sábado, 20 de outubro de 2012

P-013 - A Fortaleza das Seis Luas - K. H. Scheer [parte 2]


Rhodan interrompeu o silêncio:
— Sinto desapontá-la. Este couraçado foi recapturado por nós. Por isso não posso lhe conceder nenhum poder de comando sobre o mesmo. Além disso, não existe a menor possibilidade de retirar a Stardust-III do sistema Vega para transportá-los de volta ao seu mundo.
— Temos direito a isso. O senhor vai...
— Não vou coisa alguma, com sua licença — retrucou Rhodan, repelindo aquelas palavras ásperas. — O que está em jogo é a existência da Humanidade. A Terra fica a apenas vinte e sete anos-luz daqui. De uma hora para outra pode ser descoberta pelos invasores tópsidas. Tudo indica que esses sujeitos perceberam que cometeram um pequeno erro de cálculo. Estão procurando. E não estou disposto a arriscar. Entendeu?
— Leve-nos para Árcon, e poderá contar com o auxílio da frota do Império — interveio Crest em voz baixa. — Vejo que minha missão falhou. Tudo indica que não há mais possibilidade de encontrar o planeta, cujos habitantes, pelo que dizem, conhecem o segredo da vida eterna. Leve-nos para casa.
— Sinto muito, mas nem penso em colocar a única nave espacial de grandes dimensões de que dispomos no centro conturbado da galáxia, onde se travam lutas ferozes entre raças revoltadas. Enquanto a Humanidade não se tiver tornado forte e unida, considerarei a existência da Terra como o segredo número um. Em vez de atender às suas exigências, tenho que providenciar para que os tópsidas desapareçam do sistema Vega. Temos de evitar a descoberta da Terra.
— Seria bom que procurasse lembrar-se de que a Humanidade que pretende endeusar não se reveste da menor importância no quadro dos acontecimentos galácticos — disse Thora em tom zombeteiro.
— É uma questão de opinião — ressaltou Rhodan.
Uma ruga profunda desenhou-se em sua testa.
— Crest, o senhor é o chefe científico da expedição malograda dos arcônidas. Aguarde até que consigamos expulsar os tópsidas do sistema Vega. Depois veremos o resto. E agora, com sua licença, vou me retirar. Os cinco minutos passaram.
Rhodan olhou para o relógio. Já dissera tudo que devia ser dito.
— Quer dizer que haverá derramamento de sangue — disse Crest com um riso amargo. — Sabe perfeitamente quanto prezo os homens. Não existe outra raça que tenha tantas afinidades com a nossa. Se acredita que dentro de poucos anos poderá assumir a herança de meu povo, está redondamente enganado. Não tem condições para isso.
Rhodan parou por baixo da escotilha que se abria. Virou-se lentamente.
— O senhor ainda se admirará, Crest! Não nos confunda com essa gente cansada pertencente à sua raça. Um dia destes o planeta Terra desempenhará um papel importante no âmbito da galáxia. Assim que dispuser do necessário apoio, terei muito prazer em levá-los a Árcon. Peço-lhe que aguarde e não se esqueça de que, se não fosse o auxílio decisivo dos homens, já estaria morto.
— Por que teve que dizer uma coisa dessas? — perguntou Bell, quando entravam no elevador. Como Rhodan permanecesse calado, prosseguiu em tom contrariado: — Não acho conveniente lembrar aos arcônidas ou a quem quer que seja os benefícios que lhes fazemos. Se eles não tivessem aparecido, até hoje não saberíamos como é o Universo além do nosso sistema solar.
O rosto de Rhodan assumiu uma expressão séria. Bell tinha razão. Mas não poderia ter agido de outra forma.
— Essa gente terá de se acostumar com a idéia de que não somos apenas espertos. Nem penso em mandar a Stardust-III para o centro desse caos galáctico. Árcon está fadado ao desaparecimento, tal qual o império por ele controlado. Há séculos estão brigando em torno de insignificâncias, e nós não sabíamos de nada. Agora, que essas inteligências não-humanas com um nível de desenvolvimento infinitamente superior surgiram tão perto do nosso planeta, acho que nestas condições não podemos considerar os melindres dos arcônidas. Mais alguma objeção?
Rhodan impeliu seu corpo para fora do campo antigravitacional do elevador. Encontrava-se diante do setor residencial dos oficiais do couraçado. Parou diante da porta da cabina de comando, guardada por robôs.
— Cuide da S-7. Tenho o que fazer por aqui. Temos um bom barbeiro a bordo? Prefiro um que entenda de perucas.
— Chamarei o médico — gemeu Bell. — Fique tranqüilo; está tudo OK. A cabina é bem fresca. Vou...
Rhodan exibiu o sorriso que o tornara conhecido entre os pilotos da Força Espacial dos Estados Unidos. Ultimamente aparecia poucas vezes em seu rosto. Reginald Bell logo se controlou. Em seus olhos surgiu uma expressão perscrutadora. O corpo baixo enrijeceu-se. Não falou mais em médico.
— Você está tramando alguma coisa — cochichou lentamente. — O que é?
— Temos um fazedor de perucas a bordo ou não temos?
— Garanto que não. Dispomos de trezentos especialistas que passaram pelo treinamento hipnótico setorial dos arcônidas.
— OK, está liquidado. Cuide da S-7. Nyssen já terminou.
O silêncio foi rompido por um trovejar retumbante. No setor F os reatores HHe, destinados ao suprimento de energia dos projetores de campos energéticos, haviam sido postos a funcionar. A tela junto à porta da cabina de comando mostrava que a nave auxiliar S-7, recém-pousada, desaparecera do solo. Havia sido abrigada no gigantesco compartimento de comportas da nave-mãe.
O trovejar dos reatores cresceu de intensidade. A Stardust-III cobriu-se com a cúpula energética de elevada potência, que deixava perplexos os ferrônios, acostumados a tanta coisa. Era formada de unidades energéticas espacialmente superpostas. Por isso a estrutura de um campo de defesa desse tipo jamais seria compreendida por um ferrônio. Seus cérebros não foram feitos para isso. Atingiram a navegação espacial à velocidade da luz, e tinham de se contentar com isso.
Rhodan prestou atenção ao zumbido profundo das máquinas. Estavam abrigadas no pavilhão energético B, a mais de duzentos metros abaixo do ponto em que se encontrava.
Uma vez levantado o campo energético, a Stardust-III estava hermeticamente isolada do mundo exterior.
— Encontramo-nos na cantina. Esqueça essa história do cabeleireiro.
O homem esbelto desapareceu. Bell permaneceu imóvel diante da porta que se fechava. Os dois robôs arcônidas de combate não se mexeram. Já haviam registrado o modelo das ondas cerebrais de Bell e constatado que era inofensivo.
Finalmente afastou-se, resmungando uma praga. Não compreendia o que um cabeleireiro teria que ver com os últimos acontecimentos. Uma fortaleza cósmica estava sendo construída nas seis luas do quadragésimo planeta de Vega. Um homem da tripulação tombara numa ação contra a mesma... e o comandante pedia um cabeleireiro.
Para Bell era demais. Berrou para um inocente robô de reparos, que acabara de receber instruções de trocar uma tela de imagem defeituosa.
O major Nyssen surgiu mais ao longe. Fez um gesto e entrou em sua cabina. Em conformidade com as ordens emitidas, um período de repouso acabara de ter início a bordo do couraçado. Todos os tripulantes que não estivessem de sentinela eram obrigados a dormir. O planeta Ferrol desgastava as forças do corpo e do espírito.
Lá longe algumas das naves em forma de ovo dos ferrônios dispararam para o céu límpido. Pertenciam ao tipo das unidades que haviam sido destroçadas sob os golpes dos tópsidas.
Bell parou de cismar. Os pensamentos de Rhodan eram impenetráveis. Ao chegar a essa conclusão, apenas obedecia a um princípio seguido por milhões de oficiais de todos os tempos.

