domingo, 7 de outubro de 2012

P-003 - A Abóboda Energética - K. H. Scheer [parte 2]


Um homem alto e louro, de gestos delicados, cujo rosto revelava bastante autocontrole, observava atentamente as reações do chefe do Serviço Secreto, um personagem quase onipotente. E uma vez terminada a sessão, breve mas importante, pediu dispensa das funções de observador especial e oficial de ligação do Conselho Internacional de Defesa e solicitou permissão para atuar na China.
Mercant atendeu ao pedido. Ao retirar-se, o homem alto teve a impressão de sentir o olhar do chefe pousado na sua nuca. Costumava-se dizer que o cérebro de Mercant era dotado de qualidades excepcionais. De qualquer maneira, atendera ao desejo razoavelmente fundamentado de seu melhor agente. Mas não deveria ter sorrido de forma tão estranha.
Lá fora, ouviam-se os rugidos dos pesados bombardeiros Delta dos visitantes que deslizavam sobre a pista. O QG do CID voltou à rotina. Allan D. Mercant estava satisfeito, tanto quanto isso era possível em meio aos acontecimentos.
No entanto, dizia-se que seu cérebro possuía uma elevada capacidade parapsicológica. E quase todos os visitantes que naquele dia compareceram ao QG haviam menosprezado esse fato. Só um homem estava meditando a respeito. Para ele, a idéia constituía um foco de permanente inquietação.
— Deixemos que os dados rolem — murmurou Mercant.

III
 Duas horas da madrugada. Num gesto brusco, o homem magro que ostentava as divisas de tenente-general baixou a mão.
No mesmo instante, irromperam as fúrias do inferno. As bocas de cerca de seis mil canhões e lança-foguetes começaram a cuspir fogo.
Em toda a história militar da humanidade jamais houvera um fogo cerrado como este. Nunca antes, mil e quinhentas baterias, quase todas compostas dos calibres mais pesados, concentraram seu fogo sobre um alvo que não era maior que um jardim.
O cerco continuava, com a única diferença que novas divisões haviam sido mobilizadas nos últimos trinta dias. Desde alguns dias antes, o território delimitado pela cúpula energética passara a ser bloqueado por um cordão quíntuplo de tropas.
Pouco depois da abertura do fogo, seis mil projéteis de calibres variados golpearam a cúpula protetora. A pontaria foi concentrada numa área de cinqüenta metros quadrados, situada a vinte metros acima do solo.
Foi ali, e somente ali que detonaram cargas explosivas. Era a última tentativa de romper a muralha energética, após uma série de ataques infrutíferos.
O QG ficava numa elevação, a treze quilômetros da linha divisória do território ocupado por Rhodan.
As posições de artilharia ficavam mais ao norte. As baterias pesadas foram instaladas a trinta quilômetros do alvo. Os canhões convencionais voltaram a ser utilizados, pois ao que tudo indicava o pequeno grupo que ocupava o território bloqueado fora reduzido à imobilidade.
Já não se notava o menor indício de um estado de ausência de gravidade. Por isso, o general Tai-tiang ordenara o novo ataque.
Os oficiais de seu estado-maior olhavam fixamente para o alvo. Entre eles havia cientistas, inclusive peritos em armamentos. A força de impacto dos projéteis que atingiam o alvo ao mesmo tempo chegava a vários milhões de toneladas. As ondas de pressão que se sucediam sem cessar teriam sido suficientes para aplainar uma cadeia de montanhas. Ficaram observando o espetáculo durante quinze minutos, sem trocar uma única palavra. A essa distância, a área atingida parecia uma mancha incandescente de dez centímetros, que constante-mente expelia raios fulgentes.
A cúpula energética, normalmente invisível, emitia um brilho esverdeado. Junto ao local dos impactos assumia uma tonalidade violeta. Nada mais aconteceu. A cúpula reluzente parecia um símbolo brilhante em meio à noite impregnada de uma luminosidade vermelha.
— Este bombardeio arrasaria as fortalezas mais resistentes do mundo — disse Tai-tiang, em tom ressentido. — De que tipo de máquinas disporá essa gente? Como será possível resistir a um fogo cerrado destes com a mesma facilidade de quem se abriga de bolinhas de gude atiradas contra uma parede de aço? O que está acontecendo?
O chinês voltou a cabeça num gesto repentino. Seus olhos pareciam chispar fogo. Tai-tiang sabia perfeitamente que estava prestes a atirar outro bilhão do patrimônio do povo contra uma parede misteriosa.
— Os ilustres cientistas envolvem-se num silêncio desnorteante — resmungou. — Muito bem! Será que seus colegas do Ocidente têm alguma coisa a dizer?
As equipes de observação de americanos e europeus haviam chegado quinze dias atrás. A delegação do Bloco Oriental presenciara o fracasso catastrófico do Exército Asiático desde o início. Os conselhos e as recomendações tornavam-se cada vez mais raros. E agora, os colegas do Ocidente viram-se brindados com olhares irônicos.
Um dos maiores físicos nucleares dos Estados Unidos procurou fazer-se ouvir por cima do trovejar dos canhões distantes. Só com grande esforço, aos gritos, conseguiu ser entendido.
— Cavalheiros, deixamos perfeitamente claro aos senhores e aos seus governos que nem mesmo nós dispomos do elixir da sabedoria. Aqui nossos conhecimentos científicos e a experiência dos nossos técnicos esbarram numa muralha intransponível. Recomendo encarecidamente que voltem a consultar as equipes médicas e psicológicas. Se algo puder ser feito, isso só é possível através da prostração nervosa dos inimigos que se encontram cercados.
— Tentaremos no devido tempo — disse o comandante em tom nervoso. - Acha que foi por nada que tivemos o trabalho infernal de instalar estas baterias? Lançamos mão de quase toda a frota de aviões de transporte da Federação Asiática para garantir o abastecimento de munições. Não compreendo que os senhores não estejam em condições de fornecer qualquer cálculo aceitável. Deve haver uma maneira de destruir esse complexo. Se para isso precisarmos de mais mil e quinhentas baterias, é só avisar.
A discussão tornou-se mais acalorada. A apenas treze quilômetros dali, um verdadeiro inferno foi desencadeado num espaço bastante restrito.
— Eu ficaria louco se estivesse ali — disse um civil de estatura baixa e lábios ressequidos. Seus olhos procuraram a figura alta em meio à penumbra do abrigo de observação.
O homem aproximou-se. Apesar da elasticidade dos seus passos, parecia arrastar os pés. Quando surgiu na luz débil das lâmpadas semi-apagadas, seu rosto exprimia uma tranqüilidade surpreendente.
Sem dizer uma palavra, dirigiu o potente binóculo para oeste. Logo após, lançou um olhar sobre o relógio.
Perto dele, a luminosidade verde de um isqueiro rompeu a escuridão. O tenente Peter Kosnow, agente especial dos Serviços Secretos do Oriente, fumava em baforadas rápidas e nervosas.
Este, sentia-se tomado de sentimentos caóticos. Não era fácil ficar parado em meio àquele ajuntamento de oficiais de alta patente. Em condições normais, Kosnow não teria dado a menor importância aos militares. Até então, os poderes extraordinários de que se achava investido haviam bastado para manter um relacionamento satisfatório também com esse tipo de gente. Na maioria das vezes, tinham de submeter-se às ordens dele, que não passava de um simples tenente do Serviço Secreto. A situação não sofrera qualquer modificação, pelo menos nas aparências. Enquanto não se conseguisse enxergar atrás da testa daquele homem robusto, ele continuaria a ser considerado o representante de uma organização superpoderosa.
Ele mesmo, porém, acreditava que todos notariam a inquietação de que se achava possuído. Tornou-se inseguro e insatisfeito consigo mesmo. Lutou para manter o autocontrole e esforçou-se para não despertar a menor desconfiança.
Pensou no cigarro que mal começara a fumar. O brilho apagou-se. Só o rosto estreito do homem que se encontrava diante dele destacou-se na luminosidade dos televisores.
No íntimo, Kosnow começava a duvidar de seu novo amigo. Nem por um segundo chegou a pensar na possibilidade de que o capitão Albrecht Klein, agente especial do Conselho Internacional de Defesa pudesse cometer uma tolice. O que não o impedia de achar que a audácia do colega constituía uma rematada loucura.
