Por entre o rugido predominante dos
reatores de força, ouvia-se o som mais agudo dos propulsores, dando o máximo de
si. Forneciam um empuxo de cerca de quatro milhões de toneladas, calculado em
valores terrestres.
Os pulmões de Rhodan expeliram,
assobiando, o ar retido na última inalação. A distensão provocou enorme alívio,
quase semelhante a um choque. Sentiu vontade de rir, gritar, fazer qualquer
coisa a fim de extravasar a excitação. Os olhos voltaram a enxergar com
nitidez. Os propulsores funcionavam com a perfeição que era de esperar numa
nave arcônida.
As forças mais brutais se confrontavam. De
um lado, a inacreditável energia do desconhecido; de outro, a potência das
máquinas.
Bell ergueu-se a custo. Crest e Thora
estavam inconscientes. Os doutores Haggard e Manoli puseram-se imediatamente em
ação; não eram homens que precisassem ser lembrados de suas obrigações. Afinal,
os dois arcônidas eram os mais débeis seres vivos a bordo. Até Gucky
mostrara-se mais resistente do que eles.
— Absorvido, graças a Deus! — arquejou
Bell. — Eu... ai, está ficando mais forte! Estamos perdendo o pouco de contra velocidade
que adquirimos, a despeito dessa radiação que nos empurra para trás. Velho,
estão querendo nossa caveira!
O sorriso de Bell era distorcido; não
conseguia mover um dedo sequer. Nas telas surgiram os rostos dos oficiais. O
mutante Tanaka Seiko esbravejava, a despeito da hipnose profunda provocada pelo
Dr. Haggard. Seu cérebro adicional devia sentir com dolorosa intensidade a
radiação energética desconhecida.
Rhodan refletia, absorto. Seus pensamentos
se atropelavam. Tentava captar uma noção difusa que lhe ocupava o
subconsciente. O indicador de velocidade descia aceleradamente, da anterior
contra velocidade de 3 km/s2, para zero. Aquilo parecia ser
realmente o fim! Os neutralizadores não dariam conta do recado sozinhos.
Completamente abstraído, Rhodan mal
percebia o ruído infernal à sua volta. O esclarecimento lhe veio como um clarão
de relâmpago.
— Que foi que você falou há pouco? —
gritou, puxando bruscamente Bell com a mão direita. — O que era mesmo? Que nome
deu ao tal campo?
Atônito, Bell tartamudeou:
— Campo? Não falei de campo nenhum. Está
querendo se referir à radiação de repulsão?
Rhodan não perdeu tempo nem com um suspiro
de alívio. Lançou o corpo para a frente, debruçando-se por cima dos controles
essenciais. A chave-mestra para os anteparos energéticos ficava mais ao alto, à
direita, quase na margem do painel inclinado.
Um punho enérgico se abateu sobre ela. Os
fusíveis expeliram faíscas de um metro de comprimento quando a energia foi
cortada dos projetores do campo energético.
Um coro de vozes se ergueu em apavorado
protesto. Será que o comandante enlouquecera?
Bell foi o primeiro a compreender. O
flamejante anteparo sumiu como que por encanto. A assustadora pressão
desapareceu como se jamais tivesse existido. O uivo estridente dos conversores
de força moderou-se instantaneamente. Apenas os propulsores continuavam a rugir
com força total.
A Stardust-III, que atingira velocidade
ainda incalculável, passou automaticamente a rumar em sentido contrário; com
toda a força das máquinas, retornava ao ponto onde estivera antes.
— Que diabo! — murmurou Marshall,
impressionado. — Era o campo gravitacional! De alguma forma, eles fizeram dele
um pólo, usando-o para repelir-nos. De onde lhe veio a idéia, Rhodan?
Rindo alto e roucamente, Rhodan não
desgrudava os olhos dos controles. De fato, as forças desconhecidas tinham
desaparecido sem deixar sinal.
— Alô, velho amigo! — exclamou, pela
segunda vez em curto espaço de tempo. Um sorriso de desafio lhe brincava nos
lábios. — Ganhamos de novo. Que vem agora?
Desta vez, Bell desistiu de indagar do
estado de saúde de Rhodan. Exausto, reclinou-se em seu assento.
Diante deles, a grande distância, o
planeta Peregrino pairava no incomensurável espaço da Via Láctea.
Crest voltava a si, com ar desamparado.
Seus olhos suplicavam ajuda.
— Está tudo bem — tranqüilizou Rhodan. — Bell
falou qualquer coisa sobre campo de repulsão. Foi o que me deu a pista.
— Radiação de repulsão — corrigiu Bell novamente.
— Mas não foi culpa minha, sinceramente... Saiu sem querer...
— Pois então deixe suas idéias saírem com
mais freqüência, está bem?
Rhodan começou a tossir roucamente. Sentia
os pulmões em brasa.
— Foi brabo, não? — comentou, com um
sorriso melancólico. — Seja como for, os imortais são poderosos. Foi a prova
mais árdua até agora. Talvez só queiram confiar seu segredo a seres capazes de
guardá-lo. Queira Deus que nossas forças não nos abandonem no último momento.
— Ainda pretende prosseguir? — perguntou
Thora, estarrecida.
Rhodan contemplou-a pensativamente.
— Esqueceu que Vega está ardendo? Bell,
cuide dos controles. Tenho trabalho a fazer na máquina de calcular.
— Você enlouqueceu, sem a menor duvida! —
afirmou Thora, desconcertada.
Mas quando o homem magro, com os ombros
caídos, passou por ela, a arcônida acompanhou-o com um olhar fascinado.
Klein piscou o olho, provocando risadinhas
maliciosas de Bell, que irrompeu a seguir numa série de assobios muito pouco
melodiosos, tremendamente desafinados. Ótimo meio de fazer a arcônida se
retirar precipitadamente.
— Monstrengo! — disse Thora, serenamente. —
Você nunca aprenderá, macacóide. No dia em que chegarmos a Árcon, vou lhe
arranjar uma árvore para morar. Temos umas enormes, com suculentos frutos
vermelhos de casca espinhenta.
Altivamente ereta, ela retornou a seu
lugar. Bell seguiu-a com um olhar espantado. Seus cabelos cor de ferrugem,
obviamente acompanhando os impulsos de seu cérebro necessitado de expansão,
eriçaram-se até ficar de pé perpendicularmente com o crânio. Porém não chegou a
expressar seu apreciável vocabulário. O imortal tornava a se manifestar.
— Desligue, homem! — berrou Rhodan, fora
de si. — Provoque um curto-circuito, ou corte a corrente dos campos que
transportam a energia sem fio. Mas faça alguma coisa! Meus controles-mestres se
recusam a funcionar.
— Os meus também, chefe — replicou o
engenheiro-chefe Garand, em tom tão alegre como se estivesse saudando um bando
de crianças carregadas de ramos de flores.
Porém, para o crítico senso de humor de
Garand, aquilo era sinal de profunda excitação. Engraçado como uma pessoa se
portava diferente de outra...
Perry Rhodan abafou um palavrão entre os
dentes cerrados; olhou em torno alucinado...
— Uma idéia! Vamos, quem tem uma? Como
inativar os propulsores e seus controles bloqueados? Se não começarmos a frear
dentro de cinqüenta e dois minutos, vamos nos chocar contra algo que não vemos.
E então?
Crest entregou os pontos definitivamente.
Conformado, encaminhou-se vacilante para sua poltrona. O capitão Klein remexia
nervosamente nos botões de seu armamento.
— Eu poderia despachar algumas bombas arcônidas
contra aquilo; ou, melhor ainda, bombas gravitacionais pentadimensionais. Seja lá
o que temos pela frente seria varrido do plano tempo-espaço.
— Genial! — zombou Rhodan. — Vejam só o
espertinho! Suas bombas G correm apenas à velocidade da luz, não é? Pois o
mesmo acontece com a nave, meu caro. Gostaria de palpites mais inteligentes. Ninguém
se candidata? Minha cuca fundiu, sinto muito. Não consigo mais pensar. Raios,
será que não existe ninguém aqui capaz de apresentar uma idéia aproveitável? O
que é que a gente poderia fazer?
Apenas uma ninharia deixara de funcionar a
bordo de Stardust-III.
Os propulsores em carga máxima tinham
agora reduzido a zero a velocidade impressa à nave pelo raio repulsor.
Alcançado o ponto nulo, ela recomeçou o curso planejado, percorrendo exatamente
o traçado da órbita determinada.
Os propulsores tinham estado em
funcionamento regular por cerca de dez minutos. Crest descobrira então, através
de um cálculo positrônico relâmpago, que teriam que iniciar dentro de pouco a
desaceleração, a fim de alcançarem a velocidade orbital no ponto exato onde a
nave fora atingida pelo raio repulsor. Com isso, a Stardust-III ficaria na
mesma posição anterior. Feita a programação, quando Rhodan ia iniciar a queda
livre como transição para o período de desaceleração, os possantes propulsores
recusaram a cooperar.
O impasse continuava. Algo bloqueara todos
os controles. Aliás, não se tratava propriamente de um bloqueio, e sim de um
processo incompreensível. Era o que levava Rhodan ao desespero.
Mais uma vez olhou em torno. Os rostos
visíveis nas telas também não sabiam o que fazer. Então uma voz de soprano
gorjeou por trás do alto encosto do assento do comandante.
