O aparelho desceu sobre o gelo da
Groenlândia, preparando-se para o pouso.
O coronel Kaats enviara a Allan D. Mercant
notícias inquietadoras vindas de Nova Iorque. Mercant, que não tinha mãos a
medir para dar conta do seu trabalho, hesitara antes de viajar para lá. Sua
fúria irrompeu sem rebuços quando Kaats se limitou a informar que a mutante Anne
Sloane, que fora enviada ao Extremo Oriente em virtude de suas faculdades
telecinéticas, havia desaparecido sem deixar o menor vestígio.
— Ora, Kaats. Por isso você não precisava
fazer-me percorrer quatro mil quilômetros.
— Preciso falar com você, Mercant. Será
que isso não basta? Será que um agente das forças armadas não é muito
importante, ainda mais quando se trata de um espécime insubstituível como um
mutante?
— Você devia dizer que se trata da defesa
interna e da polícia federal — corrigiu Mercant sem conter sua indignação. —
Vou dizer-lhe uma coisa, Kaats. Leve pelo menos um mês sem se preocupar com
Anne Sloane. Para descobrir alguma coisa, ela precisará de tempo. É uma
personalidade parapsicológica, mas ainda não compreendeu a seriedade da vida. Considero-a
uma simples diletante e por isso recomendei-lhe pessoalmente que agisse antes
com cautela excessiva que com muita precipitação. Espero que não se oponha a
que me retire imediatamente. É que lá em casa estou afogando nos papéis.
— Fique ao menos para tomar um uísque —
disse o coronel Kaats em tom conciliador. — Não permitirei que saia daqui nessa
disposição.
Depois de esvaziar o copo, Mercant disse:
— Quer saber de uma coisa, Kaats? Se minha
vinda aos Estados Unidos serviu para alguma coisa, foi por causa deste uísque.
Não me leve a mal, mas não me venha outra vez com um alarma falso, senão
ficarei furioso.
Allan D. Mercant ainda estava furioso
quando desceu na enseada do fiorde de Umanaque e preparou-se para pousar. O que
mais o aborreceu nessa viagem absurda aos Estados Unidos foi sua opinião
pessoal sobre o caso Anne Sloane, que nunca poderia ter manifestado diante de
Kaats. Anne era uma moça delicada, que não servia para trabalhar como agente. É
verdade que ele mesmo insistira junto a ela para que aceitasse a incumbência.
Mas agora sua opinião era outra.
Dois esquimós aproximaram-se num carro
para recebê-lo. Mercant agradeceu.
— Andarei até lá para respirar um pouco de
ar puro.
Pouco depois entrou no barracão onde se
lia em grandes letras o nome de uma firma, a Umanak Fur Company. Ainda se lia que essa firma se dedicava ao
comércio de peles. Tratava-se, evidentemente, de uma mentira. Seria uma
imprudência permitir que centenas de mercadores ficassem andando nas
proximidades da sede do Serviço Secreto.
Mercant tomou o elevador e foi ao décimo
quinto pavimento, contado de cima para baixo. Lá teve de fazer baldeação, já
que por questões de segurança nenhum dos quinze elevadores ia diretamente ao
último pavimento. Era ali, a três mil metros de profundidade, que ficavam os
compartimentos ocupados por Mercant. Os guardas postados nos corredores a nas
portas cumprimentaram-no. Entre as quinhentas e tantas pessoas que estavam de
serviço ali, nem dez conheciam todos os segredos das instalações. Só estes
podiam deslocar-se livremente, sem apresentar seus documentos.
Para chegar ao escritório de Mercant
passava-se por três ante-salas.
Uma vez lá, atirou-se na poltrona e
reclinou-se confortavelmente.
Tocou a campainha para chamar o ordenança.
O sargento O’Healey não demorou a entrar.
— Não houve nada de extraordinário na sua
ausência, coronel.
— Obrigado, sargento. Que horas são?
— Onze e dezessete, coronel. Mercant ficou
satisfeito, pois verificara que eram onze e dezesseis.
— Da manhã ou da noite? — prosseguiu.
— Da manhã, coronel.
Isso significava que era da noite. Com as
indicações errôneas o sargento se identificara satisfatoriamente.
— Muito bem. Diga ao capitão Zimmermann
que desejo falar com ele.
— No momento, o capitão não se encontra na
base, coronel. Esta realizando um vôo rotineiro de patrulhamento.
— Será que ele ainda acredita que o
inimigo virá rastejando pelo gelo, embora os agentes dos serviços secretos de
outros países já estejam oferecendo a porta de entrada desta base uns aos
outros?
— Coronel, não sei o que o capitão
acredita.
— Perguntarei a ele pessoalmente. Quero
que se apresente aqui dentro de dez minutos. Avise-o pelo telégrafo.
— Perfeitamente, coronel. O’Healey fez
continência e saiu, mas voltou dali a pouco.
— A ordem foi cumprida, coronel. O capitão
Zimmermann diz que talvez demore mais um pouco. Acaba de descobrir uma coisa
estranha e quer averiguar de que se trata.
— Que descoberta é essa? — perguntou
Mercant mal-humorado.
— Não me disse. Ao que parece ele mesmo
não sabia.
O’Healey obteve licença para retirar-se.
Assim que Mercant se viu só, abriu uma gaveta da mesa e ligou o
radiotransmissor. Sempre que recebia alguma informação incompleta como a que O’Healey
acabara de transmitir-lhe, preferia estabelecer contato direto.
— Alô, Zimmermann. Responda. Aqui fala o
coronel Mercant.
Nenhuma voz se fez ouvir na freqüência
sintonizada.
— Capitão Zimmermann! Responda
imediatamente! O que houve com você? E que conversa fiada foi essa?
Mercant aguardou a resposta, que demorou
mais de dez segundos. Zimmermann parecia falar com dificuldade. Sua mensagem
teve início com um gemido.
— Alô coronel. Devo ter ficado
inconsciente por um instante. Minha cabeça está zunindo e vejo faixas coloridas
diante dos olhos.
— Que diabo! O que houve?
— Não sei, coronel. Voltarei
imediatamente.
— Indique sua posição. Mandarei alguém ao
seu encontro.
— Isso não é necessário, coronel.
— Será que conseguirá sozinho?
— Com o piloto automático não haverá
problemas. O pior já passou. Dê ordens para que me forneçam um vetor de radar.
Com isso conseguirei.
— Como queira. Falarei com o pessoal do
controle de vôo e logo voltarei a ligar para a recepção. Entre em contato
comigo se houver alguma dificuldade.
— Naturalmente. Obrigado pelo auxílio,
coronel!
Mercant desligou e falou pelo interfone
com o controle de vôo.
— Tenente, forneça um vetor de radar para
a aterrissagem do capitão Zimmermann. E verifique sua posição atual. Você
conhece a rota dele.
— Providenciaremos imediatamente, coronel.
Dali a pouco veio a informação de que Zimmermann
sobrevoava o litoral norte perto de Proven e seguia a rota su-sudoeste. Parecia
ter o avião sob controle.
O capitão Zimmermann realizou o pouso sem
maiores problemas. Dirigiu-se imediatamente ao último pavimento, onde foi
recebido por Allan D. Mercant.
— Capitão Zimmermann reportando, coronel.
Peço desculpar o atraso. Devo ter entrado numa zona de baixa pressão. De
qualquer maneira o avião sofreu uma repentina aceleração, o que fez com que
minha cabeça caísse para trás. Devo ter ficado inconsciente por algum tempo.
— Deixe ver.
Mercant examinou a ferida.
— Isso está feio, capitão. Vá
imediatamente à enfermaria para que cuidem da ferida. Pelo que vejo, ainda se
encontra no pleno gozo das suas faculdades. Portanto, antes de se retirar
diga-me que descoberta foi essa sobre a qual falou com O’Healey em termos tão
vagos?
Enquanto proferia estas palavras, Mercant
foi surpreendido por um choque violento. Ao examinar o ferimento, ele se
colocara atrás de Zimmermann e, com a ajuda de sua pouco desenvolvida capacidade
telepática, captou a impressão de um pensamento. Um pensamento que assustou-o
profundamente. Por sorte, Mercant era dotado de uma fantástica presença de
espírito. Um homem que num espaço de poucos anos conseguiu galgar o lugar de
dirigente do Conselho Internacional de Defesa deve ser dotado de uma capacidade
de reação extremamente rápida.
