sábado, 20 de outubro de 2012

P-012 - O Segredo do Cofre de Tempo - Clark Darlton [parte 1]


Autor
CLARK DARLTON


Tradução
MARIA MADALENA WÜRTH TEIXEIRA


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN





Perry Rhodan obteve mais um sucesso! Recorrendo aos seus poderes mentais, os mutantes da Terceira Potência criam tremenda confusão entre os invasores tópsidas, além de se apossarem da nave de guerra arcônida, orgulho e peça-base da frota espacial tópsida.
Agora Rhodan não precisa mais temer o adversário inumano, e tem em mãos os meios para retornar à Terra. E é o que faz; porém promete aos ferrônios, os habitantes humanóides do sistema Vega, que voltará a fim de expulsar definitivamente os tópsidas. Mas outra razão o incita a regressar a Vega: quer descobrir, a qualquer preço, o grande segredo oculto em Ferrol — o segredo da vida eterna, guardado num cofre cujas paredes são feitas de...  tempo.







= = = = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =


Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência.
Reginald Bell — Ministro de segurança da Terceira Potência.
Coronel Freyt — Chefe da Força de Caça Espacial da Terceira Potência.
Major Deringhouse — Comandante do 1o Grupo de Caça Espacial da Terceira Potência.
Dr. Frank Haggard — Ministro da saúde da Terceira Potência e fundador da Clínica Arcônida.
Thora e Crest — Arcônidas, respectivamente, comandante da nave arcônida destruída e cientista-chefe da raça.
André Noir — hipnose.
Anne Sloane — telecinésia.
Ras Tshubai — teleportação.
Wuriu Sengu — visão raio-X
Tako Kakuta — teleportação.
John Marshall — telepatia e supercérebro
Thort — Chefe supremo dos ferrônios.
Crek-Orn — Almirante-chefe dos tópsidas.
Quequéler — Chefe dos sichas.
Tequer-On — Capitão tópsida.
Rok-Gor — Novo chefe tópsida.
Lossos — Cientista-chefe ferrônio.


