O novo elemento reunia todas as qualidades
que poderiam fazer dele o combustível ideal para as naves espaciais. No estado sólido
ocupava um espaço muito reduzido; era esta sua maior vantagem. Além disso, era absolutamente
seguro enquanto não fosse exposto a um tipo de radiações inofensivas, que poderiam
ser geradas a qualquer momento por meio de instrumentos extremamente simples. Uma
vez atingido por essas radiações, o elemento sofria modificações em sua estrutura
atômica, e estas dependiam da intensidade das radiações. Na prática essas radiações
desempenhavam uma espécie de função catalítica, sem a qual o novo elemento não passava
de uma peça de matéria inútil.
As experiências ainda não haviam sido concluídas.
O professor Lehmann conseguira criar o novo
elemento, que era tão barato que uma viagem a Marte não custaria mais que um passeio
de bonde, abstraídas as despesas de financiamento da nave. Com as radiações podia-se
liberar à vontade a quantidade exata de energia que se tornasse necessária. Seria
o tipo ideal de propulsão à base da luz.
Evidentemente tudo não passava de teoria. Mas
Lehmann aferrara-se à idéia, e ninguém conseguiria demovê-lo.
Hoje seria levada a efeito uma das últimas
experiências.
Li Shai-tung, na qualidade de enviado oficial
de Mercant, tinha livre acesso a todas as dependências do campo de prova. Quem menos
objeções tinha a fazer contra isso era Lehmann, que sabia perfeitamente que, da
mesma forma que ele, Li também era um DI. Os invasores pretendiam desencadear uma
reação em cadeia através da exposição excessiva do novo elemento às radiações, e
essa reação não poderia ser controlada, acabando por destruir todo o centro de pesquisas.
Após isso os dois DI abandonariam os corpos de Lehmann e Li, que já não teriam a
menor utilidade para eles, e procurariam novas vítimas.
Era justamente nesse ponto que deveria ocorrer
uma modificação.
Ellert afirmara que o DI só poderia ser perseguido
quando posto em fuga numa situação de pânico e irreflexão, pois assim seu intelecto
não teria tempo para preparar-se para a fuga. Na sua opinião, a pressa excessiva
não daria ao DI oportunidade de levantar um anteparo mental que lhe permitisse apagar
a pista que conduzia para outra dimensão. Tudo isso parecia confuso, mas não deixava
de ser convincente.
Era por isso que a catástrofe planejada por
Li e Lehmann teria de ser desencadeada com uma rapidez fulminante, para ser detida
com igual rapidez. Isso, porém, apenas quando os dois DI se tivessem lançado na
fuga precipitada, que teriam de empreender se não quisessem morrer juntamente com
os corpos de que se haviam apossado.
Quando Lehmann entrou na sala dos reatores
em companhia de Li, não suspeitou de nada. Os assistentes, que eram seus conhecidos,
cumprimentaram-no com toda amabilidade e logo voltaram a dedicar-se aos seus afazeres.
Mal chegou a notar dois ou três elementos novos. O que menos lhe chamou a atenção
foi Ellert, o novo eletricista que manipulava algumas chaves secundárias que ficavam
perto do gigantesco painel de comando. Também Anne Sloane, a peça mais importante
do plano, estava postada nos fundos da sala, numa posição em que mal se notava sua
presença.
A pesada porta de chumbo, que constituía o
único acesso ao centro de reatores, fechou-se com um baque surdo. Lehmann sabia
que seria possível abri-la do lado de dentro. Uma vez iniciada a reação em cadeia,
haveria tempo para colocar-se em segurança. Os dois DI só pretendiam retornar aos
corpos que lhes pertenciam quando se encontrassem no recesso dos seus gabinetes.
O professor aproximou-se da câmara de chumbo,
acompanhado de Li e Marshall. Apontou para um bloco metálico do tamanho de um tijolo,
que emitia um brilho suspeito atrás de uma lâmina de quartzo.
— Este é o novo elemento, cavalheiros. Acima
da câmara os senhores vêem as antenas de saída das radiações elétricas, que sofrem
um desvio na parte inferior. Essas radiações atravessam o novo elemento, provocando
a alteração de sua estrutura atômica. Ainda não estamos em condições de utilizar
plenamente a energia liberada, que se transforma em calor. Esta escala registra
a temperatura. No interior da câmara de chumbo existe um revestimento térmico, capaz
de resistir a milhares de graus centígrados. Bem, os senhores são leigos no assunto;
não compreenderão o progresso enorme representado por esta peça singela de metal.
A energia nela contida basta para fazer com que uma nave espacial atravesse metade
do universo à velocidade da luz.
Lehmann aproximou-se do quadro de comando.
Lançou um olhar perscrutador sobre Ellert. Este, vestido de capa branca, fez de
conta que conhecia o professor há muito tempo, mas sabia perfeitamente que um homem
tão importante não poderia lembrar-se de qualquer funcionário. O mesmo pensamento
devia ocupar o DI que dominava o corpo de Lehmann.
— As instalações estão em ordem? — perguntou
o cientista.
— Foram testadas e encontradas em perfeitas
condições — respondeu Ellert, que só conhecia as funções de uma das chaves, a que
regulava o suprimento de eletricidade, que por sua vez determinava a intensidade
das radiações.
— Muito bem. Ligue o mínimo.
A chave descansou no primeiro entalho.
Havia vinte entalhos. Ninguém se atreveria
a utilizar a posição máxima. Nem mesmo Lehmann. Nesse caso, a transformação da estrutura
atômica seria tão rápida que provavelmente a câmara de chumbo derreteria assim que
o processo tivesse início.
Nada se modificou atrás da lâmina de quartzo.
O termômetro começou a subir. Lehmann acenou com a cabeça. Parecia satisfeito.
— O elemento está gerando calor. A temperatura
começa a subir. A primeira posição seria suficiente para suprir um continente de
eletricidade por vários séculos. É incrível!
Li permanecia calado. Por que falar? A comunicação
entre ele e Li ou melhor, entre os dois DI, realizava-se pelo caminho do pensamento.
John Marshall não teve a menor dificuldade em examinar cautelosamente aqueles pensamentos
que iam e vinham de um lado a outro. Tinha de agir com prudência, pois por enquanto
não deveria despertar nenhuma suspeita. Seus conhecimentos científicos eram muito
reduzidos para permitir-lhe que compreendesse toda a extensão da experiência que
estava sendo realizada.
Mas entendeu a pergunta do DI que se abrigara
em Li.
Em que posição começa a catástrofe?
Na posição sete, respondeu Lehmann por via
telepática. Falando em voz alta, disse:
— Técnico, coloque na segunda posição.
O plano estava à vista. Lehmann iria intensificando
as radiações, até que na posição sete tivesse início a destruição lenta mas inevitável.
Poderia sair calmamente do laboratório em companhia de Li, a fim de realizar a transferência
para seu próprio corpo. No reator as energias liberadas iniciariam a obra calamitosa.
Anne Sloane sabia que seu trabalho estava para
começar. Ellert, que continuava junto ao quadro de comando, não podia ser distraído.
Teria de concentrar-se nos dois DI, tal qual John Marshall, a fim de persegui-los
na fuga precipitada. Ellert abandonaria o corpo, mas permaneceria na dimensão do
presente. John identificaria o instante em que os DI resolvessem pôr-se em fuga.
Enquanto isso o homem que se encontrava fora da vista dos outros se desmaterializaria
para seguir os seres estranhos, juntamente com os dois companheiros. Tako Kakuta,
o teleportador, encontrava-se atrás de um enorme gerador e não tirava os olhos de
Marshall, que lhe daria o sinal convencionado.
Tudo daria certo, desde que não se tivessem
esquecido de nenhum detalhe. Mas será que não tinham esquecido nada?
Ernst Ellert afastou-se ligeiramente do quadro
de chumbo.
Lehmann observava o termômetro. Nos seus olhos
via-se um brilho fanático. Já não se esforçava muito para guardar as aparências.
Li permanecia impassível.
— Coloque a chave na posição sete — disse Lehmann.
Estava na hora.
