sábado, 20 de outubro de 2012

P-011 - Mutantes em Ação - Kurt Mahr [parte 3]


Pediu maiores detalhes sobre o ataque, marcando local e hora do acontecimento num imenso mapa da cidade, que cobria toda uma parede da sala. Tinham tido o topete de atacar uma bem armada viatura de patrulha a apenas quilômetro e meio do Palácio Vermelho!
Crek-Orn perguntava-se de onde aqueles insignificantes seres pelados tinham tirado de repente tanta coragem.

* * *

Aproximadamente no mesmo momento Wuriu Sengu saltava da cabina do pequeno transmissor secreto no trigésimo oitavo pavimento, colocando-se ao lado de Rhodan. Encarou fixamente a parede, como se visse nela alguma coisa; depois deixou o olhar vagar. Aparentava um ar de doido.
Os iniciados, no entanto, não precisavam de explicação; sabiam que Wuriu Sengu possuía o dom de penetrar com o olhar através de matéria sólida, à distância que quisesse. Ele necessitou de bastante tempo, mas por fim exclamou:
— Avistei-o! Não está longe daqui, só a sete pavimentos abaixo!
Rhodan fez um sinal a Ralf Marten.
— Confira as impressões de Wuriu. Verifique se é de fato nosso homem!
Marten concordou com um gesto. Rhodan virou-se para Marshall, que acabava de emergir do transmissor.
— Está em contato com Betty?
Sem responder, Marshall estacou, o olhar fixo e ausente. De repente disse:
— Sim, ela está se comunicando!
— Pergunte-lhe como vão as coisas com Vafal.
Não se ouviu o menor som, nem da pergunta de Marshall, nem da resposta de Betty Toufry.
— Muito bem — informou Marshall pouco após. — Assaltaram uma viatura de patrulha, matando os ocupantes. Escaparam sem dificuldade. Continuam agindo de acordo com as instruções recebidas.
— Ótimo. Diga a Betty que se cuide.
Marshall transmitiu o recado. Enquanto isso, Ralf Marten conseguira se apossar do sentido visual e auditivo de Crek-Orn. Mantendo os próprios olhos cerrados, e apertando as mãos contra as orelhas, via com os olhos de Crek-Orn, e ouvia com os seus ouvidos. Presenciou, sem compreender a razão, como Crek-Orn ia para o mapa da cidade na parede, assinalando um ponto nas cercanias do palácio. Ouvir, só ouvia a respiração sibilante de Crek-Orn e o ranger de suas botas sobre o soalho.
Mas sabia que se tratava de Crek-Orn. Nunca tinha visto um tópsida com uniforme tão espalhafatoso.
— Confirmado! — disse Marten a Rhodan, dando por finda a visita clandestina. — É o próprio!
Rhodan acenou para Tako:
— Sua vez agora!
Sorrindo, Tako empunhou o psicoirradiador pronto para funcionar.
— Nada de se arriscar! — avisou Rhodan. — O almirante pode ser ágil, e dar o alarma antes que você tenha tempo de focalizá-lo.
Tako afirmou, com voz tranqüila:
— Não se preocupe, chefe, terei todo o cuidado.

* * *

Crek-Orn voltou pensativo para sua mesa. Gostaria de saber...
Que ruído seria aquele? Levantando os olhos, viu, parado diante de sua mesa, um homem como nunca lhe aparecera igual. Era aproximadamente da altura de um ferrônio, porém a cor do rosto era estranhamente amarelada, e os olhos pareciam fendas enviesadas.
Inclinando-se para a frente, Crek-Orn fitava incrédulo o desconhecido. A mão direita deslisou instintivamente sobre o tampo da mesa, em direção do botão de alarma. De que maneira aquele homenzinho se teria introduzido ali? Viu que trazia uma arma, apontada para seu peito. Num acesso de pânico, procurou alcançar o botão. Mas antes de pressioná-lo, mudou de idéia.
Ora, afinal por que temer o estranho? Apesar da pele nua, e de ser evidentemente um ferrônio, até que parecia ser um sujeito simpático. Bastante simpático, para ser franco. Algum peticionário, talvez, que conseguira entrar sorrateiramente na sala de trabalho do almirante. Bem, fosse qual fosse o pedido que lhe faria, seria prontamente concedido.
O desconhecido abriu a boca, dizendo palavras que o almirante tinha certeza que não ia compreender. Para sua surpresa, apreendeu o sentido do que o homenzinho de olhos tortos dizia:
— Lá em cima, no trigésimo oitavo andar, no corredor da ala leste, está um homem que deseja lhe falar. Mande um guarda buscá-lo. Deve ser bem tratado, é amigo.
Crek-Orn não opôs a menor objeção. Seria um prazer mandar trazer o amigo do estranho — ou seu próprio amigo? Não ficara claro de quem ele era amigo. Através do intercom, deu as ordens necessárias.
Tako acompanhava com atenção os movimentos do tópsida. Era difícil saber até onde aqueles reptilóides eram influenciados pelo psicoirradiador. Tinham um jogo fisionômico por demais inexpressivo.
Os minutos corriam. Por fim, a campainha da porta soou; na tela via-se, ao lado do ordenança, a estatura elevada de Perry Rhodan.
Crek-Orn foi abrir a porta e dispensou o ordenança.
Rhodan colocou-se diante do almirante, tomando o irradiador das mãos de Tako Kakuta.
— Precisamos da sua espaçonave de guerra! — disse, secamente.
— Mas naturalmente! — respondeu Crek-Orn, cordato, na sua fala gutural.
Rhodan não entendia o idioma tópsida, porém o aceno de cabeça do almirante era suficientemente explícito.
— Vou lhe dar algumas instruções — continuou Rhodan — a fim de que a transferência da nave se processe sem atritos.
— Pois não! — disse Crek-Orn, em ferrônio. — Diga!
— Providencie a evacuação da nave. Justifique a ordem, dizendo que ela sofrerá uma revisão completa.
— Impossível! — exclamou Crek-Orn, enfaticamente. Apanhando uma lâmina metálica, começou a desenhar. Traçou uma grande esfera, uma porção de aparelhos e de tópsidas, todos atarefados com a nave. Depois rabiscou no céu imaginário um sol, indicando com o estilete que ele girava repetidamente em sentido inverso ao dos ponteiros do relógio.
— Oh! — exclamou Tako. — Ela foi revisada há apenas alguns dias.
— Raios! — praguejou Rhodan. Era raríssimo ouvi-lo praguejar, mas bem que a situação presente o justificava.
Mesmo com o psicoirradiador não podia dar ordens absurdas. E seria impraticável colocar toda a frota tópsida sob influência hipnótica. Além disso, alguém suspeitaria forçosamente daquela revisão inesperada e repetida, em espaço tão curto, justamente da maior nave da frota.
— Tem recebido reforços de Topsid nos últimos dias? — perguntou Rhodan.
Crek-Orn confirmou o fato.
— E armas?
— Também.
— Mande levar a nave para as docas, na orla do espaçoporto, dizendo que pretende instalar nela um novo tipo de armamento. Entendido?
— Sim, meu amigo.
Rhodan sentou-se diante de Crek-Orn.
— Vamos aos detalhes — disse ele. — A ordem para o desembarque da tripulação deve ser dada imediatamente. Não aceite argumentos em contrário.
Voltando-se para a planta da cidade, na qual aparecia ainda o extremo norte do espaçoporto, com as três docas, ordenou:
— A nave deve ser levada para a doca central, está bem?
Crek-Orn anuiu.
— Quero que esteja lá dentro de cinco horas.
— Certo.
Rhodan curvou-se sobre a mesa.
— Vamos nos retirar agora. Assim que sairmos, esquecerá nossa visita. Não esqueça, porém, que deseja instalar novas armas na nave. A tarefa será mais simples sem os tripulantes a bordo. Espero que estejamos de acordo.
— Mas é evidente! — respondeu Crek-Orn, visivelmente satisfeito por ter compreendido tudo tão bem.
— Mande o ordenança me levar de volta! — disse Rhodan.
Crek-Orn convocou o guarda, e Rhodan retirou-se com ele. Tako apossou-se do irradiador e esperou que Crek-Orn desse a ordem de evacuar a nave e conduzi-la à doca. Depois desapareceu.
Passando a mão pela testa, Creck-Orn perguntou-se:
— Gostaria de saber de onde tiraram coragem para atacar uma viatura de patrulha tão perto do palácio!

