A providência mais urgente era mandar vir
os trajes voadores arcônidas. A gravidade de Ferrol era apenas é 40% mais intensa do que a da Terra,
diferença perfeitamente suportável para pessoas robustas. Durante as primeiras
horas pelo menos... Porém, com o tempo, representava uma sobrecarga que Rhodan
não fazia questão de impor aos seus homens.
Quequéler conseguira arranjar acomodações
para o grupo todo em Sic-Horum. Não sem alguma dificuldade, pois a cidade
contava com grande número de habitantes extras; montanheses de toda a redondeza
tinham vindo refugiar-se nela, por ser a única na região ainda não controlada
por um posto militar tópsida. Até o momento, Sich-Horum continuava sendo a
capital dos sichas, mas ninguém alimentava a esperança de que a situação se
mantivesse assim por muito tempo. Muito em breve os tópsidas, alertados,
imporiam sua presença.
Porém, por enquanto, o grupo de combate de
Rhodan alojou-se despreocupadamente, mesmo que seus integrantes humanos se
vissem obrigados a repartir os quartos com quatro, cinco ou até seis
companheiros. Quanto aos robôs, a solução era mais simples: era só deixá-los em
qualquer canto, com a ordem de permanecerem ali parados até serem chamados.
Rhodan e Bell ficaram hospedados na casa
de Quequéler. Não perderam tempo instalando-se. Reunidos em conferência com
Quequéler e seus conselheiros, trataram de planejar sua ação dali por diante.
Quequéler demonstrou grande admiração pelo
espírito de iniciativa de seus hóspedes.
— Acho que essa guerra teria tomado um
curso bem diverso se meus compatriotas fossem ativos como vocês! — comentou
ele.
Rhodan foi direto ao ponto que o
interessava primordialmente:
— A frota tópsida possui uma nave
capturada, em operação de guerra, de outra raça cósmica. Constitui a coluna
dorsal de seu poderio bélico. Temos que nos apoderar dela, e a guerra está
terminada.
Quequéler fitou-o, pensativo.
— O plano me parece bom — continuou,
judiciosamente. — Ouvimos falar dessa espaçonave. É grande como uma montanha,
equipada com armamento impressionante.
O problema maior era transportar de
Sic-Horum para Thorta gente suficiente para assegurar um mínimo de êxito ao
empreendimento. Quequéler explicou que não seria difícil contornar os dois
primeiros postos militares de controle na estrada para Thorta. Porém as chances
de prosseguir sem serem percebidos diminuíam gradualmente dali por diante; a
seu ver, a possibilidade de chegar a Thorta era praticamente nula.
— Pois bem, então vamos multiplicar as
circunstâncias a nosso favor, eliminando alguns destes postos — decidiu Rhodan.
— Queria apenas que me ajudasse a resolver uma dúvida: de que maneira
poderíamos impedir que os tópsidas identificassem seus atacantes?
Quequéler trouxe um mapa, que estendeu,
aberto, sobre a mesa.
— Não será preciso destruir o posto todo —
disse. — Veja: o primeiro posto fica em Helacar, uma pequena cidade a cerca de
cento e oitenta quilômetros daqui; ocupa mais ou menos o centro de um quadrado
com duzentos quilômetros de lado. Este quadrado é a área de vigilância do posto
ali localizado. E se subdivide em dezesseis outros quadrados, com lados de
cinqüenta quilômetros cada um; a função das patrulhas é cuidar para que ninguém
saia da área que lhe foi determinada. É nisso que consiste o controle da
liberdade de movimentação.
Quequéler tornou a dobrar e guardar o
mapa, comentando:
— Portanto, tudo que precisamos fazer é
aguardar a aproximação da primeira patrulha, e dominá-la. Com as armas de que
dispomos agora, é coisa de minutos.
Rhodan concordou.
— Certo! Sabe com que freqüência as
patrulhas se comunicam com a central em Helacar?
Quequéler sacudiu a cabeça.
— Não. Só sei o seguinte: Logo após a
instalação do posto de controle em Helacar. quando a primeira patrulha chegou a
Sic-Horum, ainda éramos uma turma bem imprudente. Nossa antipatia por aquelas
lagartixas de cabeça achatada era imensa, e quando uma delas se mostrou rude e
grosseira demais para o nosso gosto, lhe aplicamos uma boa surra. Mais ou menos
uma hora depois apareceram as primeiras aeronaves sobre a cidade. Pareciam não
saber ao certo onde efetuar as buscas, pois voavam de um lado para outro, sem
rumo definido. Só duas horas depois do incidente é que desceram em Sic-Horum e
deram com os patrulheiros.
Com uma gargalhada, Quequéler concluiu:
— Safamo-nos com uma multa, e não se falou
mais no caso.
Refletindo, Rhodan deduziu:
— Portanto, cada patrulheiro apresenta
relatório de hora em hora em Helacar; caso o comunicado não seja recebido no
prazo devido, despacham um grupo de busca, que ruma diretamente para a zona de
onde veio o último relatório. Caso não tenham alterado a sistemática de ação,
acho que poderemos progredir razoavelmente depressa na direção de Thorta.
Combinaram ainda testar a eficiência do
posto militar em Helacar antes de rumar com o grupo de combate completo para
Thorta.
* * *
— Se for realmente o homem que
esperávamos, não tem nada a temer — disse Teél, de seu posto junto à porta.
— Pois sou obrigado a desapontá-los —
disse Deringhouse, aborrecido. — Minha presença nesta região é inteiramente
acidental.
— O que não tem a menor significação. Não
disse que foi enviado por Perclá?
— Sim, e daí?
— O que foi que ele lhe perguntou?
Deringhouse repetiu o diálogo mantido com
o velho.
— Está certo! — disse Teél. — Mas então,
de onde é que você veio realmente?
Chateado, Deringhouse resmungou, de cara
fechada!
— Olhem aqui, gente, tanto faz saberem ou
não, para mim não faz diferença nenhuma! Venho de Árcon.
A resposta deixou Teél evidentemente
confuso.
— De onde?
— De Árcon. Um mundo tão longínquo que
nenhum de vocês sequer pode imaginar onde fica!
Deringhouse começava a perder a paciência.
— Quer dizer que você não é ferrônio? —
indagou Teél, incrédulo.
— Exato, não sou ferrônio.
— Mas... o que é então?
— Um arcônida.
Uma voz se ergueu entre os presentes:
— Pouco antes da ocupação de Thorta pelo
inimigo, correu o boato de que uma espaçonave desconhecida havia aterrissado em
Rofus. Dizia-se que vinha dum sistema planetário distante, e que havia sido
avariada por uma das naves bélicas dos tópsidas. Consta que fez uma
aterrissagem forçada em Rofus, mas não se ouviu mais falar dela.
— Claro! — resmungou Deringhouse. —
Estávamos muito bem escondidos.
Teél indagou:
— E você fazia parte da tripulação dessa
nave?
— Adivinhou, amigão!
Teél ainda fez uma série de perguntas,
bastante tolas na opinião de Deringhouse. Irritado e impaciente, explodiu:
— Que diabo! Já chega! Quero saber duma
vez em que espécie de embrulhada me meti.
Os homens já haviam abandonado há algum
tempo a rígida postura de alerta junto às paredes, e formavam um círculo em
torno de Deringhouse, com as armas abaixadas.
— Posso lhe explicar tudo — falou Teél,
com entonação grave. — Somos um grupo determinado a opor resistência aos
invasores. A tarefa não é fácil, entende, e por isso procuramos recrutar sempre
novos elementos. No entanto, temos que examinar a fundo todo novato, para que o
inimigo não encontre facilidade demasiada em introduzir espiões no nosso meio.