Anne Sloane aproximou-se um pouco. Seus olhos
grudaram-se na chave que fora manipulada por Ellert. Devagar no início, mas logo
depois num movimento cada vez mais rápido, foi descendo, passou pela posição número
sete, para cair subitamente na posição final. Todas as reservas de energia dos geradores
atravessaram os condutos, foram irradiadas pelas antenas e atravessaram o novo elemento
que voltou a captar a corrente, fazendo com que reiniciasse seu ciclo. Anne sabia
que esses processo poderia desenvolver-se por vinte segundos. Só após teria início
uma reação irreversível em cadeia. Ninguém escaparia a ela se o único caminho da
salvação não fosse utilizado em tempo.
Voltou-se e dirigiu os olhos para a pesada
porta de chumbo. A energia invisível de seu espírito atravessou o metal e empurrou
o trinco do lado de fora. Ninguém poderia abrir a porta do lado de dentro. Todos
se encontravam presos num inferno que logo desencadearia suas fúrias.
Restavam-lhes vinte segundos, nem um segundo
a mais.
O professor Lehmann virou-se num movimento
instantâneo. Por um instante perdeu o autocontrole, quando viu que a chave deslizou
para a posição vinte, como que movida por mão invisível. Segundos preciosos foram
perdidos, antes que pudesse retirar as informações necessárias que se encontravam
armazenadas na memória. Ficou sabendo que dispunha de vinte segundos. Mas antes
que pudesse saltar para junto do quadro de comando e colocar a chave numa posição
segura, o circuito elétrico esfacelou-se sob o efeito da sobrecarga. Faíscas saltavam
e, formando raios fulminantes, passavam por cima dos fusíveis destruídos. Lehmann,
apavorado, recuou ao ver que a chave se deformava, derretida pelo calor imenso.
O cheiro acre da borracha queimada e do metal derretido queimava-lhe o nariz. Um
cheiro de ozônio enchia o ar.
Li permanecia imóvel. Palestrou apressadamente
com Lehmann que, todo confuso, não lhe dava atenção. Ainda procurava a solução do
enigma da chave deslocada por uma mão invisível. Não chegou a qualquer resultado.
Levou algum tempo para compreender que só a fuga precipitada poderia salvá-lo. Nem
se lembrou de que ainda poderia dispor de cinco segundos para retirar-se em boa
forma.
Não conseguiu abrir a pesada porta de chumbo.
Quinze segundos se tinham passado. A catástrofe
parecia inevitável.
Dezesseis segundos. Era tarde para abrir o
caminho que conduzia a uma nova dimensão. Os DI sabiam que não lhes restava outra
alternativa senão abandonar os corpos humanos, se não quisessem perecer com eles.
Retiraram-se sem os necessários preparativos, transportando-se violentamente para
o mundo reservado aos intelectos desmaterializados. Os corpos inanimados ficaram
para trás. Imobilizados, aguardaram que seus donos retornassem. Mas isso só aconteceria
no vigésimo primeiro segundo. E então seria tarde.
John Marshall fez um sinal a Tako. O japonês
desmaterializou-se e desapareceu. Inseriu-se no fluxo imaterial dos fugitivos, deixando-se
conduzir a um destino desconhecido. A perseguição foi mais fácil do que acreditaria.
Dezessete segundos.
Anne Sloane concentrou-se na chave incandescente.
Empenhou todas as reservas de energia para recolocá-la na posição inicial. Não teve
êxito. Alguns pingos de metal derretido haviam caído e endurecido. Sua força não
foi suficiente para vencer o obstáculo. Não compreendeu. Sabia que seu espírito
era capaz de mover toneladas, mas viu-se obrigada a entregar os pontos diante de
uma chavezinha. O esforço fora excessivo; sentia-se esgotada.
Dezoito segundos.
— Ellert, olhe a chave. Não consigo movê-la.
Dezenove segundos. Um segundo separava-os da
eternidade.
Ellert agiu imediatamente. Saltou para junto
do quadro de comando e procurou forçar a chave com todo o peso de seu corpo. Alguma
coisa chiou; a pressão súbita rompeu os metais fundidos. Num movimento leve a chave
retornou à posição zero. O circuito elétrico, cuja intensidade ia diminuindo, encontrou
um caminho mais fácil, que não o obrigava a percorrer os condutos interrompidos
em vários pontos. A faísca elétrica branco-azulada desprendeu-se de um ponto brilhante
e desapareceu no corpo de Ellert.
O teletemporador caiu ao solo. O toco de seu
braço queimado espalhava um cheiro horrível.
A catástrofe fora evitada.
A chave voltara à posição zero antes que decorressem
vinte segundos.
No vigésimo primeiro segundo Lehmann e Li começaram
a mover-se. A vida retornou aos seus corpos. Estupefatos, lançaram os olhos em torno.
Maior foi o espanto de Li, que nunca estivera num centro de pesquisas como aquele.
Reconheceu John Marshall e Anne Sloane. Logo viu Ernst Ellert, que jazia inerme.
Abaixou-se instintivamente, embora não compreendesse nada do que estava acontecendo.
A reação de Lehmann foi diferente.
Não sabia explicar como tinha sido transportado
tão de repente de junto do seu tabuleiro de xadrez para aquele lugar, mas reconheceu
o local em que costumava trabalhar. Tinha conhecimento da experiência que preparara
por tanto tempo. E conhecia John Marshall.
— O que houve? — perguntou com a voz tranqüila.
— Não me lembro...
— Deixemos isso para mais tarde, professor
— interrompeu John. — Aconteceu muita coisa. Você saberá. No momento temos coisa
mais importante a fazer. Existe algum perigo, Lehmann? O bloco que se encontra sob
as antenas ficou exposto durante dezenove segundos às radiações de intensidade máxima.
Isso dará origem a uma reação em cadeia?
Lehmann fitou-o estupefato.
— Dezenove segundos na posição vinte? Quem
deu ordens para fazer uma coisa dessas?
— Responda à minha pergunta, professor.
Ainda estarrecido, Lehmann sacudiu a cabeça.
— O limite de estabilidade fica em pelo menos
vinte segundos.
— Muito bem. Nesse caso temos tempo para cuidar
de Ellert. Anne, vá buscar um médico.
O Dr. Fleet parecia ser dotado dum sexto sentido.
Mal Anne Sloane afastou o fecho da porta de chumbo, o médico precipitou-se para
o interior da sala dos reatores.
— Dizem que os instrumentos de medição registraram
grandes oscilações da corrente...
— Um dos homens foi imprudente — interrompeu-o
John Marshall. — A corrente passou pelo seu corpo.
Ellert não se mexia mais. O teletemporador
jazia estendido no chão. Só agora notaram que seu braço direito fora destruído pelas
queimaduras até a altura do cotovelo.
A lesão não era mortal. A não ser que o choque
elétrico...
O Dr. Fleet inclinou-se sobre Ellert e começou
a examiná-lo. John explicou ao professor estupefato o que havia ocorrido. Li escutava
com uma expressão de dúvida no rosto. Não compreendia mais nada.
Anne Sloane encontrava-se perto do Dr. Fleet,
numa atitude de expectativa. Sentia-se responsável pelo que acontecera a Ellert.
Se não tivesse falhado, tudo teria sido diferente. Ainda não sabia explicar por
que sua energia telecinética não conseguira mover a chave. Será que se distraíra
por causa do nervosismo? O Dr. Fleet ergueu-se.
— É estranho! — resmungou com a voz entrecortada.
— Este homem está vivo.
John Marshall voltou-se. Anne Sloane disse:
— Está vivo. Graças a Deus! Não vejo nada de
estranho nisso.
— Foram dez mil volts! — ponderou Lehmann.
Fitou o corpo imóvel de Ellert. — É muito estranho que tenha resistido a isso.
O Dr. Fleet sacudiu a cabeça.
— Você não compreendeu bem. O homem está vivo,
isso é uma verdade biológica. Mas sob o ponto de vista biológico também está morto.
