domingo, 14 de outubro de 2012

P-010 - Batalha no Setor Vega - K. H. Scheer [parte 2]


Rhodan viu-se obrigado, a contragosto, a chamar a atenção do cientista Crest para um engano freqüentemente cometido por sua raça: o arquivo positrônico central do distante planeta Árcon não era tão completo quanto os arcônidas julgavam. Acabavam de ter uma prova positiva disso. De onde se poderia concluir que muitas das expedições feitas pelos arcônidas a mundos afastados jamais haviam sido reveladas e registradas. Fato que Crest costumava negar com veemência.
Provido com informações essenciais, Rhodan levantou vôo de Vênus, mas agora com seu rumo bem traçado.

* * *

Na cabina de comando da nave esférica mal se ouvia o ronco surdo dos propulsores trabalhando em carga máxima. Carga máxima; isso significava a expulsão, à velocidade exata da luz, de um jato de partículas coerentes, compactadas por um campo energético gerado em espaço hiperestrutural.
Perry Rhodan e os arcônidas denominavam o processo onda de corpúsculos, noção que provocara verdadeira sensação nos meios científicos terrestres. A tecnologia arcônida parecia estar ferozmente empenhada em invalidar as teorias prevalentes na Terra, e em tornar realidade impossibilidades científicas. A julgar pela última aula de Rhodan na mundialmente famosa Academia Espacial, seria preciso esquecer a maior parte do que os homens tinham aprendido até então caso quisessem enfronhar-se nos conhecimentos arcônidas. Ou então reformular por completo a maneira de ver as coisas.
Pulsopropulsão e onda de corpúsculos eram conceitos explicáveis apenas através da matemática pentadimensional.
A Good Hope acelerou na razão aparentemente alucinante de quinhentos quilômetros por segundo, o que, em teoria, lhe permitiria alcançar velocidade igual à da luz em dez minutos.
Também aqui se aplica o princípio claramente estabelecido para a velocidade relativística, de acordo com a simples relação linear de que a velocidade é igual a tempo vezes aceleração constante.
Para o observador na Terra, no entanto, após dez minutos de aceleração constante, a nave teria alcançado apenas uma velocidade correspondente a 70% da luz.
Para Rhodan se tornavam aplicáveis os conceitos mais elementares da contração relativística proporcional do tempo. Sob o ponto de vista dos conhecimentos humanos, as equações envolvidas eram bastante complexas; porém, arcônidas do nível de Crest costumavam fazer os cálculos mentalmente.
O domínio de uma nave interestelar acarreta inúmeros problemas. A despeito de sua excepcional capacidade científica,, Rhodan e Reginald Bell se defrontariam com obstáculos insuperáveis não fosse o hipnotreinamento recebido dos arcônidas. Rhodan pilotava com mão firme e ânimo tranqüilo a nave, em seu vertiginoso vôo pelo sistema solar. Os controles quase totalmente automatizados permitiam que a Good Hope fosse controlada por uma só pessoa em caso de necessidade, desde que esta estivesse familiarizada com a técnica arcônida.
Crest e Thora aguardavam a transição iminente com a indiferente calma provinda do hábito. Rhodan e Bell, no entanto, não escondiam seu nervosismo, apesar de terem sido devidamente preparados para a experiência. E as coisas corriam bem demais!... Os cálculos necessários para o vencimento de um trecho espacial correspondente a, vinte e sete anos-luz já estavam sendo feitos, com Vega por objetivo final. Compilando os dados básicos fornecidos pelos localizadores — a distância do alvo, a massa da nave e os campos gravitacionais prevalentes — o computador galatonáutico calculou a taxa de impulsão, conceito completamente incompreensível para pessoas comuns, e que os arcônidas denominavam hipervelocidade de fuga universal.
Rhodan sabia muito bem que o rompimento da barreira da luz não podia ser nem concebido nem explicado com a matemática terrena. Portanto viu-se obrigado a relegar ao esquecimento toda sua bagagem de aprendizado tradicional e guiar-se apenas pelos preceitos da ciência arcônida. Era suficiente para provocar tanto nele como em Bell profundos conflitos emocionais. Haviam passado por todas as experiências possíveis e imagináveis, o que não os impedia, porém de se sentir agora como o homem pré-histórico diante de seu primeiro contato com o fogo: sabiam como usá-lo, porém ainda ignoravam que ele podia igualmente ferir e matar.
O ruído dos quatro pulsopropulsores sincronizados intensificou-se, lembrando trovoada roncando ao longe. Quanto mais a Good Hope se aproximava da velocidade exata da luz, tanto mais acelerado se tornava o trabalho das máquinas de fabricação extraterrena.
A órbita terrestre ficara para trás. A nave afastava-se do Sol, a fim de iniciar o salto hiperespacial ainda no âmbito do sistema solar. Quando o ponteiro do velocímetro chegou a uma fração centesimal da marca que indicava a velocidade da luz e os sinais acústicos do piloto automático principal clamaram por empuxo adicional, Rhodan soltou as mãos dos controles e girou em sua poltrona.
Apenas os líderes da reduzida tripulação se encontravam reunidos na cabina de comando. Nas numerosas telas de observação externa cintilavam sóis remotos, muitos dos quais deviam possuir sistemas planetários.
