.
Prosseguindo sem qualquer força propulsora, a Stardust precipitava-se em direção ao vazio do espaço. Rhodan
lançou um rápido olhar ao redor de si. Tudo parecia em ordem para o capitão
Bell; Fletcher e Manoli também tinham suportado muito bem a força de 9,3G.
Agora era a vez do mecanismo
de propulsão atômica do segundo estágio. Rhodan sentiu a palma das mãos úmidas,
mas seus sentidos experimentados não registraram qualquer ruído anormal.
Reinava o mais absoluto silêncio.
Subitamente veio um arranque
violento acompanhado de um uivo estridente que parecia invadir todas as
moléculas do material de que era feito a nave. Mais uma vez, o corpo do foguete
funcionou como câmara de ressonância.
Depois de alguns instantes, a
aceleração subiu para 8 G .
Com isso, teve início a tremenda sobrecarga imposta ao organismo dos
tripulantes mal refeitos do primeiro esforço.
Rhodan sentiu o efeito do
poderoso medicamento destinado a regular a circulação. Por enquanto o organismo
estava suportando a provação, apenas a respiração transformara-se em verdadeiro
martírio. Incapaz de mover um dedo, fitou, com os olhos embaçados, os painéis
de controle situados em sua frente. Os sete segundos decorridos até o momento
em que a tremenda pressão fosse reduzida ao valor normal de 1 G pareceram uma eternidade.
Tratava-se de uma pausa para recuperação, fixada com base em cálculos exatos,
nos quais se considerava a enorme potência do sistema de propulsão.
Com a voz rouca, Rhodan
gritou um tudo bem! e a resposta que se seguiu foi, para ele, ininteligível.
Após isso, veio o segundo intervalo de aceleração do estágio número dois. Ainda
não estava esgotada a reserva de combustível.
Três segundos depois da
segunda ignição foi ultrapassada a velocidade de deslocamento da Terra. Os
indicadores dos velocímetros indicavam 11,5 quilômetros
por segundo.
Os reatores do segundo
estágio se extinguiram a uma velocidade de 20 quilômetros por
segundo. Novamente a separação se realizou de modo súbito, sem a menor transição
de tal modo que a ausência de gravidade que se seguiu produziu o efeito de uma
tremenda martelada. Os tripulantes sentiram-se impelidos para cima. Uma força
selvagem parecia comprimir seus corpos contra os cintos que os prendiam nos
leitos.
Por alguns instantes, Rhodan
perdeu a consciência. Quando voltou a abrir os olhos, viu, através da
vermelhidão que parecia envolvê-lo, que já se encontravam no espaço exterior.
A correção de rumo já tinha
sido levada a efeito. Bem atrás deles, o segundo estágio, que já podia ser
visto nas telas, estava sendo conduzido para o curso de retorno pelo controle
de Terra. A essa altura, a Stardust já
ultrapassara a órbita da estação espacial. Prosseguindo em velocidade
constante, encontrava-se a 3.250 quilômetros acima da superfície da Terra.
Agora dispunham de alguns
minutos de descanso. Teoricamente a velocidade da nave, no momento, devia ser
suficiente para liberá-la em definitivo da ação da gravidade terrestre. Ainda
segundo a teoria, estaria em condição de atingir qualquer ponto do universo
independentemente de qualquer propulsão.
Todavia, um enorme abismo
separa a teoria da prática. A gravidade da Terra tinha sido superada, mas a
Terra ainda se fazia sentir, influenciando o vôo da espaçonave. Além disso, o
simples prosseguimento da viagem não bastava. Ainda tinham que ser realizadas
inúmeras manobras, para as quais a essa altura não se dispunha de dados
precisos. Os desvios de rota, por ínfimos que fossem, tinham sido calculados e
corrigidos. E também era necessário corrigir diferenças ainda menores nos
valores-limites teóricos da velocidade, que, ultimamente, tinham causado dificuldades
por ocasião das manobras de aproximação.
O leito de Rhodan dobrou-se,
formando uma macia poltrona. O painel de instrumentos acompanhou o movimento,
ficando, agora, em frente a ele, e não acima. Foi uma sensação de alívio.
Reginald Bell recuperou-se
com expressões menos sociáveis. O capitão Fletcher fez ouvir uma tosse áspera e
seca. Nos cantos da sua boca havia sangue coagulado.
