sexta-feira, 12 de outubro de 2012

P-009 - Socorro Para a Terra - W. W. Shols [parte 3]


No hotel, Bell e Marshall entraram em contato pelo rádio. Não era aconselhável realizar uma demonstração de alpinismo na sacada à plena luz do dia.
Bell teve a decência de reconhecer que falhara por completo. Em compensação sentiu-se consolado pelo êxito de Marshall.
— Sabe que Cannon não desconfia de nada?
— Não desconfia de que tenho a intenção de atraí-lo para o deserto de Gobi. Mas de resto desenvolve uma atividade que nos poderá custar a vida.
— Não vá me dizer que em tudo isso existe um ponto fraco.
— Um ponto muito fraco. Você terá de ir a Nova Iorque ainda hoje, Bell. Cannon planeja um ataque contra Adams.
— Ele lhe disse isso?
— Pensou. Com toda nitidez. Um possuído de nome Porter entrará em contato com ele e marcará encontro em Staten Island, onde um DI autêntico estará à espera, para apossar-se dele. Acho que você devia estar presente quando isso acontecer.
— É claro que estarei presente. Partirei dentro de uma hora. Quando é que esse misterioso Porter tomará o avião?
— Hoje de tarde. Você ainda dispõe de algum tempo. Os DI não agirão antes do escurecer.
— O.K.! Se tudo der certo, dentro de vinte e quatro horas conduzirei um DI autêntico à presença de Rhodan. Será um achado importante.
— Nem tanto — disse Marshall, dando uma risada. — Cannon pretende levar seu corpo. Pensa em levar uma bagagem enorme. Gostaria de saber qual será o conteúdo declarado.
— Por que será que vai levar seu verdadeiro corpo, que só pode traí-lo? Além disso, não é necessário que o mesmo se encontre nas proximidades quando surgirem complicações. Pelo que diz Crest, o retorno pode ser realizado a uma distância muito grande.
— Mas não o salto para o corpo de outro homem.
— Qual é o significado de tudo isso?
— O sujeito tem um plano muito simples. Assim que estiver no interior da cúpula, pretende deixar o corpo de Cannon e saltar para o de Rhodan.
Reginald Bell ficou devendo a resposta por algum tempo.
— Marshall! Estamos brincando com fogo! Não deixe de avisar Rhodan.
— É o que eu pretendo fazer. Boa viagem! Dê lembranças a Adams.

V


Realmente a mala de Clive Cannon tinha o tamanho descomunal que seria de esperar face às informações de Marshall.
— O quê? Pretende carregar tudo isso, Cannon?
O chefe da gangue Blue Bird deu um sorriso.
— Está pensando que carrego vinte e quatro dúzias de camisas, não é?
— Seria antes tentado a pensar que fosse um jacaré. Como sabe, ainda não existe nenhum jardim zoológico no deserto de Gobi. Se pensa em dar um presente a Rhodan, deve pensar em outra coisa.
— É um presente. Mas não vou trocá-lo mais. Acredito que Rhodan ainda tenha conservado o sentimento do romântico.
— Você me deixa curioso. Um esquife pode ser uma coisa romântica, mas um defunto seria um presente de mau gosto. Abra logo, Cannon! Estou interessado em conhecer sua idéia.
Cannon abriu a tampa da mala. Viu-se uma réplica de cerca de dois metros da Stardust, que fora a primeira nave terrena a bordo da qual Rhodan atingira a Lua.
— Não estou em condições de oferecer uma maravilha técnica ao seu chefe. Os arcônidas são melhores fornecedores para esse tipo de produto. Mas isto aqui é um monumento digno de um homem como Rhodan. É romântico, sim. Fale com franqueza, Linker. Será que Rhodan vai gostar, ou será que vai achar que sou um esquisitão? Não quero causar uma impressão desfavorável. Você compreende?
Por um instante John Marshall sentiu-se perturbado. Piscou os olhos e passou a manga do paletó pelo rosto.
Finalmente esboçou um sorriso.
— Posso tranqüilizá-lo, Cannon. Em matéria de romantismo, Perry Rhodan não fica atrás de você. Mande a mala ao aeroporto. No deserto de Gobi haverá um lugar condigno para a Stardust.
Foram ao aeroporto.
Parecia antes uma excursão despreocupada de fim de semana. Não foram acompanhados por qualquer escolta armada. Numa das pistas laterais do aeroporto, um pequeno avião particular estava à espera. Os membros da Terceira Potência dispunham de um aparelho desses em qualquer uma das maiores cidades da Terra. A grande mala já fora colocada no compartimento de carga.
John Marshall pilotou o avião. Quando atingiu a altitude de vinte mil metros, ligou o piloto automático e reclinou-se confortavelmente. Por algum tempo os dois homens conversaram sobre assuntos banais. Era uma conversa igual à que todo mundo costuma entreter sobre as condições atmosféricas e os tempos difíceis. Uma conversa insignificante, já que nenhum dos dois estava disposto a falar abertamente sobre as coisas importantes que lhes enchiam o espírito. Marshall tinha a vantagem de poder sondar os pensamentos de seu interlocutor. Encenou um bocejo e disse que havia dormido mal.
— Ainda dispomos de duas horas. Bem poderíamos aproveitar para um cochilo.
Clive Cannon aceitou a sugestão e calou-se. O silêncio fez com que os pensamentos se desenvolvessem em toda a plenitude.
Marshall sentiu um calafrio.
Seria um homem que se encontrava a seu lado? Ou seria um monstro?
Muito antes da decolagem já sabia o que vinha a ser esse esquife que imitava a Stardust. Havia dois esquifes! O que se encontrava a bordo não representava uma simples imitação de foguete. Continha uma das metades de Clive Cannon, a que lhe faltava para ser um homem de verdade. E continha o corpo do Deformador Individual, que representava a prisão do espírito humano de Cannon.
Até esse espírito emitia suas radiações, embora o recinto em que se encontrava o forçasse a uma situação de morte aparente. Não podia defender-se nem manifestar-se. Mas vivia e sentia a prisão representada por aquele corpo monstruoso. Disse ao telepata que se encontrava num inferno que nenhuma palavra de qualquer língua humana poderia descrever.
John Marshall aguardava ansiosamente que a hora de pouso chegasse. Sentiu os limites de sua resistência mental. Mais duas ou três horas de confinamento naquele recinto minúsculo com os pensamentos martirizantes e ameaçadores dos dois seres que haviam trocado de corpo o teriam levado à loucura.
Finalmente chegaram ao deserto de Gobi. Ao território soberano da Terceira Potência.
Seguiram-se os contatos habituais e a regulagem positrônica para a penetração na cúpula energética, que só seria aberta por alguns segundos. O jato pousou na vertical.
Perry Rhodan transmitiu as últimas instruções. Destacara poucos homens para recepcionar o avião procedente de Chicago: o Dr. Manoli, o Dr. Haggard e o teleportador Ras Tshubai.
— A palestra será conduzida por mim — voltou a explicar Rhodan. — Só intervenham quando eu lhes der ordem para isso. E, o que é mais importante, não peçam a Cannon que mostre seu estranho presente. Se o fizerem, ele se verá obrigado a agir. Prefiro que o momento em que isso deverá acontecer seja escolhido por mim. Apenas faço questão de que se mantenham vigilantes, conservem o autodomínio e estejam prontos para atirar a qualquer instante. Não deixem Cannon perceber que reconheceram o monstro encerrado em seu corpo.
O visitante foi recebido com honras de chefe de Estado; apenas faltaram os jornalistas e o desfile militar. Enquanto Rhodan acompanhava Clive Cannon ao seu escritório, dois robôs aguardaram até que os dois tivessem desaparecido no interior do edifício. Após isso, dirigiram-se ao compartimento de carga do aparelho que acabara de pousar e, com o cuidado que lhes era peculiar, retiraram a enorme mala. Colocaram-na numa barraca próxima e, seguindo as ordens recebidas, ficaram de sentinela nas imediações.
Nesse meio tempo, os dois homens haviam chegado ao escritório de Rhodan.
— Pelo que sei, nosso amigo já lhe explicou os pontos fundamentais.
— Só assim consegui convencer Cannon a aceitar o posto de que se trata — disse John Marshall.
— É verdade — disse o homem possuído pelos DI. — Em linhas gerais estou orientado e disposto a aceitar o cargo que me destinam. E quero agradecer pela oportunidade de conhecer pessoalmente o grande centro, que já se tornou legendário.
— Seu desejo era perfeitamente plausível, Cannon. Como sabe, concordei imediatamente. Todavia, há de convir que na situação atual a Terceira Potência adote algumas medidas de segurança.
— O que quer dizer com isso?
— Qualquer visitante é submetido a um exame, para que se verifique se não está possuído por um DI.
— Naturalmente. Linker já me falou a respeito disso. Pelo que diz, dentro de poucas semanas construirão um aparelho que lhes permitirá detectar imediatamente qualquer infiltração de um DI.
Esta frase deu início ao duelo.
Clive Cannon e a substância estranha que se encontrava em seu interior estavam num estado de extremo alarma. O sinal fora dado. Uma cadeia de reações múltiplas comprimia-se numa fração de segundo.
O medo inato da morte existente no DI procurou ocultar-se atrás da tranqüilidade do corpo humano. Mas o choque era forte demais. Clive Cannon não pôde deixar de enrijecer na poltrona e lançar um olhar martirizado para o lado.
Viu cinco pistolas apontadas para ele.
Como que resignado, reclinou-se na poltrona e voltou a oferecer um aspecto descontraído.
— Que susto, Rhodan! Quer fazer uma demonstração do seu método?
— Não é uma demonstração, mas uma aplicação. É claro que não podemos deixar de examiná-lo. Se for um homem normal, nada lhe acontecerá. Mas se houver um DI dentro de você nós o agarraremos dentro de poucos minutos.
— Com essas pistolas? — riu Cannon.
— Isso mesmo! — confirmou Rhodan. — Antes que atirássemos, o DI teria de abandonar o corpo humano para retornar ao seu próprio corpo. E o verdadeiro espírito de Cannon, que seria trocado, nos revelaria tudo.
— É verdade. Mas o DI teria escapado.
— Talvez não, Cannon. Continuemos no seu exemplo. Admitamos que seu corpo de DI se encontre depositado nas proximidades. Nesse caso seria de supor que o DI se lançasse imediatamente a um ataque a outro homem. Escolherá o homem mais importante que se encontra à disposição. Eu, por exemplo.
— Naturalmente. Como exposição teórica tudo isso é muito interessante.
— Procure acompanhar meu raciocínio. O que poderia fazer a Terceira Potência para se proteger contra um ataque desses?
— Não sei. Para ser franco, nunca me ocupei com esse tipo de idéia. É verdade que ouço as notícias de hora em hora e costumo ler os jornais.
— Pois eu lhe direi. Teríamos de localizar o corpo originário do DI. Teríamos de vigiá-lo para matá-lo no momento adequado. Com isso repeliríamos o ataque contra minha pessoa e livraríamos a humanidade de um observador.
A observação telepática realizada por Marshall foi acompanhada de grandes dificuldades, pois havia gente demais por perto. No entanto, nessa altura da palestra a atividade cerebral de Cannon se intensificara tanto que suas emissões se colocaram em primeiro plano.
— É verdade — disse Cannon lentamente e sem muita convicção. — Teriam de localizar o corpo do DI e matá-lo.
Todos viram que Cannon tremia. Todos esperavam a mudança de seu ego. Mas ao que parecia o monstro também estava interessado em receber informações. A exposição de Rhodan assustava-o e cativava-o ao mesmo tempo. Ainda hesitava.
— Ainda haveria outra possibilidade — explicou Rhodan em tom de mistério. — O DI poderia desistir de qualquer outra atividade e se entregaria. Com isso salvaria a vida.
Clive Cannon soltou uma risada estridente e descontraída.
— Para isso você teria de saber onde está seu corpo. Como vai encontrá-lo?
O chefe da Terceira Potência apontou para uma fileira de botões que havia em sua mesa.
— Veja! Se eu comprimir um destes botões, surgirá um impulso que desencadeará a atividade de dois robôs. Esses robôs sabem atirar. Neste instante estão postados perto da grande mala que, segundo você diz, contém o objeto com que quer me presentear.
Para o DI o dilema estava completo.
Levantou-se de um salto, deu um grito desumano e precipitou-se em direção a Perry Rhodan.

