Era uma idéia maluca. Fred Hangler sabia
desde o primeiro instante, mas quem mandava não era ele, e, sim, o patrão. Um
assalto ao Banco Central de Brisbane em plena luz do dia! Isso não poderia
acabar bem.
Tudo fora planejado nos menores detalhes.
Lá fora, o carro estava esperando. O patrão estava recostado no assento de
trás, com a pistola sobre os joelhos. A porta estava apenas encostada. Junto ao
motorista, Jules Arnold estava à espreita, com a mão no bolso. Mantinha uma
vigilância ininterrupta sobre a rua principal, especialmente sobre o guarda de
trânsito postado na esquina. Este não desconfiava de nada. Parado sob o
guarda-sol, sacudia os braços, como se dirigisse uma orquestra, não o trânsito
de Brisbane, uma cidade situada na costa leste da Austrália.
Fred Hangler recebera o trabalho mais
difícil. Teria de entrar no banco e obrigar o caixa a entregar-lhe todo o
dinheiro que se encontrava no cofre. Ninguém contaria com um acontecimento
desses poucos minutos antes do meio-dia. A surpresa seria completa. Além disso,
todo mundo sabia que a uma hora dessas, até os policiais ansiavam pela merecida
sesta e relaxavam a vigilância. Tudo seria muito rápido, pois não seria
possível evitar o alarma. Hangler não tinha a menor intenção de matar um
funcionário do banco. Eventualmente, estaria disposto a enfrentar alguns anos
de penitenciária, mas não a forca.
Assim que estivesse de posse do dinheiro,
correria para o carro que estava à espera. Uma viagem curta e vertiginosa, e
logo desapareceriam na garagem de Jeremias. Depois de dois minutos, mais ou
menos, o carro teria mudado de cor e de placa. O guarda da esquina juraria em
vão sobre suas declarações. O veículo que vira teria desaparecido sem deixar o
menor vestígio.
O patrão pensara em tudo. Sempre pensava
em tudo. Apenas não se lembrava que de que muitos anos antes, a primeira bomba
atômica explodira em Hiroxima. Mas não devemos ser injustos. Ninguém se
lembraria de um detalhe desses quando estivesse planejando um assalto a banco.
Acontece, porém, que foi justamente esse detalhe que se constituiu no fator
decisivo para o fracasso do empreendimento.
Ao entrar no saguão, com a pasta numa das
mãos e a pistola na outra, metida no bolso do paletó — Fred Hangler ficou
contrariado ao perceber que ainda havia alguns clientes. O patrão esperava que
a essa hora ninguém mais faria depósitos ou — o que é mais lamentável —
retirasse dinheiro. Paciência. Não se podia fazer nada.
Colocou-se atrás dos três clientes e ficou
aguardando. O outro guichê já estava fechado. O funcionário que ali se
encontrava bocejou, lançou um olhar de reprovação sobre o novo cliente e
desembrulhou seus sanduíches. Uma garrafa de leite formava o complemento de sua
frugal refeição.
Seu colega estava empenhado no trabalho.
Pagou uma quantia pequena, deu uma informação ao segundo cliente e dirigiu-se
ao terceiro. Fred Hangler ficou satisfeito ao perceber que sua fortuna crescia
em algumas centenas de libras. A mão que cingia a coronha da pistola começou a
transpirar. O homem que se encontrava diante dele contou cerimoniosamente as
notas em cima do guichê. O funcionário conferiu o dinheiro com a mesma atitude.
Subitamente, o caixa que fazia o lanche
parou de comer. Estava bem quieto como se perscrutasse seu interior. Um brilho
estranho surgiu em seus olhos. Como se fosse por acaso, seus olhos vagaram pelo
recinto, parando em Fred Hangler. Uma ruga surgiu em sua testa e, então, pisou
no botão do dispositivo de alarma.
No saguão, nada de estranho aconteceu.
Apenas na delegacia mais próxima, a um quilômetro dali, uma sereia começou a uivar.
O inspetor de plantão foi arrancado abruptamente da sesta a que nem devia estar
entregue, pois o relógio ainda marcava alguns minutos para o meio-dia.
Levantou-se perturbado e fitou a sereia. Um número surgiu em um painel
luminoso. Quatro. Era o Banco Central. Um assalto!
Um assalto? Isso mesmo. Que diabo! Logo
agora...
O policial ficou furioso. Tirou o fone do
gancho e berrou algumas ordens. Apertou o cinto e verificou se a arma se
encontrava no coldre. Depois, correu para fora da sala. No corredor, esbarrou
nos homens que acudiam ao alarma.
— É um assalto no Banco Central! Depressa!
Não se percebia mais nada do descanso do
meio-dia. Poucos segundos depois, o carro com cinco policiais armados saía do pátio
da delegacia e disparava para o local do crime.
John Marshall já retirara o pé do botão
que se tornaria funesto ao assaltante. Sabia que a polícia só demoraria alguns
minutos, desde que não estivessem todos dormindo, o que era possível devido ao
calor e ao ambiente pacato da cidade. E não tirava os olhos do cliente, que
esperava pacientemente que o homem que havia depositado todo aquele dinheiro
saísse do saguão. Depois disso, dirigiu-se ao guichê.
O inspetor fora bastante inteligente ao
desligar a sirena. Assim, conseguiu chegar perto do banco sem despertar a
atenção dos assaltantes e estacionar do outro lado da rua. Quando os policiais
desceram da viatura, o carro preto estacionado diante do banco pôs-se em
movimento. Um fato que não despertou a atenção de ninguém. O inspetor admitiu
que, se aquele carro fosse de participantes do assalto, eles não teriam
esperado a chegada da polícia.
Fred Hangler colocou a pasta sobre o
guichê e disse com a voz tranqüila:
— Preste atenção, jovem. Quero retirar
todo o dinheiro que se encontra no cofre. Aqui estão minhas credenciais. — E
retirou a pistola do bolso, apontando-a para o caixa. Pelo canto do olho,
fitava John Marshall. Este voltara a mastigar seu sanduíche e aguardava as
coisas que estavam para acontecer. — Não toque nas instalações de alarma —
preveniu o bandido. — Antes que a polícia chegue, o senhor estará morto.
— Eu não diria uma coisa destas — disse
Marshall enquanto mastigava. — Se o amigo virar o rosto, verá que a polícia já
chegou.
Hangler fitou-o. Estava perplexo. O caixa
que fora ameaçado tomou-lhe a pistola com um movimento rápido. Sem oferecer
resistência, Hangler virou-se. Viu os cinco policiais que atravessavam a rua a
passos largos e entravam no banco. As amplas janelas permitiam a observação da
cena.
O inspetor correu na frente dos outros.
— O que houve? — perguntou espantado.
O quadro que se oferecia aos seus olhos
era estranho. Atrás de um dos guichês, um homem comia tranqüilamente um
sanduíche e tomava leite, bebida que o inspetor detestava. No outro guichê, um
homem de aspecto inofensivo era ameaçado pelo outro caixa, que tinha uma arma
na mão. Nos fundos do saguão, um outro homem, vestido com apuro, entrava por
uma porta. Ele também parou, perplexo.
— O que está havendo aqui, Myers? — indagou
este último.
O funcionário que segurava a pistola não
tirava os olhos de Hangler.
— Que coincidência! — suspirou. — Santo
Deus, que coincidência!
— Coincidência, por quê? — perguntou o
inspetor.
O cavalheiro que entrara pela porta do
fundo do saguão aproximou-se.
— Este homem pretendia assaltar-nos —
explicou Myers. — Marshall tentou um blefe, dizendo que a polícia estava
chegando. O rapaz ficou nervoso e consegui tirar-lhe a arma. E não é que a
polícia chegou mesmo? Não entendo mais nada.
— Viemos porque o alarma soou na delegacia
— disse o inspetor. — Até parece que o senhor não sabe mais para que serve o
botão que se encontra junto aos seus pés.
— Não acionei o alarma — asseverou Myers.
— Se o tivesse feito, não teria dado tempo. Este sujeito mal tinha manifestado
suas intenções quando os senhores apareceram.
— O caso é que a polícia age com muita
rapidez — disse o gerente, radiante.
Pensava que adivinhara o que tinha
acontecido.
Hangler, que recobrara o ânimo, disse, com
arrogância:
— Ninguém pode provar que tentei cometer
um assalto. Sempre ando armado. Só ia sacar algum dinheiro.
— Isso mesmo — confirmou Myers. — Só que
com a pistola.
