sábado, 20 de outubro de 2012

P-014 - Charada Galáctica - Clark Darlton [parte 2]


A segunda lua do décimo segundo planeta bem poderia ser tomada por irmã da primeira. Em nada se diferenciava da que haviam visitado anteriormente. Atmosfera sofrível, água escassa, pouca vegetação, paisagem constituída de rochas e montanhas.
Lossos insistiu na aterrizagem, e Groll acedeu, contrariado. O aparelho pousou num platô rochoso. Os instrumentos de mediação automática indicaram que a atmosfera era rarefeita demais para desembarcar sem traje espacial. Resmungando baixinho, o ferrônio enfiou um macacão levíssimo, porém Groll sabia que ele correspondia plenamente às exigências da situação. O capacete plástico completou o equipamento.
— Espere por mim a bordo! — disse Lossos, desaparecendo na escotilha do piso que havia sido adaptada para servir de comporta auxiliar. Groll fechou-a hermeticamente e iniciou o processo de desembarque. O ar foi sugado, produzindo o vácuo no pequeno compartimento. Depois a portinhola externa se abriu, e o ferrônio foi lançado para fora como um volume de carga, rolando pela superfície pétrea da lua 12B.
O rude tratamento não conseguiu abafar seu ardor de cientista. A gravidade mais reduzida que a de Ferrol lhe fornecia energias adicionais.
Pondo-se de pé num salto, Lossos afastou-se com passos rápidos do caça, sem lançar um só olhar para o piloto que o vigiava preocupado por trás do vidro da escotilha.
— Sujeitinho chato! — resmungou Groll, aborrecido.
O pesquisador ferrônio sumiu entre as rochas. Avançava sem rumo definido, confiando no acaso. Sem dúvida seu bom senso lhe dizia que eram praticamente nulas as chances de topar com algum indício do planeta desaparecido naquele local ermo.
Groll aborrecia-se na pequena cabina. Claro que poderia descer igualmente, mas perguntava-se o que faria lá fora. Portanto continuou sentado em seu lugar, esperando.
Lossos regressou duas horas depois, sem demonstrar sua decepção. Trabalhosamente introduziu-se no caça através da comporta. Retirando o capacete, disse, ofegante:
— Nada! De jeito nenhum isto aqui é o planeta desaparecido. Experimentemos o próximo!
— Ora, não deve ser diferente deste — replicou Groll, mal-humorado. — Quantas luas tem mesmo o décimo terceiro planeta?
— Só duas — respondeu Lossos. Na testa abaulada viam-se duas profundas rugas, dando nitidamente a impressão de que ele refletia com grande esforço. — E uma delas é bastante interessante do ponto de vista astronômico.
— Ah, é? — comentou Groll, laconicamente, levantando vôo.
Só quando estavam longe da lua 12B acrescentou:
— O que é que ela tem de interessante?
— Sua distância do planeta-mãe é tão grande que precisa de meio ano para contorná-lo uma vez. A lua 13B é quase um planeta autônomo; só que gira em torno de outro planeta. E os dois juntos giram em torno do sol. Por que não seria ela o quadragésimo terceiro planeta que estamos procurando?
— É, por que não?... — respondeu Groll. Com uma risada, acrescentou: — E por que deveria sê-lo, afinal?

* * *

Rhodan fez nova tentativa, porém o resultado foi igualmente negativo. Nada mudou. O hipertransmissor não dava o menor sinal de vida.
Ligeiramente desapontado, Rhodan deixou a cabina, olhando perplexo para Crest.
— Não entendo isso! — confessou. — Conseguimos superar com a maior facilidade os primeiros obstáculos, e acabamos diante de um hipertransmissor enguiçado.
Que significará isso?
— Deve ter algum significado! — respondeu Crest, convicto. — Pense nos numerosos outros hipertransmissores. Nenhum deles apresentou defeito em todos estes milênios, e nem um só foi posto fora de uso por imprestável. As fontes de energia são inesgotáveis, pois o gerador está embutido neles, conforme sabemos. Logo, se este aqui não funciona, é por algum motivo deliberado. Que acha, Bell?
Bell tinha claramente o ar de quem não nutria opinião alguma; mas era evidente que não queria se desmoralizar. Portanto, disse, em tom arrastado:
— Concordo com você, Crest... Não faltava imaginação a esses seres do passado... Agora querem que banquemos os mecânicos de hipertransmissores, para demonstrar que sabemos raciocinar na quinta dimensão...
Bell falara por falar, só para dizer alguma coisa. No entanto Rhodan parecia impressionado com suas palavras. Relanceando os olhos primeiro por Bell, depois  por Crest, voltou novamente a atenção para o hipertransmissor. Abrindo a porta, tornou a entrar na cabina. Crest ficou esperando do lado de fora, assim como Anne Sloane e John Marshall. Bell, no entanto, que não percebera o inesperado efeito de suas palavras, recobrou o ânimo.
Rhodan procurava. Procurava algo bem definido: o indício sem o qual todo aquele jogo de adivinhação perderia o sentido.
Os desconhecidos possuíam um inapreciável segredo: a imortalidade. E estavam dispostos a reparti-lo com uma raça merecedora, de nível semelhante ao seu. Mas de que modo poderiam avaliar esta equivalência? A resposta era óbvia: submetendo-os a uma prova. Portanto, haviam deixado uma pista sutilmente concebida antes de desaparecer. Caso alguém conseguisse seguir essa pista, e interpretar acertadamente os numerosos indícios reveladores, encontrar-se-ia forçosamente com eles algum dia. O encontro dos charadistas e dos solucionadores premiados.
Uma verdadeira competição cósmica de charadas.
Um campeonato galático de charadas!
Rhodan sabia que o transmissor representava simultaneamente dois problemas. Em primeiro lugar, era preciso fazer o aparelho funcionar novamente; depois, arriscar a viagem para local ignorado, onde...
Rhodan não ousou levar o pensamento mais adiante. O que os esperava lá constituía novo problema, para ser resolvido posteriormente.
Bell emitiu repentinamente uma exclamação de surpresa. Crest correu logo para junto dele, assim como os dois mutantes. Dentro de mais alguns instantes Rhodan juntava-se igualmente ao grupo em torno de Bell. Em seu bolso, o bilhete nervosamente comprimido entre os dedos parecia queimar como fogo.
— Que foi? — perguntou ele, já adivinhando a resposta.
— Uma inscrição! — gritou Bell, excitado. — Descobri uma inscrição. Na parte de trás do hipertransmissor. E sem o menor trabalho...
Rhodan tirou o papel do bolso e leu rapidamente o que estava escrito nele; parecia comparar aquelas duas linhas com as que apareciam na face lisa do hipertransmissor. A seguir tornou a guardar o papel no bolso.
Bell acompanhara os gestos de Rhodan com evidente desapontamento.
— Isso por acaso é algum dicionário? — indagou zombeteiramente.
— Com sua permissão, sim! — respondeu Rhodan, concentrando-se no estudo da inscrição. — Sinais gráficos iguais aos que vimos nos planos de construção dos transmissores. Trata-se, portanto, da mesma língua, o idioma dos imortais. Mais ainda: esta frase aí é a mesma do início da pista que estamos seguindo. O que prova que o transmissor representa a continuação da pista.
— Frase? Onde é que tem uma frase por aqui?
— O idioma é escrito mediante símbolos figurativos, sinais geométricos e letras desconhecidas. Além disso, está criptografado. Só o cérebro positrônico será capaz de nos dar o texto em linguagem corrente.
— Que diz a frase? — indagou Bell.
— Encontrarão a luz, caso tua mente corresponder à ordem mais elevada. Eu esperava mesmo achar esta frase em algum ponto dentro da arca. Agora podemos estar certos de que nos encontramos na pista correta, e de que acharemos a luz.
— Está bem! — resmungou Bell, olhando de esguelha para os estranhos sinais. — Caso nossa mente corresponda à ordem mais elevada... Será que corresponde?
— A do cérebro positrônico corresponde, pelo menos — disse Rhodan, pensativamente.
