quarta-feira, 10 de outubro de 2012

P-008 - Base em Vênus - Kurt Mahr [parte 3]


Durante o restante da marcha em direção à base inimiga só houve dois acontecimentos dignos de nota.
O primeiro foi um chamado da Good Hope. Crest e Thora informaram que o inimigo não dera mais sinal de vida. Em compensação as focas voltaram a aparecer. Executando uma verdadeira marcha forçada, certamente para voltar em tempo à água, subiram ao cume da montanha e desceram à cratera.
— Sabe o que fizeram? — perguntou Crest em tom jocoso. — Depositaram um montão de peixes diante de uma das comportas da nave. Deve ser um sacrifício em homenagem aos deuses. Felizmente Thora percebeu em tempo a marcha das focas e pôs o analisador cerebral a funcionar na comporta. O analisador registrou os pensamentos das focas. Juntamente com os dados colhidos pelo detector ultra-sônico, estava em condições de reconstituir a maior parte da linguagem das focas. Eu retirei os peixes, para que as focas não se sintam ofendidas quando voltarem. Da próxima vez espero poder falar com elas.
O segundo acontecimento foi o encontro com um sáurio venusiano, pelo qual esperavam há tanto tempo.
Acontece que o encontro foi muito menos dramático do que esperavam. É que o gigantesco animal nem notou a passagem da patrulha.
Apesar disso, o encontro representava um certo perigo.
Naquela altura tinham vencido cerca de quatrocentos do total de quinhentos quilômetros. Tinham escalado duas cadeias de montanhas, e atrás da segunda encontraram um vale comprido, coberto por um denso matagal.
Rhodan sentiu-se tentado a permitir o uso dos trajes transportadores, para que o grupo voasse por cima do vale bastante profundo. Mas chegou à conclusão de que a distância de cem quilômetros, que ainda os separava do inimigo, não oferecia bastante segurança. A gravitação era uma das formas de energia mais fáceis de localizar através de instrumentos apropriados. Até certa distância do instrumento localizador, nem mesmo os teoremas da ótica geométrica tinham validade. Isso significava que de perto um localizador poderia reconhecer uma fonte de gravitação até mesmo “atrás de um canto”.
Por isso desceram para o vale e dispuseram-se a atravessar a selva atrás das costas largas de Tom.
Anne Sloane foi a primeira a perceber que diante deles havia alguma coisa de anormal. Parou subitamente; Bell, que vinha logo atrás, esbarrou nela. Rhodan notou que havia alguma coisa atrás dele e também parou. Só Tom prosseguiu imperturbável por entre a vegetação, até que Bell o fez parar com um chamado.
— Não ouviu nada? — perguntou Anne perturbada.
Bell sacudiu a cabeça.
— Nada. Você ouviu alguma coisa?
Anne fez que sim. Estava a ponto de dizer alguma coisa, mas um ruído retumbante cortou-lhe a palavra. O chão estremeceu. Desta vez todos perceberam.
Rhodan lembrou-se do barulho retumbante que ouvira no primeiro acampamento.
— É um sáurio.
Bell não concordou.
— O que está fazendo? De onde vem o ruído?
— Está andando.
Bell aguçou o ouvido. Depois de algum tempo voltaram a ouvir o barulho retumbante.
— Está andando?! — disse rindo. — Leva trinta segundos para dar um passo.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça. Parecia sério.
— Acha que com essas pernas compridas devia levar menos?
Fez sinal para Tako.
— Tako, suba ali e veja se consegue localizá-lo.
Tako desapareceu. Voltou dentro de alguns segundos.
— Vem do leste — informou. — Se continuar na mesma direção, deverá passar a uns duzentos metros ao norte do lugar em que estamos.
— Pois suba novamente e veja se não modifica a direção.
Esperaram. Não adiantava prosseguir, pois iriam em direção ao norte, e dessa forma dariam com os costados bem em cima do sáurio.
O barulho retumbante foi crescendo de intensidade, até assumir a feição de pequenos terremotos. Rhodan olhou por entre a folhagem, procurando ver ao menos o pescoço do animal. Mas o matagal, que os protegia dos furores das tempestades crepusculares, também lhes impedia a visão.
O passo seguinte foi dado com tamanha fúria que até Rhodan estremeceu.
No mesmo instante Tako surgiu ao seu lado.
— Modificou a direção. Vem diretamente para onde estamos.
— Quanto falta para chegar aqui?
— Dois passos.
Rhodan olhou para os membros do grupo.
— A esta altura não adianta fugir — disse em tom tranqüilo. — Não há mais tempo para escaparmos. Mas podemos nos defender.
Bell compreendeu. Trouxe apressadamente os dois desintegradores. Entregou um deles a Rhodan e ficou com o outro.
— Aponte para cima, em direção oblíqua — ordenou Rhodan. — Assim que começar a cair, devemos providenciar para que o corpo se dissolva no ar.
Bell confirmou com um gesto. Rhodan virou a cabeça e falou por cima do ombro:
— Fiquem bem juntos!
Ao longe ouvia-se um forte ruído, igual ao de uma cachoeira. O corpo imenso do sáurio ia afastando o matagal à sua passagem.
Subitamente escureceu. Uma sombra enorme cobriu a mata. Alguns segundos depois uma coluna imensa irrompeu com um ruído ensurdecedor em meio à vegetação, a menos de cinco metros do lugar em que Rhodan se encontrava. Rhodan chegou a ver a pele suja e escamenta, mas logo dirigiu sua atenção à massa que se movia em cima deles. À primeira vista compreendeu a situação.
— Cuidado! — gritou. — Está passando por cima de nós.
E foi o que o animal fez. Com o intervalo usual a outra pata estalou em meio à vegetação, desta vez à esquerda de Bell, ao mesmo tempo que o ventre penso do gigantesco animal passou por cima daquele grupo de seres minúsculos e trêmulos.
Por alguns instantes a escuridão foi completa. A uns cinco metros de suas cabeças pendia o ventre malcheiroso do animal. Mas ninguém se incomodou com o cheiro. Todos se indagavam se as duas pernas traseiras também passariam por eles sem produzir nenhum dano.
Rhodan baixou o desintegrador.
— Cuidado com o rabo! — disse, dirigindo-se a Bell. — Pode varrer-nos com uma sacudidela.
A imensa massa de carne deslocou-se um bom pedaço para a frente. A claridade começou a surgir do norte.
— Graças a Deus! — gemeu Bell. Mas logo olhou bem para a frente, procurando ver o rabo.
Rhodan olhou para cima e procurou adivinhar o lugar em que o rabo do animal tocaria no solo.
Ainda estava calculando quando alguma coisa passou ruidosamente bem por cima de suas cabeças. O vento começou a uivar.
— Está jogando o rabo para a direita! — gritou Bell.
Rhodan viu o rabo, que media vários metros de espessura, voar para o leste. No mesmo instante o gigantesco animal deu outro passo.
Rhodan apontou o desintegrador para cima e esperou. Se o intervalo entre um e outro passo era de trinta segundos, qual seria o período de oscilação do rabo, que era muito mais comprido?
Nada aconteceu. As pernas do sáurio foram-se afastando, mantendo sempre o mesmo ritmo. Não houve o temido golpe de rabo. Rhodan teve a impressão de que mais uma vez o animal modificou seu curso, voltando a deslocar-se na direção anterior. Isso explicaria por que não chegaram mais a ver o rabo.
Mais alguns minutos se passaram numa situação tensa de alarma. Finalmente os membros do grupo descontraíram-se e começaram a acreditar que o perigo passara.
Bell largou o pesado desintegrador e enxugou o suor que lhe cobria a testa.
— A trilha tem sete metros de largura — disse. — Se fosse menos, o bicho nos teria pegado do lado direito ou do lado esquerdo.
Concluiu que o comprimento do sáurio, incluindo o rabo, devia atingir mais de duzentos metros. Com base nos dados fornecidos por Tako, Rhodan calculou a altura do animal, incluído o longo pescoço, nuns sessenta ou setenta metros.
Mesmo nas condições reinantes em Vênus, devia ser um monstro. De qualquer maneira, seu tamanho excedia o de qualquer sáurio que jamais viveu na Terra.

