segunda-feira, 8 de outubro de 2012

P-005 - Alarma Galático - Kurt Mahr [parte 2]


Webster saiu. Deixou atrás de si um Tako muito pensativo. Aquilo que Webster designava como seus truques provavelmente eram seus dons extraordinários e os recursos que as vestes dos arcônidas lhe proporcionavam. Como poderiam saber disso?
A pessoa de Webster também representava um enigma para ele. Ao que tudo indicava, pertencia a uma das camadas inferiores da sociedade. Trajava-se e falava como tal. Quem o teria enviado? Sua resposta à pergunta de como entrara ali dava a entender que era um arrombador ou coisa semelhante. Será que um bando de arrombadores poderia prestar auxílio a Tako? Conseguiriam roubar as peças do equipamento de uma nave espacial de trezentos metros de diâmetro?
A idéia divertiu-o; recuperou a autoconfiança. Não teria que temer nada. Pelo menos enquanto usasse as vestes arcônidas e possuísse o dom da teleportação.
Assim, achou preferível não mudar de roupa para o jantar. Desceu à sala de refeições tal qual estava e não se perturbou com os olhares espantados dos outros hóspedes.

* * *

Webster entrou numa sala na qual só havia uma mesa, duas cadeiras e, sobre a mesa, um telefone e um aparelho de intercomunicação. Fechou a porta cuidadosamente, depois de ter apagado a luz. Comprimiu o botão do aparelho de intercomunicação. Uma luzinha acendeu-se e uma voz áspera perguntou:
— O que houve?
— Aqui fala Webster. Acho que o homem virá.
— Muito bem. Mais alguma coisa?
— Não.
— Mas eu tenho uma coisa para você, Web.
— Diga.
— Finch deu com um sujeito que vive espionando esse japonês. Seu nome é Morgan e vem da Ferroplastics. Descobrimos que é detetive da empresa. Você e Finch ficarão de olho nele até que Yamakura tenha fechado negócio conosco. Não podemos permitir que alguém fareje os nossos negócios. Não tenham a menor consideração por ele.
— Está bem, chefe — respondeu Webster em tom submisso.
— Outra coisa. Ligue o telefone para cá. Quero ouvir o telefonema do japonês.
— Perfeito.
Webster comprimiu um botão que ficava na base do aparelho.
— Finch instalou seu quartel-general no restaurante Fratellini. Procure chegar lá quanto antes.
— Sim, chefe.
— Fim.
Webster desligou o aparelho de intercomunicação, abriu a gaveta da mesa e tirou uma pistola. Feito isso levantou-se, apagou a luz e saiu.
Do outro lado da porta ficava um escritório. Via-se uma fileira de cadeiras e escrivaninhas. Tudo estava coberto por uma grossa camada de pó que só era interrompida no trajeto da porta pela qual Webster acabara de passar até a saída.
A Eastern Transport era uma firma que só existia na placa colocada na porta de entrada. Se alguém lhe quisesse confiar algum objeto para ser transportado, diriam, numa linguagem adequada, que infelizmente estavam tão sobrecarregados, que nas próximas oito ou dez semanas não podiam aceitar nenhum serviço.
A porta de entrada dava para um corredor situado no trigésimo andar de um arranha-céu. A essa hora, o corredor estava vazio. Webster foi até o elevador e desceu. Deu boa-noite ao porteiro, pegou um táxi e foi até a Sétima Avenida, onde ficava o restaurante de Fratellini. Finch estava sentado numa sala que o proprietário costumava reservar para hóspedes especiais.
Webster sentou à sua frente.
Finch levantou os olhos.
— Parece que o peixe acaba de escapar da nossa rede — disse, devagar e com a voz cansada.

* * *

Jesse Morgan contribuíra involuntariamente para o fracasso que os homens de Finch acabavam de sofrer. Morgan era um dos detetives de Pinkerton e fora destacado para o serviço da Ferroplastics Limited e não demorou a descobrir que, ao esforçar-se para entrar em contato com o japonês Yamakura, era seguido por vários homens, que se revezavam e agiam com uma habilidade extraordinária.
Gastou uma boa quantia em corridas de táxi, entradas de cinema, uma enorme porção de sorvete que nem chegou a tocar e uma boa dose de energia física para livrar-se de seus perseguidores. Mas, com isso, seu plano de entrar em contato com Yamakura no seu apartamento, ainda naquela noite, caíra n’água.
Ficou refletindo sobre quem seriam as pessoas que ficavam grudadas aos seus calcanhares. Depois que Lafitte se recusara a informá-lo sobre as excentricidades do japonês, Morgan encarou o assunto como objeto de sua curiosidade pessoal. Pouco lhe interessava se de suas investigações poderia resultar algo de útil para a Ferroplastics Limited.
Morgan tinha uma idéia bastante nítida do japonês. Até poucas semanas atrás, quando o noticiário entrou numa estranha maré baixa, os jornais costumavam encher-se de informações sobre os acontecimentos estranhos que se desenrolavam no deserto de Gobi e que tinham sua origem nas pessoas que costumavam designar-se como a Terceira Potência. No caminho da China para os Estados Unidos muitas informações foram distorcidas, adulteradas e exageradas a tal ponto que, nos jornais americanos, se liam coisas que mesmo numa pessoa completamente desinteressada só provocava risos. Acontece que Morgan sabia separar o joio do trigo, para fazer surgir aquilo que tinha foros de verdade. E, agindo assim, achou mais que provável que Yamakura não fosse nenhum encarregado da Federação Asiática, conforme Lafitte procurou dar a entender com suas insinuações, mas um agente da Terceira Potência.
Sendo assim, pensou Morgan, talvez caísse no truque barato que iria aplicar.
Quando se sentiu absolutamente seguro de que não estava mais sendo seguido por nenhum dos desconhecidos, entrou numa lanchonete, sentou a uma mesa que ficava no canto mais escondido e pediu um refresco. Passado algum tempo, levantou-se e foi até o telefone. O aparelho ficava numa cabine bem fechada. Ninguém ouviria o que pretendia dizer. Ligou para o Hotel Atlantic, onde Yamakura estava hospedado.
— Aqui fala Donovan. Quero falar com o senhor Yamakura.
A telefonista murmurou algumas palavras incompreensíveis. Houve uma pausa, Logo após veio a resposta.
— Sinto muito, mas o senhor Yamakura está jantando.
— No hotel?
— Sim.
— Queira chamá-lo.
— Um momento. Vou ligar para lá.
Ouviram-se ruídos, o rumor de passos e de vozes. Finalmente uma voz aguda respondeu:
— Alô!
— Aqui fala Donovan — disse Morgan, falando devagar e enfatizando as palavras. — Quero fazer-lhe uma oferta.
Yamakura parecia perplexo. Levou algum tempo para responder:
— E quem lhe diz que estou interessado nas suas ofertas?
— Eu mesmo. Disponho de muitas relações e posso conseguir num golpe aquilo que o senhor teria de reunir aos poucos e com muito esforço.
— Não diga! — disse o japonês em tom irônico. — Vai fazer isso por pura caridade?
— Não. Tenho meu preço.
— E daí?
— Que tal um encontro?
— Onde?
— Faça uma sugestão.
Yamakura refletiu.
— Não conheço a cidade. Que tal a primeira lanchonete na rua à esquerda do Atlantic?
— De acordo. Quando?
— Daqui a uma hora.
— Muito bem. Aguardarei o senhor.
O japonês desligou. Ao sair da cabina telefônica, Morgan não conseguiu disfarçar um sorriso de satisfação.
Uma pessoa que não dispusesse de recursos extraordinários não teria caído num truque desses. Morgan não duvidava de que, embora tivesse concordado, Yamakura contava com uma tentativa de capturá-lo. Pagou a conta e seguiu a pé em direção ao local de encontro. Tinha tempo de sobra, mas queria chegar antes de Yamakura.

