— Fico-lhe muito grato — disse Homer G.
Adams, dirigindo-se a Marshall, depois que o foguete havia desaparecido nas
nuvens. — Evidentemente, peço que me forneça as explicações que recusou aos
passageiros.
— Será que precisa de esclarecimentos?
— Por que não? Acha que sou algum vidente?
— É o que vamos descobrir. Afinal, você é
o maior especulador de Bolsa e manipulador financeiro que já existiu sobre a
Terra. Uma coisa dessas não acontece por nada. Em geral os supergênios possuem
um sexto sentido. É claro que você possui dons sobrenaturais ou
supersensoriais, conforme queira exprimir-se.
— Você acredita seriamente nessas lorotas?
— perguntou Adams.
— Não — respondeu Marshall. — Não
acredito. Não devemos confundir ciência com religião. Na primeira sabe-se
alguma coisa, na última acredita-se. E a parapsicologia é uma ciência.
— Gosto muito de aprender — disse Adams
com as sobrancelhas levantadas. — A única coisa de que entendi até hoje foi o
dinheiro.
— E com isso revelou bons conhecimentos de
psicologia das massas. E a distância entre a psicologia e a parapsicologia só é
de um passo, mesmo que esse passo conduza por cima de uma muralha. Você deve
estar surpreso com a aparição de meu amigo Kakuta. Quando tiver recebido alguma
instrução parapsicológica deixará de surpreender-se.
— Quer dizer que você é um fenômeno
parapsicológico? — perguntou Adams, dirigindo-se ao japonês. — Devo confessar
que fiquei tão surpreendido com sua aparição quanto os bandidos. De qualquer
maneira, deve haver uma explicação natural para isso.
— É claro que há — confirmou o japonês com
um gesto amável. — Assim que a teleportação for um fenômeno natural para você,
minha aparição também será.
— Tele... o quê?
— Sou filho de um casal de japoneses que
por ocasião do lançamento da primeira bomba atômica, em 1945, ficou exposto a
intensas radiações. Dali resultou uma mutação das características hereditárias.
Tornei-me um mutante.
Homer G. Adams ficou calado. Seu sorriso
já não apresentava o menor traço de ironia. Depois de algum tempo disse:
— Você é capaz de, independentemente de
quaisquer recursos técnicos, transformar seu corpo em energia e fazê-lo
ressurgir em outro lugar. É isso?
Tako Kakuta confirmou.
— Em princípio, sim. Acontece que o lugar
em que posso ressurgir fica sujeito a limites bastante restritos. É possível
que através de um treino persistente, eu possa ir aumentando a distância.
— Isso é formidável, meu caro. Com esse
dom você poderia...
Adams interrompeu-se em meio à frase. Um
contato importante parecia ter-se completado em seu cérebro.
— Continue — pediu Marshall. — Kakuta é um
homem que sabe apreciar os bons conselhos.
— Um instante — pediu Homer G. Adams. —
Como foi essa história da rajada de tiros disparada por Jim? Onde foram parar
os dois homens naqueles trajes estranhos? Por que Jim não conseguiu matá-los?
— Você está formulando muitas perguntas de
uma só vez. Jim não conseguiu nada porque os projéteis que disparou foram
absorvidos por um envoltório energético. Os dois homens não sofreram nada.
Retiraram-se para trazer nossa nave até aqui. Afinal, queremos dar o fora daqui
o quanto antes. Poderei pedir ao nosso comandante que o leve a Tóquio.
— O que vou fazer em Tóquio, Marshall?
Dali teria que seguir viagem e fazer outra baldeação em Pequim. Aqui estou
muito mais perto do meu destino.
— Nesta estepe junto às montanhas de
Cardamon?
— Vamos deixar de fingimento, Marshall?
Desde Londres você está atrás de mim, não é verdade?
— É verdade. Quando descobriu?
— Meu cérebro deve ter sofrido bastante
nos últimos quatorze anos. Só agora começo a enxergar as coisas. Nossos
objetivos eram os mesmos, mas nenhum de nós sabia do outro.
— É um engano seu. Eu sabia.
— Conhecia as minhas intenções? Desde
quando?
— Desde que saiu da penitenciária.
Estávamos muito interessados na sua pessoa. Você compreenderá quando Perry
Rhodan lhe expuser com todos os detalhes o estado lastimável das nossas
finanças.
— Por que se lembraram justamente de mim?
— De quem iríamos nos lembrar? Não há
dúvida de que você é um gênio financeiro. Ainda bem que, depois daquele
processo sensacional, ao menos permitiram que continuasse a viver. Encontramos
num arquivo diversas notícias de jornal que despertaram nossa atenção.
Estudamos o seu passado. Rhodan decidiu conseguir um indulto para você e
acompanhar seus passos, para que logo se encontrasse conosco.
— Espere aí! Afinal, minha pena foi
comutada por bom comportamento...
— Isso não deixa de ser verdade. De
qualquer maneira nossos agentes utilizaram certos recursos dos arcônidas para
apressar a decisão da Justiça. Temos um aparelho psíquico, que estimula a
capacidade decisória do indivíduo através de certas radiações de alta
freqüência. Você já teve oportunidade de assistir ao seu funcionamento. Foi
quando Kakuta desarmou os bandidos.
— Está certo — objetou Adams. — Você me
apresentou Kakuta, que é um verdadeiro teleportador. Além disso, fez, num
espaço de poucos minutos, uma demonstração das conquistas mais formidáveis da
tecnologia. Mas ainda resta sua afirmativa de que já conhecia minhas intenções
quando deixei a penitenciária. É verdade que nas últimas semanas acompanhei com
o maior interesse todo o noticiário jornalístico sobre Perry Rhodan. Também é
verdade que aos poucos foi surgindo em mim o desejo de ser útil a ele, se
tivesse possibilidade para isso. Mas não falei com quem quer que seja sobre
estes meus planos.
— Mas pensou neles. Para mim isso basta.
Mais uma vez, Adams não soube o que
responder. O japonês veio em seu auxílio, esboçando um sorriso.
— É que John Marshall é nosso segundo
exemplar parapsicológico. Isso explica tudo, Adams. É um telepata. Basta que
você pense intensamente numa coisa para que ele possa tirar suas conclusões.
— Isso me deixa tonto, meus caros. Afinal,
não sou tão jovem assim. Deviam ter um pouco de consideração por minha pessoa.
— Se quiser trabalhar para Perry Rhodan,
deve acostumar-se a muita coisa aparentemente inacreditável. Mas pela nossa
experiência no assunto podemos asseverar que o homem se acostuma muito depressa
a essas coisas. Ah, aí vêm nossos amigos. Entregue-me sua pasta, Adams.
