Pediu maiores detalhes sobre o ataque,
marcando local e hora do acontecimento num imenso mapa da cidade, que cobria
toda uma parede da sala. Tinham tido o topete de atacar uma bem armada viatura
de patrulha a apenas quilômetro e meio do Palácio Vermelho!
Crek-Orn perguntava-se de onde aqueles
insignificantes seres pelados tinham tirado de repente tanta coragem.
* * *
Aproximadamente no mesmo momento Wuriu
Sengu saltava da cabina do pequeno transmissor secreto no trigésimo oitavo
pavimento, colocando-se ao lado de Rhodan. Encarou fixamente a parede, como se
visse nela alguma coisa; depois deixou o olhar vagar. Aparentava um ar de
doido.
Os iniciados, no entanto, não precisavam
de explicação; sabiam que Wuriu Sengu possuía o dom de penetrar com o olhar
através de matéria sólida, à distância que quisesse. Ele necessitou de bastante
tempo, mas por fim exclamou:
— Avistei-o! Não está longe daqui, só a
sete pavimentos abaixo!
Rhodan fez um sinal a Ralf Marten.
— Confira as impressões de Wuriu.
Verifique se é de fato nosso homem!
Marten concordou com um gesto. Rhodan
virou-se para Marshall, que acabava de emergir do transmissor.
— Está em contato com Betty?
Sem responder, Marshall estacou, o olhar
fixo e ausente. De repente disse:
— Sim, ela está se comunicando!
— Pergunte-lhe como vão as coisas com
Vafal.
Não se ouviu o menor som, nem da pergunta
de Marshall, nem da resposta de Betty Toufry.
— Muito bem — informou Marshall pouco
após. — Assaltaram uma viatura de patrulha, matando os ocupantes. Escaparam sem
dificuldade. Continuam agindo de acordo com as instruções recebidas.
— Ótimo. Diga a Betty que se cuide.
Marshall transmitiu o recado. Enquanto
isso, Ralf Marten conseguira se apossar do sentido visual e auditivo de
Crek-Orn. Mantendo os próprios olhos cerrados, e apertando as mãos contra as
orelhas, via com os olhos de Crek-Orn, e ouvia com os seus ouvidos. Presenciou,
sem compreender a razão, como Crek-Orn ia para o mapa da cidade na parede,
assinalando um ponto nas cercanias do palácio. Ouvir, só ouvia a respiração
sibilante de Crek-Orn e o ranger de suas botas sobre o soalho.
Mas sabia que se tratava de Crek-Orn.
Nunca tinha visto um tópsida com uniforme tão espalhafatoso.
— Confirmado! — disse Marten a Rhodan,
dando por finda a visita clandestina. — É o próprio!
Rhodan acenou para Tako:
— Sua vez agora!
Sorrindo, Tako empunhou o psicoirradiador
pronto para funcionar.
— Nada de se arriscar! — avisou Rhodan. —
O almirante pode ser ágil, e dar o alarma antes que você tenha tempo de
focalizá-lo.
Tako afirmou, com voz tranqüila:
— Não se preocupe, chefe, terei todo o
cuidado.
* * *
Crek-Orn voltou pensativo para sua mesa.
Gostaria de saber...
Que ruído seria aquele? Levantando os
olhos, viu, parado diante de sua mesa, um homem como nunca lhe aparecera igual.
Era aproximadamente da altura de um ferrônio, porém a cor do rosto era
estranhamente amarelada, e os olhos pareciam fendas enviesadas.
Inclinando-se para a frente, Crek-Orn
fitava incrédulo o desconhecido. A mão direita deslisou instintivamente sobre o
tampo da mesa, em direção do botão de alarma. De que maneira aquele homenzinho
se teria introduzido ali? Viu que trazia uma arma, apontada para seu peito. Num
acesso de pânico, procurou alcançar o botão. Mas antes de pressioná-lo, mudou
de idéia.
Ora, afinal por que temer o estranho?
Apesar da pele nua, e de ser evidentemente um ferrônio, até que parecia ser um
sujeito simpático. Bastante simpático, para ser franco. Algum peticionário,
talvez, que conseguira entrar sorrateiramente na sala de trabalho do almirante.
Bem, fosse qual fosse o pedido que lhe faria, seria prontamente concedido.
O desconhecido abriu a boca, dizendo
palavras que o almirante tinha certeza que não ia compreender. Para sua
surpresa, apreendeu o sentido do que o homenzinho de olhos tortos dizia:
— Lá em cima, no trigésimo oitavo andar,
no corredor da ala leste, está um homem que deseja lhe falar. Mande um guarda
buscá-lo. Deve ser bem tratado, é amigo.
Crek-Orn não opôs a menor objeção. Seria
um prazer mandar trazer o amigo do estranho — ou seu próprio amigo? Não ficara
claro de quem ele era amigo. Através do intercom, deu as ordens necessárias.
Tako acompanhava com atenção os movimentos
do tópsida. Era difícil saber até onde aqueles reptilóides eram influenciados
pelo psicoirradiador. Tinham um jogo fisionômico por demais inexpressivo.
Os minutos corriam. Por fim, a campainha
da porta soou; na tela via-se, ao lado do ordenança, a estatura elevada de
Perry Rhodan.
Crek-Orn foi abrir a porta e dispensou o
ordenança.
Rhodan colocou-se diante do almirante,
tomando o irradiador das mãos de Tako Kakuta.
— Precisamos da sua espaçonave de guerra!
— disse, secamente.
— Mas naturalmente! — respondeu Crek-Orn,
cordato, na sua fala gutural.
Rhodan não entendia o idioma tópsida,
porém o aceno de cabeça do almirante era suficientemente explícito.
— Vou lhe dar algumas instruções —
continuou Rhodan — a fim de que a transferência da nave se processe sem
atritos.
— Pois não! — disse Crek-Orn, em ferrônio.
— Diga!
— Providencie a evacuação da nave.
Justifique a ordem, dizendo que ela sofrerá uma revisão completa.
— Impossível! — exclamou Crek-Orn,
enfaticamente. Apanhando uma lâmina metálica, começou a desenhar. Traçou uma
grande esfera, uma porção de aparelhos e de tópsidas, todos atarefados com a
nave. Depois rabiscou no céu imaginário um sol, indicando com o estilete que
ele girava repetidamente em sentido inverso ao dos ponteiros do relógio.
— Oh! — exclamou Tako. — Ela foi revisada
há apenas alguns dias.
— Raios! — praguejou Rhodan. Era raríssimo
ouvi-lo praguejar, mas bem que a situação presente o justificava.
Mesmo com o psicoirradiador não podia dar
ordens absurdas. E seria impraticável colocar toda a frota tópsida sob
influência hipnótica. Além disso, alguém suspeitaria forçosamente daquela
revisão inesperada e repetida, em espaço tão curto, justamente da maior nave da
frota.
— Tem recebido reforços de Topsid nos
últimos dias? — perguntou Rhodan.
Crek-Orn confirmou o fato.
— E armas?
— Também.
— Mande levar a nave para as docas, na
orla do espaçoporto, dizendo que pretende instalar nela um novo tipo de
armamento. Entendido?
— Sim, meu amigo.
Rhodan sentou-se diante de Crek-Orn.
— Vamos aos detalhes — disse ele. — A
ordem para o desembarque da tripulação deve ser dada imediatamente. Não aceite
argumentos em contrário.
Voltando-se para a planta da cidade, na
qual aparecia ainda o extremo norte do espaçoporto, com as três docas, ordenou:
— A nave deve ser levada para a doca
central, está bem?
Crek-Orn anuiu.
— Quero que esteja lá dentro de cinco
horas.
— Certo.
Rhodan curvou-se sobre a mesa.
— Vamos nos retirar agora. Assim que
sairmos, esquecerá nossa visita. Não esqueça, porém, que deseja instalar novas
armas na nave. A tarefa será mais simples sem os tripulantes a bordo. Espero
que estejamos de acordo.
— Mas é evidente! — respondeu Crek-Orn,
visivelmente satisfeito por ter compreendido tudo tão bem.