* * *

Finch recebeu, quase ao mesmo tempo, duas informações diferentes. Uma lhe causava preocupações, outra deixou-o satisfeito.
— Pete diz que o japonês está saindo do hotel — resmungou para Webster. Mas logo seu rosto se iluminou. — Por outro lado, Vale voltou a descobrir o cão-de-fila da Ferroplastics. Está sentado num bar do Washington Boulevard.
Webster fitou-o atentamente.
— Acho que já está na hora de lhe darmos uma lição — disse Finch. — Quer encarregar-se disso?
Webster fez que sim e levantou-se.
— Qual é a idéia?
— Façam-no sair do bar, levem-no a algum lugar e dêem-lhe uma sova. Digam-lhe que, se continuar a enfiar o nariz em nossos negócios, vai levar mais.
— Muito bem.
Webster saiu, pegou um táxi e foi ao Washington Boulevard. Lá, pediu ao motorista que seguisse junto ao meio-fio do lado direito. Viu um dos homens de Finch, pagou o táxi e desceu.
— Onde está o homem? — perguntou a Vale.
Este apontou com o polegar por cima do ombro.
— Lá dentro.
Webster olhou para o lado da rua. O Hotel Atlantic, onde Yamakura estava hospedado, ficava a menos de trezentos metros. Isso deu que pensar a Webster. Será que ele tinha um encontro marcado com Yamakura?
Assustou-se quando reconheceu, à luz dos tubos fluorescentes, a figura do japonês, que subia pela rua. Estava a uns cem metros de distância. Como andasse devagar, parando de vez em quando diante das vitrinas, ainda tinham uma chance.
— Onde está seu carro? — perguntou a Vale.
Vale apontou para um velho Chrysler, estacionado junto à entrada do bar.
— Agüente o japonês por aí, se ele chegar muito cedo — disse Webster e entrou no bar.
Conhecia a descrição de Morgan e reconheceu-o assim que o viu. Aproximou-se calmamente de sua mesa e parou perto dele. Sabia que tinha de falar de maneira a despertar um mínimo de suspeita em Morgan.
Morgan ergueu os olhos.
— O que deseja?
— O senhor Yamakura quer falar-lhe. “Isso tem que dar certo”, pensou Webster.
— Ele não vem para cá?
No mesmo instante, Morgan teve vontade de arrancar a língua. Como podia ter certeza de que o outro havia sido enviado por Yamakura?
Webster ficou satisfeito com a dica. Continuou:
— Infelizmente ele não pôde vir. Pede-lhe para que me acompanhe até o hotel em que está hospedado.
Morgan refletiu. Webster começou a impacientar-se.
— Parece que o senhor Yamakura tem muita pressa. Quer viajar hoje de noite.
— Ora essa! — disse Morgan em tom de surpresa.
Chamou o garção e pagou, saindo em companhia de Webster.
— Meu carro está aqui — disse este.
— Obrigado — respondeu Morgan. — Prefiro andar este pedacinho.
Neste ínterim, Webster o havia empurrado até o meio-fio. Sem que os transeuntes o percebessem, encostou o cano de uma pistola em Morgan.
— Faça o que digo! — murmurou.
Um olhar rápido fê-lo notar que Vale esbarrou em Yamakura e procurava detê-lo.
— Abra a porta e entre — ordenou Webster.
Morgan obedeceu. A pistola apontada para ele não lhe deixava outra alternativa.
Webster sentou perto dele. Vale continuava ocupado com Yamakura. Webster rangeu os dentes. Seu companheiro estava perdendo muito tempo. Yamakura pôs-se a conversar com ele.
Webster baixou o vidro e deu um assobio. Vale procurou livrar-se de Yamakura. Mas o japonês grudou-se a ele com uma obstinação que fez porejar o suor na testa de Webster. Vale disse:
— Muito prazer, cavalheiro. Tenho que despedir-me.
Correu em volta do carro. Mas Yamakura pareceu não se conformar com uma despedida tão apressada. Aproximou-se do carro, olhou pelo vidro e, antes que Vale pudesse dar partida, descobriu Jesse Morgan. O motor roncou e Webster grunhiu entre os dentes:
— Vamos embora!
Antes que Vale pudesse obedecer, a voz enérgica de Yamakura fez-se ouvir pela janela entreaberta:
— Espere! Quero ir com os senhores. Webster sentiu-se inseguro.
— O senhor é um dos homens com quem se pode falar pelo telefone AN 23-551, não é? — perguntou o japonês.
Webster confirmou com um movimento instintivo da cabeça.
— Pois então, leve-me. Não gostaria que acontecesse qualquer coisa a este jovem. Posso obter a lealdade dele de uma forma muito mais conveniente.
— Entre!
Yamakura abriu a porta da frente e sentou-se perto de Vale.
— Para onde gostaria de ir? — perguntou a Webster, virando-se de tal forma que podia olhar confortavelmente para trás.
— Para fora da cidade — respondeu este.
— Faça isso! — recomendou o japonês. Vale partiu. O carro disparou pela Washington Boulevard.
Vale dirigia muito bem. Saiu da cidade pelo caminho mais curto, deixou a auto-estrada e entrou numa via secundária. Parou a cerca de um quilômetro da estrada.
— Ande mais um pedaço — disse Yamakura.
O motorista fitou-o. Depois lançou um olhar indagador para Webster. Este deu de ombros. Vale deu partida e andou mais dois quilômetros.
— Obrigado; já chega — disse o japonês.
Voltou-se novamente para trás e disse a Jesse Morgan:
— Desça!
Morgan obedeceu sem pestanejar. Desceu, fechou a porta com força e, como que absorto em pensamentos, foi andando devagar pelo caminho, em direção à auto-estrada.
— Espere aí! — protestou Webster. — Nada disso! Tenho ordens...
— Calma! — disse Yamakura com um sorriso amável. — Logo saberá quais as minhas intenções.
Olhou para Vale.
— O senhor se importaria de seguir mais um pedaço por este caminho antes de voltar?
Vale sacudiu a cabeça e partiu. Webster estava perplexo. Olhando pelo vidro traseiro, viu que Morgan retornava à estrada, sem dar a menor atenção ao carro que se afastava.
Andaram mais um quilômetro. Depois voltaram. Começara a chover.
Dali a dez minutos alcançaram Morgan.
— Quando ele fizer sinal, pare — disse Yamakura.
Morgan estava parado sob uma árvore. Cobrira a cabeça com o casaco e gesticulava.
Vale parou. Morgan aproximou-se correndo e abriu a porta.
— Graças a Deus! — disse, atirando-se no assento junto a Webster, que estava apavorado. — Estava atrás de um ladrão quando fui surpreendido pelo mau tempo. Pode levar-me até a cidade?
O japonês fez que sim.
— Com muito prazer. Conseguiu alguma coisa?
— Não. Acho que segui uma pista falsa.
No caminho ficou falando de um homem que seguira desde a cidade, porque julgava ser um ladrão. Alguém o trouxera da cidade até ali, deixando-o na entrada do caminho, porque era para ali que a pista conduzia.
Morgan conversava sem cessar. Yamakura ouviu com toda a atenção. Webster e Vale, perplexos, começavam a compreender que Morgan perdera a consciência do que realmente acontecera.
E não era só! O espírito de Morgan criara uma compensação, que preenchia o vazio. Nunca mais se lembraria de Yamakura, o japonês que chegara a perseguir.
Yamakura deixou-o num subúrbio. Webster, que já se recuperara do espanto, começou a fazer perguntas. O japonês interrompeu-o com um gesto.
— Leve-me a um telefone público — ordenou. — Quero telefonar para AN-23 551.

