sábado, 20 de outubro de 2012

P-016 - Os Espíritos de Gol - Kurt Mahr [parte 1]


Autor
KURT MAHR



Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN






O que pode uma criatura supostamente imortal querer dizer com a palavra breve? Perry Rhodan não sabia dizer. A última mensagem do desconhecido, que foi ter às mãos de Perry Rhodan durante a expedição no passado do planeta Ferrol, não diz se ele, Perry, teria de submeter-se logo à prova através da qual alcançaria o segredo da vida eterna.
Mas o chefe da Terceira Potência sabe que a nova prova a que terá de se submeter deixará longe tudo pelo que passara até então. Embora os dois arcônidas já comecem a julgar o risco excessivo, Perry Rhodan está disposto a persistir. E só essa firmeza pode salvar a expedição, quando a mesma se encontra com Os Espíritos de Gol...





 = = = = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =


Perry Rhodan — Comandante da Stardust-III e chefe da Terceira Potência.
Reginald Bell — Ministro da segurança da Terceira Potência.
Thora e Crest — Únicos sobreviventes de uma expedição espacial do Grande Império Arcônida.
Tanaka Seiko — Membro do Exército de Mutantes de Rhodan, reage a fenômenos eletromagnéticos.
Capitão Chaney — Comandante de um girino.
Major Deringhouse — Acompanhante de Rhodan nas “excursões” realizadas na superfície do planeta Gol.
Wuriu Sengu — Membro do Exército de Mutantes de Rhodan, possui visão raio-X.

1



— Comandante a todos os girinos! Preparem seus veículos! A partida será às nove horas e vinte minutos, hora de bordo. Repit...
A voz áspera de Rhodan, lançada nos corredores da imensa nave pelos receptores do equipamento de intercomunicação, romperam o silêncio que nas últimas horas tomara conta da Stardust-III.
Era um silêncio enganador, em cuja superfície fervilhara o nervosismo, talvez o medo, mas sem dúvida a certeza de que se haviam envolvido em coisas que o cérebro humano não poderia compreender. Nunca antes os quinhentos tripulantes da Stardust-III perceberam com tamanha nitidez em que extensão o bem-estar e a segurança dos que se encontravam na nave dependiam da capacidade de um único homem: Perry Rhodan.
Entre esses quinhentos homens havia muitos que nada sabiam sobre as finalidades das ações planejadas por Rhodan. Este não julgara necessário esclarecê-los a esse respeito; por isso surgiram boatos, que de início apenas mereceram o escárnio dos homens, mas, superados por outros, ainda mais arrepiantes, acabaram sendo acreditados.
A nova ordem de Rhodan representava nova fonte de sobressalto para duzentos homens da tripulação. Mas depois de terem sofrido minuto por minuto daquelas horas enervantes de incerteza, acharam preferível mergulhar de corpo inteiro no maior dos sobressaltos a esperar mais um instante que fosse.
Os girinos eram as oito naves auxiliares da classe da Good Hope que a Stardust-III trazia a bordo. Ninguém se lembrava de quem inventara o nome. O fato é que ali estava ele, e representava a palavra-chave que, no código de comunicações, designava as naves de sessenta metros.

* * *

Os avisos de que as naves estavam prontas para decolar não tardaram a chegar. Reclinado no assento de piloto da sala principal de comando, Rhodan ouvia com o rosto impassível as vozes saídas do aparelho de intercomunicação. Parecia que a conversa não o interessava. Mas assim que o oitavo aviso havia chegado, inclinou-se sobre o microfone e transmitiu suas ordens:
— Viajem de acordo com os dados dos pilotos automáticos. Mantenham as naves na área do alvo, em posição de espera, e examinem o espaço para verificar eventuais alterações estruturais. Mantenham constantemente ativados todos os sensores estruturais, e avisem imediatamente se perceberem qualquer modificação na contextura espaço-temporal. A decolagem será realizada na hora combinada. Fim.
Com um movimento abrupto desligou o intercomunicador. Quando se virou de golpe, o assento rangeu.
A única pessoa que se encontrava na sala além dele era Reginald Bell, seu companheiro durante a primeira viagem à Lua, e que ainda continuava a sê-lo.
Bell esboçou um sorriso, mas este não passou de uma contorção do rosto. Naqueles dias a alegria não estaria espelhada no rosto de qualquer desses homens.
— O que está esperando? — perguntou Bell. — Naves desconhecidas?
Por algum tempo Rhodan contemplou-o em atitude pensativa. Depois sacudiu violentamente a cabeça.
— Não, não são naves — respondeu.
Bell esperou. Esperou até perceber que Rhodan não lhe daria nenhuma explicação se não perguntasse.
— Com os mil demônios, o que é? — perguntou com a voz rude. — Você quer que eu adivinhe, ou prefere contar?
Rhodan continuou sério.
— Espero um abalo estrutural — respondeu. — Não sei o que provocará o mesmo. O homem que estamos seguindo está em condições de modificar a contextura espaço-temporal à sua vontade.
Bell riu. Não era um riso muito alegre.
— O homem! — disse em tom de escárnio. — Gostaria de ver esse homem. Deve ter uma espiral energética em vez do cérebro e dois conversores de tempo no lugar em que nós temos, os braços.
— Pois vamos vê-lo — disse Rhodan em tom tranqüilo. — E então saberemos se realmente tem uma espiral energética.
Bell olhou-o de baixo para cima.
— Realmente acredita nisso? Na minha opinião...
— Acredito, sim! — interrompeu-o Rhodan. — Não sou nenhum idiota para lançar-me numa aventura mortal contra minha melhor convicção.
Bell murmurou alguma coisa que Rhodan não entendeu. Depois perguntou:
— Nossos girinos devem verificar em que setores do espaço ocorrem os abalos, não é?
— Isso mesmo!
Bell ficou quieto por algum tempo. Depois realizou nova investida.
— Ouça, chefe! No passado — é uma idéia maluca, no passado de dez mil anos atrás! — você se apoderou de um cilindro metálico, abriu-o e procurou decifrar seu conteúdo. Está convencido de que leu corretamente. O que você leu foi o seguinte: “Aquele que quer encontrar o caminho ainda tem permissão de desistir. Mas, se quiser prosseguir, saiba que não receberá mais auxílio. Em breve, o espaço sofrerá um abalo...” e sei lá mais o quê. Depois disso você some da vista de todo mundo, leva a grande máquina positrônica à incandescência e nos aparece com a idéia de que todas as naves auxiliares devem sair para localizar abalos estruturais no espaço. Não devemos esquecer que numa série de registros tão complicados a possibilidade de erro não pode ser excluída. Sendo assim, você não acha que nos envolvemos numa tarefa que não conseguiremos levar a cabo?
Rhodan ouvira-o com toda atenção. Bell se tornara sério, e ele sabia que esperava uma resposta sensata.
— Não, Bell — disse com a voz baixa e em tom persuasivo. — Estou convencido de que conseguiremos.
De um instante para outro a expressão do rosto de Bell alterou-se. Os lábios contorceram-se e a cabeça com o cabelo ruivo inclinou-se numa atitude combativa.
— Pois então diga aos outros! — resmungou. — Quem a bordo desta nave ousaria opor-se às suas ordens? Quem, a não ser os dois arcônidas?

