Autor
KURT MAHR
Tradução
RICHARD PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
O que pode uma criatura supostamente imortal querer dizer com a
palavra breve? Perry Rhodan não sabia dizer. A última
mensagem do desconhecido, que foi ter às mãos de Perry Rhodan durante a
expedição no passado do planeta Ferrol, não diz se ele, Perry, teria de
submeter-se logo à prova
através da qual alcançaria o segredo da vida eterna.
Mas o chefe da Terceira Potência sabe que a nova prova a que terá
de se submeter deixará longe tudo pelo que passara até então. Embora os dois
arcônidas já comecem a julgar o risco
excessivo, Perry Rhodan está disposto a persistir. E só essa firmeza pode
salvar a expedição, quando a mesma se encontra com Os Espíritos de Gol...
= = = = = = = = = = Personagens Principais: =
= = = = = = = = =
Perry Rhodan — Comandante da Stardust-III e chefe da Terceira Potência.
Reginald Bell — Ministro da segurança da Terceira Potência.
Thora e Crest — Únicos sobreviventes de uma expedição espacial do Grande Império
Arcônida.
Tanaka Seiko — Membro do Exército de Mutantes de Rhodan, reage a fenômenos
eletromagnéticos.
Capitão Chaney — Comandante de um girino.
Major Deringhouse — Acompanhante de Rhodan nas “excursões” realizadas na superfície do
planeta Gol.
Wuriu Sengu — Membro do Exército de Mutantes de Rhodan, possui visão raio-X.
1
— Comandante
a todos os girinos! Preparem seus veículos! A partida será às nove horas e
vinte minutos, hora de bordo. Repit...
A voz áspera
de Rhodan, lançada nos corredores da imensa nave pelos receptores do
equipamento de intercomunicação, romperam o silêncio que nas últimas horas
tomara conta da Stardust-III.
Era um
silêncio enganador, em cuja superfície fervilhara o nervosismo, talvez o medo,
mas sem dúvida a certeza de que se haviam envolvido em coisas que o cérebro
humano não poderia compreender. Nunca antes os quinhentos tripulantes da
Stardust-III perceberam com tamanha nitidez em que extensão o bem-estar e a
segurança dos que se encontravam na nave dependiam da capacidade de um único
homem: Perry Rhodan.
Entre esses
quinhentos homens havia muitos que nada sabiam sobre as finalidades das ações
planejadas por Rhodan. Este não julgara necessário esclarecê-los a esse respeito;
por isso surgiram boatos, que de início apenas mereceram o escárnio dos homens,
mas, superados por outros, ainda mais arrepiantes, acabaram sendo acreditados.
A nova ordem
de Rhodan representava nova fonte de sobressalto para duzentos homens da tripulação.
Mas depois de terem sofrido minuto por minuto daquelas horas enervantes de
incerteza, acharam preferível mergulhar de corpo inteiro no maior dos
sobressaltos a esperar mais um instante que fosse.
Os girinos
eram as oito naves auxiliares da classe da Good Hope que a Stardust-III trazia
a bordo. Ninguém se lembrava de quem inventara o nome. O fato é que ali estava
ele, e representava a palavra-chave que, no código de comunicações, designava
as naves de sessenta metros.
* * *
Os avisos de
que as naves estavam prontas para decolar não tardaram a chegar. Reclinado no
assento de piloto da sala principal de comando, Rhodan ouvia com o rosto
impassível as vozes saídas do aparelho de intercomunicação. Parecia que a
conversa não o interessava. Mas assim que o oitavo aviso havia chegado,
inclinou-se sobre o microfone e transmitiu suas ordens:
— Viajem de
acordo com os dados dos pilotos automáticos. Mantenham as naves na área do
alvo, em posição de espera, e examinem o espaço para verificar eventuais
alterações estruturais. Mantenham constantemente ativados todos os sensores
estruturais, e avisem imediatamente se perceberem qualquer modificação na
contextura espaço-temporal. A decolagem será realizada na hora combinada. Fim.
Com um
movimento abrupto desligou o intercomunicador. Quando se virou de golpe, o
assento rangeu.
A única
pessoa que se encontrava na sala além dele era Reginald Bell, seu companheiro
durante a primeira viagem à Lua, e que ainda continuava a sê-lo.
Bell esboçou
um sorriso, mas este não passou de uma contorção do rosto. Naqueles dias a
alegria não estaria espelhada no rosto de qualquer desses homens.
— O que está
esperando? — perguntou Bell. — Naves desconhecidas?
Por algum
tempo Rhodan contemplou-o em atitude pensativa. Depois sacudiu violentamente a
cabeça.
— Não, não
são naves — respondeu.
Bell
esperou. Esperou até perceber que Rhodan não lhe daria nenhuma explicação se
não perguntasse.
— Com os mil
demônios, o que é? — perguntou com a voz rude. — Você quer que eu adivinhe, ou
prefere contar?
Rhodan
continuou sério.
— Espero um
abalo estrutural — respondeu. — Não sei o que provocará o mesmo. O homem que
estamos seguindo está em condições de modificar a contextura espaço-temporal à
sua vontade.
Bell riu.
Não era um riso muito alegre.
— O homem! —
disse em tom de escárnio. — Gostaria de ver esse homem. Deve ter uma espiral
energética em vez do cérebro e dois conversores de tempo no lugar em que nós
temos, os braços.
— Pois vamos
vê-lo — disse Rhodan em tom tranqüilo. — E então saberemos se realmente tem uma
espiral energética.
Bell olhou-o
de baixo para cima.
— Realmente
acredita nisso? Na minha opinião...
— Acredito,
sim! — interrompeu-o Rhodan. — Não sou nenhum idiota para lançar-me numa
aventura mortal contra minha melhor convicção.
Bell murmurou
alguma coisa que Rhodan não entendeu. Depois perguntou:
— Nossos
girinos devem verificar em que setores do espaço ocorrem os abalos, não é?
— Isso
mesmo!
Bell ficou
quieto por algum tempo. Depois realizou nova investida.
