sábado, 20 de outubro de 2012

P-011 - Mutantes em Ação - Kurt Mahr [parte 2]


A providência mais urgente era mandar vir os trajes voadores arcônidas. A gravidade de Ferrol era apenas é 40% mais intensa do que a da Terra, diferença perfeitamente suportável para pessoas robustas. Durante as primeiras horas pelo menos... Porém, com o tempo, representava uma sobrecarga que Rhodan não fazia questão de impor aos seus homens.
Quequéler conseguira arranjar acomodações para o grupo todo em Sic-Horum. Não sem alguma dificuldade, pois a cidade contava com grande número de habitantes extras; montanheses de toda a redondeza tinham vindo refugiar-se nela, por ser a única na região ainda não controlada por um posto militar tópsida. Até o momento, Sich-Horum continuava sendo a capital dos sichas, mas ninguém alimentava a esperança de que a situação se mantivesse assim por muito tempo. Muito em breve os tópsidas, alertados, imporiam sua presença.
Porém, por enquanto, o grupo de combate de Rhodan alojou-se despreocupadamente, mesmo que seus integrantes humanos se vissem obrigados a repartir os quartos com quatro, cinco ou até seis companheiros. Quanto aos robôs, a solução era mais simples: era só deixá-los em qualquer canto, com a ordem de permanecerem ali parados até serem chamados.
Rhodan e Bell ficaram hospedados na casa de Quequéler. Não perderam tempo instalando-se. Reunidos em conferência com Quequéler e seus conselheiros, trataram de planejar sua ação dali por diante.
Quequéler demonstrou grande admiração pelo espírito de iniciativa de seus hóspedes.
— Acho que essa guerra teria tomado um curso bem diverso se meus compatriotas fossem ativos como vocês! — comentou ele.
Rhodan foi direto ao ponto que o interessava primordialmente:
— A frota tópsida possui uma nave capturada, em operação de guerra, de outra raça cósmica. Constitui a coluna dorsal de seu poderio bélico. Temos que nos apoderar dela, e a guerra está terminada.
Quequéler fitou-o, pensativo.
— O plano me parece bom — continuou, judiciosamente. — Ouvimos falar dessa espaçonave. É grande como uma montanha, equipada com armamento impressionante.
O problema maior era transportar de Sic-Horum para Thorta gente suficiente para assegurar um mínimo de êxito ao empreendimento. Quequéler explicou que não seria difícil contornar os dois primeiros postos militares de controle na estrada para Thorta. Porém as chances de prosseguir sem serem percebidos diminuíam gradualmente dali por diante; a seu ver, a possibilidade de chegar a Thorta era praticamente nula.
— Pois bem, então vamos multiplicar as circunstâncias a nosso favor, eliminando alguns destes postos — decidiu Rhodan. — Queria apenas que me ajudasse a resolver uma dúvida: de que maneira poderíamos impedir que os tópsidas identificassem seus atacantes?
Quequéler trouxe um mapa, que estendeu, aberto, sobre a mesa.
— Não será preciso destruir o posto todo — disse. — Veja: o primeiro posto fica em Helacar, uma pequena cidade a cerca de cento e oitenta quilômetros daqui; ocupa mais ou menos o centro de um quadrado com duzentos quilômetros de lado. Este quadrado é a área de vigilância do posto ali localizado. E se subdivide em dezesseis outros quadrados, com lados de cinqüenta quilômetros cada um; a função das patrulhas é cuidar para que ninguém saia da área que lhe foi determinada. É nisso que consiste o controle da liberdade de movimentação.
Quequéler tornou a dobrar e guardar o mapa, comentando:
— Portanto, tudo que precisamos fazer é aguardar a aproximação da primeira patrulha, e dominá-la. Com as armas de que dispomos agora, é coisa de minutos.
Rhodan concordou.                                                                      
— Certo! Sabe com que freqüência as patrulhas se comunicam com a central em Helacar?
Quequéler sacudiu a cabeça.
— Não. Só sei o seguinte: Logo após a instalação do posto de controle em Helacar. quando a primeira patrulha chegou a Sic-Horum, ainda éramos uma turma bem imprudente. Nossa antipatia por aquelas lagartixas de cabeça achatada era imensa, e quando uma delas se mostrou rude e grosseira demais para o nosso gosto, lhe aplicamos uma boa surra. Mais ou menos uma hora depois apareceram as primeiras aeronaves sobre a cidade. Pareciam não saber ao certo onde efetuar as buscas, pois voavam de um lado para outro, sem rumo definido. Só duas horas depois do incidente é que desceram em Sic-Horum e deram com os patrulheiros.
Com uma gargalhada, Quequéler concluiu:
— Safamo-nos com uma multa, e não se falou mais no caso.
Refletindo, Rhodan deduziu:
— Portanto, cada patrulheiro apresenta relatório de hora em hora em Helacar; caso o comunicado não seja recebido no prazo devido, despacham um grupo de busca, que ruma diretamente para a zona de onde veio o último relatório. Caso não tenham alterado a sistemática de ação, acho que poderemos progredir razoavelmente depressa na direção de Thorta.
Combinaram ainda testar a eficiência do posto militar em Helacar antes de rumar com o grupo de combate completo para Thorta.

* * *

— Se for realmente o homem que esperávamos, não tem nada a temer — disse Teél, de seu posto junto à porta.
— Pois sou obrigado a desapontá-los — disse Deringhouse, aborrecido. — Minha presença nesta região é inteiramente acidental.
— O que não tem a menor significação. Não disse que foi enviado por Perclá?
— Sim, e daí?
— O que foi que ele lhe perguntou?
Deringhouse repetiu o diálogo mantido com o velho.
— Está certo! — disse Teél. — Mas então, de onde é que você veio realmente?
Chateado, Deringhouse resmungou, de cara fechada!
— Olhem aqui, gente, tanto faz saberem ou não, para mim não faz diferença nenhuma! Venho de Árcon.
A resposta deixou Teél evidentemente confuso.
— De onde?
— De Árcon. Um mundo tão longínquo que nenhum de vocês sequer pode imaginar onde fica!
Deringhouse começava a perder a paciência.
— Quer dizer que você não é ferrônio? — indagou Teél, incrédulo.
— Exato, não sou ferrônio.
— Mas... o que é então?
— Um arcônida.
Uma voz se ergueu entre os presentes:
— Pouco antes da ocupação de Thorta pelo inimigo, correu o boato de que uma espaçonave desconhecida havia aterrissado em Rofus. Dizia-se que vinha dum sistema planetário distante, e que havia sido avariada por uma das naves bélicas dos tópsidas. Consta que fez uma aterrissagem forçada em Rofus, mas não se ouviu mais falar dela.
— Claro! — resmungou Deringhouse. — Estávamos muito bem escondidos.
Teél indagou:
— E você fazia parte da tripulação dessa nave?
— Adivinhou, amigão!
Teél ainda fez uma série de perguntas, bastante tolas na opinião de Deringhouse. Irritado e impaciente, explodiu:
— Que diabo! Já chega! Quero saber duma vez em que espécie de embrulhada me meti.
Os homens já haviam abandonado há algum tempo a rígida postura de alerta junto às paredes, e formavam um círculo em torno de Deringhouse, com as armas abaixadas.
— Posso lhe explicar tudo — falou Teél, com entonação grave. — Somos um grupo determinado a opor resistência aos invasores. A tarefa não é fácil, entende, e por isso procuramos recrutar sempre novos elementos. No entanto, temos que examinar a fundo todo novato, para que o inimigo não encontre facilidade demasiada em introduzir espiões no nosso meio.
Deringhouse suspirou audivelmente.
— Ora, por que não disse logo? Sentando-se, relatou todos os episódios de sua chegada a Ferrol. Como na cidade já se ouvira comentar os ataques inesperados desfechados contra as naves tópsidas por um veículo equipado com recursos muito poderosos, ninguém duvidou das palavras de Deringhouse.
— Já pensaram numa maneira de pôr em prática suas idéias — perguntou ele — ou limitam-se a realizar regularmente sessões secretas destinadas a manter vivo o ódio contra os tópsidas?
Teél abriu os braços num gesto de resignação.
— Que queria que fizéssemos? Não temos armas...
Deringhouse foi obrigado a lhe dar razão.
— E você? Que intenções tinha? — perguntou Teél.
— Eu pretendia juntar-me aos sichas.
— Por quê?
— Quando minha gente vier para Ferrol, vão descer na zona dos sichas.
Refletindo, Teél acabou por dizer:
— Não creio que conseguisse chegar até lá. Os sichas vivem no recesso das montanhas, e até mesmo os tópsidas hesitam em enviar suas patrulhas para lá. É fácil imaginar os obstáculos que um homem sozinho encontraria pelo caminho, ainda mais quando é forçado a se esquivar dos postos de vigilância tópsidas.
— Tem alguma sugestão melhor? — indagou Deringhouse, fitando Teél.
— Para ser franco, não! — confessou este. — Mas já que veio parar entre nós por acaso, que tal quebrarmos a cabeça juntos, tentando encontrar uma saída?
— Combinado! — exclamou Deringhouse, pondo-se de pé. — Eu topo!