* * *

— Tudo em ordem!—disse Rhodan. — E Vafal?
— Junto com o pessoal de Gloctor, ateou fogo ao edifício de onde surrupiamos nosso transmissor. Um dos ferrônios perdeu a vida nisso. Betty informa que na cidade a confusão começa a se generalizar.
— Ótimo! — comentou Rhodan. — Retirada!

* * *

Pela primeira vez em sua vida, Tequer-On questionou a sanidade mental de um superior; e agora duvidava do almirante em pessoa.
“Mas a nave passou por revisão na semana passada”, refletia. “Será que não sabiam, então, que estavam para chegar novas armas? E justamente em vésperas de uma ofensiva geral a tripulação recebe ordem para desembarcar?” Sem ousar dirigir-se ao próprio almirante, comunicou-se com o oficial de ligação do Palácio Vermelho. Este não sabia de nada.
— Quando foi que recebeu a ordem? — indagou.
— Há alguns minutos — respondeu Tequer-On. — Meus homens estão arrumando a bagagem.
O oficial de ligação denotava claramente sua indecisão na imagem vista na tela. Seu posto era equivalente ao de Tequer-On.
— Posso averiguar para você — ofereceu. — A ordem veio do almirante em pessoa?
— Exato — replicou Tequer-On, soturnamente. — Até parece que ele não anda regulando bem.
— Espero que não ouse duvidar da capacidade intelectual de nosso almirante! — observou o oficial, em tom de reprovação.
— Mas claro que não! — apressou-se a exclamar Tequer-On. — Mesmo assim, eu lhe ficaria grato por uma confirmação.
— Chamo daqui a pouco.
Agradecendo, Tequer-On desligou e voltou às suas reflexões. Era um oficial relativamente jovem, e fora encarregado do comando da maior nave da frota por indicação direta do déspota, em vista de sua inteligência e valentia. Pareceu-lhe viável a hipótese de uma possível traição; mas de onde teria partido? Vai ver que alguém lhe transmitira aquela ordem absurda sob a máscara da identidade do almirante... Confuso, achou que a melhor saída seria dar um pulo à cidade e falar pessoalmente com o almirante Crek-Orn. Mas primeiro aguardaria a resposta do oficial de ligação.
Esta não tardou:
— A ordem é válida. Você deve abandonar a nave, assim como toda a tripulação. Ela será conduzida à doca norte, a fim de ser equipada com novas armas.
— Está bem! — disse Tequer-On, conformado. — O almirante deve saber o que faz...
Desligou, porém continuava convencido que era uma ordem sem sentido. Era duro tomar a decisão de ir se apresentar ao almirante, mas não lhe restava outro recurso.
Passou o comando ao primeiro-oficial, tomou um planador, e voou para a cidade.

* * *

O transmissor no subsolo da hospedaria de Tiamér funcionava a todo vapor. Perry Rhodan cuidava dos últimos preparativos para a tomada da nave. Por enquanto, a maneira mais segura de se comunicar, quer com o forte do deserto sob a Cordilheira das Cobras, quer com os demais conspiradores em Sic-Horum, era a mensagem escrita.
Rhodan determinou a Crest e a Thora:
— Vou lhes enviar todo o nosso contingente de Sic-Horum. Quero que lhe ministrem treinamento-relâmpago no manejo de uma superespaçonave arcônida do tamanho da que teremos em mãos em futuro próximo. Separem igualmente entre os robôs especializados os que possam ser utilizados como auxiliares de navegação. E se apressem! Não pode haver atraso!
O grupo em Sic-Horum recebeu instruções equivalentes. Meia hora depois de receber a mensagem, estavam novamente em Rofus, permitindo que os dois arcônidas lhes ajustassem aos crânios os eletrodos do aparelho de hipnopedia.
Reginald Bell era o único a enxergar através da máscara confidente de Rhodan; sabia muito bem que o aparente otimismo escondia profunda preocupação. Sabia tão bem quanto o amigo das dificuldades inerentes ao manejo duma supernave como a que se encontrava pousada no espaçoporto.
— Apenas para confirmar, chefe — disse pensativo, com as mãos cruzadas nas costas — quantos tripulantes são necessários para que uma nave dessas possa funcionar integralmente?
— Trezentos — respondeu Rhodan, laconicamente.
— E contamos com quarenta e sete... — murmurou Bell.
— Pode aumentar a conta — disse Rhodan, sacudindo a cabeça. — Temos os robôs especializados, que podem assumir a função de tripulantes. Mesmo assim, não serão ao todo mais do que setenta. Sei onde quer chegar!
Balançando na ponta dos pés, Bell não desgrudava os olhos do chão.
— Pois é... E como pensa se arranjar?
— Bem, os postos de combate não vão poder ser guarnecidos. Um deles, talvez, no máximo. E não poderemos perder tempo repelindo atacantes. A estratégia se resumirá forçosamente a fugir o mais depressa possível, até encontrar abrigo num lugar seguro.
— Vai ser apertado, não é?
— Parece que sim. Mas nós todos sabíamos de antemão que o golpe ia requerer mais sorte do que destreza.
A porta foi aberta com um empurrão, e Teél se precipitou para dentro. Seu rosto irradiava alegria; Rhodan ainda não tivera oportunidade de ver ferrônio algum tão radiante.
— A nave já está na doca! — gritou Teél. — Não ficou vivalma a bordo!

* * *

Tequer-On procedeu ainda a algumas investigações preliminares antes de solicitar audiência ao almirante. Um dos indícios lhe pareceu significativo: na última remessa procedente de Topsid constava de fato grande quantidade de armamento, porém nenhum que a nave de guerra ainda não possuísse a bordo. Só se tivessem enviado alguma arma secreta, não registrada pelo almoxarifado; porém julgava essa hipótese improvável. Suas suspeitas cresceram.
Apresentou-se no gabinete do almirante com as escamas vibrando nervosamente, sendo admitido após curta espera. Apesar de escolher cuidadosamente as palavras, e abordar o assunto com mil rodeios, não conseguiu evitar que Crek-Orn se encolerizasse. Mais algumas frases, e seria deposto do comando.
No entanto, suas palavras não ficaram sem efeito. Crek-Orn começou a ficar pensativo. Mandou buscar as relações do material recebido, até as mais sigilosas, acessíveis apenas a ele próprio e a um ou outro oficial de segurança.
De fato, não chegara a Ferrol arma alguma de que a nave arcônida não dispusesse desde o início.
O almirante afundou em cogitações.
— Mas como é que fui dar uma ordem dessas?