Um rápido toque no comutador extinguiu as luzes piscantes no painel do hiper-controle. Thora olhou para Rhodan intrigada, perguntando em tom inquieto:
— Por que suspendeu a aceleração, Rhodan?
O comandante ergueu-se lentamente de seu assento. Bell ficou na expectativa. Algo estava errado.
— O excelente hipnotreinamento que recebi me gravou firmemente na memória que não é aconselhável iniciar um hipersalto de dentro de um sistema planetário — explicou Rhodan, pausadamente. — Vamos prosseguir em queda livre até atingir a órbita de Júpiter, em velocidade um por cento abaixo da luz. Prefiro não provocar indesejáveis distúrbios no campo magnético da Terra. Querem vir comigo até a cantina?
Bell ligou os hipersensores, para detecção imediata de qualquer corpo estranho, conectando-os com os projetores dos anteparos de defesa. Depois seguiu Rhodan. O piloto automático inteiramente positrônico merecia total confiança, mais do que qualquer ser humano.
John Marshall, o mutante dotado de qualidades telepáticas, sondou de longe os dois arcônidas. Não conseguindo penetrar nas mentes bloqueadas, virou-se para pedir auxilio à menina magra, de olhos imensos.
Betty Toufry brindou-o com um ligeiro sorriso que, no entanto, não tinha nada de infantil. Com um movimento de ombros, deu a entender que também ela não conseguia captar o conteúdo mental dos extraterrenos, apesar de seus dons serem mais fortes do que os de Marshall.
Tako Kakuta, o diminuto japonês que ainda há pouco estivera de pé ao lado de Bell, desapareceu de repente. O jovem com o espantoso dom da teleportação preferira mais uma vez o caminho mais curto. Era parte de sua constante prática e treinamento.
Além de Marshall, Betty e do franzino japonês, encontravam-se a bordo duas pessoas que Bell antes da decolagem conhecia apenas de nome. Rhodan mandara dois caças espaciais ultra-rápidos ir buscá-los em Vênus, onde ambos concluíam seu curso de especialização.
Dizia-se que Wuriu Sengu, o japonês gordo e troncudo, era capaz de enxergar através de corpos sólidos usando exclusivamente sua força mental. Mineiro de profissão, sempre maravilhara seus companheiros com sua infalível precogniçâo da produtividade de tal ou qual nova galeria de carvão aberta. O Corpo de Busca de Mutantes da Terceira Potência fora descobrir Sengu no Japão.
Ralf Marten, nascido igualmente no Japão, filho de um comerciante alemão e mãe nativa, possuía dotes ainda mais espantosos. Também ele pertencia à geração vinda ao mundo pouco após a explosão atômica sobre Hiroshima. O alto e esbelto jovem era capaz de abolir temporariamente a própria identidade, assumindo parapsicologicamente a de outra pessoa. Via por seus olhos e ouvia por seus ouvidos, sem que a vítima encontrasse meio de eximir-se dessa invasão. Capacidade que poderia explicar o extraordinário êxito de Ralf Marten no mundo dos negócios.
Tako Kakuta, cuja mera presença provocava acessos de irritabilidade em Reginald Bell, possuía o dom da teleportação. Sem qualquer artifício, transportava seu corpo para outro local em questão de segundos.
Betty, a menina, era duplamente excepcional. Além de seus poderosos dons telepáticos, era capaz de executar a telecinésia: usar seu poder mental para mover objetos sem tocá-los com as mãos.
Estranhos tripulantes aqueles cinco mutantes! Para os arcônidas, cuja cultura mais adiantada admitia tais fenômenos, o grupo ainda era considerado tolerável. Mas os tripulantes humanos comuns consideravam-nos verdadeiras monstruosidades. Claro que jamais alguém expressava esta opinião em voz alta, evitavam até pensar nisso, porém era a maneira de ver que predominava entre os demais membros da tripulação.
Na espaçosa cantina da ex-nave auxiliar do cruzador arcônida, adaptada às necessidades humanas, formou-se uma nítida barreira de separação entre os mutantes e os cinqüenta homens da tropa de choque destacada para a missão. Apenas olhares carregados de respeito, admiração incontida, desconfiança e curiosidade voavam de um lado para outro. O Exército de Mutantes, unidade especial da Terceira Potência, constituía poderoso fator de segurança. Era compreensível que os cinqüenta integrantes da tropa de choque se sentissem inferiorizados, a despeito de sua formação categorizada.
Rhodan tinha plena consciência de não poder harmonizar em uma só geração o cisma profundo entre pessoas normais e mutantes. Portanto contentava-se em obter um convívio razoavelmente tolerável entre os dois grupos.
Reinava na cantina um clima feito de extrema tensão, excitamento e conformada resignação. Esta provinha principalmente de Reginald Bell, que via suas enérgicas objeções à expedição interestelar serem completamente ignoradas.
Rhodan foi breve. O impaciente olhar para o relógio denotou que não estava disposto a perder tempo com argumentos prolixos.
