No hotel,
Bell e Marshall entraram em contato pelo rádio. Não era aconselhável realizar
uma demonstração de alpinismo na sacada à plena luz do dia.
Bell teve a
decência de reconhecer que falhara por completo. Em compensação sentiu-se
consolado pelo êxito de Marshall.
— Sabe que
Cannon não desconfia de nada?
— Não
desconfia de que tenho a intenção de atraí-lo para o deserto de Gobi. Mas de
resto desenvolve uma atividade que nos poderá custar a vida.
— Não vá me
dizer que em tudo isso existe um ponto fraco.
— Um ponto
muito fraco. Você terá de ir a Nova Iorque ainda hoje, Bell. Cannon planeja um
ataque contra Adams.
— Ele lhe
disse isso?
— Pensou.
Com toda nitidez. Um possuído de nome Porter entrará em contato com ele e
marcará encontro em Staten Island,
onde um DI autêntico estará à espera, para apossar-se dele. Acho que você devia
estar presente quando isso acontecer.
— É claro
que estarei presente. Partirei dentro de uma hora. Quando é que esse misterioso
Porter tomará o avião?
— Hoje de
tarde. Você ainda dispõe de algum tempo. Os DI não agirão antes do escurecer.
— O.K.! Se
tudo der certo, dentro de vinte e quatro horas conduzirei um DI autêntico à
presença de Rhodan. Será um achado importante.
— Nem tanto
— disse Marshall, dando uma risada. — Cannon pretende levar seu corpo. Pensa em
levar uma bagagem enorme. Gostaria de saber qual será o conteúdo declarado.
— Por que
será que vai levar seu verdadeiro corpo, que só pode traí-lo? Além disso, não é
necessário que o mesmo se encontre nas proximidades quando surgirem
complicações. Pelo que diz Crest, o retorno pode ser realizado a uma distância
muito grande.
— Mas não o
salto para o corpo de outro homem.
— Qual é o
significado de tudo isso?
— O sujeito
tem um plano muito simples. Assim que estiver no interior da cúpula, pretende
deixar o corpo de Cannon e saltar para o de Rhodan.
Reginald
Bell ficou devendo a resposta por algum tempo.
— Marshall!
Estamos brincando com fogo! Não deixe de avisar Rhodan.
— É o que eu
pretendo fazer. Boa viagem! Dê lembranças a Adams.
V
Realmente a
mala de Clive Cannon tinha o tamanho descomunal que seria de esperar face às
informações de Marshall.
— O quê?
Pretende carregar tudo isso, Cannon?
O chefe da
gangue Blue Bird deu um sorriso.
— Está
pensando que carrego vinte e quatro dúzias de camisas, não é?
— Seria
antes tentado a pensar que fosse um jacaré. Como sabe, ainda não existe nenhum
jardim zoológico no deserto de Gobi. Se pensa em dar um presente a Rhodan, deve
pensar em outra coisa.
— É um
presente. Mas não vou trocá-lo mais. Acredito que Rhodan ainda tenha conservado
o sentimento do romântico.
— Você me
deixa curioso. Um esquife pode ser uma coisa romântica, mas um defunto seria um
presente de mau gosto. Abra logo, Cannon! Estou interessado em conhecer sua
idéia.
Cannon abriu
a tampa da mala. Viu-se uma réplica de cerca de dois metros da Stardust, que
fora a primeira nave terrena a bordo da qual Rhodan atingira a Lua.
— Não estou
em condições de oferecer uma maravilha técnica ao seu chefe. Os arcônidas são
melhores fornecedores para esse tipo de produto. Mas isto aqui é um monumento
digno de um homem como Rhodan. É romântico, sim. Fale com franqueza, Linker.
Será que Rhodan vai gostar, ou será que vai achar que sou um esquisitão? Não
quero causar uma impressão desfavorável. Você compreende?
Por um
instante John Marshall sentiu-se perturbado. Piscou os olhos e passou a manga
do paletó pelo rosto.
Finalmente
esboçou um sorriso.
— Posso
tranqüilizá-lo, Cannon. Em matéria de romantismo, Perry Rhodan não fica atrás
de você. Mande a mala ao aeroporto. No deserto de Gobi haverá um lugar condigno
para a Stardust.
Foram ao
aeroporto.
Parecia
antes uma excursão despreocupada de fim de semana. Não foram acompanhados por
qualquer escolta armada. Numa das pistas laterais do aeroporto, um pequeno
avião particular estava à espera. Os membros da Terceira Potência dispunham de
um aparelho desses em qualquer uma das maiores cidades da Terra. A grande mala
já fora colocada no compartimento de carga.
John Marshall pilotou o avião. Quando
atingiu a altitude de vinte mil metros, ligou o piloto automático e reclinou-se
confortavelmente. Por algum tempo os dois homens conversaram sobre assuntos
banais. Era uma conversa igual à que todo mundo costuma entreter sobre as
condições atmosféricas e os tempos difíceis. Uma conversa insignificante, já
que nenhum dos dois estava disposto a falar abertamente sobre as coisas
importantes que lhes enchiam o espírito. Marshall tinha a vantagem de poder
sondar os pensamentos de seu interlocutor. Encenou um bocejo e disse que havia
dormido mal.
— Ainda
dispomos de duas horas. Bem poderíamos aproveitar para um cochilo.
Clive Cannon
aceitou a sugestão e calou-se. O silêncio fez com que os pensamentos se
desenvolvessem em toda a plenitude.
Marshall
sentiu um calafrio.
Seria um
homem que se encontrava a seu lado? Ou seria um monstro?
Muito antes
da decolagem já sabia o que vinha a ser esse esquife que imitava a Stardust.
Havia dois esquifes! O que se encontrava a bordo não representava uma simples
imitação de foguete. Continha uma das metades de Clive Cannon, a que lhe faltava
para ser um homem de verdade. E continha o corpo do Deformador Individual, que
representava a prisão do espírito humano de Cannon.
Até esse
espírito emitia suas radiações, embora o recinto em que se encontrava o
forçasse a uma situação de morte aparente. Não podia defender-se nem
manifestar-se. Mas vivia e sentia a prisão representada por aquele corpo
monstruoso. Disse ao telepata que se encontrava num inferno que nenhuma palavra
de qualquer língua humana poderia descrever.
John
Marshall aguardava ansiosamente que a hora de pouso chegasse. Sentiu os limites
de sua resistência mental. Mais duas ou três horas de confinamento naquele
recinto minúsculo com os pensamentos martirizantes e ameaçadores dos dois seres
que haviam trocado de corpo o teriam levado à loucura.
Finalmente
chegaram ao deserto de Gobi. Ao território soberano da Terceira Potência.
Seguiram-se
os contatos habituais e a regulagem positrônica para a penetração na cúpula
energética, que só seria aberta por alguns segundos. O jato pousou na vertical.
Perry Rhodan
transmitiu as últimas instruções. Destacara poucos homens para recepcionar o
avião procedente de Chicago: o Dr. Manoli, o Dr. Haggard e o teleportador Ras
Tshubai.
— A palestra
será conduzida por mim — voltou a explicar Rhodan. — Só intervenham quando eu
lhes der ordem para isso. E, o que é mais importante, não peçam a Cannon que
mostre seu estranho presente. Se o fizerem, ele se verá obrigado a agir.
Prefiro que o momento em que isso deverá acontecer seja escolhido por mim.
Apenas faço questão de que se mantenham vigilantes, conservem o autodomínio e
estejam prontos para atirar a qualquer instante. Não deixem Cannon perceber que
reconheceram o monstro encerrado em seu corpo.
