Até Perry Rhodan mostrou-se
cauteloso. Logo após os pesados intervalos de compressão resultante da manobra
de desaceleração mandou que os membros da tripulação colocassem os trajes
espaciais. A essa altura, a Stardust já
entrara em órbita lunar preestabelecida a uma velocidade de cerca de 3,5 quilômetros por
segundo, que poderia ser facilmente neutralizada.
Os homens obedeceram em
silêncio. Enquanto o controle remoto exercido pelo computador da estação
espacial impelia a espaçonave para órbitas cada vez mais reduzidas em torno da
Lua, os quatro colocaram a vestimenta que, apesar de leve, apresentava um
aspecto monstruoso. Eram trajes de proteção supermodernos. Hermeticamente fechados,
resistiam perfeitamente a pressões imensas. Dispunham de suprimento próprio de
energia, controle de temperatura, abastecimento de oxigênio e capacetes
circulares feitos de plástico transparente, cuja resistência igualava a do aço.
Rhodan chegara a ordenar que
os capacetes transparentes fossem fechados. Só as válvulas situadas do lado
esquerdo e direito do círculo de engate permaneciam abertas, para que os homens
pudessem continuar a respirar o ar da cabine. O dispositivo automático embutido
fecharia essas válvulas tão logo a pressão exterior baixasse além do normal.
Com isso, Rhodan fizera tudo que estava ao seu alcance para reduzir ao mínimo
as possibilidades de um acidente.
A Stardust prosseguia seu caminho com a popa para a frente de modo
que os reatores de propulsão pudessem funcionar em sentido contrário ao seu
deslocamento. A trajetória estendia-se de um pólo a outro. Dessa forma, a nave
ficava fora do alcance do controle remoto toda vez que mergulhava atrás da Lua,
penetrando na área inatingível para os sinais de rádio emitidos pela estação
espacial. Nessas oportunidades, a direção ficava a cargo do dispositivo
automático de bordo. Depois de percorridas cinco órbitas elípticas completas, a
desaceleração seria suficiente para permitir o pouso na superfície lunar.
A quinta órbita fora
iniciada. O Sol se erguera do lado visível do satélite, dando início a um dos
longos dias lunares. Sessenta por cento do hemisfério visível já estavam
mergulhados na escuridão.
Somente os aparelhos de radar
proporcionavam um quadro nítido da superfície lunar. Esta, pouco se diferençava
da superfície visível, fato já perfeitamente conhecido. Nesse ponto, a Lua já
não se constituía um mistério.
Depois de algum tempo,
voltaram a emergir da sombra lunar. A altitude em que se encontravam não
ultrapassava noventa quilômetros e a velocidade fora reduzida para 2,3 quilômetros por
segundo.
O piloto automático emitiu um
silvo agudo. A nave estava sendo atingida novamente pelos poderosos raios
direcionais da estação espacial. O computador central da Stardust recebeu novas instruções e o
capitão Bell estabeleceu contato para a interpretação.
Na tela, a nave era
representada por um ponto verde. Deslizava exatamente pela linha previamente
traçada, que correspondia à trajetória de aproximação. O final da linha
situava-se junto ao pólo sul lunar, perto da cratera Newcomb. A área de
alunissagem estava representada por um círculo vermelho. Era um terreno
relativamente plano, rochoso, que devia proporcionar apoio firme à nave.
Os tripulantes podiam ouvir
claramente a voz do chefe do programa com a mesma clareza com que ouviam o
piloto automático registrar os impulsos direcionais. Havia pausas de alguns
segundos entre um comunicado e outro devido a grande distância que separava a
nave da Central de Controle.
A Stardust chegou à margem ocidental do Mare Nubium em velocidade ainda elevada. Imediatamente à frente,
estava a cratera Walter. Estavam perto da área de pouso.
— Controle de terra. General
Pounder falando — ouviu-se a voz pelo alto-falante em meio a algumas
interferências. — A nave atingirá o ponto de inversão do curso dentro de 72
segundos. Na emissão do impulso será considerada a distância a ser vencida
pelas ondas de rádio. Por ora desligaremos para evitar perturbações. A imagem
da nave na tela de radar está bem nítida. Recepção boa, quase sem
interferências. Piloto automático em funcionamento.
Vamos colocá-los no solo
lunar sãos e salvos. Comecem a estender os suportes de alunissagem. Peço
comunicar a execução desta instrução. Entraremos em contato após o pouso. Boa
sorte. Câmbio final.
Rhodan empurrou uma pequena
alavanca. Os quatro suportes telescópicos da nave estenderam-se, separando-se
do corpo da nave num ângulo de quase quarenta e cinco graus. O mecanismo
hidráulico afastava, cada vez mais, as longas pernas e nas extremidades
inferiores destas, desdobraram-se placas, cuja superfície de contato era de
quatro metros quadrados.
Pouco depois, a Stardust atingiu o ponto de pouso,
seguindo, ainda, a linha de deslocamento traçada no mapa. Alguns desvios
ligeiros tinham sido prontamente corrigidos.
— Tudo pronto. Aguardamos
contato — disse Bell com voz arrastada. Era o momento decisivo, do qual
dependia o sucesso do pouso.
Subitamente, sem qualquer
outro preparativo, ouviu-se o ruído estridente do piloto automático. O impulso
havia chegado com exatidão infinitesimal.
O mecanismo de propulsão do
foguete emitiu um ruído ensurdecedor. Era um empuxo de desaceleração breve, mas
extremamente violento, que, com seus 12 G , eliminou cerca de cinqüenta por cento da
velocidade da nave.
Passado o choque e iniciada a
pausa para correção de descida, os homens respiraram fundo, mais refeitos do
novo golpe. No próximo empuxo de frenagem teria que ser realizada a correção de
curso de sessenta graus e, logo depois, o posicionamento vertical dos reatores
de popa em relação à superfície lunar. Nessa oportunidade, a nave teria que se
encontrar exatamente acima da área de pouso. Devia descer sobre o jato por ela
expelido com valor de empuxo perfeitamente dosado. A velocidade final da queda
não poderia ultrapassar quatro metros por segundo.
Os dados passavam como
relâmpagos pelo cérebro de Rhodan. Tudo parecera extremamente simples e fácil.
Agora, deitado no interior daquele mecanismo sensível e frágil, pôde visualizar
as imensas dificuldades que ainda estavam por vir.
A Stardust começou a cair numa trajetória parabólica que formava
um ângulo bem aberto com a superfície lunar. A gravidade da Lua fazia-se sentir
mais intensamente. Estava na hora de modificar o curso. Os reatores da câmara
de combustão não podiam permanecer em posição horizontal; tinham que ser
dirigidos para baixo. A nave caía de lado, como uma tábua, e por si só não
poderia efetuar a correção necessária, colocando o mecanismo de propulsão na
posição exata.
— Menos três segundos...
dois... um... contato — exclamou a voz cansada de Bell.
O contato veio. Os ruídos que
o seguiram irromperam pelos amplificadores como uma torrente de água. Os silvos
extremamente agudos pareciam arrebentar os ouvidos dos tripulantes
sobressaltados. Por uma fração de segundo, Bell olhou para frente sem nada
compreender. Depois, seu rosto largo contorceu-se numa careta de pânico.
Rhodan enrijeceu os músculos
e permaneceu absolutamente imóvel. Uma vez superado o tremendo golpe, ele
reagiu com a rapidez do raio. Com um estalo, sua mão direita ligou a chave
reservada para situações de acidente. As fitas magnetizadas prenderam os homens
aos assentos que se dobraram para trás.
Todos os membros da tripulação
ouviram o estridente sinal de alarme emitido pelo dispositivo automático. O
computador da nave informava de forte interferência. As lâmpadas que se
acendiam demonstravam que o impulso de inversão de curso, emitido pela estação
de controle da Terra, não havia chegado à nave. E o computador acusara, de
imediato, os graves riscos que a missão corria.
As luzes dos diagramas se
acenderam automaticamente e sem a menor incorreção.
— Desvio — gritou Bell fora
de si. — Não chegou nenhum impulso de ignição. Estamos caindo para além do
ponto de alunissagem. As interferências estão impedindo a recepção dos impulsos
de controle central. São transmitidos exatamente na nossa freqüência! De onde
virão?
Rhodan não perdeu tempo para
pensar. A superfície lunar, iluminada pelo sol nascente, aproximava-se em
velocidade vertiginosa. Rapidamente, ele desligou a chave geral, interrompendo
todos os contatos com a Terra. O uivo demoníaco dos instrumentos terminou.