Assim como a lua 13A, a 12C não apresentou novidade alguma.
Já mais interessado na aventura, Groll fez a pequena aeronave distanciar-se do décimo terceiro planeta, rumando para a segunda lua dele, a mais afastada. Seu diâmetro era mais ou menos igual ao de Marte; porém a gravidade equivalia a 1 g, segundo a afirmava Lossos. Fato incomum, levando a concluir que no interior daquela lua existiam elementos extraordinariamente pesados. A atmosfera era respirável, e suficientemente densa. O clima, de acordo com os apontamentos de Lossos, era inclemente, frio e áspero; porém tolerável.
“Um mundo à parte”, pensou Groll consigo mesmo, admirando-se pelos ferrônios ainda não terem pensado em transformá-lo em mais uma colônia. Interrogando Lossos acerca disso, recebeu como resposta:
— A lua 13B possui clima suportável para vocês, sim. Mas nossa população é reduzida demais para pensar em novas colônias. Principalmente em colônias na lua 13B; para o nosso gosto, ela é fria demais.
Como vê, não é incomum deixarmos de lado planetas ou luas colonizáveis. Futuramente talvez pensemos nisso, quando nosso próprio mundo se tornar pequeno demais...
O décimo terceiro planeta foi ficando longe; em troca, sua lua externa crescia a olhos vistos. O círculo luminoso da atmosfera, refletindo a luz da distante Vega, destacava-se nitidamente na escuridão cósmica. No sistema solar ela seria considerada um planeta, pensou Groll, com uma pontinha de inveja. Um mundo melhor que Marte aquele, caso Lossos não tivesse exagerado. E seu núcleo pesado indicava a possibilidade de uma mineração de profundidade bastante proveitosa.
Nuvem alguma empanava a visibilidade da superfície. Também ali, constatou Groll, não havia mares nem oceanos. Pouca água, portanto, pensou desapontado. Apenas alguns riozinhos cortavam as extensas planícies. Desembocavam em depressões mais profundas, acabando por infiltrar-se no solo. Em conseqüência disso existiam amplas áreas verdes, verdadeiro convite à povoação.
— Os ferrônios nunca exploraram esta lua mandando alguma expedição para cá? — perguntou admirado. — Afinal, num mundo assim deve existir vida.
— A natureza é perdulária — replicou Lossos. — O Universo deve contar com inúmeros mundos à espera de ocupação por seres civilizados. Produzem vegetação, mas nenhuma vida inteligente. É óbvio que possuímos registros sobre a lua 13B, mas nenhum deles menciona a existência de vida nela; nem presente, nem passada. Talvez as observações feitas tenham sido apenas superficiais; que eu saiba, jamais aterrizaram nela.
— Que descanso! — criticou Groll, espantado. — Mas talvez se possa atribuir tal desinteresse à extrema amplidão do sistema de vocês, com excesso de mundos aproveitáveis. Vocês vivem na abastança. No meu sistema solar só há dois planetas, além do meu, com possibilidade de serem habitados.
— Seu sistema fica muito longe de Vega? — indagou Lossos, distraidamente.
Mas Groll não esquecera as ordens de Rhodan, e respondeu:
— Longe ou perto, que diferença faz?
O ferrônio fingiu não perceber a evasiva do piloto. Algum dia ficaria sabendo de onde tinham vindo aqueles desconhecidos. De repente, Lossos apontou para baixo:
— Está vendo aquela cordilheira? Procure sobrevoá-la no sentido do comprimento, bem baixinho. Se os imortais deixaram de fato algum marco, devem tê-lo colocado em ponto bem visível, onde possa ser avistado de longe. O cume de uma montanha seria ideal.
O argumento era razoável. Groll fez o caça descer sobre a planície verdejante, na direção das montanhas próximas. Não viu árvore alguma, mas apenas capim alto, com um ou outro platô rochoso no meio. Um curso d’água raso serpenteava em mil ramificações através de um emaranhado de ilhas e ilhotas. Paisagem verdadeiramente primitiva, faltando apenas os animais pré-históricos. Deserta e à espera da vida ela se estendia sob o morno sol distante.
Aos poucos, o capim foi se tornando mais curto e ralo. Touceiras esparsas brotavam agora no chão árido, que se tornava cada vez mais seco e duro. Por fim só restou rocha nua, que se elevava gradualmente.
Groll fez o aparelho subir, pois a encosta se tornava mais íngreme. O declive era acentuado, porém sem acidentes dignos de nota.
Lossos, com o rosto grudado à escotilha, observava atentamente cada particularidade do terreno desconhecido, buscando vestígios que nem ele próprio podia imaginar como seriam, ou se existiam realmente. Talvez estivesse perseguindo miragens, devia pensar consigo mesmo.
A encosta acabou de repente. Diante do olhar surpreso de Groll estendia-se agora, até os confins do horizonte, uma superfície plana. Quase um mundo diverso, totalmente diferente da paisagem amena da planície. Devia ficar a uns dois mil metros de altitude, sem água nem vegetação de espécie alguma. Um local estéril e inóspito. Se existira de fato uma civilização na lua 13B, certamente não se desenvolvera naquele ponto.
Lossos parecia não dar a menor importância à mudança de cenário.
— Suba um pouco, para termos uma visão de conjunto — pediu ao piloto. — Preste atenção a sinais característicos.
— Pensa mesmo que essa gente deixou marcos à beira da estrada? — perguntou, sacudindo a cabeça. — Seria absurdo...
— O que é absurdo para nós, pode ser perfeitamente normal para outros, sobretudo tratando-se de estranhos — argumentou Lossos, serenamente. — E vice-versa... Precisamos levar em conta este fato, pois os seres que vivem mais do que o sol também o consideraram. Que diz seu indicador de gravidade?
Estranhando a brusca mudança de assunto, o sargento Groll consultou seu painel de instrumentos.
— Deve haver mesmo elementos pesados aí embaixo, elementos naturais, obviamente. Ou julga ter descoberto as instalações subterrâneas da raça desconhecida?
— Quem sabe? — replicou Lossos, com um sorriso misterioso. — Até que seria uma agradável surpresa darmos com a entrada da casa deles, não é?
“Que incorrigível otimista!”, pensou Groll, amaldiçoando aquele encargo maluco. E, no entanto, a exploração do pequeno mundo poderia ter sido bem agradável... Se dependesse dele, teria pousado na planície de relva, para procurar animaizinhos. Na água do rio poderia encontrar bactérias, com a ajuda do microscópio, e...
— Está vendo aquele grupo de rochas isoladas ali adiante?! — exclamou o cientista ferrônio, arrancando o piloto de seu devaneio. — Aterrize perto dele.
Sem responder, Groll desviou obedientemente o rumo do aparelho. Contornou uma vez, a pouca altura, as rochas irregularmente dispostas, fazendo depois a nave pousar junto do pedregulho maior. Era uma área selvagem e acidentada, sem o menor sinal de vida ou vegetação.
— A atmosfera está em ordem. Desça comigo, caso lhe interesse.
Groll recusou o convite. Mas depois que o sábio desembarcou pela saída normal, desaparecendo entre os rochedos, mudou de opinião. Já que estava ali, poderia aproveitar a oportunidade para explorar as redondezas por sua própria conta. Apanhou num escaninho a pequena pistola de raios; após um rápido exame, enfiou-a no cinto. Trancou a porta do caça, usando uma nova combinação, que só ele conhecia. Ninguém poderia entrar no aparelho sem bloquear automaticamente os propulsores.
O ar era fresco e agradável. Groll teve a impressão de que o teor de oxigênio era um tanto reduzido, pois via-se forçado a respirar depressa. Como se estivesse a quatro mil metros de altitude na Terra, pensou. Bem, aquilo não constituía obstáculo digno de nota.
Lentamente, tomou direção idêntica à do ferrônio, que desaparecera de vista. A área era grande demais para ser abrangida com o olhar; absurdo imaginar que logo ali encontrariam vestígios de uma civilização há muito desaparecida. O chão era liso e plano, com pedregulhos esparsos espalhados cá e lá. As formações rochosas se destacavam como colunas contra o céu azul-esverdeado.
