domingo, 7 de outubro de 2012

P-003 - A Abóboda Energética - K. H. Scheer [parte 1]


A ABÓBADA ENERGÉTICA

Autor
K. H. SCHEER



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização
VITÓRIO



Revisão
ARLINDO_SAN



Rhodan, comandante da primeira nave terrena tripulada a pousar na Lua, retornou ao nosso planeta. Pousou no deserto de Gobi onde, valendo-se da super-técnica da nave exploradora dos arcônidas, uma raça vinda da região central da Via Láctea, instalou uma base que vem desafiando os ataques das grandes potências da Terra.
Perry Rhodan conseguiu impedir a terceira guerra mundial, mas ainda não está satisfeito. Quer promover a união da humanidade.
Mas a humanidade ainda não está madura para os planos de Perry Rhodan. Por isso a luta prossegue em torno da Abóbada Energética.







- - - - - - - - - -   Personagens principais:   - - - - - - - - - -



Perry Rhodan — Comandante da nave Stardust. É o grande benfeitor da humanidade por ter impedido a terceira guerra mundial, mas é considerado o inimigo público número um.

Reginald Bell — Engenheiro eletrônico da Stardust. É o melhor amigo de Perry.

Dr. Eric Manoli e Dr. Frank M. Haggard — É nas mãos desses homens que repousa a vida de Crest — e a sobrevivência da humanidade.

Crest — Diretor-científico da expedição realizada por uma raça estranha. Só ele pode conter os impulsos de Thora.

Thora — Comandante de uma nave que dispõe de poderio suficiente para destruir a Terra.

Albrecht Klein, Li Shai-tung e Peter Kosnow — Três agentes secretos que se transformaram em combatentes decididos pelas idéias de Perry.

Allan D. Mercant — Chefe do Conselho Internacional de Defesa.