Cessou repentinamente, como se nunca tivesse existido. Uma campainha começou a
emitir um som estridente. Uma voz gravada em fita do dispositivo central de
direção faz-se ouvir:
— Computador eletrônico
central assume procedimentos automáticos para pouso. Cálculos sendo executados.
Completos. Iniciaremos a alunissagem. Impulso de emergência QQRXQ sendo
conduzidos com intensidade máxima para canal 16. Iniciando alunissagem.
Era o que algum técnico tinha
gravado na fita antes do lançamento. Contudo, a intenção que todos tinham de
pousar, diferia completamente da situação que estava ocorrendo.
Em um gesto desesperado,
tratavam de fazer a nave descer de qualquer maneira. Naquela altura, já não era
mais possível arremeter e iniciar o caminho de retorno. A superfície lunar
estava muito próxima e a velocidade da queda voltaria a subir para mais dois
quilômetros por segundo. Nessas condições, a indispensável mudança de direção
teria consumido tempo demais. Tratava-se de um pouso de emergência que teria
que ser realizado fossem quais fossem as circunstâncias. Pouco importava que
abaixo da popa flamejante se estendesse uma planície ou se erguesse a encosta
de uma cratera de rochas agudas e paredões íngremes.
O mecanismo de propulsão
entrou em funcionamento. Os dispositivos fizeram a nave girar com tamanha
rapidez que ela assumiu imediatamente a posição vertical. A proa pontuda
apontava para o céu absolutamente escuro que na Lua, desprovido de atmosfera,
se identificava com o espaço sideral. Alguém gritou alguma coisa. Ninguém sabia
quem.
Rhodan não deu ordens à
tripulação. Não faria nenhum sentido. Numa situação como aquela, nenhum homem
poderia fazer qualquer coisa, nem mesmo ele, que reagira imediatamente. Os
cálculos e as manobras necessárias só podiam ser feitos pelos computadores. O
cérebro humano não funcionaria com tamanha velocidade, mais ainda numa situação
angustiante como aquela.
A encosta recortada de uma
cratera surgiu na tela que estava acoplada ao dispositivo que captava as
imagens do exterior da nave. As paredes da cratera estavam iluminadas pelo jato
incandescente expelido pela câmara de combustão.
Bell gritou alguma coisa. E
era de admirar que com 16 G
de pressão ainda conseguisse emitir algum som.
Ouviram-se, então, fortes
ruídos abafados. Um novo solavanco afundou-os nas camas pneumáticas. A
estrutura da nave rangeu como se fosse partir ao meio e algumas conexões e
instrumentos se quebraram. Logo, seguiram-se vibrações e sacudidelas intensas.
Mas, antes que as oscilações da nave cessassem, fez-se um silêncio tão profundo
e repentino que os sentidos puseram-se em alerta. O barulho feito pelos
suportes de alunissagem também havia cessado e o indicador pendular indicava
que a nave estava em posição vertical. Uma lâmpada verde, acima de Rhodan,
brilhava sem cintilações, emitindo uma luz tranqüila e constante. Em meio ao silêncio,
ouviu-se uma estridente e histérica gargalhada.
— Capitão Fletcher!
Rhodan não falou alto, mas
sua voz tinha algo de cortante. Os sons agudos cessaram. Quando Fletcher se
calou, as linhas duras do rosto de Rhodan se descontraíram. Nos olhos do comandante
surgiu uma expressão calma.
— Está bem, Fletcher,
esqueça!
A lâmpada verde brilhava e
por meio dela o computador central transmitia um sinal silencioso. A nave
estava de pé e, aparentemente, sem maiores avarias.
Bell exibia um sorriso de
espanto. Parecia recusar-se a crer no que acontecia. O Dr. Manoli ficou, como
sempre, calado. Os olhos negros davam vida ao rosto pálido. Pareciam indagar.
Rhodan causaria, ainda, um
choque aos tripulantes. Naturalmente, eles esperavam alguma observação sobre o
pouso de emergência bem sucedido. Seria um procedimento óbvio. Qualquer homem
normal teria reagido dessa forma, nem que fosse apenas por meio de um breve
suspiro de alívio. Era de se esperar que surgisse alguma atitude relacionada
com a angústia terrível dos últimos instantes. Mas Rhodan reagiu de outra
forma:
— Fletcher, você vai fazer o
favor de verificar imediatamente a localização da emissora desconhecida que
provocou a interferência. Os dados estão gravados nas fitas magnéticas do computador
central. Quero ver se você é bom mesmo em matemática!
E nada mais disse.
II
O nome do homenzinho vivaz
que exibia um rosto jovial sob a calva enorme era Allan D. Mercant. Era sempre
fácil reconhecê-lo graças à faixa de cabelos que lhe circundava a cabeça e cujo
tom castanho-dourado era interrompido por algumas mechas grisalhas nas
têmporas.
Allan D. Mercant era uma
criatura pacata; uma dessas almas piedosas que retiram minhocas e insetos das
alamedas de um jardim para evitar que sejam pisados. Mas essa fragilidade aparente
era apenas no que dizia respeito à sua vida íntima. No que concernia ao aspecto
funcional, ele era o homem-forte, a eminência parda do Conselho Internacional
de Defesa, que trabalhava em estreita colaboração com os organismos de defesa e
serviços secretos do Ocidente. A OTAN supervisionara a criação do Conselho
Internacional de Defesa dando-lhe a denominação oficial de Agência de
Informação e Segurança. Assim, Mercant estava subordinado diretamente ao
alto-comando da OTAN.
Quando ele entrou no salão de
conferências em companhia de um homem de meia-idade, o ruído abafado das
conversas parou.
O general Pounder, chefe da
Força Espacial, fez as apresentações. Tratava-se de uma reunião secreta que
estava sendo realizada no prédio da Administração Nacional de Aeronáutica e
Espaço — NASA — em Washington.
Allan D. Mercant não tomou o
tempo dos presentes com rodeios. O rosto juvenil e moreno, encimado pela testa
larga, era amável e muito simpático. Apontou para uma pilha de jornais que se
via numa das extremidades da mesa.
— Cavalheiros, acho que não
há mais necessidade de conversarmos a respeito da causa destas notícias.
Compreendo, general, que lhe tenha sido impossível manter os repórteres
indefinidamente em Nevada Fields. De qualquer maneira, recebemos um número
considerável de críticas, algumas em termos bastante enérgicos, mas creio que o
coronel Kaats tenha conseguido contornar as mesmas, solucionando-as a contento.
O homem de meia-idade que
estava a seu lado confirmou com um aceno de cabeça. O coronel Kaats era da
Polícia Federal e exercia as funções de chefe da Divisão Especial de Defesa
Interna.
— Algumas notícias veiculadas
pelos jornais e pela televisão são bastante inquietantes. Segundo estas fontes,
a Stardust não desapareceu,
apenas, mas caiu sobre a superfície da Lua. Às vezes, as notícias são tão ricas
em pormenores que não podemos deixar de nos perguntar até onde elas são
verdadeiras. As fontes destas informações nos parecem o ponto de maior
importância. Faço estas considerações apenas para situá-los com maior perfeição
dentro de todo o problema. E posso adiantar que já começamos a investigar com o
maior cuidado.
Mercant olhou pensativo seu
relógio, antes de prosseguir.
— O fato é que a nave Stardust está desaparecida há mais de
vinte e quatro horas. Por enquanto, preferimos considerar a idéia de simples
desaparecimento, o que nos deixa, ainda, com uma pontinha de esperanças. O
ponto que me interessa é a opinião dos senhores sobre os editoriais de alguns
dos jornais de maior circulação, nos quais se afirma, clara e expressamente,
que teria sido recebida uma mensagem de socorro procedente da nave espacial.
Teria sido o sinal QQRXQ que, no código da Força Espacial, designa um ataque,
uma perturbação proposital do controle remoto e a iminência de uma queda. Caso
isto tenha ocorrido, peço que me sejam fornecidos dados completos.
Allan D. Mercant cumprimentou
os presentes com um gesto amável e sentou-se.
Com um movimento cansado, o
rosto marcado por rugas de preocupação, o general Pounder levantou-se. Sua voz
parecia fraca e era indisfarçável um tom de desapontamento.
