De repente
soube o que o perturbara.
Antes de
sair em companhia de Deringhouse e Tanner havia colocado o telecomunicador de
bolso no mesmo lugar em que agora se encontrava o estojo com o binóculo.
Acontece que
não estava mais lá.
Levantou-se
de um salto e revistou a prateleira. Sua altura não ultrapassava cinqüenta
centímetros e tinha apenas duas tábuas. O telecomunicador não se encontrava em
nenhuma delas. Procurou nos bolsos de seu traje espacial, por baixo da cama, na
comporta, mas o pequeno instrumento continuava desaparecido.
Sem
lembrar-se de que aquilo talvez não passasse de outro truque telecinético do
inimigo desconhecido, correu para fora da barraca a fim de dar o alarma à sentinela.
Ainda estava convencido de que alguém devia ter entrado na barraca e carregado
o telecomunicador.
Saiu da
comporta e olhou em torno de si. Uma sombra movia-se na encosta da colina
situada ao sul.
— Olá,
sentinela! — gritou Rhodan para dentro do microfone de capacete.
Nesse
instante levou uma forte pancada nas costas. Cambaleou para a frente, e
sentiu-se ofuscado por um raio branco-azulado. Os microfones externos do
capacete transmitiram o ribombar que se fez ouvir no mesmo instante.
Alguma coisa
atirou-o ao solo com toda força. Ouviu a areia caindo sobre seu capacete; não
sabia o que estava acontecendo.
Voltou a
pôr-se de pé, ainda um tanto inseguro. O raio ofuscara-o, e só viu anéis
coloridos que dançavam diante dele.
Chamou pela
sentinela. Pouco antes da explosão vira uma delas na encosta da colina situada
ao sul. Eram apenas alguns metros. Por que o sujeito ainda não estava perto
dele?
Quando seus
olhos voltaram ao normal, viu uma cratera aberta na areia; era um buraco feio e
circular, de cerca de dez, metros de diâmetro. Ficava no lugar exato em que,
instantes antes, se encontrara sua barraca; desta, não se via mais nada.
As duas
barracas vizinhas apresentavam uma forte inclinação. Mas, ao que parecia,
continuavam intactas, pois as pessoas que saíram delas, tropeçando e
praguejando, não teriam resistido ao choque de uma descompressão explosiva.
Subitamente
houve uma confusão de vozes no receptor de capacete de Rhodan. Todo mundo
gritava suas perguntas. Rhodan teve de insistir repetidas vezes antes que os
homens se acalmassem o suficiente para permitir a comunicação.
—
Mantenham-se afastados da cratera — ordenou Rhodan. — Talvez haja alguma pista
por ali. Além disso, passaremos o resto da noite ao ar livre. Deringhouse,
procure um lugar adequado. Não deve ficar a menos de cem metros do acampamento.
Sentinelas! Onde estão as sentinelas?
— Aqui!
Três homens adiantaram-se.
— Qual dos
senhores estava perto da minha barraca no momento da explosão?
Ninguém se
apresentou.
— Vi um dos
senhores ali na colina do sul. Quem foi?
Ninguém.
— Não
suspeito de ninguém — explicou Rhodan com a maior tranqüilidade. — Apenas quero
saber se a pessoa que se encontrava ali viu alguém.
Nenhum dos
três quis ser aquele que Rhodan vira na colina. Este não insistiu mais. Não
precisava obter a informação das sentinelas para saber como aquilo ocorrera.
* * *
Deringhouse
encontrara um lugar apropriado. Os homens ligaram os aquecedores de seus trajes
espaciais e deitaram no chão.
— Não havia
nenhum explosivo em sua barraca? — perguntou Deringhouse.
Rhodan
sacudiu a cabeça:
— Estou
refletindo sobre isso o tempo todo. Acredito que não. Além disso, constatei que
alguém deve ter entrado na minha barraca enquanto olhávamos os ratos-castores.
Contou a
história do telecomunicador desaparecido.
Tanner ficou
de joelhos na borda da cratera. O buraco era bem fundo, cerca de três metros e
meio. Fosse qual fosse a energia que havia esfacelado a barraca de Rhodan, a
mesma desenvolvera-se com maior intensidade para baixo que na horizontal.
“Se não
fosse assim, com as outras barracas teria acontecido a mesma coisa que com a
minha”, pensou Rhodan bastante contrariado.
Tanner
levantou-se. Rhodan viu-o sacudir os ombros e limpar as mãos na roupa num gesto
de perplexidade.
— O que
acha?
— Nada. Para
mim foi uma banana de dinamite ou uma cápsula de TNT; nada de moderno. Sente-se
o cheiro de explosivo queimado.
Rhodan
desceu na cratera. Na luz da lanterna viu trechos de solo queimado e vestígios
de pólvora que cobriam a areia. Acionou a pequena comporta situada à direita do
visor de seu capacete, cuja capacidade era de cerca de um centímetro. Arejando
o ar exterior, que dessa forma penetrou no capacete, sentiu a mesma coisa que
Tanner: cheiro de explosivo queimado.
Nesse meio
tempo, o major Deringhouse foi até a colina em cuja encosta Rhodan acreditava
ter visto a sentinela.
— Onde foi?
— gritou. — Por aqui?
— Um pouco à
direita, isso mesmo, nessa direção; alguns metros mais para cima.
Deringhouse
seguiu as indicações de Rhodan. A noite estava bastante escura, dificultando a
percepção das minúcias que todos queriam observar. Rhodan não pôde ver o que o
major estava fazendo.
Manteve-se
em atitude pensativa na borda da cratera, em companhia de Tanner. Este esteve a
ponto de dizer alguma coisa; mas nesse instante ouviu-se o chamado de
Deringhouse.
— Venha!
Parecia
muito exaltado. Rhodan disparou em passos largos, ajudado pela reduzida força
gravitacional. Mais um salto, e aterrizou praticamente sobre os ombros de
Deringhouse que, agachado na areia, dirigia a luz da lanterna para alguma
coisa.
Era um
rastro!
A areia que
cobria a encosta da colina, em contínuo movimento pelo vento, não era a matéria
ideal para conservar uma impressão que teria de manter-se nítida e inalterável.
Mas não
havia a menor dúvida: aquilo era um rastro.
Viu duas
fileiras paralelas de orifícios impressos na areia, com cerca de um palmo de
intervalo, que subiam a colina em diagonal. A distância entre os orifícios não
era superior a vinte e cinco centímetros, conforme constatou Deringhouse.
Era um
rastro muito estranho. Deringhouse observou-o com a cabeça inclinada.
— Diria que
é um bípede. O rastro de um quadrúpede seria diferente.
— Procure
evitar conclusões precipitadas — advertiu Rhodan. — Também pode ter sido uma
centopéia estreita e comprida.
Subitamente
Rhodan deu-se conta de que aquilo que vira ainda há pouco não fora a sentinela.
Ele tinha visto a sombra do ser que produzira aquele rastro. Do ser que
penetrara em sua barraca e colocara a bomba. Uma bomba que explodira cerca de
cinco minutos depois que abrira a comporta e entrara na barraca. Até parecia
que dispunha de um mecanismo de relógio acoplado a uma das escotilhas da
comporta.
Talvez fosse
isso mesmo.
Rhodan teria
voado para os ares juntamente com a barraca, se não tivesse dado pela falta do
instrumento de telecomunicação ou se houvesse tirado uma conclusão que, naquele
mundo repleto de telecinetas, podia ser considerada bastante simplória.
Teria sido
perfeitamente razoável acreditar que algum telecineta desconhecido se permitira
um gracejo com o telecomunicador. Mas não! Ficara convicto de que o instrumento
fora roubado.
O que era
aquilo que estava cantando e gemendo?
Era o vento.
O vento eterno daquele mundo, que mantinha os grãos de areia em movimento
perpétuo e os esfregava uns contra os outros.