O visitante
foi recebido com honras de chefe de Estado; apenas faltaram os jornalistas e o
desfile militar. Enquanto Rhodan acompanhava Clive Cannon ao seu escritório,
dois robôs aguardaram até que os dois tivessem desaparecido no interior do
edifício. Após isso, dirigiram-se ao compartimento de carga do aparelho que
acabara de pousar e, com o cuidado que lhes era peculiar, retiraram a enorme
mala. Colocaram-na numa barraca próxima e, seguindo as ordens recebidas,
ficaram de sentinela nas imediações.
Nesse meio
tempo, os dois homens haviam chegado ao escritório de Rhodan.
— Pelo que
sei, nosso amigo já lhe explicou os pontos fundamentais.
— Só assim
consegui convencer Cannon a aceitar o posto de que se trata — disse John
Marshall.
— É verdade
— disse o homem possuído pelos DI. — Em linhas gerais estou orientado e disposto
a aceitar o cargo que me destinam. E quero agradecer pela oportunidade de
conhecer pessoalmente o grande centro, que já se tornou legendário.
— Seu desejo
era perfeitamente plausível, Cannon. Como sabe, concordei imediatamente.
Todavia, há de convir que na situação atual a Terceira Potência adote algumas
medidas de segurança.
— O que quer
dizer com isso?
— Qualquer
visitante é submetido a um exame, para que se verifique se não está possuído
por um DI.
— Naturalmente.
Linker já me falou a respeito disso. Pelo que diz, dentro de poucas semanas
construirão um aparelho que lhes permitirá detectar imediatamente qualquer
infiltração de um DI.
Esta frase
deu início ao duelo.
Clive Cannon
e a substância estranha que se encontrava em seu interior estavam num estado de
extremo alarma. O sinal fora dado. Uma cadeia de reações múltiplas comprimia-se
numa fração de segundo.
O medo inato
da morte existente no DI procurou ocultar-se atrás da tranqüilidade do corpo
humano. Mas o choque era forte demais. Clive Cannon não pôde deixar de
enrijecer na poltrona e lançar um olhar martirizado para o lado.
Viu cinco
pistolas apontadas para ele.
Como que
resignado, reclinou-se na poltrona e voltou a oferecer um aspecto descontraído.
— Que susto,
Rhodan! Quer fazer uma demonstração do seu método?
— Não é uma
demonstração, mas uma aplicação. É claro que não podemos deixar de examiná-lo.
Se for um homem normal, nada lhe acontecerá. Mas se houver um DI dentro de você
nós o agarraremos dentro de poucos minutos.
— Com essas
pistolas? — riu Cannon.
— Isso
mesmo! — confirmou Rhodan. — Antes que atirássemos, o DI teria de abandonar o
corpo humano para retornar ao seu próprio corpo. E o verdadeiro espírito de
Cannon, que seria trocado, nos revelaria tudo.
— É verdade.
Mas o DI teria escapado.
— Talvez
não, Cannon. Continuemos no seu exemplo. Admitamos que seu corpo de DI se
encontre depositado nas proximidades. Nesse caso seria de supor que o DI se
lançasse imediatamente a um ataque a outro homem. Escolherá o homem mais
importante que se encontra à disposição. Eu, por exemplo.
— Naturalmente.
Como exposição teórica tudo isso é muito interessante.
— Procure
acompanhar meu raciocínio. O que poderia fazer a Terceira Potência para se
proteger contra um ataque desses?
— Não sei.
Para ser franco, nunca me ocupei com esse tipo de idéia. É verdade que ouço as
notícias de hora em hora e costumo ler os jornais.
— Pois eu lhe
direi. Teríamos de localizar o corpo originário do DI. Teríamos de vigiá-lo
para matá-lo no momento
adequado. Com isso repeliríamos o ataque contra minha pessoa e livraríamos a
humanidade de um observador.
A observação
telepática realizada por Marshall foi acompanhada de grandes dificuldades, pois
havia gente demais por perto. No entanto, nessa altura da palestra a atividade
cerebral de Cannon se intensificara tanto que suas emissões se colocaram em
primeiro plano.
— É verdade
— disse Cannon lentamente e sem muita convicção. — Teriam de localizar o corpo
do DI e matá-lo.
Todos viram
que Cannon tremia. Todos esperavam a mudança de seu ego. Mas ao que parecia o
monstro também estava interessado em receber informações. A exposição de Rhodan
assustava-o e cativava-o ao mesmo tempo. Ainda hesitava.
— Ainda
haveria outra possibilidade — explicou Rhodan em tom de mistério. — O DI
poderia desistir de qualquer outra atividade e se entregaria. Com isso salvaria
a vida.
Clive Cannon
soltou uma risada estridente e descontraída.
— Para isso
você teria de saber onde está seu corpo. Como vai encontrá-lo?
O chefe da
Terceira Potência apontou para uma fileira de botões que havia em sua mesa.
— Veja! Se
eu comprimir um destes botões, surgirá um impulso que desencadeará a atividade
de dois robôs. Esses robôs sabem atirar. Neste instante estão postados perto da
grande mala que, segundo você diz, contém o objeto com que quer me presentear.
Para o DI o
dilema estava completo.
Levantou-se
de um salto, deu um grito desumano e precipitou-se em direção a Perry Rhodan.
* * *
De Chicago a
Nova Iorque só era um pulo.
O avião de
Reginald Bell aterrizou pelas dezesseis horas. Depois de cumprir, as
formalidades junto às autoridades do aeroporto, pediu a um carregador que
levasse sua volumosa bagagem ao Cumberland Hotel, onde pediu um apartamento.
Após,
dirigiu-se imediatamente ao edifício da GCC. Sentiu-se contente porque iria
rever Homer G. Adams, que era um homem pequeno, com uma cabeça grande e muito
inteligente. r
Foi recebido
por Lawrence, secretária de Adams. Cumprimentaram-se efusivamente.
— Boa tarde,
senhor Bell. Que bom vê-lo por aqui. Mandarei preparar um bom café.
— Está bem.
Mas não seria preferível servi-lo no gabinete do chefe?
— Ah, sim, o
chefe. Hoje o senhor Adams já fez três viagens de negócios com uma extensão
média de quinhentos quilômetros. Terá de esperar um pouco. Vivo dizendo a ele
que está exagerando; já não é tão jovem assim.
— Acha um
elogio destes muito diplomático?
— Nem sei se
no caso dele a diplomacia adianta alguma coisa. O senhor Adams sempre faz
exatamente aquilo que acha certo. Não se deixa influenciar por ninguém.
— Nem mesmo
por uma mulher bonita?
— Ora,
senhor Bell! Que intimidade!
Os dois
riram e combinaram que Reginald Bell tomaria seu café na sala de Lawrence. A
secretária também serviu biscoitos e pediu a Bell que contasse o que havia.
— Daqui a
pouco. Antes gostaria de saber aonde Adams foi e quando deve voltar.
— Bem, hoje
já veio aqui por duas vezes um sujeito que lhe quer apresentar um artefato
pronto para ser patenteado. Não sei nada sobre os detalhes de ordem técnica.
Mas ao que parece é uma novidade muito promissora, coisa que geralmente não se
pode dizer dos inventores que diariamente aparecem por aqui. Há quinze minutos
o chefe voltou de Albany. O homem já estava esperando há algumas horas. Por
isso logo saíram juntos. Pretendiam ir a Staten
Island.
Bell saltou
na poltrona.
— Staten Island? Tem certeza?
— Absoluta.
Isso é tão importante?
— Sabe o
nome do sujeito?
— Espere aí!
É Porter.
— Ora,
Porter! Que diabo! Sabe que esse Porter é um homem possuído pelos DI? Vamos
embora! Não temos um segundo a perder.
Arrastou
Lawrence para o primeiro elevador e subiu à cobertura. Abriu a porta de um
helicóptero da companhia e empurrou a moça para dentro dele. Só voltou a falar
depois de ter colocado a máquina no rumo sudoeste.
