domingo, 7 de outubro de 2012

P-004 - O Crepúsculo dos Deuses - Clark Darlton [parte 3]


Perry teve a impressão de só ter fechado os olhos por um segundo. Quando voltou a abri-los, tudo continuava no mesmo. Perto dele, Bell estava reclinado na poltrona do doutrinador. Também se esforçava para abrir os olhos. No seu rosto havia uma expressão de assombro.
O doutrinador! Subitamente, Rhodan sabia como funcionava. As informações armazenadas eram reforçadas pelos dispositivos positrônicos, de onde eram conduzidas aos nervos cranianos, que as absorviam, transmitindo-as ao cérebro, onde eram depositadas no centro de memória. Esse centro, ampliado consideravelmente através de uma série de choques, recebia as informações e armazenava-as. Poderiam ser “retiradas” a qualquer momento.
Crest estava junto ao quadro de chaves.
— Podem levantar — disse, tranqüilo. — O treinamento foi concluído com êxito. Ambos receberam os mesmos ensinamentos; apenas achei recomendável que Perry obtivesse certa superioridade, mesmo em relação a você, Bell. A capacidade de enfrentar qualquer emergência com extrema rapidez foi ampliada-. Além disso, sua consciência sugestiva foi consideravelmente reforçada. Daqui em diante, nenhum homem normal deixará de executar prontamente as suas instruções, que equivalerão a verdadeiras vozes hipnóticas de comando. Sei que nunca abusará desse superpoder. Terá necessidade dele para executar aquilo que planejamos em conjunto. O seu saber... bem, constate por si mesmo.
Rhodan levantou-se.
— Não estou percebendo nada de diferente.
Crest sorriu.
— Então me diga qual é a raiz quadrada de 527.076?
— Setecentos e vinte e seis, por quê?
Rhodan proferiu o número com a calma de quem faz algo corriqueiro e natural. Só empalideceu de ter respondido. Bell segurou-lhe o braço.
— Ei! Também sei o resultado!
— O cérebro de vocês está calculando automaticamente com a velocidade da luz se me permitem esta expressão — explicou Crest. — Os cálculos são realizados no subconsciente. O pensamento consciente fica reservado para tarefas mais importantes Estão convencidos de terem passado por uma modificação?
Bell sacudiu a cabeça.
— E meu professor de matemática, que vivia dizendo que eu era um fracasso em toda a linha. Se visse uma coisa dessas!...
— Nos próximos dias, descobrirão mais coisas em sua mente. Não se assustem. O que vale é que dispõem de uma explicação natural para suas novas faculdades: o doutrinador e o saber formidável de nossa raça, que, agora, também pertence a vocês.
— Faço votos para que saibamos lidar com o mesmo.
— Tenho certeza de que saberão. Agora, acompanhem-me. Preciso falar-lhes. Nossas comunicações com o exterior estão interrompidas. As interferências provocadas por uma emissora impedem todo e qualquer contato. Um de vocês tem de sair da cúpula energética para colher informações. Não conseguiremos nada se ficarmos parados aqui. Os primeiros pavilhões já estão montados. Os robôs não podem continuar. Precisamos de material e mão-de-obra. Neste deserto surgirá um complexo industrial que deixará para trás tudo que já existiu neste mundo. Sem naves espaciais potentes nunca chegaremos a Árcon. E queremos mais que isso.
Rhodan fez que sim. Num espaço de poucos segundos, as visões arrojadas do futuro de que Crest lhe falara desfilaram diante dele. O império cósmico! Uma frota enorme seria necessária para instalá-lo e mantê-lo. Mas uma indagação surgiu em sua mente. Será que a humanidade estava madura para isso?
Ouviu sua própria voz.
— Eu mesmo irei. Só falta saber quanto tempo levarão para me descobrir.
— Ora essa! — disse Crest. A esta altura você já sabe os recursos técnicos de que pode lançar mão.
No mesmo momento, Perry lembrou-se. O centro de memória ampliado de seu cérebro forneceu a informação.
O equipamento dos arcônidas. Um microrreator fornecia a energia. A qualquer hora poderia montar uma minicúpula energética, que o protegeria de qualquer perigo. Os projéteis de pequeno calibre não poderiam atravessá-la. O defletor de ondas luminosas torná-lo-ia invisível aos olhos humanos. Um neutralizador gravitacional embutido conferiria ao portador do equipamento a capacidade de voar, percorrendo distâncias não muito longas, já que a velocidade seria reduzida.
— Como faço para sair da cúpula?
— Esta noite suspenderemos a cúpula por alguns segundos, muito embora você pudesse atravessá-la. Mas, antes disso, vamos combinar os detalhes. Thora está de acordo. Acabou reconhecendo a necessidade da colaboração, mesmo a contragosto.
— Era o que eu imaginava — disse Rhodan laconicamente.