* * *

Pelo meio-dia do terceiro dia de Vênus, contado a partir de sua partida da Good Hope, atingiram a região em que supunham localizada a base do inimigo.
Era uma área completamente diversa da que haviam visto nos primeiros dois terços da marcha.
Encontravam-se a cerca de seis mil metros acima do nível do mar. A respiração tornou-se difícil, embora a atmosfera de Vênus fosse bem mais densa que a da Terra. O zumbido nos ouvidos gerado pelo excesso de pressão reinante das baixadas, cedera ao causado pela falta de pressão nas alturas.
O matagal não os acompanhara. A cerca de cinco mil e quinhentos metros de altura atingiram o limite da zona de crescimento das árvores. O planalto cercado de morros em que se encontravam só apresentava uma vegetação escassa, formada de gramíneas ressequidas, arbustos raquíticos e alguns troncos nodosos que não chegavam a erguer-se do solo.
O último trecho do caminho deixara-os exaustos.
Às vezes quase chegaram a desistir. Mas além da lembrança do inimigo, que devia ser localizado e subjugado, ainda havia Rhodan que persistia na missão que traçara a si mesmo e forçou os demais a submeterem-se à sua vontade.
Pelo alvorecer atingiram a extremidade sul do planalto. Seguindo pela extremidade oeste, sempre sob o abrigo de morros ou grutas, avançaram em direção ao norte, até chegarem à extremidade setentrional do complexo.
Diante deles erguiam-se montanhas altas como jamais haviam visto. Rhodan tinha certeza de que o inimigo montara os instrumentos de grande alcance no cume da montanha mais alta. Mas mesmo os telescópios mais potentes não permitiriam a ele reconhecer o que quer que fosse no ponto em que se encontravam. Se é que havia algum instrumento lá em cima, o mesmo devia estar encravado na rocha, ou oculto atrás de um excelente disfarce.
Rhodan mandou construir um acampamento na extremidade norte do planalto.
Na tarde daquele dia dividiram-se em dois grupos, que se puseram a explorar os arredores do acampamento. Tako Kakuta, o capitão Nyssen e o tenente Freyt chegaram a subir mais de mil metros pelas montanhas, mas a única coisa que encontraram foi um animal morto, parecido com uma raposa.
Anne Sloane e o tenente Deringhouse foram os únicos que ficaram no acampamento. Anne encarregou-se do pequeno instrumento rastreador, que apresentava uma desvantagem: a reduzida capacidade de reação, medida pelos padrões arconídicos. Em compensação, reagia a diversas formas de energia. Era capaz de localizar tanto um emissor eletromagnético como uma fonte de gravitação. Mas durante as primeiras horas em que foi posto a funcionar não acusou nada.
Rhodan não se sentia muito à vontade. Enquanto não sabia onde estava o inimigo tinha que contar com a possibilidade de que o acampamento se apresentava diante dele como se estivesse em uma bandeja. Era bem possível que, enquanto os membros do grupo cansavam os olhos de tanto procurar, os seres inimigos, fossem eles quem fossem, estivessem ocultos em meio às montanhas, rindo daquela patrulha desajeitada, até o momento em que se cansassem de rir, quando então passariam ao ataque.
O fato de que o local do acampamento fora escolhido com vistas a todos os perigos e possibilidades de ataque, era um consolo muito fraco. Não havia a menor garantia de que não existia nenhuma brecha por onde o inimigo pudesse olhar.

* * *

No segundo período de trinta horas, depois que tinham erguido o acampamento, voltaram a procurar.
Desta vez Tako e os dois americanos tomaram a direção em que Bell, Rhodan e Manoli haviam procurado a vez anterior, enquanto estes últimos subiram as montanhas pelas pegadas de Tako.
A primeira parte da subida pelas encostas ainda suaves daquele cume de treze mil metros foi fácil, mas também inútil.
Contornaram uma extensa área pedregosa e iniciaram a escalada da parte mais íngreme da montanha. Ainda se encontravam a duzentos metros abaixo do local de que Tako voltara no dia anterior.
Levaram uma hora para atingi-lo. O lugar em que Tako havia encontrado a raposa era desinteressante e não apresentava vestígios.
Estavam a ponto de retornar, mas antes que iniciassem a descida Rhodan lançou mais um olhar para o alto e estacou.
— Vejam!
Todos olharam para cima. Levaram algum tempo para compreender o sentido das palavras de Rhodan.
A parte superior da encosta parecia ficar mais para trás, isto é, mais ao norte que a parte inferior. Não viram nenhum entalhe, e o cinza homogêneo da rocha não permitia qualquer conclusão sobre a distância do desvio de uma das partes em relação à outra. De qualquer maneira, lá em cima devia haver um planalto que não podia ser visto de baixo.
Rhodan continuou a subida. A encosta tornava-se cada vez mais difícil. Avançaram uns cem metros por uma espécie de chaminé; mas os cinqüenta metros que ainda os separavam do planalto, que agora se desenhava bem nítido diante deles, pareciam intransponíveis.
Finalmente o acaso veio em seu auxílio. Esse acaso resultou de uma regulagem efetuada há bastante tempo em determinada máquina.
Rhodan, que ia à frente dos outros, foi o primeiro que sentiu a trepidação da rocha. Uma coisa ameaçadora parecia avançar em sua direção. Agarrando-se com uma das mãos, Rhodan tirou a pistola de radiação com a outra.
Subitamente ouviu um som borbulhante. Virou a cabeça e viu que atrás dele o ar tremeluzia e a poeira saía entre duas pedras.
Não havia nenhuma explicação para o fenômeno. A temperatura do ar parecia ser superior à do ambiente, e tudo indicava que saíra com enorme pressão entre as duas pedras. Rhodan ainda notou que vários blocos de pedra colocados sobre a extremidade da chaminé de que acabavam de sair devia servir para desviar o ar expelido pela mesma, fazendo-o retornar para o seu interior.
Pelas pedras que o ar arrastava consigo Rhodan concluiu que o ar quente desenvolvia uma pressão enorme ao ser desviado e retornar para o interior da chaminé. Se ainda estivessem lá dentro, não teriam resistido ao furacão.
O fenômeno durou cerca de dois minutos. Depois os sons foram-se tornando mais fracos, o tremeluzir foi cessando e tudo voltou ao silêncio. Como antes, a floresta jazia calmamente sob a luz difusa filtrada pelas nuvens.
Nesses dois minutos ninguém proferira uma palavra. Rhodan rompeu o silêncio. Apontando para as duas pedras, disse:
— Talvez consigamos passar por aí. Vamos! Se o vento voltar a soprar, segurem-se bem.
Procurando equilibrar-se, foram avançando. Desta vez Rhodan seguiu em último lugar. Bell foi o primeiro que atingiu a abertura entre as pedras. Lançou um olhar desconfiado para o interior da mesma. Depois deu um passo e desapareceu.
Manoli seguiu-o, e depois Rhodan. Descobriram que os dois blocos de pedra não eram outra coisa senão a boca de um canal de cerca de metro e meio de largura, aberto na parte superior, que subia suavemente. O chão e as paredes eram bastante lisas, o que dificultou a escalada, embora a subida fosse suave.
Rhodan insistiu para que se apressassem. Achou que a lisura da rocha podia ser explicada pelo polimento resultante de correntezas de ar como a que acabaram de observar. Provavelmente essas correntezas vinham a intervalos regulares, ou ao menos repetidamente em certo espaço de tempo. Só assim o fluxo de ar poderia ter deixado vestígios semelhantes aos da passagem da água.
Aos poucos a altura das paredes foi diminuindo. Tudo indicava que o canal desembocava no planalto.
Essa expectativa não se cumpriu inteiramente. A desembocadura ficava num paredão rompido por um buraco irregular, mas esse paredão não tinha mais de metro e meio de altura. Com um salto, Rhodan colocou-se na parte de cima.
Lá em cima havia uma plataforma com a área de cerca de dez mil metros quadrados, que na parte dos fundos terminava junto a uma parede de rocha em forma de ferradura. Ao primeiro lance de vistas, Rhodan sentiu-se irritado pela lisura extraordinária do chão de pedra. Ao segundo, descobriu uma série de aberturas rentes ao chão no paredão que subia íngreme do outro lado da plataforma.
Ajoelhou-se e examinou o chão. Não descobriu nada de extraordinário. Levantou-se e com um movimento de cabeça apontou para as aberturas existentes no paredão.
— Vamos dar uma olhada naquilo.
Sentiram-se tomados de uma certa desconfiança quando foram caminhando lentamente em direção ao paredão. As aberturas eram de formato irregular. Avançaram com as armas engatilhadas, pois não confiavam naquela calma aparente.
Vistas de perto, as aberturas, apesar do formato irregular, apresentavam um aspecto mais ou menos circular. O diâmetro era de cerca de um metro. A distância do centro dos mesmos ao nível da plataforma correspondia aproximadamente à altura de um homem. A distância entre as aberturas era de uns oito metros.
A alguns metros do paredão, Rhodan parou e levantou a mão. Bell estava à sua esquerda, Manoli à direita. Rhodan tentou romper a escuridão que reinava no interior da abertura, mas não o conseguiu.
— Vejo alguma coisa! — disse Bell com a voz baixa.
Estava diante de outra abertura. Rhodan foi para junto dele. Esforçando bastante a vista, viu no interior da abertura um objeto cinzento. Não conseguiu descobrir o que era.
Fez sinal para que Bell e Manoli parassem e continuou a avançar. Aproximou-se até chegar a apenas três metros da abertura e não tirou os olhos da forma sombria.
Distinguiu um objeto cilíndrico que saía da escuridão, terminando junto à abertura.
Quando descobriu o que se tratava, sentiu-se tomado de pânico por um instante. Nunca vira um desintegrador desse tamanho e, mais que isso, nunca se deparara com um que apontasse tão diretamente para sua barriga.
Deu um enorme salto para a frente, ao mesmo tempo que gritou para Bell e Manoli:
— Abriguem-se!