— Staten Island é muito grande. Adams fez
alguma indicação mais precisa sobre o lugar?
— Só disse
que iriam a Relling Docks. É tudo que
sei — disse a moça com a voz ofegante. Ainda trazia muitas perguntas engatilhadas,
mas estava tão nervosa que não conseguiria dizer nada que fizesse sentido. A
idéia de que seu chefe poderia estar prestes a cair nas mãos dos DI foi um
choque tremendo.
Bell
explicou em poucas palavras o que soubera em Chicago.
— Fizemos um
erro de cálculo. Supúnhamos que Porter também sairia de Chicago. Agora sei que
reside em Nova Iorque, o que lhe permitiu comparecer ao seu escritório assim
que recebeu as instruções de Cannon. Enquanto isso ainda fui almoçar
tranqüilamente em Chicago.
Atravessaram
a Upper Bay.
— Conhece
isto aqui? — perguntou Bell.
— Siga mais
pela direita, em direção â Newark Bay.
Vê aquele telhado vermelho? Deve ser por ali.
O
helicóptero desceu. Reconheceram navios, barcos, automóveis e gente. Mas ainda
não tinham notado que aquela gente estava fugindo.
Só depois de
terem pousado perceberam que se encontravam numa verdadeira fornalha do
inferno. Centenas de trabalhadores, inclusive mulheres, corriam para o oeste,
dominados pelo pânico.
— Que diabo!
O que é isso?
Bell abriu a
capota de vidro plastificado. Subitamente viu um homem pendurado no
helicóptero.
— Vamos! Vou
com o senhor. Decole logo, se preza a vida.
— Um
momento! O que está havendo por aqui?
— O que está
havendo? — disse o homem com uma risada histérica. — O que está havendo é que
os DI acabam de aterrisar. Ali, atrás daquele pavilhão. Vamos logo, homem! Não
fique fazendo perguntas.
Subindo ao
caixilho da porta, o homem brandiu uma barra de ferro.
* * *
Homer G.
Adams não desconfiara de nada. Diariamente apareciam inventores por ali.
Geralmente tratava-se de gente amalucada, que há vinte anos vinham sacrificando
diariamente umas três ou quatro horas do seu lazer para descobrir o perpetuum mobile. Porter parecia mais
objetivo. Além disso, não falou no perpetuum
mobile, mas numa câmara de combustão eletrônico-dinâmica que, utilizando as
linhas de energia existentes no espaço cósmico, proporcionava uma economia de
cerca de noventa por cento da energia suprida pela nave.
Adams só
percebeu a armadilha quando já era tarde. Porter introduziu-o num pavilhão.
— Meu
laboratório fica aqui. Dentro de poucos minutos estará convencido.
Atrás da
porta não havia nada que se parecesse com um laboratório. O pavilhão estava
vazio. Sua decoração consistia apenas em cinco Deformadores Individuais, que se
aproximavam a passos lentos e comedidos.
Adams não
teve tempo de assimilar em sua mente analítica a impressão ótica daquele quadro
monstruoso. Os corpos de formato quase humano de quatro braços e duas pernas,
as cabeças de inseto com os olhos salientes — tudo isso perdeu seu significado
sob os efeitos do ataque mental que foi desencadeado imediatamente. Adams não
sabia qual dos cinco seres procurava penetrar em seu interior. Apenas sentiu a
dor cruciante que penetrou em seu cérebro que nem um escalpelo e parecia
desmanchá-lo.
Percebeu que
caiu ao chão, mas não sentiu o impacto.
Logo um
saber estranho misturou-se à dor.
Era um
sentimento de triunfo.
“Pegamo-lo. Você é nosso. Pegamos Homer G.
Adams. A cidade de Nova Iorque é nossa. Você irá para onde eu mandar.”
Ao mesmo
tempo que estava deitado de costas, Adams permanecia de pé, inclinado sobre seu
próprio corpo. Pouco importava que esse paradoxo não podia ser verdadeiro. E
pouco importava que o corpo estendido no chão pertencia ao homem, e o que se
encontrava de pé, ao Deformador Individual. O que importava era que tinha uma
dupla visão de si mesmo.
As imagens
sobrepunham-se e penetravam-se como as de um filme submetido a dupla exposição.
O olho do homem refletia-se nos milhares de entrelaçamentos do olho facetado do
DI. Adams até se esqueceu da dor provocada pela indefinição do seu ego. Viu-se
a si mesmo numa ânsia de conquista. Também se viu num pânico, que fez com que
quisesse voltar e se precipitar para o nada.
A hora do
ataque aberto dos Deformadores Individuais à cidade de Nova Iorque havia
chegado.
Sabiam qual
era o momento combinado. Os DI e os homens possuídos.
Porter
percebeu a movimentação. Saltou para o caos e, usando o pânico fingido, lançou
o caos entre os homens. Os DI seguiram-no. Quatro desses seres saíram do
pavilhão. Ainda não era o ataque mental. Apenas quiseram agir através de sua
figura monstruosa. E conseguiram-no.
Nesse
instante o duelo entre Adams e o DI não teve mais testemunhas. Estavam a sós, e
cada um lutava com as armas que a natureza lhe dera. Lutaram por três minutos.
Fisicamente o homem era mais robusto. Mesmo que já tivesse deixado a juventude
para trás e fosse de estatura pequena e cabeça grande.
As mãos de
Adams penetraram profundamente na carne do inimigo. Uma substância córnea
estalou sob seus dedos, um líquido vermelho-escuro correu pelo chão de pedra
cheio de sujeira.
A dor
desapareceu. O monstro estava morto.
Adams
levantou-se exausto. Num movimento instintivo limpou o terno. O raciocínio
dirigiu-se a objetivos mais concretos. Ao perigo que ameaçava Nova Iorque.
Sabia o que os DI sabiam e agiu em conformidade com isso.
As docas de
Relling estavam desertas. Um porto abandonado em meio ao crepúsculo. Ao longe
algumas sereias uivavam.
Milhares das
posições mais importantes da metrópole foram ocupadas pelos DI. Do prefeito ao
chefe de polícia, do chefe de empresa ao coordenador das emissoras de rádio.
Números
extras dos jornais estavam sendo preparados. Neles se avisava que a saída da
cidade ou a divulgação de notícias não permitidas eram proibidas sob pena de
morte. Um anel começou a fechar-se em torno da cidade. Por quanto tempo ainda
estaria aberto?
Adams sabia
que não tinha um segundo a perder.
A volta a
Manhattan representaria uma perda de tempo irreparável.
Pegou um
carro estacionado junto ao pavilhão e fugiu em direção ao sul. Em algum lugar
encontraria um avião...
* * *
— Senhor
Bell! — gritou Jeanette Lawrence, apontando para a frente.
— Deixe de
ser idiota! — berrou o homem com a barra de ferro. — Ainda não percebeu o que
está acontecendo?
Reginald
Bell percebeu. Sabia que nessa altura seria inútil procurar Homer G. Adams. No
cais viam-se Deformadores Individuais. Não eram centenas; apenas quatro. Mas
esses quatro foram suficientes.
— Vamos!
Entre logo! Comprimiram-se na cabina feita para duas pessoas. Bell decolou.
Quando
pousaram na cobertura do edifício da GCC, o inferno estava às soltas nas ruas.
Exército e polícia patrulhavam os desfiladeiros de concreto de Manhattan.
Subitamente a distinção entre o homem e o possuído pelos DI perdera todo
sentido. O poder estava nas mãos dos DI.
— Não
compreendo! — Jeanette Lawrence estava chorando. — Não é possível que milhões
de invasores tenham penetrado na cidade.
— Acontece
que algumas centenas são suficientes. Se estes ocuparem as posições-chaves da
estrutura política e econômica, a massa estará impotente.