* * *

O caminho que o fizeram percorrer dava àquela palestra o aspecto de um complô. Webster insistiu em que ficasse com os olhos vendados. Tako não se opôs.
Não se esforçou para reter na memória as curvas e subidas do caminho. Não teve dúvida de que conseguiria conduzir as negociações a um desfecho favorável, e que dali retornaria sem venda nos olhos.
Estava satisfeito porque o caso Morgan terminara tão bem. O acaso interferira nos seus planos, poupando-lhe muito esforço.
Finalmente a andança pelos corredores e escadas chegou ao fim.
A venda foi retirada. Tako viu-se numa sala parcamente iluminada e decorada com um bom gosto excessivo. Os homens que, de pé, rodeavam a grande mesa e o encaravam com os olhos curiosos combinavam com o ambiente.
— Boa noite, cavalheiros! — disse Tako em tom amável.
Os homens sorriram.
— Boa noite! — respondeu um deles. Tako conhecia-o. Vira muitas vezes seu retrato nos jornais. Pelo que se dizia, Stan Brabham mandava mais no Sindicato dos Trabalhadores do Aço que o próprio chefe.
Tako não estava surpreso. Não esperava outra coisa. A primeira aparição de Webster já lhe sugerira a idéia de algum sindicato.
— Vamos sentar! — disse Brabham em tom cordato, pegando uma cadeira para Tako.
— E vamos tratar logo de negócios, senhor Brabham — acrescentou o japonês.
Brabham piscou os olhos.
— Caramba! Como sabe?
— Leio os jornais — respondeu Tako, lacônico. — Mas, tanto faz. Quer ajudar-me?
Brabham fez que sim.
— Por quê?
— Em primeiro lugar, por causa disto — Brabham esfregou o dedo indicador no polegar. — E depois, porque simpatizamos com a Terceira Potência.
— Por quê? — repetiu Tako, disfarçando a surpresa.
— Entre nós existe muita gente que sabe ficar de olhos abertos — explicou Brabham com um sorriso. — Também na Ferroplastics Limited, por exemplo. Encare a coisa por essa forma: farejamos a coisa e tivemos bastante inteligência para tirar nossas conclusões. Esta explicação lhe basta?
Tako fez que sim.
— O que pode fazer por nós? — perguntou.
Brabham brincou com um toco lápis.
— Podemos arranjar-lhe quase tudo de que precisa — respondeu em tom tranqüilo. — Não estou exagerando.
Tako acreditou. Estava informado sobre o prestígio dos grandes sindicatos dos Estados Unidos.
— O que pede em troca?
— Cinco por cento do preço de compra de cada lote — respondeu Brabham sem a menor emoção.
Não era pouco. Mas era muito menos do que Tako esperava.
— Por que vai trabalhar tão barato?
— É o que precisamos. Além disso, acho que os senhores são pessoas formidáveis; já lhe disse isso. Têm todas as possibilidades de transformar-se numa terceira potência. Nós, os trabalhadores, não queremos ficar de braços cruzados quando se trata de instaurar a paz perpétua.
— Sabe que está agindo contra as leis de sua pátria?
Brabham confirmou com um gesto indiferente.
— Essas leis são uma tolice. Dentro de poucos anos todo mundo reconhecerá isso.
Tako refletiu. Depois soltou sua primeira pergunta:
— Está em condições de arranjar garrafas magnéticas com uma capacidade útil de mil metros cúbicos por unidade?
Brabham olhou para o lado.
— O que diz, Jeff?
— Não há problema; podemos arranjar essas garrafas — respondeu um homem pequeno e magro.
Brabham voltou a dirigir-se a Tako.
— O senhor receberá as garrafas. Quantas quer?
— Cinco.
— Para quando?
— O mais rápido possível.
— Jeff, quanto tempo levaremos?
— Quatro a cinco semanas.
— Dentro de cinco semanas. Concorda?
— Concordo.
— Mais alguma coisa?
Tako sorriu.
— Por enquanto é só, senhor Brabham. Não quero mostrar-lhe todas as cartas antes que o senhor me dê uma prova da sua capacidade. Espero que este tipo de cautela não prejudique nossa cooperação.
Brabham soltou uma estrondosa gargalhada.
— Compreendo — disse. — Mas nós o convenceremos.
— Os senhores terão de descobrir um meio para que ninguém descubra quem é o autor da encomenda — prosseguiu Tako.
Brabham confirmou com um movimento da cabeça.
— Pode deixar por nossa conta. Não gostamos de nos expor.
Ainda havia algumas formalidades para acertar. Finalmente Tako retirou-se, satisfeito e sem venda nos olhos. Uma vez no hotel, pagou a conta e saiu de Petersburg ao amanhecer.

