Autor
CLARK DARLTON
Tradução
MARIA MADALENA WÜRTH TEIXEIRA
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Perry Rhodan
obteve mais um sucesso! Recorrendo aos seus poderes mentais, os mutantes da
Terceira Potência criam tremenda confusão entre os invasores tópsidas, além de
se apossarem da nave de guerra arcônida, orgulho e peça-base da frota espacial
tópsida.
Agora Rhodan
não precisa mais temer o adversário inumano, e tem em mãos os meios para
retornar à Terra. E é o que faz; porém promete aos ferrônios, os habitantes
humanóides do sistema Vega, que voltará a fim de expulsar definitivamente os
tópsidas. Mas outra razão o incita a regressar a Vega: quer descobrir, a
qualquer preço, o grande segredo oculto em Ferrol — o segredo da vida eterna,
guardado num cofre cujas paredes são feitas de... tempo.
=
= = = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =
Perry Rhodan
— Chefe da Terceira Potência.
Reginald Bell
— Ministro de segurança da Terceira Potência.
Coronel Freyt
— Chefe da Força de Caça Espacial da
Terceira Potência.
Major Deringhouse — Comandante do 1o Grupo de
Caça Espacial da Terceira Potência.
Dr. Frank Haggard — Ministro
da saúde da Terceira Potência e fundador da Clínica Arcônida.
Thora e Crest — Arcônidas, respectivamente, comandante da
nave arcônida destruída e cientista-chefe da raça.
André Noir
— hipnose.
Anne Sloane
— telecinésia.
Ras Tshubai
— teleportação.
Wuriu Sengu
— visão raio-X
Tako Kakuta
— teleportação.
John Marshall
— telepatia e supercérebro
Thort — Chefe
supremo dos ferrônios.
Crek-Orn — Almirante-chefe
dos tópsidas.
Quequéler — Chefe
dos sichas.
Tequer-On — Capitão
tópsida.
Rok-Gor — Novo
chefe tópsida.
Lossos — Cientista-chefe
ferrônio.
I
Em questão de segundos, a imensa nave
esférica passou da quarta para a quinta dimensão, tornando-se, por conseguinte,
invisível.
Ainda há pouco, ela cruzava celeremente a
órbita do quadragésimo segundo planeta do sistema Vega; ultrapassando a
velocidade da luz, rumou para a Terra, a vinte e sete anos-luz de distância; e
de repente sumira, como se jamais tivesse existido. Simplesmente se dissolvera,
desmaterializada.
No entanto, corpo algum pode subsistir
conscientemente no espaço pentadimensional quando provém da quarta dimensão,
pois tempo e medidas tridimensionais deixam de ter significação. O corpo deixa
de ser matéria, não obedecendo mais aos preceitos de espaço e tempo. Passa a
existir independente do tempo.
Portanto, a gigantesca nave esférica, com
seu diâmetro de oitocentos metros, continuava a existir; apenas sob outra
forma. Assim como seus passageiros.
Rhodan alimentava sérias dúvidas, por
ocasião de dar ao cérebro eletrônico automático a ordem para o salto espacial.
Não conhecia aquela nave, conquistada aos tópsidas num sistema solar
desconhecido. Ela pertencera originariamente aos arcônidas, os legendários
senhores do Universo. Porém, quanto às particularidades técnicas, se
assemelhava bastante à Good Hope, a nave que trouxera Rhodan para Vega, onde
acabara se envolvendo na luta contra os tópsidas, o povo reptilóide.
Mas era arriscado tentar a transição para
a Terra com uma nave estranha e tripulação insuficiente. No entanto, não havia
outra alternativa, caso desejasse ajudar os habitantes do oitavo planeta de
Vega a se livrarem do invasor. Os ferrônios eram fracos demais para enfrentar
os tópsidas sem auxilio.
Portanto, Rhodan tinha decidido se lançar
ao arrojado empreendimento, que bem podia lhe acarretar a morte, e,
conseqüentemente, o fim de todos os seus planos.
Uma única entidade a bordo da Stardust-III — conforme batizara em seu
íntimo a nave conquistada — seria capaz de acompanhar consciente o salto no
espaço e no tempo: o cérebro positrônico. Armazenava automaticamente as
impressões recebidas pelos sentidos da tripulação desmaterializada,
guardando-os para posterior informação. Encarregava-se igualmente da imediata
reativação dos robôs após a rematerialização, a fim de prestarem assistência
aos tripulantes humanos.
Perry Rhodan não tinha consciência da
passagem de tempo desde que a Stardust-III se lançara ao salto. Sentiu uma dor
excruciante percorrer-lhe o corpo todo, como que dilacerando os membros. Não
conseguia fazer o menor movimento. Mais adiante, na central de comando, Jazia
Reginald Bell, seu amigo e companheiro na primeira expedição humana à Lua.
“Meu
Deus”, pensou Rhodan consigo mesmo, “há
quanto tempo foi isso?”
Bell gemeu. Com os olhos muito abertos,
fixava o teto da cabina, completamente atordoado.
Uma porta correu silenciosamente para o
lado. Flutuando, entrou um vulto com aparência humana, brilhando metalicamente
à luz difusa da cabina. Era um dos robôs especializados. Condicionados pelo
cérebro positrônico, obedeciam cegamente aos novos senhores da nave.
O esparadrapo-injeção atuou
instantaneamente; Rhodan sentiu a dor pungente diminuir e desaparecer em poucos
segundos. Endireitando o corpo, olhou para o calendário automático. De início,
julgou que ele havia parado; só aos poucos voltou a se conscientizar de que a
transição através de vinte e sete anos-luz não implicava na passagem de tempo
detectável.
De repente. Rhodan percebeu que, agora, os
dois arcônidas extraviados, Crest e Thora, poderiam retornar a qualquer momento
que desejassem ao seu planeta natal, Árcon, situado a mais de trinta e quatro
mil anos-luz da Terra. Era o que eles mais desejavam, porém até então Rhodan
conseguira adiar habilmente tais planos. De maneira alguma queria revelar a
posição galáctica da Terra. Ela ainda não era bastante forte para se imiscuir
na política cósmica.
Apoiando-se sobre os cotovelos, Bell
lançou as pernas no chão, cujo piso, intocado há milênios, era de material
inteiramente desconhecido. Bocejando, comentou:
— Puxa! Dormi uma eternidade, e no entanto
me sinto mais cansado do que antes! A coisa funcionou?
— Sim, a transição decorreu de acordo com
os planos — respondeu Rhodan. — Pelo menos por enquanto. Vamos determinar nossa
posição, para saber com certeza. Dei ordem ao cérebro positrônico para nos
rematerializar na órbita de Plutão.
— E os outros? Não seria bom ver como
estão?
— Deixe, os robôs tratam disso — respondeu
Rhodan, levantando-se. — Veja, o que nos atendeu já se retirou. Além disso, se
nós superamos a experiência sem danos, deve ter sucedido o mesmo aos demais.
A tela acima do painel central de controle
iluminou-se. Lentamente as cores se ordenaram em imagens definidas. A estrela
de brilho intenso à esquerda da proa da Stardust-III era o Sol. Rhodan e Bell
reconheceram-no imediatamente. À frente vogava um corpo celeste de fraca
luminosidade, recoberto com uma alva crosta cintilante de gelo — Plutão.
O salto dera certo.
— Os ocupantes de nossa base em Plutão
ainda não conhecem a nova nave — disse Rhodan. — É melhor você avisá-los. Já
devem ter nos percebido através dos sensores estruturais, e quem sabe dado o
alarma.
Os sensores estruturais eram invenção
arcônida. Detectavam e localizavam, a distâncias fabulosas, qualquer rompimento
na estrutura quadridimensional do espaço. E cada hipersalto de uma nave
espacial provocava um rompimento dessa espécie, que se propagava com velocidade
superior à da luz, sem implicar em decorrência de tempo. Pois gravitação,
conforme os cientistas arcônidas já haviam constatado há milhares de anos, nada
mais é senão radiação energética pentadimensional, que não precisa de tempo
para se propagar.