Kosnow reprimiu um pigarro. A discussão travada em altas vozes entre os oficiais e cientistas veio bem a propósito pois fornecia uma verdadeira cortina sonora que encobria a conversa dos dois homens.
Albrecht Klein, promovido havia apenas três semanas pelo próprio Allan D. Mercant, ao posto de capitão do CID, descansou o binóculo num gesto vagaroso. Lançou um olhar perscrutador para os homens que gesticulavam nervosamente. Permitiu-se um repuxo irônico dos cantos da boca.
— São exatamente dez horas e dezoito minutos — disse em voz baixa. — O que houve, meu camarada? Seu rosto parece ter sido tirado de um museu de cera!
Kosnow soltou um palavrão. Sua voz tinha um tom gutural. Klein continuou:
— Há seis horas que o grupo de transportes pousou na Sibéria. A esta hora, a nave lunar de vocês já deve ter a bordo a nossa nova bomba. E eu não gosto de nada disso.
Depois, em silêncio, examinou o seu colega do Oriente com um olhar atento. Os olhos de Kosnow estavam fixados na cúpula energética que se desenhava nitidamente em meio à noite.
— São formidáveis — cochichou ao ouvido de Klein. — Se tivessem praticado o menor ato que pudesse ser considerado um atentado aos direitos humanos eu seria o maior inimigo deles — e também de você. Mas como as coisas estão, não posso; e isso me deixa doente. Você compreende, amigo?
Klein deu uma risada.
— A quem vai dizer isso! Só sei que impediram a guerra nuclear que estava para ser iniciada. Também sei que Rhodan não pretende favorecer qualquer das partes. Tenho um medo terrível de que amanhã ou depois as coisas mudem. A desconfiança e o medo que reinavam entre os homens cederam porque um novo inimigo surgiu. Como se sentem diante de uma ameaça comum, adotam um procedimento comum. E isso vale muito. Ninguém teria alcançado a tão desejada paz mundial de forma mais bela, rápida e eficiente. Enquanto Rhodan desempenhar as funções de terceira potência, nós formaremos uma unidade coesa. Quanto mais durar, tanto mais intensamente a idéia do seu poderio inacreditável penetrará na mente dos homens e mais fortemente solidificaremos nossa união. Se a situação perdurar por mais alguns anos ou décadas, teremos uma Terra unida. Nestas condições, não vejo por que lançar mão de todos os recursos para eliminar Rhodan. Quando ele estiver liquidado, a guerra fria irromperá de novo. Sejamos honestos quanto a isso!
— É uma conclusão clara e absolutamente lógica — Kosnow esboçou um sorriso triste. — Mas há um senão. Ninguém sabe que rumo tomará a personalidade de Rhodan. Ele não passa de um homem, mesmo que estejamos entusiasmados por ele.
— Sou o único homem que manteve contato pessoal com ele depois que pousou na Terra. Também sou o único que viu o tal Crest. A esta altura, nossos ilustres chefes já chegaram à conclusão de que um ser extraterreno se encontra em companhia de Rhodan. Isso revela um poder de observação genial. Acontece que não viram Crest. Estou convencido de que Rhodan é predestinado a cuidar de toda a Terra. Decida logo, Peter! Veja o nosso exemplo. Quando nos encontramos há cerca de dois meses, pegamos instintivamente nas armas.
— Rotina. E reflexo condicionado — retificou Kosnow.
— Pode ser. Tanto pior, se tivermos de nos exprimir por essa forma. A esta altura, acho que não é mais que nosso dever fazer alguma coisa pelo mundo que vivemos. Para mim a guerra nuclear frustrada graças à intervenção de Rhodan representou o golpe final. Que diabo! Até onde chegamos! Vivíamos todas as horas do dia num medo constante do amanhã. Não quero que isso se repita. Uma tentativa malograda basta! Bem, não tenho mais nada a dizer. Já o informei sobre o resultado da conferência da Groenlândia. A bomba ainda é um assunto rigorosamente confidencial. Nenhum dos homens que aqui se encontram sabe coisa alguma a respeito. Até mesmo o general Tai-tiang é um homem tão sem importância que não merece ser informado sobre a nova arma nuclear. Segundo a vontade dos grandes chefes, o bombardeio da cúpula não passa de uma manobra planejada e executada de forma a mantê-lo ocupado e para desviar a atenção que poderia ser atraída pelo lançamento de naves tripuladas. Depois que a base na Lua tiver sido destruída, os chineses evacuarão a área e um bombardeiro ocidental soltará uma única bomba sobre a região.
O capitão Klein voltou a olhar para o relógio. Seus trajes escuros mal se destacavam da escuridão que reinava no fundo do abrigo. Kosnow permaneceu calado. Seus dentes vigorosos morderam o lábio inferior. Ainda hesitava.
— Minha missão começará dentro de oito minutos. Você participará dela. Decida logo! Aqui ainda podemos falar à vontade.
A figura de Klein submergiu na escuridão. Alguns segundos depois, fez continência a alguns oficiais uniformizados dos Serviços Secretos das três potências que participavam da operação.
O representante do Serviço de Defesa da Federação Asiática era o major Butaan; o do Serviço Secreto do Bloco Oriental, o coronel Kalingin; e o do CID, o coronel Cretcher.
Haviam elaborado um projeto conjunto cujo valor prático seria testado por um comando composto de agentes especiais do Ocidente e do Oriente.
Peter Kosnow também surgiu na luz abafada. Gestos rápidos, palavras ditas em voz alta.
O general Tai-tiang juntou-se aos homens que aguardavam. Seu aperto de mão foi cordial, mas seus olhos negros emitiam um brilho frio.
— Agirei conforme o combinado. Procurem executar os planos dos serviços de defesa. Se conseguirem poderão contar com a nossa gratidão. Quando pretendem penetrar na área bloqueada?
— Às três em ponto, senhor — respondeu o capitão Klein. — Pedimos-lhe encarecidamente que volte a transmitir instruções precisas aos comandantes das respectivas unidades. Não gostaríamos que nossa gente nos matasse por engano.
O general chinês franziu a testa. Depois sorriu. Ao que parecia, a expressão “nossa gente” soara um pouco estranha aos seus ouvidos.
— Não se preocupem. Não haverá nenhum engano da nossa parte. O helicóptero está esperando.
— Está na hora — insistiu o coronel Cretcher.
— É necessário que nossos homens estabeleçam contato antes do nascer do sol — interveio o coronel Kalingin. — Se Rhodan reagir conforme desejamos, poderão suspender o fogo às oito da manhã.
— Tomara que isso aconteça — murmurou Tai-tiang. — Soltem o demônio em tempo e tenham cuidado para não contaminar os nossos soldados. De que se trata?
O coronel Cretcher não satisfez a curiosidade do chinês.
— Trata-se de uma descoberta dos cientistas ocidentais — limitou-se a dizer. — O senhor há de permitir que nos retiremos.
Klein e Kosnow desceram em companhia dos oficiais. Numa das salas do abrigo fora instalada a central de comando dos Serviços Secretos. Um médico aplicou as últimas injeções. Isso foi feito com uma seringa hipodérmica especialmente esterilizada e guardada, que injetou o medicamento diretamente na corrente sanguínea.
— Alguma reação? — perguntou o médico. — Tonturas, perturbações do equilíbrio, sensação de calor?
— Nada, doutor — informou Klein. — Tomara que isso faça efeito. Não estou disposto a aparecer aos homens na forma de um monstro inchado.
— O senhor nem teria tempo para isso — observou um dos radiobacteriologistas. — Sob as condições químicas aqui reinantes, os germes cultivados estão em condições de viver e multiplicar-se. A única coisa que têm a fazer é abrir às escondidas as válvulas das pequenas garrafas de pressão. Um ligeiro chiado será inevitável. Tenham cuidado. Não se esqueçam de que, apesar das vacinas de alta eficácia, não será conveniente que o jato de plasma entre em contato com o rosto. O líquido está cheio de microorganismos dos tipos mais perigosos. Não posso revelar mais nada.