Subitamente iluminado, Rhodan voltou-se
bruscamente, agarrou Gucky, puxou-o para a frente. O ser peludo guinchou
estridentemente, porém a raiva desapareceu logo dos olhinhos espertos diante
das ansiosas súplicas de Rhodan:
— Gucky, meu amiguinho, chegou sua vez de
nos ajudar! Vai poder brincar, compreendeu? Brinque com os controles dos
propulsores, conforme já fez uma vez. Conhece o vasto recinto abaixo de nós,
onde estão aqueles enormes blocos de metal pintados de vermelho-escuro? São os
projetores de campo para os protetores de corrente. Cortada a corrente, tanto
os termo-transformadores como os conversores de impulsos param. Concentre-se nos
blocos metálicos; algo está errado com eles! Faça as máquinas pararem.
— Ora, conheço aquilo! — exclamou Gucky,
entusiasmado. — Andei brincando com eles lá no meu mundo. Chefe, que belos
estrondos deram!
— Pois provoque novos estrondos. Com minha
permissão... Ande, comece logo, Gucky!
Os membros do Exército de Mutantes
observavam impressionados o indubitavelmente mais poderoso telecineta de todos
os tempos. Nem mesmo a pequena Betty Toufry possuía força igual. Sem uma
palavra, ela se pôs de pé e estendeu a mão ao rato-castor. A patinha de Gucky
sumiu na mão da menina.
— Ajude-me, sim? Mas sem tomar iniciativa
própria, apenas apoiando.
Terrestre e alienígena, ambos feitos pelo
Criador, mergulharam em rígida imobilidade. Rhodan sintonizara a central de
força nas telas. Tratava-se de uma medida de emergência, mas poderia resultar
em êxito total.
O rugido dos propulsores continuava, até
que de repente ratearam pela primeira vez. Estrondosos raios se projetavam dos
anteparos que protegiam o fluxo de corrente. A nave rangia de ponta a ponta, assustadoramente.
Mas de repente tudo acabou. Os propulsores
ficaram mudos. Nas telas apagou-se o vivo brilho das pulso-ondas.
Betty Toufry caiu desvanecida. Anne Sloane
correu em seu socorro, depositando-a sobre o mais próximo leito anatômico. O
crânio peludo de Gucky inclinou-se sobre o joelho de Klein. O pequeno habitante
de Vagabundo tremia da cabeça aos pés, enquanto a boca emitia débeis lamentos.
— Muito bem, menino; grande trabalho! —
balbuciou o capitão Klein, alisando desajeitadamente o sedoso pêlo da nuca de
Gucky. — Daqui a pouco se sentirá melhor.
Rhodan voltou aos controles. Precisava
verificar quais as ligações interrompidas pela tremenda força mental dos dois
telecinetas.
De qualquer forma, as instalações
recomeçaram de repente a funcionar normalmente. O automático entrou em
funcionamento, alguns segundos tarde demais.
— Quero disponibilidade tripla em todas as
unidades. Situação de emergência. Garand, providencie energia para 600 km/s2.
Executar.
Desta vez, as máquinas obedeciam aos
comandos. Os fusíveis desligados dos campos de força foram reengatados. Era um
triunfo do automatismo.
Minutos após, a alta velocidade da nave
fora quase anulada.
Tanaka Seiko começou a se debater como um
possesso. A despeito da hipnose, ergueu-se furioso, gritando palavras
desconexas, e olhando aterrado para a frente, com os olhos esgazeados. No
entanto, tudo que se via nas telas era o espaço deserto. Também os detectores
não acusavam nada.
Rhodan acionou o alarma de catástrofe.
Comportas se fecharam ruidosamente, os cintos de segurança magnéticos saltaram
de dentro dos encostos das poltronas, sujeitando firmemente os homens.
Foi então que sentiram o tremendo choque.
Mesmo com os absorvedores de compressão ligados em intensidade máxima, foram
jogados para diante. As correias dos cinturões cortavam dolorosamente o tórax e
os ombros. Instrumentos se estilhaçavam, tinindo. O fenômeno, aparecido com a
rapidez do relâmpago, tinha a intensidade aproximada de 50 g, e fazia-se sentir
apesar dos fortes absorvedores.
Nas telas começou a piscar uma imagem
difusa. A imensa Stardust-III fora reduzida à imobilidade total em questão de
segundos. Os propulsores ainda em funcionamento iluminavam um objeto meio
energético, meio material, que se curvava para os lados, a perder de vista.
Rhodan desligou as máquinas. Gorgolejando
baixinho, elas foram parando. Alguns dos aparelhos mais delicados tinham sido
destroçados pelo impacto. O sistema de comunicação verbal estava parcialmente
avariado.
A gigantesca massa esférica afundara
bastante num corpo aparentemente pouco consistente, contra o qual se
precipitara com violento impacto.
Passado o primeiro susto, Rhodan disse,
com voz afogada:
— Engulo o velho general Pounder com
uniforme e tudo, se me provarem que alguma vez fiz aterrizagem semelhante a
esta! Puxa, onde já se viu isso! E agora, o que virá?
A resposta lhe chegou com o nascer de um
luminoso sol, muito acima deles. O brilho se intensificava rapidamente, até
ofuscar os olhos. Abaixo, muito distante, vislumbrava-se irreal paisagem. Mas
não era nela que tinham pousado, absolutamente.
A Stardust-III mais parecia um projétil
entalado numa cúpula transparente que era ao mesmo tempo macia e firme.
Depois ouviu-se a homérica gargalhada.
Alguém extravasava tão ruidosamente sua alegria que as cabeças dos homens
pareciam querer estourar. No entanto, era apenas no subconsciente que escutavam
aquilo. Evidentemente era uma poderosíssima transmissão telepática.
— Alô, velho amigo! — disse Rhodan pela
terceira vez, entre as gargalhadas que agora se transformavam em gritaria. —
Chegamos, não é?
O som emudeceu abruptamente. A
Stardust-III começou a cair, cada vez mais depressa. Quando se manifestaram os
primeiros ruídos de atrito com a atmosfera, o campo antigravitacional foi
automaticamente ligado.
A dez quilômetros de altura da superfície,
um leve empurrão dos propulsores fez a nave parar.
Todos fitavam fascinados as telas de
imagem. O que viam lá embaixo não tinha a menor semelhança com um planeta
normal, com a habitual forma esférica e pólos achatados. Era algo
monstruosamente feio, peculiar na construção, e da maior genialidade. Ele, o
imortal, tinha construído seu mundo a seu gosto!
A cena era ao mesmo tempo irreal,
impressionante e tranqüilizante. Caso fosse de fato o mundo da vida eterna, bem
merecia o apelido.
— Meu Deus! — exclamou Rhodan, abalado. —
Com esta eu não contava! A coisa toda não passa de uma placa chata desprovida
de horizonte, recheada de mares, florestas, cadeias de montanhas e sertões.
Como se fosse uma bandeja redonda recoberta por uma cúpula de energia
protetora. Quem se aproxima por baixo, vê apenas um vulto descomunal e
indefinido, sem luz nem vegetação. É mesmo uma bandeja, mas de proporções
imensas. Um mundo a cujo fim se pode chegar em qualquer ponto, pois falta-lhe o
arredondamento. A gente vai topar de cara com o anteparo energético que o
separa do espaço vazio. Uma plataforma redonda coberta, nada mais. Será que
enlouqueci, ou já estamos todos mais do que mortos?
Rhodan voltou-se. As fisionomias dos
homens apresentavam a brancura da cal. Gucky continuava choramingando. Ele, o
imortal, não ria mais.
Cerca de dois minutos após o rompimento
inesperadamente fácil da mais potente cúpula artificial jamais vista, a parede
energética até então transparente começou a se tornar opaca. Primeiro tomou o
aspecto de água turva, depois ficou leitosa e, por fim, firme e impenetrável ao
olhar.
Ainda antes que Rhodan se decidisse a
realizar um vôo exploratório, parte do estranho firmamento enegrecera,
mostrando inúmeras estrelas. Não se via entre elas nenhuma constelação
conhecida. O cenário estelar exibido na face interna da cúpula energética, a
uma distância imensa, não fazia parte das constelações da Via-Láctea. Era de
uma galáxia inteiramente alheia, que permitia tirar conclusões acerca da origem
do misterioso ser.
Só sabiam referir-se ao desconhecido como ele ou aquilo. Com aquela fatia de terra, debaixo de uma cúpula
energética, flutuando no espaço, criara seu próprio mundo privado artificial,
num impressionante paralelo com as limitadas concepções dos antigos cientistas
terrestres. Também então se julgava que a Terra fosse uma superfície plana,
vogando sobre água, debaixo da abóbada do céu.
A primeira reação de Rhodan foi se dedicar
à complicada programação do cérebro positrônico. Estava interessado em saber se
existiria alguma correlação daquele mundo artificial, e as primitivas teorias
astronômicas terrestres. O fato de a Terra ocupar exatamente um dos focos da
órbita percorrida pelo planeta artificial Peregrino acentuava ainda mais seu interesse
em examinar o problema.
Enquanto o cérebro positrônico analisava a
problemática aparentemente insolúvel que lhe fora apresentada, os tripulantes
da Stardust-III se viam a braços com difícil decisão.
Amparada pela ação neutralizadora de seus
campos antigravitacionais, a nave flutuava a dez quilômetros da superfície. A
paisagem irreal, que logo abaixo da nave apresentava o aspecto de um parque
ajardinado, propunha-lhes charadas sem conta. Sua mera existência representava
tremenda sobrecarga mental.