Bell se dirigiu ao transmissor e chamou
Plutão. Mas valeu-se de um aparelho comum, e não do hipertransmissor, a fim de
não poder ser captado no âmbito dos anos-luz mais próximos. Felizmente, os
ocupantes da base avançada ainda não tinham difundido a notícia do aparecimento
de uma nave desconhecida. Bell suspirou, aliviado.
— Instruções de Perry Rhodan à base de
Plutão: prosseguir extremamente atentos. Comunicar à cidade de Galáxia o
aparecimento de qualquer outra nave. Posteriormente receberão maiores detalhes.
Fim.
— Bem — disse Rhodan — agora seria
aconselhável avisar a Terra. Senão poderiam se lembrar de mandar a nova frota
espacial ao nosso encontro, pois é fácil imaginar que nossa aparência não é
nada tranqüilizadora. A Good Hope media apenas sessenta metros de diâmetro,
igualando-se, portanto, às naves auxiliares da Stardust-III, das quais dispomos
de uma dúzia. Use o hipertransmissor, mas focalize com exatidão o raio direcional.
A mensagem só deve poder ser captada em Galáxia.
As ondas radiofônicas mais rápidas que a
luz permitiram contato instantâneo. Galáxia, a capital do domínio de Rhodan na
Terra, atendeu imediatamente. Mas, mal o radioperador de plantão pronunciou a
primeira palavra, Bell interrompeu:
— Desligue
imediatamente seu transmissor! Rigorosa interdição para todos os
hipertransmissores! Aí vão as ordens resumidas para o comandante: a Good Hope
foi perdida no sistema Vega, durante as lutas de nossos aliados ferrônios,
habitantes de Ferrol, o oitavo planeta, contra os invasores de Topsid, um
planeta a mais de oitocentos anos-luz da Terra. Em troca, conquistamos aos
tópsidas uma enorme espaçonave de guerra, de origem arcônida. Os tópsidas são
inimigos dos arcônidas há milênios, e dominam três pequenos sistemas solares
nos limites do império arcônida. Sua verdadeira intenção era atacar a Terra,
mas parece que suas informações eram falhas, e foram parar no extenso sistema
Vega. Chegamos bem a tempo de intervir na luta. Isso, para saberem por que não
voltamos a bordo da Good Hope.
“Agora
as ordens: alertar os governos terrestres. Pousaremos em Galáxia daqui a quatro
horas. Nossa nave é esférica e tem quase um quilômetro de diâmetro. Avisar a
população terrestre, a fim de evitar a ocorrência de pânico. Deixar bem claro
que a nave gigante não é tripulada por invasores, mas que se trata da nova nave
de guerra da Terceira Potência. Isso é tudo. Desligue, não há mais necessidade
de manter a comunicação aberta. Fim!”
Um homem entrara na central de comando.
Media quase dois metros de altura, e, apesar ser evidentemente muito idoso,
parecia jovem e disposto. Cabelos brancos encimavam a testa excepcionalmente
alta; os olhos avermelhados tinham reflexos dourados.
Crest, último descendente da dinastia
reinante em Árcon, o centro do distante império estelar, obrigado a realizar um
pouso forçado na Lua há anos atrás, tornara-se aliado de Rhodan. Também ele
tinha superado satisfatoriamente a transição.
— Só com esta nave, os tópsidas poderiam
ter conquistado todo o sistema solar — disse Crest, com um ligeiro sorriso.
Falara no idioma arcônida, que, graças ao aprendizado hipnopédico, Rhodan
compreendia bem. — Tivemos muita sorte em conseguir nos apossar dela sem
avariá-la.
— Até bombas atômicas têm seu lado bom! —
interveio Bell, secamente.
Crest fitou-o, surpreso:
— Que quer dizer com isso?
— Por acaso existiriam mutantes se não
tivessem ocorrido aquelas explosões atômicas na Terra? Gente capaz de ler
pensamentos e atravessar metade do mundo num só pulo? Existiriam pessoas com
dons telecinéticos? Afinal, as explosões atômicas nos revelaram que a mente
possui capacidades latentes insuspeitadas, adormecidas há milhares de anos, e
que despertaram de repente. E temos a bordo dezoito desses mutantes, sem os
quais não estaríamos ocupando agora esta nave.
O sorriso de Crest acentuou-se:
— Seu raciocínio é convincente, Bell.
Curvo-me a ele sem restrições — mais sério, prosseguiu: — Só espero que ele
funcione igualmente bem em circunstâncias mais graves. Os tópsidas ainda não
foram derrotados no sistema Vega, não se esqueça disso. De lá à Terra é um pulo
de gato, como se diz em sua língua. Se não voltarmos a tempo...
— Ora, não se preocupe desnecessariamente,
Crest! — interrompeu Rhodan, com um sorriso significativo. — Mandei pelo menos
cinco mensagens radiofônicas de Vega à Terra, todas elas recebidas em Galáxia.
Estou certo de que todas as minhas disposições foram cumpridas. Ao aterrissar,
encontraremos uma tripulação devidamente treinada à nossa espera, a fim de ocupar
a Stardust-III; e as esquadrilhas dos minicaças espaciais, mais velozes do que
a luz, estarão prontas para entrar em ação. Dentro de poucos dias, semanas no
máximo, varreremos os tópsidas para os confins do universo.
— Espero que não esteja enganado! — disse
uma voz fria, vinda da porta.
Thora, a ex-comandante da expedição arcônida
fracassada, entrara sem ser percebida. Também era de estatura elevada; os
cabelos brancos formavam contraste estranho com a cútis levemente bronzeada.
Nos olhos vermelho-dourados chamejava um misto de gélido menosprezo e
silenciosa admiração. E era justamente aquele conflito de sentimentos que
renovava sempre o interesse de Rhodan por ela.
Os dois tinham se aproximado bastante no
decorrer dos últimos anos, porém jamais seria possível ultrapassar o imenso
abismo posto entre ambos pelo tempo e pelo espaço. Eram milênios, e mais de
trinta mil anos-luz. Porém Rhodan já se contentava em vê-la aceitar os homens
como seres pensantes; e não como selvagens primitivos, merecendo ser
destruídos, conforme ela julgava no início de suas relações. E, no entanto,
Rhodan tinha plena consciência de que nova crise se aproximava. Pois Thora só
tinha concordado em se aliar aos homens na esperança de obter, por intermédio deles,
um meio de retornar a Árcon. E este meio surgira agora: com a Stardust-III
Thora poderia realizar seu sonho.
— Não, não creio que me engane — respondeu
Rhodan, encarando os luminosos olhos dourados. — Confesso que alimentava
dúvidas quanto ao êxito do salto para a quinta dimensão. Mas deu tudo certo. O
retorno será pelo mesmo processo; só que estaremos bem equipados. Os tópsidas
não terão oportunidade de atacar a Terra. Nem sequer imaginam onde fica.
— No entanto, deve concordar que se
encontra em situação muito pouco confortável, não é? — continuou Thora, com sua
voz melodiosa, na qual se percebia uma leve animosidade. — Mal seu mundo se
apresta a dar os primeiros passos vacilantes no cosmo, você se vê às voltas com
os problemas mais inesperados. No decurso de poucos anos, o homem já deparou
com quatro espécies diferentes de seres extraterrenos inteligentes. Conseguiram
repelir invasores perigosos de seu planeta natal porque dispunham de nossos
poderes. E agora Vega! Pela primeira vez na história, a Terra se imiscui na
política interestelar, pisando, portanto, em território até então exclusivo dos
arcônidas. Acha isso certo?
— Claro! — disse Rhodan, imperturbável. —
Certíssimo!... Pode me dizer o que os degenerados arcônidas teriam feito em meu
lugar? Vocês não conseguiram nem se despregar da fraca gravidade lunar quando
se viram forçados a pousar nela com o cruzador avariado! A primeira nave
espacial da Terra, um míssil experimental primitivo, propulsionado com
combustível líquido, teve que ir resgatá-los. Jamais esqueça isso ao criticar
as circunstâncias presentes. Sem mim, Thora, você estaria na Lua até hoje,
olhando para padrões abstratos e sem sentido nas telas de televisão.