* * *

Los Angeles, dois dias depois.
Num pequeno restaurante junto à estrada do aeroporto, Perry Rhodan estava sentado diante de um enorme bife, e procurava devorá-lo com toda a calma. Desde o dia anterior mantivera contatos com os diretores de grandes empresas industriais. Graças aos poderes de que era dotado, conseguira obter a promessa de grandes fornecimentos. E dera um endereço suposto, em Hong Kong.
Do lado de fora, um motorista esperava com o táxi.
Lá estava ele, sentado em meio aos homens que o consideravam seu maior inimigo. Não sentia o menor temor e não julgou necessário esconder-se. Seu retrato fora publicado em todos os lugares do mundo, mas até então, ninguém conseguira reconhecê-lo. Mesmo que isso acontecesse... Perry sentia-se absolutamente seguro com o equipamento dos arcônidas que trazia consigo. Sem que ninguém percebesse, usava uma vestimenta especial por baixo do terno comum.
Um homem tomou lugar na mesa ao lado. Os cabelos estavam penteados para trás. Dava a impressão de uma pessoa que cuidava muito bem da sua aparência. Um par de óculos escuros encobria os olhos. Tirou um jornal do bolso e mergulhou no noticiário econômico. Distraído, fez seu pedido ao garção e voltou à leitura.
Perry tornou a dedicar sua atenção ao bife. Teve que lutar contra um nervosismo súbito. Fazia dois dias que se afastara de sua base. A imprensa, de um modo geral, fazia de contas que a ameaça no deserto de Gobi não mais existia. Este silêncio estranho podia ser tudo, menos tranqüilizador.
E se, enquanto ele estava afastado, fosse iniciado o ataque que se esperava?
Saberiam defender-se, por certo, mas ele receava algum ato precipitado de Thora. Se não ficassem de olho nela, poderia empreender ações muito desastrosas, estragando os planos para o futuro. Nas negociações que travara no dia anterior, notara que nem todo mundo estava contra ele. Muito pelo contrário. Os industriais mais sagazes, perceberam as chances que se lhes ofereciam. E todos estavam plenamente cientes de que evitara uma devastadora guerra nuclear.
O que estaria fazendo Bell? Sem dúvida, a doutrinação lhe havia conferido novas faculdades de espírito e capacidades de que nem suspeitava, mas o caráter continuava inalterado. Não que Bell fosse dado aos atos impensados, mas sua impulsividade só teria o necessário freio com a presença de Perry Rhodan.
O cavalheiro da mesa ao lado guardara o jornal. Em sua testa viam-se algumas rugas. Ao que parecia, sua atenção concentrava-se no vizinho que acabara de afastar o prato vazio. Por várias vezes fez menção de levantar-se, mas parecia não ter certeza do que faria. Subitamente, pôs-se de pé e dirigiu-se à mesa vizinha. Parou diante de Perry Rhodan, lançou-lhe um olhar indagador e murmurou:
— Dá licença? Gostaria de fazer-lhe uma pergunta.
Apontou para a cadeira que se encontrava junto a Perry. Este, parecia perplexo. No seu íntimo, preparou-se para um eventual ataque. Um ligeiro aperto no cinto bastaria para cercá-lo de uma cúpula energética.
— Faça o favor.
O desconhecido sentou-se e esboçou um sorriso forçado.
— Talvez eu esteja enganado, cavalheiro, mas existem duas circunstâncias que me levam a crer que não é esse o caso. É verdade que a semelhança é um pouco vaga, mas tenho certeza de já tê-lo visto. Mas não foi apenas este fato que me fez supor que o senhor é Perry Rhodan. Não, não se assuste! Nem penso em traí-lo. O senhor fez muito por nós todos. Mas... não sei como lhe direi, senhor Rhodan. O senhor costuma ler jornais?
Perry sacudiu a cabeça.
— Ultimamente tenho lido muito pouco, quase nada. Mas, nos dois últimos dias...
— Há cerca de uma semana escreveram muito sobre mim, ao menos em Brisbane. Ninguém acreditou, mas é verdade. Sou John Marshall. Não sei se este nome lhe diz alguma coisa.
Perry recordou-se. Havia lido uma notícia breve e já a esquecera. Era algo sensacionalista, nada mais. Mas, de repente, a notícia voltara a ganhar importância. Seu raciocínio lógico entrou em funcionamento e em poucos segundos respondeu à indagação sobre os motivos por que aquele homem o reconhecera. Levantou as sobrancelhas.
— O senhor é a pessoa que tem capacidade para ler pensamentos, não é, senhor Marshall? Estava sentado na mesa ao lado e captou meus pensamentos, que estavam bastante concentrados. Foi assim que descobriu quem sou, não é mesmo?
John fez que sim. Perry sorriu.
— Quer dizer que a esta altura já é um perigo deixarmos nossos pensamentos vagando por aí. Há quanto tempo sabe fazer isso?
— Desde a infância, se bem que não tinha consciência da coisa. Só há uma semana percebi que sou telepata. Não sei por quê.
— Quando nasceu?
— Em fins de 1945.
As possibilidades relampejaram no cérebro de Perry, as combinações cruzavam-se, as conclusões se ofereciam — e a solução surgiu.
— Foi por causa de Hiroxima — disse. — As radiações. Deve haver outros mutantes.
— Mutantes?
— É. Trata-se de uma modificação do lastro hereditário, geralmente transmissível aos descendentes. As radiações influenciaram o seu cérebro em formação, antes de seu nascimento.
Por um instante, outra visão do futuro desvendou-se aos olhos de Rhodan. Os mutantes! Representavam uma perspectiva inteiramente nova. Se conseguisse reunir as maiores capacidades entre os mutantes da Terra e engajá-los na sua luta, formaria um exército invencível. E quem sabe se, mais tarde, não precisaria desse exército... Parou repentinamente, pois sentiu o olhar perplexo de John. Já ia se esquecendo de que seu interlocutor podia captar seus pensamentos. Num gesto automático, isolou o cérebro por meio de um bloqueio. Era outra faculdade que o doutrinador lhe havia conferido.
— Por que resolveu dirigir-se a mim?
John Marshall sorriu, meio sem jeito.
— Tive a intenção de utilizar minhas faculdades para um fim lucrativo — confessou com franqueza. — A partir de ontem, estou em negócios com várias instituições. Ofereceram-me quantias astronômicas. Mas acho que o destino me reserva uma missão mais importante. O senhor acaba de insinuar essa possibilidade em seus pensamentos.
Perry suspirou aliviado.
— Quer dizer que está disposto a trabalhar para mim?
— Estou.
— Ainda não estou em condições de lhe oferecer dinheiro.
— Existem coisas que valem mais que todo o dinheiro do mundo. Um ideal, por exemplo.
— Um ideal? O que quer dizer com isso?
— Por que o senhor luta contra todo mundo? Simplesmente pelo poder?
— Confesso que também luto pelo poder. Mas o próprio poder pode servir para a realização de um ideal.
— É isto mesmo. Estou à sua disposição, se me quiser.
Perry lançou-lhe um olhar perscrutador. Estava gostando daquele novo aliado, mesmo abstraindo das suas faculdades. Estendeu-lhe a mão. John retribuiu o aperto. Súbito, seus olhos se estreitaram por trás das lentes escuras e dirigiram-se para além de Rhodan. A expressão do esforço concentrado deu-lhe ao rosto um ar sério. Depois de alguns instantes, cochichou:
— Estão atrás do senhor, Rhodan. O carro que está estacionado junto ao seu táxi é da polícia. Dois homens acabam de descer. Não, não se vire. Estão falando com seu motorista. Agora vêm para cá, dirigem-se ã nossa mesa. E agora?
O cérebro de Perry trabalhou em ritmo vertiginoso. Um dos diretores com quem conferenciara deve ter revelado o fato, talvez sem qualquer intenção má. Os homens do CID não eram tolos. Depois de terem farejado uma pista, não desistiriam antes de capturar a caça.
Quando os dois homens de aparência absolutamente normal se aproximaram da mesa, Perry estava preparado. Fez um sinal quase imperceptível para John e colocou uma nota debaixo do prato. Depois, levantou-se.
— Encontramo-nos no aeroporto, a três quilômetros daqui. Dentro de uma hora. Espere por mim. Ninguém o importunará.
John retribuiu o sinal. Levantou-se e foi à mesa vizinha, fazendo de conta que nada tinha com o que estava acontecendo.
Os agentes hesitaram por um precioso segundo, depois aproximaram-se, resolutos. Um deles colocou a mão no bolso. O outro aproximou-se de Perry por trás e colocou a mão sobre o seu ombro.
— Perry Rhodan, em nome da humanidade...
Perry virou-se. Seus olhos cinzentos penetraram nos do agente.
— Que deseja?
— O senhor é Perry Rhodan...
— Sou Foster Douglas, se não se importar. Por que estão me importunando?