— Nem pense nisso. Não sou tão velho que
precise de um carregador por causa de alguns quilos de papel moeda. Aliás,
falta explicar uma coisa, se bem que a esta altura eu talvez devesse adivinhar
tudo. O chefão dos bandidos disse que seu destino seria a cidade de Rangun.
Apesar disso, você sabia que ele pousaria aqui. Também descobriu isso por via
telepática?
— Só poderia ter sido. Minha aparente
disposição para negociar não passou de um blefe. Só tive necessidade de um
ligeiro contato com o homem para descobrir seus planos. Assim que soube que
pretendia pousar a oeste de Madura, informei nossos amigos no deserto de Gobi.
O resto ficou por conta deles.
A gigantesca nave esférica dos arcônidas
pousou diante de Marshall, Adams e Kakuta e abriu uma das escotilhas. Quando se
encontravam a cerca de duzentos metros de distância Perry Rhodan surgiu na escotilha
e saltou para o chão. Foi andando devagar ao encontro deles. Dali a pouco o
dirigente da Terceira Potência viu-se pela primeira vez diante de seu “ministro
das finanças”.
— Seja bem-vindo, Adams. Fico satisfeito
em saber que encontrou o caminho para junto de nós.
— Foi um caminho muito difícil, Rhodan,
mas tive um prazer imenso em percorrê-lo. É que não sei ficar sem fazer nada.
Foi o que mais senti nos últimos quatorze anos. Você tem problemas financeiros,
não tem?
4
Nova Iorque.
Quem caminha da esquina da Broadway com a
Quinta Avenida na direção norte encontra do lado esquerdo um edifício de vinte
e dois andares, construído no fim da década de trinta. Mal se vê a fachada, já
que mais de trinta firmas penduraram nela propagandas luminosas. Há anos
ninguém se preocupa com a beleza ou a feiúra desse tipo de enfeite, pois o
aspecto desse edifício em nada se distingue dos demais de Manhattam. Só os
funcionários de alguns escritórios situados nas proximidades notaram que numa
segunda-feira ensolarada alguns trabalhadores se puseram a executar obras na
área situada entre o sétimo e o nono andar. Dentro de poucas horas foi retirada
a propaganda de certa marca de pasta de dentes, de um xampu e um pneu
antiderrapante. De noite, as letras GCC reluziam em tonalidades amarelo-azuladas.
A única coisa notável foi a velocidade do trabalho, que permitiria a um
observador atento tirar certas conclusões sobre a mentalidade do patrão.
No entanto, só no dia seguinte
descobriu-se o que significavam as letras GCC. Um anúncio de página inteira do
New York Times deu notícia de que a General Cosmic Company abrira seu
escritório naquele local. A propaganda apontava a empresa como agência de
consultoria e oferecia a qualquer interessado, fosse qual fosse seu ramo de
atividade, assessoria e também maquinismos adequados a preços extremamente
favoráveis que, em comparação com as vantagens oferecidas, podiam ser
considerados sensacionais.
O gerente, Homer G. Adams, seguindo
instruções do proprietário, Benjamim Wilder, contratara três funcionárias. A
única coisa que trouxera foi muito papel em branco. Não havia documentos
escritos. Na conversa dirigida às três funcionárias limitara-se a dizer o
seguinte:
— O proprietário da firma confiou-me a
direção do negócio. Somos um empreendimento novo, que não tem tradição nem
antecessores. Faço votos de que com o auxílio das senhoritas dentro de pouco
tempo as letras GCC adquiram fama mundial. Exijo o máximo de dedicação e uma
correção absoluta. Trazem consigo a vantagem de serem tão novas
profissionalmente como é a firma. Crescerão com ela e conquistarão boas
posições, desde que nos entendamos bem. Para os serviços de registro, escrita e
contabilidade dispõem de máquinas. Para certos trabalhos intelectuais, como os
de cálculo e estatística, temos este aparelhozinho eletrônico, cujo
funcionamento lhes explicarei daqui a pouco. Quanto ao mais, exijo dedicação ao
trabalho e correção, conforme já salientei, e ainda cortesia para com toda e
qualquer pessoa que entrar neste recinto. Obrigado.
O expediente começava às oito e meia. Das
nove horas em diante eram recebidos os clientes e vendedores. Às nove em ponto,
a senhorita Lawrence anunciou o primeiro visitante. Era um mensageiro de uma
casa de flores, que trazia um buquê de duas dúzias de gladíolos. O cartão que
acompanhava as flores trazia a assinatura do proprietário da firma, senhor
Benjamim Wilder. Homer G. Adams guardou o cartão com um sorriso condescendente
e despendeu uma palavra de elogio para com o chefe ausente. O mensageiro foi
dispensado com uma gorjeta de um dólar.
No momento em que o mensageiro saía, um
cavalheiro que se chamava Abraão Weiss, e cuja largura correspondia à metade da
altura, chegava.
— Bom dia, senhor Adams! Li seu anúncio no
New York Times...
— Queira sentar, senhor Weiss.
Weiss deixou-se cair numa poltrona.
Parecia bem disposto.
— Bem, senhor Adams, como ia dizendo, li
seu anúncio e resolvi dar uma chegada até aqui para saber um pouco mais.
Pensando bem, o que o senhor promete não é pouco.
— Depende dos padrões que se queiram usar.
O que posso fazer pelo senhor, senhor Weiss?
— Bem... como direi? De início, minha
visita tem um caráter puramente informativo. Sou bom nos negócios. Mas tenho
muita curiosidade para conhecer todo e qualquer tipo de progresso. Talvez
estaria perdendo alguma coisa se não o procurasse, não é?
— É bem possível. Diria que toda pessoa
que não procura a GCC perde alguma coisa.
— Muito bem! Isso é um ótimo slogan.
— Afinal, o que está precisando? — disse
Adams em tom tranqüilo. Embora não apreciasse os modos do visitante, isso não o
impressionou.
— Sim, do que estou precisando? — refletiu
Weiss. — Estou interessado num projeto no Colorado. Talvez seja interessante
para o senhor. Entende alguma coisa de usinas de eletricidade?
— Trata-se de usinas atômicas?
— Não, de usinas hidráulicas. É um projeto
totalmente convencional. Trata-se de produzir eletricidade com água represada.
Não me diga que o projeto é conservador demais.
— Nem penso nisso. Quer dizer que está
construindo uma hidrelétrica?
