sábado, 20 de outubro de 2012

P-015 - Pista no Tempo e no Espaço - Clark Darlton [parte 2]


Rhodan ergueu-se de um salto.
— Vamos ver. Não nos exigiram mais do que isso. Deveríamos descobrir o nome, e isso já fizemos. A arca deve nos dar a próxima resposta. Voaremos para a Terra e depois voltaremos a Ferrol. Lá vamos constatar se perdemos ou não a pista do planeta da vida eterna.
Crest também se levantou.
— Lá fora nos espera a nave que nos levará à Terra. Fico feliz em revê-la.
Rhodan lançou um olhar interrogativo para o arcônida, mas na voz de Crest não se percebia nenhuma ironia.

* * *

Bell estava em seu elemento.
Selecionava duzentas pessoas, entre os soldados e trabalhadores especializados da Terceira Potência, que passavam a fazer parte da tripulação da Stardust-III. Essa tripulação crescia com isso para quinhentas pessoas, além do estado-maior dirigente e o Exército de Mutantes.
Como sempre acontecia, estava diante da difícil tarefa de testar os voluntários e decidir se poderiam ou não ser aproveitados. Uma das condições que Rhodan exigia era a ausência de qualquer laço pessoal mais forte prendendo o candidato à Terra. Com isso, os casados ficavam de fora.
Mas, nem todos os convocados para servir na Stardust-III eram homens. Também havia moças formadas em radiotelegrafia, eletrônica e química. De agora em diante haveria médicas e técnicas trabalhando na Stardust-III, ajudando a representar a raça humana. Bell ficou intimamente satisfeito com o interesse que essa nova regra despertou entre os membros da antiga tripulação masculina.
Bell foi surpreendido em seu trabalho cansativo pela chegada de Rhodan. Como nesse meio tempo já se tinha efetuado a troca de mercadorias, nada impedia a partida da Stardust-III. Bell recebeu ordem de apressar-se.
No terceiro dia a Stardust-III estava pronta para partir.
Antes da partida, Rhodan e o coronel Freyt conversaram a sós. Os dois homens, representantes do maior poder da Terra, não só se pareciam exteriormente, mas também concordavam em todas as questões políticas e ideológicas.
— Você conhece sua missão, Freyt — disse Rhodan. — Ela já foi claramente planejada e deve ser seguida à risca. O esquema de segurança da Terra está estabelecido, não há necessidade de novas regras. Nossos postos avançados em Plutão informarão a tempo sobre a aproximação de qualquer nave vinda do espaço exterior. Assim a Terra terá condições de se preparar para a defesa, se alguma raça de viajantes espaciais descobrir nosso planeta e pensar em presenteá-lo com sua cultura. Sua principal tarefa vai ser cuidar para que nosso mundo se transforme em um planeta unido: Terra! A existência da Humanidade vai depender de sua capacidade de agir com decisão e hunanimidade. Não estamos sozinhos no universo! Outra tarefa sua é promover a formação de um governo mundial.
— Pode contar comigo, Rhodan.
— Estou sabendo, Freyt. Foi por isso que fiz de você meu representante. Minha missão é no espaço e quero ter certeza de que tudo corre bem por aqui. Preciso do apoio moral da Terra para os meus atos. E só uma Terra unida e poderosa poderá algum dia receber a herança dos arcônidas.
O coronel Freyt não pôde disfarçar o tremor das mãos.
— A herança dos arcônidas?
Rhodan confirmou:
— Ouviu certo, Freyt. Algum dia voaremos para Árcon e ajudaremos os arcônidas a reerguer seu império decadente. Pagarão um alto preço por isso: o seu próprio poder. Crest sabe disso. Vê aí sua única possibilidade de impedir que seu império estelar de milhares de anos caia nas mãos de uma raça não-humanóide. De um certo modo, somos o mal menor.
— Antes nós que aranhas ou amebas — concordou Freyt muito sério. — Compreendo. E o que Thora diz disso?
— Antes de mais nada, ela não sabe. E é melhor assim. Crest é homem e raciocina com lógica, mas Thora é mulher e como tal julga de acordo com seus sentimentos. Algum dia vai ter de se conformar.
— E é desse dia que eu tenho medo — murmurou Freyt.
Rhodan ergueu-se sorrindo.
— E como pensa que eu me sinto, coronel?

* * *

A Stardust-III disparou pelo céu azul, que envolvia a Terra como uma cortina diante do infinito, escondendo dos olhos humanos a terrível solidão e a grandiosidade do Universo. Ao deixarem para trás Plutão, que não se deslocara muito em sua órbita, a nave passou com a velocidade da luz para o ponto de transição. A cúpula gigantesca começou de repente a brilhar, como se estivesse cercada por uma camada de ar muito quente. Em seguida desapareceu.
O abalo da estrutura espacial, no entanto, se propagava numa velocidade inconcebível e chegava no mesmo segundo aos confins do universo.
Por outro lado, havia muitas raças espalhadas por inúmeros planetas. Era bem possível que algumas delas possuíssem sensores capazes de detectarem esse abalo.
E nelas despertassem idéias...