— Toda a área situada no interior da cúpula energética será contaminada? — perguntou Kosnow.
— O que mais você quer? — respondeu o coronel Kalingin, asperamente. — Se conseguirmos introduzir esta substância radiobiológica na área cercada pelo anteparo de radiação energética, dentro de poucas horas toda e qualquer forma de vida estará extinta no interior da cúpula. Dessa forma, poderíamos levantar acampamento. Nem mesmo o Dr. Haggard conhece qualquer remédio contra esses germes.
Ao receber a garrafa de aço, que não tinha mais de quinze centímetros, o capitão Klein sentiu a garganta ressequida. Parecia um bujão de oxigênio de um aparelho para respiração. A única diferença é que, ao contrário daquele, sua carga era a mistura mais infernal jamais produzida nos laboratórios secretos dedicados à guerra bacteriológica.
Ao que parecia, o coronel Cretcher estava percebendo a repugnância de seu agente.
— Klein, quem lhe confiou esta missão foram os representantes oficiais de toda a humanidade — disse em tom apaziguador. — Você parece ter captado uma certa admiração de Perry Rhodan. Há poucas semanas, este lhe permitiu que penetrasse na cúpula energética, onde mantiveram ligeira palestra. Tente entrar de novo. Diga que conseguiu passar às escondidas e contra a nossa vontade pelos cordões de tropas que isolam a área, a fim de conferenciar com Rhodan a pedido de um grupo revolucionário. Você leva uma vantagem enorme: já o conhece. Uma vez lá dentro, abra a válvula da garrafa de pressão sem que ele desconfie. Uma carga é suficiente. Invente qualquer coisa para fazer com que Rhodan acredite na sua missão revolucionária. É só.
Klein engoliu em seco. Parecia ter os olhos em fogo no rosto pálido.
— Sim, senhor — disse com a voz pesada. — Estou acostumado a fazer serviços desagradáveis, mas este negócio me parece muito sujo.
— O trabalho dos serviços secretos nunca foi muito nobre — resmungou Kalingin. — Francamente, capitão Klein, não compreendo os seus escrúpulos. Nosso pessoal não costuma ser assim.
O coronel Cretcher lançou-lhe um olhar de advertência. O rosto de Peter Kosnow continuava impassível.
— Pois é isso! — observou o major Butaan. Não disse mais nada, mas Klein teve a impressão de que o asiático seria um inimigo perigoso. O radiobiólogo americano, cujo rosto estava um pouco pálido, explicou:
— Capitão, apesar das ordens que tenho quanto ao sigilo, compreendo seus escrúpulos. Asseguro-lhe que essa arma não é a mais diabólica que temos em nosso arsenal. Os germes que se encontram nessas garrafas produzem uma infecção imediata, seguida de uma inchação dos tecidos do corpo. Mas se o antídoto for ministrado dentro de oito horas após a contaminação, o restabelecimento é absolutamente seguro. É claro que dispomos desse antídoto. Portanto, tudo dependerá de Perry Rhodan, exclusivamente dele, que poderá seguir as instruções que transmitiremos pelo rádio e pelos alto-falantes, abandonando o território bloqueado dentro de oito horas. Acho que é uma solução humana.
Klein preferiu não responder. Não apenas seria inútil, como também perigoso. O major da Federação Asiática observava-o com uma expressão de desconfiança nos olhos entreabertos. Antes que os dois agentes se retirassem, Butaan disse, em tom enfático:
— O tenente Li Shai-tung, representante dos Serviços Secretos da Federação Asiática, está esperando no helicóptero. Fazemos questão de que ele tenha uma participação bastante ativa na missão especial. Entendido, capitão Klein?
O homem louro baixou os olhos para o malaio franzino.
— Perfeitamente, senhor! — soou a resposta, proferida em tom frio. — Não vejo nenhum motivo para que Li Shai-tung não participe.
Klein lembrou-se das ordens que recebera. Já se encontrava na Ásia o tempo suficiente para saber que ali não se costumava respeitar os melindres alheios. Isso aplicava-se especialmente ao Serviço Secreto da Federação Asiática.
— Se necessário, deverá sacrificar-se no interesse da causa comum — foram as instruções. Klein sentiu um gosto amargo na boca.
Pouco depois, os agentes se retiraram.
Ao saírem do abrigo de grande profundidade, foram recebidos pelo rugido infernal das peças de artilharia. Ao norte, as bocas dos canhões expeliam sem cessar os seus lampejos para o céu. Parecia uma fita rubra feita de chamas.
Diante do abrigo, o helicóptero estava à espera. O tenente Li encontrava-se no comando. Já tinha recebido as últimas injeções. De acordo com o plano, aproximar-se-iam da cúpula num ponto situado além da área alvejada pela artilharia e ali procurariam entrar em contato com Rhodan através do equipamento portátil de radiofonia.
A máquina potente dos serviços de defesa entrara em funcionamento. Nenhum detalhe fora esquecido. Ninguém cometera o menor engano.
Havia, porém, uma circunstância da qual ninguém suspeitava. Nenhum dos oficiais tinha a mais leve idéia a respeito de como os três se entendiam e não se tinha a mais leve desconfiança de que eles também estavam empenhados em preservar a paz para a humanidade.
E assim, um americano de descendência alemã, um russo e um chinês subiram para o céu entrecortado de projéteis. Depois de terem contornado a área alvejada e quando se aproximavam da cúpula energética, Li Shai-tung perguntou, após um ligeiro pigarro:
— Tudo em ordem por aí? Já estão cientes de que arriscamos nossas cabeças, não estão?
Kosnow sorriu, mas não respondeu. Em vez disso, dirigiu-se a Klein num tom estranho:
— Agora, sejamos sinceros, camarada! Que tal seu chefe todo-poderoso? Por que você ficou preocupado com o sorriso que ele deu quando você solicitou autorização para esta missão especial? A idéia da introdução dos germes na área da cúpula foi sua, não foi?
Klein fez que sim. Empalidecera. Seus olhos claros exprimiam uma grande inquietação. Falando com a voz abafada, disse:
— Mercant é um sujeito formidável, mas nunca se sabe o que ele traz na cabeça. Com ele, até os melhores psicólogos falham. Não há como interpretar seus atos. Dizem que é dotado de faculdades espirituais extraordinárias.
— O que não é estranho num mundo como o nosso.
— Sem dúvida. Mas pela idade de Mercant, os genes de seus progenitores não podem ter sofrido qualquer dano. Quando ele nasceu, ninguém ao menos desconfiava de reatores atômicos ou bombas nucleares. Se o homem é extraordinário, as causas devem ser outras. Dizem que em todas as épocas houve casos de mutação espontânea.
— Por que isso o preocupa? Ele não o autorizou a realizar a missão?
— Autorizou — disse Klein. — Atendeu ao meu pedido de transferência e até providenciou a arma biológica. Apenas, ao despedir-me dele, tive a impressão de ter sido penetrado até as profundezas mais recônditas dos meus pensamentos. Comportou-se como um adulto que percebe a travessura do filho, mas faz de conta que não sabe de nada. É uma sensação desagradável.
Os dois homens ficaram calados. Kosnow apagou o cigarro. Depois, começou a falar, expondo com precisão suas idéias.
— Existem duas possibilidades. Se adivinhou suas intenções, não tem objeção a que você dê uma dica a Rhodan. Daí se concluiria que está de acordo com as medidas tomadas por ele. Talvez compreenda que sua atuação constitui a melhor garantia para a paz mundial. Seria mesmo de admirar se um homem com suas qualidades ainda não tivesse chegado a essa conclusão. Se não adivinhou, você está vendo fantasmas. Mude de rumo, Li. Dê o sinal luminoso às tropas estacionadas em terra, senão poderemos receber uma rajada bem no meio do peito.
Foi esse o começo da missão daqueles três homens que sabiam, no íntimo, o quanto seus chefes estavam totalmente enganados.
O capitão Klein segurou a garrafinha de pressão. Antes que o helicóptero iniciasse as manobras de aterrissagem, disse em tom grave:
— Vejam só! Fabricamos esta coisa maldita para, eventualmente, atirá-la na cabeça de vocês. Muito interessante, não é?
