A segunda lua do décimo segundo planeta bem
poderia ser tomada por irmã da primeira. Em nada se diferenciava da que haviam visitado
anteriormente. Atmosfera sofrível, água escassa, pouca vegetação, paisagem constituída
de rochas e montanhas.
Lossos insistiu na aterrizagem, e Groll acedeu,
contrariado. O aparelho pousou num platô rochoso. Os instrumentos de mediação automática
indicaram que a atmosfera era rarefeita demais para desembarcar sem traje espacial.
Resmungando baixinho, o ferrônio enfiou um macacão levíssimo, porém Groll sabia
que ele correspondia plenamente às exigências da situação. O capacete plástico completou
o equipamento.
— Espere por mim a bordo! — disse Lossos, desaparecendo
na escotilha do piso que havia sido adaptada para servir de comporta auxiliar. Groll
fechou-a hermeticamente e iniciou o processo de desembarque. O ar foi sugado, produzindo
o vácuo no pequeno compartimento. Depois a portinhola externa se abriu, e o ferrônio
foi lançado para fora como um volume de carga, rolando pela superfície pétrea da
lua 12B.
O rude tratamento não conseguiu abafar seu
ardor de cientista. A gravidade mais reduzida que a de Ferrol lhe fornecia energias
adicionais.
Pondo-se de pé num salto, Lossos afastou-se
com passos rápidos do caça, sem lançar um só olhar para o piloto que o vigiava preocupado
por trás do vidro da escotilha.
— Sujeitinho chato! — resmungou Groll, aborrecido.
O pesquisador ferrônio sumiu entre as rochas.
Avançava sem rumo definido, confiando no acaso. Sem dúvida seu bom senso lhe dizia
que eram praticamente nulas as chances de topar com algum indício do planeta desaparecido
naquele local ermo.
Groll aborrecia-se na pequena cabina. Claro
que poderia descer igualmente, mas perguntava-se o que faria lá fora. Portanto continuou
sentado em seu lugar, esperando.
Lossos regressou duas horas depois, sem demonstrar
sua decepção. Trabalhosamente introduziu-se no caça através da comporta. Retirando
o capacete, disse, ofegante:
— Nada! De jeito nenhum isto aqui é o planeta
desaparecido. Experimentemos o próximo!
— Ora, não deve ser diferente deste — replicou
Groll, mal-humorado. — Quantas luas tem mesmo o décimo terceiro planeta?
— Só duas — respondeu Lossos. Na testa abaulada
viam-se duas profundas rugas, dando nitidamente a impressão de que ele refletia
com grande esforço. — E uma delas é bastante interessante do ponto de vista astronômico.
— Ah, é? — comentou Groll, laconicamente, levantando
vôo.
Só quando estavam longe da lua 12B acrescentou:
— O que é que ela tem de interessante?
— Sua distância do planeta-mãe é tão grande
que precisa de meio ano para contorná-lo uma vez. A lua 13B é quase um planeta autônomo;
só que gira em torno de outro planeta. E os dois juntos giram em torno do sol. Por
que não seria ela o quadragésimo terceiro planeta que estamos procurando?
— É, por que não?... — respondeu Groll. Com
uma risada, acrescentou: — E por que deveria sê-lo, afinal?
* * *
Rhodan fez nova tentativa, porém o resultado
foi igualmente negativo. Nada mudou. O hipertransmissor não dava o menor sinal de
vida.
Ligeiramente desapontado, Rhodan deixou a cabina,
olhando perplexo para Crest.
— Não entendo isso! — confessou. — Conseguimos
superar com a maior facilidade os primeiros obstáculos, e acabamos diante de um
hipertransmissor enguiçado.
Que significará isso?
— Deve ter algum significado! — respondeu Crest,
convicto. — Pense nos numerosos outros hipertransmissores. Nenhum deles apresentou
defeito em todos estes milênios, e nem um só foi posto fora de uso por imprestável.
As fontes de energia são inesgotáveis, pois o gerador está embutido neles, conforme
sabemos. Logo, se este aqui não funciona, é por algum motivo deliberado. Que acha,
Bell?
Bell tinha claramente o ar de quem não nutria
opinião alguma; mas era evidente que não queria se desmoralizar. Portanto, disse,
em tom arrastado:
— Concordo com você, Crest... Não faltava imaginação
a esses seres do passado... Agora querem que banquemos os mecânicos de hipertransmissores,
para demonstrar que sabemos raciocinar na quinta dimensão...
Bell falara por falar, só para dizer alguma
coisa. No entanto Rhodan parecia impressionado com suas palavras. Relanceando os
olhos primeiro por Bell, depois por Crest,
voltou novamente a atenção para o hipertransmissor. Abrindo a porta, tornou a entrar
na cabina. Crest ficou esperando do lado de fora, assim como Anne Sloane e John
Marshall. Bell, no entanto, que não percebera o inesperado efeito de suas palavras,
recobrou o ânimo.
Rhodan procurava. Procurava algo bem definido:
o indício sem o qual todo aquele jogo de adivinhação perderia o sentido.
Os desconhecidos possuíam um inapreciável segredo:
a imortalidade. E estavam dispostos a reparti-lo com uma raça merecedora, de nível
semelhante ao seu. Mas de que modo poderiam avaliar esta equivalência? A resposta
era óbvia: submetendo-os a uma prova. Portanto, haviam deixado uma pista sutilmente
concebida antes de desaparecer. Caso alguém conseguisse seguir essa pista, e interpretar
acertadamente os numerosos indícios reveladores, encontrar-se-ia forçosamente com
eles algum dia. O encontro dos charadistas e dos solucionadores premiados.
Uma verdadeira competição cósmica de charadas.
Um campeonato galático de charadas!
Rhodan sabia que o transmissor representava
simultaneamente dois problemas. Em primeiro lugar, era preciso fazer o aparelho
funcionar novamente; depois, arriscar a viagem para local ignorado, onde...
Rhodan não ousou levar o pensamento mais adiante.
O que os esperava lá constituía novo problema, para ser resolvido posteriormente.
Bell emitiu repentinamente uma exclamação de
surpresa. Crest correu logo para junto dele, assim como os dois mutantes. Dentro
de mais alguns instantes Rhodan juntava-se igualmente ao grupo em torno de Bell.
Em seu bolso, o bilhete nervosamente comprimido entre os dedos parecia queimar como
fogo.
— Que foi? — perguntou ele, já adivinhando
a resposta.
— Uma inscrição! — gritou Bell, excitado. —
Descobri uma inscrição. Na parte de trás do hipertransmissor. E sem o menor trabalho...
Rhodan tirou o papel do bolso e leu rapidamente
o que estava escrito nele; parecia comparar aquelas duas linhas com as que apareciam
na face lisa do hipertransmissor. A seguir tornou a guardar o papel no bolso.
Bell acompanhara os gestos de Rhodan com evidente
desapontamento.
— Isso por acaso é algum dicionário? — indagou
zombeteiramente.
— Com sua permissão, sim! — respondeu Rhodan,
concentrando-se no estudo da inscrição. — Sinais gráficos iguais aos que vimos nos
planos de construção dos transmissores. Trata-se, portanto, da mesma língua, o idioma
dos imortais. Mais ainda: esta frase aí é a mesma do início da pista que estamos
seguindo. O que prova que o transmissor representa a continuação da pista.
— Frase? Onde é que tem uma frase por aqui?
— O idioma é escrito mediante símbolos figurativos,
sinais geométricos e letras desconhecidas. Além disso, está criptografado. Só o
cérebro positrônico será capaz de nos dar o texto em linguagem corrente.
— Que diz a frase? — indagou Bell.
— Encontrarão a luz, caso tua mente corresponder
à ordem mais elevada. Eu esperava mesmo achar esta frase em algum ponto dentro da
arca. Agora podemos estar certos de que nos encontramos na pista correta, e de que
acharemos a luz.
— Está bem! — resmungou Bell, olhando de esguelha
para os estranhos sinais. — Caso nossa mente corresponda à ordem mais elevada...
Será que corresponde?
— A do cérebro positrônico corresponde, pelo
menos — disse Rhodan, pensativamente.
Assim como a lua 13A, a 12C não apresentou novidade alguma.
