Durante o restante da marcha
em direção à base inimiga só houve dois acontecimentos dignos de nota.
O primeiro foi um chamado da
Good Hope. Crest e Thora informaram que o inimigo não dera mais sinal de vida.
Em compensação as focas voltaram a aparecer. Executando uma verdadeira marcha
forçada, certamente para voltar em tempo à água, subiram ao cume da montanha e
desceram à cratera.
— Sabe o que fizeram? —
perguntou Crest em tom jocoso. — Depositaram um montão de peixes diante de uma
das comportas da nave. Deve ser um sacrifício em homenagem aos deuses.
Felizmente Thora percebeu em tempo a marcha das focas e pôs o analisador
cerebral a funcionar na comporta. O analisador registrou os pensamentos das
focas. Juntamente com os dados colhidos pelo detector ultra-sônico, estava em
condições de reconstituir a maior parte da linguagem das focas. Eu retirei os
peixes, para que as focas não se sintam ofendidas quando voltarem. Da próxima
vez espero poder falar com elas.
O segundo acontecimento foi o
encontro com um sáurio venusiano, pelo qual esperavam há tanto tempo.
Acontece que o encontro foi
muito menos dramático do que esperavam. É que o gigantesco animal nem notou a
passagem da patrulha.
Apesar disso, o encontro
representava um certo perigo.
Naquela altura tinham vencido
cerca de quatrocentos do total de quinhentos quilômetros. Tinham escalado duas
cadeias de montanhas, e atrás da segunda encontraram um vale comprido, coberto
por um denso matagal.
Rhodan sentiu-se tentado a
permitir o uso dos trajes transportadores, para que o grupo voasse por cima do
vale bastante profundo. Mas chegou à conclusão de que a distância de cem
quilômetros, que ainda os separava do inimigo, não oferecia bastante segurança.
A gravitação era uma das formas de energia mais fáceis de localizar através de
instrumentos apropriados. Até certa distância do instrumento localizador, nem
mesmo os teoremas da ótica geométrica tinham validade. Isso significava que de
perto um localizador poderia reconhecer uma fonte de gravitação até mesmo “atrás
de um canto”.
Por isso desceram para o vale
e dispuseram-se a atravessar a selva atrás das costas largas de Tom.
Anne Sloane foi a primeira a
perceber que diante deles havia alguma coisa de anormal. Parou subitamente;
Bell, que vinha logo atrás, esbarrou nela. Rhodan notou que havia alguma coisa
atrás dele e também parou. Só Tom prosseguiu imperturbável por entre a
vegetação, até que Bell o fez parar com um chamado.
— Não ouviu nada? — perguntou
Anne perturbada.
Bell sacudiu a cabeça.
— Nada. Você ouviu alguma
coisa?
Anne fez que sim. Estava a
ponto de dizer alguma coisa, mas um ruído retumbante cortou-lhe a palavra. O
chão estremeceu. Desta vez todos perceberam.
Rhodan lembrou-se do barulho
retumbante que ouvira no primeiro acampamento.
— É um sáurio.
Bell não concordou.
— O que está fazendo? De onde
vem o ruído?
— Está andando.
Bell aguçou o ouvido. Depois
de algum tempo voltaram a ouvir o barulho retumbante.
— Está andando?! — disse
rindo. — Leva trinta segundos para dar um passo.
Rhodan confirmou com um aceno
de cabeça. Parecia sério.
— Acha que com essas pernas
compridas devia levar menos?
Fez sinal para Tako.
— Tako, suba ali e veja se
consegue localizá-lo.
Tako desapareceu. Voltou
dentro de alguns segundos.
— Vem do leste — informou. —
Se continuar na mesma direção, deverá passar a uns duzentos metros ao norte do
lugar em que estamos.
— Pois suba novamente e veja
se não modifica a direção.
Esperaram. Não adiantava
prosseguir, pois iriam em direção ao norte, e dessa forma dariam com os
costados bem em cima do sáurio.
O barulho retumbante foi
crescendo de intensidade, até assumir a feição de pequenos terremotos. Rhodan
olhou por entre a folhagem, procurando ver ao menos o pescoço do animal. Mas o
matagal, que os protegia dos furores das tempestades crepusculares, também lhes
impedia a visão.
O passo seguinte foi dado com
tamanha fúria que até Rhodan estremeceu.
No mesmo instante Tako surgiu
ao seu lado.
— Modificou a direção. Vem
diretamente para onde estamos.
— Quanto falta para chegar
aqui?
— Dois passos.
Rhodan olhou para os membros
do grupo.
— A esta altura não adianta
fugir — disse em tom tranqüilo. — Não há mais tempo para escaparmos. Mas
podemos nos defender.
Bell compreendeu. Trouxe
apressadamente os dois desintegradores. Entregou um deles a Rhodan e ficou com
o outro.
— Aponte para cima, em
direção oblíqua — ordenou Rhodan. — Assim que começar a cair, devemos
providenciar para que o corpo se dissolva no ar.
Bell confirmou com um gesto.
Rhodan virou a cabeça e falou por cima do ombro:
— Fiquem bem juntos!
Ao longe ouvia-se um forte
ruído, igual ao de uma cachoeira. O corpo imenso do sáurio ia afastando o
matagal à sua passagem.
Subitamente escureceu. Uma
sombra enorme cobriu a mata. Alguns segundos depois uma coluna imensa irrompeu
com um ruído ensurdecedor em meio à vegetação, a menos de cinco metros do lugar
em que Rhodan se encontrava. Rhodan chegou a ver a pele suja e escamenta, mas
logo dirigiu sua atenção à massa que se movia em cima deles. À primeira vista
compreendeu a situação.
— Cuidado! — gritou. — Está
passando por cima de nós.
E foi o que o animal fez. Com
o intervalo usual a outra pata estalou em meio à vegetação, desta vez à
esquerda de Bell, ao mesmo tempo que o ventre penso do gigantesco animal passou
por cima daquele grupo de seres minúsculos e trêmulos.
Por alguns instantes a
escuridão foi completa. A uns cinco metros de suas cabeças pendia o ventre
malcheiroso do animal. Mas ninguém se incomodou com o cheiro. Todos se
indagavam se as duas pernas traseiras também passariam por eles sem produzir
nenhum dano.
Rhodan baixou o
desintegrador.
— Cuidado com o rabo! —
disse, dirigindo-se a Bell. — Pode varrer-nos com uma sacudidela.
A imensa massa de carne
deslocou-se um bom pedaço para a frente. A claridade começou a surgir do norte.
— Graças a Deus! — gemeu
Bell. Mas logo olhou bem para a frente, procurando ver o rabo.
Rhodan olhou para cima e
procurou adivinhar o lugar em que o rabo do animal tocaria no solo.
Ainda estava calculando
quando alguma coisa passou ruidosamente bem por cima de suas cabeças. O vento
começou a uivar.
— Está jogando o rabo para a
direita! — gritou Bell.
Rhodan viu o rabo, que media
vários metros de espessura, voar para o leste. No mesmo instante o gigantesco
animal deu outro passo.
Rhodan apontou o
desintegrador para cima e esperou. Se o intervalo entre um e outro passo era de
trinta segundos, qual seria o período de oscilação do rabo, que era muito mais
comprido?
Nada aconteceu. As pernas do
sáurio foram-se afastando, mantendo sempre o mesmo ritmo. Não houve o temido
golpe de rabo. Rhodan teve a impressão de que mais uma vez o animal modificou
seu curso, voltando a deslocar-se na direção anterior. Isso explicaria por que
não chegaram mais a ver o rabo.
Mais alguns minutos se
passaram numa situação tensa de alarma. Finalmente os membros do grupo
descontraíram-se e começaram a acreditar que o perigo passara.
Bell largou o pesado
desintegrador e enxugou o suor que lhe cobria a testa.
— A trilha tem sete metros de
largura — disse. — Se fosse menos, o bicho nos teria pegado do lado direito ou
do lado esquerdo.
Concluiu que o comprimento do
sáurio, incluindo o rabo, devia atingir mais de duzentos metros. Com base nos
dados fornecidos por Tako, Rhodan calculou a altura do animal, incluído o longo
pescoço, nuns sessenta ou setenta metros.
Mesmo nas condições reinantes
em Vênus, devia ser um monstro. De qualquer maneira, seu tamanho excedia o de
qualquer sáurio que jamais viveu na Terra.
* * *
Pelo meio-dia do terceiro dia
de Vênus, contado a partir de sua partida da Good Hope, atingiram a região em
que supunham localizada a base do inimigo.
Era uma área completamente
diversa da que haviam visto nos primeiros dois terços da marcha.
Encontravam-se a cerca de
seis mil metros acima do nível do mar. A respiração tornou-se difícil, embora a
atmosfera de Vênus fosse bem mais densa que a da Terra. O zumbido nos ouvidos
gerado pelo excesso de pressão reinante das baixadas, cedera ao causado pela
falta de pressão nas alturas.
O matagal não os acompanhara.
A cerca de cinco mil e quinhentos metros de altura atingiram o limite da zona
de crescimento das árvores. O planalto cercado de morros em que se encontravam
só apresentava uma vegetação escassa, formada de gramíneas ressequidas,
arbustos raquíticos e alguns troncos nodosos que não chegavam a erguer-se do
solo.
O último trecho do caminho
deixara-os exaustos.
Às vezes quase chegaram a
desistir. Mas além da lembrança do inimigo, que devia ser localizado e
subjugado, ainda havia Rhodan que persistia na missão que traçara a si mesmo e
forçou os demais a submeterem-se à sua vontade.
Pelo alvorecer atingiram a
extremidade sul do planalto. Seguindo pela extremidade oeste, sempre sob o
abrigo de morros ou grutas, avançaram em direção ao norte, até chegarem à
extremidade setentrional do complexo.