* * *

— A fronteira deve ser por aqui — disse Queháler, filho de Quequéler.
— O terreno é bem acidentado, sem grandes perspectivas — constatou Rhodan, olhando em torno.
Ambos tinham voado de Sic-Horum até aquele ponto, em companhia de Reginald Bell e de Tako Kakuta, a fim de pôr à prova a eficiência das patrulhas tópsidas. Envergavam os trajes voadores arcônidas, trazidos de Rofus por intermédio dos transmissores de matéria; assim o percurso fora coberto em pouco tempo. Queháler aprendeu num instante a manejar o equipamento desconhecido para ele, revelando notável habilidade para a tecnologia.
Para o norte, em direção da cidade, portanto, o terreno descia em declive suave. Mas estava recoberto por pedras de todos os tipos e tamanhos; a vegetação resumia-se a alguns arbustos esparsos. Ao sul via-se um alto e extenso paredão rochoso, com cerca de cinqüenta metros de altura; ia de leste para oeste, até onde a vista podia alcançar.
Queháler afirmou que aquela formação natural representava o limite sul do quadrado onde se situava Sic-Horum. Ninguém duvidou, pois era uma suposição bastante verossímil.
No entanto, Rhodan não achava ideal o local escolhido. Reclamava muito, dizendo que jamais seriam avistados pela patrulha. E como iriam testá-la, se as chances de serem localizados eram tão reduzidas?
Queháler, no entanto, discordou:
— Eles voam sempre ao longo dos limites dos quadrados — afirmou. — A pouca altura, e de olhos bem abertos. Não podem deixar de nos ver, a menos que a gente se esconda debaixo de algum arbusto.
O que não seria realmente uma má idéia, pois o sol dardejava sem piedade seu intenso calor. Rhodan viu que o termômetro marcava oitenta e cinco graus centígrados à sombra. Os trajes voadores eram climatizados, menos o rosto, que ficava exposto ao sol, sem qualquer proteção.
Bell deixou-se cair no chão.
— Pois esperemos, então! — resmungou, contrariado. — Já que não há outra saída...
Rhodan estendeu-se igualmente no solo. Caso sua suposição fosse correta, os tópsidas não os fariam esperar muito. Afinal, eram extremamente desconfiados, e se quisessem impor para valer a restrição à livre locomoção, teriam que patrulhar seus quadrados pelo menos uma ou duas vezes por dia.
Passou-se uma hora antes que ouvissem o ronco distante de um motor. Num gesto caracteristicamente ferrônio, Queháler colocou ambas as mãos atrás das grandes orelhas, pressionando-as para a frente, na direção de onde vinha o ruído.
— Estão se aproximando! — exclamou, levantando do chão.
Rhodan perscrutou o horizonte. Acima do paredão surgiu um ponto negro, deslocando-se com velocidade regular.
Rhodan, Queháler e Bell agruparam-se, bem juntos, num trecho mais ou menos livre de pedras e vegetação, quase junto ao paredão. Tako ocultou-se, ficava sendo a reserva.
O ponto negro avolumou-se; era uma aeronave desprovida de asas e hélice, operando aparentemente sob o princípio da antigravitação. Porém a tecnologia dos tópsidas neste setor parecia ser bastante primária em comparação com a dos arcônidas. O ruído produzido pelos motores, pelo menos, era quase insuportável aos ouvidos.
O planador antigravitacional — se é que era essa a denominação do estranho veículo — imobilizou-se no ar, pouco acima do paredão, ao dar com os três homens. Depois desceu verticalmente ao longo dele, pousando a uns dez passos de Rhodan.
Era pilotado por dois tópsidas. Rhodan já tinha visto os indivíduos de perto, porém nunca conseguia reprimir um calafrio na presença de um deles.
Um deles desembarcou. Era quase tão alto quanto Rhodan. O crânio achatado e liso, os lábios finos na boca três vezes maior do que a de seres humanos, conferiam aos tópsidas uma vaga semelhança com sapos. Impressão ainda mais acentuada pelos olhos redondos e salientes, de extrema mobilidade. A pele escamosa era marrom-escura, e cada mão tinha seis dedos. Em resumo, os tópsidas despertavam vivo terror por seu aspecto estranho, sem, no entanto, poderem ser considerados feios na acepção usual do termo.
Rhodan percebeu que não haviam desligado os estridentes motores. O tópsida sentado aos controles parecia fazer questão de estar pronto para decolar novamente no mais curto espaço de tempo. O outro parou diante de Rhodan, com a arma apontada para seu peito. Com o braço livre, fez um gesto imperioso, enquanto dizia com voz coaxante:
— Aqui fronteira! Ir embora! Não obedecer, eu atirar!
Falava num ferrônio quase incompreensível.
— Qual é o galho, meu chapa? — indagou Bell, irreverentemente.
Sem esboçar o menor gesto, Rhodan falou, com voz alta e clara:
— Tako!
O tópsida armado repetiu a ordem muda com o braço, aprontando-se para dizer mais alguma coisa.
Porém no mesmo momento Tako materializou-se no lado oposto do planador; não se expunha inutilmente, conforme Rhodan lhe ordenara. O tiro da pistola pulsotérmica atingiu o segundo tópsida, matando-o instantaneamente.
Sem chegar a pronunciar palavra, o primeiro se voltou bruscamente. Era o momento aguardado por Rhodan; durante os dois segundos em que o tópsida ficou imobilizado pela surpresa, ele teve tempo de puxar a pistola de raios neutrônicos e abater o adversário.
— Feito! — comentou Bell secamente, mas com a face branca como papel.
Rhodan limitou-se a acenar com a cabeça. Depois fez sinal ao grupo para se afastarem dali, deixando para trás o planador e os dois cadáveres.
Minutos após estavam de volta a Sic-Horum. Quequéler providenciara a colocação de um vigia na torre mais alta da cidade; munido de um potente telescópio, ele perscrutava, atento, as redondezas. Quequéler mostrava-se eufórico, deixando de lado sua habitual sisudez. Parecia satisfeito com o bom resultado da operação, porém não fez comentário algum a respeito.
Um quarto de hora mais tarde, o vigia acusou o aparecimento duma formação de planadores, fazendo buscas pela zona. Logo após anunciou sinais de comoção por parte da patrulha tópsida; deviam ter encontrado o local do ataque e os dois mortos. Os planadores desapareceram de vista brevemente; a seguir foram vistos voando em direção da cidade.
— Oba, o caldo começa a entornar! — exclamou Rhodan. — Que faremos?
Quequéler estendeu a mão direita, com a palma virada para cima.
— Bem, provar, eles não podem provar nada. Afinal, não possuímos armas do tipo das que mataram os dois tópsidas, não é? Sou de opinião que você e seus homens desapareçam de cena enquanto o grupo de busca age por aqui.
Rhodan buscou um esconderijo que lhe permitisse acompanhar a cena desenrolada pouco depois na praça principal da cidade. Os tópsidas pousaram com três planadores, enquanto outros tantos ficavam circulando a pouca altura. Mandaram vir Quequéler, parlamentando com ele no centro da praça. Rhodan lamentou só poder escutar as vozes coaxantes e ásperas dos tópsidas.
Eles faziam uma acusação frontal, e não um interrogatório. Quequéler, no entanto, mantinha-se calmo e impassível. Com a maior seriedade, afirmou ignorar por completo o incidente. Acabaram confrontando-o com os mortos. Rhodan viu-o se curvar sobre os ferimentos, e adivinhou que o arguto sicha recorria ao argumento combinado: não possuía, nem jamais tinha possuído armas daquela espécie.
Os tópsidas pareceram ficar convencidos; moderaram as vozes indignadas. Rhodan ouviu-os então pedir informações que pudessem levar à pista ou ao esconderijo do provável criminoso. Quequéler falou longamente; a julgar pela gesticulação dos braços e mãos, descrevia com detalhes minuciosos algum caminho ou local.
Os patrulheiros tornaram a embarcar em seus veículos. Com os geradores antigravitacionais uivando estridentemente, elevaram-se em vôo vertical, rente às paredes das casas. Reunindo-se aos companheiros em vôo, desapareceram rapidamente.
Rhodan e Bell emergiram dos respectivos esconderijos. Quequéler recebeu-os rindo. Era a primeira vez que o viam rir.
— Bom trabalho! — louvou Rhodan.
— Ouviu tudo?
— A maior parte. E ficamos sabendo que os tópsidas não mantêm realmente comunicação constante com a central. Portanto, nos sobram opções; seja qual for a escolhida, sempre teremos tempo suficiente para sumir depois de liquidar uma das patrulhas. Aliás, para onde despachou esta?
Quequéler sorriu maliciosamente.
— Para sudoeste, no cerrado. Mil quilômetros quadrados inteiramente cobertos de espinheiros. Eles vão ficar ocupados por dias e dias...