* * *

Antes disso, os seguintes acontecimentos se desenrolaram no interior da montanha:
O equipamento de localização automática observou alguma coisa e relatou ao comandante:
— Três seres penetram no platô de aterrissagem através do canal de arejamento. São...
Seguiu-se uma descrição detalhada daqueles seres, ou melhor, a trilha sonora de um filme que o equipamento de localização remetia à sala de comando a partir do momento em que Rhodan saltou por cima do paredão do canal.
Os ocupantes da sala de comando não se deram por satisfeitos com o relatório. Exigiram dados mais detalhados sobre os trajes daqueles seres estranhos.
O autômato realizou uma localização estrutural e transmitiu o resultado.
Logo após recebeu a seguinte ordem:
— Prossiga na localização e transmita relatórios padronizados.
Efetuou a regulagem correspondente.
Enquanto isso, o comandante pôs em funcionamento outra linha de comunicação direta, através da qual transmitiu instruções ao posto de combate do setor F:
— Alarma grau três. Regular as peças para fogo dirigido. Só atirem por ordem expressa do comandante.
Pelos dados resultantes da localização estrutural, o comandante concluíra que aqueles três seres não eram daqueles em que se devia atirar sem mais aquela. Além disso, sentia-se um tanto confuso. Teve de esforçar o cérebro para chegar à conclusão de que o simples surgimento desses seres estranhos e o aspecto de seus trajes não lhe permitiam formular qualquer juízo concludente. Depois de tantos anos que passara na paz tranqüila daquela fortaleza, o comandante sentiu-se tomado de uma certa impaciência ao dar-se conta de que teria de aguardar mais um pouco antes de satisfazer sua curiosidade.
Dessa forma, tudo continuou calmo. O comandante examinou o relatório ótico-eletrônico do localizador e esperou.

* * *

Depois que ficara deitado de bruços durante cinco minutos sem que acontecesse nada, Rhodan começou a achar graça do susto por que acabara de passar.
Quem quer que tivesse colocado o desintegrador naquele local, isso certamente fora feito na mesma época em que o chão do platô tinha sido polido. Rhodan não tinha a menor idéia quanto ao tempo durante o qual o granito polido tinha de ficar exposto às intempéries antes que só restassem algumas manchas do polimento, mas tinha certeza de que isso duraria mais de mil anos. Era pouco provável que o cano do desintegrador, exposto às intempéries tal qual o granito, tivesse resistido melhor que o polimento.
Levantou-se, mas teve uma certa cautela, porque lembrou-se de que o reator gravitacional devia funcionar perfeitamente quando desviou a Good Hope de sua rota.
Rolara para junto do paredão. Ao levantar colocou-se ao lado da abertura. Lentamente foi se aproximando dela.
Milímetro por milímetro foi avançando a cabeça pela borda e olhou para dentro. O cano do desintegrador estava tão perto dele que poderia tocá-lo com a mão. Seu diâmetro era de pouco mais de meio metro. Havia espaço suficiente para passar entre ele e a borda da abertura.
Sem refletir muito no risco que corria, Rhodan baixou a cabeça e saltou para dentro da abertura. Por um segundo angustiante, seu corpo ficou exposto à arma. Com movimentos apressados esgueirou-se junto ao cano, escorregou por cima do metal plastificado, muito liso, e foi parar um tanto desajeitadamente no chão acidentado da caverna, na qual a abertura parecia desempenhar a função de janela.
Aguardou a reação; não houve nenhuma. Aproximou-se da abertura e chamou Bell e Manoli, pedindo-lhes que se aproximassem. Por uma questão de cautela, fez-lhes sinal para que não se expusessem diretamente ao desintegrador.

* * *

O comandante não deixou de perceber o salto arriscado de Rhodan. Mais uma vez o relatório ininterrupto do localizador automático deixou-o confuso. Era difícil de imaginar que alguém com o aspecto e as vestimentas daquele estranho se arriscasse a passar bem à frente do cano do desintegrador.
O comandante teve de reconhecer que o comportamento daquele estranho não correspondia às suas previsões. Mas ainda não dispunha de certas informações importantes, sem as quais não estaria em condições de tomar uma decisão em relação a ele.

* * *

Não estavam prevenidos para dar busca numa caverna. Em outras palavras, não haviam trazido a lanterna. A luz crepuscular que filtrava pelas aberturas era bastante débil. A caverna devia ter uns cinqüenta metros de largura e igual altura.
Atrás da segunda e da quinta aberturas, contadas a partir do leste, havia um desintegrador. As quatro aberturas restantes não pareciam preencher outra finalidade senão a de deixar entrar um pouco de luz.
Rhodan examinou o desintegrador junto ao qual penetrara na caverna. Fora construído segundo os mesmos princípios dos aparelhos que, numa versão mais reduzida, se encontravam a bordo da Good Hope. Mas Rhodan sabia que esse detalhe não constituía qualquer indício válido da filiação racial de seus construtores.
Manoli e Bell puseram-se a examinar as paredes da caverna e deram uma olhada em outro desintegrador.
No primeiro desses aparelhos Rhodan já notara que não dispunha de qualquer dispositivo de comando. Outro fato que lhe pareceu estranho foi o de estar preso ao solo, pelo que só poderia atirar para a frente. Era bem verdade que essa desvantagem aparente poderia ser compensada pela possibilidade de dar qualquer abertura ao ângulo de emissão do campo cristálico-neutralizador. Dois desintegradores desses seriam mais que suficientes para eliminar qualquer adversário que se encontrasse em qualquer ponto do platô.
Mas a ausência de um mecanismo de comando deixou-o estupefato. Certificou-se de que a caixa existente na extremidade posterior da pesada arma só continha o gerador destinado à produção do campo cristálico.
— Que decepção, não é? — disse Bell.
— Por quê?
Bell sacudiu os braços.
— Esta caverna. Esperávamos encontrar uma fortaleza poderosa, e tudo que vemos é um buraco na montanha.
Rhodan sorriu.
— Encontrou algum gerador gravitacional?
— Que...
Subitamente uma luz acendeu-se em sua mente. Deu uma palmada na testa.
— Ah, sim. Onde está o gerador?
Rhodan ainda sorria.
— Provavelmente as pessoas que construíram esta caverna contavam com uma reação igual à sua — prosseguiu. — Qualquer um que não tenha passado pelas nossas experiências há de acreditar que nada mais existe por aqui. Se, além de tudo, não souber o que é um desintegrador, sairá decepcionado. Acontece que notei mais uma coisa.
Falou sobre a ausência do mecanismo de comando.
— Isso significa que se trata de um desintegrador teleguiado. A partir de onde é guiado? Não pode ser a partir de qualquer canto desta caverna. Há outra coisa.
Passou a mão pelo cano do desintegrador, liso como um espelho.
— O metal plastificado é um material muito resistente. Dura um século sem entrar em decomposição. Mas se este desintegrador existe desde o tempo em que aquele granito polido foi colocado lá fora, será fácil imaginar como devia estar este metal plastificado, a não ser que...
— A não ser quê...?
— A não ser que tenha uma conservação muito cuidadosa.
Bell compreendeu o raciocínio de Rhodan, mas Manoli ficou boquiaberto.
— Quer dizer que por aqui existe gente que vem regularmente limpar estes canhões?
— É mais ou menos isso — admitiu Rhodan.
— Mas onde está essa gente?
Rhodan deu de ombros.
— Não sou nenhum profeta. Aliás, temos uma pergunta muito mais interessante: este desintegrador, se for bem tratado, dá para atirar. Não fizeram nada disso. Se admitirmos que os seres que habitam esta fortaleza raciocinam em termos de lógica humana, então é de esperar que queiram entrar em contato conosco, já que se abstiveram de quaisquer hostilidades. Onde estarão?

* * *

O comandante estava esperando.

* * *

— Assim não conseguimos ir adiante — constatou Rhodan, depois de ter realizado um exame prolongado e improfícuo do chão e das paredes da caverna. — Vamos chamar Anne e Tako. Anne poderia tentar localizar e ativar qualquer mecanismo destinado a abrir uma passagem que se localizasse no alcance de sua atuação. Se esse mecanismo não existir, teremos de pedir a Tako que penetre na montanha.
O rosto de Manoli exprimia uma certa dúvida.
— É um comando suicida.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Nada disso! A capacidade de Tako está sujeita a leis físicas. Não pode materializar-se no interior de uma matéria estranha. Para isso dispõe de um freio de emergência. Se não houver nenhum espaço no interior da montanha, logo encontrará o caminho de volta para o ponto de partida.
— Não me refiro a isso; estou aludindo àqueles seres estranhos — objetou Manoli.
— Eles não nos fizeram nada. Por que fariam alguma coisa a ele?
Bell ofereceu outra sugestão.
— Por que não tentamos com os nossos desintegradores? Poderíamos remover a parede, até encontrarmos a abertura que nos levará adiante.
Rhodan confessou que já havia pensado nisso.
— É um risco muito grande. Esses seres poderiam pensar que queremos atacá-los, o que os levaria a revidar. Evidentemente dispõem de armas mais potentes que nosso equipamento de bolso.
— É de supor que tenham inteligência suficiente para saber que só queremos abrir caminho.
Rhodan concordou.
— Então?
Rhodan respondeu com um aceno de cabeça. Bell ergueu o pequeno desintegrador que trazia na mão, apontou-o para certa área da parede e comprimiu o gatilho.
Foi quando tiveram outra surpresa, que não era menor que aquela causada pela descoberta da caverna e do desintegrador gigante: a parede de rocha permaneceu inalterável.
Com um resmungo de raiva, Bell abaixou a arma, correu até a parede e examinou o trecho sobre o qual dirigira o desintegrador.
— Nada! — gritou com a voz furiosa.
Sua raiva era tão grotesca que Rhodan começou a rir.
Manoli estava tão perplexo quanto Bell. Para ele, que não havia sido submetido ao treinamento hipnótico, nada neste mundo poderia resistir a um desintegrador.
Uma vez dominada a raiva, Bell procurou recorrer às informações armazenadas em sua memória.
— Então é isso! — resmungou. — Recorreram à intensificação do campo cristálico. De onde virá a energia?
Rhodan limitou-se a dar de ombros. Era perfeitamente possível neutralizar os efeitos de um desintegrador de potência média, correspondente ao tipo portátil, através da intensificação da estrutura cristálica, que a torna mais forte que a energia destrutiva do desintegrador. Acontece que para uma parede dessa extensão era preciso um suprimento constante de energia da ordem de dez milhões de quilowats, desde que se quisesse protegê-la contra os efeitos de um desintegrador portátil até uma profundidade de cinqüenta centímetros. Era uma quantidade considerável, ainda mais se levarmos em conta que aquela parede só devia representar uma parte insignificante da fortaleza.
O inimigo — Rhodan começou a duvidar de que realmente se tratasse de um inimigo — devia dispor de reservas energéticas praticamente inesgotáveis.