3



O Thort, governante dos ferrônios, parecia impressionado com as mercadorias vindas da Terra. Suas organizações comerciais começavam a trabalhar. Com isso, além de Rhodan, o Thort também fazia o melhor negócio de sua vida. Estava estabelecido o primeiro contato comercial interestelar entre as duas raças.
Rhodan passou para o major Deringhouse a tarefa de proceder ao descarregamento das mercadorias. Sentia-se inquieto por dentro e sabia que a incerteza era a única responsável por isso. Mal Deringhouse saiu de sua cabina, Rhodan mandou chamar Bell, Crest, Thora, Haggard e John Marshall, o telepata. Nada o impediria de descer ainda naquele dia até a arca sob o Palácio Vermelho.
Mas ainda queria discutir alguns pontos com seus auxiliares mais próximos.
— Todos nós nos recordamos da mensagem decifrada pelo cérebro — começou, erguendo a tira de papel com o texto traduzido. — Há ali três pontos que precisamos observar. Os imortais falam dos segundos que se passaram. Já podemos presumir que esses segundos duraram exatamente nove mil novecentos e oitenta e cinco anos. Portanto, isso já está claro. A mensagem também ordenou: “Encontre o homem que se maravilhou com as máquinas do saber e interrogue-o.” Aqui surge um problema: Como eles querem que eu faça isso? Já encontramos o homem, ou pelo menos seu nome. Mas como poderei interrogar alguém que já morreu há quase dez mil anos? Confesso que não pude decifrar esta parte do problema. Disseram ainda que devo descer à arca, nos subterrâneos do Palácio Vermelho, para interrogá-lo. Isto significa que com a ajuda da quinta dimensão há a possibilidade de interrogar um morto. Não me perguntem como isso é possível; eu mesmo não sei. De qualquer modo logo descobriremos, pois não vou entrar na arca sem o nome do homem, Kerlon. Também há outra coisa na mensagem que me chamou a atenção...
Fez uma pequena pausa e examinou seus amigos. Thora ouvia com interesse e Rhodan teve a impressão de captar em seus olhos um olhar de admiração. Crest, Haggard e Marshall esperavam com calma. Somente Bell se remexia inquieto de um lado para o outro na cadeira, como se já não pudesse conter sua impaciência. Seu olhar implorava a Rhodan para que fosse breve e fosse direto ao assunto.
Rhodan fez-lhe a vontade.
— A mensagem diz textualmente: “...apenas segundos para mim”. Acentuo: para mim segundos. Daí se pode concluir que só há um imortal!
Por algum tempo reinou na cabina um completo silêncio.
Crest parecia alguém que acabou de ouvir sua sentença de morte. Thora permaneceu de lábios entreabertos, Bell de olhos arregalados. Haggard e Marshall falaram ao mesmo tempo:
— Só um imortal?! Isso seria um paradoxo! Impossível!
— Possível — discordou Rhodan. — Absolutamente possível. E vou lhes explicar por quê. Na época em que os imortais chegaram a Ferrol ainda existiam como raça.
Então resolveram emigrar do sistema. As razões são desconhecidas. Ao mesmo tempo, foram atingidos por uma catástrofe que os exterminou, apesar de sua imortalidade. Só um sobreviveu. Não quis guardar seu segredo apenas para si e resolveu encontrar um seguidor. Concebeu a charada galáctica. Quem a resolvesse obteria a imortalidade. Deixou as pistas provavelmente mais tarde do que pensamos a princípio. Encontramos a pista e desde então a seguimos. Não, não vejo paradoxo nenhum em falar de agora em diante do imortal ao invés de falarmos de sua raça, que viveria mais que o sol. Para eles o sol se pôs afinal muito depressa.
— Só um imortal — murmurou Crest absorto. — É mais que uma suposição fantástica. É monstruoso!
— Como deve ser essa criatura? — perguntou Thora baixinho. — Um ser que nos dá um enigma, que para ser solucionado são necessários uma inteligência fora do comum e o saber de um cérebro positrônico gigantesco. Um ser que domina o tempo...
— É isso mesmo — concordou Rhodan em tom sério. — Domina o tempo. E como domina o tempo é imortal. Vamos descer à arca para obter a resposta. Quero pedir a vocês que me acompanhem. Ainda hoje.
— Sem os mutantes?
Crest fez um ar pensativo.
— Levaremos John Marshall, o telepata. E talvez também a telecineta Anne Sloane.
— E nosso robô? — intrometeu-se Bell. Todos sabiam de quem falava. Tinham transformado um dos robôs em um ser metálico de raciocínio pentadimensional. O incrível banco de dados, o encadeamento lógico das idéias, tudo isso o transformava em uma superinteligência, cuja presença constante parecia imprescindível. Nunca se poderia saber que problemas surgiriam.
— Pois bem — concordou Rhodan finalmente. — Desta vez me acompanham Crest, Bell, Marshall, Anne, o Dr. Haggard e o robô. Thora, você tem vontade de tomar parte na operação, não é?
Seus olhares se cruzaram. Rhodan percebeu que, por teimosia, gostaria de ir junto, mas a prudência feminina acabou vencendo.
— Se Crest vai com você, talvez seja melhor que eu fique. Como medida de segurança, é claro.
Bell ponderou:
— Por que não levamos mais alguns mutantes conosco? Pelo menos o teleportador, Ras Tshubai. E talvez também o Ralf Marten, que já se queixou comigo de que nós o deixamos sempre para trás.
— Pois bem — concordou Rhodan, depois de pensar um pouco. — Então comunique isso aos dois e a Anne. Há lugar suficiente para nove pessoas no hipertransmissor de matéria que vamos utilizar. Vamos sair dentro de meia hora.