* * *

Talico era uma moça extremamente atraente. Ligeiramente mais alta do que seu irmão Teél, mas de constituição mais delicada. O rosto era belo, de linhas tão suaves que nem os olhos ocultos nas órbitas fundas conseguiam quebrar a harmonia do conjunto.
Sua posição no grupo de conspiradores era importante, porque morava em Hopter, cidade em que existia um posto de controle tópsida. Deringhouse ignorava a razão dela viver longe da família; por ser casada, talvez. De qualquer forma, em Hopter tinha freqüentes ocasiões de contato com os tópsidas, sendo até considerada pessoa de confiança por eles. Fato raro, pois eles costumavam confiar apenas em si mesmos, sem recorrer à ajuda de ninguém, principalmente de elementos do povo subjugado.
— Acho que eliminar sumariamente todos os integrantes do posto em Hopter causaria uma alteração grande demais, não é? — perguntou Deringhouse.
— Sem dúvida — concordou Talico. — No entanto, os tópsidas reagiriam de maneira muito peculiar. Primeiro viriam fazer um demorado interrogatório. Certos de que o autor do atentado não tem meios para lhes escapar, não apressariam nem um pouco as investigações. Sei lá se isso é complexo deles, ou estratégia deliberada, mas procuram sempre dar a impressão de querer evitar a prática de injustiças. Só aplicam medidas punitivas quando possuem, ou julgam possuir, provas concludentes. Enquanto se ocupam com o caso, temos tempo suficiente para alcançar Thorta.
Pois durante a conferência realizada, chegara-se à conclusão unânime de que todo o grupo de Teél devia ser transferido para Thorta, a despeito da vigilância tópsida. Com as armas fornecidas por Deringhouse, encontrariam lá um campo de ação muito mais amplo do que na cidadezinha isolada do interior.
Talico e Deringhouse constituiriam a vanguarda. Teél e os demais seguiriam a intervalos apropriados. E estes se apresentariam forçosamente nas pausas entre o ataque a uma patrulha tópsida excessivamente curiosa, e o declínio da excitação provocada pelo incidente. Seriam os momentos propícios para avançar mais uma etapa no caminho para Thorta.
Talico sabia, por fontes dignas de crédito, que em Thorta havia grupos de resistência semelhantes ao organizado por Teél. Precisavam tentar obter contato com um deles, a fim de solucionar o problema de se acomodar na cidade sem despertar suspeitas.
Porém Deringhouse não havia concordado com a sugestão de Talico de destruir sumariamente o posto de controle em Hopter. Argumentou que isso provocaria agitação desnecessária, e, como no trajeto até Thorta tivessem que atravessar o território de mais dois postos, a medida só lhes traria obstáculos adicionais. Combinaram, em vez disso, passar ao largo de Hopter, atacando o inimigo apenas no caso de serem detidos por uma das patrulhas.
— Podemos partir amanhã cedo — concluiu Deringhouse.