Groll começou a imaginar como se teriam formado aqueles pilares de rocha. Água não existia ali, e os temporais deviam ser raros e fracos. Bem, talvez aquele mundo tivesse aspecto diferente outrora...
Reinava um silêncio quase irreal. Os passos de Groll despertavam ecos nas rochas. Ouvia ruído de outros passos, mas não conseguia determinar em que direção... os do ferrônio. Groll parou, e agora só escutava os passos de Lossos, fantasmagóricos e impressionantes. O som vinha da direita e da esquerda, da frente e de trás. Parecia que um batalhão inteiro marchava por entre as colunas rochosas. O eco reverberava um sem número de vezes, até encontrar finalmente a procurada saída para o alto. Porém o bem treinado ouvido do piloto sabia distinguir o eco do som original; não que fosse fácil, mas era possível. Instintivamente o sargento levou a mão à cintura; o contato com o metal frio devolveu-lhe a serenidade.
É que, além dos passos do cientista ferrônio, havia outros passos... lentos, cautelosos e sorrateiros.
Groll e Lossos não estavam sozinhos naquele mundo.

3



As experiências haviam sido encerradas por aquele dia. Crest conseguira determinar, inapelavelmente, que os circuitos do hipertransmissor tinham sido interrompidos de maneira deliberada em diversos pontos. Havia igualmente contatos falsos e ligações erradas, prontas para provocar curtos-circuitos.
— É nossa primeira tarefa — disse Crest. — E temos que resolvê-la, como condição básica para podermos continuar na busca. Ainda temos os planos do hipertransmissor. Com a ajuda do cérebro positrônico vai ser fácil obter um esquema simplificado dos circuitos. Talvez um de nossos robôs-operários, devidamente programado, possa reparar os defeitos deliberadamente provocados.
Rhodan não teve alternativa senão concordar com Crest. Um dos mutantes ficou vigiando a arca, pois não convinha deixá-la mergulhar mais uma vez nos recessos do tempo. O gerador neutralizante permaneceu ligado.
Rhodan demorou-se noite a dentro na central do grande cérebro positrônico arcônida, irmão menor do gigantesco complexo eletrônico em Vênus, ali deixado na época da Atlântida pela raça dominante no Universo. Infatigavelmente ele enfiava perguntas nos classificadores, comparando as respostas. Fórmula após fórmula escorregava das fendas ejetoras. Os tradutores simultâneos davam suas instruções através dos alto-falantes. Rhodan dialogava com o cérebro positrônico como se este fosse um ser vivo. Apresentava suas perguntas, e recebia as informações desejadas. E, do ponto de vista positrônico, o cérebro era de fato um ser vivo; afinal, era mais inteligente do que qualquer ser orgânico existente no Universo.
Rhodan só se deu por satisfeito ao ter nas mãos o esquema simplificado dos circuitos do transmissor, e ao ver confirmadas quase todas as suas suposições em relação à competição charadística dos imortais. Agora sabia com certeza que se encontrava na pista do maior segredo do Universo, e que não descansaria enquanto não o revelasse.
Na manhã seguinte, Crest condicionou um dos robôs-operários, cuja especialidade era a positrônica. Seu raciocínio sintético foi reajustado para bases pentadimensionais. Por conexão direta com o grande cérebro positrônico recebeu a instrução necessária. Dez minutos após, o robô, construído segundo moldes arcônidas, transformara-se no mais perito construtor de hipertransmissores de matéria do momento. Para ele seria brincadeira consertar qualquer aparelho, mesmo os avariados de propósito.
Rhodan aguardou a tarde antes de voltar para Thorta. Esperara receber alguma notícia do sargento Groll, porém o caça espacial não se manifestara. Mas a falta de notícias não constituía motivo para preocupação; no ardor da pesquisa, Lossos nem se lembraria de enviar comunicações à base. O silêncio podia ser interpretado como sinal certo de que os dois homens ainda não haviam deparado com vestígio algum da desaparecida raça imortal.
A guarda pessoal de Thort não disfarçou seu assombro ao ver Rhodan, Crest e Bell desembarcar do hipertransmissor no Palácio Vermelho em companhia do robô. Jamais haviam visto semelhante reprodução metálica da figura humana.
No subterrâneo tudo continuava no mesmo. Supervisionado por seus donos, o robô pôs-se ao trabalho imediatamente. Em poucos instantes expôs as entranhas funcionantes do hipertransmissor. Em circunstâncias normais, Rhodan desanimaria diante da barafunda de mini-instrumentos eletrônicos e condutos de plástico; no entanto, sabendo-se amparado pelos incomensuráveis conhecimentos do cérebro positrônico, incorporados no robô, manteve-se sereno e confiante.
— Será que ele vai conseguir? — sussurrou Bell, em voz apenas audível, como se receasse ser ouvido pelos próprios proponentes do grande enigma. — E se ele der com os burros n’água?
— Não acha preferível calar a boca? — observou Rhodan, secamente.
Ofendido, Bell afastou-se, enquanto Crest presenciava tudo com seu imutável sorriso compreensivo. Inalterado e tranqüilo, o robô desfazia os contatos errados, refazendo-os na ordem correta.
Os minutos foram passando, estendendo-se por uma hora que parecia eterna.
Por fim, com um gesto que bem poderia ser interpretado como de satisfação, o robô recolocou a tampa magnética sobre o mecanismo interno do hipertransmissor e endireitou-se. Com voz inexpressiva, anunciou:
— O hipertransmissor está pronto para funcionar.
Rhodan deu um suspiro de contentamento. Com um olhar de relance a Bell, bateu amistosamente no frio ombro metálico do robô, que saía da cabina. Voltando-se para Crest, pronunciou uma única palavra:
— Quando?
Com um gesto da mão, o arcônida indicou sua indecisão.
— É justamente o que eu me perguntava o tempo todo, Perry. Talvez só amanhã... O grupo disposto a enfrentar tal risco deve ser muito bem organizado. Podemos ir parar num hipertransmissor cuja parte receptiva esteja em ordem, mas cujo transmissor tenha sido avariado de forma idêntica à deste aqui. Parece-me imprescindível levar o robô. E não poderemos dispensar um médico; sendo especialista, o Dr. Haggard seria o mais indicado.
— Necessitaremos de Anne Sloane e John Marshall entre os mutantes — acrescentou Rhodan, pensativo.
— Exato, isso cobrirá todas as eventualidades. O salto para o desconhecido nos levará à próxima tarefa, e espero que sejamos capazes de realizá-la.
Com os olhos presos ao chão, Crest apresentava aspecto profundamente meditativo.
— Há momentos em que nutro sérias dúvidas, Perry. Não seria temerário querer descobrir os segredos de uma grande raça?
— Não estamos fazendo nada proibido — observou Rhodan. — Eles nos deixaram uma pista, para que os seguíssemos.
— Teoria sua, Perry. Não podemos saber se corresponde à realidade. Pessoalmente, acho que colocamos nossas vidas em jogo tentando seguir essa pista.
— Pois minha opinião é diametralmente oposta, assim como a do cérebro positrônico. Ou acha mais conveniente procurar o desaparecido planeta da vida eterna através do Universo, sem o menor ponto de referência? Ele pode estar em todo lugar, e em lugar nenhum.
— Às vezes chego a pensar que seria melhor cancelar definitivamente o plano de procurá-lo — murmurou Crest.
Observação que fez Bell recuperar o ânimo. De jeito nenhum ia continuar escutando passivamente aquilo tudo. Além disso, sabia que desta vez contava com o apoio de Rhodan.
— Crest, não entendo você! — exclamou, em tom de reprovação. — Quem jogaria fora a oportunidade de vir a se tornar imortal? Os desconhecidos recompensam com a imortalidade a solução do enigma. Basta decifrá-lo, e seremos imortais.