* * *

Em um passado remoto, o imortal cuja pista seguiam havia construído uma arca pentadimensional sob o palácio do governante dos ferrônios. Seu conteúdo era invisível, pois achava-se protegido por uma cúpula de raios enfeixados. Só o gerador dos arcônidas conseguira neutralizar essas ondas. Com isso, seu conteúdo voltava ao presente, tornando-se concreto e tridimensional.
Rhodan apertou um botão, fazendo funcionar o gerador. O quadro diante de seus olhos modificou-se imediatamente. Onde antes havia a abóbada vazia e escura, surgia agora um cone cintilante. Parecia ter saído do nada e foi aos poucos se dissolvendo. Mas permitiu que se tornassem visíveis objetos que anteriormente não estavam na enorme abóbada. Contudo, o hipertransmissor de matéria havia desaparecido.
Lá, onde antes estivera, só havia uma poltrona.
Estava sobre uma pequena elevação, como que convidando alguém a se sentar. E isso era tudo o que ainda havia na arca.
Rhodan pensou durante alguns segundos e a lógica o levou a concluir que, se sentasse na poltrona, tudo o mais se seguiria automaticamente. A poltrona lhes daria a primeira resposta.
Crest também tinha chegado à mesma conclusão.
— A poltrona representa a ligação com o imortal. Qualquer um de nós pode sentar-se nela, Rhodan, pois todos sabemos o nome do homem que se surpreendeu com o hipertransmissor.
— Eu faço isso — afirmou Rhodan. — Se alguém aqui tem de correr um risco, que seja eu. Crest, espere aqui com os outros. Observe exatamente tudo o que se passar e corra em meu socorro se for necessário.
Bell quis dizer alguma coisa, mas calou-se, dominando-se com esforço. Cerrou os lábios com tanta força que pareciam um traço fino. Pequenas gotas de suor se formaram em sua testa.
— E se você desaparecer? — quis saber Ras Tshubai.
Rhodan lançou um rápido olhar para o africano.
— Aí você me segue. Afinal, você é ou não é um teleportador?
Ras arreganhou o rosto num sorriso.
— Posso atravessar o espaço, mas não o tempo.
Rhodan não respondeu. Encaminhou-se para a poltrona. Nos segundos que precisou para vencer os poucos metros, gravou todos os pormenores. Em vez do estofo, via-se uma superfície lisa. O espaldar era feito de metal, que parecia piscar traiçoeiramente. Os pés um pouco deselegantes faziam um ângulo reto com o chão, parecendo se enveredar para dentro dele. O assento era maciço e de espessura fora do comum.
Rhodan chegou junto à poltrona.
Hesitou.
O que aconteceria se sentasse? A mensagem o avisara para só vir a esse lugar quando soubesse o nome da pessoa que se surpreendera com o hipertransmissor. Esse nome ele já sabia. Com isso preenchia as condições impostas.
Com uma última passada subiu no estrado e sentou-se na poltrona pronta para recebê-lo.
Parecia quente, como se alguém tivesse acabado de se sentar nela. Era a única coisa que se sentia. Contudo, enquanto Rhodan esperava que acontecesse alguma coisa, ela aconteceu. Veio de repente e de modo surpreendente.
Um zumbido de máquina começando a trabalhar se fez ouvir debaixo dele. Toda a sala vibrava. Ao mesmo tempo Rhodan, a poltrona e o estrado foram envolvidos por uma cúpula energética. Crest, Bell e os outros apareciam para Rhodan como que vistos através de um véu longínquo, mas abruptamente todos os ruídos emudeceram. Estava sozinho debaixo da cúpula, separado do mundo exterior, apesar de poder vê-lo.
Mas, então, isso também acabou.
Ficou tudo escuro em sua volta. Apenas a cúpula emitia alguma luz, mas essa luz era fraca. Não se distinguia nada. Rhodan sentiu alguma coisa estranha começar a se impor em seus pensamentos. Lutou instintivamente contra ela, mas logo desistiu. Que sentido haveria em evitar a pergunta que seria feita ao seu subconsciente? Nem sabia se poderia respondê-la. Sua resistência desapareceu completamente quando percebeu que só estava prejudicando a si mesmo. Sentiu uma sensação quase agradável quando o estranho se apoderou de sua mente de um só golpe.
Durou apenas alguns segundos e logo tudo ficou novamente claro, ao mesmo tempo em que desaparecia a cúpula energética. A vibração sob a placa metálica do assento emudeceu. Rhodan viu os rostos ansiosos de seus companheiros.
— Onde foi que você esteve? — perguntou Bell. — Você desapareceu.
— Vocês também — respondeu Rhodan levantando-se. Continuou em pé perto da poltrona, sem que ele mesmo soubesse bem por quê. O que esperava ainda?
A resposta!
Onde estava a resposta do imortal?
Enquanto isso, os outros se aproximaram. Bell e Crest perguntaram ao mesmo tempo:
— Como foi?
— Nem eu mesmo sei o que aconteceu, mas imagino que minha memória tenha sido investigada pormenorizadamente. O imortal, ou o que quer que seja que tenha criado, agora já deve saber que conheço o nome do homem que se admirou ao encontrar em um Ferrol ainda primitivo o hipertransmissor que funciona em cinco dimensões. Era essa a condição. Eu a preenchi. Agora compete ao imortal nos mostrar os próximos passos a seguir.
Os mutantes, o Dr. Haggard e o robô se aproximaram. Rhodan foi cercado por eles. O mecanismo invisível e silencioso parecia só estar esperando por isso. O chão de pedra, que parecia maciço, começou a afundar lentamente, sem fazer barulho algum. Os sete homens, Anne Sloane e o robô se achavam sobre a plataforma de um elevador, que descia inexoravelmente para as profundezas.
— Espero que tudo corra bem — murmurou Bell com ceticismo. — Poderíamos ter saltado fora. Deram-nos tempo suficiente para fazer isso.
— De propósito! — acentuou Rhodan, em leve tom de censura. — Haggard já nos disse uma vez que o imortal não quer medir apenas o nosso grau de inteligência. Quer conhecer também nossas qualidades. Os covardes não merecem a vida eterna. É assim que ele nos põe à prova.
Bell não respondeu. Reconheceu, por certo, que Rhodan tinha razão.
Nesse meio tempo, a plataforma tinha parado. As paredes do aposento recuaram, aumentando o recinto. Súbito, como se tivesse saído do nada por um passe de mágica, um bloco surgiu no meio do salão vazio.
Um bloco de metal.
Uma luz incandescente, avermelhada, iluminou lentamente todo o ambiente. Estava em tudo, nas paredes e no teto. O salão era grande e quadrado, com cerca de dez metros de lado. Acima deles a clarabóia se fechara. Completamente isolados do mundo, as oito pessoas e o robô se encontravam em uma verdadeira prisão, na armadilha mais perfeita que já existiu.
O cubo metálico?
Atraía imediatamente a atenção, um dado puramente psicológico, já que era a única coisa que havia nesse subterrâneo.
Aos olhos de Rhodan não escapou a presença, na superfície do cubo, das conhecidas irregularidades que já tinham encontrado diversas vezes. A escritura ideográfica e simbólica dos imortais!
O lado do bloco voltado para ele mostrava algumas linhas na escrita desconhecida. Seria a próxima indicação?
— Como decifraremos isso? — quis saber Crest. — Já fixei bem os sinais em minha memória fotográfica, mas poderia sair daqui para chegar até o cérebro positrônico? E como voltaria para cá?
Rhodan não respondeu. Virou-se e indicou o robô. A maravilhosa obra da técnica dos arcônidas reagiu instantaneamente. Robby, este o seu nome, se aproximou. Esperou em silêncio as suas ordens.
— Está vendo a escrita? — perguntou Rhodan.
— Sim, senhor.
— Decifre-a e forneça-nos o texto em caracteres comuns.
— Sim, senhor.
As lentes dos olhos do robô dirigiram-se para o bloco. Ficou completamente imóvel. No interior do corpo os relays estalavam. Contatos se fechavam e novas correntes percorriam regiões do pequeno cérebro positrônico não utilizadas até então. A escrita foi fotografada e passada adiante. O processo de decifração começou.
Bell ficou impaciente.
— Será que vai conseguir? E se não conseguir?
— Agourento! — resmungou John Marshall em voz alta.
— Como?
— Agora, silêncio! — ordenou Rhodan. — Não atrapalhe Robby!
No segundo plano, Ras Tshubai e Ralf Marten cochichavam. O teleportador dizia que gostaria de experimentar se poderia sair desse lugar através da simples desmaterialização, mas não ousava realizar experiências sem a ordem expressa de Rhodan. Talvez a prisão não estivesse separada do mundo exterior apenas por muralhas, mas também por uma barreira de tempo ou um campo pentadimensional. Nesse caso, não poderia atravessá-las.
O robô mexeu-se. Virou-se de modo a que seus olhos lenticulares se fixassem diretamente nos olhos de Rhodan.
— A solução foi fácil. O texto decifrado diz:

Encontra agora aquele cujo nome já conhece. Só ele possui o que precisas para encontrar o caminho para a luz. Sabes o que é o tempo?

O robô calou-se. Rhodan esperou alguns segundos e perguntou:
— É só isso?
— O texto está completo, senhor. Não há mais nada no conversor do tempo.
Para Rhodan, foi como se um raio o atingisse. Percebeu que seu coração saltou uma ou duas batidas e, em seguida, o sangue afluiu com força nova. Estremeceu.
— O que foi que você disse, Robby? O que é aquilo?
Mostrou o bloco de metal imóvel no meio do salão.
O robô respondeu serenamente. Em sua voz não se notava nenhuma emoção.
— Um conversor de tempo, senhor. Um aparelho que domina a quarta e a quinta dimensão e manipula com elas. Na matemática pentadimensional seria o que na tridimensional se poderia chamar de máquina de calcular.
— E o que se pode fazer com um conversor de tempo?
A Bell, que dera um passo a frente, pareceu como se houvesse pela primeira vez uma certa ironia na voz habitualmente impassível do robô.
— Converter o tempo, senhor. O que mais poderia ser?
— Esse cara está sempre rindo da gente! — insurgiu-se Bell, furioso. — Como se o conversor de tempo fosse uma máquina de calcular esférica, onde as crianças aprendessem o “um vezes um”.
— Agora veja se cala de uma vez essa boca! — ordenou Rhodan com uma aspereza que não lhe era comum. — E quando falar diga, por favor, alguma coisa que possa nos ajudar. Senão é melhor ficar calado — e voltando-se para o robô: — Você disse converter o tempo? Isso quer dizer que esse bloco é uma máquina do tempo?
— O senhor também poderia chamá-la assim. Mas o conversor é diferente da máquina do tempo porque não se pode subir dentro dele e viajar para o passado ou para o futuro. Já está ajustado e leva o viajante apenas em uma direção e depois novamente de volta. Conheço teoricamente o princípio empregado.
— Em que direção? — perguntou Rhodan ansioso.
— Passado, senhor.
Crest se aproximou de Rhodan.
— Começo a perceber. Lá em cima, na poltrona, o imortal se certificou de que você sabia o nome do comandante arcônida. Tendo feito isso, permitiu seu acesso ao conversor de tempo. Não fez objeção ao fato de você trazer alguns amigos. E agora, esta máquina vai nos levar ao passado, para termos a oportunidade de encontrar Kerlon. Pois ele possui, isso é a mensagem que diz, o que precisamos para chegar até a luz. Ninguém pode imaginar o que seja. Mas temos de encontrá-lo e nos apossarmos dele.
Bell e os mutantes encararam atônitos e mudos o bloco de metal. A idéia de que este objeto insignificante os poderia transportar até dez mil anos atrás lhes era inquietante. Só o robô, incapaz de sentir emoções, continuou impassível. Esperou serenamente pelo desenrolar dos acontecimentos.
— Como vamos fazer funcionar o conversor? — perguntou Rhodan, olhando para Crest. — Não vejo nenhum controle.
O robô reagiu imediatamente e respondeu no lugar de Crest:
— O conversor tem conexão com o sistema automático da arca. A seqüência predeterminada dos acontecimentos independe de nossa participação. Acho mesmo que já nos encontramos a caminho do passado.
Rhodan olhou maquinalmente em redor. Os outros tiveram reação semelhante. Nada tinha mudado, tudo parecia igual. Ainda deviam estar sob a abóbada do Palácio Vermelho.
Ou não?
Não puderam continuar fazendo conjecturas, pois algo de extraordinário aconteceu. Rhodan, Crest, Bell e alguns dos mutantes já a conheciam da sala da máquina desde o primeiro enigma. Mas continuavam a sentir uma certa inquietação cada vez que a voz do imortal, gravada há milhares de anos, saía do nada para lhes falar.
Era uma voz sem entonação, sem palavras articuladas, penetrante, que ia direto ao cérebro das pessoas. Deste modo, era capaz de falar qualquer língua.
Esta era a nova mensagem:

