autor
K. H. SCHEER
Tradução
de:
RICHARD PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
A
Terceira Potência, criada pela técnica dos arcônidas e pela energia de Perry
Rhodan, instalou-se na solidão do deserto de Gobi, onde estabeleceu um centro
de atividades capaz de desafiar os ataques concentrados das superpotências
terrenas.
Até
mesmo a primeira luta travada contra inteligências extraterrenas ávidas de
conquista, que procuraram aproximar-se da Terra depois de terem recebido
notícia de sua existência através do sinal de socorro, emitido pela nave
destroçada dos arcônidas, pôde ser decidida a favor da Terceira Potência e a
bem da humanidade.
Mas
Perry Rhodan sabe perfeitamente que precisará de mais gente para resistir a
novos ataques e levar avante os seus planos. Por isso cria o Exército de Mutantes.
= = = = = = = = = = Personagens Principais
= = = = = = = = = =
Perry Rhodan – Chefe da Terceira Potência.
Reginald Bell – Amigo e principal colaborador de
Rhodan
Crest e Thora – Únicos sobreviventes da nave
arcônida destruída na Lua
Allan D. Mercant -
Sofre um atentado de uma nova potência
alienígena
Homer G. Adams – Novo Ministro das finanças da
Terceira Potência
1
— Perry!
A voz de Reginald Bell soou abafada no
recinto de teto baixo e não produziu o menor eco. O homem de cabelo ruivo,
olhos azul-claros e rosto largo comprimiu o botão de parada e, numa atitude de
expectativa, virou-se para a porta. Perry Rhodan entrou.
— Não grite tanto, Bell! — disse, sem
mover um músculo da face. Seus olhos irradiavam curiosidade. — Foi você que me
chamou? Espero que o assunto seja importante.
Reginald Bell voltou-se novamente para o
painel do equipamento de som. Durante três segundos comprimiu a tecla de retrocesso.
— Tenho uma mensagem de Genebra, dirigida
a você. Chegou há poucos minutos.
Perry Rhodan aproximou-se do painel.
— Há algum resultado positivo? Esperava
que as grandes potências levassem ao menos um dia para chegar a um acordo a
nosso respeito. Se realizaram uma conferência-relâmpago, provavelmente se terão
separado sem terem chegado a uma conclusão. Fale logo, rapaz! O que houve?
— Ouça! Quero que você mesmo desfrute
todas as fases da sua vitória.
Bell ligou o aparelho e reclinou-se na
poltrona.
— Aqui fala a Secretaria da Federação das
Potências Mundiais. Estamos chamando o senhor Rhodan. Temos instruções para,
logo após o término da conferência, informar-lhe o resultado que segue e que é
tornado público simultaneamente por meio de um comunicado transmitido por todas
as emissoras.
Os representantes dos países da OTAN, do
Bloco Oriental e da Federação Asiática conferenciaram hoje sobre o status
internacional da organização conhecida como Terceira Potência. As ocorrências
dos últimos dias, em especial os acontecimentos que se desenrolaram fora da
atmosfera terrestre, causaram sérias preocupações em todo o mundo. A
aproximação de uma nave espacial pertencente a uma inteligência desconhecida,
que sem a menor dúvida foi realizada com intenções hostis, deve ser encarada
como uma ameaça a toda a Terra. Depois de discutido minuciosamente o assunto,
os delegados da OTAN, do Bloco Oriental e da Federação Asiática chegaram à
conclusão de que a destruição da nave inimiga na superfície lunar foi devida
exclusivamente à atuação da Terceira Potência. Face a isso as potências que
participaram da conferência admitem certa lealdade da Terceira Potência perante
os interesses comuns da humanidade e decidiram reconhecer a Terceira Potência
como estado soberano, com a extensão territorial que atualmente ocupa. Pede-se
ao senhor Perry Rhodan que confirme o recebimento deste comunicado e apresente
propostas concretas para o estabelecimento de relações diplomáticas.
Bell comprimiu a tecla de parada e voltou
a reclinar-se na poltrona.
— Conseguimos — disse Rhodan em tom
tranqüilo. — Aos poucos os homens começam a compreender que não somos nós os
seus inimigos, mas o espaço imenso e misterioso. Mas convém que esses
cavalheiros tirem da cabeça a idéia de extensas relações diplomáticas. Sem
dúvida, gostariam de trocar uns vinte ou trinta embaixadores conosco. Acontece
que sob o aspecto diplomático somos um caso todo especial. Ao que parece já
estão se habituando a isso. Anote a resposta:
— Não quer falar pessoalmente?
— Tenho motivos para não fazê-lo.
Reginald Bell deu de ombros. Parecia não
entender. Mas acabou assentindo com um movimento de cabeça.
— Transmitirei sua mensagem.
— Diga-lhes que fiquei satisfeito em
receber uma resposta tão positiva. Considero altamente elogiável a compreensão
com que o assunto foi tratado em Genebra. No entanto, prefiro deixar para outra
oportunidade meu pronunciamento sobre o estabelecimento de relações
diplomáticas, já que a reduzida extensão territorial de nosso pequeno reino
ainda não justifica a presença de embaixadores. Apesar disso, sempre estaremos
abertos a quaisquer contatos.
— Muito obrigado pela orientação.
Quebrarei a cabeça para descobrir como devo redigir o texto...
— A resposta será transmitida
imediatamente, meu caro! Não há tempo para quebrar a cabeça. Com a velocidade
alcançada na conferência de hoje as superpotências da Terra estabeleceram um
novo recorde. E você vai manter a mesma velocidade.
— Você sempre foi perito em dar ordens...
— E você tem sido perito em executá-las. O
futuro exigirá de você um aumento considerável do grau de obediência e de
iniciativa que já aprendeu.
— Obrigado pela confiança, chefe! Mais
algum desejo?
— Você poderia pedir aos representantes de
Pequim na conferência que começassem a estudar a possibilidade de nos vender um
trecho de terra. Não pretendo instalar o estado soberano da Terceira Potência
em território alugado.
— Qual deve ser o tamanho de nosso reino?
— indagou Bell.
— A nave esférica ficará no centro. Ao
redor dela se estenderá o território bloqueado da Terceira Potência. O mínimo
de que precisamos é uma extensão de terra com um raio de cinqüenta quilômetros.
Perry Rhodan saiu, sem aguardar que o
amigo confirmasse com um aceno de cabeça. Por mais importantes que as
negociações em perspectiva fossem para ele e para o mundo, havia assuntos ainda
mais prementes a serem tratados. Eram assuntos que ultrapassavam em muito o
simples estabelecimento de contatos e os preparativos para uma série de
decisões definitivas.
Saiu da nave. A pequena distância dali,
bem no centro da cúpula energética, que atingia dez quilômetros de diâmetro,
estava a nave esférica dos arcônidas. Mais ao longe outro objeto atraía a
atenção. Era o gigantesco autômato positrônico, retirado da nave. Esse aparelho
formava o núcleo definitivo da Terceira Potência; suas reações microfísicas
poderiam conduzir os destinos da história da humanidade. Era o cérebro.
Rhodan utilizou o traje especial que lhe
possibilitava vencer em poucos segundos um percurso relativamente extenso. Não
se via ninguém. Perry esperava encontrar também no interior do grande recinto a
solidão de que tanto precisava. Mas não estava mais sozinho; viu-se diante de
Thora.
— Olá, Rhodan! — exclamou ela.
— Thora. Sente-se atraída pelo altar do
seu poderio?
— Sinto-me bem em meio à civilização a que
pertenço. Além das ruínas e dos vestígios de uma tecnologia arcônida, a Terra
nada tem de atraente para uma mulher da minha origem.
Rhodan lançou-lhe um olhar penetrante. Não
sabia se devia vestir a carapuça. Resolveu retribuir o elogio ambíguo.
— É difícil compreender a indiferença dos
arcônidas. Quando encontram alguma coisa de atraente, o que é bastante raro,
isso só acontece no ambiente a que estão habituados. Comigo, que sou um ser
humano, acontece exatamente o contrário; o que me atrai é a novidade.
Atrás deles ouviram-se passos. Voltaram-se
e viram Crest, o último descendente da dinastia reinante em seu mundo natal.
— Olá! — disse este em tom amável e com a
maior naturalidade, como se em toda sua existência nunca tivesse conhecido
outro cumprimento que esta fórmula terrena. — Está disposto a trabalhar com o
cérebro, Rhodan?
— Quero que a máquina responda algumas
perguntas das quais depende o destino da humanidade, da humanidade no sentido
mais amplo.
— Quer dizer que você nos inclui nela?
— Perfeitamente — confirmou Rhodan. — São
os arcônidas humanos. Sem dúvida estamos de acordo em que tudo aquilo que para
nós representa a civilização galáctica está em perigo. Estamos empenhados numa
causa comum, Crest. Não nos abandone.
— Isso soa como uma solicitação e uma
censura.
— Desculpe, Crest! Uma censura contra você
seria uma injustiça. Sem o seu auxílio não teríamos conseguido destruir a nave
desconhecida. Mas bem sabe que esse ataque de surpresa talvez não passe de um
primeiro indício do perigo que paira sobre nós. É possível que possamos dispor
de alguns anos para nos prepararmos. Mas também é possível que já amanhã nos
defrontemos com a tarefa de salvar a civilização galáctica da destruição total.
Conto com a hipótese menos favorável. Por isso a decisão é tão premente.