— Tudo isso será esclarecido no devido
tempo — interveio o inspetor e fez um sinal a um dos outros policiais. Um par de
algemas fechou-se em torno dos pulsos do bandido. — O que sei é que há
exatamente três minutos o alarma soou na delegacia. — Olhou o relógio. — Ou
melhor, há quatro minutos.
— Há quatro minutos, eu ainda estava
atendendo outro cliente e nem desconfiava de assalto. Marshall já iniciara o
seu descanso.
— Ah, é? — disse o gerente, lançando um
olhar de censura ao outro caixa, — De manhã, o senhor chega atrasado e, em
compensação, inicia o horário de almoço antes do tempo. Estou gostando!
— Eu também — disse Marshall, calmo.
— Foi por isso que aceitei o emprego neste
banco.
O gerente franziu a testa. Myers sorria. O
inspetor empurrou o preso em direção à porta.
— Vá andando. Temos muito o que conversar.
— E, voltando-se para o gerente:
— Dê-se por feliz por dispor de gente tão
decidida. Por pouco não perde uma boa nota. Assim que tiver terminado o
interrogatório desse sujeito, precisarei do seu testemunho, senhor Myers.
Saiu do banco à frente dos outros
policiais. Pouco depois, o carro arrancava em alta velocidade.
Marshall acabou de tomar seu leite.
— O que foi que o senhor disse? —
perguntou o gerente, olhando a garrafa de leite com uma expressão de
repugnância. Ao que parecia, também não gostava muito daquela bebida.
— Afirmei que gosto de trabalhar com o senhor.
— Prefiro isso! Myers, meu caro, quero
agradecer-lhe por sua pronta atuação. Se não tivesse acionado o alarma e
desarmado aquele sujeito...
— Não acionei o alarma — disse Myers.
— Só vi o carro da polícia parar na rua e
eles entrarem correndo. Só então pude agir. Se alguém deu o alarma, só pode ter
sido Marshall. Mas não creio que seja possível; a polícia não poderia ter
chegado com tamanha rapidez. Entre o momento em que ele sacou a arma e a
chegada dos policiais não se passaram cinco segundos. Para mim, isto tudo está
muito misterioso.
O diretor voltou-se para Marshall.
— O senhor acionou o alarma? — perguntou
asperamente.
— Acionei, senhor.
— No momento em que o bandido apontou a
arma para Myers?
— Não, senhor. Antes disso.
— Antes? — O rosto do gerente parecia
transformado num ponto de interrogação. — Antes disso o senhor não poderia
saber o que o sujeito pretendia fazer. Ou será que o senhor adivinha
pensamentos?
Marshall confirmou com um aceno tranqüilo
da cabeça.
— Deve ser isso. O fato é que eu sabia
quais eram as suas intenções. Estava parado junto ao guichê, esperando a vez de
ser atendido. Subitamente, fiquei sabendo que sua mão direita segurava uma
pistola, com a qual pretendia ameaçar Myers. A única coisa que me cabia fazer
era acionar o botão do alarma. Afinal, é para isso que ele está aqui.
— Isso é estranho, muito estranho. — O
gerente cocou um ponto da cabeça onde sabia existirem alguns fios de cabelo. —
O senhor deve ter captado as radiações do cérebro daquele homem. É
inacreditável! Se a diferença de tempo não estivesse aí para confirmar tudo, eu
não acreditaria em uma só palavra do que está dizendo. Isso já lhe aconteceu
antes?
— O quê?
— Essa captação de pensamentos alheios.
Acho que isso não pode surgir de uma hora para outra. Será que você é capaz de
adivinhar o que estou pensando?
John enrugou a testa. Parecia refletir
profundamente. De súbito, seu rosto iluminou-se.
— Ora, senhor, isso seria ótimo!
— Hein? — fez o outro. — O que seria
ótimo?
— A recompensa para Myers e para mim. O senhor
estava pensando em dar-nos um prêmio de cem libras, não é?
O diretor encarou-o com a expressão de
quem perdeu a razão. Depois, um ar de medo começou a cintilar nos seus olhos.
Num gesto defensivo, estendeu as palmas das mãos em direção a Marshall.
— Que coisa horrível! Um telepata! Senhor
Marshall, o senhor é um telepata. Realmente pensei em dar-lhes esta recompensa.
É incrível! Quando isso começou? Lembra-se?
Marshall sorriu e colocou a garrafa de
leite debaixo do balcão. Parecia ter muito menos que os vinte e seis anos que
trazia na certidão de nascimento, em especial, quando sorria.
— Não sei. Na escola eu sabia muito mais
que os colegas e sempre tirava notas muito altas, porque conhecia a resposta
dos problemas ou do que quer que fosse. Na certa, eu lia, sem saber, o
pensamento dos professores. Engraçado! Agora percebo que se trata de muito mais
que um simples pressentimento como eu julgava na época.
— É isso mesmo! — murmurou o gerente.
Depois, dirigiu-se a Myers e tirou-lhe a pistola. — O senhor ainda vai arranjar
uma desgraça. Já pensou no que pode acontecer se isso disparar? — enfiou a arma
no bolso e voltou-se para Marshall. — O senhor tem que se submeter a um exame.
O senhor é um fenômeno! É fantástico! Se não tivesse assistido pessoalmente, não
acreditaria.
É claro que os outros não acreditaram.
Especialmente os jornais. Publicaram artigos enormes sobre o assalto malogrado.
Usaram títulos como Telepata
Desmascara Assaltante. Mas ninguém acreditou na história. Jules Arnold e
o patrão foram os únicos que refletiram a respeito. Mas isso não lhes adiantou
nada.
Naquela noite, John Marshall não foi para
a cama tão cedo como de costume. Trancou a porta de seu pequeno apartamento de
solteiro, foi à minúscula cozinha, preparou um lanche e sentou-se na sala. Os
acontecimentos do dia voltaram a desfilar em sua mente.
Fred Hangler era um bandido perigoso; ele
o soubera pelo noticiário dos vespertinos. Mas não notara nada de
extraordinário nele quando o mesmo entrou no prédio. Estava ocupado com seus
sanduíches. Subitamente, algo se insinuou em sua mente.
...tenho de
esperar até que esses sujeitos que se encontram à minha frente tenham sido
atendidos... quem sabe se não vão fazer um depósito... saberei lidar com o
caixa... colocarei a pistola no seu rosto... o patrão está esperando lá fora...
um assalto tão...
Embora não entendesse nada, John reagiu
com extrema rapidez. Havia quatro clientes. Era evidente que só podia ser o que
tinha chegado por último.
...que diabo!
este sujeito ainda está sacando dinheiro...
Ao sentir, com tamanha nitidez, o
pensamento raivoso do quarto homem, John teve um calafrio. Observou com
cuidado. A mão direita estava enfiada no bolso do paletó. A pistola! Era
verdade. Não havia a menor dúvida.
John acionou o alarma.
...em
compensação este sujeito está fazendo um bom depósito. Só faltam alguns
segundos. Calma...
Certa vez John conhecera e amara uma
jovem. Muitas vezes dizia coisas que ela estava a ponto de lhe comunicar.
Achavam que era o exemplo perfeito da afinidade espiritual.
...tomara que
não apareça mais ninguém... engatilhar... agora...
Talvez fosse mesmo transmissão de
pensamento, refletiu John. Se o pensamento de alguém fosse muito intenso, as
tênues radiações do seu cérebro poderiam tornar-se mais fortes, de tal forma
que pudessem ser captadas por outrem. Ele, John, devia possuir um dom especial
para isso, mas nunca o percebera com tamanha nitidez como naquele dia. Estava
convencido de que teria sido capaz de captar todos os pensamentos do bandido,
se ele mesmo não estivesse tão nervoso. Havia o exemplo do gerente. Quando este
lhe pediu que desse uma mostra da sua capacidade, ele conseguiu fazê-lo.
...e agora... a
arma... sim... agora...
John suspirou. O interrogatório realizado
na parte da tarde fora breve. Reduziram suas declarações a termo, ele as
assinou e tudo estava liquidado. Transmissão de pensamento — bolas! O inspetor
soltara um palavrão. Depois, gracejando, disse-lhe que talvez fosse por causa
do leite. Mas acabou agradecendo, aludindo a uma extraordinária rapidez de reflexos.
De qualquer maneira, Fred Hangler estava trancado na cela.
— Quem sabe se não se trata de uma
capacidade que pode ser desenvolvida? — refletiu Marshall em voz alta. — Todo e
qualquer tipo de saber pode ser melhorado, desde que nos esforcemos. Até agora
não prestei atenção a isso; pensei que fosse simples coincidência. Pode ser que
outras pessoas que possuam este dom incidam no mesmo erro. Ouve-se falar em
telepatia nos romances e nos relatos de experiências realizadas por certos
cientistas, mas ninguém acredita que ela exista. Bem, acabo de perceber que ela
existe. Podia tentar outras provas. Se fosse verdade...