Diante deles erguiam-se
montanhas altas como jamais haviam visto. Rhodan tinha certeza de que o inimigo
montara os instrumentos de grande alcance no cume da montanha mais alta. Mas
mesmo os telescópios mais potentes não permitiriam a ele reconhecer o que quer
que fosse no ponto em que se encontravam. Se é que havia algum instrumento lá
em cima, o mesmo devia estar encravado na rocha, ou oculto atrás de um excelente
disfarce.
Rhodan mandou construir um
acampamento na extremidade norte do planalto.
Na tarde daquele dia
dividiram-se em dois grupos, que se puseram a explorar os arredores do
acampamento. Tako Kakuta, o capitão Nyssen e o tenente Freyt chegaram a subir mais
de mil metros pelas montanhas, mas a única coisa que encontraram foi um animal
morto, parecido com uma raposa.
Anne Sloane e o tenente
Deringhouse foram os únicos que ficaram no acampamento. Anne encarregou-se do
pequeno instrumento rastreador, que apresentava uma desvantagem: a reduzida
capacidade de reação, medida pelos padrões arconídicos. Em compensação, reagia
a diversas formas de energia. Era capaz de localizar tanto um emissor
eletromagnético como uma fonte de gravitação. Mas durante as primeiras horas em
que foi posto a funcionar não acusou nada.
Rhodan não se sentia muito à
vontade. Enquanto não sabia onde estava o inimigo tinha que contar com a
possibilidade de que o acampamento se apresentava diante dele como se estivesse
em uma bandeja. Era bem possível que, enquanto os membros do grupo cansavam os
olhos de tanto procurar, os seres inimigos, fossem eles quem fossem, estivessem
ocultos em meio às montanhas, rindo daquela patrulha desajeitada, até o momento
em que se cansassem de rir, quando então passariam ao ataque.
O fato de que o local do
acampamento fora escolhido com vistas a todos os perigos e possibilidades de
ataque, era um consolo muito fraco. Não havia a menor garantia de que não
existia nenhuma brecha por onde o inimigo pudesse olhar.
* * *
No segundo período de trinta
horas, depois que tinham erguido o acampamento, voltaram a procurar.
Desta vez Tako e os dois
americanos tomaram a direção em que Bell, Rhodan e Manoli haviam procurado a
vez anterior, enquanto estes últimos subiram as montanhas pelas pegadas de
Tako.
A primeira parte da subida
pelas encostas ainda suaves daquele cume de treze mil metros foi fácil, mas
também inútil.
Contornaram uma extensa área
pedregosa e iniciaram a escalada da parte mais íngreme da montanha. Ainda se
encontravam a duzentos metros abaixo do local de que Tako voltara no dia
anterior.
Levaram uma hora para
atingi-lo. O lugar em que Tako havia encontrado a raposa era desinteressante e
não apresentava vestígios.
Estavam a ponto de retornar,
mas antes que iniciassem a descida Rhodan lançou mais um olhar para o alto e
estacou.
— Vejam!
Todos olharam para cima.
Levaram algum tempo para compreender o sentido das palavras de Rhodan.
A parte superior da encosta
parecia ficar mais para trás, isto é, mais ao norte que a parte inferior. Não
viram nenhum entalhe, e o cinza homogêneo da rocha não permitia qualquer
conclusão sobre a distância do desvio de uma das partes em relação à outra. De
qualquer maneira, lá em cima devia haver um planalto que não podia ser visto de
baixo.
Rhodan continuou a subida. A
encosta tornava-se cada vez mais difícil. Avançaram uns cem metros por uma
espécie de chaminé; mas os cinqüenta metros que ainda os separavam do planalto,
que agora se desenhava bem nítido diante deles, pareciam intransponíveis.
Finalmente o acaso veio em
seu auxílio. Esse acaso resultou de uma regulagem efetuada há bastante tempo em
determinada máquina.
Rhodan, que ia à frente dos
outros, foi o primeiro que sentiu a trepidação da rocha. Uma coisa ameaçadora
parecia avançar em sua direção. Agarrando-se com uma das mãos, Rhodan tirou a
pistola de radiação com a outra.
Subitamente ouviu um som borbulhante.
Virou a cabeça e viu que atrás dele o ar tremeluzia e a poeira saía entre duas
pedras.
Não havia nenhuma explicação para
o fenômeno. A temperatura do ar parecia ser superior à do ambiente, e tudo
indicava que saíra com enorme pressão entre as duas pedras. Rhodan ainda notou
que vários blocos de pedra colocados sobre a extremidade da chaminé de que
acabavam de sair devia servir para desviar o ar expelido pela mesma, fazendo-o
retornar para o seu interior.
Pelas pedras que o ar
arrastava consigo Rhodan concluiu que o ar quente desenvolvia uma pressão
enorme ao ser desviado e retornar para o interior da chaminé. Se ainda estivessem
lá dentro, não teriam resistido ao furacão.
O fenômeno durou cerca de
dois minutos. Depois os sons foram-se tornando mais fracos, o tremeluzir foi
cessando e tudo voltou ao silêncio. Como antes, a floresta jazia calmamente sob
a luz difusa filtrada pelas nuvens.
Nesses dois minutos ninguém
proferira uma palavra. Rhodan rompeu o silêncio. Apontando para as duas pedras,
disse:
— Talvez consigamos passar
por aí. Vamos! Se o vento voltar a soprar, segurem-se bem.
Procurando equilibrar-se,
foram avançando. Desta vez Rhodan seguiu em último lugar. Bell foi o primeiro
que atingiu a abertura entre as pedras. Lançou um olhar desconfiado para o
interior da mesma. Depois deu um passo e desapareceu.
Manoli seguiu-o, e depois
Rhodan. Descobriram que os dois blocos de pedra não eram outra coisa senão a
boca de um canal de cerca de metro e meio de largura, aberto na parte superior,
que subia suavemente. O chão e as paredes eram bastante lisas, o que dificultou
a escalada, embora a subida fosse suave.
Rhodan insistiu para que se
apressassem. Achou que a lisura da rocha podia ser explicada pelo polimento
resultante de correntezas de ar como a que acabaram de observar. Provavelmente
essas correntezas vinham a intervalos regulares, ou ao menos repetidamente em
certo espaço de tempo. Só assim o fluxo de ar poderia ter deixado vestígios
semelhantes aos da passagem da água.
Aos poucos a altura das
paredes foi diminuindo. Tudo indicava que o canal desembocava no planalto.
Essa expectativa não se
cumpriu inteiramente. A desembocadura ficava num paredão rompido por um buraco
irregular, mas esse paredão não tinha mais de metro e meio de altura. Com um
salto, Rhodan colocou-se na parte de cima.
Lá em cima havia uma
plataforma com a área de cerca de dez mil metros quadrados, que na parte dos
fundos terminava junto a uma parede de rocha em forma de ferradura. Ao primeiro
lance de vistas, Rhodan sentiu-se irritado pela lisura extraordinária do chão
de pedra. Ao segundo, descobriu uma série de aberturas rentes ao chão no
paredão que subia íngreme do outro lado da plataforma.
Ajoelhou-se e examinou o
chão. Não descobriu nada de extraordinário. Levantou-se e com um movimento de
cabeça apontou para as aberturas existentes no paredão.
— Vamos dar uma olhada
naquilo.
Sentiram-se tomados de uma
certa desconfiança quando foram caminhando lentamente em direção ao paredão. As
aberturas eram de formato irregular. Avançaram com as armas engatilhadas, pois
não confiavam naquela calma aparente.
Vistas de perto, as
aberturas, apesar do formato irregular, apresentavam um aspecto mais ou menos
circular. O diâmetro era de cerca de um metro. A distância do centro dos mesmos
ao nível da plataforma correspondia aproximadamente à altura de um homem. A
distância entre as aberturas era de uns oito metros.
A alguns metros do paredão,
Rhodan parou e levantou a mão. Bell estava à sua esquerda, Manoli à direita.
Rhodan tentou romper a escuridão que reinava no interior da abertura, mas não o
conseguiu.
— Vejo alguma coisa! — disse
Bell com a voz baixa.
Estava diante de outra
abertura. Rhodan foi para junto dele. Esforçando bastante a vista, viu no
interior da abertura um objeto cinzento. Não conseguiu descobrir o que era.
Fez sinal para que Bell e
Manoli parassem e continuou a avançar. Aproximou-se até chegar a apenas três
metros da abertura e não tirou os olhos da forma sombria.
Distinguiu um objeto
cilíndrico que saía da escuridão, terminando junto à abertura.
Quando descobriu o que se
tratava, sentiu-se tomado de pânico por um instante. Nunca vira um
desintegrador desse tamanho e, mais que isso, nunca se deparara com um que
apontasse tão diretamente para sua barriga.
Deu um enorme salto para a
frente, ao mesmo tempo que gritou para Bell e Manoli:
— Abriguem-se!
* * *
Antes disso, os seguintes
acontecimentos se desenrolaram no interior da montanha:
O equipamento de localização
automática observou alguma coisa e relatou ao comandante:
— Três seres penetram no
platô de aterrissagem através do canal de arejamento. São...
Seguiu-se uma descrição
detalhada daqueles seres, ou melhor, a trilha sonora de um filme que o
equipamento de localização remetia à sala de comando a partir do momento em que
Rhodan saltou por cima do paredão do canal.
Os ocupantes da sala de
comando não se deram por satisfeitos com o relatório. Exigiram dados mais
detalhados sobre os trajes daqueles seres estranhos.
O autômato realizou uma
localização estrutural e transmitiu o resultado.
Logo após recebeu a seguinte
ordem:
— Prossiga na localização e
transmita relatórios padronizados.