— Veja só! Esse homem se arvora em
advogado da civilização galáctica — disse Thora em tom monótono, como se não
passasse do estágio final de um cérebro robotizado. — Implora nosso auxílio,
através do qual pretende alcançar o poder, mas esquece quem somos.
Rhodan dominou-se.
— Você sabe perfeitamente que essa
acusação não tem o menor fundamento. Não faz muito tempo que você se declarou
disposta a rever seu juízo sobre os habitantes da Terra. Ainda sente uma
inclinação irresistível de tratar-nos como criaturas semi-selvagens e
subdesenvolvidas? Por favor, não responda! Vou responder por você. Como únicos
sobreviventes da expedição dos arcônidas, você e Crest precisam da ajuda do
planeta Terra. Precisam dos homens porque não existe nenhum caminho de volta, a
não ser com o auxílio deles. E, quer queiram quer não, terão de partilhar dos
perigos, das preocupações e das angústias dos terrenos, enquanto o perigo vindo
do espaço cósmico representa uma ameaça para todos nós. Sua obstinação, gerada
por uma ridícula presunção de casta, só poderá atingir você mesma. Será que
precisa de outras provas além dos acontecimentos dos últimos dias?
— A humanidade terrena não passa de um
conglomerado disforme — respondeu a arcônida. — Não posso negar que o destino
nos impôs interesses comuns. Mas duvido da capacidade de uma humanidade
corroída de rivalidades, que nem conseguiu superar os antagonismos em seu
próprio planeta. Não se ofenda, Rhodan, mas continuo a afirmar que você
pertence a uma raça primitiva.
Crest interrompeu-a.
— E uma raça jovem — disse. — E dotada de
grandes reservas de vitalidade que devem ser mobilizadas. O destino de uma raça
é determinado por seus grandes gênios. Não é necessário que, de um dia para
outro, toda a humanidade seja conduzida a um estágio mais elevado. Umas poucas
pessoas dotadas de bastante inteligência serão suficientes. Rhodan, sei
perfeitamente do que é capaz depois de ter concluído o treinamento hipnótico;
conseguimos mobilizar seu cérebro, que se encontrava em estado de ociosidade
numa proporção de mais de quarenta e cinco por cento.
— Quer dizer — perguntou Thora em tom de
dúvida — que a condição primitiva dos terrenos não resulta de uma estrutura
biológica subdesenvolvida, mas apenas da renúncia inconsciente ao exercício de
certas faculdades?
Crest confirmou com um aceno de cabeça.
— Certas áreas do cérebro humano são
afetadas por uma curvatura, e por isso nunca são ativadas. Nas pessoas
designadas como gênios são utilizadas. Os próprios homens já descobriram que o
quociente intelectual do indivíduo nem sempre depende do volume do cérebro,
muito embora de início essa interpretação fosse a mais óbvia. Einstein, um dos
maiores terrenos de todos os tempos, constitui prova evidente disso. O volume
do seu cérebro era igual ao de qualquer pessoa medíocre. Sua grande superioridade
espiritual só pode ser explicada por um grau extraordinário de ativação de
todas as áreas de seu cérebro. Com o treinamento hipnótico de Rhodan
conseguimos um resultado semelhante.
— Então é por isso que devemos reconhecer
em Perry Rhodan o chefe dos terrenos — disse Thora com um traço de ironia. —
Como arcônida, dispenso uma colaboração nessas circunstâncias. Tal procedimento
seria incompatível com o nível de desenvolvimento de nossa raça.
— Ninguém está falando num chefe dos
terrenos — respondeu Rhodan, elevando ligeiramente o tom da voz. — Apenas
procuro uma conciliação razoável entre os seus interesses e os nossos. Apelo
para a razão, não para os preconceitos ou os ressentimentos. Você está pondo em
prática aquilo de que acusa nossa raça. Não serei presunçoso a ponto de
renunciar ao seu auxílio nesta hora difícil. Tenho o maior prazer em exprimir
os meus agradecimentos pelo auxílio que já nos foi dispensado. Se você acha que
pode dispensar o auxílio da humanidade, isso é problema seu. Não quero impingir
minha colaboração. E agora, com sua licença, eu me retirarei.
Perry Rhodan cumprimentou com um gesto e
deu as costas aos arcônidas. Dirigiu-se ao painel de comando do grande cérebro
robotizado.
Depois de ter concluído as primeiras
manipulações, sentiu a presença de Crest atrás de si.
— Podemos ajudar, Rhodan?
— Thora acaba de afirmar que não quer
intrometer-se nos assuntos dos terrenos. Você pensa da mesma forma, Crest?
— Gostaria de ajudá-lo, Rhodan. Mas só se
for necessário. Não seria correto se os arcônidas se intrometessem
desnecessariamente nos assuntos dos terrenos.
— Obrigado, Crest — disse Perry,
oferecendo a mão ao seu interlocutor. — Tentarei fazer o trabalho sozinho.
Apesar disso sua presença representaria um conforto para mim. Jamais um homem
teve de solucionar um problema como o que tenho diante de mim. Isso me deixa um
pouco nervoso, compreende?
— Qual é a indagação que quer ver
respondida?
— A indagação sobre o caminho que devemos
trilhar juntos para o futuro.
Perry Rhodan voltou-se para a grande
máquina. O significado das indagações que lhe transmitiria ultrapassa em
alcance toda e qualquer decisão que até então alguém tivera que tomar. Toda a
humanidade estava em jogo.
Um zumbido quase inaudível partiu das
células positrônicas. O cérebro havia sido ativado. Aguardava as perguntas que
teria de responder. O cérebro robotizado não estava sujeito a qualquer
influência psicológica; trabalhava exclusivamente em conformidade com as leis
da lógica. Era de todo imune ao significado de qualquer pergunta. Não conhecia
os critérios valorativos que o homem adota inconscientemente. Só se interessava
pelo significado e pelo conteúdo da matéria nele introduzida. Calculava as
probabilidades do resultado de um jogo de futebol ou uma eleição política com a
mesma naturalidade do desfecho de uma guerra mundial. Se qualquer resposta não
correspondesse aos acontecimentos futuros, isso seria devido única e
exclusivamente a uma formulação incorreta das perguntas. Tudo dependia,
portanto, das perguntas que Perry Rhodan introduzisse na máquina.
Já nos preparativos, se valeu das
potencialidades da formidável máquina. Introduziu nas células positrônicas
todos os detalhes que lhe pareciam importantes para a avaliação da
pergunta-chave. Levou algumas horas examinando a formulação definitiva das
questões.
A memória da máquina apresentava uma
reação tríplice. Através das células interpretativas do estágio final, fornecia
o resultado em forma de palavra falada, de palavra escrita e de imagem. Os
cristais de armazenamento de dados conservavam as respostas com todas as
características. A fita escrita corria num carretel onde seu conteúdo era
resumido automaticamente através de palavras-chave adequadas. A imagem e o som
eram projetados em faixas paralelas da mesma fita e os impulsos positrônicos
garantiam a perfeita sintonia.
O exame preliminar das questões produziu
um resultado quase inacreditável.
A humanidade teria de optar entre 22,3
bilhões de possibilidades, para encontrar um caminho aceitável para o futuro.
No entanto, não se poderia afirmar que só uma das soluções fosse correta,
enquanto todas as outras eram erradas. A escala das vantagens e desvantagens
deslizou na tela sob a forma de um espectro de cores. Realizados mais de cem
processos de eliminação, ainda havia mais de mil soluções recomendáveis do lado
positivo da faixa espectral. Perry Rhodan teve de encontrar novas perguntas limitativas,
para chegar cada vez mais perto do problema básico.
No início, ainda surgiam ligeiras
discussões com Crest e Thora. Mas, à medida que a experiência prosseguia,
tornava-se cada vez mais calado. Quando o crepúsculo começou a entrar pela
vigia, Thora levantou-se e declarou que desejava ir ao seu camarote. Precisava
de descanso, e por isso queria desfrutá-lo fora da gravitação natural da Terra,
que, com o tempo, estava se tornando desagradável para ela. Crest seguiu seu
exemplo.
— Se surgir qualquer problema é só avisar,
Rhodan. Estarei à sua disposição a qualquer momento.
Rhodan confirmou com um movimento
distraído da cabeça.
— Está bem, Crest. Levarei algumas horas
neste serviço. Mais tarde avisarei sobre o resultado. Descanse um pouco.
Nenhum dos dois arcônidas desconfiava de
que seu aluno-modelo recorrera a alguns truques psicológicos bem eficientes
para afastá-los dali. Perry Rhodan preferia estar só na hora em que tivesse de
resolver as questões decisivas.
A atividade física desenvolvida durante a
experiência era mínima. Apesar disso transpirava bastante e sofria a tensão
formidável daquelas horas.
Mais tarde, ainda naquela noite, ele
recebeu a notícia da ameaça de uma nova invasão. A resposta veio quase como um
subproduto. Rhodan repetiu a experiência cinco vezes antes de aceitar a solução
com todas as suas implicações: a invasão já começara.
* * *
Chamou Reginald Bell pelo aparelho de
ondas ultracurtas.
— Onde você está neste instante, Bell?
— No mesmo lugar em que você me deixou.
Esses rapazes de Pequim são duros na queda. Fazem a gente perder horas
preciosas com detalhes insignificantes.
— Eu gostaria de saber qual é o assunto
que você está debatendo com eles.
— Você é mesmo um prodígio de memória! Já
se esqueceu que me pediu para que lhe arranjasse um terreno?