Um quadro que parecia utópico desenhou-se
diante de seus olhos. Via-se como a oitava maravilha do mundo. Políticos e
magnatas disputariam suas boas graças. Qualquer um gostaria de contar com o assessoramento
de um telepata, pois, assim, ficaria sabendo de antemão as intenções dos
concorrentes. E, é óbvio, um homem desses seria muito bem pago.
“No apartamento ao lado, reside a
senhorita Julie”, disse John de si para si. “Pelo que sei, ela está em casa, e
a única coisa que nos separa é esta parede. Uma parede não pode deter
pensamentos. Talvez valesse a pena tentar...”
De súbito, sentiu-se tomado por uma
excitação febril. Os acontecimentos daquele dia não deixavam margem para
dúvidas. Se quisesse, poderia ler pensamentos. Santo Deus, por que não havia
percebido isso antes? Agora poderia provar a si mesmo que não era sonho nem
coincidência.
Levantou-se e foi até a parede.
Ao encostar o ouvido na mesma, sentiu a
respiração de uma pessoa. Concluiu que a senhorita Julie já estava na cama. Por
certo, ainda estaria lendo um pouco. Talvez fosse o jornal que trazia a notícia
do assalto frustrado. Se assim fosse, a esta hora já saberia que perto dela
morava um herói.
De resto, tudo estava em silêncio. John
procurou concentrar-se. Evocou a imagem da moça, viu-a deitada na cama,
reconheceu o rosto que o fitava, um tanto admirada. E depois...
Um choque elétrico pareceu atravessar o
corpo de John.
No início, pensou que estivesse imaginando
coisas, mas as dúvidas se desvaneceram. Mais uma vez, os pensamentos alheios
pareciam introduzir-se no seu cérebro, expulsando os seus. Depois de algum
tempo, não só compreendeu esses pensamentos, mas chegou a ver com os olhos da
moça. Viu o livro que ela lia, o quebra-luz sobre a mesinha-de-cabeceira, viu
as linhas impressas — e conseguiu lê-las.
Apavorado, fechou os olhos, mas os
pensamentos continuaram. A moça guardou o livro, mas continuou a pensar. E —
que coisa estranha! — pensava nele, em John.
Céus! O que pensava!...
John enrubesceu como um adolescente,
recuou da parede e arregalou os olhos. Caiu sentado na poltrona, estarrecido.
De repente, irrompeu numa gargalhada.
Era verdade! Não era fantasia e nem
coincidência! Podia captar os pensamentos dos outros, desde que se concentrasse
sobre a pessoa. Não havia mais dúvida.
Mas seria preferível que ninguém soubesse
disso. Ao menos, por enquanto. Teria de alcançar certo grau de perfeição antes
de utilizar sua capacidade num fim lucrativo.
Esqueceu o noticiário dos jornais, que a
maioria dos leitores não levava a sério. Mas não esqueceria de uma coisa:
visitar a senhorita Julie no dia seguinte.
* * *
Com Anne Sloane as coisas eram totalmente
diferentes.
Desde os dezoito anos, sabia que não era
uma criatura igual às que geralmente são designadas como normais. Seu pai, um
célebre físico nuclear e que colaborara na produção das primeiras armas
atômicas, nunca a deixara na incerteza. A mãe ficara exposta a um forte feixe
de radiação três meses antes do parto. De início, não se percebeu nenhuma
conseqüência mas, depois que Anne nasceu, a atenção do professor Sloane
concentrou-se sobre a filha. Quando ela completou nove anos, surgiu o primeiro
desvio. O forte desejo de Anne movimentara um trem de brinquedo, embora o mesmo
não estivesse ligado à corrente. Sua vontade mostrou-se suficiente para pôr o
trem em movimento. De início, o professor Sloane ficou assustado, mas acabou
compreendendo que a estrutura de seu cérebro devia ter sofrido alterações em
conseqüência da radiação. Certas capacidades ociosas do espírito foram
despertadas e desenvolvidas.
Anne Sloane possuía o dom da telecinese.
No curso dos anos, aquilo que fora um
simples pressentimento acabou por transformar-se em certeza. Mas só quando Anne
completou dezoito anos, seu pai esclareceu-lhe sobre tudo. Anne começou a observar-se
sistematicamente. E sempre descobria variantes novas da telecinésia. Acabou
fugindo para a Europa sob um nome fictício, a fim de escapar às investigações dos
cientistas. Foi-se aperfeiçoando em silêncio, até que conseguiu dominar a
matéria com a força de sua vontade.
Estava com vinte e seis anos. Voltara a
residir com os pais, em Richmond, na Virgínia. Era respeitada e temida, mas o
Departamento de Estado garantiu sua segurança. E tinha muitos e bons motivos
para isso.
Anne estava deitada na varanda, tomando um
banho de sol, quando os dois cavalheiros de terno cinza tocaram a campainha e
pediram à senhora Sloane que lhes permitisse falar com sua filha. Não era a
primeira vez que recebiam visitantes desse tipo. Percebia-se que eles eram do
serviço secreto.
Mas, desta vez, havia alguma coisa
diferente.
O carro no qual haviam chegado estava
estacionado na ruazinha tranqüila, bem diante da casa. Outro carro, com quatro
homens, parou logo atrás. Os rostos eram inexpressivos, mas os olhos
comprimidos e vigilantes despertariam a atenção de qualquer um. Mantiveram-se
atentos e não desviaram os olhos da casa em que os dois cavalheiros haviam
entrado.
A senhora Sloane notou logo que não se
tratava dos agentes que costumavam aparecer por ali. A segurança que irradiavam
revelava grande dose de poder e autoridade. Deviam exercer cargos elevados
dentro dos setores de segurança.
— Desejamos falar com a senhorita Sloane —
disse um deles. Um homem de aparência jovem, cujo cabelo ralo formava uma coroa
dourada em torno da calva. As têmporas embranquecidas reforçavam a impressão de
que se tratava de um homem pacato. — O assunto é muito importante.
— Posso imaginar — respondeu a senhora
Sloane, que já estava habituada a visitas desse gênero. — Mas uma missão do
governo. Fizemos tudo para escapar a isso, mas, infelizmente...
— A liberdade do mundo ocidental é mais
importante que a comodidade de um indivíduo — disse o homem em tom solene. — O
assunto é, realmente, de suma importância.
— Minha filha está na varanda. Venham
comigo; eu os levarei até lá.
O outro visitante parecia mais velho. Mas
também irradiava tamanha benevolência e jovialidade que qualquer um se sentiria
tentado a chamá-lo de tio. Cumprimentou a senhora Sloane com um amável aceno de
cabeça e seguiu o colega.
Anne levantou os olhos, contrariada, quando
a mãe anunciou os dois cavalheiros. Mas, quando fitou os olhos amáveis, mas
decididos, dos seus visitantes, sua resistência desvaneceu-se. Seu instinto
disse-lhe que não se tratava de simples agentes.
— Os senhores me deixaram em paz por algum
tempo — disse, apontando para duas cadeiras que se encontravam junto a uma
mesa. — Sentem-se e digam o que os traz aqui. Mãe, será que a senhora pode
arranjar um refresco para os cavalheiros?
Não aguardou nenhuma apresentação, pois
seus visitantes misteriosos sempre se chamavam Smith, Miller ou Johnson. Muitas
vezes, suas faculdades lhe haviam permitido prestar bons serviços ao FBI ou à
organização de defesa, por isso, gozava da proteção do governo.
O mais jovem dos dois, que ostentava a
coroa de cabelos dourados, puxou a cadeira e estendeu a mão a Anne.
— Sou Allan D. Mercant. Não sei se este
nome significa alguma coisa para a senhorita. Sou o chefe do Conselho
Internacional de Defesa. Permita-me que lhe apresente o coronel Kaats, chefe da
Segurança Interna, um departamento da Polícia Federal.
Anne estreitou os olhos, dando ao rosto
uma expressão de desconfiança.
— É um prazer conhecê-los. Mas acho
estranho que logo os senhores se dêem ao incômodo....
— Pelo contrário. Temos um prazer imenso
em conhecer pessoalmente nossa eficiente colaboradora. Já ouvimos muito a seu
respeito. — Mercant sentou de tal maneira que podia fitar os olhos de Anne.