* * *

Rhodan estava bastante certo de que nem Gloctor, ou Teél e Vafal faziam questão de embarcar com ele na nave. E nem pretendia iniciar ferrônio algum nos segredos de uma nave de guerra arcônida. No entanto, conseguiu convencer os três homens a lhe ceder todos os elementos dispensáveis na próxima incursão ao Palácio Vermelho, a fim de lhe servirem de escolta na corrida para o espaçoporto.
Não lhe escapou o fato de que começava a se disseminar um clima de inquietude, principalmente entre os homens de Vafal. Como este tivesse aludido por mais de uma vez à sua dúvida quanto ao êxito do empreendimento, era provável que influenciara igualmente seu grupo. Rhodan chamou Vafal de lado, apelando para sua consciência.
— Concordo, aparentemente somos os únicos a beneficiar-se desta operação. Pense, porém, numa coisa: com a passagem da nave às nossas mãos, os tópsidas serão privados da maior parte de seu poder ofensivo. E não nos considere ingratos! Faremos tudo que estiver ao nosso alcance para expulsar os tópsidas deste sistema planetário!
Rhodan não sabia se tinha convencido Vafal, porém lhe faltava tempo para continuar insistindo.
Gloctor foi mais compreensivo.
— Aguarde junto à doca — ordenou-lhe Rhodan. — Caso algo saia errado, aviso pelo rádio.
Teél concordou em provocar com sua gente uma série de incidentes que colocassem em polvorosa a cidade, e, sobretudo, os tópsidas.
Tiamér juntou-se a Gloctor. Representava o homem-chave, pois era o único a dispor duma viatura na qual poderiam levar o transmissor, e sem este de nada valeria a Rhodan a nave conquistada.
Rhodan conservou consigo Bell, Wuriu Sengu e Tako Kakuta. Marshall, Marten e Betty Toufry foram considerados dispensáveis; sobretudo porque ele fazia questão de saber Betty entre pessoas de confiança por ocasião da marcha para as docas.
Rhodan esperou que a hospedaria de Tiamér ficasse deserta. Combinara com Gloctor que devia estar em seu posto nas docas o mais tardar até as dezoito horas, acompanhado de todo o seu grupo.
Eram agora doze e quarenta. Não havia sentido em precipitar os acontecimentos. Qualquer movimento prematuro seria perigoso.
Reginald Bell disse, pensativo:
— Quem me dera já estar algumas horas mais velho!
Porém Rhodan atalhou, secamente:
— Calma, rapaz! Com essa impaciência pode acabar no cemitério mais cedo do que pensa!
Olhou para a rua, através da janela. Nada indicava que um punhado de gente se dispunha a executar nas próximas horas o mais arrojado golpe daquela guerra.
Consultou o relógio. Mais meia hora...

* * *

— Mande retirar a ordem! — exclamou Crek-Orn, confuso. — Isto é... eu mesmo vou revogá-la. Você tem razão: é totalmente absurda. Bem que eu gostaria de saber o que me levou a dá-la, para começar!
Mas para Tequer-On o caso ainda não estava encerrado. Faltava descobrir o inimigo oculto. Caso escapasse desta vez, atacaria numa segunda e numa terceira oportunidade. Diante da habilidade demonstrada, facilmente obteria êxito em futuras maquinações.
No entanto, achou desaconselhável expor suas dúvidas ao almirante. Havia outras maneiras de resolver o problema.

* * *

— Tática idêntica à usada anteriormente — avisou Rhodan, muito sério. — Tako, apanhe o irradiador, e providencie para que o almirante mande nos buscar.
Encontravam-se na praça fronteira ao Palácio Vermelho. Não perto bastante para atrair a atenção das sentinelas, nem tão longe que Tako não pudesse vencer a distância num único salto teleportado.
— Vá! — ordenou Rhodan. Tako sumiu instantaneamente.
Tudo decorreu como da primeira vez. Tequer-On acabara de sair do gabinete do almirante, o qual ficou imaginando o que o levara a dar uma ordem tão estapafúrdia.
Crek-Orn sobressaltou-se ao ver de repente surgir do nada o diminuto japonês.
Tentou fazer soar o alarma, porém Tako acionou o irradiador, e instantaneamente o almirante sentiu renascer a mesma inexplicável cordialidade já experimentada na ocasião anterior.
Tako lhe deu ordem de mandar buscar Rhodan, Sengu e Bell; o almirante convocou sem tardança um soldado. Este atravessou com passo marcial a ampla praça diante da residência do Thort, prestou continência diante de Rhodan e de seus acompanhantes, falando algumas palavras que nenhum deles compreendeu. A seguir fez meia-volta, marchando de volta para o palácio.
Rhodan e os companheiros o imitaram.
Por motivos que nem ele próprio saberia definir, Rhodan não se sentia muito confiante desta vez. Disse a si mesmo que eram coisas da inteligência humana, naturalmente avessa a acreditar em excesso de sorte, mas nem assim suas dúvidas se desvaneceram.
Os corredores do palácio estavam bastante movimentados. Grande número de tópsidas, uns fardados, outros à paisana, circulavam atarefados de um lado para outro. Ninguém lhes prestou a menor atenção.
Subiram num elevador elaboradamente ornamentado, e no corredor do trigésimo primeiro andar Rhodan deparou pela primeira vez com um tópsida que lhes dispensou atenção; e uma atenção por demais insistente.
— Olhe bem para aquela lagartixa! — cochichou para Bell.
Bell voltou-se discretamente.
— Certo. Por quê?
— Está interessada demais em nós. Guarde bem a fisionomia, sim?
— Pode deixar comigo!

* * *

Tequer-On não saberia explicar por que suspeitara dos estranhos à primeira vista. Porque um deles era de estatura alta, talvez, muito mais alto do que a média das pessoas daquele mundo.
Sentiu-se intrigado ao ver o trio entrar com o soldado na ante-sala de Crek-Orn. Aguardou a volta do ordenança, e interrogou-o. A resposta não foi nada esclarecedora, e Tequer-On decidiu esperar. Estava curioso por decifrar aquele mistério.

* * *

— Vai nos acompanhar! — disse Rhodan. — Chame uma viatura e venha conosco aos estaleiros, no espaçoporto.
Crek-Orn não fez objeção. Claro, seria agradável sair daquela sala por alguns minutos.
— Mande a viatura se apressar! — insistiu Rhodan.
Crek-Orn manteve um breve diálogo no intercom; depois levantou-se, dizendo:
— Podemos ir.
Rhodan não entendeu as palavras, porém o gesto era óbvio.
— Um instante, apenas! — disse. Comunicou-se com Gloctor. — Como vão as coisas?
— Tudo em ordem.
— Ótimo. Vamos sair agora.
Fez um gesto na direção de Crek-Orn, que tomou a dianteira. Atravessando a ante-sala, passaram ao corredor. Rhodan seguia o almirante de perto, segurando o psicoirradiador de tal maneira que dificilmente seria percebido.
A primeira pessoa que encontraram era justamente o homem para o qual chamara a atenção de Bell há alguns minutos. Estava em companhia dum grupo de oficiais uniformizados, parados à esquerda do corredor. Tequer-On fitou o almirante com intensa surpresa.
Crek-Orn avistara-o igualmente; deteve-se instintivamente, por uma fração de segundo, e o tópsida aproveitou o momento para barrar o caminho de seu comandante. Até Rhodan, que não sabia interpretar os gestos nem o jogo fisionômico daqueles lagartídeos, percebeu a flagrante atitude de subserviência.
— Perdão, almirante — murmurou Tequer-On. — Permita-me uma pergunta, por favor!
Crek-Orn fitou seu subordinado com indignação. Rhodan não o instigou a prosseguir, receando despertar suspeitas. Raios, se ao menos pudesse compreender o que diziam!
— Fale! — acabou por resmungar o almirante.
— Senhor, esses desconhecidos têm algo a ver com a minha nave?
— Não vejo razão para discutir os propósitos de meus visitantes! — replicou Crek-Orn, com superioridade.
Tequer-On inclinou-se para a frente:
— Por favor, almirante, responda-me! Talvez não saiba...
— Basta! — berrou Crek-Orn, irritado. — Guardas, prendam este homem e joguem-no no cárcere!
Dois soldados vieram correndo, e tentaram segurar Tequer-On. Mas, vendo a jogada perdida, o capitão reagiu com violência.
— Vamos andando? — murmurou Rhodan.
Crek-Orn retomou a caminhada. Seguia com passos rígidos, como um autômato. Rhodan amaldiçoava sua posição desfavorável, que o obrigava a seguir o almirante tão de perto, limitando a este a ação do irradiador. Seria brincadeira influenciar igualmente o jovem oficial com ele, porém neste caso seria obrigado a liberar o almirante por alguns momentos.
Ouvia os silvos e chiados de indignação do aprisionado às suas costas, sem entender o significado das palavras. Porém Bell, virando-se, viu Tequer-On apontar para o irradiador.
— Acelerem, gente! Ele descobriu o irradiador!
Crek-Orn era um homem idoso, e não podiam fazê-lo percorrer o corredor a passo acelerado sem causar estranheza. Rhodan transpirava. O espaço de tempo necessário para chegar aos elevadores lhe pareceu intoleravelmente longo, e a curta viagem até o pavimento térreo constituiu verdadeira agonia.
A viatura já aguardava. Quando embarcaram nela, arrancando a toda a velocidade, o perigo maior parecia ter ficado para trás.