I



“... ocorre uma alteração na potencialidade prática de determinada situação quando um fato aparentemente improvável se torna provável. Não faz mais de uma semana que me encontrava ao pé de uma muralha fictícia, cujos alicerces repousavam nos cálculos elaborados em minha mente.
“Com base no meu raciocínio lógico, cheguei à conclusão de que seria totalmente impossível enfrentar, sozinho, as três superpotências da Terra”.
“Minha equação encerrava muitas incógnitas. A interpretação matemática de uma série de dados quase sempre é correta e infalível, a não ser que surja, de súbito, uma solução que transforme um ou mais dos fatores desconhecidos num dado exato a ser computado nos nossos cálculos. Foi exatamente o que aconteceu — ou melhor, parece ter acontecido. Hoje, já não penso em abandonar a minha posição para resignar-me a uma tentativa de colocar meu saber à disposição das potências da OTAN.”
O homem esbelto, de rosto fino, colocou o dedo sobre a tecla de parada instantânea do gravador. Imediatamente, os dois carretéis deixaram de girar.
O major Perry Rhodan, ex-piloto de provas da Força Espacial dos Estados Unidos e comandante da primeira expedição lunar tripulada, olhou, pensativo, em torno. A cabina de comando da Stardust era muito apertada, e não poderia ser diferente, numa nave espacial daquele tamanho.
As portinholas de aço das duas vigias da nave, que permaneceram fechadas durante a viagem pelo espaço, estavam abertas. Para além das grossas lâminas de quartzo estendia-se a desolação marrom-amarelada do deserto de Gobi. Só à direita da nave, pousada à maneira de um avião, via-se um pouco de verde. Era a tênue faixa de vegetação que ladeava um riacho registrado nos mapas com o nome de Morin-Gol e que desembocava no grande lago salgado de Goshun, poucos quilômetros ao norte. Em certo trecho, sua margem servia de fronteira entre a China e a Mongólia.
Ao sul da nave, ficava o temido Gobi Central. Até poucas semanas atrás, não havia praticamente nenhum sinal de vida humana por ali, fora algumas pequenas povoações situadas à margem das pouquíssimas fontes; e as instalações militares da Federação Asiática.
Numa série de pensamentos soturnos, Perry Rhodan deu-se conta de que, de uma hora para outra, a situação se havia modificado por completo.
Lançou os olhos semicerrados através da vigia de quartzo que dava para o leste. Muita coisa havia mudado para além do leito do rio, no lugar em que ficava o pequeno povoado de Dashoba. Da noite para o dia, o aeródromo militar, que antes não passava de um miserável campo de treinamento, parecia transformado numa grande base internacional.
O contingente de tropas ali estacionado era enorme. Tinha-se a impressão de que as formações maciças das melhores unidades de elite da Ásia se preparavam para uma invasão.
Rhodan lançou um olhar para a grande barraca armada perto da Stardust. Ao contemplá-la, á idéia tranqüilizadora da própria segurança tornou-se, simplesmente, ilusória. Pertencera ao equipamento de uma unidade de transporte das Forças Asiáticas, chegada há uma semana. Os lábios de Rhodan crisparam-se num ligeiro sorriso. Tirou o dedo da tecla de parada.
Passou a falar com a voz mais descontraída.
— Faço esta gravação para o caso de qualquer imprevisto. Repito: aqui fala o major Perry Rhodan, comandante da nave espacial americana Stardust e piloto do Comando de Exploração Lunar do espaço-porto de Nevada. Faço questão de registrar minhas experiências com a maior fidelidade.
“Há oito dias o capitão Reginald Bell regressou de uma perigosa missão especial. Mal acreditei no que meus olhos viram, mas o fato é que conseguiu o que parecia impossível: trouxe o especialista em doenças do sangue cuja vinda o médico de bordo, Dr. Eric Manoli, julgava tão importante. Trata-se do Dr. Frank M. Haggard, famoso cientista australiano ao qual o mundo deve o soro antileucêmico. Se existe um homem capaz de salvar o ser estranho vindo das profundezas da Via Láctea, esse homem é o Dr. Haggard. Face às instalações médicas existentes na Stardust e à atuação desse médico surgiram probabilidades de salvar a vida de Crest. Afinal, dispomos de dois dos vultos mais destacados na medicina. Já não vejo as coisas tão pretas como ontem e anteontem. Não há dúvida de que a irrupção de uma guerra nuclear aniquiladora, que parecia iminente, foi impedida pelos recursos inconcebíveis de que dispõem esses personagens estranhos. Para além da cúpula protetora que nos envolve espalham-se os destroços dos enormes mísseis nucleares. Não chegaram a explodir. Thora, a comandante da gigantesca nave espacial dos arcônidas, interveio a partir da Lua. Uma vez que as armas nucleares de todas as potências da Terra funcionam com base em reações de fusão ou fissão nuclear, bastou prender os nêutrons livres aos núcleos atômicos. Com isso, os processos de fissão nuclear baseados nos nêutrons tornaram-se impossíveis. Nossa posição não é má; pelo menos não é pior que a que enfrentamos logo após o pouso no deserto de Gobi. Acredito ter procedido corretamente diante de minha consciência e do juízo dos homens, quando me recusei a colocar o poderio técnico-científico de uma raça dotada de inteligência muito superior à nossa nas mãos de um dos grupos de potências terrenas. Não há nada que possa abalar minha fé em toda a humanidade. Nada perturbará minha convicção de que o futuro do gênero humano só pode repousar na união de todos os homens. Ao que parece, encontramo-nos no limiar de uma era de provações para toda a Terra. Ainda existe muita incompreensão, desconfiança, ódio e malquerença. As grandes figuras de todos os governos realizarão esforços exaustivos para empregar os conhecimentos fabulosos dos arcônidas na execução de seus propósitos. Acontece que tais desejos não correspondem à causa do progresso da humanidade.
“Sem a cura de Crest, meu plano grandioso não terá possibilidades de êxito. Quero conquistá-lo como amigo meu e de toda humanidade. Por isso só posso fazer votos de que mais uma vez o Dr. Haggard dê provas do seu extraordinário saber”
Rhodan desligou o aparelho. Ele o fez de forma um tanto abrupta e teve motivos para isso. Não pertencia à classe de homens que, diante de um cerrado bombardeio, sentem-se inclinados a gravar em uma fita suas idéias e opiniões mais ou menos bem sucedidas.
Seu rosto, até então tranqüilo, ficou tenso. Num gesto automático segurou a arma. E, ainda instintivamente, deu um salto para abrigar-se, muito embora o raciocínio logo lhe dissesse que tal ato era totalmente ilógico.
Ergueu-se muito contrariado, amaldiçoando sua insensatez. Não tinha sentido procurar abrigo em uma situação como aquela. Se a cúpula energética dos arcônidas não resistisse, a força concentrada de um exército gigantesco desferiria um golpe arrasador.
Rhodan pôs a arma automática a tiracolo. Saiu da nave pela grande escotilha do compartimento de carga, inteiramente vazio, que ficava logo atrás da cabina destinada à tripulação, e desceu pela rampa de metal. No mesmo instante, ouviu-se o radiofone. Uma voz forte e áspera disse em tom seco:
— Alguém houve por bem interromper o meu sono tão merecido. OK! Você ainda está de pé, ou já o agarraram?
— Para seu governo, as comunicações pelo rádio estão proibidas. Irei até aí! — respondeu Rhodan.
Desligou o rádio de pulso. Franzindo a testa, refletiu sobre o grau de aperfeiçoamento que teria sido alcançado pelas instalações de escuta da Federação Asiática.
O trovejar longínquo cresceu num rugido ensurdecedor. Rhodan ergueu os olhos para contemplar a luminosidade cintilante, quase imperceptível, que se desenhava no céu. No ponto mais elevado, a cúpula energética atingia dois mil metros de altura. Ao que parecia, desta vez haviam decidido lançar mão de outros meios de ataque.
Os lábios de Rhodan se estreitaram. A barba de vários dias contrastava com a pele morena. Com passos rápidos atingiu a entrada da grande tenda.
Há tempos o capitão Reginald Bell despira o uniforme da Força Espacial. Essa vestimenta teria representado um obstáculo quase intransponível na sua arrojada excursão fora dos limites da cúpula.
— Fim do mundo — disse com voz gutural. — Ainda não se decidiram? Ou será que inventaram alguma coisa capaz de romper a nossa cúpula protetora?