Falo a você, que seguiu minha pista até aqui. Quando chegar, não deixe que o matem. Ninguém o ajudará se não ajudar a si mesmo. Só então, quando achar Kerlon e com ele o objeto que lhe mostrará o caminho da luz, poderá voltar à sua própria época. Não espere mais de três dias, mas antes disso a máquina não o levará de volta. Desejo-lhe sorte. Já espero há tanto tempo...

Subitamente, começaram a ouvir ao longe uma série de ruídos indefinidos. Rhodan pensou distinguir gritos e apelos, em meio ao clangor das armas. Parecia o barulho de pessoas lutando com espadas. Em algum lugar ecoou uma explosão abafada.
As paredes do calabouço começaram a modificar-se. O material liso que as cobria desapareceu e surgiu um aposento toscamente talhado na pedra. Onde antes havia a entrada para a arca, surgiu uma porta de madeira grosseira, trancada por dentro por uma pesada trava de madeira. O teto ainda era o mesmo. O chão também.
O conversor de tempo continuava imutável em seu lugar.
O barulho lá fora tornou-se mais intenso. Gritos estridentes misturavam-se a novas detonações. Bem perto, ressoaram ordens de comando. Ouvia-se o ruído de metal contra metal.
— Estou achando — disse Crest — que viemos parar no meio de alguma guerra. De acordo com os registros históricos, naquela época, quero dizer, agora, grassavam muitas guerras. Se realmente vamos ficar por aqui algum tempo, devemos contar com a possibilidade de sermos envolvidos nelas.
— O imortal nos avisou: não deixe que o matem — lembrou Rhodan. — Ainda bem que trouxemos armas.
— Devíamos ter trazido mais — lamentou-se Bell, batendo impaciente na coronha de sua pistola de radiação. — Os trajes de combate, o psicoirradiador e talvez ainda o neutralizador de gravidade.
— Até mesmo um antiquado revólver de tambor serviria agora para ameaçar um exército inteiro — disse Rhodan confiante. — Nessa época, mal conheciam ainda as armas de fogo, e, se as conheciam, eram somente as que são carregadas pela boca. Nossas pistolas de radiação vão servir de sobra para fazer qualquer inimigo que apareça desistir de nos matar. Não devemos ter nenhuma consideração quando se tratar de salvar nossas vidas. Não devemos ter escrúpulos morais, pois afinal estaremos lutando contra ferrônios mortos há dez mil anos. De qualquer maneira, essa idéia me parece um bocado maluca.
— Mais do que maluca! — concordou Bell com veemência.
O barulho da luta lá fora enfraqueceu e afastou-se.
— Temos três dias — Rhodan tornava-se objetivo. — Não sei se a hora em nossos relógios ainda vale, mas são cinco horas da tarde, de acordo com o tempo da Terra. Temos três dias. Não sei em que dia chegamos aqui, mas o imortal deve ter nos dado tempo suficiente para procurarmos e encontrarmos Kerlon. Ainda não sei o que devo dizer ao comandante arcônida. Crest, você pode me dar alguma idéia?
O arcônida abanou lentamente a cabeça.
— Em nossa História não há referência a uma viagem realizada através do tempo. Kerlon enviou seu relatório de Vênus depois de ter estado em Ferrol, e não mencionou o encontro com homens e arcônidas vindos do futuro. Portanto, não lhe contamos nada a respeito, quer dizer, não lhe contaremos.
— Vamos ver. Bell, abra a porta!
A trava de madeira pôde ser empurrada com facilidade. A porta abria-se para fora. A fraca luz do dia entrava através das fendas das janelas. Largos degraus de pedra conduziam ao andar superior e terminavam em um corredor largo e bem iluminado. Aparentemente pelos raios do sol.
Três homens em armaduras reluzentes estavam estendidos no átrio. Rhodan viu logo que estavam mortos. De certo ocorrera ali uma luta terrível.
— Que época desagradável — resmungou Bell estremecendo e tirando precavidamente a pistola de radiação do cinturão. Regulou-a com o polegar para uma intensidade baixa. Quem recebesse um tiro direto da arma sentiria os efeitos de uma descarga elétrica, mas não morreria.
Marshall também tinha trazido seu revólver de tambor, do qual nunca se separava. Rhodan voltou-se para Ras Tshubai.
— Ras, quero que você faça uma sondagem no terreno. Tenha cuidado e desapareça imediatamente se encontrar alguém. Verifique quem está ocupando o Palácio Vermelho, mas, antes de mais nada, procure saber se a frota dos três arcônidas já pousou. Ficamos esperando aqui até você voltar.
O teleportador africano fez que sim com a cabeça. Prendeu sua arma no cinturão e concentrou-se. Os outros observavam fascinados sua figura tornar-se difusa e desaparecer. No mesmo segundo estaria novamente se materializando em algum nutro lugar, lá em cima, no palácio.
A espera converteu-se em uma prova de nervos.