Tanner
mantinha-se um pouco de lado. Deringhouse estava junto ao cimo da colina,
enquanto ele mesmo se encontrava no lugar em que subitamente começava aquele
estranho rastro.
Eram três
figuras perdidas num mundo estranho. Deringhouse desligara sua lanterna.
Ninguém proferiu uma palavra. Rhodan sentiu que um calafrio lhe percorria a
espinha.
Quem colocou
a bomba? Ou então, o que foi
que a colocou?
Um ser cujo
estranho rastro começava em qualquer lugar e...
— Venha até
aqui!
Era a voz de
Deringhouse. Rhodan sobressaltou-se.
— Já vou!
Com dois
saltos colocou-se no cimo da colina. Deringhouse já descera um trecho do flanco
oposto; voltara a ligar a lanterna.
— De início
pensei que aquilo estava à nossa espreita por aqui — disse com um sorriso
forçado e não muito alegre. — Mas o que encontro? Isto!
Rhodan
olhou. Era o aparelho de telecomunicação cuja falta, notada em tempo, havia
salvado sua vida. Estava jogado na areia; jogado sem nenhum propósito. Em sua
superfície de plástico viam-se vários arranhões.
Rhodan
levantou o aparelho e colocou-o no bolso.
— Veja isto!
— disse Deringhouse, apontando para um lugar situado poucos metros abaixo do
ponto em que haviam encontrado o telecomunicador.
Rhodan
comprimiu as pálpebras até que viu uma série de luzes coloridas e voltou a
abri-las.
Mas o quadro
continuava inalterado.
O rastro
terminava no lugar apontado por Deringhouse. Este fez o facho de luz percorrer
os arredores, mas não havia nenhuma continuação.
— Um rastro
que começa de repente e termina de repente — disse Tanner com a voz abafada. —
Que mundo é este?
3
Na manhã do
dia seguinte realizaram uma ligeira conferência sobre a rota a seguir. O
tenente Tanner era de opinião que, embora o rastro fosse muito estranho, deviam
seguir em sua direção.
Deringhouse,
porém, objetou que alguém, sabendo que seria perseguido, nunca deixaria um
rastro que fornecesse uma indicação aos perseguidores.
Rhodan, por
seu lado, não chegara a afirmar que o ser desconhecido, mesmo que soubesse
lidar com explosivos, era dotado de um senso lógico igual ao do homem. Por isso
não desistiu do seu plano primitivo.
Pretendia
instalar um acampamento fixo mais ou menos no centro da área coberta pelas
colinas. Ali ficariam de olhos e ouvidos abertos e, ajudados pela faculdade singular
de Fellmer Lloyd, sairiam à procura do ser desconhecido. Em sua opinião, o
ataque noturno constituía prova de que os desconhecidos se abrigavam naquelas
colinas.
Havia um
ponto em que todos estavam de acordo: o ser desconhecido que praticara o atentado
pertencia a uma raça que, segundo esperavam, lhes forneceria novas indicações
sobre o mundo misterioso da vida eterna.
A
Stardust-III informou que a bordo tudo estava tranqüilo e em perfeita ordem.
Não precisavam de Fellmer Lloyd.
Num vôo
tranqüilo de várias horas venceram a distância que os separava do local do novo
acampamento, que Rhodan escolhera no mapa. Ele não estava mais disposto a
assumir qualquer risco. Imprimiu a potência máxima aos motores dos câmbios e
manteve os veículos numa altura de cem metros.
Sem o menor
incidente, o grupo chegou a um vale suave e comprido, situado entre duas
cadeias de colinas, cujo cume mais elevado se erguia a menos de oitenta metros
sobre o fundo do vale.
O
acampamento foi levantado com uma barraca a menos: Rhodan teve que dispensar o
privilégio da barraca individual. Enquanto isso, Rhodan ficou refletindo sobre
os motivos que poderiam levar os seres daquele mundo a desenvolver suas
atividades exclusivamente de noite. Durante o vôo não chegaram a avistar nenhum
rato-castor, nem qualquer dos seres que realizaram o atentado no meio da noite.
Mesmo de dia
as condições de vida no planeta Vagabundo eram bastante desfavoráveis. De noite
a temperatura baixava para menos trinta graus. Qual seria o motivo?
* * *
Depois do almoço,
composto de conservas arcônidas da despensa da Stardust-III, Rhodan distribuiu
as instruções sobre as operações de busca. Não queria perder tempo. Pelo menos
um dos câmbios devia estar em movimento constante. A tripulação de cada vôo
seria de dois homens, em casos excepcionais de três. Dessa forma sempre haveria
homens descansados para tripular os veículos, já que os outros permaneciam no
acampamento. Todos os câmbios dispunham de um equipamento de busca super-potente,
motivo pelo qual não havia necessidade de interromper as operações durante a
noite.
As
instruções eram as seguintes: Prestar atenção a tudo que se move, tirar
fotografias e relatar. Nada de ações isoladas.
Pelos
cálculos de Rhodan, a busca não devia durar mais de dez dias. Estava convencido
de que nesse prazo encontrariam alguma coisa, mas não sabia de onde lhe vinha
essa convicção.
Uma vez
transmitidas as instruções, dois câmbios prepararam-se para o primeiro vôo.
Rhodan pegou o terceiro e, acompanhado pelo major Deringhouse, fez um ligeiro
vôo de reconhecimento, que não fora programado.
De início
mantiveram-se na rota leste, já que os outros veículos pretendiam cobrir o
setor oeste e sudoeste da área. Rhodan assumiu a direção, enquanto Deringhouse
observava o terreno, no início a olho nu.
Deringhouse
não esperava muita coisa daquele vôo. Teria pedido a Rhodan que desistisse do
mesmo, se não se sentisse satisfeito pela quebra da monotonia.
O sol do
planeta Vagabundo brilhava numa estranha tonalidade vermelha. Com o tempo os
olhos se acostumavam, mas as cores assumiam um sentido inteiramente novo. Os
trajes espaciais cinza-azulados tendiam para o verde, e a ponta acesa de um
cigarro tornava-se branca.
— Que mundo
estranho! — disse Deringhouse em tom pensativo.
— Que seres
estranhos! — completou Rhodan depois de algum tempo.
Mantinham
contato ininterrupto com o acampamento e com os outros veículos. Não havia nada
de anormal. Depois dos sobressaltos da noite anterior, o tédio começou a tomar
conta de tudo.
O motor
emitia um zumbido monótono. Deringhouse sentiu uma certa sonolência; mas tendo
em vista a atenção com que Rhodan lançava os olhos para a frente, não se
atreveu a confessá-lo.
Leu as
indicações de alguns dos instrumentos, para distrair-se.
Temperatura
externa: 1,8 graus positivos. Pressão atmosférica: 89. Céu violeta, sem nuvens.
Hora local: 16:05 h.
Bip, bip,
bip...
Rhodan
atirou a cabeça para a frente. Uma luz vermelha acendeu-se no gravímetro,
indicando que alguma coisa anormal havia sido descoberta.
—
Localização! — disse Rhodan em tom tranqüilo. — Ligeira alteração do campo
gravitacional no nordeste.
A sonolência
de Deringhouse desapareceu em meio a dois suspiros apressados.
— Descerei
um pouco — disse Rhodan.
Enquanto o
nariz do câmbio ia baixando sobre um vale pouco profundo, a indicação do
gravímetro tornava-se cada vez mais nítida. Era um sinal de que o veículo se
aproximava da fonte de gravitação.
— O que
acredita que seja? — perguntou Deringhouse.
Rhodan deu
de ombros.
— Talvez
seja um motor gravitacional. Seria um pouco mais forte que o de nosso câmbio.
Nenhum dos nossos veículos se encontra nesta área. Logo...
Não formulou
a conclusão.