I



Em questão de segundos, a imensa nave esférica passou da quarta para a quinta dimensão, tornando-se, por conseguinte, invisível.
Ainda há pouco, ela cruzava celeremente a órbita do quadragésimo segundo planeta do sistema Vega; ultrapassando a velocidade da luz, rumou para a Terra, a vinte e sete anos-luz de distância; e de repente sumira, como se jamais tivesse existido. Simplesmente se dissolvera, desmaterializada.
No entanto, corpo algum pode subsistir conscientemente no espaço pentadimensional quando provém da quarta dimensão, pois tempo e medidas tridimensionais deixam de ter significação. O corpo deixa de ser matéria, não obedecendo mais aos preceitos de espaço e tempo. Passa a existir independente do tempo.
Portanto, a gigantesca nave esférica, com seu diâmetro de oitocentos metros, continuava a existir; apenas sob outra forma. Assim como seus passageiros.
Rhodan alimentava sérias dúvidas, por ocasião de dar ao cérebro eletrônico automático a ordem para o salto espacial. Não conhecia aquela nave, conquistada aos tópsidas num sistema solar desconhecido. Ela pertencera originariamente aos arcônidas, os legendários senhores do Universo. Porém, quanto às particularidades técnicas, se assemelhava bastante à Good Hope, a nave que trouxera Rhodan para Vega, onde acabara se envolvendo na luta contra os tópsidas, o povo reptilóide.
Mas era arriscado tentar a transição para a Terra com uma nave estranha e tripulação insuficiente. No entanto, não havia outra alternativa, caso desejasse ajudar os habitantes do oitavo planeta de Vega a se livrarem do invasor. Os ferrônios eram fracos demais para enfrentar os tópsidas sem auxilio.
Portanto, Rhodan tinha decidido se lançar ao arrojado empreendimento, que bem podia lhe acarretar a morte, e, conseqüentemente, o fim de todos os seus planos.
Uma única entidade a bordo da Stardust-III — conforme batizara em seu íntimo a nave conquistada — seria capaz de acompanhar consciente o salto no espaço e no tempo: o cérebro positrônico. Armazenava automaticamente as impressões recebidas pelos sentidos da tripulação desmaterializada, guardando-os para posterior informação. Encarregava-se igualmente da imediata reativação dos robôs após a rematerialização, a fim de prestarem assistência aos tripulantes humanos.
Perry Rhodan não tinha consciência da passagem de tempo desde que a Stardust-III se lançara ao salto. Sentiu uma dor excruciante percorrer-lhe o corpo todo, como que dilacerando os membros. Não conseguia fazer o menor movimento. Mais adiante, na central de comando, Jazia Reginald Bell, seu amigo e companheiro na primeira expedição humana à Lua.
Meu Deus”, pensou Rhodan consigo mesmo, “há quanto tempo foi isso?
Bell gemeu. Com os olhos muito abertos, fixava o teto da cabina, completamente atordoado.
Uma porta correu silenciosamente para o lado. Flutuando, entrou um vulto com aparência humana, brilhando metalicamente à luz difusa da cabina. Era um dos robôs especializados. Condicionados pelo cérebro positrônico, obedeciam cegamente aos novos senhores da nave.
O esparadrapo-injeção atuou instantaneamente; Rhodan sentiu a dor pungente diminuir e desaparecer em poucos segundos. Endireitando o corpo, olhou para o calendário automático. De início, julgou que ele havia parado; só aos poucos voltou a se conscientizar de que a transição através de vinte e sete anos-luz não implicava na passagem de tempo detectável.
De repente. Rhodan percebeu que, agora, os dois arcônidas extraviados, Crest e Thora, poderiam retornar a qualquer momento que desejassem ao seu planeta natal, Árcon, situado a mais de trinta e quatro mil anos-luz da Terra. Era o que eles mais desejavam, porém até então Rhodan conseguira adiar habilmente tais planos. De maneira alguma queria revelar a posição galáctica da Terra. Ela ainda não era bastante forte para se imiscuir na política cósmica.
Apoiando-se sobre os cotovelos, Bell lançou as pernas no chão, cujo piso, intocado há milênios, era de material inteiramente desconhecido. Bocejando, comentou:
— Puxa! Dormi uma eternidade, e no entanto me sinto mais cansado do que antes! A coisa funcionou?
— Sim, a transição decorreu de acordo com os planos — respondeu Rhodan. — Pelo menos por enquanto. Vamos determinar nossa posição, para saber com certeza. Dei ordem ao cérebro positrônico para nos rematerializar na órbita de Plutão.
— E os outros? Não seria bom ver como estão?
— Deixe, os robôs tratam disso — respondeu Rhodan, levantando-se. — Veja, o que nos atendeu já se retirou. Além disso, se nós superamos a experiência sem danos, deve ter sucedido o mesmo aos demais.
A tela acima do painel central de controle iluminou-se. Lentamente as cores se ordenaram em imagens definidas. A estrela de brilho intenso à esquerda da proa da Stardust-III era o Sol. Rhodan e Bell reconheceram-no imediatamente. À frente vogava um corpo celeste de fraca luminosidade, recoberto com uma alva crosta cintilante de gelo — Plutão.
O salto dera certo.
— Os ocupantes de nossa base em Plutão ainda não conhecem a nova nave — disse Rhodan. — É melhor você avisá-los. Já devem ter nos percebido através dos sensores estruturais, e quem sabe dado o alarma.
Os sensores estruturais eram invenção arcônida. Detectavam e localizavam, a distâncias fabulosas, qualquer rompimento na estrutura quadridimensional do espaço. E cada hipersalto de uma nave espacial provocava um rompimento dessa espécie, que se propagava com velocidade superior à da luz, sem implicar em decorrência de tempo. Pois gravitação, conforme os cientistas arcônidas já haviam constatado há milhares de anos, nada mais é senão radiação energética pentadimensional, que não precisa de tempo para se propagar.
Bell se dirigiu ao transmissor e chamou Plutão. Mas valeu-se de um aparelho comum, e não do hipertransmissor, a fim de não poder ser captado no âmbito dos anos-luz mais próximos. Felizmente, os ocupantes da base avançada ainda não tinham difundido a notícia do aparecimento de uma nave desconhecida. Bell suspirou, aliviado.
— Instruções de Perry Rhodan à base de Plutão: prosseguir extremamente atentos. Comunicar à cidade de Galáxia o aparecimento de qualquer outra nave. Posteriormente receberão maiores detalhes. Fim.
— Bem — disse Rhodan — agora seria aconselhável avisar a Terra. Senão poderiam se lembrar de mandar a nova frota espacial ao nosso encontro, pois é fácil imaginar que nossa aparência não é nada tranqüilizadora. A Good Hope media apenas sessenta metros de diâmetro, igualando-se, portanto, às naves auxiliares da Stardust-III, das quais dispomos de uma dúzia. Use o hipertransmissor, mas focalize com exatidão o raio direcional. A mensagem só deve poder ser captada em Galáxia.
As ondas radiofônicas mais rápidas que a luz permitiram contato instantâneo. Galáxia, a capital do domínio de Rhodan na Terra, atendeu imediatamente. Mas, mal o radioperador de plantão pronunciou a primeira palavra, Bell interrompeu:
Desligue imediatamente seu transmissor! Rigorosa interdição para todos os hipertransmissores! Aí vão as ordens resumidas para o comandante: a Good Hope foi perdida no sistema Vega, durante as lutas de nossos aliados ferrônios, habitantes de Ferrol, o oitavo planeta, contra os invasores de Topsid, um planeta a mais de oitocentos anos-luz da Terra. Em troca, conquistamos aos tópsidas uma enorme espaçonave de guerra, de origem arcônida. Os tópsidas são inimigos dos arcônidas há milênios, e dominam três pequenos sistemas solares nos limites do império arcônida. Sua verdadeira intenção era atacar a Terra, mas parece que suas informações eram falhas, e foram parar no extenso sistema Vega. Chegamos bem a tempo de intervir na luta. Isso, para saberem por que não voltamos a bordo da Good Hope.