Efetuou a regulagem
correspondente.
Enquanto isso, o comandante
pôs em funcionamento outra linha de comunicação direta, através da qual
transmitiu instruções ao posto de combate do setor F:
— Alarma grau três. Regular
as peças para fogo dirigido. Só atirem por ordem expressa do comandante.
Pelos dados resultantes da
localização estrutural, o comandante concluíra que aqueles três seres não eram
daqueles em que se devia atirar sem mais aquela. Além disso, sentia-se um tanto
confuso. Teve de esforçar o cérebro para chegar à conclusão de que o simples
surgimento desses seres estranhos e o aspecto de seus trajes não lhe permitiam
formular qualquer juízo concludente. Depois de tantos anos que passara na paz
tranqüila daquela fortaleza, o comandante sentiu-se tomado de uma certa impaciência
ao dar-se conta de que teria de aguardar mais um pouco antes de satisfazer sua
curiosidade.
Dessa forma, tudo continuou
calmo. O comandante examinou o relatório ótico-eletrônico do localizador e
esperou.
* * *
Depois que ficara deitado de
bruços durante cinco minutos sem que acontecesse nada, Rhodan começou a achar
graça do susto por que acabara de passar.
Quem quer que tivesse
colocado o desintegrador naquele local, isso certamente fora feito na mesma
época em que o chão do platô tinha sido polido. Rhodan não tinha a menor idéia
quanto ao tempo durante o qual o granito polido tinha de ficar exposto às
intempéries antes que só restassem algumas manchas do polimento, mas tinha
certeza de que isso duraria mais de mil anos. Era pouco provável que o cano do
desintegrador, exposto às intempéries tal qual o granito, tivesse resistido
melhor que o polimento.
Levantou-se, mas teve uma
certa cautela, porque lembrou-se de que o reator gravitacional devia funcionar
perfeitamente quando desviou a Good Hope de sua rota.
Rolara para junto do paredão.
Ao levantar colocou-se ao lado da abertura. Lentamente foi se aproximando dela.
Milímetro por milímetro foi
avançando a cabeça pela borda e olhou para dentro. O cano do desintegrador
estava tão perto dele que poderia tocá-lo com a mão. Seu diâmetro era de pouco
mais de meio metro. Havia espaço suficiente para passar entre ele e a borda da
abertura.
Sem refletir muito no risco
que corria, Rhodan baixou a cabeça e saltou para dentro da abertura. Por um
segundo angustiante, seu corpo ficou exposto à arma. Com movimentos apressados
esgueirou-se junto ao cano, escorregou por cima do metal plastificado, muito
liso, e foi parar um tanto desajeitadamente no chão acidentado da caverna, na
qual a abertura parecia desempenhar a função de janela.
Aguardou a reação; não houve
nenhuma. Aproximou-se da abertura e chamou Bell e Manoli, pedindo-lhes que se
aproximassem. Por uma questão de cautela, fez-lhes sinal para que não se
expusessem diretamente ao desintegrador.
* * *
O comandante não deixou de
perceber o salto arriscado de Rhodan. Mais uma vez o relatório ininterrupto do
localizador automático deixou-o confuso. Era difícil de imaginar que alguém com
o aspecto e as vestimentas daquele estranho se arriscasse a passar bem à frente
do cano do desintegrador.
O comandante teve de
reconhecer que o comportamento daquele estranho não correspondia às suas
previsões. Mas ainda não dispunha de certas informações importantes, sem as
quais não estaria em condições de tomar uma decisão em relação a ele.
* * *
Não estavam prevenidos para
dar busca numa caverna. Em outras palavras, não haviam trazido a lanterna. A
luz crepuscular que filtrava pelas aberturas era bastante débil. A caverna
devia ter uns cinqüenta metros de largura e igual altura.
Atrás da segunda e da quinta
aberturas, contadas a partir do leste, havia um desintegrador. As quatro
aberturas restantes não pareciam preencher outra finalidade senão a de deixar
entrar um pouco de luz.
Rhodan examinou o
desintegrador junto ao qual penetrara na caverna. Fora construído segundo os
mesmos princípios dos aparelhos que, numa versão mais reduzida, se encontravam
a bordo da Good Hope. Mas Rhodan sabia que esse detalhe não constituía qualquer
indício válido da filiação racial de seus construtores.
Manoli e Bell puseram-se a
examinar as paredes da caverna e deram uma olhada em outro desintegrador.
No primeiro desses aparelhos
Rhodan já notara que não dispunha de qualquer dispositivo de comando. Outro
fato que lhe pareceu estranho foi o de estar preso ao solo, pelo que só poderia
atirar para a frente. Era bem verdade que essa desvantagem aparente poderia ser
compensada pela possibilidade de dar qualquer abertura ao ângulo de emissão do
campo cristálico-neutralizador. Dois desintegradores desses seriam mais que
suficientes para eliminar qualquer adversário que se encontrasse em qualquer
ponto do platô.
Mas a ausência de um
mecanismo de comando deixou-o estupefato. Certificou-se de que a caixa
existente na extremidade posterior da pesada arma só continha o gerador
destinado à produção do campo cristálico.
— Que decepção, não é? —
disse Bell.
— Por quê?
Bell sacudiu os braços.
— Esta caverna. Esperávamos
encontrar uma fortaleza poderosa, e tudo que vemos é um buraco na montanha.
Rhodan sorriu.
— Encontrou algum gerador
gravitacional?
— Que...
Subitamente uma luz
acendeu-se em sua mente. Deu uma palmada na testa.
— Ah, sim. Onde está o
gerador?
Rhodan ainda sorria.
— Provavelmente as pessoas
que construíram esta caverna contavam com uma reação igual à sua — prosseguiu.
— Qualquer um que não tenha passado pelas nossas experiências há de acreditar
que nada mais existe por aqui. Se, além de tudo, não souber o que é um
desintegrador, sairá decepcionado. Acontece que notei mais uma coisa.
Falou sobre a ausência do
mecanismo de comando.
— Isso significa que se trata
de um desintegrador teleguiado. A partir de onde é guiado? Não pode ser a
partir de qualquer canto desta caverna. Há outra coisa.
Passou a mão pelo cano do
desintegrador, liso como um espelho.
— O metal plastificado é um
material muito resistente. Dura um século sem entrar em decomposição. Mas se
este desintegrador existe desde o tempo em que aquele granito polido foi
colocado lá fora, será fácil imaginar como devia estar este metal plastificado,
a não ser que...
— A não ser quê...?
— A não ser que tenha uma
conservação muito cuidadosa.
Bell compreendeu o raciocínio
de Rhodan, mas Manoli ficou boquiaberto.
— Quer dizer que por aqui
existe gente que vem regularmente limpar estes canhões?
— É mais ou menos isso —
admitiu Rhodan.
— Mas onde está essa gente?
Rhodan deu de ombros.
— Não sou nenhum profeta.
Aliás, temos uma pergunta muito mais interessante: este desintegrador, se for
bem tratado, dá para atirar. Não fizeram nada disso. Se admitirmos que os seres
que habitam esta fortaleza raciocinam em termos de lógica humana, então é de
esperar que queiram entrar em contato conosco, já que se abstiveram de
quaisquer hostilidades. Onde estarão?
* * *
O comandante estava
esperando.
* * *
— Assim não conseguimos ir
adiante — constatou Rhodan, depois de ter realizado um exame prolongado e
improfícuo do chão e das paredes da caverna. — Vamos chamar Anne e Tako. Anne
poderia tentar localizar e ativar qualquer mecanismo destinado a abrir uma
passagem que se localizasse no alcance de sua atuação. Se esse mecanismo não
existir, teremos de pedir a Tako que penetre na montanha.
O rosto de Manoli exprimia
uma certa dúvida.
— É um comando suicida.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Nada disso! A capacidade de
Tako está sujeita a leis físicas. Não pode materializar-se no interior de uma
matéria estranha. Para isso dispõe de um freio de emergência. Se não houver
nenhum espaço no interior da montanha, logo encontrará o caminho de volta para
o ponto de partida.
— Não me refiro a isso; estou
aludindo àqueles seres estranhos — objetou Manoli.
— Eles não nos fizeram nada.
Por que fariam alguma coisa a ele?
Bell ofereceu outra sugestão.
— Por que não tentamos com os
nossos desintegradores? Poderíamos remover a parede, até encontrarmos a
abertura que nos levará adiante.
Rhodan confessou que já havia
pensado nisso.
— É um risco muito grande.
Esses seres poderiam pensar que queremos atacá-los, o que os levaria a revidar.
Evidentemente dispõem de armas mais potentes que nosso equipamento de bolso.
— É de supor que tenham
inteligência suficiente para saber que só queremos abrir caminho.
Rhodan concordou.
— Então?
Rhodan respondeu com um aceno
de cabeça. Bell ergueu o pequeno desintegrador que trazia na mão, apontou-o
para certa área da parede e comprimiu o gatilho.
Foi quando tiveram outra
surpresa, que não era menor que aquela causada pela descoberta da caverna e do
desintegrador gigante: a parede de rocha permaneceu inalterável.
Com um resmungo de raiva,
Bell abaixou a arma, correu até a parede e examinou o trecho sobre o qual
dirigira o desintegrador.
— Nada! — gritou com a voz
furiosa.
Sua raiva era tão grotesca
que Rhodan começou a rir.
Manoli estava tão perplexo
quanto Bell. Para ele, que não havia sido submetido ao treinamento hipnótico,
nada neste mundo poderia resistir a um desintegrador.
Uma vez dominada a raiva,
Bell procurou recorrer às informações armazenadas em sua memória.
— Então é isso! — resmungou.