O homem hesitou. Parecia inseguro. Seu colega não estava tão impressionado. Tirou a mão do bolso. Nela se via uma enorme pistola.
— Rhodan, não faça tolices. Deixe as mãos no mesmo lugar em que se encontram e venha conosco.
Perry encarou-o.
— Sou Foster Douglas. Não chateie!
A cena começou a despertar a atenção dos freqüentadores do restaurante. Alguns viraram-se para acompanhar o desenrolar dos acontecimentos. John Marshall levantara-se e saiu tranqüilamente em direção ao ponto de táxi.
O outro agente, indeciso, baixou a arma. Alguma coisa lhe dizia que se enganara e que esse homem não era Perry Rhodan. No entanto... uma outra ordem ainda o importunava.
— Agora, os senhores me deixarão em paz — disse Perry encarando-os fixamente. — Não encontraram Perry Rhodan. Informem seus superiores nesse sentido, entenderam?
Um deles fez que sim. O outro ainda hesitava.
Perry deu-lhes as costas e saiu. Não se sentia muito bem, pois seu corpo não era imune a uma bala traiçoeira, mas só ligaria a cúpula energética em caso de extrema emergência. E não poderia sair voando em pleno dia. Mandariam caças atrás dele.
Os dois agentes ainda estavam indecisos quando ele entrou no táxi. O carro da polícia esperava logo atrás. O motorista segurava um microfone e falava muito. O comportamento estranho dos dois colegas representava, para ele, uma verdadeira charada.
— Vamos para o aeroporto — ordenou Perry.
O táxi saiu da área de estacionamento e, uma vez na estrada, aumentou a velocidade.
Os dois agentes superaram o choque. Pareciam despertar de um sonho. A mesa diante deles estava vazia e Perry Rhodan sumira. Os freqüentadores do restaurante olhavam-nos espantados. Lá fora, o carro os esperava. O táxi em que Rhodan viera já não estava perto do carro policial. Também havia sumido.
— É um truque! — gritou o homem que segurava a pistola, e correu para o carro, onde começou a gritar com o motorista:
— O que houve? Por que o deixou escapar?
O homem colocou o microfone no suporte.
— Eu o deixei escapar? Foram vocês que o deixaram ir embora. Não era Rhodan?
O outro agente também se aproximara. A pressão do cérebro tinha desaparecido.
— Foi hipnotismo! O sujeito nos enganou. Em que direção fugiu?
O motorista apontou para a estrada.
— Para lá. Em direção ao aeroporto.
— Vamos atrás dele! Dê alarma geral! O carro arrancou, derrapando na curva. Enquanto isso, John Marshall conseguia um táxi e chegava à estrada quase ao mesmo tempo que o carro dos agentes secretos. Reclinado no assento, procurou captar os pensamentos dos agentes exaltados. Mas nada conseguiu distinguir na confusão causada pelos emissores numerosos. Só lhe restou pedir que o motorista não perdesse de vista o carro preto.
Os três carros seguiam em disparada pela pista larga. Todos se dirigiam ao aeroporto. O primeiro, de Rhodan, levava uma vantagem considerável sobre os demais, que seguiam bem próximos um do outro. O tráfego intenso não lhes permitia uma velocidade maior mas, mesmo assim, Rhodan chegou ao aeroporto bem antes dos demais, pagou o táxi e entrou, apressado, no amplo hall, mergulhando na multidão que lotava o recinto.
Sereias começaram a uivar. De repente, policiais à paisana postaram-se em todas as entradas e saídas. Traziam as mãos nos bolsos, sinal seguro de que portavam armas. Os balcões das diversas empresas suspenderam as atividades. Os passageiros começaram a se inquietar. Um alto-falante começou a berrar:
— Mantenham-se calmos. A polícia acaba de cercar o edifício do aeroporto. Estamos realizando um exercício. Mantenham a calma. Continuem como estão.
Perry sabia que se encontrava num aeroporto civil. Mas também sabia que numa das extremidades do campo de pouso um caça-bombardeiro do CID estava pronto para decolar. Os tripulantes, quatro homens, deviam estar perto da aeronave.
Encontrava-se em meio a um grupo de comerciantes que vociferavam. A cinqüenta metros dali, John Marshall tentava se aproximar cautelosamente. Os dois agentes que vira no restaurante iam de um grupo a outro.
Perry Rhodan cerrou os dentes. Apertou um dos botões embutidos no cinto do equipamento dos arcônidas. O defletor de ondas luminosas entrou em funcionamento, tornando-o invisível.
Andando cautelosamente, para não esbarrar em ninguém, deslocou-se em direção a John. O antigo funcionário de banco sobressaltou-se quando sentiu, de repente, o toque vindo do nada. Mas os pensamentos de Perry logo penetraram no seu cérebro.
“Continue parado. Marshall. Estou invisível, não me encontrarão. Dessa forma, suspenderão a busca. Afinal, não podem fechar o aeroporto por horas a fio.”
John confirmou com um movimento da cabeça. Esperaram.
“Há um bombardeiro de alta velocidade estacionado na pista. Tentaremos alcançá-lo. Quer vir comigo?” John fez que sim. “Muito bem. Vá andando em direção à barreira. Assim que eu me tornar visível, grude-se em mim. Se necessário montarei uma cúpula em torno de nós. Assim, estaremos protegidos. Depois iremos ao avião. Entendido?”
John voltou a confirmar com um movimento de cabeça. Saiu andando devagar. Os passageiros começaram a se impacientar. Desrespeitaram as ordens da polícia saindo do lugar em que se encontravam. Ninguém pôde impedi-los.
John mostrou o passaporte. Deixaram-no passar pela barreira. Perry, invisível, seguia-o. Os dois homens estavam junto ao edifício, com o campo de pouso diante de si. Algumas aeronaves estavam com os motores ligados, aguardando os passageiros. Os funcionários das companhias e a polícia controlavam os passageiros que entravam.
“Continue andando”, pensou Perry.
John passou pelo primeiro avião. Viu o caça-bombardeiro estacionado à esquerda. Dois dos tripulantes estavam deitados embaixo de uma das asas, espreguiçando-se na sombra. O piloto examinava os trens de pouso. O quarto homem estava sentado na cabina, recebendo as mensagens radiofônicas. Do lugar em que se encontravam, não podiam vê-lo.
John foi andando tranqüilamente em direção ao avião. O piloto interrompeu seu trabalho, lançando-lhe um olhar curioso.
“Cuidado”, advertiu Perry. “Voltarei a tornar-me visível.”
O piloto e os tripulantes deitados embaixo da asa arregalaram os olhos quando, perto do desconhecido, subitamente outro homem se materializou a partir do nada. Só tiveram consciência da realidade porque era justamente por causa de Rhodan que se encontravam em regime de rigorosa prontidão. Quem senão Rhodan poderia estar em condições de tornar-se invisível a qualquer momento?
O radiotelegrafista surgiu à entrada do avião.
— Decole imediatamente! — ordenou Perry, lançando um olhar dominador sobre o piloto. — Iremos com você. Qual é a reserva de combustível? Será suficiente para cruzar o Pacífico?
O piloto já se recuperara da surpresa. Esboçou um sorriso débil. Mas o radiotelegrafista voltou à cabina e retornou com uma pistola. Apontou-a para Perry.
— Quem é o senhor?
— É Rhodan — disse o piloto. — Guarde a arma. Ela não lhe servirá de nada. Um homem que pode tornar-se invisível a qualquer momento saberá defender-se de uma bala. Não é verdade, senhor Rhodan?
— Você ainda não respondeu à minha pergunta.
— O combustível? Se desejar posso completar metade do caminho em volta à Terra. Entre. Apresse-se porque meus colegas já vêm vindo.
— As intenções dele são honestas — cochichou John ao ouvido de Perry. — Está com o senhor. É estranho.
— E os outros?
— Não sabem o que fazer.
Perry dirigiu-se ao piloto.
— Por que quer ajudar-me?
— O senhor me obriga, não é? Ei! Jim, Hal, vamos logo para dentro. Venha, Rhodan. Se demorarmos demais esses caras estarão aqui antes de decolarmos.
Perry manteve-se vigilante. Mesmo depois que o veloz caça correu pela pista e começou a ganhar altura, não perdeu a desconfiança. Afinal, essa gente era do CID — se bem que do capitão Klein podia-se dizer a mesma coisa. Não era por causa dos seus poderes de sugestão que a tripulação do bombardeiro lhe prestava auxílio. Faziam-no espontaneamente. Estavam com ele, contrariando as ordens que haviam recebido.
Enquanto o avião se deslocava para o oeste, atravessando o Pacífico, Perry teve um sentimento que parecia gratidão. Não estava só. Tinha amigos entre os homens, muito amigos. Subitamente, percebeu que a humanidade merecia governar o império cósmico, junto com os arcônidas.