— Toda a população
de Nova Iorque contra algumas centenas? — A pergunta terminou numa risada
histérica.
— Pronto.
Sente e respire profundamente. Enquanto isso procurarei explicar por que não
temos o poder. Os DI conhecem-se uns aos outros. Mas nenhum homem pode ter certeza
de que o outro é um elemento leal. As pessoas sadias estão desunidas.
— Mas nós
dois sabemos que nenhum de nós foi possuído. Por que não transmite uma mensagem
a Rhodan?
— Porque não
é possível. Enquanto vínhamos para cá, você ouviu as instruções do prefeito.
— E o senhor
pretende segui-las? Por causa da pena de morte? Francamente, senhor Bell, eu
pensava que o senhor fosse mais corajoso.
— O que
adianta a coragem contra a violência técnica? Não faça drama, Lawrence. Tentei
estabelecer contato pelo rádio. Parece que você não percebeu. Não consegui.
Lawrence lhe
lançou um olhar de pavor. Não se conformava com sua atitude resignada.
— O senhor é
um DI, não é? Está possuído, senhor Bell. É claro! Só pode ser isso.
— Deixe de
tolices! Venha comigo.
Foram ao
gabinete de Adams. Pôs o rádio a funcionar e chamou Perry Rhodan. Esperaram por
alguns minutos. Não houve resposta.
— Compreende
agora? — gemeu Bell. — A proibição não passa de uma formalidade. Os DI
estudaram nossa mente por bastante tempo para poderem prever nossas reações.
Cobriram Nova Iorque com uma cúpula energética.
— Tal qual
Rhodan fez no deserto de Gobi?
— Em
princípio, sim. Mas pode ser que sua estrutura seja diferente. Pelo que diz
Crest, em nossa galáxia não existe nenhuma inteligência que saiba montar
cúpulas energéticas iguais às dos arcônidas. Além disso, nossa experiência só
demonstra que as ondas de rádio esbarram num obstáculo. Isso só prova que a
cúpula energética absorve as chamadas freqüências de rádio no espectro
eletromagnético. Falta verificar se a cúpula pode deter a matéria.
— Pois vamos
verificar.
— Como
poderíamos fazer isso?
— Com o
helicóptero, por exemplo.
— Para
sermos abatidos? Ou para esbarrarmos numa muralha invisível e cairmos?
Lawrence
olhou-o desesperada.
— Quer dizer
que tudo está no fim. Bell sacudiu a cabeça.
— Se agir
com a mesma coragem que acaba de exigir de mim, não estará.
— O que devo
fazer?
— Ser
valente e agüentar firme. Aqui mesmo, em Nova Iorque.
— Pretende
fugir sozinho? Senhor Bell, em certa ocasião o senhor Adams me falou em certas
hiperondas arconídicas. Pelo que diz, funcionam no espaço pentadimensional.
— Sei.
Acontece que os respectivos emissores só existem na Good Hope, no deserto de
Gobi e em Vênus. Ouça, Lawrence. Pesei todas as possibilidades. Fugirei sozinho
e levarei a notícia da conquista de Nova Iorque. Sou o único homem que dispõe
dos necessários recursos técnicos.
— Que
recursos são esses?
— Um traje
arconídico. Já ouviu falar a respeito, não ouviu?
A moça
arregalou os olhos.
— Sim,
senhor Bell, já ouvi. Dizem que no momento só existem dois trajes desse tipo.
Um deles se encontra em poder de Perry Rhodan...
— ...e o
outro está em meu poder. Aqui mesmo, em Nova Iorque. Possui um campo energético
capaz de desviar as freqüências visuais e as freqüências de rádio. Quando sair
de Nova Iorque, estarei invisível.
VI
— Mas que diabo, não
atirem! — gritou Perry Rhodan.
Deu um salto
para o lado. O pulo de Cannon foi terminar de encontro à mesa. Quando se
voltou, viu novamente as pistolas diante de si. Hesitou. Também hesitou em
realizar o salto para o corpo do DI. Não viu qualquer saída.
Marshall,
que captara seus pensamentos, explicou:
— Você ainda
tem uma terceira alternativa, conforme Rhodan acaba de explicar. Pode
entregar-se. Pelas leis terrenas, um prisioneiro não é morto enquanto cumprir
as instruções de seu custodiador.
Cannon
lançou um olhar indagador para Rhodan.
— Quais são
suas intenções?
— Queremos
negociar com você. Se chegarmos a um entendimento satisfatório, estarei
disposto que volte para junto dos seus na qualidade de enviado nosso. É claro
que não poderá fazê-lo na condição de homem.
— Por que
não permite que retorne logo ao meu corpo?
— Por que na
forma em que se encontra está mais bem guardado. Então, qual é sua decisão?
— Você vai
estabelecer condições, não vai?
— No momento
não estou em condições de esclarecer este ponto. As decisões são tão
importantes que prefiro não tomá-las sozinho. Nossa palestra será conduzida em
presença do cérebro positrônico.
Mais uma vez
alguma coisa se revoltou no corpo de Cannon.
— Você está
planejando alguma traição, Rhodan.
— Não julgue
os outros por si, Cannon. Já deve conhecer o funcionamento de um cérebro
robotizado. Se tivesse a intenção de matá-lo, não precisaria fazer tantos
rodeios.
Clive Cannon
acenou com a cabeça.
— Está bem;
aceito. Mas gostaria que fosse o mais rápido possível.
— Neste
ponto estamos de acordo. Eric e Ras, levem-no ao pavilhão e esperem por mim.
O Dr. Eric
Manoli e Ras Tshubai levaram Cannon.
Ao ver-se
sozinho com o Dr. Haggard e John Marshall, Rhodan perguntou:
— O que
andou pensando, John? Será que o sujeito está tramando alguma traição? Sabe das
minhas intenções?
— Quais são
suas intenções?
Nem mesmo
Marshall com seus dons telepáticos conseguia romper o bloqueio mental de Rhodan.
— Estou
pensando em negociar com os DI, se é que existe uma possibilidade para isso.
Sei perfeitamente que os invasores não suspenderão sua agressão com vistas ao
destino de um único desses seres. O mais importante é a pesquisa do cérebro
possuído pelo DI. Examinaremos Cannon e realizaremos medições em seu corpo sem
que ele o perceba. Ou será que percebeu alguma coisa?
— Não; neste
ponto não suspeita de nada.
— Muito bem.
Vamos!
Estavam
prestes a sair do escritório quando o radio receptor foi ativado
automaticamente.
— Adams
chamando Rhodan, Adams chamando Rhodan. Peço confirmar recepção para que
possamos iniciar imediatamente a troca de mensagens.
Perry Rhodan
deu um salto em direção ao quadro de comando do emissor.
— Aqui
Rhodan. O que houve, Adams?
— Graças a
Deus! Preste atenção! Estou no Canadá, mais precisamente a cinqüenta graus de
longitude oeste, junto à via férrea Quebec—Winnipeg.
— Como foi
parar nesse lugar? Isso fica praticamente na selva.
— Tome nota
do que segue, Rhodan: vi-me obrigado a fugir de Nova Iorque. A cidade foi
ocupada pelos DI, que a dominam completamente. A partir de ontem de tarde,
todas as notícias vindas de Nova Iorque passaram pela censura deles. Deve tomar
providências imediatas; se possível, mande-me buscar aqui. Tive de roubar um
velho avião a hélice; o combustível acabou.
Perry Rhodan
recebeu as notícias alarmantes com uma tranqüilidade extrema. A reação de um
robô não poderia ser mais objetiva.
— Pode dar
informações mais detalhadas sobre a situação em Nova Iorque?
— Não. Os DI
procuraram apossar-se de mim. Tive que desaparecer. Fugi imediatamente por Staten Island, em direção ao sul.