* * *
— Não perceberam que ele estava sob ameaça? — arquejou Tequer-On. — Puxa, como vocês são imbecis! Ele vai entregar minha nave, a maior de nossa frota, só porque é forçado a fazê-lo!
Os guardas hesitaram.
— Soltem-me de uma vez! — berrou Tequer-On. — Larguem-me e tratem de tomar providências! Façam alguma coisa! Mandem levar a nave para outro lugar!
Suas vociferações acabaram convencendo os guardas. Afastaram-se correndo, para executar as ordens recebidas. Afinal, também tinham visto a arma apontada pelo estranho para as costas do almirante. Em breve, o alarma fora dado em toda a área do espaçoporto.

* * *

— Tem algo errado aí! — resmungou Ralf Marten. — Não estou gostando disso.
Diante deles via-se o vasto complexo do estaleiro norte, um agloramerado de hangares, estandes de provas e docas secas para reparo das naves. Ainda há poucos momentos atrás desenrolava-se por ali a atividade modorrenta de um estaleiro cuja única tarefa era tomar conta da nave gigante. Porém de repente a área foi invadida por inúmeros soldados tópsidas, fortemente armados, que cercaram por todos os lados o enorme globo.
Gloctor observava atentamente os acontecimentos.
— Avise Rhodan! — recomendou Marten.
O aviso foi feito sem demora. Gloctor acenou afirmativamente com a cabeça ao receber a resposta. Desligando, disse a Marten:
— Ele nos mandou provocar agitação. Disse que estará aqui dentro de poucos minutos.
— E Teél, o que faz?
Gloctor recorreu novamente ao rádio.
— Encontra-se nos arredores do espaçoporto, meio longe daqui. Só sentiremos os efeitos de sua atuação meia hora depois que ele começar a agir.
— E Vafal?
Nova comunicação. Ou seja, uma comunicação não completada. Vafal não respondia.
— Patife! — resmungou Marten. — Caiu fora!
De pé ao seu lado, a pequena Betty escutava tudo que diziam. Marten viu que ela fitava intensamente um dos estandes de prova, com um leve sorriso nos lábios.
— Betty, o que... ?
Antes de terminar a pergunta, percebeu o que ela fazia. O estande de provas, que não passava de uma armação de suportes metálicos arqueados por cima de uma plataforma móvel, começava a oscilar. O sorriso de Betty desapareceu; seu rosto se contraiu como se estivesse realizando violento esforço. Os suportes estalaram; um deles desprendeu-se das juntas soldadas, projetando-se com estrépito ao solo. Os soldados tópsidas desfizeram as fileiras. Em grupos, se aglomeraram diante do estande de provas, olhando espantados a viga caída.
Betty descontraiu-se com um suspiro. Riu maliciosamente.
— Espero que o senhor Rhodan não demore a chegar... — murmurou em voz baixa.

* * *

Tequer-On dirigia a ação de dentro do Palácio Vermelho. Não julgou prudente ir até o espaçoporto; talvez tudo já tivesse acabado antes que chegasse lá. A princípio, tudo pareceu correr bem. Mas depois uma trave metálica se desprendera dos suportes num dos estandes de prova, quase atingindo mortalmente alguns dos soldados. Logo após, um dos hangares desmoronara sem causa visível. Um oficial fora jogado brutalmente contra uma pilastra por mão invisível, perdendo os sentidos. A área do estaleiro não era muito ampla, e a notícia das estranhas ocorrências se espalhou logo, provocando inquietação entre os soldados.
O próprio Tequer-On espantou-se diante dos aterrorizantes recursos de que o inimigo dispunha. No entanto, nem pensava em desistir. Convocou dois batalhões de infantaria para reforçar os efetivos destacados para as docas.

* * *

— Pois bem, ao ataque! — disse Rhodan. — Tako, faça o que puder!
Rhodan daria uma fortuna para ter consigo agora Ras Tshubai, pois numa situação daquelas um só teleportador vale por meio exército. E Tako talvez não conseguisse dar conta do recado sozinho.
Era uma procissão estranha a que se dirigia agora para a nave. Na ponta seguiam Crek-Orn e Perry Rhodan, que não desviava o psicoirradiador das costas do almirante; a seguir vinham Gloctor e seus homens; os flancos eram formados pela gente de Rhodan, e na retaguarda vinha Tiamér com seu caminhão de carga, que levava o transmissor.

* * *

Tequer-On expediu a seguinte ordem:
— Ninguém deve obedecer às ordens do almirante. É óbvio que ele se encontra sob o domínio do estranho, e não pode ser responsabilizado por seus atos.
O comunicado despertou surpresa em todos os setores; no entanto, foi decidido que as ordens de Tequer-On seriam acatadas. Afinal, tratava-se de um oficial superior, que, além disso, comandava a maior nave da frota tópsida.