— Assim que chegarmos à órbita de Júpiter, partimos para o primeiro salto hiperespacial jamais realizado por homens! — anunciou, calmamente. No entanto, seu nervosismo íntimo era aparente. — Peço-lhes encarecidamente que obedeçam à risca às instruções dadas. Os doutores Haggard e Manoli se encarregarão da assistência médica assim que emergirmos no hiperespaço. A ocorrência de danos físicos é pouco provável; a mente também não será afetada. Se o processo fosse perigoso, a raça arcônida teria sido extinta dez mil anos atrás. Mantenham o maior relaxamento possível durante a transição. A desmaterialização é inevitável durante o fenômeno de passagem para o hiperespaço pentadimensional. Nossos organismos sofrerão uma passageira solução de continuidade, pois não podem subsistir no estado presente num plano supernatural. Mas podem estar certos de que, por ocasião do regresso à dimensão quadridimensional de nosso mundo normal, cada qual encontrará novamente seu apêndice no lugar exato determinado pela mãe-natureza. Mais uma observação...
Rhodan percorreu a atenta audiência com um olhar imperscrutável.
— O cérebro-robô de Vênus forneceu-me dados exatos sobre o sol Vega. De acordo com ele, a estrela contava há dez mil anos, tempo terrestre, com quarenta e dois planetas. Fato nada surpreendente, em vista de suas dimensões gigantescas. Uma expedição arcônida andou explorando a área na época mencionada, colhendo informações detalhadas. Vida inteligente só foi constatada no oitavo planeta, denominado Ferrol. Consta que os ferrônios têm aparência humana; pelo menos possuem dois braços, duas pernas, uma só cabeça e andam eretos. Quando os arcônidas visitaram Ferrol, os nativos acabavam de descobrir a pólvora. O que nos permite deduzir que atualmente, dez mil anos após, possuam armas nucleares, ou estejam capacitados para viagens interestelares. Podemos deparar com uma raça altamente desenvolvida; ou com um monte de detrito planetário, girando deserto e solitário em torno de seu sol, inteiramente arrasado pela radioatividade. Seja como for, estejam preparados para surpresas e mantenham a calma. Recomendo uma hora de sono para quem conseguir adormecer. Seria ótimo passar pela transição em estado de sonolência.
Rhodan despediu-se com uma breve saudação e voltou à cabina de comando. O capitão Klein dispensou os homens. O major Deringhouse, responsável pelos dois caças arcônido-terrestres trazidos a bordo, decidiu ir inspecionar seus aparelhos.
Ao acionar a porta blindada que dava acesso ao hangar dos aviões, ele murmurou consigo mesmo:
— Sei lá, a coisa não me cheira bem!
Bell alimentava dúvidas semelhantes.
Dispensando o elevador antigravitacional, subiu resfolegando pela escada espiral de emergência.
Entrando na central de comando repleta de instrumentos que ainda lhe aturdiam os pensamentos, Bell percebeu um ligeiro clarão à sua frente. Do nada emergiu um vulto humano que, em fração de segundos, se materializou na frágil e inequívoca silhueta do japonês Kakuta. A face infantil e compenetrada mostrava um amável sorriso:
— Esqueceu seu quepe, capitão! — disse ele. — Aqui está!
Contando mentalmente até três, Bell desferiu um soco na direção do risonho jovem. Mas como este voltara a tornar-se invisível, não havia o que acertar e o golpe se perdeu no ar.
Bell encaminhou-se para o assento do co-piloto. Rhodan recebeu-o com expressão impassível; mas as minúsculas rugas nos cantos dos olhos revelavam vontade de rir.
— Os mutantes têm ordem para treinar seus excepcionais poderes sempre e onde puderem! — comentou, ironicamente.
Bell fixou o olhar sobre as telas fronteiras, sem dar resposta. Marte, o planeta vermelho, aparecia no quadrante direito superior da tela de estibordo. A Good Hope cruzava em velocidade máxima.
Thora, a esguia arcônida, ocupava o assento diante do computador galatonáutico. Sua expressão era enigmática.
— Como se sente? — indagou Rhodan.
— Ótima, obrigada! Perry, você se parece com um campo energético instável, pronto a entrar em colapso a qualquer momento.
Sem responder, Rhodan mantinha o olhar fixo para a frente. Em algum lugar das profundezas do espaço devia estar o ponto cujas coordenadas estavam sendo levantadas pelo computador. Era essencial que o hipersalto se processasse exatamente na fração de segundo determinada.
Thora lançou um olhar suplicante para Crest. Não sabia por que se sentia de repente tão deprimida.
 A transição se processou com a rapidez de um relâmpago. Fugaz demais para ser percebida pela consciência. Mal ressoou nos ouvidos o reboar estrondoso dos conversores do campo estrutural, acionados espontaneamente, as telas refletiram luz violeta e tudo se transformou de repente.
A cabina de comando parecia o olho incandescente de um gigante mitológico; o aparelhamento foi se dissolvendo em névoa e desapareceu.
A incipiente sensação de dor era aguda e lancinante. Cessou ao atingir o auge, como se o sistema nervoso tivesse se desligado espontaneamente.
Dentro do campo estrutural erigido com toda a energia disponível, a fim de excluir por completo a entrada de qualquer força quadridimensional, a Good Hope transformou-se num corpo incapaz de continuar mantendo sua estabilidade. A física avançada dos arcônidas dava ao fenômeno o nome de efeito de sublimação. Ao mesmo tempo, as ondas corpusculares que acionavam os pulsopropulsores convertiam-se em unidades energéticas pentadimensionais, uma vez que também não conseguiam conservar as características normais dentro do campo de absorção esférico. Portavam-se como água diante de uma fonte térmica intensa: era forçada a vaporizar-se, por não poder continuar em estado líquido no ambiente modificado.
