Rhodan viu-se obrigado, a contragosto, a
chamar a atenção do cientista Crest para um engano freqüentemente cometido por
sua raça: o arquivo positrônico central do distante planeta Árcon não era tão
completo quanto os arcônidas julgavam. Acabavam de ter uma prova positiva
disso. De onde se poderia concluir que muitas das expedições feitas pelos
arcônidas a mundos afastados jamais haviam sido reveladas e registradas. Fato
que Crest costumava negar com veemência.
Provido com informações essenciais, Rhodan
levantou vôo de Vênus, mas agora com seu rumo bem traçado.
* * *
Na cabina de comando da nave esférica mal
se ouvia o ronco surdo dos propulsores trabalhando em carga máxima. Carga
máxima; isso significava a expulsão, à velocidade exata da luz, de um jato de
partículas coerentes, compactadas por um campo energético gerado em espaço
hiperestrutural.
Perry Rhodan e os arcônidas denominavam o
processo onda de corpúsculos, noção
que provocara verdadeira sensação nos meios científicos terrestres. A
tecnologia arcônida parecia estar ferozmente empenhada em invalidar as teorias
prevalentes na Terra, e em tornar realidade impossibilidades científicas. A
julgar pela última aula de Rhodan na mundialmente famosa Academia Espacial,
seria preciso esquecer a maior parte do que os homens tinham aprendido até
então caso quisessem enfronhar-se nos conhecimentos arcônidas. Ou então
reformular por completo a maneira de ver as coisas.
Pulsopropulsão e onda de corpúsculos eram
conceitos explicáveis apenas através da matemática pentadimensional.
A Good Hope acelerou na razão
aparentemente alucinante de quinhentos quilômetros por segundo, o que, em
teoria, lhe permitiria alcançar velocidade igual à da luz em dez minutos.
Também aqui se aplica o princípio
claramente estabelecido para a velocidade relativística, de acordo com a
simples relação linear de que a velocidade é igual a tempo vezes aceleração
constante.
Para o observador na Terra, no entanto,
após dez minutos de aceleração constante, a nave teria alcançado apenas uma
velocidade correspondente a 70% da luz.
Para Rhodan se tornavam aplicáveis os
conceitos mais elementares da
contração relativística proporcional do tempo. Sob o ponto de vista dos
conhecimentos humanos, as equações envolvidas eram bastante complexas; porém,
arcônidas do nível de Crest costumavam fazer os cálculos mentalmente.
O domínio de uma nave interestelar
acarreta inúmeros problemas. A despeito de sua excepcional capacidade
científica,, Rhodan e Reginald Bell se defrontariam com obstáculos insuperáveis
não fosse o hipnotreinamento recebido dos arcônidas. Rhodan pilotava com mão
firme e ânimo tranqüilo a nave, em seu vertiginoso vôo pelo sistema solar. Os
controles quase totalmente automatizados permitiam que a Good Hope fosse
controlada por uma só pessoa em caso de necessidade, desde que esta estivesse
familiarizada com a técnica arcônida.
Crest e Thora aguardavam a transição
iminente com a indiferente calma provinda do hábito. Rhodan e Bell, no entanto,
não escondiam seu nervosismo, apesar de terem sido devidamente preparados para
a experiência. E as coisas corriam bem demais!... Os cálculos necessários para
o vencimento de um trecho espacial correspondente a, vinte e sete anos-luz já
estavam sendo feitos, com Vega por objetivo final. Compilando os dados básicos
fornecidos pelos localizadores — a distância do alvo, a massa da nave e os
campos gravitacionais prevalentes — o computador galatonáutico calculou a taxa de impulsão, conceito
completamente incompreensível para pessoas comuns, e que os arcônidas
denominavam hipervelocidade de fuga
universal.
Rhodan sabia muito bem que o rompimento da
barreira da luz não podia ser nem concebido nem explicado com a matemática
terrena. Portanto viu-se obrigado a relegar ao esquecimento toda sua bagagem de
aprendizado tradicional e guiar-se apenas pelos preceitos da ciência arcônida.
Era suficiente para provocar tanto nele como em Bell profundos conflitos
emocionais. Haviam passado por todas as experiências possíveis e imagináveis, o
que não os impedia, porém de se sentir agora como o homem pré-histórico diante
de seu primeiro contato com o fogo: sabiam como usá-lo, porém ainda ignoravam
que ele podia igualmente ferir e matar.
O ruído dos quatro pulsopropulsores
sincronizados intensificou-se, lembrando trovoada roncando ao longe. Quanto
mais a Good Hope se aproximava da velocidade exata da luz, tanto mais acelerado
se tornava o trabalho das máquinas de fabricação extraterrena.
A órbita terrestre ficara para trás. A
nave afastava-se do Sol, a fim de iniciar o salto hiperespacial ainda no âmbito
do sistema solar. Quando o ponteiro do velocímetro chegou a uma fração
centesimal da marca que indicava a velocidade da luz e os sinais acústicos do
piloto automático principal clamaram por empuxo adicional, Rhodan soltou as
mãos dos controles e girou em sua poltrona.
Apenas os líderes da reduzida tripulação
se encontravam reunidos na cabina de comando. Nas numerosas telas de observação
externa cintilavam sóis remotos, muitos dos quais deviam possuir sistemas
planetários.
Um rápido toque no comutador extinguiu as
luzes piscantes no painel do hiper-controle. Thora olhou para Rhodan intrigada,
perguntando em tom inquieto:
— Por que suspendeu a aceleração, Rhodan?