* * *

A grande cabina com seus compartimentos separados parecia antes uma pequena central de controle que um recinto destinado à habitação. As inúmeras telas estavam apagadas. O equipamento de comunicação de bordo fora desligado e os sinais de luz que costumavam acender-se e apagar-se numa sucessão febril também deixaram de funcionar.
Perry Rhodan estava só, tão só como qualquer comandante de uma grande frota costuma estar desde o início da era tecnológica.
Nenhum comandante podia se dar ao luxo de travar discussões intermináveis com seus subordinados. Tinha de manter uma certa distância, cuidando ao mesmo tempo para que a muralha do silêncio determinada pelas exigências militares não fosse interpretada como uma manifestação de arrogância e inacessibilidade.
Rhodan tinha um talento psicológico inato. Mesmo que não dispusesse de treinamento especial, saberia que num momento destes precisava estar só.
Sobre a mesa dobrável havia um pequeno aparelho de intercomunicação audiovisual de fabricação ferrônia. Era uma das maravilhas das oficinas micromecânicas de um povo que neste ponto até sobrepujava os arcônidas aparentemente inexcedíveis.
O aparelho, do tamanho de um punho cerrado, estava funcionando. A microtela oval mostrava linhas claras, que a interferência provocada pelo equipamento de distorção transformava em figuras disformes.
Demorou alguns segundos até que o sincronizador pudesse ser ativado. A imagem começou a fixar-se. O rosto pequeno de um ferrônio apareceu na tela. Mal se viam os olhos, profundamente encovados por baixo da testa protuberante. Em compensação as platinas do uniforme eram perfeitamente reconhecíveis.
Chaktor, oficial de ligação incumbido dos contatos entre o Thort e Perry Rhodan, inclinou a cabeça.
— Pois não.
— Seu equipamento de distorção está funcionando, Chaktor?
— Perfeitamente. Mas não devíamos falar por muito tempo. O que posso fazer pelo senhor?
— Preciso falar imediatamente com o senhor?
— Em sua nave? Os tratados ainda não foram assinados.
— No momento isso não tem importância. Tenho outros problemas. Prepare o assunto sobre o qual já conversamos. Quer indicar um lugar de encontro?
Chaktor refletiu por alguns segundos. A tensão desenhava-se em seu rosto.
— No lugar de sempre. E à mesma hora da última vez. Concorda?
— Espere por mim. Mais uma coisa: recorra ao seu serviço secreto para arranjar cerca de cinco perucas. Compreende o que quero dizer?
— Como é mesmo? — disse o oficial da força espacial dos ferrônios em tom de espanto.
— Trata-se de cabelo artificial, de um substituto da cobertura capilar craniana. Preste atenção...!
Rhodan levou alguns minutos até que seu interlocutor compreendesse tão estranho desejo. Quando desligou o intercomunicador e o trancou no pesado cofre de seu camarote, não havia o menor sinal de emoção em seu rosto.
Alguma coisa se iniciara, alguma coisa que num tempo mais ou menos longo conduziria a missão Vega a um desfecho definitivo.
Numa atitude comedida caminhou em direção ao armário de armamentos. Os produtos mais ou menos mortais da supertecnologia arcônida estavam presos aos seus suportes, sob a proteção de um pequeno campo energético. Rhodan removeu o anteparo por meio de uma chave de sinais codificados.
Dentro de alguns instantes segurou a pesada arma de serviço. Tratava-se de um desintegrador totalmente desconhecido em Ferrol, cujo raio de impulso produzia a desagregação total da estrutura de um campo cristalino.
Antes de recolher-se ao seu leito pneumático, Rhodan voltou a ligar os instrumentos de controle. As telas minúsculas começaram a mostrar os setores mais importantes da gigantesca nave. A transmissão sonora estava regulada para o nível de espionagem.
Por alguns instantes escutou a palestra do pessoal que se encontrava de serviço. Conversavam sobre as seis luas do quadragésimo planeta.
Com um sorriso sombrio interrompeu o funcionamento da aparelhagem, destinada exclusivamente ao comandante. Não havia a menor dúvida: podia confiar nos seus homens. Agora tudo dependia da capacidade de reação dos ferrônios.

* * *

Envergavam capas marrom-escuras, que iam até os pés, do tipo usado pelos montanheses do planeta Ferrol, geralmente considerados selvagens e rebeldes.
Especialmente Bell, com sua estatura pequena e atarracada, poderia perfeitamente ser confundido com um sicha.
Com Rhodan a coisa já se tornava mais problemática. Todos sabiam que depois da retirada precipitada dos invasores tópsidas, surgira em Ferrol um movimento de resistência contra os homens que haviam pousado no planeta.
Círculos bastante amplos do oitavo mundo do sistema Vega não queriam se conformar com as concessões que o Thort fazia aos forasteiros. Era evidente que todos estavam dispostos a dispensar-lhes sua gratidão. E também queriam negociar e ganhar dinheiro; naturalmente.
Mas alguns dos ferrônios mais influentes opunham-se à instalação de uma base comercial dos homens, que reivindicavam soberania completa sobre o território abrangido pela base.
Com isso seria inevitável que sobre o planeta Ferrol surgisse uma cabeça-de-ponte de uma raça forasteira. Apesar de tudo Rhodan não abriu mão de sua exigência. O governo ferrônio poderia aceitar ou rejeitar a proposta.
A conclusão do contrato era iminente. Com isso os grupos oposicionistas começaram a fermentar. A televisão ferrônia, controlada pela gigantesca emissora de Thorta, transmitira discussões violentas entre os representantes do governo e a oposição. A decisão teria de ficar a cargo do soberano.
Reginald Bell conhecia o desenrolar dos acontecimentos. Acompanhara-os com grande preocupação e ficara surpreso quando Perry Rhodan em pessoa falou pelas emissoras de TV dos planetas habitados pelos ferrônios. Na oportunidade evocara de forma pouco gentil o auxílio prestado pelos homens. Com isso provocou a raiva dos opositores.
No entender de Bell, esse discurso fora o maior erro cometido desde a criação da Terceira Potência. Rhodan limitara-se a sorrir, liquidando as objeções de seus colaboradores com um simples gesto.
Agora, que a declaração pública de Rhodan também havia sido transmitida pela imprensa gravada dos ferrônios, encontravam-se na iminência de outro acontecimento estranho.