* * *

O capitão Klein não estava bem disposto.
Parado na colina, olhava para o sul. A enorme nave esférica dos arcônidas destacava-se no horizonte. Perto dela, a Stardust parecia uma mancha escura, pequena e insignificante. As granadas detonavam a intervalos regulares na muralha energética que envolvia a base.
Bem abaixo de Klein, o solo vibrava, embora ele não o sentisse. As brocas faziam a galeria avançar numa velocidade assustadora. Os destacamentos especiais trabalhavam noite e dia. Lá no vale, um montão de terra se acumulava. As explosões pouco numerosas foram camufladas por meio de uma intensificação das salvas de artilharia.
Não havia qualquer possibilidade de prevenir Rhodan. Os agentes dos serviços secretos dos três blocos estavam à espreita nos postos avançados. A base do inimigo da humanidade estava totalmente isolada. Ninguém conseguiria aproximar-se sem ser percebido.
Embaixo da terra, a galeria já ultrapassara a linha que representava a continuação da cúpula sob o solo. Portanto, já estavam dentro da base. Bastava subir, e estariam na superfície, no interior da cúpula.
As máquinas especiais continuavam roendo a terra em direção ao sul e já se aproximavam do ponto previamente fixado; bem embaixo das duas naves. Dentro de dois dias, tudo estaria terminado. E a bomba de hidrogênio já estava a caminho da Ásia.
Klein ouviu passos atrás de si. Era Kosnow que se aproximava. O russo também parecia preocupado.
— Rhodan não se encontra na base — disse, em voz baixa, como se receasse ser ouvido ao longe. — Reconheceram-no em Los Angeles, quando tentou entabular negociações com alguns empresários. Pelo que dizem, conseguiu fugir num caça-bombardeiro do CID.
— Era só o que faltava — disse Klein, sorrindo. — Deve chegar daqui a pouco. O fogo será para valer.
— Tanto faz, desde que consigamos preveni-lo a tempo. Deve ser avisado do que pretendem fazer com ele. Daqui a dois dias a galeria começará a subir. O bombardeio será intensificado para abafar as vibrações. A bomba será detonada cinqüenta metros abaixo da superfície. Se isso acontecer, não sobrará coisa alguma de Rhodan e de seus amigos.
— Encontraremos um meio — tranqüilizou-o Klein. — Nem que eu mesmo vá até a cúpula para preveni-los.
— Ninguém conseguirá romper as áreas de bloqueio. Sabe muito bem que não confiam em nós. Não há dúvidas de que Mercant sabe do nosso ato de traição. Mas não faz nada. Quase chego a acreditar que, no íntimo, ele acha que Rhodan, e nós, temos razão. Mas, se for assim, por que permite o ataque? É isso que não consigo entender.
— Não lhe resta outra alternativa. Não pode dizer abertamente o que pensa. Ele sabe tão bem quanto nós que Rhodan agiu corretamente quando não permitiu que o poderio de que dispõe caísse nas mãos de um Estado, preferindo colocá-lo acima de todos. Mas não pode admiti-lo expressamente. Mas chegará o dia em que mesmo Mercant poderá dizer a verdade.
— E se Rhodan for destruído antes disso?
— Isso não vai acontecer. Se for necessário eu me sacrificarei. A bomba ainda está muito longe daqui. E a galeria ainda não foi concluída — completou Klein.
Lançaram um último olhar para a esfera distante e, caminhando em direção ao norte, desceram para o vale. Lá embaixo, os tratores empurravam para o fundo do vale a terra que as esteiras rolantes traziam da galeria. Em toda a parte viam-se grupos de técnicos. O coronel Cretcher e o general Tai-tiang conversavam.
Um homem surgiu correndo pela planície desolada, fez continência para os dois oficiais e entregou uma mensagem ao general. Este leu-a e passou-a ao coronel. Sem aguardar a resposta deste último, correu em direção a um dos abrigos subterrâneos. Cretcher ficou indeciso por alguns instantes, depois começou a andar em direção à galeria.
Kosnow franziu a testa.
— Aconteceu alguma coisa!
— Se andarmos depressa, poderemos alcançar o mensageiro. Talvez ele nos conte o que houve. Ei! O alarma! Deve ter sido algo de muito sério.
O telegrafista ia entrar em sua barraca quando Klein segurou-o pela manga do uniforme.
— O que houve?
— É Rhodan — disse o homem, um soldado chinês. — Roubou um avião...
— Isso nós sabemos desde ontem — interrompeu Kosnow. — E, por isso, não é preciso dar o alarma.
— É que ele vem para cá! Daqui a cinco minutos...
Klein olhou para Kosnow. Então era isso!
Deram as costas ao radiotelegrafista, ainda perplexo, e correram em direção à galeria. Se a notícia fosse correta, dali a cinco minutos as baterias entrariam todas em ação. Tentariam evitar a todo custo que Rhodan alcançasse sua base. Ou então...
Uma possibilidade relampejou no cérebro de Klein. Talvez nem deviam impedi-lo. Havia bons motivos para isso. Mas, será que o general Tai-tiang teria a mesma idéia?
— Vamos, Kosnow! Temos de falar com o general. Tive uma idéia.
Tai-tiang parecia espantado quando os dois agentes chegaram ao abrigo de comando. Fizera as ligações com as posições de artilharia e estava a ponto de transmitir as instruções adequadas.
— O que houve? Como se atrevem?...
— Revogue a ordem de fogo! — disse Klein.
— O que sabem a respeito disso?
— Rhodan apoderou-se de um avião e tentará pousar junto à base. O senhor pretende impedi-lo. Já pensou no que acontecerá depois? Ao perceber o perigo dará meia-volta e desaparecerá. O que nos adianta explodir a base, se Rhodan não explodir junto com ela?
Quando necessário, o general Tai-Tiang sabia reagir prontamente. Lançou um olhar perscrutador sobre Klein, depois, confirmou com um aceno de cabeça.
— A idéia não deixa de ser inteligente. Permitirei que Rhodan pouse e penetre na cúpula. Dali não escapará. A bomba já está a caminho. Terminaremos isso antes da data prevista, segundo comunicado do coronel Cretcher. Certo! Instruirei os caças que o perseguem.
Dirigiu-se à barraca em que funcionavam os serviços de rádio.
Klein e Kosnow voltaram a subir a colina para presenciar o esperado pouso de Rhodan.