O olhar que Rhodan lançou para as po­sições do inimigo, montadas bem ao longe, tinha algo de ameaçador. Mas logo se descontraiu. Ofereceu um cigarro ao companheiro.
— As intenções deles são boas — disse, sorridente. — São as melhores possíveis.
As últimas palavras morreram em meio ao estrondo provocado pela detonação de poderosos projéteis. A muralha invisível, feita de linhas de força de uma potência extraordinária, iluminou-se no brilho intensíssimo das explosões. Rhodan fez uma constatação:
— Desta vez não estão usando a artilharia convencional. Se não me engano, o comando do Exército Asiático dispõe de alguns cérebros brilhantes. Já compreende­ram que, num campo antigravitacional, as armas convencionais são totalmente inúteis. O que faria qualquer homem inteligente ao perceber que, face à eliminação da gravidade, já não pode lançar mão dos potentes canhões, sujeitos ao recuo provocado pelos disparos? Passa a utilizar projéteis-foguetes, não é?
Reginald Bell fez que sim. Uma forte corrente de ar iluminou seu cigarro num clarão vivo. A Stardust, estacionada no centro do campo cinzento protegido pela cúpula energética, transformara-se no alvo de pelo menos mil baterias de foguetes. A julgar pelos impactos, deviam ter colocado em ação pelo menos quatro mil lança-foguetes automáticos dos mais variados calibres.
O rugido das explosões tornou-se insu­portável. Bell teve de berrar a plenos pulmões para tornar sua voz audível.
— Esses foguetes não conduzem carga nuclear — gritou junto ao ouvido de Rhodan. — Thora prometeu que interviria imediatamente. A cúpula anti-neutrônica cobre toda a Terra.
Rhodan sabia que Bell estava berrando com toda a força. Depois de mais alguns segundos, o homem robusto, de ombros largos, compreendeu que seus esforços eram inúteis. Cerrou os lábios. Uma contorção nervosa desenhou-se em seu rosto largo.
As enormes ondas de compressão geradas pelas explosões que se sucediam em rápida seqüência não conseguiam atravessar a cúpula energética. Em compensação, esta parecia transformada num enorme sino.
Alguma coisa oscilou.
— Fogo cerrado! — constatou Rhodan, lançando um olhar para o círculo que se fechava em torno da cúpula energética. Ali se achavam estacionadas as unidades de elite da Federação Asiática, bem protegidas nos excelentes abrigos. Ali estavam montados os lança-foguetes, instalados em abrigos de concreto e abastecidos pelos depósitos de munições situados em abrigos ainda mais sólidos.
Não havia por perto nenhum objeto que não estivesse fixado cuidadosamente no solo. Perry Rhodan sabia que os soldados usavam cintos especiais, dotados de fixadores. A Federação Asiática lançara mão de pessoas que tinham algum conhecimento de viagens espaciais tripuladas. Outros receberam treinamento intensivo, que os habilitou a enfrentar os efeitos da ausência da gravidade.
Com isso, foi eliminado o fator surpresa. A arma formidável dos arcônidas, o neutralizador da gravidade, funcionava com a mesma perfeição de antes, mas perdera toda a utilidade prática.
Perry Rhodan deu-se conta de que, embora dispusesse de armas e equipamentos infinitamente superiores, não devia subestimar o poderio concentrado de um exército altamente treinado.
O fogo cerrado das baterias de foguetes pesados e ultrapesados não poderia deixar de produzir seus efeitos, mesmo que, apesar de todos os esforços, o inimigo não conseguisse romper a cúpula energética.
Acontece que, naquelas circunstâncias, a tensão nervosa resultante das inúmeras detonações, aliada ao medo causado pela sensação de perigo, bastaria para romper a resistência psíquica dos poucos homens que ali se encontravam.
De repente, o Dr. Eric Manoli precipitou-se para fora da tenda sem dar a menor explicação. Antes que Rhodan compreendesse o que estava acontecendo, o médico havia desaparecido através da escotilha da nave.
Só depois de alguns instantes Rhodan percebeu o motivo da agitação daquele homem franzino. Ele e Bell começaram, também, a correr. Rhodan lembrou-se de que seus movimentos poderiam ser detectados através de um dispositivo de localização ótica. O campo de defesa energética formado pelos arcônidas tornava impossível a captação eletrônica da imagem, mas a muralha invisível podia ser atravessada pelo olhar. Se percebessem que, logo após o início do bombardeio, os homens se precipitavam para a nave, isso só poderia concorrer para piorar a situação.
Rhodan estava apavorado.
“Não devemos deixar qualquer brecha por onde possamos ser atacados”, pensou. “Pelo amor de Deus! Não podemos mostrar nenhum ponto fraco.”
Encontraram-se com o Dr. Manoli na grande escotilha de carga da nave. Trazia sobre a cabeça os enormes abafadores de som usados como proteção contra o ruído por ocasião da partida da nave.
Manoli sorriu. Moveu os lábios. Apontou para o pino do cabo de ligação.
Assim que Rhodan colocou o pesado dispositivo, o fragor infernal transformou-se num murmúrio distante. Colocou no pescoço o grampo com o microfone de laringe e ligou os contatos do equipamento de telefonia que trazia no peito.
— Já estava na hora — soou a voz calma vinda dos minúsculos alto-falantes embutidos nos abafadores. — Estou admirado de não lhes ter ocorrido antes a idéia de nos submeter a um fogo cerrado. O pessoal da Faculdade de Psicologia deve estar metido nisso.
Um ligeiro sorriso esboçou-se no rosto do Dr. Manoli. No entanto, os lábios trêmulos desmentiam a tranqüilidade que procurou aparentar.
— Obrigado. Foi uma ótima idéia — respondeu Rhodan. — Devia ter-me lem­brado disso antes.
— É bom que ele também faça alguma coisa — ouviu-se a voz de Bell. — Será que também deu para ter boas idéias?
— Só sei que estou com um medo terrível — respondeu Rhodan com voz apática. — Estou com medo desta cúpula energética, cujo funcionamento não conheço e cujo limite de resistência constitui uma incógnita para mim. Mas, deixemos isso de lado. Eles testarão nossa resistência com um fogo cerrado de várias horas. As armas nucleares não funcionarão mais, por isso, recorrerão aos explosivos químicos. Se estes não produzirem efeito, atacarão com gases. Caso os mesmos falhem, convocarão os especialistas em guerra bacteriológica. O fato é que ainda existem possibilidades com que nosso amigo Crest nem chega a sonhar. O homem é dotado de uma tremenda capacidade inventiva e, com o surgimento da nossa terceira potência, criamos uma situação tal que a esta altura já mobilizou toda a ciência humana.
— Obrigamo-los a este tipo de união — observou Manoli. — As superarmas terrenas tornaram-se ineficazes. As reações nucleares já não são possíveis, uma vez que não podem ser desencadeadas sem nêutrons livres, e atualmente os homens não conseguem desligar estas partículas do núcleo atômico.
De repente, Rhodan lançou um olhar fulminante sobre Bell. Este empalideceu. Passou a ponta da língua pelos lábios.
— O que houve? — perguntou com voz gutural.
Desde que voltou a ficar submetido às ordens de Rhodan, Bell perdera a petulância juvenil. A alegria enorme que lhe provocavam as estupendas armas defensivas dos arcônidas desvaneceu-se com a mesma rapidez com que surgira durante sua expedição à Austrália.
Rhodan não respondeu. Correu para a tenda, onde entregou um par de abafadores ao Dr. Haggard, que parecia muito assustado. Bell compreendeu imediatamente. Sem dizer uma palavra, desapareceu no interior da armação de plástico inflado.
Os outros seguiram-no devagar. O excelente isolamento acústico fez com que os ruídos chegassem ainda mais abafados. Com isso, fora eliminado, também, o risco de esgotamento nervoso.
Passaram perto do reator em forma de tambor de óleo, que emitia um zumbido agudo. Desde o pouso da nave esse aparelho fornecia a energia para a cúpula protetora. Rhodan parou, pensativo. Mais uma vez procurou atravessar o dispositivo cilíndrico com a imaginação, de forma a compreender como ele funcionava. Ele era astronauta e físico nuclear. Podia gabar-se de ter compreendido todos os detalhes — mesmo os mais afastados de seu campo de conhecimentos — do mecanismo propulsor químico-nuclear da Stardust. Mas, diante dessa tecnologia infinitamente superior, seus conhecimentos não passavam do zero. Sabia, apenas, que no setor quente do reator dos arcônidas era liberada uma energia equivalente à de um pequeno sol. Por certo, ali se desenvolvia um processo de fusão extremamente complicado que devia basear-se no ciclo do carbono. Seria um processo estupendo de ignição catalítica a frio, que se distanciava do das fissões nucleares da Terra tanto quanto o machado de pedra das pistolas automáticas.