O gravímetro
forneceu uma indicação bastante precisa sobre a localização da fonte
gravitacional. Dentro de poucos segundos Rhodan constatou que a mesma se
deslocava. O objeto que perseguia parecia ser um veículo.
— Prepare-se
para disparar! — ordenou Rhodan. — Não quero que nos peguem desprevenidos.
Por sua
própria natureza, as armas de fogo não faziam parte do equipamento do câmbio.
Mas Rhodan mandara instalar várias.
Deringhouse
preparou-se. Quando Rhodan se voltou ligeiramente em sua direção, viu que
estava sorrindo.
— Nada de
precipitação! — advertiu. — Só atiraremos se for necessário.
Deringhouse
confirmou com um aceno de cabeça.
O indicador acústico
do gravímetro passou a indicar um bip-bip bastante desagradável. Rhodan reduziu
o volume do som.
Subitamente
o terreno em que o câmbio se deslocava passou a apresentar uma conformação
surpreendentemente regular. Todas as colinas tinham a mesma altura, a mesma
base e o mesmo formato. Formavam fileiras regulares. Se não se tratasse de
formações arenosas, como acontecia com todas as elevações existentes no
planeta, poder-se-ia supor que haviam sido criadas artificialmente.
Rhodan
manteve o veículo a poucos metros acima do solo e fez com que deslizasse
cautelosamente entre duas fileiras de colinas. Não se via nada do objeto que
fazia o gravímetro emitir o bip-bip.
Era
espantoso. Segundo afirmava o instrumento, a fonte de gravitação não distava
mais de cem metros, e no ar límpido daquele mundo o raio de visão a olho nu era
bem mais extenso.
— Consegue
ver...
Antes de
concluir a pergunta, ele o viu.
Procurara
localizar alguma coisa cujo tamanho fosse comparável ao do câmbio.
Mas o
objeto, que emergia em meio a duas colinas, não passava de uma esfera reluzente
cujo diâmetro não era superior a um metro.
— Que diabo!
Será que por aqui também existem aqueles seres luminosos? — praguejou
Deringhouse.
Rhodan
limitou-se a sacudir a cabeça. Não havia tempo a perder com conversa. O objeto
que viam diante de si era sólido. Suas paredes eram feitas de uma substância
brilhante que não sabia qual era, mas que, sem dúvida, seria sensível ao tato
se encostasse o dedo na mesma.
Num
movimento brusco, Rhodan reduziu a velocidade do câmbio, fazendo-o rastejar
pouco acima do solo. Aos poucos foi se aproximando da esfera reluzente, que
agora já se mantinha no centro do vale.
A distância
não ultrapassava cinqüenta metros. Os pensamentos atropelaram-se no cérebro de
Rhodan. Fosse o que fosse aquilo que se encontrava parado ali, como fazer
chegar ao seu conhecimento que suas intenções não eram inamistosas?
— Vá até a
comporta! — gritou para Deringhouse. — Abra a escotilha e acene, ou faça outra
coisa amável. Vamos logo!
Perplexo,
mas nem por isso menos rapidamente, Deringhouse entrou na comporta. Poucos
segundos depois Rhodan viu seu braço do lado de fora da escotilha, acenando
furiosamente.
Faltavam
trinta metros.
“É a distância de um tiro de pistola”,
pensou Rhodan e espantou-se com a idéia.
Quando
chegou a uma distância de vinte metros, parou o câmbio. Na esfera não se via o
menor movimento; apesar disso Deringhouse continuava a acenar.
O câmbio
pousou no solo. Rhodan levantou-se do assento e espremeu-se atrás do radiador
de impulsos térmicos. Não sabia por que estava agindo dessa forma. Mas tinha a
sensação de que algum perigo o ameaçava, e de qualquer maneira era
preferível...
Nesse
instante o cenário modificou-se por completo.
A esfera
reluzente saltou para o alto, como se fosse uma bola de borracha. Quase no
mesmo instante a estrutura metálica do câmbio emitiu um dom abafado. Rhodan sentiu um forte solavanco e viu estrelas
dançarem diante de sua vista, quando sua cabeça bateu violentamente contra a
mira do radiador de impulsos térmicos.
O mundo
girava. Ouviu-se a voz furiosa de Deringhouse, vinda não se sabe de onde.
Diante da lâmina do visor, colinas, vales e esferas reluzentes giravam numa
velocidade vertiginosa. Mesmo que, depois da pancada, Rhodan tivesse conservado
o domínio perfeito de si mesmo, já não conseguiria localizar o alvo do radiador
térmico.
Alguma coisa
mole e resmunguenta caiu sobre ele, recuou e voltou a ser atirada contra ele na
próxima reviravolta executada pelo câmbio.
Era
Deringhouse. Viera da comporta e procurava pôr a funcionar o radiador
neutrônico. Rhodan quis gritar alguma coisa para ele, mas nesse instante o
veículo sofreu um forte solavanco, foi virado ao contrário e caiu ao solo com
um forte estalo.
Rhodan
levantou-se; percebeu que caíra entre dois assentos traseiros. Estavam numa
posição diferente: os encostos encontravam-se na horizontal e os assentos na
vertical. Nas janelas dianteiras via-se a areia na qual estava pousado o
câmbio, e as janelas laterais estavam dirigidas de cima para baixo, ao invés de
o serem de trás para a frente.
—
Deringhouse!
— Estou
aqui.
— Está
ferido?
— Não; mas
não consigo me mover.
— Espere;
irei até aí.
O radiador
neutrônico desprendera-se do suporte. A placa frontal, que sustentava todo o
peso do instrumento, comprimia Deringhouse contra o assento. Só com o auxílio
de Rhodan conseguiu afastar a pesada placa o suficiente para sair de debaixo
dela.
— Tudo em
ordem?
Deringhouse
apalpou o corpo e respirou profundamente.
— Sim.
Fecharam os
trajes espaciais e subiram à comporta. Olhando pelas janelas laterais, Rhodan
viu que a esfera reluzente havia desaparecido.
A escotilha
externa da comporta ficara a uns três metros acima do solo, já que a estranha
arma do desconhecido colocara o veículo de popa para baixo; mas a reduzida
força gravitacional reduzira o impacto da queda.
Deringhouse
saltou, com o fuzil térmico na mão. Mas não viu nada em que valesse a pena
atirar.
Contornaram
o câmbio várias vezes e verificaram que a estrutura de metal plastificado havia
resistido muito bem às reviravoltas executadas pelo veículo. O casco estava
amassado e arranhado, mas parecia não ter sofrido danos mais sérios. Não havia
a menor dúvida de que o motor estava intacto. O câmbio era um típico veículo
expedicionário; a fixação do motor era tão perfeita que mesmo cem incidentes
desse tipo não o afetariam.
De qualquer
maneira, porém, o veículo estava de focinho virado para cima. Assim não
serviria de nada.
— Poderíamos
tentar balançá-lo — sugeriu Deringhouse. — Se cair direito, talvez fique com a
parte de baixo no chão.
Rhodan
concordou. Mas antes de começarem a balançar o veículo Deringhouse subiu ao
ombro de Rhodan e entrou no mesmo para ligar o motor. Quando tombasse deveria
cair no macio, em cima do colchão gravitacional irradiado pelo motor.
Cada um dos
dois ficou de um lado do carro. Rhodan dava os comandos.
Ao grito de “Ô” Deringhouse puxava de seu lado, e ao
grito de “Hip” era Rhodan quem puxava
na direção oposta.
Balançaram o
pesado veículo numa velocidade espantosa; até parecia uma árvore agitada na
tempestade. Dentro de poucos instantes deveria tombar para a frente.
Rhodan
diminuiu seus esforços, para que o câmbio caísse do lado certo, que era onde
Deringhouse se encontrava naquele instante. Agarrara com os dedos numa junta de
janela, para ter algum apoio na superfície lisa.
— Ô! —
gritou Deringhouse.