Já mais interessado na aventura, Groll fez
a pequena aeronave distanciar-se do décimo terceiro planeta, rumando para a segunda
lua dele, a mais afastada. Seu diâmetro era mais ou menos igual ao de Marte; porém
a gravidade equivalia a 1 g ,
segundo a afirmava Lossos. Fato incomum, levando a concluir que no interior daquela
lua existiam elementos extraordinariamente pesados. A atmosfera era respirável,
e suficientemente densa. O clima, de acordo com os apontamentos de Lossos, era inclemente,
frio e áspero; porém tolerável.
“Um mundo à parte”, pensou Groll consigo mesmo,
admirando-se pelos ferrônios ainda não terem pensado em transformá-lo em mais uma
colônia. Interrogando Lossos acerca disso, recebeu como resposta:
— A lua 13B possui clima suportável para vocês,
sim. Mas nossa população é reduzida demais para pensar em novas colônias. Principalmente
em colônias na lua 13B; para o nosso gosto, ela é fria demais.
Como vê, não é incomum deixarmos de lado planetas
ou luas colonizáveis. Futuramente talvez pensemos nisso, quando nosso próprio mundo
se tornar pequeno demais...
O décimo terceiro planeta foi ficando longe;
em troca, sua lua externa crescia a olhos vistos. O círculo luminoso da atmosfera,
refletindo a luz da distante Vega, destacava-se nitidamente na escuridão cósmica.
No sistema solar ela seria considerada um planeta, pensou Groll, com uma pontinha
de inveja. Um mundo melhor que Marte aquele, caso Lossos não tivesse exagerado.
E seu núcleo pesado indicava a possibilidade de uma mineração de profundidade bastante
proveitosa.
Nuvem alguma empanava a visibilidade da superfície.
Também ali, constatou Groll, não havia mares nem oceanos. Pouca água, portanto,
pensou desapontado. Apenas alguns riozinhos cortavam as extensas planícies. Desembocavam
em depressões mais profundas, acabando por infiltrar-se no solo. Em conseqüência
disso existiam amplas áreas verdes, verdadeiro convite à povoação.
— Os ferrônios nunca exploraram esta lua mandando
alguma expedição para cá? — perguntou admirado. — Afinal, num mundo assim deve existir
vida.
— A natureza é perdulária — replicou Lossos.
— O Universo deve contar com inúmeros mundos à espera de ocupação por seres civilizados.
Produzem vegetação, mas nenhuma vida inteligente. É óbvio que possuímos registros
sobre a lua 13B, mas nenhum deles menciona a existência de vida nela; nem presente,
nem passada. Talvez as observações feitas tenham sido apenas superficiais; que eu
saiba, jamais aterrizaram nela.
— Que descanso! — criticou Groll, espantado.
— Mas talvez se possa atribuir tal desinteresse à extrema amplidão do sistema de
vocês, com excesso de mundos aproveitáveis. Vocês vivem na abastança. No meu sistema
solar só há dois planetas, além do meu, com possibilidade de serem habitados.
— Seu sistema fica muito longe de Vega? — indagou
Lossos, distraidamente.
Mas Groll não esquecera as ordens de Rhodan,
e respondeu:
— Longe ou perto, que diferença faz?
O ferrônio fingiu não perceber a evasiva do
piloto. Algum dia ficaria sabendo de onde tinham vindo aqueles desconhecidos. De
repente, Lossos apontou para baixo:
— Está vendo aquela cordilheira? Procure sobrevoá-la
no sentido do comprimento, bem baixinho. Se os imortais deixaram de fato algum marco,
devem tê-lo colocado em ponto bem visível, onde possa ser avistado de longe. O cume
de uma montanha seria ideal.
O argumento era razoável. Groll fez o caça
descer sobre a planície verdejante, na direção das montanhas próximas. Não viu árvore
alguma, mas apenas capim alto, com um ou outro platô rochoso no meio. Um curso d’água
raso serpenteava em mil ramificações através de um emaranhado de ilhas e ilhotas.
Paisagem verdadeiramente primitiva, faltando apenas os animais pré-históricos. Deserta
e à espera da vida ela se estendia sob o morno sol distante.
Aos poucos, o capim foi se tornando mais curto
e ralo. Touceiras esparsas brotavam agora no chão árido, que se tornava cada vez
mais seco e duro. Por fim só restou rocha nua, que se elevava gradualmente.
Groll fez o aparelho subir, pois a encosta
se tornava mais íngreme. O declive era acentuado, porém sem acidentes dignos de
nota.
Lossos, com o rosto grudado à escotilha, observava
atentamente cada particularidade do terreno desconhecido, buscando vestígios que
nem ele próprio podia imaginar como seriam, ou se existiam realmente. Talvez estivesse
perseguindo miragens, devia pensar consigo mesmo.
A encosta acabou de repente. Diante do olhar
surpreso de Groll estendia-se agora, até os confins do horizonte, uma superfície
plana. Quase um mundo diverso, totalmente diferente da paisagem amena da planície.
Devia ficar a uns dois mil metros de altitude, sem água nem vegetação de espécie
alguma. Um local estéril e inóspito. Se existira de fato uma civilização na lua
13B, certamente não se desenvolvera naquele ponto.
Lossos parecia não dar a menor importância
à mudança de cenário.
— Suba um pouco, para termos uma visão de conjunto
— pediu ao piloto. — Preste atenção a sinais característicos.
— Pensa mesmo que essa gente deixou marcos
à beira da estrada? — perguntou, sacudindo a cabeça. — Seria absurdo...
— O que é absurdo para nós, pode ser perfeitamente
normal para outros, sobretudo tratando-se de estranhos — argumentou Lossos, serenamente.
— E vice-versa... Precisamos levar em conta este fato, pois os seres que vivem mais
do que o sol também o consideraram. Que diz seu indicador de gravidade?
Estranhando a brusca mudança de assunto, o
sargento Groll consultou seu painel de instrumentos.
— Deve haver mesmo elementos pesados aí embaixo,
elementos naturais, obviamente. Ou julga ter descoberto as instalações subterrâneas
da raça desconhecida?
— Quem sabe? — replicou Lossos, com um sorriso
misterioso. — Até que seria uma agradável surpresa darmos com a entrada da casa
deles, não é?
“Que incorrigível otimista!”, pensou Groll,
amaldiçoando aquele encargo maluco. E, no entanto, a exploração do pequeno mundo
poderia ter sido bem agradável... Se dependesse dele, teria pousado na planície
de relva, para procurar animaizinhos. Na água do rio poderia encontrar bactérias,
com a ajuda do microscópio, e...
— Está vendo aquele grupo de rochas isoladas
ali adiante?! — exclamou o cientista ferrônio, arrancando o piloto de seu devaneio.
— Aterrize perto dele.
Sem responder, Groll desviou obedientemente
o rumo do aparelho. Contornou uma vez, a pouca altura, as rochas irregularmente
dispostas, fazendo depois a nave pousar junto do pedregulho maior. Era uma área
selvagem e acidentada, sem o menor sinal de vida ou vegetação.
— A atmosfera está em ordem. Desça comigo,
caso lhe interesse.
Groll recusou o convite. Mas depois que o sábio
desembarcou pela saída normal, desaparecendo entre os rochedos, mudou de opinião.
Já que estava ali, poderia aproveitar a oportunidade para explorar as redondezas
por sua própria conta. Apanhou num escaninho a pequena pistola de raios; após um
rápido exame, enfiou-a no cinto. Trancou a porta do caça, usando uma nova combinação,
que só ele conhecia. Ninguém poderia entrar no aparelho sem bloquear automaticamente
os propulsores.
O ar era fresco e agradável. Groll teve a impressão
de que o teor de oxigênio era um tanto reduzido, pois via-se forçado a respirar
depressa. Como se estivesse a quatro mil metros de altitude na Terra, pensou. Bem,
aquilo não constituía obstáculo digno de nota.
Lentamente, tomou direção idêntica à do ferrônio,
que desaparecera de vista. A área era grande demais para ser abrangida com o olhar;
absurdo imaginar que logo ali encontrariam vestígios de uma civilização há muito
desaparecida. O chão era liso e plano, com pedregulhos esparsos espalhados cá e
lá. As formações rochosas se destacavam como colunas contra o céu azul-esverdeado.