— Mande o ordenança me levar de volta! —
disse Rhodan.
Crek-Orn convocou o guarda, e Rhodan retirou-se
com ele. Tako apossou-se do irradiador e esperou que Crek-Orn desse a ordem de
evacuar a nave e conduzi-la à doca. Depois desapareceu.
Passando a mão pela testa, Creck-Orn
perguntou-se:
— Gostaria de saber de onde tiraram
coragem para atacar uma viatura de patrulha tão perto do palácio!
* * *
— Tudo em ordem!—disse Rhodan. — E Vafal?
— Junto com o pessoal de Gloctor, ateou
fogo ao edifício de onde surrupiamos nosso transmissor. Um dos ferrônios perdeu
a vida nisso. Betty informa que na cidade a confusão começa a se generalizar.
— Ótimo! — comentou Rhodan. — Retirada!
* * *
Pela primeira vez em sua vida, Tequer-On
questionou a sanidade mental de um superior; e agora duvidava do almirante em
pessoa.
“Mas a nave passou por revisão na semana
passada”, refletia. “Será que não sabiam, então, que estavam para chegar novas
armas? E justamente em vésperas de uma ofensiva geral a tripulação recebe ordem
para desembarcar?” Sem ousar dirigir-se ao próprio almirante, comunicou-se com
o oficial de ligação do Palácio Vermelho. Este não sabia de nada.
— Quando foi que recebeu a ordem? —
indagou.
— Há alguns minutos — respondeu Tequer-On.
— Meus homens estão arrumando a bagagem.
O oficial de ligação denotava claramente
sua indecisão na imagem vista na tela. Seu posto era equivalente ao de
Tequer-On.
— Posso averiguar para você — ofereceu. —
A ordem veio do almirante em pessoa?
— Exato — replicou Tequer-On,
soturnamente. — Até parece que ele não anda regulando bem.
— Espero que não ouse duvidar da
capacidade intelectual de nosso almirante! — observou o oficial, em tom de
reprovação.
— Mas claro que não! — apressou-se a
exclamar Tequer-On. — Mesmo assim, eu lhe ficaria grato por uma confirmação.
— Chamo daqui a pouco.
Agradecendo, Tequer-On desligou e voltou
às suas reflexões. Era um oficial relativamente jovem, e fora encarregado do
comando da maior nave da frota por indicação direta do déspota, em vista de sua
inteligência e valentia. Pareceu-lhe viável a hipótese de uma possível traição;
mas de onde teria partido? Vai ver que alguém lhe transmitira aquela ordem
absurda sob a máscara da identidade do almirante... Confuso, achou que a melhor
saída seria dar um pulo à cidade e falar pessoalmente com o almirante Crek-Orn.
Mas primeiro aguardaria a resposta do oficial de ligação.
Esta não tardou:
— A ordem é válida. Você deve abandonar a
nave, assim como toda a tripulação. Ela será conduzida à doca norte, a fim de
ser equipada com novas armas.
— Está bem! — disse Tequer-On, conformado.
— O almirante deve saber o que faz...
Desligou, porém continuava convencido que
era uma ordem sem sentido. Era duro tomar a decisão de ir se apresentar ao
almirante, mas não lhe restava outro recurso.
Passou o comando ao primeiro-oficial,
tomou um planador, e voou para a cidade.
* * *
O transmissor no subsolo da hospedaria de
Tiamér funcionava a todo vapor. Perry Rhodan cuidava dos últimos preparativos
para a tomada da nave. Por enquanto, a maneira mais segura de se comunicar,
quer com o forte do deserto sob a Cordilheira das Cobras, quer com os demais
conspiradores em Sic-Horum, era a mensagem escrita.
Rhodan determinou a Crest e a Thora:
— Vou lhes enviar todo o nosso contingente
de Sic-Horum. Quero que lhe ministrem treinamento-relâmpago no manejo de uma
superespaçonave arcônida do tamanho da que teremos em mãos em futuro próximo.
Separem igualmente entre os robôs especializados os que possam ser utilizados
como auxiliares de navegação. E se apressem! Não pode haver atraso!
O grupo em Sic-Horum recebeu instruções
equivalentes. Meia hora depois de receber a mensagem, estavam novamente em
Rofus, permitindo que os dois arcônidas lhes ajustassem aos crânios os
eletrodos do aparelho de hipnopedia.
Reginald Bell era o único a enxergar
através da máscara confidente de Rhodan; sabia muito bem que o aparente
otimismo escondia profunda preocupação. Sabia tão bem quanto o amigo das
dificuldades inerentes ao manejo duma supernave como a que se encontrava
pousada no espaçoporto.
— Apenas para confirmar, chefe — disse
pensativo, com as mãos cruzadas nas costas — quantos tripulantes são
necessários para que uma nave dessas possa funcionar integralmente?
— Trezentos — respondeu Rhodan,
laconicamente.
— E contamos com quarenta e sete... —
murmurou Bell.
— Pode aumentar a conta — disse Rhodan,
sacudindo a cabeça. — Temos os robôs especializados, que podem assumir a função
de tripulantes. Mesmo assim, não serão ao todo mais do que setenta. Sei onde
quer chegar!
Balançando na ponta dos pés, Bell não
desgrudava os olhos do chão.
— Pois é... E como pensa se arranjar?
— Bem, os postos de combate não vão poder
ser guarnecidos. Um deles, talvez, no máximo. E não poderemos perder tempo repelindo
atacantes. A estratégia se resumirá forçosamente a fugir o mais depressa
possível, até encontrar abrigo num lugar seguro.
— Vai ser apertado, não é?
— Parece que sim. Mas nós todos sabíamos
de antemão que o golpe ia requerer mais sorte do que destreza.
A porta foi aberta com um empurrão, e Teél
se precipitou para dentro. Seu rosto irradiava alegria; Rhodan ainda não tivera
oportunidade de ver ferrônio algum tão radiante.
— A nave já está na doca! — gritou Teél. —
Não ficou vivalma a bordo!
* * *
Tequer-On procedeu ainda a algumas
investigações preliminares antes de solicitar audiência ao almirante. Um dos
indícios lhe pareceu significativo: na última remessa procedente de Topsid
constava de fato grande quantidade de armamento, porém nenhum que a nave de
guerra ainda não possuísse a bordo. Só se tivessem enviado alguma arma secreta,
não registrada pelo almoxarifado; porém julgava essa hipótese improvável. Suas
suspeitas cresceram.
Apresentou-se no gabinete do almirante com
as escamas vibrando nervosamente, sendo admitido após curta espera. Apesar de
escolher cuidadosamente as palavras, e abordar o assunto com mil rodeios, não
conseguiu evitar que Crek-Orn se encolerizasse. Mais algumas frases, e seria
deposto do comando.
No entanto, suas palavras não ficaram sem
efeito. Crek-Orn começou a ficar pensativo. Mandou buscar as relações do
material recebido, até as mais sigilosas, acessíveis apenas a ele próprio e a
um ou outro oficial de segurança.
De fato, não chegara a Ferrol arma alguma
de que a nave arcônida não dispusesse desde o início.
O almirante afundou em cogitações.
— Mas como é que fui dar uma ordem dessas?
* * *
Rhodan estava bastante certo de que nem
Gloctor, ou Teél e Vafal faziam questão de embarcar com ele na nave. E nem
pretendia iniciar ferrônio algum nos segredos de uma nave de guerra arcônida.
No entanto, conseguiu convencer os três homens a lhe ceder todos os elementos
dispensáveis na próxima incursão ao Palácio Vermelho, a fim de lhe servirem de
escolta na corrida para o espaçoporto.
Não lhe escapou o fato de que começava a se
disseminar um clima de inquietude, principalmente entre os homens de Vafal.
Como este tivesse aludido por mais de uma vez à sua dúvida quanto ao êxito do
empreendimento, era provável que influenciara igualmente seu grupo. Rhodan
chamou Vafal de lado, apelando para sua consciência.