* * *
Para o capitão Chaney esse vôo representava um assunto um tanto ambíguo. Comandava o girino número 5. Às nove horas e vinte minutos, hora de bordo, decolara da nave Stardust-III juntamente com outros sete girinos. Encontrou no piloto automático as rotas introduzidas pelo comandante Rhodan e, guiando-se por elas, dirigiu-se a posição que lhe fora designada, e que não distava mais de uma unidade astronômica do décimo quinto planeta de Vega.
Uma vez atingido esse ponto, parou a nave, seguindo as instruções que recebera, e manteve-se na expectativa. De início acreditara que nas próximas horas algo haveria de acontecer. Mas as horas foram se passando e nada aconteceu; apenas, o sol Vega que no momento da chegada do girino se encontrava a menos de cinqüenta milhões de quilômetros, afastara-se mais alguns milhões de quilômetros.
O capitão Chaney deitou, tentando dormir um pouco; mas não conseguiu. Voltou a levantar, tomou lugar no seu assento e lançou os olhos inflamados para as telas dos instrumentos óticos e dos sensores estruturais.
O capitão Chaney tivera poucas oportunidades de viajar numa nave desse tipo. Conhecia toda ela, do lado de dentro e de fora, mas esse conhecimento não provinha de um treinamento hipnótico intensivo, mas da simples prática visual.
Chaney realizara alguns vôos de cruzeiro no sistema solar terrestre. Mesmo isso representava uma dura provação para esse homem que um ano e meio antes ainda voara como primeiro-tenente num caça supersônico a jato, e acreditava que a Humanidade ainda levaria alguns decênios até que seus foguetes cuspidores de fogo ao menos atingissem Marte e Vênus.
Por isso havia momentos em que tinha a impressão de estar sonhando. Havia minutos em que procurava se convencer de que aquilo por que estava passando não era verdade. Mas nesse instante ouviu o som estridente de um sinal de alarma. Um instrumento de localização emitiu um zumbido e acendeu suas luzes brilhantes. Voltou a acreditar na realidade.
Sou um sonhador”, pensou; sentia-se cansado.
— Localização ao comandante — disse uma voz entrecortada. — Objeto não identificado vindo de dezoito graus horizontal, duzentos e sessenta e seis graus vertical.
Chaney sobressaltou-se. Deslocou o marcador da escala da tela principal para o ponto dezoito graus H e duzentos e sessenta e seis graus V A tela tremeluziu e voltou à posição de repouso. No centro surgiu um ponto fulgurante. Sua luminosidade diminuía a intervalos regulares.
— O que é isso? — perguntou Chaney com a voz áspera.
— Não consigo identificar.
— Qual é a velocidade?
— Vinte e três mil metros por segundo. Vem em nossa direção.
— E a menor distância?
— Três mil quilômetros. Levará cerca de quarenta minutos.
Chaney esperou. No espaço vazio três mil quilômetros eram uma distância pequena, à qual devia ser possível reconhecer o objeto que atravessava o espaço emitindo uma luminosidade variável.
Quarenta minutos eram um tempo longo. Chaney forçou a vista até que sentiu os olhos arderem, mas sua tela não era bastante exata para permitir a fixação dos contornos do objeto.
A voz do localizador voltou a soar.
— Alarma falso. É o destroço de uma nave do tempo da invasão dos tópsidas. Trata-se de uma nave ferrônia.
Chaney sentiu-se logrado.
— Está bem — disse com a voz cansada.
Levantou-se.
— Tenente Forge, assuma o comando. Vou dormir um pouco. Acredito que ainda demorará um pouco até que vejamos alguma coisa realmente interessante.