V


Raramente algum homem inspirara tamanha gratidão a Perry Rhodan como a que sentia por Crest, porque o mesmo não lhe apareceu depois de terminado o treinamento.
É verdade que por ali ainda se encontrava Bell, que poderia perturbá-lo. Mas quando este despertou e ergueu-se, ficou sentado de costas para Rhodan. Inclinou-se para a frente e apoiou a cabeça nas mãos, como se ela fosse muito pesada.
Passou-se uma hora sem que fosse pronunciada uma palavra. Rhodan testou seu cérebro; viu diante de si um complexo imenso com uma quantidade enorme de minúcias que se lhe apresentavam com toda clareza. Havia uma gama infinita de conhecimentos armazenados. Assim que formulava qualquer desejo em pensamento, a respectiva solução oferecia-se imediatamente, desde que se tratasse de um problema matemático ou científico.
Procurou avaliar as dimensões do complexo que constituía seu cérebro, mas não descobriu nenhum limite. Era infinito. Por mais que se aprofundasse, não encontrava nenhuma parede, sempre havia um caminho que o conduzia mais adiante.
Levantou a cabeça. Seus olhos caíram no aparelho de intercomunicação. Poderia apostar tranqüilamente que Thora o estava observando lá do seu camarote e estudava suas reações. Não estava disposto a nutrir seu orgulho, vendo-o cismar por muito tempo sobre as conquistas da ciência dos arcônidas.
Levantou-se. Bell fungou aborrecido.
Isso não o perturbava. Bastava que um dos dois não se mostrasse impressionado, para deixar Thora nervosa. Saiu e foi andando pelo corredor. A porta de seu camarote estava aberta. Crest, sentado numa poltrona giratória, fitava o camarote de Thora numa tela de intercomunicação.
Quando Rhodan entrou, Crest voltou a cabeça.
— Então? — perguntou com um sorriso, em tom ligeiramente preocupado.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Nada. Cometi um erro.
Crest endireitou-se abruptamente. A poltrona seguiu-lhe o movimento.
— Um erro?
— Isso mesmo. Ao que parece a solução do problema ocorreu numa data mais recente. Acredito que seus homens tenham sido muito indolentes para examinar todos os aspectos do problema.
Crest estremeceu. Rhodan piscou em direção ao intercomunicador, dando a entender que suas palavras destinavam-se a Thora.
— Que interessante! — cochichou Crest. — Que erro foi esse?
— Trata-se do problema da reprodutibilidade das hipertrajetórias. Está lembrado? — explicou no tom mais indiferente que conseguiu dar à voz. — A equação diferencial em que elas se baseiam é instável, além de formalmente insolúvel. Trata-se de uma equação diferencial de sétimo grau, com aplicação de um processo de aproximação numérica de décimo terceiro grau. Vê-se que o processo de aproximação ainda encerra mais alguns graus de instabilidade que a equação. E, quando nos movemos no terreno da instabilidade, um pequeno desvio produz um erro de grandes proporções.
Até mesmo a matemática terrena conhece soluções de aproximação de sétimo grau para equações fundamentais desse tipo. Quer que lhe diga por que esse erro foi cometido em Árcon?
Crest não soube dizer mais nada.
— É porque o processo de aproximação que foi empregado torna-se muito cômodo — disse Rhodan com a voz áspera e retumbante. — É porque, segundo deduzo de outras informações, esse processo está gravado nas calculadoras. Foi por pura indolência que ninguém se deu ao trabalho de examinar a equação fundamental quanto à sua estabilidade e foi ainda por indolência que se empregou o método usual; um décimo da energia prevista seria suficiente.
Sentiu-se triste com a forma pela qual Crest reagiu à sua explanação; encolhendo-se lentamente, este deixou que a cadeira voltasse a inclinar-se para trás. Crest sacudiu a cabeça e murmurou palavras desconexas.
Rhodan procurou não olhar para a tela. Sabia que Thora o observava, e, provavelmente, o compreenderia. O drama fora preparado para ela, não para Crest. O erro era verdadeiro, mas a maneira de expô-lo fora escolhida para impressionar Thora. Gostaria de ver seu rosto.
Aos poucos, Crest foi recuperando o autodomínio. Rhodan dirigiu-lhe um sorriso tranqüilizador, para que voltasse a ficar em forma mais depressa.
— Não pretendia falar com você sobre isso — disse. — Apenas pretendia agradecer-lhe por tudo que fez por nós. Nem imagina como nos sensibilizou.
Crest compreendeu; interrompeu Rhodan com um gesto. Contorceu o rosto, como se quisesse rir, mas apenas conseguiu esboçar uma careta.
— Pare, Rhodan — murmurou com a voz débil. — Você está desperdiçando seus agradecimentos com a pessoa errada. Nós é que temos de ficar gratos. Gratos ao destino, por nos ter proporcionado um encontro com uma raça como a sua.
Ergueu-se na poltrona.
— Sabe que você é a primeira pessoa que se atreve a absorver de uma só vez os dez estágios de desenvolvimento? Sabe por quanto tempo tive de observá-lo antes de ter certeza de que poderia dar esse passo sem que seu espírito corresse perigo? Acreditava que levasse alguns dias para recuperar-se do choque tremendo causado pelo treinamento dos dez estágios. Mas o que vejo? Mal o transmissor é desligado, levanta-se, dirige-se a mim e diz: estão vendo, seus idiotas? Aqui vocês erraram. Sabe o que significa isso?
Qualquer um saberia a resposta. Respirando profundamente, Crest voltou a recostar-se na poltrona.
No corredor ouviram-se os passos de Bell, que pareciam marteladas. Rhodan ouviu-o murmurar de si para si. Bell entrou pela escotilha.
— Ouça, chefe! — disse em tom enfático. — Sabe que essa gente cometeu um erro? Ao tentarem obter uma reprodução matemática de uma hipertrajetória, empregaram uma equação diferencial de sétimo grau. Para isso...
A tensão de Rhodan terminou numa estrondosa gargalhada. Ao ouvir os primeiros sons, Crest assustou-se. Até parecia que o riso lhe causava dor. Mas, por fim, controlou-se e conseguiu brindar a situação com um sorriso quieto e resignado.

* * *

Uma hora depois a nave abandonou a trajetória terrestre e tomou a direção da Lua. Rhodan assumira o comando, executando-o de acordo com os conhecimentos adquiridos no processo de treinamento.
Reginald Bell exercia as funções de co-piloto.
Crest, sentado nos fundos, olhava fixamente para a frente. Vez por outra, Rhodan virava a cabeça para vê-lo. Para um homem da sua substância espiritual seria necessário bastante tempo para recuperar o equilíbrio após o choque pelo qual passara.
Thora só entrou na sala de comando quando a nave já havia tomado a rota da Lua. Rhodan não se voltou à sua entrada. Ouviu sua voz:
— Rhodan, você está perdendo seu tempo. Esta nave está equipada com direção automática.
Procurara ser irônica; ficou desapontada ao notar que não o conseguira. Bell encarou-a.
— Conhecemos os autômatos dos arcônidas — disse com voz indiferente. — Um deles mostrou-se muito eficiente na defesa de três foguetes nucleares na Terra, não foi?
Rhodan não pôde ver a reação de Thora. Não voltou a ouvir sua voz. Quando pôde ver o rosto de Bell, notou que este repuxava os cantos da boca num contentamento disfarçado.