— Hip! —
respondeu Rhodan. Quando o câmbio retornou à posição anterior, sentiram um
forte puxão. Os dedos de Rhodan arranharam a superfície do veículo ao perderem
o apoio. Com uma força tremenda o carro tombou para a frente. Rhodan saltou de
lado.
— Devagar! —
gritou Deringhouse.
Rhodan viu-o
dar um salto para sair de debaixo do veículo. Voou um pedaço, deu algumas
cambalhotas e parou em meio a uma nuvem de pó.
O câmbio
encontrava-se na posição desejada. O motor absorvera o impacto. Nada havia
acontecido. Apenas...
— Por pouco
que você não me esmaga — disse Deringhouse com um sorriso tímido.
Rhodan
encarou-o perplexo.
— Eu?!
Deringhouse
não estava menos perplexo que Rhodan.
— Você não
deu mais um empurrão ao carro, para que tombasse logo para a frente?
— Nada
disso. Durante os últimos minutos não fiz mais nada. Pensei que fosse você.
Deringhouse
arregalou os olhos.
— Foram os
telecinetas! — disse com um gemido. — Fizeram uma brincadeira com nosso carro.
Primeiro fizeram girá-lo que nem um carrossel, depois quase me esmagam,
fazendo-o tombar antes da hora.
Não demorou
para que ambos chegassem à conclusão de que não havia outra explicação para o
fenômeno. Entraram no carro e Rhodan fez o possível para afastar-se quanto
antes daquela área. Sem melhores preparativos nem mesmo um câmbio arcônida
estava em condições de enfrentar um adversário daqueles.
Depois de
terem deixado para trás a região de colinas uniformes, Deringhouse perguntou:
— Você
acredita que esse redemoinhar também tenha sido o efeito de uma ação
telecinética?
Rhodan deu
uma risada.
— Estamos
quebrando a cabeça sobre a mesma coisa, não e? Estava pensando nisso. Não
acredito que tenhamos sido revirados através da telecinésia, pois na minha opinião
a força de um telecineta jamais seria suficiente para isso. Não se esqueça de
que o peso do câmbio não é nada desprezível.
— Mas o que
terá sido?
— Diria que
foi um campo de rotação. Acho que conseguiria produzir um efeito idêntico;
bastaria adaptar um dos nossos geradores gravitacionais de forma a gerar um
campo de rotações.
Deringhouse
resmungou. Depois de algum tempo disse:
— Quer dizer
que se trata de uma técnica muito avançada, não é?
Rhodan fez
que sim.
Poucos
minutos depois pousaram no acampamento. Logo depois de terem iniciado o vôo de
retorno, Rhodan fornecera a Tanner um breve relato do incidente. Depois disso
não tiveram mais qualquer contato.
Quando o
câmbio de Rhodan pousou, Tanner fazia os homens correrem de um lado para outro.
Rhodan viu que cinco deles estavam entrando num dos outros veículos. Do
terceiro não se via nem sinal.
Rhodan
desceu. Tanner correu em sua direção. Parecia bastante perturbado.
— Lloyd... —
fungou — Lloyd sumiu!
— Que
direção tomou? — perguntou Rhodan laconicamente.
Tanner
controlou-se e fez um relato apressado.
— Quando os
dois câmbios retornaram, Lloyd veio falar comigo. Pediu um dos veículos.
Respondi que só lhe daria se levasse ao menos um acompanhante. Mas fez questão
de ir só. Recusei. Começou a fazer pouco de mim; disse que eu não tinha poder
de comando sobre ele, que era um mutante, e, depois, que indo sozinho
conseguiria muito mais num vôo que nós em mil.
Tanner
sacudiu os ombros, um tanto perplexo.
— Protestei
contra isso — prosseguiu — mas o homem entrou num dos câmbios e decolou.
Afinal, realmente não tenho poder de comando sobre os mutantes.
Rhodan
bateu-lhe sobre o ombro.
— Não se
preocupe, Tanner. Eu lhe prego um sermão assim que voltar.
— Se é que
volta! — gemeu Tanner. — Já faz dez minutos que não temos qualquer contato com
ele.
* * *
Poucos
segundos depois já estavam voando de novo.
Tanner
conhecia a direção em que Lloyd se afastara, e aquela de onde viera sua última
mensagem. O segundo cambio seguiu o de Rhodan. Enquanto este dirigia, fez uma
conferência bastante elucidativa sobre esferas reluzentes, campos de rotação e
câmbios que tombam.
— O mundo em
que nos encontramos não é um mundo de solidão, embora pareça — disse. — Quem
não andar de olhos bem abertos pode estar certo de que não viverá por muito
tempo.
Ao menos um
dos elementos do grupo de busca tentava ininterruptamente chamar Fellmer Lloyd
pelo telecomunicador. Mas este não respondeu.
Rhodan não
se entregou às ilusões. Se Lloyd não respondia, uma das possibilidades a serem
contempladas era a de que estava morto. E dificilmente haveria uma perda que
Rhodan sentisse mais que esta. Na situação em que se encontravam, um homem como
Fellmer Lloyd valia dez vezes seu peso em ouro.
Desde a
decolagem Lloyd seguira a rota norte. A única esperança de Rhodan era que
tivesse mantido essa rota. De outra forma não haveria possibilidade de
encontrá-lo.
É que, por
mais importante que fosse o homem de que se tratava, Rhodan não tinha a
intenção de interromper a missão por alguns dias para dedicar-se a uma operação
de busca.
Depois de
meia hora de vôo encontraram o câmbio em que Lloyd saíra. Estava deitado de
lado, ao que parecia bastante avariado. Rhodan notou que o material da
carroçaria estava derretido em vários pontos.
A pequena
distância do câmbio, um rato-castor, do tipo dos que faziam parte do bando que
haviam observado na noite anterior, jazia imóvel. Parecia morto. Enquanto
pousava o câmbio cuidadosamente ao lado do veículo avariado, Rhodan indagou de
si para si se aquele rato-castor poderia ter algo a ver com o acidente sofrido
por Fellmer Lloyd.
Desceram.
Rhodan examinou o câmbio de Lloyd; estava vazio e avariado a ponto de se
encontrar inutilizado. Tudo indicava que caíra de uma altura considerável.
Entre outras coisas, o impacto havia avariado o telecomunicador a tal ponto que
Lloyd não poderia usá-lo, mesmo que tivesse sobrevivido à queda do veículo.
Não
encontraram rastros de sangue. Em compensação encontraram uma série de marcas
impressas na areia; uma vez que o vento tivera mais de uma hora para encobri-las,
bem poderiam provir de um homem. Afastavam-se do câmbio e subiam por uma
colina; desapareceram lá em cima, onde o vento trabalhava com mais força.
Deringhouse
examinou o rato-castor.
— Não
entendo muita coisa de biologia, especialmente da biologia extraterrena —
disse. — Mas em minha opinião o bicho quebrou a nuca.
Levantou a
cabeça do animal e girou-a em todas as direções.
Rhodan
respondeu com um aceno de cabeça. No momento não se interessava pelo
rato-castor. Tudo indicava que Fellmer Lloyd havia resistido ao impacto da
queda e se escondera em algum lugar. Rhodan mandou que os cinco ocupantes do
outro veículo saíssem na direção apontada pelo rastro de Lloyd e procurassem
localizar o mutante.
Deringhouse
continuava a dedicar sua atenção ao animal morto.
— A cabeça
dele é muito grande — disse. — O senhor não acha?
Rhodan
repeliu-o com um gesto. — Pouco me importa que tenha duas cabeças cheias de
água. Quero saber onde está Lloyd!
Deringhouse
ergueu-se e afastou-se ligeiramente do animal morto. O mesmo deixara rastros
bastante nítidos na areia; no lugar em que Deringhouse se encontrava naquele
instante parecia ter havido uma luta. O chão estava revolvido; apesar de todo
esforço, Deringhouse não conseguiu descobrir quem teria sido o adversário do
rato-castor.