* * *

De Chicago a Nova Iorque só era um pulo.
O avião de Reginald Bell aterrizou pelas dezesseis horas. Depois de cumprir, as formalidades junto às autoridades do aeroporto, pediu a um carregador que levasse sua volumosa bagagem ao Cumberland Hotel, onde pediu um apartamento.
Após, dirigiu-se imediatamente ao edifício da GCC. Sentiu-se contente porque iria rever Homer G. Adams, que era um homem pequeno, com uma cabeça grande e muito inteligente. r
Foi recebido por Lawrence, secretária de Adams. Cumprimentaram-se efusivamente.
— Boa tarde, senhor Bell. Que bom vê-lo por aqui. Mandarei preparar um bom café.
— Está bem. Mas não seria preferível servi-lo no gabinete do chefe?
— Ah, sim, o chefe. Hoje o senhor Adams já fez três viagens de negócios com uma extensão média de quinhentos quilômetros. Terá de esperar um pouco. Vivo dizendo a ele que está exagerando; já não é tão jovem assim.
— Acha um elogio destes muito diplomático?
— Nem sei se no caso dele a diplomacia adianta alguma coisa. O senhor Adams sempre faz exatamente aquilo que acha certo. Não se deixa influenciar por ninguém.
— Nem mesmo por uma mulher bonita?
— Ora, senhor Bell! Que intimidade!
Os dois riram e combinaram que Reginald Bell tomaria seu café na sala de Lawrence. A secretária também serviu biscoitos e pediu a Bell que contasse o que havia.
— Daqui a pouco. Antes gostaria de saber aonde Adams foi e quando deve voltar.
— Bem, hoje já veio aqui por duas vezes um sujeito que lhe quer apresentar um artefato pronto para ser patenteado. Não sei nada sobre os detalhes de ordem técnica. Mas ao que parece é uma novidade muito promissora, coisa que geralmente não se pode dizer dos inventores que diariamente aparecem por aqui. Há quinze minutos o chefe voltou de Albany. O homem já estava esperando há algumas horas. Por isso logo saíram juntos. Pretendiam ir a Staten Island.
Bell saltou na poltrona.
Staten Island? Tem certeza?
— Absoluta. Isso é tão importante?
— Sabe o nome do sujeito?
— Espere aí! É Porter.
— Ora, Porter! Que diabo! Sabe que esse Porter é um homem possuído pelos DI? Vamos embora! Não temos um segundo a perder.
Arrastou Lawrence para o primeiro elevador e subiu à cobertura. Abriu a porta de um helicóptero da companhia e empurrou a moça para dentro dele. Só voltou a falar depois de ter colocado a máquina no rumo sudoeste.
Staten Island é muito grande. Adams fez alguma indicação mais precisa sobre o lugar?
— Só disse que iriam a Relling Docks. É tudo que sei — disse a moça com a voz ofegante. Ainda trazia muitas perguntas engatilhadas, mas estava tão nervosa que não conseguiria dizer nada que fizesse sentido. A idéia de que seu chefe poderia estar prestes a cair nas mãos dos DI foi um choque tremendo.
Bell explicou em poucas palavras o que soubera em Chicago.
— Fizemos um erro de cálculo. Supúnhamos que Porter também sairia de Chicago. Agora sei que reside em Nova Iorque, o que lhe permitiu comparecer ao seu escritório assim que recebeu as instruções de Cannon. Enquanto isso ainda fui almoçar tranqüilamente em Chicago.
Atravessaram a Upper Bay.
— Conhece isto aqui? — perguntou Bell.
— Siga mais pela direita, em direção â Newark Bay. Vê aquele telhado vermelho? Deve ser por ali.
O helicóptero desceu. Reconheceram navios, barcos, automóveis e gente. Mas ainda não tinham notado que aquela gente estava fugindo.
Só depois de terem pousado perceberam que se encontravam numa verdadeira fornalha do inferno. Centenas de trabalhadores, inclusive mulheres, corriam para o oeste, dominados pelo pânico.
— Que diabo! O que é isso?
Bell abriu a capota de vidro plastificado. Subitamente viu um homem pendurado no helicóptero.
— Vamos! Vou com o senhor. Decole logo, se preza a vida.
— Um momento! O que está havendo por aqui?
— O que está havendo? — disse o homem com uma risada histérica. — O que está havendo é que os DI acabam de aterrisar. Ali, atrás daquele pavilhão. Vamos logo, homem! Não fique fazendo perguntas.
Subindo ao caixilho da porta, o homem brandiu uma barra de ferro.