— Um homem não pode estar vivo e morto ao mesmo
tempo — disse o professor Lehmann, que sentiu despertar o interesse científico,
que lhe fez esquecer o que havia acontecido. — Isso seria um paradoxo.
— Pelas leis da lógica você tem razão — reconheceu
o médico. Percebia-se que procurava disfarçar a confusão em que se encontrava. —
Mas será que aquilo que está acontecendo atualmente ainda tem algo a ver com a lógica?
Estes invasores podem ser conciliados com ela? Não vêm de um universo que subverte
nossas leis naturais? Não estou nada admirado em ter diante de mim um morto vivo.
— O que lhe deu essa idéia?
O Dr. Fleet apontou para Ernst Ellert, que
continuava imóvel no chão.
— Este homem não respira e as pulsações de
seu coração cessaram. O sangue está parado em suas veias. Há quanto tempo aconteceu?
John olhou para o relógio.
— Faz cerca de dez minutos.
— A temperatura do sangue já deveria ter baixado.
Mas ainda não aconteceu nada disso. Aposto que amanhã a temperatura de seu corpo
ainda será de trinta e sete graus, talvez um pouquinho menos.
— Mas isso é...
— Sinto não poder dar-lhe qualquer explicação.
Só posso constatar o fato. Ellert não está morto, mas também não está vivo. Parece
que seu espírito abandonou o corpo.
John Marshall
olhou para Anne Sloane. Entre
os presentes só ela, Li e ele mesmo conheciam as condições de Ellert. Quem sabe
se o teleportador não efetuara um salto no tempo, a fim de salvar a vida. Quando
retornasse...
— Acho que Perry Rhodan dará a última palavra
— interveio Anne Sloane. — Avisarei a ele imediatamente do que ocorreu.
O professor Lehmann tirou os olhos de Ellert.
— O que houve com os DI que fugiram dos nossos
corpos?
— Logo saberemos — respondeu John Marshall
e saiu em companhia de Li Shai-tung e Anne Sloane. O Dr. Fleet permaneceu em companhia
do professor Lehmann, que estava muito indeciso.
V
Tako Kakuta foi arrastado num verdadeiro torvelinho.
Sentiu a corrente em que se encontrava. Era
a primeira vez que tomava consciência do estado que das outras vezes só durara uma
fração de segundo, e que transferia seu corpo desmaterializado de um lugar para
outro. Não via nem ouvia nada, apenas sentia.
Talvez estivesse escuro em torno dele, e por
isso não enxergasse. Não teve muito tempo para refletir sobre o estranho fenômeno,
pois voltou a materializar-se.
Pelos seus cálculos tinham-se passado cinco
segundos.
Ainda era escuro, mas sentia o corpo. Encontrava-se
em meio a uma escuridão que se ia desvanecendo aos poucos. O brilho débil parecia
vir das paredes que o cercavam. Devia encontrar-se num salão. A temperatura era
fresca.
Alguma coisa se moveu bem diante de seus pés.
Seus olhos, que já se haviam acostumado à semi-escuridão, reconheceram os objetos
de formato alongado que jaziam sobre o chão de rocha.
Levou alguns segundos até que a certeza o penetrasse
como um choque.
O que via diante dele era a longa fileira dos
corpos sem espíritos dos membros do exército de invasão. Só dois deles deviam ter
sido reativados, os que pertenciam aos seres que ainda há pouco ocupavam os corpos
do professor Lehmann e do tenente Li.
Não havia um segundo a perder.
Tako desmaterializou-se e logo se viu em meio
a uma planície pedregosa. Os cumes do Himalaia pareciam cumprimentá-lo de longe.
Procurou avaliar a direção do salto bem calculado que acabara de dar. O salão em
que se encontravam os corpos dos DI ficava a cinco quilômetros dali, no rumo exato
do sul. Naquele ponto havia um monte muito alto, mas bastante maciço.
Era uma caverna natural. Bem que poderia ter
imaginado.
Pôs-se a manipular alguma coisa no pulso. Alguns
segundos depois ouviu a voz de Rhodan:
— Então nossa suposição era exata. Fica no
Tibet. Qual é sua posição, Tako? Encontro-me na Good Hope, a dez quilômetros acima
do Himalaia.
— Não sei, Rhodan. Não poderia usar o radiogoniômetro?
— Um instante. Bell está ligando as telas.
Dentro de poucos segundos deveremos localizá-lo. Encontrou a base?
— Tudo saiu de acordo com as previsões de Ellert.
Por que ele não veio comigo?
Depois de um breve silêncio Perry falou:
— Houve um imprevisto. Ellert sofreu uma forte
descarga elétrica. Está morto. Seu corpo está a caminho da base de Gobi.
Tako não respondeu. Esperou. Finalmente Perry
falou:
— Talvez tenha acontecido coisa diferente,
e Ellert nem esteja morto. Ainda não sabemos. Bell acaba de localizar você. Estamos
a duzentos quilômetros daí. Nos encontraremos em poucos minutos.
O japonês deu alguns passos e sentou num grande
bloco de pedra. O crepúsculo ia descendo no poente; dali a pouco escureceria. Não
sabia quais eram os planos de Perry Rhodan. A defesa contra a invasão transformara-se
num empreendimento mundial. Um fator integrava-se no outro, e ninguém sabia qual
era o papel que desempenhava. Só um homem possuía a visão global. Era Perry Rhodan.
A gigantesca nave pousou praticamente sem ruído.
O raio antigravitacional incidiu em Tako e elevou-o antes que tivesse tempo de teleportar-se
para o interior da nave. Numa espécie de jocosidade permitiu que Bell o transportasse
para a sala de comando por esse meio convencional. Perry Rhodan já o esperava.
— Graças a você localizamos a base do inimigo,
Tako. Agora só falta colocá-la fora de combate. Thora concordou em prestar-nos ajuda
irrestrita. Ela sente um medo terrível dos Deformadores Individuais. Compreendo
por quê. Crest está em sua companhia, na sala de comando de fogo. Eu assumi a direção
e a coordenação. Onde fica a caverna?
O japonês apontou para a tela.
— É naquele morro achatado. Fica uns vinte
metros abaixo da superfície.
— Uma caverna natural no Himalaia! — disse
Perry com um sorriso amargo. — Logo devia ter pensado nisso. Esses tipos só poderiam
ter escolhido um lugar desses.
A Good Hope ergueu-se, livre da força da gravidade,
e flutuou em direção ao morro. Parou a pouca altura acima dele. Perry transmitiu
algumas instruções a Thora. Depois dirigiu-se a Tako e Bell, que se encontravam
na soleira da porta, numa atitude de expectativa.
— Dentro de trinta segundos iniciaremos o ataque.
Thora evaporará a parte do morro que fica acima da caverna. Se tivermos sorte localizaremos
a entrada, senão os cadáveres dos DI serão queimados. Gostaria de pegar alguns deles
vivos.
Tako sacudiu a cabeça.
— Isso não é possível. Eles se apossariam imediatamente
do nosso corpo.
Perry Rhodan concluiu o conselho de guerra
com estas palavras:
— Se utilizar o projetor mental, não.
O projetor mental era uma das armas mais inofensivas
dos arcônidas. Tratava-se de um aparelho capaz de impor a qualquer homem a vontade
de seu possuidor e de transmitir-lhe ordens pós-hipnóticas, que são executadas sem
a menor resistência. Perry fazia votos de que seus efeitos também atingissem os
DI.
Subitamente uma forte ventania desabou sobre
o cume do morro. As massas de ar frio precipitaram-se de todos os lados para a zona
de baixa pressão gerada pelo calor, sendo arrastadas para cima. A pedra nua desmanchou-se
em gases invisíveis e subiu para o alto. A eficácia dos raios energéticos era tamanha
que a transição do estado sólido para o gasoso se fazia com tal rapidez que não
havia tempo de passar pelo estado líquido.
A uma profundidade de vinte metros surgiu uma
abertura.
— É o acesso à caverna! — exclamou Perry e
mandou cessar o ataque de radiações. A nave desceu. Pousou. Alguns segundos depois
a comporta abriu-se e Perry, Bell, Crest e Thora correram para fora. Tako já os
esperava. Preferira recorrer ao transporte mais confortável, o da teleportação.
