Perry teve a impressão de só ter fechado
os olhos por um segundo. Quando voltou a abri-los, tudo continuava no mesmo.
Perto dele, Bell estava reclinado na poltrona do doutrinador. Também se
esforçava para abrir os olhos. No seu rosto havia uma expressão de assombro.
O doutrinador! Subitamente, Rhodan sabia
como funcionava. As informações armazenadas eram reforçadas pelos dispositivos
positrônicos, de onde eram conduzidas aos nervos cranianos, que as absorviam,
transmitindo-as ao cérebro, onde eram depositadas no centro de memória. Esse
centro, ampliado consideravelmente através de uma série de choques, recebia as
informações e armazenava-as. Poderiam ser “retiradas” a qualquer momento.
Crest estava junto ao quadro de chaves.
— Podem levantar — disse, tranqüilo. — O
treinamento foi concluído com êxito. Ambos receberam os mesmos ensinamentos;
apenas achei recomendável que Perry obtivesse certa superioridade, mesmo em
relação a você, Bell. A capacidade de enfrentar qualquer emergência com extrema
rapidez foi ampliada-. Além disso, sua consciência sugestiva foi
consideravelmente reforçada. Daqui em diante, nenhum homem normal deixará de
executar prontamente as suas instruções, que equivalerão a verdadeiras vozes
hipnóticas de comando. Sei que nunca abusará desse superpoder. Terá necessidade
dele para executar aquilo que planejamos em conjunto. O seu saber... bem,
constate por si mesmo.
Rhodan levantou-se.
— Não estou percebendo nada de diferente.
Crest sorriu.
— Então me diga qual é a raiz quadrada de
527.076?
— Setecentos e vinte e seis, por quê?
Rhodan proferiu o número com a calma de
quem faz algo corriqueiro e natural. Só empalideceu de ter respondido. Bell segurou-lhe
o braço.
— Ei! Também sei o resultado!
— O cérebro de vocês está calculando
automaticamente com a velocidade da luz se me permitem esta expressão — explicou
Crest. — Os cálculos são realizados no subconsciente. O pensamento consciente
fica reservado para tarefas mais importantes Estão convencidos de terem passado
por uma modificação?
Bell sacudiu a cabeça.
— E meu professor de matemática, que vivia
dizendo que eu era um fracasso em toda a linha. Se visse uma coisa dessas!...
— Nos próximos dias, descobrirão mais
coisas em sua mente. Não se assustem. O que vale é que dispõem de uma
explicação natural para suas novas faculdades: o doutrinador e o saber
formidável de nossa raça, que, agora, também pertence a vocês.
— Faço votos para que saibamos lidar com o
mesmo.
— Tenho certeza de que saberão. Agora,
acompanhem-me. Preciso falar-lhes. Nossas comunicações com o exterior estão
interrompidas. As interferências provocadas por uma emissora impedem todo e
qualquer contato. Um de vocês tem de sair da cúpula energética para colher
informações. Não conseguiremos nada se ficarmos parados aqui. Os primeiros
pavilhões já estão montados. Os robôs não podem continuar. Precisamos de
material e mão-de-obra. Neste deserto surgirá um complexo industrial que
deixará para trás tudo que já existiu neste mundo. Sem naves espaciais potentes
nunca chegaremos a Árcon. E queremos mais que isso.
Rhodan fez que sim. Num espaço de poucos
segundos, as visões arrojadas do futuro de que Crest lhe falara desfilaram
diante dele. O império cósmico! Uma frota enorme seria necessária para
instalá-lo e mantê-lo. Mas uma indagação surgiu em sua mente. Será que a
humanidade estava madura para isso?
Ouviu sua própria voz.
— Eu mesmo irei. Só falta saber quanto
tempo levarão para me descobrir.
— Ora essa! — disse Crest. A esta altura
você já sabe os recursos técnicos de que pode lançar mão.
No mesmo momento, Perry lembrou-se. O
centro de memória ampliado de seu cérebro forneceu a informação.
O equipamento dos arcônidas. Um microrreator
fornecia a energia. A qualquer hora poderia montar uma minicúpula energética,
que o protegeria de qualquer perigo. Os projéteis de pequeno calibre não poderiam
atravessá-la. O defletor de ondas luminosas torná-lo-ia invisível aos olhos
humanos. Um neutralizador gravitacional embutido conferiria ao portador do
equipamento a capacidade de voar, percorrendo distâncias não muito longas, já
que a velocidade seria reduzida.
— Como faço para sair da cúpula?
— Esta noite suspenderemos a cúpula por
alguns segundos, muito embora você pudesse atravessá-la. Mas, antes disso,
vamos combinar os detalhes. Thora está de acordo. Acabou reconhecendo a
necessidade da colaboração, mesmo a contragosto.
— Era o que eu imaginava — disse Rhodan
laconicamente.
* * *
Los Angeles, dois dias depois.
Num pequeno restaurante junto à estrada do
aeroporto, Perry Rhodan estava sentado diante de um enorme bife, e procurava
devorá-lo com toda a calma. Desde o dia anterior mantivera contatos com os
diretores de grandes empresas industriais. Graças aos poderes de que era
dotado, conseguira obter a promessa de grandes fornecimentos. E dera um
endereço suposto, em Hong Kong.
Do lado de fora, um motorista esperava com
o táxi.
Lá estava ele, sentado em meio aos homens
que o consideravam seu maior inimigo. Não sentia o menor temor e não julgou
necessário esconder-se. Seu retrato fora publicado em todos os lugares do
mundo, mas até então, ninguém conseguira reconhecê-lo. Mesmo que isso
acontecesse... Perry sentia-se absolutamente seguro com o equipamento dos
arcônidas que trazia consigo. Sem que ninguém percebesse, usava uma vestimenta
especial por baixo do terno comum.
Um homem tomou lugar na mesa ao lado. Os
cabelos estavam penteados para trás. Dava a impressão de uma pessoa que cuidava
muito bem da sua aparência. Um par de óculos escuros encobria os olhos. Tirou
um jornal do bolso e mergulhou no noticiário econômico. Distraído, fez seu
pedido ao garção e voltou à leitura.
Perry tornou a dedicar sua atenção ao
bife. Teve que lutar contra um nervosismo súbito. Fazia dois dias que se
afastara de sua base. A imprensa, de um modo geral, fazia de contas que a
ameaça no deserto de Gobi não mais existia. Este silêncio estranho podia ser
tudo, menos tranqüilizador.
E se, enquanto ele estava afastado, fosse
iniciado o ataque que se esperava?
Saberiam defender-se, por certo, mas ele
receava algum ato precipitado de Thora. Se não ficassem de olho nela, poderia
empreender ações muito desastrosas, estragando os planos para o futuro. Nas
negociações que travara no dia anterior, notara que nem todo mundo estava
contra ele. Muito pelo contrário. Os industriais mais sagazes, perceberam as
chances que se lhes ofereciam. E todos estavam plenamente cientes de que
evitara uma devastadora guerra nuclear.
O que estaria fazendo Bell? Sem dúvida, a
doutrinação lhe havia conferido novas faculdades de espírito e capacidades de
que nem suspeitava, mas o caráter continuava inalterado. Não que Bell fosse
dado aos atos impensados, mas sua impulsividade só teria o necessário freio com
a presença de Perry Rhodan.
O cavalheiro da mesa ao lado guardara o
jornal. Em sua testa viam-se algumas rugas. Ao que parecia, sua atenção
concentrava-se no vizinho que acabara de afastar o prato vazio. Por várias
vezes fez menção de levantar-se, mas parecia não ter certeza do que faria.
Subitamente, pôs-se de pé e dirigiu-se à mesa vizinha. Parou diante de Perry
Rhodan, lançou-lhe um olhar indagador e murmurou:
— Dá licença? Gostaria de fazer-lhe uma
pergunta.