Groll começou a imaginar como se teriam formado
aqueles pilares de rocha. Água não existia ali, e os temporais deviam ser raros
e fracos. Bem, talvez aquele mundo tivesse aspecto diferente outrora...
Reinava um silêncio quase irreal. Os passos
de Groll despertavam ecos nas rochas. Ouvia ruído de outros passos, mas não conseguia
determinar em que direção... os do ferrônio. Groll parou, e agora só escutava os
passos de Lossos, fantasmagóricos e impressionantes. O som vinha da direita e da
esquerda, da frente e de trás. Parecia que um batalhão inteiro marchava por entre
as colunas rochosas. O eco reverberava um sem número de vezes, até encontrar finalmente
a procurada saída para o alto. Porém o bem treinado ouvido do piloto sabia distinguir
o eco do som original; não que fosse fácil, mas era possível. Instintivamente o
sargento levou a mão à cintura; o contato com o metal frio devolveu-lhe a serenidade.
É que, além dos passos do cientista ferrônio,
havia outros passos... lentos, cautelosos e sorrateiros.
Groll e Lossos não estavam sozinhos naquele
mundo.
3
As experiências haviam sido encerradas por
aquele dia. Crest conseguira determinar, inapelavelmente, que os circuitos do hipertransmissor
tinham sido interrompidos de maneira deliberada em diversos pontos. Havia igualmente
contatos falsos e ligações erradas, prontas para provocar curtos-circuitos.
— É nossa primeira tarefa — disse Crest. —
E temos que resolvê-la, como condição básica para podermos continuar na busca. Ainda
temos os planos do hipertransmissor. Com a ajuda do cérebro positrônico vai ser
fácil obter um esquema simplificado dos circuitos. Talvez um de nossos robôs-operários,
devidamente programado, possa reparar os defeitos deliberadamente provocados.
Rhodan não teve alternativa senão concordar
com Crest. Um dos mutantes ficou vigiando a arca, pois não convinha deixá-la mergulhar
mais uma vez nos recessos do tempo. O gerador neutralizante permaneceu ligado.
Rhodan demorou-se noite a dentro na central
do grande cérebro positrônico arcônida, irmão menor do gigantesco complexo eletrônico
em Vênus, ali deixado na época da Atlântida pela raça dominante no Universo. Infatigavelmente
ele enfiava perguntas nos classificadores, comparando as respostas. Fórmula após
fórmula escorregava das fendas ejetoras. Os tradutores simultâneos davam suas instruções
através dos alto-falantes. Rhodan dialogava com o cérebro positrônico como se este
fosse um ser vivo. Apresentava suas perguntas, e recebia as informações desejadas.
E, do ponto de vista positrônico, o cérebro era de fato um ser vivo; afinal, era
mais inteligente do que qualquer ser orgânico existente no Universo.
Rhodan só se deu por satisfeito ao ter nas
mãos o esquema simplificado dos circuitos do transmissor, e ao ver confirmadas quase
todas as suas suposições em relação à competição charadística dos imortais. Agora
sabia com certeza que se encontrava na pista do maior segredo do Universo, e que
não descansaria enquanto não o revelasse.
Na manhã seguinte, Crest condicionou um dos
robôs-operários, cuja especialidade era a positrônica. Seu raciocínio sintético
foi reajustado para bases pentadimensionais. Por conexão direta com o grande cérebro
positrônico recebeu a instrução necessária. Dez minutos após, o robô, construído
segundo moldes arcônidas, transformara-se no mais perito construtor de hipertransmissores
de matéria do momento. Para ele seria brincadeira consertar qualquer aparelho, mesmo
os avariados de propósito.
Rhodan aguardou a tarde antes de voltar para
Thorta. Esperara receber alguma notícia do sargento Groll, porém o caça espacial
não se manifestara. Mas a falta de notícias não constituía motivo para preocupação;
no ardor da pesquisa, Lossos nem se lembraria de enviar comunicações à base. O silêncio
podia ser interpretado como sinal certo de que os dois homens ainda não haviam deparado
com vestígio algum da desaparecida raça imortal.
A guarda pessoal de Thort não disfarçou seu
assombro ao ver Rhodan, Crest e Bell desembarcar do hipertransmissor no Palácio
Vermelho em companhia do robô. Jamais haviam visto semelhante reprodução metálica
da figura humana.
No subterrâneo tudo continuava no mesmo. Supervisionado
por seus donos, o robô pôs-se ao trabalho imediatamente. Em poucos instantes expôs
as entranhas funcionantes do hipertransmissor. Em circunstâncias normais, Rhodan
desanimaria diante da barafunda de mini-instrumentos eletrônicos e condutos de plástico;
no entanto, sabendo-se amparado pelos incomensuráveis conhecimentos do cérebro positrônico,
incorporados no robô, manteve-se sereno e confiante.
— Será que ele vai conseguir? — sussurrou Bell,
em voz apenas audível, como se receasse ser ouvido pelos próprios proponentes do
grande enigma. — E se ele der com os burros n’água?
— Não acha preferível calar a boca? — observou
Rhodan, secamente.
Ofendido, Bell afastou-se, enquanto Crest presenciava
tudo com seu imutável sorriso compreensivo. Inalterado e tranqüilo, o robô desfazia
os contatos errados, refazendo-os na ordem correta.
Os minutos foram passando, estendendo-se por
uma hora que parecia eterna.
Por fim, com um gesto que bem poderia ser interpretado
como de satisfação, o robô recolocou a tampa magnética sobre o mecanismo interno
do hipertransmissor e endireitou-se. Com voz inexpressiva, anunciou:
— O hipertransmissor está pronto para funcionar.
Rhodan deu um suspiro de contentamento. Com
um olhar de relance a Bell, bateu amistosamente no frio ombro metálico do robô,
que saía da cabina. Voltando-se para Crest, pronunciou uma única palavra:
— Quando?
Com um gesto da mão, o arcônida indicou sua
indecisão.
— É justamente o que eu me perguntava o tempo
todo, Perry. Talvez só amanhã... O grupo disposto a enfrentar tal risco deve ser
muito bem organizado. Podemos ir parar num hipertransmissor cuja parte receptiva
esteja em ordem, mas cujo transmissor tenha sido avariado de forma idêntica à deste
aqui. Parece-me imprescindível levar o robô. E não poderemos dispensar um médico;
sendo especialista, o Dr. Haggard seria o mais indicado.
— Necessitaremos de Anne Sloane e John Marshall
entre os mutantes — acrescentou Rhodan, pensativo.
— Exato, isso cobrirá todas as eventualidades.
O salto para o desconhecido nos levará à próxima tarefa, e espero que sejamos capazes
de realizá-la.
Com os olhos presos ao chão, Crest apresentava
aspecto profundamente meditativo.
— Há momentos em que nutro sérias dúvidas,
Perry. Não seria temerário querer descobrir os segredos de uma grande raça?
— Não estamos fazendo nada proibido — observou
Rhodan. — Eles nos deixaram uma pista, para que os seguíssemos.
— Teoria sua, Perry. Não podemos saber se corresponde
à realidade. Pessoalmente, acho que colocamos nossas vidas em jogo tentando seguir
essa pista.
— Pois minha opinião é diametralmente oposta,
assim como a do cérebro positrônico. Ou acha mais conveniente procurar o desaparecido
planeta da vida eterna através do Universo, sem o menor ponto de referência? Ele
pode estar em todo lugar, e em lugar nenhum.
— Às vezes chego a pensar que seria melhor
cancelar definitivamente o plano de procurá-lo — murmurou Crest.
Observação que fez Bell recuperar o ânimo.
De jeito nenhum ia continuar escutando passivamente aquilo tudo. Além disso, sabia
que desta vez contava com o apoio de Rhodan.
— Crest, não entendo você! — exclamou, em tom
de reprovação. — Quem jogaria fora a oportunidade de vir a se tornar imortal? Os
desconhecidos recompensam com a imortalidade a solução do enigma. Basta decifrá-lo,
e seremos imortais.
