terça-feira, 9 de outubro de 2012

P-007 - Invasão Espacial-Clark Darlton [parte 2]


— Posso, sim — disse Perry em tom tranqüilo. — Sem a nave Good Hope você não pode fazer nada. E a partir deste instante nem você nem qualquer dos seus robôs entrará na Good Hope. E não abandonará seus alojamentos situados no interior desta base.
— Quer prender-me? — disse Thora em tom furioso. Seus olhos chispavam de raiva. — Você não se atreverá.
— Não quero prendê-la. Apenas pretendo repelir a invasão dos DI, e adoto as medidas que julgo necessárias. Certa vez Crest disse que em certo ponto os terráqueos se parecem com os arcônidas da antigüidade. Tem razão. Sabemos ser duros e implacáveis quando temos um objetivo diante dos olhos. E meu objetivo consiste em livrar-me dos DI de uma vez por todas, e em encontrar uma arma que possa ser usada contra eles, e que um dia também possa ser útil aos arcônidas. E não será você que vai me impedir. E também não vai desertar com a Good Hope. Compreendeu? Ou será que terei de explicar melhor?
Thora lançou-lhe um olhar odiento. Mas não era só ódio que havia nesse olhar. Perry sentiu um calafrio ao reconhecer o sentimento que se desenvolvia no subconsciente dessa mulher, e que seus olhos acabavam de revelar. Tratava-se de admiração, e de um pouquinho de dedicação ou amor.
Perry sentiu-se perturbado, mas não deixou que ninguém o percebesse. Mais tarde teria tempo de analisar esse paradoxo. Por enquanto havia coisa mais importante a fazer. Não suspeitava de que nesse mesmo instante também Crest tomara uma decisão. De uma hora para outra o chefe científico da expedição dos arcônidas, que conhecia muitas raças do universo e com elas mantinha ligações, deu-se conta de uma realidade patente: um belo dia os homens se tornariam herdeiros do império galático. E não sentiu o menor pesar quando essa realidade se impôs ao seu espírito.
O capitão Klein aproveitou a pausa para dizer:
— O tenente Li Shai-tung, que é nosso aliado da Federação Asiática, está desaparecido. Mercant supõe que se encontre em poder dos DI.
Isso foi um choque inesperado mesmo para Perry Rhodan.
O tenente Li era um dos principais agentes da Federação Asiática. Quando recorreram a ele para combater Perry Rhodan, foi um dos primeiros homens da Terra a reconhecer que só a união de todos proporcionaria uma chance de enfrentar com sucesso o poder dos arcônidas. Quando essa união se estabeleceu, passou a compreender os objetivos de Rhodan e a sentir estima pelo antigo piloto espacial do Ocidente. Juntamente com seu colega Kosnow, do Bloco Oriental, e Klein, do Bloco Ocidental, passou-se para a Terceira Potência. Da mesma forma que Klein era o elemento de ligação entre Rhodan e Mercant, Li desempenhava as funções de elo de ligação entre Rhodan e o Serviço Secreto da Federação Asiática.
E agora os DI se haviam apoderado desse homem. Com isso Perry Rhodan sofria o primeiro ataque direto, afora alguns episódios de menor importância ocorridos durante o primeiro ataque.
— Desaparecido? Ora essa! Li não pode ter desaparecido sem mais aquela.
— O fato é que Li desapareceu da Groenlândia, e voltou à China sem que tivesse ordem para isso. Mercant acredita que os DI pretendem arruinar as grandes potências uma por uma.
— Será que para isso precisam justamente dos elementos de ligação?
Perry lançou um olhar desconfiado para Klein. O capitão percebeu o que se passava na cabeça de seu interlocutor.
— Se acredita que os DI me agarraram, sinto decepcioná-lo, de forma agradável, espero — disse sacudindo a cabeça. — Você não tem nenhuma possibilidade de constatar a presença de um DI?
— O que está imaginando?
— Não estou imaginando coisas alguma, mas pensei que talvez com os recursos técnicos de que dispõe...
— O detector de freqüência — interveio Bell em tom indiferente.
Perry confirmou com um movimento de cabeça. Procurou não demonstrar a contrariedade que sentia por não se ter lembrado disso. Era claro que havia essa possibilidade. Esse aparelho ultra-sensível captava e registrava a freqüência das vibrações do cérebro humano. Distinguia perfeitamente entre um cérebro normal e o de um mutante, embora nesse caso a diferença fosse insignificante. A diferença entre a freqüência do cérebro de um homem e de um DI devia ser muito maior.
— Isso mesmo, Bell. Isso nos dá a possibilidade de identificar qualquer indivíduo de que os DI se tenham apossado. Resta saber o que devemos fazer quando isso tiver acontecido. Não podemos matar esse indivíduo, se houver uma possibilidade de salvar sua vida. E pouco nos adiantará tanger os DI de um corpo humano para outro.
Crest voltou a mexer-se nos fundos da sala. Sem dar a menor atenção a Thora, que prosseguia no seu mutismo obstinado, disse:
— O corpo do DI deve ser destruído. Com isso o intelecto humano voltará ao corpo a que pertence, enquanto o intelecto do DI morre com o respectivo corpo. É o único ponto fraco que podemos aproveitar.
— Como faremos para seguir as pegadas do seu intelecto?
Crest esboçou um sorriso significativo.
— A experiência ensinará. Afinal, para que temos os mutantes? Quem sabe se não conseguem construir uma ponte entre o corpo e o espírito dos DI?