— Os DI
procuraram apossar-se de você? — Subitamente havia uma nota de desconfiança na
voz de Rhodan. — Gostaria de saber como conseguiu subtrair-se à influência
deles.
— Fique
tranqüilo, Rhodan. Tudo está em ordem comigo. Acho que você teve boas razões
para me admitir no seu exército de mutantes. Meu cérebro, que, pelo que dizem,
é fotográfico, possui capacidades que só ontem vim a conhecer. Encontrava-me a
sós com o DI. Foi uma luta honesta. O sujeito não conseguiu apossar-se de mim.
Ao que parece meu ego depende realmente das células de memória do meu cérebro.
Ficou grudado em mim e não quis sair. Quando o DI se lançou ao ataque, cheguei
a ter a impressão de que já tinha sido dominado. Já via através dos olhos
facetados. Sabia o que pretendiam os DI.
— Um
instante! Você acaba de dizer que não conhece a situação em Nova Iorque.
— Nem podia
conhecer. Tive que dar o fora. Mas acho que existe uma diferença entre os
planos dos invasores e a situação atual da cidade.
— Não seja
tão pedante, Adams. Quais eram os planos do inimigo?
Homer G.
Adams relatou o que sabia. E isso foi suficiente para os homens de Gobi.
Enquanto falava, Rhodan pensou nas medidas que devia tomar.
— Existe a
possibilidade de que os DI o tenham seguido?
— Não
acredito. Se me tivessem visto, não teriam deixado que saísse de Nova Iorque.
— Se é
assim, aguarde. Mandarei Ras Tshubai buscá-lo. Posteriormente fornecerei
indicações sobre as medidas a serem tomadas em relação a Nova Iorque. Mantenha
seu rádio ligado para a recepção. Aliás, em Nova Iorque por acaso ouviu falar
em Bell?
— Não. Por
quê? Ele ia para lá.
— Isso mesmo
— disse Rhodan em tom preocupado. — E chegou a ir. Mais um motivo para nos
preocuparmos com o destino da cidade.
— Não seja
por isso. Já me encontro na altura do fosso japonês.
Era a voz de
Reginald Bell.
— Santo
Deus, Bell. Tudo bem com você?
— Tudo bem.
— Não esteve
em Nova Iorque?
— Venho de
lá. O traje arconídico me ajudou a sair.
— Vocês não
são mesmo de brincadeira. Você deve chegar dentro de meia hora aproximadamente,
não é?
— Isso
mesmo.
— Pois bem.
Nossa conversa termina aqui. Tenho uma coisa importante a fazer.
* * *
Um cérebro
positrônico construído pelos arcônidas dispõe de estágios finais para vários
tipos de resposta. Pode transmitir os resultados através de alto-falantes,
fitas escritas, fitas magnéticas, fitas fotográficas, cartões perfurados de
origem terrena ou, o que vem a ser a mesma coisa, através de uma série de
impulsos gravados numa fita plástica. A gama disponível para a formulação de
perguntas é a mesma. Isso permitiu a Perry Rhodan operar por dois caminhos
distintos.
Falou pelo
microfone as perguntas formuladas em concordância com Clive Cannon. Mas o
trabalho mais importante, consistente na divisão seletiva do cérebro do DI no
corpo humano, foi convertido em símbolos através do teclado.
Dessa forma
obtinham-se, no espaço de vinte minutos, dois resultados distintos. Um deles
foi exibido ao prisioneiro de Rhodan.
— Como vê, o
cérebro é incorruptível. No momento não valeria a pena fazer de você nosso
emissário. O medo e a boa vontade não bastam para isso. Acho que devemos ter
paciência por mais alguns dias, para ver se não ocorre uma alteração no front
que predisponha seus companheiros para as negociações.
Cannon
conformou-se com seu destino. Se é que percebeu alguma coisa, foi a situação de
impotência em que se encontrava. Foi levado por dois robôs.
Para os
amigos Rhodan teve um olhar de otimismo.
— Leiam
isto!
Era a fita
escrita que trazia o resultado do exame realizado no DI.
— Encontramos
a solução — constatou o Dr. Haggard depois de um instante de silêncio. — Meus
parabéns, Rhodan.
— Ainda não
é a solução final para a construção de um aparelho telepático de alcance total.
Ao que parece, isso não fica ao alcance da nossa tecnologia. Mas no momento
podemos dar-nos por satisfeitos com o setor especializado que corresponde ao
cérebro dos DI. Foi o que conseguimos. Nas três fórmulas que estão escritas
aqui, encontramos tudo de que precisamos. A base de tudo continua a ser o
detector arconídico de ondas cerebrais. Ainda hoje introduziremos os dados em
cinco robôs. Estou convencido de que dentro de vinte e quatro horas teremos em
mãos o primeiro modelo.
— Nossos
robôs vão fazer isso?
— Sim,
nossos robôs — disse Perry Rhodan com um sorriso. — Evidentemente serão os que
trouxemos de Vênus. Conseguirão. Se não acreditar, doutor, estou disposto a
apostar.
— Agradeço!
Seu otimismo parece ser muito realista.
— Muito bem.
Nesse caso poderemos examinar o corpo do DI, que no momento abriga o ego do
verdadeiro Clive Cannon. Mas acabo de me lembrar de uma coisa. Já faz algum
tempo que não temos notícias de Mercant, não é?
— Ele ainda
dispõe de três dias.
— De
qualquer maneira acho que os acontecimentos que se desenrolaram justificam um
contato imediato.
Rhodan
chamou a base do Conselho Internacional de Defesa, situada na Groenlândia.
Mercant atendeu.
— Alô,
Rhodan. Alguma novidade?
— Alô,
Mercant. Aqui houve algumas novidades. Mas comecemos por aí. No caminho de
volta você pretendia visitar Adams.
— Isso
mesmo. Será amanhã.
— Deixe
disso. Nova Iorque encontra-se em poder dos DI.
— Não
brinque!
— Não estou
brincando. Adams e Bell foram as únicas pessoas que ontem conseguiram escapar.
Mercant
fungou.
— Escute aí!
Há meia hora conversei com meus colegas de Nova Iorque.
— E as
respostas que você recebeu passaram pela censura dos DI. Não se faça de mais
bobo do que é, Mercant. Regresse imediatamente ao nosso território. E traga todos
os homens que conseguiu recrutar para nossa causa.
— São
exatamente trezentos e quatro.
— Isso basta.
Providencie para que aterrissem aqui dentro de vinte e quatro horas o mais
tardar.
— Como
queira. Até a vista.
— Até a
vista.
* * *
Homer G.
Adams reclinou-se no assento do avião sem combustível para cochilar um pouco.
Subitamente sobressaltou-se. Não sabia por quê. Só sabia que alguma coisa havia
despertado uma reação em seu cérebro.
Olhou para o
chão, depois subiu às asas do avião, para ter uma visão mais ampla. Do zênite
ao horizonte não se via nada de suspeito. Só pastagens, extensões infinitas de
capim, nenhum homem, nenhum animal. Dali a dois quilômetros via-se a linha
férrea. Nada se modificara. Só lhe restava esperar. Dormir e talvez sonhar.
Teria
sonhado? Qual seria a origem das suas dúvidas?
Nunca tivera
qualquer problema de memória. Essa auréola grudara-se nele desde os tempos de
escola. Bastava-lhe ler um poema para sabê-lo de cor. Olhava uma série de
fórmulas matemáticas e guardava-as na memória. Acostumara-se a tudo isso e
acabara aceitando aquilo que diziam ser um gênio como um fato consumado.
E agora
sentia-se tomado de dúvidas?
Adams deu
alguns passos por entre o capim e regressou.
Começou a
refletir na sua tarefa. Era uma tarefa que no fundo era idêntica a de uma
especulação de bolsa.
“Fui um DI.