* * *

Quando atingiram o limite do espaçoporto, quase junto às docas, foram detidos. Crek-Orn reclamou em altos brados da atitude dos guardas, porém estes evidentemente não davam a menor importância aos protestos do almirante.
Estudando a situação, Rhodan viu que se defrontava apenas com um oficial e dois soldados. O resto da tropa começava a se reorganizar, já refeita da comoção dos últimos minutos, ocupando as posições indicadas junto à nave de guerra.
Bell estava alerta. A um sinal de Rhodan, liquidou o oficial e seus acompanhantes.
— Acelerar o passo! — ordenou Rhodan.
Deixando o almirante onde estava, correram. A intenção era levar Crek-Orn como prisioneiro de guerra, porém, dadas as circunstâncias, a mobilidade valia muito mais do que o maior figurão que pudessem capturar.
Tako desapareceu. Do lado oposto da nave houve tremenda balbúrdia. Sem o menor aviso, surgiu no ar um homem de aparência indescritível, atirando feito doido a torto e a direito. Em alguns segundos, colocou metade da companhia fora de combate, sumindo sem que alguém chegasse a esboçar a menor reação.
Cercada por seus anjos de guarda, Betty não obstante ajudava a aumentar a confusão. Armas caíam das mãos dos portadores e saíam voando; uniformes eram rasgados misteriosamente; tiros partiam sem que ninguém apertasse o gatilho. O pânico dominou os soldados. Atirando furiosamente a esmo, foram se recolhendo por trás da nave, enquanto Rhodan avançava para ela com seus homens, abandonando a cobertura dos hangares.
Tako reapareceu de repente.
— Para a nave! — arquejou Rhodan. — Procure encontrar um posto de combate que saiba manejar!
Alcançaram a nave bem a tempo. Do sul, pela pista do espaçoporto lisa e brilhante como um espelho, aproximava-se uma fila de viaturas militares; e era pouco provável que viessem com intenções amistosas.
A última tentativa de resistência dos soldados foi anulada quando um dos oficiais, sob a ação do psicoirradiador lhes berrou:
— Tratem de se raspar daqui o mais depressa possível, entenderam?
Era, textualmente, o comando hipnótico que Rhodan lhe transmitira.
A linha de soldados recuou, perseguida pelo fogo cerrado dos homens de Rhodan, agora organizados. Parou apenas a algumas centenas de metros mais adiante, detida pela coluna motorizada que vinha em seu auxílio.
Rhodan valeu-se da pausa.
— Para a escotilha de entrada, rápido! — gritou para seu grupo. Confiando em que obedeceriam sem discutir à ordem dada, correu para junto de Tiamér e de seu caminhão. Gloctor ajudou a descer o transmissor. A escotilha da nave estava aberta, e não havia mais sinal do pessoal de Rhodan.
Erguer o transmissor até a escotilha e empurrá-lo para dentro requereu violento esforço por parte dos dois homens. Terminada a tarefa, ambos suspiraram.
— Não quer mesmo vir conosco? — perguntou Rhodan.
Gloctor sacudiu a cabeça.
— Não teria sentido. Vou é aproveitar a oportunidade para me safar discretamente com minha gente. Pois esses caras ali — continuou, apontando para a coluna motorizada que se aproximava — vão estar ocupados demais em tentar impedir sua decolagem para olhar para o nosso lado.
— Obrigado por tudo! — disse Rhodan, estendendo a mão.
Gloctor apertou-a, porém protestou:
— Nós é que ficamos lhe devendo gratidão!
Rhodan alçou-se pela abertura da escotilha. Com um olhar de despedida para Gloctor, acionou o mecanismo de fechamento, e foi se juntar aos seus homens. A situação era verdadeiramente peculiar. Tinham conseguido subir a bordo da nave, na verdade; porém junto com eles devia ter embarcado sem a menor dúvida um grupo de tópsidas. Coisa de Tequer-On, quando se apercebera do que ocorria. Por via das dúvidas, mandara uma patrulha para vigiar e defender a valiosa espaçonave.
Bem, a questão agora era decidir a quem caberia a posse da gigantesca esfera. Rhodan confiava em que ele próprio e Bell, imbuídos dos conhecimentos arcônidas adquiridos através da hipno-aprendizagem, saberiam tirar maior proveito dos recursos disponíveis a bordo do que um bando de tópsidas escolhidos apressadamente ao acaso. Além disso, contava com seus mutantes, e cada um deles valia pelo menos por dez tópsidas.
No entanto, a parada ainda estava para ser decidida. E evidentemente os dois batalhões de reforço enviados por Tequer-On fariam sua parte para tentar fazer a balança se inclinar a favor dos tópsidas. Portanto, Rhodan procurou chegar o mais depressa possível à cabina de comando.

V



Encontrou seus homens no corredor que ligava a escotilha de entrada ao interior da nave. Estavam parados diante do vão dos elevadores antigravitacionais. Quando Wuriu Sengu avistou Rhodan, ergueu a mão.
— Cuidado! — cochichou. — Há pelo menos cem tópsidas a bordo.
— Onde?
Sengu indicou diversos pontos acima de sua cabeça.
— E na cabina de comando?
— Apenas dois homens.
— Sabe de Tako?
— Sim — disse Sengu, pressuroso. — Encontra-se diante da porta blindada de um posto de combate. Este está ocupado por cinco tópsidas.
Rhodan lançou um olhar em torno.
— Está bem, vamos subir!
Usaram o elevador sem contratempos. Sengu ia relatando os movimentos de Tako. Este saltara para o interior do posto de combate, liquidando os cinco ocupantes antes que se refizessem da inesperada surpresa provocada por sua intempestiva aparição.
Rhodan deu um suspiro de satisfação. Por meio do rádio, mandou Tako abrir fogo contra a coluna motorizada assim que esta chegasse a menos de quinhentos metros da nave.
Apossar-se da cabina de comando foi coisa de minutos. Os dois tópsidas de guarda tinham julgado desnecessário trancar a porta blindada. Rhodan abriu-a com um empurrão, rendendo os dois homens com sua arma, enquanto Bell os amarrava.
A seguir Rhodan procedeu a uma rápida inspeção dos painéis de controle existentes na cabina; até então só os conhecia na teoria. Pareceu-lhe que não encontraria grande dificuldade em manejar a nave, fazendo dela o uso mais vantajoso, em seu próprio benefício e no de seu pessoal.
Sorriu divertido ao reconhecer o equipamento que lhe facilitaria a tarefa de se livrar dos soldados inimigos. O comandante de qualquer nave tópsida tinha à disposição um sistema de climatização abastecido com CO2; em alguns segundos, ele podia ser canalizado para qualquer das dependências; o gás irrespirável atordoava completamente os ocupantes.
Rhodan desistiu de verificar, com a ajuda do telecom, quais as peças ocupadas por tópsidas; pois mesmo ligado numa só das vias, o aparelho emitia sempre um leve zumbido. E numa situação como aquele não seria nada prudente alertar prematuramente o adversário.
Wuriu Sengu apontou as dependências ocupadas. Acionando os controles apropriados no painel central de comando, Rhodan trancou as comportas de vedação; fechou igualmente as escotilhas externas da nave, e ligou o climatizador. Sengu levou poucos minutos para afirmar que já não havia mais tópsida algum em condições de reagir. Ao mesmo tempo, Tako comunicava:
— Fui forçado a desintegrar cerca de metade das viaturas, por estarem se aproximando demais. O resto parece desorientado, sem saber o que fazer.
A batalha pela posse da nave parecia ter sido ganha. Rhodan enviou alguns homens para baixo, a fim de trazer o transmissor. Já era tempo de pensar em trazer Crest, Thora e os restantes membros da tripulação para bordo.

* * *
Tequer-On desperdiçou momentos preciosos debatendo consigo mesmo se tinha autoridade suficiente para expedir a ordem mais dura e difícil. Comunicou-se nervosamente com a nova base no Grande Istmo Oceânico. Demorou algum tempo antes que o pessoal de lá compreendesse o que queria. Tequer-On viu-se obrigado a gastar mais alguns minutos para provar que de forma alguma tinha perdido o juízo.
— O inimigo apossou-se da nave! — berrou descontrolado no microfone. — Segundo me informaram, eliminaram nossos guardas! A nave está perdida para nós, metam isso nas suas cabeças duras de uma vez! Despachem, portanto, um esquadrão de bombardeiros leves, para começar, equipado com bombas táticas; digam aos pilotos que a nave deve ser destruída a qualquer preço! E, se esse ataque falhar, o inimigo precisa ser interceptado no espaço cósmico após a decolagem. Mandem subir três esquadrilhas de destróieres, que deverão circular numa órbita distante em torno do planeta. E notem bem: o inimigo não pode escapar com a nave! Senão a guerra acabou para nós, e o déspota se encarregará de nos fazer sofrer o resto da vida, ocupando o mais ínfimo posto na hierarquia militar! Estamos entendidos?