— Talvez — confirmou Perry em tom pouco confiante. Acreditava ser impossível seguir uma substância imaterial num caminho percorrido à velocidade da luz. O espírito era energia, e por isso sem dúvida constituía uma forma de matéria. Podia-se identificá-la, mas não segui-la. Ou será...
Klein esperou até que se fizesse uma pausa na palestra. Depois disse:
— Rhodan, Mercant lhe pede que se ponha no encalço de Li. Sozinho ele não consegue. Li pode provocar um verdadeiro desastre. Na opinião de Mercant os DI farão tudo para que a discórdia volte a reinar sobre a Terra, para facilitar o jogo deles. É uma coisa que não pode acontecer.
— Li está na China?
— Foi lá que o localizamos pela última vez. Supomos que se encontre em Pequim.
Perry olhou para Bell.
— Bell, traga Ernst Ellert. Depressa!
O engenheiro retirou-se sem dizer uma palavra. Só Crest ergueu as sobrancelhas brancas.
— O que deseja de Ellert? — perguntou em tom admirado.
Perry sorriu ligeiramente. Como Klein nunca tivesse ouvido falar de Ellert, dispôs-se a dar uma explicação.
— Ernst Ellert é um mutante. Suas faculdades excedem tudo que o cérebro humano já concebeu. É um teletemporário. Sabe transportar-se em espírito para o futuro e contemplar o passado que corresponde ao nosso presente. Talvez consiga localizar o esconderijo dos DI
— Um teletemporário? — resmungou Klein sem que tivesse compreendido. Deu de ombros e não disse mais nada. Perry Rhodan devia saber o que estava fazendo.
Quem visse Ellert entrar não conseguiria disfarçar uma certa decepção. Aquele alemão tinha um aspecto absolutamente normal; nada indicava a presença de um dom extraordinário. Apenas em seus olhos notava-se um brilho tranqüilo e constante. Eram olhos que tinham contemplado um trecho da eternidade, assim pensava Perry toda vez que os contemplava.
— Estamos em conselho de guerra — disse Perry a título de cumprimento. — Os DI iniciaram a invasão. Apossaram-se do tenente Li, agente dos serviços de defesa da Federação Asiática. Tako Kakuta lhe fornecerá informações pormenorizadas, e também o acompanhará. Faço votos que sua missão seja coroada de êxito. Antes de partir, receberá dois detectores de freqüência, e obterá instruções mais precisas. — Perry hesitou um instante. Depois deu um impulso à sua mente. — Sempre relutei em recorrer aos seus dons, Ernst. Mas peço-lhe que me responda uma pergunta reservada: em espírito você já esteve no futuro mais de uma vez. Aliás, o fato de você ser capaz de abandonar o corpo à vontade e voltar a ele, coloca-o no mesmo nível dos DI, ou mesmo em nível superior, já que seu espírito não está preso ao presente. Compreende por que resolvi lançar mão de você na luta contra os DI? Se existe um homem que pode representar um perigo real para eles, este homem é você. Mas voltemos à pergunta que pretendo formular: você já esteve no futuro por mais de uma vez, Ernst. Encontrou algum indício de que a Terceira Potência existe nesse futuro? Seremos bem sucedidos na luta contra os invasores?
Uma sombra passou pelo rosto de Ernst Ellert.
— Sinto decepcioná-lo. Não é o que você pensa. Acontece que o futuro não é uma coisa concreta. Existem muitos caminhos que conduzem para o futuro. Ou melhor, não existe um único futuro. O presente é real, é uma resultante do passado perfeitamente determinado. Mas o futuro é irreal e incerto. O acontecimento mais insignificante do presente pode modificá-lo por completo. Por isso nunca penetrei num futuro imutável. Compreende o que quero dizer? — Quando notou que Perry confirmava com um leve movimento de cabeça, prosseguiu. — Existem milhares de futuros. Futuros com e sem Perry Rhodan. Mas só uma dessas alternativas se transformará em realidade. Sei que deve estar decepcionado, mas o fato é que minha capacidade de transportar-me para o futuro não tem o menor valor. Posso inserir-me num fluxo temporal incorreto e, em conseqüência, transmitir-lhe informações falsas.
— Como ficou sabendo disso? E por que nunca me falou a respeito antes? — disse Perry com um ligeiro tom de censura.
— Não sabia — confessou Ellert ligeiramente embaraçado. — Nos últimos dias realizei várias experiências e verifiquei que vários mundos coexistem simultaneamente no mesmo segmento da linha do tempo. Só um deles se transformará em realidade. Não tenho elementos para saber qual será este mundo.
— Quer dizer que como profeta você não vale nada — disse Perry Rhodan em tom grave.
Ellert confirmou com um gesto desolado. Mas o brilho do saber continou aceso em seus olhos. Estaria mentindo? Perry lançou um olhar de indagação ao telepata Marshall. Este sacudiu a cabeça: Ellert não estava mentindo. Dizia a verdade. Por que seria tão vidente?
— Como profeta pode não valer nada, mas como inimigo dos invasores vale muito — prosseguiu Perry. — Pode abandonar seu corpo e sair em perseguição dos DI.
— Juntamente com Tako procurarei solucionar o problema — confirmou Ellert. Hesitou ligeiramente. Depois acrescentou:
— Segundo uma das alternativas que se abrem para o futuro, dentro de poucas semanas estarei morto. Mas, como acabo de dizer, isso é apenas uma das alternativas. Pode ser verdadeira, tanto quanto a outra, segundo a qual num futuro muito distante ajudarei você a consolidar o grande império galáctico.
Sem dizer uma palavra, Perry seguiu-o com os olhos quando ele deixou a sala de conferências juntamente com Tako, o teleportador japonês.