Pelo que dissera Crest, seria facílimo fornecer energia para toda a indústria terrena com aquele aparelho cuja altura não ultrapassava a de um homem. Rhodan sentia vertigens quando fazia cálculos baseados nesses dados. Também desta vez desistiu do intento de compreender esse aparelho criado por uma raça superior. Por enquanto, tinha de contentar-se em aceitar a maneira pela qual funcionava.
Vários cabos da grossura de um braço subiam até a antena esférica que possibilitava a criação da cúpula energética de quatro quilômetros de diâmetro e dois de altura.
Cerca de seis semanas haviam-se passado desde o encontro da gigantesca nave espacial esférica na superfície da Lua. Cerca de seis semanas seriam suficientes para que os cientistas da Terra compreendessem al­gumas verdades perigosas. Talvez, a esta altura, a fábula de Rhodan, segundo a qual haviam sido descobertos na Lua alguns vestígios abandonados de uma estranha cultura repousasse sobre pés de barro. Não estavam lidando com idiotas; não havia a menor dúvida. Os homens que ocupavam os postos de comando militares e científicos das três superpotências sabiam raciocinar. Se, além de tudo, ainda conseguissem se unir, a situação acabaria por se tornar insustentável.
Perry Rhodan sentiu os olhares perscrutadores dos três homens. Por trás da cortina que separava a parte dos fundos via-se a sombra do Dr. Haggard. Ao que parecia, havia colocado abafadores no ser que estava sob seus cuidados.
O rosto de Perry tornou-se mais sério. Há alguns anos andava ligeiramente curvado, o que fazia com que seu corpo, alto e magro, parecesse um pouco menor. Bell observou-o, cada vez mais preocupado. Se o comandante perdesse a tranqüilidade, tudo estaria perdido. Ele mesmo, Reginald Bell, não seria capaz de levar avante de maneira coerente o plano cuja execução fora iniciada. Era muito impulsivo.
O Dr. Eric Manoli nem de longe estaria em condições de prosseguir naquela empresa arriscada. Era, antes de tudo, médico; e como tal não saberia emitir ordens que tivessem de ser cumpridas incondicionalmente.
O capitão Clark G. Fletcher estava desaparecido havia uma semana. Rhodan tinha certeza de que ele devia enfrentar grandes dificuldades — se é que ainda estivesse vivo. Tinha cometido um grande erro ao permitir que retornasse ao lar. Não poderia dar certo.
Os lábios de Rhodan estreitaram-se. Como não tivesse ligado o dispositivo de telefonia, Bell absteve-se de fazer qualquer pergunta. Em vez disso, pôs inconscientemente a mão no bastão prateado que, segundo sabia, encerrava forças inacreditáveis.
Era o chamado irradiador psíquico dos arcônidas, através do qual se podia eliminar a vontade consciente de qualquer pessoa, obrigando-a através de um processo de obstrução sugestiva a praticar atos que contrariavam seus próprios desejos.
Era um instrumento relativamente inofensivo. Não causava o menor dano psíquico e a mente da pessoa submetida aos seus efeitos não era afetada. Todavia, também o irradiador psíquico perdera o fator surpresa. Do outro lado, já haviam descoberto que o alcance do aparelho não ultrapassava dois quilômetros.
Com isso, a terceira potência via-se obrigada a assumir a defensiva.
Rhodan passou junto ao laboratório móvel do Dr. Haggard, trazido na semana anterior. Ao perceber o olhar irônico de Rhodan, Bell deu de ombros. Ele sabia que a essa altura, não conseguiria repetir a façanha de poucos dias atrás. De qualquer maneira, o Dr. Haggard estava no acampamento e, o que era mais importante, trouxera aquilo de que Crest tanto precisava.
Perry Rhodan, que ainda envergava o uniforme da Força Espacial, pôs a mão no ombro esquerdo, numa atitude pensativa. Suas divisas não estavam mais ali; ele mesmo as retirara. O major Perry Rhodan havia deixado de existir, pois fora avisado por uma mensagem radiofônica de que havia sido privado de sua patente. Transformara-se no inimigo público número um.
Com todo cuidado, puxou a cortina. O Dr. Manoli aproximou-se. Num movimento rápido, estabeleceu a ligação através do cabo.
— Não fique nervoso! — soou a voz tranqüilizadora do médico nos alto-falantes dos abafadores. — Nosso paciente está com febre, mas já contávamos com isso. Sabíamos perfeitamente que um ser de constituição biológica diferente da nossa não poderia reagir aos nossos medicamentos da mesma forma como reage um ser humano normal. Mas o espectro sanguíneo é bastante animador. A proliferação doentia dos glóbulos brancos regrediu com a primeira injeção do soro anti-leucêmico do Dr. Haggard. Pelo menos, conseguimos deter o avanço da moléstia. As inchações das glândulas e a hemorragia cutânea estão regredindo. Apenas não sabemos qual a causa dos efeitos colaterais. Num ser humano não surgiriam sintomas desse tipo. A esta altura, porém, já sabemos muito sobre o organismo de Crest.
“Seu metabolismo é idêntico ao nosso. Tal qual os seres humanos, respira oxigênio e seus pulmões transportam esse gás vital ao organismo através do sangue. Haggard é da mesma opinião. Realizamos exames minuciosos antes de injetar o soro. Dentro de uma hora aplicaremos a segunda dose.
— Apesar dos graves efeitos colaterais?
— Apesar desses efeitos — confirmou Manoli com um ligeiro movimento de cabeça. Seu rosto assumiu uma expressão séria. — Não podemos fugir aos riscos. Haggard é um especialista muito competente, mas não é um mágico. Os sintomas estão sob controle. Não é de se esperar que o paciente entre em colapso. A circulação mantém-se numa estabilidade notável. Seu corpo é dotado de um órgão que o homem não possui. Poder-se-ia dizer que se trata de um regulador de pressão muito aperfeiçoado, situado acima do coração. As medidas registradas pelo nosso instrumental médico automático revelam que os princípios de colapso e os espasmos vasculares são imediatamente compensados. É um organismo admirável, que ninguém suportaria numa raça degenerada como esta. De qualquer forma, vemo-nos diante de superinteligências que não conseguem reunir a força de vontade que seria necessária para converter suas potencialidades espirituais infinitamente superiores em qualquer tipo de atuação prática. É aí que está o problema, comandante.
— Já não sou comandante.
— Para mim, nunca deixará de ser. Para resumir, temos motivos para crer que não só conseguiremos pôr Crest de pé, mas também alcançaremos a cura completa e o total restabelecimento.
Rhodan lançou mais um olhar sobre aquele rosto incrivelmente juvenil, coberto de gotículas reluzentes de suor. Embora não tivesse nascido em nosso planeta, Crest suava. Pelo que dizia Manoli, era um bom sinal.
Rhodan voltou-se. O fogo cerrado de artilharia continuava. O solo trepidava sob a força dos impactos. Parecia que cargas explosivas muito potentes estavam sendo detonadas junto à face externa da cúpula energética.
— Não estou gostando disso — cochichou Bell. Ouvia-se perfeitamente que engolia em seco. — As intenções deles não são boas. Até parece que todo esse fogo de artifício não passa de uma manobra para prender nossa atenção.
— Quem dera que pudéssemos perguntar a Crest se a cúpula continuará a resistir ao bombardeio — disse Rhodan. — Eric, será que você poderia despertar Crest por um instante?
— Nem pense nisso! — recusou-se o médico. — É impossível! Seria o maior erro que poderíamos cometer.
— Infelizmente você tem razão — confirmou Rhodan. Um sorriso esboçou-se no seu rosto.
Bell estremeceu. Conhecia a meiguice tristemente célebre de Rhodan, que acabaria numa irrupção fulminante.