— Concordo, aparentemente somos os únicos
a beneficiar-se desta operação. Pense, porém, numa coisa: com a passagem da
nave às nossas mãos, os tópsidas serão privados da maior parte de seu poder
ofensivo. E não nos considere ingratos! Faremos tudo que estiver ao nosso
alcance para expulsar os tópsidas deste sistema planetário!
Rhodan não sabia se tinha convencido
Vafal, porém lhe faltava tempo para continuar insistindo.
Gloctor foi mais compreensivo.
— Aguarde junto à doca — ordenou-lhe
Rhodan. — Caso algo saia errado, aviso pelo rádio.
Teél concordou em provocar com sua gente
uma série de incidentes que colocassem em polvorosa a cidade, e, sobretudo, os
tópsidas.
Tiamér juntou-se a Gloctor. Representava o
homem-chave, pois era o único a dispor duma viatura na qual poderiam levar o
transmissor, e sem este de nada valeria a Rhodan a nave conquistada.
Rhodan conservou consigo Bell, Wuriu Sengu
e Tako Kakuta. Marshall, Marten e Betty Toufry foram considerados dispensáveis;
sobretudo porque ele fazia questão de saber Betty entre pessoas de confiança
por ocasião da marcha para as docas.
Rhodan esperou que a hospedaria de Tiamér
ficasse deserta. Combinara com Gloctor que devia estar em seu posto nas docas o
mais tardar até as dezoito horas, acompanhado de todo o seu grupo.
Eram agora doze e quarenta. Não havia
sentido em precipitar os acontecimentos. Qualquer movimento prematuro seria
perigoso.
Reginald Bell disse, pensativo:
— Quem me dera já estar algumas horas mais
velho!
Porém Rhodan atalhou, secamente:
— Calma, rapaz! Com essa impaciência pode
acabar no cemitério mais cedo do que pensa!
Olhou para a rua, através da janela. Nada
indicava que um punhado de gente se dispunha a executar nas próximas horas o
mais arrojado golpe daquela guerra.
Consultou o relógio. Mais meia hora...
* * *
— Mande retirar a ordem! — exclamou
Crek-Orn, confuso. — Isto é... eu mesmo vou revogá-la. Você tem razão: é
totalmente absurda. Bem que eu gostaria de saber o que me levou a dá-la, para
começar!
Mas para Tequer-On o caso ainda não estava
encerrado. Faltava descobrir o inimigo oculto. Caso escapasse desta vez,
atacaria numa segunda e numa terceira oportunidade. Diante da habilidade
demonstrada, facilmente obteria êxito em futuras maquinações.
No entanto, achou desaconselhável expor
suas dúvidas ao almirante. Havia outras maneiras de resolver o problema.
* * *
— Tática idêntica à usada anteriormente —
avisou Rhodan, muito sério. — Tako, apanhe o irradiador, e providencie para que
o almirante mande nos buscar.
Encontravam-se na praça fronteira ao
Palácio Vermelho. Não perto bastante para atrair a atenção das sentinelas, nem
tão longe que Tako não pudesse vencer a distância num único salto teleportado.
— Vá! — ordenou Rhodan. Tako sumiu
instantaneamente.
Tudo decorreu como da primeira vez.
Tequer-On acabara de sair do gabinete do almirante, o qual ficou imaginando o
que o levara a dar uma ordem tão estapafúrdia.
Crek-Orn sobressaltou-se ao ver de repente
surgir do nada o diminuto japonês.
Tentou fazer soar o alarma, porém Tako
acionou o irradiador, e instantaneamente o almirante sentiu renascer a mesma inexplicável
cordialidade já experimentada na ocasião anterior.
Tako lhe deu ordem de mandar buscar
Rhodan, Sengu e Bell; o almirante convocou sem tardança um soldado. Este
atravessou com passo marcial a ampla praça diante da residência do Thort,
prestou continência diante de Rhodan e de seus acompanhantes, falando algumas
palavras que nenhum deles compreendeu. A seguir fez meia-volta, marchando de
volta para o palácio.
Rhodan e os companheiros o imitaram.
Por motivos que nem ele próprio saberia
definir, Rhodan não se sentia muito confiante desta vez. Disse a si mesmo que
eram coisas da inteligência humana, naturalmente avessa a acreditar em excesso
de sorte, mas nem assim suas dúvidas se desvaneceram.
Os corredores do palácio estavam bastante
movimentados. Grande número de tópsidas, uns fardados, outros à paisana,
circulavam atarefados de um lado para outro. Ninguém lhes prestou a menor
atenção.
Subiram num elevador elaboradamente
ornamentado, e no corredor do trigésimo primeiro andar Rhodan deparou pela primeira
vez com um tópsida que lhes dispensou atenção; e uma atenção por demais
insistente.
— Olhe bem para aquela lagartixa! —
cochichou para Bell.
Bell voltou-se discretamente.
— Certo. Por quê?
— Está interessada demais em nós. Guarde
bem a fisionomia, sim?
— Pode deixar comigo!
* * *
Tequer-On não saberia explicar por que
suspeitara dos estranhos à primeira vista. Porque um deles era de estatura
alta, talvez, muito mais alto do que a média das pessoas daquele mundo.
Sentiu-se intrigado ao ver o trio entrar
com o soldado na ante-sala de Crek-Orn. Aguardou a volta do ordenança, e
interrogou-o. A resposta não foi nada esclarecedora, e Tequer-On decidiu
esperar. Estava curioso por decifrar aquele mistério.
* * *
— Vai nos acompanhar! — disse Rhodan. —
Chame uma viatura e venha conosco aos estaleiros, no espaçoporto.
Crek-Orn não fez objeção. Claro, seria
agradável sair daquela sala por alguns minutos.
— Mande a viatura se apressar! — insistiu
Rhodan.
Crek-Orn manteve um breve diálogo no
intercom; depois levantou-se, dizendo:
— Podemos ir.
Rhodan não entendeu as palavras, porém o
gesto era óbvio.
— Um instante, apenas! — disse.
Comunicou-se com Gloctor. — Como vão as coisas?
— Tudo em ordem.
— Ótimo. Vamos sair agora.
Fez um gesto na direção de Crek-Orn, que tomou
a dianteira. Atravessando a ante-sala, passaram ao corredor. Rhodan seguia o
almirante de perto, segurando o psicoirradiador de tal maneira que dificilmente
seria percebido.
A primeira pessoa que encontraram era
justamente o homem para o qual chamara a atenção de Bell há alguns minutos.
Estava em companhia dum grupo de oficiais uniformizados, parados à esquerda do
corredor. Tequer-On fitou o almirante com intensa surpresa.
Crek-Orn avistara-o igualmente; deteve-se
instintivamente, por uma fração de segundo, e o tópsida aproveitou o momento
para barrar o caminho de seu comandante. Até Rhodan, que não sabia interpretar
os gestos nem o jogo fisionômico daqueles lagartídeos, percebeu a flagrante
atitude de subserviência.
— Perdão, almirante — murmurou Tequer-On.
— Permita-me uma pergunta, por favor!
Crek-Orn fitou seu subordinado com
indignação. Rhodan não o instigou a prosseguir, receando despertar suspeitas.
Raios, se ao menos pudesse compreender o que diziam!
— Fale! — acabou por resmungar o
almirante.
— Senhor, esses desconhecidos têm algo a
ver com a minha nave?
— Não vejo razão para discutir os
propósitos de meus visitantes! — replicou Crek-Orn, com superioridade.
Tequer-On inclinou-se para a frente:
— Por favor, almirante, responda-me!
Talvez não saiba...
— Basta! — berrou Crek-Orn, irritado. —
Guardas, prendam este homem e joguem-no no cárcere!
Dois soldados vieram correndo, e tentaram
segurar Tequer-On. Mas, vendo a jogada perdida, o capitão reagiu com violência.
— Vamos andando? — murmurou Rhodan.
Crek-Orn retomou a caminhada. Seguia com
passos rígidos, como um autômato. Rhodan amaldiçoava sua posição desfavorável,
que o obrigava a seguir o almirante tão de perto, limitando a este a ação do
irradiador. Seria brincadeira influenciar igualmente o jovem oficial com ele,
porém neste caso seria obrigado a liberar o almirante por alguns momentos.
