sábado, 20 de outubro de 2012

P-017 - O Planeta do Sol Moribundo - Kurt Mahr [parte 2]


De repente soube o que o perturbara.
Antes de sair em companhia de Deringhouse e Tanner havia colocado o telecomunicador de bolso no mesmo lugar em que agora se encontrava o estojo com o binóculo.
Acontece que não estava mais lá.
Levantou-se de um salto e revistou a prateleira. Sua altura não ultrapassava cinqüenta centímetros e tinha apenas duas tábuas. O telecomunicador não se encontrava em nenhuma delas. Procurou nos bolsos de seu traje espacial, por baixo da cama, na comporta, mas o pequeno instrumento continuava desaparecido.
Sem lembrar-se de que aquilo talvez não passasse de outro truque telecinético do inimigo desconhecido, correu para fora da barraca a fim de dar o alarma à sentinela. Ainda estava convencido de que alguém devia ter entrado na barraca e carregado o telecomunicador.
Saiu da comporta e olhou em torno de si. Uma sombra movia-se na encosta da colina situada ao sul.
— Olá, sentinela! — gritou Rhodan para dentro do microfone de capacete.
Nesse instante levou uma forte pancada nas costas. Cambaleou para a frente, e sentiu-se ofuscado por um raio branco-azulado. Os microfones externos do capacete transmitiram o ribombar que se fez ouvir no mesmo instante.
Alguma coisa atirou-o ao solo com toda força. Ouviu a areia caindo sobre seu capacete; não sabia o que estava acontecendo.
Voltou a pôr-se de pé, ainda um tanto inseguro. O raio ofuscara-o, e só viu anéis coloridos que dançavam diante dele.
Chamou pela sentinela. Pouco antes da explosão vira uma delas na encosta da colina situada ao sul. Eram apenas alguns metros. Por que o sujeito ainda não estava perto dele?
Quando seus olhos voltaram ao normal, viu uma cratera aberta na areia; era um buraco feio e circular, de cerca de dez, metros de diâmetro. Ficava no lugar exato em que, instantes antes, se encontrara sua barraca; desta, não se via mais nada.
As duas barracas vizinhas apresentavam uma forte inclinação. Mas, ao que parecia, continuavam intactas, pois as pessoas que saíram delas, tropeçando e praguejando, não teriam resistido ao choque de uma descompressão explosiva.
Subitamente houve uma confusão de vozes no receptor de capacete de Rhodan. Todo mundo gritava suas perguntas. Rhodan teve de insistir repetidas vezes antes que os homens se acalmassem o suficiente para permitir a comunicação.
— Mantenham-se afastados da cratera — ordenou Rhodan. — Talvez haja alguma pista por ali. Além disso, passaremos o resto da noite ao ar livre. Deringhouse, procure um lugar adequado. Não deve ficar a menos de cem metros do acampamento. Sentinelas! Onde estão as sentinelas?
— Aqui!
Três homens adiantaram-se.                                     
— Qual dos senhores estava perto da minha barraca no momento da explosão?
Ninguém se apresentou.
— Vi um dos senhores ali na colina do sul. Quem foi?
Ninguém.
— Não suspeito de ninguém — explicou Rhodan com a maior tranqüilidade. — Apenas quero saber se a pessoa que se encontrava ali viu alguém.
Nenhum dos três quis ser aquele que Rhodan vira na colina. Este não insistiu mais. Não precisava obter a informação das sentinelas para saber como aquilo ocorrera.
* * *

Deringhouse encontrara um lugar apropriado. Os homens ligaram os aquecedores de seus trajes espaciais e deitaram no chão.
— Não havia nenhum explosivo em sua barraca? — perguntou Deringhouse.
Rhodan sacudiu a cabeça:
— Estou refletindo sobre isso o tempo todo. Acredito que não. Além disso, constatei que alguém deve ter entrado na minha barraca enquanto olhávamos os ratos-castores.
Contou a história do telecomunicador desaparecido.
Tanner ficou de joelhos na borda da cratera. O buraco era bem fundo, cerca de três metros e meio. Fosse qual fosse a energia que havia esfacelado a barraca de Rhodan, a mesma desenvolvera-se com maior intensidade para baixo que na horizontal.
“Se não fosse assim, com as outras barracas teria acontecido a mesma coisa que com a minha”, pensou Rhodan bastante contrariado.
Tanner levantou-se. Rhodan viu-o sacudir os ombros e limpar as mãos na roupa num gesto de perplexidade.
— O que acha?
— Nada. Para mim foi uma banana de dinamite ou uma cápsula de TNT; nada de moderno. Sente-se o cheiro de explosivo queimado.
Rhodan desceu na cratera. Na luz da lanterna viu trechos de solo queimado e vestígios de pólvora que cobriam a areia. Acionou a pequena comporta situada à direita do visor de seu capacete, cuja capacidade era de cerca de um centímetro. Arejando o ar exterior, que dessa forma penetrou no capacete, sentiu a mesma coisa que Tanner: cheiro de explosivo queimado.
Nesse meio tempo, o major Deringhouse foi até a colina em cuja encosta Rhodan acreditava ter visto a sentinela.
— Onde foi? — gritou. — Por aqui?
— Um pouco à direita, isso mesmo, nessa direção; alguns metros mais para cima.
Deringhouse seguiu as indicações de Rhodan. A noite estava bastante escura, dificultando a percepção das minúcias que todos queriam observar. Rhodan não pôde ver o que o major estava fazendo.
Manteve-se em atitude pensativa na borda da cratera, em companhia de Tanner. Este esteve a ponto de dizer alguma coisa; mas nesse instante ouviu-se o chamado de Deringhouse.
— Venha!
Parecia muito exaltado. Rhodan disparou em passos largos, ajudado pela reduzida força gravitacional. Mais um salto, e aterrizou praticamente sobre os ombros de Deringhouse que, agachado na areia, dirigia a luz da lanterna para alguma coisa.
Era um rastro!
A areia que cobria a encosta da colina, em contínuo movimento pelo vento, não era a matéria ideal para conservar uma impressão que teria de manter-se nítida e inalterável.
Mas não havia a menor dúvida: aquilo era um rastro.
Viu duas fileiras paralelas de orifícios impressos na areia, com cerca de um palmo de intervalo, que subiam a colina em diagonal. A distância entre os orifícios não era superior a vinte e cinco centímetros, conforme constatou Deringhouse.
Era um rastro muito estranho. Deringhouse observou-o com a cabeça inclinada.
— Diria que é um bípede. O rastro de um quadrúpede seria diferente.
— Procure evitar conclusões precipitadas — advertiu Rhodan. — Também pode ter sido uma centopéia estreita e comprida.
Subitamente Rhodan deu-se conta de que aquilo que vira ainda há pouco não fora a sentinela. Ele tinha visto a sombra do ser que produzira aquele rastro. Do ser que penetrara em sua barraca e colocara a bomba. Uma bomba que explodira cerca de cinco minutos depois que abrira a comporta e entrara na barraca. Até parecia que dispunha de um mecanismo de relógio acoplado a uma das escotilhas da comporta.
Talvez fosse isso mesmo.
Rhodan teria voado para os ares juntamente com a barraca, se não tivesse dado pela falta do instrumento de telecomunicação ou se houvesse tirado uma conclusão que, naquele mundo repleto de telecinetas, podia ser considerada bastante simplória.
Teria sido perfeitamente razoável acreditar que algum telecineta desconhecido se permitira um gracejo com o telecomunicador. Mas não! Ficara convicto de que o instrumento fora roubado.
O que era aquilo que estava cantando e gemendo?
Era o vento. O vento eterno daquele mundo, que mantinha os grãos de areia em movimento perpétuo e os esfregava uns contra os outros.
Tanner mantinha-se um pouco de lado. Deringhouse estava junto ao cimo da colina, enquanto ele mesmo se encontrava no lugar em que subitamente começava aquele estranho rastro.
Eram três figuras perdidas num mundo estranho. Deringhouse desligara sua lanterna. Ninguém proferiu uma palavra. Rhodan sentiu que um calafrio lhe percorria a espinha.
Quem colocou a bomba? Ou então, o que foi que a colocou?
Um ser cujo estranho rastro começava em qualquer lugar e...
— Venha até aqui!
Era a voz de Deringhouse. Rhodan sobressaltou-se.
— Já vou!
Com dois saltos colocou-se no cimo da colina. Deringhouse já descera um trecho do flanco oposto; voltara a ligar a lanterna.
— De início pensei que aquilo estava à nossa espreita por aqui — disse com um sorriso forçado e não muito alegre. — Mas o que encontro? Isto!
Rhodan olhou. Era o aparelho de telecomunicação cuja falta, notada em tempo, havia salvado sua vida. Estava jogado na areia; jogado sem nenhum propósito. Em sua superfície de plástico viam-se vários arranhões.
Rhodan levantou o aparelho e colocou-o no bolso.
— Veja isto! — disse Deringhouse, apontando para um lugar situado poucos metros abaixo do ponto em que haviam encontrado o telecomunicador.
Rhodan comprimiu as pálpebras até que viu uma série de luzes coloridas e voltou a abri-las.
Mas o quadro continuava inalterado.
O rastro terminava no lugar apontado por Deringhouse. Este fez o facho de luz percorrer os arredores, mas não havia nenhuma continuação.
— Um rastro que começa de repente e termina de repente — disse Tanner com a voz abafada. — Que mundo é este?