Rhodan voltara ao assento de controle
trazendo os resultados da avaliação automática. A Stardust-III estava pronta
para a luta, com cada homem em seu posto. Através do sistema de comunicação
audiovisual, Rhodan convocara uma discussão da situação, com a participação de
todos, dentro de cinco minutos. Quando se postou diante da objetiva, sua efígie
foi levada a todas as dependências. Com voz calma e autoritária, disse:
— Fala o comandante! — Bell constatou
imediatamente que ele deixara de lado qualquer entonação mais cordial. Naquele
momento, era apenas o chefe exigente e inflexível. — Quero deixar bem claro que
os cálculos relativos ao salto de Vega até aqui estão absolutamente corretas.
Este mundo é de natureza artificial. Portanto, deve estar equipado com estupenda
maquinaria, destinada a suprir praticamente tudo aquilo que ocorre por si mesmo
em planetas naturais; desde o calor necessário, até a pilotagem. Tenham isso
claramente em vista. Se ocorrerem fatos incomuns por aqui, ninguém deverá
encará-los como coisa natural.
Consultou brevemente as anotações.
— O planeta artificial Peregrino é, a
rigor, uma gigantesca estação espacial completamente auto-suficiente. Os rastreadores
avaliaram em cerca de seiscentos quilômetros a espessura da faixa de terra que
vemos, na parte central. A densidade é elevada, e não existe minério natural.
Provavelmente a placa consta de micromatéria colhida no espaço. Apesar disso,
originou-se em princípio de forma idêntica à dos planetas naturais. Mas
gostaria que ninguém me perguntasse como é que ele fez isso! A placa é imensa;
mede bem oito mil quilômetros de diâmetro; portanto, temos aos nossos pés um
território de respeitável extensão. Isso explica os mares e montanhas que vêem.
O tempo é controlado artificialmente, assim como a atmosfera contida pela
cúpula energética. A gravidade, regularmente igual em toda a parte, é de 0,96 g,
e parece ser produzida por máquinas; apesar da massa bastante volumosa já gerar
determinada gravidade por si mesma. Foi concebido aqui um mundo que deve contar
com titânicos propulsores. Foi provado que ele transitava em torno de Vega, há
cerca de dez mil anos terrestres. Depois ausentou-se do sistema, assim como nós
pudemos sair dele numa pequena nave espacial. Façanha notável, diria eu!
Rhodan calou-se por um momento, escutando
a respiração ansiosa dos homens.
Um leve sorriso acentuou ainda mais as
finas linhas em torno de seus olhos.
— Façanha notável, sem dúvida! O ar é
respirável para nós. Sobrevoando este mundo, poderíamos ser comparados a uma
mosca presa debaixo da cúpula hermeticamente vedada que protege um pedaço de
queijo. Mas, nem por isso, o ambiente fede, se é isso que sua risada sugere,
capitão Klein.
Klein estremeceu. Seu pigarro contrafeito
ajudou a dissipar a tensão evidente nas fisionomias dos tripulantes atentos.
— É óbvio que alguém, possuidor de
tremendo potencial tecnológico, construiu aqui um mundo no qual erigiu, plantou
ou importou tudo que lhe parecesse particularmente belo, precioso ou valioso...
ou mesmo engraçado. Só não quero que se julguem diante de Deus em pessoa, pois
isto seria sacrilégio dos grandes. Lidamos com um ser vivo cuja técnica,
conhecimentos e cultura devem datar de milhões de anos. Solucionou quase todos
os segredos da natureza, mas apenas sob o aspecto científico. Supostos milagres
nunca passam de processos infinitamente complexos, controlados por gente.
Portanto, não se deixem assombrar. Concluindo, mais um comentário...
Rhodan fez uma pausa estratégica,
prosseguindo muito sério:
— É óbvio que jamais poderíamos ter penetrado
na cúpula energética deste mundo artificial sem a aquiescência do imortal. Ele
concordou com nossa entrada; logo, resolvemos satisfatoriamente as tarefas
apresentadas. Com isso, fomos admitidos praticamente em seu covil privado.
Lembrem-se da irracional gargalhada, transmitida com toda a probabilidade por
meio de telepatia. Diante de seus imensos conhecimentos, os próprios arcônidas
não passam de toscos aprendizes. Diferença mais ou menos semelhante à que
existiria entre nós e homens da Idade da Pedra. Pensem nisso, e acreditem
incondicionalmente em suas boas intenções. Porém não creiam que nos safamos dos
perigos contornados apenas por competência própria. Ele cessava o ataque assim
que percebia termos encontrado boas soluções para a defesa. Jamais se deve
exigir de um examinando tarefas superiores a sua capacidade. Pode-se levá-lo à
beira do desespero, mas aí a gente pára. Foi o que aconteceu conosco. Portanto,
em princípio, a situação é bastante favorável. Este é o mundo cujos habitantes,
segundo dizem antiqüíssimas tradições, conhecem o segredo da conservação
biológica das células. Quem nutria dúvidas sobre sua existência deveria
rememorar os incríveis acontecimentos que vivemos. O ser capaz de tais
realizações deve também conhecer a fundo os mistérios da vida orgânica.
Portanto, as antigas tradições falam a verdade; só que na realidade há
acentuadas diferenças. Estamos diante de alguém disposto a nos aceitar daqui
por diante. Major Deringhouse!
O homem chamado virou a cabeça, fitando a
ampla tela onde o rosto de Rhodan se destacava sob a aba do quepe. Um rosto que
se tornara magro e anguloso.
— Recusado seu pedido para um vôo
exploratório com os caças. Só a bordo da nave estaremos razoavelmente seguros.
A tripulação continuará em prontidão de combate. Muito me admiraria se não
surgissem novas surpresas. É tudo. Obrigado.
Rhodan cortou a comunicação. Instantes
após, a nave de guerra acelerava.
— Casa de máquinas ao comandante! —
gritaram os alto-falantes, enquanto a face de Garand surgiu nas telas. — Todas
as estações de força em marcha lenta. Peço que sancione a decisão tomada.
Rhodan limitou-se a um curto aceno.
Podia-se confiar em Garand.
Com a moderada velocidade de 1.500 km/h, a
Stardust-III percorria o estranho céu. À sua frente, a grande altura, ardia um
sol amarelo-esbranquiçado, de natureza evidentemente artificial. Devia ser
mantido no lugar e movimentado por potentes campos de força.
Daquela altura de dez quilômetros, até a
olho nu se tinha visão quase ilimitada. Como a superfície plana não possuísse
horizonte no sentido usual da palavra, devido à ausência de curvatura, o olhar
era limitado apenas por eventuais obstáculos interpostos em sua trajetória.
Crest atarefava-se com a elaboração de um
mapa rudimentar. O aparelhamento fotogramétrico funcionava sem parar. Rastreadores
mais rápidos do que a luz captavam os impulsos refletidos que percorriam
incessantemente a superfície plana, registrando com incrível rapidez toda e
qualquer irregularidade do solo. Só muito além da atual posição da nave os
impulsos eram refletidos pela cúpula energética que barrava seu percurso. Dali,
ela se erguia quase perpendicularmente para o alto. Desta maneira, era possível
avaliar com exatidão distâncias e dimensões.
Sentado diante dos controles principais,
Rhodan debruçava-se para a frente, observando as assombrosas cenas transmitidas
pelas amplas telas panorâmicas.
Os mutantes agrupavam-se por trás da
poltrona. Desde que a nave atravessara a parede energética, o localizador
Tanaka Seiko superara o acesso de fúria. Agora dormia o sono da exaustão.
— Percebem algo? — indagou Rhodan, sem se
virar.
John Marshall, Betty Toufry e Ishi Matsu
menearam indecisamente a cabeça, até a menina dizer, intimidada:
— Um murmúrio, talvez... Muito leve e
suave. Mas não consigo captá-lo com clareza. Quantas pessoas deveriam existir
aqui? Elas pensam bem e depressa?
Rhodan riu secamente.
— Quem me dera poder lhe dizer isso! Pouco
importa quem exista aqui. Só sei que aquilo
pensa mais do que bem, e mais do que depressa.
— Aquilo? — sussurrou Betty, com os
profundos olhos escuros velados.
— Um aquilo
só? Não muitos aquilo? Estou me
explicando bem?
— Sim, acho que entendi. Você quer dizer que
existem diversas pessoas por aqui?
— Parece que sim. O murmúrio é tão
estranho. Como de muitos milhões de pessoas conversando juntas.
Bell disfarçou sua perturbação tossindo.
Com um olhar inseguro percorreu o Exército de Mutantes.
— Estou começando a ficar arrepiado —
confessou ele, com um mal sucedido arremedo de sorriso. — Que diabo! Nada por
aqui parece ser tangível ou real. A paisagem ajardinada lá embaixo bem podia
ser um parque na velha Inglaterra. John, não dá para captar onda de pensamento alguma?
O rosto alongado de Marshall estremecia
sob o esforço mental. Ofegando pesadamente, desistiu.
— Não adianta, não consigo impressões
nítidas. Se existe mesmo alguém aqui, é imune a influências telepáticas. Eu
também só consigo ouvir murmúrios surdos e inarticulados.
A frágil japonesa Ishi Matsu concordou,
pressurosa:
— Certo. Nem eu pude fazer contato.
Rhodan não fez qualquer comentário.
Um sombrio pressentimento nascia em seu
íntimo, aumentando de segundo em segundo.
Muito além, imensas montanhas se elevavam
para o céu.
— Meu Deus, neve! — gemeu Nyssen, que
cuidava dos rastreadores de matéria. — Neve, imaginem só! O pico mais alto
acusou mais de sete mil metros nos registradores. Como será que ele fez isso?