III



O primeiro golpe quase redundou em fracasso. Mas, superada a experiência, ficaram sabendo contra o que precisavam acautelar-se dali em diante.
Talico e Deringhouse seguiam a pé. Já não havia praticamente viaturas privadas nas estradas do Continente Central; e, se alguma aparecesse, era certo ser vistoriada pelas patrulhas tópsidas a cada dois ou três quilômetros.
Mantinham-se um pouco afastados da estrada, e à tardinha avistaram Hopter. Entraram na cidade, pernoitando na moradia habitual de Talico. Prosseguiram na manhã seguinte, sempre conservando o afastamento de cerca de um quilômetro da estrada. Ao meio-dia, se encontravam a apenas alguns quilômetros dos limites do quadrado no qual se encontrava Hopter.
Fizeram uma pausa, pois Deringhouse sentia-se exausto com a caminhada; a gravidade desacostumada de Ferrol fazia sentir seus efeitos.
Enquanto repousavam, ouviram o sussurro duma aeronave de patrulha. Ela planou baixo por sobre suas cabeças, descreveu uma curva e voltou, pousando a uns vinte metros de distância. Um dos dois tripulantes desembarcou, aproximando-se de arma em riste.
— Calma! — cochichou Talico. — É Epton. conhecido meu.
Apesar do risco que corriam, Deringhouse se perguntou como é que alguém podia diferenciar um tópsida de outro. Talico possuía essa habilidade, pelo visto.
Reconhecendo a moça, Epton abaixou a arma, repuxando a bocarra num arremedo de sorriso.
— Amigo? — coaxou ele, indicando Deringhouse.
— Sim — respondeu Talico. — Estamos excursionando.
— Fronteira ali! — avisou Epton, virando-se e apontando para o norte. — Não ir adiante! Perigoso!
Talico concordou:
— Certo, vamos ficar por aqui. O lugarzinho nos agrada.
Epton emitiu um grunhido. Deringhouse se ergueu displicentemente, como que para esticar um pouco as pernas. O tópsida não lhe deu a menor atenção, entretido em conversar com a moça.
— Quando visitar nós de novo? — perguntou a Talico.
— Não sei. Amanhã, talvez...
— Nós ficar contente — coaxou Epton. “Ah, é? Pois vais ver uma coisa, batráquio!”, pensou Deringhouse, irritado. Estava agora a dois metros de Epton, do lado esquerdo. Sem que o tópsida desse por isso, puxou a pequena pistola de raios neutrônicos, apontando-a para o reptilídeo.
— Largue a arma! — disse Deringhouse, secamente.
Epton olhava perplexo de Talico para ele.
— É melhor fazer o que ele mandou — recomendou a jovem.
Os olhos de Epton rolavam nas órbitas, desorientados; a boca na face de sapo transformou-se numa linha reta e dura.
— Ande para lá! — ordenou Deringhouse, apontando para o planador. — Eu vou atrás, e ai de você se tentar algum truque, ou der aviso ao seu companheiro!
Talico levantou-se igualmente. Acompanhar os dois homens daria aparência mais normal à situação. Portanto, colocou-se à direita de Epton. Os três encaminharam-se para o planador. O piloto já reconhecera Talico, e gritou-lhe qualquer coisa, que Deringhouse não entendeu. A moça respondeu com poucas palavras.
“Puxa, tem sangue-frio a menina!”, pensou Deringhouse.
No mesmo instante deu-se o desastre. Sem ligar para a pistola neutrônica apontada para suas costas, Epton de repente saiu correndo. Ainda conseguiu sibilar algumas palavras guturais no idioma tópsida ao piloto; depois foi abatido pelo tiro de Deringhouse.
O planador decolou instantaneamente. Deringhouse ainda disparou algumas vezes contra ele; mas o alcance de sua arma não superava os dez metros, de modo que não conseguiu atingir a aeronave. Ela se elevou verticalmente, com os motores rugindo, e desapareceu por trás das árvores.
Talico tinha empalidecido.
— Vamos! — gritou Deringhouse. — Temos que sair daqui! Dentro de minutos teremos toda a guarnição do posto voando por cima de nossas cabeças!
— E para onde iremos? — lamentou-se Talico.
Pergunta crucial aquela, pois de fato tinham diante de si uma noz dura de roer. O piloto forçosamente tinha dado o alarma, e a central já sabia que alguém tentava cruzar a fronteira interditada, querendo passar para a área de controle vizinha. Portanto, não podiam continuar na direção em que seguiam.
— Vamos para o leste — decidiu Deringhouse. — Ou melhor, por algum tempo andaremos em direção sul; é onde menos vão se lembrar de nos procurar.
Ambos levavam microtransmissores, a fim de se comunicar com Teél e o resto do grupo. Para diminuir a possibilidade de interceptação dos sinais pelo inimigo, haviam combinado um código bastante restrito. Um sinal isolado significava: Prosseguindo de acordo com o plano; dois sinais: Alto. problema à vista; e três sinais! Perigo! Ainda havia diversas combinações, mas no momento Deringhouse necessitava apenas do terceiro sinal.
Após emiti-lo, atravessaram a estrada e rumaram para o sul. Meia hora após alcançaram um pequeno bosque cerrado. Simultaneamente escutaram o ronco dos planadores.
Ocultos entre a vegetação rasteira, aguardaram.

* * *

A marcha para o norte foi inicialmente rápida e fácil. Brincadeira de criança, comparada com os obstáculos que esperavam encontrar. Cruzaram as divisas de dois quadrados sem serem detectados. Nas três fronteiras seguintes, foi preciso eliminar as patrulhas, tarefa executada sem maiores dificuldades.
Porém começaram a notar depois sinais de nervosismo e inquietação entre os tópsidas. De repente o número de aeronaves de patrulha duplicou e triplicou. Rhodan dividiu seu grupo, entregando a direção da segunda metade a Gloctor, um sicha. Trazia consigo apenas Reginald Bell, Tako Kakuta, Marshall, Marten, Sengu, a pequena Betty e alguns sichas cuidadosamente selecionados por Quequéler. O resto do grupo permanecera em Sic-Horum, constituindo uma espécie de reserva à qual poderia recorrer a qualquer instante, assim que conseguisse deitar a mão num transmissor em Thorta.
Gloctor, o líder escolhido, era um dos conselheiros de Quequéler. Devia ter cerca de quarenta e cinco anos de idade segundo o calendário terrestre. Quequéler dispensava-lhe especial confiança; sentimento de que Rhodan compartilhava integralmente após ter lidado com o sicha naqueles poucos dias.
Por meio do telecom estava em comunicação constante com seu grupo em Sic-Horum. Assim como os demais, ignorava se os tópsidas eram capazes de detectar transmissões realizadas através do telecom; a bordo da nave de guerra arcônida capturada existia equipamento muito sofisticado para essa finalidade, mas era provável que os tópsidas não soubessem utilizá-lo. Por via das dúvidas, Rhodan resolveu fazer as transmissões valendo-se do efeito Raffer, assim uma conversação normalmente feita em quinze minutos levava um centésimo de segundo para ser emitida.
Segundo as previsões de Rhodan, gastariam semana e meia do calendário ferrônio para alcançar Thorta, ou sejam, dez vezes trinta e oito horas terrestres. Neste cômputo, ele tinha levado em conta o tempo ganho com a utilização dos trajes voadores arcônidas, disfarçados por baixo das amplas túnicas brancas dos sichas; no entanto, só podiam recorrer a eles quando tinham absoluta certeza de não estarem sendo observados.