— Foi duro, muito mais duro
que das outras vezes — disse Rhodan com voz grave. — Nos últimos segundos,
levaram-nos a 15,4 G .
Com isso, atravessamos o perigoso cinturão de radiação. O que houve com você,
Fletcher?
Fletcher estava pálido. Seu
rosto bochechudo perdera as cores sadias. Apenas o brilho do seu cabelo
continuava inalterado. E, torcendo os lábios num gesto triste, gemeu:
— É o diabo. Seria bom que eu
descesse antes de fazer mais tolices. Com 7 G ainda estava com a ponta da língua entre os
dentes. Foi uma estupidez. A primeira coisa que se ensina a qualquer aluno da
academia é que deve abster-se de gestos dessa espécie. Logo eu...
Ao concluir, encolheu os
ombros. Seu rosto contorcia-se de dor. Rhodan lançou-lhe um olhar perscrutador.
E disfarçou a expressão indagadora com um sorriso frio.
As solas magnéticas das botas
de Bell estavam na chapa metálica do piso. Cambaleando, lutava para
equilibrar-se. Enquanto o sistema de propulsão da Stardust estivesse parado, não tinham peso. Sem dizer uma
palavra, venceu os poucos passos que o separavam de Manoli, erguendo e voltando
a colocar no piso as solas magnéticas com movimentos pesados. Depois de segurar
ligeiramente o pulso de Manoli, fez um sinal de alívio.
— Está bem — disse
laconicamente. — Logo estará de volta. O pulso trabalha que nem um mecanismo de
relógio. Mostre a língua, Fletcher. Vamos logo! Abra a boca!
Um filete de sangue
escorreu-lhe por entre os lábios. Era problema para o Dr. Manoli.
O comandante girou para a
direita o regulador de volume e os sons confusos do rádio tornaram-se audíveis.
Enquanto isso, o Dr. Manoli se recuperava. Rhodan ouviu o leve chiado do
mecanismo hidropneumático. O leito de Manoli transformou-se em poltrona e
alguns instantes depois, ele estava de pé ao lado de Fletcher.
— Que sorte! — disse o
médico. — Não chegou a cortar a língua, foi apenas um ferimento quase
superficial. Preciso de uns dez minutos. É possível?
— É. Pode começar, doutor.
Bell, registre na fita magnética os últimos valores do computador central.
Quero um cálculo de controle. Vamos adiar as etapas seguintes por doze minutos.
Avise-me logo que terminar. Poderemos compensar a perda de tempo com quatro
segundos de potência total.
Alguns instantes depois, o
rosto de Rhodan apareceu na tela da estação da Terra. Pounder, que estava de pé
diante do microfone, nervoso e inquieto, respirou aliviado.
— Stardust para Nevada Fields — soou a voz forte e clara na sala
da Central de Comando. — O capitão Fletcher sofreu um ferimento leve. Mordeu a
língua. Manoli está estancando o sangue. O ferimento poderá ser tratado com
extrato de plasma. Preciso de um adiamento de doze minutos. Câmbio.
Pounder ergueu-se. Seu olhar
lançado em direção ao professor Lehmann disse tudo. O cientista confirmou com
ligeiro aceno de cabeça. Era perfeitamente possível. Havia uma margem de
segurança prevenindo contra incidentes inesperados como esse.
O computador começou a
trabalhar. Alguns segundos depois, os valores corrigidos estavam disponíveis.
Foram transmitidos automaticamente para a Stardust por meio de uma antena direcional especial. O painel
iluminou-se diante do capitão Bell. As calculadoras automáticas da nave,
pequenas mas eficientes, acusaram o recebimento. Para todos os efeitos, num
instante foram inutilizados os resultados de uma série enorme de cálculos.
Novas cifras cruzaram o espaço e, em poucos segundos, um plano de vôo foi
inutilizado e convertido em valores inteiramente novos.
Os dedos de Bell martelaram o
teclado para registrar os dados recebidos. Rhodan transmitiu as informações de
rotina relativas a radiações, resultados das mediações, temperatura, pressão da
cabine e estado de saúde dos tripulantes.
Manoli não gastou mais que
onze minutos para colocar Fletcher em condições. Os pequenos pontos estavam
praticamente invisíveis.