O comandante ergueu-se lentamente de seu
assento. Bell ficou na expectativa. Algo estava errado.
— O excelente hipnotreinamento que recebi
me gravou firmemente na memória que não é aconselhável iniciar um hipersalto de
dentro de um sistema planetário — explicou Rhodan, pausadamente. — Vamos
prosseguir em queda livre até atingir a órbita de Júpiter, em velocidade um por
cento abaixo da luz. Prefiro não provocar indesejáveis distúrbios no campo
magnético da Terra. Querem vir comigo até a cantina?
Bell ligou os hipersensores, para detecção
imediata de qualquer corpo estranho, conectando-os com os projetores dos anteparos
de defesa. Depois seguiu Rhodan. O piloto automático inteiramente positrônico
merecia total confiança, mais do que qualquer ser humano.
John Marshall, o mutante dotado de qualidades
telepáticas, sondou de longe os dois arcônidas. Não conseguindo penetrar nas
mentes bloqueadas, virou-se para pedir auxilio à menina magra, de olhos
imensos.
Betty Toufry brindou-o com um ligeiro
sorriso que, no entanto, não tinha nada de infantil. Com um movimento de
ombros, deu a entender que também ela não conseguia captar o conteúdo mental
dos extraterrenos, apesar de seus dons serem mais fortes do que os de Marshall.
Tako Kakuta, o diminuto japonês que ainda
há pouco estivera de pé ao lado de Bell, desapareceu de repente. O jovem com o
espantoso dom da teleportação preferira mais uma vez o caminho mais curto. Era
parte de sua constante prática e treinamento.
Além de Marshall, Betty e do franzino
japonês, encontravam-se a bordo duas pessoas que Bell antes da decolagem
conhecia apenas de nome. Rhodan mandara dois caças espaciais ultra-rápidos ir
buscá-los em Vênus, onde ambos concluíam seu curso de especialização.
Dizia-se que Wuriu Sengu, o japonês gordo
e troncudo, era capaz de enxergar através de corpos sólidos usando
exclusivamente sua força mental. Mineiro de profissão, sempre maravilhara seus
companheiros com sua infalível precogniçâo da produtividade de tal ou qual nova
galeria de carvão aberta. O Corpo de Busca de Mutantes da Terceira Potência
fora descobrir Sengu no Japão.
Ralf Marten, nascido igualmente no Japão,
filho de um comerciante alemão e mãe nativa, possuía dotes ainda mais
espantosos. Também ele pertencia à geração vinda ao mundo pouco após a explosão
atômica sobre Hiroshima. O alto e esbelto jovem era capaz de abolir
temporariamente a própria identidade, assumindo parapsicologicamente a de outra
pessoa. Via por seus olhos e ouvia por seus ouvidos, sem que a vítima
encontrasse meio de eximir-se dessa invasão. Capacidade que poderia explicar o
extraordinário êxito de Ralf Marten no mundo dos negócios.
Tako Kakuta, cuja mera presença provocava
acessos de irritabilidade em Reginald Bell, possuía o dom da teleportação. Sem
qualquer artifício, transportava seu corpo para outro local em questão de
segundos.
Betty, a menina, era duplamente
excepcional. Além de seus poderosos dons telepáticos, era capaz de executar a telecinésia:
usar seu poder mental para mover objetos sem tocá-los com as mãos.
Estranhos tripulantes aqueles cinco
mutantes! Para os arcônidas, cuja cultura mais adiantada admitia tais
fenômenos, o grupo ainda era considerado tolerável. Mas os tripulantes humanos
comuns consideravam-nos verdadeiras monstruosidades. Claro que jamais alguém
expressava esta opinião em voz alta, evitavam até pensar nisso, porém era a
maneira de ver que predominava entre os demais membros da tripulação.
Na espaçosa cantina da ex-nave auxiliar do
cruzador arcônida, adaptada às necessidades humanas, formou-se uma nítida
barreira de separação entre os mutantes e os cinqüenta homens da tropa de
choque destacada para a missão. Apenas olhares carregados de respeito,
admiração incontida, desconfiança e curiosidade voavam de um lado para outro. O
Exército de Mutantes, unidade especial da Terceira Potência, constituía
poderoso fator de segurança. Era compreensível que os cinqüenta integrantes da
tropa de choque se sentissem inferiorizados, a despeito de sua formação
categorizada.
Rhodan tinha plena consciência de não
poder harmonizar em uma só geração o cisma profundo entre pessoas normais e
mutantes. Portanto contentava-se em obter um convívio razoavelmente tolerável
entre os dois grupos.
Reinava na cantina um clima feito de
extrema tensão, excitamento e conformada resignação. Esta provinha
principalmente de Reginald Bell, que via suas enérgicas objeções à expedição
interestelar serem completamente ignoradas.
Rhodan foi breve. O impaciente olhar para
o relógio denotou que não estava disposto a perder tempo com argumentos
prolixos.
— Assim que chegarmos à órbita de Júpiter,
partimos para o primeiro salto hiperespacial jamais realizado por homens! —
anunciou, calmamente. No entanto, seu nervosismo íntimo era aparente. —
Peço-lhes encarecidamente que obedeçam à risca às instruções dadas. Os doutores
Haggard e Manoli se encarregarão da assistência médica assim que emergirmos no
hiperespaço. A ocorrência de danos físicos é pouco provável; a mente também não
será afetada. Se o processo fosse perigoso, a raça arcônida teria sido extinta
dez mil anos atrás. Mantenham o maior relaxamento possível durante a transição.