A limitação do campo de ação do desagregador
energético era tão nítida que já não se sentia quase nada do calor. O japonês desapareceu
por um segundo e retornou.
— É aqui — anunciou. — A poucos metros de distância.
Apresse-se Rhodan. Dois desses seres começam a se mover. São horríveis.
Perry Rhodan correu na frente dos outros. O
bastão prateado do projetor mental reluzia em sua mão. Abaixou-se para penetrar
na abertura e continuou a avançar. Os outros seguiram-no mais devagar. Especialmente
Bell sentiu dificuldade em evitar que seus ombros largos colidissem com a rocha.
Crest e Thora mantiveram-se mais atrás.
De repente a caverna abriu-se diante de Perry.
Seus olhos logo se acostumaram à semi-escuridão. As paredes emitiam uma ligeira
fosforescência. Sentiu-se uma corrente de ar, vinda não se sabe de onde. Devia haver
outra entrada para a caverna.
Bell parou pouco atrás de Perry. Acendeu a
lanterna que trazia na mão e iluminou a grande caverna. A primeira coisa que viram
foi uma fileira de corpos imóveis, pouco maiores que os dos homens, mas completamente
diferentes. O formato de inseto era inconfundível.
De repente Bell soltou um grito de pavor. A
mão que segurava a lanterna começou a tremer.
Perry teve de esforçar-se para superar o choque
no espaço de poucos segundos. Estava preparado para um encontro pessoal com os Deformadores
Individuais, mas a realidade era muito pior que a imaginação.
Bem à frente dele, a menos de dois metros de
distância, estavam dois dos monstros extraterrenos, cujo objetivo era a conquista
da Terra. Não, nem era isso. Destruiriam a Terra sem a menor contemplação, já que
não precisavam dela. Simplesmente não toleravam a existência de qualquer outra raça.
Seus atos eram comandados pelo instinto da destruição.
As duas feras tinham o aspecto de gigantescas
vespas. Havia o estreitamento na região da cintura, e os seis membros também se
encontravam presentes. Dois deles serviam de pernas, pois mantinham a posição ereta.
Os grandes olhos emitiam um brilho traiçoeiro. Duas antenas brilhantes executavam
movimentos nervosos por cima da cabeça pontuda. A couraça que cobria o peito parecia
dura e firme.
Perry não refletiu.
Dirigiu o projetor mental contra os dois monstros
e ordenou-lhes que se pusessem de costas para ele. Esperava que a tentativa fosse
coroada de êxito, mas não pôde deixar de suspirar aliviado quando notou que os dois
DI executaram a ordem sem hesitar. Isso significava que sua estrutura cerebral era
semelhante à dos homens. Essa circunstância representava o fator decisivo na guerra
entre os homens e os Deformadores Individuais.
— Saiam da caverna e obedeçam às ordens de
Tako Kakuta — continuou, transmitindo logo suas instruções ao japonês. — Esperem
lá fora até que eu chegue.
Quando Tako passou perto de Bell com os dois
inimigos reduzidos à impotência, o engenheiro geralmente destemido não pôde evitar
um calafrio. Teve a impressão de que a morte acabara de roçar em seu corpo.
— Nunca conseguimos aproximar-nos tanto destes
seres — disse Crest numa débil tentativa de justificar os fracassos de sua raça
na luta contra os DI. — Nunca acreditamos que o projetor mental pudesse agir sobre
eles.
— Pois eu acreditei, mas não sabia — disse
Perry, ressaltando uma diferença fundamental entre os terrenos e os arcônidas. —
A transformação da crença em saber exige certa dose de energia, de que os arcônidas
não dispõem mais.
Thora lançou um olhar de nojo para a fileira
de corpos imóveis. O radiador energético tremia em sua mão. Perry adivinhou suas
intenções.
— Ainda não, Thora — advertiu. — Com isso criaríamos
um perigo tremendo. Se destruirmos estes corpos, em número de vinte e dois, tangeremos
vinte e dois homens desmaterializados para o nada. Só poderão retornar aos seus
corpos se os DI os abandonarem. E estes nunca fariam isso, pois não teriam outro
lugar para abrigar-se. Só poderemos destruir o corpo de um DI quando seu espírito
tiver retornado a ele. Quando isso acontecer, não deveremos perder tempo.
— Vinte e dois homens? — respondeu Thora, esticando
as palavras. — Será que uma batalha ganha não vale vinte e dois homens?
— Da minha parte não hesitaria em sacrificá-los
— respondeu Perry em tom soturno. — Mas não se trata disso. E não há necessidade
de praticarmos um ato dessa espécie. Quero impedir que vinte e dois DI sem corpo
façam das suas sobre a Terra. Compreendeu? Alguém deve ficar aqui, para observar
o retorno dos DI. Assim que perceber que um destes corpos se move, deve destruí-lo.
Thora confirmou com um lento aceno de cabeça.
Estava compreendendo. A expressão de nojo apagou-se em seus olhos, sendo substituída
por algo diferente, que Perry já havia observado nela. Era uma espécie de admiração
e respeito.
“Respeito por quem?”, perguntou Perry de si
para si. Dele mesmo ou da humanidade? Isso seria um progresso enorme, muito maior
que aquele representado pela batalha ganha contra os invasores. Mas era possível
que a luz pouco intensa da caverna produzisse uma ilusão. De qualquer maneira era
bem possível que Thora modificasse sua opinião. Afinal, a retificação de um erro
constitui privilégio das criaturas inteligentes, e não havia dúvida de que Thora
era inteligente.
— Quem vai ficar aqui? — perguntou em tom hesitante.
Perry sorriu.
— Acho que Bell seria o homem indicado.
Não pôde prosseguir. Bell soltou um grito apavorante
e apontou para um dos vultos que começava a mover-se. O ser monstruoso ergueu-se
ligeiramente e seus olhos brilhantes lançaram um olhar inexpressivo para a luz ofuscante
da lanterna trêmula de Bell. Perry tocou no braço de Thora.
— Se desejar pode destruí-lo, Thora. Lembre-se
de que os DI são inimigos mortais de sua raça. Se não conseguirmos detê-los, acabarão
penetrando em todo o império dos arcônidas para derrubá-los de sua posição de mando.
Não hesite em matar esse monstro. Há poucos minutos você não desejava outra coisa.
Num gesto lento a arcônida ergueu a arma e
dirigiu-a para a vespa gigante cujos olhos negros fitavam a luz com uma expressão
estúpida. A visão transmitia tanto pavor e perigo que Thora não demorou em transformar
sua intenção em realidade.
O raio ligeiramente violeta da arma, que não
fora regulada para a potência plena, atingiu o corpo do monstro. A dor súbita arrancou
o DI da letargia inicial. Mas qualquer iniciativa teria de vir tarde. O monstro
nem teve tempo de transmitir uma mensagem de advertência à nave oval estacionada
além da atmosfera terrestre.
Um furo incandescente surgiu na couraça do
peito e o corpo insetiforme desabou. Thora baixou o radiador.
— Então? — perguntou Perry em tom indiferente.
— Foi... foi horrível — confessou Thora, entregando
a arma a Perry. — Não conseguiria fazer isso mais uma vez.
— Pois isso terá de ser feito mais vinte e
uma vezes — disse Perry, e passou a arma a Bell, que a recebeu com um visível desagrado.
— Bell, você sabe o que tem que fazer.
— Não fico aqui sozinho! — protestou Bell.
— Tako ficará com você — tranqüilizou-o Perry.
— É um consolo muito fraco — resmungou Bell.
— Quando ele sentir o chão esquentar embaixo dos pés, dará um dos seus pulos para
pôr-se do lado de fora.
Pegou o radiador com uma cara furiosa. Na outra
mão segurou a lanterna, deixando a luz deslizar sobre os insetos imóveis.