O rastro do
animal vinha de longe. Deringhouse seguiu-o. Quando se tinha afastado tanto que
quase chegou a perder de vista Rhodan e os três veículos, sacou a arma.
O rastro
contornava o flanco de uma colina e desaparecia na depressão situada entre duas
elevações. Deringhouse seguiu-o e chegou a um buraco que entrava obliquamente
no solo. Era dali que saía o rastro.
Deringhouse
voltou-se decepcionado e iniciou a caminhada de volta. Um simples buraco de
camundongo, um pouco maior que os da Terra, mas ainda assim um buraco de
camundongo.
“Será que você esperava outra coisa, seu
idiota?”, perguntou de si para si.
Ao sair da
depressão situada entre as colinas, seu olhar caiu na encosta que se encontrava
à sua frente. De início não soube o que fazer daquilo que estava vendo; mas
quando se recordou, começou a correr.
— Encontrei
alguma coisa! — gritou para dentro de seu microfone de capacete. — Venham cá!
Gesticulando
com os braços, subiu pela encosta. Deslocou-se em saltos grotescos de quatro
metros e num instante chegou ao objeto que lhe prendera a atenção.
Estava
afundado na areia pela metade. Esta formava montículos de um lado e de outro,
como se o objeto tivesse sido enfiado no solo à força.
Deringhouse
levantou-o. Parecia ser feito de chapa metálica bem fina. O metal já não se apresentava
reluzente e colorido como da última vez em que o vira.
Além disso,
já não tinha nada do formato de uma esfera. A mesma força que comprimira o
objeto solo a dentro transformara-o num montão disforme de chapas coloridas. Mas
não havia a menor dúvida de que se tratava da mesma esfera, ou ao menos de uma
esfera do mesmo tipo daquela com que se haviam deparado durante o vôo em
direção ao leste.
Depois de
contemplar o montão de chapas por algum tempo, Perry Rhodan chegou à mesma
conclusão. Face à reduzida espessura, o objeto era bem leve. Os dois não
tiveram a menor dificuldade em carregar os restos daquilo que fora uma esfera e
colocá-los num dos câmbios.
Deringhouse
voltou ao lugar em que havia encontrado o objeto. Rhodan preveniu-o.
— Se essa
esfera teve uma tripulação, a mesma ainda está viva — gritou atrás dele. — No
meio deste montão de lata não há mais nada. Portanto, fique com os olhos bem
abertos.
Deringhouse
atingiu o lugar sem a menor dificuldade. Ficava perto do cimo de uma colina.
Subiu ao topo e lançou os olhos em torno. Já estava prestes a ir embora quando,
sob o reflexo do sol que baixava rapidamente no ocaso, viu um traço escuro que
subia em diagonal pela encosta da colina mais próxima.
Alcançou o
local em três saltos. Lá encontrou exatamente o que esperava: pequenas
depressões em forma de orifícios, em duas fileiras paralelas. O intervalo entre
um orifício e outro era de vinte e cinco centímetros, e cada fileira distava um
palmo da outra.
Outro
detalhe:
O rastro começava
no lugar em que se encontrava, terminando uns vinte metros abaixo.
***
Dali a uma
hora trouxeram Fellmer Lloyd. O sol já se pusera, e procuravam-no com os
holofotes manuais.
Lloyd
chegara ao máximo de esgotamento. Rhodan mandou colocá-lo num dos veículos,
desistindo por enquanto de interrogá-lo ou fazer-lhe um sermão.
Tiraram do
veículo de Lloyd tudo que poderia ser aproveitado. Feito isso, logo se puseram
no caminho de volta. Pouco depois chegavam ao acampamento. O tenente Tanner
pareceu respirar aliviado quando viu os dois câmbios pousarem.
Lloyd foi
devidamente abrigado e provido de tudo que precisava. Rhodan transmitiu um
relato minucioso à Stardust-III. Reginald Bell respondeu o seguinte:
— Teria sido
preferível que Lloyd tivesse deixado sua tolice para outro dia. Bem que
precisaria dele. Aqui a bordo tudo está numa confusão tremenda.
Relatou uma
série de incidentes. Alguém abrira a escotilha externa de uma das comportas de
ar enquanto a escotilha interna estava aberta, muito embora isso não devesse
acontecer face ao dispositivo eletrônico de segurança. Em conseqüência disso a
Stardust-III perdeu alguns milhares de metros cúbicos de ar respirável dos
depósitos que ficavam junto à comporta. Felizmente ninguém se encontrava
naquela área da nave, e as escotilhas de segurança, que funcionavam
automaticamente, evitaram que o incidente assumisse proporções catastróficas.
Em virtude
do acidente, Bell ordenara que mesmo no interior da nave todos andassem
constantemente com os trajes espaciais completamente fechados.
— Mandarei
Lloyd para aí assim que o tenha interrogado — prometeu Rhodan. — Mas acredito
que por aqui atingiremos nosso objetivo antes que ele consiga alguma coisa com
uma busca por toda a nave.
Como pela
meia-noite Fellmer Lloyd ainda não estivesse em condições de ser interrogado,
Rhodan tentou dormir algumas horas. Passara por vinte e cinco horas enervantes.
Embora a medicina arcônida conhecesse alguns medicamentos que espantavam o sono
sem efeitos colaterais danosos, preferia recorrer a um sadio repouso.
Era bem
verdade que os pensamentos que lhe enchiam a mente retardaram o sono. Ocupava
uma barraca juntamente com Tanner e Deringhouse. Os dois oficiais dormiam
tranqüilamente e, ao que parecia, despreocupados.
Em
compensação a mente de Rhodan ocupou-se mais intensamente com os acontecimentos
das últimas horas. Quanto mais refletia, mais se convencia de que a posição da
Stardust-III naquele mundo se tornara praticamente insustentável.
De início o
inimigo desconhecido experimentara suas capacidades telecinéticas em objetos
bem simples, tais como chaves de apenas duas posições ou coisas leves e soltas.
Posteriormente
passou a realizar ações dirigidas: o câmbio de Rhodan fora atingido por uma
pedra, o condutor de outro veículo quase foi morto.
E agora, no
terceiro estágio dessa luta estranha, o adversário passara a especializar-se em
objetos mais complicados. Rhodan procurou imaginar a dificuldade que um
telecineta devia experimentar para trabalhar com os complicados comandos
eletrônicos da comporta de ar, e isso de tal maneira que a escotilha interna e
a externa ficassem abertas ao mesmo tempo. Não conseguiu formar uma idéia clara
dessas dificuldades, pois não era telecineta.
Seria fácil
adivinhar a evolução futura dos acontecimentos. Quando o inimigo tivesse
aprendido a exercer uma influência telecinética sobre o armamento da
Stardust-III, a batalha estaria praticamente perdida.
Só havia
duas alternativas: a retirada ou um ataque fulminante. O inimigo teria de ser
reduzido à impotência com tamanha rapidez que não tivesse tempo para causar
maiores estragos.
Mas havia um
problema: o inimigo não devia ser destruído quando conseguissem pôr as mãos
nele. Possuía conhecimentos úteis que levaram a Stardust até ali. Se o inimigo
fosse destruído, tais conhecimentos provavelmente estariam perdidos.
Rhodan
lembrou-se de outros detalhes. Por exemplo, a esfera reluzente e a bomba que
mandara sua barraca pelos ares. Por que o inimigo lançava mão de tais meios, se
era um telecineta tão capaz?
Como deveria
ser interpretado o comportamento daquela esfera? O campo de turbulência que
fizera o câmbio girar representaria uma advertência ou um ataque? Se não fosse
nenhuma das duas coisas, o que seria?
Será que
o...
Uma luz
verde acendeu-se junto à escotilha da comporta. Rhodan acionou o contato que se
encontrava junto à sua mesa. A escotilha deslizou para o lado. Um dos homens de
Tanner entrou. Abriu o capacete e atirou-o na nuca.