— Vamos deixar isso para depois. Quero que
você desligue imediatamente e venha a bordo da nave. Manoli e os nossos três
amigos dos serviços secretos devem apresentar-se o mais rápido possível. Daqui
a dez minutos esta nave deve estar pronta para decolar. E não quero que ninguém
desembarque, mesmo que eu chegue mais tarde. Dê o alarma a todo o pessoal da
base.
— Afinal, o que houve, Perry?
— Você já vai saber. Por enquanto, faça o
que estou dizendo!
A tripulação concluiu os preparativos para
a decolagem dentro do prazo previsto de dez minutos, mas Rhodan os fez esperar
até a meia-noite.
Finalmente, ouviu-se a voz do Capitão
Klein:
— Aí vem ele!
Todos os olhos se voltaram para a tela de
imagem que servia para vigiar a entrada da nave esférica. Perry Rhodan surgiu,
em vôo baixo, no seu traje de arcônida, e entrou pela escotilha aberta. Pouco
depois, chegou à sala de comando.
— Você pilotará, Bell. Decole
imediatamente. Preciso falar com Kakuta.
Rhodan ligou a tela e chamou Tako Kakuta,
que estava no posto central de comando da base. O rosto do japonês apareceu no
vídeo.
— Decolaremos agora. Preste atenção à
subida da nave e desligue a cúpula protetora por alguns segundos.
— O.K.!
A esfera disparou na vertical e
desapareceu diante dos olhos do japonês como uma estrela que se apagasse.
Reginald Bell voltou a cabeça, enquanto as
mãos executavam inconscientemente as operações de comando que aprendera.
— Perry, não quer nos contar o que
significa tudo isso? Eric e o resto do pessoal já começaram a duvidar da minha
sanidade mental, porque os detive durante algumas horas...
— Desde hoje de tarde estive conversando
com o computador eletrônico. Formulei algumas perguntas decisivas. Foi por isso
que demorei tanto. Precisaremos de um verdadeiro fio de Ariadne para
encontrarmos nosso caminho por entre os problemas do futuro.
— E você encontrou esse fio?
— Encontrei — confirmou Rhodan. Por alguns
segundos parecia mergulhado em profunda meditação. Depois endireitou o corpo. —
Temos de vasculhar imediatamente a atmosfera terrestre, ao menos até a órbita
lunar. Segundo uma das respostas do computador, a invasão que esperamos já está
em andamento.
Manoli foi o primeiro a recuperar a fala.
— Está se referindo àqueles intrusos
desconhecidos, cuja nave conseguimos destruir há alguns dias?
— Nunca tivemos a menor dúvida de que
aquilo não passava de uma operação de vanguarda. As informações de Thora foram
corretas. O emissor de raios ultraluz situado na nave dos arcônidas que foi
destruída na superfície lunar mobilizou os inimigos das nossas civilizações, o
nosso sistema para seres de elevado grau de inteligência. Uma raça empenhada na
destruição, como a de Fantan, não se contentará com meias medidas ou com
operações isoladas. Relatei a situação ao computador eletrônico, tanto quanto
me permitiam as indicações fornecidas por Crest. A resposta da máquina foi a
seguinte: “a invasão já começou”. Peço-lhes, portanto, que ocupem seus lugares.
A divisão das tarefas já foi anunciada, e todos sabem o que deve ser feito.
Todas as operações que ainda não eram
rotineiras teriam de assumir esse caráter. O dispositivo automático de
observação anunciava a espaços regulares: resultado negativo. Não houve
qualquer localização de corpos estranhos. Enquanto isso Perry Rhodan treinava
suas tarefas com Bell, Eric Manoli, o capitão Klein, Li Shai-tung e Peter
Kosnow.
A uma distância de pouco menos de 400.000 quilômetros
do centro da Terra, Perry mandou que a nave fosse conduzida a uma órbita, mas
não permitiu que seu deslocamento fosse espontâneo, em forma de satélite, pois
com isso sua velocidade seria tão reduzida que a volta em torno do nosso
planeta consumiria quase cinco semanas. Sem reduzir o desprendimento de
energia, a nave deslocou-se em sentido quase vertical à tangente da órbita
terrestre, a fim de anular a força centrífuga gerada pela alta velocidade.
— Isso! — murmurou Rhodan satisfeito,
quando a gigantesca foice lunar desapareceu a estibordo.
— Dizem que o computador eletrônico é
infalível, não é? — a pergunta de Manoli foi formulada de sopetão. — Onde está
o inimigo, se a invasão já começou? Pelo que me consta, não existe qualquer
campo de absorção para as radiações de localização emitidas por esta nave.
— Falível é o homem — confessou Perry
Rhodan. — Se não houver a invasão, as perguntas que formulei à máquina positrônica
não foram corretas. Até chego a desejar que eu tenha cometido um erro.
— Pois cometeu! — foi a voz de Thora que
saiu no mesmo instante dos alto-falantes. — Fique sossegado e volte, Perry
Rhodan. Crest e eu acompanhamos e verificamos seu trabalho. Não há nenhuma nave
estranha na órbita de Marte. Seria preferível dedicar-se aos problemas mais
prementes que o esperam na Terra.
— Obrigado pela lição. Crest está com
você?
— Está no camarote dele. Não se lembra de
que pediu que descansássemos?
— Estou acompanhando a palestra — disse a
voz de Crest, que surgiu no mesmo instante. — Posso confirmar a informação de
Thora, mas nem por isso as perguntas que você formulou ao cérebro positrônico
são necessariamente incorretas. Se o cérebro responde que a invasão já está em
andamento, não está fornecendo nenhuma indicação exata do pouso na Terra. É bem
possível que o inimigo ainda se encontre a muitos anos-luz de distância e só
chegue à Terra daqui a alguns dias. A viagem de patrulhamento que está sendo
levada a efeito não me perturbou nem um pouco. Até acho que se trata de uma boa
medida de precaução. Se me permite um conselho, direi que deve ser repetida a
intervalos regulares.
— Seus conselhos sempre serão bem-vindos.
Obrigado, Crest!
— Devo aterrissar? — perguntou Bell.
— Depois de descrever mais uma órbita
polar em torno da Terra, meu caro. Enquanto isso, conte-me o que discutiu com
Pequim.
— A Federação Asiática é de opinião que o
trecho desértico situado em torno do lago salgado de Goshun, ou mais
precisamente a 102 graus de longitude leste e 38 graus de latitude norte é o
terreno mais valioso que pode existir sobre a Terra.
— Já lhe deram o preço?
— É claro que sim; do contrário não
estaria tão nervoso. Pedem sete bilhões de dólares. Por esse preço estão
dispostos a ceder um terreno com cinqüenta quilômetros de raio em torno
da nave.
— Você lhes explicou que não possuímos
sete bilhões de dólares?
— É claro. Afinal, sou um rapaz
inteligente.
— Um bilhão seria um bom preço, Bell.
— Esses cavalheiros de Pequim não cedem um
centavo. Seria pura perda de tempo se você gastasse uma hora nisso. Temos de
arranjar o dinheiro.
— Sete bilhões... — refletiu Rhodan. —
Precisamos a metade disso para instalar nossas linhas de montagem na cúpula
energética. E nem sequer essa quantia possuímos.
— O reino mais poderoso da Terra é o menor
e o mais pobre. É um verdadeiro paradoxo, não acha?
— Bell, não se afaste do assunto. É
verdade que Kakuta descobriu alguns fornecedores que dispõem de boa capacidade
de produção. Mas nenhum deles fornece dinheiro. E as contas bancárias que mantemos
em algumas grandes cidades chegam a ser ridículas. Precisamos de um ministro
das finanças.
— Até mesmo um ministro das finanças fará
questão de discutir antes de mais nada o seu ordenado. Por mais que façamos,
precisamos antes de tudo de dinheiro. Depois poderemos comprar. Terras,
fábricas e gente. Precisamos de crédito.
— E será que não dispomos de crédito? —
interveio Eric Manoli. — Será que você não conhece a velha sabedoria dos
banqueiros? Aquele que detém o poder dispõe do crédito.
— Esse tipo de sabedoria encerra uma
sugestão de abusar do poder — respondeu Rhodan. — Suas palavras fazem vir à
minha mente um assalto.
— Refiro-me às armas psíquicas. Ninguém de
nós concordaria em que os ameaçássemos com a superioridade das nossas armas
destrutivas.
— Para conceber uma arma psíquica
precisamos de uma cabeça. Com isso voltamos ao problema do ministro das
finanças.
— Será que não temos inteligência
suficiente? — indagou Bell em tom de expectativa, como se quisesse
candidatar-se ao posto. Rhodan formulou uma pergunta direta:
— Você pode garantir que dentro de seis
meses influenciará os preços mundiais de tal forma que teremos os fornecedores
aos nossos pés?
— Sou astronavegador e engenheiro
eletrônico, estudei medicina espacial e geologia, submeti-me de bom grado ao
treinamento hipnótico e tenho a impressão de ser um homem bem acima da média.
Mas não tenho uma boa mão com o dinheiro.
— Quer dizer que desiste do lugar de
ministro das finanças?
— Quanto à minha pessoa, sim. Não me
sentiria muito bem se tivesse que desempenhar o papel de um gênio universal.
— De qualquer maneira terá que revelar o
desempenho de um gênio universal. Espere até que aterrissemos. Preciso de Tako
Kakuta para entrar no assunto sobre o qual quero falar com vocês.