— Não devia falar desta maneira, Thora! —
repreendeu Crest, colocando-lhe um braço sobre o ombro. — Rhodan e nós somos
amigos e aliados, em luta contra um ambiente adverso. Ele nos ajudou, assim
como nós o ajudamos. Se algum dia tornarmos a rever Árcon, o mérito pertencerá
exclusivamente a Rhodan.
Por instantes Thora se manteve imóvel,
depois baixou os olhos. Como tantas outras vezes, desistia de lutar contra
Rhodan. A força daquele homem superava a sua. No entanto, não era apenas o
raciocínio lógico que lhe dizia aquilo: havia outro sentimento em jogo.
Já estavam longe da órbita de Saturno. A
base avançada de Titã não dera por eles; pelo menos era o que Rhodan esperava,
para evitar sobressaltos desnecessários. Júpiter apareceu de um lado,
desaparecendo logo abaixo do horizonte, no rastro da nave.
Só após cruzar a órbita de Marte a
Stardust-III começou a reduzir drasticamente sua velocidade. Perry Rhodan
preparava-se para pisar novamente na Terra.
Os primeiros contatos radiofônicos foram
trocados. O coronel Freyt, substituto de Rhodan, na ausência deste, na direção
suprema da Terceira Potência, confirmou o recebimento das mensagens
hiper-radiofônicas emitidas em Vega. Comunicou igualmente que todas as
instruções haviam sido executadas.
Os olhares de Rhodan e de Thora se
cruzaram brevemente. Ele lhe fez um breve aceno, sem deixar transparecer sua
sensação de triunfo. Bell, no entanto, foi menos discreto:
— Eu não dizia sempre que ia dar tudo
certo?! — exclamou, convicto, batendo no ombro de Rhodan. — Quer que prepare o
pessoal para o pouso?
— Sim, por favor — replicou Rhodan, alheio
— encarregue-se disso.
Seus pensamentos já pairavam na Terra.
* * *
Na cidade de Galáxia, a movimentação era
intensa.
A imensa capital da Terceira Potência, domínio
de Rhodan na Terra, erguia-se junto ao lago salgado Goshun, no meio do deserto
de Gobi. O território cuidadosamente isolado do mundo exterior era formado por
um quadrado com duzentos quilômetros de lado. Em seu centro geométrico ficava a
invisível cúpula energética, alimentada pelos inexaustíveis reatores arcônidas.
Debaixo dela encontrava-se o ponto vital da nova nação: o gigantesco cérebro positrônico.
Fora das zonas residencial e administrativa, bem isoladas, ficavam as
instalações industriais, onde se atarefavam mais de cinqüenta mil
especialistas. Sem aquele exército de infatigáveis robôs, seriam necessários
cerca de quinhentos mil operários. A população humana de Galáxia somava
duzentos e trinta mil habitantes, todos eles cuidadosamente selecionados.
A cidade contava ainda com dois aeroportos
comuns e um espaçoporto, guardados por um grupo de robôs relativamente
reduzido. Havia três esquadrilhas de caças espaciais, de fabricação terrena,
prontos para entrar em ação; eram, ao todo, cento e sessenta e duas aeronaves
de guerra supermodernas.
Quando a imensa esfera apontou no firmamento,
até os iniciados chegaram a reter por instantes a respiração. Duma pequena bola,
cujo volume aumentava rapidamente, ela se transformou num globo enorme que
encobria o próprio sol. Um novo corpo celeste parecia ter surgido no céu, acima
da Terceira Potência. A sombra do cruzador arcônida cobriu Galáxia.
A nave pairou durante alguns minutos por
sobre a cúpula energética. Depois afastou-se lentamente, como um balão levado
pelo vento, em direção do espaçoporto.
Perry Rhodan foi o primeiro a desembarcar;
um homem isolado vinha ao seu encontro no velho e familiar solo da Terra. Era
tão alto e esbelto quanto Rhodan, com os mesmos cabelos escuros, e aparentava
relativa juventude. A fisionomia deixava entrever que aquele homem era dotado
de um profundo e saudável senso de humor. Parando diante de Rhodan,
estendeu-lhe a mão.
— Bem-vindo de volta à Terra, Rhodan! É um
prazer tornar a vê-lo!
— Obrigado, coronel Freyt! — sorriu
Rhodan. Porém logo seu rosto assumiu um ar sério: — Receio que o prazer não
seja duradouro...
Freyt não ocultou sua consternação:
— Que quer dizer com isso?
Voltando-se, Rhodan apontou para a gigantesca
massa de ligas metálicas desconhecidas que se erguia contra o horizonte, como
um imenso arranha-céu.
— Ainda não me perguntou o que é isso,
Freyt. Admiro seu autocontrole.
As rugas do coronel se acentuaram;
sorrindo, respondeu:
— A curiosidade não consta entre minhas
virtudes. Sei que vai me contar tudo em breve. Portanto, para que apressar as
coisas?
— Isso mesmo! E eu estou tão ansioso por
suas novas quanto você pelas minhas. Bell supervisiona o desembarque da
tripulação, e sua condução à cidade. Eu sigo com você. A conferência será daqui
a duas horas, sob a cúpula. Providencie para que todas as pessoas pertinentes
estejam à mão, para consulta imediata, se for necessário. Diga-me só uma coisa,
Freyt: está tudo em ordem?
— Na melhor das ordens! — assegurou Freyt,
alegremente.
Os planadores já os aguardavam; Rhodan,
Crest e Thora seguiram para o centro da cidade, onde a população os recebeu
entusiasticamente.
Às duas horas até o início da conferência
passaram voando. No salão de conferências já se encontravam à espera as figuras
mais representativas da Terceira Potência, conforme era denominada a coalizão
entre os terrestres e os arcônidas. Perry Rhodan abriu a sessão:
— Sensibiliza-me constatar que se alegram
com minha volta. No entanto, quero comunicar desde logo que regressamos apenas
para tornar a partir no mais curto prazo possível, devidamente equipados. Antes
de dar um resumo das experiências pelas quais passamos, gostaria que o coronel
Freyt apresentasse seu comunicado. Pigarreando, Freyt começou:
— Recebemos com clareza as mensagens
radiofônicas enviadas de Vega; portanto, estamos a par dos acontecimentos. Foi
dado início imediato ao treinamento dos duzentos e cinqüenta especialistas do
corpo de guarda, conforme determinado; a tarefa foi levada a cabo com êxito.
Com isso, a nova tripulação requisitada para a nave se encontra à disposição.
Da mesma forma damos por concluída a formação dos mutantes em Vênus. Com
exceção de Nomo Yatushin, cujas capacidades telepáticas ainda não correspondem
às nossas exigências, o corpo de mutantes está pronto para entrar em ação. Já
dei ordem para transferir todos eles de Vênus para a Terra.
— Muito bem! — exclamou Rhodan,
satisfeito. — Tripulação e mutantes a postos; e os robôs?
— Alguns deles foram trazidos do cruzador
arcônida descido na Lua. Trata-se, principalmente, de consertadores e
atendentes. Não sei se terá aproveitamento para eles...
— Mas claro, coronel! A nova nave é
imensa. Aliás, em que ponto está a construção de nossos veículos espaciais?
— Necessitamos de mais um ano para
aprontar o cruzador que está sendo construído segundo os planos arcônidas. Só
que não chegará nem aos pés da esfera que trouxe de Vega, em tamanho...
— Uma nave e tanto, não é? — interrompeu
Bell, envaidecido, como se ele próprio a tivesse planejado e construído.
Sem se deixar perturbar, Rhodan prosseguiu
no metódico interrogatório:
— E quanto à Terra, que temos de novo?
Como vai a atividade política? Temos finalmente um governo mundial?