* * *

Ras Tshubai recompôs-se depois de um pequeno salto.
Nunca podia ver onde ia se materializar. Muitas vezes isso já o tinha colocado em situações perigosas, mas um segundo salto era sempre a salvação para o caso.
Dirigira seu salto para a sala do trono do Thort. Quando abriu os olhos, no entanto, começou imediatamente a cair. Muito abaixo de onde estava viu as torres e as ameias de um castelo baixo, sem semelhança alguma com o Palácio Vermelho que conhecia. Homens com armaduras postavam-se nas seteiras e atiravam com armas volumosas sobre atacantes igualmente blindados, que procuravam tomar o castelo utilizando escadas. No pátio já havia combates corpo a corpo. Os agressores provavelmente já haviam penetrado no castelo e estavam a ponto de apossar-se dele.
Não restava muito tempo a Ras, se não quisesse se espatifar no solo. Desmaterializou-se de novo e desceu no mesmo segundo, são e salvo, em pleno campo, um pouco além do castelo.
Estava numa colina e dali tinha uma boa visão, sem correr perigo de ser surpreendido pelos bárbaros.
O castelo ficava agora a quase dois quilômetros de distância. Ras viu imediatamente que estava sitiado por uma força militar poderosa. O acampamento dos sitiantes ficava em uma descida, na direção oblíqua ao lugar onde se encontrava. As fogueiras de acampamento estavam acesas e grandes animais eram assados no espeto. Tendas altas tinham sido armadas à beira de um regato, escondidas por arbustos dos olhares inimigos. Soldados com armaduras patrulhavam, andando de um lado para o outro.
Ras ouviu barulho atrás de si. Virou-se rapidamente. A encosta suavemente ondulada era coberta por arbustos isolados, que ofereciam excelente esconderijo para adversários que se aproximassem furtivamente. Não prestara atenção a isso.
Eram quatro homens, que se esforçavam em chegar ao topo o mais silenciosamente possível. Não vestiam armadura e diferençavam-se por suas vestimentas dos dois partidos que combatiam.
“Ah!”, pensou Ras divertido. Naquele tempo já existiam os neutros, que sempre acabavam ajudando o vencedor.
Os quatro homens vestiam jaquetas de couro e calças apertadas do mesmo material. Tinham a cabeça descoberta, mas o cabelo longo e escuro oferecia proteção suficiente contra o sol e o frio. Estavam armados com lanças compridas e espadas curtas e largas Os escudos achatados eram presos às costas por uma cinta.
Ras olhou-os calmamente. Conservava na mão a pistola de radiação, pois estava firmemente resolvido a só desaparecer em caso de extrema necessidade. Não queria voltar para Rhodan sem obter alguns resultados. Talvez bastassem algumas frases no idioma da unificação para um entendimento.
Os quatro homens ergueram-se afinal, pois certamente perceberam que seu jogo de esconde-esconde havia sido descoberto. Desconfiados, conservaram as lanças prontas para atirar, mas tiraram logo a mão das espadas. Em seus olhos havia espanto pela presença do desconhecido estranhamente vestido, que os observava sem temor.
Ao chegarem a uma distância de uns dez metros, Ras ergueu as duas mãos.
— Alto! — disse de modo a que o pudessem ouvir. — Quero falar com vocês.
Os quatro ferrônios ficaram parados onde estavam. Na certa, tinham entendido. Seguravam indecisos as suas lanças. Em seus olhos havia uma pergunta. Não sabiam como proceder com o desconhecido. Não pertencia nem aos defensores nem aos atacantes do castelo. Quem era, então?
— Quem é você? — perguntou o mais barbudo deles.
Ras admirou-se de entendê-lo tão bem. O dialeto pouco se diferençava do falado pelo Thort. Assemelhava-se principalmente à língua falada pelos sichas, o povo meio selvagens das montanhas de Ferrol.
Estaria diante dos antepassados dos sichas?
— Sicha? — perguntou sem hesitar.
O barbudo confirmou estupefato. Abaixou sua lança até a ponta tocar o solo. Em seu olhar surgiu uma luz amigável.
— Você amigo? — perguntou.
Ras concordou com entusiasmo. Naturalmente, por que não seria amigo dos sichas? Guardou no cinturão sua pistola de radiação e dirigiu-se aos quatro homens com as mãos estendidas. Não esqueceu de se preparar para um salto imediato, no caso dos sichas mudarem de idéia.
Ainda hesitante, o barbudo estendeu sua mão e retribuiu o aperto. Os três homens restantes também aproveitaram a oportunidade para demonstrar sua amizade. Não podiam disfarçar o interesse com que admiravam a arma maciça no cinturão do estranho. Ras não se ofendeu com isso.
— Moramos lá em cima nas montanhas — disse o chefe, mostrando ao longe uma cadeia de montanhas na linha do horizonte, esfumaçada pela bruma. O sol poente se aproximava de seu topo. — Muita guerra agora. Nós mantemos paz.
— Quem está em guerra?
Não foi fácil extrair o essencial da descrição meio confusa que obteve. Os quatro homens às vezes misturavam os fatos, às vezes passavam a falar um dialeto totalmente incompreensível para Ras. Mas finalmente, acreditou ter compreendido a situação.
O dono do castelo era uma espécie de conde, que reinava sobre essa região. Seu vizinho, também conde, disputava esse domínio. Esta já era a terceira tentativa para tomar o castelo e parecia estar sendo bem sucedida. Os sichas não se interessavam muito pela luta, mas procuravam obter vantagens dela. Roubavam os mortos e atacavam os guerreiros dos dois partidos que encontrassem vagando sozinhos e desorientados pela região.
O barbudo confessou tudo isso abertamente e, quando Ras lhe perguntou a causa de não o terem atacado para roubar, sorriu matreiramente e explicou:
— Você é um estranho e usa roupas estranhas. Tem uma arma admirável, que não conhecemos. Mas sabemos que pode disparar raios. Temos medo de você e por isso você é nosso amigo.
Terrivelmente simples e de bom senso”, pensou Ras atônito. Mas então, estremeceu como se um raio o tivesse atingido. De onde os primitivos sichas conheceriam uma pistola de radiação e sabiam que era capaz de “disparar raios”?
A primeira vinda dos imortais, muito antes dos arcônidas!
A lembrança desse fato ainda devia estar bem viva. Decidiu interrogar os sichas.
— Quando foi que os últimos estranhos estiveram em seu mundo?
— São amigos seus? Vocês voltaram, deuses do sol? — perguntou o barbudo, inclinando a cabeça.
Ras pensava. Havia uma coisa que não encaixava de jeito nenhum. “Não se admiraram de minha cor de pele. Bem, talvez isso já não tenha mais significado para eles. Afinal sua pele também não é branca e sim preto-azulada.”
— É, eles são meus amigos. Talvez voltem.
O barbudo quis dizer alguma coisa, mas foi subitamente impedido de fazê-lo.
Nos arbustos próximos ressoou um grito estridente e pelo menos uma dúzia de soldados saiu de dentro deles. Obedeceram a uma ordem e se lançaram sobre os cinco homens, completamente surpreendidos pelo ataque. A conversa tinha feito com que relaxassem a vigilância.
Os soldados nada fizeram para coagir aqueles homens aparentemente desprotegidos a se renderem. Parecia que não tinham interesse em aprisioná-los. Por alguns segundos, Ras esteve quase resolvido a dar um salto rápido para um lugar seguro, mas percebeu que isso seria desleal para com seus novos amigos. Afinal era por culpa sua que eles se achavam naquela situação.
Arrancou a pistola de radiação do cinturão, enquanto os sichas jogavam suas lanças contra os inimigos. Quase ao mesmo tempo tiraram as espadas.
Ras apertou o botão que acionava a pistola e a apontou para o adversário mais próximo. O soldado tinha se aproximado até cerca de uns vinte metros e já ia arremessar sua lança contra Ras, quando a descarga o atingiu. Seu rosto crispou-se e ele começou a berrar, como se estivesse sendo atacado por uma companhia inteira. Seus dedos se abriram e ele deixou cair a arma. Atirou-se em seguida ao chão, pedindo misericórdia.
Seus companheiros hesitaram em continuar o ataque, mas logo chegaram à conclusão que seu companheiro tinha sido acometido por uma cãibra e não se perturbaram mais com aquilo. Balançaram novamente as lanças para arremessá-las contra suas vítimas.
Mas, nesse meio tempo, as armas dos sichas alcançaram seu alvo. Quatro dos atacantes caíram ao solo, atingidos, mas os outros também já tinham atirado. O sicha perto do chefe soltou, de súbito, um grito e caiu ao chão, trespassado por uma lança.
Aí Ras Tshubai perdeu finalmente a calma.
Mudou rapidamente a intensidade de sua pistola e apontou-a com fogo permanente para os seis ou sete soldados, que atravessavam com as espadas desembainhadas os poucos metros que os separavam, para lançar-se contra os adversários indefesos.
O ataque parou imediatamente.
Era como se os soldados tivessem ido de encontro a um muro invisível e fossem rechaçados com toda a força. Seus gritos desesperados cortaram o ar. Suas espadas caíram. Seus membros se crisparam e eles caíram inconscientes ao solo.
Não estavam mortos, mas Ras tinha a certeza de que ficariam inconscientes no mínimo por uma meia hora. Só o primeiro, que tinha levado uma carga leve, recobrou logo o ânimo e desceu correndo a montanha, lançando gritos desarticulados.
Ras pôs a mão sobre o braço do sicha barbudo para acalmá-lo. Já estava pronto a jogar a lança sobre o fugitivo.
— Deixe que se vá, meu amigo. É melhor que se salve.
— Por quê? Ele vai buscar os outros.
— Não creio. Vai contar a seus amigos o que lhe aconteceu e aí ninguém mais terá coragem de subir nessa colina. Aqui é mais seguro do que lá no castelo, que logo será tomado.
— Já é tempo de sumirmos daqui — disse o barbudo — porque depois não conseguiremos voltar às montanhas. Logo o olho do deus submergirá na terra e tudo ficará escuro.
— O olho do deus? — perguntou Ras Tshubai admirado, para logo compreender que se tratava do sol. — É, logo será noite. Descrevam-me o lugar onde moram, para que eu possa ir visitá-los.
— Não vem conosco?
Na voz do barbudo havia uma ponta de decepção.
— Não posso ir. Meus amigos esperam por mim. Vou voltar agora para junto deles. Mas prometo ir visitar vocês lá nas montanhas. Descreva-me o caminho.
O chefe olhou para o horizonte e apontou com o braço estendido para um pico muito alto.
— Nossa raça vive lá, atrás da montanha triangular. É um planalto. Ao lado, há um vale largo com um riacho. Não pode errar.
Não”, pensou Ras, “não posso mesmo.” O sicha tinha descrito exatamente o lugar onde mais tarde se ergueria sua capital, Sic-Horum.
— Eu vou encontrar. Espero que cheguem bem em casa.
O sicha abriu um sorriso largo.
— Conhecemos o atalho melhor que os soldados, que vêem de outras terras. Adeus, estranho. E, obrigado.
Ras apertou a mão dos três guerreiros restantes e guardou a pistola no cinturão. Sabia que os selvagens ainda teriam outra surpresa e lamentou-se por não poder ver seus rostos espantados, quando ele desaparecesse no ar de repente, diante de seus olhos.
Acenou-lhes, concentrou-se no porão do castelo e saltou. Quando abriu os olhos, deu de cara com o rosto assustado de Bell.