3



Na manhã do dia seguinte realizaram uma ligeira conferência sobre a rota a seguir. O tenente Tanner era de opinião que, embora o rastro fosse muito estranho, deviam seguir em sua direção.
Deringhouse, porém, objetou que alguém, sabendo que seria perseguido, nunca deixaria um rastro que fornecesse uma indicação aos perseguidores.
Rhodan, por seu lado, não chegara a afirmar que o ser desconhecido, mesmo que soubesse lidar com explosivos, era dotado de um senso lógico igual ao do homem. Por isso não desistiu do seu plano primitivo.
Pretendia instalar um acampamento fixo mais ou menos no centro da área coberta pelas colinas. Ali ficariam de olhos e ouvidos abertos e, ajudados pela faculdade singular de Fellmer Lloyd, sairiam à procura do ser desconhecido. Em sua opinião, o ataque noturno constituía prova de que os desconhecidos se abrigavam naquelas colinas.
Havia um ponto em que todos estavam de acordo: o ser desconhecido que praticara o atentado pertencia a uma raça que, segundo esperavam, lhes forneceria novas indicações sobre o mundo misterioso da vida eterna.
A Stardust-III informou que a bordo tudo estava tranqüilo e em perfeita ordem. Não precisavam de Fellmer Lloyd.
Num vôo tranqüilo de várias horas venceram a distância que os separava do local do novo acampamento, que Rhodan escolhera no mapa. Ele não estava mais disposto a assumir qualquer risco. Imprimiu a potência máxima aos motores dos câmbios e manteve os veículos numa altura de cem metros.
Sem o menor incidente, o grupo chegou a um vale suave e comprido, situado entre duas cadeias de colinas, cujo cume mais elevado se erguia a menos de oitenta metros sobre o fundo do vale.
O acampamento foi levantado com uma barraca a menos: Rhodan teve que dispensar o privilégio da barraca individual. Enquanto isso, Rhodan ficou refletindo sobre os motivos que poderiam levar os seres daquele mundo a desenvolver suas atividades exclusivamente de noite. Durante o vôo não chegaram a avistar nenhum rato-castor, nem qualquer dos seres que realizaram o atentado no meio da noite.
Mesmo de dia as condições de vida no planeta Vagabundo eram bastante desfavoráveis. De noite a temperatura baixava para menos trinta graus. Qual seria o motivo?