Rhodan tentara passar pela transição em estado consciente. Porém não havia evidentemente diferença entre cérebros arcônidas e humanos neste particular. Seu último pensamento, antes de penetrar no hiperespaço, foi para a futura rematerialização. Afinal, transformar matéria em energia era simples; porém nunca se conseguira obter substância física de energia pura, fosse qual fosse seu estado ou constituição.
Todavia, no caso de uma transição, o efeito ocorria forçosamente, só que a rematerialização consistia apenas na reversão exata ao estado de origem.
O processo todo durou pouquíssimo. O anterior conceito relativista de tempo perdera toda a validade. Anos podiam valer por segundos, e vice-versa. A sombria cor vermelha ainda predominava no ambiente quando a dor excruciante voltou, aliada a aguda sensação de desintegração. Mas os contornos dos objetos eram novamente visíveis na cabina de comando.
O regresso ao universo normal foi espontâneo, sem qualquer estágio intermediário. A visão clareou, os sentidos retomaram o funcionamento normal, como se nunca o tivessem interrompido.
Apenas as imagens captadas pelas telas eram radicalmente diferentes. Nos vídeos frontais brilhava de forma deslumbrante uma imensa estrela, que, de forma alguma, poderia ser confundida com o sol terrestre. Era grande e quente demais para isso, além de irradiar luz mais clara.
Perry Rhodan foi arrancado do estado semiconsciente pelo zumbido do sistema de alarma. Um gemido de dor acabou de acordá-lo. Ao seu lado, uma voz preocupada dizia:
— Parada dura, não é chefe? Tudo em ordem agora?
Rhodan viu-se diante de Tako Kakuta. O mutante capaz de teleportação achava-se de pé diante do painel de controle aparentando total indiferença.
— Senão...! — suspirou o comandante. — Como é que você?...
— Ora, estou mais do que familiarizado com o processo. Rematerializações são sempre iguais, quer sejam provocadas por forças físicas ou psíquicas. Com o tempo a gente se acostuma, pode crer. O alarma, comandante! Os localizadores detectaram algo.
Rhodan não se preocupou com as irritadas exclamações de seu co-piloto, que levantava cambaleante do assento. Com a face contraída de dor, Bell apalpou os membros, um por um. Mas o sinal de alarma seguinte fez com que ele ficasse instantaneamente alerta. Também Crest e Thora davam sinais de vida. Das várias seções da nave chegavam comunicados dizendo que estava tudo bem. Haggard e Manoli confirmaram o bom estado da tripulação.
O alarma fora ativado pelos sensores estruturais da própria nave; tinham detectado violentas deformações na estrutura do espaço. Os sinais continuaram a manifestar-se por alguns momentos; depois foram rareando, até que a última lâmpada se extinguiu.
Rhodan fitou os companheiros em silêncio. Estavam todos presentes e, ao que parecia, sem ter sofrido o menor dano. A atitude de Thora denotava tal superioridade e condescendência que Rhodan não ousou expressar a pergunta que lhe queimava os lábios.
Bell, no entanto, não se dominava tão bem. Vacilando, e com a vista turva, aproximou-se das telas, indagando:
— Chegamos inteiros? Isso ai é Vega?
Soberbamente, a arcônida respondeu:
— Que acha? As hipertransições de nossas naves sempre se processam com absoluto êxito!
— Saltamos por cima de vinte e sete anos-luz? — Bell engoliu em seco, praguejando baixinho. Sem mais comentários, voltou à sua poltrona, e pôs-se a recolher as informações que iam sendo fornecidas, numa fita, pelo painel de controle. Sim, tudo corria muito bem. Um acontecimento inédito e espetacular para a tripulação humana decorrera com a precisão de um mecanismo de relógio bem ajustado. E ninguém parecia impressionar-se com isso, muito menos os arcônidas.
Crest postara-se, fremente, diante dos calculadores dos sensores estruturais. O resultado dos cálculos, inteiramente automáticos, indicava a aproximação do primeiro planeta. O fato era confirmado pelos hipervelozes localizadores; seus impulsos se projetavam na dianteira da Good Hope, sendo refletidos com a mesma incalculável rapidez.
Nas telas começaram a brilhar inúmeros pontinhos verdes. Eram eles que despertavam o ardoroso interesse do cientista arcônida.
— Nossas naves! — murmurou Crest, comovido. — E uma frota inteira! Veja as indicações dos sensores estruturais, Rhodan: mais de cinqüenta delas emergiram quase simultaneamente do hiperespaço.
— Quando, exatamente? — indagou Rhodan, com fria impassibilidade.
— Bem ao mesmo tempo que nós.
— Ótimo! — exclamou Rhodan. — Portanto não devem ter detectado o abalo estrutural que provocamos com nossa aparição. Coincidência benéfica, não?
— Seria conveniente proceder a um reconhecimento mútuo — interveio Thora, excitada. — Não sinto disposição para prolongar as buscas. Mande calcular o curso para o oitavo planeta, por favor. Garanto que daremos com nossas naves de pesquisa lá.
— É, talvez tenha razão, Thora... — respondeu Rhodan com voz pausada.
Depois levantou a voz, ordenando energicamente:
— Bell, todos em prontidão de combate! Dê alarma geral. Thora, encarrregue-se dos localizadores. Bell, você fica com o comando do centro de armamento!
Bell não fez comentários. O brilho dos olhos de aço do chefe lhe dizia o suficiente.