* * *

As duas luas do planeta principal estavam escondidas por trás de densas camadas de nuvens. A última estrela acabara de desaparecer. A irrupção repentina das primeiras ventanias anunciava um dos furacões que, no clima áspero de Ferrol, não constituía nenhuma raridade.
Fazia algumas horas que o sol Vega desaparecera atrás da curvatura do planeta. O frescor da noite irrompera de golpe. Para os ferrônios já fazia um frio terrível.
Encontravam-se num bairro mal afamado da capital. Pouco depois dos subúrbios começava a área dos estaleiros espaciais. Os últimos nativos fugiram da tormenta iminente, descendo as escadas íngremes que davam para os subterrâneos, uma das características daquelas ruas.
Rhodan lançou os olhos pela viela; tiritava de frio. O mutante John Marshall inclinou a cabeça, perscrutando a escuridão.
— Está chegando? — perguntou Rhodan com a voz baixa. — Não gostaria de ficar aqui por muito tempo. Vejo muita gente duvidosa.
— Neste instante alguém está pensando que seria preferível evitar os sichas.
Marshall deu uma risadinha.
Bell praguejou com a voz baixa. O cano em espiral de sua arma desenhava-se nitidamente por baixo da capa.
— Isto é uma loucura — queixou-se. — Dentro de dez minutos o inferno estará às soltas por aqui. Será que esse Chaktor não poderia ter escolhido outro lugar?
— Não. Seria impossível aparecermos num lugar público, não acha? E na nave terá de aparecer o menos possível. John, preste atenção ao que se passa na mente de Chaktor. Por recomendação minha filiou-se oficialmente a um dos grupos de resistência ferrônia. Procure detectar qualquer idéia de traição que surgir em sua cabeça. Se isso acontecer, o homem não terá mais qualquer valor para nós.
Bell virou-se lentamente. Seu rosto largo enrijeceu sob o capuz que descia por cima da testa.
— O quê? O homem pertence a um dos grupos de resistência?
— Isso mesmo. Silêncio! Marshall está ouvindo alguma coisa.
Um vulto atarracado envolto na luz débil de uma lanterna destacou-se da escuridão ameaçadora. Uma cantoria desafinada vinha do botequim mais próximo.
O vulto estranho parou. Parecia adivinhar que o homem que se encontrava em companhia de Rhodan era um dos telepatas do Exército de Mutantes.
— É ele — cochichou Marshall. — Ao que parece está bastante preocupado. Não se sente muito à vontade. Quer dar o fora daqui o quanto antes. É só no que está pensando.
Rhodan deu o sinal luminoso e o vulto aproximou-se. Poucos segundos depois o rosto de Chaktor tornou-se visível. Esconderam-se atrás de um trecho de muro que avançava para a rua. John Marshall ficou de sentinela. Era impossível que alguém se aproximasse sem ser notado pelo eficientíssimo telepata.
— Ande depressa — fungou o ferrônio recém-chegado. — Acho que fui observado quando saí do meu planador. Por aqui as paredes têm olhos e ouvidos.
Rhodan foi breve. Não havia muito que dizer, já que a situação vinha sendo preparada há algumas semanas.
— Trouxe as perucas?
Chaktor pôs a mão embaixo da capa.
— São cinco. Foi muito difícil conseguir este tipo de cabelo. Por que precisa disso?
Naquela escuridão os olhos de Chaktor transformaram-se em cavernas sem fundo. Bell apertou a coronha de sua arma. Mais adiante voltaram a surgir pessoas uniformizadas. Tudo indicava que pertenciam à tripulação de uma nave espacial ferrônia. Também desapareceram no interior do botequim.
— Veremos — disse Rhodan. — Seus homens estão prontos?
— Disponho de vinte homens. Todos eles já viajaram sob meu comando.
— São de confiança?
— Sem dúvida — asseverou o ferrônio. Lançou um olhar de constrangimento para o vulto do telepata que se desenhava na escuridão. Chaktor sabia perfeitamente o que poderia esperar de Marshall.
— Chaktor, tenha confiança em nós — disse Rhodan, levantando a voz. — Sabe perfeitamente que não temos o menor interesse em interferir na história do seu povo. Os grupos de resistência não estão com a razão! Não verá nenhum dos nossos homens, além dos que guarnecerem nossa base comercial. Se o soberano de seu mundo não tivesse solicitado auxílio militar, já teria desaparecido do sistema Vega.
Sem dizer uma palavra, o ferrônio estendeu as mãos espalmadas. Era um sinal de concordância. Marshall deu um ligeiro aceno com a cabeça. Era evidente que Chaktor ainda não se esquecera de que devia a vida aos homens. Durante o primeiro contato com o inimigo não-humano, Rhodan o encontrara perdido no espaço; era um náufrago. Dali em diante passara a ser um aliado fiel de Rhodan.
— Minha mão será a sua. Quais são as instruções?
— O senhor iniciará o ataque conforme combinamos. Utilize o armamento comum.
Chaktor estremeceu. Suas mãos contorceram-se.
— Acontece que nossas armas são mortais. Quer sacrificar seus homens?
— Tomaremos nossas providências em relação aos seus emissores de raios térmicos. Não se preocupe. Faça tudo para que o acontecimento chegue ao conhecimento do povo. Não se esqueça de que contamos com sua atuação. Não pense que conseguirá convencer o comando da frota tópsida com meias medidas. Se houver a menor falha, nosso plano estará fadado ao insucesso.
Tenha sempre em mente os princípios da lógica linear. Só eles são convincentes.
— Aí vem gente — interveio Marshall. — É uma patrulha. Estão entrando no botequim.
— Apresse-se — cochichou Chaktor. — Quer que entre em contato com o senhor depois que tudo estiver terminado?
— Como está o ambiente entre os seus companheiros?
— Estive com eles todos os dias. Ouviram os debates, e também a exposição do senhor.
— Ótimo! Era o que eu queria. Por hoje é só, Chaktor. Poderá regressar em segurança?
Dali a alguns segundos o vulto atarracado desapareceu. Rhodan seguiu-o com os olhos sem fazer um movimento.
— Cada palavra proferida aqui representa um morto a menos — disse em tom grave. — John, que tal as idéias que trazia em mente?
— Tudo correto. Suas palavras foram sinceras. Acho... aí vem a patrulha!
Rhodan não perdeu tempo. Os micro-reatores dos trajes arcônidas começaram a zumbir. Produziram um campo antigravitacional que fez com que os homens se desprendessem do solo. Pouco depois três corpos quase invisíveis voaram por cima dos telhados baixos.
Bem ao longe o brilho da cúpula energética da Stardust-III tomava toda a linha do horizonte. No momento em que o furacão desabou com toda a fúria, uma pequena brecha abriu-se na imensa estrutura.
O cientista arcônida aguardava Rhodan junto à grande comporta localizada na parte inferior da nave. O rosto de Crest parecia sério e reservado.
Quando Rhodan tirou a capa, pondo à mostra o traje arcônida, Crest começou a falar. O tom de sua voz era mais que sarcástico:
— O senhor perdeu uma conversa interessante. Gostaria de saber para que nos serve um couraçado da classe império em perfeitas condições. Se dependesse de mim...
— Acontece que não depende de você — advertiu-o Rhodan. — Crest, o senhor já examinou os dados que lhe forneci?
O arcônida limitou-se a acenar com a cabeça.
— E daí?
— Além da rigorosa exatidão das coordenadas de deslocamento, os detalhes do respectivo sistema solar também são corretos. Essa estrela realmente possui planetas.
— Queira gravar os dados em microfita. Utilize um dos carretéis automáticos. Não basta que a coisa pareça genuína; deve ser genuína. Muito obrigado!
— O senhor está brincando com fogo! — disse uma voz feminina.
Thora surgira repentinamente. Seu cabelo quase branco emitia uma fosforescência produzida pela luz ofuscante da imensa cúpula protetora.
Rhodan virou a cabeça. Ao reconhecer os fascinantes olhos escuros de Thora, conteve um sorriso.
— É o que os homens vivem fazendo desde o início de sua história. Também seus antepassados apreciavam o risco, Thora. Foi por isso que chegaram a alcançar o poder. Posso confiar na senhora?
Thora fitou-o prolongadamente. Depois confirmou com um aceno de cabeça:
— Tenho a impressão de que o senhor está mesmo interessado em proteger a vida de seus homens — disse pausadamente. — Acontece que com isso arrisca muita coisa.
Rhodan preferiu não responder. Ao que parecia, os dois arcônidas tinham se metido numa situação embaraçosa.
— Peça aos três mutantes que compareçam à minha presença — disse Rhodan, dirigindo-se a Bell. — Estarei no meu camarote. Logo depois nos encontraremos na sala dos oficiais para discutir a situação.
Bell lançou um olhar perplexo para o chefe, enquanto este desaparecia na comporta inferior.