— E não se vê gente em parte alguma. Um
mundo fabuloso e deserto...
O comentário era de Bell. Rhodan enrugou a
testa, surpreso. Seu normalmente equilibrado substituto parecia percorrer de
ponta a ponta a escala dos sentimentos.
Sobrevoaram os picos nevados da gigantesca
cordilheira. Nos profundos vales vislumbravam-se frondosas florestas tropicais.
Até vulcões havia. Junto a eles, paredões a pique de rochas nuas se erguiam no
ar. Aquele mundo parecia ter sido criado num ligeiro estado de embriaguez.
Mesmo assim, sua construção devia ter exigido tremendo potencial técnico.
Seres ignorados tinham feito verdadeiros
malabarismos com as forças elementares da natureza. A vegetação avistada
parecia ter provindo dos mais diversos mundos espalhados pela galáxia. De
formas tão variadas, às vezes até absurdas, não podiam ter sido importadas de
um só corpo celeste.
O Peregrino assemelhava-se, aliás, a um
varejo galático dos mais bem sortidos. Quando as telas mostraram os primeiros
seres alados, verificou-se que eram tão contraditórios quanto a viçosa flora.
Gigantes pré-históricos cambaleavam pelo ar em asas trôpegas, com poderosos
bicos entreabertos em atitude agressiva. Só poderiam ter vindo de algum planeta
ainda em fase de desenvolvimento. Em Vênus existiam répteis alados daquele
tipo.
No entanto, os ampliadores óticos traziam
a imagem de pássaros de plumagem delicada, de formas totalmente desconhecidas.
Freqüentemente eram caçados por criaturas de quatro asas, parecidas com cobras.
O pessoal não se cansava de olhar. Era o
mais vasto zoológico de todos os tempos, verdadeiramente imenso. Ali, ele colecionara
caprichosamente tudo que os outros planetas possuíam de encantador e
interessante. Uma exposição galáctica de seres animais inacreditavelmente
diversificados.
Após ultrapassar a cordilheira, apareceu
repentinamente um oceano; nitidamente delineado, como uma linha traçada a
régua. Rhodan mal acreditava em seus olhos quando viu a Stardust-III voar de
repente sobre espessas camadas de nuvens. Os rastreadores revelavam que abaixo
delas havia um mar revolto, cujas ondas violento furacão transformava em
espuma.
— Vou desligar os circuitos, senão minha
cuca funde! — disse Bell, roucamente. — Para mim chega! Olhe só para aquilo!
Uma floresta virgem como nem em Vênus há igual. Homem, que matagal assombroso!
Rhodan reprimiu um gemido. Há muito tempo
reinava silêncio absoluto dentro da nave. Os homens se agrupavam fascinados
diante das telas.
O furacão parecia rugir apenas sobre o
oceano, cessando bruscamente no limiar da floresta. Em troca, os rastreadores
indicavam um calor de estufa. Surgiram extensos pântanos, onde plantas azuis,
verdes, alaranjadas e roxas competiam pela luz de um brilhante sol artificial.
— Lindo! Lindo de tirar o fôlego! —
sussurrou Anne Sloane. — Seja quem for que organizou isto, deve ser ao mesmo
tempo botânico, zoólogo, tecnólogo e sei lá o que mais. Quanto tempo terá gasto
para trazer para cá todas estas sementes e animais? Isso tudo não pode ter se
originado espontaneamente.
— Claro que não — confirmou Rhodan,
baixinho. Sentia-se profundamente perturbado. — De maneira nenhuma, Anne.
Primeiro, construíram a imensa plataforma de terra. A seguir, em astronaves
mais rápidas do que a luz, foram visitados inúmeros planetas, de onde foi
trazido tudo que vive e cresce aqui. Não pode ter sido de outro modo. Alguém
construiu isto sob medida, segundo suas preferências. Não sei expressá-lo de
outra maneira, sob pena de incorrer involuntariamente em blasfêmia. Ele é
arquiteto e jardineiro-mestre do cosmo. Isto aqui não foi criado, e sim
construído. Uma ligeira diferença, segundo me parece.
Anne riu com um tom de histeria na voz, ao
sentir a nave estremecer. Simultaneamente ouviu-se um berro de pavor através
dos alto-falantes.
Rhodan girou bruscamente sua poltrona. Ao
lado, na vasta central de localização, devassada pela parede transparente,
surgira de repente um monstro. Rhodan viu Deringhouse sair correndo em pânico.
Os radiolocalizadores de plantão abandonaram precipitadamente seus postos, a
fim de esquivarem-se dos tentáculos.
O monstro era uma fumegante e viscosa
massa esférica de quase dez metros de diâmetro, com olhos esbugalhados e bico
escancarado de ave. Seus tentáculos serpenteavam pelo ar, tateando em torno.
Qualquer objeto tocado era furiosamente arrancado do lugar e premido contra o
corpo gelatinoso, dentro do qual desaparecia.
O berreiro dos homens era ensurdecedor.
Sem uma palavra, Rhodan precipitou-se para a comporta aberta da central de
localização.
— O transmissor de objetiva! — gritou
alguém atrás dele. — Foi ele que nos jogou este bicho aqui dentro!
Deringhouse acabava de sacar a arma do
cinto quando o pesado monstro foi erguido do chão. Repelente odor de
excrementos e podridão atingiu as narinas de Rhodan, porém o animal prosseguia
sua ascensão para o teto abobadado, onde grudou, estatelado.
“Gucky!”,
pensou Rhodan, antes de apontar a pistola de impulsos para cima. Um ronco surdo
sobrepujou os clamores dos homens. O raio térmico aberto em leque varreu o
organismo gelatinoso, causando-lhe devastadora destruição.
Bell apareceu trazendo um pesado desintegrador,
cuja ação transformou o monstro em inofensivos gases. Inevitavelmente, parte do
teto desapareceu igualmente. Instantes após, os derradeiros restos da estranha
criatura se espalhavam por sobre os instrumentos.
Semi-asfixiados por acessos de tosse, os
homens abandonaram o recinto. Betty Toufry fechou com um empurrão a porta
blindada. O climatizador automático começou a aspirar os acres vapores e gases.
No teto via-se um trecho em brasa viva. O breve tiro energético de Rhodan não
atingira apenas o animal.
Deringhouse contorcia-se em agonizante
crise de tosse. Muito pálido, olhou para a poltrona que ocupava ainda há pouco.
— Calma a bordo! — berrou Rhodan no
microfone. — Calma, o caso já está resolvido. Eu não avisei que viriam
surpresas? Garanto que o bicho foi introduzido aqui por intermédio de um
transmissor de objetiva. Klein, cuide da limpeza da central de localização. Os
restos do bicho têm que ser eliminados. Convoque um grupo de robôs.
Um dos radiolocalizadores desmaiou,
gemendo. Sob a manga despedaçada do uniforme aparecia carne esponjosa. Rhodan
apressou-se a ampará-lo. O Dr. Haggard empurrou para o lado os homens
agrupados, de armas apontadas; com seu físico avantajado, não foi difícil
chegar até o ferido.
— A fera encostou nele com o bico —
explicou um dos homens, pressuroso. — Eu vi. Será que estava envenenado?
O Dr. Haggard fez rápido e atento exame.
Seu rosto expressava preocupação.
Dois companheiros carregaram o homem
inconsciente até o elevador principal. A sala dos localizadores foi invadida
por diligentes robôs. O cérebro positrônico, que se encarregara da pilotagem da
nave, já fora informado. Os vestígios do monstro foram afastados.
Em silêncio, Rhodan encaminhou-se para o
dispensador automático de bebidas. Preferiu não dar ouvido às acirradas
discussões. Num mundo daqueles, os homens estavam sujeitos a rudes provações.
— Que brincadeira besta! — resmungava o
comandante, consigo mesmo, com o olhar ausente preso ao revestimento de
plástico verde-pálido do autômato.
— Que foi? — indagou Bell.
— Nada... Que é que anda acontecendo na
superfície?
Antes que Bell pudesse responder, chegou
uma mensagem da cúpula situada no pólo superior da nave. No setor verde tinham
sido avistados os arranha-céus de uma imensa cidade. Ela ainda se encontrava a
três mil quilômetros de distância.
Rhodan lançou um olhar à central de
localização. Os vapores ácidos já tinham sido substituídos por ar fresco; os
homens em serviço foram entrando com ar desconfiado. No lugar em que o monstro
desabara havia cacos por todo o lado.
Deringhouse praguejava escandalosamente.
Por fim rosnou:
— Bem que eu gostaria de saber de onde
saiu aquele bicho! Crest, viu alguma vez coisa semelhante? Uma verdadeira
montanha de pudim.
O cientista arcônida sacudiu a cabeça.
Andava estranhamente calado desde a penetração do envoltório energético. Apenas
seus olhos vermelhos brilhavam mais do que o comum.
Aquele era o mundo por cujos segredos se
aventurara ao espaço, há anos. Atingira, finalmente, o alvo de seus ardentes
desejos. Seu corpo, e com ele seu cérebro, seriam conservados. Para o Grande
Império, era de vital importância ter no Conselho Central pelo menos uma mente
sã e ativa, entre tanta degeneração e decadência.
O arcônida olhava as telas com um ar que
traduzia quase veneração. Ele era o representante de uma raça votada ao
desaparecimento; uma raça que iniciara há vinte mil anos terrestres a conquista
do espaço e a organização de um império interestelar.