— Ouça,
chefe! No passado — é uma idéia maluca, no passado de dez mil anos atrás! —
você se apoderou de um cilindro metálico, abriu-o e procurou decifrar seu
conteúdo. Está convencido de que leu corretamente. O que você leu foi o
seguinte: “Aquele que quer encontrar o
caminho ainda tem permissão de desistir. Mas, se quiser prosseguir, saiba que
não receberá mais auxílio. Em breve, o espaço sofrerá um abalo...” e sei lá
mais o quê. Depois disso você some da vista de todo mundo, leva a grande
máquina positrônica à incandescência e nos aparece com a idéia de que todas as
naves auxiliares devem sair para localizar abalos estruturais no espaço. Não
devemos esquecer que numa série de registros tão complicados a possibilidade de
erro não pode ser excluída. Sendo assim, você não acha que nos envolvemos numa
tarefa que não conseguiremos levar a cabo?
Rhodan
ouvira-o com toda atenção. Bell se tornara sério, e ele sabia que esperava uma
resposta sensata.
— Não, Bell
— disse com a voz baixa e em tom persuasivo. — Estou convencido de que
conseguiremos.
De um
instante para outro a expressão do rosto de Bell alterou-se. Os lábios
contorceram-se e a cabeça com o cabelo ruivo inclinou-se numa atitude
combativa.
— Pois então
diga aos outros! — resmungou. — Quem a bordo desta nave ousaria opor-se às suas
ordens? Quem, a não ser os dois arcônidas?
* * *
Para o
capitão Chaney esse vôo representava um assunto um tanto ambíguo. Comandava o
girino número 5. Às nove horas e vinte minutos, hora de bordo, decolara da nave
Stardust-III juntamente com outros sete girinos. Encontrou no piloto automático
as rotas introduzidas pelo comandante Rhodan e, guiando-se por elas, dirigiu-se
a posição que lhe fora designada, e que não distava mais de uma unidade
astronômica do décimo quinto planeta de Vega.
Uma vez
atingido esse ponto, parou a nave, seguindo as instruções que recebera, e
manteve-se na expectativa. De início acreditara que nas próximas horas algo
haveria de acontecer. Mas as horas foram se passando e nada aconteceu; apenas,
o sol Vega que no momento da chegada do girino se encontrava a menos de
cinqüenta milhões de quilômetros, afastara-se mais alguns milhões de
quilômetros.
O capitão
Chaney deitou, tentando dormir um pouco; mas não conseguiu. Voltou a levantar,
tomou lugar no seu assento e lançou os olhos inflamados para as telas dos
instrumentos óticos e dos sensores estruturais.
O capitão
Chaney tivera poucas oportunidades de viajar numa nave desse tipo. Conhecia
toda ela, do lado de dentro e de fora, mas esse conhecimento não provinha de um
treinamento hipnótico intensivo, mas da simples prática visual.
Chaney
realizara alguns vôos de cruzeiro no sistema solar terrestre. Mesmo isso
representava uma dura provação para esse homem que um ano e meio antes ainda
voara como primeiro-tenente num caça supersônico a jato, e acreditava que a
Humanidade ainda levaria alguns decênios até que seus foguetes cuspidores de
fogo ao menos atingissem Marte e Vênus.
Por isso
havia momentos em que tinha a impressão de estar sonhando. Havia minutos em que
procurava se convencer de que aquilo por que estava passando não era verdade.
Mas nesse instante ouviu o som estridente de um sinal de alarma. Um instrumento
de localização emitiu um zumbido e acendeu suas luzes brilhantes. Voltou a
acreditar na realidade.
“Sou um sonhador”, pensou; sentia-se
cansado.
—
Localização ao comandante — disse uma voz entrecortada. — Objeto não
identificado vindo de dezoito graus horizontal, duzentos e sessenta e seis
graus vertical.
Chaney
sobressaltou-se. Deslocou o marcador da escala da tela principal para o ponto
dezoito graus H e duzentos e sessenta e seis graus V A tela tremeluziu e voltou
à posição de repouso. No centro surgiu um ponto fulgurante. Sua luminosidade
diminuía a intervalos regulares.
— O que é
isso? — perguntou Chaney com a voz áspera.
— Não consigo
identificar.
— Qual é a
velocidade?
— Vinte e
três mil metros por segundo. Vem em nossa direção.
— E a menor
distância?
— Três mil
quilômetros. Levará cerca de quarenta minutos.
Chaney
esperou. No espaço vazio três mil quilômetros eram uma distância pequena, à
qual devia ser possível reconhecer o objeto que atravessava o espaço emitindo
uma luminosidade variável.
Quarenta
minutos eram um tempo longo. Chaney forçou a vista até que sentiu os olhos
arderem, mas sua tela não era bastante exata para permitir a fixação dos
contornos do objeto.
A voz do
localizador voltou a soar.
— Alarma
falso. É o destroço de uma nave do tempo da invasão dos tópsidas. Trata-se de
uma nave ferrônia.
Chaney
sentiu-se logrado.
— Está bem —
disse com a voz cansada.
Levantou-se.
— Tenente
Forge, assuma o comando. Vou dormir um pouco. Acredito que ainda demorará um
pouco até que vejamos alguma coisa realmente interessante.
* * *
Com um
movimento enérgico Rhodan impôs silêncio.
— Vamos
começar do princípio! — disse, derramando sua irritação tanto sobre Crest como
sobre Thora. — Os senhores vieram numa nave exploradora. Provavelmente foi a
última que Árcon conseguiu pôr a caminho. Dirigiram-se a este setor da galáxia,
para procurar localizar o mundo em que esperam encontrar a solução do enigma da
conservação perpétua das células.
“De início a
expedição foi um fracasso. Mas, embora dessem várias voltas, acabaram
aproximando-se do objetivo em nossa companhia, e provavelmente não levaram
muito mais tempo do que teriam consumido se tivessem prosseguido sozinhos.
“Na arca
existente sob o Palácio Vermelho de Thorta encontramos alguns indícios.
Esforçamo-nos para seguir a pista, e encontramos novos indícios. Aproximamo-nos
do objetivo, passo a passo, e justamente agora pretendem desistir.
“Por quê?”
A pergunta
soou como uma chicotada. Bell, que estava sentado perto de Rhodan, encolheu-se.
Não se lembrava de já ter visto Rhodan tão zangado como se mostrava naquele
instante.
Crest não
respondeu. Manteve abaixada a cabeça alta e estreita e fitou o chão. Thora
chegara um pouco para a frente na sua poltrona e encarava Rhodan. Em seus olhos
vermelhos havia uma expressão de hostilidade.
— Pois vou
dizer-lhes por quê — prosseguiu Rhodan depois de algum tempo, um pouco mais
calmo. — Estão com medo.
A cabeça
encanecida de Crest ergueu-se num movimento súbito.