— Suposições e mais suposições, meu caro —
replicou Crest, mansamente. — Concordo que mesmo nossa expedição iniciada em Árcon
se baseava em suposições e crônicas antigas. Elas afirmavam a existência desse planeta,
mas isso foi há dez mil anos.
— Ótimo! — interveio Rhodan. — É justamente
isto que comprova a veracidade da teoria. Tivemos a prova concreta de que há dez
mil anos existiu neste sistema uma raça desconhecida, que, segundo eles próprios
afirmavam, vivia mais do que o sol. Ora, segundo os padrões humanos, isso corresponde
à imortalidade. Esta raça é a mesma que habitava seu planeta da vida eterna. Está
aí o início da pista. E o verdadeiro objetivo de sua expedição, Crest, era segui-la.
O arcônida concordou com certa reticência.
— Claro, claro, tem toda a razão, Rhodan. Desculpe
minha hesitação e meus contra-argumentos. Você vai depressa demais, e às vezes é
custoso acompanhar seu ritmo. Apesar de raciocinarmos depressa, nós, arcônidas,
agimos bem mais devagar...
— Tão devagar que seu Império foi para o beleléu
— observou Bell, com brutal franqueza.
O sorriso de Crest se apagou, porém em seus
olhos ainda se lia algo como condescendência e compreensão, ao responder:
— Amanhã, então? Bem, estou de acordo. Teremos
ainda uma boa noite de repouso para nos fortalecer. É bom ver que nossas opiniões
são iguais. Vamos embora?
* * *
O sargento Groll imobilizou-se de encontro
à rocha. Sensação estranha aquela de estar num planeta desconhecido e encontrar
de repente alguém. Se soubesse pelo menos quem era... Os pensamentos de Groll disparavam,
arquitetando as mais loucas hipóteses. Um ser vivo na lua 13B? Será que Lossos tinha
razão? Os misteriosos estranhos que haviam doado outrora os hipertransmissores aos
ferrônios, retirando-se depois para paragens desconhecidas, viveriam de fato naquela
lua? Poderiam realmente ter levado seu planeta para ali, disfarçando-o de lua? E...
seriam mal-intencionados?
A mão de Groll procurou novamente a cintura.
O sólido cabo da pistola de raios constituía um contato tranqüilizante; no entanto,
restava saber se ela seria útil contra seres que raciocinavam na quinta dimensão
e construíam hipertransmissores de matéria; contra entes que haviam imposto sua
vontade até a um planeta.
Mesmo confuso e repleto de dúvidas, o sargento
Groll não perdeu o ânimo.
Ocorreu-lhe que talvez viesse a tornar-se a
personalidade mais destacada em toda aquela expedição de Rhodan. Se tivesse mesmo
o privilégio de ser o primeiro a dar com a raça procurada...
Lossos devia ter parado, pois Groll não ouvia
mais seus passos. Por instantes escutou ainda o leve eco dos sorrateiros passos
do perseguidor, depois fez-se silêncio total. Apenas uma suave brisa soprava entre
os rochedos, semi-aprisionada pelos pilares de pedra. Com um calafrio, Groll segurou
com mais força a arma que tinha no cinto. O polegar tocava o disparador, pronto
para atirar. Não ousava dar um só passo, temendo chamar a atenção do estranho sobre
si. Por enquanto ainda contava com a vantagem da surpresa; era melhor que o desconhecido
continuasse pensando que seu único adversário era o ferrônio.
Mas não poderia ficar indefinidamente parado
ali, sem tomar iniciativa alguma. Era responsável pela segurança do cientista. E
Lossos estava desarmado. Enchendo-se de coragem, Groll avançou um passo. Não sabia
bem que direção tomar, porém supunha que tanto Lossos como o desconhecido se encontravam
por trás da coluna seguinte. O cientista devia estar absorto em seu trabalho, buscando
vestígios de uma hipotética civilização perdida, sem dar a menor atenção ao que
o cercava. E enquanto isso, um inimigo muito vivo se esgueirava para perto dele.
Apertando os dedos em torno do cabo da arma
Groll deu mais um passo, procurando não fazer o menor ruído. Era fácil contornar
as pedras espalhadas; e como o chão era plano, não corria o risco de tropeçar.
Sentiu o sangue gelar-lhe nas veias ao ouvir
lá adiante uma exclamação entusiástica. De Lossos, evidentemente. A voz não revelava
susto nem alarma, mas antes triunfo. Que significaria aquilo?
Novamente se fizeram ouvir as passadas firmes
e enérgicas do ferrônio. Uma ou outra pedra, involuntariamente chutada, rolava lentamente
pelo chão; o eco reverberava contra as rochas. Ouviu-se igualmente a respiração
arquejante de quem exercia violento esforço. Lossos falava sozinho, porém Groll
não entendia uma só palavra do que dizia. Mas adivinhou que o ferrônio descobrira
algo excitante, que o absorvia completamente.
O piloto contornou a coluna que os separava,
colando-se o mais possível contra a rocha lisa. A estreita garganta alargava-se
dali por diante, dando para um pequeno platô rodeado por paredes a pique. O longínquo
sol Vega descera acentuadamente no horizonte; agora iluminava só os picos mais altos
das colunas de pedra. Escurecia visivelmente.
Mas ainda restava claridade suficiente para
ver Lossos removendo afobadamente, com as mãos nuas, grandes blocos de pedra. Pelo
jeito, tentava chegar a uma formação semi-enterrada pelo pedregulho solto. Segundo
Groll podia ver de onde estava, tratava-se de uma espécie de pirâmide, soterrada
quase até o cume.
Lossos desimpedira uma das faces. A parede
lisa e regular apresentava em seu meio algo que parecia uma inscrição. Era aquilo
que interessava tanto o cientista.
Acerca de dez metros dela, na rocha vizinha,
via-se um buraco semicircular. A negra abertura vinha a ser uma espécie de túnel,
conduzindo às profundezas do solo. Aos derradeiros lampejos do sol, Groll percebeu
que o túnel penetrava diagonalmente no chão, quase desde os primeiros dois metros
de extensão.
Lossos ainda não devia ter visto o túnel, senão
não concentraria toda a sua atenção na pirâmide. Groll pensou em gritar para alertar
o ferrônio; mas como fazê-lo, sem se trair? A arma em sua mão era, sem dúvida, uma
defesa contra o perigo iminente, mas onde se ocultaria o misterioso caminhante desconhecido?
Agachado em algum canto, talvez, observando-o? Será que já descobrira? Em caso contrário,
por que se mantinha tão quieto de repente?
Cautelosamente encostado à rocha, Groll avançou
mais alguns passos. Até a rocha vizinha havia um espaço aberto de cerca de vinte
metros. Lossos e a pirâmide ficavam a mais ou menos trinta metros de distância,
e a entrada do túnel era um pouco além.
Encontrando um nicho na coluna, Groll parou.
Aquela posição lhe oferecia apreciável vantagem, protegendo-o por todos os lados.
Por que não ficar vigiando o ferrônio dali, sem se expor inutilmente? O adversário
desconhecido — dado o caso de tratar-se de fato de um adversário — evidentemente
só se preocupava com Lossos. Mais cedo, ou mais tarde, acabaria aparecendo; e Groll
poderia entrar em ação, conforme o que as circunstâncias exigissem.
A escuridão aumentava rapidamente. Os últimos
raios do sol desapareceram, dando lugar às primeiras estrelas. Entregue às suas
pesquisas, Lossos nem parecia dar pela modificação do ambiente. Mas, afastada a
última pedra, quando se inclinou para decifrar a misteriosa inscrição, pareceu se
dar conta, finalmente, de que estava escuro demais para conseguir lê-la. Não se
lembrara de trazer uma lanterna. Resmungando a meia voz, ergueu-se e ficou parado,
com ar desorientado. Seu vulto se destacava nitidamente contra a rocha; pairando
pouco acima do horizonte, o décimo terceiro planeta fornecia luz suficiente para
permitir a formação de sombras.
E foi também uma sombra que arrancou Groll
de sua passividade.
O piloto escutara um ruído, bem perto dele.
O desconhecido devia estar escondido na mesma rocha onde Groll se encostava, a menos
de três metros dele, observando Lossos. Fez-se ouvir novamente o rumor de passos
cautelosos... e depois apareceu contra a rocha fracamente iluminada um vulto escuro.