A desmaterialização é inevitável durante o fenômeno de passagem para o
hiperespaço pentadimensional. Nossos organismos sofrerão uma passageira solução
de continuidade, pois não podem subsistir no estado presente num plano
supernatural. Mas podem estar certos de que, por ocasião do regresso à dimensão
quadridimensional de nosso mundo normal, cada qual encontrará novamente seu
apêndice no lugar exato determinado pela mãe-natureza. Mais uma observação...
Rhodan percorreu a atenta audiência com um
olhar imperscrutável.
— O cérebro-robô de Vênus forneceu-me
dados exatos sobre o sol Vega. De acordo com ele, a estrela contava há dez mil
anos, tempo terrestre, com quarenta e dois planetas. Fato nada surpreendente,
em vista de suas dimensões gigantescas. Uma expedição arcônida andou explorando
a área na época mencionada, colhendo informações detalhadas. Vida inteligente
só foi constatada no oitavo planeta, denominado Ferrol. Consta que os ferrônios
têm aparência humana; pelo menos possuem dois braços, duas pernas, uma só
cabeça e andam eretos. Quando os arcônidas visitaram Ferrol, os nativos
acabavam de descobrir a pólvora. O que nos permite deduzir que atualmente, dez
mil anos após, possuam armas nucleares, ou estejam capacitados para viagens
interestelares. Podemos deparar com uma raça altamente desenvolvida; ou com um
monte de detrito planetário, girando deserto e solitário em torno de seu sol,
inteiramente arrasado pela radioatividade. Seja como for, estejam preparados
para surpresas e mantenham a calma. Recomendo uma hora de sono para quem
conseguir adormecer. Seria ótimo passar pela transição em estado de sonolência.
Rhodan despediu-se com uma breve saudação
e voltou à cabina de comando. O capitão Klein dispensou os homens. O major
Deringhouse, responsável pelos dois caças arcônido-terrestres trazidos a bordo,
decidiu ir inspecionar seus aparelhos.
Ao acionar a porta blindada que dava
acesso ao hangar dos aviões, ele murmurou consigo mesmo:
— Sei lá, a coisa não me cheira bem!
Bell alimentava dúvidas semelhantes.
Dispensando o elevador antigravitacional,
subiu resfolegando pela escada espiral de emergência.
Entrando na central de comando repleta de
instrumentos que ainda lhe aturdiam os pensamentos, Bell percebeu um ligeiro clarão
à sua frente. Do nada emergiu um vulto
humano que, em fração de segundos, se materializou na frágil e inequívoca
silhueta do japonês Kakuta. A face infantil e compenetrada mostrava um amável
sorriso:
— Esqueceu seu quepe, capitão! — disse
ele. — Aqui está!
Contando mentalmente até três, Bell
desferiu um soco na direção do risonho jovem. Mas como este voltara a tornar-se
invisível, não havia o que acertar e o golpe se perdeu no ar.
Bell encaminhou-se para o assento do
co-piloto. Rhodan recebeu-o com expressão impassível; mas as minúsculas rugas
nos cantos dos olhos revelavam vontade de rir.
— Os mutantes têm ordem para treinar seus
excepcionais poderes sempre e onde puderem! — comentou, ironicamente.
Bell fixou o olhar sobre as telas fronteiras,
sem dar resposta. Marte, o planeta vermelho, aparecia no quadrante direito
superior da tela de estibordo. A Good Hope cruzava em velocidade máxima.
Thora, a esguia arcônida, ocupava o
assento diante do computador galatonáutico. Sua expressão era enigmática.
— Como se sente? — indagou Rhodan.
— Ótima, obrigada! Perry, você se parece
com um campo energético instável, pronto a entrar em colapso a qualquer
momento.
Sem responder, Rhodan mantinha o olhar
fixo para a frente. Em algum lugar das profundezas do espaço devia estar o
ponto cujas coordenadas estavam sendo levantadas pelo computador. Era essencial
que o hipersalto se processasse exatamente na fração de segundo determinada.
Thora lançou um olhar suplicante para
Crest. Não sabia por que se sentia de repente tão deprimida.
A transição se processou com a rapidez de
um relâmpago. Fugaz demais para ser percebida pela consciência. Mal ressoou nos
ouvidos o reboar estrondoso dos conversores do campo estrutural, acionados
espontaneamente, as telas refletiram luz violeta e tudo se transformou de
repente.
A cabina de comando parecia o olho
incandescente de um gigante mitológico; o aparelhamento foi se dissolvendo em
névoa e desapareceu.
A incipiente sensação de dor era aguda e
lancinante. Cessou ao atingir o auge, como se o sistema nervoso tivesse se
desligado espontaneamente.
Dentro do campo estrutural erigido com
toda a energia disponível, a fim de excluir por completo a entrada de qualquer
força quadridimensional, a Good Hope transformou-se num corpo incapaz de
continuar mantendo sua estabilidade. A física avançada dos arcônidas dava ao
fenômeno o nome de efeito de
sublimação. Ao mesmo tempo, as ondas corpusculares que acionavam os
pulsopropulsores convertiam-se em unidades energéticas pentadimensionais, uma
vez que também não conseguiam conservar as características normais dentro do
campo de absorção esférico. Portavam-se como água diante de uma fonte térmica
intensa: era forçada a vaporizar-se, por não poder continuar em estado líquido
no ambiente modificado.