Ao captar a idéia mortífera de Zimmermann,
iniciara a frase com que aconselhara o capitão a que se submetesse a
tratamento. Conseguiu prosseguir sem qualquer interrupção perceptível.
— Que descoberta, coronel? Ah, sim, isso
foi um gracejo.
— Quer dizer que se permitiu um gracejo
comigo? — perguntou Mercant, que ainda se encontrava atrás do capitão, que
continuava sentado. Na situação em que se achava não estava disposto a desistir
dessa posição vantajosa.
— O gracejo foi dirigido ao sargento,
coronel. Não podia imaginar que ele o transmitisse ao senhor.
— Zimmermann, que concepção estranha o
senhor tem da organização dos nossos serviços. Enquanto realiza um vôo de patrulhamento
para proteger a base, permite-se gracejos de mau gosto. Vamos lá, diga logo: o
que viu?
— Nada, coronel.
— Fique sentado, capitão! — ordenou Mercant
em tom enérgico, quando Zimmermann fez menção de levantar-se.
Mercant procurou concentrar-se ao máximo.
Há algum tempo, lera sobre um funcionário de banco australiano que graças às
suas faculdades telepáticas conseguira evitar um assalto. Há muito descobrira
capacidades semelhantes em sua própria pessoa e começara a compreender o que
significava poder “enxergar o coração” do próximo nos momentos críticos. A esta
hora estaria disposto a sacrificar dez anos de sua vida se pudesse
transformar-se num telepata de verdade. Mas nesse terreno não passava de um
principiante. Não sabia como reconhecer com clareza o pensamento integral de
uma pessoa. Não sabia reconstituir a frase que o outro pensara; apenas percebia
o essencial.
Não poderia haver algum mal-entendido? Por
que Zimmermann teria a idéia de matá-lo? Não havia dúvida de que o capitão
pensava em matar. E o desejo de matar tinha por alvo a pessoa de Allan D.
Mercant, chefe do Conselho Internacional de Defesa. Ainda haveria alguma
dúvida?
Mercant olhou por cima do ombro de seu
interlocutor e viu a arma no coldre. Logo abandonou a idéia de apoderar-se dela
num gesto rápido. Zimmermann, que pensava em matar, devia ter suas atenções
concentradas sobre a arma e se anteciparia a Mercant, que lhe era inferior em
força física. Mercant precisava de sua arma, que ficava na gaveta inferior da
direita da mesa, junto ao aparelho de rádio.
Num confronto com armas iguais Mercant
levaria vantagem, já que o capitão não poderia imaginar que seu adversário
estava prevenido. Mas antes de colocar-se nesta situação, teria que se arriscar
durante cinco ou seis segundos, ao abandonar o lugar atrás de Zimmermann. Ao
fazê-lo, proferiu palavras que aguçassem a curiosidade do outro e levaram-no a
hesitar, conforme esperava.
— Vou dizer-lhe uma coisa, capitão.
Acompanhei sua palestra com O’Healey e gravei-a em fita. Ouvi mais uma coisa e
gostaria que o senhor me desse explicações a respeito. Acontece que tenho a
impressão de que seu comunicado não foi nenhum gracejo. Como explica isto?
— O quê?
A marcha arriscada em torno da mesa
começou. Zimmermann foi-se virando na poltrona para ficar de frente para seu
interlocutor. Dali a pouco os dois estavam sentados um diante do outro. Entre
eles ficava a enorme mesa. Zimmermann fora vencido pela curiosidade. Não
atirou; esperou.
Mercant ligou o aparelho e no mesmo
instante pegou a pistola. Sentiu-se seguro e desligou o aparelho.
Zimmermann ergueu-se sobressaltado.
— Por que desligou? Quer bancar o
misterioso, coronel?
— Calma, capitão! Quero fazer-lhe mais uma
pergunta. O que espera ganhar matando-me?
Essa pergunta pôs fim ao diálogo. Deixou o
capitão Zimmermann tão perplexo que ele não conseguiu controlar mais os
movimentos de seu corpo. Sentiu-se traído e procurou levar avante seu projeto
através de uma reação precipitada.
Num gesto rápido arrancou a pistola do
coldre. Mas antes que pudesse colocá-la em posição de atirar, já era tarde. Seu
adversário — para falar em termos estratégicos — encontrava-se na linha
interior. Enquanto Zimmermann teve de executar um movimento complexo antes de
poder atirar, Mercant apenas precisava pressionar o gatilho.
O corpo do capitão Zimmermann caiu
molemente ao chão. Antes que pudesse executar seu plano, estava morto.
* * *
O que se seguiu nunca acontecera em todos
os anos decorridos desde a criação do CID. O sargento O’Healey entrou correndo
sem que tivesse sido chamado e também sacou uma pistola. Ao ver o chefe são e
salvo, conteve-se. O morto que se encontrava no chão representava um mistério
para ele.
— O que aconteceu, coronel?
— Acabo de matar o capitão Zimmermann. Dê
o alarma! Eu mesmo tomarei as providências para o bloqueio.
O’Healey fez continência e saiu. Dali a
alguns segundos as sereias uivaram em todos os pavimentes.
Mercant voltou à mesa e tirou o microfone
da gaveta em que se encontrava o aparelho de rádio.
— Aqui fala Mercant. A partir deste instante
toda a base se encontra em estado de exceção. Ordem dirigida à Companhia de
Vigilância do tenente Houseman: bloqueiem todas as saídas. Exerçam uma
vigilância rigorosa sobre os poços dos elevadores. Todas as pessoas que se
encontram na base devem dirigir-se imediatamente aos seus locais de trabalho ou
de moradia. Os membros das delegações de países amigos são solicitados a
reunir-se no hotel do pavimento superior. Posteriormente fornecerei outros detalhes.
Peço que o coronel Cretcher e o Dr. Curtis compareçam ao meu gabinete.
Obrigado.
Pouco depois o coronel e o médico entraram
juntos. O Dr. Curtis aproximou-se de Zimmermann.
— Doutor, queira examiná-lo para verificar
se está morto.
— Será que ainda precisa de uma
confirmação?
Mercant fez que sim.
— Preciso. Quero que tudo seja feito
segundo as normas.
— Acho que aqui não se pode falar em
cumprimento de normas — disse Cretcher. — Foi você que matou o capitão?
— Não quis que ele me matasse.
— Quer dizer que você afirma ter sido
atacado pelo capitão Zimmermann. Queira desculpar minhas palavras, coronel.
Existem testemunhas que possam confirmar que você agiu em legítima defesa?
— Queira desculpar de sua parte se lhe
falo sem rebuços, Cretcher. Neste momento você não está desempenhando as
funções de acusador. Eu o chamei para ajudar-me a esclarecer os detalhes. O que
sei sobre a cena que se desenrolou entre mim e Zimmermann é muito pouco. Ele
tentou atirar contra mim e eu me antecipei. Os fatos são estes. Preciso
conhecer os motivos que levaram um dos elementos de maior confiança de que
dispúnhamos a tentar um ataque desses. O comportamento de Zimmermann é tão
absurdo que logo faz surgir a suspeita de uma conspiração. Foi por isso que
decretei o estado de emergência. Teremos de adotar medidas prontas e radicais
se apurarmos que neste quartel-general existem, além de Zimmermann, outras
pessoas que querem me eliminar e destruir nossa organização.
Mercant dirigiu-se ao médico.
— Você acaba de constatar a morte de
Zimmermann, doutor Curtis. Acho que não pode haver a menor dúvida sobre a causa
da morte. Todavia, quero pedir-lhe que examine a cabeça do morto. Vi uma ferida
estranha, sobre cuja origem o capitão forneceu uma explicação nada convincente.
Curtis examinou a ferida e disse:
— Alguém deve ter desferido um golpe muito
forte contra a cabeça de Zimmermann. Foi um golpe vindo de cima, na vertical.
Que diabo, coronel, você não o matou a tiro?
— O que quer dizer?
— Você o matou a tiro, não a pancada e...
— Há quanto tempo foi produzida a ferida,
doutor? Queira verificar.
— Há meia hora mais ou menos.
— Há meia hora o capitão ainda se
encontrava fora desta base, pilotando seu avião. Há muitas testemunhas que
podem confirmar isso.
— Não compreendo. Não percebeu nenhum
sinal de fraqueza em Zimmermann? Se os conhecimentos que adquiri não me
enganam, o golpe no crânio já deve ter sido mortal.
— Nesse ponto o senhor está enganado.