A nave esférica desceu quase na vertical
em direção ao deserto de Gobi. A cúpula abriu-se por alguns segundos, para
permitir o pouso. Quando os homens deixaram a nave, os primeiros raios do sol
despontavam no oriente.
* * *
Oito homens estavam reunidos em torno da
mesa.
Eram
Rhodan, Bell ,
Manoli, Haggard, Kakuta, Klein, Li e Kosnow.
— Companheiros, acredito que não será
necessário perder muitas palavras para explicar a situação atual. Dispomos do
poder e obtivemos o reconhecimento diplomático. Mas, apesar de já termos iniciado
a montagem de uma indústria, somos uns pobretões. Acontece que de uma hora para
outra esperamos a invasão, cujas dimensões ultrapassam nossa fantasia.
Convoquei-os para explicar que me verei obrigado a exigir tudo de vocês. Terão
de empenhar toda a sua pessoa no objetivo comum. Nosso trabalho não exigirá
apenas uma soma enorme de energia, mas também boa agilidade e capacidade de
reação. Bell, você e Tako Kakuta irão a Pequim fechar o acordo para a compra do
nosso território. Você já elaborou um esquema de pagamento na base de
quinhentos milhões de dólares por mês, e assim estará em condições de fechar a
operação. Aos demais, pretendo apresentar alguns aspectos de um plano que nos
permitirá acelerar imediatamente o ritmo produtivo de nossa indústria. Mas
antes de iniciarmos a discussão dos detalhes peço-lhes que leiam atentamente
este artigo de jornal e me digam se estão lembrados de algumas minúcias do
assunto nele tratado. Finalmente, apresentem-me sugestões sobre como poderemos
usar este caso em nosso próprio benefício.
2
Um denso nevoeiro impregnava a noite
londrina. A umidade que subia do Tâmisa penetrava nas roupas e fazia as pessoas
tiritarem de frio.
Um homem de aspecto pobre, que a altas
horas da noite atravessara a Vauxhall Bridge e estava caminhando pela Grosvenor
Road, junto à margem esquerda do rio, levantara a gola do casaco. O chapéu, que
cobria as orelhas, talvez tivesse por finalidade cobrir o rosto.
Atrás do gasômetro o homem dobrou à
direita, atravessou a Praça São Jorge em direção à Rua Lupus e entrou na Rua Alderney.
Parou diante de uma pesada porta de
carvalho e puxou a sineta.
Depois de uma longa espera uma senhora
corpulenta abriu e perguntou o que desejava.
— Por favor, quero falar com o senhor
Barry.
— Sinto muito, cavalheiro. A esta hora não
podemos perturbá-lo mais. O senhor Barry está se preparando para dormir. E
conforme vê eu...
— A senhora também estava a ponto de ir
para a cama. Mas com o senhor Barry a coisa é diferente. Assim que puser os
olhos em mim, não pensará mais em dormir.
— Trouxe um cartão, cavalheiro?
— Não é necessário anunciar-me. Conheço o
caminho. Muito obrigado.
— Cavalheiro! — disse ela, quando o homem
se enfiou pela estreita fresta da porta e permitiu que à luz do corredor
lançasse um olhar para sua figura estranha. — Quem é o senhor? Não posso
deixá-lo entrar.
— Madame, não se incomode comigo.
Hiram Barry ainda estava sentado à
escrivaninha. Não fazia menção de ir para a cama. O abajur projetava uma luz
forte sobre o escrito, enquanto o restante do aposento estava mergulhado na
escuridão.
— Você não disse que ia para a cama,
Milly? — disse Barry quando ouviu a porta abrir-se atrás dele.
— Milly vai para a cama — disse o
visitante.
Aquela voz grave fez com que Barry se
virasse sobressaltado. Só viu uma sombra parada na escuridão. Mas aquela voz
lhe revelara tudo. Para Hiram Barry era uma voz inesquecível.
— Adams! — gemeu.
— Homer G. Adams — completou o visitante.
— Espero não ter vindo numa hora imprópria.
— É claro que não Adams. Para você minha
casa está aberta a qualquer hora. Como sabe...
— As coisas que sei já ficaram muito
longe. Mas ainda sei. E é o que importa. Não acha, Barry?
— Você sempre teve boa cabeça, Adams.
Conseguiu fazer um bom dinheiro com sua memória, nada mais. Sempre o admirei. É
claro que também o invejo um pouco.
— Não se esqueça do ódio, Barry. Gosto de
ser admirado. E as pessoas que me invejam também devem viver. Afinal, a vaidade
nutre-se da inveja. Mas o ódio pode ser perigoso. Meu caso é um bom exemplo
disso. Não quero que ninguém me odeie.
— O que deseja, Adams? Não fale num ódio
que já é tão velho. Não o odeio.
— É claro que não. Dentro de quatorze anos
isso passa. Não preciso matá-lo mais, pois seu ódio transformou-se em medo. Por
isso não me importo que continue a viver. Talvez assim lhe retribua alguma
coisa.
— Veio só para me dizer isso? Levou
quatorze anos pensando em vingança? Não acredito, pois isso o teria arruinado. Além
disso, eram vinte anos, se não me engano.
— A sentença era de vinte anos. Mas depois
de quatorze anos acharam que o castigo já era suficiente. Como deve saber,
nesses casos costumam falar em bom comportamento.
— É o que dizem — confirmou Barry, que
conseguira controlar-se um pouco. — Posso oferecer-lhe uma bebida?
— Se soubesse que não está envenenada, aceitaria.
— Deixe de gracejos, Adams. Vamos, beba!
Ainda sei que gosta de uísque. E comece a contar. Gostaria de saber como estão
as coisas entre nós depois desses quatorze anos.
— Não há nenhum motivo para discutirmos
nossas relações. E os anos passados na penitenciária não oferecem nada para
contar. Minha visita será breve, desde que cheguemos logo a um acordo.
— Um acordo sobre o quê?
— Preciso de um terno. Tem de ser um terno
bom, bem na moda.
— E só isso? Tome dez libras.
— O dinheiro será outro assunto, Barry.
Quero primeiro o terno e depois uma mesada. Deve estar lembrado de certa conta
no Midland Bank. Naquele tempo o saldo era de cerca de dezesseis mil libras.
Sei que não é muito. Parece que estou destinado a nunca ter dinheiro meu, a não
ser uma pequena pensão. Ainda deve haver juros.
— Sua pergunta me deixa confuso, Adams.
Como posso estar a par da sua conta no Midland Bank?
— Estou me referindo à conta que abrimos
em seu nome. Deve estar lembrado de que a transação com Servey Limited produziu um lucro que de forma alguma poderia
aparecer nos livros.
— Não sei do que está falando, Adams.
— Sabe, sim. Nunca procurou descobrir por
que escapou sem castigo? Nunca se admirou porque um certo Homer G. Adams não
quis prestar uma declaração que não o teria livrado da pena, mas que poderia
ter enviado um certo Hiram Barry a uma viagem tão longa como a dele? Será que
acredita que resolvi protegê-lo para que pudesse gastar meu dinheiro? Nada
disso. Foi para proteger o meu dinheiro que permiti que continuasse livre. E
agora estou aqui para buscá-lo. Inclusive os juros. Se descontar o valor do
terno, deverão ser pouco menos de vinte e quatro mil libras. Se especulou com o
dinheiro, talvez já sejam dois milhões. Mas nem quero saber disso. Para mim
bastam vinte e quatro mil libras. Fique com o resto do que tiver ganho. Não
quero vangloriar-me, Barry, mas acredito que dificilmente poderia esperar um
tratamento mais generoso da minha parte.
Barry hesitou antes de responder. Seus
dedos cravaram-se no canto da mesa.
— Adams, você sabe perfeitamente que vinte
e quatro mil libras é muito dinheiro. Especialmente para mim. Nunca fiz os meus
cálculos pelos seus padrões.
— Cada qual deve saber que padrões quer
adotar. Você é um gatuno pequeno; ninguém lhe proibiu de transformar-se num
grande. Além disso, parece que estão confundindo duas coisas completamente
diferentes. Se enganei alguém em doze milhões de libras, isso foi feito
exclusivamente com o dinheiro de outro. Meus negócios de bilhões nunca tiveram
por objeto a ganância pessoal. Fiz isso... bem, digamos que fiz por esporte.
Faço questão de ser considerado um amador e um idealista. Quero que o mundo
veja em mim um ser altruísta que só se empenha pelas grandes causas.
— Ainda continua a pensar assim? —
perguntou Barry.
Homer G. Adams confirmou com um movimento
lento da cabeça.
— Ainda continuo a pensar assim. Nem pense
que pretendo retirar-me da cena quando ainda me encontro nos melhores anos da
vida. Voltarei. Tive muito tempo para refletir, Barry. E ouvi muita coisa. Mas
acho que não está interessado nisso. Dê-me o terno e o dinheiro, e não o
incomodarei mais.
Hiram Barry parecia ter chegado a uma
decisão.
— Vamos ao meu quarto, Adams. Dou-lhe meia
hora para inspecionar meu guarda-roupa.
Adams levou menos de meia hora.
— Ficarei com este — disse depois de três
minutos. — Você é pouco maior que eu em estatura; por isso o casaco deve
assentar bem em mim. Quanto à calça, poderemos encurtar a bainha por alguns
centímetros. No escuro ninguém se incomodará com isso, e amanhã procurarei um
alfaiate. Onde posso mudar de roupa?