— Isso mesmo. No trecho superior de Arkansas,
perto de Cripple Creek. Ou melhor, ainda não estou construindo. Mas minha firma
gostaria de receber o contrato.
— Quer dizer que precisa de uma base de
cálculo favorável, para poder concorrer com os outros pretendentes?
— Não é bem isso, senhor Adams. Nossa
proposta já foi formulada e acredito que temos as melhores chances. Afinal,
somos a empresa mais importante no setor. Mas, a título meramente informativo,
gostaria de saber se tem alguma coisa no seu arsenal que poderia ser de
utilidade para nós. Quero conhecê-lo melhor, sabe? Gostaria de saber quem é a
GCC e o que faz. Talvez em outra oportunidade possamos concluir um negócio.
Tenho certeza de que também aprecia um contato deste tipo, pois uma firma nova
precisa tornar-se conhecida e estabelecer relações. Neste ponto nossa companhia
é muito valiosa para o senhor.
Homer G. Adams não precisava desse tipo de
ensinamento. Apesar disso não deixou perceber seu desagrado. A experiência lhe
ensinara que os fanfarrões como Abraão Weiss são as pessoas que mais precisam
de auxílio.
— É exatamente o que penso — disse, em tom
amável, estendendo a caixa de charutos ao seu interlocutor. — Aceite, por
favor!
Ele esperou que seu visitante acendesse o
charuto e, depois, continuou:
— Não quero negar que somos uma firma
nova, que ainda tem de criar seu campo de relações. Por isso mesmo, fico tão
satisfeito em cumprimentá-lo a esta hora da manhã como meu primeiro visitante.
Queira prosseguir. Seu caso é muito interessante. A construção de uma
hidrelétrica é um procedimento um tanto antiquado, mas estou convencido de que
o ramo ainda tem futuro. A energia atômica representa uma concorrência mais
barata, mas, no fim, tudo se resume a um problema de custos. É nesse ponto que
posso formular sugestões e propostas bem convidativas.
Durante a longa fala, Adams não tirara os
olhos de cima do visitante. Notara um movimento suspeito em seu rosto carnudo.
Aos poucos Abraão Weiss deixaria de lado suas maneiras reservadas, pois era
evidente que desejava muito mais que uma simples visita a título informativo.
— Queira desculpar, senhor Adams. Pelo que
diz é especializado nesse terreno...
— Somos especializados em quase todos os
terrenos. É precisamente nisso que reside nossa força. Quem promete muito nos
seus anúncios há de cumprir muito. De outra forma nem deveria criar uma firma
como esta. Mas voltemos ao seu projeto. Pelo que sei, o senhor tem que temer ao
menos os concorrentes que formularam propostas baseadas na energia atômica.
Hoje em dia a construção de uma hidrelétrica — especialmente numa zona
montanhosa — é tão dispendiosa que suas chances devem ser muito reduzidas. Em
compensação, a manutenção de uma hidrelétrica é mais econômica. Quer dizer, o
senhor ganhará o jogo no instante em que puder realizar a construção
aproximadamente ao mesmo preço que o de uma usina nuclear.
Por um instante Abraão Weiss arregalou os
olhos de espanto. Mas logo se controlou.
— É verdade. Vejo que está bem informado.
Por favor, prossiga a sua exposição. Compreendeu o problema. Qual é a solução
que sugere?
Homer G. Adams deu um sorriso gentil.
— A resposta a essa pergunta já representa
um assessoramento pelo qual devia cobrar honorários. Mas, para mim, hoje é
feriado. O senhor é meu primeiro cliente, ou melhor, visitante e interessado, e
por isso concedo-lhe uma entrevista gratuita. De qualquer maneira, meu conselho
não lhe bastará se o projeto for levado avante. Precisará das nossas máquinas.
Queira dar uma estimativa do custo de uma hidrelétrica a ser construída em
Cripple Creek. Peço-lhe que informe também a proporção desse custo que
corresponde aos trabalhos de terraplenagem. Depois disso ouvirá minha proposta.
O gorducho sugou o seu charuto, como se
tivesse de refletir antes de revelar cifras. Finalmente tomou uma decisão.
— A relação entre as cifras será a
correta. Na realidade não conferem, já que não estou autorizado a revelar
qualquer coisa sobre nossa proposta. O senhor compreende, não é?
— É claro que compreendo! Só se trata de
um exemplo — disse Adams com um sorriso significativo.
— Bem, admitamos que o custo total do
projeto importe em 1,3 bilhão de dólares.
Nesse caso o custo dos serviços de
terraplenagem, inclusive dos alicerces, atingiria quinhentos e cinqüenta
milhões.
— Bem, essas cifras já servem para alguma
coisa. Faço-lhe uma proposta. O senhor poderia adquirir minha máquina, que
reduz o custo dos serviços de terraplenagem em cerca de 90%. Isso significaria
uma economia de perto de quinhentos milhões de dólares e eliminaria qualquer
concorrência.
Abraão Weiss ficou tão nervoso que fez um
movimento desajeitado com a mão e espalhou a cinza do charuto sobre a calça.
Depois respirou profundamente e exibiu um sorriso forçado.
— Vejo que tem senso de humor, senhor
Adams. Pinta utopias que não podem deixar de representar um atrativo para uma
pessoa que tenha um interesse real. Seria conveniente que não levasse a
hipótese para o terreno das abstrações; devia partir do pressuposto de que o
problema que acabo de formular pode transformar-se num problema real para um
dos seus clientes.
— Se acredita que estou brincando comete
um engano, senhor Weiss. Estou convencido de que o exemplo que acaba de expor
representa boa parte das suas preocupações. Disponho das máquinas de que acabo
de falar. Minha firma está à sua disposição para uma demonstração prática. Basta
telefonar para combinarmos dia e hora, desde que tenhamos chegado a um acordo
sobre o preço. Se não tiver um interesse real no assunto, a GCC não poderá
dar-se ao luxo de realizar uma demonstração tão dispendiosa.
Weiss levantou-se. Estava muito impressionado.
Adams percebeu que aquele negociante ágil se encontrava numa encruzilhada da
sua carreira e refletia intensamente sobre o que devia fazer. Depois de algum
tempo perguntou:
— Quer dizer que quer proporcionar-me uma
economia de quinhentos milhões. De outro lado, porém, teria de computar o custo
das máquinas. Como se apresentaria o cálculo após isso?
— Não há necessidade de preocupar-se com o
custo das máquinas na construção da hidrelétrica do Arkansas. Essas máquinas
representariam um investimento permanente, que lhe permitiria executar mais
vinte ou trinta projetos desse tipo.