— Recorreram à intensificação do campo cristálico. De onde virá a energia?
Rhodan limitou-se a dar de
ombros. Era perfeitamente possível neutralizar os efeitos de um desintegrador
de potência média, correspondente ao tipo portátil, através da intensificação
da estrutura cristálica, que a torna mais forte que a energia destrutiva do desintegrador.
Acontece que para uma parede dessa extensão era preciso um suprimento constante
de energia da ordem de dez milhões de quilowats, desde que se quisesse
protegê-la contra os efeitos de um desintegrador portátil até uma profundidade
de cinqüenta centímetros. Era uma quantidade considerável, ainda mais se
levarmos em conta que aquela parede só devia representar uma parte
insignificante da fortaleza.
O inimigo — Rhodan começou a
duvidar de que realmente se tratasse de um inimigo — devia dispor de reservas
energéticas praticamente inesgotáveis.
* * *
O observador ótico registrou
instantaneamente a tentativa de danificar a parede da caverna, realizada por
Bell. Uma vez que se tratava de um ato hostil, ou ao menos inamistoso, fez uma
advertência ao comandante através de uma ampliação dos impulsos.
Mas, tal qual Bell supusera,
o comandante possuía bastante capacidade de discernimento para perceber que
aqueles seres estranhos apenas procuravam um acesso para o interior da
montanha. Não expediu nenhuma ordem de fogo, mas admirou-se de que os estranhos
acreditassem que além da caverna existissem outros compartimentos. Depois de
observá-los por algum tempo, quase chegara a concluir que eram tão
subdesenvolvidos que logo abandonariam a caverna.
O fato de não terem procedido
assim, e de terem recorrido a um desintegrador para vencer a parede de rocha,
fê-lo concluir que esses seres não se enquadravam em nenhum dos esquemas
tradicionais. Portanto, só lhe restava esperar.
* * *
As pessoas que se encontravam
no acampamento foram avisadas. Assim que retornou com seu grupo, Tako assumiu o
comando. Mandou levantar as barracas e distribuiu o equipamento, para ser
transportado. Desta vez Tom teria uma tarefa difícil para vencer. Os paredões
de rocha daquela montanha de treze mil metros não constituíam um terreno
adequado para seu vulto avantajado. Houve necessidade de ativar um equipamento
auxiliar destinado a gerar uma gravidade artificial, o que diminuiria sua
capacidade de carga. Só assim conseguiria realizar a subida.
Na chaminé o transporte teve
de ser realizado exclusivamente pelos meios humanos. Tom aguardou pacientemente
na entrada até que os três americanos descessem cordas que o ajudaram a flutuar
paredão acima.
De qualquer maneira,
conseguiram realizar o transporte. Cinco horas depois de ter sido transmitida a
ordem de Rhodan, que mandou levantar o acampamento, as barracas e o equipamento
estavam depositados na plataforma. Tako e o resto do grupo esforçaram-se para
levantar Tom por cima do paredão de metro e meio existente na boca do canal.
* * *
O surgimento de Tom
representava outro enigma para o comandante. Era claro que já fora localizado
quando se deslocava pelo planalto. Mas o exame detalhado só se tornou possível
quando o aparelho foi colocado na plataforma.
Tom não combinava com as
observações que o localizador realizara naqueles seres estranhos, exceto nas
vestimentas.
Os estranhos pareciam ser
seres primitivos muito audaciosos, às vezes temerários, que não sentiam o menor
respeito pela técnica infinitamente superior corporificada nos desintegradores
gigantes. Os trajes que envergavam e o robô removedor não poderiam ter sido
produzidos por eles. Onde estariam os seres que fabricaram as vestimentas e os
robôs, sobre os quais o povo dos seres marinhos já prestara algumas
informações?
O comandante começou a
compreender que essa pergunta só seria respondida depois que tivesse localizado
a nave que há algum tempo ele tentara atrair para a plataforma por meio do raio
de sucção, já que as instruções que lhe haviam sido ministradas não lhe
permitiam abrir fogo contra um artefato desse tipo. Acontece que a nave
conseguira subtrair-se à ação do raio e pousar, não em qualquer lugar, mas num
excelente esconderijo. As indicações fornecidas pelos habitantes do mar correspondiam
ao estado primitivo desses seres. Eram tão imprecisas que o comandante só pôde
fornecer aos robôs uma indicação aproximativa da área em que devia ser
realizada a busca. Face a isso, a nave não fora descoberta, e a curiosidade do
comandante permanecia insatisfeita. Agora, porém, alguma coisa parecia
acontecer.
* * *
Estavam parados lado a lado
junto ao paredão quase vertical existente nos fundos da plataforma. A dois
metros deles ficava a abertura onde se encontrava o desintegrador do lado
ocidental.
Estava anoitecendo. Rhodan
lançou um olhar perscrutador para o céu. As nuvens estavam muito baixas, a uns
duzentos ou trezentos metros acima deles. Seria preferível que na hora em que
as tormentas crepusculares começassem a soprar já dispusessem de um abrigo
melhor que aquela caverna com as seis aberturas.
— Quer tentar? — perguntou,
dirigindo-se a Anne.
Anne fez que sim. Rhodan
afastou-se e sentou no chão para não perturbar o trabalho da moça.
Anne fechou os olhos e
começou a procurar. Algum tempo se passou sem que tivesse qualquer impressão,
mas enquanto ia se concentrando, o conteúdo daquela montanha desenhava-se com
nitidez cada vez maior em seu espírito.
Evidentemente não se tratava
de uma visão. Era antes um sentir e um tatear, uma capacidade perceptiva
incompreensível ao homem comum, que se relacionava com a telecinese.
Anne apalpou o corredor que
começava logo atrás da parede da caverna, conduzindo para o interior da
montanha. Supôs que devia haver uma porta no lugar em que terminava numa
parede. Procurou localizar o mecanismo que a abria. Não o encontrou e,
esgotada, teve de interromper a experiência.
Descansou um pouco e começou
de novo. Desta vez encontrou um corredor mais amplo, que atingia a parede a uns
dez metros à direita do primeiro. Realizou nova tentativa, que também se
revelou inútil.
Encontrou um terceiro
corredor, e depois um quarto. Não havia nada na estrutura dos trechos de parede
em que terminavam que revelasse tratar-se de portas e, mais que isso, não
encontrou coisa alguma com que pudesse abri-las.
A mente de Anne penetrou nos
corredores e seguiu-os até onde isso foi possível. Sua capacidade rastreadora
tinha um alcance de cerca de trinta metros. Dali em diante tornava-se menos
nítida, até cessar por completo.
A trinta metros de distância
o feitio dos corredores era idêntico ao que se observava junto à parede. As
paredes eram compactas. Anne não descobriu qualquer indicação da sua finalidade
ou do lugar para onde conduziam.
A busca mental durara cerca
de hora e meia. Anne estava tão exausta que teve que deitar imediatamente numa
barraca montada no interior da caverna. Rhodan gostaria de ouvir mais alguma
coisa, mas Anne limitou-se a murmurar “nada” e adormeceu.
* * *
O comandante não teve
conhecimento das tentativas de Anne. Os localizadores mecânicos não seriam
capazes de detectar a tentativa de um telecineta que, por meio de suas
capacidades extraordinárias, procurasse penetrar na fortaleza.
O comandante surpreendeu-se
com a inatividade aparente dos estranhos. Depois da atividade febril que
desenvolveram no início, esperava coisa diferente.
VI
Quando Anne despertou, as
últimas horas do dia chegavam ao fim. De tão esgotada que ficara, havia dormido
quase vinte horas.
Rhodan aproveitara o tempo,
embora não pela forma prevista. Toda a bagagem foi introduzida na caverna, para
que Tom pudesse entrar. Após isso, as aberturas foram fechadas com pedaços de
lona. Não resistiriam à tempestade por mais de quinze minutos, mas quinze
minutos de tempestade representavam um tempo considerável.
Quando Anne acordou, Rhodan
informou-a sobre suas descobertas. Estava muito abatida.
— Você perdeu muito tempo,
não é? — perguntou. — E foi por minha causa.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Anne, para nós você vale
tanto que não hesitaríamos em deixá-la dormir um dia inteiro, um dia de Vênus.
— Obrigada. Quer pedir a Tako
que venha até aqui?
Rhodan fez que sim.
— Está disposto a sair?
— Perfeitamente. Apenas
espera que o informe sobre aquilo que você observou.
Rhodan saiu da barraca. Tako
estava esperando junto à parede da caverna. Rhodan explicou-lhe o que Anne
conseguira descobrir. Tako respondeu com um aceno de cabeça.
— Esteja de volta dentro de
uma hora no máximo! — insistiu Rhodan. — Se demorar mais, suporemos que alguma
coisa lhe aconteceu.
O rosto largo de Tako
abriu-se num sorriso.
— O que pretende fazer se
isso acontecer?
Rhodan não se perturbou.
— Encontraremos um meio —
respondeu. — Pode confiar em nós.
— Está bem — respondeu Tako.
— Até daqui a uma hora, o mais tardar.
No mesmo instante
desapareceu.
O rosto de Rhodan tornou-se
muito sério. Tinha certeza de que descobriria um meio de ajudar Tako, se algo
lhe acontecesse.
* * *
Tako sentiu-se tomado de
pavor; ficou arrepiado. Sentiu um golpe quando seu primeiro salto teleportado
sofreu um desvio que evitou sua rematerialização no interior de uma matéria
estranha.
Dali a um segundo voltou à
imobilidade. Estendeu os braços e com a mão esquerda apalpou alguma coisa que
parecia uma pedra lisa.
A escuridão era completa.
Tako sabia que continuaria assim. Num ambiente em que não penetra o menor raio
de luz o olho não pode acostumar-se à escuridão. Teria de encontrar seu caminho
às apalpadelas, até vencer o receio de usar a lanterna.