— Se não conseguirmos restabelecer Crest, o inferno desabará sobre nossas cabeças — observou o comandante com uma tranqüilidade surpreendente. — Sim, senhores: o inferno! Contrariei as ordens que recebemos, pousando a Stardust aqui no deserto de Gobi. Recusei-me a entregar Crest. Declarei centenas de vezes que seus conhecimentos científicos e tecnológicos não seriam entregues a nenhuma potência da Terra. Sufocamos uma guerra nuclear no nascedouro e, com nossas armas defensivas muito superiores, zombamos de toda a humanidade. E ela nunca esquecerá isso. Os três grandes blocos das potências da Terra uniram-se contra nós. Lá na Lua, a exótica comandante de uma gigantesca nave espacial de combate espera o restabelecimento de Crest, o cientista que se afastou do seu mundo para procurar em nossas regiões galácticas algum planeta em que já tivesse sido desvendado o mistério da conservação biológica das células. Para Crest, isso significaria a vida eterna. Seu cérebro genial há de ser conservado para sempre.
“Thora, a comandante, também se conservou espiritualmente ativa, como tantas mulheres da sua raça. Despreza a humanidade por causa de suas condições primitivas de desenvolvimento. Se não conseguirmos curar seu irmão de raça, ficaremos expostos da noite para o dia, sozinhos e indefesos, às divisões de combate de uma humanidade enfurecida. A terceira potência terá chegado ao fim. Falei claro?
Bell respondeu:
— Muito claro, amigo! Se Thora der para trás, passaremos pelos interrogatórios dos Serviços Secretos; depois disso enfrentaremos uma corte internacional. Nossas intenções foram boas demais, não foram?
— Na minha opinião, não cometemos nenhum crime; nem sequer praticamos qualquer erro — afirmou o médico com a voz tranqüila. — Quem age no interesse de toda a humanidade nunca pode estar errado. E não estamos fazendo outra coisa. Pelo contrário: com a nossa demonstração de força, conseguimos aproximar, de um momento para outro, até mesmo os governos separados por divergências ideológicas profundas. Será que isso não vale nada?
— Só conseguimos isso graças ao poder de Thora — ressalvou Rhodan. — Se Crest morrer, ela se separará de nós. É verdade que não poderá decolar sem o nosso auxílio, mas isso não a deixará preocupada. O fatalismo tomou conta de sua raça. Ela se fechará num enorme campo energético e recusar-se-á terminantemente a manter contato com os homens. Temos de fazer alguma coisa.
— O quê?
A pergunta foi formulada em tom penetrante. O nervosismo de Bell havia atingido o ponto crítico.
— Devemos convencê-la de que o homem é um ser dotado de uma enorme criatividade. Dentro de pouco tempo as potências terrenas disporão de armas nucleares que poderão ser utilizadas apesar dos campos anti-neutrônicos.
O Dr. Manoli empalideceu. Acabara de compreender. Rhodan concluiu com toda a tranqüilidade:
— Estávamos realizando pesquisas secretas para uma fusão nuclear a frio. Se essas pesquisas forem bem sucedidas, não haverá mais necessidade do detonador térmico para desencadear a fusão nuclear. Com isso, o campo anti-neutrônico não passará de uma brincadeira. Quando esse dia chegar, não quero estar embaixo desta cúpula energética.
Olhou para o alto. Muito além da cobertura da tenda, a cúpula resistia aos projéteis, como se estes não passassem de bombas juninas. A situação poderia mudar, talvez, muito depressa.
— Ligue-me com Thora — disse Rhodan em tom pensativo. — Quero falar-lhe com urgência, na qualidade de representante de uma humanidade que quer formular umas exigências em seu próprio benefício.
— Exigências? — disse Bell, com um sorriso de escárnio. — Será que ouvi bem? Ela saltará no meu rosto de dentro do tubo de imagens. Para ela, não passamos de macacos com um pouquinho de inteligência. Seu código continua a proibir qualquer tipo de contato conosco. Este negócio de Crest não passou de um acordo em que ela mal e mal se dignou entrar.
Rhodan, com o pé, puxou a banqueta para junto de si. A mesma já pertencera ao equipamento de uma unidade asiática de transporte.
— Se ela possuir aquilo que entre nós se costuma chamar de instinto de conservação acabará cedendo. Vamos logo! Estabeleça a ligação. Afinal, você é ou não é nosso técnico de comunicações?
Bell deu de ombros. Murmurando uma praga, tirou o pino da tomada de seu abafador e desapareceu atrás da cortina. O estranho videofone dos arcônidas havia sido instalado junto ao leito de Crest. A grande tenda oferecia mais espaço que a pequena cabina da Stardust.
Pretende coagi-la? — perguntou o Dr. Manoli, preocupado.
— Isso mesmo! — respondeu Rhodan. — Acho que ela se encontra numa dependência tão forte de Crest como jamais sonhamos. Notei perfeitamente que ele lhe dava ordens. Para mim, a brincadeira já passa da conta. O que será de nós se a cada pequeno incidente tivermos de solicitar seu auxílio? Para meu gosto, a Lua fica muito longe. Quando chegar o momento crítico, perderemos minutos ou segundos que poderão tornar-se decisivos. Precisamos de um equipamento muito mais potente, inclusive de algumas armas ofensivas. Por favor, não formule mais perguntas. Se acontecer aquilo de que desconfio no recanto mais profundo do meu cérebro, Thora despertará de qualquer maneira. Subestima os homens. Acha que não somos capazes de coisa alguma. No meu entender, está cometendo um engano fatal.
— Não compreendo — gaguejou Eric Manoli.
— Procure raciocinar — disse Rhodan com um sorriso irônico. — O que faria você, como médico, se um paciente se queixasse de fortes dores? Procuraria resolver tudo com injeções de morfina, ou tentaria descobrir a causa das dores para aplicar o tratamento adequado?
— É claro que procuraria arrancar o mal pela raiz.
— Pois é isso — disse Rhodan com um sorriso forçado. — É isso mesmo. Os serviços secretos das potências terrestres também procurarão as raízes que, no nosso caso, ficam na Lua. Não venha me dizer que acredita que ainda estão engolindo a nossa história!
Bell fez um sinal com a mão. Do seu rosto zombeteiro só se podia concluir que a comunicação havia sido estabelecida.
Rhodan levantou-se sem a menor pressa. Dirigiu-se à peça que ficava na parte dos fundos da tenda e colocou-se diante da tela oval do instrumento dos arcônidas.
A nave estranha estava estacionada do outro lado da Lua. Ninguém conseguiria alcançá-la com as ondas ultracurtas comuns. Indagado a este respeito, Crest limitara-se a declarar que esse problema havia sido resolvido há muito pelos arcônidas, através da radiotelegrafia de velocidade superior à da luz.
Para um engenheiro terreno, era mais que difícil aceitar uma explicação desse tipo sem que surgisse uma série imensa de perguntas. A montanha de problemas que tal fato fazia surgir prenderia o técnico por toda a sua vida.
O rosto de Thora reluziu na tela. Era uma imagem tridimensional colorida de rara expressividade. Thora era bela, de uma beleza cativante, mas parecia terrivelmente despersonalizada na sua tranqüila frieza. Rhodan lançou um olhar fascinado para os cabelos muito claros, que formavam um contraste marcante com os olhos vermelho-dourados, uma das características dos arcônidas.
Há pouco, Rhodan estivera disposto a usar palavras moderadas, procurando explicar o seu procedimento através da educação que recebera. Mas, subitamente, resolveu mudar de atitude.
Não proferiu nenhum cumprimento. Em vez disso, falou com voz áspera:
— Não me venha explicar que ainda não está na hora do contato diário. Ouça bem e procure lembrar-se de que já não sou uma simples figura no seu tabuleiro. Se não é capaz de reparar as pequenas avarias do mecanismo propulsor de sua supernave espacial para colocá-la em condições de decolar, também não se julgue capaz de impressionar um cientista da Terra e um soldado de elite com suas palhaçadas. Os homens de minha raça têm mais coragem e determinação na ponta dos dedos do que os idiotas da sua tripulação carregam nas cabeças ocas. Se interromper a comunicação desligo a cúpula energética. Queria dizer alguma coisa?
Ela o encarou com os olhos arregalados. Ninguém, nunca, usara uma linguagem dessa para com a comandante.
Não desligou. Quando Rhodan prosse­guiu, os cantos de sua boca desceram.
— E agora, madame, preste muita atenção ao que vou dizer! Eu...
Bell estava convencido de que seu ex-comandante enlouquecera. Assumiu uma pose de quem se julga o chefe do enorme império espacial, que Crest designara como o Grande Império. Ao que parecia, estava esquecido de que, em meio à Via Láctea, o planeta Terra não representava mais que um grãozinho de areia no deserto de Gobi; talvez até menos.
Bell tinha certeza de que alguma coisa não daria certo.