— Compreendo. Mas essas máquinas devem ter
um preço.
— O preço é fictício. Se tivesse de ser
pago, ultrapassaria o valor de cinqüenta hidrelétricas. Por favor, deixe-me
concluir. O que quero dizer é que as máquinas não estão à venda. Entro na
sociedade com elas, e ambas as partes terão feito um bom negócio.
Abraão Weiss teve de esforçar-se cada vez
mais para manter a compostura.
— Quer dizer que está atrás de uma
participação no negócio?
— Não estou atrás de uma participação, mas
tenho receptividade para ela. Com isso o negócio se tornará mais sério. Sugira
à diretoria de sua empresa que convoque uma reunião especial do conselho fiscal
e proponha a esses cavalheiros um aumento de capital da ordem de 51%. Esses 51%
são o meu preço.
Weiss esboçou seu décimo segundo ou décimo
terceiro sorriso daquela manhã. Mas esse último sorriso malogrou-se por
completo. Com um gesto nervoso pegou o chapéu e, andando de costas, dirigiu-se
à porta.
— Espero que ainda possamos conversar
sobre isso, senhor Adams. Nas condições que acaba de propor, minha firma nunca
fechará um negócio com o senhor.
— Nesse caso só me cabe lamentar que tenha
desperdiçado seu tempo precioso. A GCC não tem o menor interesse em realizar
negociações em torno dos seus preços. Nossos cálculos sempre são corretos, e
por isso não podemos ceder um centavo. São 51%, senhor Weiss. Pense no caso.
O representante da construtora de
hidrelétricas convencionais limitou-se a uma mesura desajeitada e desapareceu
na ante-sala.
O nome do próximo cliente em perspectiva
era André Clèment. Os cabelos escuros e sua figura pequena e esguia, bem como o
nome, revelavam a ascendência latina. Segundo as informações da senhorita
Lawrence, o senhor Clèment esperara por mais de quarenta minutos. Homer G.
Adams concluiu que se tratava de outro homem com água até o pescoço.
— Bom dia, senhor Adams — cumprimentou
Clèment com uma ligeira inclinação do corpo.
— Bom dia, senhor Clèment. Queira sentar.
Aceita um cigarro?
— Muito obrigado. É muita gentileza da sua
parte, mas não fumo.
— O senhor que é feliz — disse Adams.
Clèment deu uma risada forçada.
— Não sou tão feliz como acredita. Se
fosse não estaria aqui.
— Precisa de auxílio? De que se trata? De
algum aperfeiçoamento tecnológico? Ou de alguma forma de assessoramento?
— Preciso das três coisas. E preciso logo.
Talvez minha exposição lhe pareça muito estranha, mas seu anúncio foi concebido
em termos tão gerais que se pode imaginar qualquer coisa. Procurarei ser breve,
senhor Adams. Assim que perceber que não é o homem que procuro, queira
avisar-me. Na pior das hipóteses perderei o meu tempo.
— Conte tudo. Prometo ser franco com o
senhor.
— Represento a Minneapolis Mining Company. Além da mineração, a empresa também se
dedica à construção de túneis. Como deve saber, no momento está sendo
construída uma estrada de ferro de Salt
Lake City para São Francisco. Na Serra Nevada será aberto um túnel de cerca
de setenta quilômetros de extensão, que deverá sair perto de Sacramento. Desses
setenta quilômetros, dez quilômetros já foram concluídos. Isto é, foram
perfurados. Nossa empresa avança a partir do leste, enquanto a concorrente
trabalha no oeste. E esta já executou o dobro do nosso trecho. O trabalho
transformou-se numa corrida e não há dúvida de que nós a perderemos.
— Por que acha que isso representa uma
tragédia? É verdade que a introdução de um ingrediente esportivo em toda e
qualquer competição constitui uma característica tipicamente americana, mas o
senhor deve ter seus contratos com o governo e basta cumpri-los. Não vejo como
a concorrência pode incomodá-lo.
— Se estiver interessado, explicarei. Sua
firma dispõe de experiência no setor de escavações subterrâneas?
— Pois é bom que saiba que se trata de um
dos ramos em que nos especializamos. Se quiser fazer um relato minucioso o
senhor não estará perdendo seu tempo, senhor Clèment.
— Muito bem. O contrato com o governo não
abrange a totalidade do projeto. As ordens de trabalho são emitidas por
trechos. Cada trecho é contratado com a firma mais capacitada. Se avançarmos no
ritmo atual, o governo nos concederá a execução de cerca de um quarto do
projeto. Acontece que nossos cálculos foram realizados no pressuposto de que
executaríamos exatamente a metade do projeto. É claro que, num empreendimento
desse vulto, têm de ser tomadas providências de longo alcance, a fim de que a
indústria possa fornecer no prazo o material de que se precisa. Por isso
fizemos pedidos há um ano e mesmo mais, pedidos esses que são muito superiores
às nossas necessidades, se mantivermos o ritmo atual dos trabalhos. Dessa
forma, financiamos antecipadamente certos materiais e serviços de que nunca nos
utilizaremos. O que pagamos equivale ao que pretendíamos ganhar. Se computarmos
a manutenção de sete mil trabalhadores, o resultado será trágico. O prejuízo é
de tal vulto que dentro de poucos meses a Minneapolis
Mining Company estará falida. Senhor Adams, peço-lhe que considere minha
exposição estritamente confidencial. Aliás, em seu anúncio o senhor garante a
máxima discrição.
— Não perca seu tempo falando em coisas
óbvias, senhor Clèment. Estou me interessando tanto pelo seu problema que já
vejo nele um problema meu. Seu problema consiste em abrir um grande furo na
montanha, por onde os trens vão transitar mais tarde. Tenho um dispositivo
pronto para ser patenteado, que pretendo recomendar-lhe. De que tamanho será o
furo?
— Terá seis metros de altura e dezoito de
largura.
— Um momento, por favor!
Homer G. Adams pegou um papel e escreveu
algumas cifras. Dali a alguns minutos disse:
— Com minha máquina especial o senhor
avançará dois quilômetros por dia. Para isso é necessário que todos os
trabalhadores e objetos de valor sejam retirados do túnel enquanto a máquina
estiver funcionando.
André Clèment deu um sorriso amarelo. Não
protestou como Abraão Weiss, mas sentiu-se muito abatido.
— Não brinque, senhor Adams! Sei apreciar
uma piada, mas aqui se trata da existência de minha firma. Não pode apresentar
uma solução realística?