De tamanho sobrenatural, com contornos vagamente humanos. A cara pontuda e a pele
escamosa despertaram em Groll inquietantes lembranças de eras pré-históricas, e,
ao mesmo tempo, dos mais recentes acontecimentos no sistema Vega. Porém não tinha
muita certeza. Apesar de bem escolado nos princípios de Rhodan — jamais julgar estranhos
por sua aparência física — sentiu-se imobilizado pelo terror. Incapaz de executar
o menor movimento, encolheu-se ainda mais no nicho protetor, agarrado à arma. Em
vão seus olhos tentavam distinguir algo na penumbra reinante.
Lossos erguera-se, aparentemente resignado
a encetar o caminho de volta ao caça espacial. Pelo visto, nem percebera a estranha
e assustadora sombra, a menos de dez metros dali.
Groll forçou-se a reagir contra a inércia que
o dominava. Se hesitasse por mais alguns instantes, os vultos indistintos do ferrônio
e do estranho se confundiriam de tal maneira que seria impossível diferenciá-los.
E não haveria a menor possibilidade de intervir no que poderia vir a acontecer.
Erguendo a arma, Groll apontou-a para a sombra
do desconhecido. Sem tirar os olhos dela, gritou:
— Lossos, cuidado! Corra para a direita! Há
um ser desconhecido espreitando você! Depressa!
Não pretendia atirar num ente desconhecido
enquanto este não se revelasse positivamente inimigo. E de maneira nenhuma tencionava
provocar uma guerra com os habitantes daquele planeta — não conseguia tomar o 13B
por simples lua. Afinal, eles tinham direitos de sobra para examinar de perto qualquer
intruso em seu mundo.
No entanto, o que se seguiu eximiu-o de tomar
decisões.
A gigantesca sombra lançada sobre o platô não
se movia, permanecendo totalmente imóvel. Groll esperava ver, a qualquer momento,
o brilho de alguma arma; e estava firmemente decidido a retribuir o fogo, caso o
estranho atirasse. Mas não aconteceu nada disso.
Enquanto o ferrônio, depois de momentânea hesitação,
seguia o conselho de Groll, afastando-se com alguns saltos da presumida linha de
fogo, o desconhecido aproveitou a oportunidade para escapar.
Atento aos movimentos de Lossos, Groll distraiu-se
por instantes da vigilância sobre o estranho. Aqueles poucos segundos de desatenção
foram suficientes. Esparramando pedras por todos os lados, o ente desconhecido se
precipitou com a rapidez de uma lebre em fuga para a boca do túnel. Antes que Groll
pudesse sequer abrir a boca para gritar, ele sumira terra a dentro. O rumor de seus
passos apressados foi diminuindo gradativamente dentro do túnel, cada vez mais fraco
e distante. Dentro de instantes, o silêncio se restabeleceu.
Groll deixou decorrer ainda um minuto antes
de gritar para Lossos:
— Pode vir! Ele já foi embora! Temos que voltar
para o avião. Sabe lã que perigos ainda rondam por aqui.
O ferrônio veio vindo diagonalmente pelo platô;
aparentemente muito pouco impressionado com o perigo que correra. Sem tomar o cuidado
de abaixar a voz, gritou para o piloto.
— Encontrei! Encontrei os seres que vivem mais
do que o sol!
Irritado, Groll recolocou a arma no cinto,
dizendo:
— Descoberta de pouca utilidade para um cadáver!
O ferrônio pareceu despertar de repente.
— Que quer dizer? Ah, o desconhecido? Ora,
que bobagem... Algum passeante solitário, na certa. Deve ter se assustado e fugido...
Groll tomou a dianteira, murmurando consigo
mesmo:
— É, parece que, simbolicamente, o sol não
vive muito tempo aqui.
4
Mais uma noite se passou.
Rhodan estava firmemente decidido a solucionar
naquele dia a segunda etapa da charada galáctica, custasse o que custasse. Reunindo
o grupo escolhido para a empreitada programada, dirigiu-se com ele para o Palácio
Vermelho de Thorta, usando a cômoda via de transporte do hipertransmissor.
O robô esperava, em sua imobilidade mecânica.
— Nada de novo, senhor! — informou ele, em
resposta à pergunta de Rhodan.
Acercando-se pela direita, Bell bateu amistosamente
no frio ombro da réplica mecânia de um arcônida.
— Acha mesmo que não há perigo em entrar nessa
geringonça e deixar-se levar sei lá para onde?
— O hipertransmissor de matéria está pronto
para funcionar — replicou o robô, sem dar resposta direta à zombeteira pergunta
de Bell.
— Bem, como você vai conosco, fico mais sossegado
— comentou Bell, rindo. — Duvido que arriscasse a lataria à toa; deve estar bem
certo do que faz, não é?
Desta vez o robô não deu resposta.
Rhodan deteve-se pensativamente diante do hipertransmissor
por alguns instantes, antes de decidir-se a entrar. Crest, o Dr. Haggard, os dois
mutantes, Anne Sloane e John Marshall seguiram-no em silêncio. Bell esperou que
o robô tomasse lugar na cabina; só então embarcou, em último lugar.
A cabina mal dava para acomodar todos. Os participantes
humanos da aventura sentiram-se invadidos por um indefinível sentimento de temor,
contra o qual não conseguiam reagir. Parecia-lhes que estavam desafiando o passado.
A mão de Rhodan repousava sobre a alavanca
de partida, igual à que acionava os demais hipertransmissores. Porém desta vez o
alvo era diferente: fixado de antemão e desconhecido. Dali por diante estavam entregues
ao destino. O ponto de partida era óbvio, porém ignoravam onde ficava o receptor
correspondente àquele hipertransmissor.
— Nossa inquietação é compreensível — disse
Rhodan — porém não tem razão de ser. Segundo as deduções lógicas do cérebro positrônico,
nenhum perigo direto nos ameaça. Vamos apenas seguir uma pista traçada há milhares
de anos, e cuja extensão e ponto final desconhecemos. Também não sabemos quantas
etapas intermediárias será preciso vencer. Os enigmas à nossa frente foram propostos
por seres inteligentes, e temos que decifrá-los, se quisermos encontrar com eles.
A luz de que falam é a conservação celular, a vida eterna.
— Pois eu me decidi: quero encontrá-los! —
disse Crest. Porém havia uma leve reticência em sua voz. — Devo isso à minha raça.
Confesso, no entanto, que não me sinto tão confiante quanto você, Rhodan.
— Duvida da criação de sua própria raça, o
cérebro positrônico? Não fui eu que tracei nosso rumo, e sim ele, mediante deduções
racionais. Jamais se engana.
— Sim, concordo. Mas ele poderia incorrer em
erro relativo, caso receba dados incorretos para a análise. Que sabemos nós da maneira
de pensar dos seres que inventaram a grande charada?
— Muita coisa, Crest. Que possuíam desenvolvido
senso de humor, por exemplo. E sob certo aspecto eram, ou são, até amistosos; pois
em caso contrário não demonstrariam a menor intenção de repartir seu segredo com
outros. A charada representa uma medida acauteladora, a garantia de que nossa inteligência
se equipara à deles. Já frisei isto repetidamente, Crest, e você devia convencer-se
finalmente do que digo. E eu acredito que podemos medir-nos com eles.
— Tomara que sim! — murmurou Bell, desconsolado.
— É o que espero, pelo menos... Confesso que também não me sinto muito à vontade.
Para ser franco, já me despedi da vida.
— Ainda ontem você falava de outra maneira
— reprovou Rhodan, sempre com a mão sobre a alavanca, sereno e imóvel. — Perdeu
a coragem de repente?
— Muito pelo contrário! — afirmou Bell, com
um sorriso contrafeito. — Não vejo a hora de partir...
Haggard não fez qualquer comentário, assim
como os dois mutantes. Confiavam incondicionalmente em Rhodan; o que ele fazia estava
certo. Nunca agiria de maneira impensada. Sua presença representava segurança.
Também o robô se manteve calado, o que, porém,
não queria dizer nada. Bell, pelo menos, sempre alimentara a noção de que robôs
eram incapazes de ter sentimentos. O que não impedia que, em certos momentos, duvidasse
de suas próprias convicções.