* * *

Outra sala de conferências.
Mais de três mil metros abaixo da superfície da calota de gelo que cobre a Groenlândia os presidentes dos três grandes blocos da Terra encontravam-se reunidos. Desta vez não se tratava de elaborar planos para uma ação conjunta contra Rhodan, mas de encontrar um meio de repelir a invasão. Mercant estava presente. Perry Rhodan participou da conferência pela televisão. Uma das paredes do pequeno recinto estava coberta por uma tela. Perry aparecia em tamanho natural. Os participantes da conferência viam-no e ouviam-no, da mesma forma que ele os via e ouvia. Nem parecia que se encontravam separados por milhares de quilômetros.
Depois de uma breve introdução, Mercant pediu a Perry Rhodan que expusesse a situação estratégica.
— Cavalheiros — principiou Perry sem rodeios — se não agirmos imediatamente, estaremos perdidos. Felizmente conseguimos a união definitiva dos povos, de maneira que a Terra se transformou num só planeta. Praticamente todas as fronteiras foram eliminadas. Os senhores, que são os presidentes dos três grandes blocos, governam o mundo, se abstrairmos de mim e do poder dos arcônidas. Também no terreno econômico uma coordenação mais estreita está em vias de ser formada. Devo pedir-lhes que permitam aos meus subordinados que se desloquem livremente nos seus países. O que quero dizer é que devem ter livre acesso aos órgãos governamentais e às repartições dos serviços de defesa. Incumbi meus subordinados de exercerem uma vigilância ininterrupta sobre as pessoas importantes da Terra, para que qualquer apossamento por parte dos DI possa ser detectado imediatamente. Para isso precisamos de plenos poderes. Peço-lhes que nos concedam.
Seguiu-se um silêncio embaraçoso. Ninguém atreveu-se a repelir frontalmente a exigência de Perry Rhodan. Mercant interveio:
— É evidente que os senhores presidentes não deixarão de reconhecer a necessidade premente desse procedimento extraordinário e transmitirão as instruções correspondentes. Não era o que pretendiam dizer?
O presidente do Bloco Ocidental confirmou com um aceno de cabeça. Depois duma ligeira hesitação o presidente da Federação Asiática e o do Bloco Oriental seguiram seu exemplo. Não viram outra saída. Perry respirou aliviado. O primeiro round estava ganho.
— Obrigado, cavalheiros. Com isso não precisarão preocupar-se mais com a defesa contra a invasão. Creio que com os meus homens darei conta do recado. Assim que localizarmos a nave espacial dos invasores, ela será destruída. Passemos ao segundo ponto. Conforme sabem, criei uma potência econômica conhecida pelo nome General Cosmic Company. O diretor comercial do truste é Homer G. Adams, o conhecido gênio financeiro de memória fotográfica. Nossas usinas estão sendo montadas em todos os pontos da Terra. Atualmente o capital da empresa é de trinta e cinco bilhões de dólares. Se estiverem dispostos a prestar-nos sua colaboração oficial também neste terreno, estarei pronto a adiantar a soma de trinta bilhões de dólares para o projeto que temos em perspectiva.
O presidente da Federação Asiática inclinou-se para a frente.
— A que projeto está se referindo? — perguntou numa atitude de espreita.
Perry Rhodan sorriu.
— Trata-se de uma frota espacial. A Terra precisa de uma frota espacial.
— Para quê?
— Existem muitos motivos para isso, senhor presidente. Um deles é de natureza puramente econômica. Já nâo é segredo que as guerras e as atividades armamentistas são responsáveis por boa parte do bem-estar material dos povos. Isto pode parecer cínico, mas não passa duma constatação objetiva. Por isso devemos continuar a guiar nossa atuação por esse princípio consagrado, com a única diferença de que nossos esforços não mais serão dirigidos aos preparativos para a guerra, mas a um objetivo inteiramente diferente: a frota espacial. A economia mundial pode beneficiar-se com um empreendimento desse tipo. Novas indústrias surgirão, todos os homens encontrarão trabalho. Será necessário criar fábricas e usinas, e teremos de encontrar meios de produzir matérias-primas e peças até então desconhecidas. É aí que residem as vantagens de natureza puramente econômica. Acontece que ainda existe um motivo estratégico para construir uma frota espacial. Os senhores destruíram o cruzador dos arcônidas, que se encontrava estacionado na Lua. Um dispositivo automático provocou a emissão do sinal de socorro, que vem sendo transmitido para todas as partes do cosmos a uma velocidade superior à da luz. Os sinais vêm sendo captados por inúmeras raças. A invasão que está sendo levada a efeito é uma das conseqüências desse fato. Os sinais podem despertar a curiosidade de outras raças, que talvez se desloquem para cá. O planeta Terra deverá estar em condições de repelir outras invasões. Para isso precisamos de uma frota espacial. Espero que a lógica irrefutável destes fundamentos não deixe de convencê-los.
Os participantes da conferência convenceram-se da validade dos fundamentos expostos por Rhodan. A proposta foi aprovada por unanimidade. Mas Rhodan ainda não havia chegado ao término da exposição. Passou a enfatizar a necessidade de que os três presidentes que ali se encontravam pensassem seriamente na maneira de formar um governo comum, que administrasse o planeta Terra. Concluiu com uma sugestão concreta:
— Temos de obter uma garantia definitiva de que nunca mais surgirá uma dissensão entre as nações. A formação da frota espacial incrementará a idéia da união mundial. Mas o espírito de união também deve ser estimulado por atos externos. O governo mundial, que ainda é considerado um sonho de utopistas ridicularizados, deve ser transformado em realidade. Nunca a situação se apresentou tão favorável a esse intento como hoje. O perigo comum e os esforços conjuntos para a construção da frota espacial constituirão fatores positivos. Peço-lhes que iniciem quanto antes negociações dirigidas a esse fim. É isso, meus senhores. Acho que poderão prosseguir na conferência sem a minha presença. Não tenho nada a ver com as questões internas. Mercant me informará sobre os pontos essenciais que forem debatidos. Agradeço-lhes pela confiança que vêm depositando em mim. Não os decepcionarei.
A tela apagou-se.
Mercant rompeu o silêncio:
— Senhores presidentes, os objetivos estão definidos. Para alcançá-los dependemos dos senhores. Achei conveniente convocar o homem que poderá assessorar-nos nas questões econômico-financeiras, a fim de que ainda hoje possamos alcançar um resultado palpável. Apresento-lhes o senhor Homer G. Adams, diretor comercial da General Cosmic Company.