— Estou pronto a fazer uma demonstração
com a máquina, senhor Clèment. Não sou nenhum fanfarrão. Nossa máquina
transforma a matéria em energia. É claro que não se trata de um processo
espontâneo como a reação em cadeia que se processa numa bomba nuclear. A
energia liberada é armazenada em recipientes especiais e pode ser vendida com
um bom lucro. Compreendo seu ceticismo. Mas não se esqueça de que está falando
com um representante da GCC, que tem por objetivo a mais ampla racionalização e
modernização tecnológica. Permita que lhe dê um conselho, senhor Clèment.
Assista a uma demonstração de nossa máquina. Uma prova realizada com um metro
cúbico de material será suficiente. Quando estiver convencido, decida.
— Está bem — disse o homem. — Vamos
admitir que o senhor consiga convencer-nos. Com uma técnica tão revolucionária
de escavações subterrâneas deixaremos o mundo de pernas para o ar. Os
resultados financeiros serão inconcebíveis. Qual seria o custo da utilização de
sua máquina?
— Uma participação de 51% na sua empresa.
Pela primeira vez revelou-se um traço
comum entre André Clèment e Abraão Weiss. Tal qual este, Clèment saltou da sua
poltrona e encarou Homer G. Adams, como se este tivesse perdido o juízo.
— Isso é ridículo! Será que o senhor não
sabe o que representa a Minneapolis
Mining Company? É uma empresa de âmbito mundial, que o senhor quer enfiar
no bolso de uma hora para outra.
— Ora, meu caro! O que lhe ofereço vale
muito mais que 51% da sua firma de âmbito mundial. E o senhor acaba de pintar
em todas as cores o que será da Minneapolis
Mining Company daqui a seis meses se não aceitar minha proposta. Nessas
condições um homem que se propõe a, num verdadeiro golpe de mágica, transformar
sua firma num empreendimento da maior projeção em todo mundo, e se contenta com
uma participação de 51%, só pode ser considerado um verdadeiro altruísta.
André Clèment não pôde ocultar o tremor
das mãos.
— Prefiro retirar-me, senhor Adams.
— Fique à vontade! Foi um prazer
conhecê-lo, senhor Clèment. Quando tiver outros problemas, não deixe de me dar
a honra de sua visita.
A secretária anunciou mais sete pessoas
que haviam acorrido ao anúncio. Mas nenhuma delas chegou a impressionar Adams.
Livrou-se delas em cinco minutos. Finalmente pôde dedicar-se a um telefonema.
— Alô, Klein. Como foi sua entrevista?
— Já me livrei dela. Há duas horas um
repórter do New York Post cruzou meu
caminho. Senti-me à vontade para tomar um drinque com ele. Minha máscara
escorregou para o lado, conforme havia sido programado. O rapaz logo me
reconheceu. Você devia ter visto como arregalou os olhos. Logo se pôs de
sobreaviso e disse de sopetão que sou o tal do capitão Klein, um desertor das
forças armadas americanas, que tem todo o FBI no seu encalço. Respondi que,
sendo um rapaz inteligente, devia saber para quem estou trabalhando. Ele
retrucou, com toda ingenuidade que todo mundo sabia disso. Fiz-lhe uma proposta
de acordo. Se ele não revelasse minha identidade e, assim, desistisse de um
furo espetacular, eu lhe daria a compensação adequada. Contei-lhe tudo que há
de interessante sobre invasores desconhecidos, especialmente que, de uma hora
para outra, devemos contar com uma invasão de grandes proporções dirigida
contra a Terra. Ele confiou plenamente nas minhas fontes de informação. Se
conseguir convencer o redator-chefe, a notícia deverá ser publicada na edição
de meio-dia.
— Muito bem. São onze e trinta e oito. Vá
até a Bolsa. Mantenha-se em contato comigo pelas ondas ultracurtas. Se tiver
qualquer dúvida, pergunte. O Dr. Haggard e o Dr. Manoli já se encontram no saguão.
Tenha cuidado para não deixar perceber que os conhece. Aos olhos do público
vocês devem ser adversários.
— O.K., Adams. Quando a situação se tornar
crítica, estarei a postos...
* * *
Na manhã daquele dia, a Bolsa de Nova
Iorque abrira com um desânimo completo. Às dez horas as ofertas oscilavam em
torno de dez pontos abaixo dos níveis do dia anterior. Assim mesmo os
compradores eram muito escassos. No entanto, os vendedores também se mantinham
retraídos, motivo por que a maior parte dos corretores foi ao restaurante para
tomar uma xícara de café. As cotações mantinham-se inalteradas.
Quem estivesse lembrado da evolução dos
negócios nas últimas semanas chegaria à conclusão de que a calmaria constituía
um fenômeno altamente favorável. Após o surgimento da Terceira Potência no
deserto de Gobi todas as ações caíram rapidamente. Em alguns casos a queda
chegava a 75%. Quando a terceira guerra mundial estava prestes a irromper as
circunstâncias indicavam não apenas uma crise econômica, mas um colapso total.
Após isso surgiram provas do poder dos arcônidas. Os blocos políticos do
Ocidente e do Oriente aproximaram-se e promoveram a constituição de uma união
de todos os países da Terra. A invasão de uma nave espacial desconhecida fora
rechaçada por Perry Rhodan. Os negócios voltaram a animar-se. A fé e a
esperança dos homens cresceram. E o melhor barômetro desse crescimento foram as
cotações da Bolsa.
Nesse meio tempo, as coisas já se haviam
ajustado. O mercado entrara em franca recuperação. A humanidade, farta de sensações,
já se acostumara à existência desse Estado um tanto misterioso situado na Ásia
Central, que costumava ser designado como a Terceira Potência, muito embora o
homem da rua ainda não tivesse compreendido a situação real. As cotações da
Bolsa tornaram-se mais estáveis. O estado de marasmo daquele dia era a melhor
prova disso.
Essa situação perdurou até o meio-dia.
Às doze em ponto surgiu a sensação. Poucos
minutos antes o Dr. Haggard oferecera algumas ações de companhias petrolíferas
trinta pontos abaixo da cotação e as vendera imediatamente. Os presentes deram
de ombros, mas contentaram-se com a explicação de que mesmo no mercado de
capitais vez por outra surge um otário. Quando saiu a edição do meio-dia do New
York Post, Haggard foi tido como um clarividente, pois era o único homem que
conseguira pôr seu dinheiro a salvo.
O susto, que sacudiu os homens da Bolsa
até a medula dos ossos assim que leram a notícia da invasão, não se ligava ao
seu bem-estar pessoal, mas única e exclusivamente ao seu dinheiro. Por alguns
minutos não se entendia uma palavra em todo o saguão. Finalmente o senhor
Oliver conseguiu fazer-se ouvir através dos alto-falantes.