As campainhas de alarma se fizeram ouvir em todas as dependências da nave. Entreolhando-se alarmados, os homens fizeram seus preparativos.
Deringhouse anunciou pelo intercom que os dois caças estavam prontos para a manobra de ataque.
— Você enlouqueceu? — gritou Thora, com os olhos vermelhos flamejando de ira. Ereta, diante do homem alto e magro, tremia de ódio.
— Talvez sim, talvez não... — replicou Rhodan com a maior tranqüilidade. — Mas não sou louco bastante para me precipitar ébrio de alegria num sistema planetário desconhecido. Já lhes disse mais de uma vez que não creio na existência de naves arcônidas. Queira ocupar sua posição de combate, por obséquio.
Furiosa, Thora obedeceu, sob o olhar indiferente de Rhodan.
— Capitão Klein! Cuide da orientação... — ordenou Rhodan, tranqüilo. — Wuriu Sengu, mantenha-se atento. Atravessaremos o sistema Vega em cerca de oito horas. São quarenta e dois planetas, com distâncias fabulosas entre um e outro. Obrigado, é tudo!
Ao retomar seu lugar de piloto, os reatores do circuito externo começaram a funcionar ruidosamente. Em torno do revestimento da nave foi-se formando, após breves lampejos luminosos, o anteparo protetor de unidades energéticas extradimensionais. Seguiu-se o campo repulsor de corpos materialmente estáveis. Com isso, a Good Hope munira-se dos recursos defensivos mais avançados da tecnologia arcônida.
Os pontinhos verdes continuavam a luzir nas telas dos sensores. Distantes ainda, a mais de três horas-luz, que a Good Hope percorreria com sua velocidade normal.
— Exijo uma transição de curta distância! — gritou Thora.
Rhodan não lhe respondeu. Thora calou-se, porém era evidente que não se conformava. Ao fundo da cabina, os cinco mutantes formavam um grupo unido e quieto. Betty Toufry e John Marshall captavam sensações e pensamentos que nenhum mortal comum perceberia.
Momentos após, a menina murmurou, baixinho:
— Ouço almas chorando! Tem gente morrendo. Muitos mortos. O espaço está repleto de lamentos e soluços. Desespero, dor, morte!
Os olhos profundos estavam dilatados, vastos como o espaço cósmico. Bell fitou-a, impressionado. Nas telas dos detectores da nave interestelar os pontos verdes se multiplicavam. Rhodan ordenou alarma total, o sistema positrônico de mira entrou em funcionamento. No vídeo, Vega brilhava como o olho ciclópico de um deus ameaçador.
Lá adiante, nas profundezas do sistema planetário da grande estrela, sucedia algo ainda não de todo compreensível...

* * *

O grito ecoou surdamente na cabina de comando. Ninguém havia contado com o que estava acontecendo e os fatos tinham chegado de surpresa, precipitando-se sobre eles como uma ágil fera dando o bote.
A gigantesca Vega, principal estrela da constelação da Lira, refletia-se nos vídeos como uma imensa bolha de sabão iridescente. Um sol de proporções verdadeiramente avantajadas.
Com isso, a tripulação tardou a discernir os longínquos raios luminosos, finos como fios de cabelo, e o relampejar contínuo de minúsculas explosões. Apenas as telas amplificadoras, com sua magnitude de foco, acabaram revelando a ocorrência de um tremendo conflito nas imediações da órbita do décimo quarto planeta.
Cinco minutos após a detecção positiva, os hipervelozes sensores de localização se fizeram ouvir. Seu estridente clamor ainda prosseguia. O equipamento altamente sensível, que reagia à presença de descargas energéticas, não fora instalado em vão. Mas era tarde demais, pois a Good Hope seguia com a mesma velocidade, quase igual à da luz. Portanto seria impossível desviar das naves surgidas de maneira tão inesperada, ou esquivar-se de passar através de suas confusas trajetórias.
Os propulsores gêmeos de estibordo rugiram numa furiosa exibição de força. Um desvio mínimo de rumo bastaria, naquela velocidade alucinante, para arrancar a Good Hope da área imediata de perigo. Mas os amortecedores de inércia protestaram guinchando, obrigados a dissipar a energia que Rhodan canalizara, momentos atrás, para os projetores dos anteparos de defesa.
A seta luminosa que se lançava contra a Good Hope não podia estar se movendo com a velocidade da luz. Pois se estivesse, os videoscópios só captariam sua imagem no momento do impacto. Porém ela vinha com rapidez suficiente para arrancar exclamações de susto dos homens na cabina de controle. Conheciam o cintilante fenômeno; por trás de seu aspecto inofensivo se escondia a morte.
Rhodan acionou novamente o reostato dos propulsores de estibordo. Porém era impossível forçar uma mudança de rumo acentuado naquela altura. Também a técnica arcônida tinha as suas limitações e continuava aceitando o princípio de que um corpo voando à velocidade da luz não pode ser detido em instantes. E as manobras de esquivamento não podiam ser executadas abruptamente, nem em ângulo reto. O máximo que se podia conseguir era uma deflexão curva, com um arco de pelo menos dois milhões de quilômetros. Afinal, massa em movimento era massa em movimento e nada podia ser feito a respeito.