* * *

Depois do almoço, composto de conservas arcônidas da despensa da Stardust-III, Rhodan distribuiu as instruções sobre as operações de busca. Não queria perder tempo. Pelo menos um dos câmbios devia estar em movimento constante. A tripulação de cada vôo seria de dois homens, em casos excepcionais de três. Dessa forma sempre haveria homens descansados para tripular os veículos, já que os outros permaneciam no acampamento. Todos os câmbios dispunham de um equipamento de busca super-potente, motivo pelo qual não havia necessidade de interromper as operações durante a noite.
As instruções eram as seguintes: Prestar atenção a tudo que se move, tirar fotografias e relatar. Nada de ações isoladas.
Pelos cálculos de Rhodan, a busca não devia durar mais de dez dias. Estava convencido de que nesse prazo encontrariam alguma coisa, mas não sabia de onde lhe vinha essa convicção.
Uma vez transmitidas as instruções, dois câmbios prepararam-se para o primeiro vôo. Rhodan pegou o terceiro e, acompanhado pelo major Deringhouse, fez um ligeiro vôo de reconhecimento, que não fora programado.
De início mantiveram-se na rota leste, já que os outros veículos pretendiam cobrir o setor oeste e sudoeste da área. Rhodan assumiu a direção, enquanto Deringhouse observava o terreno, no início a olho nu.
Deringhouse não esperava muita coisa daquele vôo. Teria pedido a Rhodan que desistisse do mesmo, se não se sentisse satisfeito pela quebra da monotonia.
O sol do planeta Vagabundo brilhava numa estranha tonalidade vermelha. Com o tempo os olhos se acostumavam, mas as cores assumiam um sentido inteiramente novo. Os trajes espaciais cinza-azulados tendiam para o verde, e a ponta acesa de um cigarro tornava-se branca.
— Que mundo estranho! — disse Deringhouse em tom pensativo.
— Que seres estranhos! — completou Rhodan depois de algum tempo.
Mantinham contato ininterrupto com o acampamento e com os outros veículos. Não havia nada de anormal. Depois dos sobressaltos da noite anterior, o tédio começou a tomar conta de tudo.
O motor emitia um zumbido monótono. Deringhouse sentiu uma certa sonolência; mas tendo em vista a atenção com que Rhodan lançava os olhos para a frente, não se atreveu a confessá-lo.
Leu as indicações de alguns dos instrumentos, para distrair-se.
Temperatura externa: 1,8 graus positivos. Pressão atmosférica: 89. Céu violeta, sem nuvens. Hora local: 16:05 h.
Bip, bip, bip...
Rhodan atirou a cabeça para a frente. Uma luz vermelha acendeu-se no gravímetro, indicando que alguma coisa anormal havia sido descoberta.
— Localização! — disse Rhodan em tom tranqüilo. — Ligeira alteração do campo gravitacional no nordeste.
A sonolência de Deringhouse desapareceu em meio a dois suspiros apressados.
— Descerei um pouco — disse Rhodan.
Enquanto o nariz do câmbio ia baixando sobre um vale pouco profundo, a indicação do gravímetro tornava-se cada vez mais nítida. Era um sinal de que o veículo se aproximava da fonte de gravitação.
— O que acredita que seja? — perguntou Deringhouse.
Rhodan deu de ombros.
— Talvez seja um motor gravitacional. Seria um pouco mais forte que o de nosso câmbio. Nenhum dos nossos veículos se encontra nesta área. Logo...
Não formulou a conclusão.
O gravímetro forneceu uma indicação bastante precisa sobre a localização da fonte gravitacional. Dentro de poucos segundos Rhodan constatou que a mesma se deslocava. O objeto que perseguia parecia ser um veículo.
— Prepare-se para disparar! — ordenou Rhodan. — Não quero que nos peguem desprevenidos.
Por sua própria natureza, as armas de fogo não faziam parte do equipamento do câmbio. Mas Rhodan mandara instalar várias.
Deringhouse preparou-se. Quando Rhodan se voltou ligeiramente em sua direção, viu que estava sorrindo.
— Nada de precipitação! — advertiu. — Só atiraremos se for necessário.
Deringhouse confirmou com um aceno de cabeça.
O indicador acústico do gravímetro passou a indicar um bip-bip bastante desagradável. Rhodan reduziu o volume do som.
Subitamente o terreno em que o câmbio se deslocava passou a apresentar uma conformação surpreendentemente regular. Todas as colinas tinham a mesma altura, a mesma base e o mesmo formato. Formavam fileiras regulares. Se não se tratasse de formações arenosas, como acontecia com todas as elevações existentes no planeta, poder-se-ia supor que haviam sido criadas artificialmente.
Rhodan manteve o veículo a poucos metros acima do solo e fez com que deslizasse cautelosamente entre duas fileiras de colinas. Não se via nada do objeto que fazia o gravímetro emitir o bip-bip.
Era espantoso. Segundo afirmava o instrumento, a fonte de gravitação não distava mais de cem metros, e no ar límpido daquele mundo o raio de visão a olho nu era bem mais extenso.
— Consegue ver...
Antes de concluir a pergunta, ele o viu.
Procurara localizar alguma coisa cujo tamanho fosse comparável ao do câmbio.
Mas o objeto, que emergia em meio a duas colinas, não passava de uma esfera reluzente cujo diâmetro não era superior a um metro.
— Que diabo! Será que por aqui também existem aqueles seres luminosos? — praguejou Deringhouse.
Rhodan limitou-se a sacudir a cabeça. Não havia tempo a perder com conversa. O objeto que viam diante de si era sólido. Suas paredes eram feitas de uma substância brilhante que não sabia qual era, mas que, sem dúvida, seria sensível ao tato se encostasse o dedo na mesma.
Num movimento brusco, Rhodan reduziu a velocidade do câmbio, fazendo-o rastejar pouco acima do solo. Aos poucos foi se aproximando da esfera reluzente, que agora já se mantinha no centro do vale.
A distância não ultrapassava cinqüenta metros. Os pensamentos atropelaram-se no cérebro de Rhodan. Fosse o que fosse aquilo que se encontrava parado ali, como fazer chegar ao seu conhecimento que suas intenções não eram inamistosas?
— Vá até a comporta! — gritou para Deringhouse. — Abra a escotilha e acene, ou faça outra coisa amável. Vamos logo!
Perplexo, mas nem por isso menos rapidamente, Deringhouse entrou na comporta. Poucos segundos depois Rhodan viu seu braço do lado de fora da escotilha, acenando furiosamente.
Faltavam trinta metros.
É a distância de um tiro de pistola”, pensou Rhodan e espantou-se com a idéia.
Quando chegou a uma distância de vinte metros, parou o câmbio. Na esfera não se via o menor movimento; apesar disso Deringhouse continuava a acenar.
O câmbio pousou no solo. Rhodan levantou-se do assento e espremeu-se atrás do radiador de impulsos térmicos. Não sabia por que estava agindo dessa forma. Mas tinha a sensação de que algum perigo o ameaçava, e de qualquer maneira era preferível...
Nesse instante o cenário modificou-se por completo.
A esfera reluzente saltou para o alto, como se fosse uma bola de borracha. Quase no mesmo instante a estrutura metálica do câmbio emitiu um dom abafado. Rhodan sentiu um forte solavanco e viu estrelas dançarem diante de sua vista, quando sua cabeça bateu violentamente contra a mira do radiador de impulsos térmicos.