* * *

O transmissor estava instalado, com a freqüência ajustada à da estação no forte do deserto. Rhodan deu ordem para iniciar o embarque do pessoal, e virou a chave para recepção. Tinha plena consciência de que poderia gastar poucos minutos no processo, a fim de não acarretar riscos desnecessários à nave.
Os robôs especializados foram os primeiros a chegar. Seguiram-se os mutantes. Com os robôs, a tripulação somava agora setenta e dois homens. Rhodan determinou a ocupação das posições essenciais; conseguiu poupar dois homens para o manejo de um dos superdesintegradores. Desta maneira, a nave poderia se defender ao menos por um dos lados.
Com a mão sobre o trinco da grade de proteção, Rhodan esperava por Crest e Thora, que haviam ficado por último, a fim de supervisionar até o último instante a remessa do pessoal.
A expressão facial de Crest era indescritível. Lembrava a de um menino conduzido inesperadamente para um país de conto de fadas, cuja existência ele próprio procurava desmentir assiduamente.
Thora pelo contrário, exibia o sorriso irônico que Rhodan esperara de antemão ver em seus lábios.
— Alegra-me constatar que mais uma vez conseguiu realizar o impossível! — disse ela.
No mesmo instante, Marten anunciava:
— O detector registra mísseis no quadrante 0-1-8!
Com um sobressalto, Rhodan ordenou:
— Desligar o transmissor!
Uma voz respondeu:
— Transmissor desligado.
Com um estalo seco, o trinco da grade protetora engatou firmemente no lugar. Pelas telas passou fugazmente uma sombra opaca; a seguir elas voltaram ao normal.
— A postos para a decolagem! — disse Rhodan, com firmeza. — Partida em vinte segundos!
— Qual é o nosso rumo? — perguntou Thora, depois que o colosso se alçou do chão, projetando-se no céu azul de Ferrol.
— Rofus! — respondeu Rhodan, laconicamente. — Que mais?
Os olhos de Thora se arregalaram.
— Rofus? Você está doido!
Rhodan não se alterou.
— Será que é incapaz de imaginar o que os tópsidas farão a seguir? Teremos que romper caminho por entre algumas esquadrilhas inimigas, de tocaia aí fora em alguma órbita distante. Feito isso, até o mais ingênuo oficial tópsida compreenderá a necessidade urgente de tomar providências imediatas, caso ainda pense em vencer esta guerra.
— E daí? — indagou Thora, sem compreender onde Rhodan queria chegar. — Na certa irão atacar Rofus, a fim de terminar com a guerra antes que tenhamos tempo de entrar em ação com nossa nave. E você pretende voar justamente para Rofus?
Rhodan encarou-a com ar severo.
— Não sei que diferença lhe faria ver todo um mundo sucumbir diante de seus olhos — disse, em voz baixa, porém incisiva. — Pois para mim faz diferença; tanta que vou fazer tudo que estiver ao meu alcance para amparar os habitantes de Rofus.
Thora aprontou uma réplica cáustica, porém silenciou diante da expressão pétrea de Rhodan. Crest, que observava ambos, tinha a face pensativa.
— O detector! — gritou Marten, novamente. — Quinze objetos de porte médio em frente!
— Distância?
— Cento e trinta mil!
— Aprontar nave para hipersalto!
As luzes de controle se acenderam instantaneamente. Tudo pronto para o salto.
— Atenção! — exclamou Marten. — Estamos sendo alvejados!
— Saltar!...
As telas se apagaram, recobrindo-se de sombras cinzentas opacas, depois voltaram a clarear. O cenário mudara. A estrela que aparecia agora por baixo da nave, cinza-azulada e encoberta por nuvens, era Rofus. Ferrol brilhava como um ponto luminoso no canto esquerdo da tela de estibordo.
Crest tinha a testa coberta de suor.
— Arcônida algum teria ousado, em hipótese alguma, realizar manobra tão arrojada em espaço tão restrito!
— Deu certo, não foi? Além disso, gostaria que compreendesse que não tínhamos outra saída. Ou pretendia enfrentar uma frota inteira com um único desintegrador?
Dirigindo-se aos tripulantes, ordenou:
— Aterrissar! Desçam sobre o forte. Durante o tempo restante, manteve um rápido diálogo com o Thort. Descreveu a situação, pedindo que ele se encaminhasse, pelos meios mais rápidos, para o forte. No entanto, sua própria confiança vacilava; não tinha assim tanta certeza de poder escapar à detecção tópsida; eles seriam capazes de dar com sua pista mesmo após a realização do hipersalto. Mas também havia a possibilidade de que o inimigo não descobrisse o paradeiro do colosso seqüestrado. Neste caso, teriam uma desagradável surpresa por ocasião do inevitável confronto que se daria, o mais tardar, no dia seguinte. No entanto, Rhodan tinha em mãos um trunfo de inestimável valor. Como não podia fazer funcionar nem metade de seus canhões, um bom susto pregado no adversário equivalia a uma porção de tripulantes a mais.

* * *
Tequer-On recebeu as más notícias sem a menor reação. Reunira em torno de si todo o estado-maior da guarnição de Thorta, e lhe pareceu apropriado conservar a máscara de otimismo; pelo menos enquanto existia um mínimo de razão para ter esperança.
— Nosso próximo passo é óbvio — disse, gravemente. — O inimigo evadiu-se com nossa nave mais valiosa. Não sabemos para onde foi. É provável que tenha deixado este sistema planetário o mais depressa possível. Mesmo neste caso, parece-me aconselhável desfechar o ataque final contra Rofus. Temos que findar esta guerra o quanto antes! A medida se torna ainda mais urgente no caso de a nave de guerra ainda continuar neste sistema. Pois o adversário poderia nos infringir sérios danos com ela. Logo, precisamos destruir suas bases e esconderijos antes que tenha tempo de se familiarizar com o uso da nave de guerra.
Erguendo-se, Tequer-On concluiu:
— Avisem suas unidades para estarem prontas para decolar dentro de três horas!

* * *

Mesmo a imensa entrada para a pista de aterragem do forte era exígua demais para a massa gigantesca da nave de guerra arcônida. Rhodan fê-la pousar num vale acima do desfiladeiro, ajustando o transmissor na freqüência adequada para uso do Thort.
O homem que chegou pouco após era bem diferente do que Rhodan guardava na memória. A altiva autoconfiança, exibida até na ocasião em que fora obrigado a fugir precipitadamente de Ferrol, desaparecera. Nem o quadro da nave capturada teve o efeito de alegrá-lo; apenas um débil sorriso. Trazia uma comitiva reduzida, conforme convinha a um Thort vencido.
Rhodan descreveu, em palavras breves e incisivas, a situação.
— Calculo que os tópsidas atacarão dentro de vinte ou trinta horas. Duvido que cheguem antes disso, mas, de qualquer maneira, ficaremos atentos. Lançarão contra Rofus todo o seu poder ofensivo, pois é chegado o momento da decisão, quer queiram, quer não. Sem dúvida, é vantajoso para nós termos forçado o inimigo a agir. Não prometo aniquilar a frota tópsida num só golpe, mas posso lhes causar perdas significativas. Eles vão precisar de bastante tempo para se refazerem desta derrota. O que nos dará tempo de regressar à nossa base, a fim de completar a tripulação desta nave. Nós...
— Pretende nos entregar à nossa própria sorte? — perguntou o Thort, angustiado.
— Só por alguns dias — tranqüilizou Rhodan. — Esta nave pouco vale com a tripulação desfalcada.
— Cedo-lhe meus homens! — exclamou o Thort.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Isto nos atrasaria ainda mais. Não estamos em condições de instruir seu pessoal com a necessária presteza. Só para preparar os cartões de hipnotreinamento adequados aos seus homens, levaríamos duas ou três semanas.
Observou cuidadosamente o Thort, a fim de verificar o efeito de suas palavras. Na realidade, sua recusa tinha fundamento bem diverso: não queria estranhos enfronhados nos segredos da nave. Pois em todos aqueles acontecimentos, não perdia de vista o objetivo principal: guindar a Humanidade à posição de raça dominante na Galáxia. E os homens precisavam se precaver, a fim de que seus segredos continuassem a permanecer efetivamente segredos seus.
O Thort parecia não alimentar desconfianças. Pesou em silêncio sua situação, e disse:
— Seu regresso nos encherá de satisfação. Não creio que possamos resistir por muito tempo sozinhos.
— Faremos o que nos for possível — assegurou Rhodan.
— Nossa dívida de gratidão já é imensa — continuou o Thort. — Não sei o que teria sido de meu povo sem sua ajuda.
Com um sorriso melancólico prosseguiu:
— Veio a nós como um náufrago do espaço, e agora possui a mais potente nave de guerra jamais aparecida neste sistema planetário. Não sei como lhe agradecer!...
Rhodan esperara por aquele momento. Já que o Thort não sabia como retribuir os favores recebidos, apresentaria uma sugestão.
— Pois há alguma coisa que eu gostaria de lhe pedir — disse, quase com descaso.
— De que se trata? Diga!... — urgiu o Thort, pressuroso. — Eu não seria capaz de lhe negar coisa alguma.
— Bem — disse Rhodan — é algo que não beneficiaria apenas a mim próprio. Penso no curso futuro da guerra, numa maneira de levá-la ao término bem depressa, e sem grandes baixas. Minha idéia é instalar uma série de novas estações transmissoras. Rhodan fitou o Thort. A face deste revelava angústia.
— Farei o possível. Mas, lamentavelmente, nossa fabricação de transmissores não passa dum subsetor industrial pouco desenvolvido. Não creio que possamos fornecer a quantidade de transmissores necessários em tão curto espaço de tempo.
— Ora, isso não é problema — replicou Rhodan, com desenvoltura. — Meu mundo estaria em condições de fabricar qualquer coisa, num mínimo de tempo, desde que tenhamos à mão os respectivos planos. Tudo que precisaria fazer seria me obter um plano de construção dos transmissores; então, nos cinco dias de que necessito para preparar meu pessoal, eu poderia encomendar em meu mundo aparelhos suficientes para montar uma dúzia de novas estações.
O Thort parecia dominado por profunda comoção. Era evidente que a proposta não lhe agradava.
— Não sei — disse ele, hesitante — se seus homens seriam de fato capazes de fabricar aparelhagem tão complexa, cujo próprio princípio de funcionamento é difícil de compreender. Além disso, há o perigo de sua nave cair em mãos inimigas, e com ela os esquemas de fabricação dos transmissores. Não lhe parece arriscado demais?
Rhodan sacudiu decididamente a cabeça.
— De maneira nenhuma. Adversário nenhum em todo o universo poderia se apossar desta nave ilesa; duvido até que exista alguém em condições sequer de persegui-la. Quanto a isso, pode ficar absolutamente tranqüilo. E pela capacidade técnica de meu povo eu garanto, caso aceite minha palavra como válida.
O Thort interrogou com o olhar seus dois conselheiros; porém estes pareciam ter se demitido da função. Por resposta, ambos estenderam as mãos, no familiar gesto de incerteza.
O Thort levou algum tempo para se decidir. Por fim disse, suspirando:
— Pois bem, façamos a experiência! Mas quero que saiba que se trata duma resolução muito difícil. No entanto, a gratidão que lhe devo está muito acima do risco de revelar um segredo técnico a inimigos.
Rhodan inclinou-se de leve. A custo conseguiu disfarçar a sensação de triunfo que o dominava.
— Estou certo de que o segredo será igualmente usado em proveito de seu mundo! — afirmou.