III


Num quarto de hotel de Pequim, Ernst Ellert e Tako Kakuta realizaram seu conselho de guerra.
— Você é capaz, sim — disse Ellert em tom insistente. — Lembre-se de que destruiu a nave oval dos DI. Teleportou-se com a bomba para junto do inimigo. Se conseguiu transportar uma bomba, também deve estar em condições de carregar um homem. Sabe perfeitamente que pode teleportar a matéria com que entra em contato.
— É possível que você tenha razão — disse o japonês com um sorriso de cortesia.
— Tenho de experimentar. Para falar com franqueza, ainda não pensei nessa possibilidade.
— Pois vamos experimentar. De qualquer maneira o exército de mutantes só se consolidará através da experiência.
— Que tal se me levasse com você numa viagem para o futuro? — perguntou o japonês em tom sério. — Assim cada um de nós estaria retribuindo a gentileza do outro.
O rosto de Ellert alargou-se num sorriso.
— Então é nisso que consiste a coordenação de nossas forças? — ironizou. — Se Crest soubesse disso...
Subitamente o rosto de Tako assumiu uma expressão séria. Parecia lembrar-se da missão que lhes fora confiada.
— Encontramos Li — declarou. — O que faremos com ele? Como poderemos saber se anda fazendo alguma tolice? Não podemos prevenir os homens da Federação Asiática, pois não sabemos quem entre eles já pertence aos DI.
Nesse instante seus aparelhos de comunicação emitiram um zumbido. Comprimiram o botão de recepção. A voz de Ras Tshubai, outro teleportador pertencente, ao grupo, fez-se ouvir:
— Ouçam, temos trabalho. Li acaba de ir ao aeroporto onde adquiriu passagem para o Stratoliner com destino a Batang. Parte amanhã, às seis e trinta e cinco.
— Tão cedo! — gemeu Ellert, que gostava de dormir até tarde. — O que será que esse sujeito resolveu fazer justamente em Batang?
— Não faço a menor idéia. Não falou sobre a finalidade da viagem ao funcionário que lhe vendeu a passagem.
— Nem poderia ser de outra forma. Acho que você virá até aqui. Até amanhã de manhã Li não nos escapará. A que hora chegará a Batang?
— O tempo de vôo é de duas horas. Quer dizer que deverá chegar pelas oito e meia.
— Nós o receberemos em Batang — disse Ellert. — Não se preocupe mais com Li, mas dê um pulo...
Dentro de um segundo o africano corpulento se materializou naquele quarto de hotel. Quando viu que Tako e Ellert estremeceram, deu um largo sorriso. Ninguém, nem mesmo um teleportador, jamais se acostumaria a ver um homem surgir do nada.
— Você faz alguma idéia do que nosso amigo pretende fazer justamente no Tibet? — perguntou o japonês. — Se não me engano, Batang fica ali pelo Tibet.
— Você não se engana — confirmou Ras. — São mais de dois mil quilômetros. Isso representa um belo salto. Como poderemos executá-lo?
— Pegamos Ellert pelos braços, e lá vamos nós. Acho que conseguiremos.
Ras revirou os olhos.
— Pegá-lo pelos braços? Não vá me dizer que poderemos levá-lo conosco.
— Por que não? — disse o japonês. — Afinal, ele é mais leve que uma bomba de tamanho médio...

* * *

O aparelho pousou na hora prevista. Li desceu e dirigiu-se ao edifício do aeroporto, sem olhar para os lados. Parecia sentir-se muito seguro. Tako incumbira-se da vigilância direta, já que naquelas plagas um japonês não daria na vista. O minúsculo radiotransmissor que trazia no pulso mantinha-o em contato permanente com seus companheiros.
Li não trazia bagagem. Em compensação tinha consigo uma soma considerável em dinheiro. Ninguém, provavelmente nem mesmo o próprio Li, saberia dizer como conseguira pôr a mão nele. Alugou um quarto no hotel mais caro da cidade, pagou três diárias adiantadas e não apareceu mais na manhã daquele dia. Tako estava sentado num bar que servia vinho de arroz, situado do lado oposto da rua, e procurava matar o tédio. Se não o revezassem logo poderia acontecer que deslizasse para baixo da mesa e mergulhasse num sono feliz.
Pelo meio-dia Ras ocupou seu lugar. Tomou um gole de vinho tinto e asseverou que teria muito prazer em ficar ali até o anoitecer. No íntimo o japonês tinha suas dúvidas. Saiu do bar e dirigiu-se ao hotel, onde Ellert já o esperava.
— O que será que Li veio fazer neste lugar horrível?
Ellert estava deitado, lendo um livro. Quando Tako entrou, interrompeu a leitura e formulou a pergunta que mantivera sua mente ocupada por toda a manhã. Na verdade, não esperava nenhuma resposta. E não a recebeu.
— Não faço a menor idéia — gemeu Tako e mergulhou na poltrona mais próxima. — Não ficaria bem perguntarmos a ele. Você não poderia dar uma espiada no futuro para descobrir as intenções de Li?
— Como saberei se me encontro apenas num plano de probabilidades do futuro, ou na realidade? Felizmente não estou preso ao corpo. Posso transformar-me em intelecto desmaterializado e deslocar-me livremente, até mesmo em sentido diagonal ao fluxo do tempo. Mas nunca sei se realmente acontecerá aquilo que vejo.
— Pois tente! — sugeriu Tako, que não tinha uma idéia exata do problema. — Enquanto você dorme, cuido do seu corpo.
Ellert fez um gesto de assentimento e ficou deitado.
— Isso não pode fazer mal — reconheceu. — Mas não sei quanto tempo demorará. Não deixe ninguém entrar no quarto. Entendido?
Tako levantou-se e trancou a porta. Quando voltou, Ellert já estava imóvel na cama. O japonês inclinou-se sobre ele. Subitamente sobressaltou-se. Ellert deixara de respirar. Ou será que tudo não passava de uma ilusão? O pulso era muito fraco. Tako deu um beliscão nas bochechas do teleportador, que não reagiu.
O japonês também se deitou e logo adormeceu. Não houve nada que perturbasse o sossego daquele fim de tarde.
Enquanto isso, Li estava sentado num quarto de hotel, a poucas quadras de distância.
O ser imaterial que se apossara de seu corpo mantinha contato telepático com a neve de comando estacionada no espaço. As mensagens eram precisas e impessoais.
— Temos que desistir do plano de defender nossa base situada na Terra. O homem chamado de Li tornou-se suspeito. Apesar disso não convém procurar outro corpo, pois com isso teríamos de recomeçar todo o trabalho. Além disso, os terráqueos suspeitam de Li, mas não têm certeza. Li permanecerá em Batang por mais dois dias, depois pegará o Clíper com destino aos Estados Unidos. Oportunamente forneceremos novas instruções.
Dali em diante Li passou a mover-se sem destino. Tomava suas refeições, dava passeios pela cidade sem preocupar-se cora os homens que o seguiam e agia como um funcionário aposentado. Depois de três dias comprou uma passagem para Hong Kong, e dali para Carson City, em Nevada, Estados Unidos.
Conforme era de esperar, a tentativa de Ellert não produziu o menor resultado. Abandonara o presente e penetrara no futuro. Seu espírito pairara sobre Li, enquanto esse viajava de Hong Kong para Carson City. Um deslocamento lateral no fluxo do tempo revelou outra possibilidade. Viu o mesmo avião, sem Li. Qual seria a realidade?
Ellert desconfiou de que seu dom valia muito pouco. O presente representava a encruzilhada, a partir da qual se podia penetrar no futuro por inúmeros caminhos. Só o presente podia determinar a configuração do futuro. Dessa forma a visão do futuro representava a percepção de milhões de alternativas, e ninguém sabia qual dessas alternativas se transformaria em realidade.
Face a isso não havia como modificar os acontecimentos do passado.
Em compensação teve uma idéia de cujo alcance só começava a suspeitar. Teria de falar com Perry Rhodan. Se sua teoria fosse exata, os dias dos DI sobre a Terra estariam contados.