— Senhoras e senhores, seria um absurdo se
nos deixássemos influenciar até esse ponto por uma simples notícia de jornal.
Não existem informações oficiais. A direção da Bolsa procurará averiguar
imediatamente a veracidade do artigo.
No mesmo instante, um cavalheiro entrou
precipitadamente e declarou em altos brados que a emissora de Pequim acabara de
transmitir a mesma informação.
— 970 pela General Electric — gritou uma voz.
Por alguns segundos reinou um silêncio
total. Logo a seguir começou um murmúrio que foi crescendo, até transformar-se
num verdadeiro furacão. As cotações da General Electric naquele dia haviam sido
abertas a 995.
Enquanto o senhor Oliver, com o auxílio de
alguns policiais, restabelecia a ordem no saguão, nos corredores começaram a
ser fechadas operações paralelas. Os otimistas farejaram uma boa oportunidade,
os pessimistas procuraram livrar-se do que podiam. Só pelas doze e trinta
conseguiu-se exercer algum controle sobre a oferta e a procura. Depois das
perdas vultosas, a disposição dos compradores diminuiu rapidamente. Correram
boatos de que a Bolsa seria fechada, mas muita gente protestou.
Os encarregados da GCC ainda se mantinham
retraídos. Pelas instruções recebidas, a hora de comprar ainda não chegara,
embora as cotações fossem extremamente favoráveis. Mas quando os negócios
entraram em estagnação, o Dr. Haggard fez uma jogada tímida. Fez com que as
cotações da Standard Oil baixassem trinta e cinco pontos. Com
isso os ânimos voltaram a exaltar-se. Os preços tornaram a cair. Caíram
rapidamente. Durante dez minutos, Haggard retirou-se do cenário. Deixou que os
outros trabalhassem. Depois de algum tempo a disposição de comprar excedeu a
oferta. Às 12:55 h, a Opiat Limited
começou a reagir. Homer G. Adams no seu escritório soltou um palavrão
inofensivo e transmitiu suas instruções pelo microfone.
— Manoli, você acaba de comprar Opiat. Realize com o capitão Klein uma
operação paralela que dê na vista de todos. Desça quarenta pontos. Não
poderemos sofrer nenhum prejuízo, pois tudo ficará em família.
Às 12:57 h, a Opiat Limited havia perdido 75% do valor com que abrira naquele
dia. Os outros papéis apresentavam um comportamento semelhante. Nos últimos
minutos antes da hora do fechamento da Bolsa dificilmente se encontraria um
corretor disposto a negociar. Apesar dos prejuízos enormes, tudo indicava que o
dia terminaria tranqüilamente. Mas no último instante explodiu a maior bomba de
Homer G. Adams.
Os rádios portáteis transmitiram uma notícia
extraordinária vinda de Sydney. Uma
nave espacial desconhecida levantara uma frota pesqueira que se encontrava no
Mar de Timor a uma altura de vários quilômetros e a deixara cair. O locutor
nova-iorquino concluiu o comunicado com as seguintes palavras:
“A
hipótese de nos encontrarmos diante de uma ação da chamada Terceira Potência
deve ser excluída. Face aos últimos contatos diplomáticos, não há mais dúvida
sobre a lealdade absoluta da mesma. Depois da queda da frota pesqueira no Mar
de Timor, na qual pereceram umas quatrocentas pessoas, a nave desconhecida
voltou a descer e abriu numerosas escotilhas, ou melhor, comportas de ar.
Milhares de seres grotescos saltaram sobre o mar, como se fossem pára-quedistas
e, depois de nadarem por alguns minutos, deixaram-se afundar. Só pode tratar-se
de seres não-humanos para cujo organismo a água é um habitat adequado. Resta
aguardar os acontecimentos para ver se a operação representa um ato
preparatório da invasão dos continentes. O quartel-general das Nações Unidas
emitiu um comunicado, segundo o qual já foram tomadas as primeiras providências
para repelir os invasores.”
Ninguém mais pensou em fechar a Bolsa. As
ações pareciam arder nas mãos dos seus possuidores. Os corretores mais
empedernidos perderam a calma e passaram a vender a qualquer preço. Grandes
trustes e conglomerados mudaram de dono no espaço de quinze minutos. Eram
apregoados como se fossem frutas podres. Ninguém parecia preocupar-se com o
fato de que ainda havia gente que sacrificava suas pequenas economias por um
cesto de frutas podres.
No fechamento da Bolsa não havia cotações
definidas. O clima era idêntico ao do grande desastre financeiro dos anos
trinta.
A economia mundial parecia encontrar-se
num estado de paralisia total.
Alguns capitães de indústria arruinados
gastaram seus últimos centavos para comunicar-se com os colegas de sofrimento
em todas as partes do mundo, enquanto em certas empresas o silêncio da economia
moribunda já parecia ter tomado conta de tudo. Era o que acontecia, por
exemplo, com a GCC.
Homer G. Adams interrompera todas as
comunicações telefônicas e radiofônicas com seus representantes. Não queria
correr o risco de ser espionado por alguém. Sentia-se bem em meio àquele
silêncio.
Sentado atrás da mesa, refletia e
esperava.
Pelas dezesseis horas o telefone tocou.
Era Abraão Weiss.
— Alô, senhor Weiss.
— Que tal lhe parece a situação, senhor
Adams?
— É uma boa piada, senhor Weiss. Amanhã
tudo estará esquecido.
— Até parece que o senhor é o último
otimista do nosso planeta.
— Orgulho-me de ser otimista. Espero
encontrar algumas pessoas que pensam como eu. Por que está telefonando, senhor
Weiss? Refletiu sobre minha proposta?
— Ainda está interessado?
— Claro que sim. Para mim a vida continua.
— Está bem. Poderíamos marcar um encontro
para amanhã? Arranjarei um avião para o senhor.
— Não é necessário. Iremos no meu. Não é
mais lento que o aparelho mais veloz que o senhor poderia conseguir.
— O.K., senhor Adams. Muito obrigado.
Então está combinado para amanhã, às...
— Um momento! Está lembrado das minhas
condições?
— Cinqüenta e um por cento para o senhor.
Naturalmente.
Marcaram encontro para o dia seguinte, às
seis da manhã.
Homer G. Adams reclinou-se novamente na
poltrona. Seus pensamentos voltaram a ocupar-se do jogo de cifras que havia
sido interrompido, jogo este que tinha um fundo bastante real. A palestra com
Weiss acrescentara mais um fator que podia ser retirado da lista dos duvidosos.