— Suposições e mais suposições, meu caro — replicou Crest, mansamente. — Concordo que mesmo nossa expedição iniciada em Árcon se baseava em suposições e crônicas antigas. Elas afirmavam a existência desse planeta, mas isso foi há dez mil anos.
— Ótimo! — interveio Rhodan. — É justamente isto que comprova a veracidade da teoria. Tivemos a prova concreta de que há dez mil anos existiu neste sistema uma raça desconhecida, que, segundo eles próprios afirmavam, vivia mais do que o sol. Ora, segundo os padrões humanos, isso corresponde à imortalidade. Esta raça é a mesma que habitava seu planeta da vida eterna. Está aí o início da pista. E o verdadeiro objetivo de sua expedição, Crest, era segui-la.
O arcônida concordou com certa reticência.
— Claro, claro, tem toda a razão, Rhodan. Desculpe minha hesitação e meus contra-argumentos. Você vai depressa demais, e às vezes é custoso acompanhar seu ritmo. Apesar de raciocinarmos depressa, nós, arcônidas, agimos bem mais devagar...
— Tão devagar que seu Império foi para o beleléu — observou Bell, com brutal franqueza.
O sorriso de Crest se apagou, porém em seus olhos ainda se lia algo como condescendência e compreensão, ao responder:
— Amanhã, então? Bem, estou de acordo. Teremos ainda uma boa noite de repouso para nos fortalecer. É bom ver que nossas opiniões são iguais. Vamos embora?

* * *

O sargento Groll imobilizou-se de encontro à rocha. Sensação estranha aquela de estar num planeta desconhecido e encontrar de repente alguém. Se soubesse pelo menos quem era... Os pensamentos de Groll disparavam, arquitetando as mais loucas hipóteses. Um ser vivo na lua 13B? Será que Lossos tinha razão? Os misteriosos estranhos que haviam doado outrora os hipertransmissores aos ferrônios, retirando-se depois para paragens desconhecidas, viveriam de fato naquela lua? Poderiam realmente ter levado seu planeta para ali, disfarçando-o de lua? E... seriam mal-intencionados?
A mão de Groll procurou novamente a cintura. O sólido cabo da pistola de raios constituía um contato tranqüilizante; no entanto, restava saber se ela seria útil contra seres que raciocinavam na quinta dimensão e construíam hipertransmissores de matéria; contra entes que haviam imposto sua vontade até a um planeta.
Mesmo confuso e repleto de dúvidas, o sargento Groll não perdeu o ânimo.
Ocorreu-lhe que talvez viesse a tornar-se a personalidade mais destacada em toda aquela expedição de Rhodan. Se tivesse mesmo o privilégio de ser o primeiro a dar com a raça procurada...
Lossos devia ter parado, pois Groll não ouvia mais seus passos. Por instantes escutou ainda o leve eco dos sorrateiros passos do perseguidor, depois fez-se silêncio total. Apenas uma suave brisa soprava entre os rochedos, semi-aprisionada pelos pilares de pedra. Com um calafrio, Groll segurou com mais força a arma que tinha no cinto. O polegar tocava o disparador, pronto para atirar. Não ousava dar um só passo, temendo chamar a atenção do estranho sobre si. Por enquanto ainda contava com a vantagem da surpresa; era melhor que o desconhecido continuasse pensando que seu único adversário era o ferrônio.
Mas não poderia ficar indefinidamente parado ali, sem tomar iniciativa alguma. Era responsável pela segurança do cientista. E Lossos estava desarmado. Enchendo-se de coragem, Groll avançou um passo. Não sabia bem que direção tomar, porém supunha que tanto Lossos como o desconhecido se encontravam por trás da coluna seguinte. O cientista devia estar absorto em seu trabalho, buscando vestígios de uma hipotética civilização perdida, sem dar a menor atenção ao que o cercava. E enquanto isso, um inimigo muito vivo se esgueirava para perto dele.
Apertando os dedos em torno do cabo da arma Groll deu mais um passo, procurando não fazer o menor ruído. Era fácil contornar as pedras espalhadas; e como o chão era plano, não corria o risco de tropeçar.
Sentiu o sangue gelar-lhe nas veias ao ouvir lá adiante uma exclamação entusiástica. De Lossos, evidentemente. A voz não revelava susto nem alarma, mas antes triunfo. Que significaria aquilo?
Novamente se fizeram ouvir as passadas firmes e enérgicas do ferrônio. Uma ou outra pedra, involuntariamente chutada, rolava lentamente pelo chão; o eco reverberava contra as rochas. Ouviu-se igualmente a respiração arquejante de quem exercia violento esforço. Lossos falava sozinho, porém Groll não entendia uma só palavra do que dizia. Mas adivinhou que o ferrônio descobrira algo excitante, que o absorvia completamente.
O piloto contornou a coluna que os separava, colando-se o mais possível contra a rocha lisa. A estreita garganta alargava-se dali por diante, dando para um pequeno platô rodeado por paredes a pique. O longínquo sol Vega descera acentuadamente no horizonte; agora iluminava só os picos mais altos das colunas de pedra. Escurecia visivelmente.
Mas ainda restava claridade suficiente para ver Lossos removendo afobadamente, com as mãos nuas, grandes blocos de pedra. Pelo jeito, tentava chegar a uma formação semi-enterrada pelo pedregulho solto. Segundo Groll podia ver de onde estava, tratava-se de uma espécie de pirâmide, soterrada quase até o cume.
Lossos desimpedira uma das faces. A parede lisa e regular apresentava em seu meio algo que parecia uma inscrição. Era aquilo que interessava tanto o cientista.
Acerca de dez metros dela, na rocha vizinha, via-se um buraco semicircular. A negra abertura vinha a ser uma espécie de túnel, conduzindo às profundezas do solo. Aos derradeiros lampejos do sol, Groll percebeu que o túnel penetrava diagonalmente no chão, quase desde os primeiros dois metros de extensão.
Lossos ainda não devia ter visto o túnel, senão não concentraria toda a sua atenção na pirâmide. Groll pensou em gritar para alertar o ferrônio; mas como fazê-lo, sem se trair? A arma em sua mão era, sem dúvida, uma defesa contra o perigo iminente, mas onde se ocultaria o misterioso caminhante desconhecido? Agachado em algum canto, talvez, observando-o? Será que já descobrira? Em caso contrário, por que se mantinha tão quieto de repente?
Cautelosamente encostado à rocha, Groll avançou mais alguns passos. Até a rocha vizinha havia um espaço aberto de cerca de vinte metros. Lossos e a pirâmide ficavam a mais ou menos trinta metros de distância, e a entrada do túnel era um pouco além.
Encontrando um nicho na coluna, Groll parou. Aquela posição lhe oferecia apreciável vantagem, protegendo-o por todos os lados. Por que não ficar vigiando o ferrônio dali, sem se expor inutilmente? O adversário desconhecido — dado o caso de tratar-se de fato de um adversário — evidentemente só se preocupava com Lossos. Mais cedo, ou mais tarde, acabaria aparecendo; e Groll poderia entrar em ação, conforme o que as circunstâncias exigissem.
A escuridão aumentava rapidamente. Os últimos raios do sol desapareceram, dando lugar às primeiras estrelas. Entregue às suas pesquisas, Lossos nem parecia dar pela modificação do ambiente. Mas, afastada a última pedra, quando se inclinou para decifrar a misteriosa inscrição, pareceu se dar conta, finalmente, de que estava escuro demais para conseguir lê-la. Não se lembrara de trazer uma lanterna. Resmungando a meia voz, ergueu-se e ficou parado, com ar desorientado. Seu vulto se destacava nitidamente contra a rocha; pairando pouco acima do horizonte, o décimo terceiro planeta fornecia luz suficiente para permitir a formação de sombras.
E foi também uma sombra que arrancou Groll de sua passividade.