— E daí? —
perguntou com a voz baixa. — Acha que é covardia sentir medo numa situação como
esta?
— Acho que
sim — respondeu Rhodan. — E vou dizer-lhe por quê: acreditaram que obteriam o
segredo da vida eterna bem baratinho em algum ponto da galáxia. Alguém lhes
disse que o problema havia sido resolvido satisfatoriamente por uma raça não
identificada, que teria o maior prazer em revelar tudo.
“Já
verificamos que não é assim. Os seres que conhecem o segredo da conservação das
células sabem guardá-lo muito bem. Quem quiser descobri-lo terá de brigar com
eles, e terá de brigar segundo suas regras.
“Acontece
que um hábito de dezenas de milhares de anos fez com que acreditassem que tudo
teria de lhes cair na mão sem o menor esforço. Por isso querem abandonar o
jogo. Um belo dia, quando tivermos mais tempo, contarei a fábula da raposa que
achou as uvas muito azedas.
“No momento
apenas digo que fica inteiramente à sua vontade aguardar o fim da nossa ação lá
fora, em perfeita segurança, ou se preferem vir conosco.”
Thora
levantou-se de um salto. Reginald Bell conteve a respiração. Conhecia a
impetuosidade de Thora. Por um instante parecia que iria agarrar Rhodan pela
garganta. Deu dois passos em direção ao mesmo. Depois parou de ombros caídos.
— Seu
bárbaro!
Rhodan tirou
todo efeito à sua raiva, pois começou a rir.
— Se é que
reconhecer as leis da necessidade é um procedimento bárbaro, e a covardia deve
ser considerada uma atitude culta, prefiro mesmo ser um bárbaro.
Crest também
se levantou.
— Acho que o
senhor não se importará se refletirmos por algumas horas — disse em tom sério.
— Vale a pena quebrar a cabeça com o assunto. Examinarei seus argumentos,
Rhodan.
— Os
senhores só poderão dispor de algumas horas se nossas naves não derem sinal de
vida antes disso — respondeu Rhodan.
Crest
confirmou com um aceno de cabeça. Saiu lentamente. Thora parecia hesitar.
— Será que
já acabou de refletir? — perguntou Rhodan em tom irônico.
Thora
virou-se e saiu correndo. Atrás dela a porta de enrolar automática trancou-se
com um chiado.
* * *
O capitão
Chaney acordou com um ruído que nunca ouvira. Conseguira adormecer com algum
esforço e auxiliado por dois comprimidos. Não tinha a menor idéia de quanto
tempo permanecera na cama.
Levantou-se
e enfiou a cabeça pesada sob a torneira do camarote. Enquanto a água farfalhava
em torno de seus ouvidos, a voz metálica do intercomunicador começou a soar.
— Comandante
a toda a tripulação! Comandante a toda a tripulação! A nave está em alarma
número 1!
Chaney
cuspiu a água e saiu correndo.
Na sala de
comando o tenente Forge, de pé, ainda continuava com o microfone diante da
boca.
— O que
houve? — gritou Chaney. — Por que ninguém me acordou?
Forge provou
que havia passado por um treinamento rígido. Terminou a mensagem que estava
transmitindo pelo intercomunicador, descansou o microfone e ficou em posição de
sentido.
— Existem
fortes alterações estruturais na vizinhança imediata da nave. A meu ver uma
frota inteira de naves não identificadas deve ter completado a transição.
— Conseguiu
localizá-las?
— Ainda não.
Chaney
lembrou-se de que fora despertado por um ruído que não conseguira identificar.
Não ouvia mais nada.
— Que
barulho foi este há pouco tempo? — indagou.
— Não sei.
Provavelmente o casco da nave entrou em vibração.
— O casco
entrou em vibração? — gritou Chaney. — Não pôs a funcionar o envoltório
protetor?
— Pus, sim.
— Com os mil
demônios! Por que...
Quase foi
derrubado. A sala de comando começou a balançar, e o material das paredes
rangeu nas juntas. No painel do co-piloto viu-se um raio ofuscante, seguido de
uma fumaça preta e mal-cheirosa. Não se ouvia o ruído da explosão, pois o casco
da nave ressoou com um barulho ensurdecedor.
Chaney
lembrou-se do ruído. Era o mesmo que o havia despertado.
Com as
pernas cambaleantes dirigiu-se ao seu assento e entrou em contacto com o
localizador.
— O que é
isso? — gritou.
— Fortes
alterações estruturais na vizinhança imediata — disse a voz rouca saída do
alto-falante.
— Descubra o
ponto em que se verificam as alterações e forneça a distância exata.
A bruxaria
cessou tão subitamente como havia começado. A nave voltou à situação de repouso
e o barulho retumbante cessou. Chaney conseguiu novamente manter-se ereto sobre
as pernas. Foi ao assento do co-piloto e examinou o painel de comando.
A explosão
despedaçara um instrumento de medida, deixando um orifício de cerca de dez
centímetros de diâmetro na chapa de plástico.
— Que
instrumento foi este? — perguntou Chaney, apontando para o orifício.
Forge
aproximou-se.
— O
indicador do pequeno medidor estrutural.
Chaney
reprimiu o pânico que ameaçava tomar conta dele. Que impactos gravitacionais
não deviam ser estes, que eram capazes de queimar um sensor estrutural!
Afastou-se e
pediu ao oficial telegrafista que preparasse uma hipercomunicação com Ferrol.
Antes que
pudesse falar, ouviu-se nova mensagem do localizador.
— A direção
é zero, zero, oito graus horizontal e um, oito, nove graus vertical. Distância
de 4,3 unidades astronômicas.
— Consegue
ver alguma coisa nessa área?
— Sim
senhor. O décimo quarto planeta de Vega.
Subitamente
Chaney teve a impressão de que a hipercomunicação que solicitara era
extremamente urgente. Gritou para o oficial telegrafista para que se
apressasse.
* * *
—
Gostaríamos de falar — disse Crest com a voz um pouco tímida e parou na escotilha,
para evitar que a mesma se fechasse.
Rhodan fez
que sim.
— Entre!
Sua raiva já
se desvanecera. Sentiu pena de Crest e de todos os seres que eram como ele. O
conforto milenar fizera com que os arcônidas se esquecessem de como saltar
sobre sua própria sombra. Envolver-se em alguma coisa cujo resultado não era
absolutamente seguro parecia-lhes tão tolo como atirar uma dose completa de
raios positrônicos através do crânio, para experimentar sua resistência.