Ouvia os silvos e chiados de indignação do
aprisionado às suas costas, sem entender o significado das palavras. Porém
Bell, virando-se, viu Tequer-On apontar para o irradiador.
— Acelerem, gente! Ele descobriu o
irradiador!
Crek-Orn era um homem idoso, e não podiam
fazê-lo percorrer o corredor a passo acelerado sem causar estranheza. Rhodan
transpirava. O espaço de tempo necessário para chegar aos elevadores lhe pareceu
intoleravelmente longo, e a curta viagem até o pavimento térreo constituiu
verdadeira agonia.
A viatura já aguardava. Quando embarcaram
nela, arrancando a toda a velocidade, o perigo maior parecia ter ficado para
trás.
* * *
— Não perceberam que ele estava sob
ameaça? — arquejou Tequer-On. — Puxa, como vocês são imbecis! Ele vai entregar
minha nave, a maior de nossa frota, só porque é forçado a fazê-lo!
Os guardas hesitaram.
— Soltem-me de uma vez! — berrou
Tequer-On. — Larguem-me e tratem de tomar providências! Façam alguma coisa!
Mandem levar a nave para outro lugar!
Suas vociferações acabaram convencendo os
guardas. Afastaram-se correndo, para executar as ordens recebidas. Afinal,
também tinham visto a arma apontada pelo estranho para as costas do almirante.
Em breve, o alarma fora dado em toda a área do espaçoporto.
* * *
— Tem algo errado aí! — resmungou Ralf
Marten. — Não estou gostando disso.
Diante deles via-se o vasto complexo do
estaleiro norte, um agloramerado de hangares, estandes de provas e docas secas
para reparo das naves. Ainda há poucos momentos atrás desenrolava-se por ali a
atividade modorrenta de um estaleiro cuja única tarefa era tomar conta da nave
gigante. Porém de repente a área foi invadida por inúmeros soldados tópsidas,
fortemente armados, que cercaram por todos os lados o enorme globo.
Gloctor observava atentamente os
acontecimentos.
— Avise Rhodan! — recomendou Marten.
O aviso foi feito sem demora. Gloctor
acenou afirmativamente com a cabeça ao receber a resposta. Desligando, disse a
Marten:
— Ele nos mandou provocar agitação. Disse
que estará aqui dentro de poucos minutos.
— E Teél, o que faz?
Gloctor recorreu novamente ao rádio.
— Encontra-se nos arredores do espaçoporto,
meio longe daqui. Só sentiremos os efeitos de sua atuação meia hora depois que
ele começar a agir.
— E Vafal?
Nova comunicação. Ou seja, uma comunicação
não completada. Vafal não respondia.
— Patife! — resmungou Marten. — Caiu fora!
De pé ao seu lado, a pequena Betty
escutava tudo que diziam. Marten viu que ela fitava intensamente um dos
estandes de prova, com um leve sorriso nos lábios.
— Betty, o que... ?
Antes de terminar a pergunta, percebeu o
que ela fazia. O estande de provas, que não passava de uma armação de suportes
metálicos arqueados por cima de uma plataforma móvel, começava a oscilar. O
sorriso de Betty desapareceu; seu rosto se contraiu como se estivesse
realizando violento esforço. Os suportes estalaram; um deles desprendeu-se das
juntas soldadas, projetando-se com estrépito ao solo. Os soldados tópsidas
desfizeram as fileiras. Em grupos, se aglomeraram diante do estande de provas,
olhando espantados a viga caída.
Betty descontraiu-se com um suspiro. Riu
maliciosamente.
— Espero que o senhor Rhodan não demore a
chegar... — murmurou em voz baixa.
* * *
Tequer-On dirigia a ação de dentro do
Palácio Vermelho. Não julgou prudente ir até o espaçoporto; talvez tudo já
tivesse acabado antes que chegasse lá. A princípio, tudo pareceu correr bem.
Mas depois uma trave metálica se desprendera dos suportes num dos estandes de
prova, quase atingindo mortalmente alguns dos soldados. Logo após, um dos
hangares desmoronara sem causa visível. Um oficial fora jogado brutalmente
contra uma pilastra por mão invisível, perdendo os sentidos. A área do
estaleiro não era muito ampla, e a notícia das estranhas ocorrências se
espalhou logo, provocando inquietação entre os soldados.
O próprio Tequer-On espantou-se diante dos
aterrorizantes recursos de que o inimigo dispunha. No entanto, nem pensava em
desistir. Convocou dois batalhões de infantaria para reforçar os efetivos
destacados para as docas.
* * *
— Pois bem, ao ataque! — disse Rhodan. —
Tako, faça o que puder!
Rhodan daria uma fortuna para ter consigo
agora Ras Tshubai, pois numa situação daquelas um só teleportador vale por meio
exército. E Tako talvez não conseguisse dar conta do recado sozinho.
Era uma procissão estranha a que se
dirigia agora para a nave. Na ponta seguiam Crek-Orn e Perry Rhodan, que não
desviava o psicoirradiador das costas do almirante; a seguir vinham Gloctor e
seus homens; os flancos eram formados pela gente de Rhodan, e na retaguarda
vinha Tiamér com seu caminhão de carga, que levava o transmissor.
* * *
Tequer-On expediu a seguinte ordem:
— Ninguém deve obedecer às ordens do
almirante. É óbvio que ele se encontra sob o domínio do estranho, e não pode
ser responsabilizado por seus atos.
O comunicado despertou surpresa em todos
os setores; no entanto, foi decidido que as ordens de Tequer-On seriam
acatadas. Afinal, tratava-se de um oficial superior, que, além disso, comandava
a maior nave da frota tópsida.
* * *
Quando atingiram o limite do espaçoporto,
quase junto às docas, foram detidos. Crek-Orn reclamou em altos brados da
atitude dos guardas, porém estes evidentemente não davam a menor importância
aos protestos do almirante.
Estudando a situação, Rhodan viu que se
defrontava apenas com um oficial e dois soldados. O resto da tropa começava a
se reorganizar, já refeita da comoção dos últimos minutos, ocupando as posições
indicadas junto à nave de guerra.
Bell estava alerta. A um sinal de Rhodan,
liquidou o oficial e seus acompanhantes.
— Acelerar o passo! — ordenou Rhodan.
Deixando o almirante onde estava,
correram. A intenção era levar Crek-Orn como prisioneiro de guerra, porém,
dadas as circunstâncias, a mobilidade valia muito mais do que o maior figurão
que pudessem capturar.
Tako desapareceu. Do lado oposto da nave
houve tremenda balbúrdia. Sem o menor aviso, surgiu no ar um homem de aparência
indescritível, atirando feito doido a torto e a direito. Em alguns segundos,
colocou metade da companhia fora de combate, sumindo sem que alguém chegasse a
esboçar a menor reação.
Cercada por seus anjos de guarda, Betty
não obstante ajudava a aumentar a confusão. Armas caíam das mãos dos portadores
e saíam voando; uniformes eram rasgados misteriosamente; tiros partiam sem que
ninguém apertasse o gatilho. O pânico dominou os soldados. Atirando
furiosamente a esmo, foram se recolhendo por trás da nave, enquanto Rhodan
avançava para ela com seus homens, abandonando a cobertura dos hangares.
Tako reapareceu de repente.
— Para a nave! — arquejou Rhodan. —
Procure encontrar um posto de combate que saiba manejar!
Alcançaram a nave bem a tempo. Do sul,
pela pista do espaçoporto lisa e brilhante como um espelho, aproximava-se uma
fila de viaturas militares; e era pouco provável que viessem com intenções
amistosas.
A última tentativa de resistência dos
soldados foi anulada quando um dos oficiais, sob a ação do psicoirradiador lhes
berrou:
— Tratem de se raspar daqui o mais
depressa possível, entenderam?
Era, textualmente, o comando hipnótico que
Rhodan lhe transmitira.
A linha de soldados recuou, perseguida
pelo fogo cerrado dos homens de Rhodan, agora organizados. Parou apenas a
algumas centenas de metros mais adiante, detida pela coluna motorizada que
vinha em seu auxílio.