* * *

Homer G. Adams não desconfiara de nada. Diariamente apareciam inventores por ali. Geralmente tratava-se de gente amalucada, que há vinte anos vinham sacrificando diariamente umas três ou quatro horas do seu lazer para descobrir o perpetuum mobile. Porter parecia mais objetivo. Além disso, não falou no perpetuum mobile, mas numa câmara de combustão eletrônico-dinâmica que, utilizando as linhas de energia existentes no espaço cósmico, proporcionava uma economia de cerca de noventa por cento da energia suprida pela nave.
Adams só percebeu a armadilha quando já era tarde. Porter introduziu-o num pavilhão.
— Meu laboratório fica aqui. Dentro de poucos minutos estará convencido.
Atrás da porta não havia nada que se parecesse com um laboratório. O pavilhão estava vazio. Sua decoração consistia apenas em cinco Deformadores Individuais, que se aproximavam a passos lentos e comedidos.
Adams não teve tempo de assimilar em sua mente analítica a impressão ótica daquele quadro monstruoso. Os corpos de formato quase humano de quatro braços e duas pernas, as cabeças de inseto com os olhos salientes — tudo isso perdeu seu significado sob os efeitos do ataque mental que foi desencadeado imediatamente. Adams não sabia qual dos cinco seres procurava penetrar em seu interior. Apenas sentiu a dor cruciante que penetrou em seu cérebro que nem um escalpelo e parecia desmanchá-lo.
Percebeu que caiu ao chão, mas não sentiu o impacto.
Logo um saber estranho misturou-se à dor.
Era um sentimento de triunfo.
Pegamo-lo. Você é nosso. Pegamos Homer G. Adams. A cidade de Nova Iorque é nossa. Você irá para onde eu mandar.”
Ao mesmo tempo que estava deitado de costas, Adams permanecia de pé, inclinado sobre seu próprio corpo. Pouco importava que esse paradoxo não podia ser verdadeiro. E pouco importava que o corpo estendido no chão pertencia ao homem, e o que se encontrava de pé, ao Deformador Individual. O que importava era que tinha uma dupla visão de si mesmo.
As imagens sobrepunham-se e penetravam-se como as de um filme submetido a dupla exposição. O olho do homem refletia-se nos milhares de entrelaçamentos do olho facetado do DI. Adams até se esqueceu da dor provocada pela indefinição do seu ego. Viu-se a si mesmo numa ânsia de conquista. Também se viu num pânico, que fez com que quisesse voltar e se precipitar para o nada.
A hora do ataque aberto dos Deformadores Individuais à cidade de Nova Iorque havia chegado.
Sabiam qual era o momento combinado. Os DI e os homens possuídos.
Porter percebeu a movimentação. Saltou para o caos e, usando o pânico fingido, lançou o caos entre os homens. Os DI seguiram-no. Quatro desses seres saíram do pavilhão. Ainda não era o ataque mental. Apenas quiseram agir através de sua figura monstruosa. E conseguiram-no.
Nesse instante o duelo entre Adams e o DI não teve mais testemunhas. Estavam a sós, e cada um lutava com as armas que a natureza lhe dera. Lutaram por três minutos. Fisicamente o homem era mais robusto. Mesmo que já tivesse deixado a juventude para trás e fosse de estatura pequena e cabeça grande.
As mãos de Adams penetraram profundamente na carne do inimigo. Uma substância córnea estalou sob seus dedos, um líquido vermelho-escuro correu pelo chão de pedra cheio de sujeira.
A dor desapareceu. O monstro estava morto.
Adams levantou-se exausto. Num movimento instintivo limpou o terno. O raciocínio dirigiu-se a objetivos mais concretos. Ao perigo que ameaçava Nova Iorque. Sabia o que os DI sabiam e agiu em conformidade com isso.
As docas de Relling estavam desertas. Um porto abandonado em meio ao crepúsculo. Ao longe algumas sereias uivavam.
Milhares das posições mais importantes da metrópole foram ocupadas pelos DI. Do prefeito ao chefe de polícia, do chefe de empresa ao coordenador das emissoras de rádio.
Números extras dos jornais estavam sendo preparados. Neles se avisava que a saída da cidade ou a divulgação de notícias não permitidas eram proibidas sob pena de morte. Um anel começou a fechar-se em torno da cidade. Por quanto tempo ainda estaria aberto?
Adams sabia que não tinha um segundo a perder.
A volta a Manhattan representaria uma perda de tempo irreparável.
Pegou um carro estacionado junto ao pavilhão e fugiu em direção ao sul. Em algum lugar encontraria um avião...