O mundo girava. Ouviu-se a voz furiosa de Deringhouse, vinda não se sabe de onde. Diante da lâmina do visor, colinas, vales e esferas reluzentes giravam numa velocidade vertiginosa. Mesmo que, depois da pancada, Rhodan tivesse conservado o domínio perfeito de si mesmo, já não conseguiria localizar o alvo do radiador térmico.
Alguma coisa mole e resmunguenta caiu sobre ele, recuou e voltou a ser atirada contra ele na próxima reviravolta executada pelo câmbio.
Era Deringhouse. Viera da comporta e procurava pôr a funcionar o radiador neutrônico. Rhodan quis gritar alguma coisa para ele, mas nesse instante o veículo sofreu um forte solavanco, foi virado ao contrário e caiu ao solo com um forte estalo.
Rhodan levantou-se; percebeu que caíra entre dois assentos traseiros. Estavam numa posição diferente: os encostos encontravam-se na horizontal e os assentos na vertical. Nas janelas dianteiras via-se a areia na qual estava pousado o câmbio, e as janelas laterais estavam dirigidas de cima para baixo, ao invés de o serem de trás para a frente.
— Deringhouse!
— Estou aqui.
— Está ferido?
— Não; mas não consigo me mover.
— Espere; irei até aí.
O radiador neutrônico desprendera-se do suporte. A placa frontal, que sustentava todo o peso do instrumento, comprimia Deringhouse contra o assento. Só com o auxílio de Rhodan conseguiu afastar a pesada placa o suficiente para sair de debaixo dela.
— Tudo em ordem?
Deringhouse apalpou o corpo e respirou profundamente.
— Sim.
Fecharam os trajes espaciais e subiram à comporta. Olhando pelas janelas laterais, Rhodan viu que a esfera reluzente havia desaparecido.
A escotilha externa da comporta ficara a uns três metros acima do solo, já que a estranha arma do desconhecido colocara o veículo de popa para baixo; mas a reduzida força gravitacional reduzira o impacto da queda.
Deringhouse saltou, com o fuzil térmico na mão. Mas não viu nada em que valesse a pena atirar.
Contornaram o câmbio várias vezes e verificaram que a estrutura de metal plastificado havia resistido muito bem às reviravoltas executadas pelo veículo. O casco estava amassado e arranhado, mas parecia não ter sofrido danos mais sérios. Não havia a menor dúvida de que o motor estava intacto. O câmbio era um típico veículo expedicionário; a fixação do motor era tão perfeita que mesmo cem incidentes desse tipo não o afetariam.
De qualquer maneira, porém, o veículo estava de focinho virado para cima. Assim não serviria de nada.
— Poderíamos tentar balançá-lo — sugeriu Deringhouse. — Se cair direito, talvez fique com a parte de baixo no chão.
Rhodan concordou. Mas antes de começarem a balançar o veículo Deringhouse subiu ao ombro de Rhodan e entrou no mesmo para ligar o motor. Quando tombasse deveria cair no macio, em cima do colchão gravitacional irradiado pelo motor.
Cada um dos dois ficou de um lado do carro. Rhodan dava os comandos.
Ao grito de “Ô” Deringhouse puxava de seu lado, e ao grito de “Hip” era Rhodan quem puxava na direção oposta.
Balançaram o pesado veículo numa velocidade espantosa; até parecia uma árvore agitada na tempestade. Dentro de poucos instantes deveria tombar para a frente.
Rhodan diminuiu seus esforços, para que o câmbio caísse do lado certo, que era onde Deringhouse se encontrava naquele instante. Agarrara com os dedos numa junta de janela, para ter algum apoio na superfície lisa.
— Ô! — gritou Deringhouse.
— Hip! — respondeu Rhodan. Quando o câmbio retornou à posição anterior, sentiram um forte puxão. Os dedos de Rhodan arranharam a superfície do veículo ao perderem o apoio. Com uma força tremenda o carro tombou para a frente. Rhodan saltou de lado.
— Devagar! — gritou Deringhouse.
Rhodan viu-o dar um salto para sair de debaixo do veículo. Voou um pedaço, deu algumas cambalhotas e parou em meio a uma nuvem de pó.
O câmbio encontrava-se na posição desejada. O motor absorvera o impacto. Nada havia acontecido. Apenas...
— Por pouco que você não me esmaga — disse Deringhouse com um sorriso tímido.
Rhodan encarou-o perplexo.
— Eu?!
Deringhouse não estava menos perplexo que Rhodan.
— Você não deu mais um empurrão ao carro, para que tombasse logo para a frente?
— Nada disso. Durante os últimos minutos não fiz mais nada. Pensei que fosse você.
Deringhouse arregalou os olhos.
— Foram os telecinetas! — disse com um gemido. — Fizeram uma brincadeira com nosso carro. Primeiro fizeram girá-lo que nem um carrossel, depois quase me esmagam, fazendo-o tombar antes da hora.
Não demorou para que ambos chegassem à conclusão de que não havia outra explicação para o fenômeno. Entraram no carro e Rhodan fez o possível para afastar-se quanto antes daquela área. Sem melhores preparativos nem mesmo um câmbio arcônida estava em condições de enfrentar um adversário daqueles.
Depois de terem deixado para trás a região de colinas uniformes, Deringhouse perguntou:
— Você acredita que esse redemoinhar também tenha sido o efeito de uma ação telecinética?
Rhodan deu uma risada.
— Estamos quebrando a cabeça sobre a mesma coisa, não e? Estava pensando nisso. Não acredito que tenhamos sido revirados através da telecinésia, pois na minha opinião a força de um telecineta jamais seria suficiente para isso. Não se esqueça de que o peso do câmbio não é nada desprezível.
— Mas o que terá sido?
— Diria que foi um campo de rotação. Acho que conseguiria produzir um efeito idêntico; bastaria adaptar um dos nossos geradores gravitacionais de forma a gerar um campo de rotações.
Deringhouse resmungou. Depois de algum tempo disse:
— Quer dizer que se trata de uma técnica muito avançada, não é?
Rhodan fez que sim.
Poucos minutos depois pousaram no acampamento. Logo depois de terem iniciado o vôo de retorno, Rhodan fornecera a Tanner um breve relato do incidente. Depois disso não tiveram mais qualquer contato.
Quando o câmbio de Rhodan pousou, Tanner fazia os homens correrem de um lado para outro. Rhodan viu que cinco deles estavam entrando num dos outros veículos. Do terceiro não se via nem sinal.
Rhodan desceu. Tanner correu em sua direção. Parecia bastante perturbado.
— Lloyd... — fungou — Lloyd sumiu!
— Que direção tomou? — perguntou Rhodan laconicamente.
Tanner controlou-se e fez um relato apressado.
— Quando os dois câmbios retornaram, Lloyd veio falar comigo. Pediu um dos veículos. Respondi que só lhe daria se levasse ao menos um acompanhante. Mas fez questão de ir só. Recusei. Começou a fazer pouco de mim; disse que eu não tinha poder de comando sobre ele, que era um mutante, e, depois, que indo sozinho conseguiria muito mais num vôo que nós em mil.
Tanner sacudiu os ombros, um tanto perplexo.
— Protestei contra isso — prosseguiu — mas o homem entrou num dos câmbios e decolou. Afinal, realmente não tenho poder de comando sobre os mutantes.
Rhodan bateu-lhe sobre o ombro.
— Não se preocupe, Tanner. Eu lhe prego um sermão assim que voltar.
— Se é que volta! — gemeu Tanner. — Já faz dez minutos que não temos qualquer contato com ele.