* * *

Vieram em três: dois homens e uma mulher jovem e morena, de compleição delicada.
André Noir, filho de franceses, corpulento de aspecto bonachão, era natural do Japão. Enquanto Ishi Matsu era uma filha genuína dessa pátria terrena, André só adotara alguns dos seus costumes. Era um dos elementos mais importantes do Exército de Mutantes criado por Rhodan.
André era considerado um hipno. Uma vez concluídos os testes finais, realizados nos campos de treinamento situados no planeta de Vênus, estava em condições de impor sua vontade a qualquer ser vivo.
John Marshall era o terceiro elemento do grupo. Devia incumbir-se da vigilância telepática, contando com o auxílio da japonesa.
Quando o capitão Klein entrou na sala, Ishi Matsu começou a tiritar. Os dirigentes da Terceira Potência também se encontravam presentes.
No momento Klein desempenhava as funções de oficial de armas do couraçado; além disso, era perito em armas de todos os tipos. Acabara de concluir seu trabalho. Tinha o rosto enegrecido, e os cabelos finos junto à testa pareciam chamuscados.
Ao entrar, um cheiro desagradável de plástico queimado espalhou-se pela sala. O aspecto dos objetos que trazia na mão não era bom. Tratava-se de três daqueles uniformes verde-claros que Perry Rhodan mandara adotar.
Dois deles apresentavam, na altura do peito, horríveis perfurações de tiro, queimadas nas bordas. O terceiro parecia ter caído por engano num reator nuclear em pleno funcionamento.
O furo tomava a metade da largura do busto. Ali a fibra artificial não estava apenas queimada, mas carbonizada e reduzida a uma série de bolhas.
Rhodan aproximou-se. Examinou cuidadosamente os uniformes abertos sobre a mesa. Um sorriso indiferente brincava em seus lábios.
— Ótimo, Klein. Foi um trabalho bem feito. Será que acreditarão?
O capitão Klein parecia respirar com dificuldade. Lançou um olhar quase ofendido sobre seu interlocutor.
— Se houvesse alguém dentro destes uniformes, a esta hora teríamos de lamentar três mortos. Os furos pequenos foram produzidos pelos legítimos super-radiadores ferrônios. Trata-se de armas que funcionam com base em impulsos térmicos super-exatos, conforme o princípio das radiações luminosas ultra-reforçadas. Acho que já conheço essas coisas.
— E aquilo ali?
Bell engoliu em seco. Klein reprimiu uma risadinha:
— Este furo enorme? Foi causado por um dos produtos da tecnologia dos arcônidas. Regulei o foco para a terceira graduação. Embora o desprendimento de energia fosse mínimo, o material de prova logo entrou em ebulição. Se isto não tiver um aspecto genuíno, quero...
— Está bem — interrompeu Rhodan.
Depois voltou-se para a mutante empalidecida, que vira à luz juntamente com seus companheiros de sofrimento, ao tempo da explosão de Hiroshima.
— Sinto muito, Ishi, mas tenho de lhe pedir que vista esta coisa horrível. O Dr. Haggard preparará sua pele, para que pareça totalmente queimada. A mesma coisa será feita com os peitos heróicos de Marshall e André Noir. Não precisa ficar pálido, André!
— Será que estou ficando? — perguntou o homem corpulento, engolindo em seco e fitando os uniformes.
— Parece que sim. Ishi, o plano será executado com a exatidão de um segundo. A senhora “fugirá” da nave, usando um planador ferrônio. John e André “perseguem-na” num veículo idêntico. Trará sob a roupa todos os micro-reatores arcônidas. Pode ter certeza absoluta de que as cúpulas protetoras individuais geradas pelos mesmos não deixarão passar um único raio.
— Tomara que não! — murmurou Marshall, que se tornara um tanto pálido.
Bell contorceu os lábios, num gesto de satisfação. Das outras vezes Marshall costumava ser o homem que nunca perdia o sangue-frio.
— John, o senhor atirará com uma arma arcônida sobre a espiã fugitiva. Dirija a pontaria sobre o busto; por medida de precaução, utilize a potência mínima. Ishi Matsu será atingida no momento em que sair do planador. Logo após o senhor e André serão atacados e abatidos por elementos da resistência ferrônia. Caiam de acordo com o figurino e acendam imediatamente os cartuchos de fumaça, para que as perfurações de tiro produzam os respectivos efeitos óticos. Logo a seguir serão “resgatados” antes que alguém possa revistá-los. É tudo que têm a fazer. Mais alguma pergunta?
Rhodan olhou em torno, com uma expressão tranqüila no rosto. Não estava disposto a tolerar o menor engano.
— Para que servirá tudo isso? — indagou Haggard, o médico.
— Oportunamente o senhor saberá, doutor. Preciso de uma prova irrefutável e com todas as aparências de autenticidade de que três dos meus homens foram mortos. John, o senhor, que é o mais alto e magro de todos, fará o papel de arcônida. Manoli colará em sua cabeça uma das perucas de cabelos brancos. Faço questão de que o público ferrônio chegue à conclusão de que no curso dos acontecimentos foram mortos não apenas dois elementos das minhas tropas de apoio, mas também um verdadeiro arcônida. Daqui a duas horas voltaremos a nos encontrar. Os dois planadores já estão lá fora. Dr. Haggard, faça o favor de preparar a pele dos três. Enquanto isso Crest poderá aprontar os reatores da cúpula protetora.
Retiraram-se sem dizer uma palavra. Não tinham perguntas a formular. O plano ousado de Rhodan, que punha em jogo um sistema planetário, começou com a exatidão cronométrica de um disparo de foguete.
A conferência entre oficiais e tripulantes começou pouco depois. Os homens foram informados sobre tudo. Mas por enquanto ninguém entendia bem qual seria a finalidade de tudo aquilo. Ao concluir, Rhodan observou em tom vivo:
— ...servirá para proteger suas vidas e evitar qualquer danificação de nossas preciosas naves espaciais. Naturalmente já sabem que os tópsidas têm de ser expulsos do sistema Vega. Vamos fazer com que isso aconteça. Farei o possível para que possamos consegui-lo sem derramamento de sangue. O espírito do homem é seu bem supremo. Portanto, devemos valer-nos dele. Muito obrigado!
Foi só. Não era de estranhar que dali a alguns minutos os boatos ressoassem pelos inúmeros compartimentos da Stardust-III.
Enquanto isso, uma atividade febril desenvolvia-se no setor médico da nave. Folhas de pele cultivada foram retiradas do seu elemento bioquímico e submetidas a queimaduras. Após isso foram coladas sobre a pele sadia dos mutantes que participariam da ação. Depois disso Marshall não se sentiu bem... em sua pele.