— Nossa missão ainda não está concluída — disse
Perry, antes de sair da caverna. — Ainda existem pelo menos vinte e um DI investidos
nos corpos de homens influentes, que estão empenhados em atirar a Terra no caos
e na destruição. Temos de localizá-los. Uma vez que conhecemos todos, não haverá
problema. Acho que poderei vir apanhá-lo hoje de noite ou amanhã de manhã, Bell.
Vou transmitir instruções a Mercant e ao exército dos mutantes. Divirta-se! Tako
o ajudará a espantar o tédio.
* * *
No instante em que Ernest Ellert tocou a chave
fatídica, uma coisa estranha aconteceu. O mais estranho foi que percebeu tudo, pois
não perdeu a consciência por um segundo sequer.
Uma dor terrível atravessou seu corpo, mas
logo passou. A sala mergulhou num vazio sem fim. Reflexos coloridos rodeavam-no,
aproximando-se e afastando-se. Sons indefinidos, abstratos e pouco melódicos, chegaram-lhe
aos ouvidos — ou aquilo que os substituía. As impressões sucediam-se numa seqüência
rítmica, como se ele tivesse penetrado nas pulsações do universo.
Acima e abaixo dele só existia o vazio. Não
encontrou nada em que pudesse apoiar-se. Teve a impressão de que a grande distância
passava um sol cercado por planetas turbilhonantes. Vias lácteas giravam lentamente
em torno do seu próprio eixo e desapareciam no espaço.
Numa velocidade inconcebível Ernst Ellert atravessava
o fluxo do tempo. Perdera todo o controle sobre o mesmo. Numa queda desabalada precipitou-se
no infinito, que nada tinha a ver com a matéria. O presente ficou atrás dele tal
qual a Terra fica atrás de um raio de radar que corre para o espaço. Apenas a uma
velocidade muito maior.
Não havia nada que pudesse deter a queda para
o futuro.
Subitamente sentiu chão firme sob os pés. A
materialização foi tão abrupta e inesperada que caiu ao solo e perdeu a consciência.
Nunca saberia dizer por quanto tempo ficou estendido. Mas ao acordar sentiu seu
corpo. Teria voltado ao presente, ou será que transportara o corpo para o futuro?
Logo abandonou a indagação.
Milhões de anos deviam ter decorrido, pois
assistira à formação e à destruição de segmentos completos do universo. Nunca poderia
viver tanto.
Mas possuía um corpo.
Sentiu a pelica sedosa e assustou-se. Quando
resolveu abrir os olhos, encontrou a confirmação das suposições mais ousadas. Seu
espírito, atirado para o futuro mais longínquo, encontrara um novo abrigo. Mas não
fora acolhido num corpo humano.
O monstro possuía quatro pernas e um grau reduzido
de inteligência, que cabia facilmente naquele crânio, ao lado do intelecto de Ellert.
Um pêlo macio cobria o corpo.
“Sou um urso”, pensou Ellert, todo confuso.
Mas logo reconheceu seu engano.
Subitamente uma voz fez-se ouvir dentro dele.
— Sou Gorx — disse a voz em tom apático. —
Quem é você?
Ellert levou um tremendo susto, mas seu pensamento
logo respondeu:
— Sou Ellert. Você não se admira de me ver
aqui?
— Por quê? Não é a primeira vez que recebemos
a visita de gente vinda do universo.
— Onde estou?
— Nosso mundo é chamado de Gorx — foi a resposta.
— E como é o nome do sol de vocês?
— Gorx.
Ellert não compreendia.
— Aqui tudo se chama de Gorx?
— Tudo se chama de Gorx, porque tudo é Gorx.
Esta explicação levou Ellert à beira da loucura.
Como poderia saber para onde tinha sido tangido pelo destino? Ou seria esta a Terra
que existiria dentro de milhões de anos? Devia apurar ao menos isso. Mas desistiu
antes de tentar. Sabia que o choque produzido pela morte orgânica não o tinha atirado
apenas através da dimensão do tempo, mas também através do espaço.
Concentrou-se e abandonou o corpo de Gorx.
Viu abaixo de si um ser desajeitado que rastejava
sobre o chão granítico. Na parede vertical da rocha havia entrada negras que davam
para cavernas.
Ali não obteria resposta às suas indagações.
Ali não!
Voltou a concentrar-se. O mundo desapareceu
aos seus pés, cedendo lugar ao infinito. Voltou a precipitar-se pela torrente do
tempo, desta vez para trás. Quando parou, flutuava no nada.
Como poderia orientar-se?
Não havia nenhum ponto de referência. Não passava
de uma minúscula gota no oceano, e deveria encontrar um ponto bem definido em qualquer
parte do litoral de um dos seis continentes, e isso num instante determinado, medido
em termos de segundos.
O que importava não era tanto a questão de
onde se encontrava, mas a pergunta angustiante de quando se encontrava.
E não havia nenhuma resposta a esta pergunta.
Talvez um dia a eternidade lhe daria essa resposta.
E foi assim que Ernest Ellert, o prisioneiro
da eternidade, começou sua busca de milhões de anos, à procura do presente.
VI
Os robôs tinham terminado o trabalho. O poço
de cinqüenta metros de profundidade penetrava no solo pedregoso do deserto de Gobi.
A matéria endurecida nas paredes do poço, que tinha a consistência do aço, protegeria
o mesmo para todo o sempre contra a ação das intempéries. O lençol subterrâneo de
água jamais penetraria no mesmo. No fundo do poço Rhodan mandou escavar uma câmara
retangular, onde foram armazenadas reservas de oxigênio, material de informações,
instruções e câmaras reservatórios de energia. Um dispositivo automático de alarma
garantiria a pronta atuação em caso de necessidade.
No centro da câmara havia um leito. Um dispositivo
de alarma ligado a ele tinha o aspecto de um mecanismo complicado. Esse mecanismo,
uma vez ligado, entraria em ação assim que no interior da câmara um homem começasse
a respirar.
Esse homem era Ernst Ellert.
Colocaram-no sob uma série de instrumentos
eletrônicos. Grampos metálicos envolviam os tornozelos e o pulso esquerdo. Um capacete
cobria a cabeça. Perto da sua boca havia um tipo de espelho conectado com células
anímicas. Qualquer sopro da boca bastaria para acionar todo o mecanismo.
Rhodan erigira um mausoléu para Ellert como
jamais homem algum o havia recebido. Mas desconfiava de que Ellert não era um simples
mortal na acepção comum do termo. Bem no seu íntimo nutria a convicção de que algum
dia, num futuro próximo ou distante, ainda se encontraria com o teletemporador.
Era bem possível que Ellert retornasse espontaneamente.
Se isso acontecesse, encontraria seu corpo intacto. Tanto o Dr. Fleet como o Dr.
Manoli afirmavam que esse corpo jamais entraria em decomposição. Era verdade que
todas as funções daquele organismo haviam cessado, mas a temperatura se mantinha
constante ao nível de vinte e cinco graus centígrados. Não baixou mais que isso.
Depois de lançar um último olhar sobre Ellert,
que jazia imóvel, Rhodan mandou que a câmara funerária fosse fechada. Dez minutos
depois o poço encheu-se de concreto, que logo endureceu. Não havia nada neste mundo
que pudesse perturbar o repouso do morto. Nada a não ser o dispositivo aparentemente
inofensivo preso ao teto da câmara, pronto para ser acionado a qualquer momento.
Se Ellert despertasse, poderia libertar-se dentro de meia hora. O que encontraria
quando isso acontecesse? Uma Terra que descrevesse sua órbita nas proximidades de
um sol rubro no qual poderia precipitar-se? Ou um planeta no qual uma invasão do
espaço houvesse eliminado toda forma de vida?
Era possível que jamais houvesse uma resposta.
Com o rosto pensativo, Perry Rhodan contemplou
os robôs que colocaram um bloco em forma de pirâmide no lugar em que se encontrava
o túmulo. Lá no horizonte luzia a esfera gigantesca da Good Hope.
* * *
Quando Bell chegou no seu planador a Gobi City,
nome que dava à base, suas feições eram sombrias e fechadas. Nas últimas vinte e
quatro horas extinguira a vida de vinte e um seres. Procurava tranqüilizar sua consciência,
lembrando que não se tratava de vidas humanas. Mas eram vidas. Teria o direito de
destruí-los?