Ele, Crest, é quem tinha direito ao
privilégio da conservação biológica celular!
A cidade ocupava extenso planalto, à
margem de um caudaloso rio. Logo além dos edifícios, ele se precipitava da
beira do platô rochoso para o mar azul e profundo. Diante daquela queda d’água,
as Cataratas do Niágara eram um simples riacho. As rochas alcantiladas, de
conformações bizarras, não poderiam ter sido dispostas daquela maneira
deliberadamente. A água as desgastara e polira num processo natural.
Nada demonstraria com mais clareza a
antigüidade do planeta artificial. Devia ser mais antigo do que a Humanidade,
talvez mais do que a Terra.
A massa líquida caía de altura superior a
oitocentos metros. No litoral oposto do mar com cerca de mil quilômetros de
largura, havia outra cidade. Os ampliadores óticos traziam imagens de barcos a
vela, feitos de madeira. Eram tripulados por entes bípedes, de pele córnea.
Ao planar com a Stardust-III sobre a
cidade de construção primitiva, Rhodan percebeu que ninguém prestava a menor
atenção ao gigante esférico. Os desconhecidos seres vivos lá embaixo
prosseguiam imperturbáveis em sua atividade, aparentemente muito normal.
Portanto, Rhodan seguiu adiante.
Ao sul da cidade suntuosa surgiram vastas
pradarias. Os fatos que ocorriam nela provocaram o choque final nos homens.
O contorno das montanhas Black Hills, nos
Estados Unidos, era inconfundível. Tão pouco podiam se enganar quanto aos
peles-vermelhas; no momento em que estavam sendo captados pelas telas, travavam
sangrenta luta com caras-pálidas barbudos.
A micro-sintonização trazia o espocar
surdo de armas de grosso calibre.
Aquilo fora demais. Rhodan aterrizou bem
no meio do furioso tumulto. Um oficial com a farda azul-marinho da cavalaria precipitou-se
contra a Stardust-III, brandindo seu sabre. Montava um esplêndido cavalo negro.
Rhodan divisou nitidamente a boca escura de um colt, modelo 1.867, apontado
para seu peito.
A cena toda se dissolveu em instantes
quando Bell atirou no cavalo. Era tudo ilusão; uma miragem tão real que os
homens do grupo de desembarque custaram a recuperar a cor natural dos rostos
lívidos.
Pensaram em decolar novamente, certos de
que os desconhecidos tripulantes dos veleiros também não passavam de ilusão dos
sentidos.
O tenente Everson resolveu examinar o
lugar onde o cavaleiro galopara pela pradaria. Instantes após foi preciso
aplicar uma injeção tranqüilizante no homem, que berrava alucinadamente. No
meio do capim crescido ele achara algo que não era, de forma nenhuma, ilusão.
Rhodan fizera a nave subir como se
estivesse em fuga.
Agora se encontrava na pequena dependência
junto à central. Suas mãos crispadas repousavam sobre uma mesinha basculante;
ao lado do copo de café via-se o objeto encontrado por Everson: um revólver
colt autêntico, fabricado em 1.867. O tambor em perfeito estado de conservação,
sem a menor mancha de ferrugem, continha seis balas calibre 45. As pontas
rombudas dos projéteis de chumbo apresentavam entalhes em forma de cruz, o que
produziria certamente violenta deformação da bala por ocasião do impacto. O
cano media seis polegadas. O exame das ranhuras deste e do material de que era
feita a arma demonstrou que fora fabricada na segunda metade do século XIX, com
os recursos então disponíveis.
Everson ocupava o outro lado da mesa.
Muito pálido, não desgrudava os olhos do revólver.
— Meu pai tinha um assim — gemeu ele. —
Meu Deus, de onde será que veio esta velharia? De onde? Isso tudo é loucura,
chefe. Eu acabo biruta... Se toda aquela cena era uma miragem, como é que podia
ter um colt de verdade caído no
capim? Conheço bem este tipo de pau-de-fogo. Já atirei muito com um modelo
igual. Tudo nele é certinho e autêntico. Olhe só o ejetor!
Rhodan descontraiu-se. Everson estava prestes
a sofrer um colapso nervoso, sem a menor dúvida. O comandante refletiu por
alguns momentos. Depois extraiu uma bala do tambor.
— Munição Winchester, fogo central —
explicou Everson, afobado. — O modelo é legítimo, creia-me, chefe. Conheço muito
bem isso; matei meu primeiro coiote com um igual.
— Interessante, porém irrelevante — disse
Rhodan.
Muito sério, fitou o círculo de homens.
— Já devem ter percebido que estamos sendo
submetidos a uma derradeira prova. Isto aqui — e apontou para o colt — faz parte da guerra de nervos em
andamento. Atentem só para Everson: vejam a que ficou reduzida a fleuma
personificada, o homem que não se abala com nada. A providência da arma pouco
importa. Klein, já verificou entre o pessoal se alguém andava com um canhão de
bolso destes por esporte?
— Ninguém, chefe — afirmou Klein,
depressa.
— Muito bem. Portanto, ele usou mais uma
vez seus incríveis recursos. Há pouco nos fez presenciar a batalha de Custer em
Black Hills, fato que ocorreu realmente. Quem sabe se as facções em luta não
foram removidas por alguns instantes para plano temporal inteiramente diverso? Fato
que nenhum compêndio de história menciona.... Seja como for, o colt está em nossas mãos. O cano
chamuscado prova que atiraram com ele. Não se deixem impressionar mais, e se
conservem calmos. O páreo daqui para a frente vai ser duro.
— Mas a arma estava jogada na grama! —
argumentou Everson, sussurrando.
— Claro que estava. Você sabe muito bem
que ele domina a viagem no tempo. Testemunhamos isto pessoalmente. De alguma
maneira ele arranjou este espirrador de balas no passado terrestre. Não quebrem
a cabeça tentando descobrir como. Nem eu sei. Mas percebo agora que ele tem
boas informações acerca de nosso mundo natal; senão, como saberia que
reagiríamos tão intensamente a uma boa briga em estilo faroeste! Isso foi
deliberado! Quer nos desmoralizar. Pescou a idéia, Everson?
O corpulento oficial ficou pensativo de
repente.
— Ao diabo com aquilo — resmungou,
irritado. — Quase me põe louco.
Rhodan sorriu inexpressivamente. Depois
enfiou o colt no largo cinto do
uniforme.
— Permite, não é, Everson? Não tem mais de
seis balas, mesmo. Mas poderia mandar fundir algumas, caso tenha vontade.
Rhodan fez uma rápida continência. Não fez
mais comentário algum sobre o assunto ao ver que seus homens se descontraíam;
retornavam ao normal.
Dez minutos depois, a nave pousava pela
segunda vez no chão daquele mundo artificial, num campo circular com mais de
dois quilômetros de diâmetro, amplo bastante para acomodar confortavelmente a
Stardust-III. Com as longas patas de aterrizagem estendidas, ela se erguia a
mais de oitocentos metros de altura.
No entanto, a torre fincada à margem do
campo ultrapassava-a em bem quinhentos metros! Delgada e aparentemente frágil,
ela apontava para a cúpula energética, que ali se apresentava sob o aspecto de
um céu azul, enganadoramente autêntico, com ligeiras nuvens.
Os propulsores emudeceram após o longo
vôo. Lá fora, tudo era silêncio e calma. Não se viam nem animais, nem seres de
aparência humana. A paz e tranqüilidade eram totais; mas se tratava de uma
calma mecânica. O onipresente zumbido não podia ser chamado de barulho. Parecia
tão integrado àquele mundo quanto suas maravilhas técnicas.
Rhodan ainda permaneceu sentado por alguns
momentos, observando as telas de imagem. A reprodução era nítida, colorida e
brilhante.
A ampla praça devia representar o centro
da cidade mecânica. Nela, o construtor desconhecido parecia ter levantado os
edifícios mais importantes. Estruturas de metal, de ousada concepção arquitetônica,
brotavam lisas, limpas e inteiriças do chão igualmente refulgindo em tons
metálicos.
A forma predominante era a cúpula, com
extensões em balanço livre. Mas havia também prédios retangulares e
cilíndricos. O todo era harmonioso e bem combinado.
Com gesto cansado, Rhodan tirou o
capacete, substituindo-o pelo quepe, mais leve. Com ligeiro zumbido, a poltrona
giratória virou para o lado. Os homens distribuíam-se pela central. Os
intercomunicadores calados. Não se escutava palavra na nave.
— Chegamos ao ponto final da grande viagem
— disse Rhodan, baixinho. — Alguém está à nossa espera; ele ou aquilo.
Provavelmente jamais saberemos ao certo de que se trata. Algo ou alguém que
vive mais do que o sol. Pois bem, Crest, sinto-me feliz por tê-lo trazido enfim
ao alvo de seus sonhos. Desembarquemos. Ou agora ainda se recusa a prosseguir,
também?
O arcônida envergara o traje de sua
pátria. A ampla túnica roxa, com os cintilantes símbolos sobre o peito,
caracterizava os membros da dinastia reinante de Árcon.
— Claro que não! — replicou ele,
comedidamente. — Acompanha-me?
Rhodan levantou da poltrona. Alto, magro,
pessimamente barbeado e com o uniforme um tanto sujo, defrontou-se com o
representante de uma raça a quem a Humanidade muito devia. Pois, se Crest não
tivesse sido forçado a aterrizar na Lua durante sua busca a este mundo
artificial, a Humanidade talvez ainda tivesse que esperar durante alguns
séculos pelas viagens espaciais mais velozes do que a luz.