Thora entrou
logo atrás de Crest.
Sentado
diante de uma mesa de ensaios, Rhodan contemplava um cilindro metálico de que
conseguira se apoderar numa de suas expedições ao passado. Por enquanto não
encontrara nenhum indício de que, além das indicações que já lhes fornecera,
esse cilindro contivesse outras informações. Mas Rhodan não duvidava. O caminho
longo e sinuoso para o mundo da vida eterna teria chegado ao fim se o grande
desconhecido não lhes fornecesse outras revelações.
Rhodan
virou-se na poltrona e olhou fixamente para os dois arcônidas. Crest parou;
parecia indeciso.
— Sentem! —
disse Rhodan com um sorriso irônico. — Esta nave é sua tanto quanto é minha.
Façam de conta que estão em casa.
Crest
sentou. Parecia constrangido, pois levou algum tempo para erguer a cabeça e
começar a falar.
— Refletimos
sobre o assunto — principiou.
Não
conseguiu prosseguir. Nesse exato instante aconteceram simultaneamente várias
coisas surpreendentes, face às quais nas próximas horas ninguém se interessaria
em saber sobre o que Crest havia refletido e qual a conclusão a que chegara.
O recinto
circular encheu-se de um zumbido ensurdecedor. Rhodan levou uma pancada nas
costas, que o fez erguer-se cambaleante de sua poltrona.
Virou-se
instantaneamente, com a mão na arma, e enrijeceu em meio ao movimento.
O cilindro
metálico que se encontrava em cima da mesa de ensaios tornara-se incandescente.
Irradiava uma luz branco-azulada; parecia não emitir nenhum calor, pois a tampa
da mesa não sofreu o menor dano.
Mas a luz era
tão intensa que Rhodan teve de pôr a mão diante do rosto, olhando por entre os
dedos.
Ficou
espantado ao notar que o cilindro irradiava a matéria de que era feito. Ia
minguando; quando o último pedaço de metal desapareceu, a luminosidade também
cessou.
Rhodan
baixou a mão. Procurou enxergar por entre os círculos dançantes que a córnea
superirritada lhe traçava.
— Bell!
— Sim,
chefe.
— Chame
Tanaka! Peça-lhe que venha imediatamente!
A reação de
Bell foi imediata e precisa. Se o cilindro ofuscante lhe causara alguma
impressão, ele não o dava a perceber.
No momento
em que Bell começou a falar para dentro do microfone do intercomunicador, o
hiper-receptor começou a emitir uma série de zumbidos agudos. Com dois saltos
enormes Rhodan pôs-se junto ao quadro de comando e regulou a chave para a
recepção.
— É o
comandante. Fale!
— Girino
número 5 ao comandante. Capitão Chaney falando. Fortes abalos estruturais na
área do décimo quarto planeta. Vêm aos golpes. São tão fortes que mal consigo
controlar a nave.
— Observou
mais alguma coisa?
— Não
senhor. Não constatamos nada que possa ser responsabilizado por essas
alterações estruturais.
— Está bem.
Obrigado pelo aviso. Fim!
Virou-se
apressadamente.
— Onde está Tanaka?
— Já vem.
Rhodan
lançou os olhos sobre Crest e Thora, que pareciam pregados às suas poltronas de
susto. Os olhos arregalados e inexpressivos de Crest continuavam fitos na mesa
de ensaio, onde o cilindro metálico irradiara sua substância numa luz branco-azulada.
Thora permanecia imóvel, cobrindo o rosto com as mãos.
A escotilha
deslizou para o lado. Quem entrou foi Tanaka Seiko, um dos mutantes mais
competentes de Rhodan. A radiatividade produzira a ativação de um setor até
então inaproveitado de seu cérebro, tornando-o capaz de captar radiações
eletromagnéticas e decifrar seu sentido, desde que fossem moduladas, como por
exemplo as ondas de rádio.
Nos últimos
dias haviam constatado que a área sensibilizada do cérebro de Tanaka não reagia
apenas aos fenômenos eletromagnéticos, mas também a outros, de ordem superior.
Tanaka
entrou cambaleante. Parecia reunir as últimas energias de que dispunha para
manter-se de pé. Tinha o rosto pálido.
— Entendeu,
Tanaka? — perguntou Rhodan com a voz áspera.
O japonês
fez que sim. Rhodan apontou-lhe uma poltrona.
— Sente! Conte
logo!
— Alguém
disse — gaguejou Tanaka: — “Deves vir
agora.” Depois aludiram a uma advertência. Entendi o seguinte: “Lembra-te da advertência! Terás de procurar
no lugar em que houver o abalo.”
Fez uma
pausa e respirou profundamente, para vencer o esgotamento. Depois prosseguiu:
— Ainda
disseram o seguinte: “Não apareças sem a
sabedoria do plano superior! Ninguém poderá vir em teu auxílio, só a montanha
pulsará por ti.”
Rhodan
acenou com a cabeça. Com um movimento mecânico fez retroceder a fita na qual havia
gravado as declarações de Tanaka. Voltou a ouvir o que o japonês acabara de
dizer.
— Venha —
murmurou — mas não se esqueça da advertência. Você terá de procurar no lugar em
que houver o grande abalo. Mas não apareça sem o saber superior. Ninguém virá
em seu auxílio, só a montanha pulsará por você.
Era uma
mensagem parapsicológica gravada no cilindro metálico que Rhodan capturara no
passado, e que voltara a irradiar-se para o nada no momento exato que o grande
desconhecido considerava adequado.
“Devemos ter cuidado para não enlouquecer”,
pensou Rhodan com um sentimento de amargura.
Ouviu Tanaka
fungar atrás de si. O ruído distraiu-o dos seus pensamentos. Olhou para Bell,
que permanecia numa atitude de expectativa junto ao intercomunicador. Num
movimento inseguro estendeu a mão e levantou o fone.
Rhodan fez
que sim; segurou a peça:
— O
comandante a todos os tripulantes. Decolaremos em trinta minutos. Cinco minutos
antes todos os postos de combate e de vigilância deverão estar ocupados.
Solicito confirmação dos chefes setoriais de que tudo está pronto para a
decolagem. Os majores Deringhouse e Nyssen colocarão suas esquadrilhas de caças
espaciais em posição de serem ejetadas pelas comportas. Neste instante a nave
entra em alarma número 1.