— Lloyd
recuperou a consciência — disse o homem com a voz baixa.
Rhodan
levantou-se.
— Está bem.
Já vou. Movimentando-se com um máximo de silêncio, a fim de não despertar os
dois homens que dormiam, fechou seu traje espacial, colocou o capacete e saiu
em companhia do ordenança. Lloyd fora colocado numa barraca-depósito, que
Rhodan levara naquela expedição por não saber quantos prisioneiros conseguiria
capturar; ou então, quantos seriam os feridos que precisariam de isolamento.
Montaram uma
cama confortável para Lloyd. Quando Rhodan entrou, este se encontrava de pé na
barraca.
— Como vai?
— perguntou Rhodan.
— Obrigado —
respondeu Lloyd. — Já estou bem.
Rhodan
sentou na beira da cama de campanha.
— Que idéia
idiota foi essa?
Lloyd deu de
ombros.
— Tive a
impressão de que conseguiria muito mais se fosse deixado a sós. Por isso peguei
o carro e saí por aí.
— Por pouco
não vai muito mais longe do que desejava — ironizou Rhodan.
Lloyd
virou-se ligeiramente e ficou andando pela barraca.
— É verdade.
Mas tudo acabou bem.
— Escute,
Lloyd! — disse Rhodan em tom sério. — Quero que uma coisa fique clara de uma vez
por todas. Ei, o que é isso? Está ouvindo?
Lloyd
continuara na sua perambulação. Estava parado na outra extremidade da barraca,
de costas para Rhodan. A lâmpada que se encontrava na proximidade deste mal o
iluminava.
Só se via a
parte de trás da cabeça.
Rhodan
espantou-se. Alguma coisa lhe chamou a atenção.
Mas de
repente não teve tempo para pensar em mais nada. No mesmo instante em que
Rhodan levantou-se com um salto vigoroso e abrigou-se atrás da mesa, Fellmer
Lloyd virou-se abruptamente. Segurava um radiador de impulsos térmicos; o raio
finíssimo atingiu exatamente o lugar em que um décimo de segundo antes Rhodan
estivera sentado.
A mesa atrás
da qual Rhodan procurara abrigo foi atirada para a frente. Rhodan saiu logo
atrás; não corria o menor risco. O raio luminoso projetado pela sua arma
atingiu Lloyd bem no peito. Este conseguiu erguer o braço, mas não chegou mais
a apertar o gatilho. Caiu ruidosamente ao solo.
Rhodan
esperou algum tempo antes de sair de detrás da mesa.
Passando por
cima do cadáver, saiu da barraca e chamou os guardas.
Um dos
homens de Tanner fazia o papel de médico. Antes de ligar-se a Rhodan pertencera
a uma equipe sanitária; entendia alguma coisa, desde que não se tratasse de
assuntos muito complicados.
— Examine-o!
— ordenou Rhodan.
Àquela hora
todo o acampamento estava de pé. Os homens não falavam muito. Estavam gelados
de susto, porque um dos companheiros se atrevera a tirar contra o chefe.
Rhodan e
Deringhouse permaneceram ao lado do enfermeiro, enquanto este examinava o
cadáver.
— Você lhe
aplicou uma injeção, não aplicou? — perguntou Rhodan.
— Uma só? —
respondeu o enfermeiro. — Estava tão acabado que antes da quinta injeção nem
sabia como se chamava.
Despiu o
cadáver de Lloyd e colocou-o sobre uma mesa comprida e estreita.
— Corte-o em
pedaços! — ordenou Rhodan.
O enfermeiro
sobressaltou-se.
— O quê? Não
sei fazer isso.
— Faça o que
mando!
O enfermeiro
engoliu em seco.
— Sim
senhor.
Deringhouse
fitou Rhodan de lado.
— Espera
encontrar algo de extraordinário?
Rhodan fez
que sim.
— Já viu
Lloyd por trás? — perguntou.
Deringhouse
não sabia o que fazer com a pergunta.
— Não —
respondeu em tom hesitante.
— É uma
pena. Na parte de trás da cabeça, Lloyd tinha uma pequena calva, do tamanho de
uma moeda de meio dólar. Isso era bastante estranho, porque no resto da cabeça
ostentava uma cabeleira bastante espessa.
Deringhouse
estreitou os olhos.
— E daí?
Rhodan
apontou para o cadáver.
— Este Lloyd
não tem nenhuma calva. Toda a cabeça está coberta de cabelos.
O enfermeiro
começou a trabalhar. Rhodan nunca vira um rosto mais pálido.
— O que
houve? — perguntou.
— Não há
sangue — disse o enfermeiro com a garganta apertada. — Nem uma única gota.
Rhodan
pôs-se de pé e levantou a perna amputada. O corte já não parecia de uma perna.
Um círculo de cerca de cinco centímetros de espessura, feito de um plástico que
imitava a pele humana, envolvia um osso que brilhava na luz da lâmpada.
— É metal! —
disse Deringhouse com um gemido.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Essa fera não
passa de um robô.
4
Face às
últimas ocorrências, ninguém mais duvidava de que algo de muito grave devia ter
acontecido ao verdadeiro Fellmer Lloyd, que a essa hora já devia estar morto.
Alguém o
aprisionara e o utilizara para fazer um robô que com ele se parecesse o suficiente
para não ser desmascarado antes de matar o chefe dos intrusos.
Mas,
contrariando todos os prognósticos, no dia seguinte, pouco depois do nascer do
sol, Fellmer Lloyd desceu cambaleando uma das colinas situadas ao norte. Estava
tão fraco das pernas que se deixou cair assim que percebeu que alguns dos
homens haviam notado sua presença.
Ormsby, o
enfermeiro que na noite anterior tivera aquele azar com o Lloyd robotizado,
voltou a ter o que fazer. Acontece que desta vez o Lloyd que via diante de si
tinha uma pequena calva na parte traseira da cabeça e, ao examinar seus ossos
com uma sonda finíssima, extraiu cálcio verdadeiro.
Rhodan
aguardou febrilmente até que pudesse interrogar Lloyd. Os apelos de Reginald
Bell, vindos da Stardust-III, tornavam-se cada vez mais insistentes. O inimigo
pusera a funcionar um dos radiadores de impulsos de calibre mais leve,
queimando um sulco de mais de cem metros de comprimento na areia antes que
alguém percebesse o que estava acontecendo e desligasse o aparelho.
Provavelmente
Lloyd dispunha da chave do mistério. Rhodan decidiu suspender imediatamente as
buscas e abandonar o planeta Vagabundo ao menos por algum tempo, exceto se
Lloyd pudesse fornecer alguma indicação.
Ormsby
lançou mão de todos os recursos de que dispunha. Pouco antes do meio-dia Lloyd
estava em condições de ser interrogado. Rhodan foi formulando perguntas até que
o mutante quase sucumbiu de cansaço. O que descobriu foi o seguinte:
A direção do
cambio em que Lloyd viajava falhou de repente e o veículo caiu. Por algum tempo
Lloyd ficou inconsciente. A primeira coisa que viu ao despertar foi o cadáver
do rato-castor junto ao veículo; logo a seguir viu uma esfera reluzente que
flutuava pouco acima do cadáver.
Desceu e
procurou se comunicar com os ocupantes da esfera. Mas de repente esta disparou
para o alto, como se tivesse sido puxada por um fio invisível, e logo a seguir,
numa violência incrível, foi atirada de encontro à encosta da colina. Lloyd
notou que ficou achatada.
Depois teve
a impressão de que devia afastar-se do palco dos acontecimentos até que
chegasse socorro. Armado unicamente com o radiador de impulsos, sentia-se
indefeso diante do inimigo. Foi se arrastando entre as colinas; mas não havia
andado muito longe quando alguma coisa que não vira chegar atingiu-o na cabeça
e deixou-o inconsciente.