O coronel Freyt sacudiu lentamente a
cabeça:
— Lamentavelmente não, senhor. Não se pode
esperar que a tradição de milênios seja anulada em poucos anos. Com as armas
recebidas dos arcônidas, você conseguiu evitar uma guerra atômica e unificar as
nações do mundo. O que representa um grande passo avante. Porém ainda é cedo
para um governo mundial. Em troca, sucedeu algo que considero de importância
quase equivalente: Allan D. Mercant conseguiu reunir, num só, todos os serviços
secretos e de defesa da Terra. Foi fundada a FDT, a Federação de Defesa da
Terra.
Allan D. Mercant era chefe do Conselho
Internacional de Defesa, o serviço de defesa ocidental, e, portanto, um dos
mais poderosos homens do mundo livre. Simpatizara com Rhodan, e, levado pela
lógica, aliara-se a ele.
— Bem, já é um progresso — concedeu
Rhodan. — Vamos agora aos meus planos. Acabamos envolvidos, no sistema
planetário de Vega, na luta dos habitantes nativos contra um povo de invasores.
Os tópsidas atacantes, nitidamente descendentes de répteis, conseguiram dominar
o oitavo planeta do sistema, e radicar-se nele; os ferrônios fugiram para o nono
planeta, que chamam de Rofus. Nós nos apoderamos da nave, prometendo retornar.
John Marshall e o Dr. Haggard ficaram em Iridul, a lua de gelo.
— Por que deixou estes dois homens lá? —
indagou Freyt, admirado.
— Instalamos em Iridul uma pequena base
avançada; eles ficaram vigiando o hipertransmissor da Good Hope, que não pode
mais ser reparada. Caso os tópsidas ameacem a Terra, seremos imediatamente
avisados. Julguei tal providência imprescindível. Os dois homens contam com a
assistência de um grupo de ferrônios, e estão em total segurança. Moram numa
caverna de gelo enterrada na montanha, e estão munidos de todo o recurso
necessário. Em tamanho e condições físicas, Iridul lembra Plutão.
— E tenciona retornar a Vega?
— Não me resta outra alternativa. Tanto no
nosso próprio interesse, quanto no dos ferrônios. Os tópsidas podem resolver
atacar a Terra; até mesmo amanhã, quem sabe? Afinal, o que representam meros
vinte e sete anos-luz para seres habituados a vôos interestelares? Portanto,
precisamos nos antecipar a eles. É mais um motivo para me levar a desejar ver a
situação da Terra estabilizada, a fim de ter a retaguarda garantida.
Expulsaremos os invasores tópsidas do sistema Vega antes que pensem seriamente
em procurar a posição galáctica da Terra. Eles parecem saber que ela se
localiza neste setor da Via Láctea.
— Quando parte? — perguntou Freyt,
rendendo-se aos argumentos de Rhodan.
— Assim que a tripulação se familiarizar
com o manejo da nave. Supervisionarei o treinamento pessoalmente. Bell receberá
o comando geral. E mais uma coisa: trouxemos uma série de filmes das lutas
travadas, e fotografias dos invasores. Gostaria que mandassem fazer
imediatamente duzentas cópias de tudo, para distribuição no mundo inteiro. O
comentário será feito por mim. Estou certo de que o documentário da guerra
interplanetária vai causar impacto sobre a população terrestre.
* * *
O efeito superou todas as expectativas de
Rhodan. Em todas as grandes cidades do mundo, a população exigia em massa a unificação
definitiva das nações terrestres. Perry Rhodan era aclamado como o libertador
da humanidade, e foi oficialmente reabilitado pelos governos do bloco
ocidental. Sua transgressão — usar os poderosos recursos tecnológicos
dos arcônidas para estabelecer uma nova nação neutra, em vez de entregá-los à
Terra em geral — foi perdoada e esquecida. Rhodan sabia que agora podia contar
com o apoio do mundo inteiro.
No entanto, lhe sobrou pouco tempo para
cuidar dos detalhes da vitória. A missão que o esperava exigia toda sua
capacidade de concentração. Bell treinava da manhã à noite os trezentos homens
da tripulação, exercitando-os até a exaustão. Porém ao cabo de onze dias,
declarou a Stardust-III pronta para entrar em ação; os homens seriam capazes de
executar toda e qualquer tarefa a bordo de olhos fechados.
Quatro das naves auxiliares ficariam na
Terra, a fim de assegurar a possibilidade de reforços, em caso de emergência.
Na Stardust-III havia espaço suficiente para duas esquadrilhas de caças — cento
e oito ultra-rápidas e supermodernas máquinas de guerra. O major Deringhouse e
o major Nyssen seriam os respectivos comandantes. As mininaves espaciais, em
forma de torpedo, capazes de acelerar em ritmo incrível, podiam atingir a
velocidade da luz em dez minutos.
Perry Rhodan mandou fazer a revista final.
Apesar de seguro de si, Bell se sentia nervoso. Mandou o pessoal formar diante
da nave gigante; enquanto aguardava a chegada de Rhodan, se preocupava com mil
ninharias sem importância, como botões soltos de uniforme, e botas empoeiradas.
O major Deringhouse e o major Nyssen se conservavam em forma, ao lado de seus
pilotos.
Cônscio de sua importância, Bell elevou a
voz retumbante em seguidas ordens de comando. Os tripulantes perfilados
assumiram rígida postura militar.
— Olhaaar à direita! — gritou Bell,
pondo-se em marcha na direção do carro do qual desembarcavam Rhodan, Thora e
Crest. Estacou surpreso, pois não contava com a presença de Thora. E o olhar da
bela e desdenhosa mulher arcônida tinha o dom de perturbá-lo.
Os cantos da boca de Rhodan se repuxaram
num leve sorriso, ao perceber a expressão de desalento de Bell. E decidiu
acompanhar o jogo. Caminhou solenemente ao encontro de seu ministro da
segurança, parando a alguns metros dele.
Bell sentiu o olhar dos trezentos homens
cravados em sua nuca. Thora mantinha a mesma atitude fria e expectante. Crest
parecia se divertir enormemente. Apenas Rhodan se mostrava sério e quase
cerimonioso.
Bell empertigou-se. Não era homem de se
descontrolar por causa de uma mulher. Assumindo a postura regulamentar, fez uma
continência impecável e comunicou a Rhodan:
— Tripulação da nave de guerra a postos,
senhor, pronta para entrar em ação!
Examinando Bell com um olhar cético,
Rhodan avançou e fechou um botão desabotoado do uniforme, com ar de censura.
Bell suportou estoicamente a humilhação. Bem que algum dos homens poderia ter
lhe chamado a atenção para o pequenino detalhe!
— Obrigado! — disse Rhodan aos tripulantes
formados. — À vontade...
Passou para a mão direita o embrulho que
trazia sob o braço esquerdo.
— Conforme o senhor ministro da segurança
acaba de informar, encontram-se prontos para a ação em Vega. Temos uma tarefa
árdua diante de nós, tarefa que não sabemos se poderá ser cumprida. No entanto,
de nosso êxito dependerá o destino da Terra. Caso nossos adversários ataquem o
sistema solar, ela estará perdida. Vocês conhecem agora essa nave fabulosa, e
aprenderam a manejá-la. Sabem que ela dispõe de armamento capaz de arrasar planetas
inteiros. Com ela, coloco um poder inimaginável em suas mãos. É meu desejo que
este poder só seja usado em prol da paz e das causas justas. No entanto, é
preciso não esquecer que muitas vezes a guerra visa justamente a obtenção da
paz. E agora, gostaria de solicitar à arcônida Thora que batizasse nossa nave.
Do embrulho aberto, Rhodan retirou uma
garrafa de champanha. Um tanto pálida, Thora se adiantou para recebê-la.
Distante deles, Crest contemplava fixamente a gigantesca esfera. Lembrando,
talvez, que ela pertencera outrora a gente de sua raça, e que passava naquele
momento à posse definitiva de seres terrestres.