Deringhouse suspirou audivelmente.
— Ora, por que não disse logo?
Sentando-se, relatou todos os episódios de sua chegada a Ferrol. Como na cidade
já se ouvira comentar os ataques inesperados desfechados contra as naves
tópsidas por um veículo equipado com recursos muito poderosos, ninguém duvidou
das palavras de Deringhouse.
— Já pensaram numa maneira de pôr em
prática suas idéias — perguntou ele — ou limitam-se a realizar regularmente
sessões secretas destinadas a manter vivo o ódio contra os tópsidas?
Teél abriu os braços num gesto de
resignação.
— Que queria que fizéssemos? Não temos
armas...
Deringhouse foi obrigado a lhe dar razão.
— E você? Que intenções tinha? — perguntou
Teél.
— Eu pretendia juntar-me aos sichas.
— Por quê?
— Quando minha gente vier para Ferrol, vão
descer na zona dos sichas.
Refletindo, Teél acabou por dizer:
— Não creio que conseguisse chegar até lá.
Os sichas vivem no recesso das montanhas, e até mesmo os tópsidas hesitam em
enviar suas patrulhas para lá. É fácil imaginar os obstáculos que um homem
sozinho encontraria pelo caminho, ainda mais quando é forçado a se esquivar dos
postos de vigilância tópsidas.
— Tem alguma sugestão melhor? — indagou
Deringhouse, fitando Teél.
— Para ser franco, não! — confessou este.
— Mas já que veio parar entre nós por acaso, que tal quebrarmos a cabeça
juntos, tentando encontrar uma saída?
— Combinado! — exclamou Deringhouse,
pondo-se de pé. — Eu topo!
* * *
— A fronteira deve ser por aqui — disse
Queháler, filho de Quequéler.
— O terreno é bem acidentado, sem grandes
perspectivas — constatou Rhodan, olhando em torno.
Ambos tinham voado de Sic-Horum até aquele
ponto, em companhia de Reginald Bell e de Tako Kakuta, a fim de pôr à prova a
eficiência das patrulhas tópsidas. Envergavam os trajes voadores arcônidas,
trazidos de Rofus por intermédio dos transmissores de matéria; assim o percurso
fora coberto em pouco tempo. Queháler aprendeu num instante a manejar o
equipamento desconhecido para ele, revelando notável habilidade para a tecnologia.
Para o norte, em direção da cidade,
portanto, o terreno descia em declive suave. Mas estava recoberto por pedras de
todos os tipos e tamanhos; a vegetação resumia-se a alguns arbustos esparsos.
Ao sul via-se um alto e extenso paredão rochoso, com cerca de cinqüenta metros
de altura; ia de leste para oeste, até onde a vista podia alcançar.
Queháler afirmou que aquela formação
natural representava o limite sul do quadrado onde se situava Sic-Horum.
Ninguém duvidou, pois era uma suposição bastante verossímil.
No entanto, Rhodan não achava ideal o
local escolhido. Reclamava muito, dizendo que jamais seriam avistados pela
patrulha. E como iriam testá-la, se as chances de serem localizados eram tão
reduzidas?
Queháler, no entanto, discordou:
— Eles voam sempre ao longo dos limites
dos quadrados — afirmou. — A pouca altura, e de olhos bem abertos. Não podem
deixar de nos ver, a menos que a gente se esconda debaixo de algum arbusto.
O que não seria realmente uma má idéia,
pois o sol dardejava sem piedade seu intenso calor. Rhodan viu que o termômetro
marcava oitenta e cinco graus centígrados à sombra. Os trajes voadores eram
climatizados, menos o rosto, que ficava exposto ao sol, sem qualquer proteção.
Bell deixou-se cair no chão.
— Pois esperemos, então! — resmungou,
contrariado. — Já que não há outra saída...
Rhodan estendeu-se igualmente no solo.
Caso sua suposição fosse correta, os tópsidas não os fariam esperar muito.
Afinal, eram extremamente desconfiados, e se quisessem impor para valer a
restrição à livre locomoção, teriam que patrulhar seus quadrados pelo menos uma
ou duas vezes por dia.
Passou-se uma hora antes que ouvissem o
ronco distante de um motor. Num gesto caracteristicamente ferrônio, Queháler
colocou ambas as mãos atrás das grandes orelhas, pressionando-as para a frente,
na direção de onde vinha o ruído.
— Estão se aproximando! — exclamou,
levantando do chão.
Rhodan perscrutou o horizonte. Acima do
paredão surgiu um ponto negro, deslocando-se com velocidade regular.
Rhodan, Queháler e Bell agruparam-se, bem
juntos, num trecho mais ou menos livre de pedras e vegetação, quase junto ao
paredão. Tako ocultou-se, ficava sendo a reserva.
O ponto negro avolumou-se; era uma
aeronave desprovida de asas e hélice, operando aparentemente sob o princípio da
antigravitação. Porém a tecnologia dos tópsidas neste setor parecia ser
bastante primária em comparação com a dos arcônidas. O ruído produzido pelos
motores, pelo menos, era quase insuportável aos ouvidos.
O planador antigravitacional — se é que
era essa a denominação do estranho veículo — imobilizou-se no ar, pouco acima
do paredão, ao dar com os três homens. Depois desceu verticalmente ao longo
dele, pousando a uns dez passos de Rhodan.
Era pilotado por dois tópsidas. Rhodan já
tinha visto os indivíduos de perto, porém nunca conseguia reprimir um calafrio
na presença de um deles.
Um deles desembarcou. Era quase tão alto
quanto Rhodan. O crânio achatado e liso, os lábios finos na boca três vezes
maior do que a de seres humanos, conferiam aos tópsidas uma vaga semelhança com
sapos. Impressão ainda mais acentuada pelos olhos redondos e salientes, de
extrema mobilidade. A pele escamosa era marrom-escura, e cada mão tinha seis
dedos. Em resumo, os tópsidas despertavam vivo terror por seu aspecto estranho,
sem, no entanto, poderem ser considerados feios na acepção usual do termo.
Rhodan percebeu que não haviam desligado
os estridentes motores. O tópsida sentado aos controles parecia fazer questão
de estar pronto para decolar novamente no mais curto espaço de tempo. O outro
parou diante de Rhodan, com a arma apontada para seu peito. Com o braço livre,
fez um gesto imperioso, enquanto dizia com voz coaxante:
— Aqui fronteira! Ir embora! Não obedecer,
eu atirar!
Falava num ferrônio quase incompreensível.
— Qual é o galho, meu chapa? — indagou
Bell, irreverentemente.
Sem esboçar o menor gesto, Rhodan falou,
com voz alta e clara:
— Tako!
O tópsida armado repetiu a ordem muda com
o braço, aprontando-se para dizer mais alguma coisa.
Porém no mesmo momento Tako materializou-se
no lado oposto do planador; não se expunha inutilmente, conforme Rhodan lhe ordenara.
O tiro da pistola pulsotérmica atingiu o segundo tópsida, matando-o
instantaneamente.
Sem chegar a pronunciar palavra, o
primeiro se voltou bruscamente. Era o momento aguardado por Rhodan; durante os
dois segundos em que o tópsida ficou imobilizado pela surpresa, ele teve tempo
de puxar a pistola de raios neutrônicos e abater o adversário.
— Feito! — comentou Bell secamente, mas
com a face branca como papel.
Rhodan limitou-se a acenar com a cabeça.
Depois fez sinal ao grupo para se afastarem dali, deixando para trás o planador
e os dois cadáveres.
Minutos após estavam de volta a Sic-Horum.
Quequéler providenciara a colocação de um vigia na torre mais alta da cidade;
munido de um potente telescópio, ele perscrutava, atento, as redondezas.