* * *

Os planadores não deixavam dúvida quanto às suas intenções. Circularam algum tempo acima do pequeno bosque, e aprontaram-se para aterrissar.
Deringhouse rilhou os dentes. Não esperava que dessem com sua pista tão depressa. Colocou a mão sobre o ombro de Talico, e viu que ela tremia.
— Coragem! — murmurou para tranqüilizá-la, porém percebeu que a recomendação era quase ridícula.
O que se seguiu, mesmo analisado e relembrado em todas as minúcias posteriormente, só poderia ser classificado de milagre. Em formação de ferradura, os planadores cercaram o bosque; apenas um pousou ao leste dele, no ponto que representaria a abertura da ferradura.
Deringhouse acabara de meter a cabeça para fora do esconderijo, a fim de verificar se os tópsidas iam desembarcar, quando escutou um assobio agudo e prolongado, vindo do alto. Por um instante, se julgou vítima de uma alucinação auditiva, pois aquele som jamais poderia ser ouvido em Ferrol. No entanto, o ruído se avolumou, estridulando com intensidade ensurdecedora bem na direção em que se encontravam.
— Proteja-se! — berrou Deringhouse, sentindo ao mesmo tempo pavor e satisfação.
Houve algo semelhante a um cataclismo universal. Primeiro, uma detonação retumbante, acompanhada por um clarão que atravessava até as pálpebras cerradas. Uma ventania furiosa sacudiu o bosque, quebrando galhos e arrancando árvores. Destroços voavam pelo ar, chocando-se estrondosamente contra o solo. Em poucos minutos restabeleceu-se a calma.
Deringhouse pôs-se de pé num pulo. Com a cabeça de lado, escutava. Apesar de seus ouvidos ainda estarem tinindo, distinguiu o ruído inconfundível de jatos hiperbólicos, diminuindo progressivamente como se a aeronave equipada com eles se afastasse a toda a velocidade.
— Puxa, ele podia ter acabado conosco também! — exclamou, impressionado e engolindo em seco.
Mas recuperou-se em seguida. Lançando um olhar para o lado onde os planadores haviam estado, só viu uma nuvem de vapores e poeira; ela pairou no ar durante algum tempo, depois começou a dissipar-se, espalhando-se aos poucos pelas redondezas.
Quase junto aos seus pés estava caído um dos objetos trazidos pelo vento; tratava-se dum fragmento do assento de comando de um dos planadores tópsidas. Por ele se podia calcular o que sucedera ao resto.
Porém o planador que aterrissara ao leste ainda fazia ouvir o ronco dos motores. Deringhouse escutou vozes guturais em acalorada discussão.
Puxando Talico pela mão, cochichou:
— Vem, vamos embora!
Ainda atordoada, ela acompanhou-o vacilando. Não entendia o que estava acontecendo ao seu redor. Portanto obedeceu passivamente quando Deringhouse a agarrou pelo pescoço, forçando-a a lançar-se ao solo, na orla do mato. Ouvia a respiração ofegante do companheiro, sem ter a menor idéia do que ele planejava.
— Fique deitada aqui! — sibilou ele.
O planador tópsida restante estava a alguns metros diante deles. Um dos reptilóides saltou dele, pondo-se a contornar em passo acelerado o pequeno bosque, a fim de verificar o que ocorrera no lado oposto. Outro tripulante, sentado aos controles, fazia evidentemente uma comunicação radiofônica.
Deringhouse esperou que ele concluísse a transmissão e desembarcasse igualmente. Depois atirou. Vendo o colega cair morto, o primeiro tópsida voltou às carreiras, sendo também eliminado ao chegar ao alcance da arma de Deringhouse.
Este foi buscar Talico e empurrou-a para dentro do planador.
— Como é que funcionam esses troços? — indagou, afobado.
Talico examinou o painel de instrumentos, no qual se viam poucos botões.
— Este aqui é o que dá partida — explicou ela, puxando um dos botões até o fim.
O resultado não se fez esperar, a aeronave disparou para cima com um violento arranco. Deringhouse tirou a mão da moça dos controles, tornando a empurrar metade do botão para dentro.
— Oba, agora podemos viajar mais depressa! — exclamou ele, alegremente, depois de se familiarizar com o manejo do aparelho. — Antes que você se restabeleça do susto que Klein lhe pregou, estaremos perto de Thorta.
— Klein?
— Ah, é mesmo, você não o conhece!... É o cara que anda assombrando a zona com seu caça. Deve ter visto aquela convenção de planadores, resolvendo desfazê-la com uma antiquada bomba de TNT. Evidentemente ele não sabia que nós estávamos escondidos naquele mato...
— Mas não poderia ter escolhido hora melhor para aparecer! — disse Talico, rindo.
— Sem dúvida! E você é uma moça muito corajosa — respondeu Deringhouse, sem transição.
Ela fitou-o espantada, porém os pensamentos de Deringhouse já tinham tomado novo rumo.
Tirara uma lição valiosa daquele contratempo, e não pretendia esquecê-la tão depressa: a disciplina militar dos tópsidas era tão severa que, mesmo sabendo que lhes custaria a vida, tentavam tudo a fim de dar aviso aos companheiros. Daí por diante, era necessário levar sempre em conta esta característica tópsida.
Depois de sobrevoar a fronteira do quadrado de controle, Deringhouse enviou a Teél o sinal simples: Prosseguindo de acordo com o plano.

* * *

Completaram a viagem em menos tempo do que esperavam. Klein realizava infatigavelmente suas investidas, e todo o continente estava em polvorosa, de modo que ninguém mais se preocupava em verificar a eficiência do sistema de controle dos movimentos populacionais.
No fim do oitavo dia ferrônio, avistaram à distância os contornos da imensa metrópole de Thorta.
De outros pontos, no entanto, vinham notícias menos favoráveis. Quer em conseqüência dos ataques de Klein, quer por já ser plano previamente traçado, os tópsidas começavam a bombardear as cidades de Rofus. Iniciava-se o fogo cerrado contra o nono planeta. O Thort se entregava ao desespero. Rhodan enviou-lhe Crest, com a mensagem de que levaria apenas alguns dias para se apoderar da nave de guerra, com o que os ataques tópsidas cessariam espontaneamente.
Certificaram-se pessoalmente de que a gigantesca espaçonave continuava pousada no espaçoporto de Thorta. A trinta quilômetros de distância o vulto inconfundível já se tornava visível. Rhodan sentiu-se tomado por intensa frustração; na sua impaciência, gostaria de se dirigir simplesmente ao espaçoporto e tomar posse da nave. Porém sabia que o caminho para a concretização deste objetivo passava pelo Palácio Vermelho, no coração da cidade.
Ao alcançá-lo, Klein atacava justamente o porto de Thorta, o que permitiu a entrada desimpedida de Rhodan e de seu grupo. Gloctor e seus homens deviam estar perto também, um pouco mais atrás ou mais adiante. O combinado era se encontrarem numa hospedaria situada na Rua da União, pertencente a um sicha emigrado da terra natal.
A marcha através da cidade, no entanto, não decorreu sem incidentes. Antes de chegarem à Rua da União — Klein tinha dado seu ataque por encerrado e a situação retornava gradualmente à normalidade — perceberam uma aglomeração num cruzamento que precisavam atravessar. Tako recebeu ordem de ir à frente para investigar. Voltou, informando que um pequeno grupo de tópsidas fiscalizava os passes dos transeuntes.
E agora? Nenhum deles possuía passes para circular em Thorta. Pois, a fim de controlar a obediência às ordens de limitação da liberdade de locomoção, os tópsidas haviam emitido passes, nos quais constava claramente o local de residência do portador, e o quadrado de controle respectivo.
Em conseqüência, Rhodan ordenou o recuo de seu grupo, com toda a cautela, para não chamarem a atenção. Teriam que procurar alcançar a Rua da União por roteiro diverso. Queháler, que já conhecia a cidade, servia de guia.
Tiveram que contornar mais dois pontos de fiscalização, felizmente sem serem percebidos. Com isso, sua chegada à hospedaria foi retardada em mais de uma hora.
Gloctor e seus homens ainda não tinham chegado. O proprietário da hospedaria ficou atônito com a chegada simultânea de tantos hóspedes. Desde a invasão dos tópsidas, com a conseqüente proibição de viajar, a casa estivera sempre vazia.
Chamando-o de lado, Queháler explicou a situação. Tiamér, o hoteleiro, aderiu com entusiasmo à causa.
O grupo de Gloctor chegou duas horas mais tarde.
Reginald Bell entrou com um ar de desafio no rosto. Rhodan compreendeu que havia novidades.
— Que foi que aconteceu, Bell?
— Ora, um sujeito queria ver nossos passes, aí num cruzamento de rua...
— E então?
— Não tínhamos passe nenhum, lógico. E estávamos tão perto deles que não havia mais jeito de voltar disfarçadamente. Eram dois só, felizmente, e não tivemos trabalho demais. Mas os tópsidas vão ficar doidos por saber quem é que teve o topete de liquidar dois fiscais em pleno centro da cidade!
— E os transeuntes?
— Passivos como cordeiros —, interrompeu Gloctor. — Além disso, agimos com a maior discrição. Cercamos os dois tópsidas, que ficaram totalmente encobertos por nossa gente. Quando seguimos caminho, havia dois corpos estendidos no chão. Ninguém pareceu se admirar com isso. Daí por diante, não topamos mais com dificuldade alguma, e aqui estamos.
Os guerrilheiros se instalaram no subsolo do pequeno hotel. Tiamér tinha concordado em ceder seu estabelecimento para base de operações, pelo prazo que fosse necessário.