Com passos curtos e vagarosos, Thora se
encaminhou para a espaçonave, detendo-se diante dela. Ergueu o braço direito,
e, após breve hesitação, lançou a garrafa com toda a força contra o casco
metálico. Em seguida, a voz fria pronunciou no silêncio generalizado:
— Batizo-te com o nome de Stardust-III.
Rhodan foi ao encontro dela e lhe estendeu
a mão. Era o único a compreender o quanto era duro para a altiva arcônida dar
um nome terrestre à nave. Durante um longo momento, as duas mãos permaneceram
entrelaçadas. Depois Thora se virou bruscamente, dirigindo-se lentamente de
volta para o carro que aguardava.
Rhodan percebeu então que acabava de lançar
a segunda pedra fundamental para a constituição do futuro domínio estelar da
Humanidade, domínio que algum dia substituiria o império arcônida.
Voltou-se para Bell:
— Quero que a Stardust-III realize
primeiro um vôo de experiência. Faremos um exercício simulado de luta no
cinturão dos asteróides. Crest e eu estaremos presentes na condição de
observadores. Temos que estar de volta hoje à noite. As bases avançadas em
Vênus, Titã e Plutão já foram avisadas.
A tripulação saiu de forma um tanto
hesitante, mas depois tudo correu celeremente. Os elevadores antigravitacionais
conduziram os homens aos respectivos postos, corredores rolantes se puseram em
movimento, portas blindadas se abriram e fecharam, comportas de vedação foram
esvaziadas de ar, geradores zumbiam, e por fim a escotilha de entrada se cerrou
atrás de Crest e Rhodan.
A Stardust-III não tardou a decolar.
Diante do intercom, Bell distribuía
ordens. Espalhados pela nave, oficiais subordinados as recebiam através de
aparelhos idênticos. Minúsculas telas de televisão identificavam cada um deles.
Nos hangares, os pilotos embarcavam em seus aviões de caça. Fechadas as
cabinas, o ar começou a ser expelido dos hangares.
Ainda enquanto a Terra mergulhava como uma
pedra no oceano de ar cristalino, para ser encoberta logo após pelo negrume do
espaço cósmico, Rhodan deu suas instruções:
— Suponhamos que Júpiter foi ocupado por
invasores, que estabeleceram patrulhas avançadas nos asteróides. Plano do
adversário: ataque à Terra. Nosso plano: aniquilar as patrulhas avançadas, e
contra-atacar em Júpiter — lançando um olhar a Bell, concluiu: — passar à
execução!
— É pra já! — exclamou Bell, despejando
uma torrente de ordens nos microfones. Depois, enquanto a Stardust-III
alcançava, em dez minutos, a velocidade da luz em incrível aceleração,
recostou-se em sua poltrona. De braços cruzados, perguntou ironicamente: — Sua
Excelência deseja também que desintegremos Júpiter?
— Quando nos defrontarmos com os tópsidas
você certamente vai perder a vontade de fazer piadinhas bobas, Bell! — replicou
Rhodan. — Como é? Que faz o pessoal neste momento?
O sorriso de Bell apagou-se.
— Não estou brincando, Perry! No curto
espaço de uma hora, nossos caças transformariam alguns dos asteróides em nuvens
de gases incandescentes, aniquilando, portanto qualquer inimigo potencialmente
estabelecido neles. Depois rumariam para Júpiter, cortando o caminho de
qualquer adversário com intenções de sair do planeta. Com a Stardust-III
poderemos fazer da superfície dele um caldeirão em ebulição.
— Não é preciso, Bell... Não se deixe
perturbar, sim?
Bell nem pensava nisso. Estava em seu
elemento. Com uma destreza que ninguém esperara dele. Pois mesmo com a
pilotagem entregue ao cérebro eletrônico automático, a iniciativa dependia das
decisões humanas; no caso, Bell.
A Stardust-III avançou para o cinturão dos
asteróides e reduziu a velocidade. O primeiro esquadrão de caça deixou os
hangares, espalhando-se pelo espaço. Em comunicação direta com Rhodan, Deringhouse
dava ordens para atacar instantaneamente os alvos imaginários que lhe iam sendo
apontados. Rhodan acompanhava as operações nas telas. Crest mantinha-se ao seu
lado, calado. Nos olhos dourados ardia um brilho indisfarçável, porém gesto
algum revelava o conteúdo de seus pensamentos. Apenas Rhodan seria capaz de
adivinhar o que se passava na mente do sábio arcônida.
Para encerrar as manobras, a Stardust-III
sobrevoou celeremente, à baixa altura, a superfície morta de Júpiter, alvejando
os objetivos que Rhodan apontava ao acaso. Áreas cobertas de gelo transformavam-se
em fumegantes mares de lava em poucos segundos. Os caças de Deringhouse
realizaram rápidas incursões às luas interiores, comunicando o suposto
aniquilamento de tropas imaginárias ali estacionadas.
Rhodan colocou a mão direita no ombro de
Bell:
— Basta! Pode cancelar o resto das
manobras. Dou-me por satisfeito. Creio que podemos retornar tranqüilamente para
o sistema Vega agora. A perda da Good Hope foi mil vezes compensada. Os
tópsidas vão ter que se precaver...
Pela primeira vez Crest rompeu seu
silêncio.
— Seria facílimo para vocês arrasarem os
invasores — disse ele, pensativo — porém eu não o recomendaria. Algumas naves
escaparão, inevitavelmente, levando as novas do ocorrido até Topsid. E existem
armas para se contrapor mesmo à mais bem armada espaçonave. Os tópsidas
planejariam vingança, e algum dia voltariam com reforços. O mais indicado seria
entrar num entendimento com eles.
— Um tratado de paz com as lagartixas?! —
reclamou Bell.
— Por que não? As raças inteligentes do
Universo possuem formas externas diversas, sem serem melhores ou piores por
isso. Os arcônidas têm alianças com seres semelhantes a aranhas, e seus
melhores amigos pertencem a uma raça que vive nos mares de um mundo aquático.
Não, meu caro, a forma orgânica pouco importa; o que conta é o caráter.
— E os tópsidas lá têm caráter?
— Qualquer ser possui caráter — afirmou
Crest, com seriedade. — Às vezes ele é bom, outras bastante ruim. É nisto que
reside a diferença.
— E o que deveríamos fazer? — perguntou
Rhodan, interessado. — Propor-lhes um tratado de paz?
Crest deu de ombros.
— Falemos nisso mais tarde; quando
estivermos frente a frente com os tópsidas. Talvez depois de uma derrota eles
estejam dispostos a negociar.
— Responda-me mais uma pergunta, Crest —
disse Rhodan, encarando-o com firmeza. — Que acha de meu pessoal? Crê que vou
poder resistir a um conflito interestelar com esta tripulação?
— Esteja tranqüilo — replicou Crest, se
esforçando para não deixar transparecer admiração exagerada em seu olhar. — O
que acabei de presenciar é um sonho do longínquo passado arcônida. Nós éramos
assim quando começamos a construir o Império Galático. Mas atualmente...
O arcônida calou-se, abatido; mas logo
voltou a sorrir, e continuou corajosamente:
— Vocês bem poderão vir a se tornar
descendentes diretos dos antigos arcônidas!
Enquanto Bell emitia as ordens para o
regresso dos caças, Rhodan respondeu sonhadoramente:
— Sim, em sentido figurado talvez sejamos
mesmo descendentes dos arcônidas...
II
Em torno do sol Vega gravitavam quarenta e
dois planetas; apenas no oitavo surgira vida inteligente. Os ferrônios eram de
estatura baixa, raramente ultrapassando a altura de um metro e sessenta. Os
olhos miúdos ficavam ocultos debaixo da testa muito saliente. Os cabelos cor de
cobre formavam contraste vistoso com a pele azul-clara — conseqüência da
radiação do sol Vega. As bocas muito pequenas faziam-nos parecer inocentes e
inofensivos como crianças. Ferrol, seu planeta nativo, possuía clima tropical
quente, com gravidade equivalente a 1,4 g. Neste ponto, a estatura baixa
favorecia os ferrônios.