Por um instante permaneceu
imóvel e aguçou o ouvido. Mas a ausência de ruídos era tão completa como a de
luz.
Sentiu um cheiro estranho que
penetrava o interior daquela montanha. Procurou analisá-lo. A única conclusão a
que chegou foi que nunca sentira um odor semelhante.
Tateando, deslocou-se para a
direita, mas também encontrou um obstáculo. Atrás dele e à sua frente não havia
nada. Isso significava que se encontrava num corredor.
Voltou a aguçar o ouvido.
Como ainda desta vez não ouvisse nada, acendeu a lanterna. Regulou-a de forma a
só emitir um feixe de luz fraco e bem aberto, que bastaria para orientá-lo, mas
não era visível à distância.
Mesmo à luz da lanterna, não
conseguiu ver o fim do corredor, nem descobriu nada de extraordinário.
Continuou avançando. À medida que o tempo passava sem que fosse molestado, o
medo ia diminuindo. Depois de ter caminhado durante dez minutos, repreendeu-se
pelo medo que sentira no início.
* * *
A invasão de Tako foi
detectada instantaneamente pelo localizador automático. A notícia foi
transmitida ao comandante, numa faixa de amplitude que chegou a ser dolorosa.
O comandante não viu nenhum
perigo no fato de um único homem ter penetrado na fortaleza, mas finalmente
teria possibilidade de descobrir alguma coisa sobre as intenções daqueles seres
estranhos, sobre sua origem e principalmente sobre as características dos seres
que lhes haviam fornecido o equipamento.
Receava que essas informações
não fossem muito agradáveis. Provavelmente se constataria que os estranhos
haviam aprisionado os dois seres que constituíam o alvo principal do interesse
do comandante, obrigando-os a entregar-lhes seu equipamento.
Face a essa suposição, que um
ligeiro processamento dos dados disponíveis transformou numa probabilidade
bastante elevada, Tako tornou-se alvo de medidas mais rigorosas que as que
seriam adotadas se o comandante conhecesse a situação real.
Ordenou ao destacamento
policial que capturasse o invasor. Os policiais obedeceram imediatamente.
* * *
Tako indagou de si para si de
que serviria essa marcha pelo corredor escuro, onde já ia tateando há uns vinte
minutos.
As paredes eram lisas, mas
não eram de pedra natural, como acreditara no início. Estavam cobertas de uma
camada de metal plastificado. Não descobriu outros detalhes. Não havia portas,
nem instrumentos embutidos na parede. Absolutamente nada.
Até onde atingia a luz da
lanterna, — Tako já se arriscara a regulá-la para um feixe de luz estreito, mas
potente — o quadro era o mesmo. Chegou a acreditar que, se andasse mais um
trecho, o corredor terminaria em outra parede, igual à que devia existir atrás
dele e que, teleportando-se através dela, atingiria o ar livre do outro lado do
morro.
“De que pode servir um
corredor que simplesmente atravessa o morro?”, pensou.
Voltou a concentrar a atenção
sobre as paredes do corredor. Pensou que nos outros pontos não as tivesse
examinado com bastante atenção.
Mas as paredes continuavam
lisas e compactas como antes.
* * *
Os policiais receberam
instruções diretamente do comandante.
Sabiam que o invasor era um
teleportador natural. Por isso não bastaria agarrá-lo; teriam que deixá-lo
inconsciente, para que não pudesse utilizar seus dons.
Também sabiam que usava uma
lanterna para iluminar o corredor. Dessa forma, não poderiam aguardá-lo em
qualquer lugar. Teriam de postar-se num corredor lateral e golpeá-lo no
instante exato.
Finalmente sabiam que o
invasor estava armado. Pelas indicações que o localizador pôde colher, a arma
que trazia devia ser de elevada potência. Os policiais estavam treinados para
manter a ordem na fortaleza, se necessário com o sacrifício da própria vida.
Mas um instante poderoso dizia-lhes que, sempre que possível, deviam manter-se
afastados dos desintegradores.
Os dez policiais que o
comandante destacara para a captura do invasor postaram-se, cinco a cinco, em
dois corredores laterais opostos, que desembocavam no corredor pelo qual Tako
se deslocava.
Calmamente aguardaram que o
comandante lhes desse ordem para abrir a porta e agarrar o estranho.
* * *
Tako estava prestes a voltar.
Achava inútil percorrer vários quilômetros num corredor completamente vazio.
Gostaria que Perry Rhodan
estivesse ao seu lado. Talvez este tivesse alguma idéia de como lidar com
aquelas paredes.
Parou e voltou-se. Atrás e
diante dele, o corredor entediante estendia-se. Um quilômetro já ficara atrás,
e para diante só o demônio saberia dizer quanto faltava.
Concentrou-se sobre a caverna
de onde partira e esteve a ponto de teleportar-se para lá, quando ouviu um
ruído ao seu lado.
Virou-se abruptamente e
arregalou os olhos para a grande abertura que se formara na parede. Seres que
nunca vira antes aproximaram-se à luz da lanterna.
Provavelmente poderia ter-se
salvado, se dois impulsos não se tivessem sobreposto em sua mente. Ficou sem
saber se devia sacar o desintegrador para livrar-se dos atacantes ou escapar
por meio de um salto teleportado. Foi quando uma coisa dolorosa atingiu-o nas
costas, imobilizou-o e o fez mergulhar em profunda inconsciência.
As instruções do comandante
chegaram imediatamente.
— Transportar prisioneiro ao
setor A, pavimento XIV, corredor 2, compartimento 331.
Dois dos policiais levantaram
o homem inconsciente. O grupo entrou em formação e pôs-se em marcha. Desta vez
os dez homens seguiram na mesma direção, dispondo-se a executar as ordens do
comandante.
O grupo encontrava-se no
setor F, perto do lugar em que todos os setores daquele complexo circular se
encontravam no centro do círculo. E o pavimento era o de número XXI.
No corredor que os policiais
haviam atravessado, a uns cinqüenta metros do lugar em que Tako fora agarrado
de surpresa, havia um elevador que funcionava com base na eliminação da
gravidade. A plataforma que se movia sob o influxo de um campo gravitacional
artificial tinha uma área suficiente para abrigar os dez policiais e o
prisioneiro.
A viagem ao pavimento XIV só
durou alguns segundos. Os policiais dirigiram-se para a direita. No momento em
que atingiram o compartimento 331 do corredor 2 e a porta abriu-se diante
deles, receberam uma ordem:
— Preparar o prisioneiro para
o interrogatório.
Verificou-se que a iluminação
do complexo não fora colocada fora de funcionamento. Apenas era utilizada em
ocasiões especiais, pois subitamente uma profusão de lâmpadas espalhou uma luz
branco-leitosa na sala de interrogatórios.
Os policiais colocaram Tako
sobre uma peça de móvel que se pareceria com uma cama, se não estivesse munida
de uma série de instrumentos. Puseram-lhe um capacete e ligaram um dos fios
vermelhos que o uniam a um dos instrumentos.
Logo reportaram ao
comandante:
— Ordens cumpridas.
O comandante respondeu:
— Voltem aos seus postos.
* * *
Não foi pequena a surpresa do
comandante ao tomar conhecimento da resposta de Tako à pergunta formulada por
via hipnótica. Teve de rever sua opinião sobre a maneira pela qual os dois
seres que haviam fornecido o equipamento técnico se tinham encontrado com os
membros do grupo. Ele o fez com a maior rapidez.
Todavia, não se devia
esquecer que os estranhos que se encontravam no interior da caverna nada sabiam
dessa revisão. Por intermédio de Tako, o comandante soube que para os seres
estranhos, as instalações encravadas na montanha eram uma base inimiga. Por
isso seria um erro abrir-lhes as portas sem mais aquela.
Fez seus preparativos e
dispôs-se a estabelecer contacto com os estranhos.
* * *
Uma hora se passou sem que
Tako voltasse. Rhodan começou a inquietar-se.
Nesse meio tempo haviam
recebido o sinal codificado da Good Hope e respondido ao mesmo. A bordo da nave
tudo parecia estar na mais perfeita ordem. Antes que atingissem o planalto,
Rhodan e Crest combinaram que as mensagens radiofônicas trocadas de hora em
hora seriam substituídas por um simples sinal. Seria muito mais difícil captar
e localizar um sinal breve que uma palestra prolongada.
Pelo mesmo motivo, Tako não
levava nenhum equipamento de radiotransmissão.
Só Anne Sloane conseguira
acompanhá-lo por algum tempo através do rastreamento telecinético. Mas já fazia
mais de cinqüenta minutos que ele se encontrava fora do seu alcance.
Rhodan começou a compreender
que não teria outra alternativa senão solicitar a presença da Good Hope, fosse
qual fosse o risco. Só mesmo os instrumentos potentes que a nave trazia a bordo
poderiam ser capazes de romper aquelas paredes e penetrar no interior da
montanha.
Foi uma decisão difícil;
Rhodan consumiu alguns minutos para justificá-la perante sua consciência.
Depois de algum tempo sentou
diante do radiotransmissor e dispôs-se a transmitir a Crest e Thora um relato
minucioso, acompanhado de um pedido de socorro.
Foi quando Bell irrompeu na
barraca.
— A parede! — disse ofegando.
— A parede está aberta.
Rhodan saiu de trás do
transmissor e, passando junto a Bell, precipitou-se para fora da barraca.
Alguém ligara um refletor portátil que iluminava um pedaço da parede. Bem no
meio da área iluminada via-se uma abertura.
Rhodan não hesitou.
— Preparar para a partida! —
gritou com a voz retumbante. — Peguem lanternas, armas e um radiotransmissor.