— O senhor tem razão. O sinal
QQRXQ designa esses conceitos. Não sabemos, ainda, como certos repórteres
conseguiram o código. Pedi providências ao nosso setor de segurança mas, até
agora, não tivemos qualquer resposta. A recepção do sinal, porém, não tem nada
de misterioso. Algumas das maiores estações de rastreamento estavam com suas
antenas apontadas para o pólo sul lunar e tínhamos pedido, também, o auxílio
dos maiores observatórios do mundo. É bastante viável que algo tenha transpirado,
o que, evidentemente, não explica o conhecimento do código por parte de alguns
dos jornalistas presentes à base. É tudo o que tenho para informar.
— Esqueçamos, por enquanto,
estes fatos. Gostaríamos de saber o que aconteceu, realmente, com a nave.
Admite a possibilidade de uma interferência consciente e proposital nas
mensagens do controle central? Pelo que eu soube, por intermédio de peritos no
assunto, isso só seria possível por meio de um emissor colocado na Lua.
Pounder inclinou a cabeça.
Nos seus olhos cintilou um reflexo de raiva impotente.
— Por mais absurdo que possa
parecer, é isso mesmo. Não há qualquer outra possibilidade. Fizemos, nas
últimas vinte e quatro horas, uma verificação detalhada e completa de toda a
nossa aparelhagem. E excluímos completamente a eventualidade de uma falha em
nossos equipamentos. Segundo, também, uma análise acurada dos fatos, chegamos a
duas conclusões.
Pounder tirou um lenço e
enxugou o suor da testa. Respirando pesadamente, prosseguiu:
— O major Rhodan pode ter
dado um sinal codificado errôneo, ou então os receptores da nave foram
danificados com a forte interferência. No que diz respeito ao major Rhodan,
achamos impossível que um homem com as qualificações do major possa ter
cometido um erro tão absurdo. O senhor sabe que ele é considerado o mais
experimentado piloto de provas e cosmonauta de nosso país. Além disso, os
cálculos efetuados provam que no momento decisivo, o foguete escapou ao
controle de terra. Considerando o ângulo da queda, a gravidade lunar e o peso
da nave, esta deve ter tocado o solo a cerca de sessenta ou setenta quilômetros
da região polar. É bastante provável que tenha realizado um pouso de emergência
sem maiores danos. Embora não possamos deixar de admitir a possibilidade de ter
havido perda total. Quem sabe?
Os olhos de Mercant, antes
límpidos, tornaram-se sombrios. O coronel Kaats pigarreou discretamente. Os
dados conferiam com aqueles coletados pelo serviço de defesa.
— Admitamos, general apenas admitamos
que o equipamento de bordo tenha sido avariado por força de uma interferência
muito forte. Qual a conclusão que devemos tirar disso? — disse Mercant, falando
devagar.
Pounder pareceu perturbar-se
com a pergunta. Seu rosto pálido tornou-se quase rubro.
— Pelas informações
recebidas, senhor, um foguete da Federação Asiática teria subido ao espaço
juntamente com a Stardust.
Se esta nave atingiu a Lua
antes da nossa, e se pousou no mesmo local previsto para a alunissagem desta
última, pode ter realizado uma interferência bem sucedida na mesma freqüência
por nós utilizada.
— O senhor acha que uma
operação como esta pressupõe conhecimentos muito detalhados por parte dessa
gente? — perguntou Kaats incrédulo.
— É claro que sim! — exclamou
Pounder irritado. — Acho que cabe ao serviço secreto esclarecer este ponto. Sou
especialista em naves espaciais, coronel, todavia quero ressaltar que uma
interferência como a que foi feita nas nossas emissões só pode ter sido
realizada por um transmissor colocado na Lua, se é que a nave recebeu um ataque
deste tipo. E há bastante razão para se crer nesta possibilidade. Nós operamos
o transmissor mais potente do mundo. Se alguém tentasse uma interferência
partindo da Terra, ainda assim nossos sinais teriam chegado à Stardust. Só mesmo um transmissor
colocado na superfície lunar poderia conseguir interferir com sucesso nas
nossas transmissões.
Pounder sentou-se com um
movimento brusco. Parecia esgotado.
Mercant fitou-o sem proferir
uma palavra. Estava com a testa franzida.
— A Defesa Internacional
cuidará do caso — decidiu. — Não demoraremos a saber se o comandante da Stardust cometeu algum engano
lamentável ou se houve interferência de interesses estranhos. Não seria viável
admitir a idéia de, por exemplo, uma falha no equipamento de bordo da nave?
O professor Lehmann ergueu a
cabeça estreita. Parecia procurar as palavras mais adequadas. Depois, disse,
indignado:
— A Stardust não apresentou qualquer defeito. Seu mecanismo
funcionou perfeitamente. No momento não posso apresentar os dados que disponho
para comprovar o que digo. Só esperamos que a tripulação entre em contato
conosco. Se os homens chegaram ao solo lunar sãos e salvos, Rhodan encontrará
um meio. Os receptores da nossa estação espacial estão ligados. Caso Rhodan
consiga chegar à face visível, poderá transmitir sinais de rádio. Até então, só
nos resta esperar. Não há outra alternativa.
— Dentro de quanto tempo estará
pronta para lançamento a nave gêmea da Stardust?
— perguntou o chefe do serviço secreto.
— A demora será de cerca de
dois meses, no mínimo — respondeu Pounder. — Até lá, meus homens morrerão
asfixiados, se é que ainda estão vivos. Seu suprimento de oxigênio é suficiente
para cinco semanas no máximo e, se economizarem de modo extremo, seis semanas.
Mais do que isso é impossível. Se for necessário, podemos fazer pousar uma
sonda não tripulada perto do pólo sul lunar. Mas é muito duvidoso que esta
operação de abastecimento seja bem sucedida. Afinal, nossos homens teriam que
encontrar a sonda. Estamos numa situação desesperadora.
Allan D. Mercant deu a sessão
por encerrada com uma rapidez extraordinária. No momento, nada mais havia para
dizer. A nave Stardust continuava
desaparecida. Uma série enorme de problemas amontoava-se diante dos presentes.
Antes de sair da sala, o
chefe do serviço secreto disse, com um sorriso misterioso:
— Lamento informar-lhes,
cavalheiros, mas a nave asiática a que se referiram, explodiu no ar após o
lançamento.
Pounder ergueu-se de um
salto. Incapaz de abrir a boca, fitou Mercant.
O homenzinho passou a mão
pelos olhos.
— Sinto muito, mas os
senhores terão que procurar outra causa. Não houve qualquer outra nave que
subisse ao espaço ao mesmo tempo que a Stardust.
De onde teria vindo, então, o transmissor colocado na Lua? Há coisas que
não me parecem bem claras. Apesar de tudo, os senhores receberão, logo,
notícias minhas.
E, em voz baixa, acrescentou:
— O fato é que nós também
acreditamos que não houve falha por parte do comandante da nave. Caso lhes seja
possível provar que todo o equipamento de bordo funcionou com perfeição,
estaremos então às voltas com um problema que se me afigura extremamente
difícil. Peço que todos os dados disponíveis sejam fornecidos o quanto antes à
equipe de cientistas da Defesa Internacional. O senhor há de compreender que
teremos que chegar a um resultado convincente.
— Rhodan não falhou — afirmou
Pounder. — E poderemos provar que todo o mecanismo de controle da nave
funcionou com perfeição. A mudança repentina do ângulo de queda é uma prova.
Ela foi constatada no último instante. Poderemos apresentar-lhes todas as
provas possíveis...
Allan D. Mercant
cumprimentou-os com um gesto e saiu. Subiu ao terraço do prédio e entrou,
pensativo, no seu helicóptero. Um céu límpido cobria a cidade naquele dia ameno
de junho.
— Vamos enfrentar tempos
difíceis, Kaats — murmurou. — Tenho fama de possuir um sexto sentido e ele já
se manifestou há alguns minutos.
Kaats estreitou os olhos. Era
verdade, Mercant possuía uma estranha intuição. Farejava o perigo e as
dificuldades com a mesma eficácia de um cão de caça. Segundo os boatos, ele era
dotado de um cérebro superdotado, além de todos os limites da capacidade mental
conhecida. Esta e outras qualidades levaram-no, em pouco tempo, à chefia da
Defesa Internacional.
III
Os membros da tripulação
tiveram que esperar vinte e quatro horas até que a radioatividade do solo lunar
se reduzisse por ação das substâncias pulverizadas no local.