* * *

Com um movimento enérgico Rhodan impôs silêncio.
— Vamos começar do princípio! — disse, derramando sua irritação tanto sobre Crest como sobre Thora. — Os senhores vieram numa nave exploradora. Provavelmente foi a última que Árcon conseguiu pôr a caminho. Dirigiram-se a este setor da galáxia, para procurar localizar o mundo em que esperam encontrar a solução do enigma da conservação perpétua das células.
“De início a expedição foi um fracasso. Mas, embora dessem várias voltas, acabaram aproximando-se do objetivo em nossa companhia, e provavelmente não levaram muito mais tempo do que teriam consumido se tivessem prosseguido sozinhos.
“Na arca existente sob o Palácio Vermelho de Thorta encontramos alguns indícios. Esforçamo-nos para seguir a pista, e encontramos novos indícios. Aproximamo-nos do objetivo, passo a passo, e justamente agora pretendem desistir.
“Por quê?”
A pergunta soou como uma chicotada. Bell, que estava sentado perto de Rhodan, encolheu-se. Não se lembrava de já ter visto Rhodan tão zangado como se mostrava naquele instante.
Crest não respondeu. Manteve abaixada a cabeça alta e estreita e fitou o chão. Thora chegara um pouco para a frente na sua poltrona e encarava Rhodan. Em seus olhos vermelhos havia uma expressão de hostilidade.
— Pois vou dizer-lhes por quê — prosseguiu Rhodan depois de algum tempo, um pouco mais calmo. — Estão com medo.
A cabeça encanecida de Crest ergueu-se num movimento súbito.
— E daí? — perguntou com a voz baixa. — Acha que é covardia sentir medo numa situação como esta?
— Acho que sim — respondeu Rhodan. — E vou dizer-lhe por quê: acreditaram que obteriam o segredo da vida eterna bem baratinho em algum ponto da galáxia. Alguém lhes disse que o problema havia sido resolvido satisfatoriamente por uma raça não identificada, que teria o maior prazer em revelar tudo.
“Já verificamos que não é assim. Os seres que conhecem o segredo da conservação das células sabem guardá-lo muito bem. Quem quiser descobri-lo terá de brigar com eles, e terá de brigar segundo suas regras.
“Acontece que um hábito de dezenas de milhares de anos fez com que acreditassem que tudo teria de lhes cair na mão sem o menor esforço. Por isso querem abandonar o jogo. Um belo dia, quando tivermos mais tempo, contarei a fábula da raposa que achou as uvas muito azedas.
“No momento apenas digo que fica inteiramente à sua vontade aguardar o fim da nossa ação lá fora, em perfeita segurança, ou se preferem vir conosco.”
Thora levantou-se de um salto. Reginald Bell conteve a respiração. Conhecia a impetuosidade de Thora. Por um instante parecia que iria agarrar Rhodan pela garganta. Deu dois passos em direção ao mesmo. Depois parou de ombros caídos.
— Seu bárbaro!
Rhodan tirou todo efeito à sua raiva, pois começou a rir.
— Se é que reconhecer as leis da necessidade é um procedimento bárbaro, e a covardia deve ser considerada uma atitude culta, prefiro mesmo ser um bárbaro.
Crest também se levantou.
— Acho que o senhor não se importará se refletirmos por algumas horas — disse em tom sério. — Vale a pena quebrar a cabeça com o assunto. Examinarei seus argumentos, Rhodan.
— Os senhores só poderão dispor de algumas horas se nossas naves não derem sinal de vida antes disso — respondeu Rhodan.
Crest confirmou com um aceno de cabeça. Saiu lentamente. Thora parecia hesitar.
— Será que já acabou de refletir? — perguntou Rhodan em tom irônico.
Thora virou-se e saiu correndo. Atrás dela a porta de enrolar automática trancou-se com um chiado.

* * *

O capitão Chaney acordou com um ruído que nunca ouvira. Conseguira adormecer com algum esforço e auxiliado por dois comprimidos. Não tinha a menor idéia de quanto tempo permanecera na cama.
Levantou-se e enfiou a cabeça pesada sob a torneira do camarote. Enquanto a água farfalhava em torno de seus ouvidos, a voz metálica do intercomunicador começou a soar.
— Comandante a toda a tripulação! Comandante a toda a tripulação! A nave está em alarma número 1!
Chaney cuspiu a água e saiu correndo.
Na sala de comando o tenente Forge, de pé, ainda continuava com o microfone diante da boca.
— O que houve? — gritou Chaney. — Por que ninguém me acordou?
Forge provou que havia passado por um treinamento rígido. Terminou a mensagem que estava transmitindo pelo intercomunicador, descansou o microfone e ficou em posição de sentido.
— Existem fortes alterações estruturais na vizinhança imediata da nave. A meu ver uma frota inteira de naves não identificadas deve ter completado a transição.
— Conseguiu localizá-las?
— Ainda não.
Chaney lembrou-se de que fora despertado por um ruído que não conseguira identificar. Não ouvia mais nada.
— Que barulho foi este há pouco tempo? — indagou.
— Não sei. Provavelmente o casco da nave entrou em vibração.
— O casco entrou em vibração? — gritou Chaney. — Não pôs a funcionar o envoltório protetor?
— Pus, sim.
— Com os mil demônios! Por que...
Quase foi derrubado. A sala de comando começou a balançar, e o material das paredes rangeu nas juntas. No painel do co-piloto viu-se um raio ofuscante, seguido de uma fumaça preta e mal-cheirosa. Não se ouvia o ruído da explosão, pois o casco da nave ressoou com um barulho ensurdecedor.
Chaney lembrou-se do ruído. Era o mesmo que o havia despertado.
Com as pernas cambaleantes dirigiu-se ao seu assento e entrou em contacto com o localizador.
— O que é isso? — gritou.
— Fortes alterações estruturais na vizinhança imediata — disse a voz rouca saída do alto-falante.
— Descubra o ponto em que se verificam as alterações e forneça a distância exata.
A bruxaria cessou tão subitamente como havia começado. A nave voltou à situação de repouso e o barulho retumbante cessou. Chaney conseguiu novamente manter-se ereto sobre as pernas. Foi ao assento do co-piloto e examinou o painel de comando.
A explosão despedaçara um instrumento de medida, deixando um orifício de cerca de dez centímetros de diâmetro na chapa de plástico.
— Que instrumento foi este? — perguntou Chaney, apontando para o orifício.
Forge aproximou-se.
— O indicador do pequeno medidor estrutural.
Chaney reprimiu o pânico que ameaçava tomar conta dele. Que impactos gravitacionais não deviam ser estes, que eram capazes de queimar um sensor estrutural!
Afastou-se e pediu ao oficial telegrafista que preparasse uma hipercomunicação com Ferrol.
Antes que pudesse falar, ouviu-se nova mensagem do localizador.
— A direção é zero, zero, oito graus horizontal e um, oito, nove graus vertical. Distância de 4,3 unidades astronômicas.
— Consegue ver alguma coisa nessa área?
— Sim senhor. O décimo quarto planeta de Vega.
Subitamente Chaney teve a impressão de que a hipercomunicação que solicitara era extremamente urgente. Gritou para o oficial telegrafista para que se apressasse.