IV



Fazia duas horas da escala de tempo terrena que a imensa bola incandescente do sol de Vega começara a subir acima da linha do horizonte.
Como a contagem ferrônia do tempo fosse muito complicada, adotaram a sombra móvel de uma ponte de torre característica como elemento de referência.
Envolto nos trajes amplos e arejados de um operário de estaleiro, Chaktor não tirava os olhos da sombra estreita que a ponta da antena da torre de teledireção projetava sobre a planície.
O espaçoporto ficava bem ao leste. No ponto em que Chaktor se encontrava o tráfego era pouco intenso. A ampla estrada de planadores estava praticamente vazia sob os raios escaldantes do sol gigante.
Os vinte homens de que dispunha estavam colocados em posições estratégicas, bem protegidas. As construções titânicas dos enormes pavilhões de montagem formavam um ótimo pretexto para que alguns grupos de pessoas conversassem nas suas proximidades. Pesados veículos de transporte estavam sendo carregados pela aparelhagem automática. Após isso dirigiam-se ao espaçoporto, onde a frota comercial do planeta de Ferrol já reiniciara suas atividades.
A sombra aproximava-se do último moirão da direita da cerca que limitava o grande complexo. Quando o atingisse, teria chegado o momento combinado.
Chaktor lançou um olhar para os planadores estacionados nas proximidades. Ele e seus homens só podiam contar com os dois veículos para colocar-se em segurança.
Sob a ampla capa, a sineta de seu micro-rádio fez um clique. Respondeu em voz baixa, sem inclinar a cabeça.
O minúsculo alto-falante transmitiu sons ferrônios. Chaktor sentiu o líquido salino que lhe encheu a boca. A química do organismo dos ferrônios não possibilitava qualquer transpiração através dos poros cutâneos.
A voz revelava uma forte dose de autodomínio. Assim mesmo parecia encerrar um comando e uma ameaça velada.
— Estamos esperando. Você não poderá deixar de cumprir sua missão. Os veículos estão prontos. Já está vendo alguma coisa?
Chaktor sabia perfeitamente que não poderia permitir-se o menor engano. Era o chefe do movimento de resistência em pessoa que estava falando com ele. Ninguém conhecia seu nome; mas Chaktor tinha certeza de que pertencia aos círculos mais íntimos do Thort.
— Ainda não — respondeu o comandante da frota espacial. — Mas tenho certeza de que virá. Minha retirada estará garantida.
— Está tudo preparado. Faça um serviço bem feito.
Com estas palavras, a troca de mensagens chegou ao fim. Chaktor lançou um olhar em direção aos seus homens. Eram os únicos que sabiam que ele, Chaktor, na verdade, não pertencia aos grupos oposicionistas. Essa circunstância também representava um enorme foco de perigo. Todos esses elementos teriam que desaparecer, uma vez concluída a ação.
Voltou a olhar para a sombra que ia deslizando. Assim que a sombra pontuda tocou o moirão, um pontinho reluzente surgiu bem ao longe. Chaktor retesou o corpo. Seus homens crisparam os dedos em torno das armas ocultas sob suas vestes. Fingindo uma indiferença total, Chaktor passou por outro grupo de operários do estaleiro. Teve o cuidado de voltar o rosto para o outro lado. Estavam chegando! Logo veriam se Perry Rhodan havia calculado bem ou mal.
Chaktor era um excelente comandante de destróier. Não havia praticamente nada que pudesse abalá-lo, desde que se encontrasse no espaço vazio.
Mas aqui, no solo do oitavo planeta, sentia-se inseguro e constrangido. Dirigiu os olhos flamejantes para o pontinho que crescia rapidamente. Subitamente o uivar estridente do mecanismo propulsor atingiu-o sob a forma de sucessivas vagas sonoras.
Chaktor começou a caminhar mais depressa. Lá adiante, junto à estrada larga, havia uma área livre e desimpedida. Era ali que a máquina teria de pousar.
A figura achatada do planador passou em disparada. Atrás dos estranhos instrumentos de controle via-se uma mulher jovem de uniforme estraçalhado, que aparentemente sofrera graves queimaduras no rosto.
Ishi Matsu sabia que se encontrava num jogo arriscado, onde a menor falha poderia custar-lhe a vida.
Pôs a mão apressadamente no reator nuclear do tamanho de um punho fechado, produzido pela tecnologia arcônida. Já estava funcionando há alguns minutos. O campo energético gerado pelo mesmo era praticamente invisível, mas quem observasse bem não deixaria de notar o ligeiro tremeluzir. Fazia votos de que lá embaixo não houvesse nenhum observador atento.
O jogo incluía alguns fatores desconhecidos, que por isso mesmo não poderiam ser computados. Quando forçou a máquina ferrônia a uma rápida descida, tinha o rosto coberto de suor.
As torres dos silos de abastecimento ergueram-se diante dela. Enquanto com os pés acionava os controles de energia, regulando os jatos dianteiros de frenagem para a potência máxima, notou na tela do visor traseiro alguma coisa que se aproximava com um ruído uivante. Sentiu-se dominada pelo pânico.
Bastaria que John Marshall pousasse um pouco mais cedo atrás dela, que disparasse uma fração de segundo antes do tempo, para que uma rodinha da engrenagem cuidadosamente montada se quebrasse.
Quando seu planador tocou o solo num impacto por demais violento, soltou um grito estridente. Sob o impulso dos seus reflexos inconscientes voltou a acionar a plena potência os quatro jatos inferiores.
A máquina empinou com um rugido, subiu alguns metros em linha sinuosa e, voltando a bater estrondosamente no solo, acabou encontrando sua posição de repouso.
Estonteada, Ishi Matsu continuou presa aos cintos do assento do piloto. Levou alguns segundos até que o silêncio repentino atingisse sua consciência. O crepitar e estalar do material em distensão eram os únicos sons que enchiam a acanhada cabina de quatro pessoas.
Ainda confusa, captou os impulsos gerados pelos pensamentos dos ferrônios que se comprimiam lá fora. Era natural; o pouso acidentado chamara a atenção das pessoas que não deviam participar da execução do plano.
Poucos segundos depois percebeu as ondulações características de Chaktor. Encontrava-se num estado de pânico total.
Levantou-se com um gemido e com um pontapé abriu a porta da cabina. A luz ofuscante do sol penetrou pela abertura. Lá fora viu numerosos ferrônios que corriam de um lado para outro, entre eles alguns homens semi-agachados que seguravam as armas de radiações.
Chaktor gritou alguma coisa que não conseguiu entender em meio ao berreiro dos curiosos. Só percebeu que surgira uma gravíssima situação de perigo.
Numa série de quedas, Ishi atingiu o solo. No mesmo instante ouviu acima de sua cabeça o rugido do jato de um planador absolutamente idêntico ao seu. Desta vez o pouso foi impecável. Foi rápido e exigia o máximo do material, mas realizado com toda perícia. Não era a primeira vez que Marshall manejava os controles de um aparelho desse tipo.
Ishi começou a correr. Pontos incandescentes atravessavam o ar escaldante do planeta Ferrol. Os operários do estaleiro gritavam de pavor enquanto fugiam aos tiros de radiações daqueles vinte homens, os únicos que deviam agir por ali.
A reação de Chaktor fora instantânea. Teria de impedir a todo custo que algum homem inocente e desejoso de prestar auxílio saísse ferido.
De forma que seus homens dispararam cautelosamente seus tiros de advertência. Ishi recuperara o autocontrole. Enquanto tropeçava segundo era previsto, atirando para a frente a cápsula de plástico que trazia bem à vista, a escotilha do segundo planador abriu-se.
Marshall logo percebeu a situação confusa. Sem dizer uma palavra ergueu a pesada arma arcônida.
O chiado quase imperceptível dos super-radiadores ferrônios foi superado pelo rugido do emissor de impulsos. As moléculas de ar comprimidas brilharam numa estranha incandescência, ao longo da trajetória do tiro. Ishi viu o raio energético azul-violeta aproximar-se vertiginosamente, gerando um calor solar.
O grito estridente não foi fingido. Quando o raio comprimiu seu corpo como se fosse uma garra incandescente, a estabilidade do campo energético não impediu que a força do impacto a fizesse rodopiar. Nesse instante a moça transformou-se numa tocha acesa.
Ishi caiu em silêncio. Seus nervos haviam resistido até o último instante, mas agora sucumbiram à tensão.
Chaktor atirou tranqüilamente. Antes que Marshall pudesse apontar novamente sua arma, tombou ao lado de André Noir. Mais um tiro disparado com a arma do hipnomutante, e a parte dianteira do planador semidestruído transformou-se numa massa derretida.
Mais de cinqüenta curiosos que haviam fugido em pânico viram que um ferrônio envolto em trajes largos pegou o objeto que aquela mulher atirara para a frente antes de tombar.
Depois de disparar mais alguns tiros de advertência, os homens do grupo de Chaktor recolheram-se aos planadores que os aguardavam. Os jatos rugiram, impelindo-os para o alto, deixando para trás três corpos inermes e um montão de metais derretidos.
O corpo de Marshall fumegava. Olhou o corpo retorcido da moça por entre as pálpebras semicerradas. André jazia perto dele.
— Acenda o cartucho de fumaça, rapaz! — cochichou. — Muito bem. O que houve com Ishi?
— Está inconsciente — respondeu André. — Fique com esse pé esquerdo quieto. Tomara que a cúpula energética dela não tenha falhado.
— Que nada! Cuidado! Essa gente está se aproximando. Obrigue-os a se manterem a distância até que chegue o chefe. Era só o que faltava!
As tremendas energias hipnóticas de André começaram a entrar em funcionamento. Os ferrônios desejosos de prestar socorro, que se aproximavam correndo, estacaram de repente. Acabaram voltando. Outros mostraram-se hesitantes.
— Muito bem — cochichou Marshall. — Está funcionando. Vê-se que você aprendeu alguma coisa, gorducho. Que tal se sente como cadáver?
André praguejou baixinho. Alguns objetos explodiram à sua frente. A máquina atingida continuava a arder, gerando um calor tremendo.
— Santo Deus, quem dera que o chefe viesse logo! — gemeu André. — Quase não agüento mais. Essa gente faz questão de nos ajudar.
— Só faltam cinco minutos. Temos de esperar até que Chaktor se encontre em segurança. Ishi está despertando. Tomara que...
Marshall ficou calado. Olhou ansiosamente para a delicada japonesa. A moça só fez um ligeiro movimento de mão. Logo compreendeu que uma pessoa cujo corpo apresenta lesões de tamanha gravidade costuma ficar bem quietinha.
Daqui por diante Ishi Matsu não cometeria qualquer engano!