* * *

A nave dispunha de grande variedade de instrumentos destinados à medição de radiações. Rhodan fez a nave parar acima do lugar em que se encontravam os destroços do cruzador espacial e pediu a Bell que realizasse as medições.
Na Lua não se verificara nenhuma precipitação de partículas radioativas. A radioatividade gerada pelas bombas foi projetada para o espaço, ou fixou-se ao solo. A ausência de atmosfera reduzia os riscos a que se expunha a pessoa que quisesse descer na Lua.
Pelos destroços não se podia saber se alguma parte do gigantesco cruzador espacial tinha escapado à destruição. Rhodan sabia que existia alguma esperança em relação ao compartimento interno, cujas paredes eram feitas de um tipo de plástico metalizado que possuía um campo de cristalização dotado de uma dureza que ultrapassava o poder de imaginação da metalurgia terrena e uma resistência à temperatura que não possuía similar. Os envoltórios feitos desse metal tinham capacidade de resistir a qualquer tipo de tensão mecânica e a temperaturas de até 80.000 graus centígrados.
Todavia, o casco do cruzador espacial estava reduzido a uma confusão de material derretido e endurecido. Para atingir o compartimento interno, teriam de procurar um caminho através desse labirinto de plástico metalizado altamente radioativo.
Bell informou:
— Dois microroentgen por hora.
— Numa altitude de cinqüenta quilômetros — completou Rhodan. — É uma conta muito simples, não é? No local podemos esperar — levou algum tempo calculando — cinqüenta a cem roentgen por hora, se considerarmos as dimensões da fonte geradora de radioatividade.
Bell confirmou com um movimento de cabeça.
— Quer dizer que não podemos utilizar nossos trajes protetores.
Rhodan voltou-se para Crest.
— A bordo desta nave existem trajes protetores contra radiações intensas e uma instalação de descontaminação. Não há motivo para deixarmos de pousar e examinar o cruzador.
Crest fez que sim.
Rhodan realizou um pouso impecável. A nave estacionou a cerca de um quilômetro do limite da área pela qual estavam espalhados os destroços do cruzador dos arcônidas.
— Pretendo sair com Bell — disse Rhodan. — O que tem de ser feito deve ser feito sem demora e somos os homens indicados para isso. Crest, gostaria de manter comunicação ininterrupta com você. Não quero correr o menor risco.
Para reforçar suas palavras, dirigiu-se ao painel de comando e regulou para desempenho zero os reatores que geravam a força do mecanismo propulsor. Com isso a decolagem seria retardada por meia hora, que era o tempo necessário ao aquecimento dos reatores. Só assim estariam garantidos contra uma decolagem instantânea realizada por Thora, que os deixaria naquele inferno radioativo.
Crest esboçou um sorriso. Thora não se moveu, mas o vermelho dos seus olhos emitiu um brilho mais intenso que de costume. Bell saiu à procura dos trajes protetores.
Eram muito mais práticos que os trajes de que Rhodan e os demais tripulantes dispunham na Stardust. Para colocar um traje espacial terreno com observância das normas, realizando os controles devidos, era necessário pôr a paciência do indivíduo à prova por mais de vinte minutos. Os trajes dos arcônidas podiam ser enfiados no corpo como qualquer roupa e uma luz junto ao punho esquerdo era o sinal de que tudo estava em ordem. Não havia nenhum recipiente de oxigênio desajeitado, nenhum rádio de capacete pesava sobre a cabeça, nenhuma junta de pescoço comprimia a nuca quando se olhava para cima. O traje gerava o oxigênio por meio de pequeninos recipientes de produtos químicos. O telefone miniatura era do tamanho de uma unha. O capacete e o traje formavam uma única peça, de maneira que não havia necessidade de qualquer junta.
Rhodan e Bell levaram pistolas de radiação. Era provável que a explosão das três bombas não lhes tivesse aberto nenhum caminho para o interior do cruzador espacial. A energia das pistolas de radiação atingia, no foco central, uma temperatura de cerca de cinqüenta mil graus. Teriam de recorrer a instrumentos mais potentes e pesados, se nenhuma das escotilhas do compartimento interno pudesse ser aberta de forma normal.
Crest seguiu-os com os olhos, quando deixaram a nave por uma das duas escotilhas. Thora não lhes deu atenção. Parada diante de uma tela, fitava os destroços de seu cruzador.
— Fique de olho nela! — disse Rhodan, dirigindo-se ao arcônida. Pouco lhe importava que Thora ouvisse suas palavras ou não.
Ligaram os geradores e foram levados aos poucos para a área atingida pelas explosões. Vistos de perto, os destroços derretidos e disformes ofereciam um aspecto assustador.
Não trocaram uma única palavra. Só Crest falava de vez em quando.
— Tudo em ordem!
Rhodan pousou junto ao maior monte de destroços que conseguiu localizar. Tudo indicava que no interior do mesmo devia encontrar-se o compartimento interno do cruzador espacial.
Ao olhar para cima a fim de avaliar a altura da massa de metal, Bell começou a gemer.
Sem a menor perda de tempo, puseram-se a trabalhar. As pistolas de radiação desprenderam os destroços, pedaço por pedaço, abrindo um caminho. O dosímetro registrava dez roentgen; ainda não fazia dez minutos que se encontravam fora da nave. A única coisa tranqüilizadora em meio ao ambiente desolado era a voz de Crest.
— Tudo em ordem!
Numa hora conseguiram avançar uns vinte metros para dentro do monte.
Rhodan ficou preocupado; não sabia se aquele amontoado teria estabilidade bastante para sustentar as paredes de um túnel de cerca de vinte metros de extensão. Pediu que Bell suspendesse o trabalho por algum tempo e bateu no material. A cada batida descansava a mão no local em que dera a mesma, a fim de poder sentir qualquer reação anormal que se verificasse. Mas não percebeu nada além da vibração normal do plástico metalizado quando percutido.
Fez um sinal a Bell. O trabalho prosseguiu.
Dali a mais uma hora o monte foi se tornando menos denso. Prosseguindo pelas gretas que se abriam, avançaram um bom trecho sem usar a pistola de radiação.
— Já fizemos cinqüenta metros — murmurou Bell. — Acho que não falta muito.
Bell arquejava visivelmente.
— Pois então! — resmungou, dirigindo o raio de sua pistola contra o obstáculo que se lhe antepunha.
Dali a um minuto soltou um grito de triunfo:
— Veja! Chegamos!
Rhodan olhou por cima de seu ombro. Atrás do último pedaço de plástico metalizado que conseguiram desprender apareceu uma parede lisa. Ao primeiro lance de olhos notava-se que ela não fora afetada pelo calor da explosão.
Rhodan sabia que o plástico metalizado provido de um reforço de cristais elásticos era de cor azul-turquesa. E azul-turquesa era a cor da parede que Bell pusera à vista.
Intensificaram os esforços. Trabalhando encarniçadamente, conseguiram limpar metro por metro da parede. Crest começou a fazer perguntas, mas só lhe deram respostas lacônicas.
— Aqui há uma escotilha — disse Bell depois de algum tempo.
Como trabalhasse à frente de Rhodan, descobrira em primeiro lugar a estreita reentrância na parede. Estava em posição inclinada, o que indicava que a posição do compartimento interno se modificara com a explosão. Levaram quinze minutos para desobstruir a escotilha. Rhodan sabia que no momento da explosão ela se fechara automaticamente e só se abriria com um código especial, isso se o mecanismo ainda funcionasse.
Pegou o emissor de impulsos que trouxera da nave. Era um bastão da grossura de um lápis, com dez centímetros de comprimento, que trazia um minúsculo decodificador no seu interior. Comprimiu-o contra a escotilha.
Subitamente percebeu que o chão tremia sob seus pés. Parecia que a escotilha iria mover-se. Rangendo, abriu-se numa fresta de alguns milímetros, apenas para voltar a fechar-se, quando não pôde vencer as forças que a obstruíam.