Apontou para a cadeira que se encontrava
junto a Perry. Este, parecia perplexo. No seu íntimo, preparou-se para um
eventual ataque. Um ligeiro aperto no cinto bastaria para cercá-lo de uma
cúpula energética.
— Faça o favor.
O desconhecido sentou-se e esboçou um
sorriso forçado.
— Talvez eu esteja enganado, cavalheiro,
mas existem duas circunstâncias que me levam a crer que não é esse o caso. É
verdade que a semelhança é um pouco vaga, mas tenho certeza de já tê-lo visto.
Mas não foi apenas este fato que me fez supor que o senhor é Perry Rhodan. Não,
não se assuste! Nem penso em traí-lo. O senhor fez muito por nós todos. Mas...
não sei como lhe direi, senhor Rhodan. O senhor costuma ler jornais?
Perry sacudiu a cabeça.
— Ultimamente tenho lido muito pouco,
quase nada. Mas, nos dois últimos dias...
— Há cerca de uma semana escreveram muito
sobre mim, ao menos em Brisbane. Ninguém acreditou, mas é verdade. Sou John
Marshall. Não sei se este nome lhe diz alguma coisa.
Perry recordou-se. Havia lido uma notícia
breve e já a esquecera. Era algo sensacionalista, nada mais. Mas, de repente, a
notícia voltara a ganhar importância. Seu raciocínio lógico entrou em
funcionamento e em poucos segundos respondeu à indagação sobre os motivos por
que aquele homem o reconhecera. Levantou as sobrancelhas.
— O senhor é a pessoa que tem capacidade
para ler pensamentos, não é, senhor Marshall? Estava sentado na mesa ao lado e
captou meus pensamentos, que estavam bastante concentrados. Foi assim que
descobriu quem sou, não é mesmo?
John fez que sim. Perry sorriu.
— Quer dizer que a esta altura já é um
perigo deixarmos nossos pensamentos vagando por aí. Há quanto tempo sabe fazer
isso?
— Desde a infância, se bem que não tinha
consciência da coisa. Só há uma semana percebi que sou telepata. Não sei por
quê.
— Quando nasceu?
— Em fins de 1945.
As possibilidades relampejaram no cérebro
de Perry, as combinações cruzavam-se, as conclusões se ofereciam — e a solução
surgiu.
— Foi por causa de Hiroxima — disse. — As
radiações. Deve haver outros mutantes.
— Mutantes?
— É. Trata-se de uma modificação do lastro
hereditário, geralmente transmissível aos descendentes. As radiações
influenciaram o seu cérebro em formação, antes de seu nascimento.
Por um instante, outra visão do futuro
desvendou-se aos olhos de Rhodan. Os mutantes! Representavam uma perspectiva
inteiramente nova. Se conseguisse reunir as maiores capacidades entre os
mutantes da Terra e engajá-los na sua luta, formaria um exército invencível. E
quem sabe se, mais tarde, não precisaria desse exército... Parou
repentinamente, pois sentiu o olhar perplexo de John. Já ia se esquecendo de
que seu interlocutor podia captar seus pensamentos. Num gesto automático,
isolou o cérebro por meio de um bloqueio. Era outra faculdade que o doutrinador
lhe havia conferido.
— Por que resolveu dirigir-se a mim?
John Marshall sorriu, meio sem jeito.
— Tive a intenção de utilizar minhas
faculdades para um fim lucrativo — confessou com franqueza. — A partir de
ontem, estou em negócios com várias instituições. Ofereceram-me quantias
astronômicas. Mas acho que o destino me reserva uma missão mais importante. O
senhor acaba de insinuar essa possibilidade em seus pensamentos.
Perry suspirou aliviado.
— Quer dizer que está disposto a trabalhar
para mim?
— Estou.
— Ainda não estou em condições de lhe
oferecer dinheiro.
— Existem coisas que valem mais que todo o
dinheiro do mundo. Um ideal, por exemplo.
— Um ideal? O que quer dizer com isso?
— Por que o senhor luta contra todo mundo?
Simplesmente pelo poder?
— Confesso que também luto pelo poder. Mas
o próprio poder pode servir para a realização de um ideal.
— É isto mesmo. Estou à sua disposição, se
me quiser.
Perry lançou-lhe um olhar perscrutador.
Estava gostando daquele novo aliado, mesmo abstraindo das suas faculdades.
Estendeu-lhe a mão. John retribuiu o aperto. Súbito, seus olhos se estreitaram
por trás das lentes escuras e dirigiram-se para além de Rhodan. A expressão do
esforço concentrado deu-lhe ao rosto um ar sério. Depois de alguns instantes,
cochichou:
— Estão atrás do senhor, Rhodan. O carro
que está estacionado junto ao seu táxi é da polícia. Dois homens acabam de
descer. Não, não se vire. Estão falando com seu motorista. Agora vêm para cá,
dirigem-se ã nossa mesa. E agora?
O cérebro de Perry trabalhou em ritmo
vertiginoso. Um dos diretores com quem conferenciara deve ter revelado o fato,
talvez sem qualquer intenção má. Os homens do CID não eram tolos. Depois de
terem farejado uma pista, não desistiriam antes de capturar a caça.
Quando os dois homens de aparência
absolutamente normal se aproximaram da mesa, Perry estava preparado. Fez um
sinal quase imperceptível para John e colocou uma nota debaixo do prato.
Depois, levantou-se.
— Encontramo-nos no aeroporto, a três
quilômetros daqui. Dentro de uma hora. Espere por mim. Ninguém o importunará.
John retribuiu o sinal. Levantou-se e foi
à mesa vizinha, fazendo de conta que nada tinha com o que estava acontecendo.
Os agentes hesitaram por um precioso
segundo, depois aproximaram-se, resolutos. Um deles colocou a mão no bolso. O
outro aproximou-se de Perry por trás e colocou a mão sobre o seu ombro.
— Perry Rhodan, em nome da humanidade...
Perry virou-se. Seus olhos cinzentos
penetraram nos do agente.
— Que deseja?
— O senhor é Perry Rhodan...
— Sou Foster Douglas, se não se importar.
Por que estão me importunando?
O homem hesitou. Parecia inseguro. Seu
colega não estava tão impressionado. Tirou a mão do bolso. Nela se via uma
enorme pistola.
— Rhodan, não faça tolices. Deixe as mãos
no mesmo lugar em que se encontram e venha conosco.
Perry encarou-o.
— Sou Foster Douglas. Não chateie!
A cena começou a despertar a atenção dos
freqüentadores do restaurante. Alguns viraram-se para acompanhar o desenrolar
dos acontecimentos. John Marshall levantara-se e saiu tranqüilamente em direção
ao ponto de táxi.
O outro agente, indeciso, baixou a arma.
Alguma coisa lhe dizia que se enganara e que esse homem não era Perry Rhodan.
No entanto... uma outra ordem ainda o importunava.
— Agora, os senhores me deixarão em paz —
disse Perry encarando-os fixamente. — Não encontraram Perry Rhodan. Informem
seus superiores nesse sentido, entenderam?
Um deles fez que sim. O outro ainda
hesitava.
Perry deu-lhes as costas e saiu. Não se
sentia muito bem, pois seu corpo não era imune a uma bala traiçoeira, mas só
ligaria a cúpula energética em caso de extrema emergência. E não poderia sair
voando em pleno dia. Mandariam caças atrás dele.
Os dois agentes ainda estavam indecisos
quando ele entrou no táxi. O carro da polícia esperava logo atrás. O motorista
segurava um microfone e falava muito. O comportamento estranho dos dois colegas
representava, para ele, uma verdadeira charada.
— Vamos para o aeroporto — ordenou Perry.