“Agora as ordens: alertar os governos terrestres. Pousaremos em Galáxia daqui a quatro horas. Nossa nave é esférica e tem quase um quilômetro de diâmetro. Avisar a população terrestre, a fim de evitar a ocorrência de pânico. Deixar bem claro que a nave gigante não é tripulada por invasores, mas que se trata da nova nave de guerra da Terceira Potência. Isso é tudo. Desligue, não há mais necessidade de manter a comunicação aberta. Fim!”
Um homem entrara na central de comando. Media quase dois metros de altura, e, apesar ser evidentemente muito idoso, parecia jovem e disposto. Cabelos brancos encimavam a testa excepcionalmente alta; os olhos avermelhados tinham reflexos dourados.
Crest, último descendente da dinastia reinante em Árcon, o centro do distante império estelar, obrigado a realizar um pouso forçado na Lua há anos atrás, tornara-se aliado de Rhodan. Também ele tinha superado satisfatoriamente a transição.
— Só com esta nave, os tópsidas poderiam ter conquistado todo o sistema solar — disse Crest, com um ligeiro sorriso. Falara no idioma arcônida, que, graças ao aprendizado hipnopédico, Rhodan compreendia bem. — Tivemos muita sorte em conseguir nos apossar dela sem avariá-la.
— Até bombas atômicas têm seu lado bom! — interveio Bell, secamente.
Crest fitou-o, surpreso:
— Que quer dizer com isso?
— Por acaso existiriam mutantes se não tivessem ocorrido aquelas explosões atômicas na Terra? Gente capaz de ler pensamentos e atravessar metade do mundo num só pulo? Existiriam pessoas com dons telecinéticos? Afinal, as explosões atômicas nos revelaram que a mente possui capacidades latentes insuspeitadas, adormecidas há milhares de anos, e que despertaram de repente. E temos a bordo dezoito desses mutantes, sem os quais não estaríamos ocupando agora esta nave.
O sorriso de Crest acentuou-se:
— Seu raciocínio é convincente, Bell. Curvo-me a ele sem restrições — mais sério, prosseguiu: — Só espero que ele funcione igualmente bem em circunstâncias mais graves. Os tópsidas ainda não foram derrotados no sistema Vega, não se esqueça disso. De lá à Terra é um pulo de gato, como se diz em sua língua. Se não voltarmos a tempo...
— Ora, não se preocupe desnecessariamente, Crest! — interrompeu Rhodan, com um sorriso significativo. — Mandei pelo menos cinco mensagens radiofônicas de Vega à Terra, todas elas recebidas em Galáxia. Estou certo de que todas as minhas disposições foram cumpridas. Ao aterrissar, encontraremos uma tripulação devidamente treinada à nossa espera, a fim de ocupar a Stardust-III; e as esquadrilhas dos minicaças espaciais, mais velozes do que a luz, estarão prontas para entrar em ação. Dentro de poucos dias, semanas no máximo, varreremos os tópsidas para os confins do universo.
— Espero que não esteja enganado! — disse uma voz fria, vinda da porta.
Thora, a ex-comandante da expedição arcônida fracassada, entrara sem ser percebida. Também era de estatura elevada; os cabelos brancos formavam contraste estranho com a cútis levemente bronzeada. Nos olhos vermelho-dourados chamejava um misto de gélido menosprezo e silenciosa admiração. E era justamente aquele conflito de sentimentos que renovava sempre o interesse de Rhodan por ela.
Os dois tinham se aproximado bastante no decorrer dos últimos anos, porém jamais seria possível ultrapassar o imenso abismo posto entre ambos pelo tempo e pelo espaço. Eram milênios, e mais de trinta mil anos-luz. Porém Rhodan já se contentava em vê-la aceitar os homens como seres pensantes; e não como selvagens primitivos, merecendo ser destruídos, conforme ela julgava no início de suas relações. E, no entanto, Rhodan tinha plena consciência de que nova crise se aproximava. Pois Thora só tinha concordado em se aliar aos homens na esperança de obter, por intermédio deles, um meio de retornar a Árcon. E este meio surgira agora: com a Stardust-III Thora poderia realizar seu sonho.
— Não, não creio que me engane — respondeu Rhodan, encarando os luminosos olhos dourados. — Confesso que alimentava dúvidas quanto ao êxito do salto para a quinta dimensão. Mas deu tudo certo. O retorno será pelo mesmo processo; só que estaremos bem equipados. Os tópsidas não terão oportunidade de atacar a Terra. Nem sequer imaginam onde fica.
— No entanto, deve concordar que se encontra em situação muito pouco confortável, não é? — continuou Thora, com sua voz melodiosa, na qual se percebia uma leve animosidade. — Mal seu mundo se apresta a dar os primeiros passos vacilantes no cosmo, você se vê às voltas com os problemas mais inesperados. No decurso de poucos anos, o homem já deparou com quatro espécies diferentes de seres extraterrenos inteligentes. Conseguiram repelir invasores perigosos de seu planeta natal porque dispunham de nossos poderes. E agora Vega! Pela primeira vez na história, a Terra se imiscui na política interestelar, pisando, portanto, em território até então exclusivo dos arcônidas. Acha isso certo?
— Claro! — disse Rhodan, imperturbável. — Certíssimo!... Pode me dizer o que os degenerados arcônidas teriam feito em meu lugar? Vocês não conseguiram nem se despregar da fraca gravidade lunar quando se viram forçados a pousar nela com o cruzador avariado! A primeira nave espacial da Terra, um míssil experimental primitivo, propulsionado com combustível líquido, teve que ir resgatá-los. Jamais esqueça isso ao criticar as circunstâncias presentes. Sem mim, Thora, você estaria na Lua até hoje, olhando para padrões abstratos e sem sentido nas telas de televisão.
— Não devia falar desta maneira, Thora! — repreendeu Crest, colocando-lhe um braço sobre o ombro. — Rhodan e nós somos amigos e aliados, em luta contra um ambiente adverso. Ele nos ajudou, assim como nós o ajudamos. Se algum dia tornarmos a rever Árcon, o mérito pertencerá exclusivamente a Rhodan.
Por instantes Thora se manteve imóvel, depois baixou os olhos. Como tantas outras vezes, desistia de lutar contra Rhodan. A força daquele homem superava a sua. No entanto, não era apenas o raciocínio lógico que lhe dizia aquilo: havia outro sentimento em jogo.
Já estavam longe da órbita de Saturno. A base avançada de Titã não dera por eles; pelo menos era o que Rhodan esperava, para evitar sobressaltos desnecessários. Júpiter apareceu de um lado, desaparecendo logo abaixo do horizonte, no rastro da nave.
Só após cruzar a órbita de Marte a Stardust-III começou a reduzir drasticamente sua velocidade. Perry Rhodan preparava-se para pisar novamente na Terra.
Os primeiros contatos radiofônicos foram trocados. O coronel Freyt, substituto de Rhodan, na ausência deste, na direção suprema da Terceira Potência, confirmou o recebimento das mensagens hiper-radiofônicas emitidas em Vega. Comunicou igualmente que todas as instruções haviam sido executadas.
Os olhares de Rhodan e de Thora se cruzaram brevemente. Ele lhe fez um breve aceno, sem deixar transparecer sua sensação de triunfo. Bell, no entanto, foi menos discreto:
— Eu não dizia sempre que ia dar tudo certo?! — exclamou, convicto, batendo no ombro de Rhodan. — Quer que prepare o pessoal para o pouso?
— Sim, por favor — replicou Rhodan, alheio — encarregue-se disso.
Seus pensamentos já pairavam na Terra.