Rhodan fez um sinal a Bell. A escotilha era leve e não muito grande. Com algum esforço, um homem poderia abri-la com a energia muscular.
Pela segunda vez, Rhodan pôs a funcionar o emissor de impulsos. O chão voltou a vibrar. Do lado direito da escotilha surgiu uma fresta. Desta vez era mais larga; Bell conseguiu enfiar nela as pontas dos dedos.
Apoiando o ombro contra a parede, puxou com toda força. Rhodan não tirou o emissor de impulsos de cima do material azul.
Bell mudou de posição e voltou a puxar. De repente, ele perdeu o apoio e, face à gravitação pouco intensa da lua, foi atirado com toda força contra a parede do túnel. O obstáculo fora vencido. Abrindo-se para o lado, a escotilha pôs à vista o corredor estreito e escuro de uma eclusa. A voz de Crest soou, longe:
— Tudo em ordem por aqui. O que houve com vocês?
— Encontramo-nos diante de uma decisão difícil — respondeu Rhodan.
— O que é?
— A escotilha está aberta. Ao que parece a eclusa está funcionando. Tivemos bastante trabalho com a escotilha. Se entrarmos normalmente, pode ser que não consigamos abrir a escotilha do lado de dentro.
— Não compreendo.
— Poderíamos abrir o outro lado da eclusa sem fechar a escotilha, mas nesse caso o ar que se encontra no compartimento interno escaparia de forma explosiva.
— Isso os incomoda? Não poderiam abrigar-se?
— A nós isso não incomoda nem um pouco. Mas pode ser que lá dentro alguém esteja vivo. E então?
Ouviram a respiração de Crest.
— Quais são as possibilidades? — perguntou. — Se alguém estivesse vivo, já teria tido possibilidade de comunicar-se conosco.
— Pode ser que esteja gravemente ferido e não possa movimentar-se.
Crest suspirou. Depois de algum tempo disse com a voz tranqüila:
— Abra de qualquer maneira! Não podemos correr nenhum risco. Temos muita pressa dos objetos que se encontram no compartimento interno.
Rhodan fez que sim. Se dependesse dele, teria tomado a mesma decisão. Mas, num momento desses, convinha dividir a responsabilidade com alguém.
Bell tirou o emissor de impulsos das mãos de Rhodan e dirigiu-se ao outro extremo da eclusa.
— Aqui há um lugar em que posso abrigar-me — disse em tom tranqüilo. — Fique do lado de fora, chefe.
A escotilha interna não apresentou o menor defeito. Os destroços tremeram quando o ar foi expelido num golpe. Juntamente com ele saiu uma nuvem de pó e alguns instrumentos menores que se encontravam soltos. A confusão não durou mais que um segundo. Quando Rhodan entrou, Bell estava saindo do esconderijo.
— Santo Deus! — gemeu. — Até parece que alguém jogou um saco de areia na minha cabeça.
Procurou olhar pela lâmina transparente.
Lá dentro estava escuro. Mas havia uma lâmpada nos seus capacetes. Acenderam-na para iluminar o caminho.
Rhodan notou que o interior do compartimento fora afetado pela explosão muito mais que o envoltório. Com a explosão, o compartimento ficara de cabeça para baixo. Alguns dos aparelhos mais pesados tinham sido arrancados de seus suportes e estavam inutilizados.
Mas havia muita coisa que ainda poderia ser aproveitada. Seria muito mais fácil se levassem para a Terra tudo que ali se encontrava.
Bell foi andando, curioso. Rhodan quis dizer-lhe alguma coisa. Mas nesse instante a voz trêmula de Crest fez-se ouvir.
— Pelo amor de Deus! Rhodan, Bell! Venham o mais rápido possível! Venham!
Rhodan parou.
— O que houve?
— Rápido! Venham logo!
Rhodan virou-se e saiu em disparada. Bell seguiu-o. Desligaram a gravitação e, fazendo movimentos vigorosos de nadador, avançaram velozmente pelo túnel que haviam aberto.
Uma vez do lado de fora, regularam os geradores para a potência máxima e saíram numa trajetória alta em direção à nave. Crest abrira a eclusa ou então nem chegara a fechá-la. Passaram alguns segundos de impaciência, enquanto os dispositivos acoplados à eclusa encheram-na de ar.
Crest esperava-os atrás da escotilha interna. Tremia e seus olhos brilhavam numa tonalidade vermelha.
— O que houve? — perguntou Rhodan.
— É uma coisa horrível! — suspirou Crest.
Rhodan correu em direção à sala de comando. Crest teve de esforçar-se para permanecer ao seu lado.
— Thora largou uma hipersonda. Isso não era contra nosso acordo, e, assim, não a impedi.
Rhodan confirmou com um movimento de cabeça. Enquanto andava, começou a tirar o traje espacial. Uma hipersonda servia para localizar o feixe de ondas de um hiperemissor. Esse feixe podia ser concentrado numa fração de centímetro e quem não o captasse diretamente, nada perceberia de sua existência. Existiam sondas inteiramente automatizadas, formadas de pequenas naves, cujo tamanho não ultrapassava o de uma mão humana e que vasculhavam determinada área, centímetro por centímetro, detectando qualquer onda direcional que ali se localizasse.
Entraram na sala de comando. Thora estava encostada ao painel de controle, com o rosto voltado para eles. Rhodan notou um traço de orgulho misturado com ironia. Limitou-se a contemplá-la com um olhar de esguelha.
— Por algum tempo a sonda ficou vagando por aí, sem encontrar nada — prosseguiu Crest com a voz exaltada. — Mas, de repente, encontrou alguma coisa.
— O que encontrou? — perguntou Rhodan com a voz impaciente.
— Descobriu os impulsos emitidos por nosso hiperemissor. — Crest apontou apressadamente para a tela que mostrava a nave destruída. — Os impulsos provêm da nave. São impulsos automáticos de emergência. Compreende?
Rhodan compreendeu de imediato. Mais que isso, logo percebeu as conseqüências. Todas as naves arcônidas eram equipadas com um hiperemissor. A energia emitida por ele tinha a mesma estrutura matemática do campo hipergravitacional que possibilitava as viagens espaciais a uma velocidade superior à da luz. As hiperondas propagavam-se de forma quase instantânea por qualquer distância, constituindo o meio de comunicação ideal de uma época que calculava em termos de milhares de anos-luz com a mesma naturalidade com que o homem lidava com quilômetros.
Todo hiperemissor era equipado com um dispositivo automático de emergência que o colocava em funcionamento logo que algo acontecesse à respectiva nave, tanto em virtude de um ataque vindo de fora como de um defeito interno. Dali em diante, o emissor irradiaria, em seqüência ininterrupta, um sinal predeterminado. Além disso, concentrava o feixe de ondas, orientando-o em direção ao receptor mais próximo.
Rhodan sabia que o receptor a que se destinava o sinal de emergência estava postado em Mira-4. Estava bem informado sobre isso. Era um planeta desolado e frio que ficava perto de um sol em extinção, a menos de oitocentos anos-luz do ponto em que se encontravam. Era tão inóspito que o Império só colocara nele uma divisão de vanguarda de naves robotizadas.
As conseqüências eram facilmente previsíveis. As naves robotizadas receberiam o sinal de emergência e decolariam em direção ao emissor. Constatariam que o cruzador fora destruído por um bombardeio de foguetes. Localizariam a base desses foguetes e empreenderiam uma ação de represália nas áreas adjacentes, empenhando nela todo o seu potencial.
No presente caso, a base de foguetes situava-se na Terra e a área adjacente compreendia todo o planeta. Sem dúvida as naves robotizadas estariam em condições de exercer uma represália à altura.
O fato de o emissor de emergência localizada na nave emitir o sinal convencionado significava apenas que dentro de quarenta e cinco dias, contados do momento em que o cruzador espacial foi destruído, alguém procuraria transformar a Terra num montão de cinzas. E, pelo que tudo indicava, esta não estaria em condições de defender-se contra o ataque. As únicas pessoas que poderiam vir em seu auxílio estavam separadas por profundas divergências.
Rhodan olhou para Crest. Este parecia adivinhar seus pensamentos.
— Já pus o reator em funcionamento — disse.
Rhodan fez um sinal de agradecimento.
— Partiremos o quanto antes.