* * *

Após sobrevoar os limites do quadrado no qual se situava Thorta, Deringhouse e Talico abandonaram o planador, prosseguindo a pé.
Deringhouse estava contente por terem chegado até aquele ponto sem serem molestados. Apesar dos riscos envolvidos, insistiu em querer alcançar a casa do homem que morava no bairro mais elegante da cidade, bem perto do palácio real.
Com a ajuda da jovem, conseguiu realizar seu intento, porém Talico estava à beira dum colapso nervoso. Calan, o chefe da família, e os demais receberam Deringhouse e Talico com grande cordialidade. Que não sofreu a menor alteração quando a moça explicou a razão de suas presenças ali, acrescentando que eram seguidos por Teél, com seu grupo de homens dispostos a tudo. O único comentário de Calan foi:
— Eles terão que se mostrar muito cautelosos. De todos os antigos residentes do bairro só restamos nós, e mais duas ou três famílias. Os tópsidas requisitaram todas as demais moradias para seu uso. Não sei como me deixaram em paz. Talvez achassem minha casa antiquada demais — concluiu, rindo.
Deringhouse calculou que Teél levaria ainda bem uns cinco dias para chegar com sua gente. Portanto decidiu aproveitar o período de espera indo em busca de pessoas que alimentassem objetivos semelhantes aos seus.
Calan era um homem bem informado.
— Vai ter que andar um bocado! — informou, pesaroso. — E não vai ser nada fácil, em vista da constante verificação dos passes. Mas caso consiga chegar ao hotel Unicórnio Branco, na Rua 87, encontrará certamente algumas pessoas dispostas a lhe dar ouvidos.
Calan arranjou uma planta da cidade, que Deringhouse procurou memorizar nos dias seguintes.

* * *

— A situação é a seguinte — disse Rhodan, pensativo — em primeiro lugar, precisamos penetrar no Palácio Vermelho sem sermos percebidos. E o grupo todo, de preferência. Pois com tantos tópsidas amontoados lá dentro, poderiam surgir complicações insuperáveis para um homem sozinho. Acima de tudo, quero frisar um ponto importante: temos apenas uma chance. Falhando esta, os tópsidas ficarão duplamente alertas. Sugiro que tentemos surrupiar um transmissor, para começar. Tiamér deve conhecer a antiga localização das estações transmissoras, e nós nos encarregaremos de verificar se foram alteradas ou não. Enquanto isso, enviei para Rofus a imagem virtual de um dos passes válidos aqui em Thorta. Para Crest não será problema executar algumas duplicatas. Quando tivermos o transmissor, os passes devem estar prontos, o que simplificará consideravelmente nossa circulação.
Tiamér descreveu a localização das estações transmissoras antes da chegada dos tópsidas. Tako Kakuta fez uma rápida excursão, a fim de sondar as possibilidades. Regressou, no entanto, bastante desanimado:
— Nada feito! São mais bem vigiadas que o harém de um sultão! Tirem da cabeça a idéia de subtrair transmissores de qualquer delas.
Tiamér lembrou uma última saída:
— Na agência de correio da Rua 25 havia um transmissor pequeno. A rua fica perto daqui, dobrando a esquina. Porém o prédio está todo tomado pelos tópsidas, que instalaram nele uma série de escritórios. Talvez seja mais difícil entrar lá do que nas grandes estações transmissoras.
No entanto, Rhodan decidiu que valia a pena tentar. Enviou Tako para fazer um levantamento da agência postal. Postado na rua, diante do edifício, ficou observando por algum tempo; depois saltou, rematerializando-se no pavimento mais elevado. Sem ser visto por ninguém, teve oportunidade de acompanhar tranqüilamente o que se passava no interior do prédio. Voltou, informando que as chances não eram lá grande coisa, mas um pouco mais favorável do que nas demais estações.
Rhodan começou a traçar os planos para se introduzir no edifício, e trazer de lá um transmissor em condições de uso. Gloctor, que sabia lidar com os aparelhos, garantiu que poderia obter a corrente necessária ao seu funcionamento ligando-o à rede geral de energia da cidade, que passava abaixo do hotelzinho.
Com isso, a tarefa reduzia-se pura e simplesmente à obtenção do transmissor A fonte de energia e demais pertences eles deixariam de presente para os tópsidas.

* * *

Deringhouse e Talico seguiram por rumos separados, pois individualmente seria mais fácil se esgueirar por entre os postos de fiscalização. Apesar disso, chegaram quase juntos à hospedaria Unicórnio Branco.
O ambiente em que entraram era sombrio, mas instalado com relativo conforto. O serviço automático não funcionava. Deringhouse fez sinal para um homem que lhe pareceu ser o atendente. Talico encarregou-se dos pedidos.
— Sou um verdadeiro fracasso como conspirador — disse Deringhouse, com um sorriso irônico, depois de examinar os demais fregueses. — Que é que faço agora? Perguntar ao acaso, a algum deles se também é contra os tópsidas?
— Ora, aguarde um pouco! — disse Talico, rindo. — Quem sabe o proprietário lhe dá uma mãozinha...
Porém a situação se resolveu por si mesma. Mal provaram seus drinques, viram a porta ser aberta com estrondo, dando passagem a um grupo de homens excitados.
— Liquidaram dois postos de fiscalização! — gritou um deles. — No cruzamento da Rua 25 com a Rua da União!
Por instantes reinou silêncio no recinto. Depois os presentes manifestaram seu contentamento com brados jubilosos.
— Quem? Quem foi? — queriam saber. Os recém-chegados estenderam as mãos:
— Não temos a menor idéia. Ninguém sabe dos detalhes. Mas, de qualquer maneira, gostamos de ver os tópsidas levarem a pior, para variar!
Deringhouse piscou para Talico. Esperaram que os ânimos se acalmassem um pouco, depois Deringhouse levantou-se e interpelou um dos homens que haviam trazido a boa notícia.
— Gostaria de lhe falar por um instante — disse, baixinho. — Importa-se de vir à minha mesa?
O homem concordou, dizendo:
— Meu nome é Vafal. Estou interessado em saber o que tem a dizer.
Tomou lugar à mesa de Talico. Deringhouse começou sem rodeios:
— Nós dois viemos do sul, isto é, eu venho de muito mais longe ainda. Atrás de nós vem um grupo de homens dispostos a colaborar ativamente na tarefa de fazer com que os tópsidas desapareçam de Thorta o mais depressa possível. Pode nos dar alguma sugestão?
Vafal examinou-o, pensativo.
— E quem me garante que você não é espião?
Deringhouse deu de ombros. Depois lembrou-se que aquele gesto não tinha significação alguma em Ferrol; estendeu então a mão direita, com a palma para cima.
— Ninguém. Terá que pôr-me à prova. Mas tenho algo a lhe oferecer.
— O quê?
— Duas ou três armas que talvez nunca tenha visto.
Os olhos de Vafal se arregalaram; ele estava visivelmente interessado.
— Verdade? Mostre!
Deringhouse puxou a pequena pistola de raios térmicos. Apontando para o copo à sua frente, pressionou levemente o gatilho. O vidro chiou, e surgiu um orifício por onde o líquido escorreu, formando uma poça sobre a mesa. Virando a arma para a poça, Deringhouse evaporou-a; porém teve o cuidado de balançar com a arma para um lado e outro, a fim de não queimar a mesa.
Vafal testemunhou o processo boquiaberto.
Quando Deringhouse concluiu a demonstração e tornou a enfiar a arma debaixo da túnica, Vafal disse:
— Venha comigo!