Zimmermann estava bem vivo ao entrar aqui. De qualquer maneira seu diagnóstico
é muito interessante. Estou interessado em saber como e onde o capitão foi
morto da primeira vez e como conseguiu manter-se vivo com uma ferida dessas.
Vamos dar uma olhada no seu avião. Queiram acompanhar-me.
O aparelho usado por Zimmermann era um
avião para quatro passageiros. Mercant, Curtis e Cretcher puderam acomodar-se
confortavelmente nele.
— Este é o assento do piloto — disse o
chefe. — O capitão afirmou ter entrado numa área de baixa pressão. Com isso o
avião sofreu uma aceleração repentina e fez com que sua cabeça fosse atirada
para trás. Acontece que não vejo nenhum lugar em que possa ter batido.
A resposta era evidente. Zimmermann
mentira. Atrás dele havia o assento número três e, para bater com a cabeça no
teto da cabina, o capitão teria de levantar-se.
— Além disso, haveria manchas de sangue —
disse Cretcher.
Mercant mandou chamar a sentinela do campo
de pouso.
— Qual foi o avião que o capitão
Zimmermann usou hoje?
— Foi este, coronel.
— Obrigado. É só isso. Acomodem-se,
cavalheiros. Voltaremos a percorrer o trecho.
Mercant decolou e tomou o rumo norte,
seguindo o litoral oeste.
— O comportamento do capitão durante o vôo
foi muito estranho — disse Mercant. — Quando mandei pedir que voltasse, falou
numa estranha descoberta. Pretendia verificar melhor. Depois disso levou algum
tempo sem responder. Quando voltou a estabelecer contato disse ter estado
inconsciente. Isso deve ter-se passado ao norte de Proven.
Depois de ter sobrevoado Proven, Mercant
desceu para oitocentos metros. Pediu a seus acompanhantes que participassem
intensamente da observação ótica.
O ar estava límpido e não havia vento. Se
houvesse qualquer vestígio, este ainda devia estar bem visível, pois ainda não
se passara uma hora. Pouco depois Cretcher anunciou uma descoberta.
— Olhe, Mercant! Ali há um rastro de
aterrissagem. E há uma mancha redonda logo ao lado. O que será aquilo?
Mercant fez uma curva e voltou. Desceu
para cem metros. A mancha redonda era um objeto semi-esférico. Parecia-se com
os iglus dos esquimós. Só que era totalmente preto. Via-se nitidamente o rastro
de aterrissagem. Não havia dúvida de que fora produzida pelo avião de
Zimmermann.
Aterrissaram perto do iglu preto. Mercant
chegou lá antes dos outros e pôs a mão no objeto.
— É de metal. Que coisa estranha! Quem
iria construir um cogumelo destes em pleno Ártico? E olhe que não há janela,
entrada, nem emenda de solda. Que lhe parece, Cretcher?
— É uma coisa estranha.
Mercant bateu no material desconhecido,
que designara vagamente como metal. Ouviu-se um som surdo.
Mercant voltou a bater.
— Dêem alguns passos para trás. Isso não
tem porta. Apesar disso vamos entrar. Quero saber a quantas ando.
Cretcher seguiu seu exemplo. Abriram fogo
contra o cogumelo. Mas o material não cedeu.
— Assim não adianta. Vou pegar uma carga
de explosivo no avião.
A carga de explosivo resolveu.
A semi-esfera preta foi erguida de um lado
com a pressão e tombou. Embaixo dela encontraram um buraco na neve... e um
corpo esfacelado. O corpo estava nu. Curtis pegou um membro, que poderia ter
sido um braço. Mas não se parecia com aquilo que em nosso planeta se entende
por braço.
— Tem seis articulações — murmurou o Dr.
Curtis, que parecia fascinado. — Este ser vem de um outro mundo. Está morto e
dificilmente poderemos reconstituí-lo. Mas não há dúvida de que se encontrou
com Zimmermann. O que vamos fazer, coronel?
— Levem tudo que puderem reunir. Receio
que Rhodan não saiba de nada sobre este monstro. Tanto mais interessado deve
ficar. Acho que este é o começo da invasão que há semanas enche o mundo de
pesadelos.
6
Nagasaki, Japão.
No Estádio de Kashiri estavam reunidas
quarenta mil pessoas que desejavam assistir ao jogo final do campeonato
japonês. Sobre as tribunas pesava um calor sufocante e a expectativa quanto ao
resultado do campeonato.
No bloco F instalaram-se dois homens que
traziam aparelhos bem complicados no bolso. Estavam sentados a mais de
cinqüenta metros um do outro, mas assim mesmo mantinham-se em contato
ininterrupto. Os instrumentos de captação de ondas cerebrais trabalhavam quase
sem ruído. O leve zumbido que emitiam era abafado pelo vozerio das quarenta mil
pessoas.
Dada a partida para o jogo, no gramado
passaram a desenrolar-se acontecimentos que não interessavam a Tako Kakuta nem
a Reginald Bell.
Apesar de tudo, os localizadores de mutantes
de Rhodan haviam combinado não despertar a atenção dos presentes. Fingiam uma
certa atenção e executaram um acompanhamento puramente ótico da bola, embora
não houvesse a menor participação interior.
Subitamente Bell recebeu uma notícia de
Kakuta. Os minirrádios que portavam eram verdadeiras obras-primas da mecânica
de precisão. À primeira vista os emissores pareciam resumir-se em duas chapas
de plástico sobrepostas, entre as quais, comprimidos ao máximo, estavam todos
os elementos técnicos. Ambos traziam os emissores na parte interna da gola da
camisa, onde eram capazes de transmitir uma fala quase cochichada, por meio dos
ultra-sensíveis microfones de laringe. Os receptores localizavam-se no interior
do ouvido, onde ocupavam o lugar equivalente a um chumaço de algodão.
— Um exemplar extraordinário de cérebro —
soou o comunicado de Tako. — A 33.000 angstrom verifica-se uma estranha
superposição. O que acha?
— Isso tem um valor extraordinário, Tako.
Ainda que se queira considerar a excitação anormal dos espectadores, uma
freqüência desse tipo afasta-se completamente dos padrões. Pegou a coordenada
do lugar em que se encontra?
— Já anotei.
— Muito bem. Espera até que eu também
tenha completado a operação.
Reginald Bell trabalhou com uma das mãos
no bolso. A antena localizadora do seu eletromagnetoscópio, que não era maior
que um dedal, fez deslizar seus raios sobre as pessoas reunidas no bloco F.
Como Bell já conhecia a anomalia, o serviço tornou-se mais fácil. Seu receptor
foi regulado para 33.000 angstrom e reagiu automaticamente quando o raio
atingiu o corpo que irradiava essa freqüência.
— Minha coordenada já foi estabelecida,
Tako. Pela disposição dos assentos é de 135 graus, sete minutos e trinta
segundos.
— Obrigado. Minha coordenada é de 46 graus
e doze minutos exatamente. Faça o favor de calcular a posição.
Tako e Bell realizaram seus cálculos
independentemente um do outro e conferiram os resultados. Em ambos os casos
indicavam o lugar no 844 do bloco F.
— O.K. — disse Bell. — Irei até a entrada
principal. Ainda faltam vinte e cinco minutos até o fim do primeiro tempo do
jogo.
— Muito bem — respondeu Tako Kakuta. —
Cuide do comando robotizado.
O programa de ação fora estabelecido
antecipadamente em todos os detalhes. Através das numerosas conquistas técnicas
dos arcônidas já se conseguira localizar o presumível mutante. Durante o
intervalo, Kakuta passaria pela fileira onde ficava o lugar no
844. Para evitar qualquer engano, o japonês preferia olhar seu patrício de
perto.
Tratava-se de um jovem simpático de cerca
de vinte e cinco anos.
De passagem, Tako ainda bateu uma
fotografia do homem. Depois dirigiu-se à entrada, passando pela outra
extremidade da fileira. Do lado de fora encontrou-se com Reginald Bell.
— Tudo O.K. Aqui está a fotografia do
homem. Os robôs estão preparados?
Bell fez que sim. Guardou a fotografia.
Quando o jogo terminou, o homem do lugar no
844 saiu pela direita, onde Bell o aguardava. Estava acompanhado de dois
amigos. Por isso os mutantes precisariam ter paciência. Lá fora se encontrava,
em meio a milhares de veículos, o carro-robô, cujos instrumentos de localização
haviam sido regulados para o mutante. Os homens visados entraram num carro que
se encontrava a grande distância. Com o tráfego intenso não era possível
segui-lo de perto. Teriam que depender do localizador de ondas cerebrais.