No entanto, a manobra forçada, que submetia o material da nave a uma rigorosa prova de resistência, bastou para arrancar a esfera da zona perigosa no momento crucial. A seta luminosa, formada  por um fogo energético concentrado de alta intensidade, passou a um escasso quilômetro da nave desviada, perdendo-se no vazio do espaço interplanetário.
— Bela recepção! — reclamou Rhodan, furioso.
Muito pálida, Thora encarou o comandante, cujos traços se contraíam de preocupação. A seguir, aconteceu o que era inevitável diante daquele aglomerado de naves.
Os pontinhos anteriormente avistados apareciam agora nos videoscópios como corpos volumosos, agrupados no espaço em fileiras densas e traçando na escuridão profunda do cosmo uma filigrana multicolorida.
A exclamação de angústia viera de Crest. Com os olhos fixos nas telas, fitava estarrecido as naves que apareciam nitidamente. Eram de dois tipos diversos. Klein focalizava justamente uma delas no localizador de curta distância. Tratava-se de uma das unidades ovóides, presentes na área conflagrada em nítida superioridade numérica. O propulsor traseiro desta nave expulsava jatos de luz extremamente intensa, cujo brilho ofuscante feria os olhos.
Porém a quantidade delas não impedia que fossem rapidamente dizimadas pelas naves adversárias. O espaço interplanetário de Vega enchia-se de catastróficas explosões nucleares, sob o efeito das quais as naves ovóides se desintegravam em número crescente. Pareciam completamente indefesas, o que se poderia atribuir em primeiro lugar à volumosidade excessiva.
Os computadores já haviam revelado a Rhodan que as naves desconhecidas possuíam reduzida taxa de aceleração. Com isso, suas manobras eram penosamente lentas. E iam-se transformando em bombas, uma a uma, sob o impacto das setas luminosas.
— Elas não têm anteparos protetores! — gritou Klein, excitado. — Nem sistema detector de energia, chefe! Não passam de tartarugas, não têm chance alguma!
Rhodan atentava para suas ousadas manobras de esquivamento. Caso a Good Hope prosseguisse no rumo atual, mergulharia inevitavelmente no grosso da confusão.
Crest deixou escapar nova exclamação.
No vídeo mais amplo da popa surgiu outro tipo de nave. Em contraste com as rotundas e pesadas formas antes avistadas, estas apresentavam o aspecto de um longo e delgado cilindro. No meio deste destacava-se um forte abaulamento central. Como se alguém tivesse atravessado uma castanha com um lápis, deixando-a espetada exatamente no meio.
— Depressa! Aumente a deflexão! — gritou Crest, fora de si. Sua habitual compostura desaparecera agora. Naquele instante, o sábio arcônida não era mais do que um trêmulo feixe de nervos.
A resposta de Rhodan era dispensável. Com os propulsores soltando fogo, a Good Hope procurava evitar o centro da batalha, porém continuava sendo alvejada. Havia uma quantidade excessiva das misteriosas e desconhecidas naves espalhadas num extenso setor espacial de Vega. Mais uma vez perceberam, no último instante, a seta luminosa, quase tão rápida como a luz. O sistema de detecção positrônico entrou em ação automaticamente, porém os propulsores recusavam fornecer empuxo mais poderoso. Já estavam funcionando com carga máxima.
A seta atingiu a Good Hope em cheio. E ela saltou fora de seu curso, rodopiando, como uma bola chutada com violência. No amplo videoscópio externo brilhou uma descarga luminosa de fulgor ofuscante; um tremendo estouro acompanhou o fenômeno luminoso. O corpo da nave, feito de aço arcônida, pôs-se a reverberar como um sino, em conseqüência das vibrações resultantes do impacto.
O imaterial dedo de fogo continuou sua trajetória pelo espaço. Lá longe, uma das naves cilíndricas se afastava velozmente. Fora de sua cúpula armada que partira o tiro.
Os tripulantes da cabina de comando viram Rhodan rir. Não podiam ouvir a risada, pois o eco trovejante produzido pelo tiro quase fatal ainda reboava pelo recinto.
Crest continuava de pé diante das telas. A área conflagrada foi ficando para trás. As naves espaciais, fielmente retratadas há pouco, voltaram a assumir a forma de pontinhos luminosos. Em troca, a relativamente pequena nave esférica dos arcônidas deixou de ser alvejada.
Muito atrás da Good Hope, as naves ovóides continuavam a explodir. Seu número se reduzia mais e mais, principalmente porque novas formações inimigas acabavam de emergir do hiperespaço.
A última situação crítica surgiu quando atravessaram com velocidade alucinante uma massa de gás incandescente. Segundos antes, uma das naves ovóides explodira no local, atingida pelo inimigo. Os anteparos protetores externos uivaram novamente seu protesto, mas a Good Hope conseguiu passar incólume. À frente dela brilhava o décimo quarto planeta de um sistema solar nunca imaginado. Parecia tratar-se de uma imensa esfera gasosa, semelhante a Júpiter. Rhodan desligou os propulsores de estibordo; a cessação do barulhento ronco do motor foi bem-vinda e a nave dirigiu-se em queda livre para o ainda distante planeta.
— Grandes recursos é que eles não possuem! — comentou Reginald Bell, com a irritante calma de um homem que nada consegue abalar. — Será que consideram aquela beliscadinha arma energética? Quem tem comentários a fazer?