* * *

Perry Rhodan cumprimentou Ernst Ellert com um movimento da cabeça. Os dois homens estavam a sós na velha sala de comando da Stardust. Por uma espécie de sentimentalismo, Perry gostava de recolher-se a esse recinto sempre que desejava ficar a sós. Ali sentia-se tranqüilo e foi ali que sua carreira fantástica teve início.
Depois de um ligeiro preparo mental, Ellert começou a falar.
— Deixamos que Li viajasse sozinho aos Estados Unidos, pois conhecemos seu destino. A esta altura John Marshall já deve estar cuidando dele. Pelo que sei, Anne Sloane também se encontra em Carson City. Isso parece confirmar sua suposição de que o próximo objetivo dos DI será a base de Nevada Fields.
— Acredito que sim — confirmou Perry em tom tranqüilo.
— Enquanto abandonei meu corpo para vigiar Li, constatei um fato bastante estranho. Os DI comunicam-se por via telepática. Até consegui acompanhar parte das mensagens que trocaram entre si. Sem o entrave do corpo nosso intelecto realiza um trabalho muito mais perfeito e amadurecido. Acho que, se necessário, poderia manter contato direto com os DI, mas a meu ver isso não é recomendável. É preferível que nunca saibam dessa possibilidade. Mas há outra coisa. Estou convencido de que será possível seguir um DI que abandonou seu corpo. E qualquer teleportador poderá fazer isso. Ao movimentar-se, um teleportador transfere seu corpo para outra dimensão e faz com que o mesmo se materialize em outro ponto do espaço. Transforma-se em espírito, e com isso assemelha-se bastante aos DI. Acredito que nessas condições Tako ou Ras, ou mesmo eu, estaremos em condições de seguir um DI no momento em que ele abandonar o corpo de um ser humano para retornar ao seu próprio corpo.
Perry Rhodan escutara com muita atenção. Seu cérebro genial examinou as possibilidades, pesou as oportunidades e registrou todos os dados como se fosse um robô eletrônico. Valeu-se do saber imenso que lhe fora transmitido pelos arcônidas. Os centros de memória forneceram informações.
Depois de algum tempo acenou com a cabeça.
— Ernst você tem razão. Tem toda razão. Não deixaremos de fazer uma tentativa. Li deve ter ido a Nevada com uma incumbência especial. Anne Sloane me deixará informado sobre cada passo que ele der. Mas há outro assunto sobre o qual gostaria de falar com você. Sabe perfeitamente que nunca me vali de seus dons de teletemporador. De início me senti impedido por motivos de ordem ética. Além disso, chegamos à conclusão de que as múltiplas áreas de probabilidades não lhe permitem uma visão nítida do futuro. Todavia, devo pedir-lhe que faça uma exceção. Tivemos um acontecimento muito estranho...
Ernst Ellert parecia bastante interessado. Inclinou-se para a frente e segurou o jornal que Perry lhe estendeu. O título parecia saltar nos seus olhos. Começou a ler com muita atenção.
O artigo era o seguinte:

MENINA DE SEIS ANOS MATA O PAI COM UM TIRO DE PISTOLA
Assassinato Misterioso Praticado por Criança
Mesilla, Novo México, 17-2-72.
Notícia especial.

Um dos crimes de morte mais estranhos do século ocorreu ontem em Mesilla, N.M. A pequena Betty Toufry tirou a pistola do pai, que a segurava no colo, e o matou. A criança nunca tivera nas mãos uma arma desse tipo, e não sabia como manejá-la.