* * *

— Senhor Bell! — gritou Jeanette Lawrence, apontando para a frente.
— Deixe de ser idiota! — berrou o homem com a barra de ferro. — Ainda não percebeu o que está acontecendo?
Reginald Bell percebeu. Sabia que nessa altura seria inútil procurar Homer G. Adams. No cais viam-se Deformadores Individuais. Não eram centenas; apenas quatro. Mas esses quatro foram suficientes.
— Vamos! Entre logo! Comprimiram-se na cabina feita para duas pessoas. Bell decolou.
Quando pousaram na cobertura do edifício da GCC, o inferno estava às soltas nas ruas. Exército e polícia patrulhavam os desfiladeiros de concreto de Manhattan. Subitamente a distinção entre o homem e o possuído pelos DI perdera todo sentido. O poder estava nas mãos dos DI.
— Não compreendo! — Jeanette Lawrence estava chorando. — Não é possível que milhões de invasores tenham penetrado na cidade.
— Acontece que algumas centenas são suficientes. Se estes ocuparem as posições-chaves da estrutura política e econômica, a massa estará impotente.
— Toda a população de Nova Iorque contra algumas centenas? — A pergunta terminou numa risada histérica.
— Pronto. Sente e respire profundamente. Enquanto isso procurarei explicar por que não temos o poder. Os DI conhecem-se uns aos outros. Mas nenhum homem pode ter certeza de que o outro é um elemento leal. As pessoas sadias estão desunidas.
— Mas nós dois sabemos que nenhum de nós foi possuído. Por que não transmite uma mensagem a Rhodan?
— Porque não é possível. Enquanto vínhamos para cá, você ouviu as instruções do prefeito.
— E o senhor pretende segui-las? Por causa da pena de morte? Francamente, senhor Bell, eu pensava que o senhor fosse mais corajoso.
— O que adianta a coragem contra a violência técnica? Não faça drama, Lawrence. Tentei estabelecer contato pelo rádio. Parece que você não percebeu. Não consegui.
Lawrence lhe lançou um olhar de pavor. Não se conformava com sua atitude resignada.
— O senhor é um DI, não é? Está possuído, senhor Bell. É claro! Só pode ser isso.
— Deixe de tolices! Venha comigo.
Foram ao gabinete de Adams. Pôs o rádio a funcionar e chamou Perry Rhodan. Esperaram por alguns minutos. Não houve resposta.
— Compreende agora? — gemeu Bell. — A proibição não passa de uma formalidade. Os DI estudaram nossa mente por bastante tempo para poderem prever nossas reações. Cobriram Nova Iorque com uma cúpula energética.
— Tal qual Rhodan fez no deserto de Gobi?
— Em princípio, sim. Mas pode ser que sua estrutura seja diferente. Pelo que diz Crest, em nossa galáxia não existe nenhuma inteligência que saiba montar cúpulas energéticas iguais às dos arcônidas. Além disso, nossa experiência só demonstra que as ondas de rádio esbarram num obstáculo. Isso só prova que a cúpula energética absorve as chamadas freqüências de rádio no espectro eletromagnético. Falta verificar se a cúpula pode deter a matéria.
— Pois vamos verificar.
— Como poderíamos fazer isso?
— Com o helicóptero, por exemplo.
— Para sermos abatidos? Ou para esbarrarmos numa muralha invisível e cairmos?
Lawrence olhou-o desesperada.
— Quer dizer que tudo está no fim. Bell sacudiu a cabeça.
— Se agir com a mesma coragem que acaba de exigir de mim, não estará.
— O que devo fazer?
— Ser valente e agüentar firme. Aqui mesmo, em Nova Iorque.
— Pretende fugir sozinho? Senhor Bell, em certa ocasião o senhor Adams me falou em certas hiperondas arconídicas. Pelo que diz, funcionam no espaço pentadimensional.
— Sei. Acontece que os respectivos emissores só existem na Good Hope, no deserto de Gobi e em Vênus. Ouça, Lawrence. Pesei todas as possibilidades. Fugirei sozinho e levarei a notícia da conquista de Nova Iorque. Sou o único homem que dispõe dos necessários recursos técnicos.
— Que recursos são esses?
— Um traje arconídico. Já ouviu falar a respeito, não ouviu?
A moça arregalou os olhos.
— Sim, senhor Bell, já ouvi. Dizem que no momento só existem dois trajes desse tipo. Um deles se encontra em poder de Perry Rhodan...
— ...e o outro está em meu poder. Aqui mesmo, em Nova Iorque. Possui um campo energético capaz de desviar as freqüências visuais e as freqüências de rádio. Quando sair de Nova Iorque, estarei invisível.

VI


— Mas que diabo, não atirem! — gritou Perry Rhodan.
Deu um salto para o lado. O pulo de Cannon foi terminar de encontro à mesa. Quando se voltou, viu novamente as pistolas diante de si. Hesitou. Também hesitou em realizar o salto para o corpo do DI. Não viu qualquer saída.
Marshall, que captara seus pensamentos, explicou:
— Você ainda tem uma terceira alternativa, conforme Rhodan acaba de explicar. Pode entregar-se. Pelas leis terrenas, um prisioneiro não é morto enquanto cumprir as instruções de seu custodiador.
Cannon lançou um olhar indagador para Rhodan.
— Quais são suas intenções?
— Queremos negociar com você. Se chegarmos a um entendimento satisfatório, estarei disposto que volte para junto dos seus na qualidade de enviado nosso. É claro que não poderá fazê-lo na condição de homem.
— Por que não permite que retorne logo ao meu corpo?
— Por que na forma em que se encontra está mais bem guardado. Então, qual é sua decisão?
— Você vai estabelecer condições, não vai?
— No momento não estou em condições de esclarecer este ponto. As decisões são tão importantes que prefiro não tomá-las sozinho. Nossa palestra será conduzida em presença do cérebro positrônico.
Mais uma vez alguma coisa se revoltou no corpo de Cannon.
— Você está planejando alguma traição, Rhodan.
— Não julgue os outros por si, Cannon. Já deve conhecer o funcionamento de um cérebro robotizado. Se tivesse a intenção de matá-lo, não precisaria fazer tantos rodeios.
Clive Cannon acenou com a cabeça.
— Está bem; aceito. Mas gostaria que fosse o mais rápido possível.
— Neste ponto estamos de acordo. Eric e Ras, levem-no ao pavilhão e esperem por mim.
O Dr. Eric Manoli e Ras Tshubai levaram Cannon.
Ao ver-se sozinho com o Dr. Haggard e John Marshall, Rhodan perguntou:
— O que andou pensando, John? Será que o sujeito está tramando alguma traição? Sabe das minhas intenções?
— Quais são suas intenções?
Nem mesmo Marshall com seus dons telepáticos conseguia romper o bloqueio mental de Rhodan.
— Estou pensando em negociar com os DI, se é que existe uma possibilidade para isso. Sei perfeitamente que os invasores não suspenderão sua agressão com vistas ao destino de um único desses seres. O mais importante é a pesquisa do cérebro possuído pelo DI. Examinaremos Cannon e realizaremos medições em seu corpo sem que ele o perceba. Ou será que percebeu alguma coisa?
— Não; neste ponto não suspeita de nada.
— Muito bem. Vamos!
Estavam prestes a sair do escritório quando o radio receptor foi ativado automaticamente.
— Adams chamando Rhodan, Adams chamando Rhodan. Peço confirmar recepção para que possamos iniciar imediatamente a troca de mensagens.
Perry Rhodan deu um salto em direção ao quadro de comando do emissor.
— Aqui Rhodan. O que houve, Adams?
— Graças a Deus! Preste atenção! Estou no Canadá, mais precisamente a cinqüenta graus de longitude oeste, junto à via férrea Quebec—Winnipeg.
— Como foi parar nesse lugar? Isso fica praticamente na selva.
— Tome nota do que segue, Rhodan: vi-me obrigado a fugir de Nova Iorque. A cidade foi ocupada pelos DI, que a dominam completamente. A partir de ontem de tarde, todas as notícias vindas de Nova Iorque passaram pela censura deles. Deve tomar providências imediatas; se possível, mande-me buscar aqui. Tive de roubar um velho avião a hélice; o combustível acabou.
Perry Rhodan recebeu as notícias alarmantes com uma tranqüilidade extrema. A reação de um robô não poderia ser mais objetiva.
— Pode dar informações mais detalhadas sobre a situação em Nova Iorque?
— Não. Os DI procuraram apossar-se de mim. Tive que desaparecer. Fugi imediatamente por Staten Island, em direção ao sul.
— Os DI procuraram apossar-se de você? — Subitamente havia uma nota de desconfiança na voz de Rhodan. — Gostaria de saber como conseguiu subtrair-se à influência deles.
— Fique tranqüilo, Rhodan. Tudo está em ordem comigo. Acho que você teve boas razões para me admitir no seu exército de mutantes. Meu cérebro, que, pelo que dizem, é fotográfico, possui capacidades que só ontem vim a conhecer. Encontrava-me a sós com o DI. Foi uma luta honesta. O sujeito não conseguiu apossar-se de mim. Ao que parece meu ego depende realmente das células de memória do meu cérebro. Ficou grudado em mim e não quis sair. Quando o DI se lançou ao ataque, cheguei a ter a impressão de que já tinha sido dominado. Já via através dos olhos facetados. Sabia o que pretendiam os DI.
— Um instante! Você acaba de dizer que não conhece a situação em Nova Iorque.
— Nem podia conhecer. Tive que dar o fora. Mas acho que existe uma diferença entre os planos dos invasores e a situação atual da cidade.
— Não seja tão pedante, Adams. Quais eram os planos do inimigo?
Homer G. Adams relatou o que sabia. E isso foi suficiente para os homens de Gobi. Enquanto falava, Rhodan pensou nas medidas que devia tomar.
— Existe a possibilidade de que os DI o tenham seguido?
— Não acredito. Se me tivessem visto, não teriam deixado que saísse de Nova Iorque.
— Se é assim, aguarde. Mandarei Ras Tshubai buscá-lo. Posteriormente fornecerei indicações sobre as medidas a serem tomadas em relação a Nova Iorque. Mantenha seu rádio ligado para a recepção. Aliás, em Nova Iorque por acaso ouviu falar em Bell?
— Não. Por quê? Ele ia para lá.
— Isso mesmo — disse Rhodan em tom preocupado. — E chegou a ir. Mais um motivo para nos preocuparmos com o destino da cidade.
— Não seja por isso. Já me encontro na altura do fosso japonês.
Era a voz de Reginald Bell.
— Santo Deus, Bell. Tudo bem com você?
— Tudo bem.
— Não esteve em Nova Iorque?
— Venho de lá. O traje arconídico me ajudou a sair.
— Vocês não são mesmo de brincadeira. Você deve chegar dentro de meia hora aproximadamente, não é?
— Isso mesmo.
— Pois bem. Nossa conversa termina aqui. Tenho uma coisa importante a fazer.