— Não se preocupe — ironizou Kosnow. — Temos coisas parecidas. Também acredito que já está na hora de destruirmos brinquedos deste tipo. Mas, oportunamente, teremos que trocar algumas palavras sobre nossas concepções ideológicas.
— Ainda bem que isso não interfere no seu desejo de paz — disse Klein em tom irônico. — Não estava nas intenções do Criador que uns palhaços coloridos de ideologia andem se despedaçando apenas por não lhes convir a opinião dos outros homens, que também são criaturas de Deus.
— Você fala que nem minha mãe — murmurou Kosnow. — Está certo. Não falemos mais nisso. Estou ardendo de curiosidade para ver Perry Rhodan.

IV

Os homens resolveram resguardar-se com os grossos abafadores, como se o simples fato de estarem protegidos das violentas ondas de som fosse a mais eficiente panacéia contra o poderio dos atacantes.
Com um gemido abafado e medo nos olhos, haviam colocado os capacetes poucos segundos após um novo ataque de artilharia. Só mais tarde ligaram os contatos dos aparelhos de comunicação.
Perry Rhodan já chegara à conclusão de que as coisas não poderiam continuar como estavam. Os acontecimentos pareciam evoluir inexoravelmente em direção a uma catástrofe.
Num acesso de fúria, Reginald Bell tentara influenciar as tropas que os cercavam através do psicoirradiador. A tentativa revelara-se inútil, pois até mesmo os postos avançados haviam cavado seus abrigos muito além do alcance do instrumento.
O neutralizador gravitacional também falhara. Por ali não havia nada que pudesse ser atingido e neutralizado com o pequeno instrumento. Nem mesmo as granadas que os canhões expeliam sem cessar puderam ser desviadas. As baterias estavam com a pontaria bem ajustada e dispunham de tabelas de tiro calculadas com exatidão. Toda vez que o aparelho antigravitacional começava a funcionar, os artilheiros ajustavam suas peças. Os foguetes teleguiados tinham uma precisão extraordinária: atingiam sempre o mesmo ponto.
Uma hora depois de iniciado o bombardeio, o tremor do solo tornou-se insuportável. O reator dos arcônidas começou a emitir uma luminosidade azulada. A cúpula protetora também mudou de cor.
Rhodan teve a impressão de que os so­lavancos do solo prejudicavam o funciona­mento do instrumento.
Com os olhos cerrados, observou o incrível fogo que se desenvolvia a leste. Já desistira de usar o raciocínio para calcular causas e efeitos. Numa oportunidade destas, o cérebro humano revelava-se insuficiente. Não saberia conjeturar sobre o tempo que a cúpula energética poderia resistir ao formidável bombardeio. Talvez, os fenômenos luminosos que tanto o preocupavam fossem totalmente inofensivos; poderiam representar um efeito normal do aumento de desempenho do reator.
Mas também era possível que o brilho azulado anunciasse o fim próximo. Uma vez que o impacto dos projéteis concentrava-se num ponto da cúpula, verificava-se um enorme deslocamento de forças. Com uma preocupação crescente, Rhodan perguntou-se se na construção do aparelho fora prevista uma sobrecarga dessas. Não havia dúvida de que a reação dos chineses fora muito inteligente.
Depois de uma hora, a situação na cúpula tornara-se insuportável. Se os excelentes abafadores não estivessem a bordo, pelo menos o Dr. Manoli, um homem bastante instável, já teria enlouquecido. Não fora feito para resistir a uma provação desse tipo.
Bell e Rhodan aceitavam os acontecimentos com um sorriso feroz. Sabiam que, se não recebessem auxílio de fora, não só continuariam isolados, como correriam grave perigo.
Pelas duas e cinqüenta, Rhodan começou a temer o colapso da cúpula energética. Parado diante do reator cilíndrico, observava os fenômenos luminosos que arruinariam os nervos de qualquer pessoa. Não pôde ouvir os ruídos de funcionamento, que por certo haviam aumentado. O barulho infernal das explosões abafava tudo.
As débeis lâmpadas fluorescentes da tenda haviam se quebrado. O duro solo do deserto absorvia as vibrações, para transmiti-las sob a forma de um verdadeiro terremoto. A cúpula energética não oferecia muita proteção contra esse inconveniente.
Para disporem de alguma luz, os tripulantes da Stardust penduraram lâmpadas a pilha nos suportes da tenda. Na sala que servia de enfermaria fora instalada uma iluminação impecável. Ao que parecia, a moléstia de Crest aproximava-se da fase crítica.
No início do bombardeio, o Dr. Haggard despertara, num sobressalto, do sono profundo em que estivera mergulhado. Até então, o Dr. Manoli acompanhava o paciente.
Ao que parecia, o incrível sistema circulatório de Crest resistira à segunda injeção. Não havia a menor dúvida de que os sintomas da leucemia haviam desaparecido por completo. O espectro sanguíneo não apresentava a menor anomalia. Assim mesmo, porém, Crest continuava mergulhado em profunda inconsciência.
Com passos leves, Rhodan saiu de perto do reator. Parecia recear que a qualquer momento, o aparelho extraterreno, cuja capacidade de desempenho eram mais que misteriosas, entrasse em colapso. As conseqüências seriam catastróficas. Reginald Bell colocara-se, novamente, diante das telas do radar que haviam sido retiradas da nave.
Tratava-se dos instrumentos mais aperfeiçoados jamais produzidos na Terra. Eram feitos à prova de vibrações e de impactos de considerável força. Resistiram perfeitamente ao pouso forçado na Lua e, ao que tudo indicava, o bombardeio não lhes estava causando o menor dano.
A tela do localizador de radar permitia a visão das posições mais afastadas do inimigo, desde que o aparelho fosse ajustado para o aumento máximo.
O instrumento de localização infravermelha fornecia quadros excelentes das posições de artilharia situados na outra margem do rio. O funcionamento do dispositivo automático de advertência era perfeito, mas o computador acoplado a ele não teve a menor chance de calcular as posições do inimigo.
Não havia ninguém numa área de dez quilômetros em torno da cúpula energética. Nada se movia e não havia nada que pudesse ser localizado com os instrumentos de que dispunham, ou atacado com as armas dos arcônidas.
Rhodan aproximou-se lentamente. Mais uma vez, fixou os olhos nas telas iluminadas. O rosto largo de Bell estava quase totalmente encoberto pelos abafadores. Só os olhos azuis brilhavam por baixo da grossa proteção. Mais uma vez, os microfones presos ao pescoço eram o único meio de comunicação.
Com as mãos tremulas, Rhodan estabeleceu o contato. A primeira coisa que percebeu foi a respiração ofegante de Bell.
— Se isso durar mais algumas horas, o reator entrará em pane — disse em tom indiferente. — Acho que, a esta altura, você já compreendeu.
Bell virou a cabeça.
— E daí?
Os lábios de Rhodan estreitaram-se. Lançou um olhar significativo para o relógio.
— Um homem sensato, que sabe usar a cabeça, não devia esperar milagres, nem mesmo dos produtos de uma técnica muito mais avançada que a nossa. Qualquer peça mecânica pode falhar e... — no seu rosto havia um ar de riso e resignação — ...é exatamente isso que nos espera. E há mais um detalhe...
Bell vasculhou o setor ocidental das formações que os cercavam. O localizador infravermelho, ultra-sensível, chegou a registrar os cigarros acesos dos soldados asiáticos. A radiação térmica produzia na tela um amplo anel de pontos incandescentes que se iluminavam a espaços variáveis. Era um espetáculo estranho.
Bell interpretou corretamente a risada de Rhodan. Seu rosto, que não era corado, tornou-se ainda mais pálido. Os olhos lançavam uma indagação.
— Há mais um detalhe — repetiu Rhodan, pensativo. — O bombardeio continuará por horas a fio. Acham que conseguirão romper a cúpula energética; e têm certeza de uma coisa: nossos nervos não resistirão por muito tempo. Crest é a única pessoa que conhece o reator e poderia regulá-lo. Mas está mergulhado numa inconsciência que, segundo os médicos, não representa maior perigo para ele; para nós, porém, poderá representar o fracasso total. Se o reator entregar os pontos, seja aos poucos, seja numa terrível explosão, estaremos liquidados. Encontramo-nos na iminência de uma capitulação. Já se deu conta disso?