Quequéler mostrava-se eufórico, deixando de lado sua habitual sisudez. Parecia
satisfeito com o bom resultado da operação, porém não fez comentário algum a
respeito.
Um quarto de hora mais tarde, o vigia
acusou o aparecimento duma formação de planadores, fazendo buscas pela zona.
Logo após anunciou sinais de comoção por parte da patrulha tópsida; deviam ter
encontrado o local do ataque e os dois mortos. Os planadores desapareceram de vista
brevemente; a seguir foram vistos voando em direção da cidade.
— Oba, o caldo começa a entornar! —
exclamou Rhodan. — Que faremos?
Quequéler estendeu a mão direita, com a
palma virada para cima.
— Bem, provar, eles não podem provar nada.
Afinal, não possuímos armas do tipo das que mataram os dois tópsidas, não é?
Sou de opinião que você e seus homens desapareçam de cena enquanto o grupo de
busca age por aqui.
Rhodan buscou um esconderijo que lhe
permitisse acompanhar a cena desenrolada pouco depois na praça principal da
cidade. Os tópsidas pousaram com três planadores, enquanto outros tantos
ficavam circulando a pouca altura. Mandaram vir Quequéler, parlamentando com
ele no centro da praça. Rhodan lamentou só poder escutar as vozes coaxantes e
ásperas dos tópsidas.
Eles faziam uma acusação frontal, e não um
interrogatório. Quequéler, no entanto, mantinha-se calmo e impassível. Com a
maior seriedade, afirmou ignorar por completo o incidente. Acabaram
confrontando-o com os mortos. Rhodan viu-o se curvar sobre os ferimentos, e
adivinhou que o arguto sicha recorria ao argumento combinado: não possuía, nem
jamais tinha possuído armas daquela espécie.
Os tópsidas pareceram ficar convencidos;
moderaram as vozes indignadas. Rhodan ouviu-os então pedir informações que
pudessem levar à pista ou ao esconderijo do provável criminoso. Quequéler falou
longamente; a julgar pela gesticulação dos braços e mãos, descrevia com
detalhes minuciosos algum caminho ou local.
Os patrulheiros tornaram a embarcar em
seus veículos. Com os geradores antigravitacionais uivando estridentemente,
elevaram-se em vôo vertical, rente às paredes das casas. Reunindo-se aos
companheiros em vôo, desapareceram rapidamente.
Rhodan e Bell emergiram dos respectivos
esconderijos. Quequéler recebeu-os rindo. Era a primeira vez que o viam rir.
— Bom trabalho! — louvou Rhodan.
— Ouviu tudo?
— A maior parte. E ficamos sabendo que os
tópsidas não mantêm realmente comunicação constante com a central. Portanto,
nos sobram opções; seja qual for a escolhida, sempre teremos tempo suficiente
para sumir depois de liquidar uma das patrulhas. Aliás, para onde despachou
esta?
Quequéler sorriu maliciosamente.
— Para sudoeste, no cerrado. Mil
quilômetros quadrados inteiramente cobertos de espinheiros. Eles vão ficar
ocupados por dias e dias...
* * *
Talico era uma moça extremamente atraente.
Ligeiramente mais alta do que seu irmão Teél, mas de constituição mais
delicada. O rosto era belo, de linhas tão suaves que nem os olhos ocultos nas
órbitas fundas conseguiam quebrar a harmonia do conjunto.
Sua posição no grupo de conspiradores era
importante, porque morava em Hopter, cidade em que existia um posto de controle
tópsida. Deringhouse ignorava a razão dela viver longe da família; por ser
casada, talvez. De qualquer forma, em Hopter tinha freqüentes ocasiões de
contato com os tópsidas, sendo até considerada pessoa de confiança por eles.
Fato raro, pois eles costumavam confiar apenas em si mesmos, sem recorrer à
ajuda de ninguém, principalmente de elementos do povo subjugado.
— Acho que eliminar sumariamente todos os
integrantes do posto em Hopter causaria uma alteração grande demais, não é? —
perguntou Deringhouse.
— Sem dúvida — concordou Talico. — No
entanto, os tópsidas reagiriam de maneira muito peculiar. Primeiro viriam fazer
um demorado interrogatório. Certos de que o autor do atentado não tem meios
para lhes escapar, não apressariam nem um pouco as investigações. Sei lá se
isso é complexo deles, ou estratégia deliberada, mas procuram sempre dar a
impressão de querer evitar a prática de injustiças. Só aplicam medidas
punitivas quando possuem, ou julgam possuir, provas concludentes. Enquanto se
ocupam com o caso, temos tempo suficiente para alcançar Thorta.
Pois durante a conferência realizada,
chegara-se à conclusão unânime de que todo o grupo de Teél devia ser
transferido para Thorta, a despeito da vigilância tópsida. Com as armas
fornecidas por Deringhouse, encontrariam lá um campo de ação muito mais amplo
do que na cidadezinha isolada do interior.
Talico e Deringhouse constituiriam a
vanguarda. Teél e os demais seguiriam a intervalos apropriados. E estes se
apresentariam forçosamente nas pausas entre o ataque a uma patrulha tópsida
excessivamente curiosa, e o declínio da excitação provocada pelo incidente.
Seriam os momentos propícios para avançar mais uma etapa no caminho para
Thorta.
Talico sabia, por fontes dignas de
crédito, que em Thorta havia grupos de resistência semelhantes ao organizado
por Teél. Precisavam tentar obter contato com um deles, a fim de solucionar o
problema de se acomodar na cidade sem despertar suspeitas.
Porém Deringhouse não havia concordado com
a sugestão de Talico de destruir sumariamente o posto de controle em Hopter.
Argumentou que isso provocaria agitação desnecessária, e, como no trajeto até
Thorta tivessem que atravessar o território de mais dois postos, a medida só
lhes traria obstáculos adicionais. Combinaram, em vez disso, passar ao largo de
Hopter, atacando o inimigo apenas no caso de serem detidos por uma das
patrulhas.
— Podemos partir amanhã cedo — concluiu
Deringhouse.
III
O primeiro golpe quase redundou em
fracasso. Mas, superada a experiência, ficaram sabendo contra o que precisavam
acautelar-se dali em diante.
Talico e Deringhouse seguiam a pé. Já não
havia praticamente viaturas privadas nas estradas do Continente Central; e, se
alguma aparecesse, era certo ser vistoriada pelas patrulhas tópsidas a cada
dois ou três quilômetros.
Mantinham-se um pouco afastados da
estrada, e à tardinha avistaram Hopter. Entraram na cidade, pernoitando na
moradia habitual de Talico. Prosseguiram na manhã seguinte, sempre conservando
o afastamento de cerca de um quilômetro da estrada. Ao meio-dia, se encontravam
a apenas alguns quilômetros dos limites do quadrado no qual se encontrava
Hopter.
Fizeram uma pausa, pois Deringhouse
sentia-se exausto com a caminhada; a gravidade desacostumada de Ferrol fazia
sentir seus efeitos.
Enquanto repousavam, ouviram o sussurro
duma aeronave de patrulha. Ela planou baixo por sobre suas cabeças, descreveu
uma curva e voltou, pousando a uns vinte metros de distância. Um dos dois
tripulantes desembarcou, aproximando-se de arma em riste.
— Calma! — cochichou Talico. — É Epton.
conhecido meu.
Apesar do risco que corriam, Deringhouse
se perguntou como é que alguém podia diferenciar um tópsida de outro. Talico
possuía essa habilidade, pelo visto.
Reconhecendo a moça, Epton abaixou a arma,
repuxando a bocarra num arremedo de sorriso.
— Amigo? — coaxou ele, indicando
Deringhouse.