Tivera tempo de discutir o assunto com Tako,
mas não chegaram a qualquer conclusão definida. Sem dúvida haviam agido em legítima
defesa. Se não tivessem destruído rapidamente os DI que retornavam ao seu corpo,
eles teriam alarmado a nave oval que realizava evoluções bem acima da Terra. Ou
então se teriam apossado dele e de Tako.
Rhodan não tinha razão. Não convinha usar a
menor contemplação, e a mesma se tornaria muito perigosa. Ao atacarem a Terra os
invasores assumiram um risco. Uma vez que foram derrotados, deviam suportar as conseqüências.
Nem por isso teriam que desistir da luta.
A nave oval causava preocupações a Bell. Perry
Rhodan tinha sua opinião a respeito:
— Com o projetor mental consegui reduzir os
prisioneiros a um estado de sono hipnótico. Manoli e Haggard examinaram-nos. Pelo
que soube, os dois médicos descobriram diferenças extraordinárias em relação ao
corpo humano. Os DI não conhecem o uso da língua no sentido humano.
São telepatas. Uma parte considerável de seu
cérebro consiste num complicado emissor e receptor orgânico. Receamos que estejam
em condições de manter contato a distância de muitos anos-luz.
— Conseguiu falar com eles? Em sentido figurado,
quero dizer.
— Consegui manter contato com esses seres através
de Marshall.
— Qual foi o resultado? — perguntou Bell em
tom de expectativa.
— Não conseguimos muita coisa — respondeu Perry.
— Eles são estúpidos. Só o projetor mental fez com que relatassem algo, mas não
poderíamos descobrir mais do que eles sabem. Pretendiam destruir a Terra. É isso
mesmo: tinham a intenção de destruir nosso planeta. Não têm qualquer interesse político
ou econômico por nós, e muito menos foram guiados por um motivo desse tipo. Apenas
não toleram quem quer que seja ao seu lado. É uma concepção muito simples e drástica,
não é? Não precisamos carregar nenhum escrúpulo moral se resolvermos golpear com
a mesma violência. Serão eles ou nós, a questão é esta.
— Mais alguma coisa?
— Fiz com que se colocassem em contato com
o comandante de sua nave, evidentemente sob vigilância contínua, para que o informassem
sobre a invasão malograda. Marshall inseriu-se na conversa telepática e entendeu
todos os detalhes. O comandante ordenou-lhes que se libertassem imediatamente. Quando
lhe disseram que isso era impossível em virtude da influência hipnótica a que estavam
submetidos, ordenou-lhes que se suicidassem. Naturalmente impedi isso através de
uma contra-ordem imediata. Dessa forma ainda consegui descobrir que a nave deles
pousou em algum ponto na Lua e pretende permanecer por lá. Os DI aguardam reforços.
Acho que seria inútil procurá-los na Lua. Se tiverem o cuidado de não se expor,
nunca os encontraremos. Mas jamais devemos reduzir nossa vigilância. De qualquer
maneira, acredito que por enquanto eles nos deixarão em paz.
— Será a calma antes da tempestade — ponderou
Bell. Evidentemente não estava satisfeito com o resultado da batalha. No seu entender
a vitória não fora completa. — Um belo dia ajustarão contas conosco.
— Até lá teremos aperfeiçoado nossas armas
defensivas e apurado nossos métodos de luta. Não se preocupe, Bell. Ellert apontou-nos
o caminho certo de lidar com eles. Antes de mais nada devemos observar esta regra:
quem encontrar um DI na sua forma natural deverá matá-lo imediatamente.
Bell inclinou a cabeça.
— Quem vai matar os dois prisioneiros?
Perry Rhodan deu um sorriso indiferente.
— Usei o projetor mental para evitar a execução
da última ordem do comandante. Assim que terminou o interrogatório, libertei os
dois.
— E então?
— Executaram prontamente a ordem de seu comandante.
Sabe que num ponto têm uma semelhança extraordinária com as vespas? Possuem um ferrão
muito venenoso...
* * *
Mercant só abandonava sua fortaleza subterrânea
da Groenlândia em caso de necessidade extrema, e isso mesmo a contragosto. Geralmente
a saída daquele abrigo seguro prenunciava acontecimentos bastante desagradáveis.
Hoje o caso era diferente. Ao entrar no avião
pequeno, mas muito veloz e transmitir suas instruções ao piloto, tinha a impressão
de estar partindo para uma viagem de férias. Esse sentimento não o abandonou quando
andou pela Quinta Avenida de Nova Iorque na direção norte e parou em meio ao torvelinho
de gente, para contemplar o arranha-céu de vinte e dois andares que se encontrava
do lado oposto da rua.
Entre o sétimo e o nono andar viam-se três
letras gigantescas, G, C e C. Então a sede da General Cosmic Company ficava atrás
dessas janelas? Se quisesse ser sincero consigo mesmo, Mercant teria de reconhecer
que se sentia decepcionado. Esperava que Rhodan ao menos já tivesse adquirido o
edifício inteiro. Bem, talvez seus conhecimentos em questões de negócios fossem
muito reduzidos para que pudesse formular qualquer juízo a este respeito.
No elevador a sensação de férias foi substituída
por uma pressão desagradável no estômago. Deu-se conta de que mais uma vez teria
de carregar a responsabilidade em dois ombros diferentes. Bem no íntimo sentia-se
ligado aos princípios e objetivos de Perry Rhodan, mas seu dever profissional obrigava-o
a cumprir a missão que lhe fora confiada pelo governo de seu país, fazendo uma visita
à GCC, que correspondia a um ato de espionagem.
Quando disse seu nome à secretária Lawrence,
o brilho amável que surgiu nos olhos da jovem quase o fez vacilar na execução do
seu projeto. Mas logo se lembrou de que o bom êxito do empreendimento só dependia
dele. Se não gostasse ou alguma coisa o contrariasse, diria a verdade a Homer G.
Adams, ou de preferência ao próprio Rhodan.
O diretor da poderosa empresa era um homem
magro e pequeno, que recebeu Mercant com uma cortesia extrema. A essa hora ninguém
desconfiaria de que ele saíra recentemente de uma prisão inglesa, onde fora parar
em virtude das enormes falcatruas que praticou. Era o que dizia a sentença condenatória.
Mercant apertou a mão de Homer e sentou na
poltrona que este lhe ofereceu. Aceitou o charuto e agradeceu, embora detestasse
charutos. Homer reclinou-se confortavelmente.
— O que me dá o prazer dessa visita inesperada,
Mercant? Foi o chefe que o enviou?
São três coisas ao mesmo tempo, pensou Mercant,
admirando a formulação hábil que Adams sabia dar às perguntas. De início perguntara
sobre o motivo da visita. Ao mesmo tempo Homer exprimiu sua estranheza porque Mercant
não se fizera anunciar em tempo. Por fim havia uma pergunta-armadilha: se Rhodan
estava a par do encontro. Era claro que Rhodan teria avisado Homer se tivesse conhecimento
da visita. Mercant sentiu que teria de usar muita cautela para não cair em uma armadilha.
— Rhodan não sabe que estou aqui — disse, mantendo-se
fiel à verdade. — Vim a pedido do governo de meu país. Gostaria de receber algumas
informações. — Era conveniente mostrar logo as cartas. Afinal, o governo do Bloco
Ocidental e Perry Rhodan já não se encontravam em estado de guerra. — Trata-se da
construção da frota espacial conjunta.
Homer ajustou os óculos de aros de ouro, que
lhe davam um aspecto grotesco e antiquado.
— A frota espacial? Acho que o tema já foi
vasculhado pelos peritos. Para ser franco, não entendo muito do assunto. Só estou
interessado nos aspectos financeiros do projeto.
— Não vim para importuná-lo com perguntas sobre
as minúcias do mecanismo propulsor — disse Mercant com um sorriso condescendente.
— Este ponto não me interessa, porque sobre essa matéria devo entender tanto quanto
você. Como sabe, nosso governo contribuiu com a importância de dezoito bilhões de
dólares para o financiamento das fases iniciais do projeto. Em quanto importou a
contribuição dos outros governos?