Perry Rhodan saiu da nave em
primeiro lugar, quando o contador só registrava poucas incidências com um valor
ligeiramente inferior a 35 miliroentgens. Todos permaneceram em silêncio. Não
houve qualquer manifestação de júbilo.
Apertaram-se as mãos e
fitaram-se nos olhos sem dizer uma palavra. Tinham certeza de serem os
primeiros homens a pisarem no solo lunar.
Um dos suportes de pouso fora
danificado no choque violento contra o chão. De resto, a Stardust não sofrerá qualquer avaria
séria. Em virtude da radiação, que ainda era intensa, não era possível
verificar o mecanismo propulsor. Todavia, um teste rápido mostrara que ele
estava em perfeitas condições.
O grande gerador de força
também funcionava com perfeição absoluta e, o estado dos dispositivos de
renovação do ar e controle da temperatura, não podia ser melhor.
Havia pequenas avarias que
poderiam ser reparadas, mas o que inspirava maior preocupação era a deformação
do suporte de pouso. Segundo as estimativas do capitão Bell, seriam necessários
pelo menos seis dias para pô-lo em ordem. O aço-molibdênio era um material
difícil de ser trabalhado.
Cerca de trinta e seis horas
após o pouso forçado, retiraram do compartimento de carga a tenda pneumática —
uma enorme esfera de fibra sintética.
O conteúdo de um pequeno tubo
de ar comprimido foi suficiente para inflar a tenda dando ao material a
consistência do aço. A ausência de pressão externa tinha, também, as suas
vantagens.
O longo recinto estava
firmemente ancorado no solo rochoso. A face externa bem polida refletia a luz
do Sol num brilho intenso. Os membros da tripulação estavam instalando o
mecanismo regulador da temperatura e o conduto do ar. Por enquanto, só havia ar
no espaço entre as duas paredes da tenda. A construção tinha sido testada na
Terra sob condições que simulavam as existentes na Lua. Só mesmo um meteoro
poderia representar perigo.
A determinação exata da sua
posição revelara-se bem simples. As numerosas viagens ao redor da Lua haviam
permitido a confecção de mapas excelentes, de modo que puderam determinar sem a
menor sombra de dúvida o local em que se encontravam.
A Stardust havia pousado a cerca de 82 quilômetros além
do pólo sul lunar, já na face oculta do satélite. O Sol aparecia com o formato
de uma foice. Mal e mal surgia acima do horizonte lunar que se encontrava bem
próximo.
As crateras que rodeavam o
local de pouso eram conhecidas e estavam registradas no mapa. O mesmo acontecia
com o pequeno planalto que se erguia entre duas encostas. Só mesmo por um acaso
a nave tocara o solo justamente neste ponto. Caso tivesse descido entre as
rochas pontiagudas da cadeia circular de montanhas, teria sido, quase que
infalivelmente, o fim.
A Terra não era visível.
Ficava muito além do horizonte visual. Isso impossibilitava o envio de
mensagens de rádio. A única manifestação de Rhodan face às dificuldades com que
se defrontavam foi uma contorção juvenil nos lábios. Nenhum dos tripulantes da
nave revelava sinais de desespero ou desânimo. Apenas Fletcher estava mais
quieto do que o costume.
Rhodan observou este fato sem
fazer comentários. Fletcher pensava com demasiada freqüência no lar, na esposa
e no filho que estava para nascer. Mesmo que isso não constituísse motivo de
uma preocupação maior, justificava um certo grau de inquietação. Rhodan decidiu
dedicar atenção especial ao gigante.
Com um lento movimento de
cabeça, o major olhou em redor. O gesto foi lento e cuidadoso. Ele estava de pé
sobre um dos numerosos cumes da cadeia de montanhas. Do lado interno, a encosta
descaía, abruptamente, para o fundo da cratera. Algumas crateras menores eram
testemunhas da queda de meteoros, contra os quais o satélite, desprovido de
atmosfera, estava exposto sem a menor proteção.
Cerca de 400 metros abaixo, o
nariz pontudo da Stardust apontava
para o espaço. No horizonte, o Sol emitia uma luz ofuscante e implacável. As
rochas da encosta exposta aos raios diretos já começavam a absorver calor.
Porém, perto da zona de penumbra, a temperatura ainda era suportável.
Rhodan não estava preocupado
com estas coisas. Ele estava bem consciente dos problemas e perigos e tinha um
excelente preparo psicológico para enfrentá-los. Além do mais, ele sabia que o
avanço da tecnologia capacitava-os a realizar tarefas que, há vinte ou trinta
anos, seriam consideradas impossíveis.
Seu traje espacial, por
exemplo, era uma verdadeira maravilha em termos de mecânica de precisão. Sua
construção ocupara centenas de homens. Cada peça tinha que se ajustar às outras
com perfeição milimétrica. O traje, por si só, já era uma demonstração da
elevada capacidade técnica desenvolvida pela espécie humana.
Rhodan contemplou a paisagem
imensa e desoladora. A região era menos montanhosa e acidentada que outras
áreas da Lua. Assim mesmo, também aqui não havia o menor vestígio de vida. O
contraste tremendo entre a luz violentamente ofuscante do Sol e a escuridão
mais profunda dava um aspecto de pesadelo aos traços da paisagem. Não havia
sombra, no verdadeiro sentido da palavra; não existia nenhuma transição
confortável entre a luz do Sol e um suave crepúsculo.
As regiões não atingidas
pelos raios solares mergulhavam na escuridão absoluta. Também nesse ponto se
fazia sentir o envoltório absorvedor da atmosfera. As temperaturas chegavam a
extremos bastante acentuados. Tudo isso produzia, no espírito humano, um efeito
estranho.
Longe, ficavam os contornos
bem conhecidos da região polar, tornados invisíveis pela proximidade do
horizonte. Perry Rhodan tivera motivos de sobra para escalar a cadeia de
montanhas. Não se percebia qualquer objeto que destoasse da paisagem. Era
verdade que a Stardust e a
tenda reluzente formavam corpos estranhos. Mas eram seus velhos conhecidos. A
essa altura, inclusive, já faziam parte da paisagem.
Um sorriso quase
imperceptível aflorou-lhe aos lábios. Num ceticismo que condizia bem com o
autodomínio que o caracterizava, perguntou-se com que direito fazia essa
constatação. Chegou à conclusão de que a mesma devia resultar de uma certa
arrogância resultante de sua concepção humana. O homem costumava conservar e
considerar como objeto de sua propriedade tudo aquilo que havia conquistado com
trabalho e sacrifício. Por isso, a nave Stardust
fazia parte da paisagem.
Ao surpreender-se com essas
reflexões, Rhodan deu uma risada. Imediatamente, o pequeno amplificador
embutido no seu capacete começou a estalar. Ouviu-se uma voz ligeiramente
preocupada.
— O que houve, Perry? — disse
a voz. — Alguma dificuldade? Aconteceu alguma coisa?
Rhodan sorriu para si mesmo.
Seus olhos se estreitaram como se estivesse absorto com algum pensamento.
— Perry! Responda! O que
houve? — gritou Bell com mais força. Ele tinha certeza que ouvira a risada de
Rhodan pelo seu amplificador.
— Tomei a liberdade de rir —
disse Rhodan. — O amigo se opõe?
Ouviu-se uma praga.
— Este sujeito está em cima
de uma cratera lunar, só e abandonado e acha motivos para ficar rindo — disse
Bell indignado. — Você ouviu Fletcher? O sujeito está lá em cima e ainda ri!
— Já é alguma coisa — disse a
voz mal-humorada no alto-falante. — Estou me esforçando há meia hora para cocar
as costas e não consigo. É bem onde estão os tubos de oxigênio.
Bell tornou a chamar Rhodan.
A voz daquele parecia uma explosão. O major teve que reduzir o volume.
— Perry, como está o ar aí em
cima? — soou sua voz.
— Teremos trovoada — respondeu
Rhodan em tom seco.
Bell ficou calado. O humor de
Rhodan era invencível.
— Digo isso, porque na Lua o
ar é muito carregado — acrescentou com voz suave.
— Compreendi, comandante. Mas
qual a vantagem em saber disso?
— É exatamente o que penso!
Mas eu estava me esforçando para tornar a informação o mais exata possível. De
agora em diante, não dependeremos mais do som, mas da visão. Certo? Então, meu
caro, a que distância eu estou daí?
— Cerca de 850 metros — soou a voz
divertida do Dr. Manoli. — Para ser mais preciso, 852 metros . Estou junto
ao radar e ele me deu sua posição exata. Eficiente, não é?