O piloto escutara um ruído, bem perto dele. O desconhecido devia estar escondido na mesma rocha onde Groll se encostava, a menos de três metros dele, observando Lossos. Fez-se ouvir novamente o rumor de passos cautelosos... e depois apareceu contra a rocha fracamente iluminada um vulto escuro. De tamanho sobrenatural, com contornos vagamente humanos. A cara pontuda e a pele escamosa despertaram em Groll inquietantes lembranças de eras pré-históricas, e, ao mesmo tempo, dos mais recentes acontecimentos no sistema Vega. Porém não tinha muita certeza. Apesar de bem escolado nos princípios de Rhodan — jamais julgar estranhos por sua aparência física — sentiu-se imobilizado pelo terror. Incapaz de executar o menor movimento, encolheu-se ainda mais no nicho protetor, agarrado à arma. Em vão seus olhos tentavam distinguir algo na penumbra reinante.
Lossos erguera-se, aparentemente resignado a encetar o caminho de volta ao caça espacial. Pelo visto, nem percebera a estranha e assustadora sombra, a menos de dez metros dali.
Groll forçou-se a reagir contra a inércia que o dominava. Se hesitasse por mais alguns instantes, os vultos indistintos do ferrônio e do estranho se confundiriam de tal maneira que seria impossível diferenciá-los. E não haveria a menor possibilidade de intervir no que poderia vir a acontecer.
Erguendo a arma, Groll apontou-a para a sombra do desconhecido. Sem tirar os olhos dela, gritou:
— Lossos, cuidado! Corra para a direita! Há um ser desconhecido espreitando você! Depressa!
Não pretendia atirar num ente desconhecido enquanto este não se revelasse positivamente inimigo. E de maneira nenhuma tencionava provocar uma guerra com os habitantes daquele planeta — não conseguia tomar o 13B por simples lua. Afinal, eles tinham direitos de sobra para examinar de perto qualquer intruso em seu mundo.
No entanto, o que se seguiu eximiu-o de tomar decisões.
A gigantesca sombra lançada sobre o platô não se movia, permanecendo totalmente imóvel. Groll esperava ver, a qualquer momento, o brilho de alguma arma; e estava firmemente decidido a retribuir o fogo, caso o estranho atirasse. Mas não aconteceu nada disso.
Enquanto o ferrônio, depois de momentânea hesitação, seguia o conselho de Groll, afastando-se com alguns saltos da presumida linha de fogo, o desconhecido aproveitou a oportunidade para escapar.
Atento aos movimentos de Lossos, Groll distraiu-se por instantes da vigilância sobre o estranho. Aqueles poucos segundos de desatenção foram suficientes. Esparramando pedras por todos os lados, o ente desconhecido se precipitou com a rapidez de uma lebre em fuga para a boca do túnel. Antes que Groll pudesse sequer abrir a boca para gritar, ele sumira terra a dentro. O rumor de seus passos apressados foi diminuindo gradativamente dentro do túnel, cada vez mais fraco e distante. Dentro de instantes, o silêncio se restabeleceu.
Groll deixou decorrer ainda um minuto antes de gritar para Lossos:
— Pode vir! Ele já foi embora! Temos que voltar para o avião. Sabe lã que perigos ainda rondam por aqui.
O ferrônio veio vindo diagonalmente pelo platô; aparentemente muito pouco impressionado com o perigo que correra. Sem tomar o cuidado de abaixar a voz, gritou para o piloto.
— Encontrei! Encontrei os seres que vivem mais do que o sol!
Irritado, Groll recolocou a arma no cinto, dizendo:
— Descoberta de pouca utilidade para um cadáver!
O ferrônio pareceu despertar de repente.
— Que quer dizer? Ah, o desconhecido? Ora, que bobagem... Algum passeante solitário, na certa. Deve ter se assustado e fugido...
Groll tomou a dianteira, murmurando consigo mesmo:
— É, parece que, simbolicamente, o sol não vive muito tempo aqui.

4


Mais uma noite se passou.
Rhodan estava firmemente decidido a solucionar naquele dia a segunda etapa da charada galáctica, custasse o que custasse. Reunindo o grupo escolhido para a empreitada programada, dirigiu-se com ele para o Palácio Vermelho de Thorta, usando a cômoda via de transporte do hipertransmissor.
O robô esperava, em sua imobilidade mecânica.
— Nada de novo, senhor! — informou ele, em resposta à pergunta de Rhodan.
Acercando-se pela direita, Bell bateu amistosamente no frio ombro da réplica mecânia de um arcônida.
— Acha mesmo que não há perigo em entrar nessa geringonça e deixar-se levar sei lá para onde?
— O hipertransmissor de matéria está pronto para funcionar — replicou o robô, sem dar resposta direta à zombeteira pergunta de Bell.
— Bem, como você vai conosco, fico mais sossegado — comentou Bell, rindo. — Duvido que arriscasse a lataria à toa; deve estar bem certo do que faz, não é?
Desta vez o robô não deu resposta.
Rhodan deteve-se pensativamente diante do hipertransmissor por alguns instantes, antes de decidir-se a entrar. Crest, o Dr. Haggard, os dois mutantes, Anne Sloane e John Marshall seguiram-no em silêncio. Bell esperou que o robô tomasse lugar na cabina; só então embarcou, em último lugar.
A cabina mal dava para acomodar todos. Os participantes humanos da aventura sentiram-se invadidos por um indefinível sentimento de temor, contra o qual não conseguiam reagir. Parecia-lhes que estavam desafiando o passado.
A mão de Rhodan repousava sobre a alavanca de partida, igual à que acionava os demais hipertransmissores. Porém desta vez o alvo era diferente: fixado de antemão e desconhecido. Dali por diante estavam entregues ao destino. O ponto de partida era óbvio, porém ignoravam onde ficava o receptor correspondente àquele hipertransmissor.
— Nossa inquietação é compreensível — disse Rhodan — porém não tem razão de ser. Segundo as deduções lógicas do cérebro positrônico, nenhum perigo direto nos ameaça. Vamos apenas seguir uma pista traçada há milhares de anos, e cuja extensão e ponto final desconhecemos. Também não sabemos quantas etapas intermediárias será preciso vencer. Os enigmas à nossa frente foram propostos por seres inteligentes, e temos que decifrá-los, se quisermos encontrar com eles. A luz de que falam é a conservação celular, a vida eterna.
— Pois eu me decidi: quero encontrá-los! — disse Crest. Porém havia uma leve reticência em sua voz. — Devo isso à minha raça. Confesso, no entanto, que não me sinto tão confiante quanto você, Rhodan.
— Duvida da criação de sua própria raça, o cérebro positrônico? Não fui eu que tracei nosso rumo, e sim ele, mediante deduções racionais. Jamais se engana.
— Sim, concordo. Mas ele poderia incorrer em erro relativo, caso receba dados incorretos para a análise. Que sabemos nós da maneira de pensar dos seres que inventaram a grande charada?
— Muita coisa, Crest. Que possuíam desenvolvido senso de humor, por exemplo. E sob certo aspecto eram, ou são, até amistosos; pois em caso contrário não demonstrariam a menor intenção de repartir seu segredo com outros. A charada representa uma medida acauteladora, a garantia de que nossa inteligência se equipara à deles. Já frisei isto repetidamente, Crest, e você devia convencer-se finalmente do que digo. E eu acredito que podemos medir-nos com eles.
— Tomara que sim! — murmurou Bell, desconsolado. — É o que espero, pelo menos... Confesso que também não me sinto muito à vontade. Para ser franco, já me despedi da vida.
— Ainda ontem você falava de outra maneira — reprovou Rhodan, sempre com a mão sobre a alavanca, sereno e imóvel. — Perdeu a coragem de repente?
— Muito pelo contrário! — afirmou Bell, com um sorriso contrafeito. — Não vejo a hora de partir...
Haggard não fez qualquer comentário, assim como os dois mutantes. Confiavam incondicionalmente em Rhodan; o que ele fazia estava certo. Nunca agiria de maneira impensada. Sua presença representava segurança.
Também o robô se manteve calado, o que, porém, não queria dizer nada. Bell, pelo menos, sempre alimentara a noção de que robôs eram incapazes de ter sentimentos. O que não impedia que, em certos momentos, duvidasse de suas próprias convicções.