* * *

O observador ótico registrou instantaneamente a tentativa de danificar a parede da caverna, realizada por Bell. Uma vez que se tratava de um ato hostil, ou ao menos inamistoso, fez uma advertência ao comandante através de uma ampliação dos impulsos.
Mas, tal qual Bell supusera, o comandante possuía bastante capacidade de discernimento para perceber que aqueles seres estranhos apenas procuravam um acesso para o interior da montanha. Não expediu nenhuma ordem de fogo, mas admirou-se de que os estranhos acreditassem que além da caverna existissem outros compartimentos. Depois de observá-los por algum tempo, quase chegara a concluir que eram tão subdesenvolvidos que logo abandonariam a caverna.
O fato de não terem procedido assim, e de terem recorrido a um desintegrador para vencer a parede de rocha, fê-lo concluir que esses seres não se enquadravam em nenhum dos esquemas tradicionais. Portanto, só lhe restava esperar.

* * *

As pessoas que se encontravam no acampamento foram avisadas. Assim que retornou com seu grupo, Tako assumiu o comando. Mandou levantar as barracas e distribuiu o equipamento, para ser transportado. Desta vez Tom teria uma tarefa difícil para vencer. Os paredões de rocha daquela montanha de treze mil metros não constituíam um terreno adequado para seu vulto avantajado. Houve necessidade de ativar um equipamento auxiliar destinado a gerar uma gravidade artificial, o que diminuiria sua capacidade de carga. Só assim conseguiria realizar a subida.
Na chaminé o transporte teve de ser realizado exclusivamente pelos meios humanos. Tom aguardou pacientemente na entrada até que os três americanos descessem cordas que o ajudaram a flutuar paredão acima.
De qualquer maneira, conseguiram realizar o transporte. Cinco horas depois de ter sido transmitida a ordem de Rhodan, que mandou levantar o acampamento, as barracas e o equipamento estavam depositados na plataforma. Tako e o resto do grupo esforçaram-se para levantar Tom por cima do paredão de metro e meio existente na boca do canal.

* * *

O surgimento de Tom representava outro enigma para o comandante. Era claro que já fora localizado quando se deslocava pelo planalto. Mas o exame detalhado só se tornou possível quando o aparelho foi colocado na plataforma.
Tom não combinava com as observações que o localizador realizara naqueles seres estranhos, exceto nas vestimentas.
Os estranhos pareciam ser seres primitivos muito audaciosos, às vezes temerários, que não sentiam o menor respeito pela técnica infinitamente superior corporificada nos desintegradores gigantes. Os trajes que envergavam e o robô removedor não poderiam ter sido produzidos por eles. Onde estariam os seres que fabricaram as vestimentas e os robôs, sobre os quais o povo dos seres marinhos já prestara algumas informações?
O comandante começou a compreender que essa pergunta só seria respondida depois que tivesse localizado a nave que há algum tempo ele tentara atrair para a plataforma por meio do raio de sucção, já que as instruções que lhe haviam sido ministradas não lhe permitiam abrir fogo contra um artefato desse tipo. Acontece que a nave conseguira subtrair-se à ação do raio e pousar, não em qualquer lugar, mas num excelente esconderijo. As indicações fornecidas pelos habitantes do mar correspondiam ao estado primitivo desses seres. Eram tão imprecisas que o comandante só pôde fornecer aos robôs uma indicação aproximativa da área em que devia ser realizada a busca. Face a isso, a nave não fora descoberta, e a curiosidade do comandante permanecia insatisfeita. Agora, porém, alguma coisa parecia acontecer.
* * *

Estavam parados lado a lado junto ao paredão quase vertical existente nos fundos da plataforma. A dois metros deles ficava a abertura onde se encontrava o desintegrador do lado ocidental.
Estava anoitecendo. Rhodan lançou um olhar perscrutador para o céu. As nuvens estavam muito baixas, a uns duzentos ou trezentos metros acima deles. Seria preferível que na hora em que as tormentas crepusculares começassem a soprar já dispusessem de um abrigo melhor que aquela caverna com as seis aberturas.
— Quer tentar? — perguntou, dirigindo-se a Anne.
Anne fez que sim. Rhodan afastou-se e sentou no chão para não perturbar o trabalho da moça.
Anne fechou os olhos e começou a procurar. Algum tempo se passou sem que tivesse qualquer impressão, mas enquanto ia se concentrando, o conteúdo daquela montanha desenhava-se com nitidez cada vez maior em seu espírito.
Evidentemente não se tratava de uma visão. Era antes um sentir e um tatear, uma capacidade perceptiva incompreensível ao homem comum, que se relacionava com a telecinese.
Anne apalpou o corredor que começava logo atrás da parede da caverna, conduzindo para o interior da montanha. Supôs que devia haver uma porta no lugar em que terminava numa parede. Procurou localizar o mecanismo que a abria. Não o encontrou e, esgotada, teve de interromper a experiência.
Descansou um pouco e começou de novo. Desta vez encontrou um corredor mais amplo, que atingia a parede a uns dez metros à direita do primeiro. Realizou nova tentativa, que também se revelou inútil.
Encontrou um terceiro corredor, e depois um quarto. Não havia nada na estrutura dos trechos de parede em que terminavam que revelasse tratar-se de portas e, mais que isso, não encontrou coisa alguma com que pudesse abri-las.
A mente de Anne penetrou nos corredores e seguiu-os até onde isso foi possível. Sua capacidade rastreadora tinha um alcance de cerca de trinta metros. Dali em diante tornava-se menos nítida, até cessar por completo.
A trinta metros de distância o feitio dos corredores era idêntico ao que se observava junto à parede. As paredes eram compactas. Anne não descobriu qualquer indicação da sua finalidade ou do lugar para onde conduziam.
A busca mental durara cerca de hora e meia. Anne estava tão exausta que teve que deitar imediatamente numa barraca montada no interior da caverna. Rhodan gostaria de ouvir mais alguma coisa, mas Anne limitou-se a murmurar “nada” e adormeceu.

* * *

O comandante não teve conhecimento das tentativas de Anne. Os localizadores mecânicos não seriam capazes de detectar a tentativa de um telecineta que, por meio de suas capacidades extraordinárias, procurasse penetrar na fortaleza.
O comandante surpreendeu-se com a inatividade aparente dos estranhos. Depois da atividade febril que desenvolveram no início, esperava coisa diferente.

VI



Quando Anne despertou, as últimas horas do dia chegavam ao fim. De tão esgotada que ficara, havia dormido quase vinte horas.
Rhodan aproveitara o tempo, embora não pela forma prevista. Toda a bagagem foi introduzida na caverna, para que Tom pudesse entrar. Após isso, as aberturas foram fechadas com pedaços de lona. Não resistiriam à tempestade por mais de quinze minutos, mas quinze minutos de tempestade representavam um tempo considerável.
Quando Anne acordou, Rhodan informou-a sobre suas descobertas. Estava muito abatida.
— Você perdeu muito tempo, não é? — perguntou. — E foi por minha causa.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Anne, para nós você vale tanto que não hesitaríamos em deixá-la dormir um dia inteiro, um dia de Vênus.
— Obrigada. Quer pedir a Tako que venha até aqui?
Rhodan fez que sim.
— Está disposto a sair?
— Perfeitamente. Apenas espera que o informe sobre aquilo que você observou.
Rhodan saiu da barraca. Tako estava esperando junto à parede da caverna. Rhodan explicou-lhe o que Anne conseguira descobrir. Tako respondeu com um aceno de cabeça.
— Esteja de volta dentro de uma hora no máximo! — insistiu Rhodan. — Se demorar mais, suporemos que alguma coisa lhe aconteceu.
O rosto largo de Tako abriu-se num sorriso.
— O que pretende fazer se isso acontecer?
Rhodan não se perturbou.
— Encontraremos um meio — respondeu. — Pode confiar em nós.
— Está bem — respondeu Tako. — Até daqui a uma hora, o mais tardar.
No mesmo instante desapareceu.
O rosto de Rhodan tornou-se muito sério. Tinha certeza de que descobriria um meio de ajudar Tako, se algo lhe acontecesse.