— No banheiro. Faça o favor.
— Muito obrigado, Barry. Vejo que nos
entendemos muito bem. Será que neste meio tempo pode preencher o cheque?
Dali a dez minutos Adams voltou à
biblioteca. No cheque lia-se a quantia de vinte e quatro mil libras esterlinas
e a assinatura floreada de Barry.
— Precisa de algum dinheiro em espécie? —
perguntou Barry em tom gentil. — Decerto, pretende ir a um hotel.
— Muito obrigado. Você é muito gentil! Mas
toda pessoa traz algum dinheiro consigo ao sair da penitenciária. Neste ponto o
governo não é nada mesquinho. Não é necessário que me dê mais que aquilo que me
compete. Homer G. Adams continua a ser o mesmo pão-duro de antes, mas também
tem seu orgulho e nunca aceita presentes. Passe bem, Barry! Foi um prazer vê-lo
tão disposto depois de todos estes anos e entreter uma palestra tão agradável.
Mal Adams acabara de sair, Hiram Barry
discou o número do Midland Bank e instruiu o porteiro da noite a transmitir um
recado ao gerente, na manhã seguinte, logo após o inicio do expediente. Depois
discou outro número e, por estranho que parecesse, anunciou-se com um nome
feminino.
— O que é que você quer me perturbando a
esta hora da noite? Passei o dia todo atendendo a compromissos profissionais e
tive de encher-me até a goela. Chame amanhã, mas só depois do jantar.
— Um momento! Você ficará curado da
bebedeira se escutar um instante.
— Deixe de lorotas. Comigo isso não pega.
Até...
— Vá para o inferno! Você não está só
cheio de uísque, mas também anda com a água até o pescoço. Se desligar, vou
arrombar sua porta daqui a meia hora e arranco você da cama.
— O que aconteceu?
— Tive de preencher um cheque de vinte e
quatro mil libras, e isso sobre minha conta no Midland Bank.
— Espere aí! Será que você ficou louco? Ou
será que uns bandidos armados entraram aí? Tanto faz! O que você tem de fazer,
meu filho, é telefonar imediatamente ao banco para cancelar o cheque e
notificar a polícia.
— O banco já foi avisado, mas de outra
forma. Mandarei suprir a conta. No momento só há um saldo de quatorze mil
libras.
O homem que falava do outro lado da linha
despertara por inteiro.
— Vamos, fale logo! Será que foi o demônio
em pessoa que veio buscar o cheque?
— Quase acertou. Foi Homer G. Adams, que
hoje foi solto da penitenciária.
O outro interlocutor ficou sem fala. Antes
de responder soltou um gemido.
— Adams foi solto? Nesse caso não diga
nada à polícia.
— Era exatamente o que pretendia fazer. Só
você vai ficar sabendo disso. E, caso não se lembre do expediente, é bom que
saiba que o banco abre às nove da manhã.
* * *
A primeira pessoa que se apresentou no
guichê do Midland Bank no dia seguinte foi Homer G. Adams.
Nem parecia perceber o rosto do
funcionário, que se contorcia nervosamente. Como que entediado, olhava para o
teto, onde uma fileira de lustres antigos parecia convidar à contagem de
lâmpadas. Parecia ter muita paciência. Um observador por mais atento não teria
percebido que seus olhos vigiavam tudo que se passava ao seu redor.
Havia uma indagação que atormentava aquele
homem pequeno, de cabeça grande. Será que a conta apresentava saldo suficiente?
Barry poderia tê-la liquidado, pois afinal lhe pertencia.
Depois de uma longa espera o funcionário
voltou.
— Sinto muito, cavalheiro! O saldo da
conta não é suficiente. Não podemos pagar-lhe o valor integral deste cheque.
— Qual é a diferença?
— Faltam cem libras.
— Só isso? Por que tanto espalhafato?
— Gostamos de ser corretos nos menores
detalhes, cavalheiro — respondeu o funcionário.
— Se quisessem ser corretos poderiam ter
concedido um crédito de cem libras ao titular da conta.
— Em princípio, o senhor tem razão.
Mas existe uma anotação de que esta conta
deve ser tida como liquidada após o pagamento do cheque.
— Não há problema. Contento-me em receber
o saldo, desde que não me faça esperar mais que cinco minutos.
Adams recebeu o dinheiro e saiu da zona
bancária pelo caminho mais rápido, que era o metrô. Desceu no Picadilly Circus,
fez compras e almoçou no aeroporto, em Croydon.
O garçom que o serviu viu nele um homem
nervoso e desconfiado.
— Será que vai demorar muito? Não posso
perder o jato para Tóquio.
— A partida é às 13,45, cavalheiro. Falta
mais de uma hora e meia. Como nosso serviço é rápido, não haverá problema.
Homer G. Adams não parecia tranqüilizado.
Logo após dirigiu-se em voz alta a um vizinho de mesa.
— Queira perdoar, cavalheiro. O senhor
também viaja para Tóquio? No avião que parte às 13,45?
O homem fitou-o.
— Sinto muito. Meu vôo parte às 13,20 e
não vou ao Extremo Oriente.
— Desculpe — cochichou Adams com a voz
resignada.
Almoçou com uma pressa extraordinária,
olhando constantemente para o grande relógio da parede. Pagou quando foi
servido o último prato e saiu da mesa, ainda mastigando. Dirigiu-se ao
guarda-volumes.
— Escute aqui! Será que o senhor pode
verificar se as malas registradas neste ticket já se encontram a bordo?
— Ah, é o vôo destinado a Tóquio? — disse
o homem depois de ter lançado um olhar para o talão. — Neste instante a bagagem
está sendo colocada a bordo!
— Tem certeza de que não esqueceram minhas
malas?
O homem respirou profundamente. Teve de
esforçar-se para não perder a calma.
— É claro que não! Pois o senhor está com
o recibo. Nosso trabalho é executado com toda cautela. Não há necessidade de
controles adicionais.
— Queira desculpar. Se o senhor diz, deve
ser verdade.
Na sua timidez fingida, Adams parecia
satisfeito. Mas outras preocupações pareciam atormentá-lo. Depois que lhe
tinham dito que os passageiros ainda não podiam subir a bordo, dirigiu-se
apressadamente para a saída norte do aeroporto e chamou um táxi.
— Vamos para Epsom. Depressa!
O motorista fez o que pediu. Ao chegar a
Epsom, foi regiamente recompensado. Um outro motorista recebeu a incumbência de
levar Homer G. Adams a Dorking. Ali, Adams tomou um terceiro táxi para voltar a
Croydon. Já eram 13,35.
— Será que o senhor consegue chegar a
Croydon em dez minutos?
— É impossível, cavalheiro!
— Faça o possível — disse Adams em tom
amável.
— Não é possível, cavalheiro. Conheço cada
palmo do caminho. Se não houver o menor imprevisto, levaremos treze minutos.
— O.K.! Vá o mais rápido que puder. Às
13,45 decola um avião para Tóquio. Se conseguirmos vê-lo, dou-lhe uma
gratificação de dez libras.
— Pretende viajar nele?
— Não. Só quero vê-lo decolar.
O motorista fez o possível e o tráfego
ajudou. Ás 13,47 parou junto à entrada norte do aeroporto.
Adams correu para o hall e viu o avião
desaparecer no nevoeiro. Inexplicavelmente, parecia satisfeito, ao contrário de
um senhor que se encontrava perto dele e que deu vazão à sua ira em altos
brados. De tão bem-humorado que estava, Adams teve vontade de dirigir-se ao
homem.
— Não leve isso tão a sério, cavalheiro.
Aqui está um companheiro de sofrimento que tem uma saída.
— Quem é você?
— Sou seu colega de infortúnio. Tenho de
estar em Tóquio hoje de noite e espero consegui-lo, apesar de tudo.
— Possui um jato particular? — perguntou o
estranho em tom mais acessível.
— Não. Mas daqui a vinte e cinco minutos
deve decolar um avião com destino a Sydney, que fará escala em Zanzibar. Ali
temos possibilidade de conexão com o vôo Cidade do Cabo—Tóquio.
— Bem, o diabo quando está com fome come
mosca. A que hora o vôo da Cidade do Cabo chega a Tóquio?
— Pelas vinte e uma horas, tempo de
Greenwich. Sugiro que adquira outra passagem.
— Muito obrigado. Quer dizer que estaremos
em Tóquio antes do meio-dia.
* * *
A demora em Zanzibar foi de menos de uma
hora. Foram ao restaurante do aeroporto. Adams já descobrira que o nome de seu
companheiro de viagem era John Marshall, e que tinha vinte e seis anos. Marshall
nada revelara sobre suas atividades profissionais. Aliás, Adams não estava
interessado, pois ainda não desconfiava da importância daquele homem.
Mas, logo, o jogo de esconder teria um
fim. Adams comprou um jornal que um menino oferecia de mesa em mesa. A folha mal
saíra da rotativa e noticiava acontecimentos de menos de duas horas atrás.
Na segunda página, Adams descobriu uma
notícia que não o surpreendeu muito, pois constava de suas previsões com um
grau reduzido de probabilidades. Mas significava muito para ele. E também para
John Marshall.
— Está interessado em saber o que
aconteceu com o avião destinado a Tóquio, que perdemos em Londres?
— O que pode ter acontecido?
— Explodiu perto de Kiew.
— Não brinque!
— Leia.
Adams passou o jornal ao companheiro, que
leu num instante a notícia redigida em poucas palavras.