Rhodan não era pessoa de esquecer os benefícios
recebidos. Vagarosamente afastou da testa os cabelos empapados de suor. Seus
olhos eram irônicos quando reclamou:
— Rapazes, vocês até parecem uns
marginais. Quando foi mesmo que nos lavamos pela última vez? Nem sei se, desde
a rápida decolagem de Ferrol, vi um chuveiro de perto.
Suspirando, Bell esfregou as mãos na
farda.
— Mas minha arma está razoavelmente limpa —
resmungou ele. — Que diabo, quando é que esta inferneira nos deu uma folga para
tomar banho?
— Ora, você é que não chamará a atenção,
Bell — interrompeu Thora, sarcasticamente. — Já me habituei a colocar
microfiltros odoríferos nas narinas quando me encontro em sua presença.
Processo adotado por arcônidas de alta linhagem quando pisam planetas
subdesenvolvidos, com habitantes bárbaros.
Bell irrompeu instantaneamente numa série
de xingamentos. Rhodan observava disfarçadamente a fascinante mulher. E então
Thora teve um procedimento inédito nela: começou a rir sonoramente.
Bell parou no meio da frase. Seus olhos
pareciam querer saltar das órbitas.
— Ainda mais essa! — gemeu, arrasado. — A
fera sabe rir! Incrível!
Rhodan teve a impressão de que Thora acabava
de alijar a arrogância condicionada por sua raça e educação. Pensativamente
alisou com o dorso da mão a barba crescida. O quepe amassado, com o emblema da
Terceira Potência, equilibrava-se torto sobre a cabeça.
— Muito bem, então vamos lá! — decidiu
ele. — Bell, organize o grupo de desembarque. Gucky e Marshall, vocês vêm
junto. Os demais mutantes seguirão no segundo carro. Nyssen, assuma o comando da
Stardust-III durante minha ausência. Mas de modo algum tente decolar caso
suceda algo; nunca alcançaria o espaço aberto. A prontidão de combate continua valendo.
Mantenha-se alerta, mas não cometa tolices. Certo? Mais alguma pergunta?
— Não, nenhuma pergunta mais!
Bell desapareceu, com um olhar furioso para
Thora. Altivamente ereta, com o branco e imaculado uniforme de comandante de um
pesado vaso de guerra, ela aguardava ao lado do cientista-chefe de sua
fracassada expedição de pesquisa. O manto violeta indicava que pertencia
igualmente à dinastia reinante de Árcon.
No ventre da nave, as comportas internas
dos compartimentos de carga deslizaram para os lados. Pés palmilhavam extensos
corredores. O grupo de desembarque constava de vinte elementos selecionados,
sob o comando pessoal de Rhodan.
Bell deteve o primeiro veículo de múltiplo
uso; os três seguintes pararam igualmente.
Os homens não tinham palavras; apenas
olhos.... A cobertura abobadada dos veículos fora recolhida. O ar era
agradável, ameno e extremamente puro. O sol atômico artificial aquecia
bastante.
Mas não foi isso que provocou as pragas de
Bell.
Seria muito esquisito servir tomates
podres em pratos de ouro. Ainda mais esquisito era o indivíduo imundo
repentinamente surgido do nada; escarrando repetidamente no chão, postara-se em
atitude provocante diante do primeiro carro.
Rhodan sorria de orelha a orelha. Chegara
a um ponto no qual começava a se divertir com tudo aquilo. Claro que a aparição
era mais um dos truques do imortal. Nem podia ser outra coisa! Ele devia ter
ataques de riso diante das fisionomias atônitas ou apavoradas dos visitantes da
Terra.
Rhodan desembarcou vagarosamente. O
indivíduo tornou a cuspir, exibindo na face balofa dentes gastos e enegrecidos.
Enganchara os polegares na cartucheira, da qual pendiam dois pesados colts, de calibre 45. A calça de couro
manchada estava enfiada em botas que lhe alcançavam os joelhos, com afiadas
esporas e saltos altos. Enfim, a aparição tinha o aspecto típico de um
autêntico bandido de faroeste, daqueles que Rhodan costumava ver em filmes
quando menino.
Ele possuía, evidentemente, senso de
humor. E talvez achasse que poderia pregar um bom susto aos tripulantes da
espaçonave com aquele mal-encarado representante da história do oeste
americano. Conseguiu, efetivamente, seu intento; menos com Rhodan, que reagiu
de maneira diametralmente oposta.
O comandante da Stardust-III foi ao
encontro do vulto de pernas abertas que impedia o caminho. Da gola aberta da
camisa escapavam-se cabelos ruivos, cor de fogo. Rhodan só se espantou ao ver a
face inexpressiva da aparição se animar.
— Olá, cara! — rosnou o indivíduo,
mastigando as palavras ditas com acentuado sotaque sulista. — Tá com fome, tá?
Pois posso te enfiar uma boa dúzia de azeitonas na pança. Duvida?
Rhodan empalideceu. Calado, examinava o
estranho personagem, que tornara a cuspir. Recuou, enojado, ao ver a saliva
grudar-se no bico de seu sapato direito.
Bell gritou qualquer coisa, e Rhodan se
jogou de bruços no chão. O sonoro ronco de um radiador de impulsos se fez
ouvir. A aparição foi envolta por um halo de fogo. Quando os relampejos se
dissiparam, o indivíduo riu sarcasticamente.
— Pensa que tá imaginando, é? Homem, eu
sou de verdade! É eu ou você. Quero engolir o mais sarnento dos índios se
entendo o que se passa; só sei que me disseram que você só pode acabar comigo
em meu tempo. Entende isso?
Rhodan ergueu-se, com rosto sem expressão.
— Adiante, pessoal! — ordenou, secamente.
Depois virou para trás.
Duas estrondosas detonações repercutiram
quase ao mesmo tempo. Junto aos pés de Rhodan, algo espirrou sobre o chão
metálico; a seguir, entre silvos e assobios, disparou para longe, inteiramente
achatado.
Rhodan deteve o passo. Bell atirou
novamente, desta vez com o letal desintegrador. A aparição se limitou a sorrir
mordazmente.
— Só no meu tempo — afirmou. — Mano, é
você ou eu. Foi isso que me disseram. Sou ligeiro e tenho boa pontaria. Tens
que ser melhor. Precisas passar por aquele portão encarnado ali adiante. A
chave está comigo. Se não conseguires tomá-la dentro de meia hora, vais para o
inferno, e eu posso voltar. Os pilantras me garantiram que eu já estive morto
uma vez, baleado por um xerife à toa. Pode ser... Estou com dois furos no
couro.
A camisa imunda foi aberta com um repelão.
Rhodan ficou com os joelhos trôpegos ao descobrir no peito dois orifícios de bala,
lambuzados de sangue coagulado. Que espécie de coisa estaria ele tramando agora?
Dentro dos veículos, os mutantes agiam.
— Está vivo! — gritou Marshall, excitado.
— Cuidado, ele está mesmo vivo!
Gucky endireitou-se no assento. Era
evidente que não conseguia mover telecineticamente a aparição, na certa
imunizada por poderosa influência.
— Acabou-se! — murmurou Crest, abalado. —
É a prova final. Este indivíduo está vivo. Vem de plano temporal diverso, e
está imunizado.
Rhodan examinou os vestígios dos tiros.
Não havia dúvida de que dois projéteis de chumbo tinham atingido o metal duro.
— Mais vinte minutos, e teu tempo acabou —
rosnou o estranho. — Ei, eles disseram que depois eu ia poder viver de novo.
Entende isso, cara?
Rhodan correu de volta para o carro.
Emitiu uma série de ríspidas ordens. Arrancando bruscamente, os veículos
dispararam na direção do portão mencionado. Tratava-se de uma vasta arcada, de
forma assimétrica, protegida por um campo energético de reflexos avermelhados.
Bell travou de repente. Rhodan tornou a
saltar do carro. A aparição se encontrava novamente no caminho.
— Não adianta! — zombou ele, rindo
abusadamente. — Cavalos gozados esses teus, mano.
Um por um, os mutantes de Rhodan
experimentaram suas forças. Em vão; daquela vez haviam atingido os limites de
seu potencial. Abriram fogo com os desintegradores portáteis instalados nos
carros. O portão nem se moveu.
O estranho calava agora. Longe dali,
ouviu-se intenso zumbido. Em torno da Stardust-III, um anel de fogo
branco-azulado brotava do solo.
— Eu não falei que vocês iam para o diabo?
— resmungou o desconhecido vindo do passado da Terra. Agora Rhodan acreditava
verdadeiramente na existência dele. — Três minutos ainda. Só no meu tempo você
vai poder me pegar, mano.
Os homens do grupo de desembarque vigiavam
desconfiados o mal-encarado indivíduo com o peito furado a bala. Ele conseguira
realizar uma proeza impressionante.
Rhodan se dirigiu displicentemente para o
primeiro veículo. A aparição seguia-o com olhares suspeitos. Com um suspiro,
Rhodan recostou-se na porta aberta, cruzou as mãos nas costas e disse
friamente:
— Só em seu tempo, não foi o que disse?
Algo surgiu às costas de Rhodan. Rápido
como o raio, o desconhecido sacou suas armas.
O surdo estrondo de um colt calibre 45 rompeu o silêncio,
espalhando negra nuvem de pólvora. A aparição rodopiou sobre si mesma antes de
desmoronar silenciosamente.