4



O Vice-Thort do castelo e da terra de Thorta reconheceu que sua resistência era inútil. Os bárbaros tinham penetrado na fortaleza e estavam na iminência de dominar seus guerreiros que ainda viviam.
Chamou o comandante dos soldados à sua presença.
— Regor, reúna seus homens. Vamos nos retirar para a abóbada que existe sob o castelo. Lá poderemos resistir alguns dias.
— Os inimigos já conseguiram chegar ao porão, Lesur — respondeu o soldado. — Poderemos matá-los. Talvez a câmara secreta nos ofereça proteção.
O Vice-Thort fez um gesto de negativa.
— A câmara secreta é um lugar sagrado e nenhum mortal deve jamais ver seu interior, sem morrer imediatamente. Os outros lugares do porão serão suficientes. Mandei armazenar víveres lá. As mulheres já estão lá também. Ordene a seus soldados que iniciem imediatamente a retirada. Aqui em cima estaremos perdidos.
Regor saudou-o e dirigiu-se apressadamente para onde estava a sua gente.
Lesur, no entanto, um dos muitos thorts de Ferrol, correu no mesmo instante em direção às largas escadas de pedra talhadas na rocha, que levavam ao porão. No pátio do castelo, suas tropas lutavam contra o inimigo invasor. Não, a guerra estava perdida, os bárbaros venciam. Era o fim da civilização. De agora em diante só haveria ação de bárbaros e escravidão.
A porta para a cavidade do porão fora destroçada. Ali deveriam ter ocorrido lutas encarniçadas, pois a madeira fora destruída por poderosos golpes de espada e de maça.
Lesur estremeceu por um momento. O barulho da luta lá em cima nas ameias do castelo tornou-se mais forte. Provavelmente os bárbaros haviam conseguido escalar a muralha. Dificilmente Regor conseguiria colocar seus soldados e ele mesmo em segurança a tempo...
Desceu rapidamente os degraus, atravessou longos corredores e passou pelo primeiro posto de guarda. Até ali os inimigos ainda não haviam penetrado. E ele também quase não o conseguia. As estreitas fendas das janelas bem junto ao teto eram muito apertadas para deixar passar um guerreiro com armadura.
As mulheres e os velhos viram quando Lesur entrou no vasto salão pela pesada porta de madeira. À esquerda e à direita ao lado da entrada havia soldados. As crianças pararam de brincar. O barulho da luta chegava abafado até eles. Ninguém ali sabia como andavam as coisas. O Vice-Thort resolveu não lhes esconder a verdade.
Queria esperar, no entanto, a chegada de Regor e de seus soldados, para então fecharem a porta. Enquanto durassem as provisões, estariam em segurança naquele lugar.
Um soldado atirou-se em direção à porta, viu Lesur e quase tropeçou nele. O Vice-Thort verificou que todo o corpo do homem tremia.
— O que aconteceu? — indagou, irritado. — Não tenha medo de me dizer a verdade. Não pode haver notícias piores do que as já conhecidas.
O homem ergueu a cabeça. As lágrimas saltaram-lhe dos olhos e escorreram pelas faces.
— Oh, senhor! Os deuses...
— Sim, se ao menos eles nos ajudassem! — zombou Lesur, afastando-se. Não tinha agora tempo de se preocupar com as esperanças religiosas de seus soldados. Os deuses o tinham abandonado, portanto deveriam agora ficar lá no lugar a que pertenciam.
— Eles vão nos ajudar! — exclamou o soldado, erguendo-se. — Ouviram nossas preces e vão nos ajudar. Senão, por que teriam vindo?
Lesur enrijeceu o corpo.
— Vieram? — berrou. — Quem veio?
— Os deuses! Eles já estão no castelo. Acabei de encontrar um deles, quando eu rezava diante da câmara secreta. A porta estava aberta...
— O que está dizendo? — gritou Lesur, horrorizado. — A porta está aberta? Você viu isso com os próprios olhos?
— Sim, senhor. Sei que esta porta está fechada desde tempos imemoriais e que não deveria ser aberta. Dizem que os deuses vivem por detrás delas e só aparecem nos momentos de grande perigo. Agora que foi aberta, os deuses vieram nos ajudar.
Lesur ficou como que paralisado alguns segundos, mas logo agarrou o soldado pelo braço e ordenou-lhe:
— Venha comigo! Vamos até a porta dos deuses.