* * *

Na cidade de Galáxia, a movimentação era intensa.
A imensa capital da Terceira Potência, domínio de Rhodan na Terra, erguia-se junto ao lago salgado Goshun, no meio do deserto de Gobi. O território cuidadosamente isolado do mundo exterior era formado por um quadrado com duzentos quilômetros de lado. Em seu centro geométrico ficava a invisível cúpula energética, alimentada pelos inexaustíveis reatores arcônidas. Debaixo dela encontrava-se o ponto vital da nova nação: o gigantesco cérebro positrônico. Fora das zonas residencial e administrativa, bem isoladas, ficavam as instalações industriais, onde se atarefavam mais de cinqüenta mil especialistas. Sem aquele exército de infatigáveis robôs, seriam necessários cerca de quinhentos mil operários. A população humana de Galáxia somava duzentos e trinta mil habitantes, todos eles cuidadosamente selecionados.
A cidade contava ainda com dois aeroportos comuns e um espaçoporto, guardados por um grupo de robôs relativamente reduzido. Havia três esquadrilhas de caças espaciais, de fabricação terrena, prontos para entrar em ação; eram, ao todo, cento e sessenta e duas aeronaves de guerra supermodernas.
Quando a imensa esfera apontou no firmamento, até os iniciados chegaram a reter por instantes a respiração. Duma pequena bola, cujo volume aumentava rapidamente, ela se transformou num globo enorme que encobria o próprio sol. Um novo corpo celeste parecia ter surgido no céu, acima da Terceira Potência. A sombra do cruzador arcônida cobriu Galáxia.
A nave pairou durante alguns minutos por sobre a cúpula energética. Depois afastou-se lentamente, como um balão levado pelo vento, em direção do espaçoporto.
Perry Rhodan foi o primeiro a desembarcar; um homem isolado vinha ao seu encontro no velho e familiar solo da Terra. Era tão alto e esbelto quanto Rhodan, com os mesmos cabelos escuros, e aparentava relativa juventude. A fisionomia deixava entrever que aquele homem era dotado de um profundo e saudável senso de humor. Parando diante de Rhodan, estendeu-lhe a mão.
— Bem-vindo de volta à Terra, Rhodan! É um prazer tornar a vê-lo!
— Obrigado, coronel Freyt! — sorriu Rhodan. Porém logo seu rosto assumiu um ar sério: — Receio que o prazer não seja duradouro...
Freyt não ocultou sua consternação:
— Que quer dizer com isso?
Voltando-se, Rhodan apontou para a gigantesca massa de ligas metálicas desconhecidas que se erguia contra o horizonte, como um imenso arranha-céu.
— Ainda não me perguntou o que é isso, Freyt. Admiro seu autocontrole.
As rugas do coronel se acentuaram; sorrindo, respondeu:
— A curiosidade não consta entre minhas virtudes. Sei que vai me contar tudo em breve. Portanto, para que apressar as coisas?
— Isso mesmo! E eu estou tão ansioso por suas novas quanto você pelas minhas. Bell supervisiona o desembarque da tripulação, e sua condução à cidade. Eu sigo com você. A conferência será daqui a duas horas, sob a cúpula. Providencie para que todas as pessoas pertinentes estejam à mão, para consulta imediata, se for necessário. Diga-me só uma coisa, Freyt: está tudo em ordem?
— Na melhor das ordens! — assegurou Freyt, alegremente.
Os planadores já os aguardavam; Rhodan, Crest e Thora seguiram para o centro da cidade, onde a população os recebeu entusiasticamente.
Às duas horas até o início da conferência passaram voando. No salão de conferências já se encontravam à espera as figuras mais representativas da Terceira Potência, conforme era denominada a coalizão entre os terrestres e os arcônidas. Perry Rhodan abriu a sessão:
— Sensibiliza-me constatar que se alegram com minha volta. No entanto, quero comunicar desde logo que regressamos apenas para tornar a partir no mais curto prazo possível, devidamente equipados. Antes de dar um resumo das experiências pelas quais passamos, gostaria que o coronel Freyt apresentasse seu comunicado. Pigarreando, Freyt começou:
— Recebemos com clareza as mensagens radiofônicas enviadas de Vega; portanto, estamos a par dos acontecimentos. Foi dado início imediato ao treinamento dos duzentos e cinqüenta especialistas do corpo de guarda, conforme determinado; a tarefa foi levada a cabo com êxito. Com isso, a nova tripulação requisitada para a nave se encontra à disposição. Da mesma forma damos por concluída a formação dos mutantes em Vênus. Com exceção de Nomo Yatushin, cujas capacidades telepáticas ainda não correspondem às nossas exigências, o corpo de mutantes está pronto para entrar em ação. Já dei ordem para transferir todos eles de Vênus para a Terra.
— Muito bem! — exclamou Rhodan, satisfeito. — Tripulação e mutantes a postos; e os robôs?
— Alguns deles foram trazidos do cruzador arcônida descido na Lua. Trata-se, principalmente, de consertadores e atendentes. Não sei se terá aproveitamento para eles...
— Mas claro, coronel! A nova nave é imensa. Aliás, em que ponto está a construção de nossos veículos espaciais?
— Necessitamos de mais um ano para aprontar o cruzador que está sendo construído segundo os planos arcônidas. Só que não chegará nem aos pés da esfera que trouxe de Vega, em tamanho...
— Uma nave e tanto, não é? — interrompeu Bell, envaidecido, como se ele próprio a tivesse planejado e construído.
Sem se deixar perturbar, Rhodan prosseguiu no metódico interrogatório:
— E quanto à Terra, que temos de novo? Como vai a atividade política? Temos finalmente um governo mundial?
O coronel Freyt sacudiu lentamente a cabeça:
— Lamentavelmente não, senhor. Não se pode esperar que a tradição de milênios seja anulada em poucos anos. Com as armas recebidas dos arcônidas, você conseguiu evitar uma guerra atômica e unificar as nações do mundo. O que representa um grande passo avante. Porém ainda é cedo para um governo mundial. Em troca, sucedeu algo que considero de importância quase equivalente: Allan D. Mercant conseguiu reunir, num só, todos os serviços secretos e de defesa da Terra. Foi fundada a FDT, a Federação de Defesa da Terra.
Allan D. Mercant era chefe do Conselho Internacional de Defesa, o serviço de defesa ocidental, e, portanto, um dos mais poderosos homens do mundo livre. Simpatizara com Rhodan, e, levado pela lógica, aliara-se a ele.
— Bem, já é um progresso — concedeu Rhodan. — Vamos agora aos meus planos. Acabamos envolvidos, no sistema planetário de Vega, na luta dos habitantes nativos contra um povo de invasores. Os tópsidas atacantes, nitidamente descendentes de répteis, conseguiram dominar o oitavo planeta do sistema, e radicar-se nele; os ferrônios fugiram para o nono planeta, que chamam de Rofus. Nós nos apoderamos da nave, prometendo retornar. John Marshall e o Dr. Haggard ficaram em Iridul, a lua de gelo.
— Por que deixou estes dois homens lá? — indagou Freyt, admirado.
— Instalamos em Iridul uma pequena base avançada; eles ficaram vigiando o hipertransmissor da Good Hope, que não pode mais ser reparada. Caso os tópsidas ameacem a Terra, seremos imediatamente avisados. Julguei tal providência imprescindível. Os dois homens contam com a assistência de um grupo de ferrônios, e estão em total segurança. Moram numa caverna de gelo enterrada na montanha, e estão munidos de todo o recurso necessário. Em tamanho e condições físicas, Iridul lembra Plutão.
— E tenciona retornar a Vega?
— Não me resta outra alternativa. Tanto no nosso próprio interesse, quanto no dos ferrônios. Os tópsidas podem resolver atacar a Terra; até mesmo amanhã, quem sabe? Afinal, o que representam meros vinte e sete anos-luz para seres habituados a vôos interestelares? Portanto, precisamos nos antecipar a eles. É mais um motivo para me levar a desejar ver a situação da Terra estabilizada, a fim de ter a retaguarda garantida. Expulsaremos os invasores tópsidas do sistema Vega antes que pensem seriamente em procurar a posição galáctica da Terra. Eles parecem saber que ela se localiza neste setor da Via Láctea.
— Quando parte? — perguntou Freyt, rendendo-se aos argumentos de Rhodan.
— Assim que a tripulação se familiarizar com o manejo da nave. Supervisionarei o treinamento pessoalmente. Bell receberá o comando geral. E mais uma coisa: trouxemos uma série de filmes das lutas travadas, e fotografias dos invasores. Gostaria que mandassem fazer imediatamente duzentas cópias de tudo, para distribuição no mundo inteiro. O comentário será feito por mim. Estou certo de que o documentário da guerra interplanetária vai causar impacto sobre a população terrestre.