— Sim — respondeu Talico. — Estamos
excursionando.
— Fronteira ali! — avisou Epton, virando-se
e apontando para o norte. — Não ir adiante! Perigoso!
Talico concordou:
— Certo, vamos ficar por aqui. O
lugarzinho nos agrada.
Epton emitiu um grunhido. Deringhouse se
ergueu displicentemente, como que para esticar um pouco as pernas. O tópsida
não lhe deu a menor atenção, entretido em conversar com a moça.
— Quando visitar nós de novo? — perguntou
a Talico.
— Não sei. Amanhã, talvez...
— Nós ficar contente — coaxou Epton. “Ah,
é? Pois vais ver uma coisa, batráquio!”, pensou Deringhouse, irritado. Estava
agora a dois metros de Epton, do lado esquerdo. Sem que o tópsida desse por
isso, puxou a pequena pistola de raios neutrônicos, apontando-a para o
reptilídeo.
— Largue a arma! — disse Deringhouse,
secamente.
Epton olhava perplexo de Talico para ele.
— É melhor fazer o que ele mandou —
recomendou a jovem.
Os olhos de Epton rolavam nas órbitas,
desorientados; a boca na face de sapo transformou-se numa linha reta e dura.
— Ande para lá! — ordenou Deringhouse, apontando
para o planador. — Eu vou atrás, e ai de você se tentar algum truque, ou der
aviso ao seu companheiro!
Talico levantou-se igualmente. Acompanhar
os dois homens daria aparência mais normal à situação. Portanto, colocou-se à
direita de Epton. Os três encaminharam-se para o planador. O piloto já
reconhecera Talico, e gritou-lhe qualquer coisa, que Deringhouse não entendeu.
A moça respondeu com poucas palavras.
“Puxa, tem sangue-frio a menina!”, pensou
Deringhouse.
No mesmo instante deu-se o desastre. Sem
ligar para a pistola neutrônica apontada para suas costas, Epton de repente
saiu correndo. Ainda conseguiu sibilar algumas palavras guturais no idioma
tópsida ao piloto; depois foi abatido pelo tiro de Deringhouse.
O planador decolou instantaneamente.
Deringhouse ainda disparou algumas vezes contra ele; mas o alcance de sua arma
não superava os dez metros, de modo que não conseguiu atingir a aeronave. Ela
se elevou verticalmente, com os motores rugindo, e desapareceu por trás das
árvores.
Talico tinha empalidecido.
— Vamos! — gritou Deringhouse. — Temos que
sair daqui! Dentro de minutos teremos toda a guarnição do posto voando por cima
de nossas cabeças!
— E para onde iremos? — lamentou-se
Talico.
Pergunta crucial aquela, pois de fato
tinham diante de si uma noz dura de roer. O piloto forçosamente tinha dado o
alarma, e a central já sabia que alguém tentava cruzar a fronteira interditada,
querendo passar para a área de controle vizinha. Portanto, não podiam continuar
na direção em que seguiam.
— Vamos para o leste — decidiu
Deringhouse. — Ou melhor, por algum tempo andaremos em direção sul; é onde
menos vão se lembrar de nos procurar.
Ambos levavam microtransmissores, a fim de
se comunicar com Teél e o resto do grupo. Para diminuir a possibilidade de interceptação
dos sinais pelo inimigo, haviam combinado um código bastante restrito. Um sinal
isolado significava: Prosseguindo de
acordo com o plano; dois sinais: Alto.
problema à vista; e três sinais! Perigo!
Ainda havia diversas combinações, mas no momento Deringhouse necessitava
apenas do terceiro sinal.
Após emiti-lo, atravessaram a estrada e
rumaram para o sul. Meia hora após alcançaram um pequeno bosque cerrado.
Simultaneamente escutaram o ronco dos planadores.
Ocultos entre a vegetação rasteira,
aguardaram.
* * *
A marcha para o norte foi inicialmente
rápida e fácil. Brincadeira de criança, comparada com os obstáculos que
esperavam encontrar. Cruzaram as divisas de dois quadrados sem serem
detectados. Nas três fronteiras seguintes, foi preciso eliminar as patrulhas,
tarefa executada sem maiores dificuldades.
Porém começaram a notar depois sinais de
nervosismo e inquietação entre os tópsidas. De repente o número de aeronaves de
patrulha duplicou e triplicou. Rhodan dividiu seu grupo, entregando a direção
da segunda metade a Gloctor, um sicha. Trazia consigo apenas Reginald Bell,
Tako Kakuta, Marshall, Marten, Sengu, a pequena Betty e alguns sichas
cuidadosamente selecionados por Quequéler. O resto do grupo permanecera em
Sic-Horum, constituindo uma espécie de reserva à qual poderia recorrer a
qualquer instante, assim que conseguisse deitar a mão num transmissor em
Thorta.
Gloctor, o líder escolhido, era um dos
conselheiros de Quequéler. Devia ter cerca de quarenta e cinco anos de idade
segundo o calendário terrestre. Quequéler dispensava-lhe especial confiança;
sentimento de que Rhodan compartilhava integralmente após ter lidado com o
sicha naqueles poucos dias.
Por meio do telecom estava em comunicação
constante com seu grupo em Sic-Horum. Assim como os demais, ignorava se os
tópsidas eram capazes de detectar transmissões realizadas através do telecom; a
bordo da nave de guerra arcônida capturada existia equipamento muito
sofisticado para essa finalidade, mas era provável que os tópsidas não
soubessem utilizá-lo. Por via das dúvidas, Rhodan resolveu fazer as
transmissões valendo-se do efeito Raffer,
assim uma conversação normalmente feita em quinze minutos levava um
centésimo de segundo para ser emitida.
Segundo as previsões de Rhodan, gastariam
semana e meia do calendário ferrônio para alcançar Thorta, ou sejam, dez vezes
trinta e oito horas terrestres. Neste cômputo, ele tinha levado em conta o
tempo ganho com a utilização dos trajes voadores arcônidas, disfarçados por
baixo das amplas túnicas brancas dos sichas; no entanto, só podiam recorrer a
eles quando tinham absoluta certeza de não estarem sendo observados.
* * *
Os planadores não deixavam dúvida quanto
às suas intenções. Circularam algum tempo acima do pequeno bosque, e
aprontaram-se para aterrissar.
Deringhouse rilhou os dentes. Não esperava
que dessem com sua pista tão depressa. Colocou a mão sobre o ombro de Talico, e
viu que ela tremia.
— Coragem! — murmurou para tranqüilizá-la,
porém percebeu que a recomendação era quase ridícula.
O que se seguiu, mesmo analisado e
relembrado em todas as minúcias posteriormente, só poderia ser classificado de
milagre. Em formação de ferradura, os planadores cercaram o bosque; apenas um
pousou ao leste dele, no ponto que representaria a abertura da ferradura.
Deringhouse acabara de meter a cabeça para
fora do esconderijo, a fim de verificar se os tópsidas iam desembarcar, quando
escutou um assobio agudo e prolongado, vindo do alto. Por um instante, se
julgou vítima de uma alucinação auditiva, pois aquele som jamais poderia ser
ouvido em Ferrol. No entanto, o ruído se avolumou, estridulando com intensidade
ensurdecedora bem na direção em que se encontravam.
— Proteja-se! — berrou Deringhouse,
sentindo ao mesmo tempo pavor e satisfação.
Houve algo semelhante a um cataclismo
universal. Primeiro, uma detonação retumbante, acompanhada por um clarão que
atravessava até as pálpebras cerradas. Uma ventania furiosa sacudiu o bosque,
quebrando galhos e arrancando árvores. Destroços voavam pelo ar, chocando-se
estrondosamente contra o solo. Em poucos minutos restabeleceu-se a calma.