Rhodan tentara passar pela transição em
estado consciente. Porém não havia evidentemente diferença entre cérebros
arcônidas e humanos neste particular. Seu último pensamento, antes de penetrar
no hiperespaço, foi para a futura rematerialização. Afinal, transformar matéria
em energia era simples; porém nunca se conseguira obter substância física de
energia pura, fosse qual fosse seu estado ou constituição.
Todavia, no caso de uma transição, o
efeito ocorria forçosamente, só que a rematerialização consistia apenas na
reversão exata ao estado de origem.
O processo todo durou pouquíssimo. O
anterior conceito relativista de tempo perdera toda a validade. Anos podiam
valer por segundos, e vice-versa. A sombria cor vermelha ainda predominava no
ambiente quando a dor excruciante voltou, aliada a aguda sensação de
desintegração. Mas os contornos dos objetos eram novamente visíveis na cabina
de comando.
O regresso ao universo normal foi
espontâneo, sem qualquer estágio intermediário. A visão clareou, os sentidos
retomaram o funcionamento normal, como se nunca o tivessem interrompido.
Apenas as imagens captadas pelas telas
eram radicalmente diferentes. Nos vídeos frontais brilhava de forma
deslumbrante uma imensa estrela, que, de forma alguma, poderia ser confundida
com o sol terrestre. Era grande e quente demais para isso, além de irradiar luz
mais clara.
Perry Rhodan foi arrancado do estado
semiconsciente pelo zumbido do sistema de alarma. Um gemido de dor acabou de
acordá-lo. Ao seu lado, uma voz preocupada dizia:
— Parada dura, não é chefe? Tudo em ordem
agora?
Rhodan viu-se diante de Tako Kakuta. O
mutante capaz de teleportação achava-se de pé diante do painel de controle
aparentando total indiferença.
— Senão...! — suspirou o comandante. —
Como é que você?...
— Ora, estou mais do que familiarizado com
o processo. Rematerializações são sempre iguais, quer sejam provocadas por
forças físicas ou psíquicas. Com o tempo a gente se acostuma, pode crer. O
alarma, comandante! Os localizadores detectaram algo.
Rhodan não se preocupou com as irritadas
exclamações de seu co-piloto, que levantava cambaleante do assento. Com a face
contraída de dor, Bell apalpou os membros, um por um. Mas o sinal de alarma
seguinte fez com que ele ficasse instantaneamente alerta. Também Crest e Thora
davam sinais de vida. Das várias seções da nave chegavam comunicados dizendo
que estava tudo bem. Haggard e Manoli confirmaram o bom estado da tripulação.
O alarma fora ativado pelos sensores
estruturais da própria nave; tinham detectado violentas deformações na
estrutura do espaço. Os sinais continuaram a manifestar-se por alguns momentos;
depois foram rareando, até que a última lâmpada se extinguiu.
Rhodan fitou os companheiros em silêncio.
Estavam todos presentes e, ao que parecia, sem ter sofrido o menor dano. A
atitude de Thora denotava tal superioridade e condescendência que Rhodan não
ousou expressar a pergunta que lhe queimava os lábios.
Bell, no entanto, não se dominava tão bem.
Vacilando, e com a vista turva, aproximou-se das telas, indagando:
— Chegamos inteiros? Isso ai é Vega?
Soberbamente, a arcônida respondeu:
— Que acha? As hipertransições de nossas
naves sempre se processam com absoluto êxito!
— Saltamos por cima de vinte e sete
anos-luz? — Bell engoliu em seco, praguejando baixinho. Sem mais comentários,
voltou à sua poltrona, e pôs-se a recolher as informações que iam sendo
fornecidas, numa fita, pelo painel de controle. Sim, tudo corria muito bem. Um
acontecimento inédito e espetacular para a tripulação humana decorrera com a precisão
de um mecanismo de relógio bem ajustado. E ninguém parecia impressionar-se com
isso, muito menos os arcônidas.
Crest postara-se, fremente, diante dos
calculadores dos sensores estruturais. O resultado dos cálculos, inteiramente
automáticos, indicava a aproximação do primeiro planeta. O fato era confirmado
pelos hipervelozes localizadores; seus impulsos se projetavam na dianteira da
Good Hope, sendo refletidos com a mesma incalculável rapidez.
Nas telas começaram a brilhar inúmeros
pontinhos verdes. Eram eles que despertavam o ardoroso interesse do cientista
arcônida.
— Nossas naves! — murmurou Crest,
comovido. — E uma frota inteira! Veja as indicações dos sensores estruturais,
Rhodan: mais de cinqüenta delas emergiram quase simultaneamente do hiperespaço.
— Quando, exatamente? — indagou Rhodan,
com fria impassibilidade.
— Bem ao mesmo tempo que nós.
— Ótimo! — exclamou Rhodan. — Portanto não
devem ter detectado o abalo estrutural que provocamos com nossa aparição.
Coincidência benéfica, não?
— Seria conveniente proceder a um
reconhecimento mútuo — interveio Thora, excitada. — Não sinto disposição para
prolongar as buscas. Mande calcular o curso para o oitavo planeta, por favor.
Garanto que daremos com nossas naves de pesquisa lá.
— É, talvez tenha razão, Thora... —
respondeu Rhodan com voz pausada.
Depois levantou a voz, ordenando
energicamente:
— Bell, todos em prontidão de combate! Dê
alarma geral. Thora, encarrregue-se dos localizadores. Bell, você fica com o
comando do centro de armamento!
Bell não fez comentários. O brilho dos
olhos de aço do chefe lhe dizia o suficiente.