II


Uma sociedade ou uma aliança defensiva nada mais é que uma autêntica relação de mútua confiança entre os participantes.
Sempre que, no âmbito de uma união mundial, seja estabelecido um sistema secreto de defesa específica, tudo indica que o quartel-general será instalado num lugar de acesso fácil e seguro pelos participantes.
No caso do CID — Conselho Internacional de Defesa — fora escolhida a ilha da Groenlândia, por ser o local que oferecia posição geográfica mais favorável. A gigantesca central defensiva da OTAN fora montada muito abaixo do solo.
Allan D. Mercant, o chefe onipotente do CID, só prestava contas de seus atos perante o plenário da Comunidade de Defesa. Aquele homem delicado, de aspecto despretensioso, de rosto moreno e testa alta, era uma criatura muito pacífica quando se tratava de animais. Poderia, mesmo, ser confundido com o diretor de alguma sociedade protetora dos animais; e a pessoa a quem declarasse que ocupava essa posição acreditaria piamente na sua palavra se o visse nas densas florestas do Canadá, com a câmera fotográfica equipada com teleobjetiva diante dos olhos que reluziam num brilho entusiástico.
Mercant não apreciava a caça com arma de fogo, que não se harmonizava com os princípios que adotara.
Justamente por isso, a atividade profissional a que se dedicava devia causar surpresa. As más-línguas diziam que, para o chefe do CID, a saúde de um pobre animal era mais importante que a vida de um dos seus numerosos agentes. É claro que não havia em tal afirmativa um pingo de verdade. Por isso, a única resposta de Mercant diante de observações mordazes como esta consistia num brilho irônico dos olhos.
Naquele instante, ele estava parado diante de uma tela gigantesca. O símbolo luminoso que aparecia no ângulo superior direito indicava que a câmera de TV se encontrava num ponto distante da Ásia.
Isso era mais que estranho; há cerca de um mês tal fato teria causado a maior sensação. A essa hora, porém, nem mesmo a presença de oficiais e agentes secretos do bloco oriental parecia impressionar os presentes.
Trinta dias antes teria sido totalmente inconcebível permitir a entrada de um representante da Federação Asiática, quanto mais do Bloco Oriental, no quartel-general do Conselho Internacional de Defesa.
Para levar a surpresa ao máximo, Allan D. Mercant chegara a expedir convites pessoais.
Foi assim que às primeiras horas da manhã daquele dia, dois bombardeiros Delta, da Federação Asiática e do Bloco Oriental, pousaram no enorme aeroporto do quartel-general.
Os visitantes foram recebidos e cumprimentados por Mercant em pessoa. No entanto, ele tivera o cuidado de levar os recém-chegados em um trem fechado por uma das insondáveis galerias de gelo do quartel-general. De tal forma que eles já não saberiam indicar com precisão o lugar em que se encontravam. Viram-se num enorme salão, bem iluminado, onde reinava uma temperatura agradável. Ninguém diria que, por cima deles, havia uma camada de gelo e rocha de quase três quilômetros de espessura.
Era a central de Mercant, o lugar para onde convergiam os laços que cimentavam a imponente união defensiva do Ocidente.
Verdadeiras tempestades de som pareciam irromper dos grandes amplificadores embutidos. O trabalho de transmissão do pessoal da televisão chinesa era excelente, talvez, até, um pouco demais.
Teleobjetivas de grande potência captavam toda a área em que se situava o alvo. Os olhos dos espectadores eram atormentados ininterruptamente por raios ofuscantes. O rugido infernal da detonação dos projéteis misturava-se ao som grave dos pesados mísseis teleguiados terra-terra, que eram disparados numa seqüência incrivelmente rápida das carretas rebocadas por veículos especiais.
O espetáculo já durava quinze minutos e o fim ainda não estava à vista. Qualquer diálogo entre os presentes seria impossível. A transmissão do bombardeio prendia todas as atenções, até que Mercant desligou abruptamente o receptor.
Os tubos de imagem relampejaram. A imagem cintilou ligeiramente antes de apagar-se por completo. O silêncio passou a reinar no salão.
Mercant passou a palma da mão pela calva reluzente. Parecia exibir tamanha ingenuidade que o marechal Petronskij não pôde reprimir uma sensação desagradável. O chefe da Força Aeroespacial do Oriente lançou um olhar suplicante para o homem esbelto, de rosto impassível que se encontrava a seu lado.
Ivan Kosselov, chefe do Serviço Secreto do Bloco Oriental, não movera um músculo da face durante a apresentação do espetáculo. Por certo, achara conveniente conservar a máscara habitual. Kosselov e Mercant já haviam travado muitas lutas silenciosas das quais o grande público nem chegava a suspeitar.
Havia mais dois homens que chamavam a atenção. Eram Lao Lin-to, comandante supremo da Força Aeroespacial da Federação Asiática, e Mao Tsen, um chinês do Sul, enorme e de ossos salientes que, segundo se sabia, desempenhava as funções de chefe do Serviço Secreto da Federação Asiática.
Dessa forma, as personalidades mais importantes e influentes dos três grandes blocos de potências estavam reunidas no abrigo central do QG do CID. Era um fato estranho; na verdade, mais que estranho.
Os homens olharam-se. Os agentes e assessores, que se conservavam à distância, nos fundos do salão, mantiveram-se num silêncio sepulcral. Ali, só os grandes estavam com a palavra.
Mercant convidou os cavalheiros a entrarem na sala de conferências. Os guardas retiraram-se. O recinto foi isolado hermeticamente do mundo exterior.
O pigarro de Mercant parecia encerrar uma revelação, talvez uma advertência. As cabeças voltaram-se, os dedos começaram a brincar com os lápis e as canetas, os cérebros vigilantes tornaram-se mais alertas. O que desejaria Mercant?
Falou no tom de quem sabe dissimular muito bem quaisquer preocupações que porventura pudessem surgir entre suas palavras.
— Admiro a capacidade de resistência do exército vermelho — principiou em tom amável. — Cavalheiros. Apesar de todos os esforços da Federação Asiática, um ligeiro exame da tela nós dá a impressão de que realmente estamos lidando com um poder infinitamente superior. Os dados assustadores, colhidos no curso dos acontecimentos das últimas semanas, bastam para provar que nem os países da OTAN, nem os do Oriente têm qualquer participação no que está ocorrendo. Faço questão de salientar este fato. Peço-lhes encarecidamente que confirmem que daqui por diante, de uma vez por todas, a nave espacial Stardust deixará de ser considerada uma base do Ocidente plantada para fins de provocação em território submetido à soberania da Federação Asiática. Por pouco, o equívoco não nos arrasta a uma catástrofe nuclear. Volto a assegurar-lhes que os cientistas do Ocidente não conhecem qualquer meio ou instrumento capaz de produzir fenômenos estranhos como os que se estão verificando. A Stardust pousou no deserto de Gobi contra a nossa vontade. Qual é a sua opinião, Sr. Mao Tsen?
O enorme chinês voltou o rosto sombrio. Seus olhos escuros brilhavam numa expressão irônica.
— Ora, Mercant! — soou a voz grave. — Vim para terminar de vez este jogo de esconde-esconde. É claro que os senhores não seriam capazes de desenvolver armas desse tipo. Lamento que a desconfiança mútua nos tenha feito perder um tempo precioso. A única coisa que me interessa é saber como o major Rhodan encontrou essas coisas. Pelo que me disseram, os fatos estão diretamente ligados ao primeiro pouso lunar.
— Ao segundo! — soou uma voz fria.
O sorriso de Mercant enrijeceu. O tom da voz do chefe da defesa do Oriente era inconfundível. Um sorriso sombrio aflorou aos lábios do marechal Petronskij.
— Com o segundo pouso lunar tripulado — insistiu Kosselov em tom inexpressivo. — Fui autorizado a informá-lo a esse respeito. Nossa nave tripulada partiu três meses antes da Stardust. Como não costumamos divulgar nossos fracassos, a queda da nave, que para nós continua sendo um mistério inexplicável, nunca foi dada ao conhecimento público.
— Poderia fazer o favor de nos fornecer informações mais detalhadas? — interveio o general Pounder, chefe da Força Espacial dos Estados Unidos. Em seguida, voltou o rosto pálido e perturbado em direção a Mercant: — Por que o Serviço Secreto do Ocidente nunca chegou a saber disso?
— Pois não — disse Kosselov. — Acho que já não podemos dispensar um intercâmbio sincero. Nossa nave caiu sobre a superfície lunar. Sofremos uma perda total; não obtivemos qualquer comunicado, e não temos a mais leve indicação do que aconteceu. Sabemos, general Pounder, que a Stardust enfrentou problemas semelhantes, mas há uma diferença: depois do pouso forçado, a tripulação voltou a entrar em contato com os senhores. Daí se conclui, com toda a segurança, que, pouco antes do pouso, a nave foi arrancada da órbita em virtude de uma falha do equipamento de teledireção. Foi exatamente o que aconteceu com a nossa nave. Face à semelhança dos casos, resolvemos solicitar o seu auxílio. Temos motivo para acreditar que algo de misterioso deve existir no nosso satélite. A interpretação dos dados disponíveis leva, ainda, à conclusão de que o major Rhodan demonstrou mais habilidade que nossos homens. O fato é que foi mais feliz, pois conseguiu sobreviver ao pouso forçado. Não temos a menor explicação para o que aconteceu depois. Há um fato básico que assume a maior importância: tanto a nave do Oriente como a do Ocidente enfrentaram situações de grave emergência em virtude de defeitos no sistema direcional, surgidos sem causa aparente. É impossível responsabilizar os blocos de potências rivais pelo que aconteceu. Os fatos são estes.
Mercant confirmou com a cabeça.