* * *

Um cérebro positrônico construído pelos arcônidas dispõe de estágios finais para vários tipos de resposta. Pode transmitir os resultados através de alto-falantes, fitas escritas, fitas magnéticas, fitas fotográficas, cartões perfurados de origem terrena ou, o que vem a ser a mesma coisa, através de uma série de impulsos gravados numa fita plástica. A gama disponível para a formulação de perguntas é a mesma. Isso permitiu a Perry Rhodan operar por dois caminhos distintos.
Falou pelo microfone as perguntas formuladas em concordância com Clive Cannon. Mas o trabalho mais importante, consistente na divisão seletiva do cérebro do DI no corpo humano, foi convertido em símbolos através do teclado.
Dessa forma obtinham-se, no espaço de vinte minutos, dois resultados distintos. Um deles foi exibido ao prisioneiro de Rhodan.
— Como vê, o cérebro é incorruptível. No momento não valeria a pena fazer de você nosso emissário. O medo e a boa vontade não bastam para isso. Acho que devemos ter paciência por mais alguns dias, para ver se não ocorre uma alteração no front que predisponha seus companheiros para as negociações.
Cannon conformou-se com seu destino. Se é que percebeu alguma coisa, foi a situação de impotência em que se encontrava. Foi levado por dois robôs.
Para os amigos Rhodan teve um olhar de otimismo.
— Leiam isto!
Era a fita escrita que trazia o resultado do exame realizado no DI.
— Encontramos a solução — constatou o Dr. Haggard depois de um instante de silêncio. — Meus parabéns, Rhodan.
— Ainda não é a solução final para a construção de um aparelho telepático de alcance total. Ao que parece, isso não fica ao alcance da nossa tecnologia. Mas no momento podemos dar-nos por satisfeitos com o setor especializado que corresponde ao cérebro dos DI. Foi o que conseguimos. Nas três fórmulas que estão escritas aqui, encontramos tudo de que precisamos. A base de tudo continua a ser o detector arconídico de ondas cerebrais. Ainda hoje introduziremos os dados em cinco robôs. Estou convencido de que dentro de vinte e quatro horas teremos em mãos o primeiro modelo.
— Nossos robôs vão fazer isso?
— Sim, nossos robôs — disse Perry Rhodan com um sorriso. — Evidentemente serão os que trouxemos de Vênus. Conseguirão. Se não acreditar, doutor, estou disposto a apostar.
— Agradeço! Seu otimismo parece ser muito realista.
— Muito bem. Nesse caso poderemos examinar o corpo do DI, que no momento abriga o ego do verdadeiro Clive Cannon. Mas acabo de me lembrar de uma coisa. Já faz algum tempo que não temos notícias de Mercant, não é?
— Ele ainda dispõe de três dias.
— De qualquer maneira acho que os acontecimentos que se desenrolaram justificam um contato imediato.
Rhodan chamou a base do Conselho Internacional de Defesa, situada na Groenlândia. Mercant atendeu.
— Alô, Rhodan. Alguma novidade?
— Alô, Mercant. Aqui houve algumas novidades. Mas comecemos por aí. No caminho de volta você pretendia visitar Adams.
— Isso mesmo. Será amanhã.
— Deixe disso. Nova Iorque encontra-se em poder dos DI.
— Não brinque!
— Não estou brincando. Adams e Bell foram as únicas pessoas que ontem conseguiram escapar.
Mercant fungou.
— Escute aí! Há meia hora conversei com meus colegas de Nova Iorque.
— E as respostas que você recebeu passaram pela censura dos DI. Não se faça de mais bobo do que é, Mercant. Regresse imediatamente ao nosso território. E traga todos os homens que conseguiu recrutar para nossa causa.
— São exatamente trezentos e quatro.
— Isso basta. Providencie para que aterrissem aqui dentro de vinte e quatro horas o mais tardar.
— Como queira. Até a vista.
— Até a vista.