Ao
despertar, viu-se no interior de uma espécie de pavilhão de fábrica. Era bem
grande, mas o teto era incrivelmente baixo. Viu uma porção de máquinas
completamente desconhecidas e aproximadamente uma dezena de seres de pequena
estatura que as manipulavam. Depois de alguns minutos percebeu que esses seres
deviam ser mecanizados — eram robôs. Não tinham a menor semelhança com um ser
humano. Não dispunham de cabeça, mas em compensação ostentavam um círculo de
braços e duas pernas que terminavam em pilões metálicos bem polidos.
Ele mesmo estava
deitado numa espécie de maca e não podia se mover, embora não estivesse
amarrado. Concluiu que deviam ter intoxicado seus nervos. Haviam retirado seu
capacete espacial; todavia, conseguia respirar perfeitamente o ar daquele
pavilhão, muito embora em sua opinião, cheirasse mal.
Depois de
uns trinta minutos alguns robôs carregaram-no para uma saleta contígua ao
pavilhão. Sentaram-no numa cadeira. Pensou que se tratasse de um detector de
mentiras, até que levou outra pancada e voltou a desmaiar.
Quando
voltou a despertar, viu-se em outra sala. Não havia ninguém por perto; seu
capacete espacial estava jogado no chão. Colocou-o na cabeça e tentou abrir a
porta da sala. Conseguiu. A porta dava para o pavilhão de fábrica que já havia
visto. Os robôs não estavam mais por lá. Deu uma busca pelo pavilhão e
encontrou uma saída. Atrás dela havia um elevador que conduzia para cima.
Subindo pelo mesmo, descobriu que por todo esse tempo estivera em baixo da
superfície do planeta.
O poço do
elevador terminava no flanco de uma colina. Como ninguém o impedisse, Lloyd
pôs-se a andar. Tentou entrar em contato com o acampamento através do seu
transmissor de capacete, mas viu que o haviam destruído. Sem dúvida acreditavam
que dessa forma conseguiriam segurá-lo.
Apesar de
tudo resolveu arriscar. Depois de marchar a esmo durante algumas horas da noite
acabou chegando ao acampamento, esgotado, faminto e com sede. Era bem mais
provável que tivesse passado por outro lado.
Sim, era bem
possível que conseguisse localizar o pavilhão de fábrica. E tivera oportunidade
de estudar modelos de vibrações cerebrais.
Eis a
surpresa:
— Já estudei
inúmeros modelos — disse Lloyd. — Inclusive de gente completamente diferente de
mim. Mas nunca vi coisa parecida com o que encontrei por aqui. Existem duas
classes fundamentais de vibrações. A primeira revela uma disposição brincalhona
fantástica, quase ridícula. Já a segunda exprime um ódio tão profundo que dá
dor de cabeça. Ódio contra o intruso, ódio contra tudo que não é daqui. Em
minha opinião os seres que irradiam simultaneamente as duas classes de
vibrações só podem ser aleijados espirituais. A tendência de brincar e o ódio
profundo são tão incompatíveis como...
Procurou duas
concepções de seu arsenal mental que fossem tão incompatíveis como aquilo, mas
não se lembrou de nada.
— Chegou a
ver um desses seres em que se reúnem essas espécies de impulsos? — perguntou
Rhodan.
Lloyd
sacudiu a cabeça.
— Não. Só vi
esses pequenos robôs.
— Ódio e
tendência brincalhona, as duas sempre surgem ao mesmo tempo?
— Não.
Quando estava deitado no pavilhão, só percebi o ódio. Quando tentei me afastar
do câmbio, percebi o ódio e a tendência brincalhona ao mesmo tempo.
Com isso
Rhodan já sabia qual era a próxima coisa a fazer. Pediu a Bell que mandasse
mais cinco câmbios tripulados com quarenta homens bem armados. Assim que
chegassem esses reforços, pediria a Fellmer Lloyd que procurasse localizar o
pavilhão em que estivera preso. Depois resolveriam sobre o que deviam fazer.
* * *
A bordo da
Stardust-III nada de importante havia acontecido. Apenas um dos geradores
antigravitacionais gerara em alguns setores da nave campos de gravitação cuja
intensidade ia até 15 g .
Alguns
homens sofreram fraturas e comoções cerebrais. Demorou quinze minutos até que
conseguissem desligar o gerador que se envolvera num campo gravitacional de
elevada potência.
Crest e
Thora estavam desesperados. O desespero provinha não só do medo, mas também do
fato de que não estavam em condições de desistir do empreendimento e abandonar
o planeta Vagabundo. Crest procurara convencer Rhodan, mas esse “terráqueo nojento e teimoso”, conforme
dissera Thora numa irrupção de fúria, declarou que só daria ordem de retirada
quando a situação fosse realmente desesperadora.
* * *
Ninguém
acreditava que o inimigo não ofereceria resistência à sua penetração na base
subterrânea. Rhodan dirigiu seu câmbio, no qual ainda viajavam Fellmer Lloyd, o
major Nyssen, que comandara o contingente de reforços, e alguns tripulantes.
Avançava com o máximo de cautela.
Lloyd
orientava a viagem. Às vezes indicava a direção errada, mas aos poucos a coluna
foi avançando.
A tarde já
ia chegando ao fim, quando um incidente imprevisto lhe mostrou que se
encontravam perto do objetivo.
O major
Deringhouse, que comandava o segundo veículo, voava atrás de Rhodan,
ligeiramente de lado. Rhodan mandara que todos se mantivessem na mesma altitude
que ele. Para retardar o mais possível a sua descoberta, não se elevava a mais
de um metro solo. Com isso reunia a liberdade de movimentos da viagem acima do
solo com as vantagens da proteção que a proximidade deste lhe oferecia.
Deringhouse
fez-se ouvir pelo telecomunicador.
— O pôr do
sol será dentro de doze minutos. Acredita que...
Foi quando
as fúrias do inferno ficaram às soltas. Rhodan já conhecia o fenômeno. Uma
força brutal tirou-o do assento e procurou atirá-lo contra a parede. O mundo
girava diante do pára-brisa.
Mas Rhodan
estava preparado. Reunindo as últimas forças, manteve-se no assento e berrou
para dentro do microfone:
— Pousar e
descer dos carros! Procurem um abrigo!
Com um
esforço desesperado sua mão conseguiu atingir o painel de controle. O gerador
opôs toda sua potência à influência estranha e conseguiu retardar o movimento
de rotação. Rhodan reverteu os jatos e fez com que o veículo, que continuava a
girar, recuasse para além do cume da colina mais próxima.
Nem por isso
a influência estranha cessou, porém tornou-se mais fraca. Rhodan obrigou o
carro a descer e pousou-o na areia. Executou mais um giro e meio sobre seu eixo
vertical antes que o atrito do solo absorvesse a energia irradiada pela arma
desconhecida.
Rhodan e
seus homens desceram, ainda um tanto confusos. Nyssen, cuja cabeça batera em
alguma coisa, cambaleava um pouco.
O veículo de
Deringhouse levara uma descarga menos potente. Deringhouse. reagira
imediatamente, abrigando-se atrás da colina. Os outros câmbios nem sentiram o
ataque, pois naquele momento apenas dois deles haviam saído de trás da colina.
Tiveram tempo para fazer meia-volta e pousar.
Os membros
da expedição usavam trajes transportadores arcônidas, que geravam campos
protetores individuais. Além disso, estavam equipados com um dispositivo que
permitia a adaptação de um capacete espacial. Com isso o traje transportador
transformava-se num traje espacial completo.
Rhodan
mandou que os homens avançassem até o cimo da colina. O sol estava no ocaso;
quando chegaram ao cume só conseguiram enxergar com os visores infravermelhos.
Fellmer
Lloyd encontrava-se na fileira mais avançada.