Porém muitos deles haviam sido forçados a
abandonar sua pátria quando os invasores ocuparam Ferrol, refugiando-se no
planeta-colônia Rofus. Instalados nele, os ferrônios aguardavam com impaciência
o regresso de seus libertadores, os arcônidas aparecidos tão inesperadamente, e
em cujas mãos os tópsidas haviam sofrido humilhante derrota.
Os ferrônios possuíam transmissores de
matéria pentadimensionais, com os quais se podia transpor distâncias imensas. Sua
atividade espacial, no entanto, era primária, pois não dominavam a matemática
de quinta dimensão. Esta flagrante contradição dera muito o que pensar a
Rhodan.
O vigésimo oitavo planeta do sistema Vega
era contornado por uma lua de gelo. A primitiva atmosfera se sedimentara em
época imemorial, transformando o satélite num deserto gelado, com montanhas
enormes. Nenhum ser vivo poderia sobreviver naquele ambiente adverso, mas
Iridul não estava deserto.
Bem escondida no seio de uma montanha,
existia uma vasta caverna, cujas paredes lisas ainda mostravam nitidamente os
vestígios da fusão recente do gelo. Um espaçoso túnel conduzia até a superfície
do satélite, provido de uma comporta que permitia a Marshall e Haggard levantar
vôo, no momento que desejassem, com um dos dois caças, a fim de realizar vôos
de reconhecimento. A base do hipertransmissor, muito bem camuflado, assentava
sobre o gelo eterno. Logo ao lado ficavam as acomodações construídas em matéria
plástica, onde se abrigavam os dois homens e o grupo de ferrônios. Geradores
forneciam luz e aquecimento, instalações de renovação de ar tornavam a vida
debaixo da capa de gelo suportável.
John Marshall, um telepata natural, membro
do Exército de Mutantes da Terceira Potência, se preparava para uma expedição exploradora.
Haggard, famoso seu patrício australiano, auxiliava-o.
— Até que sinto falta de Bell! — disse
John, em tom melancólico. — Vai ser bom rever aquela cara de bolacha.
— É, a gente aceita qualquer coisa para
fugir da solidão — disse o Dr. Haggard, compreensivamente. — Quando Bell puser
os pés aqui, Rhodan, Crest e Thora também não devem estar longe. E sou capaz de
afirmar que esses três constituem o fundamento psicológico de sua saudade por
Bell.
— Acertou, doutor! Principalmente Thora...
— confessou John, ajustando o transmissor do capacete. — É uma bela mulher!
— Mais fria do que o gelo de Iridul! —
replicou Haggard, sacudindo-se. — Pensa acaso em...?
— Ora, que nada! Não pretendo invadir a
seara de Rhodan.
Marshall saltou para a cabina do caça e fechou
a portinhola. Em silêncio, Haggard se encaminhou para o painel de controle
junto ao hipertransmissor e baixou uma alavanca. Simultaneamente ligou o
transmissor radiofônico comum, a fim de poder ficar em comunicação com o
piloto.
— Pronto? — perguntou John. Haggard acenou
com a cabeça:
— Sim, pode largar. Boa sorte!
— Obrigado.
O caça deslisou sobre patins antigravitacionais,
penetrando no túnel agora intensamente iluminado. A comporta por trás do avião
se fechou. Bombas entraram em ação e o portão de saída se escancarou. John
acionou a alavanca de partida e o pequeno aparelho se lançou ao encontro da
desmaiada luz solar de Vega. Na minúscula cabina havia espaço para apenas um
homem se instalar com relativo conforto.
Vega estava longe demais para fazer
cintilar mais vivamente os cristais de gelo que recobriam o pequeno corpo
celeste. As extensas superfícies nevadas só refletiam a luz de Vega devido à
total ausência de atmosfera. As sombras se destacavam nítidas, sem transição
marcada entre luz e treva.
John ganhou altura, porém ainda não acelerou.
Elevou-se vagarosamente no firmamento constelado, apreciando o espetáculo.
Procurava com o olhar determinada constelação muito sua conhecida; não tardou a
encontrá-la. Os astros estavam um pouco fora da posição costumeira, e uma
estrela nova brilhava fracamente no meio da configuração, com luz amarelada — o
Sol. Ele estava a vinte e sete anos-luz dali. John começou a meditar: quando os
raios solares que via agora haviam iniciado seu longo e demorado percurso, ele
tinha quatro anos de idade. Tinha se adiantado à luz do sol, e naquele momento
tornava a encontrá-la.
“Já vi esta mesma luz três vezes agora”,
matutava John. “Será que se trata mesmo de fato insólito e único? Será que
podemos enxergar a mesma luz diversas vezes?”
Não teve tempo de aprofundar mais suas
cogitações filosóficas, que jamais o haviam levado a resultados palpáveis, pois
algo lhe chamou a atenção. A princípio não identificou claramente do que se
tratava, mas seu cérebro alertava: estrela nenhuma pode se deslocar tão
depressa; muito menos planetas. E no espaço não existem meteoros
incandescentes.
Seria uma espaçonave?
Manobrou o caça, executando uma curva fechada,
e acelerou. Não temia ataque algum, pois sabia que podia acelerar muito mais
depressa do que os tópsidas. Antes que pudessem sequer chegar perto, ele
estaria longe e em segurança. Mas era bem possível que os invasores já
estivessem refeitos da derrota sofrida. E, mesmo amargando a perda do grande
cruzador esférico, ainda dispunham de uma frota aguerrida de espaçonaves mais
velozes do que a luz.
Ali estava o objeto de novo!
John ligou o hipersensor, que emitiu
imediatamente suas ondas reflexoras. Segundos após, a proa do caça se desviou
ligeiramente para um lado, apontando em linha reta para a estrela ambulante.
Realmente, se tratava de uma nave tópsida.
O amplificador projetou seu contorno nas telas. John reconheceu de imediato a
excrescência bulbosa no meio da fuselagem longa e delgada — o modelo típico das
naves tópsidas.
John raciocinava a jato. Não seria nada
apropriado se meter numa escaramuça, já que Rhodan proibira terminantemente
ataques aos tópsidas. A ordem era se manter à distância deles, enquanto ele
próprio não chegasse com a Stardust-III e a tripulação necessária.
Mas a simples constatação de que os
tópsidas voltavam à atividade já era bastante interessante. Pareciam mesmo
dispostos a firmar sua posição no sistema
Vega, preocupando-se agora com a
exploração dos planetas mais distantes. Mas não havia o menor perigo de que
Iridul lhes parecesse suspeita.
A contragosto John tornou a alterar o
rumo, e enviou um breve comunicado a Haggard: por enquanto seria prudente
ninguém deixar o abrigo da caverna protetora. Depois acelerou ao máximo, a fim
de atingir o mais depressa possível a velocidade da luz. Senão, em vista das
proporções colossais daquele sistema, levaria dias para chegar ao nono planeta.
Rofus lembrava muito a Terra, só que lhe
faltavam as grandes cidades. Os ferrônios tinham colonizado o planeta há
bastante tempo, e agora servia-lhes de bem-vindo refúgio. No entanto, grande
parte do povo tinha permanecido em Ferrol, principalmente os sichas, tribo
ainda semi-selvagem e muito corajosa. Viviam nas montanhas do planeta-mãe, e
causavam grandes dificuldades aos tópsidas.
John ultrapassou a órbita dos planetas, e
reduziu a velocidade ao cruzar com o décimo primeiro. Dentro de minutos,
avistou Rofus, o nono planeta. Contornou-o por diversas vezes, a fim de se
certificar da ausência de naves-espiãs inimigas nas redondezas. Depois aterrizou
em Chuguinor, a capital.