— Muito mais que isso! —
disse Rhodan, rindo. — Bell, tenho uma tarefa para você. Pegue a pistola
automática, regule a luneta para um aumento de dez vezes e a alça de mira para 850 metros . Depois,
descarregue metade de um pente de balas naquele bloco de pedra que se parece
com a cabeça de um gigante. Fica cerca de 50 metros a minha
esquerda. Está vendo?
— Estou — confirmou Bell. —
Posso saber apenas para que é a brincadeira.
— Não estou brincando. Quero
saber os efeitos de um projétil-foguete em miniatura. Estou interessado,
principalmente, na força de impacto e na energia da explosão. Comece. Preste
atenção para sentir a natureza do recuo sob as condições de gravidade daqui.
— Não vai haver recuo — disse
Bell. — Cada projétil tem sua própria carga propulsora e funciona nos moldes de
um foguete. Não há cápsulas. O projétil e a espoleta saem ao mesmo tempo. A
velocidade de saída é de 2.480 quilômetros por segundo. A pontaria é
exata e segura e, positivamente, não há força de recuo. Caso o senhor não
saiba, colhi informações bem detalhadas a esse respeito.
— Bom menino! — disse Rhodan
com ironia. — Agora, atire, mas por favor, não me confunda com as rochas.
Bell soltou uma risada
trovejante. Fletcher observou-o em silêncio, enquanto ele levantava a arma
pesada e enorme, com a coronha muito curta e o cano de grande diâmetro. Segundo
determinações de segurança, os tripulantes só deviam sair da nave com a arma na
mão.
O capitão Bell estava parado
diante da tenda pressurizada, cuja montagem ainda não havia sido concluída.
Mais adiante, a menos de trinta metros, o foguete erguia-se no céu lunar.
Bell ajustou a luneta do
visor para um aumento de dez vezes, e a distância para 850 metros .
A luz vermelha da ignição
elétrica começou a brilhar e o primeiro projétil deslizou para dentro da câmara
de ignição. O calibre dos projéteis era reduzido. Não passava de seis
milímetros e tinham o comprimento de um dedo. Sua potência explosiva, no
entanto, era enorme.
Bell hesitou por uns
momentos. O alvo ficava muito longe, embora o visor o trouxesse para muito
perto.
— Vamos — soou uma voz
enérgica. — O que está esperando? Faça de contas que foi esse bloco de pedra
que perturbou o nosso sistema de controle remoto. Então?
Bell soltou uma praga.
Finalmente compreendia aonde Rhodan pretendia chegar. A experiência adquiriu um
novo sentido. A idéia de uma brincadeira inútil desvaneceu-se.
— Se você concordar,
ajustarei a arma para dez tiros, fogo espaçado — disse com um tom seco na voz.
— Preciso ver até onde consigo chegar com esta arma.
— Certo! Pode começar.
Bell encostou a coronha da
arma no ombro.
O bloco de pedra surgiu no
visor bastante aumentado. Ele lembrou-se que a distância a ser vencida não
representava nada para esses projéteis, cuja velocidade era tremenda. Não havia
necessidade de levantar o cano da arma acima do alvo. Com a reduzida força de
gravidade do satélite da Terra e a ausência de atrito do ar, o projétil
descreveria uma trajetória quase retilínea. O visor tinha sido ajustado para
tais condições, de maneiras que o atirador pudesse visar alvos colocados a
quilômetros de distância. E as probabilidades de acertar o alvo eram muito
grandes.
Quando Bell acionou o contato
de ignição, Fletcher conteve a respiração. Mas não houve o mais leve ruído. Na
terra, ouvir-se-ia o assobio estridente e a chicotada produzida pela saída do
projétil. Aqui, o disparo foi cercado de um silêncio fantasmagórico.
O único sinal visível foi a
saída de chamas luminosas pela abertura para escapamento de gases, existente no
cano da arma.
Bell estava estupefato.
— Percebeu alguma coisa? —
perguntou. — Que diabo! Terei que me acostumar a esta maneira de disparar uma
arma. Não senti o mais leve recuo.
— É, mas as lascas de pedra
foram atiradas até o lugar onde me encontro — ouviu-se uma voz rápida. — Acho
que antes de você diminuir a pressão no gatilho o projétil já tinha atingido o
alvo. A rapidez é incrível. O bloco de pedra apresenta um furo de uns 30 centímetros de
diâmetro e mais ou menos o mesmo de profundidade. E olhe que é granito. Tente
uma rajada mais longa. A arma é de uma precisão fantástica.
Bell puxou o gatilho. As
chamas luminosas dos projéteis lhe fustigavam os olhos. Do ponto onde estava,
Rhodan viu a trajetória luminosa dos projéteis, representada pela queima do
combustível sólido que os impelia. Quando penetraram na escuridão que se formara
na encosta, surgiu um traço incandescente e antes que Bell compreendesse o que
se passava, o carregador da arma estava vazio.
Do bloco de granito restavam
apenas lascas que, atiradas para o ar, voltavam ao solo com enervante lentidão.
Rhodan acompanhara
atentamente a série numerosa de explosões. Realizaram-se em silêncio e sem a
menor vibração. Revelavam-se, apenas, através da chuva de pedras e dos
relâmpagos chamejantes.
— Pode parar, Bell — disse
com voz abafada. — Temos que reconhecer que a seção de armamento nos deu um
brinquedo mais que eficiente. Por quanto tempo você apertou o gatilho?
— Uns dois minutos —
respondeu Bell. E o carregador está vazio! Disparei noventa tiros em um
instante!
— Está certo. A cadência de
tiros é de cerca de cinqüenta por minuto. Muito bem! A experiência terminou.
Vou descer. Eric, a comida está pronta?
— Está. Pelo menos, fiz o que
pude. Rhodan começou a descer. Era fácil vencer as fendas e outros obstáculos
do solo. A leveza proporcionada pela ausência de gravidade facilitava muitas
coisas.
Após alguns minutos, estava
diante da tenda pressurizada. A montagem da conexão de ar estava concluída e a
aparelhagem reguladora da temperatura tinha sido ligada às instalações da nave.
— O enchimento consumiu
alguns litros de oxigênio líquido — explicou Fletcher. — Será que vale a pena
desperdiçar um gás tão precioso? Quem sabe se não precisaremos dele, um dia,
para abastecer o interior da Stardust?
Nossa reserva é limitada.
Rhodan postou-se diante dele,
ereto. Ainda assim, Fletcher o ultrapassava em altura por alguns centímetros.
— Ora, Fletcher, você está se
preocupando por nada. O reparo de suporte de pouso exige habilidade e liberdade
de movimentos. Não quero ter os movimentos embaraçados por um traje espacial
quando tivermos que trabalhar com o aço-molibdênio. E também não quero ficar
parado neste vazio
Fletcher piscou os olhos em
direção ao céu estrelado que se apresentava de uma limpidez incrível.
— Foi só uma idéia — murmurou.
Nos seus lábios surgiu, por instantes, um sorriso de desânimo.
— Você estava pensando em sua
volta à Terra, não é? Quem sabe, no bebê? — perguntou Rhodan, calmamente.
Fletcher ficou calado. Seu
rosto transformou-se.
— Não há problema.
Compreendemos perfeitamente. Mas convém que você não pense demais nisso. Nosso
plano foi estabelecido e nós tivemos bastante tempo para discuti-lo em
detalhes. Só partiremos para uma viagem de exploração quando a Stardust estiver completamente reparada.
Não podemos arriscar uma partida imediata seguida de uma alunissagem além do
pólo, pois o suporte danificado não agüentaria o choque. É lógico que poderemos
subir alguns quilômetros e entrar em contato visual direto com a Terra através
de uma manobra adequada. Mas, como já disse, teríamos que pousar novamente. Com
isso, a nave seria danificada de tal maneira que não conseguiríamos repará-la
com os recursos de que dispomos. Se chegássemos a uma situação dessas, eu
também duvidaria da conveniência de desperdiçar oxigênio com a tenda
pressurizada. Mas, agora, estamos em condições de fazê-lo, não é?
Um sorriso indiferente surgiu
no rosto de Rhodan. Enquanto que Fletcher continuava a olhar para o espaço.