— Cavalheiros, já lhes transmiti com todos os detalhes as notícias e explicações recebidas do major Perry Rhodan. Nosso ex-piloto espacial comunicou simplesmente que encontrou na Lua vestígios de uma estranha civilização dotada de inteligência superior e um avanço tecnológico fantástico. É de lá que provêm as armas e equipamentos infinitamente mais potentes que os nossos. Contrariando ordens que lhe demos, Rhodan pousou no deserto de Gobi. Daí em diante, vem recusando qualquer contato conosco, limitando-se a dizer que representa a chamada terceira potência. No momento, não estamos interessados na definição desse termo. O que importa são os fatos, que, em última análise, encontram seu remate numa cúpula energética impenetrável que representa o maior mistério de todos os tempos. Acabamos de ver, com os nossos olhos, que de nada adianta um bombardeio com armas convencionais.
— Pois dêem-nos armas mais eficientes! — disse o chinês em tom amargurado. — Façam alguma coisa para endireitar as conseqüências catastróficas da traição cometida pelo piloto dos senhores. A esta altura já devíamos estar de acordo em um ponto: Perry Rhodan investe contra todo o mundo. Transformou-se no inimigo público número um. Se não conseguirmos eliminar aquele misterioso campo de força e reduzir a tripulação da Stardust à impotência...
— ...nesse caso, poderíamos ser forçados a unir-nos — interrompeu Mercant, num tom ligeiramente irônico.
Kosselov pigarreou. Lançou um olhar pensativo sobre os homens que se encon­travam reunidos.
— Somos da opinião que, ao usar os meios de que dispunha para impedir uma guerra nuclear, Rhodan não praticou nenhum ato de alta traição. Pelo contrário — disse o marechal Petronskij. — Os senhores mesmos, dominados pelo pânico, comprimiram os tais botões. Acontece que os mísseis nucleares não explodiram. Portanto, se hoje podemos realizar esta conferência, devemos isso a Perry Rhodan. É este o lado positivo dos acontecimentos, e que não deve ser ignorado.
— Ninguém está ignorando este aspecto — observou Mercant com a voz tranqüila. — Todavia, cabe lembrar que dificilmente teria havido o tão falado aperto de botões se Rhodan não tivesse pousado no território da Federação Asiática. Emitimos numerosas notas nas quais asseguramos que esse pouso não correspondia aos nossos desejos. Apesar disso, Pequim preferiu acreditar que se tratava de uma base ocidental para fins de provocação. Mas, deixemos isso de lado! A esta altura só nos interessa saber de que forma poderemos chegar a um acordo.
— Alguma coisa deve ser feita — disse Mao Tsen, enfatizando as palavras. — Estamos decididos a não tolerar a terceira potência em território da Federação Asiática. O ato de Rhodan constitui um crime contra a ordem mundial. Ele se opõe a uma potência soberana do nosso planeta.
— O senhor devia considerar o ponto de vista de Rhodan — disse o general Pounder em tom ressentido. — Acho que nesta conferência devemos usar de toda a franqueza. E, para falar francamente, permita que lhe diga que, a meu ver, corresponde plenamente aos objetivos da paz mundial, que uma força neutra exerça certo controle sobre nossos atos. Não é necessário ressaltar que, antes, reinava uma tensão horrível no plano internacional. O pouso de
Rhodan no Gobi não foi o fator decisivo que fez com que os botões que acionam as armas nucleares fossem comprimidos no Oriente e no Ocidente. Talvez fosse a fagulha que provocou a explosão, depois de termos acumulado quantidades enormes de explosivos numa guerra fria que já durava alguns decênios.
O chefe do Serviço Secreto do Bloco Oriental parecia nervoso.
— General Pounder — disse com a voz apagada. — Até parece que o senhor continua a ver em Perry Rhodan a criança mimada do seu programa espacial. Permita que lhe diga que também nós não podemos concordar com essa potência que surje de uma hora para outra. Sem falar na situação jurídica, completamente insustentável, não há como nos rebaixarmos a tal ponto que nossos governos fiquem sujeitos às ordens de quem quer que seja! Quem nos garante que Rhodan não se transformará em um imperador mundial? Por enquanto, seu reino é pequeno; está reduzido à imobilidade, já que se acha preso no interior daquela misteriosa capa protetora. Acho que já é tempo de engajarmos o potencial industrial, e científico de todas as potências na luta contra Rhodan. E, antes de mais nada, devemos descobrir quem está por trás dele. Não acreditamos nas informações do CID.
Um sorriso forçado esboçou-se no rosto de Mercant. Ele se levantou. Estava pensativo.
— Eu os convidei a comparecerem ao quartel-general do CID para informá-los sobre os dados mais recentes colhidos por nossa organização. Todos os fatos conhecidos foram processados pelo maior e mais potente dos computadores eletrônicos da Terra. Para não dificultar a obtenção de um resultado final válido, preferimos não formular questões sobre os aspectos favoráveis ou desfavoráveis de uma tecnologia avançada nas mãos de um homem nascido em nosso planeta. Dessa forma, continua em aberto a indagação sobre se Rhodan tenciona desempenhar o papel de guardião pacífico da humanidade, visando ao desenvolvimento e ao progresso, ou se pretende usar os instrumentos infinitamente superiores de que dispõe para entregar-se a uma nova forma de imperialismo.
— É isso o que ele vai fazer! — disse Kosselov, em tom exaltado. — Que motivo poderia ter para não proceder dessa forma?
— Um momento — disse Mercant, com uma cortesia gélida. — Aprecio a oportunidade desse encontro, e todo homem inteligente e amante da paz devia fazer a mesma coisa. Nem por isso, porém, deixo de condenar a conduta ilegal de um homem que partiu como major da Força Espacial e retornou ao nosso planeta como ditador. Pouco importa que Rhodan tenha, ou não, feito um favor à humanidade torturada por tantos pesadelos. O certo é que impediu uma guerra nuclear. Nesse ponto, não posso deixar de concordar com o general Pounder. Todas as reações nucleares conhecidas tornaram-se impraticáveis. Estabelecemos uma união forçada que, a meu ver, forma os laços suaves que conduzirão a uma coligação entre as grandes potências. Estamos todos unidos contra um homem. São estes os únicos fatos relevantes a serem considerados nesta oportunidade. Gastamos semanas em indagações sobre os acontecimentos misteriosos que, certamente, se desenrolaram na Lua. Os dados fornecidos por Rhodan já são do seu conhecimento. Seus serviços de escuta captaram as mensagens radiofônicas trocadas entre o Comando Espacial dos Estados Unidos e o major Rhodan. Por elas se percebe que o major Rhodan insiste na afirmativa de ter encontrado na Lua as criações de uma raça infinitamente superior, e que delas se apo­derou em benefício da humanidade. Recusa-se a entregar os produtos de sua descoberta a qualquer governo da Terra. É claro que, sob o ângulo estritamente jurí­dico, cometeu os crimes de deserção, alta traição e indisciplina, entre outros. Mas não devemos confundir causas com efeitos.
Aqui, não podemos aplicar os padrões jurídicos habituais, ainda mais que Perry Rhodan renunciou à sua patente e à cidadania americana. Tornou-se, pois, um apátrida. Diz ser um cidadão do mundo e não se submete à autoridade dos juizes terrenos.
— É uma posição juridicamente insustentável! — interrompeu Kosselov, em tom exaltado.
— Sem dúvida — confirmou Mercant. — É mais do que isso. A situação é totalmente confusa. Mas será preferível deixarmos o nosso juízo a este respeito para quando tivermos condições de adotar medidas práticas contra Rhodan. No momento, tudo não passa de palavras, e estas são totalmente infrutíferas na situação em que nos encontramos. Devemos nos ocupar exclusivamente com fatos.
Mercant sentou. Fez um ligeiro gesto com a mão. Uma enorme tela iluminou-se. A partida da nave tripulada Stardust foi apresentada.
As imagens da nave foram surgindo. Finalmente, viram os preparativos para o pouso na Lua, fotografados pelos instrumentos de bordo. As fotografias da estação tripulada Freedom-I foram apagadas. Eram excelentes filmes e registros em fita obtidos através de ondas infravermelhas. Ouviu-se a última mensagem radiofônica de Rhodan. Logo após soou o apito estridente do alarma eletrônico e o chiado agudo do pedido de socorro codificado QQRXQ. O equipamento direcional automático da Stardust deu sinal da cessação do funcionamento da teledireção de Terra. As últimas fotografias mostraram a nave se precipitando, em ângulo reto, sobre a superfície da Lua, numa queda aparentemente descontrolada. Por fim, desapareceu atrás da curvatura do pólo lunar.
Mercant mandou desligar o aparelho.
— Acabamos de assistir aos preparativos da decolagem e a queda — disse. — Até aqui, tudo foi claro. Acreditamos que tenha havido alguma falha ou acidente. Houve quem falasse em sabotagem. O que sabemos é que, subitamente, a nave deixou de reagir aos impulsos da teledireção, embora seus receptores estivessem em perfeitas condições. O retorno à Terra prova isso. São estes os resultados finais e incontestáveis a que chegou o computador eletrônico. Agora, os senhores verão o relatório de técnicos que analisaram os resultados fornecidos após a análise dos últimos dados. Dele se conclui, sem sombra de dúvida, que Perry Rhodan não está sozinho. Atrás dele existe alguma coisa desconhecida, apavorante. Os senhores hão de compreender que, por enquanto, é inútil realizar qualquer jogo de estratagemas jurídicos. O que importa saber é quem detém o poder. Se for Rhodan, não teremos outra alternativa senão lembrar, com um sorriso amarelo, o velho ditado, segundo o qual o mais forte sempre tem razão. Concordam comigo?
Kosselov já havia chegado à mesma conclusão. Os representantes da Federação Asiática protestaram em termos veementes. Mercant só pôde dar de ombros.
— Sr. Mao Tsen, partilhamos irrestritamente da sua indignação. Acontece que não estamos em condições de tomar qualquer medida efetiva contra a invasão do seu território, praticada por Rhodan. Os senhores lançaram mão de suas divisões de elite e as armas mais avançadas de que dispõem. Qual foi o resultado? Dispararam projéteis que valem milhões contra a indestrutível muralha energética. Rhodan não mexe um dedo. Segundo os princípios da lógica conclui-se que o homem se sente invulnerável. Recomendo-lhes que desistam e se contentem com um bloqueio total da área. Provarei que o verdadeiro mal está localizado na Lua. Ao que parece, Rhodan não passa de uma figura subalterna de um grande jogo.