A próxima interrupção só surpreendeu Adams
porque este supusera que Clèment também entraria em contato com ele por
telefone. Acontece que o baixotinho moreno apareceu pessoalmente.
— Boa tarde, senhor Adams. Pensamos na sua
oferta. A Minneapolis Mining Company
concorda com sua proposta. Pedimos que faça a demonstração com suas máquinas
amanhã de manhã.
— Amanhã de tarde, senhor Clèment. De
manhã tenho um compromisso no Meio-Oeste. Depois do almoço terei tempo para dar
uma chegada a Sacramento. Serve para o senhor?
— Serve muito bem. Assim teremos tempo
para evacuar a galeria, a rim de que o senhor possa realizar a demonstração sem
qualquer risco.
— Muito bem! O senhor já conhece minhas
condições. Já que está aqui, quero apresentar-lhe a minuta do contrato. Peço-lhe
que a examine. Assim poderemos assiná-lo amanhã. Hoje mandarei passá-lo a
limpo.
Clèment leu atentamente. Terminada a
leitura, disse:
— Estamos de acordo com as linhas gerais.
Apenas gostaríamos de formular uma contraproposta quanto à participação. Os diretores
da empresa acham que a participação majoritária do senhor os colocaria em
situação desvantajosa. Pedem que se contente com quarenta e cinco por cento das
ações.
Adams exibiu um sorriso paternal.
— O senhor ainda mantém a tática de
negociação dos tempos antigos, senhor Clèment. Meus respeitos! Ainda têm tanto
interesse em manter a maior parte do capital? Não ficaram desanimados com o
colapso da Bolsa?
— Nem um pouco. Como deve saber, nossas
ações baixaram mais de cinqüenta por cento. Apesar disso estou convencido de
que se mantém um alto conceito sobre a Minneapolis
Mining, ainda mais que outras ações tiveram uma baixa muito maior. Nas
condições atuais, o negócio que o senhor vai concluir com nossa firma ainda é o
melhor possível, mesmo sem a participação majoritária.
— Há uma hora alguém disse que sou o
último otimista. Fico satisfeito em ver que existem outros.
O homenzinho moreno fez uma mesura
elegante.
— Vejo que nos entendemos muito bem,
senhor Adams. Se a Minneapolis Mining
conseguir fazer escavações mais rápidas, daqui a três dias liderará a
construção de abrigos antiaéreos. Depois da catástrofe do Mar de Timor pouca
gente estará disposta a gastar dinheiro em outra coisa. Como vê, conhecemos
nossa importância e as chances de que dispomos. E o senhor aproveitará essas
chances tanto quanto nós. É claro que pode haver algum motivo para esse
sentimento de fim de mundo que anda por aí. Mas nesse caso nosso prejuízo será
inevitável de uma forma ou de outra. Estamos nos preparando para o caso de que
a vida continue de alguma forma. Quanto a mim, posso estar errado, mas desde
que a humanidade existe, ela sempre tem encontrado uma saída.
Homer G. Adams sentiu-se emocionado por
tamanha confiança na humanidade.
— Mandarei passar o contrato a limpo e
levarei para o senhor amanhã. A GCC contenta-se com 45%. Acho que combinaremos
muito bem.
* * *
Dois dias depois.
A demonstração do trabalho das máquinas da
GCC fora um êxito total. Os contratos tinham sido assinados. Homer G. Adams
tomou um avião e foi ao território da Terceira Potência, no Extremo Oriente,
para apresentar seu relatório. Até mesmo Thora e Crest, que geralmente
preferiam manter-se alheios aos assuntos intraterrenos, haviam aparecido para
presenciar o relato.
— Como está o ambiente lá fora? — perguntou
Perry Rhodan. — Espero que não tenhamos colocado um peso muito grande na nossa
consciência.
Por um instante Homer G. Adams baixou a
cabeça. Depois encarou seus interlocutores.
— Para mim, aquilo que passei nos últimos
três dias apenas parece a repetição de alguma coisa que já aconteceu. Anos
atrás mandaram-me para a penitenciária por isso. Hoje sei que minha atuação
conta com a aprovação dos demais. Faço questão de ressaltar que não me sinto
responsável pelos suicídios cometidos por aí. Um homem que não consegue superar
a perda de valores materiais carrega um problema que só ele pode resolver. Além
disso, acredito que a causa principal dos suicídios seja o medo da invasão.
Todos os olhares dirigiram-se a Perry
Rhodan.
— De qualquer maneira semeamos o desassossego
entre os homens. Mas sabemos perfeitamente que esse desassossego era
necessário. A invasão representa um perigo real, que nos ameaça a cada dia e a
cada hora. A cena do Mar de Timor, que Bell apresentou ao mundo por meio dos
projetores arcônidas como um simples filme tridimensional, poderá ser um
episódio real de amanhã. Temos o dever de proteger a humanidade contra esse
tipo de perigo, pois ninguém mais está em condições de cumprir essa missão. Por
isso mesmo cabe-nos aumentar nosso potencial industrial numa proporção
adequada, e para isso temos que exercer uma influência considerável sobre a
economia mundial. Os resultados dos nossos esforços costumavam ser medíocres em
comparação com as necessidades. Uma entidade que se propõe a proteger e unir um
planeta precisa dispor da força necessária. No início da semana, quando você
foi a Nova Iorque, éramos uns pobretões em matéria de divisas. Como estão as
coisas hoje, Adams?
— O fator decisivo foi o espetáculo
proporcionado por Bell com a invasão fictícia do Mar de Timor. As providências
detalhadas que antecederam a operação também foram bem executadas. Em poucos
dias conseguimos pôr a Bolsa de Nova Iorque fora dos eixos. Uma atuação
semelhante foi desenvolvida por Kakuta, em Tóquio, por Marshall, na Cidade do
Cabo, por Li, em Londres e por Kosnow, em Berlim. Com um pecúlio de alguns
milhões de dólares conseguimos adquirir as maiores indústrias e obtivemos a
maioria em quatro conglomerados. É claro que uma manobra destas não pode ser
executada todos os dias, pois o mundo não vai cair pela segunda vez no mesmo
truque.
— Podemos inventar outros truques — disse
Reginald Bell com a voz indiferente e ligeiramente professoral. Provavelmente
quis dar mostras da sua fantasia.