No citado artigo ainda se salientava que Allan G. Toufry era um cientista dedicado à pesquisa nuclear. Tivera participação decisiva nos últimos aperfeiçoamentos das armas nucleares e era um dos responsáveis pelas experiências realizadas no deserto. O redator da notícia ainda acrescentava em tom de ceticismo que a criada afirmava peremptoriamente ter visto que poucos instantes antes da tragédia a criança correra alegremente ao encontro do pai, mas de repente estacara. Logo após a pistola parecia voar às mãos da pequena. Naturalmente era o relato de uma pessoa que se encontrava à beira de um ataque de histeria não podia ser levado a sério, tinha ressalvado o repórter. De qualquer maneira, o ato de uma criança de seis anos que mata o pai é tão estranho que requer um minucioso exame psicológico.
Ellert levantou a cabeça e fitou os olhos indagadores de Perry.
— Então? Que acha?
Ellert deu de ombros.
— Não compreendo! O relato da empregada dá o que pensar. Não acredito que esteja mentindo.
— Também não acredito — confirmou Perry. — Tenho minhas desconfianças. Mas gostaria de ter certeza. Peço-lhe que se ocupe com a criança. Preciso saber o que será feito dela. Será que você poderia verificar?
— Até certo ponto, sim. Seja qual for o caminho do futuro, isso não altera a personalidade. Pouco importará a área de probabilidades em que me deslocarei, desde que a menina continue viva.
— Era o que eu imaginava, Ellert. Você terá que viajar ao Novo México, ou será possível fazê-lo a partir daqui?
— Seria conveniente ir até lá. Além disso estarei perto de Carson City.
Perry Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Está bem. Pegue o avião imediatamente. E transmita-me suas informações assim que chegar lá. Estou muito interessado na menina.

* * *

Um telepata estava em condições de identificar imediatamente os estranhos padrões ideológicos dos DI. O cerco em torno desses seres estava sendo apertado cada vez mais, mas não seria possível completá-lo sem perigo.
O porto espacial de Nevada era o campo de pouso das astronaves do Ocidente.
O cordão de isolamento que cercava a área impedia a penetração de qualquer pessoa estranha. Infelizmente tais medidas não tinham qualquer eficácia contra os DI, que a qualquer momento poderiam cruzar a faixa de segurança, sob o disfarce de um corpo humano.
Por isso era indispensável que os homens de Rhodan mantivessem uma vigilância ininterrupta no interior da zona bloqueada.
O capitão Burners, do serviço de segurança, não gostava disso, mas não lhe restava outra alternativa senão cumprir à risca as ordens de seu chefe supremo, Allan D. Mercant. Muitas dessas ordens tornavam-se incompreensíveis a esse homem acostumado a pautar seu procedimento por uma série de normas bastante simples. Quem não tivesse nada que fazer na base espacial lá não entraria. Era muito simples. Mas agora qualquer sujeito estranho podia intrometer-se em assuntos com os quais nada tinha que ver.
Era, por exemplo, o caso do tal do Marshall. Esse sujeito andava com um sorriso impertinente na cara sempre que falava com os outros. Fazia de conta que sabia de tudo. Mas não sabia de coisa alguma. Ao menos era o que Burners pensava. Pois bem. Afinal, era um dos homens de Rhodan, e este metia o nariz em tudo.
John Marshall, o homem que graças às suas capacidade telepáticas conseguira frustrar um assalto de banco na Austrália e por isso se unira a Rhodan, podia movimentar-se livremente no porto espacial de Nevada. Era perfeitamente compreensível que aproveitava a oportunidade para conhecer as vastas instalações da base. Conhecia o general Pounder, chefe da Força Espacial dos Estados Unidos, bem como seu ajudante, o major Maurice. Mantinha relações amistosas com o Dr. Fleet, médico-chefe da Força Espacial dos Estados Unidos, bem como com o Dr. Lehmann, dirigente do projeto científico e diretor da Academia de Tecnologia Espacial da Califórnia. Era claro que também conhecia o capitão Burners.
Por enquanto não localizara nenhum DI. Parecia estranho, mas era verdade. John ficou matutando sobre se o fato era intencional ou não passava de puro acaso, mas não encontrou nenhuma resposta. Ficava de olho nas pessoas mais importantes, falava com elas diariamente e examinava seus pensamentos. Não descobriu nada de extraordinário.
Hoje o Dr. Lehmann convidara-o para um jogo de xadrez.
Tratava-se de um cavalheiro de idade um tanto avançada, que era um adepto apaixonado do xadrez e sentia-se satisfeito por ter encontrado um parceiro digno de medir-se com ele. Evidentemente não sabia que John lia seus pensamentos e assim conhecia antecipadamente seus lances.
— Xeque-mate! — disse em tom de triunfo e recolheu a dama a uma posição que lhe parecia decisiva. Todo satisfeito remexeu o cachimbo, espalhando um cheiro pouco aromático.
— Será mesmo? — perguntou o australiano. — Pensa que não estou vendo o cavalo? Está enganado. Pronto! E agora?
Lehmann, perplexo, fitou o tabuleiro. Realmente pensara que seu parceiro tivesse esquecido o cavalo, já que estava há dez minutos no mesmo lugar, totalmente cercado e sem ser notado, mas infelizmente também numa posição inatingível.
John acendeu um cigarro, para fugir à fedentina do cachimbo de Lehmann, que acabara de segurar uma dama, erguendo-a num gesto pensativo. Estacou em meio ao movimento.
John, que sorria de si para si ao perceber que seu adversário pretendia deslocar a dama para uma posição que representava certo perigo para seu cavalo, subitamente sentiu-se chocado, pois o fluxo dos pensamentos de Lehmann sofreu uma interrupção abrupta.
O professor apresentava o aspecto de uma figura estarrecida. Os olhos vidrados fitavam o vazio. A mão que segurava a figura de xadrez ficou suspensa sobre o tabuleiro, imóvel e sem o menor tremor. Nem mesmo as pestanas se moviam.
John sentiu que algo de estranho se introduzia no espaço que ainda há pouco era ocupado pelos pensamentos do professor. Retirou-se apressadamente, limitando-se a manter um contato ligeiro, a fim de não impedir a penetração do DI.
Esforçou-se para não despertar a menor suspeita, pois sabia perfeitamente que dentro de poucos segundos um dos invasores o contemplaria através dos olhos de Lehmann. Dentro de cinco segundos aproximadamente, segundo afirmara Mercant.
Realmente. Uma vez decorrido esse lapso, o Dr. Lehmann voltou a mover-se. Num gesto automático colocou a dama numa posição em que não serviria para coisa alguma. A vida retornou àqueles olhos estarrecidos, que contemplaram John num gesto indagador.
— Então?
John procurou concentrar-se. Nunca se vira numa situação tão difícil. Quem dera que pudesse penetrar nos pensamentos do DI. Mas isso não era tão simples. Os invasores também dispunham de algumas capacidades telepáticas. Perceberiam logo. E isso não podia acontecer em hipótese alguma.
— O lance não foi bom, professor. Se quiser, posso colocá-lo em xeque-mate. Mas acredito que estivesse distraído. Por isso quero dar-lhe mais uma chance.
Pegou seu cavalo e colocou-o numa situação muito perigosa. Lehmann poderia eliminá-lo imediatamente. Mas não o fez. Provavelmente o DI precisava de algum tempo, para absorver as informações armazenadas na memória de sua vítima. O lance que executou não preenchia qualquer finalidade e infringia as regras do jogo.
John fez de conta que não percebia nada. Executou um lance apressado e procurou aproximar-se do espírito desconhecido. Mas esbarrou numa barreira mental que não pôde ser vencida. Absteve-se de recorrer a um processo mais violento, pois não quis despertar a atenção do inimigo. Mas já sabia que os DI podem envolver seus pensamentos com uma capa protetora. Era impossível adivinhar as intenções deles. Talvez a capa se tornasse porosa se permanecessem em contato por algum tempo. Teria de verificar.
O jogo assumiu uma feição arrepiante, embora o DI aprendesse depressa. John deixou-o ganhar e despediu-se com algumas palavras indiferentes. Ao concluir, disse:
— Espero que sua promessa continue de pé, doutor.
— Que promessa?
— A experiência. Será que já se esqueceu disso? O senhor disse que eu poderia assistir ao teste da câmara de combustão, que será realizado dentro de poucos dias.
— Ah, sim. É claro que poderá estar presente.
— Boa noite, doutor.
— Boa noite.
Assim que chegou ao seu quarto, John abriu a mala e tirou um transmissor pequeno, mas muito potente. Dali a poucos minutos estava falando com Rhodan, que não ficou nada satisfeito ao ter que afastar-se da companhia de Crest e dos outros mutantes logo de manhã. Quando, porém, ouviu a voz de John, a contrariedade cessou por completo.
Esperou até que John terminasse. Depois disse:
— Fique de olho em Lehmann. Recebi notícias de Anne Sloane. Li está a caminho de Nevada Port. Oficialmente viaja a mando de Mercant. Deverá encontrar-se com Lehmann. É possível que os dois pretendam executar algum plano que vise à paralisação da pesquisa espacial. Toda vigilância é pouca. Entre em contato com Anne assim que ela chegar aí. Assim que Ernst terminar a missão atual, ele lhe será enviado como reforço. Acho que o porto espacial de Nevada será o ponto crítico da invasão.
Rhodan nem desconfiava de que sua suposição seria totalmente confirmada pelos fatos.