O táxi saiu da área de estacionamento e,
uma vez na estrada, aumentou a velocidade.
Os dois agentes superaram o choque.
Pareciam despertar de um sonho. A mesa diante deles estava vazia e Perry Rhodan
sumira. Os freqüentadores do restaurante olhavam-nos espantados. Lá fora, o
carro os esperava. O táxi em que Rhodan viera já não estava perto do carro
policial. Também havia sumido.
— É um truque! — gritou o homem que
segurava a pistola, e correu para o carro, onde começou a gritar com o
motorista:
— O que houve? Por que o deixou escapar?
O homem colocou o microfone no suporte.
— Eu o deixei escapar? Foram vocês que o
deixaram ir embora. Não era Rhodan?
O outro agente também se aproximara. A
pressão do cérebro tinha desaparecido.
— Foi hipnotismo! O sujeito nos enganou.
Em que direção fugiu?
O motorista apontou para a estrada.
— Para lá. Em direção ao aeroporto.
— Vamos atrás dele! Dê alarma geral! O
carro arrancou, derrapando na curva. Enquanto isso, John Marshall conseguia um
táxi e chegava à estrada quase ao mesmo tempo que o carro dos agentes secretos.
Reclinado no assento, procurou captar os pensamentos dos agentes exaltados. Mas
nada conseguiu distinguir na confusão causada pelos emissores numerosos. Só lhe
restou pedir que o motorista não perdesse de vista o carro preto.
Os três carros seguiam em disparada pela
pista larga. Todos se dirigiam ao aeroporto. O primeiro, de Rhodan, levava uma
vantagem considerável sobre os demais, que seguiam bem próximos um do outro. O
tráfego intenso não lhes permitia uma velocidade maior mas, mesmo assim, Rhodan
chegou ao aeroporto bem antes dos demais, pagou o táxi e entrou, apressado, no
amplo hall, mergulhando na multidão que lotava o recinto.
Sereias começaram a uivar. De repente,
policiais à paisana postaram-se em todas as entradas e saídas. Traziam as mãos
nos bolsos, sinal seguro de que portavam armas. Os balcões das diversas
empresas suspenderam as atividades. Os passageiros começaram a se inquietar. Um
alto-falante começou a berrar:
— Mantenham-se calmos. A polícia acaba de
cercar o edifício do aeroporto. Estamos realizando um exercício. Mantenham a
calma. Continuem como estão.
Perry sabia que se encontrava num
aeroporto civil. Mas também sabia que numa das extremidades do campo de pouso
um caça-bombardeiro do CID estava pronto para decolar. Os tripulantes, quatro
homens, deviam estar perto da aeronave.
Encontrava-se em meio a um grupo de
comerciantes que vociferavam. A cinqüenta metros dali, John Marshall tentava se
aproximar cautelosamente. Os dois agentes que vira no restaurante iam de um grupo
a outro.
Perry Rhodan cerrou os dentes. Apertou um
dos botões embutidos no cinto do equipamento dos arcônidas. O defletor de ondas
luminosas entrou em funcionamento, tornando-o invisível.
Andando cautelosamente, para não esbarrar
em ninguém, deslocou-se em direção a John. O antigo funcionário de banco
sobressaltou-se quando sentiu, de repente, o toque vindo do nada. Mas os
pensamentos de Perry logo penetraram no seu cérebro.
“Continue parado. Marshall. Estou
invisível, não me encontrarão. Dessa forma, suspenderão a busca. Afinal, não
podem fechar o aeroporto por horas a fio.”
John confirmou com um movimento da cabeça.
Esperaram.
“Há um bombardeiro de alta velocidade
estacionado na pista. Tentaremos alcançá-lo. Quer vir comigo?” John fez que
sim. “Muito bem. Vá andando em direção à barreira. Assim que eu me tornar
visível, grude-se em mim. Se necessário montarei uma cúpula em torno de nós.
Assim, estaremos protegidos. Depois iremos ao avião. Entendido?”
John voltou a confirmar com um movimento
de cabeça. Saiu andando devagar. Os passageiros começaram a se impacientar.
Desrespeitaram as ordens da polícia saindo do lugar em que se encontravam.
Ninguém pôde impedi-los.
John mostrou o passaporte. Deixaram-no
passar pela barreira. Perry, invisível, seguia-o. Os dois homens estavam junto
ao edifício, com o campo de pouso diante de si. Algumas aeronaves estavam com
os motores ligados, aguardando os passageiros. Os funcionários das companhias e
a polícia controlavam os passageiros que entravam.
“Continue andando”, pensou Perry.
John passou pelo primeiro avião. Viu o
caça-bombardeiro estacionado à esquerda. Dois dos tripulantes estavam deitados
embaixo de uma das asas, espreguiçando-se na sombra. O piloto examinava os
trens de pouso. O quarto homem estava sentado na cabina, recebendo as mensagens
radiofônicas. Do lugar em que se encontravam, não podiam vê-lo.
John foi andando tranqüilamente em direção
ao avião. O piloto interrompeu seu trabalho, lançando-lhe um olhar curioso.
“Cuidado”, advertiu Perry. “Voltarei a
tornar-me visível.”
O piloto e os tripulantes deitados embaixo
da asa arregalaram os olhos quando, perto do desconhecido, subitamente outro
homem se materializou a partir do nada. Só tiveram consciência da realidade
porque era justamente por causa de Rhodan que se encontravam em regime de
rigorosa prontidão. Quem senão Rhodan poderia estar em condições de tornar-se
invisível a qualquer momento?
O radiotelegrafista surgiu à entrada do
avião.
— Decole imediatamente! — ordenou Perry,
lançando um olhar dominador sobre o piloto. — Iremos com você. Qual é a reserva
de combustível? Será suficiente para cruzar o Pacífico?
O piloto já se recuperara da surpresa.
Esboçou um sorriso débil. Mas o radiotelegrafista voltou à cabina e retornou
com uma pistola. Apontou-a para Perry.
— Quem é o senhor?
— É Rhodan — disse o piloto. — Guarde a
arma. Ela não lhe servirá de nada. Um homem que pode tornar-se invisível a
qualquer momento saberá defender-se de uma bala. Não é verdade, senhor Rhodan?
— Você ainda não respondeu à minha pergunta.
— O combustível? Se desejar posso
completar metade do caminho em volta à Terra. Entre. Apresse-se porque meus
colegas já vêm vindo.
— As intenções dele são honestas —
cochichou John ao ouvido de Perry. — Está com o senhor. É estranho.
— E os outros?
— Não sabem o que fazer.
Perry dirigiu-se ao piloto.
— Por que quer ajudar-me?
— O senhor me obriga, não é? Ei! Jim, Hal,
vamos logo para dentro. Venha, Rhodan. Se demorarmos demais esses caras estarão
aqui antes de decolarmos.
Perry manteve-se vigilante. Mesmo depois
que o veloz caça correu pela pista e começou a ganhar altura, não perdeu a
desconfiança. Afinal, essa gente era do CID — se bem que do capitão Klein
podia-se dizer a mesma coisa. Não era por causa dos seus poderes de sugestão
que a tripulação do bombardeiro lhe prestava auxílio. Faziam-no
espontaneamente. Estavam com ele, contrariando as ordens que haviam recebido.
Enquanto o avião se deslocava para o
oeste, atravessando o Pacífico, Perry teve um sentimento que parecia gratidão.
Não estava só. Tinha amigos entre os homens, muito amigos. Subitamente,
percebeu que a humanidade merecia governar o império cósmico, junto com os
arcônidas.
* * *
O capitão Klein não estava bem disposto.
Parado na colina, olhava para o sul. A
enorme nave esférica dos arcônidas destacava-se no horizonte. Perto dela, a Stardust parecia uma mancha escura,
pequena e insignificante. As granadas detonavam a intervalos regulares na
muralha energética que envolvia a base.