* * *

Este não se fez esperar. Um ponto minúsculo surgiu no horizonte, cresceu vertiginosamente e assumiu a forma de um caça-bombardeiro dos mais modernos. Alguns dos aparelhos menores que o acompanhavam, procuravam forçá-lo a descer, mas não atiravam para não expor a tripulação do caça a um risco desnecessário.
Perry encontrava-se junto ao piloto.
— Você agiu com bravura. Fico-lhe muito grato pelo auxílio. Quem sabe se, um dia, poderei retribuir-lhe o favor. Aterrize exatamente no ponto que lhe indicarei. Nada lhe acontecerá, pois você poderá declarar sob juramento que eu o obriguei a trazê-lo até aqui. Logo, Marshall e eu os deixaremos. Dali até a cúpula são poucos metros.
— Como vamos atravessá-la? — perguntou Marshall.
— Tenho um equipamento especial que nos permitirá neutralizar a cúpula em qualquer ponto. Dentro de alguns minutos estaremos em segurança. O importante é aterrizarmos antes que os pilotos dos outros caças saibam onde o faremos.
O avião iniciou a descida.
— Estou admirado por não nos terem recebido com fogo antiaéreo — disse o piloto.
O radioletegrafista, que trazia o fone no ouvido, murmurou:
— A ordem de fogo foi revogada. Não deram os motivos. Talvez nossa vida seja muito preciosa para eles. Também é possível que pretendam interrogar-nos... E os mortos não falam.
As rodas tocaram o solo. O enorme bombardeiro correu pela planície irregular, descontrolou-se e acabou batendo numa rocha. Pelos cálculos de Rhodan, estavam a menos de cem metros da muralha energética.
O piloto foi atirado contra o painel mas, com reflexo rápido, cortou a entrada de combustível. O radiotelegrafista caiu por entre os instrumentos destroçados. Os outros dois tripulantes, ilesos, abriram a porta de saída.
— Mais uma vez obrigado, e boa sorte! — disse Rhodan, arrastando Marshall. — Temos de correr, senão nos pegam antes de chegarmos à muralha. Fique junto de mim. Vou ligar a cúpula energética.
Saltaram para o solo pedregoso do deserto. Segurando Marshall pela mão, Perry correu em direção à nave esférica que ficava a cinco quilômetros de distância. Enquanto corria, comprimiu um botão colocado no cinto. Aparentemente, nada aconteceu. Apenas, não sentiram mais a ação do vento. Uma pequena cúpula os isolava por completo do mundo exterior.
Um dos caças descreveu uma curva ampla e aproximou-se a baixa altitude. As asas expeliram raios. Quatro fileiras de projéteis caíram sobre Perry e Marshall, que soltou um grito de pavor.
Os impactos logo cessaram.
— Não se preocupe, Marshall. Para romper esta cúpula, precisarão de calibres maiores.
O caça descreveu uma curva à direita, ganhou altitude e, de repente, bateu contra um obstáculo invisível. A violência do impacto fez o aparelho ricochetear, antes de perder o controle e mergulhar contra o solo. As chamas começaram a subir e, segundos depois, a munição explodiu, atirando destroços para todos os lados.
— É a cúpula energética. Está a poucos metros de distância. Cuidado! Vou ligar o campo neutralizador. Os outros caças não chegarão em tempo. Pronto, estamos em segurança. Agora podemos nos mover à vontade.
Perry soltou a mão de Marshall, virou-se e viu que os outros caças ganharam altitude, afastando-se em direção ao sul. Quatro homens estavam parados junto ao caça-bombardeiro, olhando para eles. Um dos tripulantes ergueu a mão, num aceno. Logo, os outros o imitaram. Depois, puseram-se em marcha em direção às posições do exército que cercava a base. Sabiam que algumas horas desagradáveis os esperavam.
— Venha, Marshall. A Stardust está esperando por nós. Conseguimos. Permita que lhe dê as boas-vindas ao meu reino.
— Obrigado — disse Marshall, entre alegre e ainda surpreso.
Caminhavam em direção às duas naves que pareciam esperá-los em meio ao deserto e, por pouco, quase tropeçaram em um homem que, de súbito, surgiu do nada, fitando-os com os olhos assustados.
Rhodan parou de chofre.
A planície de areia não oferecia a menor proteção...

6


A máquina em forma de torpedo penetrava na rocha com uma velocidade vertiginosa. A pedra triturada era atirada automaticamente sobre a esteira transportadora que a conduzia à superfície. Os cabos forneciam energia para as máquinas e a iluminação. A renovação do ar funcionava perfeitamente.
O coronel Cretcher estava parado junto a Klein e Li. Seu rosto irradiava satisfação.
— Klein, a idéia de não abrir fogo contra Rhodan foi excelente. Não me esquecerei de mencionar isso perto de Mercant.
— Ele ficará satisfeito — conjeturou Klein, em tom ambíguo.
O tenente Li apontou para a escavadeira mecânica.
— Quanto tempo ainda levaremos?
— Terminaremos amanhã ao anoitecer. A galeria vertical só terá largura suficiente para transportar a bomba. Depois de amanhã, Perry Rhodan não mais existirá — nem os arcônidas.
— O mundo respirará aliviado — murmurou Klein.
Cretcher olhou-o ligeiramente.
— É possível — disse, e voltou sua atenção às máquinas. Klein e Li foram andando em direção à saída distante.
A galeria era da altura de um homem e estava bem iluminada. As paredes eram quase perfeitamente lisas. À esquerda, a esteira transportadora deslizava em silêncio. Não havia ninguém por perto.
— Temos de prevenir Rhodan — cochichou Klein, desesperado. — Amanhã será muito tarde. A esta hora já não saberia como evitar a explosão, mesmo que tivesse conhecimento dela.
— Não fale tão alto — disse Li. — Lembre-se de que isso aqui é um bom condutor de som. Eu também não sei o que fazer. Até chego a ter a impressão de que estou prestes a trair Rhodan. O que será de nós se o plano tiver êxito e Rhodan for morto? Depois de amanhã a guerra fria será reiniciada, e, com ela, o eterno medo de uma catástrofe nuclear. Não sei se agüentaremos por muito tempo.
Klein parou.
— Hoje à noite tentarei atravessar a linha de posições montadas pelos serviços secretos.
O chinês sacudiu a cabeça.
— Mesmo que conseguisse, não arranjaria nada. Rhodan não pode manter um serviço de vigilância ininterrupto sobre suas fronteiras. Nem perceberá que você está por perto. O lógico seria despertar a atenção dele. Mas como?
— Silêncio! Vem gente por aí — cochichou Klein. Ouviram o ruído dos passos que se aproximavam. Um homem vinha ao encontro deles. Quando se encontrava bem próximo, reconheceram-no. Era Tako Kakuta, um técnico japonês. Seus olhos suaves fitaram-nos com uma expressão indagadora.
— Então, Tako! Estamos quase prontos, não é?
— Creio que sim — respondeu o japonês, cauteloso. — O coronel Cretcher está lá dentro?
— Está perto da escavadeira — confirmou Klein e foi andando. Li seguiu-o. O caminho para a saída era longo mas, quando se cansavam, sentavam-se na esteira transportadora. Assim, avançavam mais depressa.
Já podiam ver a claridade da entrada do túnel mais adiante, quando uma sombra se desenhou contra a luminosidade. Era um homem que também caminhava em direção à saída. Iam passando por ele quando uma lâmpada derramou uma luz forte. Ao reconhecer o homem, Klein arregalou os olhos. Virou-se, sem querer crer no que via e, de um salto, desceu da esteira. Li, que não reagiu com a mesma rapidez, foi carregado mais um pouco.
Klein parou e esperou que o homem se aproximasse.
Era Tako Kakuta.
A galeria não era muito larga. O japonês tinha ido à parte dos fundos, para falar com o coronel Cretcher. Fora há vinte minutos. Nesse meio tempo, tinham avançado, ele e Li, em direção à saída. E o japonês, inexplicavelmente, havia passado por eles, já voltando. Não era possível.
Klein estreitou os olhos. Seu cérebro trabalhava febrilmente. Tentou, em vão, encontrar a solução para aquele problema, que se afigurava fantástico.
Tako esboçou seu insondável sorriso. E, com um ar de humildade, disse:
— Devemos ter passado um pelo outro sem percebermos, senhor Klein.
Klein sacudiu lentamente a cabeça.
— Como você chegou até aqui? Como sabe, sou um agente de segurança e, por isso, tenho direito a certas perguntas. Você não pode ter passado por nós, Tako. Na verdade, a esta hora, ainda não poderia, ao menos, ter alcançado o ponto onde o coronel Cretcher está. Diga logo! Como conseguiu chegar até aqui?
O japonês continuava a sorrir.
— Passei na frente dos senhores.
— Você está mentindo. Nós o teríamos visto. Diga a verdade.
Pela primeira vez, o medo começou a desenhar-se nos olhos do japonês.
— O senhor não acreditaria — asseverou. — Por favor, senhor Klein, não dê importância ao que passou. Por favor!
— Pois eu tenho de dar importância a uma porção de coisas — respondeu Klein, segurando o japonês pelo braço. — Venha comigo.
Sua mão pegou no vazio. O japonês havia desaparecido. Parecia que se dissolvera no ar ou se tornara invisível. Klein estava petrificado quando Li chegou perto dele.
— O que houve, Klein? Onde está Tako?
Klein parecia despertar de um sonho.
— Sei lá! O homem desapareceu da mesma forma como surgiu. Devo sofrer alucinações, ou então...
— Ou então?
— Ou então o homem pode se tornar invisível, Li. Mas uma coisa dessas não existe. Ninguém pode tornar-se invisível.
Li encarou a parede lisa da galeria.
— Existe outra possibilidade. Já ouvi falar de casos em que pessoas desaparecem de repente, para aparecer em outro lugar.
— Ora, Li! Não me diga que você crê nessas coisas...
— Mas é verdade.
— Li, estamos no século vinte.
— Justamente! Isso é conseqüência dos acontecimentos do século vinte. Nunca ouviu falar em mutações? Na ativação de setores ociosos do cérebro? Os homens atingidos por esse fenômeno descobrem faculdades das quais ninguém suspeitaria. Talvez Tako seja um caso desses. Imagino que se trate de teleportação.
— De quê?
— Isso significa que Tako pode transportar-se de um lugar a outro por força única e exclusiva de sua vontade. Sei que isso parece lenda, mas também sei que é possível, uma vez presentes os respectivos pressupostos.
— Que pressupostos são esses?
Li assumiu um ar sério.
— As radiações produzidas pelas bombas atômicas. Só agora as crianças que não haviam nascido ao tempo da explosão de Hiroxima estão se tornando adultas. E eis que os primeiros mutantes surgem no mundo. Nem me atrevo a imaginar como será a humanidade daqui a cinqüenta anos. Klein tornara-se pálido.
— Você está brincando! Esses casos só podem ser exceções, se é que suas suposições são corretas.
— Um belo dia — disse Li, sacudindo a cabeça — o homem de hoje será a exceção. Venha comigo, precisamos encontrar Tako. Precisamos saber se ele é realmente um mutante.
Enquanto procuravam, Klein viu, repentinamente, a solução diante de si. Se conseguissem fazer de Tako um aliado, haveria uma possibilidade de prevenir Rhodan.
Mas será que Li tinha razão?