* * *

— Gostaríamos de falar — disse Crest com a voz um pouco tímida e parou na escotilha, para evitar que a mesma se fechasse.
Rhodan fez que sim.
— Entre!
Sua raiva já se desvanecera. Sentiu pena de Crest e de todos os seres que eram como ele. O conforto milenar fizera com que os arcônidas se esquecessem de como saltar sobre sua própria sombra. Envolver-se em alguma coisa cujo resultado não era absolutamente seguro parecia-lhes tão tolo como atirar uma dose completa de raios positrônicos através do crânio, para experimentar sua resistência.
Thora entrou logo atrás de Crest.
Sentado diante de uma mesa de ensaios, Rhodan contemplava um cilindro metálico de que conseguira se apoderar numa de suas expedições ao passado. Por enquanto não encontrara nenhum indício de que, além das indicações que já lhes fornecera, esse cilindro contivesse outras informações. Mas Rhodan não duvidava. O caminho longo e sinuoso para o mundo da vida eterna teria chegado ao fim se o grande desconhecido não lhes fornecesse outras revelações.
Rhodan virou-se na poltrona e olhou fixamente para os dois arcônidas. Crest parou; parecia indeciso.
— Sentem! — disse Rhodan com um sorriso irônico. — Esta nave é sua tanto quanto é minha. Façam de conta que estão em casa.
Crest sentou. Parecia constrangido, pois levou algum tempo para erguer a cabeça e começar a falar.
— Refletimos sobre o assunto — principiou.
Não conseguiu prosseguir. Nesse exato instante aconteceram simultaneamente várias coisas surpreendentes, face às quais nas próximas horas ninguém se interessaria em saber sobre o que Crest havia refletido e qual a conclusão a que chegara.
O recinto circular encheu-se de um zumbido ensurdecedor. Rhodan levou uma pancada nas costas, que o fez erguer-se cambaleante de sua poltrona.
Virou-se instantaneamente, com a mão na arma, e enrijeceu em meio ao movimento.
O cilindro metálico que se encontrava em cima da mesa de ensaios tornara-se incandescente. Irradiava uma luz branco-azulada; parecia não emitir nenhum calor, pois a tampa da mesa não sofreu o menor dano.
Mas a luz era tão intensa que Rhodan teve de pôr a mão diante do rosto, olhando por entre os dedos.
Ficou espantado ao notar que o cilindro irradiava a matéria de que era feito. Ia minguando; quando o último pedaço de metal desapareceu, a luminosidade também cessou.
Rhodan baixou a mão. Procurou enxergar por entre os círculos dançantes que a córnea superirritada lhe traçava.
— Bell!
— Sim, chefe.
— Chame Tanaka! Peça-lhe que venha imediatamente!
A reação de Bell foi imediata e precisa. Se o cilindro ofuscante lhe causara alguma impressão, ele não o dava a perceber.
No momento em que Bell começou a falar para dentro do microfone do intercomunicador, o hiper-receptor começou a emitir uma série de zumbidos agudos. Com dois saltos enormes Rhodan pôs-se junto ao quadro de comando e regulou a chave para a recepção.
— É o comandante. Fale!
— Girino número 5 ao comandante. Capitão Chaney falando. Fortes abalos estruturais na área do décimo quarto planeta. Vêm aos golpes. São tão fortes que mal consigo controlar a nave.
— Observou mais alguma coisa?
— Não senhor. Não constatamos nada que possa ser responsabilizado por essas alterações estruturais.
— Está bem. Obrigado pelo aviso. Fim!
Virou-se apressadamente.
— Onde está Tanaka?
— Já vem.
Rhodan lançou os olhos sobre Crest e Thora, que pareciam pregados às suas poltronas de susto. Os olhos arregalados e inexpressivos de Crest continuavam fitos na mesa de ensaio, onde o cilindro metálico irradiara sua substância numa luz branco-azulada. Thora permanecia imóvel, cobrindo o rosto com as mãos.
A escotilha deslizou para o lado. Quem entrou foi Tanaka Seiko, um dos mutantes mais competentes de Rhodan. A radiatividade produzira a ativação de um setor até então inaproveitado de seu cérebro, tornando-o capaz de captar radiações eletromagnéticas e decifrar seu sentido, desde que fossem moduladas, como por exemplo as ondas de rádio.
Nos últimos dias haviam constatado que a área sensibilizada do cérebro de Tanaka não reagia apenas aos fenômenos eletromagnéticos, mas também a outros, de ordem superior.
Tanaka entrou cambaleante. Parecia reunir as últimas energias de que dispunha para manter-se de pé. Tinha o rosto pálido.
— Entendeu, Tanaka? — perguntou Rhodan com a voz áspera.
O japonês fez que sim. Rhodan apontou-lhe uma poltrona.
— Sente! Conte logo!
— Alguém disse — gaguejou Tanaka: — “Deves vir agora.” Depois aludiram a uma advertência. Entendi o seguinte: “Lembra-te da advertência! Terás de procurar no lugar em que houver o abalo.
Fez uma pausa e respirou profundamente, para vencer o esgotamento. Depois prosseguiu:
— Ainda disseram o seguinte: “Não apareças sem a sabedoria do plano superior! Ninguém poderá vir em teu auxílio, só a montanha pulsará por ti.”
Rhodan acenou com a cabeça. Com um movimento mecânico fez retroceder a fita na qual havia gravado as declarações de Tanaka. Voltou a ouvir o que o japonês acabara de dizer.
— Venha — murmurou — mas não se esqueça da advertência. Você terá de procurar no lugar em que houver o grande abalo. Mas não apareça sem o saber superior. Ninguém virá em seu auxílio, só a montanha pulsará por você.
Era uma mensagem parapsicológica gravada no cilindro metálico que Rhodan capturara no passado, e que voltara a irradiar-se para o nada no momento exato que o grande desconhecido considerava adequado.
Devemos ter cuidado para não enlouquecer”, pensou Rhodan com um sentimento de amargura.
Ouviu Tanaka fungar atrás de si. O ruído distraiu-o dos seus pensamentos. Olhou para Bell, que permanecia numa atitude de expectativa junto ao intercomunicador. Num movimento inseguro estendeu a mão e levantou o fone.
Rhodan fez que sim; segurou a peça:
— O comandante a todos os tripulantes. Decolaremos em trinta minutos. Cinco minutos antes todos os postos de combate e de vigilância deverão estar ocupados. Solicito confirmação dos chefes setoriais de que tudo está pronto para a decolagem. Os majores Deringhouse e Nyssen colocarão suas esquadrilhas de caças espaciais em posição de serem ejetadas pelas comportas. Neste instante a nave entra em alarma número 1.
Os trinta minutos passaram rapidamente. Por várias vezes Crest fez menção de dizer alguma coisa, mas com um gesto Rhodan pediu-lhe que tivesse paciência. Ele mesmo estabeleceu a rota. No calculador automático estavam armazenados os dados sobre as trajetórias e as velocidades de todos os planetas do sistema Vega. Rhodan formulou a indagação. A resposta veio sob a forma de uma equação de trajetória concebida em símbolos da matemática arcônida, pronta para ser introduzida no piloto automático.
Rhodan preparou o dispositivo para a decolagem e foi recebendo os avisos que chegavam dos diversos setores da imensa nave.
O major Deringhouse foi o último a transmitir o aviso. Recitou-o apressadamente; depois perguntou num tom mais pessoal.
— Pode-se saber o que está acontecendo?
— E o quatorze — respondeu Rhodan laconicamente. — Vamos dar uma olhada por lá.
— O quatorze! — retrucou Deringhouse. — Aquele monstro?
Rhodan fez que sim.
— Aquele monstro.
Dali a alguns minutos a Stardust-III decolou. Aquela esfera imensa de oitocentos metros de diâmetro projetou uma sombra negra sobre a paisagem e causou um eclipse solar não planejado numa pequena parte da superfície do planeta de Ferrol.
O espetáculo não durou muito. Com um rugido a nave disparou para o espaço, deixando atrás uma cauda incandescente formada pela atmosfera ionizada. Uma pessoa dotada de sensibilidade ficaria estupefata ao notar como dentro de poucos segundos a gigantesca esfera ficou reduzida a um ponto negro e dali a um instante desapareceu por completo.
Na sala de comando Rhodan passou os olhos pelos controles luminosos do piloto automático. Acendiam-se na seqüência correta e com as cores previstas.
A função trajetorial não experimentou qualquer inconstância; a transição não fora planejada. O vôo consumiria cento e dez minutos.
Rhodan lembrou-se de que Crest pretendia dizer alguma coisa. Lançou um olhar indagador para o arcônida.
— O senhor não pretendia...
Crest interrompeu-o com uma risada. Há bastante tempo era a primeira vez que ria de verdade.
— Sim, Rhodan, pretendia dizer alguma coisa. Refletimos sobre o assunto e resolvemos acompanhá-lo de qualquer maneira.
Rhodan fez cara de espanto.
— Ah, é verdade! O senhor ainda tinha suas dúvidas. Agora estou lembrado.
Thora levantou-se. Seu rosto contorcia-se num misto de raiva e alegria.
— Gostaria de dizer — disse num tom odioso — o que seria de nós se tivéssemos decidido outra coisa!
— Ainda bem que não fizeram nada disso — respondeu Rhodan com um sorriso.