— É claro que sim —
respondeu. — Acontece que ocorreu-me mais uma pergunta. Não seria conveniente
iniciar imediatamente a viagem de retorno? Conseguimos realizar um pouso de
emergência, certo? Então, por que devemos nos preocupar com o conserto do
suporte? O pouso na Terra é realizado por meio de asas de sustentação e
tocaremos o solo com os trens de pouso. Não importa que o suporte esteja
danificado, ainda assim, desceríamos normalmente.
Baixou a cabeça e seus olhos
cintilaram.
Rhodan não perdeu a paciência
nem a capacidade de raciocinar. Apenas o tom de sua voz tornou-se mais
enérgico.
— Fletcher, é óbvio que o que
você propõe é viável. Acontece que isso seria uma falta total de iniciativa e
responsabilidade de nossa parte. Temos uma missão a cumprir e não será um
suporte de alunissagem com defeito que nos fará sair daqui antes da hora. E,
além do mais, tenho a vaga impressão que não conseguiremos alcançar o espaço
sem problemas. Há algo para ser esclarecido aqui antes de partirmos.
Fletcher dominou-se
imediatamente. Num gesto silencioso, seus olhos azuis pediam perdão. Bell
começou a rir. O incidente estava encerrado.
— Está bem! Esqueça minhas
palavras — disse Fletcher, pigarreando. — Foi um ligeiro instante de
fragilidade humana. Vamos comer e depois saberemos onde procurar o transmissor
de onde partiu a interferência. Já apurei os dados fundamentais, depois vou
pedir ajuda ao computador.
— Estou bastante curioso — disse
Rhodan. — Bem! Veremos o que o nosso médico conseguiu fazer.
Pelos amplificadores dos
capacetes, ouviram um suspiro de indignação. O Dr. Manoli explicou, então,
longamente, como e por que a arte de cozinhar, tão enaltecida, se resumia a uma
simples identidade com os processos químicos mais conhecidos. O discurso soou
bem, mas havia, nele, algo que não estava muito certo.
Rhodan parou junto à área de
pouso situada logo abaixo do mecanismo propulsor da nave, onde o solo ainda
desprendia um pouco de radioatividade. Diante dele estava a cesta
transportadora pendurada no braço do guindaste que saía da comporta principal
do compartimento de carga. Este ficava logo abaixo da cabine dos tripulantes.
Rhodan preferira não utilizar os degraus dobráveis presos à parte externa da
nave. Passando por baixo dos suportes de alunissagem, chegavam perto demais do
mecanismo propulsor que ainda emitia radioatividade em excesso.
— Um de nós terá que
desistir, por hora, das delícias que tão avidamente esperamos — anunciou Rhodan
com um sorriso. Seus olhos voltaram-se para os companheiros.
— Bell, quer fazer o favor de
ficar de guarda aqui fora? Dentro de meia hora eu o substituirei. Há um ótimo
lugar ali em cima do morro. Fique de olhos bem abertos. Manteremos contato pelo
rádio.
Reginald Bell não disse uma
só palavra. A voz profunda de Rhodan bastou-lhe para fazê-lo compreender. Por
mais calma que fosse a aparência do comandante, a inquietação o consumia por
dentro. Antes de se afastar, com a arma carregada, voltou-se para Rhodan.
— Perry, só uma pergunta.
Você está lembrado da informação segundo a qual uma nave tripulada da Federação
Asiática teria sido lançada antes de nós?
— Vejo que você compreendeu
meu temor, Bell — confirmou Rhodan. Seu rosto tornou-se sério e sombrio. — Pode
ser que haja alguém interessado em certificar-se pessoalmente da nossa queda.
Na minha opinião, o transmissor deve estar localizado perto da região polar.
Portanto, preste bastante atenção! Nosso radiogoniômetro está testando todas as
freqüências possíveis. Logo que ouçamos algum ruído estranho, teremos
modificações por aqui.
No interior da cabine, o Dr.
Manoli começou a ter calafrios e em poucos instantes estava indisposto. Ele era
um homem que estava sempre pronto a enfrentar qualquer perigo ou qualquer
sofrimento desde que fosse por amor à ciência e à pesquisa. No entanto, quando
surgiam complicações inesperadas e que cheiravam a violência, as coisas mudavam
de figura. Manoli não era homem de enfrentá-las com calma. Martirizado por
pensamentos sombrios, ouviu o ruído do motor do guindaste. Rhodan e Fletcher
subiram no cesto, enquanto que, na tela, a figura de Bell tornava-se cada vez
menor até desaparecer na região escura de uma sombra projetada por uma
saliência do solo.
Alguns instantes após,
ouviu-se o assobio da comporta de despressurização e, quando eles entraram,
Manoli exibiu um sorriso forçado.
— Alô! — disse com voz débil.
— Não ouvi nada no radiogoniômetro. Só a conversa de vocês.
Rhodan saiu do traje
espacial. O rosto de Fletcher estava banhado de suor.
— Puxa — disse este,
suspirando. — Até parece que estou chegando no paraíso.
— Acho que, na Terra, já nos
consideram desaparecidos — observou Manoli em voz baixa.
O sorriso de Fletcher
desvaneceu-se.
— É. Deve ser — confirmou
Rhodan em tom indiferente, olhando-os com firmeza.
— Mas não será por muito
tempo, dou-lhes minha palavra. Assim que terminarmos de comer iniciaremos os
reparos no suporte de alunissagem.
Manoli estava pensando na
esposa. Fletcher, no bebê. Nenhuma palavra foi trocada, mas todos sabiam. Só
mesmo mãos fortes e vontade férrea poderiam dominar esse tipo de situação. E
Rhodan as tinha de sobra.
IV
Estavam sós em um mundo
estranho e cheio de mistérios; sem ar, sem água, sem vida...
A fina liga especial que
revestia o veículo blindado, de forma achatada, podia resistir a tiros de um
canhão de calibre médio; assim mesmo, não conferia aos seus ocupantes total
sensação de segurança, pois além das chapas de aço começava o vazio — o Vácuo
absoluto com seus perigos conhecidos e desconhecidos. Não era tanto o risco de
vida que martirizava estes homens. Era o ambiente desolador, tão estranho; era
o semicírculo incandescente do Sol que emitia um brilho ofuscante; as crateras
que surgiam em meio a planícies vastas, rasgadas, por fendas no solo; eram as
cordilheiras recortadas de forma bizarra, que nunca foram corroídas pelas
intempéries.
Diante de todo aquele
panorama, o mais árido dos desertos da Terra transmitia uma mensagem de vida e
felicidade.
Estes fatos constituíam uma
carga psicológica de primeira grandeza. Eram os riscos para a mente que tinham
que ser combatidos em primeiro lugar. E vencidos de qualquer maneira. Quem não
aceitasse e superasse estes fatos com uma impassibilidade total, sucumbiria sob
o peso dos mesmos. Não havia qualquer medicamento contra as influências
corrosivas que o ambiente cósmico exerce sobre o espírito dos homens.
Rhodan levou tudo isso em
consideração quando resolveu partir no veículo lunar e deixar Fletcher e o Dr.
Manoli a bordo da nave. Não só porque dois tripulantes deviam ficar a bordo da Stardust como também, porque os
nervos de ambos não suportariam aos efeitos da expedição.
Fletcher recebeu ordens
terminantes, por escrito, para decolar de volta para a Terra assim que julgasse
conveniente, colocando-se sob a ação do controle da estação orbital caso ele —
Rhodan — não voltasse dentro de dezoito dias do calendário da Terra.
Fletcher confirmou com um
movimento de cabeça. Ele estava perfeitamente habilitado para conduzir a nave
ao espaço levando-a aonde fosse necessário.
Apenas cinco dias foram
gastos para o reparo do suporte de alunissagem e um dia para a montagem e o
preparo do veículo lunar.
Depois de terem dormido por
um período prolongado, sob os efeitos da psiconarcotina, Rhodan e Bell partiram
no veículo lunar. Ele fora testado sob as condições mais adversas e não poderia
falhar.
Era um meio de transporte
apto a enfrentar qualquer terreno. Não levava armamento e dispunha de uma
cabine ampla para quatro pessoas. Sua cúpula, de uma liga transparente, podia
ser escurecida à vontade. No pequeno espaço de carga situado atrás da cabine
pressurizada só havia equipamentos e peças sobressalentes. Rhodan não estava
disposto a executar qualquer uma das numerosas missões de pesquisa constantes
do programa.
O que importava era salvar a
vida. Antes de mais nada, era necessário notificar a estação orbital. E o
transmissor do veículo era bastante forte para emitir sinais que chegariam à
estação.