* * *

Bell quase morreu de susto ao ver Ras Tshubai materializar-se bem diante de seus olhos. Soltou uma praga e recuou.
O africano reprimiu um sorriso.
Em seguida, relatou aos espectadores impacientes tudo o que conseguira perceber da situação. Rhodan assumiu um ar pensativo.
— Não viemos ao passado para nos meter nos acontecimentos da política interna dos ancestrais dos ferrônios. Mas tenho de admitir que o thort desse castelo me é mais simpático que os bárbaros invasores. Estamos diante da pergunta: o que faremos? Pelo que Ras descobriu, os arcônidas ainda não chegaram.
Desta vez foi Anne Sloane quem fez uma proposta, provando com isso que as mulheres também sabem pensar de maneira lógica.
— Se os bárbaros tomarem este castelo, estaremos correndo um grande perigo. Não acredito que esse povo selvagem nos poupe, já que destroem tudo em seu caminho. Talvez seja melhor assegurar a gratidão dos donos do castelo. Assim poderíamos esperar com calma a chegada dos arcônidas.
Ras concordou ansiosamente.
— É um pensamento sensato. Ainda há outra possibilidade. Esperarmos junto aos sichas.
— O caminho até eles é muito difícil, sem meios de transporte — contraveio Rhodan. — Acho que Anne Sloane tem razão.
O semblante de Bell iluminou-se.
— Quer dizer então que defenderemos o castelo? Ótimo! Misturamo-nos por entre os combatentes, sem chamar a atenção!
Rhodan riu.
— Sem chamarmos a atenção? Vai ser quase impossível. Creio que causaremos alguma sensação.
Crest quis dizer alguma coisa, mas de repente calou-se e pôs-se à escuta.
Do lado de fora chegavam ruídos. A porta continuava aberta e podiam ouvir nitidamente passos se aproximando cautelosos. Dois homens conversavam.
Rhodan fez um sinal para os mutantes. Com as armas prontas para atirar, os três homens e Anne Sloane se esgueiraram para o fundo do salão. Crest, o robô e Rhodan permaneceram parados diante da porta. O momento emocionante do primeiro contato aguardava-os.
Quando Lesur viu a porta aberta, verificou que o seu soldado lhe dissera a verdade. Uma veneração inexplicável tomou conta dele, e arrependeu-se do comentário desdenhoso que acabara de fazer sobre os deuses. Será que o perdoariam? Resolveu mostrar-se especialmente humilde.
Avistou três homens parados diante de um bloco cúbico, no meio de um aposento vazio. Sua aparição imponente fez Lesur cair de joelhos. Seu guerreiro já se atirara sobre o chão de pedra.
Rhodan não compreendeu imediatamente. Da parede veio a voz de John Marshall, que podia ler os pensamentos dos ferrônios.
— Ele pensa que somos deuses, que viemos para ajudá-los contra os bárbaros. No momento arquiteta de que modo deverá se dirigir a nós. Fala um idioma compreensível, segundo me parece. É Lesur, o Thort.
Rhodan compreendeu imediatamente a situação.
Deu um passo à frente e parou no limiar da porta. Antes que Lesur pudesse dizer qualquer coisa, ergueu os dois braços na direção dos ferrônios e falou-lhes no idioma da unificação:
— Sim, adivinhaste. Viemos para ajudar-te. Não deixaremos que os adversários tomem o castelo.
Lesur compreendeu as palavras, apesar de parecerem mudadas e declinadas de modo diferente. O que não era de espantar. Acaso não falariam os deuses de modo diferente dos mortais? O principal é que se podia compreendê-los.
Ergueu-se, conservando, porém, uma postura inclinada.
— Recebei meus agradecimentos, ó deuses! Mas o inimigo já penetrou no castelo. Muitos de meus guerreiros foram mortos e agora são as mulheres e as crianças que estão em perigo.
A menção de mulheres e crianças talvez houvesse apressado as ações de Rhodan, além do que pretendera. Voltou-se para os seus.
— Bell, você se encarrega da limpeza da parte de dentro do castelo, juntamente com Crest, Haggard e o robô. Eu me ocuparei da defesa contra os inimigos que estão lá fora. Marten, Ras, Marshall e Anne virão comigo. A estratégia é clara. Bell, você combaterá com o seu grupo da maneira costumeira: pistola de raios em intensidade baixa. Eu e os mutantes procederemos com relação aos bárbaros de modo a intensificar um pouco mais a sua fé nos deuses. Mal é que não fará.
Lesur e seu guerreiro levaram Bell e seus três acompanhantes na direção do grande salão, diante do qual já se combatia. Rhodan, no entanto, subiu com os seus mutantes pela escada de pedra, a fim de ter da plataforma de observação uma visão geral da situação. No pátio encontraram os primeiros bárbaros. O resto dos defensores tinha fugido pelos corredores que levavam ao porão. Os conquistadores já se sentiam como vencedores.
E agora, de repente, surgiam estes estranhos diante deles.
Gagat, conde dos bárbaros, de espada na mão e cercado por seus principais auxiliares, encarou os novos adversários.
Não raciocinou nem por um segundo e nem podia compreender o que aqueles estranhos queriam dele. Com a rapidez de um raio, imaginou que Lesur teria arranjado aliados em terras distantes, e deu ordem a seus soldados de matá-los.
Rhodan segurou a pistola na mão.
O telepata sussurrou rapidamente:
— Eles nos vêem como inimigos. O sujeito com a capa vermelha é o chefe, um tal de Gagat. Acabou de dar a ordem para nos matarem.
— Ótimo — assentiu Rhodan. — Ao menos assim sabemos em que pé estamos. Portanto, mãos à obra! Cada um utilize o seu dom. Eu me contentarei com a minha pistola de raios. Anne, talvez você pudesse mandar esse tal de Gagat um pouquinho para o ar!
Nos primeiros minutos, entretanto, Anne não viu possibilidade alguma de fazer o que ele queria, pois tinha de concentrar toda a sua atenção em desviar com seus poderes telecinéticos as lanças arremessadas sobre eles. Conseguia fazer isso com espantosa habilidade e incrível presença de espírito. O resultado de seus esforços foi um êxito completo.
O subchefe dos bárbaros, ao lado de Gagat, ergueu sua lança e arremessou-a contra Rhodan, a quem reconhecia como a pessoa mais importante. O arremesso foi bem calculado e teria sem dúvida atingido Rhodan, se não tivesse de repente se chocado no ar contra um obstáculo invisível. Por um segundo a lança ficou lá imóvel e, em seguida, descrevendo um arco, voltou para o seu dono, aliás, com bastante velocidade. O bárbaro arregalou os olhos diante de tal prodígio e não teve nem forças para desviar-se de sua própria lança, a qual, depois de um vôo sem rumo, descrevendo arabescos no ar, desceu quase na vertical e cravou seu pé direito no duro chão de argila do pátio do castelo.
Soltou um grito terrível, que igualmente expressava o seu terror. Gagat, a seu lado, não se mexeu. Estava inteiramente ocupado em observar as outras lanças de seus soldados descrevendo as mesmas rotas. Algumas subiam tão alto que desapareciam da vista. Outras, por seu turno, mudavam simplesmente de direção e ricocheteavam de encontro à parede de pedra com tanta força que se partiam ao meio. Nenhuma, porém, alcançou seu alvo.
Enquanto isso, Rhodan dirigia sua pistola de raios para os bárbaros estupefatos. Regulou-a para uma descarga eletrônica fraca. Quando Gagat, furioso, agarrou sua espada, a fim de dar um bom exemplo a seus soldados, surgiu repentinamente a figura negra do africano ao seu lado, tomando-lhe calmamente a espada da mão e desaparecendo sem deixar vestígio.
O bárbaro quedou-se, estarrecido, como que atingido por um raio. Foi então que a corrente elétrica atravessou-o. Aquela forma de energia era-lhe inteiramente desconhecida. Os rostos pálidos de terror de seus guerreiros demonstravam-lhe que não era o único a sofrer ação daquele fenômeno.
Quem seriam aqueles estranhos?
Antes que pudesse chegar a alguma conclusão, um deles falou. Podia até compreender o que ele dizia.
— Gagat, volte para a sua terra, senão os deuses o matarão, juntamente com os seus homens. Como evidência de que falamos sério, lhes daremos um último aviso.
Anne Sloane fez um aceno afirmativo quando Rhodan olhou para ela. Concentrou-se em Gagat e então aconteceu uma coisa terrível.
O chefe dos bárbaros sentiu de repente o formigamento em seus membros desaparecer, mas ao mesmo tempo, o chão sumiu debaixo de seus pés. Ficou suspenso no ar, cada vez mais alto, até alcançar as mais altas ameias do castelo. De olhos arregalados e pernas molemente penduradas, continuou a subir como um balão de gás. Por algum tempo, ficou pairando sobre os guerreiros de ambos os lados, a travarem uma batalha de vida ou de morte pela posse da plataforma do castelo. No início ninguém deu por ele, mas depois alguém soltou um grito.
Todos os olhares dirigiram-se para cima, e os braços já erguidos, de armas prontas para o ataque, abaixaram-se sem forças. Gagat, o bárbaro temido e sem misericórdia, era capaz de voar.
Foi um rude golpe para os soldados de Lesur, mas durou apenas alguns segundos. Em seguida, a reação dos bárbaros mostrou-lhes que não era absolutamente normal que Gagat voasse.
O próprio Gagat se denunciou. Ao flutuar tão desordenadamente por perto das cabeças de seus soldados, começou a berrar:
— Os deuses estão do lado de Lesur! Ergueram-me até aqui e vão me deixar cair lá embaixo. Desistam da luta, nós perdemos! Nada poderemos fazer contra os deuses.
Lá embaixo no pátio do castelo, Marshall não ouviu bem as palavras de Gagat. Voltou-se para Ralf Marten, que possuía o dom da exopersonificação.
— Ralf, entre em contato com Gagat. O que está acontecendo com ele?
O mestiço de japonês, alto e de cabelos escuros, concordou. Afastou-se um pouco e encostou-se à murada do castelo. Ali poderia arriscar-se a deixar seu corpo por alguns momentos. Rhodan se incumbiria de não permitir que alguém se aproximasse, enquanto estivesse indefeso.
Um segundo mais tarde estava vendo através dos olhos de Gagat. Divisou os rostos aterrorizados dos bárbaros e as feições novamente esperançosas dos homens de Lesur. E ouviu também o conde bárbaro gritar outra vez:
— Fujam enquanto é tempo. Talvez a ira dos deuses me poupe se obedecermos. Saiam do castelo de Lesur o mais depressa possível!
Ralf Marten voltou a seu corpo, pois tinha ouvido o suficiente. Rhodan olhou-o na expectativa.
— Eu acho que já chega — disse Marten, sorrindo.
Os bárbaros começaram a fugir precipitadamente.
Não prestavam atenção à descarga dos positrons. Arrancaram suas espadas da bainha e precipitaram-se sobre a muralha do castelo, onde ainda estavam as escadas com as quais haviam escalado o obstáculo. Uns atrapalhavam os outros e mais de uma escada foi ao chão, cheia de gente.
Mais difícil foi a fuga lá em cima na plataforma. Os enraivecidos ferrônios de Lesur queriam evidentemente se vingar dos bárbaros subitamente enfraquecidos. Procuravam impedir sua fuga. Gagat, que continuava suspenso sobre as cabeças dos combatentes, agitava desesperadamente os braços. Ao mesmo tempo, aproximava-se cada vez mais da beirada das ameias. Alcançou-a e ficou suspenso sobre o vazio.
O chão estava muito abaixo dele. Se despencasse agora, estaria perdido.
Mas Anne não tinha a intenção de matá-lo. Deu a ele a impressão de um vôo picado e colocou-o mansamente a pouca distância do castelo. Ali ficou ele, sozinho e abandonado, observando a fuga desenfreada de seus guerreiros, ainda meio entorpecido da terrível experiência.
Pouco a pouco, os sobreviventes foram se agrupando em volta de seu chefe. Ainda não compreendiam como subitamente Gagat fora capaz de voar, mas o fato era que se os deuses, sobretudo inimigos, se tinham metido no jogo, só lhes restava contar com acontecimentos ainda mais incríveis.
Ainda faltavam alguns soldados, que se encontravam no interior do castelo. Teriam sido vítimas do ódio dos homens de Lesur ou estariam apenas perdidos?
O castelo não lhes dava uma resposta.
Rhodan deixou que todos os bárbaros fugissem e esperou que os primeiros ferrônios de Lesur aparecessem. Como era de se esperar, não tinha havido dificuldades. As palavras de Gagat não tinha deixado de fazer efeito. Os deuses haviam intervindo e lhes dado a vitória. Deviam agradecer-lhes por isso.
Portanto, não era de espantar que Rhodan e os quatro mutantes logo se vissem cercados por uma multidão de guerreiros ajoelhados, de cabeças encostadas na poeira do chão, a demonstrarem sua veneração.
Que pena”, pensou Rhodan, “que Bell não possa ver isto.”