Os trinta
minutos passaram rapidamente. Por várias vezes Crest fez menção de dizer alguma
coisa, mas com um gesto Rhodan pediu-lhe que tivesse paciência. Ele mesmo
estabeleceu a rota. No calculador automático estavam armazenados os dados sobre
as trajetórias e as velocidades de todos os planetas do sistema Vega. Rhodan
formulou a indagação. A resposta veio sob a forma de uma equação de trajetória
concebida em símbolos da matemática arcônida, pronta para ser introduzida no
piloto automático.
Rhodan
preparou o dispositivo para a decolagem e foi recebendo os avisos que chegavam
dos diversos setores da imensa nave.
O major
Deringhouse foi o último a transmitir o aviso. Recitou-o apressadamente; depois
perguntou num tom mais pessoal.
— Pode-se
saber o que está acontecendo?
— E o quatorze
— respondeu Rhodan laconicamente. — Vamos dar uma olhada por lá.
— O
quatorze! — retrucou Deringhouse. — Aquele monstro?
Rhodan fez
que sim.
— Aquele
monstro.
Dali a
alguns minutos a Stardust-III decolou. Aquela esfera imensa de oitocentos
metros de diâmetro projetou uma sombra negra sobre a paisagem e causou um
eclipse solar não planejado numa pequena parte da superfície do planeta de
Ferrol.
O espetáculo
não durou muito. Com um rugido a nave disparou para o espaço, deixando atrás
uma cauda incandescente formada pela atmosfera ionizada. Uma pessoa dotada de
sensibilidade ficaria estupefata ao notar como dentro de poucos segundos a
gigantesca esfera ficou reduzida a um ponto negro e dali a um instante
desapareceu por completo.
Na sala de
comando Rhodan passou os olhos pelos controles luminosos do piloto automático.
Acendiam-se na seqüência correta e com as cores previstas.
A função
trajetorial não experimentou qualquer inconstância; a transição não fora
planejada. O vôo consumiria cento e dez minutos.
Rhodan
lembrou-se de que Crest pretendia dizer alguma coisa. Lançou um olhar indagador
para o arcônida.
— O senhor
não pretendia...
Crest
interrompeu-o com uma risada. Há bastante tempo era a primeira vez que ria de
verdade.
— Sim,
Rhodan, pretendia dizer alguma coisa. Refletimos sobre o assunto e resolvemos
acompanhá-lo de qualquer maneira.
Rhodan fez
cara de espanto.
— Ah, é
verdade! O senhor ainda tinha suas dúvidas. Agora estou lembrado.
Thora
levantou-se. Seu rosto contorcia-se num misto de raiva e alegria.
— Gostaria
de dizer — disse num tom odioso — o que seria de nós se tivéssemos decidido
outra coisa!
— Ainda bem
que não fizeram nada disso — respondeu Rhodan com um sorriso.
2
O décimo quarto
planeta de Vega era um gigante de amoníaco e metano do tipo de Júpiter. Fora
nas proximidades do mesmo que há tempos, por ocasião do início da invasão dos
tópsidas, Rhodan, que se encontrara no comando da Good Hope, tirara Chaktor dos
destroços à deriva que sobraram da frota de defesa ferrônia depois do confronto
com o invasor.
O diâmetro
do gigante correspondia a três vezes o de Júpiter, isto é, chegava a
quatrocentos e trinta e quatro mil quilômetros; ao contrário do planeta do
sistema solar, sua densidade era muito elevada. De acordo com os dados
fornecidos pela astronomia ferrônia, a gravitação superficial era superior a 900 g . Um homem que se
encontrasse na superfície do imenso planeta teria que carregar mais de
novecentas vezes seu peso normal.
Rhodan
acreditava que havia nisso um exagero. Enquanto a Stardust-III se aproximava do
planeta, mandou conferir os dados. Com uma gravitação superficial de 900 g qualquer ação
individual das naves auxiliares ou mesmo dos caças espaciais por cima daquele
mundo de metano e amoníaco se tornaria impossível. As naves auxiliares
conseguiam neutralizar uma força de até 500 g . Se a gravitação fosse mais intensa,
teriam de recorrer ao mecanismo propulsor, o que reduziria sua mobilidade.
O planeta
era um monstro em todos os sentidos. O rastreamento à distância revelou que sobre
o núcleo propriamente dito — que poderia ser sólido ou líquido — havia uma
atmosfera de uns vinte mil quilômetros de altura. Com isso as escalas de
pressão na superfície excediam tudo que a técnica de alta pressurização da
Humanidade já concebera ou realizara.
Quando a
Stardust-III se aproximou a uma unidade astronômica do planeta, os resultados
das medições gravitacionais foram entregues a Rhodan. Na superfície do planeta
monstro havia uma força gravitacional de 916 g , isto é, o peso dos objetos era novecentas
e dezesseis vezes o que teriam na Terra.
Face a isso
Rhodan ordenou aos seus girinos, que eram as oito naves auxiliares, que se
retirassem para Ferrol, o oitavo planeta, e aguardassem os acontecimentos.
Pediu aos oficiais de patente mais elevada e aos dois arcônidas que
comparecessem a uma conferência na sala de comando.
Quem
acreditasse que Rhodan se envolveria numa discussão sairia desapontado. Parado
diante de seus oficiais, trouxe ao conhecimento dos mesmos as decisões que
havia tomado.
— A missão é
muito arriscada — disse em tom áspero. — Não devemos nos iludir a este
respeito. Corremos o risco de perder nossa nave. Mas não devíamos perder de
vista o que aconteceu até aqui. Estamos lidando com um ser que só quer confiar
seus segredos a alguém que julgue digno disso. A meu ver a probabilidade de que
nos aconteça algo mais sério é muito pequena. Ninguém submete um candidato a
uma prova de coragem para eliminá-lo através da mesma. Mas devemos ter cuidado.
O desconhecido já nos avisou que teremos de confiar em nossas forças. Não tenho
dúvida de que essas forças estejam em condições de medir-se com o que
encontrarmos naquele planeta, seja lá o que for.
Fez uma
pausa, aguardando alguma objeção. Não houve nenhuma.
— Devemos
discutir alguns detalhes de ordem técnica — prosseguiu. — Precisamos de
veículos que nos permitam o deslocamento sobre a superfície do planeta. Esses
veículos terão de suportar uma pressão de cinqüenta mil atmosferas, e deverão
ser neutralizados contra uma gravitação de 916 g . Não se esqueçam de que
a segurança dos ocupantes dependerá do cuidado com que forem executadas essas
medidas de segurança. Dispomos de algumas horas para preparar tudo isso. Depois
as coisas começarão a ficar sérias e não haverá como voltar atrás. Obrigado.