* * *

Tako sentiu-se tomado de pavor; ficou arrepiado. Sentiu um golpe quando seu primeiro salto teleportado sofreu um desvio que evitou sua rematerialização no interior de uma matéria estranha.
Dali a um segundo voltou à imobilidade. Estendeu os braços e com a mão esquerda apalpou alguma coisa que parecia uma pedra lisa.
A escuridão era completa. Tako sabia que continuaria assim. Num ambiente em que não penetra o menor raio de luz o olho não pode acostumar-se à escuridão. Teria de encontrar seu caminho às apalpadelas, até vencer o receio de usar a lanterna.
Por um instante permaneceu imóvel e aguçou o ouvido. Mas a ausência de ruídos era tão completa como a de luz.
Sentiu um cheiro estranho que penetrava o interior daquela montanha. Procurou analisá-lo. A única conclusão a que chegou foi que nunca sentira um odor semelhante.
Tateando, deslocou-se para a direita, mas também encontrou um obstáculo. Atrás dele e à sua frente não havia nada. Isso significava que se encontrava num corredor.
Voltou a aguçar o ouvido. Como ainda desta vez não ouvisse nada, acendeu a lanterna. Regulou-a de forma a só emitir um feixe de luz fraco e bem aberto, que bastaria para orientá-lo, mas não era visível à distância.
Mesmo à luz da lanterna, não conseguiu ver o fim do corredor, nem descobriu nada de extraordinário. Continuou avançando. À medida que o tempo passava sem que fosse molestado, o medo ia diminuindo. Depois de ter caminhado durante dez minutos, repreendeu-se pelo medo que sentira no início.

* * *

A invasão de Tako foi detectada instantaneamente pelo localizador automático. A notícia foi transmitida ao comandante, numa faixa de amplitude que chegou a ser dolorosa.
O comandante não viu nenhum perigo no fato de um único homem ter penetrado na fortaleza, mas finalmente teria possibilidade de descobrir alguma coisa sobre as intenções daqueles seres estranhos, sobre sua origem e principalmente sobre as características dos seres que lhes haviam fornecido o equipamento.
Receava que essas informações não fossem muito agradáveis. Provavelmente se constataria que os estranhos haviam aprisionado os dois seres que constituíam o alvo principal do interesse do comandante, obrigando-os a entregar-lhes seu equipamento.
Face a essa suposição, que um ligeiro processamento dos dados disponíveis transformou numa probabilidade bastante elevada, Tako tornou-se alvo de medidas mais rigorosas que as que seriam adotadas se o comandante conhecesse a situação real.
Ordenou ao destacamento policial que capturasse o invasor. Os policiais obedeceram imediatamente.

* * *

Tako indagou de si para si de que serviria essa marcha pelo corredor escuro, onde já ia tateando há uns vinte minutos.
As paredes eram lisas, mas não eram de pedra natural, como acreditara no início. Estavam cobertas de uma camada de metal plastificado. Não descobriu outros detalhes. Não havia portas, nem instrumentos embutidos na parede. Absolutamente nada.
Até onde atingia a luz da lanterna, — Tako já se arriscara a regulá-la para um feixe de luz estreito, mas potente — o quadro era o mesmo. Chegou a acreditar que, se andasse mais um trecho, o corredor terminaria em outra parede, igual à que devia existir atrás dele e que, teleportando-se através dela, atingiria o ar livre do outro lado do morro.
“De que pode servir um corredor que simplesmente atravessa o morro?”, pensou.
Voltou a concentrar a atenção sobre as paredes do corredor. Pensou que nos outros pontos não as tivesse examinado com bastante atenção.
Mas as paredes continuavam lisas e compactas como antes.

* * *

Os policiais receberam instruções diretamente do comandante.
Sabiam que o invasor era um teleportador natural. Por isso não bastaria agarrá-lo; teriam que deixá-lo inconsciente, para que não pudesse utilizar seus dons.
Também sabiam que usava uma lanterna para iluminar o corredor. Dessa forma, não poderiam aguardá-lo em qualquer lugar. Teriam de postar-se num corredor lateral e golpeá-lo no instante exato.
Finalmente sabiam que o invasor estava armado. Pelas indicações que o localizador pôde colher, a arma que trazia devia ser de elevada potência. Os policiais estavam treinados para manter a ordem na fortaleza, se necessário com o sacrifício da própria vida. Mas um instante poderoso dizia-lhes que, sempre que possível, deviam manter-se afastados dos desintegradores.
Os dez policiais que o comandante destacara para a captura do invasor postaram-se, cinco a cinco, em dois corredores laterais opostos, que desembocavam no corredor pelo qual Tako se deslocava.
Calmamente aguardaram que o comandante lhes desse ordem para abrir a porta e agarrar o estranho.

* * *

Tako estava prestes a voltar. Achava inútil percorrer vários quilômetros num corredor completamente vazio.
Gostaria que Perry Rhodan estivesse ao seu lado. Talvez este tivesse alguma idéia de como lidar com aquelas paredes.
Parou e voltou-se. Atrás e diante dele, o corredor entediante estendia-se. Um quilômetro já ficara atrás, e para diante só o demônio saberia dizer quanto faltava.
Concentrou-se sobre a caverna de onde partira e esteve a ponto de teleportar-se para lá, quando ouviu um ruído ao seu lado.
Virou-se abruptamente e arregalou os olhos para a grande abertura que se formara na parede. Seres que nunca vira antes aproximaram-se à luz da lanterna.
Provavelmente poderia ter-se salvado, se dois impulsos não se tivessem sobreposto em sua mente. Ficou sem saber se devia sacar o desintegrador para livrar-se dos atacantes ou escapar por meio de um salto teleportado. Foi quando uma coisa dolorosa atingiu-o nas costas, imobilizou-o e o fez mergulhar em profunda inconsciência.
As instruções do comandante chegaram imediatamente.
— Transportar prisioneiro ao setor A, pavimento XIV, corredor 2, compartimento 331.
Dois dos policiais levantaram o homem inconsciente. O grupo entrou em formação e pôs-se em marcha. Desta vez os dez homens seguiram na mesma direção, dispondo-se a executar as ordens do comandante.
O grupo encontrava-se no setor F, perto do lugar em que todos os setores daquele complexo circular se encontravam no centro do círculo. E o pavimento era o de número XXI.
No corredor que os policiais haviam atravessado, a uns cinqüenta metros do lugar em que Tako fora agarrado de surpresa, havia um elevador que funcionava com base na eliminação da gravidade. A plataforma que se movia sob o influxo de um campo gravitacional artificial tinha uma área suficiente para abrigar os dez policiais e o prisioneiro.
A viagem ao pavimento XIV só durou alguns segundos. Os policiais dirigiram-se para a direita. No momento em que atingiram o compartimento 331 do corredor 2 e a porta abriu-se diante deles, receberam uma ordem:
— Preparar o prisioneiro para o interrogatório.
Verificou-se que a iluminação do complexo não fora colocada fora de funcionamento. Apenas era utilizada em ocasiões especiais, pois subitamente uma profusão de lâmpadas espalhou uma luz branco-leitosa na sala de interrogatórios.
Os policiais colocaram Tako sobre uma peça de móvel que se pareceria com uma cama, se não estivesse munida de uma série de instrumentos. Puseram-lhe um capacete e ligaram um dos fios vermelhos que o uniam a um dos instrumentos.
Logo reportaram ao comandante:
— Ordens cumpridas.
O comandante respondeu:
— Voltem aos seus postos.

* * *

Não foi pequena a surpresa do comandante ao tomar conhecimento da resposta de Tako à pergunta formulada por via hipnótica. Teve de rever sua opinião sobre a maneira pela qual os dois seres que haviam fornecido o equipamento técnico se tinham encontrado com os membros do grupo. Ele o fez com a maior rapidez.
Todavia, não se devia esquecer que os estranhos que se encontravam no interior da caverna nada sabiam dessa revisão. Por intermédio de Tako, o comandante soube que para os seres estranhos, as instalações encravadas na montanha eram uma base inimiga. Por isso seria um erro abrir-lhes as portas sem mais aquela.
Fez seus preparativos e dispôs-se a estabelecer contacto com os estranhos.