VI


O Fiorde de Umanaque, no estreito de Davis é um lugar que, para se distinguir o céu cinzento, das montanhas, também cinzentas de gelo, deve-se colocar a mão para sentir o gelo ou o ar entre os dedos.
Dificilmente haveria um trecho de terra mais desolado. E dificilmente haveria outro em que se tomavam decisões tão importantes como ali.
O fiorde de Umanaque servia de quartel-general ao Conselho Internacional de Defesa. No momento, o número dos agentes estrangeiros que o abarrotavam quase chegava a exceder o dos que pertenciam aos seus quadros.
Pouca coisa se via por cima do solo. Apenas algumas casas de espessas paredes de madeira pertencentes a uma sociedade comercial dinamarquesa e habitadas por esquimós. Numa das casas havia uma tábua sobre a qual alguém escrevera, em letras desajeitadas, que ali se vendiam peles. Mas, até então, nenhum mercador havia adquirido peles da Umanak Fur Company.
Os esquimós eram agentes bem treinados. O chefe do posto era um dinamarquês que ocupava o posto de primeiro-tenente e era bem visto por Allan D. Mercant.
O restante das instalações estavam ocultas sob o gelo e a rocha. A expressão “o restante” pode induzir em erro sobre a situação real. Mais de noventa e cinco por cento das atividades exercidas no fiorde de Umanaque desenrolavam-se abaixo do solo e a distribuição das instalações seguia a mesma proporção.
Umas quinhentas pessoas viviam constantemente em Umanaque, mas destas apenas dez conheciam todas as instalações subterrâneas. Os agentes da Federação Asiática e do Bloco Oriental, hospedados no local durante os dias de cooperação forçada, só conheciam os dois andares superiores.
Mercant residia no piso mais baixo do conjunto. Estava cercado de todos os lados por dispositivos de segurança. Não temia pela sua segurança pessoal. O que preocupava a ele, e aos que haviam instalado os dispositivos, era a quantidade enorme de documentos secretos, da mais alta importância, guardados nos cofres blindados do pavimento inferior.
Mercant possuía um escritório particular, montado segundo seu gosto pessoal. As dimensões dos móveis eram exageradas. O visitante que penetrasse pela primeira vez naquela sala enorme teria de procurar por algum tempo antes de encontrar o oficial de pequena estatura. Em geral, Mercant ficava sentado atrás da imensa mesa; reclinado numa poltrona que de tão grande dificilmente poderia ser confortável, só a cabeça aparecia por cima da tampa da mesa.
Não dividia as horas do dia. Trabalhava até sentir-se tão cansado que o prosseguimento das suas atividades não daria nenhum resultado; dormia e levantava-se quando se sentia razoavelmente descansado. A iluminação uniforme das peças por ele ocupadas ajudava-o a esquecer o ritmo harmônico do dia de vinte e quatro horas que prevalecia lá em cima.
Os verdadeiros prejudicados eram os ordenanças de Mercant. A maior parte deles apreciava uma atividade regular e um sono a horas certas. Mas Mercant defendia a opinião de que a segurança do mundo não devia ser negligenciada em benefício da predileção que alguns oficiais subalternos nutriam pelas rotinas da vida burguesa.
Naquele dia levantara às três horas. Não se interessou em saber se eram três horas da manhã ou da tarde. Começou a trabalhar em assuntos que tivera que deixar de lado ao deitar-se.
Às três e quinze apareceu o sargento O’Healey informando-o:
— Nenhum acontecimento extraordinário nas últimas quatro horas, senhor.
Saiu. Daí a alguns minutos, voltou com uma xícara de café e alguns biscoitos. Esperou tranqüilamente até que Mercant engolisse o primeiro gole do líquido fervente e formulasse a pergunta usual:
— Que horas são, sargento?
— Três horas e vinte e três minutos, senhor.
Olhando por cima da xícara, Mercant fitou o relógio. Eram três e vinte e dois.
— De que parte do dia?
— Da manhã, senhor.
Satisfeito, Mercant abanou a cabeça. O’Healey cumprimentou e saiu. Já se desacostumara de refletir sobre aquele cerimonial estranho. Quando iniciara o serviço junto a Mercant, o mesmo lhe parecia uma piada de mau gosto.
A cirurgia plástica conhecia uma porção de truques difíceis de desmascarar. Para garantir-se contra eles, Mercant obrigava os sargentos da sua guarda a dizerem um minuto mais que o real, quando perguntados a respeito da hora. Além disso deviam dizer “de manhã”, quando era de tarde ou de noite, e vice-versa.
O’Healey estava convencido de que Mercant o mataria na hora se por esquecimento dissesse a hora exata ou a metade verdadeira do dia.
No entanto, em parte, estava enganado. Mercant estaria satisfeito quanto à identidade de O’Healey se este lhe dissesse um minuto a mais que o tempo verdadeiro. A indicação da metade do dia em que se encontravam representava uma verdadeira informação para ele. Só quando O’Healey lhe dizia que era de manhã ficava sabendo que na verdade já era de tarde.
Meia hora depois de O’Healey ter saído o capitão Zimmermann veio apresentar seu relatório.
— O mais importante, senhor, é a conferência com os oficiais da Federação Asiática — principiou. — O major Pervuchin, de Moscou, participará como observador.
— O que pretende observar? — perguntou Mercant entediado. — Tem alguma idéia do que estes amarelos querem desta vez?
— Pelo que se diz, trazem uma porção de sugestões que gostariam de discutir com o senhor.
— Sugestões para quê? Para uma paz mundial duradoura?
— Não, senhor. Sobre a maneira de agarrar aqueles desertores no deserto de Gobi.
Mercant levantou a mão direita e examinou as unhas.
— Não fique chamando essa gente de desertores, Zimmermann. Ouvi muita coisa boa a respeito deles e não pretendo julgá-los antes de conhecer seus motivos.
Zimmermann não respondeu.
— Mais alguma coisa? — perguntou Mercant.
— Por enquanto nada, senhor.
— Obrigado.
Zimmermann fez continência e saiu.