* * *

— É claro que poderia ter fugido — disse Tako Kakuta com a voz humilde. — Mas isso não adiantaria nada. Teriam ido em minha perseguição e, um belo dia, me encontrariam. Por isso foi que vim falar com os senhores. Podem perguntar o que quiserem.
A porta estava trancada. Estavam sós. Klein sabia que Li vigiava do lado de fora. Ninguém os surpreenderia.
— Você é um mutante?
— Meus pais estão entre os sobreviventes da catástrofe de Hiroxima. Nasci pouco depois. Minha mãe morreu em conseqüência das radiações. Meu pai ficou aleijado. Só eu fui poupado e cresci normalmente, se não levarmos em conta uma faculdade que descobri no ano passado. Já consegui desenvolvê-la, mas acredito que ainda pode ser aperfeiçoada. O que pretende fazer comigo, senhor Klein?
— Não tenha receio, Tako. Que distância pode percorrer dessa maneira?
— Uns quinhentos metros: daí não passo. Para vencer distâncias maiores tenho que realizar vários saltos.
— Só quinhentos metros? — Klein não ocultou o desapontamento. — Não é muito. O que acontece se você se materializar dentro de um objeto sólido e não ao ar livre?
Tako sorriu.
— Isso não é possível. O salto subseqüente segue-se logo após. É automático. Tenho pouca influência sobre isso. Mas posso regular o primeiro salto com bastante precisão. Praticamente, não corro o menor risco.
Klein respirou profundamente.
— Quero fazer-lhe uma pergunta, Tako. Você odeia, ou tem qualquer razão para desejar a morte de Perry Rhodan, o homem que queremos destruir com uma bomba atômica?
O sorriso de Tako continuava inalterado.
— Capitão, o senhor é um agente de segurança. Seu dever é velar para que esta missão tenha êxito e para que ninguém tente sabotá-la. Se eu não odiasse Rhodan, não iria dizê-lo justamente ao senhor. Não é verdade?
— Concordo. Tako. Mas esta pergunta não é uma armadilha. Apenas gostaria de saber sua opinião. Arrisco muita coisa, Tako, mas confio em você. Veja bem: esta missão que ajudo a fiscalizar não pode ser coroada de êxito. Rhodan não pode ser morto, compreende? Se isso acontecer, amanhã à noite a ameaça do holocausto atômico voltará a surgir sobre nossas cabeças. Só a terceira potência pode impedir esta guerra. É difícil admitir este fato, mas ele constitui uma conclusão lógica dos acontecimentos passados. Bem, você já conhece a minha opinião. Posso saber qual é a sua?
A expressão do rosto de Tako Kakuta não se alterou.
— Perry Rhodan já possui mais amigos do que ele mesmo imagina. Ainda têm de se manter ocultos, pois o medo que o poderoso sente do poderoso ainda é mais forte que a razão. Como vê, senhor Klein, suas preocupações não têm o menor fundamento. Mas, o que nos resta senão executar as ordens dos nossos governos? O indivíduo isolado não pode rebelar-se contra os mesmos. Se pudesse, teria êxito?
— Um indivíduo isolado, não; muitos indivíduos, sim. Unidos, constituirão um elemento de força que ninguém poderá vencer. Mas vamos à pergunta que acaba de formular: pode Tako, um indivíduo isolado, às vezes, pode ter êxito.
— Como?
— Você deve transportar-se para junto de Rhodan a fim de preveni-lo. Só você pode penetrar naquela fortaleza. Creio que o anteparo energético não poderá detê-lo.
— Não — disse Tako. — Ele não me detém.
Klein parecia perplexo.
— O quê? Como você sabe?
— Já que não existem segredos entre nós, e temos os mesmo propósitos, vou contar tudo. O senhor queria que eu fosse para junto de Rhodan para preveni-lo, não é? Pois bem, também tive esta idéia. Perry Rhodan já foi prevenido, capitão Klein. Recomendo-lhe que não entre mais na galeria depois da meia-noite. Foi este o prazo que Rhodan nos concedeu quando teve conhecimento do projeto.
Klein ficou boquiaberto; encarou Tako e, depois de alguns segundos, disse:
— Você tem razão, Tako. Rhodan tem mais amigos do que ele pode imaginar.