* * *

Uma hora se passou sem que Tako voltasse. Rhodan começou a inquietar-se.
Nesse meio tempo haviam recebido o sinal codificado da Good Hope e respondido ao mesmo. A bordo da nave tudo parecia estar na mais perfeita ordem. Antes que atingissem o planalto, Rhodan e Crest combinaram que as mensagens radiofônicas trocadas de hora em hora seriam substituídas por um simples sinal. Seria muito mais difícil captar e localizar um sinal breve que uma palestra prolongada.
Pelo mesmo motivo, Tako não levava nenhum equipamento de radiotransmissão.
Só Anne Sloane conseguira acompanhá-lo por algum tempo através do rastreamento telecinético. Mas já fazia mais de cinqüenta minutos que ele se encontrava fora do seu alcance.
Rhodan começou a compreender que não teria outra alternativa senão solicitar a presença da Good Hope, fosse qual fosse o risco. Só mesmo os instrumentos potentes que a nave trazia a bordo poderiam ser capazes de romper aquelas paredes e penetrar no interior da montanha.
Foi uma decisão difícil; Rhodan consumiu alguns minutos para justificá-la perante sua consciência.
Depois de algum tempo sentou diante do radiotransmissor e dispôs-se a transmitir a Crest e Thora um relato minucioso, acompanhado de um pedido de socorro.
Foi quando Bell irrompeu na barraca.
— A parede! — disse ofegando. — A parede está aberta.
Rhodan saiu de trás do transmissor e, passando junto a Bell, precipitou-se para fora da barraca. Alguém ligara um refletor portátil que iluminava um pedaço da parede. Bem no meio da área iluminada via-se uma abertura.
Rhodan não hesitou.
— Preparar para a partida! — gritou com a voz retumbante. — Peguem lanternas, armas e um radiotransmissor. Rápido!
Não tinha a menor idéia de como surgira a abertura na parede. Talvez Tako tivesse localizado o mecanismo que movimentava a porta. Mas se fosse assim seria difícil de compreender por que não retornara no tempo combinado.
Apesar disso, não refletiu. Mesmo que a abertura não passasse de uma armadilha, o grupo, equipado com aquele armamento, tinha boas chances diante do inimigo.
Dentro de poucos minutos estavam prontos para partir. As primeiras rajadas da tempestade varreram a plataforma quando o grupo, com Rhodan na ponta, penetrou na escuridão.
Anne Sloane vinha logo atrás de Rhodan. Este pedira-lhe que estendesse suas “antenas” para todos os lados, procurando localizar qualquer coisa que pudesse representar um perigo.
Anne não podia enxergar através de uma parede compacta, mas sua capacidade telecinética fazia com que identificasse qualquer área em que estivesse ausente a resistência ao tateamento.
A seguir vinha Manoli e os três americanos. Reginald Bell formava a retaguarda.
Avançaram cerca de trinta metros à luz do refletor, que Rhodan segurava com o braço estendido para o lado, a fim de não oferecer um alvo ao ataque. Subitamente e sem qualquer aviso, uma mortiça luz branco-leitosa parecia sair das paredes.
Rhodan estacou; mas, além da luz, não houve qualquer surpresa.
Provavelmente tinham passado por cima de um contato.
— Aqui há um corredor lateral — cochichou Anne — e do outro lado também.
— Está vazio? — perguntou Rhodan desconfiado.
Anne fez que sim.
Rhodan compreendeu que nenhum dos dois corredores lhe serviria de nada. Também aqui não se via qualquer mecanismo acionador das portas. Continuariam pelo mesmo corredor, até que chegassem a uma encruzilhada onde houvesse uma entrada mais convidativa que esta.
Dali em diante Anne passou a registrar a intervalos regulares corredores laterais fechados. Com base nos dados por ela fornecidos, Rhodan pôde traçar um quadro mental do complexo. De início Anne teve a impressão de que os corredores laterais prosseguiam em linha reta, mas, à medida que avançavam, tornava-se cada vez mais evidente que descreviam uma curva. Para Rhodan não havia mais dúvida de que a fortaleza cavada na montanha era de forma circular. Havia corredores radiais como o que estavam percorrendo, que se dirigiam ao centro do círculo, e corredores laterais, de formato circular, que ligavam os corredores radiais a intervalos regulares.
Atrás das paredes situadas entre os corredores radiais e laterais devia haver salas. Rhodan bem que gostaria de dar uma olhada numa delas. Mas nas paredes não havia o menor indício da existência de portas, e uma ligeira salva de desintegrador deixou claro que a estabilização do campo cristalino no interior da montanha era tão eficiente como na caverna.
Estavam andando há cerca de meia hora e deviam ter percorrido uns dois ou três quilômetros. Anne parou tão abruptamente que os que vinham atrás esbarraram nela.
— Parem!
Rhodan virou-se.
Anne apontou para a parede.
— Aquele corredor não está vazio. Há gente por ali.
— Gente?
Anne fechou os olhos e procurou concentrar-se. Tateou os corpos que se encontravam do outro lado da parede e procurou determinar sua forma. Era bastante estranha, mas não havia dúvida de que aqueles seres desconhecidos guardavam certa semelhança com os homens.
Mas não se moviam. Permaneciam rígidos como cadáveres. Um calafrio passou pela espinha de Anne, que relatou:
— São semelhantes aos homens. Mas não se movem.
Rhodan resolveu não se preocupar com aqueles vultos estranhos. Mandou que o grupo prosseguisse na sua marcha.

* * *

Com certa inquietação o comandante constatou que o grupo de estranhos parou justamente diante do corredor lateral em que postara o primeiro destacamento de policiais.
Seria uma coincidência? Os localizadores não puderam fornecer qualquer indicação sobre a maneira pela qual os estranhos poderiam ter notado a presença dos policiais. Só podia ser coincidência.
Abriu a porta de um elevador e esperou que o grupo de estranhos o atingisse. Enquanto iam descendo ordenou aos policiais que saíssem do corredor lateral e bloqueassem o corredor radial atrás do grupo.

* * *

A porta tinha mais de dois metros de altura e pelo menos três de largura. Atrás dela havia um compartimento sem teto, em forma de caixote. Rhodan enfiou a cabeça e sentiu a estranha sucção na nuca, provocada pela ausência de gravidade no interior do poço.
Era um poço de elevador.
Nas paredes não havia qualquer indicação sobre a maneira de comandar o elevador. Rhodan fez sinal para que os membros do grupo se aproximassem e ordenou-lhes que saltassem ao mesmo tempo sobre a prancha.
Por um instante parecia que o elevador não se movia. Mas de repente ele o fez com tamanha rapidez que todo mundo pensou que alguém lhes arrancara o apoio sob os pés.
A viagem só durou alguns segundos. Pela movimentação da parede Rhodan calculou que haviam vencido uma diferença de altitude de cerca de cem metros. No lugar em que o elevador parou, viram diante de si um corredor igual aos que já haviam percorrido. Era igual, exceto...
— Olhem ali atrás! — sussurrou Bell.
Desta vez não precisaram do poder sobrenatural de Anne. Os seres estranhos estavam bem à vista. Parados do lado esquerdo do corredor, a uns vinte metros do elevador, não faziam o menor movimento.
Tinham formato humano, mas os rostos eram escuros e bexiguentos. Ao que parecia, não usavam nenhuma roupa. A pele nua brilhava em toda a extensão, exceto nas manchas escuras que lhes cobriam o corpo.
Num movimento instantâneo Bell levantou a arma. Ainda assim os estranhos permaneceram imóveis.
Rhodan destacou-se do grupo e caminhou na direção deles. Deixaram que se aproximasse a dez metros, depois executaram o primeiro movimento. Levantaram os braços. Rhodan percebeu que estavam armados. Traziam as armas apontadas em sua direção.
Rhodan deu de ombros e voltou atrás.
Do outro lado, o corredor estava vazio.
— Quem sabe se não vamos cair numa armadilha? — disse Bell com a voz furiosa.
— O que podemos fazer? — perguntou Rhodan. — Trocar tiros com eles? Não temos um palmo de cobertura.
— Como não? O elevador...
Virou-se abruptamente. O elevador havia desaparecido. A porta fechara-se diante dele. A parede voltara a ser tão lisa como as outras paredes daquela fortaleza.
— Que porcaria!
Foram caminhando para a direita. Os seres estranhos também se moveram, seguindo-os com os passos hesitantes.
Rhodan começou a inquietar-se. O corredor prosseguia em linha reta até onde alcançava a vista. Não havia nenhum ponto em que pudessem abrigar-se.
Se a única intenção desses seres medonhos fosse atraí-los para uma armadilha, não teriam muita dificuldade em conseguir seu intento. Na situação atual, Rhodan preferia deixar que o aprisionassem sem resistência a arriscar a vida de seus homens numa luta em que não teriam a menor chance.
Provavelmente a fortaleza estava repleta daqueles seres estranhos. Se parassem em determinado ponto do corredor para defender-se, a parede poderia abrir-se naquele mesmo lugar e expelir um montão de inimigos.
As forças de Anne começaram a diminuir. A tensão ininterrupta deixara-a cansada. Rhodan preferiu poupá-la, para poder recorrer a ela quando tivesse muita necessidade.