— Santo Deus! Acho que podemos
felicitar-nos pela sorte que nos protegeu.
— Se podemos! A vida é muito mais preciosa
que os nossos pertences. De qualquer maneira espero que na sua bagagem não haja
objetos de valor.
John Marshall esboçou um sorriso
significativo.
— Não havia nada de importante, Adams.
Tudo que é importante para mim cabe nesta pequena valise, que nunca largo das
minhas mãos. Não haverá problema em substituir as roupas perdidas. Quer dizer
que meu prejuízo não foi muito grande. Espero que no seu caso não seja
diferente.
Adams sentiu o olhar perscrutador de
Marshall, mas não sabia o que significava. Marshall era jovem, forte e sadio.
Seu rosto era franco, e revelava uma honestidade incontestável. Sempre
conseguia levar a palestra de cortesia para assuntos sem importância, quando a
boa educação não lhe permitisse ficar calado.
Quando se encontravam sobre o Oceano
Índico as coisas mudaram.
— Você traz muito dinheiro consigo, não é,
Adams? — disse Marshall subitamente, depois de uma pausa prolongada.
— Por que diz isso?
— Deduzo que seja assim, já que observa
regularmente sua pasta com a mesma atenção com que olho minha valise. Ninguém
torce tantas vezes o pescoço para olhar para cima, se no bagageiro só traz uns
sanduíches ou um jornal.
— Que interessante! Você estuda
psicologia, Marshall?
— Isso mesmo. De um tempo para cá ocupo-me
muito com isso. Mas você está se desviando do assunto.
— Se quer permanecer no campo da teoria,
cabe observar que pouco lhe interessa se tenho em meu poder uma grande soma ou
não.
— Estou perguntando no seu interesse,
Adams. Se tiver dinheiro consigo, deve ser muito mais desconfiado. Um olhar
para a pasta não é suficiente!
— Enquanto a pasta estiver ali, o dinheiro
também está. Ou será que, como psicólogo, você pode interpretar a situação de
outra forma?
— Sua pasta é nova, ainda traz a etiqueta
de uma loja da Rua Regent. Aposto que foi comprada hoje de manhã.
— É verdade — disse Adams perplexo. — Onde
quer chegar?
John Marshall inclinou-se ligeiramente
para a frente e esforçou-se para falar devagar.
— É bem possível que alguém tenha comprado
uma pasta igual. E se for essa pasta que se encontra no porta-bagagem, a
conclusão que você acaba de formular não será mais válida.
Adams deu de ombros. Pensou na pistola,
que se encontrava na pasta. Se Marshall quisesse fazer alguma coisa contra ele,
este seria o lugar.
— O.K.! — disse. — Pelo que vejo está
interessado em ver muito dinheiro junto. Farei sua vontade.
Levantou-se, pegou a pasta, sentou e
abriu-a. Teve uma sensação igual à que se apoderara dele tempos atrás, quando
seu grande golpe se revelou um fracasso total.
Fechou os olhos e contou até dez. Era um
velho hábito seu, que lhe permitia conservar o sangue-frio numa situação
crítica. Quando voltou a abri-los, era novamente o velho jogador de Bolsa que
parecia não ter nervos.
— Como sabia que meu dinheiro foi roubado,
Marshall? Exijo que fale sem subterfúgios e que deixe sua psicologia ambígua de
lado.
— Acho que pouco lhe deve importar como
sei. Seria preferível que perguntasse quem está com o dinheiro.
— Você sabe?
— Acho que sim. Mas gostaria de falar com
calma sobre isso. Está disposto a acompanhar-me ao salão de estar? Procuraremos
um canto bem isolado.
Saíram. No caminho, Adams disse:
— Antes de mais nada gostaria de notificar
o comandante sobre o roubo. Faça o favor de reservar um lugar apropriado.
Não demorou em voltar.
— Tudo em ordem, no que diz respeito à
notificação. Espero que possa fornecer mais alguns detalhes. As investigações
policiais só serão iniciadas depois que pousarmos. É possível que isolem o
aeroporto e não deixem os passageiros saírem.
— Mas isso não me dá muita tranqüilidade.
Gostaria de resolver o assunto enquanto estamos em viagem. Na sua opinião, quem
é o autor do crime?
— Não sei. As suspeitas recaem sobre uns
seis ou oito passageiros.
— Os mesmos se encontram a bordo, ou será
que a pasta já foi trocada em Zanzibar, ou antes que chegássemos lá? Um
momento! Verifiquei no restaurante do aeroporto, e tudo estava em ordem. Quer
dizer que nosso homem deve estar a bordo. A pasta só pode ter sido trocada
durante o embarque. Tivemos de fazer fila e só avançamos devagar. É possível
que tenha descansado a pasta no chão algumas vezes.
— A reconstrução dos fatos é correta. É
exatamente o que imagino. Mas realmente não sei dizer quem foi. Só pode ter
sido alguém que durante o embarque se encontrava próximo a nós. Já dei uma boa
olhada em toda aquela gente, mas não descobri ninguém que andasse com uma pasta
igual à sua.
— É estranho. Você sabe tão pouco! E
apesar disso sua suspeita correspondeu exatamente à realidade.
— Mais uma pergunta — disse Marshall,
mudando de assunto. — A importância desaparecida pode ser muito elevada para um
homem comum. Esse dinheiro também faz muita falta a você?
— Não entendo — disse Adams em tom
hesitante. Voltou a suspeitar de John Marshall. — Muitas vezes suas perguntas
são bastante estranhas, Marshall. Mas não posso imaginar que o ladrão adotasse
um comportamento tão estranho como o seu.
A resposta de Marshall morreu por entre um
sorriso.
A porta do salão abriu-se de supetão e
alguns homens barulhentos entraram. Dois deles voltaram a fechá-la e a
trancaram, embora outros passageiros procurassem entrar.
Quase todos os passageiros que se
encontravam no salão saltaram das suas cadeiras, o que contribuiu para aumentar
a confusão. No meio da gritaria não se entendia uma palavra. Subitamente um dos
homens pediu silêncio com a voz trovejante, reforçando seu pedido com a pistola
que trazia em punho.
— Sentem! — ordenou o desconhecido. —
Quero formular algumas perguntas. Qual dos senhores traz uma arma? Façam o
favor de avisar imediatamente. Não pretendemos tomá-la, mas trata-se de fazer
uso dela.
John Marshall foi o primeiro que levantou
o braço. Vários passageiros seguiram seu exemplo, inclusive Homer G. Adams,
depois de ligeira hesitação. Ao todo eram sete.
Logo começaram a perguntar o que
significava tudo isso.
— Silêncio! — voltou a trovejar a mesma
voz. — Encontramo-nos numa situação crítica. Alguns dos passageiros dominaram a
tripulação e assumiram o comando do avião. Vários deles entraram na cabina de
passageiros, para desarmar todo mundo. O que importa no momento é vigiar esta
porta, para não deixar ninguém entrar. E peço que formulem sugestões de como
podemos restabelecer a ordem a bordo.
— O senhor não pode manter essa porta
trancada! — indignou-se uma senhora. — Meu marido e meus filhos estão na cabina
de passageiros.
Outras pessoas formularam objeções
semelhantes. Mas ficaram em minoria e suas palavras não encontraram
receptividade.
— Neste momento não podemos preocupar-nos
com problemas desse tipo. Peço-lhes que mantenham a disciplina e não se
esqueçam do perigo em que nos encontramos.
— Seria conveniente não exagerar o perigo
— disse alguém que se encontrava num ponto mais afastado. — Se enfrentarmos
esses bandidos, poderemos levar a pior. Essa gente não deve estar interessada
em matar-nos; sem dúvida só está atrás dos nossos pertences. Proponho que
capitulemos imediatamente, para não arriscarmos a vida.
— Seu covarde! — protestou alguém.
Outro passageiro manifestou uma suspeita:
— Até parece que você é um dos bandidos.
— É bom que só fale um de cada vez — pediu
John Marshall. — Creio estar em condições de explicar os acontecimentos. O
importante é vigiar a entrada da cabina de passageiros.
Alguns homens armados adiantaram-se e se
ofereceram para cuidar desse ponto.
— Conte! — pediu o passageiro que falara
em primeiro lugar, dirigindo-se a John Marshall.
— De início quero ressaltar que não tenho
certeza de nada — principiou este. — Mas o que sei me leva a desconfiar de que
o perigo não é de ser menosprezado. Não há dúvida de que os bandidos estão
interessados nos nossos pertences. E trata-se de algo bem definido, no valor de
pouco mais de vinte e três mil libras esterlinas. Já se apoderaram desse
dinheiro.
— Se é assim, por que fazem tanto
espalhafato? — perguntou um dos presentes. — Não querem tirar nada dos outros,
inclusive de mim?
— Provavelmente não. Dificilmente estarão atrás
do seu dinheiro. Quando muito, estarão interessados nas jóias de sua esposa.
Para nós o grande perigo resulta do fato de que os bandidos devem estar
empenhados em matar a vítima do roubo, pois o dinheiro e algumas outras coisas
que não vêm ao caso só estarão seguras em suas mãos se matarem esse homem.
— Quem é a vítima?
— Isso não interessa.
Adams não se conformou com a recusa de
Marshall. Levantou-se e cumprimentou os presentes.
— A vítima sou eu. Queiram perdoar se
minha presença lhes trouxe tantos problemas, mas a culpa não é minha.