* * *

Poucos segundos depois já estavam voando de novo.
Tanner conhecia a direção em que Lloyd se afastara, e aquela de onde viera sua última mensagem. O segundo cambio seguiu o de Rhodan. Enquanto este dirigia, fez uma conferência bastante elucidativa sobre esferas reluzentes, campos de rotação e câmbios que tombam.
— O mundo em que nos encontramos não é um mundo de solidão, embora pareça — disse. — Quem não andar de olhos bem abertos pode estar certo de que não viverá por muito tempo.
Ao menos um dos elementos do grupo de busca tentava ininterruptamente chamar Fellmer Lloyd pelo telecomunicador. Mas este não respondeu.
Rhodan não se entregou às ilusões. Se Lloyd não respondia, uma das possibilidades a serem contempladas era a de que estava morto. E dificilmente haveria uma perda que Rhodan sentisse mais que esta. Na situação em que se encontravam, um homem como Fellmer Lloyd valia dez vezes seu peso em ouro.
Desde a decolagem Lloyd seguira a rota norte. A única esperança de Rhodan era que tivesse mantido essa rota. De outra forma não haveria possibilidade de encontrá-lo.
É que, por mais importante que fosse o homem de que se tratava, Rhodan não tinha a intenção de interromper a missão por alguns dias para dedicar-se a uma operação de busca.
Depois de meia hora de vôo encontraram o câmbio em que Lloyd saíra. Estava deitado de lado, ao que parecia bastante avariado. Rhodan notou que o material da carroçaria estava derretido em vários pontos.
A pequena distância do câmbio, um rato-castor, do tipo dos que faziam parte do bando que haviam observado na noite anterior, jazia imóvel. Parecia morto. Enquanto pousava o câmbio cuidadosamente ao lado do veículo avariado, Rhodan indagou de si para si se aquele rato-castor poderia ter algo a ver com o acidente sofrido por Fellmer Lloyd.
Desceram. Rhodan examinou o câmbio de Lloyd; estava vazio e avariado a ponto de se encontrar inutilizado. Tudo indicava que caíra de uma altura considerável. Entre outras coisas, o impacto havia avariado o telecomunicador a tal ponto que Lloyd não poderia usá-lo, mesmo que tivesse sobrevivido à queda do veículo.
Não encontraram rastros de sangue. Em compensação encontraram uma série de marcas impressas na areia; uma vez que o vento tivera mais de uma hora para encobri-las, bem poderiam provir de um homem. Afastavam-se do câmbio e subiam por uma colina; desapareceram lá em cima, onde o vento trabalhava com mais força.
Deringhouse examinou o rato-castor.
— Não entendo muita coisa de biologia, especialmente da biologia extraterrena — disse. — Mas em minha opinião o bicho quebrou a nuca.
Levantou a cabeça do animal e girou-a em todas as direções.
Rhodan respondeu com um aceno de cabeça. No momento não se interessava pelo rato-castor. Tudo indicava que Fellmer Lloyd havia resistido ao impacto da queda e se escondera em algum lugar. Rhodan mandou que os cinco ocupantes do outro veículo saíssem na direção apontada pelo rastro de Lloyd e procurassem localizar o mutante.
Deringhouse continuava a dedicar sua atenção ao animal morto.
— A cabeça dele é muito grande — disse. — O senhor não acha?
Rhodan repeliu-o com um gesto. — Pouco me importa que tenha duas cabeças cheias de água. Quero saber onde está Lloyd!
Deringhouse ergueu-se e afastou-se ligeiramente do animal morto. O mesmo deixara rastros bastante nítidos na areia; no lugar em que Deringhouse se encontrava naquele instante parecia ter havido uma luta. O chão estava revolvido; apesar de todo esforço, Deringhouse não conseguiu descobrir quem teria sido o adversário do rato-castor.
O rastro do animal vinha de longe. Deringhouse seguiu-o. Quando se tinha afastado tanto que quase chegou a perder de vista Rhodan e os três veículos, sacou a arma.
O rastro contornava o flanco de uma colina e desaparecia na depressão situada entre duas elevações. Deringhouse seguiu-o e chegou a um buraco que entrava obliquamente no solo. Era dali que saía o rastro.
Deringhouse voltou-se decepcionado e iniciou a caminhada de volta. Um simples buraco de camundongo, um pouco maior que os da Terra, mas ainda assim um buraco de camundongo.
Será que você esperava outra coisa, seu idiota?”, perguntou de si para si.
Ao sair da depressão situada entre as colinas, seu olhar caiu na encosta que se encontrava à sua frente. De início não soube o que fazer daquilo que estava vendo; mas quando se recordou, começou a correr.
— Encontrei alguma coisa! — gritou para dentro de seu microfone de capacete. — Venham cá!
Gesticulando com os braços, subiu pela encosta. Deslocou-se em saltos grotescos de quatro metros e num instante chegou ao objeto que lhe prendera a atenção.
Estava afundado na areia pela metade. Esta formava montículos de um lado e de outro, como se o objeto tivesse sido enfiado no solo à força.
Deringhouse levantou-o. Parecia ser feito de chapa metálica bem fina. O metal já não se apresentava reluzente e colorido como da última vez em que o vira.
Além disso, já não tinha nada do formato de uma esfera. A mesma força que comprimira o objeto solo a dentro transformara-o num montão disforme de chapas coloridas. Mas não havia a menor dúvida de que se tratava da mesma esfera, ou ao menos de uma esfera do mesmo tipo daquela com que se haviam deparado durante o vôo em direção ao leste.
Depois de contemplar o montão de chapas por algum tempo, Perry Rhodan chegou à mesma conclusão. Face à reduzida espessura, o objeto era bem leve. Os dois não tiveram a menor dificuldade em carregar os restos daquilo que fora uma esfera e colocá-los num dos câmbios.
Deringhouse voltou ao lugar em que havia encontrado o objeto. Rhodan preveniu-o.
— Se essa esfera teve uma tripulação, a mesma ainda está viva — gritou atrás dele. — No meio deste montão de lata não há mais nada. Portanto, fique com os olhos bem abertos.
Deringhouse atingiu o lugar sem a menor dificuldade. Ficava perto do cimo de uma colina. Subiu ao topo e lançou os olhos em torno. Já estava prestes a ir embora quando, sob o reflexo do sol que baixava rapidamente no ocaso, viu um traço escuro que subia em diagonal pela encosta da colina mais próxima.
Alcançou o local em três saltos. Lá encontrou exatamente o que esperava: pequenas depressões em forma de orifícios, em duas fileiras paralelas. O intervalo entre um orifício e outro era de vinte e cinco centímetros, e cada fileira distava um palmo da outra.
Outro detalhe:
O rastro começava no lugar em que se encontrava, terminando uns vinte metros abaixo.