Bell e Tako comunicaram-se pelo rádio.
Kakuta procurou aproximar-se de Reginald Bell em meio à multidão que se
comprimia.
— É aquele carro vermelho. Está vendo?
— Tão depressa não chegaremos lá. Os robôs
estão muito para trás. Pegue seu carro, Bell. É o mais certo.
— Antes que eu consiga sair dali aqueles
rapazes estarão longe.
— Um momento. Estão indo para a direita,
em direção à rodovia norte. Procure avançar depressa. Ultrapasse sempre que
puder e procure grudar-se no vermelho. Será fácil reconhecê-lo. Eu pego um
táxi.
— Que tolice! Isso é muito demorado. Tako
limitou-se a fazer um gesto.
— Recuperarei o tempo. Não se preocupe.
Mantenha contato comigo. Conversaremos enquanto seguimos nosso homem.
Separaram-se. Reginald Bell ocupava um
lugar mais favorável em meio à fila de automóveis que se estendia por vários
quilômetros.
O carro-robô seguia-o a uma distância de
várias centenas de metros. O veículo não chamava a atenção dos transeuntes
porque seus vidros polarizados não permitiam enxergar o interior.
Tako, no seu táxi, ocupava a posição mais
desfavorável. Pediu ao motorista que se apressasse. Mas nas condições em que se
desenvolvia o tráfego não se podia fazer muita coisa.
Depois de uma perseguição de quinze
minutos chegou o momento em que o japonês teve de intervir.
— Pararam — anunciou Bell. — Prossegui no
meu carro. Ao que parece estão entrando num restaurante que fica numa esquina à
direita do primeiro cruzamento.
— Conheço o local — respondeu Tako. —
Volte. Vamos nos encontrar ali mesmo. Instruções ao comando robotizado:
continuar de olho no carro vermelho e estacionar perto dele.
Tako Kakuta sabia que seu táxi levaria
pelo menos quinze minutos para chegar ao local indicado por Bell. Preferiu não
mais insistir com o motorista para que se apressasse. Sem dizer uma palavra,
colocou no assento traseiro uma recompensa generosa de cinqüenta ienes e
concentrou-se a fim de realizar uma teleportação para a toalete do restaurante,
lugar que conhecia perfeitamente.
O motorista de táxi ficaria dando tratos à
bola pelo resto da vida para descobrir como seu freguês desaparecera de
repente. O que lhe importava era que não saíra prejudicado.
O corpo de Kakuta passou ao estado
energético e voltou a materializar-se no lugar em que se concentraram seus
pensamentos. No momento em que entrou no restaurante também chegou o homem do
lugar no 844 com seus amigos. Não foi difícil encontrar uma
mesa próxima à sua. Quando Bell entrou, o maior problema já estava resolvido.
— Vamos tomar um drinque para celebrar.
Conseguimos chegar perto do nosso homem.
Beberam. A espera não foi desagradável. O
resto do trabalho seria executado pelos robôs.
Dali a três horas os três amigos se
separaram. O mutante morava bem próximo dali. O nome escrito na porta de sua
casa era Tama Yokida.
Quando já havia escurecido alguém tocou a
campainha. Sem desconfiar de nada, abriu a porta. Não havia ninguém.
Sobressaltou-se com um ligeiro chiado. Mas quando desconfiou do perigo, já era
tarde. Respirou o narcótico e perdeu os sentidos. Algumas figuras de metal e de
plástico carregaram-no para um automóvel e saíram em disparada.
Enquanto o comando robotizado executava o
seqüestro do mutante Tama Yokida, agindo silenciosa e impessoalmente, Kakuta e
Bell prosseguiam na busca de outras pessoas apropriadas aos seus objetivos.
Para encerrar sua atuação no Japão adquiriram dois lugares dispendiosos nos
camarotes do Teatro Metrópole. Envergando trajes a rigor, compareceram ao
espetáculo de gala.
Quando chegou a hora do primeiro
intervalo, já haviam descoberto três pessoas com um perfil extraordinário de
ondas cerebrais. Acontece que, por questões de segurança, só podiam cuidar de
uma pessoa de cada vez. Por isso escolheram a pessoa que apresentava o desvio
mais acentuado da freqüência normal das ondas de pensamentos humanos.
A primeira suspeita de ser mutante era uma
jovem chamada Ishi Matsu. Um cavalheiro a acompanhou até a casa. Ali, o comando
robotizado fez com que chegasse à porta. Foi seqüestrada pouco depois da
meia-noite.
Enquanto isso acontecia, Reginald Bell e
Tako Kakuta estavam no seu quarto de hotel, fumando e tomando conhaque. Fizeram
um balanço de suas atuações.
— Conseguimos doze mutantes. Rhodan pode
dar-se por satisfeito. Só pediu dez. Voltemos a verificar a lista. Temos André
Noir, filho de um casal de franceses residente no Japão e Ralf Marten, filho de
pai alemão e mãe japonesa. Os outros são japoneses de verdade: Ishi Matsu,
Wuriu Sengu, Son Okura, Tanaka Seiko, Doitsu Ataka, Kitai Ishibashi, Nomo
Uatushin, Tama Yokida...
— São apenas dez.
— É verdade. Mas ainda temos Fellmer
Lloyd, que prova a tese de que as mutações não têm sua origem exclusivamente na
bomba atômica. E ainda Ras Tshubai, que fomos buscar na África. Com isso
completamos uma dúzia.
— Você é supersticioso? — perguntou Tako
de sopetão.
— Por quê?
— Porque penso no décimo terceiro homem.
Ainda temos dois dias.
Colocou um recorte de jornal sobre a mesa.
— Ah, é a história daquele alemão de
Munique. Para mim isso não passa de lorota — disse Reginald Bell.
— Não acha que devemos suspender nosso
julgamento até examinar o caso? É claro que alguém pode chamar a atenção sobre
sua pessoa formulando prognósticos sobre o futuro e fazendo com que os jornais
os publiquem. Mas, ao que parece Ellert fez tudo para evitar que suas previsões
chegassem ao conhecimento do público. A publicidade corre por conta de um amigo
dele. A teletemporação nos abriria um campo de possibilidades inteiramente
novas. Sinto-me interessado pelas qualidades desse homem, isto é, pelas suas
qualidades inteiramente hipotéticas. Além disso, no caso, não precisaremos
recorrer ao seqüestro. Ao que parece Ellert manifestou o desejo de visitar-nos
no deserto de Gobi.
— Está bem — confirmou Bell. — Podemos
atender ao desejo desse sujeito.
7
Quando os primeiros raios do sol nascente
mergulharam no lago salgado de Goshum, ninguém desconfiaria de que o novo dia
iria trazer uma série enorme de grandes acontecimentos. Perry Rhodan programara
uma inspeção nos trabalhos que estavam sendo realizados nos pavilhões de
montagem. As primeiras peças já tinham chegado de Petersburg, e as colunas de
robôs haviam instalado os primeiros pavilhões.
Ao sair dos seus aposentos, que ficavam
fora da nave, Rhodan sentiu sua atenção atraída por um estranho tumulto. Um
grupo de quatro pessoas que gesticulavam animadamente aproximou-se dele. Parou.
Percebeu que em meio aos homens havia uma mulher, que parecia um tanto
acanhada.
— Bom dia, minha senhora. O que me dá a
honra?
Anne Sloane estava próxima a um estado de
prostração total.
— Bom dia, senhor Rhodan. Gostaria de falar
com o senhor. Eu queria...
— Por favor, fale! Não se constranja. Já
me conhece?
— Quem não conhece o senhor?
Num gesto desajeitado Anne Sloane tirou do
bolso uma fotografia que mostrava a tripulação da Stardust.
— Onde arranjou isso?
— Foi meu marido que me deu. Nunca
regressou. Foi o único que não voltou. Gostaria de falar-lhe por um instante. O
senhor foi amigo de Clark...
— Amigo de Clark? A senhora é a senhora
Fletcher?
Anne Sloane possuía o dom da telecinese,
mas faltava-lhe a vontade poderosa necessária a um agente secreto. Reunindo
suas últimas forças, confirmou com um movimento de cabeça.
— Ela está mentindo! — disse John Marshall
em tom ríspido.
Anne lançou um olhar apavorado para o
telepata. Desistiu de representar seu papel ambíguo. Seus olhos encheram-se de
lágrimas.