Os oficiais
saíram. Só Thora e Crest permaneceram na sala, além de Bell, cujo lugar de
qualquer maneira era ali mesmo.
— Pensou bem
no que está fazendo? — perguntou Crest.
— Ele não
costuma refletir — interveio Thora. — Simplesmente age, e geralmente tem sorte.
— Penso em
tudo — respondeu Rhodan. — Só arrisco a nave para chegar mais perto do segredo
da vida eterna. Acredita que o mesmo valha mais que esta nave?
— Acredito,
sim — admitiu Crest. — Mas o que nos adiantará esse segredo se ficarmos presos
nesse planeta monstruoso?
— Ficar
preso? Uma das naves auxiliares irá nos buscar, se...
—
Buscar-nos? Com uma gravitação de 916
g ?
— Está
certo; será uma manobra difícil. Acontece que a nave dispõe de teledireção, de
forma que nem sequer será necessário expormos um robô àquela gravidade. Quanto
a nós...
— Quanto a
nós — chiou Thora — se tudo der certo, talvez possamos contar com uns cinco ou
seis veículos que oferecem a necessária segurança, isso para quinhentas
pessoas. Cada veículo pode transportar vinte pessoas, no máximo trinta. E os
outros?
— Os outros
não precisarão preocupar-se mais com sua retirada — respondeu Rhodan em tom
seco. — Era isso que queria ouvir?
Thora não
respondeu. Rhodan entrou na brecha.
— Aliás, há
uma hora a senhora afirmou que pretendia continuar a participar na operação.
Será que resolveu outra coisa?
— Não, seu
teimoso! — resmungou Thora em tom zangado e saiu batendo os pés.
— Devíamos
chamá-lo de Gol — disse Reginald Bell em tom pensativo.
— Quem?
— Aquele ali
— respondeu Bell, apontando a mão espalmada para a tela, pela qual rugiam as
tempestades das camadas atmosféricas superiores. — Gol é um gigante nojento das
lendas antigas, não é?
— Pode ser —
respondeu Rhodan, mergulhado em pensamentos.
A
Stardust-III estava estacionada dezoito mil quilômetros acima do ponto em que,
segundo a sonda de microondas, se localizava a superfície propriamente dita do
planeta. A nave aproximava-se do lado diurno. Face às radiações branco-azuladas
da gigantesca estrela Vega, nos arredores da nave a temperatura atingia uns
cinqüenta graus centígrados.
O rastreador
fixara o período de rotação do planeta em pouco menos de quatorze horas. Dali
se concluía que nas camadas superiores, submetidas a um movimento de rotação
extremamente rápido, devia haver uma zona limítrofe em que as tempestades
rugiam sem cessar. E tratava-se de tempestades desencadeadas num ambiente cuja
pressão devia ser superior a quarenta mil atmosferas!
Rhodan
procurou imaginar como seria o ser que escolhera um mundo desses como palco de
provas. Não conseguiu.
— Quinze mil
— soou uma voz indiferente no intercomunicador.
A bordo da
Stardust-III seguia-se o linguajar terreno, no qual todas as distâncias eram
indicadas em metros, a não ser que se tratasse de trechos mensuráveis em termos
de grandeza interestelar.
— Ainda
estamos a quinze mil quilômetros da superfície. A velocidade do vento é de
quatrocentos metros por segundo — anunciou outra voz.
Bell começou
a rir. Não era um riso alegre.
— Uma
velocidade do vento superior à do som — murmurou. — A que grau corresponde isso
na escala universal?
— Vinte —
respondeu Rhodan bastante sério. — Acontece que a velocidade do som depende da
natureza da substância a que se refere e de sua densidade. A substância é uma
mistura de amoníaco e de metano, e a densidade da mesma é muito maior que a da
atmosfera terrestre. Por isso a velocidade do som deve ser muito maior que no
ar terreno sob a pressão normal.
Bell esteve
prestes a responder, mas foi interrompido por um zumbido de advertência.
A lâmpada
vermelha do sensor estrutural lançou uma luz difusa sobre os indicadores de
impulsos da tela oscilográfica.
O
oscilógrafo reagia a toda e qualquer alteração estrutural no espaço através de
um pontinho verde projetado sobre a respectiva tela. A situação do ponto na
rede de coordenadas da tela indicava o lugar do espaço em que se verificavam as
modificações estruturais.
O que se
ofereceu aos olhos de Rhodan foi um emaranhado tremeluzente, que partia de um
ponto central e se estendia por toda a tela. Não conseguiu interpretar o
modelo.
Sabia que o
sensor estrutural registrava suas indicações numa fita de vídeo. Por isso não
teve pressa: contemplou aquele conjunto estranho de linhas até que
desaparecesse subitamente.
O cronômetro
acoplado ao sensor mostrava que a reação do mesmo durara dezesseis segundos.
Rhodan teve
uma ligeira palestra com Tanaka Seiko através do intercomunicador; mas Tanaka
não percebera nada. Se é que essas alterações estruturais volúveis se revestiam
de algum sentido suscetível de interpretação, o mesmo se ocultava nos abalos
gravitacionais e não estava ao alcance de Tanaka.
O jogo
tornara-se um pouco mais difícil.
— Doze mil —
anunciou o localizador.
Rhodan
retirou a fita de vídeo do sensor estrutural e projetou o quadro registrado. Estudou-o
numa ampliação de dez vezes, mas ainda desta vez não conseguiu descobrir
qualquer sentido naquilo que pouco antes havia contemplado em tamanho natural.
Mas
conseguiu fixar as coordenadas do ponto central e modificou a rota da
Stardust-III para aquela direção. Ao fazê-lo, ultrapassou a fronteira entre o
dia e a noite; dali em diante passou a deslocar-se em meio a uma escuridão
tempestuosa e turbilhonante.
A
temperatura reinante para além do casco da nave descera para cento e dez graus
absolutos, o que equivale a cento e sessenta e três graus centígrados
negativos.
* * *
— Dez mil
quilômetros!
No mesmo
instante o sensor estrutural voltou a reagir. E da mesma forma que da vez
anterior: o raio eletrônico traçou linhas verdes que se uniam num modelo sem o
menor sentido. Durante dezesseis segundos brincou com a fantasia de Rhodan e
apagou-se.