***

Dali a uma hora trouxeram Fellmer Lloyd. O sol já se pusera, e procuravam-no com os holofotes manuais.
Lloyd chegara ao máximo de esgotamento. Rhodan mandou colocá-lo num dos veículos, desistindo por enquanto de interrogá-lo ou fazer-lhe um sermão.
Tiraram do veículo de Lloyd tudo que poderia ser aproveitado. Feito isso, logo se puseram no caminho de volta. Pouco depois chegavam ao acampamento. O tenente Tanner pareceu respirar aliviado quando viu os dois câmbios pousarem.
Lloyd foi devidamente abrigado e provido de tudo que precisava. Rhodan transmitiu um relato minucioso à Stardust-III. Reginald Bell respondeu o seguinte:
— Teria sido preferível que Lloyd tivesse deixado sua tolice para outro dia. Bem que precisaria dele. Aqui a bordo tudo está numa confusão tremenda.
Relatou uma série de incidentes. Alguém abrira a escotilha externa de uma das comportas de ar enquanto a escotilha interna estava aberta, muito embora isso não devesse acontecer face ao dispositivo eletrônico de segurança. Em conseqüência disso a Stardust-III perdeu alguns milhares de metros cúbicos de ar respirável dos depósitos que ficavam junto à comporta. Felizmente ninguém se encontrava naquela área da nave, e as escotilhas de segurança, que funcionavam automaticamente, evitaram que o incidente assumisse proporções catastróficas.
Em virtude do acidente, Bell ordenara que mesmo no interior da nave todos andassem constantemente com os trajes espaciais completamente fechados.
— Mandarei Lloyd para aí assim que o tenha interrogado — prometeu Rhodan. — Mas acredito que por aqui atingiremos nosso objetivo antes que ele consiga alguma coisa com uma busca por toda a nave.
Como pela meia-noite Fellmer Lloyd ainda não estivesse em condições de ser interrogado, Rhodan tentou dormir algumas horas. Passara por vinte e cinco horas enervantes. Embora a medicina arcônida conhecesse alguns medicamentos que espantavam o sono sem efeitos colaterais danosos, preferia recorrer a um sadio repouso.
Era bem verdade que os pensamentos que lhe enchiam a mente retardaram o sono. Ocupava uma barraca juntamente com Tanner e Deringhouse. Os dois oficiais dormiam tranqüilamente e, ao que parecia, despreocupados.
Em compensação a mente de Rhodan ocupou-se mais intensamente com os acontecimentos das últimas horas. Quanto mais refletia, mais se convencia de que a posição da Stardust-III naquele mundo se tornara praticamente insustentável.
De início o inimigo desconhecido experimentara suas capacidades telecinéticas em objetos bem simples, tais como chaves de apenas duas posições ou coisas leves e soltas.
Posteriormente passou a realizar ações dirigidas: o câmbio de Rhodan fora atingido por uma pedra, o condutor de outro veículo quase foi morto.
E agora, no terceiro estágio dessa luta estranha, o adversário passara a especializar-se em objetos mais complicados. Rhodan procurou imaginar a dificuldade que um telecineta devia experimentar para trabalhar com os complicados comandos eletrônicos da comporta de ar, e isso de tal maneira que a escotilha interna e a externa ficassem abertas ao mesmo tempo. Não conseguiu formar uma idéia clara dessas dificuldades, pois não era telecineta.
Seria fácil adivinhar a evolução futura dos acontecimentos. Quando o inimigo tivesse aprendido a exercer uma influência telecinética sobre o armamento da Stardust-III, a batalha estaria praticamente perdida.
Só havia duas alternativas: a retirada ou um ataque fulminante. O inimigo teria de ser reduzido à impotência com tamanha rapidez que não tivesse tempo para causar maiores estragos.
Mas havia um problema: o inimigo não devia ser destruído quando conseguissem pôr as mãos nele. Possuía conhecimentos úteis que levaram a Stardust até ali. Se o inimigo fosse destruído, tais conhecimentos provavelmente estariam perdidos.
Rhodan lembrou-se de outros detalhes. Por exemplo, a esfera reluzente e a bomba que mandara sua barraca pelos ares. Por que o inimigo lançava mão de tais meios, se era um telecineta tão capaz?
Como deveria ser interpretado o comportamento daquela esfera? O campo de turbulência que fizera o câmbio girar representaria uma advertência ou um ataque? Se não fosse nenhuma das duas coisas, o que seria?
Será que o...
Uma luz verde acendeu-se junto à escotilha da comporta. Rhodan acionou o contato que se encontrava junto à sua mesa. A escotilha deslizou para o lado. Um dos homens de Tanner entrou. Abriu o capacete e atirou-o na nuca.
— Lloyd recuperou a consciência — disse o homem com a voz baixa.
Rhodan levantou-se.
— Está bem. Já vou. Movimentando-se com um máximo de silêncio, a fim de não despertar os dois homens que dormiam, fechou seu traje espacial, colocou o capacete e saiu em companhia do ordenança. Lloyd fora colocado numa barraca-depósito, que Rhodan levara naquela expedição por não saber quantos prisioneiros conseguiria capturar; ou então, quantos seriam os feridos que precisariam de isolamento.
Montaram uma cama confortável para Lloyd. Quando Rhodan entrou, este se encontrava de pé na barraca.
— Como vai? — perguntou Rhodan.
— Obrigado — respondeu Lloyd. — Já estou bem.
Rhodan sentou na beira da cama de campanha.
— Que idéia idiota foi essa?
Lloyd deu de ombros.
— Tive a impressão de que conseguiria muito mais se fosse deixado a sós. Por isso peguei o carro e saí por aí.
— Por pouco não vai muito mais longe do que desejava — ironizou Rhodan.
Lloyd virou-se ligeiramente e ficou andando pela barraca.
— É verdade. Mas tudo acabou bem.
— Escute, Lloyd! — disse Rhodan em tom sério. — Quero que uma coisa fique clara de uma vez por todas. Ei, o que é isso? Está ouvindo?
Lloyd continuara na sua perambulação. Estava parado na outra extremidade da barraca, de costas para Rhodan. A lâmpada que se encontrava na proximidade deste mal o iluminava.
Só se via a parte de trás da cabeça.
Rhodan espantou-se. Alguma coisa lhe chamou a atenção.
Mas de repente não teve tempo para pensar em mais nada. No mesmo instante em que Rhodan levantou-se com um salto vigoroso e abrigou-se atrás da mesa, Fellmer Lloyd virou-se abruptamente. Segurava um radiador de impulsos térmicos; o raio finíssimo atingiu exatamente o lugar em que um décimo de segundo antes Rhodan estivera sentado.
A mesa atrás da qual Rhodan procurara abrigo foi atirada para a frente. Rhodan saiu logo atrás; não corria o menor risco. O raio luminoso projetado pela sua arma atingiu Lloyd bem no peito. Este conseguiu erguer o braço, mas não chegou mais a apertar o gatilho. Caiu ruidosamente ao solo.
Rhodan esperou algum tempo antes de sair de detrás da mesa.
Passando por cima do cadáver, saiu da barraca e chamou os guardas.
Um dos homens de Tanner fazia o papel de médico. Antes de ligar-se a Rhodan pertencera a uma equipe sanitária; entendia alguma coisa, desde que não se tratasse de assuntos muito complicados.
— Examine-o! — ordenou Rhodan.
Àquela hora todo o acampamento estava de pé. Os homens não falavam muito. Estavam gelados de susto, porque um dos companheiros se atrevera a tirar contra o chefe.
Rhodan e Deringhouse permaneceram ao lado do enfermeiro, enquanto este examinava o cadáver.
— Você lhe aplicou uma injeção, não aplicou? — perguntou Rhodan.
— Uma só? — respondeu o enfermeiro. — Estava tão acabado que antes da quinta injeção nem sabia como se chamava.
Despiu o cadáver de Lloyd e colocou-o sobre uma mesa comprida e estreita.
— Corte-o em pedaços! — ordenou Rhodan.
O enfermeiro sobressaltou-se.
— O quê? Não sei fazer isso.
— Faça o que mando!
O enfermeiro engoliu em seco.
— Sim senhor.
Deringhouse fitou Rhodan de lado.
— Espera encontrar algo de extraordinário?
Rhodan fez que sim.
— Já viu Lloyd por trás? — perguntou.
Deringhouse não sabia o que fazer com a pergunta.
— Não — respondeu em tom hesitante.
— É uma pena. Na parte de trás da cabeça, Lloyd tinha uma pequena calva, do tamanho de uma moeda de meio dólar. Isso era bastante estranho, porque no resto da cabeça ostentava uma cabeleira bastante espessa.
Deringhouse estreitou os olhos.
— E daí?
Rhodan apontou para o cadáver.
— Este Lloyd não tem nenhuma calva. Toda a cabeça está coberta de cabelos.
O enfermeiro começou a trabalhar. Rhodan nunca vira um rosto mais pálido.
— O que houve? — perguntou.
— Não há sangue — disse o enfermeiro com a garganta apertada. — Nem uma única gota.
Rhodan pôs-se de pé e levantou a perna amputada. O corte já não parecia de uma perna. Um círculo de cerca de cinco centímetros de espessura, feito de um plástico que imitava a pele humana, envolvia um osso que brilhava na luz da lâmpada.
— É metal! — disse Deringhouse com um gemido.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Essa fera não passa de um robô.