* * *

Rhodan pousou a nave a trezentos quilômetros da costa, numa planície de gelo cinza-azulada. A planície não era muito extensa e estava cercada de todos os lados por montanhas bastante altas. Não havia o menor perigo de que alguém descobrisse a nave por acaso. Além disso, na Groenlândia trezentos quilômetros representavam uma distância mais que suficiente.
Face aos recursos técnicos de que dispunha a nave, Rhodan não teve a menor dificuldade de escapar às sondagens realizadas pelas bases de radar, bastante numerosas nos arredores do fiorde de Umanaque. Estava certo de que nas telas não surgiria o mais leve lampejo.
A possibilidade da localização ótica direta não preocupava Rhodan. As nuvens pendiam bem baixo sobre o solo da Groenlândia. Era mais fácil manter a nave acima dela do que cercá-la de uma cúpula defletora, que consumiria uma quantidade considerável de energia.
Ao retornar da Lua, avisara Tako do ocorrido e mandara-o de volta para o lago salgado de Goshun. No momento, havia coisa mais importante a fazer do que manobrar nas antecâmaras dos capitães-de-indústria. Rhodan tinha boas razões para acreditar que dentro de pouco tempo já não seria necessário transmitir os pedidos às escondidas, com um receio constante dos serviços secretos. Era bem verdade que, conforme provara a atuação de Tako, mesmo por essa forma podia se conseguir muita coisa.
Rhodan saiu da nave de tarde, com um traje transportador arcônida e uma pistola de radiação. Bell ficou para trás, já que, com a descoberta realizada na Lua, a rebeldia de Thora parecia ter entrado numa fase mais ativa e a vigilância exercida por Crest não era suficiente.
Com o traje transportador, venceu os trezentos quilômetros que o separavam do fiorde de Umanaque em uma hora e meia. O tédio da viagem, juntamente com a incerteza sobre aquilo que o esperava, mexiam com os nervos de Rhodan.
Nada indicava que Mercant seria acessível às suas solicitações, a não ser a revelação que o capitão Klein lhe fizera no deserto de Gobi, de que Mercant sabia do papel ambíguo que ele, Klein, estava desempenhando e, aparentemente, o aprovava.
Acionou o defletor a partir do momento em que deixou a nave. O campo de deflexão, alimentado pelo microgerador embutido no traje que Rhodan envergava, exercia sua influência sobre radiações eletromagnéticas de comprimento de onda situados no intervalo de 2.000 a 80.000 angstrom, obrigando-as a contorná-lo como as linhas de fluxo de um processo hidromecânico. Isso significava que a pessoa que envergasse um traje desse tipo não poderia ser vista através das radiações ultravioletas, da luz comum ou dos raios infravermelhos. O traje não podia desviar os raios do radar, mas o objeto era muito pequeno para ser localizado por esse meio.
Com o aprendizado que recebera, Rhodan compreendeu que as radiações eletromagnéticas submetidas à influência do campo defletor podem ser interpretadas de acordo com as equações da hidromecânica. No entanto, o campo defletor propriamente dito escapava às possibilidades da matemática terrena, já que sua descrição é realizada através de equações em que se inserem constantes situadas no espaço de cinco dimensões.
Rhodan pousou no interior do posto da Umanak Fur Company. Não sabia que direção deveria tomar para encontrar Mercant. A única coisa que sabia era que ele residia sob o solo. A primeira coisa que teria de fazer era localizar a entrada para as dependências situadas no subsolo.
Descobriu que, mesmo invisível, era difícil locomover-se entre as pessoas. No fiorde de Umanaque desenvolvia-se uma atividade febril. Quando duas pessoas se aproximavam dele, vindas de direções diferentes, via-se obrigado a concentrar-se totalmente no esforço de desviar-se delas.
Pelas quatro da tarde, Rhodan descobriu um lugar que, segundo lhe parecia, constituía o acesso às instalações subterrâneas. Pelo aspecto externo parecia um grande depósito, de telhado baixo. Parado nas proximidades, vira uma porção de gente desaparecer no interior do edifício ou sair dele.
Colocou-se junto à porta e esperou. Quando apareceu a primeira pessoa, esgueirou-se com ela porta a dentro. O interior do edifício estava profusamente iluminado por lâmpadas de plástico. Na parede oposta viu a desembocadura de uma galeria alta e larga.
O movimento intenso de pessoas no interior da galeria representava um perigo que não devia ser subestimado. No percurso de cinqüenta metros que separava a entrada da galeria dos elevadores teve de concentrar toda sua atenção para não esbarrar em ninguém.
Os elevadores eram quinze ao todo. Rhodan não se atreveu a utilizar um deles exclusivamente para si. Esperou que uma pessoa entrasse, para colocar-se a seu lado.
Infelizmente essa pessoa só desceu dois andares. Rhodan ficou sozinho no elevador. Viu um guarda uniformizado enfiar a cabeça.
— Tudo em ordem — murmurou o homem. — Pode andar.
Mal o guarda se retirou, Rhodan comprimiu o botão de baixo. O elevador arrancou e foi descendo.
Assim que parou, Rhodan desceu. A galeria estendia-se para ambos os lados. Era igual à de cima. Na parede oposta à dos elevadores via-se o número 15. Rhodan contara: era o décimo quinto andar a partir do nível do solo.
Junto à parede estavam postados vários guardas. Dois deles dirigiram-se ao elevador de que Rhodan acabara de sair. Examinaram a cabina. Um deles virou-se e gritou para os outros:
— Olhem só! Alguém apertou o botão do décimo quinto andar, do lado de dentro, mas o elevador está vazio.
Ao que parecia, essas palavras foram dirigidas a dois dos homens que se encontravam junto à parede. Eles aproximaram-se e também examinaram a cabina do elevador. Não pareciam satisfeitos com o resultado do exame. Um deles voltou e foi andando pela galeria. Rhodan teve que desviar-se dele. Viu o homem pegar um telefone e falar por algum tempo. Não entendeu o que dizia.
Rhodan amaldiçoou sua leviandade. Desde os tempos em que servira no Campo Espacial de Nevada sabia da existência de elevadores em cujas placas de comando se podia ler se os mesmos tinham sido colocados em movimento pelo lado de dentro ou pelo de fora. Bem que poderia ter imaginado que Mercant estaria usando o mesmo tipo de elevador.
O guarda voltou e disse aos homens que continuavam ocupados no exame do elevador:
— Bloquear imediatamente! Zimmermann quer ver isso.
Um dos guardas comprimiu o botão de parada no interior da cabina. Depois saíram e ficaram esperando por Zimmermann.

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