Os olhos de Bell estavam presos à tela. Um novo abalo fez oscilar as lâmpadas. As sombras projetadas sobre as paredes da tenda transformaram-se em quadros grotescos. Na sala de enfermagem os dois médicos se sobressaltaram.
Bell lançou um olhar para lá. A sombra de Crest desenhava-se nitidamente na parede divisória de plástico. Continuava imobilizado no leito. Alguns robôs-médicos dos arcônidas estavam inutilizados. Não foram feitos para resistir a abalos dessa ordem. Por isso, os exames periódicos de circulação e atividade cardíaca tiveram que ser realizados pelos dois médicos. Era um trabalho duro, de grande responsabilidade, e que se tornava ainda mais difícil face ao estranho organismo de Crest.
— Já me dei conta, sim — respondeu Bell. — Crest deve ser despertado. Não vejo outra alternativa. A não ser — um sorriso esboçou-se no seu rosto — ...a não ser que você queira entrar em contato com Thora. Muito embora o último apelo que você fez a sua inteligência não tenha produzido o menor resultado. Mas, a esta altura, talvez compreenda que as coisas estão sérias.
— Essa idéia já me ocorreu — respondeu Rhodan. Segurou a tomada que estabeleceria a ligação. Seus lábios encresparam-se num sorriso.
— Mas há um porém, meu caro. Há poucos minutos o aparelho de radiofonia dos arcônidas deixou de funcionar. Estamos isolados. Será que você teria coragem de mexer nisso?
Bell ficou estarrecido. Seu rosto pálido falava por si. A missão, que tivera um início tão promissor, estava na iminência de um lamentável naufrágio.
Mas logo reagiu. Sem revelar qualquer sinal de medo, disse:
— Isso era de esperar. Estão atirando dez mil toneladas de explosivos sobre a cúpula. É provável que, além disso, estejam realizando explosões subterrâneas junto às bordas da mesma a fim de provocar terremotos artificiais que nos enlouqueçam. Muito bem! O aparelho não funciona mais! Quando é que Thora saberá disso?
— Por ocasião do próximo contato diário, previsto para as oito horas. Se não houver resposta, intervirá.
Bell engoliu em seco. O rosto magro do ex-major transformara-se numa máscara rígida.
— O que significa isso? — perguntou Bell em tom apressado.
— O quê? — Rhodan girou o regulador do volume. A voz potente de Bell soara com uma intensidade excessiva.
— Bom... Embora Crest nos tenha promovido à classe D da escala de inteligência dos seres galácticos, ela ainda se recusa a reconhecer-nos como seres que devem ser tratados de igual para igual. Se não respondermos ao contato de rotina, e se as excelentes sondas automáticas constatarem que a nossa cúpula está sendo bombardeada, possivelmente concluirá que alguma coisa aconteceu a nós e a Crest. Nesse caso, deixará de lado todos os escrúpulos. Será apenas a comandante de uma nave espacial de combate. E ela já esteve muito perto de dar uma lição amarga à humanidade. Bem, veremos! Mas, como é? Você teria coragem de mexer no equipamento de radiofonia dos arcônidas, ou não?
A mão de Rhodan tocou nos pinos de contato. Seus olhos cinzentos emitiam um brilho frio. Bell teve a impressão de que Rhodan estava prestes a tomar uma decisão importante.
— Prefiro sentar numa chapa de fogão sem qualquer vestimenta protetora — disse. — Não entendo coisa alguma dessa geringonça. Não seria capaz de consertar um contato frouxo. Não consigo sequer abrir as chapas de revestimento do aparelho. Não há tesoura que as corte. Já tentei. Não existem parafusos, grampos ou outros dispositivos de fixação. Parece que foi tudo fundido em uma única peça. É claro que pode ser aberto, mas eu não sei como.
— Então, nada feito? — perguntou Rhodan, como se quisesse ter toda certeza.
Bell sacudiu a cabeça. Rhodan continuou:
— Você há de compreender que jamais serei capaz de expor a humanidade à fúria da nossa amiga comandante.
Bell não respondeu. Sabia disso.
— Ótimo! Quer dizer que estamos de acordo.
— Você devia procurar um meio de avisá-la — exclamou Bell em tom insistente. — Se tivermos que desistir, devemos providenciar ao menos para que ela tire Crest daqui.
— É exatamente o que penso — disse Rhodan com voz pausada. — Se Crest não despertar até as oito horas, pedirei que a grande estação de telegrafia de Nevada Fields expeça uma mensagem não codificada. Com os aparelhos da Stardust não conseguiríamos atingi-la. Se Mercant tiver alguma inteligência, atenderá imediatamente a minha solicitação. Compreenderá que nem ele nem qualquer outro homem tem o menor direito sobre Crest. Thora está em condições de libertá-lo a qualquer momento. Acho que sabemos perfeitamente o que nos espera depois disso.
— Tente! — cochichou Bell com a voz perturbada. — Santo Deus, tente! Thora é uma criatura imprevisível.
Rhodan desligou o contato. A voz de Bell cessou abruptamente. Eram pouco mais de três horas quando Perry Rhodan afastou cuidadosamente a cortina.
O rosto estreito de Crest, encimado por uma testa alta, estava banhado em suor. Jazia imóvel no leito.
O Dr. Haggard voltou a cabeça. Rhodan estabeleceu o contato com um ligeiro movimento da mão.
— Como está a situação, doutor? — soou a voz nos fones embutidos no capacete acústico de Haggard. — Peço-lhe que fale com toda a franqueza. Estamos no fim. O reator começou a mudar de cor e as comunicações foram interrompidas. Como estão as coisas?
Haggard era daqueles homens que sabem esquecer que têm nervos. Não demonstrava a menor emoção.
— Os efeitos colaterais eram imprevisíveis — disse laconicamente. — Crest suportou as injeções muito bem. O soro fez efeito; está curado da leucemia. A circulação é absolutamente estável, o coração não apresenta a menor anomalia. O espectro sanguíneo não oferece motivo para preocupação. Não sei por que não acorda.
— Tem de acordar! Procure compreender — insistiu Rhodan. — Até às oito horas tem de atingir um nível de consciência que lhe permita, ao menos, nos ministrar algumas instruções. Se não respondermos ao chamado de Thora, as fúrias do inferno desabarão sobre nós.
— Por que ela não aparece logo numa das suas legendárias naves auxiliares? — irrompeu o médico num acesso de fúria. — Para ela devia ser fácil livrar-nos da situação em que nos encontramos. Acho seu procedimento muito estranho. Entrega aos nossos cuidados um homem muito doente para que tentemos salvá-lo com os recursos que dispomos aqui na Terra, mas recusa-se a contribuir para sua cura. Para mim, tudo isso não passa de uma rematada loucura. Se estivesse tão interessada na saúde de Crest, seria de esperar que fizesse tudo, tudo mesmo, que está ao seu alcance.
— Doutor, o senhor não compreende a mentalidade desses seres — objetou Rhodan. Seu rosto assumiu uma expressão séria. — Thora adota um estranho código de honra e pureza racial. A educação que recebeu não pode ser modificada radicalmente de uma hora para outra. Para ela, somos seres inferiores, com os quais não pode nem deve manter contato. Se esse contato se tornar necessário, assumirá a forma de uma lição extremamente dolorosa, que poderá se transformar num castigo terrível se os homens se atreverem a lesar a autoconfiança exagerada que desenvolveu como membro de uma raça superior. Por favor, procure encarar as coisas numa base puramente psicológica.
— Na minha opinião, a educação e a presunção deveriam ser complementadas com um pouco de bom senso e de lógica — disse Haggard em tom obstinado. — Quando estou em situação difícil, agarro-me a uma palha.
— Foi o que ela fez ao nos confiar Crest. Impediu uma guerra nuclear e fez surgir um vulcão em pleno Saara. Em suma, fez tudo para que Crest dispusesse de um lugar tranqüilo na Terra.
— Quer dizer que ela nada fez pela humanidade?