Homer ergueu as sobrancelhas.
— O capital total atinge a cifra de setenta
bilhões de dólares — disse no tom de quem fala na importância de cinqüenta centavos.
Mercant não conseguiu disfarçar o espanto.
— Tanto? — disse em tom admirado. — Não esperávamos.
— Eu também não esperava — confessou Homer
sem rodeios. — O fato é que a execução do projeto já foi iniciada. Em todo mundo
estão surgindo novas usinas e centros de produção. Nossos homens trabalham dia e
noite nos escritórios. E ao falar em nossos homens refiro-me aos homens do Ocidente,
do Oriente e da Ásia. Pela primeira vez na história os habitantes de nosso planeta
estão empenhados na solução de um problema comum. A invasão dos insetos, que acaba
de ser repelida, deixou patente a importância da cooperação de todos. Qualquer homem
que se deixasse envolver por motivos nacionalistas, mesmo que só em pensamento,
seria um criminoso perante a humanidade. A tolice de um único homem pode abalar
a união que finalmente foi alcançada. De qualquer maneira alguns decênios se passarão
antes que toda a desconfiança seja eliminada. Mercant, sei que você está conosco,
mas acho que devia romper as últimas amarras que o constrangem a uma atitude contrária
às suas próprias convicções. Compreendeu o que quero dizer?
Mercant fez que sim.
— Compreendi perfeitamente. Já falei com Rhodan
sobre o assunto. Acontece que ele é de opinião que por enquanto devo permanecer
no meu cargo, já que não sabemos quem o ocupará depois de mim. O mal menor sempre
é preferível.
— É verdade — admitiu Homer sem pestanejar.
— Mas prossigamos. Nosso complexo científico remete pedidos a todo o mundo. As grandes
usinas, que em alguns casos receberam conjuntos laminadores inteiramente novos,
já estão produzindo peças da futura frota espacial. Sem que o saibam, os homens
estão construindo canhões de radiação. Aqui se fabrica uma parte, ali outra. Só
depois de montados constituem uma arma; enquanto separadas as peças não passam de
fragmentos desconexos, que ninguém consegue identificar. A mesma coisa acontece
com as naves. Posso assegurar-lhe que dentro de seis meses estaremos em condições
de montar em poucos dias nada menos que dez destróieres espaciais capazes de atingir
a velocidade da luz. A esta altura já deve ter notado o que a colaboração de toda
a humanidade pode realizar. É claro que por enquanto ninguém sabe disso, e seria
conveniente que você também não passasse adiante as informações que ora lhe estou
transmitindo.
Mercant respondeu com um ligeiro aceno de cabeça.
Homer observava-o atentamente. Atrás dos óculos, os olhos astutos emitiram um brilho
zombeteiro. Parecia ter consciência do dilema moral em que acabara de precipitar
Mercant. E isso parecia dar-lhe um prazer secreto.
— Além disso fornecemos as máquinas-ferramenta
que ainda não são conhecidas na Terra — prosseguiu em tom despreocupado, fornecendo
informações que Mercant só esperava conseguir com grande esforço. — Elas são construídas
segundo nossas instruções, em usinas situadas em outros continentes. Ainda há os
materiais que Rhodan foi buscar na Lua. Como sabe, a grande nave exploradora dos
arcônidas só foi destruída na parte externa. Os compartimentos de carga situados
no interior dela permaneceram intactos. E é ali que se encontram os segredos da
técnica dos arcônidas.
Mercant voltou a acenar com a cabeça. Homer
acabara de tocar no ponto básico. Na Lua havia tesouros incomensuráveis, mas o Bloco
Ocidental não dispunha de nenhuma nave com que pudesse buscá-los.
Ou será que dispunham?
Mercant sabia que no porto espacial de Nevada
se desenvolvia uma atividade febril. Era a primeira vez que o serviço de segurança
do general Pounder impedia a entrada até mesmo dos encarregados de Mercant. Naquele
lugar se passava alguma coisa de que o mundo não devia ter conhecimento.
Subitamente tudo parecia clarear no espírito
de Mercant. Raciocinou com uma rapidez incrível. Ligou sua incumbência, aparentemente
inofensiva, com aquilo que Homer acabara de dizer. E compreendeu que o governo do
Bloco Ocidental não cumpria o acordo celebrado com Rhodan tão estritamente como
seria de esperar.
* * *
O general Pounder e o major Maurice caminhavam
pelos campos de provas do porto espacial de Nevada. Aproximaram-se de um dos gigantescos
pavilhões que brilhavam numa extensa fila sob o sol escaldante do meio-dia.
A atividade febril que pouco antes se notava
ali, cessara quase por completo. Não se via quase ninguém. Aqueles dois homens não
conseguiram fugir à impressão de serem os últimos elementos destinados a uma deportação
em massa.
Era ali que fora construída a Stardust, e mais
tarde o foguete que destruíra o cruzador espacial dos arcônidas estacionado na Lua.
Ao chegar à linha de montagem, Pounder percebeu
que as aparências enganavam. O pavilhão não possuía uma única janela, ao contrário
dos edifícios próximos, que lembravam gigantescas estufas. Ali a luz solar penetrava
desimpedidamente. Mas aquele pavilhão fora isolado quase que hermeticamente do mundo
exterior.
Depois de um exame demorado dos documentos,
a sentinela abriu a porta apenas o necessário para que os dois homens pudessem passar.
Uma vez lá dentro, sentiram-se ofuscados por
um instante. No pavilhão não havia nenhuma divisão. Abria-se diante dos dois em
toda a sua extensão de duzentos metros de comprimento e quase cinqüenta de altura.
Os andaimes e os guindastes permitiam o acesso a todos os pontos. As talhas transportadoras
mergulharam no ligeiro declive de um túnel, que não vinha à tona do lado de fora.
Ao contrário da calma indolente que reinava
no terreno do porto espacial, ali notava-se uma atividade febril. O isolamento não
deixava escapar o menor ruído para o lado de fora.
Homens passavam apressadamente sem dispensar-lhes
a menor atenção. Peças metálicas polidas e reluzentes transportadas em vagonetas
desapareciam no interior das construções que se erguiam no centro do pavilhão. Era
ali que se localizavam também os escritórios dos técnicos.
O general Pounder, que pela primeira vez levava
seu ajudante àquele pavilhão, parou de repente. Maurice, que se afastara ligeiramente
para dar passagem e uma pessoa, levantou os olhos. Teria parado, mesmo que Pounder
não se encontrasse no seu caminho.
Lá adiante um torpedo prateado jazia em posição
inclinada sobre uma rampa baixa. As vigias redondas enfileiravam-se ao longo da
linha do centro, e um guindaste acabara de mergulhar as chapas de um tanque cilíndrico
na escotilha de carga da parte superior.
A menos de cinqüenta metros viram a réplica
exata da Stardust, a nave espacial que conduzira Perry Rhodan, o primeiro homem
que pisou na Lua.
E não havia ninguém no mundo que soubesse da
sua existência.
* * *
Só quatro meses mais tarde, Perry Rhodan teve
certeza de que por enquanto os DI não se arriscariam a novo ataque. Quase chegara
a esquecê-los, pois o mundo vivia sob o signo da General Cosmic Company. Em todos
os lugares do mundo surgiam enormes fábricas que iniciavam a produção segundo as
instruções dos engenheiros e técnicos em planejamento.
Homer, sentado em seu escritório de Nova Iorque,
parecia uma enorme aranha envolvida na sua teia. As paredes estavam cobertas de
mapas nos quais haviam sido fincadas bandeirinhas com inscrições ininteligíveis.
Homer quase só vivia junto ao aparelho de rádio e ao televisor. Vez ou outra até
chegava a ir para a cama com eles.
O poderio do complexo por ele levantado crescia
a cada dia. Não parecia estar muito distante o dia em que um certo Benjamim Wilder
anunciaria que o mundo lhe pertencia, porque ele o havia financiado. É que Benjamim
Wilder estava atrás da GCC, e ninguém suspeitava de que Benjamim Wilder apenas era
o nome suposto de Perry Rhodan.