— Prontos? — indagou Rhodan.
Cinco cabeças acenaram afirmativamente.
Cerrando os dentes, Rhodan apertou os lábios
numa linha dura e rígida; nos olhos de aço brilhava intensa expectativa. Com um
gesto brusco, baixou a alavanca.
Contrariamente aos saltos habituais, desta
vez fez-se sentir um efeito que não lhes era desconhecido. Dores agudas e cruciantes
invadiam o cérebro, propagando-se com agoniante lentidão pela coluna dorsal. Os
olhos turvavam-se, não distinguindo mais nada do que os cercava, o cérebro deixava
de pensar.
O processo todo não durou, na realidade, mais
do que algumas frações de segundos; ou uma eternidade. Num instante tudo passou.
O pensamento voltou a funcionar, os olhos enxergavam novamente, e a dor desapareceu.
— Raios! — resmungou Bell, agarrando-se ao
robô. — Brincadeira sem graça, essa! Eu é que não repetiria a experiência!
— Você vai ter que passar por ela, queira ou
não, se pretende voltar — lembrou Rhodan. — Onde estamos?
— E é a mim que pergunta? — espantou-se Bell,
tentando vislumbrar qualquer coisa na penumbra reinante.
Continuavam de pé dentro do hipertransmissor,
mas sabiam que já não se tratava da cabina na qual haviam embarcado há pouco. Deviam
ter chegado à estação receptora.
Era evidente que o aparelho os rematerializaria
no interior de alguma espécie de prédio. O ar era abafado e opressivo, como se não
tivesse sido renovado há longo tempo. Fontes luminosas ocultas emitiam fraco brilho.
Rhodan abriu a porta do transmissor. No mesmo
instante, como se aquilo fosse um sinal, o ambiente iluminou-se. As lâmpadas ocultas
intensificaram seu brilho. Imóveis, os homens, o arcônida, e o robô procuravam orientar-se.
O hipertransmissor encontrava-se no meio de
um imenso salão sem saída. Pelo menos, não havia nenhuma à vista. Apesar das vastas
dimensões da peça, havia pouco espaço livre, tão atulhado estava ela de maquinaria
e objetos de formas estranhas. Passagens estreitas conduziam por entre o conglomerado
de aparelhos, que ninguém sabia o que eram, nem para que serviam.
— Vamos! — disse Rhodan, com voz estranhamente
velada. Foi o primeiro a pisar o chão plano e liso. — Qual será nossa próxima tarefa?
Como se os desconhecidos imortais tivessem
ouvido a pergunta, surgiu uma inscrição luminosa no alto do teto. Era o modo de
escrever já conhecido: símbolos, desenhos e figuras. Mas, antes que o olhar de Rhodan
tivesse tido tempo de examinar sequer o primeiro símbolo, a inscrição se apagou
novamente. Sobressaltado, Rhodan compreendeu que perdera sua chance. Aquela inscrição
era um indício, parte da tarefa a realizar. Já que era incapaz de gravar instantaneamente
na memória uma impressão fugaz, devia ter trazido ao menos uma máquina fotográfica.
Lamentavelmente não se lembrara disso. Adiantaria prosseguir naquelas circunstâncias?
John Marshall, o telepata, captou o pensamento
de Rhodan.
— Não desanime — encorajou ele. — Eles certamente
não nos atraíram até aqui para nos mandar de volta com as mãos abanando. Mesmo que
nunca saibamos o que dizia aquela inscrição, supondo que ela apareça mais uma vez.
haverá outras tarefas à nossa espera.
— A inscrição será decifrada pelo cérebro positrônico
— interrompeu Crest. — Um de nós poderá levá-la até a base, e o teleportador Ras
Tshubai trará a resposta em poucos minutos.
— Como, se a inscrição já desapareceu?! — exclamou
Rhodan, amargurado. — De que jeito o cérebro poderia decifrar algo inexistente?
Pela primeira vez desde o começo da aventura
Crest sorriu. Um sorriso de leve superioridade.
— Você esqueceu um pequeno detalhe, Rhodan.
Minha memória fotográfica... Quer que eu escreva a frase aparecida no teto?
Rhodan suspirou audivelmente.
— Desculpe, Crest, esqueci mesmo. Escreva a
frase, sim, por favor. Mandaremos o robô como mensageiro. Não posso garantir que
a decifração seja importante. Mas talvez necessitemos dela para continuar.
O grupo todo já tinha saído do hipertransmissor.
Parados entre as gigantescas instalações, observavam o aparelhamento inerte e aparentemente
sem sentido. Nem sinal de seres vivos. Era como se tivessem sido jogados, sem razão
aparente, numa usina de força subterrânea, só para observar como reagiriam.
Só então sentiram a corrente de ar fresco.
Viram aberturas gradeadas no teto; o sistema de ventilação. E funcionando com base
nas exigências vitais de seres habituados a respirar oxigênio.
— Onde estamos? — perguntou Anne Sloane, timidamente.
— Em Ferrol?
— Podemos estar em Ferrol, sim; talvez até
em Thorta — replicou Rhodan, porém havia uma nota de dúvida em sua voz. — No entanto,
também podemos estar num planeta que gira a milhares de anos-luz de Ferrol no espaço.
Lembre-se da prolongada sensação de dor durante a teleportação; isto permite supor
que vencemos grandes distâncias. Mas, onde quer que nos encontremos, a volta está
garantida: o hipertransmissor está aí para nos levar quando quisermos. Não é verdade,
Crest?
— Era esta a inscrição luminosa no teto — disse
o arcônida, estendendo um papel a Rhodan. — Apenas o cérebro positrônico é capaz
de interpretá-la. Quem sabe a gente deve esperar um pouco antes de despachar o robô?
Rhodan hesitou.
— Não saberíamos nos orientar sozinhos neste
labirinto tecnológico. Talvez a inscrição nos explique por que viemos para cá.
— E caso precisarmos do robô aqui? — indagou
Bell.
— Bem, e quem iria no lugar dele? Você?
— Eu sozinho? Sozinho no hipertransmissor?
Nunca!
— Pois então a questão está resolvida, meu
velho. — Rhodan voltou-se para o calado e imóvel robô: — Tome este bilhete, e leve-o
para o cérebro positrônico da Stardust-III. Mande-o decifrar a inscrição, e traga-nos
o texto traduzido. Vá e volte o mais depressa possível.
— Não era Ras Tshubai que...?
— O robô será mais rápido — disse Rhodan, cortando
a frase de Bell.
Sem pronunciar uma palavra, o robô entrou no
hipertransmissor. Animados por sentimentos contraditórios, os expedicionários viram-no
sumir.
A mente cristalina de Rhodan funcionava a todo
o vapor.
— Aquela inscrição não deve ser o único indício
que nos aguarda aqui. Esse monte de tecnologia não foi reunido só para impressionar.
As provas se tornarão cada vez mais difíceis, isto é garantido. Vamos andando. Mas
sempre juntos, a fim de podermos empregar todos os nossos recursos se, eventualmente,
formos obrigados a reagir. Crest já teve uma oportunidade de mostrar sua capacidade.
Não sabemos quem será o próximo.
Dando o exemplo, Rhodan seguiu na frente. Crest
e Haggard acompanhavam-no de perto; depois vinham Anne Sloane e John Marshall; Bell
formava a retaguarda, com um olhar arrependido para o hipertransmissor. Na certa
se perguntava se não teria sido melhor executar a missão do robô...
Em algum ponto do vasto complexo fez-se ouvir
de repente um zumbido. Grave e regular, como um motor recém-ligado. Quem o teria
posto em funcionamento, se não se via ninguém por perto? Tudo aquilo devia ser controlado
automaticamente. Mas de onde, e por quem?
O zumbido vinha da direita. Rhodan dobrou na
primeira curva do estreito corredor, indo ao encontro dele. Sabia que não havia
outra escolha, a menos que quisesse perder tempo inutilmente. Pressentia que o tempo
constituía o fator mais importante, determinado há milhares de anos.
O mortiço brilho metálico das estranhas máquinas
parecia irradiar uma sarcástica ameaça. Bell encostou casualmente num dos maciços
blocos, mas logo recolheu a mão, assustado, como se tivesse tocado numa cobra.