— Não fez nada especificamente pela humanidade. Não devemos esperar milagres nem atos de generosidade desinteressada. Afinal, aquilo que os arcônidas nos entregam sob a forma de saber e de material há de ser pago. Thora já agiu contra sua convicção. Confiou em nós e praticou um ato proibido. É claro que se encontra em situação difícil. Sua nave espacial não está em condições de decolar. Os seres degenerados que a tripulam não podem reparar o defeito que apresenta. As peças sobressalentes foram esquecidas, o que representa um desleixo imperdoável. Essa raça chegou ao fim dos seus dias. Crest, que é a última grande inteligência entre eles, está gravemente enfermo. Se morrer, ou se qualquer homem lhe fizer algum mal, Thora verá, nos homens que habitam este planeta, simples inteligências subdesenvolvidas. Tomada de uma cólera fria, resultante principalmente do amor-próprio ferido, começará a refletir. E refletirá nos mesmos termos que o senhor usa quando pensa numa cobaia bonita, cuja vida pouco lhe importa. Quer dizer, refletirá em termos frios e lógicos, com uma certa prevenção contra nós, isto é, em termos injustos sob o nosso ponto de vista. Não quero assumir o risco de que isso aconteça, doutor. Lancei-me a esta missão no intuito de unir a humanidade, para que ela se engrandeça e fortaleça. Não arriscarei a existência dessa humanidade, provocando as iras de uma potência infinitamente superior. Está claro, Dr. Haggard?
Os olhos de Rhodan pareciam feitos de cacos de gelo. Subitamente, Haggard deu-se conta da força de persuasão que esse homem sabia irradiar.
Respondeu com um ligeiro aceno de cabeça. Suas mãos pesadas seguraram o equipamento de comunicação.
— O que pretende fazer, major?
— Não me chame assim. Fui privado da minha patente e expulso do corpo de pilotos espaciais. Quero salvar o que ainda pode ser salvo. Se Crest não despertar até às oito horas para restabelecer as comunicações com Thora, capitularei. Ao menos, sei qual é a chave que desliga o reator dos arcônidas. Já é alguma coisa, não é?
Deu uma risada amarga. Haggard lançou-lhe um olhar pensativo. Rhodan prosseguiu, enfatizando as palavras.
— Doutor, Thora dispõe de um excelente equipamento de televisão. Se não conseguirmos estabelecer contato telefônico, procurará ver o que está acontecendo. Se o bombardeio não tiver cessado, logicamente há de concluir que estamos em perigo, talvez mortos. Se isso acontecer, o destino da Terra será horrível. Por isso, farei tudo para que o bombardeio cesse antes das oito horas. É a única possibilidade de evitar que essa mulher impulsiva aja com precipitação. Só num caso extremo fará com que as naves de salvamento entrem na atmosfera. Farei o possível para que as coisas corram conforme desejamos, mas ainda existe o risco de que Thora cometa algum engano, mesmo que o bombardeio tenha cessado. Vê-se que é uma solução ditada pelas circunstâncias. Seria bem melhor se Crest pudesse ser despertado até às oito horas. Talvez o equipamento de comunicação só tenha sofrido avarias ligeiras. É provável que consiga restabelecer as comunicações com Thora. Por isso peço-lhe que faça tudo que estiver ao seu alcance. A outra alternativa representará um ato de desespero. Naturalmente, os chineses cessarão o bombardeio assim que receberem a minha mensagem. Mas não sabemos como agirá Thora.
Rhodan deu de ombros. Haggard baixou os olhos; sentia-se perturbado. Não mais suportava o brilho estranho dos olhos de Rhodan.
— O que quer que eu faça? — perguntou o médico.
— Não quero muita coisa. Já que a circulação de Crest apresenta tão elevado índice de estabilidade, dê-lhe uma injeção estimulante. Tem um bom estoque delas. Desperte-o!
Haggard refletiu.
— Sabe que com isso arriscarei tudo?
— Não arriscará nada além do que já arriscamos. Uma vez que o paciente suportou o soro anti-leucêmico, seu organismo também deve reagir bem aos estimulantes. Faça reviver seu corpo. Não deve ser tão difícil despertá-lo desse estranho torpor. Vamos logo!
— Só injetarei uma dose que não causaria o menor dano a um homem normal — disse Haggard em tom decidido. — Nem uma gota a mais. Entendido? Nem uma gota a mais!
— É quanto basta — confirmou Rhodan.
Subitamente seu rosto contorceu-se. Num gesto instantâneo tirou a pistola do coldre e girou o corpo.
Mantendo a arma em posição de tiro, fitou a lata de conserva que o atingira nas costas com bastante violência. Mais adiante Bell, quase irreconhecível na luz débil das lâmpadas, gesticulava e berrava numa agitação tremenda. Ao menos era o que se concluía pela maneira de agitar os braços.
Rhodan saltou por cima do leito de Crest. Com mais alguns passos colocou-se ao lado de Bell. Ajustou os pinos de contato do aparelho de comunicação. Imediatamente, o berreiro furioso do engenheiro se fez ouvir.
— Até parece que você tem protetores nas costas — esbravejou Bell. — Foi a terceira lata. Olhe esta operação de localização. Foi feita pelo infravermelho e pelo radar. Não resta a menor dúvida. São três objetos pequenos que se deslocam pouco acima do solo, a uma velocidade de trinta quilômetros. Devem ser três homens. Olhe, a imagem está perfeita. São três homens, sim! Estão com equipamento de vôo individual.
A exaltação de Bell transformou-se em espanto. Boquiaberto, fitou a tela do localizador ultra-sensível de radar, cujas imagens eram refletidas com rara nitidez no vídeo.
Não havia a menor dúvida: eram três homens que traziam nas costas pequenos aparelhos para vôo a curta distância. Distinguia-se perfeitamente o brilho das lâminas dos rotores que giravam velozmente. Seguindo uma rota bem definida e voando pouco acima do solo, iam-se aproximando da cúpula protetora.
Bell voltou a manifestar-se:
— Será que esses camaradas querem furar a cúpula com a cabeça?
Rápido, Rhodan colocou-se junto ao reator. Uma ligeira manipulação de uma das chaves, que Crest lhe explicara poucas semanas atrás, modificou a estrutura da cúpula energética, de forma a permitir a passagem de ondas de rádio ultracurtas. Mesmo antes dessa modificação, a cúpula não representava qualquer obstáculo à transmissão das mensagens expedidas por Rhodan. Esse fato constituía outro mistério inexplicável para a mente de um engenheiro humano. Não havia como fazer os outros seres humanos acreditarem nisso. Só mesmo vendo e passando por aquilo.
Rhodan voltou para junto dos aparelhos de rádio. O grande receptor da Stardust estava funcionando. O localizador automático de freqüência procurou descobrir os comprimentos de onda que tornassem possível a comunicação.
Uma lâmpada vermelha acendeu-se. Era impossível ouvir o sinal acústico. O rugir das detonações prosseguia impetuoso.
Os aparelhos portáteis de radiotelefonia foram ligados ao potente transmissor. Um cochicho fez-se ouvir nos fones de ouvido:
— Capitão Albrecht Klein chamando o major Perry Rhodan. Não atirem! Estou com dois colegas. O senhor já me conhece. Sou Klein, do Conselho Internacional de Defesa. Estou fazendo esta transmissão com o mínimo de potência. Peço-lhe que venha até o limite da cúpula. Preciso falar com o senhor. Não atire, por favor! Não há perigo. Estamos esperando.
Rhodan retirou o pino da tomada do equipamento de telefonia. Bell manteve-o ligado. Antes que Rhodan começasse a falar, disse:
— É o Klein? Deve ter arranjado uma promoção. Não é o tal sujeito com quem você já facilitou uma vez, deixando-o penetrar na cúpula? Viu Crest, não foi? Não gostei dele.
— Pois eu gostei. Vou pegar um dos carros. Quando eu der a senha, levantando o braço, você vai abrir a cúpula por exatamente três segundos numa extensão de dois metros por três. Prepararei a alteração estrutural.
— Você está louco! Se eles mandarem um foguete teleguiado apontado exatamente para a abertura, estaremos perdidos. É bem possível que esse Klein leve um dispositivo direcional por baixo do rotor. Conheço esses truques, meu caro. Afinal, já fui oficial de comunicações. Não vou abrir coisa alguma!