Kaats tomou lugar bem perto dele. Contemplou a moça com uma expressão de
benevolência. — Provavelmente há de imaginar que não viemos exclusivamente para
conhecê-la.
— É óbvio — confirmou Anne.
— Um grave dever nos obrigou a vir até
aqui — disse Kaats com um sorriso triste. — Precisamos de seu auxílio.
— Era o que eu imaginava — Anne levantou
os olhos para o céu azul. Indagou de si para si se alguma vez voltaria a ter a
vida pacata e despreocupada que tivera na juventude. — Sou toda ouvidos.
Mercant pigarreou.
— Prefiro começar do início. Só assim
poderá saber o que aconteceu e compreenderá por que precisamos do seu auxílio.
Não se trata de um caso corriqueiro. Não estamos atrás de um espião ou de um
agente que desejamos reduzir à inatividade. Estamos em busca da paz para nosso
planeta.
— Como sabem, já fiz uma tentativa...
— Sabemos disso. Procurou obrigar as
grandes potências a destruir seus arsenais nucleares. A tentativa estava fadada
ao fracasso, pois a violência só pode ser vencida pela violência. Ao menos, há
muita gente que pensa assim. Não conseguiram impedir a guerra, mas houve quem
conseguisse. Sabe a quem me refiro. A Perry Rhodan.
Ela confirmou com um aceno de cabeça.
— Esta visita tem alguma relação com o
mesmo?
— Tem. Já conhece a história do ex-major
Perry Rhodan. Ele comandou a primeira viagem tripulada à Lua. Foi acompanhado
pelos capitães Reginald Bell e Clark Fletcher e pelo tenente-médico Eric
Manoli. Ao retornar à Terra, a Stardust
não pousou em Nevada, conforme estava previsto, mas no deserto de Gobi.
Por ocasião do pouso na Lua, Rhodan encontrou alguma coisa que lhe conferiu um
poder extraordinário. Nesse meio tempo, soubemos que se tratava de uma nave
espacial extraterrena, que estava pousada em nosso satélite natural e dispunha
de recursos técnicos inconcebíveis. Quando a guerra entre o Ocidente e o
Oriente estava prestes a irromper, Rhodan intrometeu-se em nome de uma terceira
potência e impediu que as duas partes se exterminassem mutuamente. É um ato
louvável, não há como negar isso. Por outro lado, porém, essa demonstração de
força representa uma terrível ameaça. Imagine só, senhorita Sloane: em alguma
parte do mundo existe um centro de poder que a qualquer momento pode destruir
todas as nações da Terra. Hoje, Perry Rhodan está em condições de impor sua
vontade a todos os homens. Com o auxílio dos seres extraterrenos, quase
conseguiu frustrar as expedições lunares que após isso foram lançadas por nós e
pela Federação Asiática. Isso quer dizer que o seu poder já se estende pelo
espaço cósmico. No deserto de Gobi formou-se uma área de poderio tão forte que
não pode ser concebido nem por nossa imaginação. Armas e naves espaciais são
produzidas sem que ninguém o possa impedir. As instalações são cobertas por uma
cúpula energética invisível que resiste até a um ataque atômico. Sabem
manipular a força da gravidade e, a pequena distância, chegam a dominar a
vontade humana.
Calou-se, encarando Anne numa atitude de
expectativa.
— Concordo em que é uma situação
extraordinária — respondeu a moça — talvez penosa, mas não chega a ser
ameaçadora. Por que Perry Rhodan representaria um perigo para nosso mundo? Sua
intervenção não prova que ele deseja evitar a guerra?
— A senhorita conhece os seus motivos? —
respondeu Mercant. — Ninguém sabe o que se passa no Gobi. Até hoje, nenhum
agente conseguiu penetrar na base. Rhodan recusa qualquer esclarecimento.
Sua atuação traz, ao menos, uma vantagem:
a guerra entre o Ocidente e o Oriente foi transformada em fantasia. Até mesmo
os inimigos mais encarniçados costumam unir-se quando surge um adversário mais
poderoso. Estamos colaborando com os serviços secretos da Federação Asiática e
do Bloco Oriental, infelizmente sem o menor êxito. Por isso, pensamos em
recorrer à senhorita.
— O que querem que eu faça? — perguntou
Anne. — Como sabem, minhas faculdades são limitadas. Além disso, não tenho a
menor idéia do comportamento de uma muralha energética; não sei se a mesma
deixará passar radiações cerebrais. E isso seria necessário para realizar
qualquer ato telecinético. Além disso, não sei como poderia agir.
— E claro que lhe forneceremos instruções
completas — apressou-se Mercant a declarar, pois via nas palavras da moça um
princípio de consentimento. — Já elaboramos um plano detalhado para sua
atuação. O objetivo final consiste em reduzir Rhodan à inatividade e pôr as
mãos nos instrumentos do seu poder.
— Por quê? Ele não lhes fez nada! Afinal,
Rhodan é americano, não é?
— Foi americano — interveio Kaats. — Foi
privado de todos os seus direitos. Perry Rhodan é agora, um inimigo da
humanidade.
Anne voltou a contemplar o céu. O sol
andara mais um pedaço, aproximando-se da copa de uma árvore. Logo, a sombra
seria projetada sobre a varanda.
— Um inimigo da humanidade? — disse. —
Sempre imaginei que isso fosse outro tipo de pessoa, não alguém que impediu uma
guerra nuclear.
Mercant ficou nervoso.
— Ouça, senhorita Sloane, a decisão a este
respeito deve ficar por nossa conta. Sabemos mais que a senhorita. Rhodan
pretende lançar mão não apenas do poderio militar, mas também de todo o
potencial das indústrias da Terra. Seus recursos já ultrapassam tudo que
conseguimos imaginar. Eles seriam suficientes para abalar os fundamentos
econômicos de nossa existência.
— Isso é formidável — ironizou a moça. —
Gostaria tanto de travar conhecimento com esse Rhodan. Por isso estou
interessada em ouvir o que os senhores têm a me dizer.
— Terá oportunidade de conhecê-lo, se
estiver disposta a ajudar-nos — prometeu Mercant. — Rhodan e seus aliados estão
à procura de amigos e colaboradores. A senhorita se oferecerá.
Anne ficou perplexa.
— Ah, é? Será possível que o inimigo
mundial número um esteja à procura de amigos? Como poderá fazer uma coisa
dessas?
— Às claras! Quem o impediria? Ninguém
sabe para onde viaja o vizinho que arruma as malas. O Dr. Haggard foi
seqüestrado na Austrália. Está trabalhando para Rhodan. Tentamos introduzir
agentes nossos na base, mas foram descobertos. Talvez a senhorita tenha mais
sorte.
— Tenho minhas dúvidas. — Anne sacudiu a
cabeça. — Dificilmente serei mais bem sucedida que seus agentes que, afinal,
dispõem de mais experiência que eu.
— É justamente porque dispõe de menos
experiência que terá êxito. Nossos agentes são muito desconfiados e reagem de
acordo com esse estado de espírito. Além disso, a senhorita é uma mulher.
— Sem dúvida — confirmou rindo. — O que é
que uma coisa tem que ver com a outra?
— Tem muita coisa. Um dos membros da
tripulação da Stardust, o
capitão Fletcher, quis voltar para os Estados Unidos. Rhodan aplicou-lhe um
bloqueio hipnótico que provocou uma amnésia artificial. Infelizmente Fletcher
sofreu um derrame cerebral ao ser interrogado pelas autoridades australianas. A
viúva faleceu algumas semanas depois, ao dar à luz o primeiro filho. Sua morte
vem sendo mantida em segredo. Mas temos seus documentos e uma fotografia. Olhe,
senhorita Sloane.
Mercant tirou a carteira e pegou uma fotografia
do tamanho de um cartão postal. Anne segurou-a, hesitante, e examinou-a. Viu
uma mulher esbelta, morena, que não teria mais de vinte e cinco anos. Não notou
nada de especial, a não ser uma certa semelhança com alguém que conhecia muito
bem.
— Parece com a senhorita, não é?
Kaats proferiu a pergunta em tom de expectativa.
Agora, Anne também estava percebendo.
Havia uma semelhança remota, nada mais.
— Ninguém pensaria em confundir-me com
ela, se é isso que quer dizer. Não acredito que possa desempenhar o papel dessa
mulher.
— Isso não é tão importante — disse
Mercant. — Nem Rhodan, nem Bell e nem Manoli conheciam a senhora Fletcher, mas
pode ser que já tenham visto uma fotografia dela. Por isso, a pequena
semelhança é tão importante. A senhorita tentará penetrar na base, fazendo-se
passar pela senhora Fletcher.