2



O décimo quarto planeta de Vega era um gigante de amoníaco e metano do tipo de Júpiter. Fora nas proximidades do mesmo que há tempos, por ocasião do início da invasão dos tópsidas, Rhodan, que se encontrara no comando da Good Hope, tirara Chaktor dos destroços à deriva que sobraram da frota de defesa ferrônia depois do confronto com o invasor.
O diâmetro do gigante correspondia a três vezes o de Júpiter, isto é, chegava a quatrocentos e trinta e quatro mil quilômetros; ao contrário do planeta do sistema solar, sua densidade era muito elevada. De acordo com os dados fornecidos pela astronomia ferrônia, a gravitação superficial era superior a 900 g. Um homem que se encontrasse na superfície do imenso planeta teria que carregar mais de novecentas vezes seu peso normal.
Rhodan acreditava que havia nisso um exagero. Enquanto a Stardust-III se aproximava do planeta, mandou conferir os dados. Com uma gravitação superficial de 900 g qualquer ação individual das naves auxiliares ou mesmo dos caças espaciais por cima daquele mundo de metano e amoníaco se tornaria impossível. As naves auxiliares conseguiam neutralizar uma força de até 500 g. Se a gravitação fosse mais intensa, teriam de recorrer ao mecanismo propulsor, o que reduziria sua mobilidade.
O planeta era um monstro em todos os sentidos. O rastreamento à distância revelou que sobre o núcleo propriamente dito — que poderia ser sólido ou líquido — havia uma atmosfera de uns vinte mil quilômetros de altura. Com isso as escalas de pressão na superfície excediam tudo que a técnica de alta pressurização da Humanidade já concebera ou realizara.
Quando a Stardust-III se aproximou a uma unidade astronômica do planeta, os resultados das medições gravitacionais foram entregues a Rhodan. Na superfície do planeta monstro havia uma força gravitacional de 916 g, isto é, o peso dos objetos era novecentas e dezesseis vezes o que teriam na Terra.
Face a isso Rhodan ordenou aos seus girinos, que eram as oito naves auxiliares, que se retirassem para Ferrol, o oitavo planeta, e aguardassem os acontecimentos. Pediu aos oficiais de patente mais elevada e aos dois arcônidas que comparecessem a uma conferência na sala de comando.
Quem acreditasse que Rhodan se envolveria numa discussão sairia desapontado. Parado diante de seus oficiais, trouxe ao conhecimento dos mesmos as decisões que havia tomado.
— A missão é muito arriscada — disse em tom áspero. — Não devemos nos iludir a este respeito. Corremos o risco de perder nossa nave. Mas não devíamos perder de vista o que aconteceu até aqui. Estamos lidando com um ser que só quer confiar seus segredos a alguém que julgue digno disso. A meu ver a probabilidade de que nos aconteça algo mais sério é muito pequena. Ninguém submete um candidato a uma prova de coragem para eliminá-lo através da mesma. Mas devemos ter cuidado. O desconhecido já nos avisou que teremos de confiar em nossas forças. Não tenho dúvida de que essas forças estejam em condições de medir-se com o que encontrarmos naquele planeta, seja lá o que for.
Fez uma pausa, aguardando alguma objeção. Não houve nenhuma.
— Devemos discutir alguns detalhes de ordem técnica — prosseguiu. — Precisamos de veículos que nos permitam o deslocamento sobre a superfície do planeta. Esses veículos terão de suportar uma pressão de cinqüenta mil atmosferas, e deverão ser neutralizados contra uma gravitação de 916 g. Não se esqueçam de que a segurança dos ocupantes dependerá do cuidado com que forem executadas essas medidas de segurança. Dispomos de algumas horas para preparar tudo isso. Depois as coisas começarão a ficar sérias e não haverá como voltar atrás. Obrigado.
Os oficiais saíram. Só Thora e Crest permaneceram na sala, além de Bell, cujo lugar de qualquer maneira era ali mesmo.
— Pensou bem no que está fazendo? — perguntou Crest.
— Ele não costuma refletir — interveio Thora. — Simplesmente age, e geralmente tem sorte.
— Penso em tudo — respondeu Rhodan. — Só arrisco a nave para chegar mais perto do segredo da vida eterna. Acredita que o mesmo valha mais que esta nave?
— Acredito, sim — admitiu Crest. — Mas o que nos adiantará esse segredo se ficarmos presos nesse planeta monstruoso?
— Ficar preso? Uma das naves auxiliares irá nos buscar, se...
— Buscar-nos? Com uma gravitação de 916 g?
— Está certo; será uma manobra difícil. Acontece que a nave dispõe de teledireção, de forma que nem sequer será necessário expormos um robô àquela gravidade. Quanto a nós...