Bem abaixo de Klein, o solo vibrava,
embora ele não o sentisse. As brocas faziam a galeria avançar numa velocidade
assustadora. Os destacamentos especiais trabalhavam noite e dia. Lá no vale, um
montão de terra se acumulava. As explosões pouco numerosas foram camufladas por
meio de uma intensificação das salvas de artilharia.
Não havia qualquer possibilidade de
prevenir Rhodan. Os agentes dos serviços secretos dos três blocos estavam à
espreita nos postos avançados. A base do inimigo da humanidade estava
totalmente isolada. Ninguém conseguiria aproximar-se sem ser percebido.
Embaixo da terra, a galeria já
ultrapassara a linha que representava a continuação da cúpula sob o solo.
Portanto, já estavam dentro da base. Bastava subir, e estariam na superfície,
no interior da cúpula.
As máquinas especiais continuavam roendo a
terra em direção ao sul e já se aproximavam do ponto previamente fixado; bem
embaixo das duas naves. Dentro de dois dias, tudo estaria terminado. E a bomba
de hidrogênio já estava a caminho da Ásia.
Klein ouviu passos atrás de si. Era Kosnow
que se aproximava. O russo também parecia preocupado.
— Rhodan não se encontra na base — disse,
em voz baixa, como se receasse ser ouvido ao longe. — Reconheceram-no em Los
Angeles, quando tentou entabular negociações com alguns empresários. Pelo que
dizem, conseguiu fugir num caça-bombardeiro do CID.
— Era só o que faltava — disse Klein,
sorrindo. — Deve chegar daqui a pouco. O fogo será para valer.
— Tanto faz, desde que consigamos
preveni-lo a tempo. Deve ser avisado do que pretendem fazer com ele. Daqui a dois
dias a galeria começará a subir. O bombardeio será intensificado para abafar as
vibrações. A bomba será detonada cinqüenta metros abaixo da superfície. Se isso
acontecer, não sobrará coisa alguma de Rhodan e de seus amigos.
— Encontraremos um meio — tranqüilizou-o
Klein. — Nem que eu mesmo vá até a cúpula para preveni-los.
— Ninguém conseguirá romper as áreas de
bloqueio. Sabe muito bem que não confiam em nós. Não há dúvidas de que Mercant
sabe do nosso ato de traição. Mas não faz nada. Quase chego a acreditar que, no
íntimo, ele acha que Rhodan, e nós, temos razão. Mas, se for assim, por que
permite o ataque? É isso que não consigo entender.
— Não lhe resta outra alternativa. Não
pode dizer abertamente o que pensa. Ele sabe tão bem quanto nós que Rhodan agiu
corretamente quando não permitiu que o poderio de que dispõe caísse nas mãos de
um Estado, preferindo colocá-lo acima de todos. Mas não pode admiti-lo
expressamente. Mas chegará o dia em que mesmo Mercant poderá dizer a verdade.
— E se Rhodan for destruído antes disso?
— Isso não vai acontecer. Se for
necessário eu me sacrificarei. A bomba ainda está muito longe daqui. E a
galeria ainda não foi concluída — completou Klein.
Lançaram um último olhar para a esfera
distante e, caminhando em direção ao norte, desceram para o vale. Lá embaixo,
os tratores empurravam para o fundo do vale a terra que as esteiras rolantes
traziam da galeria. Em toda a parte viam-se grupos de técnicos. O coronel
Cretcher e o general Tai-tiang conversavam.
Um homem surgiu correndo pela planície
desolada, fez continência para os dois oficiais e entregou uma mensagem ao
general. Este leu-a e passou-a ao coronel. Sem aguardar a resposta deste
último, correu em direção a um dos abrigos subterrâneos. Cretcher ficou
indeciso por alguns instantes, depois começou a andar em direção à galeria.
Kosnow franziu a testa.
— Aconteceu alguma coisa!
— Se andarmos depressa, poderemos alcançar
o mensageiro. Talvez ele nos conte o que houve. Ei! O alarma! Deve ter sido
algo de muito sério.
O telegrafista ia entrar em sua barraca
quando Klein segurou-o pela manga do uniforme.
— O que houve?
— É Rhodan — disse o homem, um soldado
chinês. — Roubou um avião...
— Isso nós sabemos desde ontem —
interrompeu Kosnow. — E, por isso, não é preciso dar o alarma.
— É que ele vem para cá! Daqui a cinco
minutos...
Klein olhou para Kosnow. Então era isso!
Deram as costas ao radiotelegrafista,
ainda perplexo, e correram em direção à galeria. Se a notícia fosse correta,
dali a cinco minutos as baterias entrariam todas em ação. Tentariam evitar a
todo custo que Rhodan alcançasse sua base. Ou então...
Uma possibilidade relampejou no cérebro de
Klein. Talvez nem deviam impedi-lo. Havia bons motivos para isso. Mas, será que
o general Tai-tiang teria a mesma idéia?
— Vamos, Kosnow! Temos de falar com o
general. Tive uma idéia.
Tai-tiang parecia espantado quando os dois
agentes chegaram ao abrigo de comando. Fizera as ligações com as posições de
artilharia e estava a ponto de transmitir as instruções adequadas.
— O que houve? Como se atrevem?...
— Revogue a ordem de fogo! — disse Klein.
— O que sabem a respeito disso?
— Rhodan apoderou-se de um avião e tentará
pousar junto à base. O senhor pretende impedi-lo. Já pensou no que acontecerá
depois? Ao perceber o perigo dará meia-volta e desaparecerá. O que nos adianta
explodir a base, se Rhodan não explodir junto com ela?
Quando necessário, o general Tai-Tiang
sabia reagir prontamente. Lançou um olhar perscrutador sobre Klein, depois,
confirmou com um aceno de cabeça.
— A idéia não deixa de ser inteligente.
Permitirei que Rhodan pouse e penetre na cúpula. Dali não escapará. A bomba já
está a caminho. Terminaremos isso antes da data prevista, segundo comunicado do
coronel Cretcher. Certo! Instruirei os caças que o perseguem.
Dirigiu-se à barraca em que funcionavam os
serviços de rádio.
Klein e Kosnow voltaram a subir a colina
para presenciar o esperado pouso de Rhodan.
* * *
Este não se fez esperar. Um ponto
minúsculo surgiu no horizonte, cresceu vertiginosamente e assumiu a forma de um
caça-bombardeiro dos mais modernos. Alguns dos aparelhos menores que o
acompanhavam, procuravam forçá-lo a descer, mas não atiravam para não expor a
tripulação do caça a um risco desnecessário.
Perry encontrava-se junto ao piloto.
— Você agiu com bravura. Fico-lhe muito
grato pelo auxílio. Quem sabe se, um dia, poderei retribuir-lhe o favor.
Aterrize exatamente no ponto que lhe indicarei. Nada lhe acontecerá, pois você
poderá declarar sob juramento que eu o obriguei a trazê-lo até aqui. Logo,
Marshall e eu os deixaremos. Dali até a cúpula são poucos metros.
— Como vamos atravessá-la? — perguntou
Marshall.
— Tenho um equipamento especial que nos
permitirá neutralizar a cúpula em qualquer ponto. Dentro de alguns minutos
estaremos em segurança. O importante é aterrizarmos antes que os pilotos dos
outros caças saibam onde o faremos.
O avião iniciou a descida.
— Estou admirado por não nos terem
recebido com fogo antiaéreo — disse o piloto.
O radioletegrafista, que trazia o fone no
ouvido, murmurou:
— A ordem de fogo foi revogada. Não deram
os motivos. Talvez nossa vida seja muito preciosa para eles. Também é possível
que pretendam interrogar-nos... E os mortos não falam.