Deringhouse pôs-se de pé num pulo. Com a
cabeça de lado, escutava. Apesar de seus ouvidos ainda estarem tinindo,
distinguiu o ruído inconfundível de jatos hiperbólicos, diminuindo
progressivamente como se a aeronave equipada com eles se afastasse a toda a
velocidade.
— Puxa, ele podia ter acabado conosco
também! — exclamou, impressionado e engolindo em seco.
Mas recuperou-se em seguida. Lançando um
olhar para o lado onde os planadores haviam estado, só viu uma nuvem de vapores
e poeira; ela pairou no ar durante algum tempo, depois começou a dissipar-se,
espalhando-se aos poucos pelas redondezas.
Quase junto aos seus pés estava caído um
dos objetos trazidos pelo vento; tratava-se dum fragmento do assento de comando
de um dos planadores tópsidas. Por ele se podia calcular o que sucedera ao
resto.
Porém o planador que aterrissara ao leste
ainda fazia ouvir o ronco dos motores. Deringhouse escutou vozes guturais em
acalorada discussão.
Puxando Talico pela mão, cochichou:
— Vem, vamos embora!
Ainda atordoada, ela acompanhou-o
vacilando. Não entendia o que estava acontecendo ao seu redor. Portanto
obedeceu passivamente quando Deringhouse a agarrou pelo pescoço, forçando-a a
lançar-se ao solo, na orla do mato. Ouvia a respiração ofegante do companheiro,
sem ter a menor idéia do que ele planejava.
— Fique deitada aqui! — sibilou ele.
O planador tópsida restante estava a
alguns metros diante deles. Um dos reptilóides saltou dele, pondo-se a
contornar em passo acelerado o pequeno bosque, a fim de verificar o que
ocorrera no lado oposto. Outro tripulante, sentado aos controles, fazia
evidentemente uma comunicação radiofônica.
Deringhouse esperou que ele concluísse a
transmissão e desembarcasse igualmente. Depois atirou. Vendo o colega cair
morto, o primeiro tópsida voltou às carreiras, sendo também eliminado ao chegar
ao alcance da arma de Deringhouse.
Este foi buscar Talico e empurrou-a para
dentro do planador.
— Como é que funcionam esses troços? —
indagou, afobado.
Talico examinou o painel de instrumentos,
no qual se viam poucos botões.
— Este aqui é o que dá partida — explicou
ela, puxando um dos botões até o fim.
O resultado não se fez esperar, a aeronave
disparou para cima com um violento arranco. Deringhouse tirou a mão da moça dos
controles, tornando a empurrar metade do botão para dentro.
— Oba, agora podemos viajar mais depressa!
— exclamou ele, alegremente, depois de se familiarizar com o manejo do
aparelho. — Antes que você se restabeleça do susto que Klein lhe pregou,
estaremos perto de Thorta.
— Klein?
— Ah, é mesmo, você não o conhece!... É o
cara que anda assombrando a zona com seu caça. Deve ter visto aquela convenção
de planadores, resolvendo desfazê-la com uma antiquada bomba de TNT.
Evidentemente ele não sabia que nós estávamos escondidos naquele mato...
— Mas não poderia ter escolhido hora
melhor para aparecer! — disse Talico, rindo.
— Sem dúvida! E você é uma moça muito
corajosa — respondeu Deringhouse, sem transição.
Ela fitou-o espantada, porém os pensamentos
de Deringhouse já tinham tomado novo rumo.
Tirara uma lição valiosa daquele
contratempo, e não pretendia esquecê-la tão depressa: a disciplina militar dos
tópsidas era tão severa que, mesmo sabendo que lhes custaria a vida, tentavam
tudo a fim de dar aviso aos companheiros. Daí por diante, era necessário levar
sempre em conta esta característica tópsida.
Depois de sobrevoar a fronteira do
quadrado de controle, Deringhouse enviou a Teél o sinal simples: Prosseguindo de acordo com o plano.
* * *
Completaram a viagem em menos tempo do que
esperavam. Klein realizava infatigavelmente suas investidas, e todo o
continente estava em polvorosa, de modo que ninguém mais se preocupava em
verificar a eficiência do sistema de controle dos movimentos populacionais.
No fim do oitavo dia ferrônio, avistaram à
distância os contornos da imensa metrópole de Thorta.
De outros pontos, no entanto, vinham
notícias menos favoráveis. Quer em conseqüência dos ataques de Klein, quer por
já ser plano previamente traçado, os tópsidas começavam a bombardear as cidades
de Rofus. Iniciava-se o fogo cerrado contra o nono planeta. O Thort se
entregava ao desespero. Rhodan enviou-lhe Crest, com a mensagem de que levaria
apenas alguns dias para se apoderar da nave de guerra, com o que os ataques
tópsidas cessariam espontaneamente.
Certificaram-se pessoalmente de que a
gigantesca espaçonave continuava pousada no espaçoporto de Thorta. A trinta
quilômetros de distância o vulto inconfundível já se tornava visível. Rhodan
sentiu-se tomado por intensa frustração; na sua impaciência, gostaria de se
dirigir simplesmente ao espaçoporto e tomar posse da nave. Porém sabia que o
caminho para a concretização deste objetivo passava pelo Palácio Vermelho, no
coração da cidade.
Ao alcançá-lo, Klein atacava justamente o
porto de Thorta, o que permitiu a entrada desimpedida de Rhodan e de seu grupo.
Gloctor e seus homens deviam estar perto também, um pouco mais atrás ou mais
adiante. O combinado era se encontrarem numa hospedaria situada na Rua da União,
pertencente a um sicha emigrado da terra natal.
A marcha através da cidade, no entanto,
não decorreu sem incidentes. Antes de chegarem à Rua da União — Klein tinha
dado seu ataque por encerrado e a situação retornava gradualmente à normalidade
— perceberam uma aglomeração num cruzamento que precisavam atravessar. Tako
recebeu ordem de ir à frente para investigar. Voltou, informando que um pequeno
grupo de tópsidas fiscalizava os passes dos transeuntes.
E agora? Nenhum deles possuía passes para
circular em Thorta. Pois, a fim de controlar a obediência às ordens de
limitação da liberdade de locomoção, os tópsidas haviam emitido passes, nos
quais constava claramente o local de residência do portador, e o quadrado de
controle respectivo.
Em conseqüência, Rhodan ordenou o recuo de
seu grupo, com toda a cautela, para não chamarem a atenção. Teriam que procurar
alcançar a Rua da União por roteiro diverso. Queháler, que já conhecia a
cidade, servia de guia.
Tiveram que contornar mais dois pontos de
fiscalização, felizmente sem serem percebidos. Com isso, sua chegada à
hospedaria foi retardada em mais de uma hora.
Gloctor e seus homens ainda não tinham
chegado. O proprietário da hospedaria ficou atônito com a chegada simultânea de
tantos hóspedes. Desde a invasão dos tópsidas, com a conseqüente proibição de
viajar, a casa estivera sempre vazia.
Chamando-o de lado, Queháler explicou a
situação. Tiamér, o hoteleiro, aderiu com entusiasmo à causa.
O grupo de Gloctor chegou duas horas mais
tarde.
Reginald Bell entrou com um ar de desafio
no rosto. Rhodan compreendeu que havia novidades.
— Que foi que aconteceu, Bell?
— Ora, um sujeito queria ver nossos
passes, aí num cruzamento de rua...
— E então?
— Não tínhamos passe nenhum, lógico. E
estávamos tão perto deles que não havia mais jeito de voltar disfarçadamente.
Eram dois só, felizmente, e não tivemos trabalho demais. Mas os tópsidas vão
ficar doidos por saber quem é que teve o topete de liquidar dois fiscais em
pleno centro da cidade!