As campainhas de alarma se fizeram ouvir
em todas as dependências da nave. Entreolhando-se alarmados, os homens fizeram
seus preparativos.
Deringhouse anunciou pelo intercom que os
dois caças estavam prontos para a manobra de ataque.
— Você enlouqueceu? — gritou Thora, com os
olhos vermelhos flamejando de ira. Ereta, diante do homem alto e magro, tremia
de ódio.
— Talvez sim, talvez não... — replicou
Rhodan com a maior tranqüilidade. — Mas não sou louco bastante para me
precipitar ébrio de alegria num sistema planetário desconhecido. Já lhes disse
mais de uma vez que não creio na existência de naves arcônidas. Queira ocupar
sua posição de combate, por obséquio.
Furiosa, Thora obedeceu, sob o olhar
indiferente de Rhodan.
— Capitão Klein! Cuide da orientação... —
ordenou Rhodan, tranqüilo. — Wuriu Sengu, mantenha-se atento. Atravessaremos o
sistema Vega em cerca de oito horas. São quarenta e dois planetas, com
distâncias fabulosas entre um e outro. Obrigado, é tudo!
Ao retomar seu lugar de piloto, os
reatores do circuito externo começaram a funcionar ruidosamente. Em torno do
revestimento da nave foi-se formando, após breves lampejos luminosos, o
anteparo protetor de unidades energéticas extradimensionais. Seguiu-se o campo
repulsor de corpos materialmente estáveis. Com isso, a Good Hope munira-se dos
recursos defensivos mais avançados da tecnologia arcônida.
Os pontinhos verdes continuavam a luzir
nas telas dos sensores. Distantes ainda, a mais de três horas-luz, que a Good
Hope percorreria com sua velocidade normal.
— Exijo uma transição de curta distância!
— gritou Thora.
Rhodan não lhe respondeu. Thora calou-se,
porém era evidente que não se conformava. Ao fundo da cabina, os cinco mutantes
formavam um grupo unido e quieto. Betty Toufry e John Marshall captavam
sensações e pensamentos que nenhum mortal comum perceberia.
Momentos após, a menina murmurou,
baixinho:
— Ouço almas chorando! Tem gente morrendo.
Muitos mortos. O espaço está repleto de lamentos e soluços. Desespero, dor,
morte!
Os olhos profundos estavam dilatados,
vastos como o espaço cósmico. Bell fitou-a, impressionado. Nas telas dos
detectores da nave interestelar os pontos verdes se multiplicavam. Rhodan
ordenou alarma total, o sistema positrônico de mira entrou em funcionamento. No
vídeo, Vega brilhava como o olho ciclópico de um deus ameaçador.
Lá adiante, nas profundezas do sistema
planetário da grande estrela, sucedia algo ainda não de todo compreensível...
* * *
O grito ecoou surdamente na cabina de
comando. Ninguém havia contado com o que estava acontecendo e os fatos tinham
chegado de surpresa, precipitando-se sobre eles como uma ágil fera dando o
bote.
A gigantesca Vega, principal estrela da
constelação da Lira, refletia-se nos vídeos como uma imensa bolha de sabão
iridescente. Um sol de proporções verdadeiramente avantajadas.
Com isso, a tripulação tardou a discernir
os longínquos raios luminosos, finos como fios de cabelo, e o relampejar
contínuo de minúsculas explosões. Apenas as telas amplificadoras, com sua
magnitude de foco, acabaram revelando a ocorrência de um tremendo conflito nas
imediações da órbita do décimo quarto planeta.
Cinco minutos após a detecção positiva, os
hipervelozes sensores de localização se fizeram ouvir. Seu estridente clamor
ainda prosseguia. O equipamento altamente sensível, que reagia à presença de
descargas energéticas, não fora instalado em vão. Mas era tarde demais, pois a
Good Hope seguia com a mesma velocidade, quase igual à da luz. Portanto seria
impossível desviar das naves surgidas de maneira tão inesperada, ou esquivar-se
de passar através de suas confusas trajetórias.
Os propulsores gêmeos de estibordo rugiram
numa furiosa exibição de força. Um desvio mínimo de rumo bastaria, naquela
velocidade alucinante, para arrancar a Good Hope da área imediata de perigo.
Mas os amortecedores de inércia protestaram guinchando, obrigados a dissipar a
energia que Rhodan canalizara, momentos atrás, para os projetores dos anteparos
de defesa.
A seta luminosa que se lançava contra a
Good Hope não podia estar se movendo com a velocidade da luz. Pois se
estivesse, os videoscópios só captariam sua imagem no momento do impacto. Porém
ela vinha com rapidez suficiente para arrancar exclamações de susto dos homens
na cabina de controle. Conheciam o cintilante fenômeno; por trás de seu aspecto
inofensivo se escondia a morte.
Rhodan acionou novamente o reostato dos
propulsores de estibordo. Porém era impossível forçar uma mudança de rumo
acentuado naquela altura. Também a técnica arcônida tinha as suas limitações e
continuava aceitando o princípio de que um corpo voando à velocidade da luz não
pode ser detido em instantes. E as manobras de esquivamento não podiam ser
executadas abruptamente, nem em ângulo reto. O máximo que se podia conseguir
era uma deflexão curva, com um arco de pelo menos dois milhões de quilômetros.
Afinal, massa em movimento era massa em movimento e nada podia ser feito a
respeito.
No entanto, a manobra forçada, que
submetia o material da nave a uma rigorosa prova de resistência, bastou para
arrancar a esfera da zona perigosa no momento crucial. A seta luminosa, formada
por um fogo energético concentrado de
alta intensidade, passou a um escasso quilômetro da nave desviada, perdendo-se
no vazio do espaço interplanetário.