Não contava com manifestações especiais na
chegada, pois quase diariamente ele próprio ou Haggard vinham visitar o Thort
de Ferrol. O soberano exilado residia, com todos os seus ministros e
colaboradores, em Chuguinor; através dos transmissores, estava em contato
constante com agentes na pátria ocupada pelo invasor. As comunicações
radiofônicas haviam sido suspensas, e as espaçonaves não deixavam os
esconderijos subterrâneos onde se ocultavam. Porém, súditos ferrônios e cápsulas
contendo notícias viajavam continuamente entre o oitavo e o nono planeta,
baseados em princípios similares aos usados pela Stardust-III ao executar seu
salto espacial. No entanto, e John sabia disso, ninguém conhecia o segredo
daqueles aparelhos de teleportação.
Desta vez John deparou com um ambiente
diverso. Ao saltar do caça, sentiu virtualmente que pairavam novidades no ar.
Cerrando a portinhola da cabina, ligou o campo repulsor eletrônico. Ninguém
poderia se aproximar do pequeno avião sem levar um forte choque. O campo
repulsor só reagia diante do padrão cerebral de Marshall.
As ruas da cidade estavam agitadas. John
notou que muitos passantes carregavam grandes fardos, mas em vão tentou sondar
telepaticamente o que acontecia. As impressões que captava eram tão confusas que
não conseguia interpretá-las. Pareceu-lhe reconhecer medo e terror
generalizado, e começou a ficar preocupado. O que teria acontecido?
Apressou-se a chegar à residência do
Thort. Foi admitido imediatamente na presença do regente dos ferrônios.
O homem baixo, agora totalmente despido de
sua dignidade de governante, segurou com ar suplicante os fortes punhos de
John. Este era capaz de compreender as palavras do Thort sem precisar recorrer
ao aparelho tradutor, graças aos seus dons telepáticos; podia também lhe
responder de maneira inteligível.
— Senhor, corremos grave perigo! — começou
o ferrônio, desesperado. — Caso o grande Rhodan não venha logo nos socorrer,
estaremos todos perdidos!
— Rhodan já está a caminho — mentiu John,
a fim de serenar o Thort. — Que aconteceu? A julgar por sua atitude, os
tópsidas devem ter desencadeado um ataque...
— Pois é o que pode ocorrer a qualquer
instante! Até agora eles se conservavam tranqüilamente em Ferrol; porém se
avolumam as informações sobre seus preparativos de conquistar igualmente Rofus,
este mundo aqui.
— Tem provas concretas disso? — perguntou
John.
— Sim, tenho. Meus agentes informaram que
a frota das lagartixas se apresta para atacar Rofus. Em Ferrol, muitos
ferrônios foram aprisionados, jogados em cárceres, e até assassinados. Os
tópsidas se recuperaram do impacto causado pelo aparecimento de Perry Rhodan. E
agora tramam vingança! Nós seremos obrigados a pagar por algo que não
cometemos. Os arcônidas têm obrigação de nos ajudar!
Aquelas palavras já não refletiam a
gratidão pelo apoio obtido anteriormente, mas John podia compreender o
desespero do Thort.
— Tem dados sobre a data provável da
invasão iminente?
— Não, mas conto com ela todo dia. E só
dispomos de uma frota desfalcada para enfrentar os tópsidas.
— É, não adiantaria grande coisa —
concordou John, pensativo.
Percebeu que tinha chegado o momento de
agir. Rhodan o encarregara da vigilância naquele posto avançado, com a missão
de observar o comportamento dos tópsidas. Uma vez que eles voltavam à atividade
com renovada animação, era preciso dar alarma imediato. Rhodan abreviaria a
instrução de seu pessoal, decolando sem demora. John não podia calcular quanto
tempo ele precisaria para abastecer a nave e ultimar os preparativos para a decolagem,
mas julgava que alguns dias seriam suficientes. Seu dever era enviar
imediatamente a mensagem combinada.
— Necessito de uma prova concreta, Thort,
para convocar Rhodan com tal urgência.
— Não lhe basta saber que as lagartixas se
mexem? Até agora estavam quietas em Ferrol. Mas agora começam a fazer vôos
regulares de patrulha através do sistema inteiro.
O Thort falava a verdade. John tinha
avistado pessoalmente uma das naves de patrulha, nas proximidades do vigésimo
oitavo planeta. Acenando com a cabeça, levantou-se.
— Pois bem, Thort, vou me comunicar com
Rhodan agora mesmo, pedindo que se apresse. Mantenha sua frota em prontidão. É
provável que tenha que repelir por conta própria o primeiro ataque dos
tópsidas. Organize grupos de combatentes que possam ser enviados para Ferrol
através dos transmissores, a fim de criar confusão na retaguarda do inimigo.
Quando Rhodan chegar, daremos o golpe decisivo contra eles. Pode crer que os
tópsidas serão expulsos do sistema planetário de Vega.
— Espero que então ainda estejamos vivos!
— suspirou o soberano, pouco convencido. Mas logo empertigou o corpo baixo e
atarracado; a minúscula boca se contraiu, imprimindo ao rosto um ar de decisão.
— Queremos e precisamos bater os tópsidas! Quero libertar o povo oprimido de Ferrol.
Muitos de meus súditos vieram se refugiar em Rofus, porém os melhores deles
ficaram para trás!
Minutos após, John se dirigia de volta
para seu caça. Ia a pé, a fim de colher mais algumas informações, e meditar
sobre a conversa tida com o Thort. Nunca conseguiria entender direito aqueles ferrônios!
Lançando-se na espaçonáutica, haviam parado nos passos iniciais. E sua ambição
não fora além da colonização do sétimo e do nono planeta. Não obstante,
possuíam um sistema de desmaterializar pessoas ou objetos, transportando-os a
longas distâncias. Através da quinta dimensão, sem gasto de tempo. O que
implicava no conhecimento de princípios tecnológicos e matemáticos
evidentemente ignorados pelos ferrônios. John tinha certeza de que eles nem
seriam capazes de construir um daqueles transmissores. A origem destes se
perdia em época imemorial, herança de um período áureo definitivamente
desaparecido. Ou teriam os ferrônios mantido outrora contato com uma
civilização superior, fato de que agora ninguém mais se recordava?
Sem conseguir chegar a conclusão alguma,
John desistiu de suas cogitações. Sabia que Rhodan também havia tentado em vão
analisar aquele mesmo problema.
Talvez ele representasse a chave para a
solução de um mistério, cuja revelação significaria resposta para inúmeras
perguntas.
Agora compreendia melhor as intenções dos
ferrônios apressados que cruzavam com ele. Estavam fugindo, abandonando a
capital ameaçada, para ir se abrigar nas montanhas; lá estariam a salvo dos
invasores tópsidas.
John encontrou seu caça conforme o
deixara. Desligando o campo repulsor, decolou imediatamente. Assim que se viu
fora da atmosfera de Rofus, imprimiu ao aparelho a velocidade da luz, e rumou
para o vigésimo oitavo planeta. Vega decresceu rapidamente, e seu brilho amorteceu.
Uma única vez os aparelhos de detecção
registraram o aparecimento de outra espaçonave; porém ela passou tão longe que
John não conseguiu fixar sua imagem na tela. Mas estava certo de que se tratava
de uma nave-espiã tópsida.
Circulou cautelosamente em torno do
vigésimo oitavo planeta, descrevendo diversas órbitas, antes de pousar em
Iridul, seu satélite. O Dr. Haggard já estava à espera, e abriu a comporta.
Dois minutos depois o piloto saltava da cabina do caça. Batendo no ombro de
Haggard, disse:
— Precisamos mandar a mensagem radiofônica
sem demora. Os tópsidas estão em atividade. Parece-me que chegou a hora de
enxotá-los deste sistema planetário.
— Rhodan deu ordem para usar o
hipertransmissor só em caso de emergência, pois os sinais poderiam ser interceptados,
revelando nossa posição. Felizmente, ninguém será capaz de determinar o
destinatário da emissão. A localização da Terra continuará sendo segredo.
— Isto é que importa. Prepare tudo, vou
redigir o texto. Terá que ser breve, porém conter todo o essencial.