Bell olhou de esguelha para Rhodan, que se levantava do lugar do piloto. Vagarosamente, aproximou-se dos dois arcônidas. Crest esboçou um gesto de recuo diante do sorriso semidisfarçado do comandante. Mas logo Rhodan reassumiu o ar severo do inflexível piloto de provas que não admitia situações ambíguas.
— Estava querendo dizer qualquer coisa antes de sermos atingidos — disse Rhodan. — O que era?
O aspecto de Crest era lamentável. Pálido e desfeito, afundara numa poltrona.
— Eu estava enganado! — murmurou o grande cientista, com voz embargada. — Cometi realmente um erro! Perdoe-me!
— Um erro? Ora, isso não é novidade que abale o mundo. O que ia dizer no momento do ataque?
Os olhos vermelhos de Crest suplicavam: sua perturbação era evidente.
— Aquelas naves cilíndricas, com o bojo central... eu as conheço! Qualquer arcônida as conhece. Não pode haver dúvida. Só uma raça em toda a galáxia emprega esse sistema extraordinariamente incomum de aeronaves.
— E de onde vêm eles?
Crest vacilou. O Dr. Haggard conduziu-o de volta à sua poltrona. Dali, o sábio arcônida explicou, abalado:
— Não é Árcon, é claro. A raça dos tópsidas provém de um tronco reptílico. São altamente inteligentes, ativos e cruéis. Não têm nada de humanos! Dominam três pequenos sistemas solares. Seu mundo principal é Topsid. Em relação à Terra, o sistema fica a cerca de oitocentos e quinze anos-luz, no setor de Órion. O planeta Topsid gravita em torno de Orion-Delta, a estrela dupla. Uma tem luz branca; a da outra é roxa. Não posso imaginar o que é que os tópsidas procuram aqui. Foi a primeira raça colonial que se sublevou contra o poder do Grande Império. Há uns mil anos, em tempo terrestre, enviamos algumas expedições punitivas contra eles.
Rhodan deu uma curta risada.
— Há mil anos! — repetiu, suspirando. — Ora, meu caro! E ainda queria me convencer de que seu povo conseguiu reunir energia suficiente para organizar uma poderosa expedição de pesquisa! Aliás, eu posso revelar-lhe o que esses sujeitos procuravam.
— Nós? — indagou o capitão Klein, inquieto.
— Exatamente! E nós, patetas, lhes fizemos o favor de nos colocar diretamente na mira de seus canhões energéticos! Estamos às voltas com uma poderosa nação galáctica e a Terra tem desesperadamente pouco com que se opor a ela. Não adianta aborrecer-se, Thora! Seu famoso Grande Império encontra-se em derrocada. É tempo dos arcônidas tomarem conhecimento do que se passa na periferia da galáxia. Ainda julga conveniente chamar alguma daquelas naves pelo rádio? É evidente que os tópsidas conhecem navegação interestelar. Talvez lhe ofereçam uma carona para Árcon, caso se disponham a reconhecer sua posição de descendente dos soberanos arcônidas.
As palavras eram ofensivas. A única reação dos dois arcônidas foi a de abaixar as cabeças. Rhodan afastou-se, mas foi detido pela pergunta de Crest:
— Mas a quem pertencem aquelas naves pesadonas? Viu com que facilidade se deixavam aniquilar?
— Claro! Não passavam de um rebanho de mansas e tranqüilas ovelhas diante dos ferozes agressores. Representavam exatamente o papel que nos tocaria, em escala mais ampla, caso os tópsidas resolvessem invadir o sistema solar. Bell, quer fazer o favor de tirar os dedos dos controles das armas? Se um só de nós perder a cabeça agora, teremos aquele bando de lagartixas pululando sobre a Terra amanhã. Não descobriram, por enquanto, seu pequeno engano; e não darão por ele enquanto os nativos de Vega continuarem a reagir de maneira semelhante à que faríamos nós próprios. Mas os coitados só podem se defender, serão inexoravelmente vencidos. Deve se tratar dos seres inteligentes que habitam Ferrol, o planeta de Vega descoberto há dez mil anos por uma viagem de exploração arcônida. Os seres, então primitivos, evoluíram para espaçonautas capazes. E estão sendo forçados a engolir o angu preparado para nós.
Rhodan calou-se. A Good Hope disparava pelo espaço sem ser molestada. O campo de batalha tinha ficado longe.
— E agora? — indagou Reginald Bell. — Sumimos do cenário? E, em caso afirmativo, como?
Rhodan sentou-se pensativo em sua poltrona de comando.
— Sim, no interesse da Terra, temos que desaparecer; porém, discretamente. Vamos atravessar o sistema de Vega em velocidade ligeiramente inferior à da luz. Depois teremos que arriscar um hipersalto espacial. Tudo indica que a distorção estrutural não será percebida no meio do caos reinante. Tem alguma coisa a dizer, Crest?
O arcônida sacudiu negativamente a cabeça. Rhodan deu início à programação. Novamente os propulsores de estibordo da Good Hope entraram em ação, rugindo. A manobra de retorno consumiria um considerável espaço de tempo, pois Rhodan não pensava em desacelerar até zero, para depois rumar em sentido oposto.
As ordens se sucederam, breves e concisas. No pólo superior da nave esférica, o major Deringhouse saiu, resmungando, da carlinga de seu caça. Havia contado o tempo todo com uma emocionante expedição punitiva.