Adams sentiu a mão de Marshall pousada em
seu ombro. Voltou a sentar. Era preferível que John Marshall falasse.
— Senhoras e senhores, dentro de pouco
tempo seremos obrigados a agir. Por isso peço-lhes que se abstenham de
perguntas supérfluas. O perigo atinge a todos, por menos interessados que os
bandidos estejam na maioria dos senhores. Estão atrás do senhor Adams. Para
eliminá-lo, não hesitarão em desviar o avião para outro local. Talvez seja um
trecho inóspito do litoral, a selva da índia ou as montanhas do Tibet. Acho que
já compreenderam que devemos tomar alguma providência para defender-nos.
Enquanto estivermos voando, não corremos nenhum perigo imediato. Mas isso pode
mudar logo.
Até ali nenhum dos bandidos tentara
arrombar a porta que ligava o salão à cabina dos passageiros.
Ainda havia alguns membros da tripulação
no trecho não ocupado do avião. Eram dois cozinheiros, um garçom e três
aeromoças.
Marshall dirigiu-se a eles.
— Deve haver um telefone para comunicação
com a cabina de comando. Será que posso usá-lo?
A cortesia numa situação dessas nunca
deixa de impressionar. Marshall foi conduzido imediatamente ao aparelho. Um dos
garçons comprimiu o botão. Do outro lado da linha atenderam. Mas desta vez não
se percebeu nada de cortesia.
— Que quer? Pretende fazer propostas de
paz? Fale logo.
— Adivinhou! Se não fosse isso, não teria
entrado em contato com vocês.
— Não haverá paz, a não ser que capitulem
incondicionalmente.
— É isso que queremos evitar. Afinal, as
negociações servem para alcançar uma solução conciliadora.
— Não gaste seu fôlego à toa, rapaz. Ainda
precisará dele.
— Um momento! É claro que temos algo a
oferecer. Sei muito bem que gente do seu tipo não dá nada de presente.
— O que é que você pode nos arranjar?
— Tenho dinheiro. Isto é, um dos
passageiros tem.
— Muito obrigado pela informação. Ainda
hoje apanharemos o resto da grana. Não se preocupem com isso antes do pouso.
— Acontece que o dinheiro não se encontra
a bordo. Não convém falar tanto no telefone. Muita gente está escutando. Você
me garante livre trânsito para ir à sala de comando e voltar?
— Se deixar a pistola para trás, pode vir.
Marshall ainda teve de enfrentar problemas
com alguns dos passageiros. Uns achavam que a tentativa de negociação era
inútil, face à situação de inferioridade em que se encontravam. Outros, sem
rebuços, manifestavam a suspeita de que era um dos inimigos, e que apenas
desejava escapar. Mas acabaram permitindo que fosse.
Na cabina de passageiros Marshall foi
recebido pelos bandidos, que o conduziram à cabina de comando. Enquanto andava,
procurou calcular seu número. Eram pelo menos dez, o que o deixou bastante
impressionado.
O homem que se encontrava no assento do
piloto era um estranho muito bem trajado. Assumira o comando, ajudado por dois
elementos, e parecia dominá-lo perfeitamente.
— Johnny, ocupe meu lugar enquanto
converso com este cavalheiro. Bom dia. Foi você que telefonou há pouco?
Marshall sentou sem esperar convite.
— Gostaria de expor meu ponto de vista
sobre a situação. Vocês concluirão se estou com a razão ou não.
— Fale, seu profeta de meia-tigela.
— Vocês estão atrás de Adams. Já se
apoderaram do seu dinheiro. Só precisam acabar com ele, para que não os possa
incomodar mais. Mas não podem matá-lo e aterrissar em Tóquio conforme a
previsão. Por isso pretendem pousar em algum ponto do sul da Ásia, de onde
desaparecerão sem deixar vestígios. O que me importa é a sorte dos outros
passageiros, nos quais vocês não devem ter o menor interesse. Consegui fazer-me
entendido até aqui?
— Continue, meu filho. Não deve ser só
isso que tem a dizer.
— Por enquanto é só. Minha oferta só faz
sentido se a exposição que acabo de fazer for correta.
— Você disse que nos arranjaria algum
dinheiro. Sabe onde Adams está guardando o resto? O dinheiro que nos oferece é
de Adams, não é?
— É claro! São mais de quarenta mil libras
depositadas no Banco de Montreal. A proposta que faço é a seguinte: sacrifico
Adams e o resto do seu dinheiro, fora algumas despesas para mim, é claro. Em
compensação os senhores garantem a segurança dos outros passageiros. Concordam?
— Em quanto calcula suas despesas? —
perguntou o chefe.
Depois que Marshall mencionara a soma de
quarenta mil libras, tornara-se muito mais cortês.
— Duas mil libras. Não quero prejudicá-los.
— De acordo. Sua proposta é razoável. Como
faremos para pôr a mão no dinheiro?
— Terá de fazer de conta que está
negociando com Adams. Descobriremos um meio de dissipar suas suspeitas. Afinal,
ele estará pagando seu próprio resgate. Tenho certeza de que tem um código para
transferências telegráficas. Dessa forma o assunto poderá ser resolvido sem
maior perda de tempo. É verdade que ele só me conhece desde o meio-dia, quando
nos encontramos em Croydon, mas já consegui captar a confiança dele. Mas vamos
à segunda parte do nosso acordo. Onde pretendem pousar? — John Marshall manteve
todo o auto domínio.
— Dispomos de um lugar muito bom perto de
Rangun — disse o chefe, enquanto no íntimo evocava um ponto completamente
diverso. — Dali será fácil entrar em contato com Londres. E seus cordeirinhos
não demorarão em encontrar condução para Tóquio.
Poderia dizer como é seu campo de pouso
secreto? Estou interessado nos detalhes, porque não quero correr o menor risco.
Era evidente que o chefe estava pensando
no sul da índia, numa região situada entre as montanhas de Cardamon e a cidade
de Madura. O que dava na vista era a transição de uma espessa mata virgem numa
área extensa de estepes.
— Trata-se de um velho aeródromo para
naves que pousam e decolam na vertical. Serve perfeitamente aos nossos
objetivos. Nas proximidades só existe uma aldeia de nativos. Assim não correrei
maiores riscos. Então, como é? Vai falar com Adams?
— Naturalmente. E é bom que seja logo.
— Muito bem. Vá. Cá entre nós,
consideramo-nos em estado de armistício.
John Marshall voltou.
— Eles nos deixarão em Rangun — declarou
aos passageiros. — Dali existe conexão para o Japão e a Coréia. A única
exigência que fizeram é que após o pouso permaneçamos a bordo o tempo
suficiente para que os bandidos se coloquem a salvo. Não consegui arrancar mais
que isso.
— É muito, se for verdade. Mas é pouco se
considerarmos que não dispomos de nenhuma garantia de que a promessa será
cumprida.
Marshall procurou tranqüilizar seu
interlocutor.
— Não podemos ser muito exigentes. Se
achar que pode conseguir um acordo mais vantajoso, vá até lá.
A maior parte dos passageiros pôs-se do
lado de Marshall, louvando sua coragem.
Enquanto o tom das conversas foi crescendo
e uma das aeromoças anunciava que no momento estavam sobrevoando a parte norte
do arquipélago das Maldivas, John Marshall, sem que ninguém o percebesse,
retirou-se em direção ao toalete. Tirou do bolso um minúsculo transmissor, que
pareceria um tanto estranho aos olhos de qualquer técnico terreno do século XX.
— É Marshall que fala, é Marshall. Estou
chamando a Terceira Potência. Por favor, respondam. Aqui fala John Marshall.
Por favor, Perry Rhodan, responda!
As sereias uivaram e campainhas
estridentes tiniram no território bloqueado do deserto de Gobi.
A voz de Reginald Bell saiu retumbante dos
alto-falantes fixados do lado de fora das barracas:
— Alarma número um! Os combatentes devem
comparecer imediatamente ao comando central.
Perry Rhodan, que estava prestes a voltar
para junto do cérebro robotizado para fazer realizar alguns cálculos
detalhados, fez meia-volta e correu os duzentos metros. Chegou juntamente com
Kakuta, o capitão Klein é o tenente Kosnow.
— Minha gente, já encontramos um ministro
das finanças — explicou Bell. — Mas ele se encontra nas mãos de uns bandidos.
Dentro de poucos minutos será largado na ponta sul da índia, onde por certo
darão cabo dele.
Marshall acaba de transmitir o comunicado.
— Todos para a nave espacial! — ordenou
Rhodan.
Quando saíram da barraca, cruzou com
Thora.
— Mais uma vez a humanidade se encontra em
estado de alarma — constatou esta em tom indiferente.
— Precisamos da nave, Thora. Não acredito
que você ou Crest tenha outros planos com ela.
— Fique à vontade, Perry. Vejo que mais
uma vez tem de resolver um assunto de repercussão mundial.
Rhodan não teve tempo de aborrecer-se com
o tom irônico em que foram proferidas essas palavras. Continuou a correr, pois
a senha “ministro das finanças” bastara para trazer-lhe à consciência a
importância dos acontecimentos que se desenrolavam naquele instante.
Calculara de cabeça a distância entre o
deserto de Gobi e o décimo grau de latitude e concluíra imediatamente que mesmo
com seu traje de arcônida não chegaria a tempo. A única possibilidade era a
nave espacial, cuja aceleração seria suficiente para vencer em poucos minutos a
distância de quatro mil quilômetros.