— Quanto a nós — chiou Thora — se tudo der certo, talvez possamos contar com uns cinco ou seis veículos que oferecem a necessária segurança, isso para quinhentas pessoas. Cada veículo pode transportar vinte pessoas, no máximo trinta. E os outros?
— Os outros não precisarão preocupar-se mais com sua retirada — respondeu Rhodan em tom seco. — Era isso que queria ouvir?
Thora não respondeu. Rhodan entrou na brecha.
— Aliás, há uma hora a senhora afirmou que pretendia continuar a participar na operação. Será que resolveu outra coisa?
— Não, seu teimoso! — resmungou Thora em tom zangado e saiu batendo os pés.
— Devíamos chamá-lo de Gol — disse Reginald Bell em tom pensativo.
— Quem?
— Aquele ali — respondeu Bell, apontando a mão espalmada para a tela, pela qual rugiam as tempestades das camadas atmosféricas superiores. — Gol é um gigante nojento das lendas antigas, não é?
— Pode ser — respondeu Rhodan, mergulhado em pensamentos.
A Stardust-III estava estacionada dezoito mil quilômetros acima do ponto em que, segundo a sonda de microondas, se localizava a superfície propriamente dita do planeta. A nave aproximava-se do lado diurno. Face às radiações branco-azuladas da gigantesca estrela Vega, nos arredores da nave a temperatura atingia uns cinqüenta graus centígrados.
O rastreador fixara o período de rotação do planeta em pouco menos de quatorze horas. Dali se concluía que nas camadas superiores, submetidas a um movimento de rotação extremamente rápido, devia haver uma zona limítrofe em que as tempestades rugiam sem cessar. E tratava-se de tempestades desencadeadas num ambiente cuja pressão devia ser superior a quarenta mil atmosferas!
Rhodan procurou imaginar como seria o ser que escolhera um mundo desses como palco de provas. Não conseguiu.
— Quinze mil — soou uma voz indiferente no intercomunicador.
A bordo da Stardust-III seguia-se o linguajar terreno, no qual todas as distâncias eram indicadas em metros, a não ser que se tratasse de trechos mensuráveis em termos de grandeza interestelar.
— Ainda estamos a quinze mil quilômetros da superfície. A velocidade do vento é de quatrocentos metros por segundo — anunciou outra voz.
Bell começou a rir. Não era um riso alegre.
— Uma velocidade do vento superior à do som — murmurou. — A que grau corresponde isso na escala universal?
— Vinte — respondeu Rhodan bastante sério. — Acontece que a velocidade do som depende da natureza da substância a que se refere e de sua densidade. A substância é uma mistura de amoníaco e de metano, e a densidade da mesma é muito maior que a da atmosfera terrestre. Por isso a velocidade do som deve ser muito maior que no ar terreno sob a pressão normal.
Bell esteve prestes a responder, mas foi interrompido por um zumbido de advertência.
A lâmpada vermelha do sensor estrutural lançou uma luz difusa sobre os indicadores de impulsos da tela oscilográfica.
O oscilógrafo reagia a toda e qualquer alteração estrutural no espaço através de um pontinho verde projetado sobre a respectiva tela. A situação do ponto na rede de coordenadas da tela indicava o lugar do espaço em que se verificavam as modificações estruturais.
O que se ofereceu aos olhos de Rhodan foi um emaranhado tremeluzente, que partia de um ponto central e se estendia por toda a tela. Não conseguiu interpretar o modelo.
Sabia que o sensor estrutural registrava suas indicações numa fita de vídeo. Por isso não teve pressa: contemplou aquele conjunto estranho de linhas até que desaparecesse subitamente.
O cronômetro acoplado ao sensor mostrava que a reação do mesmo durara dezesseis segundos.
Rhodan teve uma ligeira palestra com Tanaka Seiko através do intercomunicador; mas Tanaka não percebera nada. Se é que essas alterações estruturais volúveis se revestiam de algum sentido suscetível de interpretação, o mesmo se ocultava nos abalos gravitacionais e não estava ao alcance de Tanaka.
O jogo tornara-se um pouco mais difícil.
— Doze mil — anunciou o localizador.
Rhodan retirou a fita de vídeo do sensor estrutural e projetou o quadro registrado. Estudou-o numa ampliação de dez vezes, mas ainda desta vez não conseguiu descobrir qualquer sentido naquilo que pouco antes havia contemplado em tamanho natural.
Mas conseguiu fixar as coordenadas do ponto central e modificou a rota da Stardust-III para aquela direção. Ao fazê-lo, ultrapassou a fronteira entre o dia e a noite; dali em diante passou a deslocar-se em meio a uma escuridão tempestuosa e turbilhonante.
A temperatura reinante para além do casco da nave descera para cento e dez graus absolutos, o que equivale a cento e sessenta e três graus centígrados negativos.