* * *
Os preparativos estavam todos tomados. Os esquemas de construção dos transmissores se encontravam a bordo. Rhodan não sentia vergonha por ter praticamente extorquido os planos do Thort. Pois os transmissores eram um tesouro inapreciável, e nestes casos era permitido fechar os olhos a determinados conceitos, principalmente levando em conta que serviriam em primeiro lugar a fins políticos. Rhodan estava disposto até a ameaçar o Thort com a retirada total de seu apoio caso não lhe cedesse os planos dos transmissores. Porém, felizmente, não se vira obrigado a ir a tal extremo.
Rhodan alimentava sérias dúvidas quanto à sua capacidade de poder manter a promessa feita: regressar em poucos dias, trazendo transmissores recém-fabricados para uma dúzia de novas estações. Mas por enquanto não se preocupava demais com isso. Quer conseguisse, quer não, a Terra possuía agora um segredo técnico desconhecido até pelos arcônidas; e seria fácil encontrar uma boa desculpa para a demora nas entregas, caso o novo aparelho não pudesse ser fabricado com a necessária rapidez.
Thora e Crest tinham percebido os intuitos de Rhodan. Crest não fez comentário algum, porém Thora, ao ver-se só com Rhodan na cabina de comando por alguns instantes, comentou, numa estranha mistura de zombaria e admiração:
— Qualquer dia desses vou ficar com a impressão de que você poderia se tornar um perigo até para Árcon; e nesse dia despejarei cicuta em seu vinho!
Rhodan sorriu, imaginando onde ela teria aprendido uma palavra tão fora de uso como cicuta.

* * *

Poucas horas mais tarde foi difundida a notícia da aproximação da frota tópsida. A nave de guerra decolou, com os remanescentes da frota ferrônia, escalonados por uma área de cinco mil quilômetros, por escolta.
Rhodan pilotava pessoalmente o colosso, ao qual ainda não tinham dado nome.
Marten encarregara-se novamente dos detectores; era bom nisso.
Quando a nave chegou a oito milhões de quilômetros da frota tópsida em franco avanço, Rhodan determinou a posição a ser ocupada por cada capitão ferrônio, e levou sua nave para o hiperespaço, num salto de curta distância.

* * *

— Detecção! — anunciou o encarregado da localização a bordo da nave-capitânia. — Cerca de duzentas unidades inimigas à frente. Distância: uns quatrocentos radianos tópsidas.
Tequer-On fixou os olhos nas telas. Não contara com resistência ativa por parte dos ferrônios, mas evidentemente aquelas duzentas naves inimigas estavam com vontade de brigar.
— Vamos perder bem duas horas com isso! — silvou, irritado.
Seus planos eram desfechar o ataque contra Rofus com a rapidez do relâmpago. O que compensaria a desvantagem de se ver obrigado a deixar Ferrol totalmente privado de defensores pelo prazo de duração do ataque. E perder algumas horas numa escaramuça prévia com os restos da frota ferrônia, antes do golpe planejado, tornava toda a operação por demais arriscada. Ordenou ao segundo e ao terceiro esquadrão que tratassem de riscar o inimigo da área, enquanto os demais prosseguiam em linha reta para Rofus, sem tomar conhecimento de sua presença.
Entretanto os detectores tinham acusado um novo objeto, sobremaneira intrigante para os encarregados dos aparelhos. Estes eram parecidos com os sensores estruturais dos arcônidas, acusando deformações da estrutura quadridimensional tempo-espaço nas vizinhanças imediatas; deformações, portanto, semelhantes às ocasionadas pela transição duma espaçonave.
Normalmente a indicação seria explícita; mas o que os aparelhos registravam agora era uma imagem embaralhada de clarões instáveis e ziguezagueantes que ninguém conseguia interpretar. O operador avisou Tequer-On, que veio observar o fenômeno pessoalmente. Sentiu-se tão perplexo quanto os homens encarregados do serviço de detecção. Aprontava-se para regressar à cabina de comando, quando escutou agudos gritos de pavor atrás de si.
— A nave! A nave de guerra!
Tequer-On voltou-se bruscamente. Nas videotelas surgira, como que por magia, o contorno gigantesco de sua ex-nave, a pouco mais de cinqüenta ou sessenta quilômetros de distância. Parecia se manter imóvel num mesmo ponto, e de suas bocas de fogo ejetavam-se os raios pálidos de potentes desintegradores. Sob o intenso bombardeio, a ala direita da formação tópsida dissolveu-se em ondulantes colunas de vapor.
— Fogo! — berrou Tequer-On, apavorado.
Repetiu o brado após estabelecer contato radiofônico com as demais naves de sua frota.
Instantes após a nave-capitânia era atingida por tremendo impacto, que a fez rodopiar sobre o próprio eixo, arrancando-a do agrupamento. Todos os instrumentos de bordo deixaram de funcionar. A violenta colisão, causada por um cruzador em fuga dos próprios tópsidas, custou a vida de mais de cem tripulantes; os demais ficaram feridos ou inconscientes.
Minutos preciosos se passaram antes que o substituto de Tequer-On percebesse que a responsabilidade de dirigir a frota passara para seus ombros. Neste intervalo, a nave de guerra desaparecera novamente, sem ter sido alvejada com um só tiro. No seu rastro ficaram os restos gasosos de um quinto da frota tópsida.