* * *

Rhodan examinou o cubículo junto à entrada principal do edifício postal; tinha sido, evidentemente, o posto do porteiro em outros tempos. Agora estava ocupado por um tópsida.
A tarde caía, com o sol quase se escondendo abaixo do horizonte.
— Adiante! — ordenou Rhodan. Acompanhado por Reginald Bell e Tako, atravessou a rua, aproximando-se do cubículo. O tópsida seguia-os com o olhar.
Bell aprestou o psicoirradiador. Rhodan parou diante do tópsida.
— Que querer? — coaxou o reptilóide.
— Entrar! — respondeu Rhodan, secamente, indicando a larga porta dianteira.
O tópsida aprontou-se para falar, porém Bell acionou o contato do irradiador. Prontamente, o reptilóide contorceu a bocarra e coaxou:
— Poder ir!
Rhodan acenou amistosamente para ele, e fez sinal a Tako para tomar a dianteira. Bell seguiu-o, deixando o irradiador com Rhodan. O tópsida apertou o botão que comandava a abertura da porta. Esta se abriu, e os dois homens entraram.
Rhodan encaminhou-se para a porta andando de costas. Chegando à soleira, disse:
— Agora esqueça isso tudo, meu velho, está bem?
— Sim, senhor! — respondeu o tópsida. Rhodan esperou que a porta se fechasse e desligou o irradiador.
O prédio estava silencioso. Rhodan sabia que os tópsidas, inclusive os soldados, tinham horários de trabalho rígidos. Àquela hora não devia haver mais de cem homens ao todo no gigantesco complexo de salas.
Seguiram por um corredor amplo. Tako indicou uma série de portas na parede do lado esquerdo.
— Elevadores — explicou. — Vamos descer.
O transmissor encontrava-se no subsolo. O elevador era manejado por meio de botões.
As dependências inferiores estavam claramente iluminadas. Os transmissores ficavam numa pequena peça lateral, onde a poeira se acumulava. Pelo jeito, fazia tempo que ninguém entrava ali.
A gaiola do transmissor media dois metros de altura, por um de largura. Rhodan e Bell desfizeram apressadamente os contatos, e tentaram levantar o aparelho. Com seu peso aproximado de duas toneladas, não seria fácil locomovê-lo, porém eles sabiam de antemão que a empreitada não seria brincadeira.
— Suma, Tako! — disse Rhodan.
O diminuto japonês obedeceu imediatamente. Bell e Rhodan arrastaram seu fardo ao longo do corredor, em direção aos elevadores. Suando, empurraram-no para a espaçosa cabina, e subiram.
Ao saltar no pavimento térreo, perceberam sinais de violenta comoção nos andares superiores. Uma algazarra infernal de berros, estouros e silvos estridentes vinha de lá; a barulheira era tanta que devia ser percebida até do lado de fora, na rua.
Bell sorriu compreensivamente. Rhodan desejava fervorosamente que não houvesse lá em cima nenhum tópsida suficientemente esperto para perceber que tudo aquilo não passava de uma manobra de despistamento.
Sem serem perturbados, empurraram o transmissor para a porta de saída; esta podia ser aberta por dentro. Ainda sob o efeito da ordem hipnótica, o tópsida no cubículo do porteiro não os reconheceu. Viu-os passar com sua carga, sem esboçar um gesto; apenas o olhar fascinado não os abandonava.
Tiamér aguardava, com seu caminhão de entregas estacionado junto ao meio-fio. Com os esforços reunidos dos três homens, o transmissor foi colocado no veículo, e recoberto com a lona de proteção. A seguir, embarcaram na cabina de direção.
Segundos após, o caminhão foi sacudido por um forte abalo. Da carroceria veio a voz ofegante de Tako:
— Tudo em ordem! Cheguei! Tiamér deu a partida.
Era a hora do dia em que o sol já se pusera, mas a claridade ainda chegava para iluminar as ruas; portanto a iluminação pública ainda não fora ligada. Na rua emparedada por edifícios reinava um lusco-fusco cinzento. O tráfego era escasso, e Rhodan tinha certeza de que ninguém os havia visto.
Alcançaram a hospedaria de Tiamér sem problemas. O transmissor foi descarregado e levado para dentro.
Gloctor os aguardava. Já providenciara, com seus homens, a ligação clandestina à rede de iluminação, e preparara os contatos necessários. Uma vez com o transmissor no subsolo, levaram apenas minutos para conectá-lo.
— Supondo que isso funcione conforme deve — disse Rhodan — nossa próxima tarefa será regular o transmissor do Palácio Vermelho, ajustando sua freqüência com a nossa. Assim poderemos nos locomover livremente de cá para lá, e vice-versa. Tako, a missão é sua! Pode me cobrar horas-extras — acrescentou ele, rindo.
Tako desapareceu, e Rhodan finalizou:
— Pensando bem, podemos nos dar por altamente satisfeitos com os êxitos obtidos até agora.
* * *
Deringhouse jamais imaginara que seria tão simples penetrar no Palácio Vermelho. É que os tópsidas tinham adotado atitude semelhante à de qualquer potência dominadora, em qualquer parte do universo: empregavam para os trabalhos subalternos ferrônios que consideravam dignos de confiança. Estes eram selecionados mediante processos bastante rigorosos, e, além disso, havia controles diários; desta forma, os tópsidas julgavam-se imunes a possíveis traições por parte dos empregados não-tópsidas.
Porém não haviam contado com Vafal, nem com pessoas imbuídas da mesma animosidade. Os homens da resistência tinham dado com uma brecha para introduzir suas alavancas. Com ar inocente e expressões virtuosas, submetiam-se ao processo de seleção; e o problema dos controles diários era resolvido com a falsificação de passes. Em conseqüência, dificilmente se encontraria no Palácio Vermelho um criado que não pertencesse à resistência.
O mal era que Vafal e sua gente não sabiam o que fazer com a organização de que dispunham. Haviam chegado a pensar num atentado contra o almirante-chefe da frota tópsida; porém seu bom senso lhes disse que a morte do comandante em nada afetaria o poder bélico de um exército bem estruturado. Apoderar-se da nave de guerra estacionada no espaçoporto era coisa fora de cogitação, pois não saberiam manejá-la. Tudo indicava que estavam justamente à espera de um homem como Deringhouse — alguém com objetivos definidos em mente.
No momento, Deringhouse se encontrava num dos corredores do trigésimo oitavo andar do enorme edifício, munido dum passe falso que tinha lhe possibilitado a entrada, e esforçando-se por manusear uma máquina varredora cujo funcionamento não entendia.
Trazia suas armas consigo.
Enquanto percorria, pressuroso, o corredor, com a máquina ora sussurrante, ora falhando, analisava mentalmente o plano concebido, procurando verificar se continha alguma falha.
Pretendia se introduzir, na primeira oportunidade favorável, na sala secreta na qual o Thort tinha preparado uma espécie de saída de emergência. A peça situava-se igualmente no trigésimo oitavo andar, porém um pouco distante dali, na área de serviço de outro criado. E Deringhouse não tinha meios para averiguar se era também um dos conspiradores.
A idéia era ajustar o transmissor com a freqüência de um dos existentes no forte do deserto, em Rofus, e trazer reforços. Então não lhe seria difícil convencer o almirante-chefe a entregar a supernave — principalmente porque disporia de um psicoirradiador para reforçar sua exigência.
Tudo muito simples, porém continuava achando o plano bom.
Deringhouse estremeceu, percebendo um movimento repentino à sua frente. Instintivamente, levou a mão à pistola térmica, largando a varredora à sua própria sorte.
Diante dele, saído do nada, estava um homem.
A face infantil sorria.
Era Tako Kakuta.