Isso mesmo. Em Staten Island parte do
meu ser foi possuída pelos DI. Olhei através de um olho multifacetado. Sabia o
que o inimigo sabia. Mas continuei a ser Homer G. Adams, e dei cabo do monstro.
Não conseguiram dominar-me. Nem destruíram minha memória fotográfica. Como
homem continuo a ser o mesmo.”
De repente
soube!
Parte da
mente do DI continuava no seu interior. Fortemente reprimida. Era muito
estranho para ele, que nunca esquecia nada. Estava ali como se fosse uma
sombra. No subconsciente.
E surgiu a
nova pergunta, que não poderia estar imbuída de maior dose de autocrítica.
“Por que fui
justamente ao Canadá? Para fugir dos Estados Unidos, onde os DI estavam
desencadeando sua invasão maciça?”
Não havia
lógica nisso. Os DI não se incomodavam com as fronteiras traçadas pelo homem.
“O que me
atraiu para o Canadá? Para estas terras de pastagem, onde o grau cinqüenta de
latitude cruza com o grau oitenta e cinco de longitude? Terá sido o
subconsciente?”
Adams
procurou reprimir essas idéias, que contrariavam as concepções geradas por sua
mente humana. Mas sentiu-se inclinado a ficar atento a elas. Havia alguma coisa
dentro dele.
Fechou os
olhos e procurou concentrar-se ao máximo. Por alguns minutos ficou sentado
assim, na sombra do avião. Depois levantou-se como que num estado de transe e
caminhou em direção à linha férrea. Eram dois quilômetros.
A dúvida
transformou-se em certeza. De repente soube. Soube o que o DI trucidado deixara
em sua memória.
Os nichos! A
cada cem metros havia um nicho no aterro da linha férrea. Um deles ocultava a
entrada para a caverna artificial.
Adams
caminhou com a segurança de um sonâmbulo. O primeiro nicho era o que procurava.
Havia um mecanismo oculto. Uma parede de concreto afastou-se, deixando livre
uma passagem sem degraus, que prosseguia num declive suave.
Mais de
duzentos corpos aparentemente sem vida. Nenhuma sentinela. Só os egos aprisionados
dos homens de corpos trocados tremeluziam no seu martírio psíquico sobre os
meandros cerebrais daqueles seres monstruosos.
Adams
voltou. Antes que chegasse ao avião, surgiu o aparelho de Ras Tshubai, que
vinha buscá-lo.
VII
O reencontro de tanta gente importante até mereceria uma festa.
Allan D.
Mercant voltara da Groenlândia, trazendo trezentos e quatro voluntários para a
força policial da Terceira Potência. Por sugestão de Rhodan, desistira da
escala em Nova Iorque. De qualquer maneira Homer G. Adams, que era a pessoa que
Mercant pretendia visitar, já havia chegado ao deserto de Gobi. Assim os dois
tiveram oportunidade de se cumprimentarem sob a proteção da cúpula energética.
A palestra,
conduzida em termos corriqueiros, cessou no momento em que Rhodan entrou na
sala. Os diversos grupos abriram caminho para deixá-lo passar. O chefe da
Terceira Potência teria algo a lhes dizer..
—
Companheiros! Procurarei ser breve. Tomei conhecimento das informações
recebidas por intermédio de vocês. Pelo quadro geral da situação concluo que
não nos resta muito tempo para inverter a corrente a nosso favor, a favor do
planeta Terra. Não pudemos exercer a necessária vigilância das pessoas mais
importantes do globo terrestre, porque não dispomos de telepatas em número
suficiente. Um ataque lançado pelo menos com duas naves permitiu ao inimigo
colocar em nosso planeta um número desconhecido de Deformadores Individuais.
Sabemos que depois da destruição de sua base situada no Tibet conseguiram
instalar outros pontos de apoio. Até chegaram a controlar uma das maiores
cidades do mundo. A população de Nova Iorque está isolada do resto do mundo,
embora se procure enganar o público, dizendo que tudo está normal. Vocês já
devem ter percebido como o inimigo é perigoso.
Rhodan pôs a
mão no bolso e tirou um instrumento que a maior parte dos presentes já conhecia
em suas linhas gerais. Apenas o formato exterior havia recebido algumas
modificações insignificantes.
— Já
conhecem o detector de modelos cerebrais. Aquilo com que sonhamos há muito
tempo, ou seja, o aperfeiçoamento do aparelho para transformá-lo num detector
de tipos de freqüência, acaba de ser conseguido, embora em escala limitada. A
definição exata de um cérebro humano possuído pelos DI tornou possível ao
cérebro positrônico fornecer a curto prazo dados novos que se revelaram úteis
ao aperfeiçoamento tecnológico. Este aqui é o detector de freqüências
aperfeiçoado. Ele nos permite identificar instantaneamente, por simples
leitura, qualquer homem possuído pelos DI. Já fiz a experiência com nosso
prisioneiro, Clive Cannon. Dentro de alguns minutos, vocês terão oportunidade
de ver o aparelho em funcionamento, para se convencerem de sua eficiência.
Mercant, os trezentos e quatro candidatos que desejam ingressar em nossa força
policial estão estacionados junto ao posto quarenta e dois, não é?
— Sim,
Rhodan.
— Iremos
todos até a saída nordeste do território bloqueado. Utilizaremos a nova
ferrovia local. Capitão Klein, você se encarregará da cúpula energética.
Manteremos contato sobre a faixa de ondas ultracurtas. Bell, você ficará de
plantão junto ao rádio.
Bell
confirmou com um ligeiro aceno de cabeça.
— Vamos! —
disse Rhodan.
Os trezentos
e quatro candidatos já haviam entrado em forma. Aguardavam o momento de entrar
no território bloqueado pela cúpula energética. Rhodan transmitiu um aviso
telegráfico a Klein, que retirou a cúpula energética. Para proteger o
território central, os três caças patrulharam toda a área. Tinham ordens para
abrir fogo sem aviso contra qualquer pessoa que tentasse penetrar no núcleo da
Terceira Potência sem que tivesse sido convidada. Além disso, mais de cem robôs
armados desfilavam diante da fronteira subitamente desguarnecida.
No caminho
Rhodan dera instruções detalhadas a Mercant.
— Seus
homens deverão passar pelo posto quarenta e dois em fila de um. Deverão passar
por mim a uma distância não superior a cinco metros. Se entre eles houver um
possuído pelos DI, darei um sinal. Prenda-o imediatamente.
Mercant foi
o único que se dirigiu à área externa a fim de transmitir aos seus homens as
necessárias explicações. Todos eles eram homens inteligentes e bem treinados.
Dentro de dois minutos teve início o desfile dos aspirantes a policial.
Fizeram
continência, como se estivessem num desfile militar. Rhodan agradecia,
respondendo aos olhares que lhe eram dirigidos.
John
Marshall contava automaticamente. Encontrava-se a um passo de Perry Rhodan.
— 257, 258,
259, 260, 261...
O engasgo de
Marshall e o movimento do ponteiro do detector foram simultâneos.
— Aquele
louro alto — disse Rhodan, dirigindo-se a Mercant. — Prenda-o.
— Tenente
Pirelli! Faça o favor de vir até aqui.
O tipo
nórdico de nome italiano estremeceu ligeiramente. Marshall cochichou:
— É um
deles!
Pirelli
hesitou.
— Que diabo,
tenente! — berrou Mercant, que de repente ficou furioso. — Quer um convite
escrito? Você está atrasando tudo. Continuem! 263...
Pirelli
obedeceu. A marcha daqueles homens prosseguiu.
— Um
instante, tenente! Seu rosto me faz lembrar uma pessoa que já vi. Daqui a pouco
quero falar com você — disse Rhodan e logo voltou a dedicar sua atenção aos
outros. Sabia que havia um número suficiente de armas engatilhadas para
liquidar Pirelli ao primeiro movimento suspeito.