* * *

Como Rhodan avançasse devagar, o comandante teve tempo de ampliar os conhecimentos extraídos do cérebro de Tako Kakuta.
Constatou que o cérebro de Tako registrava o conhecimento completo de duas línguas e noções fragmentárias de uma terceira. Procurou combinar as duas línguas que ali se achavam completas e ligá-las a uma raiz comum; não o conseguiu. Isso deixou-o surpreso.
Transmitiu os conhecimentos lingüísticos recém-adquiridos a dois oficiais e mandou que fossem ao encontro dos seres estranhos.
— Parem! — gritou Rhodan quando os dois vultos surgiram no corredor.
Os dois oficiais avançaram com as mãos levantadas. Rhodan aguardou-os à frente do grupo, de arma em punho.
Notou que tinham a pela clara e, ao contrário do destacamento que ficara para trás, usavam um certo tipo de roupa. Além disso, seus rostos não eram bexiguentos.
Procurou decifrar suas fisionomias, mas viu apenas um sorriso amável e inexpressivo, que não permitia qualquer conclusão sobre suas reais intenções.
Os dois homens não usavam barba nem bigode. Tinham a testa mais alta que a dos terráqueos, mas quanto ao mais poderiam ser confundidos perfeitamente com homens europeus, americanos ou australianos.
Pararam a alguns metros de Rhodan. Um deles disse algumas palavras numa língua clara e melodiosa. Calou-se e esperou pela resposta de Rhodan.
Este não entendera nada. Sob o aspecto fonético, a língua falada por aquele estranho se parecia com o japonês ou o coreano. Acontece que Rhodan não dominava nenhuma dessas línguas, e além disso achava pouco provável que naquela fortaleza houvesse alguém que falasse justamente o japonês ou o coreano.
Depois que Rhodan permaneceu calado por algum tempo, o outro estranho começou a falar:
— O comandante pede que tenham a bondade de ir ao lugar em que se encontra. Manda dar-lhes as boas-vindas como seus hóspedes. Não têm nada a temer.
Por uma fração de segundo Rhodan ficou perplexo. Enquanto atrás dele o espanto ainda se manifestava em sons ofegantes e assustados, já compreendera o que havia acontecido. Tinham aprisionado Tako, ou então conservavam-no consigo por sua livre vontade, e de seu cérebro extraíram as línguas que ele dominava: o japonês e o inglês.
Rhodan refletiu febrilmente. Não havia nenhum motivo para supor que o comandante da fortaleza não tinha qualquer intenção hostil. O convite de entrar na armadilha poderia ser adoçado por meio de palavras amáveis. Se fosse assim, poupariam muito trabalho ao inimigo caso aceitassem seu convite.
Apesar de tudo Rhodan respondeu:
— Ficamos muito gratos ao seu comandante. Querem fazer o favor de levar-nos para junto dele?
— Queiram acompanhar-nos — disse o estranho que falava o inglês.
Virou-se e seguiu juntamente com seu acompanhante pelo caminho por onde tinham vindo. Rhodan e os outros membros do grupo foram atrás deles.
Virando a cabeça ligeiramente para o lado, Rhodan disse com a voz baixa:
— Preparem-se. É bem possível que queiram tentar um truque.
Alguém resmungou algumas palavras de assentimento. Bell disse:
— Devíamos ter perguntado onde está Tako.
— No momento isso não adiantaria — disse Rhodan em tom apressado.
Na luz difusa do corredor tornava-se difícil calcular as distâncias. Por algum tempo parecia que o corredor continuava por alguns quilômetros numa reta contínua. Mas ainda não tinham caminhado dois minutos depois do encontro com os estranhos, quando alguns contornos começaram a desenhar-se diante deles. Poucos instantes depois o corredor desembocou numa praça cuja extensão era considerável.
À primeira vista parecia ter formato retangular, medindo uns quinhentos metros para a esquerda e para a direita, e duzentos metros de largura. Mas logo constataram que a praça não passava de um tipo de corredor circular, que contornava um edifício também circular que se encontrava no centro.
Os dois estranhos atravessaram a praça. A patrulha acompanhou-os. Rhodan lançou os olhos em torno. Ficou espantado ao constatar que a altura da praça, ou corredor circular, era de pelo menos cinqüenta metros, e que a intervalos de cerca de doze metros havia galerias cavadas nas paredes, onde desembocavam os corredores de outros pavimentes.
Tudo indicava que se aproximavam do centro da fortaleza. Rhodan ficou curioso para saber o que encontrariam no interior do edifício situado no centro da praça.
Tinha a altura da praça, e em certos pontos parecia mesmo que rompia o teto da mesma. Suas paredes não apresentavam emendas, tal qual acontecia com as demais paredes daquela fortaleza. Quando os dois estranhos atingiram o edifício, depois de terem cruzado a praça, uma das paredes abriu-se diante deles e deixou à vista um salão imenso, muito mais iluminado que os recintos que Rhodan e os membros de seu grupo tinham visto até então.
Apesar do tamanho descomunal, o salão só ocupava uma parte minúscula do edifício. Assim que penetrou pela grande abertura que se formara diante dos dois estranhos, percebeu a finalidade daquele edifício.
A parede dos fundos, que media cerca de trinta metros de largura e quinze de altura, era um único painel de instrumentos, semelhante ao que se encontrava, em versão muito mais reduzida, na sala de comando da Good Hope. Um tipo de quadro de comando avançava uns dois metros da parede para fora; à direita e à esquerda do mesmo viam-se pequenas plataformas, que devia servir para levar as pessoas que ali trabalhavam de um a outro ponto do gigantesco painel.
Rhodan percebeu imediatamente que a sala de comando em que se encontravam devia pertencer a um dos maiores cérebros positrônicos jamais construídos na galáxia.
Assim que chegaram ao centro da sala, os estranhos pararam. Esperaram que Rhodan e os membros de seu grupo se aproximassem. Depois um deles fez um gesto grandioso em direção ao painel e disse:
— Eis aí o comandante. Sente muito prazer em tê-lo diante de si.

* * *

O resto dos dias passados na fortaleza decorreu num assombro incessante causado pelas maravilhas técnicas que a montanha abrigava.
Rhodan e Bell, que haviam recebido instrução arconídica, espantaram-se menos com as maravilhas que com o fato de as encontrarem justamente em Vênus.
O comandante, que gostava tanto de receber informações como de dá-las, deu a entender que seus construtores foram arcônidas pertencentes à mesma raça de Crest e Thora. Estes haviam decolado com a Good Hope assim que Rhodan os avisou da descoberta, pousando sem incidentes na plataforma diante da caverna.
Para Rhodan o fato de pela primeira vez ver Crest espantado de verdade foi um grande acontecimento. Crest não compreendia que parte da história colonial dos arcônidas, por mais insignificante que fosse e por mais recuada que ficasse no passado, tivesse escapado aos registros históricos. A observação um tanto irônica de Rhodan, de que mesmo a máquina mais bem regulada pode cometer um engano, correspondia ao curso do pensamento humano-terreno, o que impediu Crest de aceitá-la.
Mergulhou afoitamente nas informações históricas que o comandante — para Crest era o maior cérebro positrônico que já vira, além do grande cérebro central localizado em Árcon — lhe ministrava com a maior boa vontade, em forma de relatórios falados numa língua que o tradutor robotizado da Good Hope identificara como o intercosmo antigo, e ainda sob a forma de filmes e fitas magnéticas, cujo conteúdo foi assimilado pelos estudiosos nos moldes da instrução hipnótica.
Sem que o soubesse, Crest realizou por essa forma uma divisão de trabalho que lhes poupou bastante tempo, pois permitiu que, além do levantamento dos dados históricos, também coletassem os dados puramente materiais.
Seguindo as informações transmitidas por Crest, revistaram pavimento por pavimento, setor por setor, corredor por corredor da enorme fortaleza e levantaram o inventário de tudo que encontravam. Só levaram algumas horas para constatar que por ali havia material suficiente para que a Terceira Potência superasse as dificuldades dos estágios iniciais.
Naturalmente Tako Kakuta foi libertado, depois de recuperar-se do esgotamento causado pelo interrogatório hipnótico. Tal qual os outros membros da patrulha, passou a ocupar um camarote residencial que o comandante lhe destinara no décimo pavimento.
Os outros membros do grupo foram passando o tempo, conforme lhes dava na cabeça, no interior dos enormes salões da fortaleza. Uma vez obtidas as indicações necessárias, as portas embutidas nas paredes inteiriças não representavam mais nenhum obstáculo. Sua atividade não passava dum tatear infantil em meio às maravilhas da técnica. No entanto, ao menos um fato deixou-os mais tranqüilos: o comandante ordenara que os policiais bexiguentos retornassem aos seus alojamentos, para que não os assustassem mais.
Os policiais não passavam de robôs que resistiram ao longo tempo decorrido desde a construção da fortaleza. No interior dela não havia um único ser vivo. O que existia era um gigantesco cérebro positrônico, o comandante, e um exército de robôs. Nada mais. Os setores de reparos providenciavam para que todo o equipamento atravessasse os milênios sem sofrer maiores danos. Apenas, o comandante não atribuía maior importância ao revestimento orgânico em forma de pele que cobria o corpo metálico dos robôs, e por isso não ordenara uma conservação mais cuidadosa do mesmo. Assim, o plástico orgânico escurecera e se abrira em furos, ou em bexigas, conforme diziam os terráqueos com base numa primeira impressão. Os oficiais robotizados, que desempenhavam funções muito mais complexas, constituíam a única exceção.