Havia vinte e quatro horas
que estavam a caminho. Tinham dormido por cinco horas e, no momento, Rhodan
fazia com que os motores elétricos arrastassem o veículo por cima de uma
elevação.
O semicírculo solar começava
a aumentar. Dentro em pouco atingiriam o pólo sul lunar e estariam, então, em
linha direta com a Terra.
Ainda estavam usando os
trajes espaciais, mas sem os capacetes. A cúpula pressurizada do veículo
oferecia a mesma segurança da cabine principal da Stardust. Seria necessária uma força descomunal para destruir o
material sintético.
Bell estava olhando para a
frente. Os cumes elevados que se descortinavam diante dele não o agradavam.
Voltou a estudar o mapa.
— Não há dúvida, é a
cordilheira de Leibnitz — disse com voz abafada. — Quer dar uma paradinha?
Rhodan desligou o comando
elétrico. O zumbido dos motores cessou.
Rhodan enxugou o suor da
testa. Sem dizer uma palavra, começou a limpar o vidro dos óculos escuros. A
radiação ultravioleta o estava incomodando. Também lançou um olhar em direção
às montanhas.
— Só faltam uns oito
quilômetros. Aqui a gente se engana tremendamente com as distâncias. Temos
diante de nós a cratera Husemann, que não pode ser vista da Terra. Se seguirmos
mais uns quinze quilômetros chegaremos do outro lado do pólo. Mas não podemos
manter o rumo atual. Temos de nos desviar para o leste, senão passaremos pelas
ramificações da cordilheira de Leibnitz. E isso não seria nenhum prazer.
O indicador de Bell tocou o
mapa. Seu rosto parecia cansado e inchado sob a barba que já tinha vários dias.
A viagem estava se transformando num martírio. Rhodan correra que nem um louco.
Se fosse possível seguir em linha reta já teriam atingido a região polar há
muito tempo. Acontece que tinham que contornar os inúmeros obstáculos. A linha
traçada no mapa, que registrava o deslocamento do veículo, se apresentava
bastante sinuosa.
Rhodan tossiu. Sem dizer uma
palavra estendeu a garrafa de água em direção a Bell.
— Vamos dobrar para leste.
Leibnitz não é brincadeira. Não tenho vontade de cair naqueles precipícios.
Aquilo ali é uma das ramificações orientais da cordilheira. O maciço principal
fica mais ao oeste. Passaremos sem maiores dificuldades.
Bell sorveu o líquido em
goles compridos. Na cabine fez-se um silêncio profundo.
Rhodan protegeu o teto com
outra série de folhas de plástico polido. O sol era por demais forte. Não
podiam absorver muito calor. Seria um problema livrar-se do mesmo. Finalmente
Bell disse em tom sombrio:
— Vai acontecer alguma coisa.
Estou sentindo cócegas na nuca. Não pode deixar de acontecer alguma coisa. Olhe
isto aqui!
Seu dedo voltou a tocar o
mapa. O rumo que estavam tomando conduzia diretamente para um círculo que
Fletcher, o matemático, havia traçado no mapa.
— Já sei — disse Rhodan,
esticando as palavras. Um sorriso que parecia uma máscara passou-lhe pelos
lábios.
Bell fitou-o. Tinha os lábios
secos e rachados.
— Devíamos contornar esta
área bem de longe, procurando em primeiro lugar estabelecer comunicação
radiofônica com a Terra. Depois poderemos ver o resto. O que acha?
Por um instante, Rhodan olhou
fixamente para a frente. Depois disso Reginald Bell viu um rosto de linhas bem
marcadas. Os olhos de Rhodan cintilavam.
— Os problemas existem para
serem resolvidos. Não adianta adiar a decisão com desculpas esfarrapadas. Quer
queiramos, quer não, teremos de enfrentar aquilo. Prefiro uma ação rápida.
Portanto, seguiremos pelo caminho mais curto. A parte que agir com maior
rapidez levará uma vantagem considerável. Os outros também estão sofrendo os
efeitos negativos do ambiente, provavelmente mais que nós.
— Sim, somos heróis —
resmungou Bell. — Está certo, daqui por diante cuidarei da sonda infravermelha.
Se surgir qualquer sinal você terá de correr que nem o diabo.
Sua mão pousou
automaticamente na arma. Traziam na nave as armas automáticas de grande
calibre, que funcionavam como metralhadoras.
Rhodan moveu a chave. O
veículo blindado arrancou sob o uivo dos motores elétricos. Depois de terem
contornado o morro em que ficava a cratera, chegaram a uma grande planície
pedregosa. A poeira levantou-se atrás das esteiras velozes. As partículas
ficavam suspensas numa estranha imobilidade, até que descessem com uma lentidão
fantástica. Não podia haver nada que revelasse melhor a ausência do vento.
Após outras seis horas de
viagem viram todo o Sol. A progressão foi rápida por causa da curvatura
reduzida da Lua. Depois de terem passado pela área crítica sem maiores
incidentes, atingiram o limite do campo de visão direta. Logo acima, a Terra
surgiu em forma de semicírculo. Era perfeitamente visível e, embora estivesse
bem baixa, acima do horizonte setentrional, devia haver possibilidade de
estabelecer contato pelo rádio.
Rhodan lançou um olhar rápido
para os lados. Nas últimas horas tinham-se mantido bastante calados.
Bell sorriu, depois assobiou
em tom agudo uma melodia desafinada. Rhodan fez com que o veículo subisse uma
encosta íngreme. As esteiras revolviam o solo e o ruído dos motores tornou-se
mais intenso. Chegados à parte de cima, pararam num pequeno platô de rocha. À
sua direita um paredão sombrio erguia-se em direção ao espaço.
Bem diante deles, porém,
estava suspensa no espaço a esfera brilhante que era a Terra. Conseguiram.
Quase não falaram. O esgotamento extremo estava gravado nos seus rostos.
Executaram as operações necessárias depressa, talvez mesmo precipitadamente.
Ambos tinham a sensação de que não havia tempo a perder: estava na hora de
agir.
Rhodan fez sair a antena
direcional parabólica, e Bell fez funcionar o reator, ligando-o ao transmissor.
As válvulas foram se aquecendo, enquanto Rhodan ajustava a antena com a maior
exatidão. A Terra estava ao alcance do equipamento automático de radiofonia.
Com um gesto lento e
hesitante Rhodan girou a poltrona. Diante dele dançavam os ponteiros dos
instrumentos de controle. O aparelho estava em perfeita ordem. Colocou o microfone
mais perto da boca. Com um movimento um tanto complicado controlou a
sintonização automática.
— Está pronto? — perguntou
Bell com a voz áspera. Estava de pé na cabine, meio abaixado. Segurava na mão o
pesado dispositivo automático de controle.
Rhodan confirmou com um
movimento de cabeça e ligou o aparelho. Nos alto-falantes do receptor
ouviram-se os ruídos normais. Não se identificavam com os estouros e os
guinchos infernais resultantes de uma interferência deliberada.
Um sorriso suave aflorou aos
lábios de Rhodan. Depois ligou o transmissor. Em tom circunspecto falou:
— Major Perry Rhodan,
comandante da Expedição Stardust chamando
controle de terra de Nevada Fields. Favor acusar recebimento. Major Perry
Rhodan, comandante da Expe...
Aconteceu subitamente, como
um raio que caísse de um céu azul. Um brilho esverdeado surgiu e foi-se
tornando cada vez mais forte, transformando-se numa luminosidade intensa, que
envolveu os rostos dos dois homens em uma luz fantasmagórica.
A poucos metros acima deles,
a antena ardeu em chamas verdes e fosforescentes, cuja luminosidade era tamanha
que fez Rhodan soltar um gemido, cobrindo os olhos torturados com as mãos.
Tudo foi muito rápido e
silencioso. Uma abóbada de chamas saltitantes ergueu-se acima do veículo lunar.
A luminosidade do Sol tornou-se turva e os contornos da paisagem lunar se
desfizeram.
Antes que Bell tivesse tempo
de soltar um grito apavorado de advertência, o equipamento de rádio começou a
estourar. Um raio saltou do envoltório de plástico. Vapores corrosivos
desprenderam-se do aparelho. Os isoladores fundidos ficaram envoltos em
pequenas chamas.
O pontapé de Rhodan foi
desferido no último instante, rompendo a ligação com o gerador nuclear. Bell
mal percebeu que a mão de Rhodan bateu com um estalo no seu capacete. Quando o
oxigênio fresco penetrou nos seus pulmões, voltou a raciocinar com clareza.