— Por melhor que disfarcemos o blefe, ele
será descoberto. É que sua origem será a mesma. E isso bastará aos espertos
corretores da Bolsa. Além disso, esse procedimento constituiria uma
irresponsabilidade da nossa parte. Ninguém pode estar interessado em lançar a
economia mundial num caos completo. Uma economia livre está sujeita a leis
rígidas. Depois de um grande colapso da Bolsa costuma haver uma época de
calmaria, seguida pela recuperação. A manobra que encenamos ontem só pode ser
repetida no mínimo de trinta em trinta anos, pois um colapso total da economia
não traria vantagens a ninguém. Também nós seriamos sepultados sob os
escombros. Posso assegurar-lhes que disponho de ampla experiência no setor.
Aquilo que alcançamos anteontem foi o máximo que se poderia esperar. Será que
algum dos cavalheiros não concorda com a minha opinião?
Homer G. Adams passou os olhos pelos seus
interlocutores. A pergunta fora dirigida a todos, mas não havia ninguém que não
soubesse que no fundo só se destinava a Perry Rhodan.
— Os resultados corresponderam inteiramente
às sua previsões, Adams — respondeu Rhodan. — Sabe muito bem que no princípio
tinha minhas dúvidas e também me teria contentado com menos. Na situação em que
nos encontramos hoje só lhe posso manifestar meus elogios e minha gratidão.
Além do mais conseguiu fechar alguns negócios excelentes com as máquinas dos
arcônidas. Mas nesse terreno devemos agir com muita cautela.
— Naturalmente. Neste ponto o direito de
veto de Crest continuará a ser reconhecido. Além disso, é você, Rhodan, que
decidirá quais dos nossos segredos podem ser colocados ao alcance do público. O
aparelho pendular matéria-energia, que foi colocado à disposição só da Minneapolis Mining e do senhor Weiss, da
Steel & Concrete, deve ser
considerado obsoleto sob os padrões arcônidas. Apesar disso foi muito valioso
para nós. Essas empresas, na quais o senhor detém o controle acionário, sob o
nome suposto de Benjamim Wilder, da GCC, já ocupam uma posição de monopólio na
sua especialidade e exercerão uma liderança absoluta na época da recuperação
econômica. Ao que parece, já não temos maiores problemas econômicos. Já
dispomos dos sete bilhões exigidos pelo governo de Pequim. Não será mais
necessário adquirir o território submetido à nossa soberania em prestações,
conforme estava previsto. Pelos meus cálculos, poderemos contar com outros
quatro bilhões nos próximos quarenta e cinco dias. Não é muito em comparação às
nossas necessidades para a montagem de uma linha industrial. Mas teremos de
arranjar-nos.
— As indústrias controladas por nós não
valem muito mais que isso? — perguntou Bell.
— O valor das empresas medido pelas
cotações de Bolsa sofreu uma queda acentuada. Mas voltará a subir. De qualquer
maneira, se pensar que podemos utilizar prontamente o capital de uma empresa
de, digamos, duzentos bilhões de dólares para levar avante os nossos objetivos,
estará fazendo uma conta de quitandeiro. As indústrias que possuímos espalhadas
pela Terra têm de continuar em nossas mãos. Precisamos conservá-las. Por isso
só uma fração dos recursos disponíveis pode ser desviada para nosso
empreendimento no deserto de Gobi. Compreendeu?
— Compreendi — respondeu Bell com um
sorriso.
— Temos muito trabalho diante de nós —
prosseguiu Rhodan. — Nos últimos dias conseguimos muita coisa. Criamos uma base
financeira para nosso empreendimento. Adams terá de esforçar-se para conseguir
o que ainda nos falta. Conforme acaba de dizer, tão depressa não voltaremos a
ter dias tão grandiosos como os do grande colapso da Bolsa. Por isso torna-se
necessária uma série cansativa de pequenos trabalhos, como por exemplo os da Steel & Concrete e da Minneapolis Mining. Mas não é isto que
me preocupa. Levaremos meses, talvez anos, para montar um sistema econômico
eficiente em nosso reino. Por outro lado, os problemas não poderiam ser mais
prementes. A qualquer momento poderemos defrontar-nos com a invasão do povo de
Fantan. O show que Bell ofereceu num
passe de mágica poderá transformar-se em realidade de um dia para outro. Só que
aí nossos inimigos não desaparecerão na água. Outro problema que me preocupa é
a falta de material humano. Precisamos de colaboradores feitos de carne e osso,
que defendam nossos interesses em todos os continentes. Para esse fim ainda
hoje fornecerei instruções a alguns dos senhores. Há um detalhe que todos nós devemos
ter em mente: sempre que alguém nos traga uma pessoa, deve estar plenamente
convencido de seu valor e eficiência. Face ao reduzido número de pessoas que
podemos abrigar em nosso minúsculo país e às exigências que cada um terá de
cumprir, só a elite humana poderá aspirar à cidadania da Terceira Potência.
Precisamos de gente dotada de capacidades extraordinárias.
— Em poucas palavras, precisamos de
mutantes. De mutantes positivos.
Perry Rhodan confirmou com um gesto. Não
revelou a visão estranha que as palavras proferidas por Bell desencadearam em
sua mente. Formulou uma pergunta estranha.
— Adams, qual é o cubo de 2.369,7?
O homenzinho lançou um olhar de espanto
para Rhodan. Pegou a calculadora.
— Não, não quero assim — disse Perry
Rhodan. — Calcule de cabeça.
— Vai demorar um pouco...
— Pode deixar. É 13.306.998.429,873.
Aliás, há uma coisa que ainda não compreendi. Você acaba de referir-se à nossa
participação majoritária na Steel &
Concrete e na Minneapolis Mining.
Antes, porém, você havia declarado que só Weiss concordara com a participação
acionária de 51%, enquanto Clèment conseguiu a redução para 45%.
— É simples. Antes disso já havíamos
adquirido na Bolsa sete por cento das ações da Minneapolis Mining. É claro que Clèment não sabia disso.
Perry Rhodan esperou que cessassem as
risadas.
— Muito bem. Acho que podemos dar-nos por
satisfeitos. Vamos discutir os detalhes das próximas ações que programamos.

Este é um anúncio público para todos que querem vender um rim, temos pacientes que precisam de um transplante de rim, por isso, se você estiver interessado em vender um rim, por favor entre em contato conosco em nosso e-mail em iowalutheranhospital@gmail.com
ResponderExcluirVocê também pode ligar ou escrever para nós no whatsapp em +1 515 882 1607.
OBSERVAÇÃO: Sua segurança está garantida e nosso paciente concordou em pagar uma grande quantia de dinheiro para qualquer pessoa que concordar em doar um rim para salvá-lo. Esperamos ouvir de você, para que você possa salvar uma vida.