7

Perry logo notou que o homem que se encontrava diante dele era um japonês. Este, assumiu uma posição quase humilde, baixou o rosto jovem e sorridente e fez uma mesura.
— Não se assuste, senhor Rhodan. Vim para preveni-lo de um grande perigo.
— Como conseguiu atravessar a barreira energética? — perguntou Perry, já recuperado do espanto. O homenzinho devia ter escapado à sua vista em meio ao deserto. — O senhor surgiu de repente...
— Possuo o dom da teleportação. Meus pais passaram pela catástrofe de Hiroxima. Talvez compreenda...
Marshall cochichou ao ouvido de Rhodan:
— É um mutante, tal qual eu. Pode trasladar-se instantaneamente de um lugar para outro. Vem de um ponto abaixo da superfície.
— Sob a superfície? — inquiriu Rhodan, surpreso.
— É — confirmou Tako — venho de uma galeria cavada embaixo desta área. Como foi que o senhor soube disso?
Marshall aproximou-se.
— Sou um mutante, tal qual você, Tako. É este o seu nome não é? Tako Kakuta. Você possui o dom da teleportação; e eu sei ler pensamentos. — Estendeu-lhe a mão. — De certa forma somos companheiros. Também você está ajudando Perry Rhodan.
Tako apertou a mão estendida com um sorriso nos lábios.
Perry Rhodan tranqüilizou-se. Encontrara mais um mutante. Suas suposições se confirmavam. Com isso, seu plano de formar um exército de mutantes dedicado à ajudá-lo a vencer os inimigos que o cercavam ganhou uma base mais realista.
— Qual é o perigo contra o qual veio me prevenir, Tako?
— Trata-se de um destacamento especial que está cavando uma galeria por baixo da terra e que irá até um ponto sob as duas naves espaciais. Amanhã, pretendem introduzir nela uma bomba de hidrogênio de alta potência. A galeria terminará cinqüenta metros abaixo da superfície. Não creio que reste muita coisa, caso o senhor não tome as providências necessárias.
— Uma bomba embaixo da terra! — Num instante, o cérebro de Rhodan pôs-se a trabalhar velozmente, e logo ele teve ciência das medidas defensivas a serem adotadas.
— Obrigado, Tako. Acredito que não poderá retornar mais ao seu destacamento. Se quiser, pode ficar conosco.
— Mais tarde — disse o japonês, em tom modesto. — Suponho que pretendem defender-se. Tenho o dever de evitar que aconteçam baixas entre os trabalhadores. Posso saber o que pretende fazer?
— Ainda não sei — disse Rhodan. — De qualquer maneira, não pretendo tomar qualquer medida defensiva antes do anoitecer. Esta informação basta?
— Providenciarei para que hoje à noite não haja ninguém na galeria.
Perry colocou a mão sobre o ombro do japonês.
— Você é muito humano, Tako...
— Qualquer um faria a mesma coisa, ao menos qualquer pessoa cujos pais passaram por um ataque atômico. Ainda nos veremos, senhor Rhodan...
Tako Kakuta sumiu diante deles como se nunca tivesse estado ali. Só o deserto cercava os dois homens. Ao longe, viam-se os contornos reluzentes das naves. Um vulto surgiu perto delas. Vinha ao encontro deles.
— O que foi que ele pensou? — perguntou Rhodan.
John Marshall respondeu:
— Pensou o que disse.
— Quer dizer que disse a verdade. Vamos andando, aí vem Bell.
— Quem é Bell?
— Reginald Bell, co-piloto e técnico de bordo da Stardust. Um ótimo sujeito e um grande amigo.
Encontraram-se com Bell a poucos metros da nave.
— Olá, Perry! Tudo bem? Quem é o cavalheiro que nos visita?
Antes que Perry pudesse fazer as apresentações, Marshall foi logo dizendo:
— Em primeiro lugar, não uso brilhantina, senhor Bell. Meus cabelos são lisos por natureza. Em segundo, o senhor também não é um modelo de beleza. E em terceiro, não é da sua conta como foi que me aproximei do senhor Rhodan.
Os cabelos ruivos de Bell arrepiaram-se.
Olhou perplexo para o estranho e, depois para Rhodan.
— Santo Deus! Será que este cara sabe ler pensamentos?
— Adivinhou! — confirmou Rhodan sem conter o riso. — Ele os lê com perfeição. Se eu fosse você, passaria a utilizar o bloco protetor sempre que quiser se entreter com pensamentos secretos. Permita que lhe apresente John Marshall, o primeiro telepata de uma humanidade que aos poucos vai se tornando adulta.
— Muito prazer — disse Bell, refeito do susto.
— O prazer é meu — John apertou a mão estendida. — Fico satisfeito em saber que, daqui por diante, controlará seus pensamentos.
Perry interrompeu-o.
— Tudo em ordem, Bell?
— Tudo perfeito, Perry.
— Ótimo. Vamos andando. Preciso falar imediatamente com Crest. O assunto é muito urgente. Estão preparando um ataque contra nós. Pretendem explodir-nos amanhã. É uma gente muito simpática, não é?
— Muito — concordou Bell. — E como é que querem nos explodir?
— Cavaram uma galeria que termina embaixo das naves.
— Como soube disso?
— Depois eu conto.
Crest aguardava-os diante da nave esférica. Eric Manoli estava a seu lado. Haggard, um pouco afastado, observava o trabalho dos robôs, controlados por Thora.
Crest cumprimentou seu aliado.
— Fico satisfeito em tê-lo de volta. Conseguiu alguma coisa?
— Muita! Crest, quer fazer o favor de chamar Thora, imediatamente. Se não agirmos depressa, estaremos perdidos. As potências da Terra trabalham em conjunto e, quando isso acontece, elas se tornam perigosas. Não conseguiram romper a cúpula energética, mas encontraram outro caminho. Abriram uma galeria que termina embaixo das naves. Amanhã pretendem detonar uma bomba atômica.
— Como vejo, trouxe alguém — disse Crest, sem fazer a menor referência sobre o perigo que os ameaçava. — Sinto que é um telepata. Com isso a humanidade saltou um estágio na evolução. Seja bem-vindo, senhor Marshall. Como vê, meu cérebro também possui esta capacidade. O que acaba de dizer, Rhodan? Cavaram uma galeria? Tencionam detonar uma bomba? Thora vai ficar satisfeita.
Se ficou satisfeita, Thora não o demonstrou.
— Eles nunca compreenderão — disse ao ouvir a notícia. Os cinco homens estavam sentados, em companhia de Crest e Thora, num confortável camarote da nave esférica. O crepúsculo já descia sobre o deserto. — Está na hora de dar-lhes uma lição da qual jamais se esquecerão.
— Recomendo-lhe que se abstenha de qualquer ato precipitado — disse Crest, sacudindo a cabeça. — Se conseguirmos impedir a explosão, devemos dar-nos por satisfeitos.
— Se dependesse de mim, exterminaria esta raça — respondeu Thora, exaltada.
— Além de insensato, seria perigoso. Se não pudermos contar com o auxílio deles, jamais chegaremos a Árcon. E ninguém sabe se, num raio de quinhentos anos-luz, existe outra raça inteligente.
A constatação de Crest não deixou de produzir efeito. Thora concordou. Com alguma relutância, é verdade.
— Muito bem. Acato a decisão da maioria. O que faremos?
Perry inclinou-se para a frente.
— Existe alguma possibilidade de destruir a galeria sem sairmos daqui?
Thora fez que sim.
— O localizador está indicando a posição exata da galeria. Posso ligar o combustor centralizado.
— O que é isso?
— Trata-se de uma fonte de energia. Esta sai do gerador sob a forma de radiações inofensivas. O conversor faz com que, no ponto escolhido, ela se transforme numa força destrutiva. Em outras palavras, daqui, posso fazer com que um raio energético atravesse a matéria sem produzir o menor dano. O efeito devastador só começará a cinco, cinqüenta ou quinhentos metros abaixo da superfície. O localizador indica a posição exata do objetivo, regulo o combustor para esse ponto e, com isso, é possível derreter a galeria. Por dias a fio será transformada num inferno incandescente e, portanto, intransitável. Será que isso basta? Rhodan esboçou um sorriso suave.
— Basta. Muita coisa poderá acontecer antes que decidam desencadear outro ataque. Não acredito que continuem por muito tempo a nos considerar como inimigos mortais. Aos poucos, a idéia de que só oferecemos vantagens à humanidade vai ganhando terreno. Já temos mais amigos pelo mundo do que podemos imaginar.
— Fico satisfeito em saber disso — observou Crest.
Thora interrompeu-o.
— A que horas devo começar? Perry olhou para o relógio.
— Exatamente daqui a dez horas, Thora. Às quatro da manhã não haverá ninguém na galeria.
Thora encarou-o.
— Muito bem. Mas asseguro-lhe que é esta a última vez que levo em consideração os sentimentos alheios. A defesa contra o próximo ataque que for lançado representará a destruição de sua raça. Convém comunicar isso a sua gente.
Levantou-se e saiu de cabeça erguida, sem se voltar.
Marshall dirigiu-se a Rhodan, rompendo o silêncio:
— É estranho. Ela está mentindo. Não pensa o que diz...