Rhodan valeu-se da pausa.
— Para a escotilha de entrada, rápido! —
gritou para seu grupo. Confiando em que obedeceriam sem discutir à ordem dada,
correu para junto de Tiamér e de seu caminhão. Gloctor ajudou a descer o
transmissor. A escotilha da nave estava aberta, e não havia mais sinal do
pessoal de Rhodan.
Erguer o transmissor até a escotilha e
empurrá-lo para dentro requereu violento esforço por parte dos dois homens.
Terminada a tarefa, ambos suspiraram.
— Não quer mesmo vir conosco? — perguntou
Rhodan.
Gloctor sacudiu a cabeça.
— Não teria sentido. Vou é aproveitar a
oportunidade para me safar discretamente com minha gente. Pois esses caras ali
— continuou, apontando para a coluna motorizada que se aproximava — vão estar
ocupados demais em tentar impedir sua decolagem para olhar para o nosso lado.
— Obrigado por tudo! — disse Rhodan,
estendendo a mão.
Gloctor apertou-a, porém protestou:
— Nós é que ficamos lhe devendo gratidão!
Rhodan alçou-se pela abertura da
escotilha. Com um olhar de despedida para Gloctor, acionou o mecanismo de fechamento,
e foi se juntar aos seus homens. A situação era verdadeiramente peculiar.
Tinham conseguido subir a bordo da nave, na verdade; porém junto com eles devia
ter embarcado sem a menor dúvida um grupo de tópsidas. Coisa de Tequer-On,
quando se apercebera do que ocorria. Por via das dúvidas, mandara uma patrulha
para vigiar e defender a valiosa espaçonave.
Bem, a questão agora era decidir a quem
caberia a posse da gigantesca esfera. Rhodan confiava em que ele próprio e
Bell, imbuídos dos conhecimentos arcônidas adquiridos através da
hipno-aprendizagem, saberiam tirar maior proveito dos recursos disponíveis a
bordo do que um bando de tópsidas escolhidos apressadamente ao acaso. Além
disso, contava com seus mutantes, e cada um deles valia pelo menos por dez
tópsidas.
No entanto, a parada ainda estava para ser
decidida. E evidentemente os dois batalhões de reforço enviados por Tequer-On
fariam sua parte para tentar fazer a balança se inclinar a favor dos tópsidas.
Portanto, Rhodan procurou chegar o mais depressa possível à cabina de comando.
V
Encontrou seus homens no corredor que
ligava a escotilha de entrada ao interior da nave. Estavam parados diante do
vão dos elevadores antigravitacionais. Quando Wuriu Sengu avistou Rhodan,
ergueu a mão.
— Cuidado! — cochichou. — Há pelo menos
cem tópsidas a bordo.
— Onde?
Sengu indicou diversos pontos acima de sua
cabeça.
— E na cabina de comando?
— Apenas dois homens.
— Sabe de Tako?
— Sim — disse Sengu, pressuroso. —
Encontra-se diante da porta blindada de um posto de combate. Este está ocupado
por cinco tópsidas.
Rhodan lançou um olhar em torno.
— Está bem, vamos subir!
Usaram o elevador sem contratempos. Sengu
ia relatando os movimentos de Tako. Este saltara para o interior do posto de
combate, liquidando os cinco ocupantes antes que se refizessem da inesperada
surpresa provocada por sua intempestiva aparição.
Rhodan deu um suspiro de satisfação. Por
meio do rádio, mandou Tako abrir fogo contra a coluna motorizada assim que esta
chegasse a menos de quinhentos metros da nave.
Apossar-se da cabina de comando foi coisa
de minutos. Os dois tópsidas de guarda tinham julgado desnecessário trancar a
porta blindada. Rhodan abriu-a com um empurrão, rendendo os dois homens com sua
arma, enquanto Bell os amarrava.
A seguir Rhodan procedeu a uma rápida
inspeção dos painéis de controle existentes na cabina; até então só os conhecia
na teoria. Pareceu-lhe que não encontraria grande dificuldade em manejar a
nave, fazendo dela o uso mais vantajoso, em seu próprio benefício e no de seu
pessoal.
Sorriu divertido ao reconhecer o
equipamento que lhe facilitaria a tarefa de se livrar dos soldados inimigos. O
comandante de qualquer nave tópsida tinha à disposição um sistema de
climatização abastecido com CO2; em alguns segundos, ele podia ser
canalizado para qualquer das dependências; o gás irrespirável atordoava
completamente os ocupantes.
Rhodan desistiu de verificar, com a ajuda
do telecom, quais as peças ocupadas por tópsidas; pois mesmo ligado numa só das
vias, o aparelho emitia sempre um leve zumbido. E numa situação como aquele não
seria nada prudente alertar prematuramente o adversário.
Wuriu Sengu apontou as dependências
ocupadas. Acionando os controles apropriados no painel central de comando,
Rhodan trancou as comportas de vedação; fechou igualmente as escotilhas
externas da nave, e ligou o climatizador. Sengu levou poucos minutos para
afirmar que já não havia mais tópsida algum em condições de reagir. Ao mesmo
tempo, Tako comunicava:
— Fui forçado a desintegrar cerca de
metade das viaturas, por estarem se aproximando demais. O resto parece
desorientado, sem saber o que fazer.
A batalha pela posse da nave parecia ter
sido ganha. Rhodan enviou alguns homens para baixo, a fim de trazer o
transmissor. Já era tempo de pensar em trazer Crest, Thora e os restantes
membros da tripulação para bordo.
* * *
Tequer-On desperdiçou momentos preciosos
debatendo consigo mesmo se tinha autoridade suficiente para expedir a ordem
mais dura e difícil. Comunicou-se nervosamente com a nova base no Grande Istmo
Oceânico. Demorou algum tempo antes que o pessoal de lá compreendesse o que
queria. Tequer-On viu-se obrigado a gastar mais alguns minutos para provar que
de forma alguma tinha perdido o juízo.
— O inimigo apossou-se da nave! — berrou
descontrolado no microfone. — Segundo me informaram, eliminaram nossos guardas!
A nave está perdida para nós, metam isso nas suas cabeças duras de uma vez!
Despachem, portanto, um esquadrão de bombardeiros leves, para começar, equipado
com bombas táticas; digam aos pilotos que a nave deve ser destruída a qualquer
preço! E, se esse ataque falhar, o inimigo precisa ser interceptado no espaço
cósmico após a decolagem. Mandem subir três esquadrilhas de destróieres, que
deverão circular numa órbita distante em torno do planeta. E notem bem: o
inimigo não pode escapar com a nave! Senão a guerra acabou para nós, e o
déspota se encarregará de nos fazer sofrer o resto da vida, ocupando o mais
ínfimo posto na hierarquia militar! Estamos entendidos?
* * *
O transmissor estava instalado, com a
freqüência ajustada à da estação no forte do deserto. Rhodan deu ordem para
iniciar o embarque do pessoal, e virou a chave para recepção. Tinha plena consciência de que poderia gastar poucos
minutos no processo, a fim de não acarretar riscos desnecessários à nave.
Os robôs especializados foram os primeiros
a chegar. Seguiram-se os mutantes. Com os robôs, a tripulação somava agora
setenta e dois homens. Rhodan determinou a ocupação das posições essenciais;
conseguiu poupar dois homens para o manejo de um dos superdesintegradores.
Desta maneira, a nave poderia se defender ao menos por um dos lados.
Com a mão sobre o trinco da grade de
proteção, Rhodan esperava por Crest e Thora, que haviam ficado por último, a
fim de supervisionar até o último instante a remessa do pessoal.
A expressão facial de Crest era
indescritível. Lembrava a de um menino conduzido inesperadamente para um país
de conto de fadas, cuja existência ele próprio procurava desmentir
assiduamente.
Thora pelo contrário, exibia o sorriso
irônico que Rhodan esperara de antemão ver em seus lábios.
— Alegra-me constatar que mais uma vez
conseguiu realizar o impossível! — disse ela.
No mesmo instante, Marten anunciava:
— O detector registra mísseis no quadrante
0-1-8!