IV



— Quer dizer que pretendia fazer tudo sozinho, não é? — perguntou Reginald Bell, cheio de contentamento, porém com uma ponta de sarcasmo na voz.
— Pois é — disse Deringhouse, modestamente. — Com o tempo eu atingiria o objetivo proposto. Mas não tão depressa como vocês, claro!
— Bem que estava com um nariz de vantagem sobre nós — observou Rhodan, sorridente.
A princípio, ninguém queria acreditar na notícia que Tako trouxera do Palácio Vermelho. Julgavam impossível Deringhouse ter sobrevivido ã queda de seu caça; que continuasse em liberdade era ainda mais improvável.
Mas à noite, encerrado o expediente de trabalho, Deringhouse viera pessoalmente. Relatou sua atuação até o momento presente, e forneceu a Rhodan uma perspectiva geral da atividade dos grupos subterrâneos de resistência.
A contribuição era valiosa. Rhodan pôde reformular seus planos de apoderar-se da nave de guerra, simplificando-os acentuadamente. Vafal e seus homens, assim como o grupo de Teél — caso chegassem a tempo — poderiam tratar de criar agitação na cidade enquanto Rhodan dava seu golpe. E ainda havia a vantagem adicional de poder conservar seus próprios homens reunidos.
O transmissor no subsolo da casa de Tiamér estava instalado, o do Palácio Vermelho sintonizado na freqüência apropriada para a recepção.
Sabiam que o almirante-chefe da frota tópsida se chamava Crek-Orn, e que tinha seus escritórios em alguma parte do trigésimo primeiro pavimento do Palácio Vermelho.
Portanto, o estado das coisas era aquele, e Rhodan aguardava apenas o momento de agir. Este chegaria assim que Vafal, por intermédio de seu mensageiro Deringhouse, mandasse dizer que seus homens estavam a postos.

* * *

Na ala leste do Palácio Vermelho, a atividade era febril a qualquer hora do dia. Crek-Orn, o almirante-de-esquadra, era um homem que gastava o mínimo de tempo possível dormindo; com a maior naturalidade, exigia dos oficiais de seu estado-maior a mesma disposição para o trabalho.
O almirante não estava satisfeito com o atual estado das coisas. Se dependesse de sua vontade, estaria de há muito instalado na nova base construída no Grande Istmo Oceânico. No entanto, planetas conquistados precisavam ser administrados, e esta tarefa exigia uma localização central; não poderia ser feita com eficiência de um distante posto de comando.
Rofus constituía sua maior preocupação. Enquanto não o tivesse sob controle, reduziria ainda mais suas horas de sono; principalmente porque não conseguia dormir sossegado sabendo que aquele homenzinho danado continuava a causar perturbação com seu ridículo aviãozinho.
Crek-Orn se lançara àquela expedição porque em Topsid havia sido captado o pedido de socorro de uma nave arcônida. Ora, devia existir uma nave no ponto de onde partiam os sinais. E se clamava por socorro, é porque alguém a atacara: gente. E gente sempre interessava aos tópsidas; seria mais um povo a subjugar, fazendo de seu planeta mais um bastião tópsida. Quanto a isso, eram insaciáveis, pois quem ousa se opor ao onipotente Grande Império, querendo tomar rumo próprio, necessita de bases. Quanto mais, melhor.
E estavam no bom caminho para estabelecer mais uma. Pois Crek-Orn calculava que Rofus não resistiria por mais de dez dias aos ataques maciços de sua frota. O adversário estava completamente desmoralizado.
Porém não conseguira encontrar o menor vestígio da nave arcônida que emitira os pedidos de socorro. Pior ainda: todos os prisioneiros interrogados garantiram jamais ter ouvido falar do aparecimento de uma nave arcônida por aquelas bandas.
Não que Crek-Orn lamentasse a sorte da espaçonave. Pois naves em pane já não tinham utilidade como presa de guerra. Porém fazia questão de esclarecer o fato, o que só poderia ocorrer caso encontrasse a nave.
Em conseqüência, além das preocupações administrativas, Crek-Orn vivia num mar de dúvidas e desconfiança. Pessoalmente, gostaria de ver aquela guerra findar o quanto antes.
Pelo menos uma vez por dia o almirante repassava na mente todos aqueles fatos. Encerrando o ciclo de cogitações por aquele dia, mandou entrar Verthan, que solicitara audiência.
Verthan ocupava um posto mais ou menos correspondente ao de capitão-de-corveta. Comissionado como ajudante-de-ordens de Crek-Orn, sua missão particular era a de organizar um serviço secreto.
Cumprimentando com o respeito devido, Verthan aguardou que o chefe lhe dirigisse a palavra.
— Então, o que há?
— Rebelião na cidade, almirante! — exclamou Verthan, sem conseguir esconder a ansiedade.
Os olhos redondos de Crek-Orn dançaram nas órbitas.
— Isso mesmo, almirante! Atacaram uma das nossas viaturas, deixando-a emborcada, com os ocupantes mortos.
— Que medidas tomou contra os atacantes?
— Nenhuma, senhor!
— Nenhuma?
As escamas de Verthan começaram a vibrar. Sentia-se amedrontado.
— Não conseguimos pegá-los! — tentou explicar. — Nenhuma outra viatura se encontrava nas proximidades do local quando ocorreu o ataque. Só quando recebemos o comunicado é que pudemos enviar uma patrulha. Ela encontrou o carro virado e os mortos, e prendeu alguns espectadores. O interrogatório revelou que eles não sabiam de nada; nem sequer tinham presenciado o incidente. Os conspiradores devem ter agido com a rapidez do raio, e da mesma forma tornaram a desaparecer.
— Espero que compreenda claramente as implicâncias do acontecimento! — disse Crek-Orn, com voz calma, porém severa. — Já que os atacantes puderam desaparecer sem serem percebidos, não deve ter se tratado de ato espontâneo. O golpe foi planejado. Estou impaciente por ver seu serviço secreto começar a funcionar de uma vez. Espero que não me obrigue a constatar que é incapaz de executar a tarefa.
As escamas de Verthan ondularam nervosamente, chegando a produzir um sussurro audível. Via seu posto e seu conceito em perigo. E nada de mais desonroso podia acontecer a um oficial tópsida.
— Não, almirante! — respondeu, contrito. — Vou me esforçar mais ainda!
— Mantenha-me sempre informado. Verthan retirou-se de costas, prestando continência ao atravessar o umbral da porta.
Assim que esta se fechou, Crek-Orn se comunicou com o oficial de ligação.

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