* * *

O efeito superou todas as expectativas de Rhodan. Em todas as grandes cidades do mundo, a população exigia em massa a unificação definitiva das nações terrestres. Perry Rhodan era aclamado como o libertador da humanidade, e foi oficialmente reabilitado pelos governos do bloco ocidental. Sua transgressão — usar os poderosos recursos tecnológicos dos arcônidas para estabelecer uma nova nação neutra, em vez de entregá-los à Terra em geral — foi perdoada e esquecida. Rhodan sabia que agora podia contar com o apoio do mundo inteiro.
No entanto, lhe sobrou pouco tempo para cuidar dos detalhes da vitória. A missão que o esperava exigia toda sua capacidade de concentração. Bell treinava da manhã à noite os trezentos homens da tripulação, exercitando-os até a exaustão. Porém ao cabo de onze dias, declarou a Stardust-III pronta para entrar em ação; os homens seriam capazes de executar toda e qualquer tarefa a bordo de olhos fechados.
Quatro das naves auxiliares ficariam na Terra, a fim de assegurar a possibilidade de reforços, em caso de emergência. Na Stardust-III havia espaço suficiente para duas esquadrilhas de caças — cento e oito ultra-rápidas e supermodernas máquinas de guerra. O major Deringhouse e o major Nyssen seriam os respectivos comandantes. As mininaves espaciais, em forma de torpedo, capazes de acelerar em ritmo incrível, podiam atingir a velocidade da luz em dez minutos.
Perry Rhodan mandou fazer a revista final. Apesar de seguro de si, Bell se sentia nervoso. Mandou o pessoal formar diante da nave gigante; enquanto aguardava a chegada de Rhodan, se preocupava com mil ninharias sem importância, como botões soltos de uniforme, e botas empoeiradas. O major Deringhouse e o major Nyssen se conservavam em forma, ao lado de seus pilotos.
Cônscio de sua importância, Bell elevou a voz retumbante em seguidas ordens de comando. Os tripulantes perfilados assumiram rígida postura militar.
— Olhaaar à direita! — gritou Bell, pondo-se em marcha na direção do carro do qual desembarcavam Rhodan, Thora e Crest. Estacou surpreso, pois não contava com a presença de Thora. E o olhar da bela e desdenhosa mulher arcônida tinha o dom de perturbá-lo.
Os cantos da boca de Rhodan se repuxaram num leve sorriso, ao perceber a expressão de desalento de Bell. E decidiu acompanhar o jogo. Caminhou solenemente ao encontro de seu ministro da segurança, parando a alguns metros dele.
Bell sentiu o olhar dos trezentos homens cravados em sua nuca. Thora mantinha a mesma atitude fria e expectante. Crest parecia se divertir enormemente. Apenas Rhodan se mostrava sério e quase cerimonioso.
Bell empertigou-se. Não era homem de se descontrolar por causa de uma mulher. Assumindo a postura regulamentar, fez uma continência impecável e comunicou a Rhodan:
— Tripulação da nave de guerra a postos, senhor, pronta para entrar em ação!
Examinando Bell com um olhar cético, Rhodan avançou e fechou um botão desabotoado do uniforme, com ar de censura. Bell suportou estoicamente a humilhação. Bem que algum dos homens poderia ter lhe chamado a atenção para o pequenino detalhe!
— Obrigado! — disse Rhodan aos tripulantes formados. — À vontade...
Passou para a mão direita o embrulho que trazia sob o braço esquerdo.
— Conforme o senhor ministro da segurança acaba de informar, encontram-se prontos para a ação em Vega. Temos uma tarefa árdua diante de nós, tarefa que não sabemos se poderá ser cumprida. No entanto, de nosso êxito dependerá o destino da Terra. Caso nossos adversários ataquem o sistema solar, ela estará perdida. Vocês conhecem agora essa nave fabulosa, e aprenderam a manejá-la. Sabem que ela dispõe de armamento capaz de arrasar planetas inteiros. Com ela, coloco um poder inimaginável em suas mãos. É meu desejo que este poder só seja usado em prol da paz e das causas justas. No entanto, é preciso não esquecer que muitas vezes a guerra visa justamente a obtenção da paz. E agora, gostaria de solicitar à arcônida Thora que batizasse nossa nave.
Do embrulho aberto, Rhodan retirou uma garrafa de champanha. Um tanto pálida, Thora se adiantou para recebê-la. Distante deles, Crest contemplava fixamente a gigantesca esfera. Lembrando, talvez, que ela pertencera outrora a gente de sua raça, e que passava naquele momento à posse definitiva de seres terrestres.
Com passos curtos e vagarosos, Thora se encaminhou para a espaçonave, detendo-se diante dela. Ergueu o braço direito, e, após breve hesitação, lançou a garrafa com toda a força contra o casco metálico. Em seguida, a voz fria pronunciou no silêncio generalizado:
— Batizo-te com o nome de Stardust-III.
Rhodan foi ao encontro dela e lhe estendeu a mão. Era o único a compreender o quanto era duro para a altiva arcônida dar um nome terrestre à nave. Durante um longo momento, as duas mãos permaneceram entrelaçadas. Depois Thora se virou bruscamente, dirigindo-se lentamente de volta para o carro que aguardava.
Rhodan percebeu então que acabava de lançar a segunda pedra fundamental para a constituição do futuro domínio estelar da Humanidade, domínio que algum dia substituiria o império arcônida.
Voltou-se para Bell:
— Quero que a Stardust-III realize primeiro um vôo de experiência. Faremos um exercício simulado de luta no cinturão dos asteróides. Crest e eu estaremos presentes na condição de observadores. Temos que estar de volta hoje à noite. As bases avançadas em Vênus, Titã e Plutão já foram avisadas.
A tripulação saiu de forma um tanto hesitante, mas depois tudo correu celeremente. Os elevadores antigravitacionais conduziram os homens aos respectivos postos, corredores rolantes se puseram em movimento, portas blindadas se abriram e fecharam, comportas de vedação foram esvaziadas de ar, geradores zumbiam, e por fim a escotilha de entrada se cerrou atrás de Crest e Rhodan.
A Stardust-III não tardou a decolar.
Diante do intercom, Bell distribuía ordens. Espalhados pela nave, oficiais subordinados as recebiam através de aparelhos idênticos. Minúsculas telas de televisão identificavam cada um deles. Nos hangares, os pilotos embarcavam em seus aviões de caça. Fechadas as cabinas, o ar começou a ser expelido dos hangares.
Ainda enquanto a Terra mergulhava como uma pedra no oceano de ar cristalino, para ser encoberta logo após pelo negrume do espaço cósmico, Rhodan deu suas instruções:
— Suponhamos que Júpiter foi ocupado por invasores, que estabeleceram patrulhas avançadas nos asteróides. Plano do adversário: ataque à Terra. Nosso plano: aniquilar as patrulhas avançadas, e contra-atacar em Júpiter — lançando um olhar a Bell, concluiu: — passar à execução!
— É pra já! — exclamou Bell, despejando uma torrente de ordens nos microfones. Depois, enquanto a Stardust-III alcançava, em dez minutos, a velocidade da luz em incrível aceleração, recostou-se em sua poltrona. De braços cruzados, perguntou ironicamente: — Sua Excelência deseja também que desintegremos Júpiter?
— Quando nos defrontarmos com os tópsidas você certamente vai perder a vontade de fazer piadinhas bobas, Bell! — replicou Rhodan. — Como é? Que faz o pessoal neste momento?
O sorriso de Bell apagou-se.
— Não estou brincando, Perry! No curto espaço de uma hora, nossos caças transformariam alguns dos asteróides em nuvens de gases incandescentes, aniquilando, portanto qualquer inimigo potencialmente estabelecido neles. Depois rumariam para Júpiter, cortando o caminho de qualquer adversário com intenções de sair do planeta. Com a Stardust-III poderemos fazer da superfície dele um caldeirão em ebulição.
— Não é preciso, Bell... Não se deixe perturbar, sim?
Bell nem pensava nisso. Estava em seu elemento. Com uma destreza que ninguém esperara dele. Pois mesmo com a pilotagem entregue ao cérebro eletrônico automático, a iniciativa dependia das decisões humanas; no caso, Bell.
A Stardust-III avançou para o cinturão dos asteróides e reduziu a velocidade. O primeiro esquadrão de caça deixou os hangares, espalhando-se pelo espaço. Em comunicação direta com Rhodan, Deringhouse dava ordens para atacar instantaneamente os alvos imaginários que lhe iam sendo apontados. Rhodan acompanhava as operações nas telas. Crest mantinha-se ao seu lado, calado. Nos olhos dourados ardia um brilho indisfarçável, porém gesto algum revelava o conteúdo de seus pensamentos. Apenas Rhodan seria capaz de adivinhar o que se passava na mente do sábio arcônida.
Para encerrar as manobras, a Stardust-III sobrevoou celeremente, à baixa altura, a superfície morta de Júpiter, alvejando os objetivos que Rhodan apontava ao acaso. Áreas cobertas de gelo transformavam-se em fumegantes mares de lava em poucos segundos. Os caças de Deringhouse realizaram rápidas incursões às luas interiores, comunicando o suposto aniquilamento de tropas imaginárias ali estacionadas.
Rhodan colocou a mão direita no ombro de Bell:
— Basta! Pode cancelar o resto das manobras. Dou-me por satisfeito. Creio que podemos retornar tranqüilamente para o sistema Vega agora. A perda da Good Hope foi mil vezes compensada. Os tópsidas vão ter que se precaver...
Pela primeira vez Crest rompeu seu silêncio.
— Seria facílimo para vocês arrasarem os invasores — disse ele, pensativo — porém eu não o recomendaria. Algumas naves escaparão, inevitavelmente, levando as novas do ocorrido até Topsid. E existem armas para se contrapor mesmo à mais bem armada espaçonave. Os tópsidas planejariam vingança, e algum dia voltariam com reforços. O mais indicado seria entrar num entendimento com eles.
— Um tratado de paz com as lagartixas?! — reclamou Bell.
— Por que não? As raças inteligentes do Universo possuem formas externas diversas, sem serem melhores ou piores por isso. Os arcônidas têm alianças com seres semelhantes a aranhas, e seus melhores amigos pertencem a uma raça que vive nos mares de um mundo aquático. Não, meu caro, a forma orgânica pouco importa; o que conta é o caráter.
— E os tópsidas lá têm caráter?
— Qualquer ser possui caráter — afirmou Crest, com seriedade. — Às vezes ele é bom, outras bastante ruim. É nisto que reside a diferença.
— E o que deveríamos fazer? — perguntou Rhodan, interessado. — Propor-lhes um tratado de paz?
Crest deu de ombros.
— Falemos nisso mais tarde; quando estivermos frente a frente com os tópsidas. Talvez depois de uma derrota eles estejam dispostos a negociar.
— Responda-me mais uma pergunta, Crest — disse Rhodan, encarando-o com firmeza. — Que acha de meu pessoal? Crê que vou poder resistir a um conflito interestelar com esta tripulação?
— Esteja tranqüilo — replicou Crest, se esforçando para não deixar transparecer admiração exagerada em seu olhar. — O que acabei de presenciar é um sonho do longínquo passado arcônida. Nós éramos assim quando começamos a construir o Império Galático. Mas atualmente...
O arcônida calou-se, abatido; mas logo voltou a sorrir, e continuou corajosamente:
— Vocês bem poderão vir a se tornar descendentes diretos dos antigos arcônidas!
Enquanto Bell emitia as ordens para o regresso dos caças, Rhodan respondeu sonhadoramente:
— Sim, em sentido figurado talvez sejamos mesmo descendentes dos arcônidas...