— Como pode dizer o que estou mentindo?
— Porque seu nome é Anne Sloane e nunca
foi casada. Porque foi gente como Mercant e Kaats que a mandou para cá a fim de
praticar a espionagem. Porque, se fosse um ser humano como qualquer outro,
nunca teria conseguido atravessar nosso anteparo energético. Você possui
capacidades telecinéticas, não é verdade?
Era uma dose excessiva de verdades
ministrada de uma só vez. Anne Sloane chorou sem o menor constrangimento.
— Cuide dela! — ordenou Rhodan. — Leve-a
ao meu gabinete.
Anne Sloane não ouviu outras perguntas
antes que se recuperasse. Depois disso até conseguiu sorrir. A xícara de café
que Rhodan mandara servir-lhe fortaleceu o inexplicável sentimento de segurança
que tomou conta dela.
Marshall cochichou alguma coisa ao ouvido
de Rhodan. Este confirmou com um movimento de cabeça e voltou a dedicar-se à
moça.
— Então Mercant teve conhecimento de seus
dotes e procurou colocá-la contra nós?
— Será que você ainda não sabe disso? Se
me lembro do que esse cavalheiro acaba de contar de improviso, percebo que nem
mesmo o agente mais esperto terá qualquer chance contra vocês. Não compreendo
como pode existir uma coisa dessas. O senhor Kaats vivia me dizendo que vocês
dispõem de algumas vantagens técnicas, mas de resto não passavam de um pobre
grupinho de gente abandonada.
— Somos um grupinho, mas não um grupinho
pobre. O cavalheiro que tanto a impressionou é John Marshall. É um ótimo
telepata. Aliás, Marshall acaba de me dizer que seu desejo de praticar a espionagem
nunca foi muito intenso. No íntimo você nutre o desejo de unir-se a nós.
— Será que isso não é uma desculpa
esfarrapada? — perguntou Anne com a voz insegura.
— Poderia parecer. Mas sabemos que esse
desejo é tão real como as instruções que lhe foram ministradas por Mercant.
Afinal, conhecemos seus pensamentos.
Anne fechou os olhos. O sentimento de
segurança abandonou-a. Embora não fosse nenhum telepata, Rhodan sabia o que se
passava no seu interior.
— Conheço a sensação que se apossa da
pessoa que sabe estar à mercê de um telepata. Um homem desses penetra nos
recantos mais íntimos de sua vida privada e isso a torna infeliz. Não é
verdade?
Anne confirmou com um movimento assustado.
— Esperava encontrar por aqui algo de
livre e grandioso. Mas isso não é liberdade.
Perry esboçou um sorriso conciliador.
— Posso restituir-lhe a liberdade, Anne.
Eu já a conquistei.
— A liberdade? Pode libertar-me de um
homem desse tipo?
Lançou um olhar de repreensão sobre John
Marshall.
— Posso dar-lhe uma barreira mental. Eu
lhe ensino. Trata-se de um misto de tecnologia e de estudos psíquicos. Levará
apenas algumas semanas para aprender.
— Quer que fique tanto tempo?
— Quero que fique para sempre. Se tiver
vontade.
Anne limitou-se a sorrir.
Rhodan dera ordens para que Marshall não
se aproximasse com demasiada freqüência de Anne Sloane, a fim de não deixá-la
mais chocada. O Dr. Haggard foi incumbido de providenciar um alojamento
adequado para a moça.
Perry Rhodan, o chefe da Terceira
Potência, foi caminhando sozinho em direção às linhas de montagem. Mas ainda
assim seus pensamentos não se concentraram exclusivamente na inspeção que
pretendia levar a efeito. Um novo problema apresentara-se ao seu espírito.
Teria de avaliar todas as possibilidades que este problema lhe oferecia.
Fora enviada por Allan D. Mercant, chefe
do Conselho Internacional de Defesa. Esse tipo de capacidade humana poderia
transformar-se em certa forma de decepção na vida de Rhodan. Já o considerara
uma figura de primeira ordem em seu grande jogo. Visitara-o no seu abrigo
situado sob os gelos da Groenlândia, recebera-o ali mesmo, no deserto de Gobi,
como embaixador do Ocidente, e sentira certo tipo de simpatia mútua. Mas
subitamente Allan D. Mercant manda alguém superdotado para praticar a
espionagem no Gobi...
Seus pensamentos foram interrompidos por
um sinal de alarma emitido pelo rádio de Crest.
— Que diabo! — resmungou Rhodan e acionou
o relê de seu traje altamente versátil, que imediatamente eliminou a gravidade
e o fez vencer os trezentos metros de volta. Pousou numa comporta de ar e
correu para a sala de comando em que Crest se encontrava.
— Localizou alguma coisa, Crest? Será que
já é a invasão? Já? Seria a hora mais imprópria que poderíamos imaginar.
— Ainda não há nada de definitivo. Apenas
localizei alguma coisa na órbita lunar. Acontece que desde a primeira tentativa
frustrada sabemos perfeitamente que um belo dia os habitantes de Fantan trarão
reforços.
Rhodan decidiu prontamente.
— Vamos verificar e atacar, desde que a
situação o permita. Não podemos permitir que a Terra corra qualquer risco. Não
podemos expor os homens nem os arcônidas. Permite que utilizemos sua nave?
Crest sentia-se dominado pela
personalidade de Rhodan, motivo por que interpretou a solicitação como uma
ordem. Confirmou com um simples movimento de cabeça, como quem se abstém de
exercer qualquer parcela de autoridade.
As sereias de alarma mobilizaram a pequena
tripulação da Terceira Potência. Rhodan transmitiu ordens que eram ouvidas em
toda a parte.
— Klein e Li, queiram comparecer a bordo.
Kosnow, você se encarregará de manter o contato pelo rádio. De resto os
trabalhos serão executados de acordo com a programação normal. A posição dos
robôs também permanecerá inalterada. Tudo pronto para a decolagem. Li e Klein,
apressem-se!
A nave esférica decolou na vertical,
depois que o anteparo energético foi retirado por alguns segundos. Depois de
ter deixado a superfície da Terra, o antígravo sincronizado imprimiu-lhe uma
aceleração de 50 g .
Levaram pouco mais de uma hora para atingir a órbita lunar. Só Rhodan e Crest,
graças ao seu treinamento hipnótico, estavam em condições de assimilar as
posições que o radar robotizado transmitia numa seqüência vertiginosa. A
capacidade de reação de um ser humano normal seria excedida de cerca de quinhentas
vezes. Não foi por menos que Klein pediu desesperadamente que reduzissem a
velocidade.
Rhodan fez-lhe a vontade, pois descobrira
que a nave inimiga se deslocava com uma velocidade muito menor.
Mais uma vez recorreu-se ao antígravo,
pois tornava-se necessário neutralizar a desaceleração de mais de 100 g . O inimigo não tardou a
surgir nítido na tela.
— Isso não é uma nave-fuso e a tripulação
não é composta de habitantes de Fantan — disse Li. — O que acha, Crest?
— Só posso dizer que se trata de uma nave
oval motivo por que não pode pertencer aos arcônidas. Nos últimos séculos nossa
raça sempre teve poucos amigos e muitos inimigos. Todas as probabilidades
indicam que nos encontramos diante de um inimigo.
Perry Rhodan colocou a nave dos arcônidas
em posição de ataque e acionou os raios de rastreamento.
— Essa gente tem uma cúpula energética.
Precisamos descobrir a potência dela.
Tratava-se de uma indagação puramente
retórica. Rhodan já estava interpretando o raio medidor. Depois de algum tempo
disse:
— Se transformarmos essa nave em energia,
colocaremos um novo sol em miniatura no céu da Terra. Não estou em condições de
formular uma previsão exata sobre as conseqüências meteorológicas para nosso
planeta, mas sem dúvida existe a possibilidade da ocorrência de enormes
catástrofes climáticas.
— A nave oval reforçou sua cúpula
energética porque nos aproximamos dela — explicou Crest. — Essa gente sabe
perfeitamente que assim se tornam inexpugnáveis.
— Nossa única chance reside no uso de
armas convencionais — disse Rhodan, falando quase de si para si. — Se
conseguíssemos desencadear uma explosão interna. Acredito que uma carga de dez
toneladas de TNT seria suficiente para eliminar o problema.
— Seu desejo é compreensível, mas irrealizável.
A não ser que se lembre de algum truque.