Rápido!
Não tinha a menor idéia de
como surgira a abertura na parede. Talvez Tako tivesse localizado o mecanismo
que movimentava a porta. Mas se fosse assim seria difícil de compreender por
que não retornara no tempo combinado.
Apesar disso, não refletiu.
Mesmo que a abertura não passasse de uma armadilha, o grupo, equipado com
aquele armamento, tinha boas chances diante do inimigo.
Dentro de poucos minutos
estavam prontos para partir. As primeiras rajadas da tempestade varreram a
plataforma quando o grupo, com Rhodan na ponta, penetrou na escuridão.
Anne Sloane vinha logo atrás
de Rhodan. Este pedira-lhe que estendesse suas “antenas” para todos os lados,
procurando localizar qualquer coisa que pudesse representar um perigo.
Anne não podia enxergar
através de uma parede compacta, mas sua capacidade telecinética fazia com que
identificasse qualquer área em que estivesse ausente a resistência ao
tateamento.
A seguir vinha Manoli e os três
americanos. Reginald Bell formava a retaguarda.
Avançaram cerca de trinta
metros à luz do refletor, que Rhodan segurava com o braço estendido para o
lado, a fim de não oferecer um alvo ao ataque. Subitamente e sem qualquer
aviso, uma mortiça luz branco-leitosa parecia sair das paredes.
Rhodan estacou; mas, além da
luz, não houve qualquer surpresa.
Provavelmente tinham passado
por cima de um contato.
— Aqui há um corredor lateral
— cochichou Anne — e do outro lado também.
— Está vazio? — perguntou
Rhodan desconfiado.
Anne fez que sim.
Rhodan compreendeu que nenhum
dos dois corredores lhe serviria de nada. Também aqui não se via qualquer
mecanismo acionador das portas. Continuariam pelo mesmo corredor, até que
chegassem a uma encruzilhada onde houvesse uma entrada mais convidativa que
esta.
Dali em diante Anne passou a
registrar a intervalos regulares corredores laterais fechados. Com base nos
dados por ela fornecidos, Rhodan pôde traçar um quadro mental do complexo. De
início Anne teve a impressão de que os corredores laterais prosseguiam em linha
reta, mas, à medida que avançavam, tornava-se cada vez mais evidente que
descreviam uma curva. Para Rhodan não havia mais dúvida de que a fortaleza
cavada na montanha era de forma circular. Havia corredores radiais como o que
estavam percorrendo, que se dirigiam ao centro do círculo, e corredores
laterais, de formato circular, que ligavam os corredores radiais a intervalos
regulares.
Atrás das paredes situadas
entre os corredores radiais e laterais devia haver salas. Rhodan bem que
gostaria de dar uma olhada numa delas. Mas nas paredes não havia o menor
indício da existência de portas, e uma ligeira salva de desintegrador deixou
claro que a estabilização do campo cristalino no interior da montanha era tão
eficiente como na caverna.
Estavam andando há cerca de
meia hora e deviam ter percorrido uns dois ou três quilômetros. Anne parou tão
abruptamente que os que vinham atrás esbarraram nela.
— Parem!
Rhodan virou-se.
Anne apontou para a parede.
— Aquele corredor não está
vazio. Há gente por ali.
— Gente?
Anne fechou os olhos e
procurou concentrar-se. Tateou os corpos que se encontravam do outro lado da
parede e procurou determinar sua forma. Era bastante estranha, mas não havia
dúvida de que aqueles seres desconhecidos guardavam certa semelhança com os
homens.
Mas não se moviam.
Permaneciam rígidos como cadáveres. Um calafrio passou pela espinha de Anne,
que relatou:
— São semelhantes aos homens.
Mas não se movem.
Rhodan resolveu não se
preocupar com aqueles vultos estranhos. Mandou que o grupo prosseguisse na sua
marcha.
* * *
Com certa inquietação o
comandante constatou que o grupo de estranhos parou justamente diante do
corredor lateral em que postara o primeiro destacamento de policiais.
Seria uma coincidência? Os localizadores
não puderam fornecer qualquer indicação sobre a maneira pela qual os estranhos
poderiam ter notado a presença dos policiais. Só podia ser coincidência.
Abriu a porta de um elevador
e esperou que o grupo de estranhos o atingisse. Enquanto iam descendo ordenou
aos policiais que saíssem do corredor lateral e bloqueassem o corredor radial
atrás do grupo.
* * *
A porta tinha mais de dois
metros de altura e pelo menos três de largura. Atrás dela havia um
compartimento sem teto, em forma de caixote. Rhodan enfiou a cabeça e sentiu a
estranha sucção na nuca, provocada pela ausência de gravidade no interior do
poço.
Era um poço de elevador.
Nas paredes não havia
qualquer indicação sobre a maneira de comandar o elevador. Rhodan fez sinal
para que os membros do grupo se aproximassem e ordenou-lhes que saltassem ao
mesmo tempo sobre a prancha.
Por um instante parecia que o
elevador não se movia. Mas de repente ele o fez com tamanha rapidez que todo
mundo pensou que alguém lhes arrancara o apoio sob os pés.
A viagem só durou alguns
segundos. Pela movimentação da parede Rhodan calculou que haviam vencido uma
diferença de altitude de cerca de cem metros. No lugar em que o elevador parou,
viram diante de si um corredor igual aos que já haviam percorrido. Era igual,
exceto...
— Olhem ali atrás! —
sussurrou Bell.
Desta vez não precisaram do
poder sobrenatural de Anne. Os seres estranhos estavam bem à vista. Parados do
lado esquerdo do corredor, a uns vinte metros do elevador, não faziam o menor
movimento.
Tinham formato humano, mas os
rostos eram escuros e bexiguentos. Ao que parecia, não usavam nenhuma roupa. A
pele nua brilhava em toda a extensão, exceto nas manchas escuras que lhes
cobriam o corpo.
Num movimento instantâneo
Bell levantou a arma. Ainda assim os estranhos permaneceram imóveis.
Rhodan destacou-se do grupo e
caminhou na direção deles. Deixaram que se aproximasse a dez metros, depois
executaram o primeiro movimento. Levantaram os braços. Rhodan percebeu que
estavam armados. Traziam as armas apontadas em sua direção.
Rhodan deu de ombros e voltou
atrás.
Do outro lado, o corredor
estava vazio.
— Quem sabe se não vamos cair
numa armadilha? — disse Bell com a voz furiosa.
— O que podemos fazer? —
perguntou Rhodan. — Trocar tiros com eles? Não temos um palmo de cobertura.
— Como não? O elevador...
Virou-se abruptamente. O
elevador havia desaparecido. A porta fechara-se diante dele. A parede voltara a
ser tão lisa como as outras paredes daquela fortaleza.
— Que porcaria!
Foram caminhando para a
direita. Os seres estranhos também se moveram, seguindo-os com os passos
hesitantes.
Rhodan começou a
inquietar-se. O corredor prosseguia em linha reta até onde alcançava a vista.
Não havia nenhum ponto em que pudessem abrigar-se.
Se a única intenção desses
seres medonhos fosse atraí-los para uma armadilha, não teriam muita dificuldade
em conseguir seu intento. Na situação atual, Rhodan preferia deixar que o
aprisionassem sem resistência a arriscar a vida de seus homens numa luta em que
não teriam a menor chance.
Provavelmente a fortaleza
estava repleta daqueles seres estranhos. Se parassem em determinado ponto do
corredor para defender-se, a parede poderia abrir-se naquele mesmo lugar e
expelir um montão de inimigos.
As forças de Anne começaram a
diminuir. A tensão ininterrupta deixara-a cansada. Rhodan preferiu poupá-la,
para poder recorrer a ela quando tivesse muita necessidade.
* * *
Como Rhodan avançasse
devagar, o comandante teve tempo de ampliar os conhecimentos extraídos do
cérebro de Tako Kakuta.
Constatou que o cérebro de
Tako registrava o conhecimento completo de duas línguas e noções fragmentárias
de uma terceira. Procurou combinar as duas línguas que ali se achavam completas
e ligá-las a uma raiz comum; não o conseguiu. Isso deixou-o surpreso.
Transmitiu os conhecimentos
lingüísticos recém-adquiridos a dois oficiais e mandou que fossem ao encontro
dos seres estranhos.
— Parem! — gritou Rhodan
quando os dois vultos surgiram no corredor.
Os dois oficiais avançaram
com as mãos levantadas. Rhodan aguardou-os à frente do grupo, de arma em punho.
Notou que tinham a pela clara
e, ao contrário do destacamento que ficara para trás, usavam um certo tipo de
roupa. Além disso, seus rostos não eram bexiguentos.
Procurou decifrar suas
fisionomias, mas viu apenas um sorriso amável e inexpressivo, que não permitia
qualquer conclusão sobre suas reais intenções.
Os dois homens não usavam
barba nem bigode. Tinham a testa mais alta que a dos terráqueos, mas quanto ao
mais poderiam ser confundidos perfeitamente com homens europeus, americanos ou
australianos.
Pararam a alguns metros de
Rhodan. Um deles disse algumas palavras numa língua clara e melodiosa. Calou-se
e esperou pela resposta de Rhodan.
Este não entendera nada. Sob
o aspecto fonético, a língua falada por aquele estranho se parecia com o
japonês ou o coreano. Acontece que Rhodan não dominava nenhuma dessas línguas,
e além disso achava pouco provável que naquela fortaleza houvesse alguém que
falasse justamente o japonês ou o coreano.
Depois que Rhodan permaneceu
calado por algum tempo, o outro estranho começou a falar:
— O comandante pede que
tenham a bondade de ir ao lugar em que se encontra. Manda dar-lhes as
boas-vindas como seus hóspedes. Não têm nada a temer.