II



Em torno do sol Vega gravitavam quarenta e dois planetas; apenas no oitavo surgira vida inteligente. Os ferrônios eram de estatura baixa, raramente ultrapassando a altura de um metro e sessenta. Os olhos miúdos ficavam ocultos debaixo da testa muito saliente. Os cabelos cor de cobre formavam contraste vistoso com a pele azul-clara — conseqüência da radiação do sol Vega. As bocas muito pequenas faziam-nos parecer inocentes e inofensivos como crianças. Ferrol, seu planeta nativo, possuía clima tropical quente, com gravidade equivalente a 1,4 g. Neste ponto, a estatura baixa favorecia os ferrônios.
Porém muitos deles haviam sido forçados a abandonar sua pátria quando os invasores ocuparam Ferrol, refugiando-se no planeta-colônia Rofus. Instalados nele, os ferrônios aguardavam com impaciência o regresso de seus libertadores, os arcônidas aparecidos tão inesperadamente, e em cujas mãos os tópsidas haviam sofrido humilhante derrota.
Os ferrônios possuíam transmissores de matéria pentadimensionais, com os quais se podia transpor distâncias imensas. Sua atividade espacial, no entanto, era primária, pois não dominavam a matemática de quinta dimensão. Esta flagrante contradição dera muito o que pensar a Rhodan.
O vigésimo oitavo planeta do sistema Vega era contornado por uma lua de gelo. A primitiva atmosfera se sedimentara em época imemorial, transformando o satélite num deserto gelado, com montanhas enormes. Nenhum ser vivo poderia sobreviver naquele ambiente adverso, mas Iridul não estava deserto.
Bem escondida no seio de uma montanha, existia uma vasta caverna, cujas paredes lisas ainda mostravam nitidamente os vestígios da fusão recente do gelo. Um espaçoso túnel conduzia até a superfície do satélite, provido de uma comporta que permitia a Marshall e Haggard levantar vôo, no momento que desejassem, com um dos dois caças, a fim de realizar vôos de reconhecimento. A base do hipertransmissor, muito bem camuflado, assentava sobre o gelo eterno. Logo ao lado ficavam as acomodações construídas em matéria plástica, onde se abrigavam os dois homens e o grupo de ferrônios. Geradores forneciam luz e aquecimento, instalações de renovação de ar tornavam a vida debaixo da capa de gelo suportável.
John Marshall, um telepata natural, membro do Exército de Mutantes da Terceira Potência, se preparava para uma expedição exploradora. Haggard, famoso seu patrício australiano, auxiliava-o.
— Até que sinto falta de Bell! — disse John, em tom melancólico. — Vai ser bom rever aquela cara de bolacha.
— É, a gente aceita qualquer coisa para fugir da solidão — disse o Dr. Haggard, compreensivamente. — Quando Bell puser os pés aqui, Rhodan, Crest e Thora também não devem estar longe. E sou capaz de afirmar que esses três constituem o fundamento psicológico de sua saudade por Bell.
— Acertou, doutor! Principalmente Thora... — confessou John, ajustando o transmissor do capacete. — É uma bela mulher!
— Mais fria do que o gelo de Iridul! — replicou Haggard, sacudindo-se. — Pensa acaso em...?
— Ora, que nada! Não pretendo invadir a seara de Rhodan.
Marshall saltou para a cabina do caça e fechou a portinhola. Em silêncio, Haggard se encaminhou para o painel de controle junto ao hipertransmissor e baixou uma alavanca. Simultaneamente ligou o transmissor radiofônico comum, a fim de poder ficar em comunicação com o piloto.
— Pronto? — perguntou John. Haggard acenou com a cabeça:
— Sim, pode largar. Boa sorte!
— Obrigado.
O caça deslisou sobre patins antigravitacionais, penetrando no túnel agora intensamente iluminado. A comporta por trás do avião se fechou. Bombas entraram em ação e o portão de saída se escancarou. John acionou a alavanca de partida e o pequeno aparelho se lançou ao encontro da desmaiada luz solar de Vega. Na minúscula cabina havia espaço para apenas um homem se instalar com relativo conforto.
Vega estava longe demais para fazer cintilar mais vivamente os cristais de gelo que recobriam o pequeno corpo celeste. As extensas superfícies nevadas só refletiam a luz de Vega devido à total ausência de atmosfera. As sombras se destacavam nítidas, sem transição marcada entre luz e treva.
John ganhou altura, porém ainda não acelerou. Elevou-se vagarosamente no firmamento constelado, apreciando o espetáculo. Procurava com o olhar determinada constelação muito sua conhecida; não tardou a encontrá-la. Os astros estavam um pouco fora da posição costumeira, e uma estrela nova brilhava fracamente no meio da configuração, com luz amarelada — o Sol. Ele estava a vinte e sete anos-luz dali. John começou a meditar: quando os raios solares que via agora haviam iniciado seu longo e demorado percurso, ele tinha quatro anos de idade. Tinha se adiantado à luz do sol, e naquele momento tornava a encontrá-la.
“Já vi esta mesma luz três vezes agora”, matutava John. “Será que se trata mesmo de fato insólito e único? Será que podemos enxergar a mesma luz diversas vezes?”
Não teve tempo de aprofundar mais suas cogitações filosóficas, que jamais o haviam levado a resultados palpáveis, pois algo lhe chamou a atenção. A princípio não identificou claramente do que se tratava, mas seu cérebro alertava: estrela nenhuma pode se deslocar tão depressa; muito menos planetas. E no espaço não existem meteoros incandescentes.
Seria uma espaçonave?
Manobrou o caça, executando uma curva fechada, e acelerou. Não temia ataque algum, pois sabia que podia acelerar muito mais depressa do que os tópsidas. Antes que pudessem sequer chegar perto, ele estaria longe e em segurança. Mas era bem possível que os invasores já estivessem refeitos da derrota sofrida. E, mesmo amargando a perda do grande cruzador esférico, ainda dispunham de uma frota aguerrida de espaçonaves mais velozes do que a luz.
Ali estava o objeto de novo!
John ligou o hipersensor, que emitiu imediatamente suas ondas reflexoras. Segundos após, a proa do caça se desviou ligeiramente para um lado, apontando em linha reta para a estrela ambulante.
Realmente, se tratava de uma nave tópsida. O amplificador projetou seu contorno nas telas. John reconheceu de imediato a excrescência bulbosa no meio da fuselagem longa e delgada — o modelo típico das naves tópsidas.
John raciocinava a jato. Não seria nada apropriado se meter numa escaramuça, já que Rhodan proibira terminantemente ataques aos tópsidas. A ordem era se manter à distância deles, enquanto ele próprio não chegasse com a Stardust-III e a tripulação necessária.
Mas a simples constatação de que os tópsidas voltavam à atividade já era bastante interessante. Pareciam mesmo dispostos a firmar sua posição no sistema
Vega, preocupando-se agora com a exploração dos planetas mais distantes. Mas não havia o menor perigo de que Iridul lhes parecesse suspeita.
A contragosto John tornou a alterar o rumo, e enviou um breve comunicado a Haggard: por enquanto seria prudente ninguém deixar o abrigo da caverna protetora. Depois acelerou ao máximo, a fim de atingir o mais depressa possível a velocidade da luz. Senão, em vista das proporções colossais daquele sistema, levaria dias para chegar ao nono planeta.
Rofus lembrava muito a Terra, só que lhe faltavam as grandes cidades. Os ferrônios tinham colonizado o planeta há bastante tempo, e agora servia-lhes de bem-vindo refúgio. No entanto, grande parte do povo tinha permanecido em Ferrol, principalmente os sichas, tribo ainda semi-selvagem e muito corajosa. Viviam nas montanhas do planeta-mãe, e causavam grandes dificuldades aos tópsidas.
John ultrapassou a órbita dos planetas, e reduziu a velocidade ao cruzar com o décimo primeiro. Dentro de minutos, avistou Rofus, o nono planeta. Contornou-o por diversas vezes, a fim de se certificar da ausência de naves-espiãs inimigas nas redondezas. Depois aterrizou em Chuguinor, a capital.
Não contava com manifestações especiais na chegada, pois quase diariamente ele próprio ou Haggard vinham visitar o Thort de Ferrol. O soberano exilado residia, com todos os seus ministros e colaboradores, em Chuguinor; através dos transmissores, estava em contato constante com agentes na pátria ocupada pelo invasor. As comunicações radiofônicas haviam sido suspensas, e as espaçonaves não deixavam os esconderijos subterrâneos onde se ocultavam. Porém, súditos ferrônios e cápsulas contendo notícias viajavam continuamente entre o oitavo e o nono planeta, baseados em princípios similares aos usados pela Stardust-III ao executar seu salto espacial. No entanto, e John sabia disso, ninguém conhecia o segredo daqueles aparelhos de teleportação.
Desta vez John deparou com um ambiente diverso. Ao saltar do caça, sentiu virtualmente que pairavam novidades no ar. Cerrando a portinhola da cabina, ligou o campo repulsor eletrônico. Ninguém poderia se aproximar do pequeno avião sem levar um forte choque. O campo repulsor só reagia diante do padrão cerebral de Marshall.