Seus gritos cessaram.
Perry Rhodan, imóvel, estava
encolhido na sua poltrona. Parecia nem ter notado os últimos acontecimentos. A
luminosidade misteriosa desaparecera com a mesma rapidez com que havia surgido.
Não se via mais nada, nem mesmo o brilho mais débil.
Só mesmo a antena totalmente
fundida e o aparelho de rádio consumido pelas chamas davam mostras de um
acontecimento que ficava além do seu entendimento. Bell moveu-se pela cabine
rapidamente. Com os olhos selvagens procurava um inimigo. Segurava a arma em
atitude ameaçadora, mas não via qualquer figura humana.
O chiado agudo do extintor de
espuma seca fez com que se sobressaltasse de novo. Rhodan dirigiu o jato sobre
o aparelho de rádio destruído. Sua atitude era tão indiferente que Bell começou
a praguejar. Ele o fez de forma intensa, com bastante barulho. Todavia, os
lábios mal se moviam no rosto inchado, tomado de uma palidez cadavérica.
O fogo foi extinto. O
equipamento de condicionamento de ar sugou os vapores. O oxigênio fluiu para o
interior da cabine. O incidente consumira vários litros do ar respirável.
Rhodan abriu o capacete. Com
o rosto indiferente, olhou cuidadosamente para cima. Depois falou:
— Pronto. Está tudo
terminado. Só esperavam por isto.
— Santo Deus, o que foi isso?
— cochichou Bell. Exausto, deixou-se cair na sua poltrona. — O que foi isso?
— Foi uma maneira muito
engraçada de interferir numa transmissão de rádio. Pelo amor de Deus, não me
pergunte como fizeram! Neste ponto sou tão ignorante como um recém-nascido. Não
tenho a menor idéia. O que posso dizer é que essa luminosidade apareceu como um
raio com a primeira frase que soltei para o microfone. Daí se conclui que
estavam à espreita com um radiogoniômetro inteiramente automático. O aparelho
funcionou imediatamente. É só o que posso dizer.
Bell levou à boca seu
comprimido de concentrado. Seus olhos estreitaram-se. O engenheiro competente
despertou dentro dele. Entrou em funcionamento a parte do seu cérebro no qual
estava armazenada a massa enorme de conhecimentos relativos à eletrônica
moderna.
— Será que você está passando
bem? — indagou. — Sempre o considerei um aluno exemplar da Academia Espacial e
pensei que tivesse capacidade de raciocinar.
— E agora já não pensa assim?
— perguntou Rhodan, com um traço de amargura no rosto.
— No momento não. Você acaba
de falar como o célebre Super-Homem daqueles fascículos de cinqüenta centavos.
O que quer dizer com a expressão radiogoniômetro
automático? Será que você sabe o que acaba de dizer? Trabalhamos com um
raio direcional bem ajustado. Como é que uma emissão destas poderia ter sido
localizada com tamanha rapidez? A antena apontava para o espaço vazio. Mas não
é só isso. Será que você também tem uma explicação para a luminosidade verde?
Pode imaginar que tipo de energia essa gente utilizou?
— Convém não perguntar, pois
a resposta teria de soar como a fala de um louco.
— Fomos cobertos por um
anteparo abobadado — prosseguiu Bell obstinadamente. — Vi perfeitamente. Dali
desceu um raio de luz verde, e nossa antena já era. Perry, asseguro-lhe que uma
coisa dessas não existe. Poderia compreender tudo, mas tudo mesmo. Até
admitiria uma descarga dirigida de relâmpagos. Mas neste ponto minha inteligência
deixa de funcionar.
Rhodan continuou na sua
posição rígida. Seus olhos ardiam.
— Quer dizer que tudo não
passou de um sonho, não é? Se eu fosse você teria dito que minha inteligência
chegou ao limite extremo da compreensão. Alguém ouviu minha mensagem no mesmo
instante em que ela foi iniciada, e agiu imediatamente. Não estou muito
interessado em saber como fez isso, já que com os conhecimentos científicos de
que disponho não tenho capacidade de interpretar o acontecimento. O que me
interessa mais é o fato de que esse alguém quer nos reduzir à condição de
prisioneiros da Lua. Darei minha cabeça à forca se conseguirmos subir um
quilômetro com a Stardust. Não
pergunte por que, mas sinto que é assim. Não, não sinto: sei! Sendo assim, que
nos resta fazer?
Reginald Bell empalideceu
ainda mais. Todo lívido, fitou o comandante, cujos olhos claros se tinham
tornado sombrios.
— Você é a pessoa mais
insensível que já vi! — gaguejou. — Será que não tem mais nada a dizer?
— Não. Acontece que meu
espírito só toma conhecimento das situações em que podemos fazer alguma coisa.
Os problemas insolúveis são imediatamente postos de lado. Não devíamos falar a
respeito deles.
Bell pigarreou. A cor
retornou à sua face.
— OK. Vamos esconder a cabeça
na areia, que nem um avestruz. — Deu um sorriso triste. Seus olhos percorreram
a paisagem. Estava desolada e vazia como antes.
— O fato é que já não
compreendo mais nada. Se não parecesse coisa de louco, falaria num campo
energético. Mas como poderia o mesmo ser montado no espaço praticamente vazio?
Não vejo nenhum pólo energético, absolutamente nada. Quem está tentando nos
eliminar? E como está fazendo tudo isso?
— Quem sabe se o foguete da
Federação Asiática não pousou algumas horas antes de nós? Terão a bordo algum
equipamento completamente novo. Basta que se veja a luminosidade verde.
Rhodan olhou atentamente para
seu amigo.
Bell sorriu. Suas mãos
pesadas balançavam entre as pernas como se fossem enfeites incômodos.
— Deixemos de falar bobagens,
meu velho. Não me diga que você acredita no que está dizendo. No ponto em que
estamos nada mais importa para mim. Estou disposto a engolir um prego
enferrujado caso os chineses tenham inventado isso. Foi uma coisa assombrosa.
Está bem, está bem, estou perfeitamente calmo. Então, o que vamos fazer?
Rhodan deu um sorriso muito
cordial. Bell já sabia que aquela contorção dos lábios do companheiro
representava um sinal de alarme de primeiro grau. Conhecia muito bem esse homem
alto de rosto magro,
— Vamos até lá ver o que há
e, se possível, encostaremos o dedo no gatilho um décimo de segundo antes do
inimigo. Não vejo outra possibilidade. Se ficarmos parados, morreremos
asfixiados dentro de algumas semanas. Se decolarmos, a nave será abatida com
toda certeza.
— Vamos negociar? — perguntou
Bell num tom de insegurança.
— Bem que gostaria disso. A
questão é se poderemos negociar com essa gente. Os fatos indicam o contrário.
Por que será que não nos deixaram expedir a mensagem? Isso não poderia fazer
mal a ninguém. A esta altura toda a Humanidade já deve saber que a Stardust pousou na Lua. Portanto, não
faz nenhum sentido interromper as nossas comunicações de forma tão drástica.
Isso até parece obra de algum maluco. Não há nenhuma lógica, nenhum motivo. Se
tentassem nos matar ainda haveria uma certa lógica nesse procedimento. Mas
parece que não estão pensando nisso. Por que será?
Bell voltou a soltar seus
assobios estridentes.
— Em última análise é
precisamente isso que fazem: estão nos matando — disse. — É verdade que o.
estão fazendo aos poucos. Quando as nossas reservas de oxigênio estiverem
esgotadas...
Bell ficou calado. Sua testa
enrugou-se. Depois, disse laconicamente:
— Está certo, comandante. Vou
registrar o novo curso no mapa. Vamos à boca do mistério. Dentro de oito horas
estaremos lá.
Virou-se na sua poltrona.
Depois veio a observação de Rhodan.
— Antes de mais nada vamos
dormir exatamente oito horas. Depois vamos fazer a barba. Não quero dar a
impressão de um selvagem.
Bell ficou perplexo. Olhou
pelo material da cúpula blindada.
— Fazer a barba? — gemeu. —
Será que ouvi bem?
— Os asiáticos não têm tanta
barba como nós. Por isso nosso aspecto poderia ser chocante para eles —
explicou Rhodan com um sorriso estranho.
Reginald Bell sentiu um
calafrio. Quais seriam as idéias do comandante?

Nenhum comentário:
Postar um comentário