— Bela recepção! — reclamou Rhodan,
furioso.
Muito pálida, Thora encarou o comandante,
cujos traços se contraíam de preocupação. A seguir, aconteceu o que era
inevitável diante daquele aglomerado de naves.
Os pontinhos anteriormente avistados
apareciam agora nos videoscópios como corpos volumosos, agrupados no espaço em
fileiras densas e traçando na escuridão profunda do cosmo uma filigrana multicolorida.
A exclamação de angústia viera de Crest.
Com os olhos fixos nas telas, fitava estarrecido as naves que apareciam
nitidamente. Eram de dois tipos diversos. Klein focalizava justamente uma delas
no localizador de curta distância. Tratava-se de uma das unidades ovóides,
presentes na área conflagrada em nítida superioridade numérica. O propulsor
traseiro desta nave expulsava jatos de luz extremamente intensa, cujo brilho
ofuscante feria os olhos.
Porém a quantidade delas não impedia que
fossem rapidamente dizimadas pelas naves adversárias. O espaço interplanetário
de Vega enchia-se de catastróficas explosões nucleares, sob o efeito das quais
as naves ovóides se desintegravam em número crescente. Pareciam completamente
indefesas, o que se poderia atribuir em primeiro lugar à volumosidade
excessiva.
Os computadores já haviam revelado a
Rhodan que as naves desconhecidas possuíam reduzida taxa de aceleração. Com
isso, suas manobras eram penosamente lentas. E iam-se transformando em bombas,
uma a uma, sob o impacto das setas luminosas.
— Elas não têm anteparos protetores! —
gritou Klein, excitado. — Nem sistema detector de energia, chefe! Não passam de
tartarugas, não têm chance alguma!
Rhodan atentava para suas ousadas manobras
de esquivamento. Caso a Good Hope prosseguisse no rumo atual, mergulharia
inevitavelmente no grosso da confusão.
Crest deixou escapar nova exclamação.
No vídeo mais amplo da popa surgiu outro
tipo de nave. Em contraste com as rotundas e pesadas formas antes avistadas,
estas apresentavam o aspecto de um longo e delgado cilindro. No meio deste
destacava-se um forte abaulamento central. Como se alguém tivesse atravessado
uma castanha com um lápis, deixando-a espetada exatamente no meio.
— Depressa! Aumente a deflexão! — gritou
Crest, fora de si. Sua habitual compostura desaparecera agora. Naquele
instante, o sábio arcônida não era mais do que um trêmulo feixe de nervos.
A resposta de Rhodan era dispensável. Com
os propulsores soltando fogo, a Good Hope procurava evitar o centro da batalha,
porém continuava sendo alvejada. Havia uma quantidade excessiva das misteriosas
e desconhecidas naves espalhadas num extenso setor espacial de Vega. Mais uma
vez perceberam, no último instante, a seta luminosa, quase tão rápida como a
luz. O sistema de detecção positrônico entrou em ação automaticamente, porém os
propulsores recusavam fornecer empuxo mais poderoso. Já estavam funcionando com
carga máxima.
A seta atingiu a Good Hope em cheio. E ela
saltou fora de seu curso, rodopiando, como uma bola chutada com violência. No
amplo videoscópio externo brilhou uma descarga luminosa de fulgor ofuscante; um
tremendo estouro acompanhou o fenômeno luminoso. O corpo da nave, feito de aço arcônida,
pôs-se a reverberar como um sino, em conseqüência das vibrações resultantes do
impacto.
O imaterial dedo de fogo continuou sua
trajetória pelo espaço. Lá longe, uma das naves cilíndricas se afastava
velozmente. Fora de sua cúpula armada que partira o tiro.
Os tripulantes da cabina de comando viram
Rhodan rir. Não podiam ouvir a risada, pois o eco trovejante produzido pelo
tiro quase fatal ainda reboava pelo recinto.
Crest continuava de pé diante das telas. A
área conflagrada foi ficando para trás. As naves espaciais, fielmente
retratadas há pouco, voltaram a assumir a forma de pontinhos luminosos. Em
troca, a relativamente pequena nave esférica dos arcônidas deixou de ser
alvejada.
Muito atrás da Good Hope, as naves ovóides
continuavam a explodir. Seu número se reduzia mais e mais, principalmente
porque novas formações inimigas acabavam de emergir do hiperespaço.
A última situação crítica surgiu quando atravessaram
com velocidade alucinante uma massa de gás incandescente. Segundos antes, uma
das naves ovóides explodira no local, atingida pelo inimigo. Os anteparos
protetores externos uivaram novamente seu protesto, mas a Good Hope conseguiu
passar incólume. À frente dela brilhava o décimo quarto planeta de um sistema
solar nunca imaginado. Parecia tratar-se de uma imensa esfera gasosa,
semelhante a Júpiter. Rhodan desligou os propulsores de estibordo; a cessação
do barulhento ronco do motor foi bem-vinda e a nave dirigiu-se em queda livre
para o ainda distante planeta.
— Grandes recursos é que eles não possuem!
— comentou Reginald Bell, com a irritante calma de um homem que nada consegue
abalar. — Será que consideram aquela beliscadinha arma energética? Quem tem
comentários a fazer?
Bell olhou de esguelha para Rhodan, que se
levantava do lugar do piloto. Vagarosamente, aproximou-se dos dois arcônidas.