As ruas da cidade estavam agitadas. John notou que muitos passantes carregavam grandes fardos, mas em vão tentou sondar telepaticamente o que acontecia. As impressões que captava eram tão confusas que não conseguia interpretá-las. Pareceu-lhe reconhecer medo e terror generalizado, e começou a ficar preocupado. O que teria acontecido?
Apressou-se a chegar à residência do Thort. Foi admitido imediatamente na presença do regente dos ferrônios.
O homem baixo, agora totalmente despido de sua dignidade de governante, segurou com ar suplicante os fortes punhos de John. Este era capaz de compreender as palavras do Thort sem precisar recorrer ao aparelho tradutor, graças aos seus dons telepáticos; podia também lhe responder de maneira inteligível.
— Senhor, corremos grave perigo! — começou o ferrônio, desesperado. — Caso o grande Rhodan não venha logo nos socorrer, estaremos todos perdidos!
— Rhodan já está a caminho — mentiu John, a fim de serenar o Thort. — Que aconteceu? A julgar por sua atitude, os tópsidas devem ter desencadeado um ataque...
— Pois é o que pode ocorrer a qualquer instante! Até agora eles se conservavam tranqüilamente em Ferrol; porém se avolumam as informações sobre seus preparativos de conquistar igualmente Rofus, este mundo aqui.
— Tem provas concretas disso? — perguntou John.
— Sim, tenho. Meus agentes informaram que a frota das lagartixas se apresta para atacar Rofus. Em Ferrol, muitos ferrônios foram aprisionados, jogados em cárceres, e até assassinados. Os tópsidas se recuperaram do impacto causado pelo aparecimento de Perry Rhodan. E agora tramam vingança! Nós seremos obrigados a pagar por algo que não cometemos. Os arcônidas têm obrigação de nos ajudar!
Aquelas palavras já não refletiam a gratidão pelo apoio obtido anteriormente, mas John podia compreender o desespero do Thort.
— Tem dados sobre a data provável da invasão iminente?
— Não, mas conto com ela todo dia. E só dispomos de uma frota desfalcada para enfrentar os tópsidas.
— É, não adiantaria grande coisa — concordou John, pensativo.
Percebeu que tinha chegado o momento de agir. Rhodan o encarregara da vigilância naquele posto avançado, com a missão de observar o comportamento dos tópsidas. Uma vez que eles voltavam à atividade com renovada animação, era preciso dar alarma imediato. Rhodan abreviaria a instrução de seu pessoal, decolando sem demora. John não podia calcular quanto tempo ele precisaria para abastecer a nave e ultimar os preparativos para a decolagem, mas julgava que alguns dias seriam suficientes. Seu dever era enviar imediatamente a mensagem combinada.
— Necessito de uma prova concreta, Thort, para convocar Rhodan com tal urgência.
— Não lhe basta saber que as lagartixas se mexem? Até agora estavam quietas em Ferrol. Mas agora começam a fazer vôos regulares de patrulha através do sistema inteiro.
O Thort falava a verdade. John tinha avistado pessoalmente uma das naves de patrulha, nas proximidades do vigésimo oitavo planeta. Acenando com a cabeça, levantou-se.
— Pois bem, Thort, vou me comunicar com Rhodan agora mesmo, pedindo que se apresse. Mantenha sua frota em prontidão. É provável que tenha que repelir por conta própria o primeiro ataque dos tópsidas. Organize grupos de combatentes que possam ser enviados para Ferrol através dos transmissores, a fim de criar confusão na retaguarda do inimigo. Quando Rhodan chegar, daremos o golpe decisivo contra eles. Pode crer que os tópsidas serão expulsos do sistema planetário de Vega.
— Espero que então ainda estejamos vivos! — suspirou o soberano, pouco convencido. Mas logo empertigou o corpo baixo e atarracado; a minúscula boca se contraiu, imprimindo ao rosto um ar de decisão. — Queremos e precisamos bater os tópsidas! Quero libertar o povo oprimido de Ferrol. Muitos de meus súditos vieram se refugiar em Rofus, porém os melhores deles ficaram para trás!
Minutos após, John se dirigia de volta para seu caça. Ia a pé, a fim de colher mais algumas informações, e meditar sobre a conversa tida com o Thort. Nunca conseguiria entender direito aqueles ferrônios! Lançando-se na espaçonáutica, haviam parado nos passos iniciais. E sua ambição não fora além da colonização do sétimo e do nono planeta. Não obstante, possuíam um sistema de desmaterializar pessoas ou objetos, transportando-os a longas distâncias. Através da quinta dimensão, sem gasto de tempo. O que implicava no conhecimento de princípios tecnológicos e matemáticos evidentemente ignorados pelos ferrônios. John tinha certeza de que eles nem seriam capazes de construir um daqueles transmissores. A origem destes se perdia em época imemorial, herança de um período áureo definitivamente desaparecido. Ou teriam os ferrônios mantido outrora contato com uma civilização superior, fato de que agora ninguém mais se recordava?
Sem conseguir chegar a conclusão alguma, John desistiu de suas cogitações. Sabia que Rhodan também havia tentado em vão analisar aquele mesmo problema.
Talvez ele representasse a chave para a solução de um mistério, cuja revelação significaria resposta para inúmeras perguntas.
Agora compreendia melhor as intenções dos ferrônios apressados que cruzavam com ele. Estavam fugindo, abandonando a capital ameaçada, para ir se abrigar nas montanhas; lá estariam a salvo dos invasores tópsidas.
John encontrou seu caça conforme o deixara. Desligando o campo repulsor, decolou imediatamente. Assim que se viu fora da atmosfera de Rofus, imprimiu ao aparelho a velocidade da luz, e rumou para o vigésimo oitavo planeta. Vega decresceu rapidamente, e seu brilho amorteceu.
Uma única vez os aparelhos de detecção registraram o aparecimento de outra espaçonave; porém ela passou tão longe que John não conseguiu fixar sua imagem na tela. Mas estava certo de que se tratava de uma nave-espiã tópsida.
Circulou cautelosamente em torno do vigésimo oitavo planeta, descrevendo diversas órbitas, antes de pousar em Iridul, seu satélite. O Dr. Haggard já estava à espera, e abriu a comporta. Dois minutos depois o piloto saltava da cabina do caça. Batendo no ombro de Haggard, disse:
— Precisamos mandar a mensagem radiofônica sem demora. Os tópsidas estão em atividade. Parece-me que chegou a hora de enxotá-los deste sistema planetário.
— Rhodan deu ordem para usar o hipertransmissor só em caso de emergência, pois os sinais poderiam ser interceptados, revelando nossa posição. Felizmente, ninguém será capaz de determinar o destinatário da emissão. A localização da Terra continuará sendo segredo.
— Isto é que importa. Prepare tudo, vou redigir o texto. Terá que ser breve, porém conter todo o essencial.
— Terei tudo pronto em dez minutos — concordou Haggard, serenamente. — Aliás, há cerca de duas horas nosso detector acusou a presença de uma nave tópsida. Ela sobrevoava, a pouca altura, Iridul, como se estivesse procurando algo. Será que este fato tem alguma relação com os que observou?
Só a custo John ocultou sua consternação. No entanto, sua voz era calma quando respondeu:
— E muito!... Apresse-se, não podemos desperdiçar um só instante. Espiões inimigos costumam ser o prenuncio inócuo de ocorrências bastante graves. Os tópsidas tencionam se apossar de todo o sistema Vega.
Haggard ligou a corrente do transmissor. Na ampla caverna começou a fazer-se ouvir um zumbido surdo. Luzes se acenderam, e o gigantesco transmissor vibrou de alto a baixo. Suas ondas alcançariam a Terra sem dispêndio de tempo; um ano-luz ou vinte e sete deles não lhe faziam a menor diferença. Nem trinta e dois mil anos-luz, e nisto residia o problema... No Universo inteiro, receptores similares captariam os sinais emitidos. Através de detectores, se poderia determinar que as transmissões partiam do sistema Vega, um sistema não pertencente ao Império Galático. E, por mera curiosidade, seres estranhos poderiam querer averiguar que espécie de raça ultrapassara o cume do desenvolvimento tecnológico comum, se aventurando a penetrar na quinta dimensão.
Uma lâmpada vermelha se acendeu.
— Pronto! — disse Haggard, apontando para a exígua cabina, na qual cabia apenas uma pessoa. — Entre, e dê seu recado. A mensagem será repetida automaticamente. Limitei o tempo de transmissão em trinta segundos. Chega?
— Creio que sim — disse John, com um sorriso nervoso. — Sabe, esta cabina sempre me faz lembrar os transmissores de matéria dos ferrônios; são bem semelhantes. Lá despacham gente através do hiperespaço, enquanto nós enviamos ondas de rádio. Minha impressão é que vou tocar em algum controle errado, em vez de minhas palavras quem vai dar com os costados na Terra sou eu.
Para surpresa de John, Haggard não encarou aquilo como piada.
— Isso não é tão impossível quanto julga, John. A única incógnita seria adivinhar em que lugar você se rematerializaria, pois existem inúmeras estações receptoras espalhadas pelo Universo.
Empalidecendo ligeiramente, John entrou na cabina e fechou a porta com ar decidido. O zumbido aumentou de volume e ele começou a falar.