As rodas tocaram o solo. O enorme
bombardeiro correu pela planície irregular, descontrolou-se e acabou batendo
numa rocha. Pelos cálculos de Rhodan, estavam a menos de cem metros da muralha
energética.
O piloto foi atirado contra o painel mas,
com reflexo rápido, cortou a entrada de combustível. O radiotelegrafista caiu
por entre os instrumentos destroçados. Os outros dois tripulantes, ilesos,
abriram a porta de saída.
— Mais uma vez obrigado, e boa sorte! —
disse Rhodan, arrastando Marshall. — Temos de correr, senão nos pegam antes de
chegarmos à muralha. Fique junto de mim. Vou ligar a cúpula energética.
Saltaram para o solo pedregoso do deserto.
Segurando Marshall pela mão, Perry correu em direção à nave esférica que ficava
a cinco quilômetros de distância. Enquanto corria, comprimiu um botão colocado
no cinto. Aparentemente, nada aconteceu. Apenas, não sentiram mais a ação do
vento. Uma pequena cúpula os isolava por completo do mundo exterior.
Um dos caças descreveu uma curva ampla e
aproximou-se a baixa altitude. As asas expeliram raios. Quatro fileiras de
projéteis caíram sobre Perry e Marshall, que soltou um grito de pavor.
Os impactos logo cessaram.
— Não se preocupe, Marshall. Para romper
esta cúpula, precisarão de calibres maiores.
O caça descreveu uma curva à direita,
ganhou altitude e, de repente, bateu contra um obstáculo invisível. A violência
do impacto fez o aparelho ricochetear, antes de perder o controle e mergulhar
contra o solo. As chamas começaram a subir e, segundos depois, a munição
explodiu, atirando destroços para todos os lados.
— É a cúpula energética. Está a poucos
metros de distância. Cuidado! Vou ligar o campo neutralizador. Os outros caças
não chegarão em tempo. Pronto, estamos em segurança. Agora podemos nos mover à
vontade.
Perry soltou a mão de Marshall, virou-se e
viu que os outros caças ganharam altitude, afastando-se em direção ao sul.
Quatro homens estavam parados junto ao caça-bombardeiro, olhando para eles. Um
dos tripulantes ergueu a mão, num aceno. Logo, os outros o imitaram. Depois,
puseram-se em marcha em direção às posições do exército que cercava a base.
Sabiam que algumas horas desagradáveis os esperavam.
— Venha, Marshall. A Stardust está esperando por nós.
Conseguimos. Permita que lhe dê as boas-vindas ao meu reino.
— Obrigado — disse Marshall, entre alegre
e ainda surpreso.
Caminhavam em direção às duas naves que
pareciam esperá-los em meio ao deserto e, por pouco, quase tropeçaram em um
homem que, de súbito, surgiu do nada, fitando-os com os olhos assustados.
Rhodan parou de chofre.
A planície de areia não oferecia a menor
proteção...
6
A máquina em forma de torpedo penetrava na
rocha com uma velocidade vertiginosa. A pedra triturada era atirada
automaticamente sobre a esteira transportadora que a conduzia à superfície. Os
cabos forneciam energia para as máquinas e a iluminação. A renovação do ar
funcionava perfeitamente.
O coronel Cretcher estava parado junto a
Klein e Li. Seu rosto irradiava satisfação.
— Klein, a idéia de não abrir fogo contra
Rhodan foi excelente. Não me esquecerei de mencionar isso perto de Mercant.
— Ele ficará satisfeito — conjeturou
Klein, em tom ambíguo.
O tenente Li apontou para a escavadeira
mecânica.
— Quanto tempo ainda levaremos?
— Terminaremos amanhã ao anoitecer. A
galeria vertical só terá largura suficiente para transportar a bomba. Depois de
amanhã, Perry Rhodan não mais existirá — nem os arcônidas.
— O mundo respirará aliviado — murmurou
Klein.
Cretcher olhou-o ligeiramente.
— É possível — disse, e voltou sua atenção
às máquinas. Klein e Li foram andando em direção à saída distante.
A galeria era da altura de um homem e estava
bem iluminada. As paredes eram quase perfeitamente lisas. À esquerda, a esteira
transportadora deslizava em silêncio. Não havia ninguém por perto.
— Temos de prevenir Rhodan — cochichou
Klein, desesperado. — Amanhã será muito tarde. A esta hora já não saberia como
evitar a explosão, mesmo que tivesse conhecimento dela.
— Não fale tão alto — disse Li. —
Lembre-se de que isso aqui é um bom condutor de som. Eu também não sei o que
fazer. Até chego a ter a impressão de que estou prestes a trair Rhodan. O que
será de nós se o plano tiver êxito e Rhodan for morto? Depois de amanhã a
guerra fria será reiniciada, e, com ela, o eterno medo de uma catástrofe
nuclear. Não sei se agüentaremos por muito tempo.
Klein parou.
— Hoje à noite tentarei atravessar a linha
de posições montadas pelos serviços secretos.
O chinês sacudiu a cabeça.
— Mesmo que conseguisse, não arranjaria
nada. Rhodan não pode manter um serviço de vigilância ininterrupto sobre suas
fronteiras. Nem perceberá que você está por perto. O lógico seria despertar a
atenção dele. Mas como?
— Silêncio! Vem gente por aí — cochichou
Klein. Ouviram o ruído dos passos que se aproximavam. Um homem vinha ao
encontro deles. Quando se encontrava bem próximo, reconheceram-no. Era Tako Kakuta,
um técnico japonês. Seus olhos suaves fitaram-nos com uma expressão indagadora.
— Então, Tako! Estamos quase prontos, não
é?
— Creio que sim — respondeu o japonês,
cauteloso. — O coronel Cretcher está lá dentro?
— Está perto da escavadeira — confirmou
Klein e foi andando. Li seguiu-o. O caminho para a saída era longo mas, quando
se cansavam, sentavam-se na esteira transportadora. Assim, avançavam mais
depressa.
Já podiam ver a claridade da entrada do
túnel mais adiante, quando uma sombra se desenhou contra a luminosidade. Era um
homem que também caminhava em direção à saída. Iam passando por ele quando uma
lâmpada derramou uma luz forte. Ao reconhecer o homem, Klein arregalou os
olhos. Virou-se, sem querer crer no que via e, de um salto, desceu da esteira.
Li, que não reagiu com a mesma rapidez, foi carregado mais um pouco.
Klein parou e esperou que o homem se
aproximasse.
Era Tako Kakuta.
A galeria não era muito larga. O japonês
tinha ido à parte dos fundos, para falar com o coronel Cretcher. Fora há vinte
minutos. Nesse meio tempo, tinham avançado, ele e Li, em direção à saída. E o
japonês, inexplicavelmente, havia passado por eles, já voltando. Não era
possível.
Klein estreitou os olhos. Seu cérebro
trabalhava febrilmente. Tentou, em vão, encontrar a solução para aquele problema,
que se afigurava fantástico.
Tako esboçou seu insondável sorriso. E,
com um ar de humildade, disse:
— Devemos ter passado um pelo outro sem
percebermos, senhor Klein.
Klein sacudiu lentamente a cabeça.
— Como você chegou até aqui? Como sabe,
sou um agente de segurança e, por isso, tenho direito a certas perguntas. Você
não pode ter passado por nós, Tako. Na verdade, a esta hora, ainda não poderia,
ao menos, ter alcançado o ponto onde o coronel Cretcher está. Diga logo! Como
conseguiu chegar até aqui?
O japonês continuava a sorrir.
— Passei na frente dos senhores.
— Você está mentindo. Nós o teríamos
visto. Diga a verdade.
Pela primeira vez, o medo começou a
desenhar-se nos olhos do japonês.