4



Face às últimas ocorrências, ninguém mais duvidava de que algo de muito grave devia ter acontecido ao verdadeiro Fellmer Lloyd, que a essa hora já devia estar morto.
Alguém o aprisionara e o utilizara para fazer um robô que com ele se parecesse o suficiente para não ser desmascarado antes de matar o chefe dos intrusos.
Mas, contrariando todos os prognósticos, no dia seguinte, pouco depois do nascer do sol, Fellmer Lloyd desceu cambaleando uma das colinas situadas ao norte. Estava tão fraco das pernas que se deixou cair assim que percebeu que alguns dos homens haviam notado sua presença.
Ormsby, o enfermeiro que na noite anterior tivera aquele azar com o Lloyd robotizado, voltou a ter o que fazer. Acontece que desta vez o Lloyd que via diante de si tinha uma pequena calva na parte traseira da cabeça e, ao examinar seus ossos com uma sonda finíssima, extraiu cálcio verdadeiro.
Rhodan aguardou febrilmente até que pudesse interrogar Lloyd. Os apelos de Reginald Bell, vindos da Stardust-III, tornavam-se cada vez mais insistentes. O inimigo pusera a funcionar um dos radiadores de impulsos de calibre mais leve, queimando um sulco de mais de cem metros de comprimento na areia antes que alguém percebesse o que estava acontecendo e desligasse o aparelho.
Provavelmente Lloyd dispunha da chave do mistério. Rhodan decidiu suspender imediatamente as buscas e abandonar o planeta Vagabundo ao menos por algum tempo, exceto se Lloyd pudesse fornecer alguma indicação.
Ormsby lançou mão de todos os recursos de que dispunha. Pouco antes do meio-dia Lloyd estava em condições de ser interrogado. Rhodan foi formulando perguntas até que o mutante quase sucumbiu de cansaço. O que descobriu foi o seguinte:
A direção do cambio em que Lloyd viajava falhou de repente e o veículo caiu. Por algum tempo Lloyd ficou inconsciente. A primeira coisa que viu ao despertar foi o cadáver do rato-castor junto ao veículo; logo a seguir viu uma esfera reluzente que flutuava pouco acima do cadáver.
Desceu e procurou se comunicar com os ocupantes da esfera. Mas de repente esta disparou para o alto, como se tivesse sido puxada por um fio invisível, e logo a seguir, numa violência incrível, foi atirada de encontro à encosta da colina. Lloyd notou que ficou achatada.
Depois teve a impressão de que devia afastar-se do palco dos acontecimentos até que chegasse socorro. Armado unicamente com o radiador de impulsos, sentia-se indefeso diante do inimigo. Foi se arrastando entre as colinas; mas não havia andado muito longe quando alguma coisa que não vira chegar atingiu-o na cabeça e deixou-o inconsciente.
Ao despertar, viu-se no interior de uma espécie de pavilhão de fábrica. Era bem grande, mas o teto era incrivelmente baixo. Viu uma porção de máquinas completamente desconhecidas e aproximadamente uma dezena de seres de pequena estatura que as manipulavam. Depois de alguns minutos percebeu que esses seres deviam ser mecanizados — eram robôs. Não tinham a menor semelhança com um ser humano. Não dispunham de cabeça, mas em compensação ostentavam um círculo de braços e duas pernas que terminavam em pilões metálicos bem polidos.
Ele mesmo estava deitado numa espécie de maca e não podia se mover, embora não estivesse amarrado. Concluiu que deviam ter intoxicado seus nervos. Haviam retirado seu capacete espacial; todavia, conseguia respirar perfeitamente o ar daquele pavilhão, muito embora em sua opinião, cheirasse mal.
Depois de uns trinta minutos alguns robôs carregaram-no para uma saleta contígua ao pavilhão. Sentaram-no numa cadeira. Pensou que se tratasse de um detector de mentiras, até que levou outra pancada e voltou a desmaiar.
Quando voltou a despertar, viu-se em outra sala. Não havia ninguém por perto; seu capacete espacial estava jogado no chão. Colocou-o na cabeça e tentou abrir a porta da sala. Conseguiu. A porta dava para o pavilhão de fábrica que já havia visto. Os robôs não estavam mais por lá. Deu uma busca pelo pavilhão e encontrou uma saída. Atrás dela havia um elevador que conduzia para cima. Subindo pelo mesmo, descobriu que por todo esse tempo estivera em baixo da superfície do planeta.
O poço do elevador terminava no flanco de uma colina. Como ninguém o impedisse, Lloyd pôs-se a andar. Tentou entrar em contato com o acampamento através do seu transmissor de capacete, mas viu que o haviam destruído. Sem dúvida acreditavam que dessa forma conseguiriam segurá-lo.
Apesar de tudo resolveu arriscar. Depois de marchar a esmo durante algumas horas da noite acabou chegando ao acampamento, esgotado, faminto e com sede. Era bem mais provável que tivesse passado por outro lado.
Sim, era bem possível que conseguisse localizar o pavilhão de fábrica. E tivera oportunidade de estudar modelos de vibrações cerebrais.
Eis a surpresa:
— Já estudei inúmeros modelos — disse Lloyd. — Inclusive de gente completamente diferente de mim. Mas nunca vi coisa parecida com o que encontrei por aqui. Existem duas classes fundamentais de vibrações. A primeira revela uma disposição brincalhona fantástica, quase ridícula. Já a segunda exprime um ódio tão profundo que dá dor de cabeça. Ódio contra o intruso, ódio contra tudo que não é daqui. Em minha opinião os seres que irradiam simultaneamente as duas classes de vibrações só podem ser aleijados espirituais. A tendência de brincar e o ódio profundo são tão incompatíveis como...
Procurou duas concepções de seu arsenal mental que fossem tão incompatíveis como aquilo, mas não se lembrou de nada.
— Chegou a ver um desses seres em que se reúnem essas espécies de impulsos? — perguntou Rhodan.
Lloyd sacudiu a cabeça.
— Não. Só vi esses pequenos robôs.
— Ódio e tendência brincalhona, as duas sempre surgem ao mesmo tempo?
— Não. Quando estava deitado no pavilhão, só percebi o ódio. Quando tentei me afastar do câmbio, percebi o ódio e a tendência brincalhona ao mesmo tempo.
Com isso Rhodan já sabia qual era a próxima coisa a fazer. Pediu a Bell que mandasse mais cinco câmbios tripulados com quarenta homens bem armados. Assim que chegassem esses reforços, pediria a Fellmer Lloyd que procurasse localizar o pavilhão em que estivera preso. Depois resolveriam sobre o que deviam fazer.

* * *

A bordo da Stardust-III nada de importante havia acontecido. Apenas um dos geradores antigravitacionais gerara em alguns setores da nave campos de gravitação cuja intensidade ia até 15 g.
Alguns homens sofreram fraturas e comoções cerebrais. Demorou quinze minutos até que conseguissem desligar o gerador que se envolvera num campo gravitacional de elevada potência.
Crest e Thora estavam desesperados. O desespero provinha não só do medo, mas também do fato de que não estavam em condições de desistir do empreendimento e abandonar o planeta Vagabundo. Crest procurara convencer Rhodan, mas esse “terráqueo nojento e teimoso”, conforme dissera Thora numa irrupção de fúria, declarou que só daria ordem de retirada quando a situação fosse realmente desesperadora.