* * *

Perry Rhodan recebeu a mensagem pouco antes da decolagem. O coronel Freyt, que já tinha se retirado da Stardust-III, voltou para bordo apressadamente, trazendo o texto. A notícia não trazia alteração alguma nos fatos conhecidos até então, mas contribuía para firmar o propósito de Rhodan e de sua equipe de definir no mais curto prazo possível a situação em Vega.
— Obrigado, coronel! Se tudo correr de acordo com os planos, estaremos de volta dentro de algumas semanas. Procure neste meio tempo obter a formação de um governo mundial efetivo. O tempo da diferenciação racial passou; o homem só poderá aspirar à sucessão dos arcônidas quando se tornar terrano. Compreendeu o que quero dizer?
— Sem dúvida — respondeu Freyt, gravemente. — Até a volta, e boa sorte!
Rhodan ficou contemplando o amigo que se afastava. Bell, sentado ao seu lado, observou, com rugas na testa:
— Acho bom Crest não tomar conhecimento de suas intenções tão cedo, Rhodan. Esse negócio de suceder os arcônidas, quero dizer... Ele poderia ficar chateado.
No entanto, para sua surpresa, Rhodan sorriu.
— Não, meu caro, muito pelo contrário. Pois alimenta a secreta ambição de que nos tornemos substitutos dos arcônidas no governo do Império Galático. Ele tem plena consciência de que, sem nós, todo seu poderio entraria em colapso total muito brevemente. Mas deixemos o futuro para quando sua hora chegar. Prontos para largar?
— Claro! Tudo em ordem.
— Pois então, vamos! Cada instante é precioso. A mensagem vinda de Iridul é bem alarmante. Os tópsidas se preparam para atacar Rofus. Temos que nos antecipar a eles.
— Nosso Exército de Mutantes vai lhes infernizar a vida! — prometeu Bell, enquanto manejava os controles. Ainda antes das telas esquentarem, a enorme porta de entrada da Stardust-III foi fechada automaticamente.
Imóvel na pista, o coronel Freyt viu a gigantesca esfera espacial se erguer silenciosamente, e disparar para o alto como um petardo. Segundos após, ela desaparecia de vista. Suspirando, ele tomou o planador que o conduziria de volta a Galáxia.
Tinha diante de si uma tarefa da maior responsabilidade.

* * *

Desta vez, a transição não implicava em risco algum. A nave deslizou para o hiperespaço, atravessou a quinta dimensão, e se rematerializou na orla do imenso sistema planetário de Vega. Por meio do rádio, entraram em contato com Haggard e Marshall, que suspiraram de satisfação ao ver o período de exílio terminar.
— Bell, mande uma esquadrilha de caças seguir na nossa frente, bem espalhados. Não há necessidade dos tópsidas saberem onde a Stardust-III vai aterrisar.
— E onde é que pousaremos? — perguntou Bell, enquanto transmitia as instruções a Deringhouse. — Em Iridul?
— Não. Em Rofus. De lá poderemos operar mais vantajosamente. E me parece que o nono planeta é justamente o mais ameaçado.
— E por que não atacamos direto em Ferrol? Com a Stardust-III temos condições para isso.
— E eu tenho motivos para não fazê-lo.
Não se estabelece uma soberania pela força. Basta forçar os tópsidas a se retirar em desordem, convencidos de que não são adversários para nós. Quero que recordem sua aventura em Vega com os corações tomados pelo pânico.
Enquanto os pequenos e ágeis caças deixavam o hangar, colocando-se na vanguarda da nave, em formação ordenada, Haggard e Marshall vieram para bordo. Os aliados ferrônios ainda iam permanecer por algum tempo em Iridul.
Rhodan recebeu os dois amigos com sincera cordialidade.
— Estou ansioso para saber detalhes — disse ele, após dar as boas-vindas aos dois homens. — A mensagem que recebi era bastante resumida. Que foi que se passou?
— Muito pouco, na verdade, porém o Thort começa a se impacientar. Julga-se traído. No entanto, aceitou minhas sugestões no sentido de organizar uma pequena unidade de combate com sua gente. Aliás, bem a tempo de repelir um ataque-relâmpago dos tópsidas, destinado evidentemente a medir a resistência com que poderiam contar em Rofus. A moral dos ferrônios foi bastante fortalecida com a vitória aparente. Porém receio que, diante de um ataque positivo dos tópsidas...
— As coisas não devem chegar a este ponto! — interrompeu Rhodan. — Os reptilóides não vão tardar a saber que estamos de volta. A missão dos caças é confundi-los, a fim de podermos pousar em Rofus sem eles perceberem. Existe lá algum hangar bastante amplo para acomodar a Stardust-III?
— Certamente — replicou Marshall. — Mas vamos nos entocar outra vez? Julguei que mostraríamos aos tais de tópsidas quem é que manda aqui.
— Pois é exatamente o que faremos... no momento apropriado — assegurou Rhodan, sorrindo, e com um olhar de entendimento para Bell. — Afinal, para que serve nosso Exército de Mutantes? E, mesmo não sendo mutante, nosso amigo Bell tem imaginação... Sob sua batuta, os mutantes vão esquentar de tal modo o ambiente para os tópsidas que eles vão preferir mil vezes a frieza do espaço cósmico. Não vai lhes restar a menor disposição para se demorar por mais tempo no sistema Vega.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html