Por uma fração de segundo
Rhodan ficou perplexo. Enquanto atrás dele o espanto ainda se manifestava em
sons ofegantes e assustados, já compreendera o que havia acontecido. Tinham
aprisionado Tako, ou então conservavam-no consigo por sua livre vontade, e de
seu cérebro extraíram as línguas que ele dominava: o japonês e o inglês.
Rhodan refletiu febrilmente.
Não havia nenhum motivo para supor que o comandante da fortaleza não tinha
qualquer intenção hostil. O convite de entrar na armadilha poderia ser adoçado
por meio de palavras amáveis. Se fosse assim, poupariam muito trabalho ao
inimigo caso aceitassem seu convite.
Apesar de tudo Rhodan
respondeu:
— Ficamos muito gratos ao seu
comandante. Querem fazer o favor de levar-nos para junto dele?
— Queiram acompanhar-nos —
disse o estranho que falava o inglês.
Virou-se e seguiu juntamente
com seu acompanhante pelo caminho por onde tinham vindo. Rhodan e os outros
membros do grupo foram atrás deles.
Virando a cabeça ligeiramente
para o lado, Rhodan disse com a voz baixa:
— Preparem-se. É bem possível
que queiram tentar um truque.
Alguém resmungou algumas
palavras de assentimento. Bell disse:
— Devíamos ter perguntado
onde está Tako.
— No momento isso não
adiantaria — disse Rhodan em tom apressado.
Na luz difusa do corredor
tornava-se difícil calcular as distâncias. Por algum tempo parecia que o
corredor continuava por alguns quilômetros numa reta contínua. Mas ainda não
tinham caminhado dois minutos depois do encontro com os estranhos, quando
alguns contornos começaram a desenhar-se diante deles. Poucos instantes depois
o corredor desembocou numa praça cuja extensão era considerável.
À primeira vista parecia ter
formato retangular, medindo uns quinhentos metros para a esquerda e para a
direita, e duzentos metros de largura. Mas logo constataram que a praça não
passava de um tipo de corredor circular, que contornava um edifício também
circular que se encontrava no centro.
Os dois estranhos
atravessaram a praça. A patrulha acompanhou-os. Rhodan lançou os olhos em
torno. Ficou espantado ao constatar que a altura da praça, ou corredor
circular, era de pelo menos cinqüenta metros, e que a intervalos de cerca de
doze metros havia galerias cavadas nas paredes, onde desembocavam os corredores
de outros pavimentes.
Tudo indicava que se
aproximavam do centro da fortaleza. Rhodan ficou curioso para saber o que
encontrariam no interior do edifício situado no centro da praça.
Tinha a altura da praça, e em
certos pontos parecia mesmo que rompia o teto da mesma. Suas paredes não
apresentavam emendas, tal qual acontecia com as demais paredes daquela
fortaleza. Quando os dois estranhos atingiram o edifício, depois de terem
cruzado a praça, uma das paredes abriu-se diante deles e deixou à vista um
salão imenso, muito mais iluminado que os recintos que Rhodan e os membros de
seu grupo tinham visto até então.
Apesar do tamanho descomunal,
o salão só ocupava uma parte minúscula do edifício. Assim que penetrou pela
grande abertura que se formara diante dos dois estranhos, percebeu a finalidade
daquele edifício.
A parede dos fundos, que
media cerca de trinta metros de largura e quinze de altura, era um único painel
de instrumentos, semelhante ao que se encontrava, em versão muito mais
reduzida, na sala de comando da Good Hope. Um tipo de quadro de comando
avançava uns dois metros da parede para fora; à direita e à esquerda do mesmo
viam-se pequenas plataformas, que devia servir para levar as pessoas que ali
trabalhavam de um a outro ponto do gigantesco painel.
Rhodan percebeu imediatamente
que a sala de comando em que se encontravam devia pertencer a um dos maiores
cérebros positrônicos jamais construídos na galáxia.
Assim que chegaram ao centro
da sala, os estranhos pararam. Esperaram que Rhodan e os membros de seu grupo
se aproximassem. Depois um deles fez um gesto grandioso em direção ao painel e
disse:
— Eis aí o comandante. Sente
muito prazer em tê-lo diante de si.
* * *
O resto dos dias passados na
fortaleza decorreu num assombro incessante causado pelas maravilhas técnicas
que a montanha abrigava.
Rhodan e Bell, que haviam
recebido instrução arconídica, espantaram-se menos com as maravilhas que com o
fato de as encontrarem justamente em Vênus.
O comandante, que gostava
tanto de receber informações como de dá-las, deu a entender que seus
construtores foram arcônidas pertencentes à mesma raça de Crest e Thora. Estes
haviam decolado com a Good Hope assim que Rhodan os avisou da descoberta,
pousando sem incidentes na plataforma diante da caverna.
Para Rhodan o fato de pela
primeira vez ver Crest espantado de verdade foi um grande acontecimento. Crest
não compreendia que parte da história colonial dos arcônidas, por mais
insignificante que fosse e por mais recuada que ficasse no passado, tivesse
escapado aos registros históricos. A observação um tanto irônica de Rhodan, de
que mesmo a máquina mais bem regulada pode cometer um engano, correspondia ao
curso do pensamento humano-terreno, o que impediu Crest de aceitá-la.
Mergulhou afoitamente nas
informações históricas que o comandante — para Crest era o maior cérebro
positrônico que já vira, além do grande cérebro central localizado em Árcon —
lhe ministrava com a maior boa vontade, em forma de relatórios falados numa
língua que o tradutor robotizado da Good Hope identificara como o intercosmo
antigo, e ainda sob a forma de filmes e fitas magnéticas, cujo conteúdo foi
assimilado pelos estudiosos nos moldes da instrução hipnótica.
Sem que o soubesse, Crest realizou
por essa forma uma divisão de trabalho que lhes poupou bastante tempo, pois
permitiu que, além do levantamento dos dados históricos, também coletassem os
dados puramente materiais.
Seguindo as informações
transmitidas por Crest, revistaram pavimento por pavimento, setor por setor,
corredor por corredor da enorme fortaleza e levantaram o inventário de tudo que
encontravam. Só levaram algumas horas para constatar que por ali havia material
suficiente para que a Terceira Potência superasse as dificuldades dos estágios
iniciais.
Naturalmente Tako Kakuta foi
libertado, depois de recuperar-se do esgotamento causado pelo interrogatório
hipnótico. Tal qual os outros membros da patrulha, passou a ocupar um camarote
residencial que o comandante lhe destinara no décimo pavimento.
Os outros membros do grupo
foram passando o tempo, conforme lhes dava na cabeça, no interior dos enormes
salões da fortaleza. Uma vez obtidas as indicações necessárias, as portas
embutidas nas paredes inteiriças não representavam mais nenhum obstáculo. Sua
atividade não passava dum tatear infantil em meio às maravilhas da técnica. No
entanto, ao menos um fato deixou-os mais tranqüilos: o comandante ordenara que
os policiais bexiguentos retornassem aos seus alojamentos, para que não os
assustassem mais.
Os policiais não passavam de
robôs que resistiram ao longo tempo decorrido desde a construção da fortaleza.
No interior dela não havia um único ser vivo. O que existia era um gigantesco
cérebro positrônico, o comandante, e
um exército de robôs. Nada mais. Os setores de reparos providenciavam para que
todo o equipamento atravessasse os milênios sem sofrer maiores danos. Apenas, o
comandante não atribuía maior importância ao revestimento orgânico em forma de
pele que cobria o corpo metálico dos robôs, e por isso não ordenara uma
conservação mais cuidadosa do mesmo. Assim, o plástico orgânico escurecera e se
abrira em furos, ou em bexigas, conforme diziam os terráqueos com base numa
primeira impressão. Os oficiais robotizados, que desempenhavam funções muito
mais complexas, constituíam a única exceção.
* * *
Certo dia Crest saiu das
salas de instrução cansado, mas radiante. Declarou-se disposto a informar os
membros da patrulha sobre todos os detalhes de que ficara sabendo através das
anotações encontradas na fortaleza.
Essa forma de transmissão de
conhecimentos tornava-se necessária porque além de Bell e Rhodan nenhum dos
terráqueos estava em condições de submeter-se aos impulsos hipnóticos dos
arcônidas.
Reuniram-se na sala que tinha
uma das paredes coberta pelo painel do cérebro positrônico. Todos compareceram,
exceto Thora.
Esta aparecera raras vezes,
desde que a Good Hope pousara na plataforma. Rhodan pensava que sabia o que
estava procurando. Uma vez que conhecia melhor os depósitos de equipamentos
técnicos da fortaleza, teve compaixão dela por causa de suas esperanças vãs.
Crest fez seu relatório em
inglês. Adquirira um domínio perfeito dessa língua; ninguém poderia apontar o
menor erro em sua exposição.
— Esta base — principiou —
tem uma idade de cerca de dez mil anos, segundo a escala de tempo dos senhores.
Pelos dados da história do Império Galáctico, data do primeiro período de
colonização. O destino da frota colonizadora que pousou neste planeta era
outro. Interrompeu sua viagem por entender que o terceiro planeta deste sistema
solar constituía um objetivo mais desejável que o mundo que lhes fora indicado
com base nos mapas estelares dos arcônidas.
“No entanto, ao
aproximarem-se do terceiro planeta, que é a Terra, constataram que o mesmo
estava habitado. Por isso realizaram um pouso em Vênus, onde iniciaram os
preparativos para a colonização deste mundo. Aqui instalaram uma base
secundária, que é precisamente a fortaleza em cujo interior nos encontramos. Os
arcônidas, em número de duzentos mil, segundo revelam as crônicas, colonizaram
um dos continentes da Terra. Pelo que sei, o mesmo não existe mais. Naquela
época recuada formava a ponte entre as terras afro-européias e as americanas.