Na mão de Rhodan cintilava a arma achada
por Everson. O fuzilado em tão estranhas circunstâncias evaporou-se. Débil
lamento, parecido a choro reprimido, pairou no ar. Depois tudo acabou.
A cortina energética dissipou-se, e o anel
de fogo em torno da Stardust-III sumiu.
Ofegante, Rhodan recostou-se contra o
carro. A velha arma balançava em seu indicador direito, enganchado no gatilho.
— O instrumento-chave está aí no chão —
disse Rhodan, com voz rouca. — Raios, mexam-se! A aparição era autêntica.
Trazida do século XIX por ele, e envolta num impenetrável anteparo protetor. Só
em seu tempo ela poderia ser derrubada, foi o que disse. O que me fez pensar
neste canhão pré-histórico. Estava jogado no assento do carro, ao meu lado.
Everson, se você não tivesse achado esta metralhadora de bolso na relva...
Rhodan se calou, exausto. O incidente com
o defunto revivido de um passado remoto fora enervante.
Segundos após, o portão se abriu
silenciosamente, sob a ação de um único impulso do instrumento-chave.
— Entrem e sejam bem-vindos! — falou uma voz
profunda. Desta vez, ela era transmitida acusticamente, e não por meio do
subconsciente.
— Alô, velho amigo — disse Rhodan,
acenando com a mão. — A história do colt
foi legal. O senso de humor de sua excelência é mordaz, não é?
Crest estremeceu, aterrado, até tornar a
ouvir a estrondosa e incontrolada gargalhada. Todo o planeta artificial parecia
re-verberar os estridentes guinchos.
Rhodan encostou-se na parede. Sorridente,
perscrutava a imensa sala por trás do portão. Tinham chegado ao alvo!
Aquilo não era gente. Nem sequer era ser
orgânico. Talvez tivesse possuído um corpo algum dia, até que, no decurso de
bilhões de anos, se cansara de carregar consigo o incômodo apêndice. Assim, o
que um dia fora alguém se transformou em aquilo.
No entanto poderia ser visto, caso aquilo
julgasse conveniente.
— O que é aquilo? — perguntara Rhodan.
John Marshall, o potente telepata,
conseguiu entender seu chefe a despeito das inacreditáveis risadas. Durante algum
tempo sondou por entre o cascatear de incessantes gargalhadas; por fim, acabou
entrando em comunicação com Betty Toufry.
Ele, ou então Aquilo, não conseguia se acalmar. Devia achar extraordinariamente
divertido algum fato, ou algum dito de Rhodan.
Marshall acabara berrando nos ouvidos do
comandante:
— Ele
é um todo intricadamente entrelaçado, um ser de vida psíquica própria,
superdimensionado, composto de muitos milhões de psiquismos individuais.
Suponha simplesmente que uma raça inteira despojou-se do invólucro material, a
fim de continuar existindo apenas em espírito. Uma deliberada desistência da
materialidade, após vida inacreditavelmente prolongada, que o organismo
corporificado certamente não teria agüentado por mais tempo. Aquilo continua
sendo Aquilo! Tanto faz ser formado por bilhões de mentes desincorporadas, ou
por uma única. Fica sendo aquilo.
Rhodan levara ambas as mãos à cabeça.
Marshall riu contrafeito ao captar o conteúdo do pensamento do comandante.
“Não,
continuo sendo normal!”, protestara ele, consigo mesmo.
Neste momento, as gargalhadas cessaram
bruscamente. O silêncio dominou o vasto recinto de teto alto, que parecia
inteiramente vazio; apenas algumas máquinas não identificadas se distribuíam cá
e lá.
O grupo de humanos se encontrava a menos
de vinte metros da entrada. Diante deles, um vácuo ligeiramente sugestivo,
tingido de rosa luminoso. Depois o vazio começou a assumir inesperadamente uma
forma. O fenômeno ocorria no ponto exatamente correspondente ao zênite da
elevada cúpula.
Uma luz ofuscante jorrou do alto. Logo
após apareceram vapores flutuantes; girando em espiral concêntrica, eles acabaram
tomando a forma de uma bola.
— Bem-vindos! — disse a voz já ouvida
anteriormente. — Devem achar bastante estranha a forma que escolhi para me
mostrar. Mas já devem ter se habituado à noção de que eu sou estranho.
Ouviu-se um riso suave.
Sem a menor transição, Rhodan se sentiu de
repente só e abandonado. Crest e Thora tinham-se postado na dianteira do grupo
de expectantes terrestres. Orgulhosamente ereto, com a face voltada para o
alto, Crest olhava na direção de onde vinha a voz.
Rhodan continuou a apoiar os dois ombros
contra a fria parede metálica. “Posto de
lado”, pensou, amargurado. “Acabem
logo com essa palhaçada. Tenho mais o que fazer do que ajudar um velhote a
prolongar a vida. Vamos, acabem de uma vez!”
— Aproxime-se, por favor — convidou a voz.
Rhodan empurrou o quepe para a nuca. Seus
olhos tresnoitados e injetados viram que Crest avançava com passo lento e
solene.
— Puxa, dá para morrer de inveja! —
sussurrou Bell. — Será que ele lhe concederá a conservação celular?
— Claro — murmurou Rhodan. — Por que acha
que nos fizeram cumprir tantas tarefas? Aquilo não vai poder faltar com a
palavra dada. Quanto a mim, eu só queria duas coisas: primeiro, saber por que é
que aquilo quer doar seus segredos; em segundo lugar, quero dormir. Só isso.
— Aproxime-se, por favor — repetiu a voz.
Crest olhou em torno, indeciso. Já estava
bem perto da pulsante e impalpável presença, perpetuamente em movimento, na
qual John Marshall acreditava ver os condensados e concentrados impulsos
mentais de inúmeros seres desincorporados.
Rhodan estava saturado de tudo aquilo.
Apontou para a frente com o polegar, displicentemente.
— Ande logo! — gritou, irritado. — O caso
está resolvido. Ou ainda preciso carregar você para debaixo da aparição
luminosa?
Crest estremeceu convulsamente. Arriscou
mais um passo. Depois pôs-se a gritar apavorado. Um poder invisível empurrou-o tão
violentamente que foi lançado ao chão, aos pés de Thora.
— Não foi você que chamei, arcônida, sinto
muito — disse a voz. — Sua raça recebeu uma oportunidade, há um período que
vocês denominam vinte mil anos. Os arcônidas fracassaram. Como representante de
uma espécie em degeneração, você não merece o prolongamento biológico da vida.
Seu tempo esgotou-se.
Crest gritava ainda. Os ombros de Rhodan
foram se afastando da parede; lentamente, como se estivesse sentindo cãibras.
— Hmmmm! — fez Bell, privado de voz.
Deu brusca reviravolta, e Rhodan viu-se
diante de dois olhos escancarados.
— Alô, velho amigo, por que não se
aproxima? — riu alguém. — Eu diria que já nos conhecemos, não concorda?
Rhodan sentiu as pernas tremerem. Os pêlos
da barba crescida se destacavam negros sobre a pele lívida da face.
— Avance, senhor — disse Betty Toufry, em
tom quase reverente. — Era ao senhor que ele se referia, e não ao pobre velho.
Adiante-se...
Os homens do grupo de desembarque
recuaram. Profunda incredulidade se refletia nas fisionomias; porém logo ela se
transformou em louca euforia. Apenas Rhodan ainda não compreendera. Arriscou
alguns passos indecisos.
— Um momento — balbuciou, confuso. — Eu...
Pensei que...
Rhodan sentiu-se suavemente elevado no ar
e transportado para debaixo da radiosa bola. Esta desceu um pouco, até ficar à
altura de seu rosto.
— Então, é assim que ele é — monologou a
voz grave. — Um pequeno e temerário nativo do terceiro mundo de um sistema
pertencente a um sol minúsculo. É esta sua aparência! Um enlevado sonhador,
rigoroso consigo mesmo e com as demais criaturas. E idealista, além do mais!
Sonha com grandes feitos, quer construir... Só que não sabe o que é grande. E,
a fim de atingir seu objetivo, vale-se de mim. Alô, velho amigo!
Rhodan só recuperou o uso das faculdades
mentais quando a tremenda gargalhada abalou pela terceira vez o recinto.
De repente julgou entender o que tinha
diante de si! Aquele ente devia ser ilimitadamente esclarecido e equilibrado, e
sem o menor resquício de egoísmo. O comentário chilreado por Gucky confirmou
suas suposições.
O serzinho peludo gritava com entusiasmo:
— Descobri, chefe! Aquilo gosta de
brincar, assim como eu. Porém brinca diferente. Brinca com vocês, com o tempo,
com o que os humanos chamam de idades culturais. Compreende isso?
Sim, Perry Rhodan tinha compreendido
definitivamente. As risadas se intensificaram ainda mais após as observações de
Gucky.
Rhodan sentiu-se arrasado. Mal ousava
pensar no que lhe oferecia aquele poderoso ente feito de matéria
desincorporada.
Como teria sido a história da oportunidade
concedida por aquilo aos arcônidas, há vinte mil anos terrestres? Qual teria
sido a oportunidade?
Rhodan aguardou. Quando o silêncio voltou
a se estabelecer, disse algo que quase levou os homens presentes a um acesso:
— Alô, velho amigo. Você me meteu um
monstro dentro da nave, lembra?
— Lembro-me de tudo que fiz até hoje. — replicou
o inconcebível ser, alegremente.