* * *

Enquanto isso, Bell estava ocupado em repelir os atacantes bárbaros com os raios positrônicos. No entanto, essa tarefa não era tão simples quanto Rhodan talvez houvesse imaginado.
Lesur e seu guerreiro se precipitaram para a frente, mas detiveram-se repentinamente ao chegarem ao corredor, em cuja extremidade ficava a entrada para o último refúgio. Há cinco minutos atrás, o local estava tranqüilo! Agora, porém, o inferno estava solto por ali.
Regor, o comandante dos ferrônios, tinha enviado uma parte de seus soldados para o porão, a fim de preparar uma retirada organizada. Ainda na sala do trono, deram de encontro com as tropas bárbaras invasoras que já tinha começado o saque. Seguiu-se uma intensa luta, na qual os moradores do castelo foram sendo forçados a recuar cada vez mais.
Desesperados, só procuravam impedir que o último refúgio, o salão para onde tinham sido levadas as mulheres e as crianças, fosse tomado pelos bárbaros.
Bell compreendeu a situação.
— Fogo intenso! — ordenou a Crest e a Haggard. Ele mesmo ergueu sua arma em direção aos guerreiros e apertou o botão. Era impossível distinguir amigos ou inimigos, de modo que tanto os bárbaros quanto os ferrônios foram atingidos pela descarga elétrica. Bell havia regulado propositadamente na intensidade mais alta. Desse modo, alguns dos soldados vestidos com armadura não demoraram a levar choques elétricos bastante fortes.
Gritos desesperados ressoaram pelos muros do porão.
Lesur gritou algumas palavras de esclarecimento. Na verdade, seus homens não podiam compreender que a ira dos deuses também os atingisse, mas obedientemente se afastaram do inimigo e recuaram para o refúgio. Alguns, aliás, só o conseguiram quando passaram a andar de gatinhas. Bell não pensou em regular o fogo.
Os bárbaros voltaram a si de seu espanto. Estranhos haviam surgido. Nas mãos tinham objetos de formas esquisitas. E haviam experimentado as descargas elétricas desconhecidas, desagradáveis, mas que não causavam dor insuportável.
O próprio Bogar deu a ordem de ataque aos estranhos. Com a espada erguida, lançou-se sobre Bell.

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