— Não creio que dê certo. Acho que Rhodan
não cairá num truque desses — disse Anne.
— Ele cairá. Vai compreender que a viúva
de Fletcher tem interesse em entrar em contato com ele para saber os motivos de
sua morte. Uma vez no interior da cúpula, poderá valer-se de suas faculdades.
Acredito que nem mesmo os arcônidas conhecerão qualquer recurso contra isso. Pelo
menos, esperamos que não conheçam.
— Os arcônidas?
— Isso mesmo. São os seres estranhos que
realizaram um pouso forçado na Lua. Vêm de um sistema solar que dista trinta e
quatro mil anos-luz do nosso. Parece inacreditável, não é? Mais exatamente,
eles vêm do grupo estelar M-13-NGC-6205.
— Nesse caso, se eles vêm mesmo de uma
estrela distante, os recursos inconcebíveis de que dispõem se tornariam
compreensíveis. Receio que minhas faculdades limitadas não os impressionarão.
— Esperemos. De qualquer maneira, noto que
está demonstrando certo interesse pela tarefa. Portanto, tenho motivo para
supor que aceita.
— Não me resta outra alternativa. Além
disso, para ser franca, o assunto realmente me interessa.
Mercant remexeu o bolso.
— Aqui estão suas instruções. Estão acompanhadas
de um mapa aerofotogramétrico da área. Antes de partir, fará um curso intensivo
de psicologia.
Subitamente, Anne sentiu frio. Olhou para
o alto e viu que o sol estava encoberto pelos galhos da árvore. Levantou-se.
— Vamos entrar. Estou com frio. Os
senhores podem explicar todos os detalhes com um copo de uísque.
Enquanto caminhava à frente dos dois
homens, teve, de repente, a impressão de que iria lançar-se a uma tarefa que
ultrapassava suas forças. Perry Rhodan, o astronauta festejado, merecera sua
admiração irrestrita quando se lançou à aventura no cosmos. Não compreendera
muito do que ocorreu depois; só sabia que ele não era nenhum traidor, muito
menos um criminoso, embora tivesse o mundo contra si. E agora, ela também o
combateria.
De repente, não se sentiu mais tão segura
de que o faria.
* * *
Ao contrário de Anne Sloane, Ras Tchubai
não suspeitava de nada. Nascera em El Obeid, um lugarejo do Sudão, estudou na
índia e vivia há dois anos em Moscou, a metrópole do Bloco Oriental. Trabalhava
num laboratório de pesquisa científica que se dedicava à produção de um soro
destinado a prolongar a vida.
Na qualidade de químico, participou de uma
expedição pelo interior da África, onde existia certa qualidade de abelhas
selvagens, cuja geléia real, rica em hormônios, era imprescindível à produção
do soro.
Há várias semanas, a expedição vagava pelas
florestas que cercam as nascentes do Congo, longe da civilização e sem
possibilidades de reaprovisionamento. O contato pelo rádio fora interrompido em
virtude de uma pane no transmissor-receptor. Os carregadores nativos haviam-se
demitido um por um, à sua maneira, mergulhando na escuridão da floresta.
A situação era desesperadora. Justamente
na época da tecnologia avançada, qualquer retorno às condições primitivas de
existência significava a morte certa. Os dois russos, o alemão e o africano Ras
Tchubai estavam presos em meio à imensidão da mata virgem, cercados por um
ambiente selvagem e hostil e longe de qualquer auxílio. Até parecia ironia
quando o ruído dos jatos soava por cima das copas das árvores; encontravam-se a
poucos quilômetros de distância mas, assim mesmo, estavam fora do seu alcance.
Os mantimentos escassearam. E os remédios
também.
O chefe da expedição suspirou.
— O diabo que carregue essas abelhas
milagrosas! Dizem que prolongam a vida. Para isso, não precisamos de abelhas,
mas de algumas latas de conservas e muita sorte. Ras, você é o único que tem
algum conhecimento desta terra. Se existe alguém que possa nos ajudar, este
alguém é você.
Estavam sentados diante da barraca, junto
à fogueira que soltava uma fumaça insuportável. Só havia lenha úmida, pois o
sol nunca penetrava até ali.
— Só nasci na África, mas vivi na índia e
em Moscou.
— Seus pais viveram aqui e seus avós
também. Transmitiram-lhe seu saber e seus instintos. Só você está em condições
de achar um caminho em meio a este labirinto. Há dias tentamos em vão encontrar
ao menos uma aldeia. Já não temos força para prosseguir na luta. Um de nós tem
de seguir sozinho... e é você, Ras.
Ras assustou-se. Era verdade que seus avós
haviam lutado por sua independência enfrentando os brancos; até seus pais o
fizeram. Viveram nas estepes infinitas e nas matas impenetráveis,
alimentando-se de caça. Mas uma geração os separava. Qual era o conhecimento
que tinha dos perigos da selva? Nenhum; ao menos, praticamente nenhum. Sacudiu
a cabeça.
— É inútil, tenho certeza. Nunca
encontrarei o caminho sozinho. Nem sabemos se nesta selva ainda vive alguém,
alguma tribo. Os nativos costumavam habitar as estepes e as zonas costeiras.
Mesmo as tribos mais primitivas sentiram-se atraídas pela civilização. A mata
virgem foi abandonada. Os animais tomaram posse da área. Como é que eu,
sozinho, poderei encontrar o caminho que nos levará de volta à civilização?
Enquanto falava, um quadro do passado
distante surgiu em sua mente. Nas grandes estepes do Sudão havia um oásis no
qual se formou uma aldeia que se transformou numa verdadeira cidade: El Obeid.
Era o lugar em que seus pais viveram e onde ele tinha nascido. Ali passara os
dias despreocupados da infância e a juventude. A escola e seus velhos
professores, que evocavam travessuras quando se pensava neles. O velho chefe
que costumava sentar-se sob o pé de fruta-pão junto ao lago para contar
histórias às crianças. Como Ras se lembrava. Até parecia que tinha sido no dia
anterior. E seus pais...
— O instinto, Ras! — disse o chefe da
expedição, arrancando-o dos seus sonhos. — Não é só a bússola que resolve mas,
também, o instinto. Não se esqueça de que seus pais ainda eram selvagens na
infância. A civilização que você ostenta, não passa de uma fina camada que pode
ser removida a qualquer momento. Desculpe se essas palavras parecem duras ou
grosseiras, mas elas exprimem a pura verdade. Só algumas gerações fazem com que
essa camada se torne mais espessa e resistente. Você pertence à primeira
geração. Se um de nós tem chance de sobreviver, é você. Logo, é você que tem
maiores possibilidades de conseguir auxílio.
Os olhos de Ras vagaram de um companheiro
para outro. O alemão estava agachado junto ao fogo; parecia sentir frio, embora
o tempo fosse quente e abafado. Enxugava as botas e os pés, atingidos pela
umidade do pântano. Um dos russos estava sentado num tronco podre, olhando para
o chão com expressão sombria. Tinha a espingarda ao seu lado, mas só lhe
restavam dois cartuchos. O chefe da expedição encarou Ras numa atitude de
expectativa. O estudante de química suspirou.
— O chefe é o senhor. Se quiser, tentarei,
mas não sei...
— Você conseguirá. Tome, uma espingarda e
cinco balas. Ficaremos com dez para caçar. Além disso, levará sua cota de
medicamentos. Não é muita coisa, mas servirá para o caso de um ataque. Há água
em abundância, mas você terá de caçar.
— Quer dizer que não receberei mantimentos?
— Não. Os mantimentos estão muito
escassos. Sinto muito, mas não vejo outra alternativa. Você partirá hoje.
Ras sabia que não adiantaria argumentar.
Submeteu-se à ordem e despediu-se dos companheiros. Afastou-se a passos firmes
e penetrou na mata. Os galhos fecharam-se atrás dele, separando-o dos amigos
que permaneciam imóveis na pequena clareira, seguindo-o com os olhos.
No início, as coisas não foram tão ruins como
ele esperava. Encontrou uma trilha formada pelas pisadas dos animais e seguiu
por ela em direção a oeste. Se continuasse a andar uns mil quilômetros nessa
direção chegaria à costa, pensou amargamente. Acontece que na velocidade que
ele andava, isso levaria semanas ou meses. Era inútil. Mas o que podia fazer?
Talvez o acaso viesse em seu auxílio, fazendo-o encontrar uma tribo de nômades
ou pigmeus. Ou então...
El Obeid!