* * *

Rhodan e Bell trabalhavam com a precisão de duas máquinas de calcular.
— Coordenadas para o salto?
— Zero em toda a linha!
— Hiperenergia?
— Mínima!
— Pronto?
— Pronto!
— Atenção! Salto! Fogo de todas as bocas!
Três a quatro minutos de bombardeio cerrado, que dizimou a frota tópsida em mais um quinto de seu efetivo. Desta vez a nave foi alvejada algumas vezes, com um ou outro tiro acertando o alvo. No entanto, o poderoso anteparo protetor da nave não sentiu o mínimo efeito prejudicial com eles.
— Cessar fogo! Coordenadas?
— Todas zero!
— Energia?
— Mínima!
— Pronto?
— Pronto!
— Atenção! Salto!
Nas telas apareceu o cinza difuso do hiperespaço. A nave não se movia; mesmo em termos de coordenadas pentadimensionais ela continuava imóvel.
Quando a nave emergiu novamente do hiperespaço, o restante da frota tópsida estava em franco pânico. Uma salva de tiros bastou para afugentá-la de vez. As duas esquadrilhas encarregadas de dispersar as naves ferrônias juntaram-se aos companheiros, em fuga desabalada.
— Fim! — murmurou Rhodan, um tanto fatigado.
Depois mandou os comandantes ferrônios regressarem para Rofus. A nave de guerra ainda permaneceu no local durante algum tempo, à cata de sobreviventes. No entanto, tudo que se via era a carcaça rodopiante da nave-capitânia tópsida, dirigindo-se aceleradamente para a branca bola de fogo de Vega. Nas telas ampliadoras via-se que a nave estava com um dos lados arrebentado de ponta a ponta.
— Pode ser que esses pulinhos para cá e para lá não representem uma maneira muito elegante de combater — disse Reginald Bell — mas que são úteis, lá isso são! Nem gosto de imaginar o que aconteceria aos nossos anteparos protetores se eles tivessem conseguido assestar todas as suas bocas duma só vez contra nós...
Rhodan balançou a cabeça.
— Por que pensa que escolhi essa tática? Na próxima vez, já saberemos como agir.

* * *

Num único salto, a nave chegou à órbita do vigésimo oitavo planeta de Vega, bem na orla do sistema planetário. Os postos de combate encontravam-se desguarnecidos agora; enquanto a nave executava sua estranha estratégia de saltos alternados, sua pilotagem requererá poucos braços, e Rhodan mandara a maior parte dos tripulantes manejar a artilharia. Passada a escaramuça, cada tripulante voltara a ocupar seu posto habitual.
Quanto aos tópsidas que haviam invadido aquele sistema planetário, Rhodan era de opinião que nos próximos tempos estariam por demais ocupados consigo mesmos para investigar o paradeiro da nave gigante tão ameaçadora.
Rhodan achou a ocasião favorável para estabelecer no sistema Vega uma base provisória inteiramente desconhecida do inimigo. Escolheu para território a lua gelada Iridul, que orbitava em torno do vigésimo oitavo planeta. O planeta propriamente dito não entrava em consideração, pois tratava-se de um mundo envolvido por metano e amônia, parecido com Júpiter. Sua única lua tinha o diâmetro de Plutão, e se assemelhava em todos os sentidos ao mais afastado planeta do sistema solar terrestre. Sua força gravitacional equivalia mais ou menos à da Terra. A tremenda energia de que a nave dispunha, somada ao aparelhamento correspondente, tornou fácil a tarefa de escavar na região polar — já provida duma funda cratera — um abrigo suficientemente largo e profundo para acomodar a colossal massa da nave. Desta forma, não oferecia mais o menor ponto de referência a possíveis adversários.
Rhodan mandou escavar uma caverna secundária menor, onde depositou uma série de aparelhos; alguns eram desnecessários a bordo, outros serviriam como material de reposição bastante útil a quem quer que necessitasse dele algum dia. Rhodan não esquecia, nem por um segundo, que sua missão no sistema Vega ainda não chegara ao fim.
Durante os trabalhos de escavação, teve oportunidade de interrogar os prisioneiros mantidos a bordo desde a estadia em Thorta. Tinham sido desarmados e encerrados num compartimento de carga vazio.
O interrogatório foi inócuo, pois o mais graduado entre eles era apenas tenente; e no rígido sistema disciplinar tópsida, os subalternos não chegavam a tomar conhecimento de segredos importantes.
Algo, no entanto, despertou a atenção de Rhodan nas respostas do tenente, deixando-o bastante preocupado. No entanto, só comentou o caso com Bell.
— Eles acreditavam de fato que a Terra ficava no sistema Vega. Isto é, captaram o pedido de socorro da nave arcônida na Lua, pondo-se a caminho imediatamente. É evidente que erraram os cálculos. Como Topsid fica a oitocentos e quinze anos-luz da Terra, um erro de vinte e sete anos-luz, portanto, representa um desvio de apenas 3,4%. Por enquanto não suspeitam que erraram o alvo. O tenente está certo de que algum dia ainda encontrarão neste sistema os restos do cruzador que enviou os sinais.
Bell fitou-o impressionado.
— Até que ainda tivemos muita sorte — gemeu ele.
Rhodan concordou.

* * *

Enviaram relatório à Terra através de uma curta mensagem radiofônica, frisando os principais fatos. Freyt recebeu ordem de deixar tudo preparado, especialmente gente com o treinamento adequado, de modo que a estadia no planeta-mãe representasse um mínimo de perda de tempo no prosseguimento da ação em Ferrol.
Rhodan já não acreditava que pudesse regressar dentro do prazo dos cinco dias prometidos ao Thort. No entanto, fazia questão de voltar o mais depressa possível.
De início acreditara que seria forçado a passar algumas semanas em Iridul, até fazer os tópsidas pensar que desaparecera com sua nave há bastante tempo. Porém Marten, que só abandonava os detectores para breves cochilos, anunciou:
— Nenhuma atividade aérea em todo o sistema!
A batalha perdida parecia ter afetado seriamente os tópsidas. Muito mais do que Rhodan supusera inicialmente. Tudo indicava que se aprontavam para o estabelecimento definitivo em Ferrol; só tornariam a se lançar ao espaço depois de se certificarem que a resistência dos ferrônios já não lhes acarretaria problemas, e quando as perdas sofridas fossem sanadas por novas remessas de Topsid.
O momento era favorável para o vôo rumo à Terra.
Rhodan acelerou ao máximo o treinamento de sua gente. Uma transição através de vinte e sete anos-luz requeria cuidados especiais.

* * *

Vinte horas após a nave estava pronta para a decolagem. Rhodan estava certo de que sua tripulação dispunha dos conhecimentos necessários para suportar uma transição de vinte e sete anos-luz.
— Espero que cada um de vocês mantenha os olhos bem abertos — disse, com gravidade. — Um só movimento em falso, e nunca mais sairemos do hiperespaço!
Voltou-se para Bell:
— Decolamos em 30 minutos!
Bell percorreu o imenso cenário do sistema Vega, com seus quarenta e dois planetas, com um olhar quase carinhoso. Diante dele, os ponteiros luminosos do relógio aproximavam-se do derradeiro minuto antes da decolagem.
— X menos sessenta segundos! — disse a voz seca de Rhodan.
— Um mundo bonito demais — murmurou Bell, pensativo — para ficar de presente para as lagartixas! Nós voltaremos!



* * *
* *
*







Perry Rhodan ousa o hipersalto para a Terra, apesar de não contar com gente suficiente para tripular sua nova espaçonave conquistada aos tópsidas.
Perry Rhodan enfrenta um grande risco, porém tem seus motivos.
Só na Terra encontrará o pessoal necessário para rechaçar os tópsidas. E ele prometeu ao Thort...
O próximo volume da coleção Perry Rhodan tratará do regresso a Vega, e do O SEGREDO DO COFRE DE TEMPO.

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