* * *

O dia estava amanhecendo no leste.
Todos dormiam. Só Rhodan e Bell esperavam na cabina de comando da Stardust. Viviam olhando para o relógio. Os ponteiros avançavam muito devagar. Ainda faltavam alguns minutos para as quatro.
No interior da nave esférica havia uma luz acesa. Vez por outra via-se uma sombra esbelta que se movia atrás da vigia. Era Thora. Estava diante do mecanismo que designara como combustor centralizado. Talvez sua mão descansasse sobre uma chave.
— Será que ela cumprirá a palavra? — cochichou Bell.
— Cumprirá — disse Perry. — Não há dúvidas de que o japonês conseguiu evacuar a galeria, senão ele nos teria comunicado e pedido um adiamento. — Está na hora.
Uma luminosidade esverdeada saiu da vigia da nave esférica, dando um brilho fantasmagórico ao romper do dia. A leste, o primeiro tom rosado surgia no horizonte.
Lá embaixo, a energia liberada iniciava sua ação fulminante, transformando produtos da técnica humana em montões de metal derretido. A rocha gotejava e, ao endurecer, assumia formas bizarras. A terra deslizava, emitindo um chiado ao volatizar-se. Aos poucos, a marcha destrutiva foi prosseguindo em direção à saída da galeria.
De início, a sentinela postada ali percebeu o aumento da temperatura. Depois de algum tempo, os vapores corrosivos começaram a sair da galeria e abriram caminho até os pulmões do homem. Este, vencendo o pavor que começava a dominá-lo, deu o alarma. Dentro de poucos segundos, todos estavam de pé no acampamento. A rocha liquefeita saiu da galeria e, em contato com o ar frio da manhã, endureceu, fechando a entrada fumegante.

* * *

Klein afastou-se da janela. Eram quatro e dez da manhã.
— A galeria deixou de existir, Tako. Você prestou um grande serviço à humanidade. Além de prevenir Rhodan, fez com que a esta hora não houvesse ninguém na galeria.
— Não foi fácil convencer o coronel Cretcher da existência da radioatividade. Ainda bem que consegui introduzir alguns gramas de urânio na galeria.
Li e Kosnow levantaram-se e, em silêncio, apertaram a mão do japonês.
— Dê lembranças a Rhodan — disse Klein. — E diga-lhe que poderá contar sempre conosco. Diga-lhe, também, que aguardamos o dia em que poderemos estabelecer contato com ele em caráter oficial.
— Não esquecerei — prometeu Tako, apertando a mão dos três homens. — Podem ter certeza. Ainda teremos oportunidade de dar provas de lealdade e coragem. Passem bem e até a vista...
No mesmo instante, os três se viram sós. E Tako Kakuta voltou a materializar-se na cabina de comando da Stardust.
Bell, de costas para a vigia, bocejava.
— Está no fim — disse. Estou cansado; vou dormir um pouco.
De repente, a dois metros de distância, um ser humano surgiu do nada. O homem inclinou-se ligeiramente e, dirigindo-se para Rhodan, disse:
— Minha missão foi cumprida, senhor Rhodan. Vim para oferecer meus serviços.
Embora o cérebro de Bell funcionasse com uma extraordinária rapidez, a surpresa sobrepujou a razão. Rhodan lhe havia falado a respeito do poder de que Tako era possuidor. Mesmo assim, o impacto de ver um ser humano surgir vindo não se sabe de onde surpreende pelo que tem em si de fantástico.
— Feche a boca, Bell, senão Tako é capaz de cair dentro do seu estômago — recomendou Perry, rindo, antes de dirigir-se ao japonês.
— Aceito os serviços que me oferece, Tako. Juntamente com Marshall, você representa um poder imenso. Tenho certeza de que conseguiremos nosso objetivo.
— Se eu não acreditasse nisso, não estaria aqui — respondeu o japonês com humildade. Mas, nos seus olhos, brilhava o orgulho.
Bell aproximou-se e, com um sorriso, colocou a mão sobre o ombro de Tako, murmurando em seguida:
— É verdadeiro!
— Claro que é! — interveio Rhodan. — Acreditava que fosse um fantasma?
— Escute. Você pode deslocar-se para qualquer lugar a qualquer momento?
— Posso, senhor Bell.
Um brilho estranho surgiu nos olhos de Bell.
— Mesmo para o interior da nave dos arcônidas?
— Por que não?
Bell sorria.
— Tako, será que você pode verificar se Thora já concluiu o contra-ataque? Acho que não há nada demais em saber, não é, Perry?
Perry Rhodan concordou.
— Claro que não! E pouparíamos uma caminhada até lã. O que acha, Tako?
O japonês aproximou-se da vigia e olhou para a nave esférica.
— Está bem...
Antes que Bell pudesse dizer qualquer coisa, ele desapareceu. Dali a alguns segundos, Bell começou a falar:
— Fico satisfeito só em pensar no susto que Thora vai levar quando, de repente...
Quem levou um susto foi ele. No mesmo instante, Tako voltou a aparecer em sua frente. Seus olhos sorriam como se pedissem perdão. Disse:
— Sinto muito, mas a senhorita Thora não pôde me atender. Estava indo para a cama.
Um sorriso galhofeiro brincou em torno dos lábios de Perry.
— E daí?
— É, e daí? — perguntou Bell, triunfante. — Ela se assustou?
— Não chegou a me ver — explicou Tako. — Materializei-me atrás das suas costas. Estava tirando a roupa.
— Tirando a roupa?! — Bell arregalou os olhos. Mas logo se controlou. Seu rosto iluminou-se. Colocou as mãos nos ombros de Tako.
— Já somos bons amigos, concorda? Nossa amizade só tende a crescer, não é?
— Naturalmente — gaguejou o japonês, sob o peso das mãos do gigante. — Por que pergunta?
Bell cochichou-lhe ao ouvido:
— Que tal você me ensinar a teleportação?...
E arrastou Tako Kakuta, surpreso, para fora da cabina.
Perry Rhodan seguiu-os com os olhos. Sorria. Antes de deitar, lançou um olhar pela vigia.
O deserto estava vazio. A paz reinava nele.
Lá longe, ao leste, o céu tornava-se rubro. Um novo dia raiava. O que traria?

* * *

A nave dos arcônidas, pousada na Lua, foi destruída num ataque de surpresa lançado pelas potências terrenas. Apesar disso, a base de Rhodan, montada no deserto de Gobi, mantém-se intacta sob a proteção da cúpula energética. E o fator decisivo é este. Só a Terceira Potência pode dominar a nova crise que teve origem com a destruição da nave dos arcônidas. Saiba como isso acontece, lendo o quinto episódio da série: ALARMA GALÁTICO...

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