— Terei tudo pronto em dez minutos —
concordou Haggard, serenamente. — Aliás, há cerca de duas horas nosso detector
acusou a presença de uma nave tópsida. Ela sobrevoava, a pouca altura, Iridul,
como se estivesse procurando algo. Será que este fato tem alguma relação com os
que observou?
Só a custo John ocultou sua consternação.
No entanto, sua voz era calma quando respondeu:
— E muito!... Apresse-se, não podemos
desperdiçar um só instante. Espiões inimigos costumam ser o prenuncio inócuo de
ocorrências bastante graves. Os tópsidas tencionam se apossar de todo o sistema
Vega.
Haggard ligou a corrente do transmissor.
Na ampla caverna começou a fazer-se ouvir um zumbido surdo. Luzes se acenderam,
e o gigantesco transmissor vibrou de alto a baixo. Suas ondas alcançariam a Terra
sem dispêndio de tempo; um ano-luz ou vinte e sete deles não lhe faziam a menor
diferença. Nem trinta e dois mil anos-luz, e nisto residia o problema... No
Universo inteiro, receptores similares captariam os sinais emitidos. Através de
detectores, se poderia determinar que as transmissões partiam do sistema Vega,
um sistema não pertencente ao Império Galático. E, por mera curiosidade, seres
estranhos poderiam querer averiguar que espécie de raça ultrapassara o cume do desenvolvimento
tecnológico comum, se aventurando a penetrar na quinta dimensão.
Uma lâmpada vermelha se acendeu.
— Pronto! — disse Haggard, apontando para
a exígua cabina, na qual cabia apenas uma pessoa. — Entre, e dê seu recado. A
mensagem será repetida automaticamente. Limitei o tempo de transmissão em
trinta segundos. Chega?
— Creio que sim — disse John, com um
sorriso nervoso. — Sabe, esta cabina sempre me faz lembrar os transmissores de
matéria dos ferrônios; são bem semelhantes. Lá despacham gente através do hiperespaço,
enquanto nós enviamos ondas de rádio. Minha impressão é que vou tocar em algum
controle errado, em vez de minhas palavras quem vai dar com os costados na
Terra sou eu.
Para surpresa de John, Haggard não encarou
aquilo como piada.
— Isso não é tão impossível quanto julga,
John. A única incógnita seria adivinhar em que lugar você se rematerializaria,
pois existem inúmeras estações receptoras espalhadas pelo Universo.
Empalidecendo ligeiramente, John entrou na
cabina e fechou a porta com ar decidido. O zumbido aumentou de volume e ele
começou a falar.
* * *
Perry Rhodan recebeu a mensagem pouco
antes da decolagem. O coronel Freyt, que já tinha se retirado da Stardust-III,
voltou para bordo apressadamente, trazendo o texto. A notícia não trazia alteração
alguma nos fatos conhecidos até então, mas contribuía para firmar o propósito
de Rhodan e de sua equipe de definir no mais curto prazo possível a situação em
Vega.
— Obrigado, coronel! Se tudo correr de
acordo com os planos, estaremos de volta dentro de algumas semanas. Procure
neste meio tempo obter a formação de um governo mundial efetivo. O tempo da
diferenciação racial passou; o homem só poderá aspirar à sucessão dos arcônidas
quando se tornar terrano. Compreendeu o que quero dizer?
— Sem dúvida — respondeu Freyt,
gravemente. — Até a volta, e boa sorte!
Rhodan ficou contemplando o amigo que se
afastava. Bell, sentado ao seu lado, observou, com rugas na testa:
— Acho bom Crest não tomar conhecimento de
suas intenções tão cedo, Rhodan. Esse negócio de suceder os arcônidas, quero
dizer... Ele poderia ficar chateado.
No entanto, para sua surpresa, Rhodan
sorriu.
— Não, meu caro, muito pelo contrário.
Pois alimenta a secreta ambição de que nos tornemos substitutos dos arcônidas
no governo do Império Galático. Ele tem plena consciência de que, sem nós, todo
seu poderio entraria em colapso total muito brevemente. Mas deixemos o futuro
para quando sua hora chegar. Prontos para largar?
— Claro! Tudo em ordem.
— Pois então, vamos! Cada instante é
precioso. A mensagem vinda de Iridul é bem alarmante. Os tópsidas se preparam
para atacar Rofus. Temos que nos antecipar a eles.
— Nosso Exército de Mutantes vai lhes
infernizar a vida! — prometeu Bell, enquanto manejava os controles. Ainda antes
das telas esquentarem, a enorme porta de entrada da Stardust-III foi fechada
automaticamente.
Imóvel na pista, o coronel Freyt viu a
gigantesca esfera espacial se erguer silenciosamente, e disparar para o alto
como um petardo. Segundos após, ela desaparecia de vista. Suspirando, ele tomou
o planador que o conduziria de volta a Galáxia.
Tinha diante de si uma tarefa da maior
responsabilidade.
* * *
Desta vez, a transição não implicava em
risco algum. A nave deslizou para o hiperespaço, atravessou a quinta dimensão,
e se rematerializou na orla do imenso sistema planetário de Vega. Por meio do
rádio, entraram em contato com Haggard e Marshall, que suspiraram de satisfação
ao ver o período de exílio terminar.
— Bell, mande uma esquadrilha de caças
seguir na nossa frente, bem espalhados. Não há necessidade dos tópsidas saberem
onde a Stardust-III vai aterrisar.
— E onde é que pousaremos? — perguntou
Bell, enquanto transmitia as instruções a Deringhouse. — Em Iridul?
— Não. Em Rofus. De lá poderemos operar
mais vantajosamente. E me parece que o nono planeta é justamente o mais
ameaçado.
— E por que não atacamos direto em Ferrol?
Com a Stardust-III temos condições para isso.
— E eu tenho motivos para não fazê-lo.
Não se estabelece uma soberania pela
força. Basta forçar os tópsidas a se retirar em desordem, convencidos de que
não são adversários para nós. Quero que recordem sua aventura em Vega com os corações
tomados pelo pânico.
Enquanto os pequenos e ágeis caças
deixavam o hangar, colocando-se na vanguarda da nave, em formação ordenada,
Haggard e Marshall vieram para bordo. Os aliados ferrônios ainda iam permanecer
por algum tempo em Iridul.
Rhodan recebeu os dois amigos com sincera
cordialidade.
— Estou ansioso para saber detalhes —
disse ele, após dar as boas-vindas aos dois homens. — A mensagem que recebi era
bastante resumida. Que foi que se passou?
— Muito pouco, na verdade, porém o Thort
começa a se impacientar. Julga-se traído. No entanto, aceitou minhas sugestões
no sentido de organizar uma pequena unidade de combate com sua gente. Aliás,
bem a tempo de repelir um ataque-relâmpago dos tópsidas, destinado
evidentemente a medir a resistência com que poderiam contar em Rofus. A moral
dos ferrônios foi bastante fortalecida com a vitória aparente. Porém receio
que, diante de um ataque positivo dos tópsidas...
— As coisas não devem chegar a este ponto!
— interrompeu Rhodan. — Os reptilóides não vão tardar a saber que estamos de
volta. A missão dos caças é confundi-los, a fim de podermos pousar em Rofus sem
eles perceberem. Existe lá algum hangar bastante amplo para acomodar a
Stardust-III?
— Certamente — replicou Marshall. — Mas
vamos nos entocar outra vez? Julguei que mostraríamos aos tais de tópsidas quem
é que manda aqui.
— Pois é exatamente o que faremos... no
momento apropriado — assegurou Rhodan, sorrindo, e com um olhar de entendimento
para Bell. — Afinal, para que serve nosso Exército de Mutantes? E, mesmo não
sendo mutante, nosso amigo Bell tem imaginação... Sob sua batuta, os mutantes
vão esquentar de tal modo o ambiente para os tópsidas que eles vão preferir mil
vezes a frieza do espaço cósmico. Não vai lhes restar a menor disposição para
se demorar por mais tempo no sistema Vega.

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