Webster
saiu. Deixou atrás de si um Tako muito pensativo. Aquilo que Webster designava
como seus truques provavelmente eram seus dons extraordinários e os recursos
que as vestes dos arcônidas lhe proporcionavam. Como poderiam saber disso?
A pessoa de
Webster também representava um enigma para ele. Ao que tudo indicava, pertencia
a uma das camadas inferiores da sociedade. Trajava-se e falava como tal. Quem o
teria enviado? Sua resposta à pergunta de como entrara ali dava a entender que
era um arrombador ou coisa semelhante. Será que um bando de arrombadores
poderia prestar auxílio a Tako? Conseguiriam roubar as peças do equipamento de
uma nave espacial de trezentos metros de diâmetro?
A idéia divertiu-o;
recuperou a autoconfiança. Não teria que temer nada. Pelo menos enquanto usasse
as vestes arcônidas e possuísse o dom da teleportação.
Assim, achou
preferível não mudar de roupa para o jantar. Desceu à sala de refeições tal
qual estava e não se perturbou com os olhares espantados dos outros hóspedes.
* * *
Webster
entrou numa sala na qual só havia uma mesa, duas cadeiras e, sobre a mesa, um telefone
e um aparelho de intercomunicação. Fechou a porta cuidadosamente, depois de ter
apagado a luz. Comprimiu o botão do aparelho de intercomunicação. Uma luzinha
acendeu-se e uma voz áspera perguntou:
— O que
houve?
— Aqui fala
Webster. Acho que o homem virá.
— Muito bem.
Mais alguma coisa?
— Não.
— Mas eu
tenho uma coisa para você, Web.
— Diga.
— Finch deu
com um sujeito que vive espionando esse japonês. Seu nome é Morgan e vem da
Ferroplastics. Descobrimos que é detetive da empresa. Você e Finch ficarão de
olho nele até que Yamakura tenha fechado negócio conosco. Não podemos permitir
que alguém fareje os nossos negócios. Não tenham a menor consideração por ele.
— Está bem,
chefe — respondeu Webster em tom submisso.
— Outra
coisa. Ligue o telefone para cá. Quero ouvir o telefonema do japonês.
— Perfeito.
Webster
comprimiu um botão que ficava na base do aparelho.
— Finch
instalou seu quartel-general no restaurante Fratellini. Procure chegar lá
quanto antes.
— Sim,
chefe.
— Fim.
Webster
desligou o aparelho de intercomunicação, abriu a gaveta da mesa e tirou uma
pistola. Feito isso levantou-se, apagou a luz e saiu.
Do outro
lado da porta ficava um escritório. Via-se uma fileira de cadeiras e
escrivaninhas. Tudo estava coberto por uma grossa camada de pó que só era
interrompida no trajeto da porta pela qual Webster acabara de passar até a
saída.
A Eastern
Transport era uma firma que só existia na placa colocada na porta de entrada.
Se alguém lhe quisesse confiar algum objeto para ser transportado, diriam, numa
linguagem adequada, que infelizmente estavam tão sobrecarregados, que nas
próximas oito ou dez semanas não podiam aceitar nenhum serviço.
A porta de
entrada dava para um corredor situado no trigésimo andar de um arranha-céu. A
essa hora, o corredor estava vazio. Webster foi até o elevador e desceu. Deu
boa-noite ao porteiro, pegou um táxi e foi até a Sétima Avenida, onde ficava o
restaurante de Fratellini. Finch estava sentado numa sala que o proprietário
costumava reservar para hóspedes especiais.
Webster
sentou à sua frente.
Finch
levantou os olhos.
— Parece que
o peixe acaba de escapar da nossa rede — disse, devagar e com a voz cansada.
* * *
Jesse Morgan
contribuíra involuntariamente para o fracasso que os homens de Finch acabavam
de sofrer. Morgan era um dos detetives de Pinkerton e fora destacado para o
serviço da Ferroplastics Limited e não demorou a descobrir que, ao esforçar-se
para entrar em contato com o japonês Yamakura, era seguido por vários homens,
que se revezavam e agiam com uma habilidade extraordinária.
Gastou uma
boa quantia em corridas de táxi, entradas de cinema, uma enorme porção de sorvete
que nem chegou a tocar e uma boa dose de energia física para livrar-se de seus
perseguidores. Mas, com isso, seu plano de entrar em contato com Yamakura no
seu apartamento, ainda naquela noite, caíra n’água.
Ficou
refletindo sobre quem seriam as pessoas que ficavam grudadas aos seus
calcanhares. Depois que Lafitte se recusara a informá-lo sobre as
excentricidades do japonês, Morgan encarou o assunto como objeto de sua
curiosidade pessoal. Pouco lhe interessava se de suas investigações poderia
resultar algo de útil para a Ferroplastics Limited.
Morgan tinha
uma idéia bastante nítida do japonês. Até poucas semanas atrás, quando o
noticiário entrou numa estranha maré baixa, os jornais costumavam encher-se de
informações sobre os acontecimentos estranhos que se desenrolavam no deserto de
Gobi e que tinham sua origem nas pessoas que costumavam designar-se como a
Terceira Potência. No caminho da China para os Estados Unidos muitas
informações foram distorcidas, adulteradas e exageradas a tal ponto que, nos
jornais americanos, se liam coisas que mesmo numa pessoa completamente
desinteressada só provocava risos. Acontece que Morgan sabia separar o joio do
trigo, para fazer surgir aquilo que tinha foros de verdade. E, agindo assim,
achou mais que provável que Yamakura não fosse nenhum encarregado da Federação
Asiática, conforme Lafitte procurou dar a entender com suas insinuações, mas um
agente da Terceira Potência.
Sendo assim,
pensou Morgan, talvez caísse no truque barato que iria aplicar.
Quando se
sentiu absolutamente seguro de que não estava mais sendo seguido por nenhum dos
desconhecidos, entrou numa lanchonete, sentou a uma mesa que ficava no canto
mais escondido e pediu um refresco. Passado algum tempo, levantou-se e foi até
o telefone. O aparelho ficava numa cabine bem fechada. Ninguém ouviria o que pretendia
dizer. Ligou para o Hotel Atlantic, onde Yamakura estava hospedado.
— Aqui fala
Donovan. Quero falar com o senhor Yamakura.
A
telefonista murmurou algumas palavras incompreensíveis. Houve uma pausa, Logo
após veio a resposta.
— Sinto
muito, mas o senhor Yamakura está jantando.
— No hotel?
— Sim.
— Queira
chamá-lo.
— Um
momento. Vou ligar para lá.
Ouviram-se
ruídos, o rumor de passos e de vozes. Finalmente uma voz aguda respondeu:
— Alô!
— Aqui fala
Donovan — disse Morgan, falando devagar e enfatizando as palavras. — Quero
fazer-lhe uma oferta.
Yamakura
parecia perplexo. Levou algum tempo para responder:
— E quem lhe
diz que estou interessado nas suas ofertas?
— Eu mesmo.
Disponho de muitas relações e posso conseguir num golpe aquilo que o senhor
teria de reunir aos poucos e com muito esforço.
— Não diga!
— disse o japonês em tom irônico. — Vai fazer isso por pura caridade?
— Não. Tenho
meu preço.
— E daí?
— Que tal um
encontro?
— Onde?
— Faça uma
sugestão.
Yamakura
refletiu.
— Não
conheço a cidade. Que tal a primeira lanchonete na rua à esquerda do Atlantic?
— De acordo.
Quando?
— Daqui a
uma hora.
— Muito bem.
Aguardarei o senhor.
O japonês
desligou. Ao sair da cabina telefônica, Morgan não conseguiu disfarçar um
sorriso de satisfação.
Uma pessoa
que não dispusesse de recursos extraordinários não teria caído num truque
desses. Morgan não duvidava de que, embora tivesse concordado, Yamakura contava
com uma tentativa de capturá-lo. Pagou a conta e seguiu a pé em direção ao
local de encontro. Tinha tempo de sobra, mas queria chegar antes de Yamakura.
* * *
Finch
recebeu, quase ao mesmo tempo, duas informações diferentes. Uma lhe causava
preocupações, outra deixou-o satisfeito.
— Pete diz
que o japonês está saindo do hotel — resmungou para Webster. Mas logo seu rosto
se iluminou. — Por outro lado, Vale voltou a descobrir o cão-de-fila da
Ferroplastics. Está sentado num bar do Washington Boulevard.
Webster
fitou-o atentamente.
— Acho que
já está na hora de lhe darmos uma lição — disse Finch. — Quer encarregar-se
disso?
Webster fez
que sim e levantou-se.
— Qual é a
idéia?
— Façam-no
sair do bar, levem-no a algum lugar e dêem-lhe uma sova. Digam-lhe que, se
continuar a enfiar o nariz em nossos negócios, vai levar mais.
— Muito bem.
Webster
saiu, pegou um táxi e foi ao Washington Boulevard. Lá, pediu ao motorista que
seguisse junto ao meio-fio do lado direito. Viu um dos homens de Finch, pagou o
táxi e desceu.
— Onde está
o homem? — perguntou a Vale.
Este apontou
com o polegar por cima do ombro.
— Lá dentro.
Webster
olhou para o lado da rua. O Hotel Atlantic, onde Yamakura estava hospedado,
ficava a menos de trezentos metros. Isso deu que pensar a Webster. Será que ele
tinha um encontro marcado com Yamakura?
Assustou-se
quando reconheceu, à luz dos tubos fluorescentes, a figura do japonês, que
subia pela rua. Estava a uns cem metros de distância. Como andasse devagar,
parando de vez em quando diante das vitrinas, ainda tinham uma chance.
— Onde está
seu carro? — perguntou a Vale.
Vale apontou
para um velho Chrysler, estacionado junto à entrada do bar.
— Agüente o
japonês por aí, se ele chegar muito cedo — disse Webster e entrou no bar.
Conhecia a
descrição de Morgan e reconheceu-o assim que o viu. Aproximou-se calmamente de
sua mesa e parou perto dele. Sabia que tinha de falar de maneira a despertar um
mínimo de suspeita em Morgan.
Morgan
ergueu os olhos.
— O que
deseja?
— O senhor
Yamakura quer falar-lhe. “Isso tem que dar certo”, pensou Webster.
— Ele não
vem para cá?
No mesmo
instante, Morgan teve vontade de arrancar a língua. Como podia ter certeza de
que o outro havia sido enviado por Yamakura?
Webster
ficou satisfeito com a dica. Continuou:
— Infelizmente
ele não pôde vir. Pede-lhe para que me acompanhe até o hotel em que está
hospedado.
Morgan
refletiu. Webster começou a impacientar-se.
— Parece que
o senhor Yamakura tem muita pressa. Quer viajar hoje de noite.
— Ora essa!
— disse Morgan em tom de surpresa.
Chamou o
garção e pagou, saindo em companhia de Webster.
— Meu carro
está aqui — disse este.
— Obrigado —
respondeu Morgan. — Prefiro andar este pedacinho.
Neste
ínterim, Webster o havia empurrado até o meio-fio. Sem que os transeuntes o
percebessem, encostou o cano de uma pistola em Morgan.
— Faça o que
digo! — murmurou.
Um olhar
rápido fê-lo notar que Vale esbarrou em Yamakura e procurava detê-lo.
— Abra a
porta e entre — ordenou Webster.
Morgan
obedeceu. A pistola apontada para ele não lhe deixava outra alternativa.
Webster
sentou perto dele. Vale continuava ocupado com Yamakura. Webster rangeu os
dentes. Seu companheiro estava perdendo muito tempo. Yamakura pôs-se a
conversar com ele.
Webster
baixou o vidro e deu um assobio. Vale procurou livrar-se de Yamakura. Mas o
japonês grudou-se a ele com uma obstinação que fez porejar o suor na testa de
Webster. Vale disse:
— Muito
prazer, cavalheiro. Tenho que despedir-me.
Correu em
volta do carro. Mas Yamakura pareceu não se conformar com uma despedida tão
apressada. Aproximou-se do carro, olhou pelo vidro e, antes que Vale pudesse
dar partida, descobriu Jesse Morgan. O motor roncou e Webster grunhiu entre os
dentes:
— Vamos
embora!
Antes que
Vale pudesse obedecer, a voz enérgica de Yamakura fez-se ouvir pela janela
entreaberta:
— Espere!
Quero ir com os senhores. Webster sentiu-se inseguro.
— O senhor é
um dos homens com quem se pode falar pelo telefone AN 23-551, não é? —
perguntou o japonês.
Webster
confirmou com um movimento instintivo da cabeça.
— Pois
então, leve-me. Não gostaria que acontecesse qualquer coisa a este jovem. Posso
obter a lealdade dele de uma forma muito mais conveniente.
— Entre!
Yamakura
abriu a porta da frente e sentou-se perto de Vale.
— Para onde
gostaria de ir? — perguntou a Webster, virando-se de tal forma que podia olhar
confortavelmente para trás.
— Para fora
da cidade — respondeu este.
— Faça isso!
— recomendou o japonês. Vale partiu. O carro disparou pela Washington
Boulevard.
Vale dirigia
muito bem. Saiu da cidade pelo caminho mais curto, deixou a auto-estrada e
entrou numa via secundária. Parou a cerca de um quilômetro da estrada.
— Ande mais
um pedaço — disse Yamakura.
O motorista
fitou-o. Depois lançou um olhar indagador para Webster. Este deu de ombros.
Vale deu partida e andou mais dois quilômetros.
— Obrigado;
já chega — disse o japonês.
Voltou-se
novamente para trás e disse a Jesse Morgan:
— Desça!
Morgan
obedeceu sem pestanejar. Desceu, fechou a porta com força e, como que absorto
em pensamentos, foi andando devagar pelo caminho, em direção à auto-estrada.
— Espere aí!
— protestou Webster. — Nada disso! Tenho ordens...
— Calma! —
disse Yamakura com um sorriso amável. — Logo saberá quais as minhas intenções.
Olhou para
Vale.
— O senhor
se importaria de seguir mais um pedaço por este caminho antes de voltar?
Vale sacudiu
a cabeça e partiu. Webster estava perplexo. Olhando pelo vidro traseiro, viu
que Morgan retornava à estrada, sem dar a menor atenção ao carro que se
afastava.
Andaram mais
um quilômetro. Depois voltaram. Começara a chover.
Dali a dez
minutos alcançaram Morgan.
— Quando ele
fizer sinal, pare — disse Yamakura.
Morgan
estava parado sob uma árvore. Cobrira a cabeça com o casaco e gesticulava.
Vale parou.
Morgan aproximou-se correndo e abriu a porta.
— Graças a
Deus! — disse, atirando-se no assento junto a Webster, que estava apavorado. —
Estava atrás de um ladrão quando fui surpreendido pelo mau tempo. Pode levar-me
até a cidade?
O japonês
fez que sim.
— Com muito
prazer. Conseguiu alguma coisa?
— Não. Acho
que segui uma pista falsa.
No caminho
ficou falando de um homem que seguira desde a cidade, porque julgava ser um
ladrão. Alguém o trouxera da cidade até ali, deixando-o na entrada do caminho,
porque era para ali que a pista conduzia.
Morgan
conversava sem cessar. Yamakura ouviu com toda a atenção. Webster e Vale,
perplexos, começavam a compreender que Morgan perdera a consciência do que
realmente acontecera.
E não era
só! O espírito de Morgan criara uma compensação, que preenchia o vazio. Nunca
mais se lembraria de Yamakura, o japonês que chegara a perseguir.
Yamakura
deixou-o num subúrbio. Webster, que já se recuperara do espanto, começou a
fazer perguntas. O japonês interrompeu-o com um gesto.
— Leve-me a
um telefone público — ordenou. — Quero telefonar para AN-23 551.
* * *
O caminho
que o fizeram percorrer dava àquela palestra o aspecto de um complô. Webster
insistiu em que ficasse com os olhos vendados. Tako não se opôs.
Não se
esforçou para reter na memória as curvas e subidas do caminho. Não teve dúvida
de que conseguiria conduzir as negociações a um desfecho favorável, e que dali
retornaria sem venda nos olhos.
Estava
satisfeito porque o caso Morgan terminara tão bem. O acaso interferira nos seus
planos, poupando-lhe muito esforço.
Finalmente a
andança pelos corredores e escadas chegou ao fim.
A venda foi
retirada. Tako viu-se numa sala parcamente iluminada e decorada com um bom
gosto excessivo. Os homens que, de pé, rodeavam a grande mesa e o encaravam com
os olhos curiosos combinavam com o ambiente.
— Boa noite,
cavalheiros! — disse Tako em tom amável.
Os homens
sorriram.
— Boa noite!
— respondeu um deles. Tako conhecia-o. Vira muitas vezes seu retrato nos
jornais. Pelo que se dizia, Stan Brabham mandava mais no Sindicato dos
Trabalhadores do Aço que o próprio chefe.
Tako não
estava surpreso. Não esperava outra coisa. A primeira aparição de Webster já
lhe sugerira a idéia de algum sindicato.
— Vamos
sentar! — disse Brabham em tom cordato, pegando uma cadeira para Tako.
— E vamos
tratar logo de negócios, senhor Brabham — acrescentou o japonês.
Brabham
piscou os olhos.
— Caramba!
Como sabe?
— Leio os
jornais — respondeu Tako, lacônico. — Mas, tanto faz. Quer ajudar-me?
Brabham fez
que sim.
— Por quê?
— Em
primeiro lugar, por causa disto — Brabham esfregou o dedo indicador no polegar.
— E depois, porque simpatizamos com a Terceira Potência.
— Por quê? —
repetiu Tako, disfarçando a surpresa.
— Entre nós
existe muita gente que sabe ficar de olhos abertos — explicou Brabham com um
sorriso. — Também na Ferroplastics Limited, por exemplo. Encare a coisa por
essa forma: farejamos a coisa e tivemos bastante inteligência para tirar nossas
conclusões. Esta explicação lhe basta?
Tako fez que
sim.
— O que pode
fazer por nós? — perguntou.
Brabham
brincou com um toco lápis.
— Podemos
arranjar-lhe quase tudo de que precisa — respondeu em tom tranqüilo. — Não
estou exagerando.
Tako
acreditou. Estava informado sobre o prestígio dos grandes sindicatos dos
Estados Unidos.
— O que pede
em troca?
— Cinco por
cento do preço de compra de cada lote — respondeu Brabham sem a menor emoção.
Não era pouco.
Mas era muito menos do que Tako esperava.
— Por que
vai trabalhar tão barato?
— É o que
precisamos. Além disso, acho que os senhores são pessoas formidáveis; já lhe
disse isso. Têm todas as possibilidades de transformar-se numa terceira
potência. Nós, os trabalhadores, não queremos ficar de braços cruzados quando
se trata de instaurar a paz perpétua.
— Sabe que
está agindo contra as leis de sua pátria?
Brabham
confirmou com um gesto indiferente.
— Essas leis
são uma tolice. Dentro de poucos anos todo mundo reconhecerá isso.
Tako
refletiu. Depois soltou sua primeira pergunta:
— Está em
condições de arranjar garrafas magnéticas com uma capacidade útil de mil metros
cúbicos por unidade?
Brabham
olhou para o lado.
— O que diz,
Jeff?
— Não há
problema; podemos arranjar essas garrafas — respondeu um homem pequeno e magro.
Brabham
voltou a dirigir-se a Tako.
— O senhor
receberá as garrafas. Quantas quer?
— Cinco.
— Para
quando?
— O mais
rápido possível.
— Jeff,
quanto tempo levaremos?
— Quatro a
cinco semanas.
— Dentro de
cinco semanas. Concorda?
— Concordo.
— Mais
alguma coisa?
Tako sorriu.
— Por
enquanto é só, senhor Brabham. Não quero mostrar-lhe todas as cartas antes que
o senhor me dê uma prova da sua capacidade. Espero que este tipo de cautela não
prejudique nossa cooperação.
Brabham
soltou uma estrondosa gargalhada.
— Compreendo
— disse. — Mas nós o convenceremos.
— Os
senhores terão de descobrir um meio para que ninguém descubra quem é o autor da
encomenda — prosseguiu Tako.
Brabham
confirmou com um movimento da cabeça.
— Pode
deixar por nossa conta. Não gostamos de nos expor.
Ainda havia
algumas formalidades para acertar. Finalmente Tako retirou-se, satisfeito e sem
venda nos olhos. Uma vez no hotel, pagou a conta e saiu de Petersburg ao
amanhecer.
V
Raramente
algum homem inspirara tamanha gratidão a Perry Rhodan como a que sentia por
Crest, porque o mesmo não lhe apareceu depois de terminado o treinamento.
É verdade
que por ali ainda se encontrava Bell, que poderia perturbá-lo. Mas quando este
despertou e ergueu-se, ficou sentado de costas para Rhodan. Inclinou-se para a
frente e apoiou a cabeça nas mãos, como se ela fosse muito pesada.
Passou-se
uma hora sem que fosse pronunciada uma palavra. Rhodan testou seu cérebro; viu
diante de si um complexo imenso com uma quantidade enorme de minúcias que se
lhe apresentavam com toda clareza. Havia uma gama infinita de conhecimentos
armazenados. Assim que formulava qualquer desejo em pensamento, a respectiva
solução oferecia-se imediatamente, desde que se tratasse de um problema
matemático ou científico.
Procurou
avaliar as dimensões do complexo que constituía seu cérebro, mas não descobriu
nenhum limite. Era infinito. Por mais que se aprofundasse, não encontrava
nenhuma parede, sempre havia um caminho que o conduzia mais adiante.
Levantou a
cabeça. Seus olhos caíram no aparelho de intercomunicação. Poderia apostar
tranqüilamente que Thora o estava observando lá do seu camarote e estudava suas
reações. Não estava disposto a nutrir seu orgulho, vendo-o cismar por muito
tempo sobre as conquistas da ciência dos arcônidas.
Levantou-se.
Bell fungou aborrecido.
Isso não o
perturbava. Bastava que um dos dois não se mostrasse impressionado, para deixar
Thora nervosa. Saiu e foi andando pelo corredor. A porta de seu camarote estava
aberta. Crest, sentado numa poltrona giratória, fitava o camarote de Thora numa
tela de intercomunicação.
Quando
Rhodan entrou, Crest voltou a cabeça.
— Então? —
perguntou com um sorriso, em tom ligeiramente preocupado.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Nada.
Cometi um erro.
Crest
endireitou-se abruptamente. A poltrona seguiu-lhe o movimento.
— Um erro?
— Isso
mesmo. Ao que parece a solução do problema ocorreu numa data mais recente.
Acredito que seus homens tenham sido muito indolentes para examinar todos os
aspectos do problema.
Crest
estremeceu. Rhodan piscou em direção ao intercomunicador, dando a entender que
suas palavras destinavam-se a Thora.
— Que
interessante! — cochichou Crest. — Que erro foi esse?
— Trata-se
do problema da reprodutibilidade das hipertrajetórias. Está lembrado? —
explicou no tom mais indiferente que conseguiu dar à voz. — A equação
diferencial em que elas se baseiam é instável, além de formalmente insolúvel.
Trata-se de uma equação diferencial de sétimo grau, com aplicação de um processo
de aproximação numérica de décimo terceiro grau. Vê-se que o processo de
aproximação ainda encerra mais alguns graus de instabilidade que a equação. E,
quando nos movemos no terreno da instabilidade, um pequeno desvio produz um
erro de grandes proporções.
Até mesmo a
matemática terrena conhece soluções de aproximação de sétimo grau para equações
fundamentais desse tipo. Quer que lhe diga por que esse erro foi cometido em
Árcon?
Crest não
soube dizer mais nada.
— É porque o
processo de aproximação que foi empregado torna-se muito cômodo — disse Rhodan
com a voz áspera e retumbante. — É porque, segundo deduzo de outras
informações, esse processo está gravado nas calculadoras. Foi por pura
indolência que ninguém se deu ao trabalho de examinar a equação fundamental
quanto à sua estabilidade e foi ainda por indolência que se empregou o método
usual; um décimo da energia prevista seria suficiente.
Sentiu-se
triste com a forma pela qual Crest reagiu à sua explanação; encolhendo-se
lentamente, este deixou que a cadeira voltasse a inclinar-se para trás. Crest
sacudiu a cabeça e murmurou palavras desconexas.
Rhodan
procurou não olhar para a tela. Sabia que Thora o observava, e, provavelmente,
o compreenderia. O drama fora preparado para ela, não para Crest. O erro era
verdadeiro, mas a maneira de expô-lo fora escolhida para impressionar Thora.
Gostaria de ver seu rosto.
Aos poucos,
Crest foi recuperando o autodomínio. Rhodan dirigiu-lhe um sorriso
tranqüilizador, para que voltasse a ficar em forma mais depressa.
— Não
pretendia falar com você sobre isso — disse. — Apenas pretendia agradecer-lhe
por tudo que fez por nós. Nem imagina como nos sensibilizou.
Crest
compreendeu; interrompeu Rhodan com um gesto. Contorceu o rosto, como se
quisesse rir, mas apenas conseguiu esboçar uma careta.
— Pare,
Rhodan — murmurou com a voz débil. — Você está desperdiçando seus
agradecimentos com a pessoa errada. Nós é que temos de ficar gratos. Gratos ao
destino, por nos ter proporcionado um encontro com uma raça como a sua.
Ergueu-se na
poltrona.
— Sabe que
você é a primeira pessoa que se atreve a absorver de uma só vez os dez estágios
de desenvolvimento? Sabe por quanto tempo tive de observá-lo antes de ter
certeza de que poderia dar esse passo sem que seu espírito corresse perigo?
Acreditava que levasse alguns dias para recuperar-se do choque tremendo causado
pelo treinamento dos dez estágios. Mas o que vejo? Mal o transmissor é
desligado, levanta-se, dirige-se a mim e diz: estão vendo, seus idiotas? Aqui
vocês erraram. Sabe o que significa isso?
Qualquer um
saberia a resposta. Respirando profundamente, Crest voltou a recostar-se na
poltrona.
No corredor
ouviram-se os passos de Bell, que pareciam marteladas. Rhodan ouviu-o murmurar
de si para si. Bell entrou pela escotilha.
— Ouça, chefe!
— disse em tom enfático. — Sabe que essa gente cometeu um erro? Ao tentarem
obter uma reprodução matemática de uma hipertrajetória, empregaram uma equação
diferencial de sétimo grau. Para isso...
A tensão de
Rhodan terminou numa estrondosa gargalhada. Ao ouvir os primeiros sons, Crest
assustou-se. Até parecia que o riso lhe causava dor. Mas, por fim, controlou-se
e conseguiu brindar a situação com um sorriso quieto e resignado.
* * *
Uma hora
depois a nave abandonou a trajetória terrestre e tomou a direção da Lua. Rhodan
assumira o comando, executando-o de acordo com os conhecimentos adquiridos no
processo de treinamento.
Reginald
Bell exercia as funções de co-piloto.
Crest,
sentado nos fundos, olhava fixamente para a frente. Vez por outra, Rhodan virava
a cabeça para vê-lo. Para um homem da sua substância espiritual seria
necessário bastante tempo para recuperar o equilíbrio após o choque pelo qual
passara.
Thora só
entrou na sala de comando quando a nave já havia tomado a rota da Lua. Rhodan
não se voltou à sua entrada. Ouviu sua voz:
— Rhodan,
você está perdendo seu tempo. Esta nave está equipada com direção automática.
Procurara
ser irônica; ficou desapontada ao notar que não o conseguira. Bell encarou-a.
— Conhecemos
os autômatos dos arcônidas — disse com voz indiferente. — Um deles mostrou-se
muito eficiente na defesa de três foguetes nucleares na Terra, não foi?
Rhodan não
pôde ver a reação de Thora. Não voltou a ouvir sua voz. Quando pôde ver o rosto
de Bell, notou que este repuxava os cantos da boca num contentamento
disfarçado.
* * *
A nave dispunha
de grande variedade de instrumentos destinados à medição de radiações. Rhodan
fez a nave parar acima do lugar em que se encontravam os destroços do cruzador
espacial e pediu a Bell que realizasse as medições.
Na Lua não
se verificara nenhuma precipitação de partículas radioativas. A radioatividade
gerada pelas bombas foi projetada para o espaço, ou fixou-se ao solo. A
ausência de atmosfera reduzia os riscos a que se expunha a pessoa que quisesse
descer na Lua.
Pelos
destroços não se podia saber se alguma parte do gigantesco cruzador espacial
tinha escapado à destruição. Rhodan sabia que existia alguma esperança em
relação ao compartimento interno, cujas paredes eram feitas de um tipo de
plástico metalizado que possuía um campo de cristalização dotado de uma dureza
que ultrapassava o poder de imaginação da metalurgia terrena e uma resistência
à temperatura que não possuía similar. Os envoltórios feitos desse metal tinham
capacidade de resistir a qualquer tipo de tensão mecânica e a temperaturas de
até 80.000 graus centígrados.
Todavia, o
casco do cruzador espacial estava reduzido a uma confusão de material derretido
e endurecido. Para atingir o compartimento interno, teriam de procurar um
caminho através desse labirinto de plástico metalizado altamente radioativo.
Bell
informou:
— Dois
microroentgen por hora.
— Numa
altitude de cinqüenta quilômetros — completou Rhodan. — É uma conta muito
simples, não é? No local podemos esperar — levou algum tempo calculando —
cinqüenta a cem roentgen por hora, se considerarmos as dimensões da fonte
geradora de radioatividade.
Bell
confirmou com um movimento de cabeça.
— Quer dizer
que não podemos utilizar nossos trajes protetores.
Rhodan
voltou-se para Crest.
— A bordo
desta nave existem trajes protetores contra radiações intensas e uma instalação
de descontaminação. Não há motivo para deixarmos de pousar e examinar o
cruzador.
Crest fez
que sim.
Rhodan
realizou um pouso impecável. A nave estacionou a cerca de um quilômetro do
limite da área pela qual estavam espalhados os destroços do cruzador dos
arcônidas.
— Pretendo
sair com Bell — disse Rhodan. — O que tem de ser feito deve ser feito sem
demora e somos os homens indicados para isso. Crest, gostaria de manter comunicação
ininterrupta com você. Não quero correr o menor risco.
Para
reforçar suas palavras, dirigiu-se ao painel de comando e regulou para
desempenho zero os reatores que geravam a força do mecanismo propulsor. Com
isso a decolagem seria retardada por meia hora, que era o tempo necessário ao
aquecimento dos reatores. Só assim estariam garantidos contra uma decolagem
instantânea realizada por Thora, que os deixaria naquele inferno radioativo.
Crest
esboçou um sorriso. Thora não se moveu, mas o vermelho dos seus olhos emitiu um
brilho mais intenso que de costume. Bell saiu à procura dos trajes protetores.
Eram muito
mais práticos que os trajes de que Rhodan e os demais tripulantes dispunham na Stardust.
Para colocar um traje espacial terreno com observância das normas,
realizando os controles devidos, era necessário pôr a paciência do indivíduo à
prova por mais de vinte minutos. Os trajes dos arcônidas podiam ser enfiados no
corpo como qualquer roupa e uma luz junto ao punho esquerdo era o sinal de que
tudo estava em ordem. Não havia nenhum recipiente de oxigênio desajeitado,
nenhum rádio de capacete pesava sobre a cabeça, nenhuma junta de pescoço
comprimia a nuca quando se olhava para cima. O traje gerava o oxigênio por meio
de pequeninos recipientes de produtos químicos. O telefone miniatura era do
tamanho de uma unha. O capacete e o traje formavam uma única peça, de maneira
que não havia necessidade de qualquer junta.
Rhodan e
Bell levaram pistolas de radiação. Era provável que a explosão das três bombas
não lhes tivesse aberto nenhum caminho para o interior do cruzador espacial. A
energia das pistolas de radiação atingia, no foco central, uma temperatura de
cerca de cinqüenta mil graus. Teriam de recorrer a instrumentos mais potentes e
pesados, se nenhuma das escotilhas do compartimento interno pudesse ser aberta
de forma normal.
Crest
seguiu-os com os olhos, quando deixaram a nave por uma das duas escotilhas.
Thora não lhes deu atenção. Parada diante de uma tela, fitava os destroços de
seu cruzador.
— Fique de olho
nela! — disse Rhodan, dirigindo-se ao arcônida. Pouco lhe importava que Thora
ouvisse suas palavras ou não.
Ligaram os
geradores e foram levados aos poucos para a área atingida pelas explosões.
Vistos de perto, os destroços derretidos e disformes ofereciam um aspecto
assustador.
Não trocaram
uma única palavra. Só Crest falava de vez em quando.
— Tudo em
ordem!
Rhodan
pousou junto ao maior monte de destroços que conseguiu localizar. Tudo indicava
que no interior do mesmo devia encontrar-se o compartimento interno do cruzador
espacial.
Ao olhar
para cima a fim de avaliar a altura da massa de metal, Bell começou a gemer.
Sem a menor
perda de tempo, puseram-se a trabalhar. As pistolas de radiação desprenderam os
destroços, pedaço por pedaço, abrindo um caminho. O dosímetro registrava dez
roentgen; ainda não fazia dez minutos que se encontravam fora da nave. A única
coisa tranqüilizadora em meio ao ambiente desolado era a voz de Crest.
— Tudo em
ordem!
Numa hora
conseguiram avançar uns vinte metros para dentro do monte.
Rhodan ficou
preocupado; não sabia se aquele amontoado teria estabilidade bastante para
sustentar as paredes de um túnel de cerca de vinte metros de extensão. Pediu
que Bell suspendesse o trabalho por algum tempo e bateu no material. A cada
batida descansava a mão no local em que dera a mesma, a fim de poder sentir
qualquer reação anormal que se verificasse. Mas não percebeu nada além da
vibração normal do plástico metalizado quando percutido.
Fez um sinal
a Bell. O trabalho prosseguiu.
Dali a mais
uma hora o monte foi se tornando menos denso. Prosseguindo pelas gretas que se
abriam, avançaram um bom trecho sem usar a pistola de radiação.
— Já fizemos
cinqüenta metros — murmurou Bell. — Acho que não falta muito.
Bell
arquejava visivelmente.
— Pois
então! — resmungou, dirigindo o raio de sua pistola contra o obstáculo que se
lhe antepunha.
Dali a um
minuto soltou um grito de triunfo:
— Veja!
Chegamos!
Rhodan olhou
por cima de seu ombro. Atrás do último pedaço de plástico metalizado que
conseguiram desprender apareceu uma parede lisa. Ao primeiro lance de olhos
notava-se que ela não fora afetada pelo calor da explosão.
Rhodan sabia
que o plástico metalizado provido de um reforço de cristais elásticos era de
cor azul-turquesa. E azul-turquesa era a cor da parede que Bell pusera à vista.
Intensificaram
os esforços. Trabalhando encarniçadamente, conseguiram limpar metro por metro
da parede. Crest começou a fazer perguntas, mas só lhe deram respostas
lacônicas.
— Aqui há
uma escotilha — disse Bell depois de algum tempo.
Como
trabalhasse à frente de Rhodan, descobrira em primeiro lugar a estreita reentrância
na parede. Estava em posição inclinada, o que indicava que a posição do
compartimento interno se modificara com a explosão. Levaram quinze minutos para
desobstruir a escotilha. Rhodan sabia que no momento da explosão ela se fechara
automaticamente e só se abriria com um código especial, isso se o mecanismo
ainda funcionasse.
Pegou o
emissor de impulsos que trouxera da nave. Era um bastão da grossura de um
lápis, com dez centímetros de comprimento, que trazia um minúsculo decodificador
no seu interior. Comprimiu-o contra a escotilha.
Subitamente
percebeu que o chão tremia sob seus pés. Parecia que a escotilha iria mover-se.
Rangendo, abriu-se numa fresta de alguns milímetros, apenas para voltar a
fechar-se, quando não pôde vencer as forças que a obstruíam.
Rhodan fez
um sinal a Bell. A escotilha era leve e não muito grande. Com algum esforço, um
homem poderia abri-la com a energia muscular.
Pela segunda
vez, Rhodan pôs a funcionar o emissor de impulsos. O chão voltou a vibrar. Do
lado direito da escotilha surgiu uma fresta. Desta vez era mais larga; Bell
conseguiu enfiar nela as pontas dos dedos.
Apoiando o
ombro contra a parede, puxou com toda força. Rhodan não tirou o emissor de
impulsos de cima do material azul.
Bell mudou
de posição e voltou a puxar. De repente, ele perdeu o apoio e, face à gravitação
pouco intensa da lua, foi atirado com toda força contra a parede do túnel. O
obstáculo fora vencido. Abrindo-se para o lado, a escotilha pôs à vista o
corredor estreito e escuro de uma eclusa. A voz de Crest soou, longe:
— Tudo em
ordem por aqui. O que houve com vocês?
— Encontramo-nos
diante de uma decisão difícil — respondeu Rhodan.
— O que é?
— A
escotilha está aberta. Ao que parece a eclusa está funcionando. Tivemos
bastante trabalho com a escotilha. Se entrarmos normalmente, pode ser que não
consigamos abrir a escotilha do lado de dentro.
— Não
compreendo.
— Poderíamos
abrir o outro lado da eclusa sem fechar a escotilha, mas nesse caso o ar que se
encontra no compartimento interno escaparia de forma explosiva.
— Isso os
incomoda? Não poderiam abrigar-se?
— A nós isso
não incomoda nem um pouco. Mas pode ser que lá dentro alguém esteja vivo. E
então?
Ouviram a
respiração de Crest.
— Quais são
as possibilidades? — perguntou. — Se alguém estivesse vivo, já teria tido
possibilidade de comunicar-se conosco.
— Pode ser
que esteja gravemente ferido e não possa movimentar-se.
Crest
suspirou. Depois de algum tempo disse com a voz tranqüila:
— Abra de
qualquer maneira! Não podemos correr nenhum risco. Temos muita pressa dos
objetos que se encontram no compartimento interno.
Rhodan fez
que sim. Se dependesse dele, teria tomado a mesma decisão. Mas, num momento
desses, convinha dividir a responsabilidade com alguém.
Bell tirou o
emissor de impulsos das mãos de Rhodan e dirigiu-se ao outro extremo da eclusa.
— Aqui há um
lugar em que posso abrigar-me — disse em tom tranqüilo. — Fique do lado de
fora, chefe.
A escotilha
interna não apresentou o menor defeito. Os destroços tremeram quando o ar foi
expelido num golpe. Juntamente com ele saiu uma nuvem de pó e alguns
instrumentos menores que se encontravam soltos. A confusão não durou mais que
um segundo. Quando Rhodan entrou, Bell estava saindo do esconderijo.
— Santo
Deus! — gemeu. — Até parece que alguém jogou um saco de areia na minha cabeça.
Procurou
olhar pela lâmina transparente.
Lá dentro
estava escuro. Mas havia uma lâmpada nos seus capacetes. Acenderam-na para
iluminar o caminho.
Rhodan notou
que o interior do compartimento fora afetado pela explosão muito mais que o
envoltório. Com a explosão, o compartimento ficara de cabeça para baixo. Alguns
dos aparelhos mais pesados tinham sido arrancados de seus suportes e estavam
inutilizados.
Mas havia
muita coisa que ainda poderia ser aproveitada. Seria muito mais fácil se
levassem para a Terra tudo que ali se encontrava.
Bell foi
andando, curioso. Rhodan quis dizer-lhe alguma coisa. Mas nesse instante a voz
trêmula de Crest fez-se ouvir.
— Pelo amor
de Deus! Rhodan, Bell! Venham o mais rápido possível! Venham!
Rhodan
parou.
— O que
houve?
— Rápido!
Venham logo!
Rhodan
virou-se e saiu em disparada. Bell seguiu-o. Desligaram a gravitação e, fazendo
movimentos vigorosos de nadador, avançaram velozmente pelo túnel que haviam
aberto.
Uma vez do
lado de fora, regularam os geradores para a potência máxima e saíram numa
trajetória alta em direção à nave. Crest abrira a eclusa ou então nem chegara a
fechá-la. Passaram alguns segundos de impaciência, enquanto os dispositivos
acoplados à eclusa encheram-na de ar.
Crest
esperava-os atrás da escotilha interna. Tremia e seus olhos brilhavam numa
tonalidade vermelha.
— O que
houve? — perguntou Rhodan.
— É uma
coisa horrível! — suspirou Crest.
Rhodan
correu em direção à sala de comando. Crest teve de esforçar-se para permanecer
ao seu lado.
— Thora
largou uma hipersonda. Isso não era contra nosso acordo, e, assim, não a
impedi.
Rhodan
confirmou com um movimento de cabeça. Enquanto andava, começou a tirar o traje
espacial. Uma hipersonda servia para localizar o feixe de ondas de um hiperemissor.
Esse feixe podia ser concentrado numa fração de centímetro e quem não o
captasse diretamente, nada perceberia de sua existência. Existiam sondas
inteiramente automatizadas, formadas de pequenas naves, cujo tamanho não
ultrapassava o de uma mão humana e que vasculhavam determinada área, centímetro
por centímetro, detectando qualquer onda direcional que ali se localizasse.
Entraram na
sala de comando. Thora estava encostada ao painel de controle, com o rosto
voltado para eles. Rhodan notou um traço de orgulho misturado com ironia.
Limitou-se a contemplá-la com um olhar de esguelha.
— Por algum
tempo a sonda ficou vagando por aí, sem encontrar nada — prosseguiu Crest com a
voz exaltada. — Mas, de repente, encontrou alguma coisa.
— O que
encontrou? — perguntou Rhodan com a voz impaciente.
— Descobriu
os impulsos emitidos por nosso hiperemissor. — Crest apontou apressadamente
para a tela que mostrava a nave destruída. — Os impulsos provêm da nave. São
impulsos automáticos de emergência. Compreende?
Rhodan
compreendeu de imediato. Mais que isso, logo percebeu as conseqüências. Todas
as naves arcônidas eram equipadas com um hiperemissor. A energia emitida por
ele tinha a mesma estrutura matemática do campo hipergravitacional que
possibilitava as viagens espaciais a uma velocidade superior à da luz. As
hiperondas propagavam-se de forma quase instantânea por qualquer distância,
constituindo o meio de comunicação ideal de uma época que calculava em termos
de milhares de anos-luz com a mesma naturalidade com que o homem lidava com
quilômetros.
Todo
hiperemissor era equipado com um dispositivo automático de emergência que o
colocava em funcionamento logo que algo acontecesse à respectiva nave, tanto em
virtude de um ataque vindo de fora como de um defeito interno. Dali em diante,
o emissor irradiaria, em seqüência ininterrupta, um sinal predeterminado. Além
disso, concentrava o feixe de ondas, orientando-o em direção ao receptor mais
próximo.
Rhodan sabia
que o receptor a que se destinava o sinal de emergência estava postado em
Mira-4. Estava bem informado sobre isso. Era um planeta desolado e frio que
ficava perto de um sol em extinção, a menos de oitocentos anos-luz do ponto em
que se encontravam. Era tão inóspito que o Império só colocara nele uma divisão
de vanguarda de naves robotizadas.
As
conseqüências eram facilmente previsíveis. As naves robotizadas receberiam o
sinal de emergência e decolariam em direção ao emissor. Constatariam que o
cruzador fora destruído por um bombardeio de foguetes. Localizariam a base
desses foguetes e empreenderiam uma ação de represália nas áreas adjacentes,
empenhando nela todo o seu potencial.
No presente
caso, a base de foguetes situava-se na Terra e a área adjacente compreendia
todo o planeta. Sem dúvida as naves robotizadas estariam em condições de
exercer uma represália à altura.
O fato de o
emissor de emergência localizada na nave emitir o sinal convencionado
significava apenas que dentro de quarenta e cinco dias, contados do momento em
que o cruzador espacial foi destruído, alguém procuraria transformar a Terra
num montão de cinzas. E, pelo que tudo indicava, esta não estaria em condições
de defender-se contra o ataque. As únicas pessoas que poderiam vir em seu
auxílio estavam separadas por profundas divergências.
Rhodan olhou
para Crest. Este parecia adivinhar seus pensamentos.
— Já pus o
reator em funcionamento — disse.
Rhodan fez
um sinal de agradecimento.
— Partiremos
o quanto antes.
VI
O Fiorde de
Umanaque, no estreito de Davis é um lugar que, para se distinguir o céu
cinzento, das montanhas, também cinzentas de gelo, deve-se colocar a mão para
sentir o gelo ou o ar entre os dedos.
Dificilmente
haveria um trecho de terra mais desolado. E dificilmente haveria outro em que
se tomavam decisões tão importantes como ali.
O fiorde de
Umanaque servia de quartel-general ao Conselho Internacional de Defesa. No
momento, o número dos agentes estrangeiros que o abarrotavam quase chegava a
exceder o dos que pertenciam aos seus quadros.
Pouca coisa
se via por cima do solo. Apenas algumas casas de espessas paredes de madeira
pertencentes a uma sociedade comercial dinamarquesa e habitadas por esquimós.
Numa das casas havia uma tábua sobre a qual alguém escrevera, em letras
desajeitadas, que ali se vendiam peles. Mas, até então, nenhum mercador havia
adquirido peles da Umanak Fur Company.
Os esquimós
eram agentes bem treinados. O chefe do posto era um dinamarquês que ocupava o
posto de primeiro-tenente e era bem visto por Allan D. Mercant.
O restante
das instalações estavam ocultas sob o gelo e a rocha. A expressão “o restante”
pode induzir em erro sobre a situação real. Mais de noventa e cinco por cento
das atividades exercidas no fiorde de Umanaque desenrolavam-se abaixo do solo e
a distribuição das instalações seguia a mesma proporção.
Umas
quinhentas pessoas viviam constantemente em Umanaque, mas destas apenas dez
conheciam todas as instalações subterrâneas. Os agentes da Federação Asiática e
do Bloco Oriental, hospedados no local durante os dias de cooperação forçada,
só conheciam os dois andares superiores.
Mercant
residia no piso mais baixo do conjunto. Estava cercado de todos os lados por
dispositivos de segurança. Não temia pela sua segurança pessoal. O que
preocupava a ele, e aos que haviam instalado os dispositivos, era a quantidade
enorme de documentos secretos, da mais alta importância, guardados nos cofres
blindados do pavimento inferior.
Mercant
possuía um escritório particular, montado segundo seu gosto pessoal. As
dimensões dos móveis eram exageradas. O visitante que penetrasse pela primeira
vez naquela sala enorme teria de procurar por algum tempo antes de encontrar o
oficial de pequena estatura. Em geral, Mercant ficava sentado atrás da imensa
mesa; reclinado numa poltrona que de tão grande dificilmente poderia ser
confortável, só a cabeça aparecia por cima da tampa da mesa.
Não dividia
as horas do dia. Trabalhava até sentir-se tão cansado que o prosseguimento das
suas atividades não daria nenhum resultado; dormia e levantava-se quando se
sentia razoavelmente descansado. A iluminação uniforme das peças por ele
ocupadas ajudava-o a esquecer o ritmo harmônico do dia de vinte e quatro horas
que prevalecia lá em cima.
Os
verdadeiros prejudicados eram os ordenanças de Mercant. A maior parte deles
apreciava uma atividade regular e um sono a horas certas. Mas Mercant defendia
a opinião de que a segurança do mundo não devia ser negligenciada em benefício
da predileção que alguns oficiais subalternos nutriam pelas rotinas da vida
burguesa.
Naquele dia
levantara às três horas. Não se interessou em saber se eram três horas da manhã
ou da tarde. Começou a trabalhar em assuntos que tivera que deixar de lado ao
deitar-se.
Às três e
quinze apareceu o sargento O’Healey informando-o:
— Nenhum
acontecimento extraordinário nas últimas quatro horas, senhor.
Saiu. Daí a
alguns minutos, voltou com uma xícara de café e alguns biscoitos. Esperou
tranqüilamente até que Mercant engolisse o primeiro gole do líquido fervente e
formulasse a pergunta usual:
— Que horas
são, sargento?
— Três horas
e vinte e três minutos, senhor.
Olhando por
cima da xícara, Mercant fitou o relógio. Eram três e vinte e dois.
— De que
parte do dia?
— Da manhã,
senhor.
Satisfeito,
Mercant abanou a cabeça. O’Healey cumprimentou e saiu. Já se desacostumara de
refletir sobre aquele cerimonial estranho. Quando iniciara o serviço junto a
Mercant, o mesmo lhe parecia uma piada de mau gosto.
A cirurgia
plástica conhecia uma porção de truques difíceis de desmascarar. Para
garantir-se contra eles, Mercant obrigava os sargentos da sua guarda a dizerem
um minuto mais que o real, quando perguntados a respeito da hora. Além disso
deviam dizer “de manhã”, quando era de tarde ou de noite, e vice-versa.
O’Healey
estava convencido de que Mercant o mataria na hora se por esquecimento dissesse
a hora exata ou a metade verdadeira do dia.
No entanto,
em parte, estava enganado. Mercant estaria satisfeito quanto à identidade de O’Healey
se este lhe dissesse um minuto a mais que o tempo verdadeiro. A indicação da
metade do dia em que se encontravam representava uma verdadeira informação para
ele. Só quando O’Healey lhe dizia que era de manhã ficava sabendo que na
verdade já era de tarde.
Meia hora
depois de O’Healey ter saído o capitão Zimmermann veio apresentar seu
relatório.
— O mais
importante, senhor, é a conferência com os oficiais da Federação Asiática —
principiou. — O major Pervuchin, de Moscou, participará como observador.
— O que
pretende observar? — perguntou Mercant entediado. — Tem alguma idéia do que
estes amarelos querem desta vez?
— Pelo que
se diz, trazem uma porção de sugestões que gostariam de discutir com o senhor.
— Sugestões
para quê? Para uma paz mundial duradoura?
— Não,
senhor. Sobre a maneira de agarrar aqueles desertores no deserto de Gobi.
Mercant
levantou a mão direita e examinou as unhas.
— Não fique
chamando essa gente de desertores, Zimmermann. Ouvi muita coisa boa a respeito
deles e não pretendo julgá-los antes de conhecer seus motivos.
Zimmermann
não respondeu.
— Mais
alguma coisa? — perguntou Mercant.
— Por
enquanto nada, senhor.
— Obrigado.
Zimmermann
fez continência e saiu.
* * *
Rhodan
pousou a nave a trezentos quilômetros da costa, numa planície de gelo
cinza-azulada. A planície não era muito extensa e estava cercada de todos os
lados por montanhas bastante altas. Não havia o menor perigo de que alguém
descobrisse a nave por acaso. Além disso, na Groenlândia trezentos quilômetros
representavam uma distância mais que suficiente.
Face aos
recursos técnicos de que dispunha a nave, Rhodan não teve a menor dificuldade
de escapar às sondagens realizadas pelas bases de radar, bastante numerosas nos
arredores do fiorde de Umanaque. Estava certo de que nas telas não surgiria o
mais leve lampejo.
A
possibilidade da localização ótica direta não preocupava Rhodan. As nuvens
pendiam bem baixo sobre o solo da Groenlândia. Era mais fácil manter a nave
acima dela do que cercá-la de uma cúpula defletora, que consumiria uma
quantidade considerável de energia.
Ao retornar
da Lua, avisara Tako do ocorrido e mandara-o de volta para o lago salgado de
Goshun. No momento, havia coisa mais importante a fazer do que manobrar nas
antecâmaras dos capitães-de-indústria. Rhodan tinha boas razões para acreditar
que dentro de pouco tempo já não seria necessário transmitir os pedidos às
escondidas, com um receio constante dos serviços secretos. Era bem verdade que,
conforme provara a atuação de Tako, mesmo por essa forma podia se conseguir
muita coisa.
Rhodan saiu
da nave de tarde, com um traje transportador arcônida e uma pistola de
radiação. Bell ficou para trás, já que, com a descoberta realizada na Lua, a
rebeldia de Thora parecia ter entrado numa fase mais ativa e a vigilância
exercida por Crest não era suficiente.
Com o traje
transportador, venceu os trezentos quilômetros que o separavam do fiorde de
Umanaque em uma hora e meia. O tédio da viagem, juntamente com a incerteza
sobre aquilo que o esperava, mexiam com os nervos de Rhodan.
Nada
indicava que Mercant seria acessível às suas solicitações, a não ser a
revelação que o capitão Klein lhe fizera no deserto de Gobi, de que Mercant
sabia do papel ambíguo que ele, Klein, estava desempenhando e, aparentemente, o
aprovava.
Acionou o
defletor a partir do momento em que deixou a nave. O campo de deflexão,
alimentado pelo microgerador embutido no traje que Rhodan envergava, exercia
sua influência sobre radiações eletromagnéticas de comprimento de onda situados
no intervalo de 2.000 a
80.000 angstrom, obrigando-as a contorná-lo como as linhas de fluxo de um
processo hidromecânico. Isso significava que a pessoa que envergasse um traje
desse tipo não poderia ser vista através das radiações ultravioletas, da luz
comum ou dos raios infravermelhos. O traje não podia desviar os raios do radar,
mas o objeto era muito pequeno para ser localizado por esse meio.
Com o
aprendizado que recebera, Rhodan compreendeu que as radiações eletromagnéticas
submetidas à influência do campo defletor podem ser interpretadas de acordo com
as equações da hidromecânica. No entanto, o campo defletor propriamente dito
escapava às possibilidades da matemática terrena, já que sua descrição é
realizada através de equações em que se inserem constantes situadas no espaço
de cinco dimensões.
Rhodan
pousou no interior do posto da Umanak Fur Company. Não sabia que direção
deveria tomar para encontrar Mercant. A única coisa que sabia era que ele
residia sob o solo. A primeira coisa que teria de fazer era localizar a entrada
para as dependências situadas no subsolo.
Descobriu
que, mesmo invisível, era difícil locomover-se entre as pessoas. No fiorde de
Umanaque desenvolvia-se uma atividade febril. Quando duas pessoas se
aproximavam dele, vindas de direções diferentes, via-se obrigado a
concentrar-se totalmente no esforço de desviar-se delas.
Pelas quatro
da tarde, Rhodan descobriu um lugar que, segundo lhe parecia, constituía o
acesso às instalações subterrâneas. Pelo aspecto externo parecia um grande
depósito, de telhado baixo. Parado nas proximidades, vira uma porção de gente
desaparecer no interior do edifício ou sair dele.
Colocou-se
junto à porta e esperou. Quando apareceu a primeira pessoa, esgueirou-se com
ela porta a dentro. O interior do edifício estava profusamente iluminado por
lâmpadas de plástico. Na parede oposta viu a desembocadura de uma galeria alta
e larga.
O movimento
intenso de pessoas no interior da galeria representava um perigo que não devia
ser subestimado. No percurso de cinqüenta metros que separava a entrada da
galeria dos elevadores teve de concentrar toda sua atenção para não esbarrar em
ninguém.
Os
elevadores eram quinze ao todo. Rhodan não se atreveu a utilizar um deles
exclusivamente para si. Esperou que uma pessoa entrasse, para colocar-se a seu
lado.
Infelizmente
essa pessoa só desceu dois andares. Rhodan ficou sozinho no elevador. Viu um
guarda uniformizado enfiar a cabeça.
— Tudo em
ordem — murmurou o homem. — Pode andar.
Mal o guarda
se retirou, Rhodan comprimiu o botão de baixo. O elevador arrancou e foi
descendo.
Assim que
parou, Rhodan desceu. A galeria estendia-se para ambos os lados. Era igual à de
cima. Na parede oposta à dos elevadores via-se o número 15. Rhodan contara: era
o décimo quinto andar a partir do nível do solo.
Junto à
parede estavam postados vários guardas. Dois deles dirigiram-se ao elevador de
que Rhodan acabara de sair. Examinaram a cabina. Um deles virou-se e gritou
para os outros:
— Olhem só!
Alguém apertou o botão do décimo quinto andar, do lado de dentro, mas o
elevador está vazio.
Ao que
parecia, essas palavras foram dirigidas a dois dos homens que se encontravam
junto à parede. Eles aproximaram-se e também examinaram a cabina do elevador.
Não pareciam satisfeitos com o resultado do exame. Um deles voltou e foi
andando pela galeria. Rhodan teve que desviar-se dele. Viu o homem pegar um
telefone e falar por algum tempo. Não entendeu o que dizia.
Rhodan
amaldiçoou sua leviandade. Desde os tempos em que servira no Campo Espacial de
Nevada sabia da existência de elevadores em cujas placas de comando se podia
ler se os mesmos tinham sido colocados em movimento pelo lado de dentro ou pelo
de fora. Bem que poderia ter imaginado que Mercant estaria usando o mesmo tipo
de elevador.
O guarda
voltou e disse aos homens que continuavam ocupados no exame do elevador:
— Bloquear imediatamente!
Zimmermann quer ver isso.
Um dos
guardas comprimiu o botão de parada no interior da cabina. Depois saíram e
ficaram esperando por Zimmermann.

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