Seu olhar era firme e duro. Mas, depois de fitar por alguns instantes o rosto de Rhodan, que parecia enrijecido numa máscara, baixou a cabeça.
— Está certo. Quer dizer que aguardo o seu sinal...
Rhodan retirou-se. Levava a tiracolo a grande pistola automática com os perigosíssimos projéteis minifoguetes. O bastão prateado que trazia na mão era ainda mais perigoso. A pequena distância, o irradiador psíquico tinha uma potência formidável.
Rhodan não pretendia correr o menor risco.
Quando, lá fora, a turbina a gás do caminhão chinês começou a uivar, Bell continuava a olhar fixamente para o lugar em que ainda há poucos instantes se encontrava Rhodan. Parecia sentir o brilho intenso dos olhos do comandante.
De início, Bell sentira-se seguro de que conseguiria impedir que Rhodan realizasse seus intentos. Mas acabara concordando sem discutir. Pálido e trêmulo, aproximou-se dos instrumentos de controle. Comprimiu fortemente as pestanas, e subitamente voltou a abri-las.
A imagem continuava. O olhar ardente de Rhodan parecia gravado em seu cérebro. Reginald Bell era um homem duro e arrojado, dado aos atos irrefletidos. Manifestava uma tendência irreprimível para as ações temerárias. Como piloto espacial parecia não conhecer o medo. Mas, desta vez, sentia medo.
Antes de iniciar a vigilância dos aparelhos, soltou uma praga. O veículo de Rhodan corria pela paisagem pedregosa do deserto, que só de espaço a espaço era embelezado por uma vegetação escassa. O rio ficava demasiado longe.
Rhodan seguia um curso que conduzia diretamente ao ponto em que os três homens haviam descido. Bell, em poucas palavras, transmitia as correções que se faziam necessárias. Falava num tom apático; sentia a revolta no seu íntimo. Por que Rhodan conseguira fazê-lo mudar de opinião de uma hora para outra? Será que...?
Ainda sentia a pergunta martelar-lhe a mente quando Rhodan parou o veículo. Eram exatamente três e vinte e dois da manhã. Estava bem junto à barreira ener­gética.
A mão esguia de Rhodan ergueu o radiador psíquico. Atrás dele, bem ao longe, a luz feérica das explosões iluminava o cenário. Havia uma claridade intensa, talvez excessiva. Apesar disso, mal se reconheciam os vultos dos três homens envoltos em jaquetas. Estavam bem juntos. Num movimento súbito, Rhodan ergueu a mão. O sinal significava abrir.

V
  Era um risco enorme, muito maior que o da primeira decolagem de uma nave espacial tripulada.
Naquele dia sabia-se ao menos que os aparelhos propulsores de reação químico-nuclear do segundo e terceiro estágios funcionariam. Um sinal de rádio fora suficiente para acionar os reatores de plutônio de alta velocidade.
Agora, porém, tudo estava mudado. Medições precisas e rigorosamente secretas realizadas nas camadas superiores da atmosfera terrestre revelaram que a cúpula anti-neutrônica dos arcônidas atingia uma altura de cerca de 120 quilômetros.
Isso significava que o processo usual de fissão nuclear só poderia ser desencadeado além da zona abrangida pela cúpula. Por isso os peritos do Comando Espacial dos Estados Unidos tiveram de enfrentar dificuldades formidáveis, que foram superadas através da utilização de todos os recursos disponíveis.
Algumas modificações foram introduzidas no segundo estágio da nave Stardust-II. O estranho campo anti-neutrônico criado pelos arcônidas não afetaria as reações químicas.
A indagação que surgia era se o desempenho do segundo estágio seria suficiente para conduzir o terceiro estágio, ou seja, a nave espacial, propriamente dita, a uma altura superior a 120 quilômetros.
O segundo estágio, formado por uma versão aperfeiçoada da série Plutão-D, passara por todos os testes. Os processos químico-nucleares teriam de ser dispensados. Além disso, a velocidade no fim do processo de combustão deveria ser suficiente para arremessar a nave além da zona crítica.
A velocidade com que fosse atingida a zona livre constituía um fator secundário, que não precisaria ser considerado. Não havia a menor dúvida de que o potente mecanismo propulsor da Stardust-II levaria a nave para além da atmosfera terrestre.
O depósito de combustível químico tinha quantidade suficiente para a aceleração, a frenagem, o pouso e a decolagem lunar.
Mas o que se tinha em vista era, tão-somente, uma órbita em torno da Lua, o que, evidentemente, exigiria muito menos energia que as manobras adicionais de pouso e decolagem em nosso satélite natural.
Exatamente dezesseis horas antes do início do fogo cerrado de artilharia, visando uma pequena área da cúpula energética, o general Pounder acionou o contato de ligação dos reatores.
Com um estrondo violento, a Stardust-II disparou para o céu límpido de Nevada.
O comando da expedição lunar armada era exercido pelo primeiro-tenente Michael Freyt. Em vez do médico, subira a bordo um perito em armamentos nucleares, que tinha a seu encargo o controle da nova arma.
O posto de artilheiro era exercido pelo capitão Rod Nyssen, que assistira às provas iniciais da nova bomba nuclear catalítica. Como, além disso, possuísse experiência em vôos espaciais, foi indicado para compor a tripulação da missão armada.
Alguns minutos após a decolagem bem sucedida, os homens da central de controle tinham os olhos fitos nas telas de localização e de televisão. O primeiro estágio da Stardust-II já havia sido separado. O segundo estágio, que substituía a parte central da primeira nave lunar, inutilizada nas atuais circunstâncias, entrou em funcionamento com a perfeição que era de se esperar. Ainda mais se considerada a massa bem mais leve que era impulsionada.
O general Pounder permanecia imóvel diante do aparelho de teledireção automática. Parecia estar assistindo à decolagem da velha Stardust, que agora jazia no deserto de Gobi.
O ponto flamejante continuava bem visível. Depois de algum tempo, soou a voz metálica do computador de controle e teledireção.
— Ignição dentro de oito segundos. Tudo preparado para a separação.
Todos ouviram o estalido seco da carga explosiva. O impulso do computador número três seguiu a nave espacial com a velocidade da luz. Ouviu-se a voz do tenente Freyt; parecia esgotado. Face à modificação dos estágios, o obstáculo representado pela atmosfera terrestre teve de ser vencido com um valor gravitacional martirizante. Mesmo no segundo estágio a pressão chegara a 11,6 g.
— Freyt ao controle de terra: tudo bem a bordo — soou a voz áspera do alto-falante. — Impulso de ignição recebido. Computador de direção automática dando sinal de confirmação.
— A ignição... a ignição já foi realizada? — indagou Pounder com a voz apressada. Tinha os olhos presos às telas dos aparelhos de controle infravermelho, onde a coluna de gases incandescentes do mecanismo de propulsão nuclear teria de ser revelada em primeiro lugar.
— Nada — gemeu o engenheiro-chefe. Virou a cabeça num movimento brusco. — Ainda não saíram da zona anti-neutrônica. Por enquanto, nada.
— Ausência de gravidade continua. Motor parado — soou a voz de Freyt em meio ao silêncio deprimente. — Solicito cálculos definitivos da altura a ser atingida no final do processo de ignição e em relação ao ângulo de subida e à influência da gravidade.
O computador já estava funcionando. Dentro de alguns instantes os dados estavam prontos e eram transmitidos sob a forma de impulsos de ondas ultracurtas ao aparelho de direção automática da nave.
Poucos segundos depois, a rota foi modificada em 47,3 graus. O movimento giratório foi realizado pelos foguetes de combustível sólido acoplados na nave. Com isso, a Stardust-II abandonou a trajetória vertical e ganhou uma aceleração de 821 metros por segundo.
As informações eram recebidas sob a forma de diagramas que deslizavam sobre as telas. Pounder, que já assistira a muitas decolagens, sabia que a nave entrara numa ampla órbita elíptica.
Não havia dúvida de que, com isso, sairia do estranho campo anti-neutrônico.