— Pois bem — replicou Rhodan, furioso. — então
trate de providenciar socorro para meu radiolocalizador ferido, para que não
precisemos amputar-lhe o braço. Aquele bicho era venenoso. Não tenho medicamento
adequado a bordo. De momento, isto é a coisa mais importante para mim.
Fez-se silêncio. Tinha-se a impressão de
que todo o planeta artificial respirava. Rhodan olhou um tanto zombeteiramente
para a iridescente luminosidade. Crest perdera os sentidos com o choque
sofrido. Thora recostara-se de olhos cerrados contra a parede. Sabia que os
arcônidas tinham perdido a partida. Fora tudo em vão: sua expedição, a aliança
com os humanos, e tantas outras coisas. Aquilo recusava os arcônidas; eram
perdedores. Aquilo era invencível e também imune a influências, segundo tudo
indicava.
— Quais são seus planos, velho amigo? —
indagou a voz, serenamente.
— Socorro para meu tripulante ferido, em
primeiro lugar.
— O socorro está a caminho. Os eflúvios
venenosos estão sendo drenados do organismo. E quanto a você, velho amigo, o
que pretende? Gostaria de assumir o Grande Império arcônida, não é? Pôr em
ordem, reconstruir, apaziguar, não é verdade?
— Exatamente — confirmou Rhodan.
— Quantos já desejaram isso! A maioria
deles fracassou já diante de minha primeira tarefa. São sempre as mesmas. Vi
nascer e morrer avançadas civilizações galácticas. Orientei algumas, até não me
interessarem mais. É possível que eu necessite de variação constante. Houve
outra raça antes dos arcônidas; e mais outra antes dela. Andei observando seu
mundo, Rhodan. Dou a você e aos seus congêneres oportunidade idêntica à que
concedi aos arcônidas. Para mim, será um breve momento; depois terei que
esperar de novo por alguém que entenda as pistas por mim espalhadas em toda a
parte, e que se aventure a tentar sua solução. Obrigado pelo entretenimento,
velho amigo. Lutou para valer. Comece, agora. Não pretendo nem ajudá-lo, nem
continuar a molestá-lo. Entre no fisiotron.
As instalações de meu mundo artificialmente criado estão à sua disposição. Mas
descobrir o que pode fazer com elas é problema seu. Trato feito?
— Feito! — concordou Rhodan, com voz
embargada.
Aquilo tornou a rir, porém desta vez havia
um pouco de mágoa na voz. Baixinho, perdendo-se na distância, ainda falou:
— Nutre grandes e belas esperanças sobre a
imortalidade, não é? É o que todos os seres orgânicos costumam fazer, até vir a
terrível desilusão. O derradeiro refúgio é a desencarnação. Algum dia se
sentirá contente por poder libertar o espírito das cadeias do corpo. Porém este
dia ainda está distante para você, pelo menos sob o seu ponto de vista. Boa sorte,
velho amigo! Proporcionou-me a mais emocionante partida deste jogo desde que
despi voluntariamente o invólucro material. Vou continuar observando vocês...
Felicidades!
A radiosa espiral apagou-se. O imenso
recinto estava de novo vazio.
Antes que alguém pudesse dizer uma palavra,
um homem se materializou do nada. As mãos de Rhodan avançaram instintivamente,
num gesto de defesa.
— Fui destacado para seu uso — disse o
ente, objetivamente. — Dê-me um nome, por favor.
— Quem é você? — sussurrou Rhodan, com
dificuldade.
O estranho com aparência humana sorriu.
— Fui especialmente construído para
servi-lo, senhor. Por isso me deram aparência humana.
— Um robô?
— Mais ou menos, sim. Mas não uma simples
máquina no sentido que vocês conhecem. Meu cérebro é uma liga semi-orgânica e
intotrônica.
— Intotrônica? — espantou-se Rhodan.
— Da sexta dimensão, senhor. Pronto para
entrar no fisiotron agora?
— Para quê? Que vem a ser isso?
— Uma ducha celular. Talvez tenha
imaginado que a conservação celular pudesse ser efetuada por meio de injeções
ou radiações. Permita-me esclarecer tal dúvida. Receberá, para cada célula, uma
carga conservadora de sessenta e dois anos justos, segundo seu sistema de
contar o tempo. Decorrido este prazo, ocorrerá imediatamente degenerescência, a
não ser que volte para cá antes do esgotamento do período, a fim de se submeter
a nova aplicação.
— A cada sessenta e dois anos? — gaguejou Rhodan.
Sua mente começava a perturbar-se pouco a pouco.
— Exatamente, senhor. Mas preciso avisá-lo
de que terá de encontrar este planeta com seus próprios recursos, sempre que
desejar ou necessitar. Permanecerei indefinidamente à sua disposição, assim
como todas as instalações, mas terá que vir me procurar. Quer vir agora, senhor?
Seu tempo está passando.
Só muito mais tarde é que Rhodan viria a
compreender esta observação.
* * *
A dor fora breve, mas aguda. Em comparação
com ela, uma grande transição seria inócua.
O organismo de Rhodan transformara-se dentro
da maciça coluna metálica numa frágil imagem nebulosa. O processo levou mais de
uma hora, segundo afirmara Bell posteriormente.
O estranho robô vigiava imóvel os
controles de uma máquina que provavelmente nenhum ser mais ou menos normal
entenderia.
Em seus campos de força fazia-se joguete
do organismo desmaterializado de Rhodan. Daria para imaginar aproximadamente a
complexíssima série de comandos requerida pelo processo; porém querer
compreendê-lo seria impossível.
Bastaria ele querer, e se tornaria sem o
menor esforço senhor de toda a galáxia. Porém aquilo não pensava nisso. Talvez
tivesse sido possuído outrora por semelhante ambição. Agora, no entanto, ele se
conservava em segundo plano, sem maiores exigências. Pedia muito pouco!
Quem quer que solucionasse as tarefas
propostas, recebia uma chance que se prolongava por vinte mil anos. Era uma boa
oportunidade, mas parecia ser importante fazer bom uso dela.
Rhodan emergiu do fisiotron cansado e
abatido como entrara. Sem uma palavra, tornou a se vestir. Seu olhar fitava
pensativo, e um tanto desconfiado, o humanóide.
— Isto foi mesmo um rejuvenescimento? —
indagou, com acentuado tom de suspeita. — Pareceu-me mais uma hiper-transição.
— Não lhe foi concedido rejuvenescimento
algum, senhor — foi a resposta. — Fui encarregado de conservá-lo conforme está
no presente momento. De agora em diante, não envelhecerá mais um só dia.
Estacionará na idade que conta atualmente.
— Veremos. Como vai o ferido?
— Está curado. Pedimos desculpas. Posso
lhe solicitar agora que me siga até o programador? As instalações do planeta precisam
ser sintonizadas para sua freqüência pessoal. Seu tempo é curto, senhor. Aliás,
está em suas mãos conceder a conservação celular a outras pessoas. Pode usar o
aparelhamento existente conforme lhe aprouver. Deseja algo em especial?
O olhar de Rhodan percorreu as fisionomias
repentinamente ansiosas dos presentes. Com amargura percebeu a avidez evidente
em cada um. No entanto, era preciso compreendê-los; era a reação mais natural
que se poderia esperar. Afinal, quem recusaria a conservação celular?
Rhodan percebeu instantaneamente que nunca
mais precisaria duvidar de seus colaboradores. Apenas ele tinha o poder de
dar-lhes acesso ao fisiotron.
— Bell, adiante! — disse Rhodan,
secamente. Depois deixou, com o robô de aparência tão humana, o recinto.
* * *
Quando a Stardust-III iniciou o
hiper-salto, foi se apagando por trás dela o brilho de um sol que aquilo
construíra nos moldes exatos de uma estrela natural.
O planeta Peregrino distanciou-se das flamejantes
línguas de fogo lançadas pelos propulsores da espaçonave.
O choque da transição atingiu-os
rudemente. Quando a nave tornou a reentrar no espaço normal, Vega luzia à sua
frente.
Rhodan contentou-se com uma rápida
consulta às telas de imagem. A estrela acalmara-se, realmente. Não se percebia
mais sinal de uma nova em desenvolvimento.
Rhodan passou o comando ao major Nyssen.
Ele mantivera sua palavra. A estrela que entrara em erupção no decurso do
solucionamento de uma tarefa retornara ao normal. Não havia sentido em procurar
interpretação para aquele fato. Era coisa inconcebível, fora do alcance da
mente.
— Nada de pouso intermediário em Ferrol —
determinou Rhodan, exausto. — Meu Deus, bem que eu gostaria de saber por que o
semi-robô insistia tanto em me apressar!
As máquinas de lutar arcônidas prestaram
continência diante do comandante. Crest e Thora haviam se retirado para suas
cabinas.
Sabiam, há algumas horas, que a aceitação
de Rhodan significava o início de uma nova era. A Humanidade começava a
despertar. Não tardaria muito a estender as mãos para as estrelas.
Porém Perry Rhodan não pensava nisso
enquanto se dirigia à sua cabina. Tudo que queria era ir para casa.
* * *
Ele ou Aquilo — o ente incomensuravelmente
antigo, composto de bilhões de anteriores indivíduos — tomara sua decisão, com
a qual precipitara os dois arcônidas no mais profundo desalento.
Apenas Perry Rhodan e Bell haviam sido
julgados dignos por ele de serem submetidos à conservação celular, como
representantes de uma Humanidade jovem e impetuosa.
E o restante da Humanidade? Estaria madura
para a conquista das estrelas?
Ameaça a Vênus, o próximo volume da série
Perry Rhodan, responderá a esta pergunta.

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