* * *

Homer G. Adams reclinou-se no assento do avião sem combustível para cochilar um pouco. Subitamente sobressaltou-se. Não sabia por quê. Só sabia que alguma coisa havia despertado uma reação em seu cérebro.
Olhou para o chão, depois subiu às asas do avião, para ter uma visão mais ampla. Do zênite ao horizonte não se via nada de suspeito. Só pastagens, extensões infinitas de capim, nenhum homem, nenhum animal. Dali a dois quilômetros via-se a linha férrea. Nada se modificara. Só lhe restava esperar. Dormir e talvez sonhar.
Teria sonhado? Qual seria a origem das suas dúvidas?
Nunca tivera qualquer problema de memória. Essa auréola grudara-se nele desde os tempos de escola. Bastava-lhe ler um poema para sabê-lo de cor. Olhava uma série de fórmulas matemáticas e guardava-as na memória. Acostumara-se a tudo isso e acabara aceitando aquilo que diziam ser um gênio como um fato consumado.
E agora sentia-se tomado de dúvidas?
Adams deu alguns passos por entre o capim e regressou.
Começou a refletir na sua tarefa. Era uma tarefa que no fundo era idêntica a de uma especulação de bolsa.
“Fui um DI. Isso mesmo. Em Staten Island parte do meu ser foi possuída pelos DI. Olhei através de um olho multifacetado. Sabia o que o inimigo sabia. Mas continuei a ser Homer G. Adams, e dei cabo do monstro. Não conseguiram dominar-me. Nem destruíram minha memória fotográfica. Como homem continuo a ser o mesmo.”
De repente soube!
Parte da mente do DI continuava no seu interior. Fortemente reprimida. Era muito estranho para ele, que nunca esquecia nada. Estava ali como se fosse uma sombra. No subconsciente.
E surgiu a nova pergunta, que não poderia estar imbuída de maior dose de autocrítica.
“Por que fui justamente ao Canadá? Para fugir dos Estados Unidos, onde os DI estavam desencadeando sua invasão maciça?”
Não havia lógica nisso. Os DI não se incomodavam com as fronteiras traçadas pelo homem.
“O que me atraiu para o Canadá? Para estas terras de pastagem, onde o grau cinqüenta de latitude cruza com o grau oitenta e cinco de longitude? Terá sido o subconsciente?”
Adams procurou reprimir essas idéias, que contrariavam as concepções geradas por sua mente humana. Mas sentiu-se inclinado a ficar atento a elas. Havia alguma coisa dentro dele.
Fechou os olhos e procurou concentrar-se ao máximo. Por alguns minutos ficou sentado assim, na sombra do avião. Depois levantou-se como que num estado de transe e caminhou em direção à linha férrea. Eram dois quilômetros.
A dúvida transformou-se em certeza. De repente soube. Soube o que o DI trucidado deixara em sua memória.
Os nichos! A cada cem metros havia um nicho no aterro da linha férrea. Um deles ocultava a entrada para a caverna artificial.
Adams caminhou com a segurança de um sonâmbulo. O primeiro nicho era o que procurava. Havia um mecanismo oculto. Uma parede de concreto afastou-se, deixando livre uma passagem sem degraus, que prosseguia num declive suave.
Mais de duzentos corpos aparentemente sem vida. Nenhuma sentinela. Só os egos aprisionados dos homens de corpos trocados tremeluziam no seu martírio psíquico sobre os meandros cerebrais daqueles seres monstruosos.
Adams voltou. Antes que chegasse ao avião, surgiu o aparelho de Ras Tshubai, que vinha buscá-lo.


VII


O reencontro de tanta gente importante até mereceria uma festa.
Allan D. Mercant voltara da Groenlândia, trazendo trezentos e quatro voluntários para a força policial da Terceira Potência. Por sugestão de Rhodan, desistira da escala em Nova Iorque. De qualquer maneira Homer G. Adams, que era a pessoa que Mercant pretendia visitar, já havia chegado ao deserto de Gobi. Assim os dois tiveram oportunidade de se cumprimentarem sob a proteção da cúpula energética.
A palestra, conduzida em termos corriqueiros, cessou no momento em que Rhodan entrou na sala. Os diversos grupos abriram caminho para deixá-lo passar. O chefe da Terceira Potência teria algo a lhes dizer..
— Companheiros! Procurarei ser breve. Tomei conhecimento das informações recebidas por intermédio de vocês. Pelo quadro geral da situação concluo que não nos resta muito tempo para inverter a corrente a nosso favor, a favor do planeta Terra. Não pudemos exercer a necessária vigilância das pessoas mais importantes do globo terrestre, porque não dispomos de telepatas em número suficiente. Um ataque lançado pelo menos com duas naves permitiu ao inimigo colocar em nosso planeta um número desconhecido de Deformadores Individuais. Sabemos que depois da destruição de sua base situada no Tibet conseguiram instalar outros pontos de apoio. Até chegaram a controlar uma das maiores cidades do mundo. A população de Nova Iorque está isolada do resto do mundo, embora se procure enganar o público, dizendo que tudo está normal. Vocês já devem ter percebido como o inimigo é perigoso.
Rhodan pôs a mão no bolso e tirou um instrumento que a maior parte dos presentes já conhecia em suas linhas gerais. Apenas o formato exterior havia recebido algumas modificações insignificantes.
— Já conhecem o detector de modelos cerebrais. Aquilo com que sonhamos há muito tempo, ou seja, o aperfeiçoamento do aparelho para transformá-lo num detector de tipos de freqüência, acaba de ser conseguido, embora em escala limitada. A definição exata de um cérebro humano possuído pelos DI tornou possível ao cérebro positrônico fornecer a curto prazo dados novos que se revelaram úteis ao aperfeiçoamento tecnológico. Este aqui é o detector de freqüências aperfeiçoado. Ele nos permite identificar instantaneamente, por simples leitura, qualquer homem possuído pelos DI. Já fiz a experiência com nosso prisioneiro, Clive Cannon. Dentro de alguns minutos, vocês terão oportunidade de ver o aparelho em funcionamento, para se convencerem de sua eficiência. Mercant, os trezentos e quatro candidatos que desejam ingressar em nossa força policial estão estacionados junto ao posto quarenta e dois, não é?
— Sim, Rhodan.
— Iremos todos até a saída nordeste do território bloqueado. Utilizaremos a nova ferrovia local. Capitão Klein, você se encarregará da cúpula energética. Manteremos contato sobre a faixa de ondas ultracurtas. Bell, você ficará de plantão junto ao rádio.
Bell confirmou com um ligeiro aceno de cabeça.
— Vamos! — disse Rhodan.
Os trezentos e quatro candidatos já haviam entrado em forma. Aguardavam o momento de entrar no território bloqueado pela cúpula energética. Rhodan transmitiu um aviso telegráfico a Klein, que retirou a cúpula energética. Para proteger o território central, os três caças patrulharam toda a área. Tinham ordens para abrir fogo sem aviso contra qualquer pessoa que tentasse penetrar no núcleo da Terceira Potência sem que tivesse sido convidada. Além disso, mais de cem robôs armados desfilavam diante da fronteira subitamente desguarnecida.
No caminho Rhodan dera instruções detalhadas a Mercant.
— Seus homens deverão passar pelo posto quarenta e dois em fila de um. Deverão passar por mim a uma distância não superior a cinco metros. Se entre eles houver um possuído pelos DI, darei um sinal. Prenda-o imediatamente.
Mercant foi o único que se dirigiu à área externa a fim de transmitir aos seus homens as necessárias explicações. Todos eles eram homens inteligentes e bem treinados. Dentro de dois minutos teve início o desfile dos aspirantes a policial.
Fizeram continência, como se estivessem num desfile militar. Rhodan agradecia, respondendo aos olhares que lhe eram dirigidos.
John Marshall contava automaticamente. Encontrava-se a um passo de Perry Rhodan.
— 257, 258, 259, 260, 261...
O engasgo de Marshall e o movimento do ponteiro do detector foram simultâneos.
— Aquele louro alto — disse Rhodan, dirigindo-se a Mercant. — Prenda-o.
— Tenente Pirelli! Faça o favor de vir até aqui.
O tipo nórdico de nome italiano estremeceu ligeiramente. Marshall cochichou:
— É um deles!
Pirelli hesitou.
— Que diabo, tenente! — berrou Mercant, que de repente ficou furioso. — Quer um convite escrito? Você está atrasando tudo. Continuem! 263...
Pirelli obedeceu. A marcha daqueles homens prosseguiu.
— Um instante, tenente! Seu rosto me faz lembrar uma pessoa que já vi. Daqui a pouco quero falar com você — disse Rhodan e logo voltou a dedicar sua atenção aos outros. Sabia que havia um número suficiente de armas engatilhadas para liquidar Pirelli ao primeiro movimento suspeito.
John Marshall prosseguiu na contagem até chegar ao número 304. Nem ele nem o detector identificou outro indivíduo possuído pelos DI. Era uma boa média.
— Alô, Klein! — disse Rhodan pelo interfone. — Feche a cúpula. A ação está concluída.
Dirigindo-se a Pirelli, disse:
— Tenho uma pergunta, tenente! Reflita bem na resposta. Você estaria disposto a servir de intermediário nas minhas negociações com os DI?
O rosto de Pirelli estremeceu ligeiramente. As pessoas entendidas sabiam que os acontecimentos que se desenrolavam no interior do corpo e da mente daquele indivíduo eram muito mais dramáticos.
— Não compreendo, senhor!
— Você foi identificado como um DI. Foi por isso que fiz a pergunta. Então?
— Como pode afirmar que sou um DI, senhor Rhodan? Que blefe é esse?
— Quem faz perguntas aqui sou eu, não você. Conforme a resposta que nos der, você será utilizado na execução dos nossos planos ou será fuzilado aqui mesmo.
Pirelli deu um salto para a frente, mas controlou-se antes que sua atitude pudesse ser interpretada como uma ameaça.
— Está sendo detido pelo medo — explicou Marshall. — Está em nossas mãos. Seu corpo de DI não se encontra no raio de transplante. Infelizmente este cavalheiro não nos dirá onde está. Desconfia de que sou um telepata. Procura confundir seu pensamento.
— Está bem, Marshall. Pirelli, você já viu o que sabemos. Se o fuzilarmos aqui, isso representará a morte definitiva para você. Qual é sua resposta à minha primeira pergunta?
Pirelli procurou dar uma expressão de altivez ao seu corpo. Como não devia sentir-se o ego covarde de um DI num corpo destes?
— Estou à sua disposição, senhor Rhodan. Se ordenar que sirva de intermediário, obedecerei. Acontece que minha posição subalterna não me permite dizer qualquer coisa sobre as chances das negociações.
— Isso não é necessário, tenente. Até amanhã ficará em isolamento. Terá dois guardas robotizados ao lado de sua cama. Eles o matarão à menor tentativa de fuga ou atentado. Amanhã receberá novas instruções. Muito obrigado.