* * *

— Dez mil quilômetros!
No mesmo instante o sensor estrutural voltou a reagir. E da mesma forma que da vez anterior: o raio eletrônico traçou linhas verdes que se uniam num modelo sem o menor sentido. Durante dezesseis segundos brincou com a fantasia de Rhodan e apagou-se.
Houvera uma única modificação: o ponto central da amostra linear situava-se no ponto de origem das coordenadas. A Stardust-III encontrava-se na vertical do emissor, e não havia dúvida de que este se localizava na superfície do planeta gigante.
Rhodan comparou os dois quadros registrados em fita. Não teve tempo para interpretar os resultados da comparação; mas tudo indicava que não havia qualquer diferença entre as duas amostras além da situação do ponto central.
Dali se concluía que a alteração estrutural do espaço que se realizava abaixo da Stardust-III era um acontecimento dirigido. Não uma ocorrência causal no sentido estatístico. Outro indício disso consistia no fato de que em ambos os casos a alteração durara dezesseis segundos.
O localizador voltou a falar.
— O terreno abaixo de nós é bastante difícil. Parece ser montanhoso. As diferenças de altitude chegam a vinte mil metros. A área não é apropriada para o pouso.
— Conseguiu descobrir um terreno mais favorável?
— Sim senhor. A uns duzentos quilômetros daqui. Se os instrumentos não enganam, o terreno é totalmente plano.
— Corrija a rota, mas mantenha na medida do possível a direção atual.
O localizador efetuou a correção, introduzindo as coordenadas do novo local de pouso na memória programática do piloto automático. Na central a recepção dos novos dados foi anunciada através de um sinal. Rhodan, que durante a difícil manobra de pouso realizava um vôo semi-automático com a Stardust-III, realizou a adaptação à nova rota.
Numa altitude de mil quilômetros tornou-se necessário regular os geradores do envoltório energético para a potência máxima. A tempestade que, numa velocidade inconcebível, tangia diante de si massas de amoníaco e de metano, começou a alterar a rota da nave. A esfera gigantesca da Stardust-III sofreu um desvio. Só com a intensidade energética máxima dos envoltórios protetores tornou-se possível subtrair a nave aos efeitos da tormenta.
Um quadro estranho surgiu nas telas. O metano, um dos dois elementos principais da atmosfera daquele planeta, é um gás facilmente ionizável. E a ionização produzida pelo impacto das moléculas contra o envoltório energético envolveu a Stardust-III numa verdadeira auréola, que a nave arrastava atrás de si.
Naquela altura tornou-se impossível determinar o estado agregacional da atmosfera. Submetidas a uma pressão tremenda, as moléculas de amoníaco e metano se uniram numa ligação tão compacta que só seria de esperar num líquido. Mas a definição do estado agregacional líquido inclui uma superfície formada pela substância correspondente. Naquela atmosfera essa superfície se achava ausente. Rhodan concluiu que as pressões ultra-elevadas e as temperaturas extremamente baixas ali reinantes haviam produzido um estado ainda desconhecido à termodinâmica terrena em virtude da falta de possibilidades experimentais.
Nesse meio tempo o sensor estrutural havia reagido mais três vezes. O modelo surgido na tela era idêntico, o tempo de recepção foi novamente de dezesseis segundos, e Rhodan constatara que os intervalos entre as emissões também eram constantes.
Emissões!
Devia haver alguém nas proximidades do morro que, segundo as informações do localizador, se elevava a vinte quilômetros acima do nível normal, e transmitia emissões que provocavam os mesmos efeitos de distorção espacial que surgiam espontaneamente durante a transição de uma nave espacial. Até então essas distorções escapavam a qualquer influência dos homens — “devemos procurar outra palavra”, pensou Rhodan, “pois não se pode dar o nome de ‘homem’ a qualquer ser inteligente.” Não se limitava a transmitir, mas conseguira modular os efeitos das transmissões, conforme demonstrava o modelo surgido na tela do sensor.
Rhodan começou a compreender por que Crest e Thora pensaram em desistir de seus planos originais. Aqui defrontavam-se com um poder que excedia em muito o dos arcônidas.
— Altitude seiscentos mil metros. Temperatura externa oitenta e cinco graus absolutos. O dia começou, ao menos segundos nossos cálculos. O senhor percebe alguma coisa disso?
Um sorriso irônico surgiu no rosto de Rhodan.
— O senhor esperava ver o sol brilhar no fundo de um oceano de amoníaco de vinte quilômetros de profundidade?
Outras informações foram chegando. Todas elas refletiam o nervosismo que se apoderara dos homens. Dificilmente havia um dentre eles que seria capaz de sofrer a influência desse mundo estranho sem abalar-se. Ainda acontecia que na sua maioria os membros da tripulação não tinham visão direta do mundo exterior. Os localizadores e os homens que ocupavam os postos de combate só dispunham das telas dos localizadores e dos goniômetros, onde os objetos palpáveis se revelavam sob a forma de pontos, linhas ou superfície de uma cor. Ninguém sabia qual seria o aspecto do mundo situado lá fora.
Rhodan poderia consolá-los. Na tela do visor ótico direto espalhou-se um negrume acinzentado, sem contornos, sem detalhes.
Bell fitou o calendário automático.
A bordo da Stardust-III prevalecia a escala de tempo terrena. A decisão de Rhodan não fora fruto apenas do sentimentalismo; ainda acontecia que naquela nave, destinada a vôos extensos, qualquer escala de tempo que se adotasse seria tão prática e adequada como qualquer outra.
— 7 de dezembro. 18 horas e 20 minutos — disse Bell. Apenas não se percebia a leve melancolia que tremulava em sua voz porque a mesma era superada pelo nervosismo.
— A esta hora costumo...
— Quatrocentos mil metros!
— ...a esta hora costumo...
— Velocidade do vento seiscentos e cinqüenta metros por segundo. Mantém-se constante há dez minutos.
— ...a esta hora...
— Localizador ao comandante: a superfície abaixo de nós já não é tão plana como antes. Não sei como explicar isso.
— Consegue notar algum movimento? — perguntou Rhodan.
— Sim senhor. Parece que, de uma hora para outra, a pradaria se transformou num mar.
— É isso mesmo. A temperatura reinante na superfície do planeta aproxima-se do ponto de fusão do metano. Uma pequena elevação da temperatura basta para derreter o metano congelado. Realize um ensaio estrutural. Quero saber até que profundidade o metano está derretido.
— Sim senhor.
Menos de um minuto depois:
— A dez metros abaixo da superfície movimentada encontro chão firme.
— Está bem. A rota permanecerá inalterada.
Bell deu um suspiro melancólico e desistiu de contar o que teria feito a essa hora se estivesse na Terra. Dedicou sua atenção aos instrumentos.
A luz de controle dos envoltórios protetores começou a piscar. Bell reagiu antes que Rhodan percebesse qualquer coisa.
— Co-piloto ao controle de geradores do envoltório protetor. O que está acontecendo? Por que não ligou a potência máxima?
— Liguei — queixou-se o engenheiro.
— Procure controlar. Os envoltórios estão oscilando.
Rhodan reagiu à sua maneira. Diminuiu o desempenho dos jatos e fez com que a Stardust-III descesse com maior rapidez. Se algo acontecesse aos envoltórios protetores, preferia ter chão firme sob os pés.
— Chão firme!