Exatamente oitenta e cinco segundos se
passaram do alarma até a decolagem da nave-gigante. Bell, profundamente reclinado
na poltrona, dispensou todos os dispositivos de direção automática.
— Peter! — gritou, dirigindo-se a Kosnow.
— Gire o mapa para o sul da índia. A coisa acontecerá a cento e cinqüenta
quilômetros a oeste de Madura. Temos de ir ao encontro do avião um pouco mais
ao sul, Perry. Se conseguirmos avistá-lo, tudo dará certo. Da última vez que
Marshall anunciou sua posição, encontravam-se sobre as Maldivas.
— Não há problema — disse Perry Rhodan em
tom tranqüilizador. — Com este balão mágico conseguiremos.
A nave esférica dos arcônidas voava a
cento e trinta quilômetros de altura. Via-se perfeitamente que o globo
terrestre girava abaixo deles, como se um punho titânico lhe tivesse desferido
um tremendo soco. O planalto do Tibet, o Himalaia, o Nepal, o Ganges deslizaram
abaixo deles. Por alguns minutos passaram sobre a água do Golfo de Bengala,
entre Dchaipur e Madras. De repente Reginald Bell avistou o avião. Os homens
acotovelaram-se à frente da tela.
— Deve ser o traço cintilante que se vê
ali. Mantém uma rota bem definida. A altitude é de dez mil metros, aproximadamente.
— Tomara que não nos vejam! — disse
Kosnow.
— É impossível! — Bell sorriu. — Colocamos
a capa que nos torna invisíveis. Mesmo que esses cavalheiros examinem o céu por
cima deles, o mecanismo defletor dos raios luminosos fará com que não vejam a
menor mancha. Quer que desça mais?
Rhodan fez que sim.
— Aproxime-se a dois mil metros. Devemos
aterrissar logo após o avião. Não quero dar muito tempo aos bandidos, para que
não tomem qualquer medida defensiva.
— Será que podem fazer alguma coisa contra
nossos armamentos?
— Têm muitos reféns a bordo — ponderou
Rhodan. — Nestas condições nossa superioridade técnica não adiantará muito.
3
— Que história de quarenta mil libras é
essa? — disse Homer G. Adams indignado. — Não tenho esse dinheiro. Se tivesse,
não estaria disposto a...
— Sei que você é um pobretão —
tranqüilizou-o Marshall. — Mas não é necessário contar isso aos bandidos. Basta
entreter o chefão por algum tempo, até que recebamos auxílio. De qualquer
maneira terá de fazer de conta que possui esse dinheiro e que está disposto a
dá-lo em troca da vida.
— Até que recebamos auxílio? — disse Adams,
esticando as palavras. — Será que você dispõe de relações que lhe permitem dar
expressão a uma esperança desse tipo?
John Marshall esboçou um sorriso misterioso.
— Bem, você pode pensar no assunto. Ainda
dispõe de exatamente três minutos até o pouso. Aí provavelmente o chefão não
tardará a chamá-lo.
Adams olhou para o relógio e a pequena
tela que se encontrava sobre a entrada da cozinha de bordo.
— Ainda faltam mais de dois mil
quilômetros para Rangun. Acho que você errou na conta, Marshall.
— Nada disso! Vamos aterrissar perto de
Madura.
Não havia tempo para outras perguntas. O
chefão já iniciara as manobras de aterrissagem. O avião desceu como uma pedra
que despenca num abismo. Os passageiros tiveram de segurar-se. Depois de um
baque pesado, o avião parou.
— Aterrissamos! — disse alguém.
Na tela via-se uma paisagem de estepe
coberta de arbustos e mais ao longe, que nem uma muralha, a beira de uma densa
floresta.
Marshall voltou a usar o interfone. Ao
voltar, disse:
— Adams, o pessoal quer que você venha
comigo. Os outros devem esperar até que as negociações estejam concluídas. Peço
aos cavalheiros que mantenham a calma e a disciplina por mais alguns minutos.
Não há motivo para duvidar do desfecho feliz das negociações.
Marshall e Adams tiveram de usar o
elevador para chegar à proa, já que o jato se encontrava em posição vertical.
Os assentos dos passageiros haviam realizado um giro de noventa graus nas suas
articulações.
— Sinto observar, chefe, que você não
cumpriu nosso acordo — protestou Marshall ao entrarem. — Será que é tão
ignorante de geografia que não sabe distinguir o Norte e o Sul da índia?
— Decidimos de outra maneira, Marshall.
Mas isso não prejudica nosso acordo. Madura é tão boa quanto Rangun.
— Acontece que Madura fica a cento e
oitenta quilômetros daqui. Como vai levar os passageiros para lá num curto
espaço de tempo?
— Deixe isso por minha conta. O que me
interessa saber é o que Adams acha da minha proposta.
— Por mais benevolente que se queira ser,
sua proposta não passa de um ato de chantagem — disse Homer G. Adams em tom
contrariado. — De qualquer maneira, tomei conhecimento da sua exigência e tenho
de admitir que minha vida vale o dinheiro que possuo. Mas não pensarei em pagar
um resgate enquanto minha segurança pessoal não estiver garantida. Peço-lhe que
me dê suas idéias sobre este ponto.
— É tudo muito simples. Você assina um
cheque, envio um mensageiro a Madura, onde temos possibilidades de entrar em
contato com o Banco de Calicut, e aguardaremos para saber se o negócio está em
ordem. Assim que a quantia combinada estiver em minhas mãos, solto você e os
outros passageiros.
— O negócio não serve. Em primeiro lugar é
muito demorado, pois com essa história de mensageiro perderemos ao menos dois
dias. Depois, não há nenhuma reciprocidade de garantias. Como vou saber se me
soltará quando estiver com o dinheiro nas mãos? Queira pensar numa solução
melhor e procure ser objetivo.
— Até parece que você ainda não
compreendeu a situação em que se encontra — respondeu o chefão em tom mordaz. —
Acontece que todas as vantagens estão do meu lado, e não estou disposto a
desistir delas por causa da sua paixão pela objetividade.
— Hum! — interveio Marshall, cujo rosto
apresentou um estranho traço de otimismo. — Se alguém pode falar em vantagem
somos nós, não você. Seria conveniente que se interessasse um pouco por aquela
tela, que lhe pode revelar algumas belezas paisagísticas e outras surpresas.
Num movimento reflexivo todos olharam para
a tela, onde se viam figuras estranhas que caíam do céu.
— Esses trajes não são de mergulhador —
esclareceu Marshall em tom satisfeito. — Trata-se de uma pequena brincadeira
técnica realizada por uma civilização superior. O azar é seu, pois esses homens
são meus aliados. Que tal deixarmos de lado esse jogo de esconder e passarmos
às realidades, chefe? Sugiro que coloquem suas armas sobre a mesa, levantem as
mãos e nos digam onde esconderam os membros da tripulação, para que este jato
possa chegar a Tóquio sem maior atraso.
A única resposta consistiu num sorriso
confuso. No rosto do chefe dos bandidos espelhavam-se a surpresa, a
incredulidade, o medo e a raiva.
— Marshall, você é um sonhador incorrigível.
Deixe de blefes. Esses dois esquisitões podem passear à vontade por aí. Devem
estar curiosos por termos realizado um pouso não programado. Dificilmente
representarão um reforço para você. Vamos voltar ao assunto.
— Estamos no assunto, chefe. Para falar
com franqueza, sua leviandade me assusta um pouco. Se fosse você, já teria
procurado liquidar esses visitantes que vieram sem serem convidados.
— Haja quem compreenda você, Marshall! Às
vezes até parece que está se candidatando para ser um membro do nosso grupo.
Mas está bem, vamos atirar. Jim, você pode dar conta do recado.
Jim levantou-se com um sorriso de escárnio
no rosto e pegou uma pistola automática. O chefe acionou um mecanismo que abriu
uma pequena escotilha. Jim tomou posição de tiro. Apertou o gatilho e manteve a
mira centrada sobre os dois vultos estranhos até esvaziar o pente de balas. Ao
abaixar a arma fez uma cara de espanto.
— Ainda estão aí, chefe. Aposto que
acertei pelo menos um de cada três tiros. Alguém pode me dar mais um pente de
balas?
— Você vai gastar munição à toa — disse
subitamente uma voz masculina com sotaque japonês. Ninguém, a não ser John
Marshall, estava preparado para a aparição. Os homens viraram-se sobressaltados
e encararam o rosto de Tako Kakuta.
— Quem é este? — gaguejou o chefe. Estava
tão confuso que o japonês não teve a menor dificuldade em quebrar a última
resistência com o psicorradiador que trazia no bolso.
— Sou amigo de vocês, cavalheiros.
Coloquem as armas aqui e recuem até a parede. Não lhes faremos nada.
Dentro de poucos segundos os bandidos estavam
encostados à parede e deixaram que os algemassem. Dali a pouco o restante do
bando foi dominado e os membros da tripulação puderam ser libertados.
John Marshall trocou algumas palavras com
o comandante da aeronave, ao qual desejou uma boa viagem a Tóquio. Face ao
desfecho feliz da aventura os homens rodearam-no, convidaram-no para uma lauta
refeição e formularam inúmeras perguntas.
— Sinto decepcioná-los! Acontece que sairei de
bordo em companhia do senhor Adams. Não estou habilitado a prestar todos os
esclarecimentos. Peço-lhes que se contentem com o fato de terem escapado sãos e
salvos e sem prejuízo no seu patrimônio.

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