Com estas palavras, Mercant exprimiu de forma indireta aquilo que um homem que se encontrava longe dali havia dito numa clarividência notável. Prosseguiu em tom firme:
— Para exterminar o mal pela raiz, teremos de pousar na Lua. Pousar ou atacar, tanto faz. Ouçamos o relatório sucinto de nosso computador.
Voltando-se para os técnicos, Mercant ordenou:
— Podem ligar.
Ouviu-se um ligeiro estalido nos amplificadores, depois...
— Pressupõe-se que os dados fundamentais sobre a decolagem e o pouso da nave sejam conhecidos. O retorno à Terra foi levado a efeito sob controle eletrônico remoto. A penetração na atmosfera terrestre transcorreu normalmente. O acontecimento mais importante que levou à constatação precisa desses fatos consiste no ato de rebeldia cometido pelo major Rhodan ao pousar no Gobi Central, em território asiático. O plano de construção e a planta de equipamentos da Stardust provam que, antes da decolagem, seus tripulantes não tinham a menor condição de utilizar armas e instrumentos mais aperfeiçoados. A interpretação dos dados disponíveis permite concluir com absoluta segurança que o comandante da Stardust encontrou, na Lua, produtos de uma indústria extraterrena.
— Que sabedoria! — resmungou Mao Tsen, com ironia. — Até aí já sabíamos. É só?
A voz monótona do aparelho voltou a soar. A tela mostrou o foguete na área de pouso.
— Com base nas declarações confusas do piloto Clark G. Fletcher, capitão da Força Espacial, verifica-se que o major Rhodan forçou os membros da tripulação a tolerarem o pouso proibido. O capitão Fletcher foi preso pelos serviços australianos de segurança. O tratamento leviano a que foi submetido durante o interrogatório produziu um derrame cerebral. Pelo que se depreende das gravações em fita e dos relatórios médicos, o sistema de memória de Fletcher foi inutilizado por um bloqueio hipnótico parapsicológico. Assim mesmo, conseguiu-se apurar sem sombra de dúvidas que Fletcher foi obrigado a obedecer às ordens de seu comandante. Os funcionários que causaram a morte de Fletcher estão sendo processados.
— Que habilidade! — ironizou o chinês.
O relatório prosseguiu com uma apresentação detalhada dos resultados das investigações. Fez uma reconstituição da conduta dos outros tripulantes, o Dr. Manoli e o capitão Reginald Bell, baseado nas escassas informações fornecidas pelos agentes dos serviços secretos do Ocidente e do Extremo Oriente.
A exposição terminou com estas palavras:
— O desaparecimento misterioso do Dr. Frank Haggard, especialista em doenças do sangue, deve ser encarado como um aspecto importante. E a interpretação dos atos de Rhodan, com base em cerca de onze milhões de possibilidades, dá a explicação desse fato. Admite-se, com 99% de probabilidades de acerto, que o major Rhodan trouxe à Terra um ser vivo não-humano, que sofre de uma doença do sangue. O exame dos preparativos tomados pelo Dr. Haggard permite a conclusão segura de que se trata de leucemia. Apurou-se quais foram os aparelhos e medicamentos que levou consigo. A probabilidade de acerto é de 100%.
Desta vez, Mercant esperou, em vão, por qualquer objeção do chefe do Serviço Secreto da Federação Asiática. Mao Tsen parecia estarrecido na sua poltrona.
— Incrível! — murmurou Kosselov.
Mercant continuou a observar os presentes. O general Pounder estava mergulhado em profunda meditação. O relatório foi concluído com uma observação lacônica:
— A declaração de Rhodan, de ter encontrado na Lua a herança abandonada de uma raça não-humana, e de ter conseguido utilizá-la pela forma já conhecida, é rejeitada com absoluta segurança, por não corresponder à verdade. O exame cuidadoso dos dados técnicos e científicos leva à conclusão de que nenhum homem seria capaz de compreender, em poucos dias, o funcionamento de armas e aparelhos totalmente desconhecidos. A utilização da chamada cúpula energética exige conhecimentos tão estranhos à espécie humana, que deles, nenhum engenheiro terreno dispõe. Considerados todos os fatos, calculou-se com uma probabilidade de 100% que só o conhecimento aproximado da mecânica da cúpula energética exigiria três ou quatro anos de trabalho de uma equipe de pesquisas altamente qualificada. Para o domínio completo do instrumental seriam necessários outros três ou quatro anos. Conhecemos o quociente intelectual dos quatro pilotos. Nunca seriam capazes de, num trabalho conjunto, compreender a aparelhagem e, muito menos, pô-la a funcionar. Eliminados os dados irrelevantes e calculadas cuidadosamente sessenta e quatro milhões de possibilidades, chega-se com segurança absoluta ao fato de que, contrariamente às declarações de Rhodan, este encontrou na Lua seres estranhos de inteligência extraordinária. À falta de dados básicos não é possível apurar os objetivos específicos de Rhodan. Parece recomendável atacar com meios adequados a base dos seres desconhecidos, situada na Lua, ou tentar estabelecer relações diplomáticas.
Com estas palavras, terminou o relato dos fatos interpretados pelo maior computador da Terra.
Mercant levou duas horas para dar respostas às inúmeras perguntas dos presentes. Cálculos detalhados foram solicitados e fornecidos prontamente pela máquina. O computador desenvolveu uma lógica perfeita e cristalina. Finalmente, Kosselov tocou no ponto crítico.
— Não temos dúvidas de que os dados fornecidos são corretos. O computador recomenda um ataque com meios adequados. Os senhores dispõem desses meios? Não é necessário ressaltar que nossas armas nucleares não terão qualquer efeito. Não conseguimos nem romper a cúpula protetora da Stardust! O que me diz, Sr. Mercant?
Este lançou um olhar pensativo aos presentes. Não trazia nos lábios o sorriso habitual.
— Em que condições estão suas naves espaciais, Kosselov?
— Nossa nave está pronta para decolar há uma semana. Com uma tripulação de seis homens e carga útil de 92 toneladas.
O general Pounder fungou. O que acabara de ouvir era um golpe. Seis homens, mais noventa e duas toneladas! O Bloco Oriental continuava um passo à frente.
— O que nos diz, marechal Lao Lin-to?
— Podemos decolar a qualquer momento — respondeu o comandante supremo da Força Aeroespacial da Federação Asiática. — Tripulação, quatro homens; carga útil, 58 toneladas. Os defeitos que causaram a explosão de nossa primeira nave lunar foram removidos.
Mercant pigarreou antes de falar.
— Amanhã, a nave do Ocidente estará em condições de decolar. É a Stardust-II. A tripulação continua a ser de quatro homens e a carga útil é de 64 toneladas. Peço-lhes que providenciem quanto antes um encontro dos técnicos em naves espaciais. Todas as naves devem partir da Terra ao mesmo tempo. Se houver diferenças sensíveis no tempo previsto para o percurso, estas devem ser compensadas de tal forma que as três naves entrem simultaneamente na mesma órbita lunar. Será que conseguirão isso?
— Para quê? — perguntou Kosselov, asperamente. — Que tolice é essa? Quer atacar com quê? Se lá em cima existe uma base ocupada por inteligências superiores, nossos pilotos terão uma surpresa bastante desagradável. Afinal, quais são suas intenções?
Mercant respondeu em tom delicado.
— Antes de mais nada, será necessário tomar providências para que o comando das naves seja manual. Temos instruções para que lhes sejam fornecidos dados exatos sobre os instrumentos de localização que se tornam necessários. A base desconhecida só pode estar localizada numa área bem delimitada junto ao pólo sul lunar.
Mais tarde, forneceremos as coordenadas exatas. Sabemos perfeitamente em que ponto nossa nave realizou o pouso forçado. Os seres estranhos só podem estar em local próximo a este ponto, circunstância que é confirmada pela interpretação dos dados realizada pelo computador. Obtivemos dados muito mais abundantes do que se poderia imaginar. Estão dispostos a trabalhar de mãos dadas com o Ocidente?
Depois de mais duas horas este ponto foi esclarecido e fixado por escrito num protocolo especial de coalizão. Só depois disso, Mercant apresentou seu grande trunfo.
— O senhor perguntou como atacaremos. Por favor, preste atenção!
Desta vez foi um oficial do Ministério da Defesa quem ligou a tela.
Uma ilha minúscula surgiu. Ao que parecia estava deserta. O caos teve início com uma esfera de gases incandescentes. O rugido que saía pelos amplificadores não parecia desse mundo. As energias primitivas desencadeadas formavam uma coluna que subiu vertiginosamente ao céu azul. Vagas enormes, um calor terrível, uma atmosfera dilacerante.
— Trata-se de nossa experiência mais recente — declarou Mercant. — É uma bomba de fusão de cem megatons. Há três meses conseguimos aplicar o princípio da fusão nuclear a frio, já estabelecido no campo teórico. Isso significa que a nova bomba não depende de um dispositivo térmico para desencadear a fissão nuclear. A bomba catalítica funciona com base em átomos de mésio. Basta utilizar um dispositivo químico de ignição que funciona a uma temperatura de apenas 3.865 graus centígrados para que a reação nuclear tenha início. Não temos necessidade de nêutrons livres. Dentro de quinze dias, a nova bomba catalítica estará em condições de ser transportada e, portanto, utilizada. Um grupo de transporte americano fará a entrega, de acordo com o protocolo que acaba de ser firmado. Por enquanto, preferimos não utilizar a nova bomba contra Perry Rhodan. Se destruirmos sua base na Lua, ele se renderá. Mais alguma pergunta?
Muitas perguntas foram feitas. Todas elas conduziram a um fato incontestável: nunca antes as grandes potências tinham mostrado suas cartas mais secretas pela forma como o estavam fazendo naqueles dias.

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