* * *

Ninguém acreditava que o inimigo não ofereceria resistência à sua penetração na base subterrânea. Rhodan dirigiu seu câmbio, no qual ainda viajavam Fellmer Lloyd, o major Nyssen, que comandara o contingente de reforços, e alguns tripulantes. Avançava com o máximo de cautela.
Lloyd orientava a viagem. Às vezes indicava a direção errada, mas aos poucos a coluna foi avançando.
A tarde já ia chegando ao fim, quando um incidente imprevisto lhe mostrou que se encontravam perto do objetivo.
O major Deringhouse, que comandava o segundo veículo, voava atrás de Rhodan, ligeiramente de lado. Rhodan mandara que todos se mantivessem na mesma altitude que ele. Para retardar o mais possível a sua descoberta, não se elevava a mais de um metro solo. Com isso reunia a liberdade de movimentos da viagem acima do solo com as vantagens da proteção que a proximidade deste lhe oferecia.
Deringhouse fez-se ouvir pelo telecomunicador.
— O pôr do sol será dentro de doze minutos. Acredita que...
Foi quando as fúrias do inferno ficaram às soltas. Rhodan já conhecia o fenômeno. Uma força brutal tirou-o do assento e procurou atirá-lo contra a parede. O mundo girava diante do pára-brisa.
Mas Rhodan estava preparado. Reunindo as últimas forças, manteve-se no assento e berrou para dentro do microfone:
— Pousar e descer dos carros! Procurem um abrigo!
Com um esforço desesperado sua mão conseguiu atingir o painel de controle. O gerador opôs toda sua potência à influência estranha e conseguiu retardar o movimento de rotação. Rhodan reverteu os jatos e fez com que o veículo, que continuava a girar, recuasse para além do cume da colina mais próxima.
Nem por isso a influência estranha cessou, porém tornou-se mais fraca. Rhodan obrigou o carro a descer e pousou-o na areia. Executou mais um giro e meio sobre seu eixo vertical antes que o atrito do solo absorvesse a energia irradiada pela arma desconhecida.
Rhodan e seus homens desceram, ainda um tanto confusos. Nyssen, cuja cabeça batera em alguma coisa, cambaleava um pouco.
O veículo de Deringhouse levara uma descarga menos potente. Deringhouse. reagira imediatamente, abrigando-se atrás da colina. Os outros câmbios nem sentiram o ataque, pois naquele momento apenas dois deles haviam saído de trás da colina. Tiveram tempo para fazer meia-volta e pousar.
Os membros da expedição usavam trajes transportadores arcônidas, que geravam campos protetores individuais. Além disso, estavam equipados com um dispositivo que permitia a adaptação de um capacete espacial. Com isso o traje transportador transformava-se num traje espacial completo.
Rhodan mandou que os homens avançassem até o cimo da colina. O sol estava no ocaso; quando chegaram ao cume só conseguiram enxergar com os visores infravermelhos.
Fellmer Lloyd encontrava-se na fileira mais avançada.
— Com os mil demônios! — praguejou baixinho. — Estas colinas são todas iguais, mas acredito que o pavilhão fica embaixo daquela ali.
— Em que ponto termina o poço do elevador? — perguntou Rhodan.
— A uns dez metros acima do pé da colina, e quase no centro do flanco da mesma.
Rhodan não conhecia as armas do inimigo, nem podia esperar que as mesmas lhe fossem apresentadas uma por uma. Reuniu cinco dos seus homens e avisou-os de que teriam que sair do seu abrigo e aparecer diante do inimigo.
— Também irei — disse para animá-los.
O major Nyssen trouxera trajes transportadores em número suficiente; havia pelo menos um para cada membro da expedição. Rhodan trocou o traje espacial que usava no interior do carro por um dos trajes transportadores, colocou o capacete e executou os controles prescritos.
Puseram-se a caminho.
Sem maiores precauções subiram a colina e desceram do outro lado. Rhodan ia à frente, os cinco companheiros seguiam-no em fila indiana. Dessa forma ofereciam um alvo menor ao inimigo que talvez estivesse escondido na colina mais próxima.
Rhodan colocou o filtro infravermelho no visor do capacete. Iluminou o terreno com um holofote infravermelho e procurou localizar qualquer indício de ter sido descoberto.
O indício não demorou a aparecer. Rhodan viu uma coisa escura aproximar-se num movimento desajeitado. Atrás dele alguém gritou em tom de pânico:
— Protejam-se!
Só Rhodan continuou de pé.
Seguiu-se um raio ofuscante e um estrondo que os microfones de capacete transmitiram numa altura suportável. A uns dez metros à direita de Rhodan abriu-se uma cratera do mesmo tamanho daquela que duas noites antes destruíra sua barraca.
A pressão desencadeada pela explosão devia ter sido tremenda. Na borda da cratera havia um grande montão de areia. Mas os campos protetores dos trajes que os homens envergavam desviaram a pressão.
Os homens levantaram-se.
— Quem foi o idiota que gritou protejam-se? — perguntou Rhodan.
— Fui eu — respondeu alguém. — O cabo Seaborg.
Seaborg levantou a mão, para que Rhodan soubesse de quem partiu a informação.
— Seu idiota! — gritou Rhodan num tom que era mais galhofeiro que zangado. — Procure se lembrar de que está usando um traje protetor que gera um campo energético individual. Se aparecer alguma coisa a que esse campo não puder resistir, não adianta procurar se proteger de outra forma. Continue marchando e não atrase mais a nossa viagem.
— Sim senhor! — respondeu Seaborg.
Prosseguiram. O inimigo mantinha-se quieto; ao que parecia, reconhecera a inutilidade de suas antiquadas granadas de mão.
Atingiram a depressão entre as duas colinas antes que começasse o drama propriamente dito.
Subitamente alguém soltou um grito estridente e prolongado. Ao se virar, Rhodan viu um dos cinco homens turbilhonando pelo ar.
Compreendeu imediatamente.
— Recuar! — gritou. — Para trás da colina!
Arrastou dois homens que demoraram a compreender. Já havia percorrido a metade do caminho quando o pavoroso campo rotacional atingiu outro homem e arrastou-o consigo. Ajudados pela reduzida força gravitacional, subiram a colina a largos saltos e conseguiram colocar-se em segurança antes que o inimigo pudesse agarrar a terceira vítima.
Os gritos estridentes dos dois homens carregados pelo ar soaram nos receptores de capacete. Desapareceram para o lado do sul. Rhodan procurou localizá-los por meio do holofote, mas não encontrou sinal deles.
Subitamente os gritos cessaram. Nos receptores de capacetes ouviram-se duas pancadas surdas; depois só houve silêncio.
— Tenente Tanner!
— Pronto!
— Pegue um dos câmbios e leve três homens! Procure os dois homens.
— Sim.
Tanner vira os dois homens sendo arrastados pelo ar. Conhecia a direção em que a arma inimiga os tangera. Calado e furioso pôs-se a caminho com três homens.
Rhodan descobrira o que desejava. Mas isso custara a vida de dois dos seus homens.
Os campos rotacionais que o inimigo sabia produzir atingiam qualquer inimigo, mesmo que este se envolvesse num campo protetor. Não podiam penetrar por esse campo; mas arrastavam-no, e o efeito era o mesmo. Quem usasse um campo protetor estava preso ao mesmo; quando este descrevesse um movimento de rotação, o indivíduo giraria com ele.
Teriam de atacar com recursos mais eficientes. Com os meios de que dispunha a pequena expedição não conseguiria subjugar o inimigo.
Rhodan arrastou-se para junto de Fellmer Lloyd. Y�AsN� �o ;color:black'>— Parece que são.... — principiou. Pôs-se de joelhos e olhou pelo binóculo. — ...castores! — completou. — É um bando de castores bem grandes.
Rhodan examinou os animais pelo binóculo. Eram cerca de trinta, conforme dissera a sentinela. Sentados sobre as patas traseiras, usavam as dianteiras para, de vez em quando, arrancarem um pedaço de vegetação e levá-lo até a boca.
Rhodan não concordou inteiramente com a comparação estabelecida por Deringhouse. A grossura da parte posterior do corpo e o rabo em forma de colher eram de castores. Mas as orelhas, enormes e redondas, e o focinho pontudo lembravam um camundongo superdimensionado. Isto porque o comprimento de seu corpo atingia cerca de um metro.
Pareciam inofensivos. Todavia...
— Tenente Tanner.
— Pois não.
— Traga Lloyd.
Tanner desapareceu e voltou dali a três minutos em companhia de Lloyd.
— Olhe isso, Lloyd! — ordenou Rhodan. — Veja se consegue ouvir alguma coisa.
Lloyd deitou no solo arenoso ao lado de Rhodan. Fixou por alguns instantes a massa escura formada pelo rebanho de animais. Depois fechou os olhos e baixou a cabeça.
Levou bastante tempo para chegar a uma conclusão.
— Não. — Disse finalmente. — Só vejo modelos confusos e sem sentido, como costumam ser encontrados em animais. Estes não são os seres que está procurando.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Obrigado, Lloyd. Volte à cama. Rhodan ficou deitado por mais algum tempo no chão arenoso em companhia de Deringhouse, Tanner e da sentinela.
Pela meia-noite, segundo a contagem de tempo do planeta Vagabundo, Rhodan voltou à sua barraca.
Estava absorto em pensamentos. A existência de formas mais elevadas de vida num mundo que era apenas aridez, frio e oxido de ferro irritava-o e inquietava-o, sem que quisesse confessá-lo a si mesmo, Com alguns movimentos automáticos acionou os contatos da comporta e tirou o capacete assim que a porta se fechou atrás dele.
Ficou refletindo se devia pedir a opinião de Crest. Mas o que Crest poderia saber que ele mesmo, Rhodan, ainda não soubesse? Depois do treinamento hipnótico intenso a que se submetera, possuía os mesmos conhecimentos de Crest e, já que os adquirira de vez e de forma antinatural e compacta, sabia coordená-los melhor que Crest, em cuja mente cresceram e se acumularam em virtude de uma evolução progressiva e orgânica.
Não. Crest não poderia ajudá-lo. Ele mesmo teria de encontrar a resposta.
Tirou o cinto com o estojo do binóculo infravermelho e colocou-o sobre uma pequena prateleira que pertencia ao mobiliário da barraca.
Alguma coisa perturbou-o quando colocou o estojo na prateleira; não sabia o que era. Voltou a mergulhar nos seus pensamentos e sentou na beirada da armação que lhe servia de cama.
Seus olhos caíram sobre a prateleira.

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