“Mas essa colônia teve uma
curta duração. Mais tarde poderão informar-se sobre os detalhes da catástrofe
que a destruiu e afetou toda a Terra. Só cinco por cento dos arcônidas
sobreviveram à catástrofe e retornaram a Vênus. Falaram num ataque de seres
invisíveis. É claro que com isso apenas quiseram justificar seu fracasso.
“A base de Vênus ainda
dispunha de metade da frota de naves em condições de navegabilidade espacial,
ou seja, de naves capazes de percorrer qualquer distância, quase sem nenhuma
perda de tempo. Os colonos... esperem.”
Neste ponto seria conveniente
intercalar uma explicação.
— Uma expedição colonizadora
nunca foi um empreendimento democrático, e nem poderia ser. Nos primeiros anos
de sua instalação e desenvolvimento, uma colônia jovem precisa de um regime
forte, e este era exercido através de uma espécie de aristocracia.
“O conselho aristocrático da
colônia terrena decidiu que o remanescente dos colonos decolaria nos veículos
espaciais de que ainda dispunham, e procuraria alcançar o ponto de destino
inicialmente fixado, já que por vários séculos a Terra não ofereceria uma área
adequada para a colonização. A decisão foi cumprida, o que era mais que
natural, pois não se admitia qualquer oposição às resoluções do conselho de
colonização. A maior parte dos colonos decolou de Vênus com as naves que ainda
lhe sobravam. Uma minoria ficou para trás, por não encontrar lugar nos veículos
espaciais. A maior parte da frota espacial fora destruída na Terra. Uns dois
mil colonos tiveram de ficar em Vênus. Levaram vida solitária, mas não
desconfortável. Ao que tudo indicava, o conselho aristocrático escolhera-os
porque espiritualmente eram mais indolentes que os outros. Nem pensaram em
lançar mão dos recursos de que dispunham para construir suas naves espaciais.
Continuaram onde estavam.
“Faz cerca de oito mil anos
que o último membro desse grupo morreu.
“Até parecia que uma estrela
má pairava sobre os colonos deste setor da galáxia. Nunca mais se ouviu falar
da frota espacial que decolou de Vênus depois da catástrofe terrestre. Temos
certeza de que não chegou ao destino. Mas ninguém sabe o que lhe aconteceu.
Nenhuma notícia chegou a Árcon, nem o comandante sabe dizer o que é feito dela.
Ao que parece também em Vênus aconteceram coisas estranhas. Mas as informações
a este respeito são tão escassas que de nada nos servem.
“A fortaleza continuou a
viver. Formava um complexo autárquico. Os grupos de reparo estavam em condições
de manter em funcionamento toda a aparelhagem existente nela. Atravessou os
milênios e apenas revela sua presença de dez em dez horas, expelindo o ar
quente gerado no seu interior através de um canal bem disfarçado.
“As ordens que o último
comandante arconídico inseriu no cérebro positrônico continuaram a vigorar. Além
disso, o cérebro fora instruído a obrigar qualquer nave estranha a pousar, ou
destruí-la. As naves arconídicas eram a única exceção. Mas, como se presumia
que estas mesmas só pousariam em Vênus se pertencessem a alguma empresa
colonial do setor, exigia-se que transmitissem o respectivo sinal codificado.
Fora essa a razão da mensagem que não entenderam. Embora não tivéssemos
transmitido o sinal, o comandante, ou melhor, o cérebro positrônico, percebeu
que a nave era do tipo daquelas que não deviam ser bombardeadas. Tentou
arrastar-nos para a plataforma por meio do raio de sucção; mas — fez um cumprimento
a Rhodan — nosso comandante conseguiu, numa reação instantânea, subtrair a nave
à influência estranha e pousá-la num lugar em que o cérebro positrônico não a
encontraria. Após isso o comandante entrou em contacto com os animais do tipo
das focas, dotados de pouca inteligência, procurando localizar a nave por seu
intermédio. Mas essa tentativa também falhou, pois a inteligência das focas não
basta para fornecer indicações de local que possam ser aproveitadas pelo
cérebro positrônico.
“Pois bem. O cérebro aguardou
pacientemente. Poucos dias depois viu que os estranhos vinham espontaneamente
para junto dele. Alguns detalhes espantosos foram constatados: os membros do
grupo eram estranhos, mas seu equipamento era de origem arconídica.
“O cérebro concluiu que
aqueles seres deviam ter dominado uma nave arconídica, aprisionado seus
tripulantes e roubado o equipamento. Mas essa conclusão não se revestia de um
grau de probabilidade aceitável, motivo por que o cérebro continuou a
trabalhar.
“Poucas horas depois Tako deu
o salto. O cérebro reconheceu sua chance. Tako foi aprisionado, e sobre o resto
os senhores já estão informados.”
O relatório propriamente dito
não causou muita impressão em Rhodan. O que lhe inspirou certa tranqüilidade e
devoção foi o fato de que as tradições de uma inteligência extraterrena
forneciam a primeira indicação da existência da Atlântida. No seu entender era
essa a única interpretação possível do relato sobre o reino colonial situado
entre o continente euro-africano e o americano.
Um sorriso passou pelo rosto
de Rhodan. Lembrou-se de que os arcônidas, que o acaso fizera pousar na Lua há
certo tempo, representavam um ganho inestimável não só para a tecnologia
terrena, mas também para a historiografia do planeta, já que seus registros
lançaram uma luz fulgurante sobre um dos setores mais obscuros da história
humana: o que se relaciona com o reino da Atlântida e o dilúvio.
— Isso significa — prosseguiu
— que o cérebro ficou na expectativa durante oito mil anos. Isto é fácil de
dizer; acontece que este nosso cérebro — apontou com o dedo por cima do ombro —
tinha um objetivo. Aguardava um novo comandante cuja constituição mental permitisse
adaptá-lo de tal forma que só obedecesse a ele. Ao que parece, acaba de
encontrar esse comandante.
Interrompeu-se para observar
o efeito de suas palavras.
— Através dos dados
fornecidos por Tako, e principalmente por mim, o dispositivo positrônico tomou
conhecimento das características mentais de todos os membros desta expedição. A
constituição mental do futuro comandante desta base não difere da dos
arcônidas, muito embora seja um terráqueo: Perry Rhodan!
* * *
Rhodan levou algum tempo para
recuperar-se do espanto. Não é que lhe faltasse a consciência das suas
qualidades. O que o surpreendia eram as conseqüências que resultariam da
decisão do cérebro. Gostaria de saber se Crest não pregara algumas mentiras ao
dispositivo positrônico, ao responder às indagações formuladas a respeito dele,
Rhodan.
Mas constatou que ninguém
seria capaz de enganar um dispositivo positrônico. Aceitou o posto. Por algum
tempo ficou receoso de que Crest pudesse ressentir-se com a decisão do cérebro.
Mas Crest era um cientista cujo espírito se situava muito além da zona em que
se sente inveja por razões de conteúdo político.
Dessa forma Rhodan tornou-se
comandante, ou melhor, senhor absoluto de uma fortaleza cujo recinto abrigava,
concentrada em espaços reduzidos, maior quantidade de energia que a de que
dispunham todas as fábricas e centros de pesquisa da Terra reunidos. O
equipamento da fortaleza bastaria para destroçar sistemas solares inteiros e
rechaçar qualquer inimigo, desde que o mesmo não se lançasse ao ataque com uma frota
inteira.
Mas havia uma coisa de que a
fortaleza não dispunha...
* * *
Thora não quis acreditar.
Menos de uma hora após sua chegada, solicitou ao cérebro um esquema sobre a
situação dos compartimentos em que se dividia a fortaleza e lançou-se à procura.
Poucas horas depois de ter
assumido o comando da fortaleza, Rhodan já havia ajustado a freqüência dos
impulsos de comando que acionavam o dispositivo positrônico aos impulsos de seu
próprio cérebro. Ao examinar juntamente com Bell um dos depósitos do último
pavimento, encontrou-se com Thora.
— Você está procurando em vão
— disse em tom sério.
Ao que parecia Thora sabia a
que estava se referindo.
— Sei — respondeu cabisbaixa.
— Por que não procura ver as
coisas como são? — perguntou Rhodan. — Após a catástrofe terrena, quando os
colonos resolveram dirigir-se ao objetivo inicial, levaram consigo todas as
naves de que dispunham. As coisas que se encontram nesta fortaleza são
maravilhosas para os objetivos que eu tenho em vista. Mas não existe nada que
possa ajudar você a vencer a distância enorme que nos separa de Árcon.
Calou-se. Esperou que Thora o
olhasse.
— Você está presa à Terra —
prosseguiu com um sorriso. — Esforço-me para que sua permanência em nosso
planeta seja agradável. E estou disposto a fazer tudo para que você possa
retornar quanto antes ao seu planeta. Mas até o meio mais rápido levará alguns
anos para concretizar-se. Até lá terá de viver com uns semi-selvagens...
— Pare! — interrompeu-o Thora
com uma veemência surpreendente. — Acha que é a única pessoa no mundo que nunca
cometeu um engano?
* * *
O
mistério milenar de Vênus foi decifrado e Perry Rhodan obteve uma base que será
da maior importância para o progresso da Terceira Potência.
Mas
Perry Rhodan não descansará. Um pedido de socorro vindo da Terra exige seu
retorno imediato.
SOCORRO
PARA A TERRA — é esta a divisa do novo empreendimento a que Perry Rhodan se
lança com seu exército de mutantes.
SOCORRO
PARA A TERRA é o título do próximo volume da coleção Perry Rhodan.

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