Com um sobressalto, Rhodan ordenou:
— Desligar o transmissor!
Uma voz respondeu:
— Transmissor desligado.
Com um estalo seco, o trinco da grade
protetora engatou firmemente no lugar. Pelas telas passou fugazmente uma sombra
opaca; a seguir elas voltaram ao normal.
— A postos para a decolagem! — disse
Rhodan, com firmeza. — Partida em vinte segundos!
— Qual é o nosso rumo? — perguntou Thora,
depois que o colosso se alçou do chão, projetando-se no céu azul de Ferrol.
— Rofus! — respondeu Rhodan,
laconicamente. — Que mais?
Os olhos de Thora se arregalaram.
— Rofus? Você está doido!
Rhodan não se alterou.
— Será que é incapaz de imaginar o que os
tópsidas farão a seguir? Teremos que romper caminho por entre algumas
esquadrilhas inimigas, de tocaia aí fora em alguma órbita distante. Feito isso,
até o mais ingênuo oficial tópsida compreenderá a necessidade urgente de tomar
providências imediatas, caso ainda pense em vencer esta guerra.
— E daí? — indagou Thora, sem compreender
onde Rhodan queria chegar. — Na certa irão atacar Rofus, a fim de terminar com
a guerra antes que tenhamos tempo de entrar em ação com nossa nave. E você
pretende voar justamente para Rofus?
Rhodan encarou-a com ar severo.
— Não sei que diferença lhe faria ver todo
um mundo sucumbir diante de seus olhos — disse, em voz baixa, porém incisiva. —
Pois para mim faz diferença; tanta que vou fazer tudo que estiver ao meu
alcance para amparar os habitantes de Rofus.
Thora aprontou uma réplica cáustica, porém
silenciou diante da expressão pétrea de Rhodan. Crest, que observava ambos,
tinha a face pensativa.
— O detector! — gritou Marten, novamente.
— Quinze objetos de porte médio em frente!
— Distância?
— Cento e trinta mil!
— Aprontar nave para hipersalto!
As luzes de controle se acenderam
instantaneamente. Tudo pronto para o salto.
— Atenção! — exclamou Marten. — Estamos
sendo alvejados!
— Saltar!...
As telas se apagaram, recobrindo-se de
sombras cinzentas opacas, depois voltaram a clarear. O cenário mudara. A
estrela que aparecia agora por baixo da nave, cinza-azulada e encoberta por
nuvens, era Rofus. Ferrol brilhava como um ponto luminoso no canto esquerdo da
tela de estibordo.
Crest tinha a testa coberta de suor.
— Arcônida algum teria ousado, em hipótese
alguma, realizar manobra tão arrojada em espaço tão restrito!
— Deu certo, não foi? Além disso, gostaria
que compreendesse que não tínhamos outra saída. Ou pretendia enfrentar uma
frota inteira com um único desintegrador?
Dirigindo-se aos tripulantes, ordenou:
— Aterrissar! Desçam sobre o forte.
Durante o tempo restante, manteve um rápido diálogo com o Thort. Descreveu a
situação, pedindo que ele se encaminhasse, pelos meios mais rápidos, para o
forte. No entanto, sua própria confiança vacilava; não tinha assim tanta
certeza de poder escapar à detecção tópsida; eles seriam capazes de dar com sua
pista mesmo após a realização do hipersalto. Mas também havia a possibilidade
de que o inimigo não descobrisse o paradeiro do colosso seqüestrado. Neste
caso, teriam uma desagradável surpresa por ocasião do inevitável confronto que
se daria, o mais tardar, no dia seguinte. No entanto, Rhodan tinha em mãos um
trunfo de inestimável valor. Como não podia fazer funcionar nem metade de seus
canhões, um bom susto pregado no adversário equivalia a uma porção de
tripulantes a mais.
* * *
Tequer-On recebeu as más notícias sem a
menor reação. Reunira em torno de si todo o estado-maior da guarnição de
Thorta, e lhe pareceu apropriado conservar a máscara de otimismo; pelo menos
enquanto existia um mínimo de razão para ter esperança.
— Nosso próximo passo é óbvio — disse,
gravemente. — O inimigo evadiu-se com nossa nave mais valiosa. Não sabemos para
onde foi. É provável que tenha deixado este sistema planetário o mais depressa
possível. Mesmo neste caso, parece-me aconselhável desfechar o ataque final
contra Rofus. Temos que findar esta guerra o quanto antes! A medida se torna
ainda mais urgente no caso de a nave de guerra ainda continuar neste sistema.
Pois o adversário poderia nos infringir sérios danos com ela. Logo, precisamos
destruir suas bases e esconderijos antes que tenha tempo de se familiarizar com
o uso da nave de guerra.
Erguendo-se, Tequer-On concluiu:
— Avisem suas unidades para estarem
prontas para decolar dentro de três horas!
* * *
Mesmo a imensa entrada para a pista de
aterragem do forte era exígua demais para a massa gigantesca da nave de guerra
arcônida. Rhodan fê-la pousar num vale acima do desfiladeiro, ajustando o
transmissor na freqüência adequada para uso do Thort.
O homem que chegou pouco após era bem
diferente do que Rhodan guardava na memória. A altiva autoconfiança, exibida
até na ocasião em que fora obrigado a fugir precipitadamente de Ferrol,
desaparecera. Nem o quadro da nave capturada teve o efeito de alegrá-lo; apenas
um débil sorriso. Trazia uma comitiva reduzida, conforme convinha a um Thort
vencido.
Rhodan descreveu, em palavras breves e
incisivas, a situação.
— Calculo que os tópsidas atacarão dentro
de vinte ou trinta horas. Duvido que cheguem antes disso, mas, de qualquer
maneira, ficaremos atentos. Lançarão contra Rofus todo o seu poder ofensivo,
pois é chegado o momento da decisão, quer queiram, quer não. Sem dúvida, é
vantajoso para nós termos forçado o inimigo a agir. Não prometo aniquilar a
frota tópsida num só golpe, mas posso lhes causar perdas significativas. Eles
vão precisar de bastante tempo para se refazerem desta derrota. O que nos dará
tempo de regressar à nossa base, a fim de completar a tripulação desta nave.
Nós...
— Pretende nos entregar à nossa própria
sorte? — perguntou o Thort, angustiado.
— Só por alguns dias — tranqüilizou
Rhodan. — Esta nave pouco vale com a tripulação desfalcada.
— Cedo-lhe meus homens! — exclamou o
Thort.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Isto nos atrasaria ainda mais. Não
estamos em condições de instruir seu pessoal com a necessária presteza. Só para
preparar os cartões de hipnotreinamento adequados aos seus homens, levaríamos
duas ou três semanas.
Observou cuidadosamente o Thort, a fim de
verificar o efeito de suas palavras. Na realidade, sua recusa tinha fundamento
bem diverso: não queria estranhos enfronhados nos segredos da nave. Pois em
todos aqueles acontecimentos, não perdia de vista o objetivo principal: guindar
a Humanidade à posição de raça dominante na Galáxia. E os homens precisavam se
precaver, a fim de que seus segredos continuassem a permanecer efetivamente
segredos seus.
O Thort parecia não alimentar
desconfianças. Pesou em silêncio sua situação, e disse:
— Seu regresso nos encherá de satisfação.
Não creio que possamos resistir por muito tempo sozinhos.
— Faremos o que nos for possível —
assegurou Rhodan.
— Nossa dívida de gratidão já é imensa —
continuou o Thort. — Não sei o que teria sido de meu povo sem sua ajuda.
Com um sorriso melancólico prosseguiu:
— Veio a nós como um náufrago do espaço, e
agora possui a mais potente nave de guerra jamais aparecida neste sistema
planetário. Não sei como lhe agradecer!...
Rhodan esperara por aquele momento. Já que
o Thort não sabia como retribuir os favores recebidos, apresentaria uma
sugestão.
— Pois há alguma coisa que eu gostaria de
lhe pedir — disse, quase com descaso.