* * *

Ernst Ellert não teve a menor dificuldade em seguir o caminho da pequena Betty Toufry através do fluxo do tempo. Numa faixa de cinco anos, situada no futuro, descobriu as melhores possibilidades de pesquisar sua personalidade. Houve uma estranha coincidência entre os mundos paralelos que se abriam diante dele.
Quando pairou invisível sobre a menina e procurou penetrar seus pensamentos, teve uma surpresa chocante.
Betty Toufry era telepata.
Voltou ligeiramente a cabeça, como se estivesse escutando. Logo um sorriso de autoconfiança passou pelo seu rosto. Estava sentada na varanda da casa em que vivia com o pai há cinco anos atrás, quando acontecera aquele fato inexplicável.
— Quem é você? — perguntou sem emitir qualquer som. Ellert compreendia perfeitamente. Decidiu abandonar todo e qualquer disfarce. Não adiantaria fingir diante dela, pois logo percebeu que as capacidades telepáticas da menina eram mais fortes que as suas.
— Meu nome é Ernst Ellert. Sou um dos colaboradores de Perry Rhodan.
— E daí? — disse a menina em tom de espanto. — Vem a mando dele?
Essa reação deixou Ellert estupefato.
— O que quer dizer com isso?
A menina parecia refletir. Subitamente um sorriso iluminou seu rosto.
— Ah, sim, Ernst. Quase me esqueço. Há cinco anos você me falou sobre sua excursão ao meu futuro. Foi graças ao encontro que ora estamos tendo que há cinco anos Perry Rhodan me admitiu no seu serviço. Desde então trabalho no exército dos mutantes. Nosso encontro de hoje só está ocorrendo para que nossa reunião se torne possível. Compreendeu?
— Só em parte — respondeu Ellert perplexo. — Quer dizer que você trabalha para Rhodan?
— Preste atenção, Ernst. Sou uma mutante nata. Minhas especialidades principais são a telecinese e a telepatia. Aos seis anos meu quociente intelectual já atingia o dobro do de um adulto normal. Em todas as partes do mundo estão nascendo mutantes. O novo homem está surgindo imperceptivelmente. Um dia ele tomará o lugar do homo sapiens.
— Isso é uma perspectiva terrível.
— Por quê? Só porque uma época está chegando ao fim? Não vejo nada de mau em tudo isso. O herdeiro do império galático não será o homo sapiens, mas o homo superior.
Ellert sentia-se cada vez mais confuso. Aquela menina, cujo quociente intelectual era muito superior ao seu, falava sobre coisas que na base só eram mencionadas em cochichos. No entanto, quase se esquecia de que se encontrava num futuro situado dali a cinco anos. E tudo indicava que se movia na dimensão da realidade.
— Você poderia responder a uma pergunta, Betty?
— Com todo prazer.
— Por que matou seu pai daquela vez?
Seus pensamentos hesitaram um pouco, mas logo surgiram com toda nitidez:
— No fundo tudo não passou de um ato instantâneo. Desde que sei pensar, li os pensamentos dele. Minha mãe morreu durante o parto, por isso dediquei-lhe todo o amor. Quando chegou em casa naquele dia, meus pensamentos correram ao seu encontro, mas esbarraram numa capa, que só pude penetrar com um esforço enorme. Quando consegui, deparei-me com o invasor. Foi uma experiência tão apavorante, que fiquei imóvel. Meu pai, aliás, o ser que naquele dia chegou em casa, já não era meu pai. Tomou-me no braço e me cumprimentou. Depois sentou. Captei seus pensamentos, e esses pensamentos ocupavam-se com a destruição do mundo. Pretendia fazer detonar no dia seguinte os depósitos subterrâneos de armas nucleares, a fim de destruir nosso continente. Naquela época ninguém teria acreditado numa criança. Meu ato foi quase automático. A arma que sempre trazia consigo veio ter às minhas mãos, impelida pela energia telecinética de que sou dotada. Depois... bem, depois aconteceu.
Ellert não respondeu logo. Seu pesar encontrou expressão em pensamentos de compaixão, que fluíam suavemente em torno da menina. Esta ergueu a cabeça e lançou os olhos para o céu azul, onde devia encontrar-se o espírito invisível de Ellert.
— Ernst, agora volte para junto de Rhodan e conte-lhe o que acaba de saber. Posso dizer-lhe uma coisa: a invasão dos Deformadores Individuais fracassará. A Terra os vencerá. Quanto a você...
Seus pensamentos extinguiram-se.
— Quanto a mim? O que haverá comigo, Betty?
— Não posso contar. Esqueça-se disso.
— Por que não pode contar?
— Não devo. Não me martirize. Você representa o ponto de transição da história da humanidade. Seu destino está ligado estreitamente ao império galáctico do futuro. Se desconfiasse do que vai acontecer, poderia tentar escapar ao seu destino. E isso não deve acontecer. Siga o caminho que foi traçado para você, para que Perry Rhodan possa atingir seu objetivo. Nós dois nunca mais nos veremos, Ernst...
— E dentro de cinco anos, agora? O que será? onde estarei?
— Dentro de cinco anos? Meu caro Ernst, daqui a cinco anos você verá a aurora de uma nova era da história da humanidade. E você a verá de um posto cuja posição ultrapassa tudo que nossa imaginação pode conceber. Agora deixe-me só, por favor.
Ellert sentiu que Betty Toufry se afastava dele. Não conseguiu penetrar mais no seu ser. Permaneceu indeciso por alguns segundos. Depois abandonou-a, retornando ao presente.
Sabia perfeitamente o que devia fazer...