* * *

Ainda havia 303 homens bem selecionados. Rhodan devia dirigir-lhes algumas palavras de saudação, ainda mais que se tratava de um núcleo inteiramente novo que se formava dentro da Terceira Potência. Mas voltou a falar em termos breves e não-convencionais.
— Talvez um dia possa dedicar-me melhor a vocês. Acontece que hoje não existe fortuna que pague um segundo perdido.
Desejo-lhes bom apetite para a refeição que já foi preparada. Daqui a pouco Reginald Bell e o coronel Mercant lhes transmitirão as instruções necessárias.
No escritório Rhodan manteve uma palestra num círculo bastante íntimo.
— Você é de uma leviandade imperdoável — disse Reginald Bell assim que se ofereceu oportunidade para falar, antes que Rhodan tocasse em qualquer dos assuntos que compunham a agenda dos debates.
— Pretende dar-me outra lição?
— O que está em jogo não são minhas ambições pedagógicas, mas a sua segurança. Enquanto aqueles homens desfilaram, você não usou a menor proteção. Procurou dissuadir Pirelli da intenção de cometer um atentado. Acha que o olhar hipnótico será suficiente para protegê-lo contra esse tipo de gente?
— Acho, sim. Você se enganou com a atitude do Pirelli. Ao que parece você ainda não compreendeu como é covarde o espírito que se oculta atrás dessas criaturas. Um DI jamais cometerá um atentado se tiver que arriscar sua vida. Mas chega de discussão! Tenho diante de mim as notícias mais recentes de todo o mundo. Infelizmente devo constatar que para o bem intencionado torna-se cada vez mais difícil ser acreditado pelos outros. A melhor prova são as acusações incessantes que formulam contra nós. Farei uma última tentativa para convencer o mundo. A população de Nova Iorque será nossa fiadora. Se é que algum habitante deste planeta teve oportunidade de convencer-se da crueldade dos DI, são os habitantes daquela cidade, violentada há três dias.
— Para isso teríamos de libertar aquele contingente de oito milhões de seres humanos.
— Meu plano é este. A usina robotizada já está fabricando a primeira série de detectores de DI. Por enquanto encomendei quatrocentas peças.
— Quando estarão prontos os aparelhos?
— Amanhã de manhã. Todos os mutantes de que dispomos, com exceção dos telepatas, serão equipados com os mesmos. Também os novos membros do contingente policial e vocês, que são meus colaboradores mais chegados. Bell, você irá à Lua amanhã. Leve duzentos homens e procure entrar em contato com o comando de robôs estacionado na cratera Anaxágoras. Procure avaliar os resultados de sua atuação. Caso a base lunar ainda não tenha sido precisamente localizada, você ficará encarregado disso. Assim que descobrir o objetivo, entre em contato comigo.
— Um simples contato?
— Por enquanto sim. O ataque pelo qual você deve ansiar não demorará muito. Apenas pretendo golpear em todos os lugares ao mesmo tempo. Por isso você aguardará minhas ordens.
— Está bem!
— E agora você, Adams! Não me venha dizer que não tem talento para herói. Darei a você um punhado de homens nos quais pode confiar. Talvez Ras Tshubai e vinte dos policiais recém-engajados. Seu objetivo será a base canadense dos DI. Mas não deve também iniciar nenhum ataque antes que tenha recebido minhas ordens.
— Como queira, Rhodan — disse Adams no tom humilde que costumava usar nas raras ocasiões em que sua fala não se ligasse ao dinheiro.
As últimas instruções, e as mais detalhadas, foram transmitidas a Allan D. Mercant, dirigente oficial do Conselho Internacional de Defesa e membro não-oficial do exército de mutantes da Terceira Potência, dirigida por Perry Rhodan. Mercant recebeu uma armada de seis planadores espaciais que dispunham de armamentos, espaço de carga e velocidade suficientes. Sua missão era a libertação de Nova Iorque.