— Prontos? — indagou Rhodan.
Cinco cabeças acenaram afirmativamente.
Cerrando os dentes, Rhodan apertou os lábios numa linha dura e rígida; nos olhos de aço brilhava intensa expectativa. Com um gesto brusco, baixou a alavanca.
Contrariamente aos saltos habituais, desta vez fez-se sentir um efeito que não lhes era desconhecido. Dores agudas e cruciantes invadiam o cérebro, propagando-se com agoniante lentidão pela coluna dorsal. Os olhos turvavam-se, não distinguindo mais nada do que os cercava, o cérebro deixava de pensar.
O processo todo não durou, na realidade, mais do que algumas frações de segundos; ou uma eternidade. Num instante tudo passou. O pensamento voltou a funcionar, os olhos enxergavam novamente, e a dor desapareceu.
— Raios! — resmungou Bell, agarrando-se ao robô. — Brincadeira sem graça, essa! Eu é que não repetiria a experiência!
— Você vai ter que passar por ela, queira ou não, se pretende voltar — lembrou Rhodan. — Onde estamos?
— E é a mim que pergunta? — espantou-se Bell, tentando vislumbrar qualquer coisa na penumbra reinante.
Continuavam de pé dentro do hipertransmissor, mas sabiam que já não se tratava da cabina na qual haviam embarcado há pouco. Deviam ter chegado à estação receptora.
Era evidente que o aparelho os rematerializaria no interior de alguma espécie de prédio. O ar era abafado e opressivo, como se não tivesse sido renovado há longo tempo. Fontes luminosas ocultas emitiam fraco brilho.
Rhodan abriu a porta do transmissor. No mesmo instante, como se aquilo fosse um sinal, o ambiente iluminou-se. As lâmpadas ocultas intensificaram seu brilho. Imóveis, os homens, o arcônida, e o robô procuravam orientar-se.
O hipertransmissor encontrava-se no meio de um imenso salão sem saída. Pelo menos, não havia nenhuma à vista. Apesar das vastas dimensões da peça, havia pouco espaço livre, tão atulhado estava ela de maquinaria e objetos de formas estranhas. Passagens estreitas conduziam por entre o conglomerado de aparelhos, que ninguém sabia o que eram, nem para que serviam.
— Vamos! — disse Rhodan, com voz estranhamente velada. Foi o primeiro a pisar o chão plano e liso. — Qual será nossa próxima tarefa?
Como se os desconhecidos imortais tivessem ouvido a pergunta, surgiu uma inscrição luminosa no alto do teto. Era o modo de escrever já conhecido: símbolos, desenhos e figuras. Mas, antes que o olhar de Rhodan tivesse tido tempo de examinar sequer o primeiro símbolo, a inscrição se apagou novamente. Sobressaltado, Rhodan compreendeu que perdera sua chance. Aquela inscrição era um indício, parte da tarefa a realizar. Já que era incapaz de gravar instantaneamente na memória uma impressão fugaz, devia ter trazido ao menos uma máquina fotográfica. Lamentavelmente não se lembrara disso. Adiantaria prosseguir naquelas circunstâncias?
John Marshall, o telepata, captou o pensamento de Rhodan.
— Não desanime — encorajou ele. — Eles certamente não nos atraíram até aqui para nos mandar de volta com as mãos abanando. Mesmo que nunca saibamos o que dizia aquela inscrição, supondo que ela apareça mais uma vez. haverá outras tarefas à nossa espera.
— A inscrição será decifrada pelo cérebro positrônico — interrompeu Crest. — Um de nós poderá levá-la até a base, e o teleportador Ras Tshubai trará a resposta em poucos minutos.
— Como, se a inscrição já desapareceu?! — exclamou Rhodan, amargurado. — De que jeito o cérebro poderia decifrar algo inexistente?
Pela primeira vez desde o começo da aventura Crest sorriu. Um sorriso de leve superioridade.
— Você esqueceu um pequeno detalhe, Rhodan. Minha memória fotográfica... Quer que eu escreva a frase aparecida no teto?
Rhodan suspirou audivelmente.
— Desculpe, Crest, esqueci mesmo. Escreva a frase, sim, por favor. Mandaremos o robô como mensageiro. Não posso garantir que a decifração seja importante. Mas talvez necessitemos dela para continuar.
O grupo todo já tinha saído do hipertransmissor. Parados entre as gigantescas instalações, observavam o aparelhamento inerte e aparentemente sem sentido. Nem sinal de seres vivos. Era como se tivessem sido jogados, sem razão aparente, numa usina de força subterrânea, só para observar como reagiriam.
Só então sentiram a corrente de ar fresco. Viram aberturas gradeadas no teto; o sistema de ventilação. E funcionando com base nas exigências vitais de seres habituados a respirar oxigênio.
— Onde estamos? — perguntou Anne Sloane, timidamente. — Em Ferrol?
— Podemos estar em Ferrol, sim; talvez até em Thorta — replicou Rhodan, porém havia uma nota de dúvida em sua voz. — No entanto, também podemos estar num planeta que gira a milhares de anos-luz de Ferrol no espaço. Lembre-se da prolongada sensação de dor durante a teleportação; isto permite supor que vencemos grandes distâncias. Mas, onde quer que nos encontremos, a volta está garantida: o hipertransmissor está aí para nos levar quando quisermos. Não é verdade, Crest?
— Era esta a inscrição luminosa no teto — disse o arcônida, estendendo um papel a Rhodan. — Apenas o cérebro positrônico é capaz de interpretá-la. Quem sabe a gente deve esperar um pouco antes de despachar o robô?
Rhodan hesitou.
— Não saberíamos nos orientar sozinhos neste labirinto tecnológico. Talvez a inscrição nos explique por que viemos para cá.
— E caso precisarmos do robô aqui? — indagou Bell.
— Bem, e quem iria no lugar dele? Você?
— Eu sozinho? Sozinho no hipertransmissor? Nunca!
— Pois então a questão está resolvida, meu velho. — Rhodan voltou-se para o calado e imóvel robô: — Tome este bilhete, e leve-o para o cérebro positrônico da Stardust-III. Mande-o decifrar a inscrição, e traga-nos o texto traduzido. Vá e volte o mais depressa possível.
— Não era Ras Tshubai que...?
— O robô será mais rápido — disse Rhodan, cortando a frase de Bell.
Sem pronunciar uma palavra, o robô entrou no hipertransmissor. Animados por sentimentos contraditórios, os expedicionários viram-no sumir.
A mente cristalina de Rhodan funcionava a todo o vapor.
— Aquela inscrição não deve ser o único indício que nos aguarda aqui. Esse monte de tecnologia não foi reunido só para impressionar. As provas se tornarão cada vez mais difíceis, isto é garantido. Vamos andando. Mas sempre juntos, a fim de podermos empregar todos os nossos recursos se, eventualmente, formos obrigados a reagir. Crest já teve uma oportunidade de mostrar sua capacidade. Não sabemos quem será o próximo.
Dando o exemplo, Rhodan seguiu na frente. Crest e Haggard acompanhavam-no de perto; depois vinham Anne Sloane e John Marshall; Bell formava a retaguarda, com um olhar arrependido para o hipertransmissor. Na certa se perguntava se não teria sido melhor executar a missão do robô...
Em algum ponto do vasto complexo fez-se ouvir de repente um zumbido. Grave e regular, como um motor recém-ligado. Quem o teria posto em funcionamento, se não se via ninguém por perto? Tudo aquilo devia ser controlado automaticamente. Mas de onde, e por quem?
O zumbido vinha da direita. Rhodan dobrou na primeira curva do estreito corredor, indo ao encontro dele. Sabia que não havia outra escolha, a menos que quisesse perder tempo inutilmente. Pressentia que o tempo constituía o fator mais importante, determinado há milhares de anos.
O mortiço brilho metálico das estranhas máquinas parecia irradiar uma sarcástica ameaça. Bell encostou casualmente num dos maciços blocos, mas logo recolheu a mão, assustado, como se tivesse tocado numa cobra.