— Já conheço o truque — disse Rhodan em
tom áspero. — Só que para levá-lo a efeito devemos realizar alguns ataques
fictícios, para que esse pessoal pense que só conhecemos o ataque frontal.
A nave dos arcônidas deu um salto e dentro
de poucos segundos aproximou-se a quinze mil quilômetros do inimigo. Rhodan
disparou raios energéticos, cujo impacto na cúpula protetora produziu um belo
fogo de artifício, mas não causou nenhum efeito. Acontece que o ataque fictício
trouxe um resultado com que ninguém contava. A nave oval desapareceu
subitamente da tela. Não que se transferisse para o paraespaço ou criasse um
campo invisível por meio de uma curvatura artificial do espaço. Acelerou
simplesmente para mil metros por segundo e desapareceu no vazio, sob a forma de
um ponto que sumiu na amplitude do espaço.
O resultado foi um espanto geral. Nem
mesmo Crest conseguiu escapar a essa impressão.
— Já viu tamanho desempenho de um
mecanismo propulsor?
Crest sacudiu a cabeça.
— Afinal, nada sabemos sobre as novidades
que o progresso faz surgir diariamente no centro da galáxia durante nossa
ausência. Existem várias raças que seriam capazes de um desenvolvimento
tecnológico dessa ordem. E há outros detalhes que devem corresponder às
características da nave oval. Convém indagar ao cérebro.
Perry Rhodan dirigiu a nave para a Terra.
A idéia de ao menos ter espantado o inimigo deu-lhe esperança de ter ganho um
tempo precioso.
Pousaram e dirigiram-se imediatamente ao
compartimento em que se achava instalado o cérebro positrônico robotizado.
Mas o dia parecia ser de bruxaria. Kosnow
dirigiu-se ao grupo e disse que tinha um assunto importante a tratar com Perry
Rhodan.
— O que houve desta vez?
— Há alguém do outro lado da cúpula
energética que insiste em falar com o senhor. Chegou há meia hora com um avião
que regressou imediatamente. Avisou que não precisa mais dele, pois pretende
ser seu hóspede por muito tempo.
— O homem disse seu nome?
— Não, mas afirma ser amigo do senhor.
— Mande-o entrar e traga-o ao meu
gabinete. Deve ser vigiado rigorosamente.
Rhodan avisou que dali a meia hora se
encontraria com os outros junto ao cérebro robotizado. Após isso entrou em seu
gabinete, onde aguardou o visitante desconhecido.
Kosnow retirou a cúpula energética por
alguns segundos e mandou um carro robotizado até a fronteira. Quando se deparou
com o visitante misterioso, perdeu a fala por alguns segundos.
— Mercant! De onde vem?
— Diretamente da Groenlândia. Bom dia,
Kosnow. Como vai você?
O tom coloquial da fala de seu
interlocutor fez com que o russo se retraísse subitamente.
— Bem, obrigado, coronel. Queira vir
comigo. Rhodan está esperando.
— O que é isso? Será que encontrou uma
mosca na sua comida? Ou não suporta este tempo maravilhoso?
Kosnow manteve-se num silêncio obstinado.
Conduziu Mercant ao gabinete de Rhodan, onde mais uma vez se desenrolou uma
cena que era um misto de cordialidade e reserva. Apenas desta vez o próprio
Mercant assumiu um ar sério em meio à frase.
— ...perfeitamente, Rhodan. É claro que
não vim a passeio. Uma viagem para o Gobi custa um bom dinheiro e as normas
burocráticas exigem que apresente um bom motivo para obter o reembolso da
despesa. Por ocasião de nosso último encontro você se mostrou muito mais franco
e cordial. Não posso negar que compreendo a mudança. Digo-lhe isto para que
saiba que não jogo com as cartas escondidas. Está zangado comigo por causa da
história da senhora Fletcher, ou melhor, Anne Sloane, não é?
— É verdade — disse Rhodan laconicamente.
Mercant prosseguiu:
— Sabia perfeitamente que jamais poderia
confiar muito em Anne Sloane. Pelo menos não poderia confiar nela para a missão
que Kaats quis confiar-lhe. Se, com tudo isso, dei essa incumbência à moça, não
lhe deve ser difícil adivinhar para onde se inclinam minhas simpatias.
— Não me venha dizer que elas se inclinam
para o meu lado, Mercant. Hoje não estou com muita receptividade para
bajulações.
— Não leve tudo para o lado pessoal. Vim
para cá somente porque simpatizo com a Terceira Potência. E não vim por nenhum
motivo pessoal. Estou interessado tão-somente no bem-estar da humanidade. Vim
por estar convicto de que só você está em condições de repelir a invasão vinda
do espaço.
— E veio para ficar por algum tempo, não
é?
— Isso depende de você.
Já fazia tempo que Perry Rhodan não ouvia
palavras tão francas. Sentiu-se bem.
— Bem, veremos. Por enquanto quero levá-lo
ao seu alojamento. Depois conversaremos mais demoradamente. Agora peço que me
dê licença, pois tenho um encontro importante.
— Há pouco vi quando pousou com a nave dos
arcônidas. Não duvido que seu trabalho seja muito importante. Apesar disso peço
que me ouça mais um instante. Não foi por capricho que vim justamente a esta
hora.
Ao dizer estas palavras, Allan D. Mercant
colocou sua mala sobre a mesa e abriu-a. Rhodan não teve tempo para formular
qualquer objeção. Viu os membros estranhos que seu visitante trouxera dos gelos
da Groenlândia e percebeu imediatamente a importância daqueles fragmentos.
— O que é isso, Mercant?
— Bem que gostaria que você me dissesse.
Ou Crest. Encontramos bem ao norte do fiorde de Umanaque uma formação estranha,
parecida com um iglu. Abrimo-la com uma carga explosiva e encontramos os restos
deste ser estranho. Não é do nosso planeta.
Perry Rhodan dirigiu-se ao rádio e pediu
que Crest, Marshall, Haggard e Thora comparecessem ao seu gabinete. Pouco
depois surgiram os três homens. Thora não apareceu.
Depois de uma breve apresentação Allan D.
Mercant forneceu um relato minucioso das recentes ocorrências na Groenlândia. O
destino do capitão Zimmermann e os despojos guardados na mala provocaram um
enorme impacto. Ninguém duvidou de que o planeta Terra havia chegado a uma
encruzilhada do seu destino. Os olhares indagadores concentraram-se em Crest.
— Não há mais necessidade de formular
indagações ao cérebro robotizado, pois já sabemos de tudo. O capitão Zimmermann
não foi nenhum desertor ou traidor. Foi uma simples vítima desses seres.
— Não são habitantes de Fantan, são?
— Não. São seres muito mais perigosos e
traiçoeiros. O sinal de emergência desencadeado automaticamente pela destruição
de nossa nave deve ter concentrado as atenções de numerosas inteligências sobre
este setor do espaço. Devemos nos conformar com o fato de que a posição da
Terra tornou-se bastante conhecida entre os habitantes da galáxia. Algumas
raças, tangidas pela curiosidade, pela ganância ou pelo vandalismo, tentarão
invadir o sistema solar. Depois dos habitantes de Fantan chegaram os DI. Os DI
são criaturas de rebanho. Quando se avista um, deve-se contar com muitos.
— O que significa DI?
— Procurarei explicar com o exemplo do
capitão Zimmermann. O nome desses seres não pode ser expresso na linguagem dos
arcônidas, já que nos faltam vocábulos adequados. DI significa Deformadores
Individuais. Posso adiantar que esses seres se contam entre os inimigos mais
temíveis do nosso Império. Dispõem de uma qualidade inata que lhes permite
abandonar seu corpo em espírito e transferir-se a outro organismo. Seu ego pode
manter-se por muito tempo num outro ser e isso de tal forma que o eu é trocado
por esse tempo. O capitão Zimmermann deve ter-se encontrado com um ser desse
tipo nos gelos da Groenlândia. Quando compareceu ao seu gabinete, Mercant,
estava possuído pela vontade do DI. O corpo deste encontrava-se sob a cúpula
protetora que lhe pareceu tão misteriosa e serviu como prisão martirizante ao
espírito de Zimmermann.
— Que coisa horrível! — interveio o Dr.
Haggard. — Será que esse poder inconcebível dos DI está ligado a certas
capacidades metabólicas?
Crest sacudiu a cabeça.
— Você está pensando numa substituição
orgânica, não é? Acredita que haja uma trasladação total, inclusive do protoplasma?