Se tivesse ficado lá, sem dúvida estaria
vivendo bem. É verdade que não teria estudado no exterior, mas contaria com os
recursos do local e talvez chegasse a ser professor. O certo é que teria a
chance de uma vida longa. Talvez seus pais ainda estivessem vivos. E sua irmã,
por certo, ainda estaria residindo, só, na velha casa que lhes pertencia. Fazia
muito tempo que não a via.
Cuidado!
Foi apenas um macaco que, em meio a
folhagem, havia descoberto o andarilho solitário e exprimia sua admiração. Sua
tagarelice provocou um eco bastante animado. Ras pensou em abatê-lo com um
tiro, mas ainda não estava com fome, embora naquele dia não tivesse comido
quase nada. Prosseguiu a passos largos.
A escuridão veio depressa. Decidiu que, em
hipótese alguma, pernoitaria no solo. Teria de encontrar uma árvore cujo
primeiro galho pudesse atingir com a mão. Não era fácil. Quando a escuridão
estava quase completa, descobriu um gigante tombado, que abrira uma brecha na
vegetação. Correu pelo tronco e atingiu um galho bifurcado, por onde atingiu os
numerosos caminhos que conduziam a um novo reino, ainda desconhecido. Um
emaranhado de galhos formava uma cobertura situada a mais de vinte metros do
solo.
Não foi difícil encontrar um lugar para
repousar. Um tipo de caverna dava proteção contra o vento e fornecia uma
cobertura nas costas. Desenrolou a coberta que trazia no ombro e estendeu-a.
Encostou a espingarda num canto. Continuava sem fome, mas, em compensação,
sentia-se muito cansado. Deitou na depressão formada pelos galhos, prestou
atenção, por um instante, aos ruídos da selva e adormeceu.
Sonhou. E, por uma coincidência estranha,
seus sonhos fizeram-no tornar mais uma vez ao lugar em que passara a infância.
Percebeu tudo com tamanha nitidez que nem parecia sonho, mas realidade. O velho
chefe contava as histórias dos dias em que ainda andava pelas estepes de arco e
lança, para combater os guerreiros inimigos. A irmã foi ao poço com um jarro.
Os pais...
Ras despertou subitamente. Ouvira um ruído
que não pertencia ao concerto noturno.
De início, o tronco estremecera
ligeiramente, como se alguém tivesse saltado sobre ele, de um ponto situado
pouco acima. Seguiu-se um tatear, como se alguém se aproximasse. Alguma coisa
se arrastava sobre a madeira.
Ras ergueu-se e procurou a arma. A mão
percorreu o espaço; não a encontrou logo. Quando tocou nela, porém, fê-lo do
lado errado. O leve contato bastou para derrubá-la. Antes que Ras pudesse
segurá-la, caiu sobre a beirada da pequena plataforma e despencou para o solo.
Bateu várias vezes nos galhos e folhas até que se ouviu um baque surdo. E foi
só.
O silêncio retornou.
Ras tremia de medo. O pavor gerado pela
superstição tomou conta dele. Voltou a ouvir o tatear arrastado. Tornara-se
mais forte.
E, então, seu coração pareceu parar por um
momento: viu duas luzes um pouco à frente, não estavam longe. Devia ser um
gato-do-mato que o seguira pelo faro.
Ras sabia que estava perdido. Sua arma
estava no solo, lá embaixo. A faca era tão pequena que não serviria para nada.
Com ela, jamais conseguiria defender-se de uma fera perigosa. Mesmo assim,
retirou-a do cinto.
O par de olhos fitava-o na escuridão, a
menos de três metros de distância. Ras chegou a pensar que sentia o cheiro
nauseabundo da respiração do animal. Ficou sentado, recostou-se contra o
tronco... e esperou.
À esquerda ouviu-se um chiado. O par de
olhos sumiu de repente. A fera saltara sobre o rival. Ras não via nada, mas
imaginava o desenrolar da luta que se travava na escuridão, a poucos metros de
distância. Os animais lutavam pela presa... Por ele.
O vencedor não demoraria a atacá-lo. Mas
restavam alguns minutos para se preparar. Embora soubesse perfeitamente que não
adiantaria muito. Ainda assim, sua mão apertou a faca.
O barulho da luta afastou-se um pouco, mas
tornou-se mais forte e selvagem. As garras, ao penetrarem na madeira,
provocavam um ruído martirizante que sacudia Ras até a medula dos ossos. E
então, de repente e sem que o esperasse, o silêncio retornou. Mas apenas por
uma fração de segundo. Logo, Ras ouviu os galhos que se quebravam e o embate
surdo de um corpo. Um dos animais perdera o equilíbrio e caíra. A luta havia
chegado ao fim.
A segunda luta logo começaria.
Voltou a enxergar os olhos cintilantes,
desta vez a uma distância um pouco maior. Eles se moviam em sua direção.
Que diabo! Por que se metera nessa
aventura? Como é que o chefe da expedição podia ordenar-lhe que caminhasse
sozinho pela mata virgem? Por que tivera a maldita idéia de emigrar para
Moscou? Por que se meteu a estudar? Devia ter ficado em El Obeid, com os pais e
a irmã.
Santo Deus, a irmã! Era o único parente
que ainda estava vivo. Sempre gostara dela. A casa...
Esqueceu a fera que se aproximava. Se
tivesse que morrer, que ao menos o último pensamento fosse para sua terra
amada, para a irmã querida.
Viu-a diante de si, na saleta que dava
para a rua principal. Estava sentada à mesa e, num pilão, amassava o cereal até
transformá-lo em farinha. Ele mesmo estava parado junto à porta, foi pelo menos
a posição em que se colocara por ocasião da última visita, dois anos atrás. A
irmã não fora avisada de que ele iria e, de início, nem o reconhecera. Mas
depois...
Daria tudo para que, nesse instante,
pudesse estar junto dela, na velha casa, onde estaria seguro. Todo o seu ser
ansiou por isso. Não pôde conceber qualquer outra idéia. Até se esquecera da
fera...
A irmã estava sentada à mesa, mas não
amassava cereal. Folheava um maço de cartas velhas guardadas numa caixa. Mas o
Ras que viu diante de si era uma pessoa estranha, que não conhecia. Era um
homem esfarrapado, de faca em punho...
— Ras? O que houve com você? Essa faca...
O estudante estava petrificado. Os olhos
arregalados fitavam a irmã. Aos poucos foi baixando a mão com a faca,
deixando-a cair ao solo.
— Meu irmão! O que houve com você?
Ras respirava com dificuldade. Olhou em
torno, sem compreender como viera parar ali. Há um segundo estava na selva, a
mais de dois mil quilômetros dali, sentado numa árvore, com a morte se
aproximando.
E agora...
El Obeid. A casa paterna. A irmã.
— Sara! É você? Estou mesmo aqui?
— Claro que você está aqui! Mas como está!
Fugiu de alguém? Santo Deus! Até parece que escapou da prisão.
— Quem sabe se não escapei mesmo —
murmurou com a voz trêmula. — De uma prisão espiritual. De uma prisão
construída por nosso cérebro. Mas não é possível! Por que justamente eu?
— O que está dizendo? Não consigo
compreender.
— Sara, eu também não. Mas o fato é que
não sei como vim parar aqui. Eu estava participando de uma expedição... A
expedição!
De repente, lembrou-se da missão que lhe
fora confiada. Ele saíra para procurar auxílio. Mas encontrava-se a dois mil
quilômetros de distância. Bem, aquilo não seria problema. Se conhecesse a
posição exata em que se encontravam, um avião poderia localizá-los.
— Escute, Sara. Meus amigos estão em
perigo. Deixei-os hoje pelo meio-dia, lá no Congo.
A irmã encarou-o com uma expressão de
dúvida. Ras estava febril, não havia a menor dúvida. Teria de levá-lo a um
médico, e já.
— Há mantimentos nessa casa? — perguntou
Ras com voz firme. — Embrulhe tudo, rápido!
Dez minutos depois, segurava o embrulho
nas mãos.
— Vire-se Sara. Dentro de uma hora estarei
de volta. Você tem de acreditar em mim. Vou...
A irmã correu para junto da porta e
trancou-a. Enfiou a chave no bolso do avental.
— Você vai ficar aqui, Ras! Seja o que for
que você pretende fazer, antes de tudo você vai esperar pelo Dr. Schwarz. Já
mandei chamá-lo. Ele o examinará e...
Calou-se.
Só se virará por um instante para fechar a
janela. Quando voltou a olhar para o lugar em que Ras estivera, não havia mais
ninguém...