* * *

O rosto de um nativo surgiu na minúscula tela do aparelho ferrônio. Chaktor voltara a envergar o uniforme cinza da frota espacial.
Suas respostas foram cochichadas, precisas e lacônicas. Rhodan voltara a estar a sós consigo mesmo, o interlocutor distante e os instrumentos de controle desligados.
— O Thort ficou atônito — murmurou. — As investigações já foram iniciadas. Não se deixe pegar.
— Seus homens estão bem? — indagou Chaktor com a voz nervosa.
— Naturalmente. Tudo em ordem. Fizeram um trabalho bem feito. Ninguém saiu machucado. Pegou o carretel com os registros?
— Ele foi interpretado, mas continua em meu poder. Sou um dos líderes do movimento de resistência.
— Ótimo! Era isso que eu queria. Ainda hoje será iniciada a execução do plano C. Darei imediatamente ordem para decolar. Cuide logo dos alojamentos. Como é mesmo o nome daquele sujeito?
— Chren-Tork. Por algum tempo exerceu as funções de representante do comandante-chefe da frota tópsida. É um elemento muito importante. Nossos homens agarraram-no quando se preparava para fugir.
— É deste que eu preciso. É inteligente? Sabe desenvolver um raciocínio lógico?
— Sem dúvida. Esses seres são feitos quase que exclusivamente de lógica. Não conhecem sentimentos no sentido que nós emprestamos ao termo.
— Tanto melhor. Providencie para que esse Chren-Tork tenha conhecimento do ataque desfechado contra nossos homens. Faça chegar às suas mãos material fotográfico que retrate os pretensos mortos. Deve formar sua própria opinião. Não fale demais. Isso daria na vista. Faça com que acredite que o senhor pertence ao movimento de resistência. Uma vez feito isso, conduza o tópsida à minha presença para ser interrogado.
— Enfrentarei dificuldades tremendas. Os prisioneiros encontram-se sob a jurisdição de uma comissão de investigações científicas.
O gesto de impaciência de Rhodan tornou-se visível na tela de imagem de seu interlocutor.
— Tratarei disso junto ao Thort. Farei com que o senhor seja incumbido da apresentação. A única coisa que exijo é que compareça à minha nave. É só. Mais alguma pergunta?
Chaktor fez que não. Rhodan ainda acrescentou:
— A coisa está ficando séria. Não perca o sangue-frio no último instante e continue a confiar em mim. Nunca se esqueça de que é melhor ter uma base comercial minha em Ferrol do que enfrentar uma invasão tópsida vinda do espaço. Sabe perfeitamente que a frota dos senhores nada pode fazer. Não está à altura de enfrentar os recursos tecnológicos dos seres reptilídeos.
Chaktor sentira na própria carne a verdade dessas palavras.
— Vou desligar. Aguarde as ordens que o Thort lhe transmitirá ainda hoje. Depois da execução do plano C voltarei a dar-lhe cobertura. Obrigado.
Rhodan interrompeu a ligação. O microtransmissor ferrônio voltou a ser trancado no cofre. Poucos instantes depois o oficial de serviço chamou. O rosto de Bell apareceu numa das telas.
— A S-7 está pronta para decolar.
Rhodan tomou o elevador do eixo central e foi aos hangares das naves auxiliares. O major Nyssen parecia descansado e descontraído, tal qual seus homens.
A comunicação de Nyssen foi transmitida numa fala lacônica e entrecortada. Rhodan recapitulou com a voz baixa:
— Nyssen, preciso confiar no senhor. Sua nave auxiliar tem um raio de ação de cerca de quinhentos anos-luz. Siga exatamente os cálculos e salte para o espaço interestelar. Transmita sua mensagem com a potência máxima. O código é conhecido. Mas não transmita qualquer texto em linguagem comum. Isso daria na vista. Uma vez terminada a troca de mensagem por hiperondas, retorne imediatamente.
Nyssen fez continência. Um sorriso ligeiro brincou em seus lábios estreitos.
— Vamos torcer para que tudo dê certo. Se minha transmissão for captada e localizada pelo goniômetro, poderemos ter alguma chance.
— A mensagem será captada, pode ter certeza. Só estão esperando por isso. Portanto, devemos fazer-lhes o favor de revelar a posição galáctica de nosso mundo por meio duma mensagem direcional imprudente. Pode decolar!
Rhodan acompanhou a manobra de ejeção, que dentro da atmosfera ferrônia não oferecia a menor dificuldade. A pressão reinante no interior do couraçado era igual à pressão externa.
A enorme S-7 foi expelida pelo campo de impulsão magnético, por entre os trilhos energéticos. Lá fora, o dispositivo antigravitacional, inteiramente automatizado, logo criou condições de imponderabilidade.
Poucos segundos depois os mecanismos propulsores da nave auxiliar começaram a rugir. Desenvolvendo uma velocidade vertiginosa, a mesma subiu para o céu matutino. Quando o rugir cessou, a S-7 já havia desaparecido.
As estações ferrônias de medição de impulsos de rádio registraram a partida da nave arcônida, previamente anunciada. Era só. Os vôos eram tão corriqueiros, que essa missão especial não despertava a menor atenção.
O capitão Klein aguardava na sala de comando.
— Dentro de uma hora haverá uma conferência no Palácio Vermelho — anunciou. — A notícia acaba de chegar.
— Pode confirmar. O que dizem os órgãos de segurança dos ferrônios?
— Estão realizando uma busca febril para localizar os autores do “atentado”. O governo formula acusações violentas contra a oposição, que é acusada de intransigência. A conclusão do acordo é mais certa do que nunca.
— Matamos dois coelhos de uma só cajadada — disse Rhodan com um sorriso sombrio. — Thora, faça o favor de preparar o tradutor simultâneo. Daqui a pouco teremos visita.
Thora ergueu as sobrancelhas, numa atitude indagadora.
— Visita? Serão os ferrônios?
— Não, é outra gente. Tem certeza de que os oficiais de patente elevada da frota tópsida dominam o intercosmo?
— Tenho certeza absoluta. O sistema Delta-Orion, administrado pelos tópsidas, pertence ao Grande Império.
— Pertenceu! — retificou Rhodan em tom áspero. — Essa gente já os passou para trás, e os senhores nem se incomodam com isso. Já pensaram no que isso vai dar? Topsid incorporará os sistemas planetários periféricos. Com isso seu reino se fortalecerá consideravelmente no terreno político e econômico. E quais são as providências que diante disso se tomam em Árcon, seu formidável mundo natal?
Thora permaneceu calada. O cientista Crest baixou a cabeça antes de responder com a voz débil:
— O senhor sabe perfeitamente que perdemos a iniciativa da raça humana.
— Apenas quis lembrar-lhes esse fato. Confie em nós, Crest. Seu Grande Império tem necessidade premente de amigos fortes e fiéis. Viajamos na mesma nave. Acho que não está interessado em ver seu império debilitado, roído progressivamente por raças inteligentes não-humanas. Dentro de pouco tempo deixarão de roer e passarão a devorar, o que se tornará muito doloroso. Peço-lhe que daqui por diante se atenha estritamente às minhas instruções. Os problemas que temos de enfrentar são os seguintes...