Esperavam com o espírito inquieto. Tudo, tudo mesmo, dependia da possibilidade de se desencadear o processo de ignição do mecanismo de propulsão nuclear da nave. Isso não seria possível sem a presença de nêutrons livres, que eram imprescindíveis no processo de fissão nuclear.
Quando o primeiro-tenente Freyt iniciou a quinta transmissão de rotina, sua voz foi subitamente abafada por um trovejar ensurdecedor. O processo de ignição do mecanismo propulsor teve início numa altitude de 211 quilômetros.
No mesmo instante, a Stardust-II apareceu na tela do localizador infravermelho. O calor irradiado pelos reatores era tão intenso que mesmo os aparelhos menos sensíveis registraram o furacão nuclear incandescente.
Dentro de poucos instantes, a estação de teledireção situada na Terra assumiu o controle da nave, colocando-a em posição vertical. Com a enorme aceleração resultante do empuxo dos reatores, seria atingida a velocidade-limite, que os libertaria da gravidade terrestre. Foi então que os aparelhos de teledireção das estações espaciais tripuladas entraram em ação.
Já não havia a menor dúvida: a experiência tão arriscada, que encerrava um fator desconhecido, fora coroada de êxito. A primeira nave da esquadrilha espacial terrestre mergulhara no espaço.
Mensagens radiofônicas codificadas correram em redor da Terra. Dez segundos depois de ter recebido o sinal convencionado, o marechal Petronskij comprimiu o botão do dispositivo de ignição.
Imediatamente, o gigantesco foguete do Bloco Oriental disparou em direção ao céu siberiano. Também conduzia quatro tripulantes. Um deles, um perito do Ocidente e que chegara poucas horas antes numa unidade de transporte dos Estados Unidos, era o responsável pela nova bomba, que estava na rampa de lançamento, instalada com todo o cuidado no agora vazio compartimento de carga.
Quase no mesmo instante, o marechal Lao Lin-to deu ordem para a decolagem da nave da Federação Asiática. Houve problemas com os estabilizadores. Por pouco a nave não se desgoverna, a cerca de trezentos metros de altura. As câmaras de combustão giratórias do primeiro estágio e o estabilizador de emergência, montado no segundo estágio, porém, conseguiram estabilizá-la e corrigir sua trajetória.
Assim, as três naves partiram com sucesso rumo ao espaço.
A bordo da nave da Federação Asiática havia também um perito em armamentos treinado no Ocidente. Sua única tarefa consistia em fazer com que a bomba descrevesse a trajetória determinada pelos cálculos, depois que seu curso tivesse sido regulado com alguma aproximação pelo dispositivo direcional adaptado à mesma. Tratava-se de uma arma mortífera, mobilizada rapidamente por uma humanidade que alcançara a união por um modo inesperado.
A operação em nada afetava a segurança da Terra. Nenhuma das bombas explodiria se a decolagem falhasse.
Mas não houve qualquer falha. As três naves corriam pelo espaço, depois que a Stardust-II, que partira em primeiro lugar, havia provado que seria perfeitamente possível sair da zona antineutrônica.
A diferença de tempo, que nestas circunstâncias se tornara inevitável, não constituía problema para os computadores que, com uma rapidez fantástica e uma precisão inconcebível, calcularam a trajetória que cada uma das naves teria de percorrer para que as três ingressassem simultaneamente na órbita prevista, que cobria cada um dos pólos lunares. Tratava-se de um problema puramente matemático, que não dava margem a qualquer erro.
A estação espacial tripulada Freedom-I, do Ocidente, também se encarregou da teledireção do foguete da Federação Asiática. A nave do Bloco Oriental foi dirigida pelos satélites do Oriente, muito bem tripulados e equipados.
Pela primeira vez na história da navegação espacial, houve um intercâmbio de observações imediatamente após a decolagem. Uma vez que as duas estações espaciais percorriam órbitas terrestres bem diferenciadas, tornou-se possível manter um controle permanente sobre as três naves. Não foi necessária qualquer interferência das grandes estações terrestres. De qualquer maneira, a teledireção a partir de um ponto situado no espaço era mais fácil e segura.
Assim, os três veículos espaciais cruzavam o espaço. Doze astronautas dos três blocos de potências da Terra haviam recebido instruções bem claras.
Só depois de algumas horas, o general Pounder afastou-se da tela. A transmissão, controlada pelos tripulantes da estação espacial, não apresentava a menor falha. Não havia dúvidas de que as três naves se encontravam na rota determinada.
A Stardust-II, com o mecanismo de propulsão desligado, seguia em queda livre, a fim de que as outras naves que haviam decolado depois dela pudessem alcançá-la.
— Acorde-me dentro de cinco horas — disse Pounder, com a voz apática, lançando um olhar triste para o relógio. — Daqui a cinco horas, Maurice. Veja lá! Cinco horas não são nem seis nem sete.
O major Maurice, chefe do Estado-Maior, limitou-se a confirmar com um movimento de cabeça. Seguiu a figura imponente do superior com uma expressão preocupada no rosto. De alguns dias para cá, Pounder andava com o corpo inclinado para a frente, como se carregasse um peso às costas.
Por certo, nunca conseguiria livrar-se da tristeza causada pelo procedimento inexplicável de seu melhor piloto. Para o general Pounder, o major Perry Rhodan era quase como um filho.
Mal tinha desaparecido atrás das pesadas portas do abrigo, Allan D. Mercant entrou. Durante a fase de decolagem, o chefe do Conselho Internacional de Defesa preferira não se encontrar com o general Pounder, que estava exausto.
Mesmo agora, aquele homem pequeno e aparentemente insignificante trazia um sorriso estranho nos lábios.
— É um oficial competente, dotado de muito senso de responsabilidade — constatou com ar pensativo. — Major Maurice, o senhor sabe que foi com a maior relutância que o general Pounder deu a ordem final de ataque?
Maurice baixou os olhos. O olhar do chefe do CID provocava-lhe uma sensação desagradável. Achou prudente dar uma resposta esquiva.
— Talvez devamos supor que seja assim, senhor. Afinal, foi o general Pounder que conseguiu pôr a velha Stardust a caminho depois de enormes esforços. E agora, vê-se obrigado a fazer decolar uma réplica só que, desta vez, para fins destrutivos. Tudo isso me dá uma sensação bastante esquisita.
As pupilas de Mercant se estreitaram.
— Por quê? Receia alguma falha técnica? Acredita que nossas bombas não explodirão? Fale com franqueza, por favor.
Maurice ficou indeciso. Mercant estava muito estranho.
— Nada disso, senhor. As naves atingirão a Lua e as bombas explodirão, desde que a chamada terceira potência seja aquilo que as demonstrações ora realizadas nos revelaram. Mas o fato de não terem procurado impedir a decolagem de nossas naves me dá uma sensação bastante desagradável. Acho que pretendem atacá-las posteriormente, ou então...
— ...ou então? — interrompeu Mercant.
— ...ou então eles nos consideram uns macacos inofensivos, que não são capazes de realizar um ataque desse tipo. Queira desculpar a expressão, senhor.
— Pense o que quiser, meu caro — respondeu Mercant em tom enfático. — O senhor se admiraria se eu lhe dissesse que também já fui dessa opinião?
Não, o major Maurice não se admirou nem um pouco. Allan D. Mercant era capaz de conceber idéias muito antes de qualquer outra pessoa.
O chefe das forças de segurança do Ocidente desapareceu tão silenciosamente como havia chegado. Ninguém percebeu a expressão de profunda preocupação que se desenhava em seu rosto liso. O fato é que também Allan D. Mercant experimentava uma sensação esquisita; não havia a menor dúvida.
Enquanto isso, as três naves corriam pelo espaço, mantendo uma aceleração constante. Pelos cálculos realizados, o ponto de inflexão deveria ser atingido dentro de quinze horas aproximadamente. As manobras em órbita poderiam ser completadas em três horas. Dali em diante, as coisas ficariam sérias.
Allan D. Mercant resolvera passar o momento decisivo numa estação espacial. Ali não haveria nada que perturbasse a visão pois estaria bem longe da camada atmosférica que envolvia a Terra. Dez minutos depois, Mercant decolou num foguete de transporte comum, do tipo Plutão-D. dotado de mecanismo de propulsão química

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