Fletcher olhou, encabulado,
para os companheiros.
— Da próxima vez, use o dedo,
neném — disse Rhodan. — Ele
agüenta mais que a língua.
Os encostos das poltronas
voltaram a inclinar-se para trás. Logo após teve início a música assombrosa
daquele mecanismo, cujo funcionamento ainda encaravam com receio e expectativa.
Era o mecanismo de propulsão
nuclear que, no segundo estágio, revelara um funcionamento excelente em idênticas
condições.
Voltou-se a ouvir o ronco
selvagem e sentiu-se o solavanco pesado. A aceleração, porém, só subiu para
2,1G. Isso não causou qualquer dificuldade para Rhodan e sua tripulação.
Seguida por um raio
chamejante de hidrogênio aquecido a uma temperatura elevadíssima, a nave foi
impulsionada numa velocidade vertiginosa para as profundezas do espaço.
Uma vez superados totalmente
os problemas da decolagem, surgiram as dificuldades mais sérias de uma viagem
espacial.
Rhodan ouviu o barulho
retumbante, agora uniforme, emitido pelo mecanismo de propulsão atômica. A
chama branco-azulada, suspensa no espaço vazio, seguia de perto a nave.
Resultava da combustão do hidrogênio líquido, submetido a um processo de
expansão forçada na câmara aquecida pela energia atômica.
O abastecimento do reator
seria suficiente para mais de um ano. Todavia, era necessário ter cautela com o
elemento irradiante. A reserva dele era limitada. Uma vez esgotados os tanques,
não havia mais nenhum elemento que pudesse ser expelido da câmara de combustão.
Dessa forma, até mesmo o mais eficiente dos reatores se tornaria inútil.
Respirando pesadamente no seu
leito, enquanto transmitia a intervalos regulares seus breves comunicados para
os receptores da estação espacial, Rhodan pensava nesse mecanismo propulsor,
maravilhoso mas ainda primitivo.
Por enquanto, o empuxo só
podia ser obtido indiretamente através do elemento intermediário formador do
jato de propulsão. Será que um dia o homem conseguiria construir um mecanismo
propulsor atômico puro? Seria um motor superpotente, cujo limite de velocidade
ficaria situado perto da velocidade da luz.
Com grande esforço, Rhodan
torceu os lábios. Sentia vontade de rir. Ao que parecia, Reginald Bell
entretinha pensamentos semelhantes. Subitamente, gemeu:
— Juro que para os heróis de
romance tudo é mais simples. Eles não têm o problema da compressão provocada
pelo impulso da nave, e nunca mordem a própria língua. Como vai, Fletcher? Será
que você agüenta? Vai demorar mais alguns minutos. Daqui a cinco segundos
subimos para 8,4G. Tudo bem?
— Tudo bem — fungou o gigante
pelo intercomunicador. Nos fones de ouvido percebia-se a sua respiração
ruidosa. — Tudo bem. Santo Deus, estamos a caminho. Um dia contarei a meu
filho. Seus olhos serão redondos e brilhantes que nem bolinhas de mármore
polido.
Fletcher ficou calado. Sentia
um cansaço profundo. Só mesmo uma pessoa de organismo resistente, bem treinada,
conseguiria falar claramente a um nível de compressão ligeiramente superior a 2 G . E, embora todos os
tripulantes fossem capazes disso, o Dr. Manoli abriu mão da oportunidade. Em
compensação, deu mostras dos seus sentimentos através da sombra de um sorriso
suave.
Estavam a caminho. A
decolagem ficara para trás. O que estava por vir dependeria da capacidade de
raciocínio e de reações extremamente rápidas. As forças de compressão,
horríveis mas inevitáveis, estavam praticamente superadas. Haviam deixado para
trás a Terra, aquela gigantesca bola verde-azulada que se afastava lentamente.
Podiam sentir-se superiores à vida ligada à Terra; no momento essa sensação
ainda os dominava.
Só a mente cristalina de
Rhodan não acompanhou esse sentimento. Ninguém percebeu o brilho desconfiado
dos seus olhos. Ainda não tinham chegado. Ainda não tinham pousado na Lua. E
ainda não estavam preparados para a volta à Terra. Desta vez, o programa não
previa apenas um contorno relativamente seguro da Lua, mas um pouso
extremamente difícil no satélite da Terra.

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