* * *

Certo dia Crest saiu das salas de instrução cansado, mas radiante. Declarou-se disposto a informar os membros da patrulha sobre todos os detalhes de que ficara sabendo através das anotações encontradas na fortaleza.
Essa forma de transmissão de conhecimentos tornava-se necessária porque além de Bell e Rhodan nenhum dos terráqueos estava em condições de submeter-se aos impulsos hipnóticos dos arcônidas.
Reuniram-se na sala que tinha uma das paredes coberta pelo painel do cérebro positrônico. Todos compareceram, exceto Thora.
Esta aparecera raras vezes, desde que a Good Hope pousara na plataforma. Rhodan pensava que sabia o que estava procurando. Uma vez que conhecia melhor os depósitos de equipamentos técnicos da fortaleza, teve compaixão dela por causa de suas esperanças vãs.
Crest fez seu relatório em inglês. Adquirira um domínio perfeito dessa língua; ninguém poderia apontar o menor erro em sua exposição.
— Esta base — principiou — tem uma idade de cerca de dez mil anos, segundo a escala de tempo dos senhores. Pelos dados da história do Império Galáctico, data do primeiro período de colonização. O destino da frota colonizadora que pousou neste planeta era outro. Interrompeu sua viagem por entender que o terceiro planeta deste sistema solar constituía um objetivo mais desejável que o mundo que lhes fora indicado com base nos mapas estelares dos arcônidas.
“No entanto, ao aproximarem-se do terceiro planeta, que é a Terra, constataram que o mesmo estava habitado. Por isso realizaram um pouso em Vênus, onde iniciaram os preparativos para a colonização deste mundo. Aqui instalaram uma base secundária, que é precisamente a fortaleza em cujo interior nos encontramos. Os arcônidas, em número de duzentos mil, segundo revelam as crônicas, colonizaram um dos continentes da Terra. Pelo que sei, o mesmo não existe mais. Naquela época recuada formava a ponte entre as terras afro-européias e as americanas.
“Mas essa colônia teve uma curta duração. Mais tarde poderão informar-se sobre os detalhes da catástrofe que a destruiu e afetou toda a Terra. Só cinco por cento dos arcônidas sobreviveram à catástrofe e retornaram a Vênus. Falaram num ataque de seres invisíveis. É claro que com isso apenas quiseram justificar seu fracasso.
“A base de Vênus ainda dispunha de metade da frota de naves em condições de navegabilidade espacial, ou seja, de naves capazes de percorrer qualquer distância, quase sem nenhuma perda de tempo. Os colonos... esperem.”
Neste ponto seria conveniente intercalar uma explicação.
— Uma expedição colonizadora nunca foi um empreendimento democrático, e nem poderia ser. Nos primeiros anos de sua instalação e desenvolvimento, uma colônia jovem precisa de um regime forte, e este era exercido através de uma espécie de aristocracia.
“O conselho aristocrático da colônia terrena decidiu que o remanescente dos colonos decolaria nos veículos espaciais de que ainda dispunham, e procuraria alcançar o ponto de destino inicialmente fixado, já que por vários séculos a Terra não ofereceria uma área adequada para a colonização. A decisão foi cumprida, o que era mais que natural, pois não se admitia qualquer oposição às resoluções do conselho de colonização. A maior parte dos colonos decolou de Vênus com as naves que ainda lhe sobravam. Uma minoria ficou para trás, por não encontrar lugar nos veículos espaciais. A maior parte da frota espacial fora destruída na Terra. Uns dois mil colonos tiveram de ficar em Vênus. Levaram vida solitária, mas não desconfortável. Ao que tudo indicava, o conselho aristocrático escolhera-os porque espiritualmente eram mais indolentes que os outros. Nem pensaram em lançar mão dos recursos de que dispunham para construir suas naves espaciais. Continuaram onde estavam.
“Faz cerca de oito mil anos que o último membro desse grupo morreu.
“Até parecia que uma estrela má pairava sobre os colonos deste setor da galáxia. Nunca mais se ouviu falar da frota espacial que decolou de Vênus depois da catástrofe terrestre. Temos certeza de que não chegou ao destino. Mas ninguém sabe o que lhe aconteceu. Nenhuma notícia chegou a Árcon, nem o comandante sabe dizer o que é feito dela. Ao que parece também em Vênus aconteceram coisas estranhas. Mas as informações a este respeito são tão escassas que de nada nos servem.
“A fortaleza continuou a viver. Formava um complexo autárquico. Os grupos de reparo estavam em condições de manter em funcionamento toda a aparelhagem existente nela. Atravessou os milênios e apenas revela sua presença de dez em dez horas, expelindo o ar quente gerado no seu interior através de um canal bem disfarçado.
“As ordens que o último comandante arconídico inseriu no cérebro positrônico continuaram a vigorar. Além disso, o cérebro fora instruído a obrigar qualquer nave estranha a pousar, ou destruí-la. As naves arconídicas eram a única exceção. Mas, como se presumia que estas mesmas só pousariam em Vênus se pertencessem a alguma empresa colonial do setor, exigia-se que transmitissem o respectivo sinal codificado. Fora essa a razão da mensagem que não entenderam. Embora não tivéssemos transmitido o sinal, o comandante, ou melhor, o cérebro positrônico, percebeu que a nave era do tipo daquelas que não deviam ser bombardeadas. Tentou arrastar-nos para a plataforma por meio do raio de sucção; mas — fez um cumprimento a Rhodan — nosso comandante conseguiu, numa reação instantânea, subtrair a nave à influência estranha e pousá-la num lugar em que o cérebro positrônico não a encontraria. Após isso o comandante entrou em contacto com os animais do tipo das focas, dotados de pouca inteligência, procurando localizar a nave por seu intermédio. Mas essa tentativa também falhou, pois a inteligência das focas não basta para fornecer indicações de local que possam ser aproveitadas pelo cérebro positrônico.
“Pois bem. O cérebro aguardou pacientemente. Poucos dias depois viu que os estranhos vinham espontaneamente para junto dele. Alguns detalhes espantosos foram constatados: os membros do grupo eram estranhos, mas seu equipamento era de origem arconídica.
“O cérebro concluiu que aqueles seres deviam ter dominado uma nave arconídica, aprisionado seus tripulantes e roubado o equipamento. Mas essa conclusão não se revestia de um grau de probabilidade aceitável, motivo por que o cérebro continuou a trabalhar.
“Poucas horas depois Tako deu o salto. O cérebro reconheceu sua chance. Tako foi aprisionado, e sobre o resto os senhores já estão informados.”
O relatório propriamente dito não causou muita impressão em Rhodan. O que lhe inspirou certa tranqüilidade e devoção foi o fato de que as tradições de uma inteligência extraterrena forneciam a primeira indicação da existência da Atlântida. No seu entender era essa a única interpretação possível do relato sobre o reino colonial situado entre o continente euro-africano e o americano.
Um sorriso passou pelo rosto de Rhodan. Lembrou-se de que os arcônidas, que o acaso fizera pousar na Lua há certo tempo, representavam um ganho inestimável não só para a tecnologia terrena, mas também para a historiografia do planeta, já que seus registros lançaram uma luz fulgurante sobre um dos setores mais obscuros da história humana: o que se relaciona com o reino da Atlântida e o dilúvio.
— Isso significa — prosseguiu — que o cérebro ficou na expectativa durante oito mil anos. Isto é fácil de dizer; acontece que este nosso cérebro — apontou com o dedo por cima do ombro — tinha um objetivo. Aguardava um novo comandante cuja constituição mental permitisse adaptá-lo de tal forma que só obedecesse a ele. Ao que parece, acaba de encontrar esse comandante.
Interrompeu-se para observar o efeito de suas palavras.
— Através dos dados fornecidos por Tako, e principalmente por mim, o dispositivo positrônico tomou conhecimento das características mentais de todos os membros desta expedição. A constituição mental do futuro comandante desta base não difere da dos arcônidas, muito embora seja um terráqueo: Perry Rhodan!

* * *

Rhodan levou algum tempo para recuperar-se do espanto. Não é que lhe faltasse a consciência das suas qualidades. O que o surpreendia eram as conseqüências que resultariam da decisão do cérebro. Gostaria de saber se Crest não pregara algumas mentiras ao dispositivo positrônico, ao responder às indagações formuladas a respeito dele, Rhodan.
Mas constatou que ninguém seria capaz de enganar um dispositivo positrônico. Aceitou o posto. Por algum tempo ficou receoso de que Crest pudesse ressentir-se com a decisão do cérebro. Mas Crest era um cientista cujo espírito se situava muito além da zona em que se sente inveja por razões de conteúdo político.
Dessa forma Rhodan tornou-se comandante, ou melhor, senhor absoluto de uma fortaleza cujo recinto abrigava, concentrada em espaços reduzidos, maior quantidade de energia que a de que dispunham todas as fábricas e centros de pesquisa da Terra reunidos. O equipamento da fortaleza bastaria para destroçar sistemas solares inteiros e rechaçar qualquer inimigo, desde que o mesmo não se lançasse ao ataque com uma frota inteira.
Mas havia uma coisa de que a fortaleza não dispunha...

* * *

Thora não quis acreditar. Menos de uma hora após sua chegada, solicitou ao cérebro um esquema sobre a situação dos compartimentos em que se dividia a fortaleza e lançou-se à procura.
Poucas horas depois de ter assumido o comando da fortaleza, Rhodan já havia ajustado a freqüência dos impulsos de comando que acionavam o dispositivo positrônico aos impulsos de seu próprio cérebro. Ao examinar juntamente com Bell um dos depósitos do último pavimento, encontrou-se com Thora.
— Você está procurando em vão — disse em tom sério.
Ao que parecia Thora sabia a que estava se referindo.
— Sei — respondeu cabisbaixa.
— Por que não procura ver as coisas como são? — perguntou Rhodan. — Após a catástrofe terrena, quando os colonos resolveram dirigir-se ao objetivo inicial, levaram consigo todas as naves de que dispunham. As coisas que se encontram nesta fortaleza são maravilhosas para os objetivos que eu tenho em vista. Mas não existe nada que possa ajudar você a vencer a distância enorme que nos separa de Árcon.
Calou-se. Esperou que Thora o olhasse.
— Você está presa à Terra — prosseguiu com um sorriso. — Esforço-me para que sua permanência em nosso planeta seja agradável. E estou disposto a fazer tudo para que você possa retornar quanto antes ao seu planeta. Mas até o meio mais rápido levará alguns anos para concretizar-se. Até lá terá de viver com uns semi-selvagens...
— Pare! — interrompeu-o Thora com uma veemência surpreendente. — Acha que é a única pessoa no mundo que nunca cometeu um engano?


* * *





O mistério milenar de Vênus foi decifrado e Perry Rhodan obteve uma base que será da maior importância para o progresso da Terceira Potência.
Mas Perry Rhodan não descansará. Um pedido de socorro vindo da Terra exige seu retorno imediato.
SOCORRO PARA A TERRA — é esta a divisa do novo empreendimento a que Perry Rhodan se lança com seu exército de mutantes.
SOCORRO PARA A TERRA é o título do próximo volume da coleção Perry Rhodan.

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