— E os transeuntes?
— Passivos como cordeiros —, interrompeu
Gloctor. — Além disso, agimos com a maior discrição. Cercamos os dois tópsidas,
que ficaram totalmente encobertos por nossa gente. Quando seguimos caminho,
havia dois corpos estendidos no chão. Ninguém pareceu se admirar com isso. Daí
por diante, não topamos mais com dificuldade alguma, e aqui estamos.
Os guerrilheiros se instalaram no subsolo
do pequeno hotel. Tiamér tinha concordado em ceder seu estabelecimento para
base de operações, pelo prazo que fosse necessário.
* * *
Após sobrevoar os limites do quadrado no
qual se situava Thorta, Deringhouse e Talico abandonaram o planador,
prosseguindo a pé.
Deringhouse estava contente por terem
chegado até aquele ponto sem serem molestados. Apesar dos riscos envolvidos,
insistiu em querer alcançar a casa do homem que morava no bairro mais elegante
da cidade, bem perto do palácio real.
Com a ajuda da jovem, conseguiu realizar
seu intento, porém Talico estava à beira dum colapso nervoso. Calan, o chefe da
família, e os demais receberam Deringhouse e Talico com grande cordialidade.
Que não sofreu a menor alteração quando a moça explicou a razão de suas
presenças ali, acrescentando que eram seguidos por Teél, com seu grupo de
homens dispostos a tudo. O único comentário de Calan foi:
— Eles terão que se mostrar muito
cautelosos. De todos os antigos residentes do bairro só restamos nós, e mais
duas ou três famílias. Os tópsidas requisitaram todas as demais moradias para
seu uso. Não sei como me deixaram em paz. Talvez achassem minha casa antiquada
demais — concluiu, rindo.
Deringhouse calculou que Teél levaria
ainda bem uns cinco dias para chegar com sua gente. Portanto decidiu aproveitar
o período de espera indo em busca de pessoas que alimentassem objetivos
semelhantes aos seus.
Calan era um homem bem informado.
— Vai ter que andar um bocado! — informou,
pesaroso. — E não vai ser nada fácil, em vista da constante verificação dos
passes. Mas caso consiga chegar ao hotel Unicórnio Branco, na Rua 87,
encontrará certamente algumas pessoas dispostas a lhe dar ouvidos.
Calan arranjou uma planta da cidade, que
Deringhouse procurou memorizar nos dias seguintes.
* * *
— A situação é a seguinte — disse Rhodan,
pensativo — em primeiro lugar, precisamos penetrar no Palácio Vermelho sem
sermos percebidos. E o grupo todo, de preferência. Pois com tantos tópsidas
amontoados lá dentro, poderiam surgir complicações insuperáveis para um homem
sozinho. Acima de tudo, quero frisar um ponto importante: temos apenas uma
chance. Falhando esta, os tópsidas ficarão duplamente alertas. Sugiro que
tentemos surrupiar um transmissor, para começar. Tiamér deve conhecer a antiga
localização das estações transmissoras, e nós nos encarregaremos de verificar
se foram alteradas ou não. Enquanto isso, enviei para Rofus a imagem virtual de
um dos passes válidos aqui em Thorta. Para Crest não será problema executar
algumas duplicatas. Quando tivermos o transmissor, os passes devem estar
prontos, o que simplificará consideravelmente nossa circulação.
Tiamér descreveu a localização das estações
transmissoras antes da chegada dos tópsidas. Tako Kakuta fez uma rápida
excursão, a fim de sondar as possibilidades. Regressou, no entanto, bastante
desanimado:
— Nada feito! São mais bem vigiadas que o
harém de um sultão! Tirem da cabeça a idéia de subtrair transmissores de
qualquer delas.
Tiamér lembrou uma última saída:
— Na agência de correio da Rua 25 havia um
transmissor pequeno. A rua fica perto daqui, dobrando a esquina. Porém o prédio
está todo tomado pelos tópsidas, que instalaram nele uma série de escritórios.
Talvez seja mais difícil entrar lá do que nas grandes estações transmissoras.
No entanto, Rhodan decidiu que valia a
pena tentar. Enviou Tako para fazer um levantamento da agência postal. Postado
na rua, diante do edifício, ficou observando por algum tempo; depois saltou,
rematerializando-se no pavimento mais elevado. Sem ser visto por ninguém, teve
oportunidade de acompanhar tranqüilamente o que se passava no interior do
prédio. Voltou, informando que as chances não eram lá grande coisa, mas um
pouco mais favorável do que nas demais estações.
Rhodan começou a traçar os planos para se
introduzir no edifício, e trazer de lá um transmissor em condições de uso.
Gloctor, que sabia lidar com os aparelhos, garantiu que poderia obter a corrente
necessária ao seu funcionamento ligando-o à rede geral de energia da cidade,
que passava abaixo do hotelzinho.
Com isso, a tarefa reduzia-se pura e
simplesmente à obtenção do transmissor A fonte de energia e demais pertences
eles deixariam de presente para os tópsidas.
* * *
Deringhouse e Talico seguiram por rumos
separados, pois individualmente seria mais fácil se esgueirar por entre os
postos de fiscalização. Apesar disso, chegaram quase juntos à hospedaria
Unicórnio Branco.
O ambiente em que entraram era sombrio,
mas instalado com relativo conforto. O serviço automático não funcionava.
Deringhouse fez sinal para um homem que lhe pareceu ser o atendente. Talico
encarregou-se dos pedidos.
— Sou um verdadeiro fracasso como
conspirador — disse Deringhouse, com um sorriso irônico, depois de examinar os
demais fregueses. — Que é que faço agora? Perguntar ao acaso, a algum deles se
também é contra os tópsidas?
— Ora, aguarde um pouco! — disse Talico,
rindo. — Quem sabe o proprietário lhe dá uma mãozinha...
Porém a situação se resolveu por si mesma.
Mal provaram seus drinques, viram a porta ser aberta com estrondo, dando
passagem a um grupo de homens excitados.
— Liquidaram dois postos de fiscalização!
— gritou um deles. — No cruzamento da Rua 25 com a Rua da União!
Por instantes reinou silêncio no recinto.
Depois os presentes manifestaram seu contentamento com brados jubilosos.
— Quem? Quem foi? — queriam saber. Os
recém-chegados estenderam as mãos:
— Não temos a menor idéia. Ninguém sabe
dos detalhes. Mas, de qualquer maneira, gostamos de ver os tópsidas levarem a
pior, para variar!
Deringhouse piscou para Talico. Esperaram
que os ânimos se acalmassem um pouco, depois Deringhouse levantou-se e
interpelou um dos homens que haviam trazido a boa notícia.
— Gostaria de lhe falar por um instante —
disse, baixinho. — Importa-se de vir à minha mesa?
O homem concordou, dizendo:
— Meu nome é Vafal. Estou interessado em
saber o que tem a dizer.
Tomou lugar à mesa de Talico. Deringhouse
começou sem rodeios:
— Nós dois viemos do sul, isto é, eu venho
de muito mais longe ainda. Atrás de nós vem um grupo de homens dispostos a
colaborar ativamente na tarefa de fazer com que os tópsidas desapareçam de
Thorta o mais depressa possível. Pode nos dar alguma sugestão?
Vafal examinou-o, pensativo.
— E quem me garante que você não é espião?
Deringhouse deu de ombros. Depois
lembrou-se que aquele gesto não tinha significação alguma em Ferrol; estendeu
então a mão direita, com a palma para cima.
— Ninguém. Terá que pôr-me à prova. Mas tenho
algo a lhe oferecer.
— O quê?