Três minutos após, os sensores indicaram a proximidade de objetos à frente da nave. Destroços juncavam o trajeto a ser percorrido. Era evidente que, recentemente, houvera violenta batalha nas proximidades do décimo quarto planeta.
— Interessante! — comentou Bell. — Será que há sobreviventes? Suponho que esses tais de ferrônios conhecem trajes espaciais... Bem que poderíamos tentar conversar com um deles.
Rhodan levou alguns momentos para responder, absorvido por um pequeno ajuste nos controles. Todos os quatro propulsores da Good Hope começaram a rugir; desta vez, porém, com os jatos em reversão.
Crest estremeceu. Mal aquele homem esguio tinha acabado de declarar que precisavam afastar-se do sistema Vega o mais depressa possível, ele recorria a toda a potência da nave para uma manobra de frenagem. Rhodan era imprevisível, uma pessoa fenomenal. Ocorreu a Crest que em todo o Grande Império não existia mais ninguém capaz de tomar decisões com tanta rapidez.
— Armamento em prontidão! — ordenou Rhodan, em voz rouca. — Sabe que a idéia não é má, Bell?
— Parece que é bem fácil fazê-lo mudar de opinião, não é, Perry? — disse Thora, ironicamente. — É só dar um palpite e você faz exatamente o contrário do que pretendia antes.
Raramente se via Rhodan sorrir tão zombeteiro. A face de Thora tingiu-se de rubro sob o olhar do comandante.
— Há um ligeiro engano — corrigiu ele, mansamente. — Não foi a sugestão de Bell que me fez mudar de idéia e sim as informações mais recentes dos computadores positrônicos. Olhe para estes diagramas! Os compridos canudos dos tópsidas não podem comparar-se com a Good Hope em matéria de aceleração. Antes que consigam atingir a velocidade da luz, temos dez oportunidades de sumir no hiperespaço. As naves ovóides dos ferrônios são ainda mais vagarosas. O cérebro do computador determinou a natureza da propulsão que empregam: geradores de fótons ultraconcentrados. Não se pode esperar nenhum rendimento espetacular de propulsores desta espécie. Portanto, vamos examinar de perto o que flutua aí na nossa frente, no vácuo.
— Destroços sem conta! — murmurou o Dr. Manoli. — Olhe! Os localizadores respondem de todas as direções. Deve haver, de fato, sobreviventes.
Betty Toufry olhou para Rhodan com um sorriso tímido. Conseguira ler parte de seus pensamentos. Rhodan fizera a Good Hope parar não porque a sabia superior às naves inimigas. Pensava também nos seres vivos talvez existentes naquela área vizinha do décimo quarto planeta, perdidos e abandonados no vazio.
A taxa de desaceleração era agora de quinhentos quilômetros por segundo. No hangar dos pequenos caças de bordo, o major Deringhouse tornava a espremer a elevada estatura na apertada carlinga pressurizada. Os homens da tropa de choque fecharam a cúpula transparente sobre sua cabeça.



A manobra não fora nada fácil, visto que tinha que ser executada sob a intensa atração gravitacional de um planeta gigante. O número quatorze devia ter três vezes o diâmetro de Júpiter. O próprio Crest demonstrou surpresa diante das dimensões enormes daquele mundo.
Os destroços do que haviam sido naves espaciais já iniciavam a lenta e inevitável descida para a superfície do planeta, atraídos pela gravidade, antes que Rhodan conseguisse posicionar a Good Hope em rumo e velocidade adequados para a operação de salvamento. Buscas prolongadas no vazio resultaram no resgate de um sobrevivente. Um, apenas...
Após trazer a criatura para bordo com os jatos de sucção, através da escotilha estanque, verificaram que se encontrava semimorta por asfixia. Além disso, o corpo do estranho estava coberto de queimaduras, causadas evidentemente pela radiação ultravioleta da imensa Vega.
O pobre ser se mantivera trêmulo e intimidado num canto, até que as atenções dos doutores Haggard e Manoli lhe provaram que ninguém atentaria contra a sua vida.
Tratava-se, efetivamente, de um ferrônio. Descendente dos que uma expedição de pesquisa arcônida localizara há dez mil anos. Já haviam ultrapassado a idade da pólvora, evidentemente. Porém Rhodan achou que a raça poderia ter avançado mais naqueles dez mil anos. A humanidade havia precisado de apenas quinhentos para chegar da arma de fogo ao primeiro foguete-satélite. Aplicando padrão semelhante, os ferrônios deveriam conhecer há séculos as viagens interestelares.
Mas seus sistemas de propulsão tinham se detido no ponto máximo permitido pelos princípios adotados. Uma evolução maior requereria conceitos inteiramente diversos.
Donde era possível deduzir que os ferrônios eram incapazes, por natureza, de raciocinar em termos de quinta dimensão; portanto, criar um sistema matemático correspondente não cabia em sua capacidade mental. E sem essa matemática em nível superior, condicionada pelo poder do raciocínio abstrato, as viagens mais rápidas do que a luz eram irrealizáveis. Em conseqüência, os ferrônios continuavam a fazer uso de seus propulsores quânticos, extraordinariamente eficientes, e que lhes permitiam alcançar facilmente a velocidade da luz.
Por outro lado, tinham desenvolvido uma tecnologia fabulosamente exata no campo da micromecânica. Rhodan emitiu assobios de admiração ao examinar superficialmente alguns pedaços dos destroços trazidos para bordo.

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