IV


— Então você tem certeza de que a base terrena dos invasores se encontra em algum ponto localizado no Tibet?
Perry confirmou com um aceno de cabeça. Crest estava sentado perto dele. Segurava os últimos relatórios da General Cosmic Company, segundo os quais Homer G. Adams fazia erguer novas fábricas em todas as partes do mundo. A construção de uma frota espacial terrena havia sido iniciada. Ao menos nesse ponto as barreiras nacionais haviam sido demolidas.
— Tenho certeza, Bell. Os DI querem fazer com que Li se dirija a essa base. Infelizmente não sabemos o que deverá fazer lá. Os DI só modificaram seus planos quando sentiram o contato mental de Ellert, que agiu com certa falta de cautela. De qualquer maneira não desistiram da pessoa de Li. Ele viajou para o porto espacial de Nevada, onde se encontrou com o professor Lehmann. Estou convencido de que os dois receberam ordens de desferir um golpe grave contra a pesquisa espacial.
— Não sei como poderíamos impedir isso — interveio Crest. Parecia continuar a duvidar de que alguém pudesse estar em condições de resistir aos Deformadores Individuais. Sua raça decadente tornara-se tão indolente que não poderia lançar-se num combate contra os DI. — Esses seres subjugaram grandes impérios cósmicos, sem que ninguém conseguisse impedi-los.
— Pois nós os impediremos — retrucou Rhodan em tom áspero e enérgico. — E dispomos de meios para isso. Aquelas desastrosas bombas atômicas também tiveram seu lado bom. As radiações emitidas por elas produziram uma aceleração enorme da evolução natural. O homem já realizou algumas das transformações que normalmente só alcançaria dentro de algumas dezenas de milênios. Os membros do exército dos mutantes são os precursores do homem normal que surgirá dentro de uns dez mil anos. E isso aconteceu na hora exata. Se não pudéssemos contar com os mutantes, estaríamos à mercê dos DI.
Crest encarou Rhodan. Nos olhos avermelhados que se viam por baixo da testa alta, ardia um fogo igual ao que Perry já vira em outra oportunidade, quando falara com o arcônida sobre o futuro da Terra e do império galático. Lia-se nele uma expressão de admiração, alegria e confiança, misturada com uma certa preocupação. Por trás dele lia-se o saber imenso de uma raça antiguíssima, que assistira à formação e à morte de vários sistemas solares.
— Nas últimas semanas fiquei pensando muito sobre se o universo é governado pelo acaso ou pelo destino — disse em tom tranqüilo. — Quase chego a dar a primazia ao destino. Como não deve ser imenso e inconcebível o ser que move os fios...
Bell mudou o assunto, falando naquilo que mais o comovia:
— O que está acontecendo em Nevada?
Perry Rhodan esboçou um sorriso de superioridade.
— Estamos colocando uma armadilha e esperamos que os DI caiam nela. Se isso acontecer, e tudo indica que será assim, saberemos dentro em breve se estaremos em condições de repelir a invasão, ou se a batalha está perdida. Tudo depende da exatidão da teoria de Ernst Ellert.
— Acha que nossos teleportadores podem perseguir os DI desmaterializados, desde que eles abandonem sua vítima num estado de pânico?
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça em direção a Crest.
— É isso mesmo. Só assim poderemos localizar a base deles. O resto não será difícil. Talvez consigamos capturar mesmo alguns DI autênticos, isto é, seres dessa espécie na sua forma primitiva. Neste ponto Ellert teve uma idéia formidável. Tudo depende do resultado da experiência que será realizada em Nevada.
— Seria muita gentileza da sua parte — resmungou Bell — se nos contasse o que deve acontecer em Nevada.
— Isso pode ser resumido em poucas palavras, meu caro. Crest, convém que também você preste muita atenção. O que acontecerá é o seguinte...

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