— Com os mil
demônios! — praguejou baixinho. — Estas colinas são todas iguais, mas acredito
que o pavilhão fica embaixo daquela ali.
— Em que
ponto termina o poço do elevador? — perguntou Rhodan.
— A uns dez
metros acima do pé da colina, e quase no centro do flanco da mesma.
Rhodan não
conhecia as armas do inimigo, nem podia esperar que as mesmas lhe fossem
apresentadas uma por uma. Reuniu cinco dos seus homens e avisou-os de que
teriam que sair do seu abrigo e aparecer diante do inimigo.
— Também
irei — disse para animá-los.
O major
Nyssen trouxera trajes transportadores em número suficiente; havia pelo menos
um para cada membro da expedição. Rhodan trocou o traje espacial que usava no
interior do carro por um dos trajes transportadores, colocou o capacete e
executou os controles prescritos.
Puseram-se a
caminho.
Sem maiores
precauções subiram a colina e desceram do outro lado. Rhodan ia à frente, os
cinco companheiros seguiam-no em fila indiana. Dessa forma ofereciam um alvo
menor ao inimigo que talvez estivesse escondido na colina mais próxima.
Rhodan
colocou o filtro infravermelho no visor do capacete. Iluminou o terreno com um
holofote infravermelho e procurou localizar qualquer indício de ter sido
descoberto.
O indício
não demorou a aparecer. Rhodan viu uma coisa escura aproximar-se num movimento
desajeitado. Atrás dele alguém gritou em tom de pânico:
—
Protejam-se!
Só Rhodan
continuou de pé.
Seguiu-se um
raio ofuscante e um estrondo que os microfones de capacete transmitiram numa
altura suportável. A uns dez metros à direita de Rhodan abriu-se uma cratera do
mesmo tamanho daquela que duas noites antes destruíra sua barraca.
A pressão
desencadeada pela explosão devia ter sido tremenda. Na borda da cratera havia
um grande montão de areia. Mas os campos protetores dos trajes que os homens
envergavam desviaram a pressão.
Os homens
levantaram-se.
— Quem foi o
idiota que gritou protejam-se? — perguntou Rhodan.
— Fui eu —
respondeu alguém. — O cabo Seaborg.
Seaborg
levantou a mão, para que Rhodan soubesse de quem partiu a informação.
— Seu
idiota! — gritou Rhodan num tom que era mais galhofeiro que zangado. — Procure
se lembrar de que está usando um traje protetor que gera um campo energético
individual. Se aparecer alguma coisa a que esse campo não puder resistir, não adianta
procurar se proteger de outra forma. Continue marchando e não atrase mais a
nossa viagem.
— Sim
senhor! — respondeu Seaborg.
Prosseguiram.
O inimigo mantinha-se quieto; ao que parecia, reconhecera a inutilidade de suas
antiquadas granadas de mão.
Atingiram a
depressão entre as duas colinas antes que começasse o drama propriamente dito.
Subitamente
alguém soltou um grito estridente e prolongado. Ao se virar, Rhodan viu um dos
cinco homens turbilhonando pelo ar.
Compreendeu
imediatamente.
— Recuar! —
gritou. — Para trás da colina!
Arrastou
dois homens que demoraram a compreender. Já havia percorrido a metade do
caminho quando o pavoroso campo rotacional atingiu outro homem e arrastou-o
consigo. Ajudados pela reduzida força gravitacional, subiram a colina a largos
saltos e conseguiram colocar-se em segurança antes que o inimigo pudesse
agarrar a terceira vítima.
Os gritos
estridentes dos dois homens carregados pelo ar soaram nos receptores de
capacete. Desapareceram para o lado do sul. Rhodan procurou localizá-los por
meio do holofote, mas não encontrou sinal deles.
Subitamente
os gritos cessaram. Nos receptores de capacetes ouviram-se duas pancadas
surdas; depois só houve silêncio.
— Tenente
Tanner!
— Pronto!
— Pegue um
dos câmbios e leve três homens! Procure os dois homens.
— Sim.
Tanner vira
os dois homens sendo arrastados pelo ar. Conhecia a direção em que a arma
inimiga os tangera. Calado e furioso pôs-se a caminho com três homens.
Rhodan
descobrira o que desejava. Mas isso custara a vida de dois dos seus homens.
Os campos
rotacionais que o inimigo sabia produzir atingiam qualquer inimigo, mesmo que
este se envolvesse num campo protetor. Não podiam penetrar por esse campo; mas
arrastavam-no, e o efeito era o mesmo. Quem usasse um campo protetor estava
preso ao mesmo; quando este descrevesse um movimento de rotação, o indivíduo
giraria com ele.
Teriam de
atacar com recursos mais eficientes. Com os meios de que dispunha a pequena
expedição não conseguiria subjugar o inimigo.
Rhodan arrastou-se para junto de Fellmer Lloyd.
Y�AsN� �o ;color:black'>— Parece que
são.... — principiou. Pôs-se de joelhos e olhou pelo binóculo. — ...castores! —
completou. — É um bando de castores bem grandes.
Rhodan
examinou os animais pelo binóculo. Eram cerca de trinta, conforme dissera a
sentinela. Sentados sobre as patas traseiras, usavam as dianteiras para, de vez
em quando, arrancarem um pedaço de vegetação e levá-lo até a boca.
Rhodan não
concordou inteiramente com a comparação estabelecida por Deringhouse. A
grossura da parte posterior do corpo e o rabo em forma de colher eram de
castores. Mas as orelhas, enormes e redondas, e o focinho pontudo lembravam um
camundongo superdimensionado. Isto porque o comprimento de seu corpo atingia
cerca de um metro.
Pareciam
inofensivos. Todavia...
— Tenente
Tanner.
— Pois não.
— Traga
Lloyd.
Tanner
desapareceu e voltou dali a três minutos em companhia de Lloyd.
— Olhe isso,
Lloyd! — ordenou Rhodan. — Veja se consegue ouvir alguma coisa.
Lloyd deitou
no solo arenoso ao lado de Rhodan. Fixou por alguns instantes a massa escura
formada pelo rebanho de animais. Depois fechou os olhos e baixou a cabeça.
Levou
bastante tempo para chegar a uma conclusão.
— Não. —
Disse finalmente. — Só vejo modelos confusos e sem sentido, como costumam ser
encontrados em animais. Estes não são os seres que está procurando.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Obrigado,
Lloyd. Volte à cama. Rhodan ficou deitado por mais algum tempo no chão arenoso
em companhia de Deringhouse, Tanner e da sentinela.
Pela
meia-noite, segundo a contagem de tempo do planeta Vagabundo, Rhodan voltou à
sua barraca.
Estava
absorto em pensamentos. A existência de formas mais elevadas de vida num mundo
que era apenas aridez, frio e oxido de ferro irritava-o e inquietava-o, sem que
quisesse confessá-lo a si mesmo, Com alguns movimentos automáticos acionou os
contatos da comporta e tirou o capacete assim que a porta se fechou atrás dele.
Ficou
refletindo se devia pedir a opinião de Crest. Mas o que Crest poderia saber que
ele mesmo, Rhodan, ainda não soubesse? Depois do treinamento hipnótico intenso
a que se submetera, possuía os mesmos conhecimentos de Crest e, já que os
adquirira de vez e de forma antinatural e compacta, sabia coordená-los melhor
que Crest, em cuja mente cresceram e se acumularam em virtude de uma evolução
progressiva e orgânica.
Não. Crest
não poderia ajudá-lo. Ele mesmo teria de encontrar a resposta.
Tirou o
cinto com o estojo do binóculo infravermelho e colocou-o sobre uma pequena
prateleira que pertencia ao mobiliário da barraca.
Alguma coisa
perturbou-o quando colocou o estojo na prateleira; não sabia o que era. Voltou
a mergulhar nos seus pensamentos e sentou na beirada da armação que lhe servia
de cama.
Seus olhos
caíram sobre a prateleira.

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