* * *

Enquanto no deserto de Gobi raiava um novo dia, o dia de Nova Iorque ia chegando ao fim.
As máquinas haviam decolado.
Em primeiro lugar o grupo de Mercant, seguido pouco depois por um avião de radiações isolado que seguia em direção ao Canadá. A Good Hope foi a última. Embora seu objetivo ficasse mais longe, teve que dar a precedência aos aviões estratosféricos, já que a capacidade de aceleração que desenvolvia no espaço compensava qualquer distância interplanetária.
Rhodan estava só no edifício central. Desistira de qualquer espécie de assistência. Preferira destacar os homens disponíveis para os três pontos críticos em que seriam travados os combates.
Seu assistente era a técnica avançada, que convergia no quadro de comando que tinha diante de si. Conforme se esperava, a primeira mensagem veio da Lua.
— Alô, Perry! Pousei sem incidentes na cratera Anaxágoras. A força policial está saindo da nave. Voltarei a chamar depois que tiver estabelecido contato com o comando de robôs.
— Obrigado e boa sorte!
O ponteiro do relógio continuou a avançar. O contacto seguinte.
— Estamos cruzando por cima de Nova Iorque. Conforme previmos, não encontramos obstáculo ao penetrar na cidade. Ao que parece o bloqueio só atinge os que querem deixá-la. Pousaremos em seis aeroportos diferentes. A ação está sendo iniciada conforme previsto.
Conforme previsto. Isso significava que nos próximos trinta minutos os personagens mais importantes da cidade seriam visitados por pessoas armadas. Seriam reconhecidas prontamente como indivíduos possuídos pelos DI e receberiam o tratamento adequado. As ordens de Rhodan eram terminantes. A luta contra os DI seria conduzida sem a menor contemplação.
— Alô, Rhodan! — Era a voz de Adams. — Acabo de pousar em cinqüenta graus de latitude e oitenta e cinco de longitude. Meu velho avião permanece intocado.
— O.K., Adams! Tome posição junto à linha férrea e aguarde.
Por dez minutos o rádio permaneceu em silêncio. Depois a voz de Bell voltou a encher o recinto.
— Decolamos em direção ao sul, pela face oculta da Lua. Dentro de três minutos pousaremos na cratera de Mendelejw. O comando de robôs determinou a localização precisa da base dos DI. Não há o menor sinal de vida.
As notícias começaram a precipitar-se. Surgiam simultaneamente, através de faixas substitutas. As fitas gravadas registravam-se para Rhodan. Dali a trinta minutos a situação era a seguinte:
Três vigias DI em plena atividade haviam sido mortos. Bell noticiou a descoberta de mais de quinhentos corpos de DI imobilizados, cujo ego originário sem dúvida devia encontrar-se na Terra.
Rhodan interrompeu a mensagem:
— Basta de detalhes. Os corpos dos DI devem ser colocados imediatamente a bordo da Good Hope e trazidos ao território bloqueado da Terceira Potência. Quanto tempo levarão para isso?
— Somos duzentos homens. Em média o peso de um DI corresponde ao dobro de um homem. Com a gravitação lunar isso vem a ser uns vinte e cinco ou trinta quilos. Levaremos quinze minutos.
— Apresse-se, Bell! Tenho muita necessidade da sua presa.
Também Adams recebeu instruções para agir. Seu trabalho era muito mais difícil. Seus vinte homens tiveram que colocar a bordo duzentos corpos de DI. É bem verdade que Ras Tshubai logo os livrou das maiores preocupações. Por precaução o africano trouxera o neutralizador, com o qual o peso dos corpos foi quase totalmente eliminado.
Pelas onze e meia a Good Hope pousou; o “comando Adams” chegou pouco depois. A Terceira Potência tinha em seu poder 732 corpos, que foram depositados no seu território, fora da cúpula energética.
Poucos minutos depois a Good Hope decolou em direção a Nova Iorque, onde se amarraria ao mastro do Empire State Building.
A Good Hope era larga e parecia desajeitada. Oferecia um bom alvo, mas era inexpugnável. Seus superemissores martelaram o apelo de Rhodan, dirigido aos homens e aos DI, usando todas as freqüências disponíveis. A voz de Rhodan superava toda e qualquer interferência, até uma potência de três mil quilowats. Não era só Nova Iorque que o ouvia, mas toda a Terra. Os homens livres logo se colocaram a seu lado. Três dias de ditadura dos DI em Nova Iorque bastaram para convencer a humanidade de que só a Terceira Potência podia proporcionar-lhes um auxílio eficaz.
Mercant veio com cem detectores. A Good Hope trouxe outros trezentos, que já não eram necessários na Lua ou no Canadá.
A guerra em meio àquele oceano de prédios perdeu-se em episódios isolados. O conflito desenvolveu-se de rua para rua, de prédio para prédio, de sala para sala. Os homens de Rhodan estavam sós. E depois da primeira investida já não representavam uma surpresa. Apesar disso, venceram. Poucos dos DI chegaram ao extremo. A maior parte deles agarrou-se ao corpo que os hospedava, já que, afora umas poucas exceções, seus corpos originários estavam fora de seu alcance. A noticia do roubo dos setecentos corpos abandonados, depositados na Lua e no subterrâneo do Canadá, levou o pânico dos invasores ao auge. Os DI haviam chegado ao fim.
O prefeito, o chefe de policia e os sete senadores de Nova Iorque puderam subir a bordo da Good Hope exatamente ao meio-dia, a fim de oferecer seu relato dos acontecimentos. Os rostos dos primeiros homens libertados atravessaram o mundo pela televisão.
— Repórter do demônio? — Alguém soltou a observação a bordo da nave, evocando uma idéia bastante corrente há cerca de um decênio. Mas havia um ponto de interrogação atrás dessas palavras. Já havia a certeza de que a mensagem de Rhodan, que já cobria todas as emissoras da Terra, tinha um sentido bastante sério.
Representava um apelo dirigido a todos os terráqueos, representava o brado de alerta final dirigido a uma geração que praticamente perdera a hora de sua missão cósmica a partir do lançamento do Sputnik.
Hoje penetrava, como fato mais consumado, nos recantos mais íntimos, de Tóquio a Lisboa, de São Francisco a Moscou.
“Não estamos sós no mundo. Nós, os terráqueos, não somos os únicos. Outros seres existem. E alguns deles não são nossos amigos.”
Pouco depois Perry Rhodan dirigiu um apelo pessoal aos governantes da Terra. Fê-lo na qualidade de primeiro presidente da Terceira Potência. E a mensagem foi coroada de êxito. Desta vez os representantes eleitos foram obrigados pela vontade popular a percorrer o caminho que conduzia para Perry Rhodan, no deserto de Gobi, para estabelecer a união definitiva da humanidade.
As condições feitas aos DI eram inequívocas e não admitiam qualquer discussão. Os monstros tiveram oportunidade de aguardar na órbita de Marte até que uma de suas naves os levasse de volta ao seu mundo natal. Mas esse tratamento humano não os iludia quanto ao fato de que não teriam a menor chance contra a humanidade.
— A forma de expor a situação ao seu governo depende exclusivamente dos senhores — foram estas as últimas palavras que Rhodan lhes dirigiu. — Os homens e os arcônidas são aliados, e daqui por diante proibem-lhes qualquer violação da área submetida à sua soberania. Mantenham-se dentro dos seus limites cósmicos, e poderemos ser amigos.

* * *

Quando os últimos embaixadores dos governos terrenos deixaram o deserto de Gobi, levando notícias conciliadoras e esperançosas aos seus povos, dez mutantes encontravam-se diante da Good Hope, que estava pronta para decolar. Terminado o treinamento preliminar, seriam transferidos para Vênus, onde o curso hipnótico ministrado pelo grande cérebro positrônico lhes daria o preparo definitivo, que os habilitaria ao ingresso no exército secreto de mutantes da Terceira Potência.
— Vencemos por hoje, e talvez por amanhã — disse Rhodan por ocasião da despedida. — Mas convém que saibam que segundo o cérebro não é impossível que surjam novas complicações.
Dependemos uns dos outros. Eu dependo de vocês, vocês dependem de mim. Devemos ficar vigilantes e nunca podemos deixar de aprender. Nosso caminho para o universo é longo e obscuro. Ajudem-me a encontrá-lo e percorrê-lo em segurança.



*         *
*




A Terceira Potência obrigou os DI a bater em retirada, repelindo uma invasão vinda das profundezas do espaço, invasão esta a que o restante da humanidade teria de assistir completamente indefesa.
Perry Rhodan e seus homens sentem-se orgulhosos. Mas também estão preocupados, pois sabem que para a Terceira Potência, e posteriormente para toda a humanidade, vai ter início a Era Galáctica.
O décimo volume da coleção Perry Rhodan, intitulado Batalha no Setor Vega, nos conduzirá ao limiar dessa era.

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