O zumbido provinha de um cubo metálico no extremo
do corredor. Quando Rhodan se deteve diante dele, com ar inquisitivo, sentiu algo
tateante invadir seu cérebro. Poderes estranhos tentavam dizer-lhe algo. O quê?
— Marshall, está sentindo também?
O telepata acenou ligeiramente. De olhos cerrados,
parecia escutar uma voz em seu íntimo. Gotas de suor banhavam-lhe a testa. Crest
se mantinha igualmente imóvel. Bell, observando a certa distância, não percebia
nada. Escutava apenas o zumbido, tentando achar alguma explicação para ele. De seu
ponto de vista, aquele cubo de metal não passava de mais uma máquina ou gerador
no meio daquela barafunda.
O zumbido cessou, dando lugar a um silêncio
mortal. Rhodan sentiu a pressão afrouxar em sua cabeça; John Marshall suspirou e
abriu os olhos.
— Uma mensagem mental não codificada — disse
ele. — Esta máquina vem a ser um sensor de estrutura mental; avaliou nossa capacidade
intelectual e quociente de inteligência. O resultado foi favorável; parcialmente,
pelo menos...
— Como assim?
Marshall fez uma careta de constrangimento.
— O aparelho constatou reações diversas entre
nós, segundo depreendi. O resultado final foi favorável, apesar de não ter detectado
qualidades telepáticas em Bell, Haggard e Anne. Tanto em você, como em Crest, ele
percebeu leve inclinação para a telepatia. Como eu fui considerado cem por cento,
foi a mim que ele comunicou suas conclusões.
— Não entendo! — reclamou Bell. — Está querendo
me convencer de que falou com essa máquina? Que ela conversou com você?
— De certa forma, sim — confirmou o telepata.
— Eu pude entender o que ela pensava. Seja como for, fomos aprovados no exame. E
a ordem é seguir procurando.
— Procurando? Mas o quê?
— Isto o telepata automático não me disse.
Rhodan ia dizer qualquer coisa, porém não chegou
a falar. Crepitando furiosamente, tremendos raios começaram a cruzar o recinto,
seguidos por estrondosas descargas elétricas. Percorrendo um trajeto de dez metros,
os raios nasciam num globo de brilho azulado, que pairava, aparentemente sem suporte
algum, junto ao teto. Acabavam em outra esfera, provida duma pequena antena, e assentada
sobre um enorme receptáculo de metal.
Dez metros; ou sejam, dez milhões de volts!
A esfera receptora começou a abrasar-se e ficou
branca. Irradiava um calor que aumentava gradualmente. Sentia-se no ar o cheiro
de ozônio. Os raios cessaram. Porém a esfera continuou incandescente, e o calor
crescia no recinto subterrâneo.
— Que foi isso? — murmurou Bell, com voz insegura.
Rhodan pigarreou.
— Uma demonstração bastante drástica de transmissão
de energia sem fio, se não me engano. Dificilmente aplicável na prática, no entanto.
Sei lá o que pensar disso. Se é uma das tarefas...
Novamente Rhodan foi interrompido. Algo se
mexia no imenso complexo. Passos nítidos, chegando perto. Firmes, pesados e ritmados;
chegavam a ser até monótonos.
De junto a Rhodan, Crest empalideceu violentamente.
Tremia da cabeça aos pés. Bell gozou com aquela cena; até que se viu forçado a apelar
para todas as suas forças a fim de disfarçar a própria consternação.
Rhodan parecia ter estarrecido. Sua face era
uma máscara tensa e rígida. Parecia ter esquecido totalmente os amigos, e nem sequer
viu John Marshall levar instintivamente a mão ao bolso.
Alguém — ou alguma coisa — se dirigia ao encontro
deles por entre a maquinaria. Às suas costas ressoaram passos semelhantes, firme
e determinados.
— Nada de atos impensados! — murmurou Rhodan,
incisivamente, dirigindo-se em especial a Marshall. — Não demonstrem medo, pois
duvido que se trate realmente de um inimigo. A charada galáctica requer inteligência,
e não podemos nos desprestigiar.
Viram um vulto apontar ao longe, no extremo
do corredor, vindo de uma passagem transversal. Assemelhava-se a um homem, só que
era maior e mais pesado. Faltavam-lhe as pernas, no entanto. Em vez disso, locomovia-se
sobre duas altas rodas. O tronco era peculiarmente geométrico e anguloso. Na cabeça
havia algo como antenas ou sensores, de conformação estranha. Os olhos eram dois
jatos de fogo.
— Um robô! — murmurou Crest, assombrado. —
Não é propriamente um ser vivo, na nossa concepção. Seriam robôs os...?
— Tolice! — replicou Rhodan, secamente. Percebia
agora que o ruído, interpretado como sendo de passos, vinha do interior do corpo
do gigante de dois metros de altura. Uma espécie de propulsão, talvez, ou então
alguma manobra de despistamento; fosse o que fosse, não tinha sentido aparente.
Por trás do grupo, aproximando-se lentamente,
surgiu outro robô.
Rhodan olhou em torno nervosamente. Não havia
possibilidade de escapar. Os blocos maciços das máquinas formavam verdadeiras muralhas,
altas e inteiriças. Impossível subir pelas paredes lisas... Caso os robôs não se
detivessem a tempo... Decidiu fazer uma experiência.
— Fiquem parados onde estão — recomendou aos
companheiros. Depois foi ao encontro do primeiro robô.
O monstro movia-se relativamente devagar, mas
seu avanço era constante. O mecanismo de funcionamento, em prontidão provavelmente
há milhares de anos, devia ter sido ativado com a entrada do grupo em seu meio.
Portanto cabia-lhes imobilizá-lo de novo.
Rhodan parará a cinco metros do monstro. Seu
aspecto era de fato impressionante. Dos olhos emanava o fulgor de uma força dominada
a custo. Os frágeis sensores prateados vibravam nervosamente, estendendo-se na direção
de Rhodan, como se esperassem alguma coisa dele. Um bastão metálico no alto da cabeça
começou a oscilar. Inexoravelmente, as grandes rodas levavam o autômato para diante,
sem o menor sinal de quererem parar.
Puramente por instinto, Rhodan estendeu as
duas mãos, ordenando energicamente:
— Pare!
O robô continua a rodar.
Desistindo de nova tentativa, Rhodan voltou
para junto de seu grupo.
— Marshall, dê-lhe uma ordem telepática! Talvez
ele reaja a isso.
O telepata adiantou-se. Enquanto isso, a ameaça
representada pelo segundo autômato se tornava mais aguda. O mecanismo, composto
de ligas metálicas desconhecidas, e de elementos eletrônicos misteriosos, continuava
a avançar sempre, como se o outro robô o atraísse com forças mágicas. Ambos pareciam
dispostos a encontrar-se a qualquer preço, esmagando sem piedade tudo que lhes impedisse,
o caminho.
Procurando desesperadamente um meio de socorrer
os amigos, Anne Sloane acabou acertando com a única solução possível. Por que não
recorrer a seus dons? Como é que Rhodan não se lembrara logo daquilo, já que não
havia outra alternativa?
Sem pronunciar uma palavra, ela encaminhou-se
para o segundo robô, detendo-se a alguns passos dele. Apelando para a rotina de
longos anos de treino, concentrou sua mente. Sabia que sua capacidade seria submetida
a rude prova, a mais severa que já enfrentara em toda a vida. E, no entanto, a tarefa
era bem simples do ponto de vista técnico. Apenas o receio de fracassar é que ameaçava
paralisar sua energia mental; mas, ao mesmo tempo, seu pavor mortal produzia efeito
oposto.
Enfeixando sua força mental, Anne lançou-a
contra o colosso, como se fosse o foco de um holofote invisível.
Atento às valentes tentativas de Marshall,
Rhodan não percebeu logo o êxito dos esforços de Anne; mas seu ouvido não tardou
a acusá-lo. Apenas Bell observava Anne, e teve o privilégio de apreciar o espetáculo
verdadeiramente inédito desde o início.
O robô parecia ter esbarrado num obstáculo
invisível. As rodas bloqueadas giravam no mesmo lugar, e acabaram parando. Espalhou-se
no ar um cheiro de isolamento queimado. E o calor emanado pela esfera incandescente
aumentava mais e mais.