O zumbido provinha de um cubo metálico no extremo do corredor. Quando Rhodan se deteve diante dele, com ar inquisitivo, sentiu algo tateante invadir seu cérebro. Poderes estranhos tentavam dizer-lhe algo. O quê?
— Marshall, está sentindo também?
O telepata acenou ligeiramente. De olhos cerrados, parecia escutar uma voz em seu íntimo. Gotas de suor banhavam-lhe a testa. Crest se mantinha igualmente imóvel. Bell, observando a certa distância, não percebia nada. Escutava apenas o zumbido, tentando achar alguma explicação para ele. De seu ponto de vista, aquele cubo de metal não passava de mais uma máquina ou gerador no meio daquela barafunda.
O zumbido cessou, dando lugar a um silêncio mortal. Rhodan sentiu a pressão afrouxar em sua cabeça; John Marshall suspirou e abriu os olhos.
— Uma mensagem mental não codificada — disse ele. — Esta máquina vem a ser um sensor de estrutura mental; avaliou nossa capacidade intelectual e quociente de inteligência. O resultado foi favorável; parcialmente, pelo menos...
— Como assim?
Marshall fez uma careta de constrangimento.
— O aparelho constatou reações diversas entre nós, segundo depreendi. O resultado final foi favorável, apesar de não ter detectado qualidades telepáticas em Bell, Haggard e Anne. Tanto em você, como em Crest, ele percebeu leve inclinação para a telepatia. Como eu fui considerado cem por cento, foi a mim que ele comunicou suas conclusões.
— Não entendo! — reclamou Bell. — Está querendo me convencer de que falou com essa máquina? Que ela conversou com você?
— De certa forma, sim — confirmou o telepata. — Eu pude entender o que ela pensava. Seja como for, fomos aprovados no exame. E a ordem é seguir procurando.
— Procurando? Mas o quê?
— Isto o telepata automático não me disse.
Rhodan ia dizer qualquer coisa, porém não chegou a falar. Crepitando furiosamente, tremendos raios começaram a cruzar o recinto, seguidos por estrondosas descargas elétricas. Percorrendo um trajeto de dez metros, os raios nasciam num globo de brilho azulado, que pairava, aparentemente sem suporte algum, junto ao teto. Acabavam em outra esfera, provida duma pequena antena, e assentada sobre um enorme receptáculo de metal.
Dez metros; ou sejam, dez milhões de volts!
A esfera receptora começou a abrasar-se e ficou branca. Irradiava um calor que aumentava gradualmente. Sentia-se no ar o cheiro de ozônio. Os raios cessaram. Porém a esfera continuou incandescente, e o calor crescia no recinto subterrâneo.
— Que foi isso? — murmurou Bell, com voz insegura.
Rhodan pigarreou.
— Uma demonstração bastante drástica de transmissão de energia sem fio, se não me engano. Dificilmente aplicável na prática, no entanto. Sei lá o que pensar disso. Se é uma das tarefas...
Novamente Rhodan foi interrompido. Algo se mexia no imenso complexo. Passos nítidos, chegando perto. Firmes, pesados e ritmados; chegavam a ser até monótonos.
De junto a Rhodan, Crest empalideceu violentamente. Tremia da cabeça aos pés. Bell gozou com aquela cena; até que se viu forçado a apelar para todas as suas forças a fim de disfarçar a própria consternação.
Rhodan parecia ter estarrecido. Sua face era uma máscara tensa e rígida. Parecia ter esquecido totalmente os amigos, e nem sequer viu John Marshall levar instintivamente a mão ao bolso.
Alguém — ou alguma coisa — se dirigia ao encontro deles por entre a maquinaria. Às suas costas ressoaram passos semelhantes, firme e determinados.
— Nada de atos impensados! — murmurou Rhodan, incisivamente, dirigindo-se em especial a Marshall. — Não demonstrem medo, pois duvido que se trate realmente de um inimigo. A charada galáctica requer inteligência, e não podemos nos desprestigiar.
Viram um vulto apontar ao longe, no extremo do corredor, vindo de uma passagem transversal. Assemelhava-se a um homem, só que era maior e mais pesado. Faltavam-lhe as pernas, no entanto. Em vez disso, locomovia-se sobre duas altas rodas. O tronco era peculiarmente geométrico e anguloso. Na cabeça havia algo como antenas ou sensores, de conformação estranha. Os olhos eram dois jatos de fogo.
— Um robô! — murmurou Crest, assombrado. — Não é propriamente um ser vivo, na nossa concepção. Seriam robôs os...?
— Tolice! — replicou Rhodan, secamente. Percebia agora que o ruído, interpretado como sendo de passos, vinha do interior do corpo do gigante de dois metros de altura. Uma espécie de propulsão, talvez, ou então alguma manobra de despistamento; fosse o que fosse, não tinha sentido aparente.
Por trás do grupo, aproximando-se lentamente, surgiu outro robô.
Rhodan olhou em torno nervosamente. Não havia possibilidade de escapar. Os blocos maciços das máquinas formavam verdadeiras muralhas, altas e inteiriças. Impossível subir pelas paredes lisas... Caso os robôs não se detivessem a tempo... Decidiu fazer uma experiência.
— Fiquem parados onde estão — recomendou aos companheiros. Depois foi ao encontro do primeiro robô.
O monstro movia-se relativamente devagar, mas seu avanço era constante. O mecanismo de funcionamento, em prontidão provavelmente há milhares de anos, devia ter sido ativado com a entrada do grupo em seu meio. Portanto cabia-lhes imobilizá-lo de novo.
Rhodan parará a cinco metros do monstro. Seu aspecto era de fato impressionante. Dos olhos emanava o fulgor de uma força dominada a custo. Os frágeis sensores prateados vibravam nervosamente, estendendo-se na direção de Rhodan, como se esperassem alguma coisa dele. Um bastão metálico no alto da cabeça começou a oscilar. Inexoravelmente, as grandes rodas levavam o autômato para diante, sem o menor sinal de quererem parar.
Puramente por instinto, Rhodan estendeu as duas mãos, ordenando energicamente:
— Pare!
O robô continua a rodar.
Desistindo de nova tentativa, Rhodan voltou para junto de seu grupo.
— Marshall, dê-lhe uma ordem telepática! Talvez ele reaja a isso.
O telepata adiantou-se. Enquanto isso, a ameaça representada pelo segundo autômato se tornava mais aguda. O mecanismo, composto de ligas metálicas desconhecidas, e de elementos eletrônicos misteriosos, continuava a avançar sempre, como se o outro robô o atraísse com forças mágicas. Ambos pareciam dispostos a encontrar-se a qualquer preço, esmagando sem piedade tudo que lhes impedisse, o caminho.
Procurando desesperadamente um meio de socorrer os amigos, Anne Sloane acabou acertando com a única solução possível. Por que não recorrer a seus dons? Como é que Rhodan não se lembrara logo daquilo, já que não havia outra alternativa?
Sem pronunciar uma palavra, ela encaminhou-se para o segundo robô, detendo-se a alguns passos dele. Apelando para a rotina de longos anos de treino, concentrou sua mente. Sabia que sua capacidade seria submetida a rude prova, a mais severa que já enfrentara em toda a vida. E, no entanto, a tarefa era bem simples do ponto de vista técnico. Apenas o receio de fracassar é que ameaçava paralisar sua energia mental; mas, ao mesmo tempo, seu pavor mortal produzia efeito oposto.
Enfeixando sua força mental, Anne lançou-a contra o colosso, como se fosse o foco de um holofote invisível.
Atento às valentes tentativas de Marshall, Rhodan não percebeu logo o êxito dos esforços de Anne; mas seu ouvido não tardou a acusá-lo. Apenas Bell observava Anne, e teve o privilégio de apreciar o espetáculo verdadeiramente inédito desde o início.
O robô parecia ter esbarrado num obstáculo invisível. As rodas bloqueadas giravam no mesmo lugar, e acabaram parando. Espalhou-se no ar um cheiro de isolamento queimado. E o calor emanado pela esfera incandescente aumentava mais e mais.