— O senhor não acreditaria — asseverou. —
Por favor, senhor Klein, não dê importância ao que passou. Por favor!
— Pois eu tenho de dar importância a uma
porção de coisas — respondeu Klein, segurando o japonês pelo braço. — Venha
comigo.
Sua mão pegou no vazio. O japonês havia
desaparecido. Parecia que se dissolvera no ar ou se tornara invisível. Klein
estava petrificado quando Li chegou perto dele.
— O que houve, Klein? Onde está Tako?
Klein parecia despertar de um sonho.
— Sei lá! O homem desapareceu da mesma
forma como surgiu. Devo sofrer alucinações, ou então...
— Ou então?
— Ou então o homem pode se tornar
invisível, Li. Mas uma coisa dessas não existe. Ninguém pode tornar-se
invisível.
Li encarou a parede lisa da galeria.
— Existe outra possibilidade. Já ouvi
falar de casos em que pessoas desaparecem de repente, para aparecer em outro
lugar.
— Ora, Li! Não me diga que você crê nessas
coisas...
— Mas é verdade.
— Li, estamos no século vinte.
— Justamente! Isso é conseqüência dos
acontecimentos do século vinte. Nunca ouviu falar em mutações? Na ativação de
setores ociosos do cérebro? Os homens atingidos por esse fenômeno descobrem
faculdades das quais ninguém suspeitaria. Talvez Tako seja um caso desses.
Imagino que se trate de teleportação.
— De quê?
— Isso significa que Tako pode
transportar-se de um lugar a outro por força única e exclusiva de sua vontade.
Sei que isso parece lenda, mas também sei que é possível, uma vez presentes os
respectivos pressupostos.
— Que pressupostos são esses?
Li assumiu um ar sério.
— As radiações produzidas pelas bombas
atômicas. Só agora as crianças que não haviam nascido ao tempo da explosão de Hiroxima
estão se tornando adultas. E eis que os primeiros mutantes surgem no mundo. Nem
me atrevo a imaginar como será a humanidade daqui a cinqüenta anos. Klein
tornara-se pálido.
— Você está brincando! Esses casos só
podem ser exceções, se é que suas suposições são corretas.
— Um belo dia — disse Li, sacudindo a
cabeça — o homem de hoje será a exceção. Venha comigo, precisamos encontrar
Tako. Precisamos saber se ele é realmente um mutante.
Enquanto procuravam, Klein viu,
repentinamente, a solução diante de si. Se conseguissem fazer de Tako um
aliado, haveria uma possibilidade de prevenir Rhodan.
Mas será que Li tinha razão?
* * *
— É claro que poderia ter fugido — disse
Tako Kakuta com a voz humilde. — Mas isso não adiantaria nada. Teriam ido em
minha perseguição e, um belo dia, me encontrariam. Por isso foi que vim falar
com os senhores. Podem perguntar o que quiserem.
A porta estava trancada. Estavam sós.
Klein sabia que Li vigiava do lado de fora. Ninguém os surpreenderia.
— Você é um mutante?
— Meus pais estão entre os sobreviventes
da catástrofe de Hiroxima. Nasci pouco depois. Minha mãe morreu em conseqüência
das radiações. Meu pai ficou aleijado. Só eu fui poupado e cresci normalmente,
se não levarmos em conta uma faculdade que descobri no ano passado. Já consegui
desenvolvê-la, mas acredito que ainda pode ser aperfeiçoada. O que pretende
fazer comigo, senhor Klein?
— Não tenha receio, Tako. Que distância
pode percorrer dessa maneira?
— Uns quinhentos metros: daí não passo.
Para vencer distâncias maiores tenho que realizar vários saltos.
— Só quinhentos metros? — Klein não
ocultou o desapontamento. — Não é muito. O que acontece se você se materializar
dentro de um objeto sólido e não ao ar livre?
Tako sorriu.
— Isso não é possível. O salto subseqüente
segue-se logo após. É automático. Tenho pouca influência sobre isso. Mas posso
regular o primeiro salto com bastante precisão. Praticamente, não corro o menor
risco.
Klein respirou profundamente.
— Quero fazer-lhe uma pergunta, Tako. Você
odeia, ou tem qualquer razão para desejar a morte de Perry Rhodan, o homem que
queremos destruir com uma bomba atômica?
O sorriso de Tako continuava inalterado.
— Capitão, o senhor é um agente de
segurança. Seu dever é velar para que esta missão tenha êxito e para que
ninguém tente sabotá-la. Se eu não odiasse Rhodan, não iria dizê-lo justamente
ao senhor. Não é verdade?
— Concordo. Tako. Mas esta pergunta não é
uma armadilha. Apenas gostaria de saber sua opinião. Arrisco muita coisa, Tako,
mas confio em você. Veja bem: esta missão que ajudo a fiscalizar não pode ser
coroada de êxito. Rhodan não pode ser morto, compreende? Se isso acontecer,
amanhã à noite a ameaça do holocausto atômico voltará a surgir sobre nossas
cabeças. Só a terceira potência pode impedir esta guerra. É difícil admitir
este fato, mas ele constitui uma conclusão lógica dos acontecimentos passados.
Bem, você já conhece a minha opinião. Posso saber qual é a sua?
A expressão do rosto de Tako Kakuta não se
alterou.
— Perry Rhodan já possui mais amigos do
que ele mesmo imagina. Ainda têm de se manter ocultos, pois o medo que o
poderoso sente do poderoso ainda é mais forte que a razão. Como vê, senhor
Klein, suas preocupações não têm o menor fundamento. Mas, o que nos resta senão
executar as ordens dos nossos governos? O indivíduo isolado não pode rebelar-se
contra os mesmos. Se pudesse, teria êxito?
— Um indivíduo isolado, não; muitos
indivíduos, sim. Unidos, constituirão um elemento de força que ninguém poderá
vencer. Mas vamos à pergunta que acaba de formular: pode Tako, um indivíduo
isolado, às vezes, pode ter êxito.
— Como?
— Você deve transportar-se para junto de
Rhodan a fim de preveni-lo. Só você pode penetrar naquela fortaleza. Creio que
o anteparo energético não poderá detê-lo.
— Não — disse Tako. — Ele não me detém.
Klein parecia perplexo.
— O quê? Como você sabe?
— Já que não existem segredos entre nós, e
temos os mesmo propósitos, vou contar tudo. O senhor queria que eu fosse para
junto de Rhodan para preveni-lo, não é? Pois bem, também tive esta idéia. Perry
Rhodan já foi prevenido, capitão Klein. Recomendo-lhe que não entre mais na
galeria depois da meia-noite. Foi este o prazo que Rhodan nos concedeu quando
teve conhecimento do projeto.
Klein ficou boquiaberto; encarou Tako e,
depois de alguns segundos, disse:
— Você tem razão, Tako. Rhodan tem mais
amigos do que ele pode imaginar.
7
Perry logo notou que o homem que se
encontrava diante dele era um japonês. Este, assumiu uma posição quase humilde,
baixou o rosto jovem e sorridente e fez uma mesura.
— Não se assuste, senhor Rhodan. Vim para
preveni-lo de um grande perigo.
— Como conseguiu atravessar a barreira
energética? — perguntou Perry, já recuperado do espanto. O homenzinho devia ter
escapado à sua vista em meio ao deserto. — O senhor surgiu de repente...
— Possuo o dom da teleportação. Meus pais
passaram pela catástrofe de Hiroxima. Talvez compreenda...
Marshall cochichou ao ouvido de Rhodan:
— É um mutante, tal qual eu. Pode trasladar-se
instantaneamente de um lugar para outro. Vem de um ponto abaixo da superfície.
— Sob a superfície? — inquiriu Rhodan,
surpreso.