— De que se trata? Diga!... — urgiu o
Thort, pressuroso. — Eu não seria capaz de lhe negar coisa alguma.
— Bem — disse Rhodan — é algo que não
beneficiaria apenas a mim próprio. Penso no curso futuro da guerra, numa
maneira de levá-la ao término bem depressa, e sem grandes baixas. Minha idéia é
instalar uma série de novas estações transmissoras. Rhodan fitou o Thort. A
face deste revelava angústia.
— Farei o possível. Mas, lamentavelmente,
nossa fabricação de transmissores não passa dum subsetor industrial pouco
desenvolvido. Não creio que possamos fornecer a quantidade de transmissores
necessários em tão curto espaço de tempo.
— Ora, isso não é problema — replicou
Rhodan, com desenvoltura. — Meu mundo estaria em condições de fabricar qualquer
coisa, num mínimo de tempo, desde que tenhamos à mão os respectivos planos.
Tudo que precisaria fazer seria me obter um plano de construção dos
transmissores; então, nos cinco dias de que necessito para preparar meu
pessoal, eu poderia encomendar em meu mundo aparelhos suficientes para montar
uma dúzia de novas estações.
O Thort parecia dominado por profunda
comoção. Era evidente que a proposta não lhe agradava.
— Não sei — disse ele, hesitante — se seus
homens seriam de fato capazes de fabricar aparelhagem tão complexa, cujo
próprio princípio de funcionamento é difícil de compreender. Além disso, há o
perigo de sua nave cair em mãos inimigas, e com ela os esquemas de fabricação
dos transmissores. Não lhe parece arriscado demais?
Rhodan sacudiu decididamente a cabeça.
— De maneira nenhuma. Adversário nenhum em
todo o universo poderia se apossar desta nave ilesa; duvido até que exista
alguém em condições sequer de persegui-la. Quanto a isso, pode ficar
absolutamente tranqüilo. E pela capacidade técnica de meu povo eu garanto, caso
aceite minha palavra como válida.
O Thort interrogou com o olhar seus dois
conselheiros; porém estes pareciam ter se demitido da função. Por resposta,
ambos estenderam as mãos, no familiar gesto de incerteza.
O Thort levou algum tempo para se decidir.
Por fim disse, suspirando:
— Pois bem, façamos a experiência! Mas
quero que saiba que se trata duma resolução muito difícil. No entanto, a
gratidão que lhe devo está muito acima do risco de revelar um segredo técnico a
inimigos.
Rhodan inclinou-se de leve. A custo
conseguiu disfarçar a sensação de triunfo que o dominava.
— Estou certo de que o segredo será
igualmente usado em proveito de seu mundo! — afirmou.
* * *
Os preparativos estavam todos tomados. Os
esquemas de construção dos transmissores se encontravam a bordo. Rhodan não
sentia vergonha por ter praticamente extorquido os planos do Thort. Pois os
transmissores eram um tesouro inapreciável, e nestes casos era permitido fechar
os olhos a determinados conceitos, principalmente levando em conta que
serviriam em primeiro lugar a fins políticos. Rhodan estava disposto até a
ameaçar o Thort com a retirada total de seu apoio caso não lhe cedesse os
planos dos transmissores. Porém, felizmente, não se vira obrigado a ir a tal
extremo.
Rhodan alimentava sérias dúvidas quanto à
sua capacidade de poder manter a promessa feita: regressar em poucos dias, trazendo
transmissores recém-fabricados para uma dúzia de novas estações. Mas por
enquanto não se preocupava demais com isso. Quer conseguisse, quer não, a Terra
possuía agora um segredo técnico desconhecido até pelos arcônidas; e seria
fácil encontrar uma boa desculpa para a demora nas entregas, caso o novo
aparelho não pudesse ser fabricado com a necessária rapidez.
Thora e Crest tinham percebido os intuitos
de Rhodan. Crest não fez
comentário algum, porém Thora, ao ver-se só com Rhodan na cabina de comando por
alguns instantes, comentou, numa estranha mistura de zombaria e admiração:
— Qualquer dia desses vou ficar com a
impressão de que você poderia se tornar um perigo até para Árcon; e nesse dia
despejarei cicuta em seu vinho!
Rhodan sorriu, imaginando onde ela teria
aprendido uma palavra tão fora de uso como cicuta.
* * *
Poucas horas mais tarde foi difundida a
notícia da aproximação da frota tópsida. A nave de guerra decolou, com os
remanescentes da frota ferrônia, escalonados por uma área de cinco mil quilômetros,
por escolta.
Rhodan pilotava pessoalmente o colosso, ao
qual ainda não tinham dado nome.
Marten encarregara-se novamente dos
detectores; era bom nisso.
Quando a nave chegou a oito milhões de
quilômetros da frota tópsida em franco avanço, Rhodan determinou a posição a
ser ocupada por cada capitão ferrônio, e levou sua nave para o hiperespaço, num
salto de curta distância.
* * *
— Detecção! — anunciou o encarregado da
localização a bordo da nave-capitânia. — Cerca de duzentas unidades inimigas à
frente. Distância: uns quatrocentos radianos tópsidas.
Tequer-On fixou os olhos nas telas. Não
contara com resistência ativa por parte dos ferrônios, mas evidentemente
aquelas duzentas naves inimigas estavam com vontade de brigar.
— Vamos perder bem duas horas com isso! —
silvou, irritado.
Seus planos eram desfechar o ataque contra
Rofus com a rapidez do relâmpago. O que compensaria a desvantagem de se ver
obrigado a deixar Ferrol totalmente privado de defensores pelo prazo de duração
do ataque. E perder algumas horas numa escaramuça prévia com os restos da frota
ferrônia, antes do golpe planejado, tornava toda a operação por demais
arriscada. Ordenou ao segundo e ao terceiro esquadrão que tratassem de riscar o
inimigo da área, enquanto os demais prosseguiam em linha reta para Rofus, sem
tomar conhecimento de sua presença.
Entretanto os detectores tinham acusado um
novo objeto, sobremaneira intrigante para os encarregados dos aparelhos. Estes
eram parecidos com os sensores estruturais dos arcônidas, acusando deformações
da estrutura quadridimensional tempo-espaço nas vizinhanças imediatas;
deformações, portanto, semelhantes às ocasionadas pela transição duma
espaçonave.
Normalmente a indicação seria explícita;
mas o que os aparelhos registravam agora era uma imagem embaralhada de clarões
instáveis e ziguezagueantes que ninguém conseguia interpretar. O operador
avisou Tequer-On, que veio observar o fenômeno pessoalmente. Sentiu-se tão
perplexo quanto os homens encarregados do serviço de detecção. Aprontava-se para
regressar à cabina de comando, quando escutou agudos gritos de pavor atrás de
si.
— A nave! A nave de guerra!
Tequer-On voltou-se bruscamente. Nas videotelas
surgira, como que por magia, o contorno gigantesco de sua ex-nave, a pouco mais
de cinqüenta ou sessenta quilômetros de distância. Parecia se manter imóvel num
mesmo ponto, e de suas bocas de fogo ejetavam-se os raios pálidos de potentes
desintegradores. Sob o intenso bombardeio, a ala direita da formação tópsida
dissolveu-se em ondulantes colunas de vapor.
— Fogo! — berrou Tequer-On, apavorado.
Repetiu o brado após estabelecer contato
radiofônico com as demais naves de sua frota.
Instantes após a nave-capitânia era
atingida por tremendo impacto, que a fez rodopiar sobre o próprio eixo,
arrancando-a do agrupamento. Todos os instrumentos de bordo deixaram de
funcionar. A violenta colisão, causada por um cruzador em fuga dos próprios
tópsidas, custou a vida de mais de cem tripulantes; os demais ficaram feridos
ou inconscientes.
Minutos preciosos se passaram antes que o
substituto de Tequer-On percebesse que a responsabilidade de dirigir a frota
passara para seus ombros. Neste intervalo, a nave de guerra desaparecera
novamente, sem ter sido alvejada com um só tiro. No seu rastro ficaram os
restos gasosos de um quinto da frota tópsida.
* * *
Rhodan e Bell trabalhavam com a precisão
de duas máquinas de calcular.