* * *
Existe um quarto caso que merece ser
registrado. Trata-se da ocorrência mais misteriosa e inconcebível, pois diz
respeito a uma área da parapsicologia da qual até então ninguém suspeitara.
Nenhum homem jamais tinha pensado seriamente nessa possibilidade...
* * *
Todas as sextas-feiras, alguns artistas
jovens do Schwabing, bairro boêmio de Munique, costumavam encontrar-se na
residência do escritor Ernst Ellert. Cada um participava da despesa sob a forma
de uma garrafa de bebida ou um pacote de lingüiça. Isso lhes dava a sensação
tranqüilizadora de que não pesariam em demasia sobre o bolso mirrado do
artista.
Naquele dia, mais uma reunião tinha lugar.
Festejavam o aniversário de Johnny, um
pintor imbuído de uma criatividade incrível. Mesmo numa oportunidade como
aquela, não podia abster-se de lançar, ao menos, alguns esboços sobre o
colorido papel de parede. Ellert já desistira de repreendê-lo por isso. Sempre
que o fazia, ouvia falar de um “efeito inibidor ignóbil”; uma frase que, aos
seus ouvidos, soava como as iras do inferno.
Heinrich Lothar chegou um pouco atrasado,
como sempre. Ninguém saberia dizer de que vivia. Dizia-se que fotografava
modelos para revistas e, eventualmente, fazia traduções. Isso não o impedia,
porém, de toda vez que cumprimentava alguém, cochichar, discretamente ao seu
ouvido:
— Escute, será que você pode me emprestar
cinco marcos até amanhã?
Para sua infelicidade, esse apelo cordial
só fora coroado de êxito uma vez. Ellert se comovera e, é claro, nunca mais viu
os cinco marcos.
O quarto elemento veio na pessoa de Aarn
Munro, editor de uma revista minúscula que ninguém lia. É claro que seu
verdadeiro nome não era Aarn Munro. Mas ele gostava de ser chamado pelo nome de
um famoso herói de aventuras de ficção científica que muito lera e admirara em
sua juventude. Como não conseguia viver apenas de sua revista, exercia uma
profissão burocrática que não gostava de mencionar. Preferia passar por artista
e, como soubesse fazer desenhos bem bonitos, todos o reconheciam como tal.
Finalmente, havia Frettel, outro homem
bastante inteligente para encarar a arte como ocupação principal. Frettel era
cantor, conferencista, empresário, diretor, humorista, mecenas e, como se não
bastasse, médico.
— Acho que todos sabem qual é o tema dessa
noite — disse o anfitrião, tirando um cigarro do maço de Aarn enquanto este
estava distraído. — Na última sexta-feira, Frettel aludiu a certas ocorrências
estranhas, que se teriam desenrolado em Londres. Não encontramos qualquer
explicação plausível. Lothar acha que se trata de uma das chamadas paraciências
das quais, para dizer a verdade, não entendo nada, motivo por que não faço
muita fé nelas. Até ontem, esse era o meu ponto de vista.
Lothar pegou as azeitonas que Aarn havia
trazido. Num gesto quase automático, derramou o conteúdo de um pequeno cálice
em sua boca enorme, mastigando prazerosamente.
— Até ontem? — disse, ainda ocupado com a
mastigação. — Por quê?
— Porque mudei de opinião — respondeu
Ellert, procurando apoderar-se de uma azeitona, sem consegui-lo. — Afinal, um
artista pode mudar de opinião quantas vezes queira.
— Nossa opinião é a única que podemos
modificar — disse Frettel em tom filosófico. — A não ser, provavelmente, as
cifras das nossas contas de honorários.
— Você é médico — lembrou Ellert. — Com um
escritor, as coisas não são tão simples. Nossos editores...
— Nossos
editores são as caixas de providência — disse Frettel era tom ambíguo.
Acendeu cerimoniosamente seu longo cachimbo, como se receasse ter falado
demais. — Elas trabalham com tabelas preestabelecidas.
Aarn não tinha o menor interesse no
debate. Não costumava pagar direitos autorais, pois os escritores sentiam-se
felizes em ver seus nomes impressos na pequenina revista. Por isso, interrompeu
abruptamente a conversa:
— Por que você modificou de ontem para
hoje a sua opinião sobre a parapsicologia, Ernst?
Ellert sentiu-se feliz por não mais
precisar falar sobre dinheiro, do qual possuía muito pouco.
— Porque ontem me aconteceu uma coisa muito
estranha.
— O quê? — perguntou Johnny, enquanto se
esforçava para colocar a garrafa de uísque em segurança, antes que ela ficasse
totalmente vazia. — Talvez isso me proporcione alguma inspiração.
— Não creio — respondeu Ellert, piscando
os olhos. Mas, logo, voltou a assumir um ar sério. — Muito bem! Vou lhes contar
uma história muito interessante, mas sei de antemão que ninguém acreditará
nela.
Esperou que seus hóspedes tivessem
assumido uma posição mais confortável e acendido seus cigarros. Depois, perguntou:
— O que acham de uma viagem no tempo?
A perplexidade foi geral. Depois de alguns
segundos, Aarn resmungou:
— É seu hobby, não é? Você já escreveu a respeito e as pessoas sensatas
não lhe deram atenção. Se quiser saber a minha opinião, acho que não passa de
fantasia.
Os outros concordaram com um movimento de
cabeça. Ellert suspirou.
— Não esperava outra coisa. De qualquer
maneira, ouçam minha história. Como sabem, tenho-me ocupado desse problema e
acho perfeitamente possível que alguém realize uma viagem no tempo, em sentido
espiritual. Um sonho pode ser uma viagem desse tipo, desde que nos transporte
para o passado ou para o futuro distante. Até mesmo a recordação de fatos
passados representa uma viagem dessas, se bem que bastante restrita. Como vêem,
a idéia de uma viagem no tempo não é tão absurda assim.
— Um momento! — objetou Frettel. — Isso é
uma tolice rematada. O que é que essas atividades mentais têm que ver com uma
viagem no tempo? Para mim, esta consiste na trasladação do corpo de um homem
para o passado ou para o futuro. Toda minha pessoa deve se encontrar num
segmento diferente do tempo. Só assim poderei falar em uma viagem.
— Perfeitamente — confirmou Ellert para
surpresa do interlocutor. — Sou da mesma opinião, muito embora tenha registrado
a outra possibilidade. É que a mesma constitui um dos pressupostos. Para
resumir: às vezes, passo a noite acordado refletindo sobre a possibilidade de
lançar um olhar para o futuro. Gostaria de fazê-lo até em espírito, mesmo que
não conseguisse situar minha pessoa neste futuro. Vivo quebrando a cabeça sobre
as relações existentes entre o sonho, a fantasia e o desejo, sobre as possibilidades
hipotéticas da teleportação corporal e da teleportação temporal, se é que
podemos usar esta expressão. Se existe a possibilidade de transportar o corpo e
o espírito a outro lugar do espaço, também deve ser possível transportá-lo para
outro ponto no tempo.
— Espere aí, rapaz — disse Jonny sem tirar
a mão da garrafa. — Quem sabe se você tem uma capacidade extraordinária de
tornar verossímeis as coisas impossíveis.
— Grande coisa! — resmungou Frettel. — Ele
é pago para isso.
Ellert esperou que a excitação amainasse.
Parecia muito seguro de si. Quem o conhecesse, sabia que ainda tinha algumas
surpresas para oferecer.
— A coisa está começando a ficar
interessante — disse Lothar, em tom mordaz.
— Continue! — pediu Aarn. Um brilho
curioso surgiu em seus olhos.
Ellert fez que sim.
— Estou interessado no futuro, por isso
dedico todos os meus pensamentos a ele. Foi o que aconteceu ontem. Ninguém sabe
o que será o amanhã; ninguém sabe se amanhã ainda existiremos. No ano passado,
por duas ou três vezes escapamos por pouco do fim do mundo. Uma guerra nuclear
e estaremos liquidados. Todo o mundo sabe disso. Se o tal do Rhodan não tivesse
interferido, hoje não nos encontraríamos nesta reunião agradável. Apesar disso,
consideram-no inimigo. Para mim, não há nenhuma lógica nisso. Pois bem, ontem à
noite, concentrei meus pensamentos no futuro, a tal ponto que, de repente,
julguei encontrar-me em meio a ele. Queria saber de qualquer maneira o que
aconteceria daqui a dois anos. Queria saber e, de repente, soube.
— O quê? — exclamou Jonny.
Com o susto, ele soltou a garrafa, do que
se aproveitou Aarn de imediato.
— Você soube? Conte!