— É — confirmou Tako — venho de uma
galeria cavada embaixo desta área. Como foi que o senhor soube disso?
Marshall aproximou-se.
— Sou um mutante, tal qual você, Tako. É
este o seu nome não é? Tako Kakuta. Você possui o dom da teleportação; e eu sei
ler pensamentos. — Estendeu-lhe a mão. — De certa forma somos companheiros.
Também você está ajudando Perry Rhodan.
Tako apertou a mão estendida com um
sorriso nos lábios.
Perry Rhodan tranqüilizou-se. Encontrara
mais um mutante. Suas suposições se confirmavam. Com isso, seu plano de formar
um exército de mutantes dedicado à ajudá-lo a vencer os inimigos que o cercavam
ganhou uma base mais realista.
— Qual é o perigo contra o qual veio me
prevenir, Tako?
— Trata-se de um destacamento especial que
está cavando uma galeria por baixo da terra e que irá até um ponto sob as duas
naves espaciais. Amanhã, pretendem introduzir nela uma bomba de hidrogênio de
alta potência. A galeria terminará cinqüenta metros abaixo da superfície. Não
creio que reste muita coisa, caso o senhor não tome as providências
necessárias.
— Uma bomba embaixo da terra! — Num
instante, o cérebro de Rhodan pôs-se a trabalhar velozmente, e logo ele teve
ciência das medidas defensivas a serem adotadas.
— Obrigado, Tako. Acredito que não poderá
retornar mais ao seu destacamento. Se quiser, pode ficar conosco.
— Mais tarde — disse o japonês, em tom
modesto. — Suponho que pretendem defender-se. Tenho o dever de evitar que
aconteçam baixas entre os trabalhadores. Posso saber o que pretende fazer?
— Ainda não sei — disse Rhodan. — De
qualquer maneira, não pretendo tomar qualquer medida defensiva antes do
anoitecer. Esta informação basta?
— Providenciarei para que hoje à noite não
haja ninguém na galeria.
Perry colocou a mão sobre o ombro do
japonês.
— Você é muito humano, Tako...
— Qualquer um faria a mesma coisa, ao menos
qualquer pessoa cujos pais passaram por um ataque atômico. Ainda nos veremos,
senhor Rhodan...
Tako Kakuta sumiu diante deles como se
nunca tivesse estado ali. Só o deserto cercava os dois homens. Ao longe,
viam-se os contornos reluzentes das naves. Um vulto surgiu perto delas. Vinha
ao encontro deles.
— O que foi que ele pensou? — perguntou
Rhodan.
John Marshall respondeu:
— Pensou o que disse.
— Quer dizer que disse a verdade. Vamos
andando, aí vem Bell.
— Quem é Bell?
— Reginald Bell, co-piloto e técnico de
bordo da Stardust. Um ótimo
sujeito e um grande amigo.
Encontraram-se com Bell a poucos metros da
nave.
— Olá, Perry! Tudo bem? Quem é o
cavalheiro que nos visita?
Antes que Perry pudesse fazer as
apresentações, Marshall foi logo dizendo:
— Em primeiro lugar, não uso brilhantina,
senhor Bell. Meus cabelos são lisos por natureza. Em segundo, o senhor também
não é um modelo de beleza. E em terceiro, não é da sua conta como foi que me
aproximei do senhor Rhodan.
Os cabelos ruivos de Bell arrepiaram-se.
Olhou perplexo para o estranho e, depois
para Rhodan.
— Santo Deus! Será que este cara sabe ler
pensamentos?
— Adivinhou! — confirmou Rhodan sem conter
o riso. — Ele os lê com perfeição. Se eu fosse você, passaria a utilizar o
bloco protetor sempre que quiser se entreter com pensamentos secretos. Permita
que lhe apresente John Marshall, o primeiro telepata de uma humanidade que aos
poucos vai se tornando adulta.
— Muito prazer — disse Bell, refeito do
susto.
— O prazer é meu — John apertou a mão
estendida. — Fico satisfeito em saber que, daqui por diante, controlará seus
pensamentos.
Perry interrompeu-o.
— Tudo em ordem, Bell?
— Tudo perfeito, Perry.
— Ótimo. Vamos andando. Preciso falar
imediatamente com Crest. O assunto é muito urgente. Estão preparando um ataque
contra nós. Pretendem explodir-nos amanhã. É uma gente muito simpática, não é?
— Muito — concordou Bell. — E como é que
querem nos explodir?
— Cavaram uma galeria que termina embaixo
das naves.
— Como soube disso?
— Depois eu conto.
Crest aguardava-os diante da nave
esférica. Eric Manoli estava a seu lado. Haggard, um pouco afastado, observava
o trabalho dos robôs, controlados por Thora.
Crest cumprimentou seu aliado.
— Fico satisfeito em tê-lo de volta.
Conseguiu alguma coisa?
— Muita! Crest, quer fazer o favor de
chamar Thora, imediatamente. Se não agirmos depressa, estaremos perdidos. As
potências da Terra trabalham em conjunto e, quando isso acontece, elas se
tornam perigosas. Não conseguiram romper a cúpula energética, mas encontraram
outro caminho. Abriram uma galeria que termina embaixo das naves. Amanhã
pretendem detonar uma bomba atômica.
— Como vejo, trouxe alguém — disse Crest,
sem fazer a menor referência sobre o perigo que os ameaçava. — Sinto que é um
telepata. Com isso a humanidade saltou um estágio na evolução. Seja bem-vindo,
senhor Marshall. Como vê, meu cérebro também possui esta capacidade. O que
acaba de dizer, Rhodan? Cavaram uma galeria? Tencionam detonar uma bomba? Thora
vai ficar satisfeita.
Se ficou satisfeita, Thora não o
demonstrou.
— Eles nunca compreenderão — disse ao
ouvir a notícia. Os cinco homens estavam sentados, em companhia de Crest e Thora,
num confortável camarote da nave esférica. O crepúsculo já descia sobre o
deserto. — Está na hora de dar-lhes uma lição da qual jamais se esquecerão.
— Recomendo-lhe que se abstenha de qualquer
ato precipitado — disse Crest, sacudindo a cabeça. — Se conseguirmos impedir a
explosão, devemos dar-nos por satisfeitos.
— Se dependesse de mim, exterminaria esta
raça — respondeu Thora, exaltada.
— Além de insensato, seria perigoso. Se
não pudermos contar com o auxílio deles, jamais chegaremos a Árcon. E ninguém
sabe se, num raio de quinhentos anos-luz, existe outra raça inteligente.
A constatação de Crest não deixou de
produzir efeito. Thora concordou. Com alguma relutância, é verdade.
— Muito bem. Acato a decisão da maioria. O
que faremos?
Perry inclinou-se para a frente.
— Existe alguma possibilidade de destruir
a galeria sem sairmos daqui?
Thora fez que sim.
— O localizador está indicando a posição
exata da galeria. Posso ligar o combustor centralizado.
— O que é isso?
— Trata-se de uma fonte de energia. Esta
sai do gerador sob a forma de radiações inofensivas. O conversor faz com que, no
ponto escolhido, ela se transforme numa força destrutiva. Em outras palavras,
daqui, posso fazer com que um raio energético atravesse a matéria sem produzir
o menor dano. O efeito devastador só começará a cinco, cinqüenta ou quinhentos
metros abaixo da superfície. O localizador indica a posição exata do objetivo,
regulo o combustor para esse ponto e, com isso, é possível derreter a galeria.
Por dias a fio será transformada num inferno incandescente e, portanto,
intransitável. Será que isso basta? Rhodan esboçou um sorriso suave.
— Basta. Muita coisa poderá acontecer
antes que decidam desencadear outro ataque. Não acredito que continuem por
muito tempo a nos considerar como inimigos mortais. Aos poucos, a idéia de que
só oferecemos vantagens à humanidade vai ganhando terreno. Já temos mais amigos
pelo mundo do que podemos imaginar.