O corredor era estreito, e o imóvel corpo metálico
do robô não permitia a passagem de nenhum dos humanos. O obstáculo fora detido,
porém não afastado. Além disso, que adiantava ter imobilizado um dos robôs se o
outro prosseguia em sua ameaçadora avançada? E Anne não poderia ocupar-se ao mesmo
tempo de ambos.
O cérebro da telecineta raciocinava a jato.
Antes que Bell conseguisse dizer alguma coisa, ela já sabia o que fazer. Intensificando
seus esforços, transmutou suas correntes de pensamento. As forças mentais concentradas
transformaram-se em energia positiva, e levantaram o robô no ar. Lentamente, com
as rodas novamente em movimento, o monstro metálico flutuou para o alto. Dez centímetros,
vinte, meio metro...
Anne sentiu-se enfraquecer. Não agüentaria
aquilo por muito tempo. Mas era preciso! Estariam todos perdidos caso ela não conseguisse
remover o obstáculo do caminho, e torná-lo inofensivo.
Alçou o autômato a dois metros de altura, depois
a três. Ele já estava no mesmo nível do topo das máquinas. Porém Anne ainda não
estava satisfeita. Acrescentou mais dois metros, e o monstrengo pairava agora a
cinco metros de altura. Agora uns dois ou três metros para o lado...
Com um suspiro, ela soltou o robô.
Ele ficou suspenso no ar por um centésimo de
segundo, com as rodas girando, por cima das massas metálicas de máquinas misteriosas.
Depois precipitou-se para baixo. O fragoroso impacto de metal sobre metal reboou
no recinto.
O estrondo fez Rhodan e os demais se virarem
abruptamente. Também Marshall desistiu de suas vás tentativas de obrigar o robô
a submeter-se à obediência, mediante ordens telepáticas. A brusca reviravolta permitiu-lhe
ver, ainda a tempo, o segundo robô se despedaçando no topo de uma das imensas máquinas,
espalhando peças por todos os lados. Ao mesmo tempo presenciou, assim como os demais,
o desfalecimento de Anne Sloane. Ela se abateu ao solo antes que alguém pudesse
ampará-la. O esforço fora demasiado.
Com um só olhar, Rhodan apreendeu a situação.
— De volta para o hipertransmissor! — ordenou,
ignorando o primeiro robô, que continuava a avançar imperturbavelmente.
— Precisamos escapar antes que ele nos alcance!
Marshall sacou do bolso uma pistola de raios;
ninguém sabia que ele viera equipado com tal arma. — Quer que o aniquile?
— Não! — berrou Rhodan. — Não podemos resolver
tudo pela violência. Prefiro que me ajude a carregar Anne. Bell, mexa-se! Que faz
aí parado? Dê uma mão aqui!
A retirada foi apressada, porém ordenada. Rhodan
até teve tempo de refletir sobre a fracassada missão. Sabia que tinham falhado.
E, no entanto, tudo poderia ter sido resolvido com a maior facilidade, considerando
bem... Os dons telecinéticos de Anne não eram suficientemente poderosos para dar
conta de dois adversários simultaneamente. Mas eles dispunham de outra telecineta...
O coração de Rhodan começou a bater mais depressa
ao lembrar-se de Betty Toufry. Como é que não pensara nela antes? A jovem mutante
representava verdadeiro fenômeno parapsicológico. Dominava a telecinésia melhor
que qualquer outro integrante do Exército de Mutantes possuidor de dom idêntico.
Apesar de sua pouca idade, já sobrepujara a própria Anne Sloane.
— Talvez ainda não seja tarde demais, se conseguirmos
trazer a tempo Betty Toufry — disse Rhodan, arquejante, ao dobrar a última volta
do corredor. — Mas, seja como for, o robô precisa ser eliminado antes de alcançar
o hipertransmissor. Parece que ele foi programado para destruí-lo. Pretendem nos
cortar o caminho de volta. Mas o sucesso obtido foi só parcial.
Encontravam-se agora diante da cabina. Antes
que Rhodan pudesse distribuir instruções, materializou-se dentro do transmissor
o vulto do robô arcônida; e depois outro, bem menor!
Betty Toufry desembarcou diante dos atônitos
companheiros. Parecia intimidada. O rostinho jovem tomou um ar de susto ao ver Anne
Sloane desmaiada nos braços de Bell. John Marshall, ao lado dele, não sabia se cuidava
da moça inconsciente, ou do robô que se aproximava rolando. Escolheu, então, a terceira
alternativa, indagando:
— Ué, Betty, de onde vem?
Rhodan já se refizera da surpresa.
— Até parece que você me ouviu chamar, Betty!
— exclamou, com um olhar indagador para Crest. Porém o arcônida também não soube
lhe dar esclarecimento algum. — Anne não está dando conta do recado sozinha. Fomos
atacados por um robô. Você precisa intervir, a fim de desativá-lo. Anne simplesmente
levantou o dela no ar, deixando-o cair depois.
— O cérebro positrônico me aconselhou a trazer
a mutante Betty Toufry — informou o robô arcônida, com sua impessoal voz metálica.
— Talvez esta mensagem lhe tenha indicado a necessidade da medida. O autômato estendeu
um bilhete a Rhodan.
Só então este se recordou que enviara o robô
para cima — nem sabia porque pensava em termos de lá em cima e aqui embaixo — com
a missão de mandar decifrar o texto da inscrição luminosa.
No bilhete lia-se clara e explicitamente:
Bem-vindos à central das mil tarefas — porém
apenas uma delas os conduzirá ao alvo desejado.
Era tudo. E o sentido era óbvio. Rhodan interpretou-o:
— Temos mil tarefas diante de nós, e fracassamos
logo na segunda ou terceira.
Isto é, podemos nos considerar fracassados,
se Betty não conseguir ajudar. O cérebro sabia evidentemente que surgiriam complicações
telecinéticas, e que Anne não conseguiria se safar delas sozinha. Betty precisa
fazer uma tentativa, antes de desistirmos de vez. Venha, Betty, eu vou com você.
O resto do grupo fica perto do hipertransmissor. Com ordem de embarcar imediatamente
caso eu fizer sinal. Entendido?
O tom de Rhodan era de desacostumada severidade.
Bell não arriscou o menor comentário, dedicando-se ao atendimento de sua paciente.
Anne já abria os olhos e procurava se desvencilhar dos braços que a envolviam, ainda
meio atordoada. Marshall constatou o fato com nítida satisfação. Crest parecia estar
em transe.
Tomando a mão de Betty, Rhodan voltou com ela
para o vasto recinto das máquinas, de encontro ao robô, cujas pancadas ritmadas
eram cada vez mais audíveis. O monstrengo avançava com assustadora regularidade.
— Você vai ter que se concentrar ao máximo
— cochichou Rhodan à menina. — Não basta fazê-lo parar; tente levantá-lo e levá-lo
para outro lado. Uma queda de poucos metros de altura será suficiente para destruí-lo.
Deve ser justamente isso que esperam de nós. Entre outras coisas... — acrescentou
em voz mais baixa, como se receasse ser ouvido por quem não devia escutar suas palavras.
— Será que você consegue?
Com os olhos muito arregalados, a jovem acenou
silenciosamente. Já avistavam o robô, a dez metros diante deles. Vagarosamente o
colosso metálico ganhava terreno, sempre acompanhado pelas surdas batidas.
— Agora! — sussurrou Rhodan, mantendo-se atrás
de Betty, a fim de não desviar-lhe a atenção.
A muito custo, a menina reprimiu o pânico que ameaçava
dominá-la. Só uma vez em sua existência vira-se obrigada a exercer sua capacidade
numa emergência: na ocasião em que alvejara o próprio pai, subjugado por seres alienígenas.
Entes com o poder de comandar ao seu bel-prazer organismos alheios tinham dominado
o pai de Betty, ordenando-lhe que causasse graves danos à Terra. A criança não teve
alternativa senão apontar a arma do pai contra ele. Com isso, a invasão dos aterradores
seres fora repelida com êxito; porém a lembrança da terrível experiência fizera
Betty amadurecer antes do tempo.

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