Não é nada disso. Não há nenhuma deformação metabólica. A investidura de um
espírito estranho em nosso corpo já é um fenômeno demoníaco.
Não houve quem não concordasse com a
opinião de Crest. Mas Haggard continuou a desenvolver suas idéias. Subitamente,
afastou-se de Mercant. Ainda num movimento súbito segurou a pistola e apontou-a
para o visitante.
— Estamos conversando sobre os DI, mas
esquecemos que Mercant esteve com Zimmermann pouco antes de sua morte.
Crest compreendeu o raciocínio de Haggard.
Fez um gesto tranqüilizador.
— Guarde sua arma,
doutor. Os DI têm de partir do corpo deles para penetrar num corpo estranho.
Para realizar uma deformação têm de abrigar-se no seu próprio organismo.
Portanto, não há possibilidade de o DI ter passado do corpo de Zimmermann para
o de Mercant.
— E o que é feito do DI? Será que ele se
conformou com a morte de Zimmermann?
— Morreu tal qual o capitão. O retorno ao
próprio corpo requer um certo preparo espiritual. Quase diria que se trata de
uma concentração de forças. É este um dos poucos pontos em que podemos
encontrar uma compensação para nossa fraqueza.
— Quer dizer que ambos estão mortos? O DI
e Zimmermann?
Crest confirmou com um movimento de
cabeça.
Dali a pouco o debate chegou ao fim.
Mercant ainda ponderou que era bem possível que a deformação de Zimmermann não
fosse um caso isolado. Crest confirmou a possibilidade.
— É bem possível que a situação seja muito
mais séria do que pensamos. O exemplo de Zimmermann prova que os DI estão
realizando ataques isolados pelo menos há uns dois ou três dias. Devemos pensar
em um alarma geral dirigido a toda a humanidade. Cada homem deve vigiar seu
vizinho e reportar prontamente qualquer tipo de comportamento estranho ou
hostil.
— Sabe o que significa isso? — perguntou
Rhodan.
Crest fez que sim.
— Significa o pânico geral disseminado
entre os homens. Se encontrar um caminho adequado, recomendo-lhe que o use.
— Mais uma pergunta, Crest. Os DI precisam
realizar uma aproximação física para dar seus saltos espirituais, ou estão em
condições de vencer distâncias maiores?
— Operam de perto e de longe. Quando se
torna difícil atingir determinado indivíduo que se encontra em meio a outros,
chegam bem perto. Mas se a vítima se encontra num local isolado, conseguem
atingi-lo a partir de uma nave espacial que se encontra a milhares de
quilômetros de distância.
* * *
Uma hora depois.
— Tako acaba de anunciar sua chegada —
disse Rhodan, dirigindo-se a Mercant e ao Dr. Haggard, que ainda se encontravam
em seu gabinete. — Trazem treze mutantes.
— Mutantes? — perguntou Mercant, esticando
a palavra. Pelo modo de olhar percebia-se que não entendera nada.
— São mutantes destinados à Terceira
Potência. A tripulação de nossa base, ou melhor, a população de nosso Estado,
deverá manter-se reduzida por muito tempo. Por isso devemos substituir a
quantidade pela qualidade. Só as pessoas mais capazes podem ser recrutadas para
o serviço da Terceira Potência. Fundarei um exército secreto de mutantes.
Trata-se de uma tropa menor e menos vistosa que qualquer outra. Por outro lado,
porém, é mais rápida, forte e digna de confiança.
— O exército secreto dos mutantes —
repetiu Mercant, como se fosse o eco de seu anfitrião. Procurou pôr as idéias
em ordem. Apesar do impacto das impressões que recebera nas últimas horas,
conseguiu formar uma linha coerente de raciocínio, que em última análise se
fundava no seu desejo.
— Rhodan, eu o admiro! Suas palavras
poupam-me o trabalho de tomar uma decisão séria. Sinto que confia em mim.
Considere-me um dos seus.
— Obrigado, Mercant. Há muito desejo isso.
Depois de um aperto de mão, que haviam
omitido ao se cumprimentarem, voltaram a falar em Tako Kakuta. Quando começaram
a tirar as primeiras baforadas de um cigarro, ouviram a informação de que o
avião de transporte se preparava para pousar.
Por alguns segundos a cúpula energética do
território da Terceira Potência deixou de existir. O avião pousou. Tako foi o
primeiro a descer.
— Suas ordens foram cumpridas, Rhodan!
Temos doze mutantes a bordo. A disposição que prevalece entre eles não lhe é
muito favorável. A maioria pretende citá-lo perante a Corte Internacional assim
que se ofereça a oportunidade.
— Obrigado, Tako — disse Rhodan com um
sorriso significativo. Peça aos cavalheiros que desçam. Mas não procure
esconder nenhum deles. No seu primeiro comunicado você não falou numa dúzia,
mas em treze.
— O décimo terceiro vem da Alemanha. Bell
o trará num avião fretado. Sua chegada está prevista para hoje de tarde.
— Muito bem! Gostaria de ver os doze que
já chegaram.
O primeiro encontro de Rhodan com seus
mutantes foi muito menos dramático do que estes haviam previsto. Tomados de
indignação, apressaram-se em sair do avião e falavam em altas vozes. Mas a
demonstração de indisciplina logo cessou. À medida que os mutantes se
aproximavam de Perry Rhodan, silenciavam.
— Senhoras e senhores, tenho muito prazer
em cumprimentá-los como hóspedes da Terceira Potência — principiou Rhodan. —
Peço-lhes que desculpem a forma estranha pela qual lhes foi transmitido o
convite. Asseguro-lhes, porém, que nenhum dos senhores está sujeito à menor
restrição em sua liberdade pessoal. Poderão morar por oito dias nos alojamentos
mais confortáveis de que dispomos, sem que isso lhes acarrete qualquer despesa.
Nesses oito dias terão oportunidade de participar de um interessantíssimo
treinamento hipnótico, que terá por fim revelar suas verdadeiras capacidades
espirituais. Posso assegurar-lhes que pouco sabem sobre suas potencialidades.
Considerem o processo como uma forma de jogo espiritual de que participarão.
Daqui a oito dias estarei à disposição dos senhores e terei prazer em responder
a quaisquer perguntas que desejem formular. E então este avião estará preparado
para levá-los para casa, se assim desejarem.
Perry Rhodan ainda dirigiu um cumprimento
aos mutantes. Após isso entregou-os à equipe formada pelo Dr. Haggard, Dr.
Manoli e Marshall.
Rhodan aguardou seu amigo Reginald Bell.
Mas esse dia repleto de acontecimentos ainda não havia chegado ao fim. Na hora
do almoço receberam novo alarma expedido por Crest.
— A nave espacial dos DI voltou a
aproximar-se. Encontra-se na mesma órbita de hoje de manhã. Rhodan, você não
disse que dispunha de um truque?
Perry largou o talher e pôs-se de pé.
— Isso mesmo, disponho de um truque. E ai
da humanidade se ele não for bom. Alô, Tako! Compareça imediatamente à nave.
Decolaremos dentro de um minuto.
Perry Rhodan sempre fora um homem
extraordinário. Depois do treinamento hipnótico recebido dos arcônidas talvez
tivesse atingido um grau de genialidade inalcançável pelo comum dos seres
humanos. Mas naquele instante nem imaginou que serviço estava prestando a si
mesmo e à Terceira Potência.
A cúpula energética deixou de funcionar. A
nave esférica subiu na vertical. O anteparo voltou a fechar-se.
Aceleração: 50 m/seg. O velho jogo, o
sonho imorredouro da humanidade: vencer a distância que separa a Terra da Lua
em pouco mais de uma hora.
Ingressaram na órbita do satélite apesar
da formidável força centrífuga. Só depois de realizada essa manobra foi
acionada a energia de frenagem. As ordens e os movimentos de Perry Rhodan eram
breves e objetivos. Não desperdiçavam um suspiro.
Uma decisão estava presente ao espírito de
todos: eles ou nós!
Tako Kakuta, que recebera instruções
minuciosas, entrou na pequena nave de serviço, que não tinha mais de cinco
metros de comprimento, e manobrou em direção à comporta pneumática. Foi quando
chegou uma mensagem de rádio vinda do Gobi. Tratava-se de uma notícia desalentadora
expedida por Kosnow.