— Coordenadas para o salto?
— Zero em toda a linha!
— Hiperenergia?
— Mínima!
— Pronto?
— Pronto!
— Atenção! Salto! Fogo de todas as bocas!
Três a quatro minutos de bombardeio
cerrado, que dizimou a frota tópsida em mais um quinto de seu efetivo. Desta
vez a nave foi alvejada algumas vezes, com um ou outro tiro acertando o alvo.
No entanto, o poderoso anteparo protetor da nave não sentiu o mínimo efeito
prejudicial com eles.
— Cessar fogo! Coordenadas?
— Todas zero!
— Energia?
— Mínima!
— Pronto?
— Pronto!
— Atenção! Salto!
Nas telas apareceu o cinza difuso do hiperespaço.
A nave não se movia; mesmo em termos de coordenadas pentadimensionais ela continuava
imóvel.
Quando a nave emergiu novamente do
hiperespaço, o restante da frota tópsida estava em franco pânico. Uma salva de
tiros bastou para afugentá-la de vez. As duas esquadrilhas encarregadas de
dispersar as naves ferrônias juntaram-se aos companheiros, em fuga desabalada.
— Fim! — murmurou Rhodan, um tanto
fatigado.
Depois mandou os comandantes ferrônios
regressarem para Rofus. A nave de guerra ainda permaneceu no local durante
algum tempo, à cata de sobreviventes. No entanto, tudo que se via era a carcaça
rodopiante da nave-capitânia tópsida, dirigindo-se aceleradamente para a branca
bola de fogo de Vega. Nas telas ampliadoras via-se que a nave estava com um dos
lados arrebentado de ponta a ponta.
— Pode ser que esses pulinhos para cá e
para lá não representem uma maneira muito elegante de combater — disse Reginald
Bell — mas que são úteis, lá isso são! Nem gosto de imaginar o que aconteceria
aos nossos anteparos protetores se eles tivessem conseguido assestar todas as
suas bocas duma só vez contra nós...
Rhodan balançou a cabeça.
— Por que pensa que escolhi essa tática?
Na próxima vez, já saberemos como agir.
* * *
Num único salto, a nave chegou à órbita do
vigésimo oitavo planeta de Vega, bem na orla do sistema planetário. Os postos
de combate encontravam-se desguarnecidos agora; enquanto a nave executava sua
estranha estratégia de saltos alternados, sua pilotagem requererá poucos
braços, e Rhodan mandara a maior parte dos tripulantes manejar a artilharia.
Passada a escaramuça, cada tripulante voltara a ocupar seu posto habitual.
Quanto aos tópsidas que haviam invadido
aquele sistema planetário, Rhodan era de opinião que nos próximos tempos
estariam por demais ocupados consigo mesmos para investigar o paradeiro da nave
gigante tão ameaçadora.
Rhodan achou a ocasião favorável para
estabelecer no sistema Vega uma base provisória inteiramente desconhecida do
inimigo. Escolheu para território a lua gelada Iridul, que orbitava em torno do
vigésimo oitavo planeta. O planeta propriamente dito não entrava em
consideração, pois tratava-se de um mundo envolvido por metano e amônia,
parecido com Júpiter. Sua única lua tinha o diâmetro de Plutão, e se
assemelhava em todos os sentidos ao mais afastado planeta do sistema solar
terrestre. Sua força gravitacional equivalia mais ou menos à da Terra. A
tremenda energia de que a nave dispunha, somada ao aparelhamento
correspondente, tornou fácil a tarefa de escavar na região polar — já provida
duma funda cratera — um abrigo suficientemente largo e profundo para acomodar a
colossal massa da nave. Desta forma, não oferecia mais o menor ponto de
referência a possíveis adversários.
Rhodan mandou escavar uma caverna
secundária menor, onde depositou uma série de aparelhos; alguns eram
desnecessários a bordo, outros serviriam como material de reposição bastante
útil a quem quer que necessitasse dele algum dia. Rhodan não esquecia, nem por
um segundo, que sua missão no sistema Vega ainda não chegara ao fim.
Durante os trabalhos de escavação, teve
oportunidade de interrogar os prisioneiros mantidos a bordo desde a estadia em Thorta.
Tinham sido desarmados e encerrados num compartimento de carga vazio.
O interrogatório foi inócuo, pois o mais
graduado entre eles era apenas tenente; e no rígido sistema disciplinar
tópsida, os subalternos não chegavam a tomar conhecimento de segredos
importantes.
Algo, no entanto, despertou a atenção de
Rhodan nas respostas do tenente, deixando-o bastante preocupado. No entanto, só
comentou o caso com Bell.
— Eles acreditavam de fato que a Terra ficava
no sistema Vega. Isto é, captaram o pedido de socorro da nave arcônida na Lua,
pondo-se a caminho imediatamente. É evidente que erraram os cálculos. Como
Topsid fica a oitocentos e quinze anos-luz da Terra, um erro de vinte e sete
anos-luz, portanto, representa um desvio de apenas 3,4%. Por enquanto não
suspeitam que erraram o alvo. O tenente está certo de que algum dia ainda
encontrarão neste sistema os restos do cruzador que enviou os sinais.
Bell fitou-o impressionado.
— Até que ainda tivemos muita sorte —
gemeu ele.
Rhodan concordou.
* * *
Enviaram relatório à Terra através de uma
curta mensagem radiofônica, frisando os principais fatos. Freyt recebeu ordem
de deixar tudo preparado, especialmente gente com o treinamento adequado, de
modo que a estadia no planeta-mãe representasse um mínimo de perda de tempo no
prosseguimento da ação em Ferrol.
Rhodan já não acreditava que pudesse
regressar dentro do prazo dos cinco dias prometidos ao Thort. No entanto, fazia
questão de voltar o mais depressa possível.
De início acreditara que seria forçado a
passar algumas semanas em Iridul, até fazer os tópsidas pensar que desaparecera
com sua nave há bastante tempo. Porém Marten, que só abandonava os detectores
para breves cochilos, anunciou:
— Nenhuma atividade aérea em todo o
sistema!
A batalha perdida parecia ter afetado
seriamente os tópsidas. Muito mais do que Rhodan supusera inicialmente. Tudo
indicava que se aprontavam para o estabelecimento definitivo em Ferrol; só
tornariam a se lançar ao espaço depois de se certificarem que a resistência dos
ferrônios já não lhes acarretaria problemas, e quando as perdas sofridas fossem sanadas por
novas remessas de Topsid.
O momento era favorável para o vôo rumo à
Terra.
Rhodan acelerou ao máximo o treinamento de
sua gente. Uma transição através de vinte e sete anos-luz requeria cuidados
especiais.
* * *
Vinte horas após a nave estava pronta para
a decolagem. Rhodan estava certo de que sua tripulação dispunha dos
conhecimentos necessários para suportar uma transição de vinte e sete anos-luz.
— Espero que cada um de vocês mantenha os
olhos bem abertos — disse, com gravidade. — Um só movimento em falso, e nunca
mais sairemos do hiperespaço!
Voltou-se para Bell:
— Decolamos em 30 minutos!
Bell percorreu o imenso cenário do sistema
Vega, com seus quarenta e dois planetas, com um olhar quase carinhoso. Diante
dele, os ponteiros luminosos do relógio aproximavam-se do derradeiro minuto
antes da decolagem.
— X menos sessenta segundos! — disse a voz
seca de Rhodan.
— Um mundo bonito demais — murmurou Bell,
pensativo — para ficar de presente para as lagartixas! Nós voltaremos!
* * *
* *
*
Perry
Rhodan ousa o hipersalto para a Terra, apesar de não contar com gente
suficiente para tripular sua nova espaçonave conquistada aos tópsidas.
Perry
Rhodan enfrenta um grande risco, porém tem seus motivos.
Só na
Terra encontrará o pessoal necessário para rechaçar os tópsidas. E ele prometeu
ao Thort...
O próximo volume da coleção Perry Rhodan tratará
do regresso a Vega, e do O SEGREDO DO COFRE DE
TEMPO.

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