— Fico satisfeito em saber disso —
observou Crest.
Thora interrompeu-o.
— A que horas devo começar? Perry olhou
para o relógio.
— Exatamente daqui a dez horas, Thora. Às
quatro da manhã não haverá ninguém na galeria.
Thora encarou-o.
— Muito bem. Mas asseguro-lhe que é esta a
última vez que levo em consideração os sentimentos alheios. A defesa contra o próximo
ataque que for lançado representará a destruição de sua raça. Convém comunicar
isso a sua gente.
Levantou-se e saiu de cabeça erguida, sem
se voltar.
Marshall dirigiu-se a Rhodan, rompendo o
silêncio:
— É estranho. Ela está mentindo. Não pensa
o que diz...
* * *
O dia estava amanhecendo no leste.
Todos dormiam. Só Rhodan e Bell esperavam
na cabina de comando da Stardust. Viviam
olhando para o relógio. Os ponteiros avançavam muito devagar. Ainda faltavam
alguns minutos para as quatro.
No interior da nave esférica havia uma luz
acesa. Vez por outra via-se uma sombra esbelta que se movia atrás da vigia. Era
Thora. Estava diante do mecanismo que designara como combustor centralizado.
Talvez sua mão descansasse sobre uma chave.
— Será que ela cumprirá a palavra? —
cochichou Bell.
— Cumprirá — disse Perry. — Não há dúvidas
de que o japonês conseguiu evacuar a galeria, senão ele nos teria comunicado e
pedido um adiamento. — Está na hora.
Uma luminosidade esverdeada saiu da vigia
da nave esférica, dando um brilho fantasmagórico ao romper do dia. A leste, o
primeiro tom rosado surgia no horizonte.
Lá embaixo, a energia liberada iniciava
sua ação fulminante, transformando produtos da técnica humana em montões de
metal derretido. A rocha gotejava e, ao endurecer, assumia formas bizarras. A
terra deslizava, emitindo um chiado ao volatizar-se. Aos poucos, a marcha
destrutiva foi prosseguindo em direção à saída da galeria.
De início, a sentinela postada ali
percebeu o aumento da temperatura. Depois de algum tempo, os vapores corrosivos
começaram a sair da galeria e abriram caminho até os pulmões do homem. Este,
vencendo o pavor que começava a dominá-lo, deu o alarma. Dentro de poucos
segundos, todos estavam de pé no acampamento. A rocha liquefeita saiu da
galeria e, em contato com o ar frio da manhã, endureceu, fechando a entrada
fumegante.
* * *
Klein afastou-se da janela. Eram quatro e
dez da manhã.
— A galeria deixou de existir, Tako. Você
prestou um grande serviço à humanidade. Além de prevenir Rhodan, fez com que a
esta hora não houvesse ninguém na galeria.
— Não foi fácil convencer o coronel
Cretcher da existência da radioatividade. Ainda bem que consegui introduzir
alguns gramas de urânio na galeria.
Li e Kosnow levantaram-se e, em silêncio,
apertaram a mão do japonês.
— Dê lembranças a Rhodan — disse Klein. —
E diga-lhe que poderá contar sempre conosco. Diga-lhe, também, que aguardamos o
dia em que poderemos estabelecer contato com ele em caráter oficial.
— Não esquecerei — prometeu Tako,
apertando a mão dos três homens. — Podem ter certeza. Ainda teremos
oportunidade de dar provas de lealdade e coragem. Passem bem e até a vista...
No mesmo instante, os três se viram sós. E
Tako Kakuta voltou a materializar-se na cabina de comando da Stardust.
Bell, de costas para a vigia, bocejava.
— Está no fim — disse. Estou cansado; vou
dormir um pouco.
De repente, a dois metros de distância, um
ser humano surgiu do nada. O homem inclinou-se ligeiramente e, dirigindo-se
para Rhodan, disse:
— Minha missão foi cumprida, senhor
Rhodan. Vim para oferecer meus serviços.
Embora o cérebro de Bell funcionasse com
uma extraordinária rapidez, a surpresa sobrepujou a razão. Rhodan lhe havia
falado a respeito do poder de que Tako era possuidor. Mesmo assim, o impacto de
ver um ser humano surgir vindo não se sabe de onde surpreende pelo que tem em
si de fantástico.
— Feche a boca, Bell, senão Tako é capaz
de cair dentro do seu estômago — recomendou Perry, rindo, antes de dirigir-se
ao japonês.
— Aceito os serviços que me oferece, Tako.
Juntamente com Marshall, você representa um poder imenso. Tenho certeza de que
conseguiremos nosso objetivo.
— Se eu não acreditasse nisso, não estaria
aqui — respondeu o japonês com humildade. Mas, nos seus olhos, brilhava o
orgulho.
Bell aproximou-se e, com um sorriso,
colocou a mão sobre o ombro de Tako, murmurando em seguida:
— É verdadeiro!
— Claro que é! — interveio Rhodan. —
Acreditava que fosse um fantasma?
— Escute. Você pode deslocar-se para
qualquer lugar a qualquer momento?
— Posso, senhor Bell.
Um brilho estranho surgiu nos olhos de
Bell.
— Mesmo para o interior da nave dos
arcônidas?
— Por que não?
Bell sorria.
— Tako, será que você pode verificar se
Thora já concluiu o contra-ataque? Acho que não há nada demais em saber, não é,
Perry?
Perry Rhodan concordou.
— Claro que não! E pouparíamos uma
caminhada até lã. O que acha, Tako?
O japonês aproximou-se da vigia e olhou
para a nave esférica.
— Está bem...
Antes que Bell pudesse dizer qualquer
coisa, ele desapareceu. Dali a alguns segundos, Bell começou a falar:
— Fico satisfeito só em pensar no susto
que Thora vai levar quando, de repente...
Quem levou um susto foi ele. No mesmo
instante, Tako voltou a aparecer em sua frente. Seus olhos sorriam como se
pedissem perdão. Disse:
— Sinto muito, mas a senhorita Thora não
pôde me atender. Estava indo para a cama.
Um sorriso galhofeiro brincou em torno dos
lábios de Perry.
— E daí?
— É, e daí? — perguntou Bell, triunfante.
— Ela se assustou?
— Não chegou a me ver — explicou Tako. —
Materializei-me atrás das suas costas. Estava tirando a roupa.
— Tirando a roupa?! — Bell arregalou os
olhos. Mas logo se controlou. Seu rosto iluminou-se. Colocou as mãos nos ombros
de Tako.
— Já somos bons amigos, concorda? Nossa
amizade só tende a crescer, não é?
— Naturalmente — gaguejou o japonês, sob o
peso das mãos do gigante. — Por que pergunta?
Bell cochichou-lhe ao ouvido:
— Que tal você me ensinar a
teleportação?...
E arrastou Tako Kakuta, surpreso, para fora
da cabina.
Perry Rhodan seguiu-os com os olhos.
Sorria. Antes de deitar, lançou um olhar pela vigia.
O deserto estava vazio. A paz reinava
nele.
Lá longe, ao leste, o céu tornava-se
rubro. Um novo dia raiava. O que traria?
* * *
A nave
dos arcônidas, pousada na Lua, foi destruída num ataque de surpresa lançado
pelas potências terrenas. Apesar disso, a base de Rhodan, montada no deserto de
Gobi, mantém-se intacta sob a proteção da cúpula energética. E o fator decisivo
é este. Só a Terceira Potência pode dominar a nova crise que teve origem com a
destruição da nave dos arcônidas. Saiba como isso acontece, lendo o quinto
episódio da série: ALARMA GALÁTICO...

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