— Alô, Rhodan. Acabo de receber um pedido
de socorro de Bell. Está se aproximando num pequeno avião. Queixa-se de fortes
dores de cabeça e pede que o ajudemos. Diz que não consegue manter o avião sob
controle. O que devemos fazer?
— São os DI! — exclamou Crest.
— Transmita a mensagem de Bell pelos
amplificadores, a fim de que eu mesmo possa falar com ele.
— Alô, Bell. Está me ouvindo?
— Perry! Ajude-me. Não consigo pensar
mais. Não sei o que houve comigo...
Ordem de Rhodan dirigida a Tako Kakuta:
— Salte e tente a teleportação dentro de
dez segundos.
Resposta de Rhodan dirigida a Reginald
Bell:
— Defenda-se, Bell! Defenda-se. Não é
nenhuma dor de cabeça. É uma agressão espiritual dos invasores. Encontramo-nos
na órbita lunar e atacaremos num instante. Você me ouve, Bell? Responda!
— Perry! Não agüento mais! A dor é
insuportável. Minha cabeça está explodindo. Vou...
— Controle-se! Você é mais forte que eles.
Lembre-se do treinamento hipnótico dos arcônidas. Você tem uma vontade poderosa.
Não ceda! Se o fizer, estará perdido. Esses seres querem devorar seu eu. Controle-se,
Bell. Mais um minuto. Meio minuto. Daqui a pouco tudo passará...
Perry Rhodan não sabia se poderia cumprir
a promessa. Tudo dependia do êxito do seu truque, do golpe tático com o qual
pretendia derrotar os DI.
O ataque desfechado na manhã daquele dia
provara que nada se conseguiria com o uso da energia física aplicada do lado de
fora. A cúpula protetora dos DI era muito potente. Mas também o seria quando
não se sentissem atacados? Tudo dependia disso.
Depois de ter desprendido sua minúscula
nave da gigantesca esfera dos arcônidas, Tako Kakuta aproximou-se velozmente da
nave dos DI. A nave esférica realizou um ataque simulado e empreendeu uma
retirada aparente em direção à Terra.
A primeira etapa do plano de Rhodan foi
coroada de êxito.
Os DI não viram naquele ligeiro bombardeio
energético nenhum motivo para desaparecer precipitadamente. Havia um motivo
evidente para essa conduta. Realizavam uma agressão espiritual contra Reginald
Bell, que se encontrava a pequena altitude sobre o deserto de Gobi, e por isso
tinham de manter-se em sua posição atual.
Com isso abriu-se a possibilidade para a
teleportação de Tako.
Assim que a nave dos arcônidas se havia
afastado um pouco dos DI, a vigilância destes diminuiu. A nave de Tako era tão
pequena que não poderia ser localizada à primeira tentativa.
O japonês gastou a quarta parte de um
segundo para igualar a velocidade de sua nave à do inimigo. Distância para a
nave dos DI: sete mil quilômetros.
Foi então que saltou...
...e foi parar na sala de comando da nave
inimiga.
O segundo durante o qual os cinco
Deformadores Individuais que se encontravam presentes foram dominados pelo
susto bastou para acender a bomba. Tako voltou a teleportar-se para sua nave e
no mesmo instante presenciou a explosão da nave oval.
Muitos outros a presenciaram: a tripulação
da nave esférica, a base terrestre do deserto de Gobi e Reginald Bell, que
subitamente se sentiu livre dos incômodos que o atormentavam.
Aterrissou são e salvo com o visitante que
trazia da Alemanha.
* * *
Oito dias depois.
A notícia da nova vitória de Perry Rhodan
sobre uma nave espacial inimiga ocupou as manchetes em toda a Terra. A simpatia
pela Terceira Potência, que até então vinha sendo encarada com certa dúvida,
cresceu vertiginosamente.
Enquanto isso, no deserto de Gobi, foi
concluído um dos cursos mais estranhos da história da humanidade. Na sala de
conferências montada pelos robôs estavam reunidas todas as pessoas que se
encontravam no território da Terceira Potência. No rosto dos seqüestrados não
se percebia o menor sinal da indignação que os dominava uma semana atrás.
— ...e assim vou concluir, meus caros —
terminou Perry Rhodan. — Todos depositaram em mim uma confiança irrestrita, que
nunca ousaria esperar. Garanti que poderiam voltar para casa quando o
desejassem. É claro que, se resolveram ingressar no serviço da Terceira
Potência, terão direito a férias regulares. O bloqueio hipnótico não os deixará
cair na tentação de revelar quaisquer segredos aos que se encontram do lado de
fora. Peço-lhes que se levantem. Com a presente cerimônia ficam engajados pelo
resto da vida no exército secreto de mutantes da Terceira Potência, exército
que hoje, no dia de sua fundação, é formado de dezoito pessoas. Durante a
palestra que acabamos de travar, os senhores deram mostras de estarem cônscios
da importância histórica da instituição no contexto cósmico. Conhecem as
limitações da humanidade, que ampliamos ligeiramente com a primeira viagem da Stardust.
Também conhecem a enorme expectativa de que a humanidade se sente possuída
no limiar da era espacial. Sabem que dentro de pouco tempo penetraremos em
mistérios de que há poucos anos nenhum habitante de nosso planeta teria
suspeitado. Esse salto para a amplidão do espaço cósmico até mesmo no terreno
puramente psicológico representa um martírio para o espírito de nossa raça que
ainda se move em limites muito estreitos. Dependerá dos senhores o bom êxito da
tarefa de livrar a humanidade de terríveis pesadelos e de vencer o desafio do
cosmo. Muito obrigado!
Os participantes da reunião foram se
afastando. Perry Rhodan ficou aborrecido ao notar que Thora fora a primeira a
retirar-se.
— O que há com ela? — perguntou,
dirigindo-se a Crest. — Pensava ter me aproximado mais de sua pessoa. De
qualquer maneira nestes últimos tempos já se podia conversar com ela; chegou
mesmo a demonstrar alguns sentimentos. Mas há uma semana não fala uma palavra
comigo e me evita sempre que pode.
— Há uma semana? — disse Crest com um
sorriso benevolente. — Não está lembrado do que aconteceu há uma semana?
— Tivemos um dia muito quente. A invasão
dos DI, a visita de Mercant, o problema que houve com Bell...
— Até parece estar esquecido do começo
desse dia. Qual foi a primeira surpresa?
— Ah, sim. Foi miss Sloane. Não vá me dizer que Thora está com ciúmes.
— Pois é isso — disse Crest.
— Nesse caso perdôo tudo. Ver Thora com
ciúmes era a única coisa que faltava para completar minha felicidade.
Crest também saiu. Rhodan pensou que estivesse
só. Mas subitamente sentiu a presença de uma pessoa. Virou-se. Homer G. Adams
estava de pé bem nos fundos da sala. Uma figura de pigmeu com a cabeça enorme
que parecia pender para a frente. O ministro das finanças da Terceira Potência
fez um sinal. Parecia tímido.
— Então, Adams. A viagem o deixou cansado?
O homenzinho aproximou-se e sacudiu a
cabeça.
— Nessas suas máquinas uma viagem de Nova
Iorque ao deserto de Gobi não é nada, Rhodan. Mas há uma coisa que me preocupa.
Não vou brincar de esconder. Acontece que um bom financista não chega a ser um
mutante. Assim mesmo incorporou-me ao seu exército. Não terá sido um engano?
Perry sorriu. Parecia absorto nos seus
pensamentos.
— Diga-me uma coisa, Adams. Qual é o cubo
de 2.369,7?...
— 13.305.998.429,873.
— Calculou neste instante?
— É claro que não. Acontece que há poucos
dias o senhor formulou a mesma pergunta.
— E você guardou o resultado?
— Guardei — disse Adams, como se fosse a
coisa mais natural deste mundo.
— Pois bem — disse Perry Rhodan, colocando
a mão sobre o ombro de seu interlocutor. — Nenhum homem normal seria capaz de
lembrar-se de um resultado desses, enunciado casualmente em meio a um debate
acalorado. Nenhum homem que possua apenas os cinco sentidos seria capaz disso.
Você possui uma memória fotográfica.
* * *
Perry
Rhodan ampliou o círculo de seus colaboradores. Agora são dezoito pessoas. São
dezoito pessoas dotadas de capacidades extraordinárias, que valem mais que um
exército.
Essas
pessoas chegaram bem na hora, pois logo haverá nova invasão do espaço.
Invasão
Espacial — é este o título do próximo volume da coleção Perry Rhodan.

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