Crest não chegou a entender muito bem essa
evolução vertiginosa. Subestimara o dinamismo da natureza humana, embora a julgasse
capaz de alguma coisa. Quando pouco antes do pôr do sol deixaram os bangalôs residenciais
para respirar um pouco de ar puro, andou à frente de Rhodan quase sem dizer palavra.
Bell juntou-se a eles. Também não disse muita coisa.
Num gesto quase inconsciente dirigiram seus
passos para a pirâmide de três facetas que se erguia no deserto, abrigando um corpo
humano que aguardava o momento de ser chamado novamente à vida.
De longe viram um vulto esbelto diante da construção
alta e esguia.
Bell estreitou os olhos.
— Macacos que me mordam! — anunciou em tom
ligeiramente dramático. — Alguém quer depositar flores no túmulo de nosso amigo.
Ao reconhecer o vulto, Crest fez que sim. Perry
Rhodan não conseguiu reprimir uma exclamação de surpresa.
— É Thora! — disse. — O que está fazendo por
aqui?
— Pergunte a ela — sugeriu Crest.
Sentia-se feliz pela distração. As conferências
ininterruptas representavam uma carga pesada para seus nervos.
Thora olhou para eles. Seus olhos encontraram
os de Rhodan. Pela primeira vez este não descobriu nenhum traço de ironia e desprezo
nos mesmos. Neles havia uma pergunta titubeante, que talvez ela se tivesse formulado
poucos instantes antes. Sentiu o embate de uma série de sensações estranhas, mas
nenhuma delas era de natureza negativista.
Foi ela que rompeu o silêncio assim que os
três chegaram ao lugar em que se encontrava.
— É estranho que nos encontremos aqui fora,
mas talvez não seja nenhum acaso. Perry Rhodan, com você não acontece o mesmo que
se dá comigo? Às vezes tenho a impressão de que Ellert ainda se encontra entre nós,
invisível.
Perry respondeu com um aceno de cabeça. Não
sabia explicar como também ela tivesse sentido a mesma coisa. Certa vez Bell manifestara
a opinião de que o espírito de Ellert não estivesse em condições de retornar ao
corpo que lhe pertencia, e por isso vagasse sem destino pela dimensão do presente.
Rhodan e Crest, porém, estavam de acordo em que, se Ellert ainda existisse em estado
consciente, não devia encontrar-se no presente. Quando procurou fugir à morte orgânica,
o choque elétrico o atirara a uma outra dimensão, da qual não havia nenhum caminho
de volta. Não havia como conjeturar sobre se essa dimensão se localizava no passado,
no presente ou no futuro, mas se estivesse situado no presente. Ellert poderia ter
estabelecido contato com eles. Os dons dos mutantes ofereciam possibilidades amplas
para isso.
— Só em sentimento ele se encontra entre nós,
Thora — disse Perry com a voz tranqüila. — Um dia o alcançaremos, se é que o fluxo
do tempo não o arrastou para muito longe. Aliás, por que está interessada no destino
de Ellert? Afinal, era apenas um ser humano.
Thora procurou ocultar o embaraço.
— Rhodan, o reconhecimento de um erro constitui
o privilégio das raças inteligentes. E os arcônidas são inteligentes. Dessa forma
meu comportamento se ajusta ao meu nível mental, se reconheço que subestimei os
habitantes deste planeta. Mas nem por isso os reconheço como seres com direitos
iguais aos nossos.
— Ninguém vai exigir isso de você. Ao menos
por enquanto — disse Perry em tom sério. — A revisão de sua atitude hostil já representa
um grande progresso. O fato é que lutamos e vencemos em comum. Isso constitui um
elemento de ligação.
Crest deu alguns passos e parou perto de Thora.
— Agradeço-lhe pelo que você acaba de dizer,
Thora. Com essas palavras você construiu uma ponte dourada que um dia, num futuro
distante, representará o único caminho que conduz à conservação do império galático
dos arcônidas. É bem possível que ainda chegue o dia em que Rhodan também tenha
que passar por ela.
— Se a ponte é de ouro, quero estar por aí
nesse dia — observou Bell sem o menor dramatismo. — O problema é se conseguirei
viver até lá.
— Não vejo por que não podemos prosseguir nas
pesquisas com a Good Hope — disse Crest em tom sério. — É verdade que já não dispomos
do grande cruzador. Mas mesmo que a Good Hope não nos permita retornar à pátria,
talvez possamos encontrar o planeta da vida eterna. Se tivermos sorte.
Seguiu-se um silêncio constrangedor, que foi
rompido por Rhodan.
— Temos tarefas mais urgentes, ao menos por
enquanto — disse, sacudindo a cabeça. — Os mutantes têm de ser treinados. Para isso
pretendo construir uma base em Vênus. Nossa próxima tarefa é esta. Nos próximos
dias viajarei para Vênus a fim de preparar o acampamento pioneiro. Nossas primeiras
observações levam à conclusão de que por lá não encontraremos qualquer forma de
vida inteligente. Quando tudo estiver em ordem na Terra teremos tempo de partir
em busca da vida eterna. Mas, para falar com franqueza, não acredito que tenhamos
êxito nisso.
— O planeta existe! — afirmou Thora. O fogo
de um entusiasmo que quase chegava a ser fanático ardia em seus olhos. — Os participantes
de expedições que retornaram de lá relatam isso. Mas o segredo é guardado a sete
chaves. Se encontrarmos o mundo da imortalidade, teremos de enfrentar uma luta feroz.
— Só acredito quando tiver a prova diante de
mim.
— Mas seria muito bom se pudéssemos livrar-nos
do medo do túmulo — interveio Bell. — De qualquer maneira não comunicaria nada à
companhia em que fiz meu seguro de vida, se me tornasse imortal.
Ninguém riu. Bell virou-se, um tanto ofendido.
Em atitude pensativa contemplou a pirâmide, envolta pelos raios dourados do Sol
que entrava no ocaso.
Perry aproximou-se de Crest e Thora. Estendeu
a mão à mulher.
— Será que daqui em diante podemos ser amigos?
— perguntou com a voz um tanto insegura.
Por um segundo a arrogância costumeira brilhou
nos olhos frios daquela mulher, mas finalmente apertou a mão que lhe era oferecida.
— Perry Rhodan, eu o admiro, por mais que o
tema. Mas você há de compreender que um sentimento desse tipo não pode gerar uma
verdadeira amizade. Sei que precisamos de você; temos de completar-nos mutuamente.
Será que uma situação destas pode servir de base a uma verdadeira amizade? Além
de tudo, Crest me constrange. Pelo que vê, só aperto sua mão porque sou obrigada
a fazê-lo. Está satisfeito?
Perry fez que sim.
— Por enquanto estou. Ainda chegará outra oportunidade
em que você terá que apertar minha mão, e então os motivos serão diferentes. Até
lá tenho de ficar satisfeito com aquilo que você me oferece. E fico. Permite que
lhe agradeça?
Por um instante os olhares das duas criaturas
fundiram-se, e suas mãos congregaram-se numa unidade. Talvez fosse um momento solene,
se nesse instante preciso Bell, com um profundo suspiro, não tivesse murmurado uma
palavra:
— Amém...
Aquela palavra retirou toda a solenidade ao
pacto que acabara de ser concluído. Talvez apenas porque havia sido pronunciada
por Bell.
O sol mergulhou sob a linha do horizonte. Subitamente
a luminosidade do túmulo apagou-se. Parecia que uma chama invisível fora apagada
no metal de que era feita a pirâmide.
No céu a primeira estrela começou a espalhar
sua luminosidade.
Sem que tivesse consciência disso, Perry Rhodan
enxergou naquele signo um prognóstico otimista para o futuro distante.
* * *
Perry Rhodan
está decidido a realizar uma segunda viagem a Vênus, a fim de montar uma base da
Terceira Potência naquele planeta.
Para saber o que o aguarda, leia o oitavo volume
da coleção, Base em Vênus.

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