— Duas ou três armas que talvez nunca
tenha visto.
Os olhos de Vafal se arregalaram; ele
estava visivelmente interessado.
— Verdade? Mostre!
Deringhouse puxou a pequena pistola de
raios térmicos. Apontando para o copo à sua frente, pressionou levemente o
gatilho. O vidro chiou, e surgiu um orifício por onde o líquido escorreu,
formando uma poça sobre a mesa. Virando a arma para a poça, Deringhouse
evaporou-a; porém teve o cuidado de balançar com a arma para um lado e outro, a
fim de não queimar a mesa.
Vafal testemunhou o processo boquiaberto.
Quando Deringhouse concluiu a demonstração
e tornou a enfiar a arma debaixo da túnica, Vafal disse:
— Venha comigo!
* * *
Rhodan examinou o cubículo junto à entrada
principal do edifício postal; tinha sido, evidentemente, o posto do porteiro em
outros tempos. Agora estava ocupado por um tópsida.
A tarde caía, com o sol quase se
escondendo abaixo do horizonte.
— Adiante! — ordenou Rhodan. Acompanhado
por Reginald Bell e Tako, atravessou a rua, aproximando-se do cubículo. O
tópsida seguia-os com o olhar.
Bell aprestou o psicoirradiador. Rhodan
parou diante do tópsida.
— Que querer? — coaxou o reptilóide.
— Entrar! — respondeu Rhodan, secamente,
indicando a larga porta dianteira.
O tópsida aprontou-se para falar, porém
Bell acionou o contato do irradiador. Prontamente, o reptilóide contorceu a
bocarra e coaxou:
— Poder ir!
Rhodan acenou amistosamente para ele, e
fez sinal a Tako para tomar a dianteira. Bell seguiu-o, deixando o irradiador
com Rhodan. O tópsida apertou o botão que comandava a abertura da porta. Esta
se abriu, e os dois homens entraram.
Rhodan encaminhou-se para a porta andando
de costas. Chegando à soleira, disse:
— Agora esqueça isso tudo, meu velho, está
bem?
— Sim, senhor! — respondeu o tópsida.
Rhodan esperou que a porta se fechasse e desligou o irradiador.
O prédio estava silencioso. Rhodan sabia
que os tópsidas, inclusive os soldados, tinham horários de trabalho rígidos.
Àquela hora não devia haver mais de cem homens ao todo no gigantesco complexo
de salas.
Seguiram por um corredor amplo. Tako
indicou uma série de portas na parede do lado esquerdo.
— Elevadores — explicou. — Vamos descer.
O transmissor encontrava-se no subsolo. O
elevador era manejado por meio de botões.
As dependências inferiores estavam
claramente iluminadas. Os transmissores ficavam numa pequena peça lateral, onde
a poeira se acumulava. Pelo jeito, fazia tempo que ninguém entrava ali.
A gaiola do transmissor media dois metros
de altura, por um de largura. Rhodan e Bell desfizeram apressadamente os
contatos, e tentaram levantar o aparelho. Com seu peso aproximado de duas
toneladas, não seria fácil locomovê-lo, porém eles sabiam de antemão que a
empreitada não seria brincadeira.
— Suma, Tako! — disse Rhodan.
O diminuto japonês obedeceu imediatamente.
Bell e Rhodan arrastaram seu fardo ao longo do corredor, em direção aos
elevadores. Suando, empurraram-no para a espaçosa cabina, e subiram.
Ao saltar no pavimento térreo, perceberam
sinais de violenta comoção nos andares superiores. Uma algazarra infernal de
berros, estouros e silvos estridentes vinha de lá; a barulheira era tanta que
devia ser percebida até do lado de fora, na rua.
Bell sorriu compreensivamente. Rhodan
desejava fervorosamente que não houvesse lá em cima nenhum tópsida
suficientemente esperto para perceber que tudo aquilo não passava de uma
manobra de despistamento.
Sem serem perturbados, empurraram o
transmissor para a porta de saída; esta podia ser aberta por dentro. Ainda sob
o efeito da ordem hipnótica, o tópsida no cubículo do porteiro não os
reconheceu. Viu-os passar com sua carga, sem esboçar um gesto; apenas o olhar
fascinado não os abandonava.
Tiamér aguardava, com seu caminhão de
entregas estacionado junto ao meio-fio. Com os esforços reunidos dos três
homens, o transmissor foi colocado no veículo, e recoberto com a lona de
proteção. A seguir, embarcaram na cabina de direção.
Segundos após, o caminhão foi sacudido por
um forte abalo. Da carroceria veio a voz ofegante de Tako:
— Tudo em ordem! Cheguei! Tiamér deu a
partida.
Era a hora do dia em que o sol já se
pusera, mas a claridade ainda chegava para iluminar as ruas; portanto a
iluminação pública ainda não fora ligada. Na rua emparedada por edifícios
reinava um lusco-fusco cinzento. O tráfego era escasso, e Rhodan tinha certeza
de que ninguém os havia visto.
Alcançaram a hospedaria de Tiamér sem
problemas. O transmissor foi descarregado e levado para dentro.
Gloctor os aguardava. Já providenciara,
com seus homens, a ligação clandestina à rede de iluminação, e preparara os
contatos necessários. Uma vez com o transmissor no subsolo, levaram apenas
minutos para conectá-lo.
— Supondo que isso funcione conforme deve
— disse Rhodan — nossa próxima tarefa será regular o transmissor do Palácio Vermelho,
ajustando sua freqüência com a nossa. Assim poderemos nos locomover livremente
de cá para lá, e vice-versa. Tako, a missão é sua! Pode me cobrar horas-extras
— acrescentou ele, rindo.
Tako desapareceu, e Rhodan finalizou:
— Pensando bem, podemos nos dar por
altamente satisfeitos com os êxitos obtidos até agora.
* * *
Deringhouse jamais imaginara que seria tão
simples penetrar no Palácio Vermelho. É que os tópsidas tinham adotado atitude
semelhante à de qualquer potência dominadora, em qualquer parte do universo:
empregavam para os trabalhos subalternos ferrônios que consideravam dignos de
confiança. Estes eram selecionados mediante processos bastante rigorosos, e,
além disso, havia controles diários; desta forma, os tópsidas julgavam-se
imunes a possíveis traições por parte dos empregados não-tópsidas.
Porém não haviam contado com Vafal, nem
com pessoas imbuídas da mesma animosidade. Os homens da resistência tinham dado
com uma brecha para introduzir suas alavancas. Com ar inocente e expressões
virtuosas, submetiam-se ao processo de seleção; e o problema dos controles
diários era resolvido com a falsificação de passes. Em conseqüência,
dificilmente se encontraria no Palácio Vermelho um criado que não pertencesse à
resistência.
O mal era que Vafal e sua gente não sabiam
o que fazer com a organização de que dispunham. Haviam chegado a pensar num
atentado contra o almirante-chefe da frota tópsida; porém seu bom senso lhes
disse que a morte do comandante em nada afetaria o poder bélico de um exército
bem estruturado. Apoderar-se da nave de guerra estacionada no espaçoporto era
coisa fora de cogitação, pois não saberiam manejá-la. Tudo indicava que estavam
justamente à espera de um homem como Deringhouse — alguém com objetivos
definidos em mente.
No momento, Deringhouse se encontrava num
dos corredores do trigésimo oitavo andar do enorme edifício, munido dum passe
falso que tinha lhe possibilitado a entrada, e esforçando-se por manusear uma
máquina varredora cujo funcionamento não entendia.
Trazia suas armas consigo.
Enquanto percorria, pressuroso, o
corredor, com a máquina ora sussurrante, ora falhando, analisava mentalmente o
plano concebido, procurando verificar se continha alguma falha.