John
Marshall prosseguiu na contagem até chegar ao número 304. Nem ele nem o
detector identificou outro indivíduo possuído pelos DI. Era uma boa média.
— Alô,
Klein! — disse Rhodan pelo interfone. — Feche a cúpula. A ação está concluída.
Dirigindo-se
a Pirelli, disse:
— Tenho uma
pergunta, tenente! Reflita bem na resposta. Você estaria disposto a servir de
intermediário nas minhas negociações com os DI?
O rosto de
Pirelli estremeceu ligeiramente. As pessoas entendidas sabiam que os
acontecimentos que se desenrolavam no interior do corpo e da mente daquele
indivíduo eram muito mais dramáticos.
— Não
compreendo, senhor!
— Você foi
identificado como um DI. Foi por isso que fiz a pergunta. Então?
— Como pode
afirmar que sou um DI, senhor Rhodan? Que blefe é esse?
— Quem faz
perguntas aqui sou eu, não você. Conforme a resposta que nos der, você será
utilizado na execução dos nossos planos ou será fuzilado aqui mesmo.
Pirelli deu
um salto para a frente, mas controlou-se antes que sua atitude pudesse ser
interpretada como uma ameaça.
— Está sendo
detido pelo medo — explicou Marshall. — Está em nossas mãos. Seu corpo de DI
não se encontra no raio de transplante. Infelizmente este cavalheiro não nos
dirá onde está. Desconfia de que sou um telepata. Procura confundir seu
pensamento.
— Está bem,
Marshall. Pirelli, você já viu o que sabemos. Se o fuzilarmos aqui, isso
representará a morte definitiva para você. Qual é sua resposta à minha primeira
pergunta?
Pirelli
procurou dar uma expressão de altivez ao seu corpo. Como não devia sentir-se o
ego covarde de um DI num corpo destes?
— Estou à
sua disposição, senhor Rhodan. Se ordenar que sirva de intermediário, obedecerei.
Acontece que minha posição subalterna não me permite dizer qualquer coisa sobre
as chances das negociações.
— Isso não é
necessário, tenente. Até amanhã ficará em isolamento. Terá dois guardas
robotizados ao lado de sua cama. Eles o matarão à menor tentativa de fuga ou
atentado. Amanhã receberá novas instruções. Muito obrigado.
* * *
Ainda havia
303 homens bem selecionados. Rhodan devia dirigir-lhes algumas palavras de
saudação, ainda mais que se tratava de um núcleo inteiramente novo que se formava
dentro da Terceira Potência. Mas voltou a falar em termos breves e
não-convencionais.
— Talvez um
dia possa dedicar-me melhor a vocês. Acontece que hoje não existe fortuna que
pague um segundo perdido.
Desejo-lhes
bom apetite para a refeição que já foi preparada. Daqui a pouco Reginald Bell e
o coronel Mercant lhes transmitirão as instruções necessárias.
No
escritório Rhodan manteve uma palestra num círculo bastante íntimo.
— Você é de
uma leviandade imperdoável — disse Reginald Bell assim que se ofereceu
oportunidade para falar, antes que Rhodan tocasse em qualquer dos assuntos que
compunham a agenda dos debates.
— Pretende
dar-me outra lição?
— O que está
em jogo não são minhas ambições pedagógicas, mas a sua segurança. Enquanto
aqueles homens desfilaram, você não usou a menor proteção. Procurou dissuadir
Pirelli da intenção de cometer um atentado. Acha que o olhar hipnótico será
suficiente para protegê-lo contra esse tipo de gente?
— Acho, sim.
Você se enganou com a atitude do Pirelli. Ao que parece você ainda não
compreendeu como é covarde o espírito que se oculta atrás dessas criaturas. Um DI
jamais cometerá um atentado se tiver que arriscar sua vida. Mas chega de
discussão! Tenho diante de mim as notícias mais recentes de todo o mundo.
Infelizmente devo constatar que para o bem intencionado torna-se cada vez mais
difícil ser acreditado pelos outros. A melhor prova são as acusações
incessantes que formulam contra nós. Farei uma última tentativa para convencer
o mundo. A população de Nova Iorque será nossa fiadora. Se é que algum
habitante deste planeta teve oportunidade de convencer-se da crueldade dos DI,
são os habitantes daquela cidade, violentada há três dias.
— Para isso
teríamos de libertar aquele contingente de oito milhões de seres humanos.
— Meu plano
é este. A usina robotizada já está fabricando a primeira série de detectores de
DI. Por enquanto encomendei quatrocentas peças.
— Quando
estarão prontos os aparelhos?
— Amanhã de
manhã. Todos os mutantes de que dispomos, com exceção dos telepatas, serão
equipados com os mesmos. Também os novos membros do contingente policial e
vocês, que são meus colaboradores mais chegados. Bell, você irá à Lua amanhã.
Leve duzentos homens e procure entrar em contato com o comando de robôs
estacionado na cratera Anaxágoras. Procure avaliar os resultados de sua
atuação. Caso a base lunar ainda não tenha sido precisamente localizada, você
ficará encarregado disso. Assim que descobrir o objetivo, entre em contato
comigo.
— Um simples
contato?
— Por
enquanto sim. O ataque pelo qual você deve ansiar não demorará muito. Apenas
pretendo golpear em todos os lugares ao mesmo tempo. Por isso você aguardará
minhas ordens.
— Está bem!
— E agora
você, Adams! Não me venha dizer que não tem talento para herói. Darei a você um
punhado de homens nos quais pode confiar. Talvez Ras Tshubai e vinte dos
policiais recém-engajados. Seu objetivo será a base canadense dos DI. Mas não
deve também iniciar nenhum ataque antes que tenha recebido minhas ordens.
— Como
queira, Rhodan — disse Adams no tom humilde que costumava usar nas raras
ocasiões em que sua fala não se ligasse ao dinheiro.
As últimas
instruções, e as mais detalhadas, foram transmitidas a Allan D. Mercant,
dirigente oficial do Conselho Internacional de Defesa e membro não-oficial do
exército de mutantes da Terceira Potência, dirigida por Perry Rhodan. Mercant
recebeu uma armada de seis planadores espaciais que dispunham de armamentos,
espaço de carga e velocidade suficientes. Sua missão era a libertação de Nova
Iorque.
* * *
Enquanto no
deserto de Gobi raiava um novo dia, o dia de Nova Iorque ia chegando ao fim.
As máquinas
haviam decolado.
Em primeiro
lugar o grupo de Mercant, seguido pouco depois por um avião de radiações
isolado que seguia em direção ao Canadá. A Good Hope foi a última. Embora seu
objetivo ficasse mais longe, teve que dar a precedência aos aviões
estratosféricos, já que a capacidade de aceleração que desenvolvia no espaço
compensava qualquer distância interplanetária.
Rhodan
estava só no edifício central. Desistira de qualquer espécie de assistência.
Preferira destacar os homens disponíveis para os três pontos críticos em que
seriam travados os combates.
Seu
assistente era a técnica avançada, que convergia no quadro de comando que tinha
diante de si. Conforme se esperava, a primeira mensagem veio da Lua.
— Alô,
Perry! Pousei sem incidentes na cratera Anaxágoras. A força policial está
saindo da nave. Voltarei a chamar depois que tiver estabelecido contato com o
comando de robôs.
— Obrigado e
boa sorte!
O ponteiro
do relógio continuou a avançar. O contacto seguinte.
— Estamos
cruzando por cima de Nova Iorque. Conforme previmos, não encontramos obstáculo
ao penetrar na cidade. Ao que parece o bloqueio só atinge os que querem
deixá-la. Pousaremos em seis aeroportos diferentes. A ação está sendo iniciada
conforme previsto.