* * *

— Atenção! A nave está tocando o solo.
Rhodan manteve-se imóvel diante do grande quadro de comando do piloto. O autômato incumbiu-se de sondar o subsolo e só desligar ou reduzir ao mínimo os jatos quando tivesse encontrado uma área de apoio adequada.
Até uma profundidade de dez metros o metano estava derretido; mais abaixo começava um solo enganador. Só numa profundidade de vinte metros os suportes hidráulicos da nave encontraram um apoio tal que levasse o autômato a reduzir o desempenho dos geradores.
O zumbido, que até então preenchia todos os cantos da gigantesca nave, e ao qual os ouvidos estavam tão bem adaptados, cessou quase por completo; só restou um ruído insignificante. Um silêncio quase tangível espalhou-se pelos compartimentos.
Rhodan adaptara uma trava aos geradores, que não permitiria a redução de sua aceleração a menos de 916 g. Dessa forma, juntamente com os neutralizadores gravitacionais, mesmo depois do pouso o mecanismo propulsor conservaria a Stardust-III num estado de ausência de gravidade. Os suportes haviam encontrado apoio seguro, embora não precisassem dele. Rhodan tinha certeza de que seria capaz de levantar a nave assim que o desejasse.
Mandou triplicar a guarnição do setor de vigilância dos geradores e encareceu aos homens que a segurança da nave e de seus tripulantes só estaria garantida se o mecanismo propulsor estivesse em condições de fazer a nave decolar a qualquer momento.
O incidente ocorrido numa altitude de quatrocentos quilômetros deixou-o pensativo. É bem verdade que poucos segundos depois da troca de mensagens entre Bell e o engenheiro incumbido do envoltório protetor este voltara à estabilidade; mas ainda faltava explicar o fenômeno que por trinta segundos fizera oscilar o mesmo sem qualquer motivo palpável.
O engenheiro asseverou que na regulagem dos geradores não houvera nenhuma modificação. Estes eram comandados por um quadro de comando central, e o engenheiro não tirara os olhos do mesmo. Não havia a menor explicação para o incidente.
— Até parece que alguém andou mordiscando nosso envoltório do lado de fora — disse Bell em tom pensativo.
A idéia era absurda. Mas um incidente deste tipo costuma produzir idéias absurdas.

* * *

— Quero pedir-lhe que examine os registros do sensor estrutural — disse Rhodan em tom sério. — Parece que estas alterações estruturais encerram alguma mensagem. Tanaka Seiko não conseguiu extrair coisa alguma de tudo isso. Não sente nada. Dependemos exclusivamente do sensor estrutural.
— Dispõe de algum ponto de referência? — perguntou Crest em tom pensativo.
Rhodan sacudiu a cabeça. Levou algum tempo para perceber que era a primeira vez que Crest o consultava num assunto de ordem técnica.
— Não dispomos de coisa alguma. A não ser que queiramos ver um ponto de referência naquilo que já sabemos sobre a mentalidade do desconhecido. Quer partir dali? Quanto a mim, posso partir. Mas não sei o que fazer com isso.
Crest olhou para as estreitas fitas de plástico que se encontravam diante dele; parecia contrariado.
— O que pretende fazer? — perguntou depois de algum tempo.
Rhodan sorriu.
— Nossos técnicos montaram um veículo experimental. Dispõe de um mecanismo de teledireção. Eu o farei andar um pouco por aí, e, se for capaz daquilo que esperamos dele, eu mesmo entrarei nele e darei umas voltas.
— Lá fora? — perguntou Crest, apontando com o polegar por cima do ombro.
— Lá fora — confirmou Rhodan. Crest sacudiu a cabeça.
— Às vezes até chego a sentir calafrios quando percebo seu poder de iniciativa. Não tem medo?
— Se tenho! — asseverou Rhodan com um sorriso de escárnio.

* * *

— Tudo em ordem. O carro esteve lá fora durante três horas e percorreu cerca de cinqüenta quilômetros. Nenhum vazamento. O funcionamento dos geradores do envoltório é impecável; a teledireção também está perfeita. Se desmaiar em caminho, poderemos trazê-lo para casa.
— Obrigado — disse Rhodan com um sorriso.
O carro era um veículo monstruoso. Não se podia cogitar de construí-lo sob a forma de um deslizador, que se movesse acima da superfície. A gravitação extrema de Gol — Rhodan aceitara o nome — excluía a possibilidade desse tipo de experiência. O veículo deslocava-se sobre esteiras. Os técnicos haviam aproveitado o chassi de uma das máquinas de trabalho robotizadas. O espaço útil não ultrapassava uns trinta por cento do volume total. Um pequeno recipiente abrigava o mecanismo propulsor propriamente dito. O espaço restante, que correspondia a quase setenta por cento do total, era ocupado por dois geradores incumbidos da criação de um campo protetor que defendia o veículo da força gravitacional mortífera.
A bem de sua segurança pessoal Rhodan teria preferido que o carro realizasse algumas viagens experimentais. Mas não havia tempo a perder. O desconhecido tinha uma noção muito precisa do tempo que o ser considerado digno consumiria na solução do mistério, e ninguém sabia qual era o tempo prefixado para a solução do grande mistério de Gol.
Bell insistira em acompanhar o chefe durante a primeira viagem, mas Rhodan não concordara.

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