Pretendia se introduzir, na primeira
oportunidade favorável, na sala secreta na qual o Thort tinha preparado uma
espécie de saída de emergência. A peça situava-se igualmente no trigésimo
oitavo andar, porém um pouco distante dali, na área de serviço de outro criado.
E Deringhouse não tinha meios para averiguar se era também um dos
conspiradores.
A idéia era ajustar o transmissor com a
freqüência de um dos existentes no forte do deserto, em Rofus, e trazer
reforços. Então não lhe seria difícil convencer o almirante-chefe a entregar a
supernave — principalmente porque disporia de um psicoirradiador para reforçar
sua exigência.
Tudo muito simples, porém continuava
achando o plano bom.
Deringhouse estremeceu, percebendo um
movimento repentino à sua frente. Instintivamente, levou a mão à pistola
térmica, largando a varredora à sua própria sorte.
Diante dele, saído do nada, estava um
homem.
A face infantil sorria.
Era Tako Kakuta.
IV
— Quer dizer que pretendia fazer tudo
sozinho, não é? — perguntou Reginald Bell, cheio de contentamento, porém com
uma ponta de sarcasmo na voz.
— Pois é — disse Deringhouse,
modestamente. — Com o tempo eu atingiria o objetivo proposto. Mas não tão
depressa como vocês, claro!
— Bem que estava com um nariz de vantagem
sobre nós — observou Rhodan, sorridente.
A princípio, ninguém queria acreditar na notícia
que Tako trouxera do Palácio Vermelho. Julgavam impossível Deringhouse ter
sobrevivido ã queda de seu caça; que continuasse em liberdade era ainda mais
improvável.
Mas à noite, encerrado o expediente de
trabalho, Deringhouse viera pessoalmente. Relatou sua atuação até o momento
presente, e forneceu a Rhodan uma perspectiva geral da atividade dos grupos
subterrâneos de resistência.
A contribuição era valiosa. Rhodan pôde
reformular seus planos de apoderar-se da nave de guerra, simplificando-os
acentuadamente. Vafal e seus homens, assim como o grupo de Teél — caso
chegassem a tempo — poderiam tratar de criar agitação na cidade enquanto Rhodan
dava seu golpe. E ainda havia a vantagem adicional de poder conservar seus
próprios homens reunidos.
O transmissor no subsolo da casa de Tiamér
estava instalado, o do Palácio Vermelho sintonizado na freqüência apropriada
para a recepção.
Sabiam que o almirante-chefe da frota
tópsida se chamava Crek-Orn, e que tinha seus escritórios em alguma parte do
trigésimo primeiro pavimento do Palácio Vermelho.
Portanto, o estado das coisas era aquele,
e Rhodan aguardava apenas o momento de agir. Este chegaria assim que Vafal, por
intermédio de seu mensageiro Deringhouse, mandasse dizer que seus homens
estavam a postos.
* * *
Na ala leste do Palácio Vermelho, a
atividade era febril a qualquer hora do dia. Crek-Orn, o almirante-de-esquadra,
era um homem que gastava o mínimo de tempo possível dormindo; com a maior
naturalidade, exigia dos oficiais de seu estado-maior a mesma disposição para o
trabalho.
O almirante não estava satisfeito com o
atual estado das coisas. Se dependesse de sua vontade, estaria de há muito
instalado na nova base construída no Grande Istmo Oceânico. No entanto,
planetas conquistados precisavam ser administrados, e esta tarefa exigia uma
localização central; não poderia ser feita com eficiência de um distante posto
de comando.
Rofus constituía sua maior preocupação.
Enquanto não o tivesse sob controle, reduziria ainda mais suas horas de sono;
principalmente porque não conseguia dormir sossegado sabendo que aquele
homenzinho danado continuava a causar perturbação com seu ridículo aviãozinho.
Crek-Orn se lançara àquela expedição
porque em Topsid havia sido captado o pedido de socorro de uma nave arcônida.
Ora, devia existir uma nave no ponto de onde partiam os sinais. E se clamava
por socorro, é porque alguém a atacara: gente. E gente sempre interessava aos
tópsidas; seria mais um povo a subjugar, fazendo de seu planeta mais um bastião
tópsida. Quanto a isso, eram insaciáveis, pois quem ousa se opor ao onipotente
Grande Império, querendo tomar rumo próprio, necessita de bases. Quanto mais,
melhor.
E estavam no bom caminho para estabelecer
mais uma. Pois Crek-Orn calculava que Rofus não resistiria por mais de dez dias
aos ataques maciços de sua frota. O adversário estava completamente
desmoralizado.
Porém não conseguira encontrar o menor
vestígio da nave arcônida que emitira os pedidos de socorro. Pior ainda: todos
os prisioneiros interrogados garantiram jamais ter ouvido falar do aparecimento
de uma nave arcônida por aquelas bandas.
Não que Crek-Orn lamentasse a sorte da
espaçonave. Pois naves em pane já não tinham utilidade como presa de guerra.
Porém fazia questão de esclarecer o fato, o que só poderia ocorrer caso
encontrasse a nave.
Em conseqüência, além das preocupações
administrativas, Crek-Orn vivia num mar de dúvidas e desconfiança.
Pessoalmente, gostaria de ver aquela guerra findar o quanto antes.
Pelo menos uma vez por dia o almirante
repassava na mente todos aqueles fatos. Encerrando o ciclo de cogitações por
aquele dia, mandou entrar Verthan, que solicitara audiência.
Verthan ocupava um posto mais ou menos
correspondente ao de capitão-de-corveta. Comissionado como ajudante-de-ordens
de Crek-Orn, sua missão particular era a de organizar um serviço secreto.
Cumprimentando com o respeito devido,
Verthan aguardou que o chefe lhe dirigisse a palavra.
— Então, o que há?
— Rebelião na cidade, almirante! —
exclamou Verthan, sem conseguir esconder a ansiedade.
Os olhos redondos de Crek-Orn dançaram nas
órbitas.
— Isso mesmo, almirante! Atacaram uma das
nossas viaturas, deixando-a emborcada, com os ocupantes mortos.
— Que medidas tomou contra os atacantes?
— Nenhuma, senhor!
— Nenhuma?
As escamas de Verthan começaram a vibrar.
Sentia-se amedrontado.
— Não conseguimos pegá-los! — tentou
explicar. — Nenhuma outra viatura se encontrava nas proximidades do local
quando ocorreu o ataque. Só quando recebemos o comunicado é que pudemos enviar
uma patrulha. Ela encontrou o carro virado e os mortos, e prendeu alguns
espectadores. O interrogatório revelou que eles não sabiam de nada; nem sequer
tinham presenciado o incidente. Os conspiradores devem ter agido com a rapidez
do raio, e da mesma forma tornaram a desaparecer.
— Espero que compreenda claramente as
implicâncias do acontecimento! — disse Crek-Orn, com voz calma, porém severa. —
Já que os atacantes puderam desaparecer sem serem percebidos, não deve ter se
tratado de ato espontâneo. O golpe foi planejado. Estou impaciente por ver seu
serviço secreto começar a funcionar de uma vez. Espero que não me obrigue a
constatar que é incapaz de executar a tarefa.
As escamas de Verthan ondularam
nervosamente, chegando a produzir um sussurro audível. Via seu posto e seu
conceito em perigo. E nada de mais desonroso podia acontecer a um oficial
tópsida.
— Não, almirante! — respondeu, contrito. —
Vou me esforçar mais ainda!
— Mantenha-me sempre informado. Verthan
retirou-se de costas, prestando continência ao atravessar o umbral da porta.
Assim que esta se fechou, Crek-Orn se comunicou
com o oficial de ligação.

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