— Enquanto meus pensamentos se agarraram
ao problema, senti que uma modificação se processava dentro de mim. Não tive
tempo de definir o que estava acontecendo; foi muito rápido. Meu quarto ficou
escuro. Por alguns segundos — talvez tenha sido uma eternidade — flutuei numa
escuridão total. De súbito, a claridade voltou a surgir em torno de mim. O sol
iluminava o quarto. Eu estava sentado na cama. O dia chegou num segundo.
— Você devia estar bêbedo — conjeturou
Jonny.
Ellert sacudiu a cabeça.
— Espere, meu caro, a história ainda não
terminou. Era dia e o sol brilhava. Lenvantei-me e lancei os olhos admirados em
torno de mim. No início, pensei que adormecera com minhas reflexões e que já
era manhã. Teria de levantar-me. Mas reparei que dois quadros que costumavam ficar
pendurados na parede não mais estavam em seus lugares. Eram quadros de sua
autoria, Jonny. No lugar deles, havia dois outros que traziam a assinatura de
Aarn...
— Nunca pintei quadros desse tamanho —
objetou Aarn.
— Pois é isso! — confirmou Ellert. — Isso
já é uma prova. Acontece que você vai pintar quadros desse tamanho.
Possivelmente para as editoras. E um belo dia, dentro de pouco tempo, você me
dará dois deles. Os que vi ontem.
— Ficou louco — cochichou Lothar a
Frettel, seu vizinho de mesa. — Você devia examiná-lo.
— Costumo consertar apêndices, mas não um
espírito avariado — retrucou o médico.
Ellert não se perturbou com a observação.
— No início, não compreendi. Olhei os
quadros, que, aliás, são formidáveis, Aarn, e fui andando. Parei diante da folhinha
onde anoto os compromissos de todos os dias. No dia de hoje, por exemplo,
consta: Aarn Jonny, Lothar e Frettel. Isso significa que vocês me honrariam com
sua visita. Pois bem. Olho para a folhinha. O que acham que vejo?
— Não faço a menor idéia — resmungou
Lothar. — Fale logo!
— Vejo a data. Eu tinha avançado dois anos
no tempo.
Jonny riu. Voltou a segurar a garrafa,
sorveu um grande gole e passou-a adiante. Riu até que as lágrimas lhe rolaram
face abaixo. Em vão tentou dizer alguma coisa.
Frettel não riu.
— O que você acaba de contar é verdade? —
perguntou. — Explique! O que aconteceu?
— É simples: meu desejo muito forte
transportou-me para o futuro. Um futuro que fica a mais de dois anos. Mas, e
isso é o mais estranho, meu corpo não foi transportado. No início, pensei que
tivesse sido, mas percebi, de repente, que uma vontade estranha lutava contra a
minha. Essa vontade também era minha, conforme perceberia logo. Só meu espírito
havia chegado ao futuro, penetrando no corpo de um Ernst Ellert que já era dois
anos mais velho. E, com os olhos dele, vi e vivi o tempo que ainda se encontra
diante de mim. Participei de recordações. Mas não consegui impor-lhe minha
vontade. De qualquer maneira, sabia que na noite daquele dia teríamos a nossa
reunião costumeira. É bem verdade que, segundo as informações da folhinha,
tratava-se de uma exceção. A exceção era eu. Estava de férias e, só assim,
pudemos realizar a reunião.
— Férias? — espantou-se Jonny, que nunca
ouvira essa palavra.
— Isso já é outra história — retrucou
Ellert. — De qualquer maneira, posso tranqüilizá-los. Daqui a dois anos ainda
estaremos vivos. Não terá havido nenhuma guerra, mas grande mudanças ocorrerão.
— Já sei o que aconteceu com ele —
interrompeu Lothar em tom triunfante. — Tornou-se um adivinho.
— Talvez existam relações de que nem
suspeitamos — disse Ellert sem se perturbar. — Vejo que não acreditam na minha
história...
— É claro que não acreditamos — disse
Frettel, sorrindo. — Mas é muito divertida. Estou esperando pelo ponto
culminante.
— O ponto culminante?
— É claro! O ponto culminante. O desfecho!
Cadê o desfecho?
— Esta história não tem ponto culminante e
nem desfecho. Acontece que é verdadeira. Querem uma prova?
— Seria muita gentileza de sua parte —
concordou Lothar.
Frettel e os outros confirmaram com um
aceno de cabeça. Todos pareciam muito interessados.
— Agora, tentarei visitar nossa próxima
reunião. Daqui a pouco lhes direi o que acontecerá de hoje a uma semana, ou
melhor, o que terá acontecido no meio tempo. De hoje a uma semana vocês
contarão. Ouvirei a palestra sob a forma de um Ellert que tem mais uma semana
de idade. Logo voltarei para contar. No correr da próxima semana vocês passarão
por aquilo que eu lhes disser. Estão de acordo?
— Naturalmente — Frettel sorria. —
Enquanto seu espírito estiver vagando pelo futuro, examinarei seu corpo. Quem
sabe se não constato uma diferença, com o que você terá mais uma prova?
— Não acredito que note qualquer diferença
— disse Aarn, irônico.
Ellert não se interessou pela discussão
que teve início naquele momento. Reclinou-se na poltrona e fechou os olhos. Não
se movia. Sua respiração era lenta e regular. Frettel aguardou alguma
modificação, mas nada ocorreu. Depois de algum tempo, impacientou-se. Tocou o
peito de Ellert.
— Já começou?
Ellert não respondeu. Dormia. E não
conseguiram despertá-lo. Todas as tentativas falharam. Frettel examinou o pulso
e as outras funções orgânicas. Estas não se distinguiam das de qualquer homem
adormecido. Apenas, o sono de Ellert era mais profundo que qualquer outro já
presenciado pelo médico.
— Já faz cinco minutos — disse, olhando
para o relógio.
Jonny também ficou sério. Olhou para Aarn
e Lothar.
— Vocês acham que há algo de verdadeiro no
que ele acaba de contar?
Todos deram de ombros.
De repente, Ellert abriu os olhos. Depois
de olhar em torno por um segundo, com uma expressão perturbada, pareceu
lembrar-se. Um sorriso débil esboçou-se em seu rosto.
— Então? — insistiu Aarn. — O que houve?
— Passei uma semana no futuro — murmurou
Ellert com uma expressão resignada. — Exatamente uma semana, a contar de hoje.
Foram cinco minutos. Infelizmente não lhes posso dizer o que acontecerá com
vocês, pois não os encontrei. Na próxima sexta-feira não nos encontraremos,
porque não estarei aqui. Encontrei meu corpo com mais oito dias de idade. Mas
não o encontrei em Munique.
— Onde foi?
— Na Ásia. Para falar mais exatamente, no
deserto de Gobi. É claro que não sei como irei parar lá. Tive bastante trabalho
em arranjar um jornal para poder contar-lhes o que vai acontecer nestes oito
dias. Queria dar-lhes a prova que pedem. Infelizmente, não pude trazer o
jornal, pois a matéria não pode viajar no tempo. Mas li algumas notícias.
— Ah! As cotações da bolsa vão baixar —
resmungou Jonny. Continuava desconfiado. — Gostaria de saber por que justamente
você vai parar no deserto de Gobi. Foi lá que pousou a nave espacial dos
americanos.
— Exatamente — confirmou Ellert. — Daqui a
oito dias estarei falando com Perry Rhodan.
— Que história interessante! — exclamou
Lothar, irônico. — Acho que ela se transformará num dos seus contos mais
fantásticos.
Todos riram. Ellert foi o único a
permanecer sério.
— Dentro de poucos dias, vocês não mais
estarão rindo. Depois de amanhã serão realizadas as eleições. Já conheço o
resultado. Aceitariam o mesmo como prova?
Frettel estreitou os olhos.
— Sim, desde que não seja mera
coincidência.
Ellert sacudiu a cabeça.
— O resultado, em si, poderia ser uma
coincidência; mas não o fato de que o vencedor será vitimado por um enfarte na
noite do pleito. As eleições serão repetidas dentro de trinta dias.
Aarn falou, pensativo, em meio ao silêncio
que se formou:
— Telepatia, teleportação, telecinésia e,
por cima de tudo, a teletemporação: a viagem pelo tempo com o auxílio do
espírito...
— Teletemporação! — exclamou Frettel
entusiasmado. — Aarn, você acaba de definir um conceito. E você, Ellert,
inventou mais uma variante das paraciências.
Ellert lançou-lhe um olhar amargo.
— Não inventei, meu caro Frettel,
descobri...

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