V



O robô arcônida de combate não era muito ambicioso. Por outro lado, as inibições e os sentimentos eram-lhe tão estranhos quanto as reflexões que um ser dotado de raciocínio orgânico poderia realizar a qualquer tempo. Em compensação dispunha de um cérebro positrônico cuidadosamente programado, que registrava de forma indelével tudo que era importante para um robô de quatro braços especializado.
Foi assim que os mecanismos multiarticulados que lhe serviam de braços assumiram instantaneamente a posição de fogo, quando o setor individual do cérebro positrônico captou os primeiros impulsos emitidos por um ser estranho.
Reginald Bell franziu a testa. Um olhar ligeiro em direção a John Marshall deixou-o ciente de que aquele que estavam procurando não podia estar muito longe.
Uma sentinela ferrônia fez continência. Passaram por ele, atravessaram o corredor que se seguiu e chegaram ao pavilhão circular das “jaulas”, situado em nível inferior.
Bell parou. Um cheiro adstringente subia de lá. Se não houvesse mais nada que pudesse revelar a existência de algo completamente estranho, essa exalação quase dolorosa o teria feito.
— Nunca devíamos falar mal de um ser verdadeiramente inteligente. Não é culpado de ter um organismo diferente do nosso. Mas um fedor destes também já é demais.
Bell engoliu em seco. Depois ficou calado. Aproximou-se cautelosamente da amurada que ladeava o corredor circular.
O enorme campo de prisioneiros ficava na menor das duas luas de Ferrol. Era um mundo morto, totalmente estéril, que tornava impossível a fuga para quem não dispusesse de amplos recursos técnicos. Os ferrônios haviam se recusado a abrigar em seu mundo os tópsidas aprisionados nas batalhas mais recentes.
Mas o verdadeiro motivo da localização do campo de prisioneiros na pequena lua residia num fato que provocava sentimentos bastante estranhos em Perry Rhodan. Ali se realizavam experiências biomédicas. Não se falava muito nisso, ainda mais que o Thort não admitia a menor discussão a esse respeito.
Bell passou os olhos pela sala circular. As inteligências reptílicas haviam sido trancadas em cubículos em forma de jaula que dispunham de fechaduras reforçadas e grades elétricas de alta tensão.
Um miar e assobiar estridente subiu das profundezas sombrias. Corpos fortes, revestidos de escamas marrom-escuras, debatiam-se contra as altas grades.
— É por causa da alimentação! — explicou o comandante em tom categórico.
John Marshall pigarreou. Seu rosto moreno tinha um aspecto imponente sob a peruca branca. A testa fora modificada por meio duma plástica bem cuidada, tendo ficado mais elevada. Dessa forma o telepata transformara-se num genuíno arcônida. Bell sentiu-se incomodado com a postura rígida e compenetrada de John. Lançou um olhar de cólera para seu companheiro esbelto.
Lembrou-se das palavras de Rhodan, segundo as quais ele, Bell, jamais poderia corporificar um arcônida. Por isso figurou como pretenso comandante de pretensos povos auxiliares provenientes de um planeta colonial de Árcon.
— O senhor acha correto dispensar um tratamento destes a prisioneiros de guerra? — perguntou Marshall em tom áspero.
O comandante olhou-o sem compreender. As palavras que acabara de ouvir ultrapassavam a capacidade de entendimento de um ferrônio.
Chaktor fez um sinal de advertência. O gesto quase chegava a ser uma súplica. O mutante resolveu ficar calado. Lá embaixo prosseguia a alimentação. Era um espetáculo horrível e deprimente aos olhos de um homem.
O robô de combate ainda mantinha abaixados os braços com as armas. Perto dele havia muitas celas situadas ao nível do corredor circular. Eram mais confortáveis, dispondo até de instalações sanitárias.
Placas escritas em caracteres ferrônios indicavam quem se encontrava atrás das grandes portas gradeadas.
Eram as celas individuais de oficiais tópsidas de elevada patente, que por este ou aquele motivo se tornaram prisioneiros.
Bell aproximou-se lentamente. Atrás da porta gradeada um corpo marrom-escuro saltou do leito mesquinho. O estranho ser, em cujo uniforme escuro se viam estranhas insígnias, manteve-se num canto da cela, imóvel mas em posição de saltar.
Os olhos esféricos, grandes e reluzentes, encravados num crânio de réptil largo e achatado, que não apresentava a menor cobertura capilar, mantinham-se numa atitude de vigilância. O corpo esguio, cuja altura correspondia aproximadamente à de um homem, possuía dois braços e duas pernas. Nos lugares em que a pele estava à mostra via-se nitidamente uma formação de escamas de coloração marrom-escura. Os pés, de movimentos aparentemente muito lentos, estavam enfiados em envoltórios em forma de botas.
Essa criatura parecia uma figura de pesadelo, mas era dotada de uma inteligência superior. Não havia a menor dúvida de que a Humanidade estaria irremediavelmente perdida se ficasse exposta à investida inesperada desses seres.
Bell empalideceu um pouco. Os representantes de duas formas de evolução totalmente diferentes fitavam-se em silêncio.
Também John Marshall parecia perturbado. Sentiu nitidamente, até nitidamente demais, o que ia pela consciência daquele ser estranho. O que predominava era o medo e o pânico. Marshall concluiu que provavelmente os ferrônios haviam realizado experiências nada agradáveis com esses descendentes de répteis. O tópsida, um ser de aparência tão assustadora, vindo de um sistema solar situado a uma distância de oitocentos e quinze anos-luz, estava mergulhado num oceano de temores.
— O nome é Chren-Tork. É um oficial de estado-maior, um dos chamados tubtor. Isso corresponde aproximadamente à graduação de um comandante de cruzador — explicou o guia ferrônio.
Bell parou junto à grade. O corpo esguio do réptil curvou-se, pronto para saltar. Só Marshall percebeu que se tratava de um gesto instintivo de autodefesa.
Bell era diferente dos ferrônios com sua pele azul. O tópsida sentiu um perigo indefinido.
Chren-Tork ficou à espreita. Seus olhos grandes abrangiam tudo. Como oficial do estado-maior da frota tópsida sabia perfeitamente quem causara o terrível fracasso. Todavia, percebeu que esses seres atarracados não eram arcônidas, pois estes tinham cabelo diferente e um corpo mais longo. Apesar disso achou que Bell poderia ser perigoso.
Subitamente John Marshall penetrou no campo de visão do tópsida. Com um agudo assobio de pavor Chren-Tork recolheu-se apressadamente ao canto mais afastado de sua cela. Marshall aproximou-se mais.
Chren-Tork já sabia quem tinha diante de si. Era o representante do Grande Império, contra o qual Topsid se rebelara numa série de lutas sangrentas. O jogo de esconder chegara ao fim. Nem mesmo ele, Chren-Tork, com seu aspecto apavorante, conseguiria impressionar o representante do planeta Árcon. As duas raças já se conheciam há vários milênios.
Aquele ser não-humano sabia perfeitamente que o arcônida lhe era superior sob todos os aspectos, não apenas no que dizia respeito às gigantescas naves.
— Chren-Tork, Tubtor do Reino dos Três Sóis — principiou Marshall em tom frio, falando um intercosmo impecável.
Aprendera a língua corrente da Via Láctea através do processo arcônida de treinamento hipnótico.
— É o senhor? Faça o favor de responder. Sei perfeitamente que fala e entende o intercosmo.
A resposta veio em forma de uma série de sons agudos e estridentes. Apesar disso era perfeitamente compreensível. Embora as palavras não passassem de um chiado, transmitiam uma resposta perfeitamente inteligível e bem refletida. Aquele ser reptilídeo era muito inteligente.
— Por que menciona este fato? É óbvio.
— O senhor virá comigo. Meu comandante quer interrogá-lo a bordo de sua nave.
Chren-Tork pensou que sua última hora tivesse chegado. O corpo musculoso curvou-se ainda mais.
— Sou prisioneiro destes seres primitivos. O senhor não tem nenhum direito...
— Tenho, sim — respondeu Marshall em tom indiferente. — O senhor está submetido à jurisdição do Império. Abra a porta.
A ordem foi dirigida ao carcereiro ferrônio. Subitamente Chren-Tork viu diante de si o cano de uma arma mortal. Já conhecia o desintegrador arcônida.
— Esta arma é discreta e silenciosa — observou Bell com uma contração bonachona dos lábios. Também sabia falar o intercosmo. — Saia. Aliás, sou do mundo que o senhor confundiu com este planeta.
Bell deu uma risadinha. O jogo estava começando. Marshall percebeu que o interesse do tópsida despertara subitamente. Concluiu que há tempo o estado-maior tópsida desconfiava de que um pequenino erro fizera com que calculassem erroneamente a área em que se situava o objetivo, motivo por que haviam escolhido mal o inimigo que atacaram. Agora veio a confirmação em forma de uma observação aparentemente leviana.
Chren-Tork saiu para o corredor. Não caminhava propriamente, mas impulsionava o corpo para a frente numa série de movimentos elásticos. Bell passou a língua pelos lábios ressequidos.
Logo percebeu o gesto rápido de Marshall. O tópsida mordera a isca.
Diante da grande comporta do campo de pouso Chaktor confirmou a entrega daquele prisioneiro importante. Os ferrônios possuíam uma burocracia que metia vergonha à guerra de papéis dos terráqueos. Durou uma eternidade até que deixassem o tópsida atravessar a passagem transparente para entrar na pequena nave.
Poucos minutos depois o veículo decolou. O prisioneiro estava agachado num assento dobrável. Um robô de combate apontava-lhe a arma em atitude ameaçadora.
A pequena lua foi sendo deixada para trás pela nave ferrônia que fazia a ligação com o planeta. Por alguns segundos Bell contemplou a luminosidade ofuscante do mecanismo propulsor de elevada potência. Depois dirigiu-se nervosamente a Marshall:
— Será que mordeu mesmo a isca? Esse tipo me dá medo.
— A mim não dá mais. É ele que está com medo, e é o quanto basta. Cuidado! Chaktor está entrando no jogo.
Ao perceber as palavras cochichadas do ferrônio que passava como que por acaso, o tópsida logo se acalmou. Se pudesse sorrir, ele o teria feito.
Era claro que Chren-Tork estava informado sobre o movimento de resistência ferrônio. Os elementos oposicionistas haviam espalhado a notícia no campo de prisioneiros lunar.
Seus olhos cintilantes acompanharam o oficial ferrônio. Acontece que não ouviu as palavras que o telepata vigilante proferiu com a voz baixa:
— OK, o contato foi estabelecido. Acredita que Chaktor é um inimigo dos arcônidas.
Bell deixou-se cair na poltrona.
Pouco depois o ar do planeta Ferrol começou a uivar no revestimento da nave. As antenas rastreadoras brincavam na cúpula da nave. Antes que a nave de ligação se preparasse para pousar, Rhodan já havia sido avisado.
— Estão chegando — disse Crest com a voz nervosa. — Não acredite que conseguirá enganar uma inteligência de tamanha superioridade com uma série de simples afirmativas e dados falsificados. Conheço os tópsidas. Não têm sentimentos. Logo, a possibilidade da prática de qualquer ato inspirado em razões sentimentais está totalmente excluída. Eu, por exemplo, poderia sentir que seria preferível abandonar o sistema Vega e voar para algum lugar onde tenha melhores chances. Um tópsida jamais faria uma coisa destas. O senhor terá de oferecer trunfos bem melhores, Rhodan!
— Aguarde — tranqüilizou-o o comandante. — Nossa máquina já começou a funcionar.
— O senhor não passa mesmo de um bárbaro — disse Thora por entre os dentes. Havia uma expressão de contrariedade em seu rosto. — Lança mão de recursos estranhos; de recursos primitivos, quase chego a dizer.
Rhodan exibiu seu sorriso tão característico, que não dizia nada mas era por demais cheio de conteúdo.
— São recursos muito primitivos — confirmou em tom grave. — Justamente por isso nunca acreditarão que um arcônida seria capaz de um procedimento desses, não é? O senhor não acaba de afirmar que essa gente raciocina com uma lógica inflexível? Justamente por isso devem acreditar que o joguinho por mim desenvolvido é genuíno.
Thora abriu a boca. Crest franziu a testa; parecia surpreso.
— É uma teoria bastante arriscada — observou apressadamente. — Tem certeza do que está dizendo? O senhor não é nenhum arcônida.
— Por que mandei arranjar estas perucas? Aquele réptil não perceberá uma diferença tão insignificante. Para ele um arcônida é um ser alto, esbelto e de pele macia. Tem cabelos brancos na cabeça e olhos pequenos e avermelhados. Reunirei todas estas características. Mais alguma objeção?
Crest ficou calado; estava perplexo. O ligeiro sorriso de Rhodan começou a desgastá-lo psiquicamente.
Alguns segundos depois a nave pousou. Bell anunciou sua chegada pelo radiofone.
— Tudo em ordem por aqui. Não demonstre muita cortesia. Chaktor também deve vir. Conseguiu estabelecer contato com o tópsida?
— Por várias vezes. Fizemos de conta que não percebemos nada. O réptil já se sente muito mais seguro.
— É isso mesmo que queremos. Apressem-se.