Houvera uma
única modificação: o ponto central da amostra linear situava-se no ponto de
origem das coordenadas. A Stardust-III encontrava-se na vertical do emissor, e
não havia dúvida de que este se localizava na superfície do planeta gigante.
Rhodan
comparou os dois quadros registrados em fita. Não teve tempo para interpretar
os resultados da comparação; mas tudo indicava que não havia qualquer diferença
entre as duas amostras além da situação do ponto central.
Dali se
concluía que a alteração estrutural do espaço que se realizava abaixo da
Stardust-III era um acontecimento dirigido. Não uma ocorrência causal no
sentido estatístico. Outro indício disso consistia no fato de que em ambos os casos
a alteração durara dezesseis segundos.
O
localizador voltou a falar.
— O terreno
abaixo de nós é bastante difícil. Parece ser montanhoso. As diferenças de
altitude chegam a vinte mil metros. A área não é apropriada para o pouso.
— Conseguiu
descobrir um terreno mais favorável?
— Sim
senhor. A uns duzentos quilômetros daqui. Se os instrumentos não enganam, o
terreno é totalmente plano.
— Corrija a
rota, mas mantenha na medida do possível a direção atual.
O
localizador efetuou a correção, introduzindo as coordenadas do novo local de
pouso na memória programática do piloto automático. Na central a recepção dos
novos dados foi anunciada através de um sinal. Rhodan, que durante a difícil
manobra de pouso realizava um vôo semi-automático com a Stardust-III, realizou
a adaptação à nova rota.
Numa
altitude de mil quilômetros tornou-se necessário regular os geradores do
envoltório energético para a potência máxima. A tempestade que, numa velocidade
inconcebível, tangia diante de si massas de amoníaco e de metano, começou a
alterar a rota da nave. A esfera gigantesca da Stardust-III sofreu um desvio.
Só com a intensidade energética máxima dos envoltórios protetores tornou-se
possível subtrair a nave aos efeitos da tormenta.
Um quadro
estranho surgiu nas telas. O metano, um dos dois elementos principais da
atmosfera daquele planeta, é um gás facilmente ionizável. E a ionização
produzida pelo impacto das moléculas contra o envoltório energético envolveu a
Stardust-III numa verdadeira auréola, que a nave arrastava atrás de si.
Naquela
altura tornou-se impossível determinar o estado agregacional da atmosfera.
Submetidas a uma pressão tremenda, as moléculas de amoníaco e metano se uniram
numa ligação tão compacta que só seria de esperar num líquido. Mas a definição
do estado agregacional líquido inclui uma superfície formada pela substância
correspondente. Naquela atmosfera essa superfície se achava ausente. Rhodan
concluiu que as pressões ultra-elevadas e as temperaturas extremamente baixas
ali reinantes haviam produzido um estado ainda desconhecido à termodinâmica
terrena em virtude da falta de possibilidades experimentais.
Nesse meio
tempo o sensor estrutural havia reagido mais três vezes. O modelo surgido na
tela era idêntico, o tempo de recepção foi novamente de dezesseis segundos, e
Rhodan constatara que os intervalos entre as emissões também eram constantes.
Emissões!
Devia haver
alguém nas proximidades do morro que, segundo as informações do localizador, se
elevava a vinte quilômetros acima do nível normal, e transmitia emissões que
provocavam os mesmos efeitos de distorção espacial que surgiam espontaneamente
durante a transição de uma nave espacial. Até então essas distorções escapavam
a qualquer influência dos homens — “devemos
procurar outra palavra”, pensou Rhodan, “pois não se pode dar o nome de ‘homem’ a qualquer ser inteligente.”
Não se limitava a transmitir, mas conseguira modular os efeitos das
transmissões, conforme demonstrava o modelo surgido na tela do sensor.
Rhodan
começou a compreender por que Crest e Thora pensaram em desistir de seus planos
originais. Aqui defrontavam-se com um poder que excedia em muito o dos
arcônidas.
— Altitude
seiscentos mil metros. Temperatura externa oitenta e cinco graus absolutos. O
dia começou, ao menos segundos nossos cálculos. O senhor percebe alguma coisa
disso?
Um sorriso
irônico surgiu no rosto de Rhodan.
— O senhor
esperava ver o sol brilhar no fundo de um oceano de amoníaco de vinte
quilômetros de profundidade?
Outras
informações foram chegando. Todas elas refletiam o nervosismo que se apoderara
dos homens. Dificilmente havia um dentre eles que seria capaz de sofrer a
influência desse mundo estranho sem abalar-se. Ainda acontecia que na sua
maioria os membros da tripulação não tinham visão direta do mundo exterior. Os
localizadores e os homens que ocupavam os postos de combate só dispunham das
telas dos localizadores e dos goniômetros, onde os objetos palpáveis se
revelavam sob a forma de pontos, linhas ou superfície de uma cor. Ninguém sabia
qual seria o aspecto do mundo situado lá fora.
Rhodan
poderia consolá-los. Na tela do visor ótico direto espalhou-se um negrume
acinzentado, sem contornos, sem detalhes.
Bell fitou o
calendário automático.
A bordo da
Stardust-III prevalecia a escala de tempo terrena. A decisão de Rhodan não fora
fruto apenas do sentimentalismo; ainda acontecia que naquela nave, destinada a
vôos extensos, qualquer escala de tempo que se adotasse seria tão prática e
adequada como qualquer outra.
— 7 de
dezembro. 18 horas e 20 minutos — disse Bell. Apenas não se percebia a leve
melancolia que tremulava em sua voz porque a mesma era superada pelo
nervosismo.
— A esta
hora costumo...
—
Quatrocentos mil metros!
— ...a esta
hora costumo...
— Velocidade
do vento seiscentos e cinqüenta metros por segundo. Mantém-se constante há dez
minutos.
— ...a esta
hora...
—
Localizador ao comandante: a superfície abaixo de nós já não é tão plana como
antes. Não sei como explicar isso.
— Consegue
notar algum movimento? — perguntou Rhodan.
— Sim
senhor. Parece que, de uma hora para outra, a pradaria se transformou num mar.
— É isso
mesmo. A temperatura reinante na superfície do planeta aproxima-se do ponto de
fusão do metano. Uma pequena elevação da temperatura basta para derreter o
metano congelado. Realize um ensaio estrutural. Quero saber até que
profundidade o metano está derretido.
— Sim
senhor.