Crest esboçou um gesto de recuo diante do sorriso semidisfarçado do comandante.
Mas logo Rhodan reassumiu o ar severo do inflexível piloto de provas que não
admitia situações ambíguas.
— Estava querendo dizer qualquer coisa
antes de sermos atingidos — disse Rhodan. — O que era?
O aspecto de Crest era lamentável. Pálido
e desfeito, afundara numa poltrona.
— Eu estava enganado! — murmurou o grande
cientista, com voz embargada. — Cometi realmente um erro! Perdoe-me!
— Um erro? Ora, isso não é novidade que
abale o mundo. O que ia dizer no momento do ataque?
Os olhos vermelhos de Crest suplicavam:
sua perturbação era evidente.
— Aquelas naves cilíndricas, com o bojo
central... eu as conheço! Qualquer arcônida as conhece. Não pode haver dúvida.
Só uma raça em toda a galáxia emprega esse sistema extraordinariamente incomum
de aeronaves.
— E de onde vêm eles?
Crest vacilou. O Dr. Haggard conduziu-o de
volta à sua poltrona. Dali, o sábio arcônida explicou, abalado:
— Não é Árcon, é claro. A raça dos
tópsidas provém de um tronco reptílico. São altamente inteligentes, ativos e
cruéis. Não têm nada de humanos! Dominam três pequenos sistemas solares. Seu
mundo principal é Topsid. Em relação à Terra, o sistema fica a cerca de
oitocentos e quinze anos-luz, no setor de Órion. O planeta Topsid gravita em
torno de Orion-Delta, a estrela dupla. Uma tem luz branca; a da outra é roxa. Não
posso imaginar o que é que os tópsidas procuram aqui. Foi a primeira raça
colonial que se sublevou contra o poder do Grande Império. Há uns mil anos, em
tempo terrestre, enviamos algumas expedições punitivas contra eles.
Rhodan deu uma curta risada.
— Há mil anos! — repetiu, suspirando. —
Ora, meu caro! E ainda queria me convencer de que seu povo conseguiu reunir
energia suficiente para organizar uma poderosa expedição de pesquisa! Aliás, eu
posso revelar-lhe o que esses sujeitos procuravam.
— Nós? — indagou o capitão Klein,
inquieto.
— Exatamente! E nós, patetas, lhes fizemos
o favor de nos colocar diretamente na mira de seus canhões energéticos! Estamos
às voltas com uma poderosa nação galáctica e a Terra tem desesperadamente pouco
com que se opor a ela. Não adianta aborrecer-se, Thora! Seu famoso Grande
Império encontra-se em derrocada. É tempo dos arcônidas tomarem conhecimento do
que se passa na periferia da galáxia. Ainda julga conveniente chamar alguma
daquelas naves pelo rádio? É evidente que os tópsidas conhecem navegação
interestelar. Talvez lhe ofereçam uma carona para Árcon, caso se disponham a
reconhecer sua posição de descendente dos soberanos arcônidas.
As palavras eram ofensivas. A única reação
dos dois arcônidas foi a de abaixar as cabeças. Rhodan afastou-se, mas foi
detido pela pergunta de Crest:
— Mas a quem pertencem aquelas naves
pesadonas? Viu com que facilidade se deixavam aniquilar?
— Claro! Não passavam de um rebanho de
mansas e tranqüilas ovelhas diante dos ferozes agressores. Representavam
exatamente o papel que nos tocaria, em escala mais ampla, caso os tópsidas
resolvessem invadir o sistema solar. Bell, quer fazer o favor de tirar os dedos
dos controles das armas? Se um só de nós perder a cabeça agora, teremos aquele
bando de lagartixas pululando sobre a Terra amanhã. Não descobriram, por
enquanto, seu pequeno engano; e não darão por ele enquanto os nativos de Vega
continuarem a reagir de maneira semelhante à que faríamos nós próprios. Mas os
coitados só podem se defender, serão inexoravelmente vencidos. Deve se tratar
dos seres inteligentes que habitam Ferrol, o planeta de Vega descoberto há dez
mil anos por uma viagem de exploração arcônida. Os seres, então primitivos,
evoluíram para espaçonautas capazes. E estão sendo forçados a engolir o angu
preparado para nós.
Rhodan calou-se. A Good Hope disparava
pelo espaço sem ser molestada. O campo de batalha tinha ficado longe.
— E agora? — indagou Reginald Bell. —
Sumimos do cenário? E, em caso afirmativo, como?
Rhodan sentou-se pensativo em sua poltrona
de comando.
— Sim, no interesse da Terra, temos que
desaparecer; porém, discretamente. Vamos atravessar o sistema de Vega em
velocidade ligeiramente inferior à da luz. Depois teremos que arriscar um
hipersalto espacial. Tudo indica que a distorção estrutural não será percebida
no meio do caos reinante. Tem alguma coisa a dizer, Crest?
O arcônida sacudiu negativamente a cabeça.
Rhodan deu início à programação. Novamente os propulsores de estibordo da Good
Hope entraram em ação, rugindo. A manobra de retorno consumiria um considerável
espaço de tempo, pois Rhodan não pensava em desacelerar até zero, para depois
rumar em sentido oposto.
As ordens se sucederam, breves e concisas.
No pólo superior da nave esférica, o major Deringhouse saiu, resmungando, da
carlinga de seu caça. Havia contado o tempo todo com uma emocionante expedição
punitiva.