O corredor era estreito, e o imóvel corpo metálico do robô não permitia a passagem de nenhum dos humanos. O obstáculo fora detido, porém não afastado. Além disso, que adiantava ter imobilizado um dos robôs se o outro prosseguia em sua ameaçadora avançada? E Anne não poderia ocupar-se ao mesmo tempo de ambos.
O cérebro da telecineta raciocinava a jato. Antes que Bell conseguisse dizer alguma coisa, ela já sabia o que fazer. Intensificando seus esforços, transmutou suas correntes de pensamento. As forças mentais concentradas transformaram-se em energia positiva, e levantaram o robô no ar. Lentamente, com as rodas novamente em movimento, o monstro metálico flutuou para o alto. Dez centímetros, vinte, meio metro...
Anne sentiu-se enfraquecer. Não agüentaria aquilo por muito tempo. Mas era preciso! Estariam todos perdidos caso ela não conseguisse remover o obstáculo do caminho, e torná-lo inofensivo.
Alçou o autômato a dois metros de altura, depois a três. Ele já estava no mesmo nível do topo das máquinas. Porém Anne ainda não estava satisfeita. Acrescentou mais dois metros, e o monstrengo pairava agora a cinco metros de altura. Agora uns dois ou três metros para o lado...
Com um suspiro, ela soltou o robô.
Ele ficou suspenso no ar por um centésimo de segundo, com as rodas girando, por cima das massas metálicas de máquinas misteriosas. Depois precipitou-se para baixo. O fragoroso impacto de metal sobre metal reboou no recinto.
O estrondo fez Rhodan e os demais se virarem abruptamente. Também Marshall desistiu de suas vás tentativas de obrigar o robô a submeter-se à obediência, mediante ordens telepáticas. A brusca reviravolta permitiu-lhe ver, ainda a tempo, o segundo robô se despedaçando no topo de uma das imensas máquinas, espalhando peças por todos os lados. Ao mesmo tempo presenciou, assim como os demais, o desfalecimento de Anne Sloane. Ela se abateu ao solo antes que alguém pudesse ampará-la. O esforço fora demasiado.
Com um só olhar, Rhodan apreendeu a situação.
— De volta para o hipertransmissor! — ordenou, ignorando o primeiro robô, que continuava a avançar imperturbavelmente.
— Precisamos escapar antes que ele nos alcance!
Marshall sacou do bolso uma pistola de raios; ninguém sabia que ele viera equipado com tal arma. — Quer que o aniquile?
— Não! — berrou Rhodan. — Não podemos resolver tudo pela violência. Prefiro que me ajude a carregar Anne. Bell, mexa-se! Que faz aí parado? Dê uma mão aqui!
A retirada foi apressada, porém ordenada. Rhodan até teve tempo de refletir sobre a fracassada missão. Sabia que tinham falhado. E, no entanto, tudo poderia ter sido resolvido com a maior facilidade, considerando bem... Os dons telecinéticos de Anne não eram suficientemente poderosos para dar conta de dois adversários simultaneamente. Mas eles dispunham de outra telecineta...
O coração de Rhodan começou a bater mais depressa ao lembrar-se de Betty Toufry. Como é que não pensara nela antes? A jovem mutante representava verdadeiro fenômeno parapsicológico. Dominava a telecinésia melhor que qualquer outro integrante do Exército de Mutantes possuidor de dom idêntico. Apesar de sua pouca idade, já sobrepujara a própria Anne Sloane.
— Talvez ainda não seja tarde demais, se conseguirmos trazer a tempo Betty Toufry — disse Rhodan, arquejante, ao dobrar a última volta do corredor. — Mas, seja como for, o robô precisa ser eliminado antes de alcançar o hipertransmissor. Parece que ele foi programado para destruí-lo. Pretendem nos cortar o caminho de volta. Mas o sucesso obtido foi só parcial.
Encontravam-se agora diante da cabina. Antes que Rhodan pudesse distribuir instruções, materializou-se dentro do transmissor o vulto do robô arcônida; e depois outro, bem menor!
Betty Toufry desembarcou diante dos atônitos companheiros. Parecia intimidada. O rostinho jovem tomou um ar de susto ao ver Anne Sloane desmaiada nos braços de Bell. John Marshall, ao lado dele, não sabia se cuidava da moça inconsciente, ou do robô que se aproximava rolando. Escolheu, então, a terceira alternativa, indagando:
— Ué, Betty, de onde vem?
Rhodan já se refizera da surpresa.
— Até parece que você me ouviu chamar, Betty! — exclamou, com um olhar indagador para Crest. Porém o arcônida também não soube lhe dar esclarecimento algum. — Anne não está dando conta do recado sozinha. Fomos atacados por um robô. Você precisa intervir, a fim de desativá-lo. Anne simplesmente levantou o dela no ar, deixando-o cair depois.
— O cérebro positrônico me aconselhou a trazer a mutante Betty Toufry — informou o robô arcônida, com sua impessoal voz metálica. — Talvez esta mensagem lhe tenha indicado a necessidade da medida. O autômato estendeu um bilhete a Rhodan.
Só então este se recordou que enviara o robô para cima — nem sabia porque pensava em termos de lá em cima e aqui embaixo — com a missão de mandar decifrar o texto da inscrição luminosa.
No bilhete lia-se clara e explicitamente:
Bem-vindos à central das mil tarefas — porém apenas uma delas os conduzirá ao alvo desejado.
Era tudo. E o sentido era óbvio. Rhodan interpretou-o:
— Temos mil tarefas diante de nós, e fracassamos logo na segunda ou terceira.
Isto é, podemos nos considerar fracassados, se Betty não conseguir ajudar. O cérebro sabia evidentemente que surgiriam complicações telecinéticas, e que Anne não conseguiria se safar delas sozinha. Betty precisa fazer uma tentativa, antes de desistirmos de vez. Venha, Betty, eu vou com você. O resto do grupo fica perto do hipertransmissor. Com ordem de embarcar imediatamente caso eu fizer sinal. Entendido?
O tom de Rhodan era de desacostumada severidade. Bell não arriscou o menor comentário, dedicando-se ao atendimento de sua paciente. Anne já abria os olhos e procurava se desvencilhar dos braços que a envolviam, ainda meio atordoada. Marshall constatou o fato com nítida satisfação. Crest parecia estar em transe.
Tomando a mão de Betty, Rhodan voltou com ela para o vasto recinto das máquinas, de encontro ao robô, cujas pancadas ritmadas eram cada vez mais audíveis. O monstrengo avançava com assustadora regularidade.
— Você vai ter que se concentrar ao máximo — cochichou Rhodan à menina. — Não basta fazê-lo parar; tente levantá-lo e levá-lo para outro lado. Uma queda de poucos metros de altura será suficiente para destruí-lo. Deve ser justamente isso que esperam de nós. Entre outras coisas... — acrescentou em voz mais baixa, como se receasse ser ouvido por quem não devia escutar suas palavras. — Será que você consegue?
Com os olhos muito arregalados, a jovem acenou silenciosamente. Já avistavam o robô, a dez metros diante deles. Vagarosamente o colosso metálico ganhava terreno, sempre acompanhado pelas surdas batidas.
— Agora! — sussurrou Rhodan, mantendo-se atrás de Betty, a fim de não desviar-lhe a atenção.
A muito custo, a menina reprimiu o pânico que ameaçava dominá-la. Só uma vez em sua existência vira-se obrigada a exercer sua capacidade numa emergência: na ocasião em que alvejara o próprio pai, subjugado por seres alienígenas. Entes com o poder de comandar ao seu bel-prazer organismos alheios tinham dominado o pai de Betty, ordenando-lhe que causasse graves danos à Terra. A criança não teve alternativa senão apontar a arma do pai contra ele. Com isso, a invasão dos aterradores seres fora repelida com êxito; porém a lembrança da terrível experiência fizera Betty amadurecer antes do tempo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html