Menos de um
minuto depois:
— A dez
metros abaixo da superfície movimentada encontro chão firme.
— Está bem.
A rota permanecerá inalterada.
Bell deu um
suspiro melancólico e desistiu de contar o que teria feito a essa hora se
estivesse na Terra. Dedicou sua atenção aos instrumentos.
A luz de
controle dos envoltórios protetores começou a piscar. Bell reagiu antes que
Rhodan percebesse qualquer coisa.
— Co-piloto
ao controle de geradores do envoltório protetor. O que está acontecendo? Por
que não ligou a potência máxima?
— Liguei —
queixou-se o engenheiro.
— Procure
controlar. Os envoltórios estão oscilando.
Rhodan
reagiu à sua maneira. Diminuiu o desempenho dos jatos e fez com que a Stardust-III
descesse com maior rapidez. Se algo acontecesse aos envoltórios protetores,
preferia ter chão firme sob os pés.
— Chão
firme!
* * *
— Atenção! A
nave está tocando o solo.
Rhodan
manteve-se imóvel diante do grande quadro de comando do piloto. O autômato
incumbiu-se de sondar o subsolo e só desligar ou reduzir ao mínimo os jatos
quando tivesse encontrado uma área de apoio adequada.
Até uma
profundidade de dez metros o metano estava derretido; mais abaixo começava um
solo enganador. Só numa profundidade de vinte metros os suportes hidráulicos da
nave encontraram um apoio tal que levasse o autômato a reduzir o desempenho dos
geradores.
O zumbido,
que até então preenchia todos os cantos da gigantesca nave, e ao qual os
ouvidos estavam tão bem adaptados, cessou quase por completo; só restou um
ruído insignificante. Um silêncio quase tangível espalhou-se pelos
compartimentos.
Rhodan
adaptara uma trava aos geradores, que não permitiria a redução de sua
aceleração a menos de 916 g .
Dessa forma, juntamente com os neutralizadores gravitacionais, mesmo depois do
pouso o mecanismo propulsor conservaria a Stardust-III num estado de ausência
de gravidade. Os suportes haviam encontrado apoio seguro, embora não
precisassem dele. Rhodan tinha certeza de que seria capaz de levantar a nave
assim que o desejasse.
Mandou
triplicar a guarnição do setor de vigilância dos geradores e encareceu aos
homens que a segurança da nave e de seus tripulantes só estaria garantida se o
mecanismo propulsor estivesse em condições de fazer a nave decolar a qualquer
momento.
O incidente
ocorrido numa altitude de quatrocentos quilômetros deixou-o pensativo. É bem
verdade que poucos segundos depois da troca de mensagens entre Bell e o
engenheiro incumbido do envoltório protetor este voltara à estabilidade; mas
ainda faltava explicar o fenômeno que por trinta segundos fizera oscilar o
mesmo sem qualquer motivo palpável.
O engenheiro
asseverou que na regulagem dos geradores não houvera nenhuma modificação. Estes
eram comandados por um quadro de comando central, e o engenheiro não tirara os
olhos do mesmo. Não havia a menor explicação para o incidente.
— Até parece
que alguém andou mordiscando nosso envoltório do lado de fora — disse Bell em
tom pensativo.
A idéia era
absurda. Mas um incidente deste tipo costuma produzir idéias absurdas.
* * *
— Quero
pedir-lhe que examine os registros do sensor estrutural — disse Rhodan em tom
sério. — Parece que estas alterações estruturais encerram alguma mensagem.
Tanaka Seiko não conseguiu extrair coisa alguma de tudo isso. Não sente nada.
Dependemos exclusivamente do sensor estrutural.
— Dispõe de
algum ponto de referência? — perguntou Crest em tom pensativo.
Rhodan
sacudiu a cabeça. Levou algum tempo para perceber que era a primeira vez que
Crest o consultava num assunto de ordem técnica.
— Não
dispomos de coisa alguma. A não ser que queiramos ver um ponto de referência
naquilo que já sabemos sobre a mentalidade do desconhecido. Quer partir dali?
Quanto a mim, posso partir. Mas não sei o que fazer com isso.
Crest olhou
para as estreitas fitas de plástico que se encontravam diante dele; parecia
contrariado.
— O que
pretende fazer? — perguntou depois de algum tempo.
Rhodan
sorriu.
— Nossos
técnicos montaram um veículo experimental. Dispõe de um mecanismo de teledireção.
Eu o farei andar um pouco por aí, e, se for capaz daquilo que esperamos dele,
eu mesmo entrarei nele e darei umas voltas.
— Lá fora? —
perguntou Crest, apontando com o polegar por cima do ombro.
— Lá fora —
confirmou Rhodan. Crest sacudiu a cabeça.
— Às vezes
até chego a sentir calafrios quando percebo seu poder de iniciativa. Não tem
medo?
— Se tenho!
— asseverou Rhodan com um sorriso de escárnio.
* * *
— Tudo em
ordem. O carro esteve lá fora durante três horas e percorreu cerca de cinqüenta
quilômetros. Nenhum vazamento. O funcionamento dos geradores do envoltório é
impecável; a teledireção também está perfeita. Se desmaiar em caminho,
poderemos trazê-lo para casa.
— Obrigado —
disse Rhodan com um sorriso.
O carro era
um veículo monstruoso. Não se podia cogitar de construí-lo sob a forma de um
deslizador, que se movesse acima da superfície. A gravitação extrema de Gol —
Rhodan aceitara o nome — excluía a possibilidade desse tipo de experiência. O
veículo deslocava-se sobre esteiras. Os técnicos haviam aproveitado o chassi de
uma das máquinas de trabalho robotizadas. O espaço útil não ultrapassava uns
trinta por cento do volume total. Um pequeno recipiente abrigava o mecanismo
propulsor propriamente dito. O espaço restante, que correspondia a quase
setenta por cento do total, era ocupado por dois geradores incumbidos da
criação de um campo protetor que defendia o veículo da força gravitacional
mortífera.
A bem de sua
segurança pessoal Rhodan teria preferido que o carro realizasse algumas viagens
experimentais. Mas não havia tempo a perder. O desconhecido tinha uma noção
muito precisa do tempo que o ser considerado digno consumiria na solução do
mistério, e ninguém sabia qual era o tempo prefixado para a solução do grande
mistério de Gol.
Bell insistira em acompanhar o chefe durante a
primeira viagem, mas Rhodan não concordara.

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