Conforme
previsto. Isso significava que nos próximos trinta minutos os personagens mais
importantes da cidade seriam visitados por pessoas armadas. Seriam reconhecidas
prontamente como indivíduos possuídos pelos DI e receberiam o tratamento
adequado. As ordens de Rhodan eram terminantes. A luta contra os DI seria
conduzida sem a menor contemplação.
— Alô,
Rhodan! — Era a voz de Adams. — Acabo de pousar em cinqüenta graus de latitude
e oitenta e cinco de longitude. Meu velho avião permanece intocado.
— O.K.,
Adams! Tome posição junto à linha férrea e aguarde.
Por dez
minutos o rádio permaneceu em silêncio. Depois a voz de Bell voltou a encher o
recinto.
— Decolamos
em direção ao sul, pela face oculta da Lua. Dentro de três minutos pousaremos
na cratera de Mendelejw. O comando de robôs determinou a localização precisa da
base dos DI. Não há o menor sinal de vida.
As notícias
começaram a precipitar-se. Surgiam simultaneamente, através de faixas
substitutas. As fitas gravadas registravam-se para Rhodan. Dali a trinta
minutos a situação era a seguinte:
Três vigias DI
em plena atividade haviam sido mortos. Bell noticiou a descoberta de mais de
quinhentos corpos de DI imobilizados, cujo ego originário sem dúvida devia
encontrar-se na Terra.
Rhodan
interrompeu a mensagem:
— Basta de
detalhes. Os corpos dos DI devem ser colocados imediatamente a bordo da Good
Hope e trazidos ao território bloqueado da Terceira Potência. Quanto tempo
levarão para isso?
— Somos duzentos
homens. Em média o peso de um DI corresponde ao dobro de um homem. Com a
gravitação lunar isso vem a ser uns vinte e cinco ou trinta quilos. Levaremos
quinze minutos.
— Apresse-se,
Bell! Tenho muita necessidade da sua presa.
Também Adams
recebeu instruções para agir. Seu trabalho era muito mais difícil. Seus vinte
homens tiveram que colocar a bordo duzentos corpos de DI. É bem verdade que Ras
Tshubai logo os livrou das maiores preocupações. Por precaução o africano
trouxera o neutralizador, com o qual o peso dos corpos foi quase totalmente
eliminado.
Pelas onze e
meia a Good Hope pousou; o “comando Adams” chegou pouco depois. A Terceira
Potência tinha em seu poder 732 corpos, que foram depositados no seu
território, fora da cúpula energética.
Poucos minutos
depois a Good Hope decolou em direção a Nova Iorque, onde se amarraria ao
mastro do Empire State Building.
A Good Hope
era larga e parecia desajeitada. Oferecia um bom alvo, mas era inexpugnável.
Seus superemissores martelaram o apelo de Rhodan, dirigido aos homens e aos DI,
usando todas as freqüências disponíveis. A voz de Rhodan superava toda e
qualquer interferência, até uma potência de três mil quilowats. Não era só Nova
Iorque que o ouvia, mas toda a Terra. Os homens livres logo se colocaram a seu
lado. Três dias de ditadura dos DI em Nova Iorque bastaram para convencer a
humanidade de que só a Terceira Potência podia proporcionar-lhes um auxílio
eficaz.
Mercant veio
com cem detectores. A Good Hope trouxe outros trezentos, que já não eram
necessários na Lua ou no Canadá.
A guerra em
meio àquele oceano de prédios perdeu-se em episódios isolados. O conflito
desenvolveu-se de rua para rua, de prédio para prédio, de sala para sala. Os
homens de Rhodan estavam sós. E depois da primeira investida já não representavam
uma surpresa. Apesar disso, venceram. Poucos dos DI chegaram ao extremo. A
maior parte deles agarrou-se ao corpo que os hospedava, já que, afora umas
poucas exceções, seus corpos originários estavam fora de seu alcance. A noticia
do roubo dos setecentos corpos abandonados, depositados na Lua e no subterrâneo
do Canadá, levou o pânico dos invasores ao auge. Os DI haviam chegado ao fim.
O prefeito,
o chefe de policia e os sete senadores de Nova Iorque puderam subir a bordo da
Good Hope exatamente ao meio-dia, a fim de oferecer seu relato dos
acontecimentos. Os rostos dos primeiros homens libertados atravessaram o mundo
pela televisão.
— Repórter
do demônio? — Alguém soltou a observação a bordo da nave, evocando uma idéia
bastante corrente há cerca de um decênio. Mas havia um ponto de interrogação
atrás dessas palavras. Já havia a certeza de que a mensagem de Rhodan, que já
cobria todas as emissoras da Terra, tinha um sentido bastante sério.
Representava
um apelo dirigido a todos os terráqueos, representava o brado de alerta final
dirigido a uma geração que praticamente perdera a hora de sua missão cósmica a
partir do lançamento do Sputnik.
Hoje
penetrava, como fato mais consumado, nos recantos mais íntimos, de Tóquio a
Lisboa, de São Francisco a Moscou.
“Não estamos
sós no mundo. Nós, os terráqueos, não somos os únicos. Outros seres existem. E
alguns deles não são nossos amigos.”
Pouco depois
Perry Rhodan dirigiu um apelo pessoal aos governantes da Terra. Fê-lo na
qualidade de primeiro presidente da Terceira Potência. E a mensagem foi coroada
de êxito. Desta vez os representantes eleitos foram obrigados pela vontade
popular a percorrer o caminho que conduzia para Perry Rhodan, no deserto de
Gobi, para estabelecer a união definitiva da humanidade.
As condições
feitas aos DI eram inequívocas e não admitiam qualquer discussão. Os monstros
tiveram oportunidade de aguardar na órbita de Marte até que uma de suas naves
os levasse de volta ao seu mundo natal. Mas esse tratamento humano não os
iludia quanto ao fato de que não teriam a menor chance contra a humanidade.
— A forma de
expor a situação ao seu governo depende exclusivamente dos senhores — foram
estas as últimas palavras que Rhodan lhes dirigiu. — Os homens e os arcônidas
são aliados, e daqui por diante proibem-lhes qualquer violação da área
submetida à sua soberania. Mantenham-se dentro dos seus limites cósmicos, e
poderemos ser amigos.
* * *
Quando os
últimos embaixadores dos governos terrenos deixaram o deserto de Gobi, levando
notícias conciliadoras e esperançosas aos seus povos, dez mutantes
encontravam-se diante da Good Hope, que estava pronta para decolar. Terminado o
treinamento preliminar, seriam transferidos para Vênus, onde o curso hipnótico
ministrado pelo grande cérebro positrônico lhes daria o preparo definitivo, que
os habilitaria ao ingresso no exército secreto de mutantes da Terceira
Potência.
— Vencemos
por hoje, e talvez por amanhã — disse Rhodan por ocasião da despedida. — Mas
convém que saibam que segundo o cérebro não é impossível que surjam novas
complicações.
Dependemos
uns dos outros. Eu dependo de vocês, vocês dependem de mim. Devemos ficar
vigilantes e nunca podemos deixar de aprender. Nosso caminho para o universo é
longo e obscuro. Ajudem-me a encontrá-lo e percorrê-lo em segurança.
* *
*
A Terceira Potência obrigou os DI a bater em retirada, repelindo
uma invasão vinda das profundezas do espaço, invasão esta a que o restante da
humanidade teria de assistir completamente indefesa.
Perry Rhodan e seus homens sentem-se orgulhosos. Mas também estão
preocupados, pois sabem que para a Terceira Potência, e posteriormente para
toda a humanidade, vai ter início a Era Galáctica.
O décimo volume da coleção Perry Rhodan,
intitulado Batalha no Setor Vega, nos conduzirá ao limiar dessa era.

Nenhum comentário:
Postar um comentário