Três minutos após, os sensores indicaram a
proximidade de objetos à frente da nave. Destroços juncavam o trajeto a ser
percorrido. Era evidente que, recentemente, houvera violenta batalha nas
proximidades do décimo quarto planeta.
— Interessante! — comentou Bell. — Será
que há sobreviventes? Suponho que esses tais de ferrônios conhecem trajes
espaciais... Bem que poderíamos tentar conversar com um deles.
Rhodan levou alguns momentos para
responder, absorvido por um pequeno ajuste nos controles. Todos os quatro
propulsores da Good Hope começaram a rugir; desta vez, porém, com os jatos em
reversão.
Crest estremeceu. Mal aquele homem esguio
tinha acabado de declarar que precisavam afastar-se do sistema Vega o mais
depressa possível, ele recorria a toda a potência da nave para uma manobra de frenagem.
Rhodan era imprevisível, uma pessoa fenomenal. Ocorreu a Crest que em todo o
Grande Império não existia mais ninguém capaz de tomar decisões com tanta
rapidez.
— Armamento em prontidão! — ordenou
Rhodan, em voz rouca. — Sabe que a idéia não é má, Bell?
— Parece que é bem fácil fazê-lo mudar de
opinião, não é, Perry? — disse Thora, ironicamente. — É só dar um palpite e
você faz exatamente o contrário do que pretendia antes.
Raramente se via Rhodan sorrir tão
zombeteiro. A face de Thora tingiu-se de rubro sob o olhar do comandante.
— Há um ligeiro engano — corrigiu ele,
mansamente. — Não foi a sugestão de Bell que me fez mudar de idéia e sim as
informações mais recentes dos computadores positrônicos. Olhe para estes
diagramas! Os compridos canudos dos tópsidas não podem comparar-se com a Good
Hope em matéria de aceleração. Antes que consigam atingir a velocidade da luz, temos
dez oportunidades de sumir no hiperespaço. As naves ovóides dos ferrônios são
ainda mais vagarosas. O cérebro do computador determinou a natureza da
propulsão que empregam: geradores de fótons ultraconcentrados. Não se pode
esperar nenhum rendimento espetacular de propulsores desta espécie. Portanto,
vamos examinar de perto o que flutua aí na nossa frente, no vácuo.
— Destroços sem conta! — murmurou o Dr.
Manoli. — Olhe! Os localizadores respondem de todas as direções. Deve haver, de
fato, sobreviventes.
Betty Toufry olhou para Rhodan com um
sorriso tímido. Conseguira ler parte de seus pensamentos. Rhodan fizera a Good
Hope parar não porque a sabia superior às naves inimigas. Pensava também nos
seres vivos talvez existentes naquela área vizinha do décimo quarto planeta,
perdidos e abandonados no vazio.
A taxa de desaceleração era agora de
quinhentos quilômetros por segundo. No hangar dos pequenos caças de bordo, o
major Deringhouse tornava a espremer a elevada estatura na apertada carlinga pressurizada.
Os homens da tropa de choque fecharam a cúpula transparente sobre sua cabeça.
A manobra não fora nada fácil, visto que
tinha que ser executada sob a intensa atração gravitacional de um planeta
gigante. O número quatorze devia ter três vezes o diâmetro de Júpiter. O
próprio Crest demonstrou surpresa diante das dimensões enormes daquele mundo.
Os destroços do que haviam sido naves
espaciais já iniciavam a lenta e inevitável descida para a superfície do
planeta, atraídos pela gravidade, antes que Rhodan conseguisse posicionar a
Good Hope em rumo e velocidade adequados para a operação de salvamento. Buscas
prolongadas no vazio resultaram no resgate de um sobrevivente. Um, apenas...
Após trazer a criatura para bordo com os
jatos de sucção, através da escotilha estanque, verificaram que se encontrava semimorta
por asfixia. Além disso, o corpo do estranho estava coberto de queimaduras,
causadas evidentemente pela radiação ultravioleta da imensa Vega.
O pobre ser se mantivera trêmulo e
intimidado num canto, até que as atenções dos doutores Haggard e Manoli lhe
provaram que ninguém atentaria contra a sua vida.
Tratava-se, efetivamente, de um ferrônio.
Descendente dos que uma expedição de pesquisa arcônida localizara há dez mil
anos. Já haviam ultrapassado a idade da pólvora, evidentemente. Porém Rhodan
achou que a raça poderia ter avançado mais naqueles dez mil anos. A humanidade
havia precisado de apenas quinhentos para chegar da arma de fogo ao primeiro
foguete-satélite. Aplicando padrão semelhante, os ferrônios deveriam conhecer
há séculos as viagens interestelares.
Mas seus sistemas de propulsão tinham se
detido no ponto máximo permitido pelos princípios adotados. Uma evolução maior
requereria conceitos inteiramente diversos.
Donde era possível deduzir que os ferrônios
eram incapazes, por natureza, de raciocinar em termos de quinta dimensão;
portanto, criar um sistema matemático correspondente não cabia em sua
capacidade mental. E sem essa matemática em nível superior, condicionada pelo
poder do raciocínio abstrato, as viagens mais rápidas do que a luz eram
irrealizáveis. Em conseqüência, os ferrônios continuavam a fazer uso de seus
propulsores quânticos, extraordinariamente eficientes, e que lhes permitiam
alcançar facilmente a velocidade da luz.
Por outro lado, tinham desenvolvido uma
tecnologia fabulosamente exata no campo da micromecânica. Rhodan emitiu
assobios de admiração ao examinar superficialmente alguns pedaços dos destroços
trazidos para bordo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário