Rhodan
interrompeu o silêncio:
— Sinto
desapontá-la. Este couraçado foi recapturado por nós. Por isso não posso lhe
conceder nenhum poder de comando sobre o mesmo. Além disso, não existe a menor
possibilidade de retirar a Stardust-III do sistema Vega para transportá-los de
volta ao seu mundo.
— Temos
direito a isso. O senhor vai...
— Não vou
coisa alguma, com sua licença — retrucou Rhodan, repelindo aquelas palavras
ásperas. — O que está em jogo é a existência da Humanidade. A Terra fica a
apenas vinte e sete anos-luz daqui. De uma hora para outra pode ser descoberta
pelos invasores tópsidas. Tudo indica que esses sujeitos perceberam que
cometeram um pequeno erro de cálculo. Estão procurando. E não estou disposto a
arriscar. Entendeu?
— Leve-nos
para Árcon, e poderá contar com o auxílio da frota do Império — interveio Crest
em voz baixa. — Vejo que minha missão falhou. Tudo indica que não há mais
possibilidade de encontrar o planeta, cujos habitantes, pelo que dizem,
conhecem o segredo da vida eterna. Leve-nos para casa.
— Sinto
muito, mas nem penso em colocar a única nave espacial de grandes dimensões de
que dispomos no centro conturbado da galáxia, onde se travam lutas ferozes
entre raças revoltadas. Enquanto a Humanidade não se tiver tornado forte e
unida, considerarei a existência da Terra como o segredo número um. Em vez de
atender às suas exigências, tenho que providenciar para que os tópsidas
desapareçam do sistema Vega. Temos de evitar a descoberta da Terra.
— Seria bom
que procurasse lembrar-se de que a Humanidade que pretende endeusar não se
reveste da menor importância no quadro dos acontecimentos galácticos — disse
Thora em tom zombeteiro.
— É uma
questão de opinião — ressaltou Rhodan.
Uma ruga
profunda desenhou-se em sua testa.
— Crest, o
senhor é o chefe científico da expedição malograda dos arcônidas. Aguarde até
que consigamos expulsar os tópsidas do sistema Vega. Depois veremos o resto. E
agora, com sua licença, vou me retirar. Os cinco minutos passaram.
Rhodan olhou
para o relógio. Já dissera tudo que devia ser dito.
— Quer dizer
que haverá derramamento de sangue — disse Crest com um riso amargo. — Sabe
perfeitamente quanto prezo os homens. Não existe outra raça que tenha tantas
afinidades com a nossa. Se acredita que dentro de poucos anos poderá assumir a
herança de meu povo, está redondamente enganado. Não tem condições para isso.
Rhodan parou
por baixo da escotilha que se abria. Virou-se lentamente.
— O senhor
ainda se admirará, Crest! Não nos confunda com essa gente cansada pertencente à
sua raça. Um dia destes o planeta Terra desempenhará um papel importante no
âmbito da galáxia. Assim que dispuser do necessário apoio, terei muito prazer
em levá-los a Árcon. Peço-lhe que aguarde e não se esqueça de que, se não fosse
o auxílio decisivo dos homens, já estaria morto.
— Por que
teve que dizer uma coisa dessas? — perguntou Bell, quando entravam no elevador.
Como Rhodan permanecesse calado, prosseguiu em tom contrariado: — Não acho
conveniente lembrar aos arcônidas ou a quem quer que seja os benefícios que
lhes fazemos. Se eles não tivessem aparecido, até hoje não saberíamos como é o
Universo além do nosso sistema solar.
O rosto de
Rhodan assumiu uma expressão séria. Bell tinha razão. Mas não poderia
ter agido de outra forma.
— Essa gente
terá de se acostumar com a idéia de que não somos apenas espertos. Nem penso em
mandar a Stardust-III para o centro desse caos galáctico. Árcon está fadado ao
desaparecimento, tal qual o império por ele controlado. Há séculos estão
brigando em torno de insignificâncias, e nós não sabíamos de nada. Agora, que
essas inteligências não-humanas com um nível de desenvolvimento infinitamente
superior surgiram tão perto do nosso planeta, acho que nestas condições não
podemos considerar os melindres dos arcônidas. Mais alguma objeção?
Rhodan
impeliu seu corpo para fora do campo antigravitacional do elevador.
Encontrava-se diante do setor residencial dos oficiais do couraçado. Parou
diante da porta da cabina de comando, guardada por robôs.
— Cuide da
S-7. Tenho o que fazer por aqui. Temos um bom barbeiro a bordo? Prefiro um que
entenda de perucas.
— Chamarei o
médico — gemeu Bell. — Fique tranqüilo; está tudo OK. A cabina é bem fresca.
Vou...
Rhodan
exibiu o sorriso que o tornara conhecido entre os pilotos da Força Espacial dos
Estados Unidos. Ultimamente aparecia poucas vezes em seu rosto. Reginald Bell
logo se controlou. Em seus olhos surgiu uma expressão perscrutadora. O corpo
baixo enrijeceu-se. Não falou mais em médico.
— Você está
tramando alguma coisa — cochichou lentamente. — O que é?
— Temos um
fazedor de perucas a bordo ou não temos?
— Garanto
que não. Dispomos de trezentos especialistas que passaram pelo treinamento
hipnótico setorial dos arcônidas.
— OK, está
liquidado. Cuide da S-7. Nyssen já terminou.
O silêncio
foi rompido por um trovejar retumbante. No setor F os reatores HHe, destinados
ao suprimento de energia dos projetores de campos energéticos, haviam sido
postos a funcionar. A tela junto à porta da cabina de comando mostrava que a
nave auxiliar S-7, recém-pousada, desaparecera do solo. Havia sido abrigada no
gigantesco compartimento de comportas da nave-mãe.
O trovejar
dos reatores cresceu de intensidade. A Stardust-III cobriu-se com a cúpula
energética de elevada potência, que deixava perplexos os ferrônios, acostumados
a tanta coisa. Era formada de unidades energéticas espacialmente superpostas.
Por isso a estrutura de um campo de defesa desse tipo jamais seria compreendida
por um ferrônio. Seus cérebros não foram feitos para isso. Atingiram a
navegação espacial à velocidade da luz, e tinham de se contentar com isso.
Rhodan
prestou atenção ao zumbido profundo das máquinas. Estavam abrigadas no pavilhão
energético B, a mais de duzentos metros abaixo do ponto em que se encontrava.
Uma vez
levantado o campo energético, a Stardust-III estava hermeticamente isolada do
mundo exterior.
—
Encontramo-nos na cantina. Esqueça essa história do cabeleireiro.
O homem
esbelto desapareceu. Bell permaneceu imóvel diante da porta que se fechava. Os
dois robôs arcônidas de combate não se mexeram. Já haviam registrado o modelo
das ondas cerebrais de Bell e constatado que era inofensivo.
Finalmente
afastou-se, resmungando uma praga. Não compreendia o que um cabeleireiro teria
que ver com os últimos acontecimentos. Uma fortaleza cósmica estava sendo
construída nas seis luas do quadragésimo planeta de Vega. Um homem da
tripulação tombara numa ação contra a mesma... e o comandante pedia um
cabeleireiro.
Para Bell
era demais. Berrou para um inocente robô de reparos, que acabara de receber
instruções de trocar uma tela de imagem defeituosa.
O major
Nyssen surgiu mais ao longe. Fez um gesto e entrou em sua cabina. Em conformidade
com as ordens emitidas, um período de repouso acabara de ter início a bordo do
couraçado. Todos os tripulantes que não estivessem de sentinela eram obrigados
a dormir. O planeta Ferrol desgastava as forças do corpo e do espírito.
Lá longe
algumas das naves em forma de ovo dos ferrônios dispararam para o céu límpido.
Pertenciam ao tipo das unidades que haviam sido destroçadas sob os golpes dos
tópsidas.
Bell parou
de cismar. Os pensamentos de Rhodan eram impenetráveis. Ao chegar a essa
conclusão, apenas obedecia a um princípio seguido por milhões de oficiais de
todos os tempos.
* * *
A grande
cabina com seus compartimentos separados parecia antes uma pequena central de
controle que um recinto destinado à habitação. As inúmeras telas estavam
apagadas. O equipamento de comunicação de bordo fora desligado e os sinais de
luz que costumavam acender-se e apagar-se numa sucessão febril também deixaram
de funcionar.
Perry Rhodan
estava só, tão só como qualquer comandante de uma grande frota costuma estar desde
o início da era tecnológica.
Nenhum
comandante podia se dar ao luxo de travar discussões intermináveis com seus
subordinados. Tinha de manter uma certa distância, cuidando ao mesmo tempo para
que a muralha do silêncio determinada pelas exigências militares não fosse
interpretada como uma manifestação de arrogância e inacessibilidade.
Rhodan tinha
um talento psicológico inato. Mesmo que não dispusesse de treinamento especial,
saberia que num momento destes precisava estar só.
Sobre a mesa
dobrável havia um pequeno aparelho de intercomunicação audiovisual de
fabricação ferrônia. Era uma das maravilhas das oficinas micromecânicas de um
povo que neste ponto até sobrepujava os arcônidas aparentemente inexcedíveis.
O aparelho,
do tamanho de um punho cerrado, estava funcionando. A microtela oval mostrava
linhas claras, que a interferência provocada pelo equipamento de distorção
transformava em figuras disformes.
Demorou
alguns segundos até que o sincronizador pudesse ser ativado. A imagem começou a
fixar-se. O rosto pequeno de um ferrônio apareceu na tela. Mal se viam os
olhos, profundamente encovados por baixo da testa protuberante. Em compensação
as platinas do uniforme eram perfeitamente reconhecíveis.
Chaktor,
oficial de ligação incumbido dos contatos entre o Thort e Perry Rhodan,
inclinou a cabeça.
— Pois não.
— Seu
equipamento de distorção está funcionando, Chaktor?
—
Perfeitamente. Mas não devíamos falar por muito tempo. O que posso fazer pelo
senhor?
— Preciso
falar imediatamente com o senhor?
— Em sua nave?
Os tratados ainda não foram assinados.
— No momento
isso não tem importância. Tenho outros problemas. Prepare o assunto sobre o
qual já conversamos. Quer indicar um lugar de encontro?
Chaktor
refletiu por alguns segundos. A tensão desenhava-se em seu rosto.
— No lugar
de sempre. E à mesma hora da última vez. Concorda?
— Espere por
mim. Mais uma coisa: recorra ao seu serviço secreto para arranjar cerca de
cinco perucas. Compreende o que quero dizer?
— Como é
mesmo? — disse o oficial da força espacial dos ferrônios em tom de espanto.
— Trata-se
de cabelo artificial, de um substituto da cobertura capilar craniana. Preste
atenção...!
Rhodan levou
alguns minutos até que seu interlocutor compreendesse tão estranho desejo.
Quando desligou o intercomunicador e o trancou no pesado cofre de seu camarote,
não havia o menor sinal de emoção em seu rosto.
Alguma coisa
se iniciara, alguma coisa que num tempo mais ou menos longo conduziria a missão
Vega a um desfecho definitivo.
Numa atitude
comedida caminhou em direção ao armário de armamentos. Os produtos mais ou
menos mortais da supertecnologia arcônida estavam presos aos seus suportes, sob
a proteção de um pequeno campo energético. Rhodan removeu o anteparo por meio
de uma chave de sinais codificados.
Dentro de
alguns instantes segurou a pesada arma de serviço. Tratava-se de um
desintegrador totalmente desconhecido em Ferrol, cujo raio de impulso produzia
a desagregação total da estrutura de um campo cristalino.
Antes de
recolher-se ao seu leito pneumático, Rhodan voltou a ligar os instrumentos de
controle. As telas minúsculas começaram a mostrar os setores mais importantes
da gigantesca nave. A transmissão sonora estava regulada para o nível de
espionagem.
Por alguns
instantes escutou a palestra do pessoal que se encontrava de serviço.
Conversavam sobre as seis luas do quadragésimo planeta.
Com um
sorriso sombrio interrompeu o funcionamento da aparelhagem, destinada
exclusivamente ao comandante. Não havia a menor dúvida: podia confiar nos seus
homens. Agora tudo dependia da capacidade de reação dos ferrônios.
* * *
Envergavam
capas marrom-escuras, que iam até os pés, do tipo usado pelos montanheses do
planeta Ferrol, geralmente considerados selvagens e rebeldes.
Especialmente
Bell, com sua estatura pequena e atarracada, poderia perfeitamente ser
confundido com um sicha.
Com Rhodan a
coisa já se tornava mais problemática. Todos sabiam que depois da retirada
precipitada dos invasores tópsidas, surgira em Ferrol um movimento de
resistência contra os homens que haviam pousado no planeta.
Círculos
bastante amplos do oitavo mundo do sistema Vega não queriam se conformar com as
concessões que o Thort fazia aos forasteiros. Era evidente que todos estavam
dispostos a dispensar-lhes sua gratidão. E também queriam negociar e ganhar dinheiro;
naturalmente.
Mas alguns
dos ferrônios mais influentes opunham-se à instalação de uma base comercial dos
homens, que reivindicavam soberania completa sobre o território abrangido pela
base.
Com isso
seria inevitável que sobre o planeta Ferrol surgisse uma cabeça-de-ponte de uma
raça forasteira. Apesar de tudo Rhodan não abriu mão de sua exigência. O
governo ferrônio poderia aceitar ou rejeitar a proposta.
A conclusão
do contrato era iminente. Com isso os grupos oposicionistas começaram a
fermentar. A televisão ferrônia, controlada pela gigantesca emissora de Thorta,
transmitira discussões violentas entre os representantes do governo e a
oposição. A decisão teria de ficar a cargo do soberano.
Reginald
Bell conhecia o desenrolar dos acontecimentos. Acompanhara-os com grande
preocupação e ficara surpreso quando Perry Rhodan em pessoa falou pelas
emissoras de TV dos planetas habitados pelos ferrônios. Na oportunidade evocara
de forma pouco gentil o auxílio prestado pelos homens. Com isso provocou a raiva
dos opositores.
No entender
de Bell, esse discurso fora o maior erro cometido desde a criação da Terceira
Potência. Rhodan limitara-se a sorrir, liquidando as objeções de seus
colaboradores com um simples gesto.
Agora, que a
declaração pública de Rhodan também havia sido transmitida pela imprensa
gravada dos ferrônios, encontravam-se na iminência de outro acontecimento
estranho.
* * *
As duas luas
do planeta principal estavam escondidas por trás de densas camadas de nuvens. A
última estrela acabara de desaparecer. A irrupção repentina das primeiras
ventanias anunciava um dos furacões que, no clima áspero de Ferrol, não
constituía nenhuma raridade.
Fazia
algumas horas que o sol Vega desaparecera atrás da curvatura do planeta. O
frescor da noite irrompera de golpe. Para os ferrônios já fazia um frio
terrível.
Encontravam-se
num bairro mal afamado da capital. Pouco depois dos subúrbios começava a área
dos estaleiros espaciais. Os últimos nativos fugiram da tormenta iminente,
descendo as escadas íngremes que davam para os subterrâneos, uma das
características daquelas ruas.
Rhodan
lançou os olhos pela viela; tiritava de frio. O mutante John Marshall inclinou
a cabeça, perscrutando a escuridão.
— Está
chegando? — perguntou Rhodan com a voz baixa. — Não gostaria de ficar aqui por
muito tempo. Vejo muita gente duvidosa.
— Neste
instante alguém está pensando que seria preferível evitar os sichas.
Marshall deu
uma risadinha.
Bell
praguejou com a voz baixa. O cano em espiral de sua arma desenhava-se
nitidamente por baixo da capa.
— Isto é uma
loucura — queixou-se. — Dentro de dez minutos o inferno estará às soltas por
aqui. Será que esse Chaktor não poderia ter escolhido outro lugar?
— Não. Seria
impossível aparecermos num lugar público, não acha? E na nave terá de aparecer
o menos possível. John, preste atenção ao que se passa na mente de Chaktor. Por
recomendação minha filiou-se oficialmente a um dos grupos de resistência
ferrônia. Procure detectar qualquer idéia de traição que surgir em sua cabeça.
Se isso acontecer, o homem não terá mais qualquer valor para nós.
Bell
virou-se lentamente. Seu rosto largo enrijeceu sob o capuz que descia por cima
da testa.
— O quê? O
homem pertence a um dos grupos de resistência?
— Isso
mesmo. Silêncio! Marshall está ouvindo alguma coisa.
Um vulto
atarracado envolto na luz débil de uma lanterna destacou-se da escuridão
ameaçadora. Uma cantoria desafinada vinha do botequim mais próximo.
O vulto
estranho parou. Parecia adivinhar que o homem que se encontrava em companhia de
Rhodan era um dos telepatas do Exército de Mutantes.
— É ele —
cochichou Marshall. — Ao que parece está bastante preocupado. Não se sente
muito à vontade. Quer dar o fora daqui o quanto antes. É só no que está
pensando.
Rhodan deu o
sinal luminoso e o vulto aproximou-se. Poucos segundos depois o rosto de
Chaktor tornou-se visível. Esconderam-se atrás de um trecho de muro que
avançava para a rua. John Marshall ficou de sentinela. Era impossível que
alguém se aproximasse sem ser notado pelo eficientíssimo telepata.
— Ande
depressa — fungou o ferrônio recém-chegado. — Acho que fui observado quando saí
do meu planador. Por aqui as paredes têm olhos e ouvidos.
Rhodan foi
breve. Não havia muito que dizer, já que a situação vinha sendo preparada há
algumas semanas.
— Trouxe as perucas?
Chaktor pôs
a mão embaixo da capa.
— São cinco.
Foi muito difícil conseguir este tipo de cabelo. Por que precisa disso?
Naquela
escuridão os olhos de Chaktor transformaram-se em cavernas sem fundo. Bell
apertou a coronha de sua arma. Mais adiante voltaram a surgir pessoas
uniformizadas. Tudo indicava que pertenciam à tripulação de uma nave espacial
ferrônia. Também desapareceram no interior do botequim.
— Veremos —
disse Rhodan. — Seus homens estão prontos?
— Disponho
de vinte homens. Todos eles já viajaram sob meu comando.
— São de
confiança?
— Sem dúvida
— asseverou o ferrônio. Lançou um olhar de constrangimento para o vulto do
telepata que se desenhava na escuridão. Chaktor sabia perfeitamente o que
poderia esperar de Marshall.
— Chaktor,
tenha confiança em nós — disse Rhodan, levantando a voz. — Sabe perfeitamente
que não temos o menor interesse em interferir na história do seu povo. Os
grupos de resistência não estão com a razão! Não verá nenhum dos nossos homens,
além dos que guarnecerem nossa base comercial. Se o soberano de seu mundo não
tivesse solicitado auxílio militar, já teria desaparecido do sistema Vega.
Sem dizer
uma palavra, o ferrônio estendeu as mãos espalmadas. Era um sinal de
concordância. Marshall deu um ligeiro aceno com a cabeça. Era evidente que
Chaktor ainda não se esquecera de que devia a vida aos homens. Durante o
primeiro contato com o inimigo não-humano, Rhodan o encontrara perdido no
espaço; era um náufrago. Dali em diante passara a ser um aliado fiel de Rhodan.
— Minha mão
será a sua. Quais são as instruções?
— O senhor
iniciará o ataque conforme combinamos. Utilize o armamento comum.
Chaktor
estremeceu. Suas mãos contorceram-se.
— Acontece
que nossas armas são mortais. Quer sacrificar seus homens?
— Tomaremos
nossas providências em relação aos seus emissores de raios térmicos. Não se
preocupe. Faça tudo para que o acontecimento chegue ao conhecimento do povo.
Não se esqueça de que contamos com sua atuação. Não pense que conseguirá
convencer o comando da frota tópsida com meias medidas. Se houver a menor
falha, nosso plano estará fadado ao insucesso.
Tenha sempre
em mente os princípios da lógica linear. Só eles são convincentes.
— Aí vem
gente — interveio Marshall. — É uma patrulha. Estão entrando no botequim.
— Apresse-se
— cochichou Chaktor. — Quer que entre em contato com o senhor depois que tudo
estiver terminado?
— Como está
o ambiente entre os seus companheiros?
— Estive com
eles todos os dias. Ouviram os debates, e também a exposição do senhor.
— Ótimo! Era
o que eu queria. Por hoje é só, Chaktor. Poderá regressar em segurança?
Dali a
alguns segundos o vulto atarracado desapareceu. Rhodan seguiu-o com os olhos
sem fazer um movimento.
— Cada
palavra proferida aqui representa um morto a menos — disse em tom grave. — John,
que tal as idéias que trazia em mente?
— Tudo
correto. Suas palavras foram sinceras. Acho... aí vem a patrulha!
Rhodan não
perdeu tempo. Os micro-reatores dos trajes arcônidas começaram a zumbir.
Produziram um campo antigravitacional que fez com que os homens se
desprendessem do solo. Pouco depois três corpos quase invisíveis voaram por
cima dos telhados baixos.
Bem ao longe
o brilho da cúpula energética da Stardust-III tomava toda a linha do horizonte.
No momento em que o furacão desabou com toda a fúria, uma pequena brecha
abriu-se na imensa estrutura.
O cientista
arcônida aguardava Rhodan junto à grande comporta localizada na parte inferior
da nave. O rosto de Crest parecia sério e reservado.
Quando
Rhodan tirou a capa, pondo à mostra o traje arcônida, Crest começou a falar. O
tom de sua voz era mais que sarcástico:
— O senhor
perdeu uma conversa interessante. Gostaria de saber para que nos serve um
couraçado da classe império em perfeitas condições. Se dependesse de mim...
— Acontece
que não depende de você — advertiu-o Rhodan. — Crest, o senhor já examinou os
dados que lhe forneci?
O arcônida
limitou-se a acenar com a cabeça.
— E daí?
— Além da
rigorosa exatidão das coordenadas de deslocamento, os detalhes do respectivo
sistema solar também são corretos. Essa estrela realmente possui planetas.
— Queira
gravar os dados em microfita. Utilize um dos carretéis automáticos. Não basta
que a coisa pareça genuína; deve ser genuína. Muito obrigado!
— O senhor
está brincando com fogo! — disse uma voz feminina.
Thora
surgira repentinamente. Seu cabelo quase branco emitia uma fosforescência
produzida pela luz ofuscante da imensa cúpula protetora.
Rhodan virou
a cabeça. Ao reconhecer os fascinantes olhos escuros de Thora, conteve um
sorriso.
— É o que os
homens vivem fazendo desde o início de sua história. Também seus antepassados
apreciavam o risco, Thora. Foi por isso que chegaram a alcançar o poder. Posso
confiar na senhora?
Thora
fitou-o prolongadamente. Depois confirmou com um aceno de cabeça:
— Tenho a
impressão de que o senhor está mesmo interessado em proteger a vida de seus
homens — disse pausadamente. — Acontece que com isso arrisca muita coisa.
Rhodan
preferiu não responder. Ao que parecia, os dois arcônidas tinham se metido numa
situação embaraçosa.
— Peça aos
três mutantes que compareçam à minha presença — disse Rhodan, dirigindo-se a
Bell. — Estarei no meu camarote. Logo depois nos encontraremos na sala dos
oficiais para discutir a situação.
Bell lançou
um olhar perplexo para o chefe, enquanto este desaparecia na comporta inferior.
* * *
Vieram em
três: dois homens e uma mulher jovem e morena, de compleição delicada.
André Noir,
filho de franceses, corpulento de aspecto bonachão, era natural do Japão. Enquanto
Ishi Matsu era uma filha genuína dessa pátria terrena, André só adotara alguns
dos seus costumes. Era um dos elementos mais importantes do Exército de
Mutantes criado por Rhodan.
André era
considerado um hipno. Uma vez concluídos os testes finais, realizados
nos campos de treinamento situados no planeta de Vênus, estava em condições de
impor sua vontade a qualquer ser vivo.
John
Marshall era o terceiro elemento do grupo. Devia incumbir-se da vigilância
telepática, contando com o auxílio da japonesa.
Quando o
capitão Klein entrou na sala, Ishi Matsu começou a tiritar. Os dirigentes da
Terceira Potência também se encontravam presentes.
No momento
Klein desempenhava as funções de oficial de armas do couraçado; além disso, era
perito em armas de todos os tipos. Acabara de concluir seu trabalho. Tinha o
rosto enegrecido, e os cabelos finos junto à testa pareciam chamuscados.
Ao entrar,
um cheiro desagradável de plástico queimado espalhou-se pela sala. O aspecto
dos objetos que trazia na mão não era bom. Tratava-se de três daqueles
uniformes verde-claros que Perry Rhodan mandara adotar.
Dois deles
apresentavam, na altura do peito, horríveis perfurações de tiro, queimadas nas
bordas. O terceiro parecia ter caído por engano num reator nuclear em pleno
funcionamento.
O furo
tomava a metade da largura do busto. Ali a fibra artificial não estava apenas
queimada, mas carbonizada e reduzida a uma série de bolhas.
Rhodan
aproximou-se. Examinou cuidadosamente os uniformes abertos sobre a mesa. Um
sorriso indiferente brincava em seus lábios.
— Ótimo,
Klein. Foi um trabalho bem feito. Será que acreditarão?
O capitão
Klein parecia respirar com dificuldade. Lançou um olhar quase ofendido sobre
seu interlocutor.
— Se
houvesse alguém dentro destes uniformes, a esta hora teríamos de lamentar três
mortos. Os furos pequenos foram produzidos pelos legítimos super-radiadores
ferrônios. Trata-se de armas que funcionam com base em impulsos térmicos
super-exatos, conforme o princípio das radiações luminosas ultra-reforçadas.
Acho que já conheço essas coisas.
— E aquilo
ali?
Bell engoliu
em seco. Klein reprimiu uma risadinha:
— Este furo
enorme? Foi causado por um dos produtos da tecnologia dos arcônidas. Regulei o
foco para a terceira graduação. Embora o desprendimento de energia fosse
mínimo, o material de prova logo entrou em ebulição. Se isto não tiver um
aspecto genuíno, quero...
— Está bem —
interrompeu Rhodan.
Depois
voltou-se para a mutante empalidecida, que vira à luz juntamente com seus
companheiros de sofrimento, ao tempo da explosão de Hiroshima.
— Sinto
muito, Ishi, mas tenho de lhe pedir que vista esta coisa horrível. O Dr.
Haggard preparará sua pele, para que pareça totalmente queimada. A mesma coisa
será feita com os peitos heróicos de Marshall e André Noir. Não precisa ficar
pálido, André!
— Será que
estou ficando? — perguntou o homem corpulento, engolindo em seco e fitando os
uniformes.
— Parece que
sim. Ishi, o plano será executado com a exatidão de um segundo. A senhora “fugirá” da nave, usando um planador
ferrônio. John e André “perseguem-na”
num veículo idêntico. Trará sob a roupa todos os micro-reatores arcônidas. Pode
ter certeza absoluta de que as cúpulas protetoras individuais geradas pelos
mesmos não deixarão passar um único raio.
— Tomara que
não! — murmurou Marshall, que se tornara um tanto pálido.
Bell contorceu
os lábios, num gesto de satisfação. Das outras vezes Marshall costumava ser o
homem que nunca perdia o sangue-frio.
— John, o
senhor atirará com uma arma arcônida sobre a espiã fugitiva. Dirija a pontaria
sobre o busto; por medida de precaução, utilize a potência mínima. Ishi Matsu
será atingida no momento em que sair do planador. Logo após o senhor e André
serão atacados e abatidos por elementos da resistência ferrônia. Caiam de
acordo com o figurino e acendam imediatamente os cartuchos de fumaça, para que
as perfurações de tiro produzam os respectivos efeitos óticos. Logo a seguir
serão “resgatados” antes que alguém
possa revistá-los. É tudo que têm a fazer. Mais alguma pergunta?
Rhodan olhou
em torno, com uma expressão tranqüila no rosto. Não estava disposto a tolerar o
menor engano.
— Para que
servirá tudo isso? — indagou Haggard, o médico.
—
Oportunamente o senhor saberá, doutor. Preciso de uma prova irrefutável e com
todas as aparências de autenticidade de que três dos meus homens foram mortos.
John, o senhor, que é o mais alto e magro de todos, fará o papel de arcônida.
Manoli colará em sua cabeça uma das perucas de cabelos brancos. Faço questão de
que o público ferrônio chegue à conclusão de que no curso dos acontecimentos
foram mortos não apenas dois elementos das minhas tropas de apoio, mas também
um verdadeiro arcônida. Daqui a duas horas voltaremos a nos encontrar. Os dois
planadores já estão lá fora. Dr. Haggard, faça o favor de preparar a pele dos
três. Enquanto isso Crest poderá aprontar os reatores da cúpula protetora.
Retiraram-se
sem dizer uma palavra. Não tinham perguntas a formular. O plano ousado de
Rhodan, que punha em jogo um sistema planetário, começou com a exatidão
cronométrica de um disparo de foguete.
A
conferência entre oficiais e tripulantes começou pouco depois. Os homens foram
informados sobre tudo. Mas por enquanto ninguém entendia bem qual seria a
finalidade de tudo aquilo. Ao concluir, Rhodan observou em tom vivo:
— ...servirá
para proteger suas vidas e evitar qualquer danificação de nossas preciosas
naves espaciais. Naturalmente já sabem que os tópsidas têm de ser expulsos do
sistema Vega. Vamos fazer com que isso aconteça. Farei o possível para que
possamos consegui-lo sem derramamento de sangue. O espírito do homem é seu bem
supremo. Portanto, devemos valer-nos dele. Muito obrigado!
Foi só. Não
era de estranhar que dali a alguns minutos os boatos ressoassem pelos
inúmeros compartimentos da Stardust-III.
Enquanto
isso, uma atividade febril desenvolvia-se no setor médico da nave. Folhas de
pele cultivada foram retiradas do seu elemento bioquímico e submetidas a
queimaduras. Após isso foram coladas sobre a pele sadia dos mutantes que
participariam da ação. Depois disso Marshall não se sentiu bem... em sua pele.
IV
Fazia duas
horas da escala de tempo terrena que a imensa bola incandescente do sol de Vega
começara a subir acima da linha do horizonte.
Como a
contagem ferrônia do tempo fosse muito complicada, adotaram a sombra móvel de
uma ponte de torre característica como elemento de referência.
Envolto nos
trajes amplos e arejados de um operário de estaleiro, Chaktor não tirava os
olhos da sombra estreita que a ponta da antena da torre de teledireção
projetava sobre a planície.
O
espaçoporto ficava bem ao leste. No ponto em que Chaktor se encontrava o
tráfego era pouco intenso. A ampla estrada de planadores estava praticamente
vazia sob os raios escaldantes do sol gigante.
Os vinte
homens de que dispunha estavam colocados em posições estratégicas, bem
protegidas. As construções titânicas dos enormes pavilhões de montagem formavam
um ótimo pretexto para que alguns grupos de pessoas conversassem nas suas
proximidades. Pesados veículos de transporte estavam sendo carregados pela
aparelhagem automática. Após isso dirigiam-se ao espaçoporto, onde a frota
comercial do planeta de Ferrol já reiniciara suas atividades.
A sombra
aproximava-se do último moirão da direita da cerca que limitava o grande
complexo. Quando o atingisse, teria chegado o momento combinado.
Chaktor
lançou um olhar para os planadores estacionados nas proximidades. Ele e seus
homens só podiam contar com os dois veículos para colocar-se em segurança.
Sob a ampla
capa, a sineta de seu micro-rádio fez um clique. Respondeu em voz baixa, sem
inclinar a cabeça.
O minúsculo alto-falante
transmitiu sons ferrônios. Chaktor sentiu o líquido salino que lhe encheu a
boca. A química do organismo dos ferrônios não possibilitava qualquer
transpiração através dos poros cutâneos.
A voz
revelava uma forte dose de autodomínio. Assim mesmo parecia encerrar um comando
e uma ameaça velada.
— Estamos
esperando. Você não poderá deixar de cumprir sua missão. Os veículos estão
prontos. Já está vendo alguma coisa?
Chaktor
sabia perfeitamente que não poderia permitir-se o menor engano. Era o chefe do
movimento de resistência em pessoa que estava falando com ele. Ninguém conhecia
seu nome; mas Chaktor tinha certeza de que pertencia aos círculos mais íntimos
do Thort.
— Ainda não
— respondeu o comandante da frota espacial. — Mas tenho certeza de que virá.
Minha retirada estará garantida.
— Está tudo
preparado. Faça um serviço bem feito.
Com estas
palavras, a troca de mensagens chegou ao fim. Chaktor lançou um olhar em
direção aos seus homens. Eram os únicos que sabiam que ele, Chaktor, na
verdade, não pertencia aos grupos oposicionistas. Essa circunstância também
representava um enorme foco de perigo. Todos esses elementos teriam que
desaparecer, uma vez concluída a ação.
Voltou a
olhar para a sombra que ia deslizando. Assim que a sombra pontuda tocou o
moirão, um pontinho reluzente surgiu bem ao longe. Chaktor retesou o corpo.
Seus homens crisparam os dedos em torno das armas ocultas sob suas vestes.
Fingindo uma indiferença total, Chaktor passou por outro grupo de operários do
estaleiro. Teve o cuidado de voltar o rosto para o outro lado. Estavam
chegando! Logo veriam se Perry Rhodan havia calculado bem ou mal.
Chaktor era
um excelente comandante de destróier. Não havia praticamente nada que pudesse
abalá-lo, desde que se encontrasse no espaço vazio.
Mas aqui, no
solo do oitavo planeta, sentia-se inseguro e constrangido. Dirigiu os olhos
flamejantes para o pontinho que crescia rapidamente. Subitamente o uivar
estridente do mecanismo propulsor atingiu-o sob a forma de sucessivas vagas
sonoras.
Chaktor começou
a caminhar mais depressa. Lá adiante, junto à estrada larga, havia uma área
livre e desimpedida. Era ali que a máquina teria de pousar.
A figura
achatada do planador passou em disparada. Atrás dos estranhos instrumentos de
controle via-se uma mulher jovem de uniforme estraçalhado, que aparentemente
sofrera graves queimaduras no rosto.
Ishi Matsu
sabia que se encontrava num jogo arriscado, onde a menor falha poderia
custar-lhe a vida.
Pôs a mão
apressadamente no reator nuclear do tamanho de um punho fechado, produzido pela
tecnologia arcônida. Já estava funcionando há alguns minutos. O campo
energético gerado pelo mesmo era praticamente invisível, mas quem observasse
bem não deixaria de notar o ligeiro tremeluzir. Fazia votos de que lá embaixo
não houvesse nenhum observador atento.
O jogo
incluía alguns fatores desconhecidos, que por isso mesmo não poderiam ser
computados. Quando forçou a máquina ferrônia a uma rápida descida, tinha o
rosto coberto de suor.
As torres
dos silos de abastecimento ergueram-se diante dela. Enquanto com os pés
acionava os controles de energia, regulando os jatos dianteiros de frenagem
para a potência máxima, notou na tela do visor traseiro alguma coisa que se
aproximava com um ruído uivante. Sentiu-se dominada pelo pânico.
Bastaria que
John Marshall pousasse um pouco mais cedo atrás dela, que disparasse uma fração
de segundo antes do tempo, para que uma rodinha da engrenagem cuidadosamente
montada se quebrasse.
Quando seu
planador tocou o solo num impacto por demais violento, soltou um grito
estridente. Sob o impulso dos seus reflexos inconscientes voltou a acionar a
plena potência os quatro jatos inferiores.
A máquina
empinou com um rugido, subiu alguns metros em linha sinuosa e, voltando a bater
estrondosamente no solo, acabou encontrando sua posição de repouso.
Estonteada,
Ishi Matsu continuou presa aos cintos do assento do piloto. Levou alguns
segundos até que o silêncio repentino atingisse sua consciência. O crepitar e
estalar do material em distensão eram os únicos sons que enchiam a acanhada
cabina de quatro pessoas.
Ainda
confusa, captou os impulsos gerados pelos pensamentos dos ferrônios que se
comprimiam lá fora. Era natural; o pouso acidentado chamara a atenção das
pessoas que não deviam participar da execução do plano.
Poucos
segundos depois percebeu as ondulações características de Chaktor.
Encontrava-se num estado de pânico total.
Levantou-se
com um gemido e com um pontapé abriu a porta da cabina. A luz ofuscante do sol
penetrou pela abertura. Lá fora viu numerosos ferrônios que corriam de um lado
para outro, entre eles alguns homens semi-agachados que seguravam as armas de
radiações.
Chaktor
gritou alguma coisa que não conseguiu entender em meio ao berreiro dos
curiosos. Só percebeu que surgira uma gravíssima situação de perigo.
Numa série
de quedas, Ishi atingiu o solo. No mesmo instante ouviu acima de sua cabeça o
rugido do jato de um planador absolutamente idêntico ao seu. Desta vez o pouso
foi impecável. Foi rápido e exigia o máximo do material, mas realizado com toda
perícia. Não era a primeira vez que Marshall manejava os controles de um
aparelho desse tipo.
Ishi começou
a correr. Pontos incandescentes atravessavam o ar escaldante do planeta Ferrol.
Os operários do estaleiro gritavam de pavor enquanto fugiam aos tiros de
radiações daqueles vinte homens, os únicos que deviam agir por ali.
A reação de
Chaktor fora instantânea. Teria de impedir a todo custo que algum homem
inocente e desejoso de prestar auxílio saísse ferido.
De forma que
seus homens dispararam cautelosamente seus tiros de advertência. Ishi
recuperara o autocontrole. Enquanto tropeçava segundo era previsto, atirando
para a frente a cápsula de plástico que trazia bem à vista, a escotilha do
segundo planador abriu-se.
Marshall
logo percebeu a situação confusa. Sem dizer uma palavra ergueu a pesada arma arcônida.
O chiado
quase imperceptível dos super-radiadores ferrônios foi superado pelo rugido do
emissor de impulsos. As moléculas de ar comprimidas brilharam numa estranha
incandescência, ao longo da trajetória do tiro. Ishi viu o raio energético
azul-violeta aproximar-se vertiginosamente, gerando um calor solar.
O grito
estridente não foi fingido. Quando o raio comprimiu seu corpo como se fosse uma
garra incandescente, a estabilidade do campo energético não impediu que a força
do impacto a fizesse rodopiar. Nesse instante a moça transformou-se numa tocha
acesa.
Ishi caiu em
silêncio. Seus nervos haviam resistido até o último instante, mas agora
sucumbiram à tensão.
Chaktor
atirou tranqüilamente. Antes que Marshall pudesse apontar novamente sua arma,
tombou ao lado de André Noir. Mais um tiro disparado com a arma do
hipnomutante, e a parte dianteira do planador semidestruído transformou-se numa
massa derretida.
Mais de
cinqüenta curiosos que haviam fugido em pânico viram que um ferrônio envolto em
trajes largos pegou o objeto que aquela mulher atirara para a frente antes de
tombar.
Depois de
disparar mais alguns tiros de advertência, os homens do grupo de Chaktor
recolheram-se aos planadores que os aguardavam. Os jatos rugiram, impelindo-os
para o alto, deixando para trás três corpos inermes e um montão de metais
derretidos.
O corpo de
Marshall fumegava. Olhou o corpo retorcido da moça por entre as pálpebras
semicerradas. André jazia perto dele.
— Acenda o
cartucho de fumaça, rapaz! — cochichou. — Muito bem. O que houve com Ishi?
— Está
inconsciente — respondeu André. — Fique com esse pé esquerdo quieto. Tomara que
a cúpula energética dela não tenha falhado.
— Que nada!
Cuidado! Essa gente está se aproximando. Obrigue-os a se manterem a distância
até que chegue o chefe. Era só o que faltava!
As tremendas
energias hipnóticas de André começaram a entrar em funcionamento. Os ferrônios
desejosos de prestar socorro, que se aproximavam correndo, estacaram de
repente. Acabaram voltando. Outros mostraram-se hesitantes.
— Muito bem
— cochichou Marshall. — Está funcionando. Vê-se que você aprendeu alguma coisa,
gorducho. Que tal se sente como cadáver?
André
praguejou baixinho. Alguns objetos explodiram à sua frente. A máquina atingida
continuava a arder, gerando um calor tremendo.
— Santo
Deus, quem dera que o chefe viesse logo! — gemeu André. — Quase não agüento
mais. Essa gente faz questão de nos ajudar.
— Só faltam
cinco minutos. Temos de esperar até que Chaktor se encontre em segurança. Ishi
está despertando. Tomara que...
Marshall
ficou calado. Olhou ansiosamente para a delicada japonesa. A moça só fez um
ligeiro movimento de mão. Logo compreendeu que uma pessoa cujo corpo apresenta
lesões de tamanha gravidade costuma ficar bem quietinha.
Daqui por
diante Ishi Matsu não cometeria qualquer engano!
* * *
O rosto de
um nativo surgiu na minúscula tela do aparelho ferrônio. Chaktor voltara a
envergar o uniforme cinza da frota espacial.
Suas
respostas foram cochichadas, precisas e lacônicas. Rhodan voltara a estar a sós
consigo mesmo, o interlocutor distante e os instrumentos de controle
desligados.
— O Thort
ficou atônito — murmurou. — As investigações já foram iniciadas. Não se deixe
pegar.
— Seus
homens estão bem? — indagou Chaktor com a voz nervosa.
—
Naturalmente. Tudo em ordem. Fizeram um trabalho bem feito. Ninguém saiu
machucado. Pegou o carretel com os registros?
— Ele foi
interpretado, mas continua em meu poder. Sou um dos líderes do movimento de
resistência.
— Ótimo! Era
isso que eu queria. Ainda hoje será iniciada a execução do plano C. Darei
imediatamente ordem para decolar. Cuide logo dos alojamentos. Como é mesmo o
nome daquele sujeito?
—
Chren-Tork. Por algum tempo exerceu as funções de representante do comandante-chefe
da frota tópsida. É um elemento muito importante. Nossos homens agarraram-no
quando se preparava para fugir.
— É deste
que eu preciso. É inteligente? Sabe desenvolver um raciocínio lógico?
— Sem
dúvida. Esses seres são feitos quase que exclusivamente de lógica. Não conhecem
sentimentos no sentido que nós emprestamos ao termo.
— Tanto
melhor. Providencie para que esse Chren-Tork tenha conhecimento do ataque
desfechado contra nossos homens. Faça chegar às suas mãos material fotográfico
que retrate os pretensos mortos. Deve formar sua própria opinião. Não fale
demais. Isso daria na vista. Faça com que acredite que o senhor pertence ao
movimento de resistência. Uma vez feito isso, conduza o tópsida à minha
presença para ser interrogado.
—
Enfrentarei dificuldades tremendas. Os prisioneiros encontram-se sob a
jurisdição de uma comissão de investigações científicas.
O gesto de
impaciência de Rhodan tornou-se visível na tela de imagem de seu interlocutor.
— Tratarei
disso junto ao Thort. Farei com que o senhor seja incumbido da apresentação. A
única coisa que exijo é que compareça à minha nave. É só. Mais alguma pergunta?
Chaktor fez
que não. Rhodan ainda acrescentou:
— A coisa
está ficando séria. Não perca o sangue-frio no último instante e continue a
confiar em mim. Nunca se esqueça de que é melhor ter uma base comercial minha
em Ferrol do que enfrentar uma invasão tópsida vinda do espaço. Sabe
perfeitamente que a frota dos senhores nada pode fazer. Não está à altura de
enfrentar os recursos tecnológicos dos seres reptilídeos.
Chaktor
sentira na própria carne a verdade dessas palavras.
— Vou
desligar. Aguarde as ordens que o Thort lhe transmitirá ainda hoje. Depois da
execução do plano C voltarei a dar-lhe cobertura. Obrigado.
Rhodan
interrompeu a ligação. O microtransmissor ferrônio voltou a ser trancado no
cofre. Poucos instantes depois o oficial de serviço chamou. O rosto de Bell
apareceu numa das telas.
— A S-7 está
pronta para decolar.
Rhodan tomou
o elevador do eixo central e foi aos hangares das naves auxiliares. O major
Nyssen parecia descansado e descontraído, tal qual seus homens.
A
comunicação de Nyssen foi transmitida numa fala lacônica e entrecortada. Rhodan
recapitulou com a voz baixa:
— Nyssen,
preciso confiar no senhor. Sua nave auxiliar tem um raio de ação de cerca de
quinhentos anos-luz. Siga exatamente os cálculos e salte para o espaço
interestelar. Transmita sua mensagem com a potência máxima. O código é
conhecido. Mas não transmita qualquer texto em linguagem comum. Isso daria na
vista. Uma vez terminada a troca de mensagem por hiperondas, retorne
imediatamente.
Nyssen fez
continência. Um sorriso ligeiro brincou em seus lábios estreitos.
— Vamos
torcer para que tudo dê certo. Se minha transmissão for captada e localizada
pelo goniômetro, poderemos ter alguma chance.
— A mensagem
será captada, pode ter certeza. Só estão esperando por isso. Portanto, devemos
fazer-lhes o favor de revelar a posição galáctica de nosso mundo por meio duma
mensagem direcional imprudente. Pode decolar!
Rhodan
acompanhou a manobra de ejeção, que dentro da atmosfera ferrônia não oferecia a
menor dificuldade. A pressão reinante no interior do couraçado era igual à
pressão externa.
A enorme S-7
foi expelida pelo campo de impulsão magnético, por entre os trilhos energéticos.
Lá fora, o dispositivo antigravitacional, inteiramente automatizado, logo criou
condições de imponderabilidade.
Poucos
segundos depois os mecanismos propulsores da nave auxiliar começaram a rugir.
Desenvolvendo uma velocidade vertiginosa, a mesma subiu para o céu matutino.
Quando o rugir cessou, a S-7 já havia desaparecido.
As estações
ferrônias de medição de impulsos de rádio registraram a partida da nave arcônida,
previamente anunciada. Era só. Os vôos eram tão corriqueiros, que essa missão
especial não despertava a menor atenção.
O capitão
Klein aguardava na sala de comando.
— Dentro de
uma hora haverá uma conferência no Palácio Vermelho — anunciou. — A notícia
acaba de chegar.
— Pode
confirmar. O que dizem os órgãos de segurança dos ferrônios?
— Estão
realizando uma busca febril para localizar os autores do “atentado”. O governo
formula acusações violentas contra a oposição, que é acusada de intransigência.
A conclusão do acordo é mais certa do que nunca.
— Matamos
dois coelhos de uma só cajadada — disse Rhodan com um sorriso sombrio. — Thora,
faça o favor de preparar o tradutor simultâneo. Daqui a pouco teremos visita.
Thora ergueu
as sobrancelhas, numa atitude indagadora.
— Visita?
Serão os ferrônios?
— Não, é
outra gente. Tem certeza de que os oficiais de patente elevada da frota tópsida
dominam o intercosmo?
— Tenho
certeza absoluta. O sistema Delta-Orion, administrado pelos tópsidas, pertence
ao Grande Império.
— Pertenceu!
— retificou Rhodan em tom áspero. — Essa gente já os passou para trás, e os senhores
nem se incomodam com isso. Já pensaram no que isso vai dar? Topsid incorporará
os sistemas planetários periféricos. Com isso seu reino se fortalecerá
consideravelmente no terreno político e econômico. E quais são as providências
que diante disso se tomam em Árcon, seu formidável mundo natal?
Thora
permaneceu calada. O cientista Crest baixou a cabeça antes de responder com a
voz débil:
— O senhor
sabe perfeitamente que perdemos a iniciativa da raça humana.
— Apenas
quis lembrar-lhes esse fato. Confie em nós, Crest. Seu Grande Império tem
necessidade premente de amigos fortes e fiéis. Viajamos na mesma nave. Acho que
não está interessado em ver seu império debilitado, roído progressivamente por
raças inteligentes não-humanas. Dentro de pouco tempo deixarão de roer e
passarão a devorar, o que se tornará muito doloroso. Peço-lhe que daqui por
diante se atenha estritamente às minhas instruções. Os problemas que temos de
enfrentar são os seguintes...
V
O robô arcônida
de combate não era muito ambicioso. Por outro lado, as inibições e os
sentimentos eram-lhe tão estranhos quanto as reflexões que um ser dotado de
raciocínio orgânico poderia realizar a qualquer tempo. Em compensação dispunha
de um cérebro positrônico cuidadosamente programado, que registrava de forma
indelével tudo que era importante para um robô de quatro braços especializado.
Foi assim
que os mecanismos multiarticulados que lhe serviam de braços assumiram
instantaneamente a posição de fogo, quando o setor individual do cérebro positrônico
captou os primeiros impulsos emitidos por um ser estranho.
Reginald
Bell franziu a testa. Um olhar ligeiro em direção a John Marshall deixou-o
ciente de que aquele que estavam procurando não podia estar muito longe.
Uma
sentinela ferrônia fez continência. Passaram por ele, atravessaram o corredor
que se seguiu e chegaram ao pavilhão circular das “jaulas”, situado em nível
inferior.
Bell parou.
Um cheiro adstringente subia de lá. Se não houvesse mais nada que pudesse
revelar a existência de algo completamente estranho, essa exalação quase
dolorosa o teria feito.
— Nunca
devíamos falar mal de um ser verdadeiramente inteligente. Não é culpado de ter
um organismo diferente do nosso. Mas um fedor destes também já é demais.
Bell engoliu
em seco. Depois ficou calado. Aproximou-se cautelosamente da amurada que
ladeava o corredor circular.
O enorme
campo de prisioneiros ficava na menor das duas luas de Ferrol. Era um mundo
morto, totalmente estéril, que tornava impossível a fuga para quem não
dispusesse de amplos recursos técnicos. Os ferrônios haviam se recusado a
abrigar em seu mundo os tópsidas aprisionados nas batalhas mais recentes.
Mas o
verdadeiro motivo da localização do campo de prisioneiros na pequena lua
residia num fato que provocava sentimentos bastante estranhos em Perry Rhodan.
Ali se realizavam experiências biomédicas. Não se falava muito nisso, ainda
mais que o Thort não admitia a menor discussão a esse respeito.
Bell passou
os olhos pela sala circular. As inteligências reptílicas haviam sido trancadas
em cubículos em forma de jaula que dispunham de fechaduras reforçadas e grades
elétricas de alta tensão.
Um miar e
assobiar estridente subiu das profundezas sombrias. Corpos fortes, revestidos
de escamas marrom-escuras, debatiam-se contra as altas grades.
— É por
causa da alimentação! — explicou o comandante em tom categórico.
John
Marshall pigarreou. Seu rosto moreno tinha um aspecto imponente sob a peruca
branca. A testa fora modificada por meio duma plástica bem cuidada, tendo
ficado mais elevada. Dessa forma o telepata transformara-se num genuíno
arcônida. Bell sentiu-se incomodado com a postura rígida e compenetrada de
John. Lançou um olhar de cólera para seu companheiro esbelto.
Lembrou-se
das palavras de Rhodan, segundo as quais ele, Bell, jamais poderia corporificar
um arcônida. Por isso figurou como pretenso comandante de pretensos povos
auxiliares provenientes de um planeta colonial de Árcon.
— O senhor
acha correto dispensar um tratamento destes a prisioneiros de guerra? —
perguntou Marshall em tom áspero.
O comandante
olhou-o sem compreender. As palavras que acabara de ouvir ultrapassavam a
capacidade de entendimento de um ferrônio.
Chaktor fez
um sinal de advertência. O gesto quase chegava a ser uma súplica. O mutante
resolveu ficar calado. Lá embaixo prosseguia a alimentação. Era um espetáculo
horrível e deprimente aos olhos de um homem.
O robô de
combate ainda mantinha abaixados os braços com as armas. Perto dele havia
muitas celas situadas ao nível do corredor circular. Eram mais confortáveis, dispondo
até de instalações sanitárias.
Placas
escritas em caracteres ferrônios indicavam quem se encontrava atrás das grandes
portas gradeadas.
Eram as
celas individuais de oficiais tópsidas de elevada patente, que por este ou
aquele motivo se tornaram prisioneiros.
Bell
aproximou-se lentamente. Atrás da porta gradeada um corpo marrom-escuro saltou
do leito mesquinho. O estranho ser, em cujo uniforme escuro se viam estranhas
insígnias, manteve-se num canto da cela, imóvel mas em posição de saltar.
Os olhos
esféricos, grandes e reluzentes, encravados num crânio de réptil largo e
achatado, que não apresentava a menor cobertura capilar, mantinham-se numa
atitude de vigilância. O corpo esguio, cuja altura correspondia aproximadamente
à de um homem, possuía dois braços e duas pernas. Nos lugares em que a pele
estava à mostra via-se nitidamente uma formação de escamas de coloração
marrom-escura. Os pés, de movimentos aparentemente muito lentos, estavam
enfiados em envoltórios em forma de botas.
Essa
criatura parecia uma figura de pesadelo, mas era dotada de uma inteligência
superior. Não havia a menor dúvida de que a Humanidade estaria
irremediavelmente perdida se ficasse exposta à investida inesperada desses
seres.
Bell
empalideceu um pouco. Os representantes de duas formas de evolução totalmente
diferentes fitavam-se em silêncio.
Também John
Marshall parecia perturbado. Sentiu nitidamente, até nitidamente demais, o que
ia pela consciência daquele ser estranho. O que predominava era o medo e o
pânico. Marshall concluiu que provavelmente os ferrônios haviam realizado
experiências nada agradáveis com esses descendentes de répteis. O tópsida, um
ser de aparência tão assustadora, vindo de um sistema solar situado a uma
distância de oitocentos e quinze anos-luz, estava mergulhado num oceano de
temores.
— O nome é
Chren-Tork. É um oficial de estado-maior, um dos chamados tubtor. Isso
corresponde aproximadamente à graduação de um comandante de cruzador — explicou
o guia ferrônio.
Bell parou
junto à grade. O corpo esguio do réptil curvou-se, pronto para saltar. Só
Marshall percebeu que se tratava de um gesto instintivo de autodefesa.
Bell era
diferente dos ferrônios com sua pele azul. O tópsida sentiu um perigo
indefinido.
Chren-Tork
ficou à espreita. Seus olhos grandes abrangiam tudo. Como oficial do
estado-maior da frota tópsida sabia perfeitamente quem causara o terrível
fracasso. Todavia, percebeu que esses seres atarracados não eram arcônidas,
pois estes tinham cabelo diferente e um corpo mais longo. Apesar disso achou que
Bell poderia ser perigoso.
Subitamente
John Marshall penetrou no campo de visão do tópsida. Com um agudo assobio de
pavor Chren-Tork recolheu-se apressadamente ao canto mais afastado de sua cela.
Marshall aproximou-se mais.
Chren-Tork
já sabia quem tinha diante de si. Era o representante do Grande Império, contra
o qual Topsid se rebelara numa série de lutas sangrentas. O jogo de esconder
chegara ao fim. Nem mesmo ele, Chren-Tork, com seu aspecto apavorante,
conseguiria impressionar o representante do planeta Árcon. As duas raças já se
conheciam há vários milênios.
Aquele ser
não-humano sabia perfeitamente que o arcônida lhe era superior sob todos os
aspectos, não apenas no que dizia respeito às gigantescas naves.
—
Chren-Tork, Tubtor do Reino dos Três Sóis — principiou Marshall em tom frio,
falando um intercosmo impecável.
Aprendera a
língua corrente da Via Láctea através do processo arcônida de treinamento
hipnótico.
— É o
senhor? Faça o favor de responder. Sei perfeitamente que fala e entende o
intercosmo.
A resposta
veio em forma de uma série de sons agudos e estridentes. Apesar disso era
perfeitamente compreensível. Embora as palavras não passassem de um chiado,
transmitiam uma resposta perfeitamente inteligível e bem refletida. Aquele ser
reptilídeo era muito inteligente.
— Por que
menciona este fato? É óbvio.
— O senhor
virá comigo. Meu comandante quer interrogá-lo a bordo de sua nave.
Chren-Tork
pensou que sua última hora tivesse chegado. O corpo musculoso curvou-se ainda
mais.
— Sou
prisioneiro destes seres primitivos. O senhor não tem nenhum direito...
— Tenho, sim
— respondeu Marshall em tom indiferente. — O senhor está submetido à jurisdição
do Império. Abra a porta.
A ordem foi
dirigida ao carcereiro ferrônio. Subitamente Chren-Tork viu diante de si o cano
de uma arma mortal. Já conhecia o desintegrador arcônida.
— Esta arma
é discreta e silenciosa — observou Bell com uma contração bonachona dos lábios.
Também sabia falar o intercosmo. — Saia. Aliás, sou do mundo que o senhor
confundiu com este planeta.
Bell deu uma
risadinha. O jogo estava começando. Marshall percebeu que o interesse do
tópsida despertara subitamente. Concluiu que há tempo o estado-maior tópsida
desconfiava de que um pequenino erro fizera com que calculassem erroneamente a
área em que se situava o objetivo, motivo por que haviam escolhido mal o
inimigo que atacaram. Agora veio a confirmação em forma de uma observação
aparentemente leviana.
Chren-Tork
saiu para o corredor. Não caminhava propriamente, mas impulsionava o corpo para
a frente numa série de movimentos elásticos. Bell passou a língua pelos lábios
ressequidos.
Logo
percebeu o gesto rápido de Marshall. O tópsida mordera a isca.
Diante da
grande comporta do campo de pouso Chaktor confirmou a entrega daquele
prisioneiro importante. Os ferrônios possuíam uma burocracia que metia vergonha
à guerra de papéis dos terráqueos. Durou uma eternidade até que deixassem o
tópsida atravessar a passagem transparente para entrar na pequena nave.
Poucos
minutos depois o veículo decolou. O prisioneiro estava agachado num assento
dobrável. Um robô de combate apontava-lhe a arma em atitude ameaçadora.
A pequena
lua foi sendo deixada para trás pela nave ferrônia que fazia a ligação com o
planeta. Por alguns segundos Bell contemplou a luminosidade ofuscante do
mecanismo propulsor de elevada potência. Depois dirigiu-se nervosamente a
Marshall:
— Será que
mordeu mesmo a isca? Esse tipo me dá medo.
— A mim não
dá mais. É ele que está com medo, e é o quanto basta. Cuidado! Chaktor está
entrando no jogo.
Ao perceber
as palavras cochichadas do ferrônio que passava como que por acaso, o tópsida
logo se acalmou. Se pudesse sorrir, ele o teria feito.
Era claro
que Chren-Tork estava informado sobre o movimento de resistência ferrônio. Os
elementos oposicionistas haviam espalhado a notícia no campo de prisioneiros
lunar.
Seus olhos
cintilantes acompanharam o oficial ferrônio. Acontece que não ouviu as palavras
que o telepata vigilante proferiu com a voz baixa:
— OK, o
contato foi estabelecido. Acredita que Chaktor é um inimigo dos arcônidas.
Bell
deixou-se cair na poltrona.
Pouco depois
o ar do planeta Ferrol começou a uivar no revestimento da nave. As antenas
rastreadoras brincavam na cúpula da nave. Antes que a nave de ligação se
preparasse para pousar, Rhodan já havia sido avisado.
— Estão
chegando — disse Crest com a voz nervosa. — Não acredite que conseguirá enganar
uma inteligência de tamanha superioridade com uma série de simples afirmativas
e dados falsificados. Conheço os tópsidas. Não têm sentimentos. Logo, a
possibilidade da prática de qualquer ato inspirado em razões sentimentais está
totalmente excluída. Eu, por exemplo, poderia sentir que seria preferível
abandonar o sistema Vega e voar para algum lugar onde tenha melhores chances.
Um tópsida jamais faria uma coisa destas. O senhor terá de oferecer trunfos bem
melhores, Rhodan!
— Aguarde —
tranqüilizou-o o comandante. — Nossa máquina já começou a funcionar.
— O senhor
não passa mesmo de um bárbaro — disse Thora por entre os dentes. Havia uma
expressão de contrariedade em seu rosto. — Lança mão de recursos estranhos; de
recursos primitivos, quase chego a dizer.
Rhodan
exibiu seu sorriso tão característico, que não dizia nada mas era por demais
cheio de conteúdo.
— São
recursos muito primitivos — confirmou em tom grave. — Justamente por isso nunca
acreditarão que um arcônida seria capaz de um procedimento desses, não é? O
senhor não acaba de afirmar que essa gente raciocina com uma lógica inflexível?
Justamente por isso devem acreditar que o joguinho por mim desenvolvido é
genuíno.
Thora abriu a boca. Crest franziu a testa;
parecia surpreso.
— É uma
teoria bastante arriscada — observou apressadamente. — Tem certeza do que está
dizendo? O senhor não é nenhum arcônida.
— Por que
mandei arranjar estas perucas? Aquele réptil não perceberá uma diferença tão
insignificante. Para ele
um arcônida é um ser alto, esbelto e de pele macia. Tem cabelos brancos na
cabeça e olhos pequenos e avermelhados. Reunirei todas estas características.
Mais alguma objeção?
Crest ficou
calado; estava perplexo. O ligeiro sorriso de Rhodan começou a desgastá-lo
psiquicamente.
Alguns
segundos depois a nave pousou. Bell anunciou sua chegada pelo radiofone.
— Tudo em
ordem por aqui. Não demonstre muita cortesia. Chaktor também deve vir. Conseguiu
estabelecer contato com o tópsida?
— Por várias
vezes. Fizemos de conta que não percebemos nada. O réptil já se sente muito
mais seguro.
— É isso
mesmo que queremos. Apressem-se.
* * *
O
interrogatório foi realizado na sala de comando da Stardust-III. Rhodan e
alguns talentos parapsicológicos do Exército de Mutantes ofereceram algumas
surpresas bem estudadas, que, ao que tudo indicava, jamais poderiam ter chegado
ao conhecimento do tópsida.
Quando
resvalou para fora da nave, sob a vigilância de robôs, Chren-Tork encontrava-se
num estado de esgotamento físico e psíquico. Nem desconfiava de que por mais de
uma hora sua vontade estivera sujeita aos efeitos paralisantes de um projetor
mental arcônida.
Após isso
chegara a vez de Kitai Ishibashi, um mutante positivo japonês, dotado de um
irresistível poder de sugestão. Era impossível que o oficial do estado-maior tópsida
jamais desconfiasse de que não estava agindo por sua livre e espontânea
vontade.
Acontece que
em seu cérebro fora gravado um pensamento e um substrato ideológico que o
obrigava a pautar suas reações exatamente pela vontade de Rhodan.
Quando o
corpo reptílico apareceu na tela do instrumental de observação ótica externa,
Rhodan tirou lentamente a peruca bem ajustada. Sem dúvida qualquer observador
humano teria percebido que essa profusão de cabelos embranquecidos não passava
de imitação. Mas para o réptil isso não seria possível. Rhodan sabia que
causara uma impressão profunda.
— Nossa atuação terminou — murmurou o
comandante. — Agora tudo depende de Chaktor. Basta que descubram suas
verdadeiras intenções, ou que não reconheçam as qualidades que quer aparentar,
para que nossos esforços sejam vãos.

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