* * *

O interrogatório foi realizado na sala de comando da Stardust-III. Rhodan e alguns talentos parapsicológicos do Exército de Mutantes ofereceram algumas surpresas bem estudadas, que, ao que tudo indicava, jamais poderiam ter chegado ao conhecimento do tópsida.
Quando resvalou para fora da nave, sob a vigilância de robôs, Chren-Tork encontrava-se num estado de esgotamento físico e psíquico. Nem desconfiava de que por mais de uma hora sua vontade estivera sujeita aos efeitos paralisantes de um projetor mental arcônida.
Após isso chegara a vez de Kitai Ishibashi, um mutante positivo japonês, dotado de um irresistível poder de sugestão. Era impossível que o oficial do estado-maior tópsida jamais desconfiasse de que não estava agindo por sua livre e espontânea vontade.
Acontece que em seu cérebro fora gravado um pensamento e um substrato ideológico que o obrigava a pautar suas reações exatamente pela vontade de Rhodan.
Quando o corpo reptílico apareceu na tela do instrumental de observação ótica externa, Rhodan tirou lentamente a peruca bem ajustada. Sem dúvida qualquer observador humano teria percebido que essa profusão de cabelos embranquecidos não passava de imitação. Mas para o réptil isso não seria possível. Rhodan sabia que causara uma impressão profunda.
— Nossa atuação terminou — murmurou o comandante. — Agora tudo depende de Chaktor. Basta que descubram suas verdadeiras intenções, ou que não reconheçam as qualidades que quer aparentar, para que nossos esforços sejam vãos.

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