sábado, 20 de outubro de 2012

P-018 - Os Rebeldes de Tuglan - Clark Darlton [parte 1]


Autor
CLARK DARLTON


Tradução
MARIA MADALENA WÜRTH TEIXEIRA


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN






Os acontecimentos em Vagabundo, o planeta do sol moribundo, provocaram tremendo desgaste nervoso em Perry Rhodan e sua equipe. Pois tinham de se defenderem de algo que atacava inesperadamente das trevas.
Mas agora, possuindo o modelo da Via-Láctea encontrado em Vagabundo, poderiam calcular os dados necessários para o salto. Nada parecia impedir o caminho de regresso para Vega.
No entanto, Gucky, o passageiro clandestino, tinha planos diferentes para a Stardust-III. É por causa de Gucky que Perry Rhodan se defronta com Os Rebeldes de Tuglan...







= = = = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =



Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência.

Reginald Bell — Ministro da segurança da Terceira Potência.

John Marshall — telepata, membro do Exército de Mutantes da Terceira Potência.

Crest e Thora — Arcônidas aliados de Perry Rhodan.

Gucky — Rato-castor inteligente do planeta Vagabundo.

Rathon — Arcônida, representante do Grande Império em Tuglan.

Alban e Daros — Dois irmãos tuglantes inimigos.




1



O pequeno ser se agachou numa depressão do solo, esperando.
O mundo parecia morto. Colinas avermelhadas até onde o olhar alcançava, estendendo-se até os confins do horizonte; longos vales com vegetação escassa. Um ou outro arbusto ressequido quebrava a monotonia da paisagem. Um sol vermelho-púrpura brilhava no céu, difundindo luz lúgubre e irreal. Fazia frio; a temperatura estava bem abaixo do ponto de congelamento. No firmamento violeta, cintilavam estrelas esparsas.
O ser assemelhava-se a um rato agigantado, com pretensões de passar por castor. A cauda não era longa e pontuda, como a de qualquer rato que se preze; era achatada e forte como a de um castor, mais parecia uma pá de remo.
O animal media cerca de um metro de comprimento. O sol moribundo arrancava reflexos castanho-avermelhados do pêlo liso e espesso. O focinho afilado dava à fisionomia um ar astuto e incomumente esperto.
Os pesados quartos traseiros permitiam deduzir que sua locomoção seria vagarosa. Talvez se desse bem em elemento líquido, porém naquele mundo deserto do sol moribundo não existia água. Não na superfície, pelo menos. Motivo que contribuíra, entre outros, para fazer os ratos-castores morarem debaixo da terra, muito abaixo do chão calcinado do deserto.
A vida era monótona e sem perspectivas, mas os ratos-castores satisfaziam-se com sua sina. Enquanto houvesse um pouco de vegetação para matar a fome, não havia motivo para se preocuparem.
E nenhum deles se preocupava, efetivamente; exceto este, que se destacava dos companheiros por um traço bem peculiar: não ficava, como os demais, privado da inteligência quando a noite caía.
Não tinha nome, entretanto. Era apenas um dos muitos habitantes daquele mundo isolado, totalmente desconhecido. Pastava com seus congêneres na hora do crepúsculo; depois se entocava no chão para dormir. Ao alvorecer, comia e dormia novamente. Dia após dia, sem variedade nem emoções.
Até a chegada dos estranhos, inopinadamente caídos do céu com uma bola imensamente grande. Pousaram e ficaram fazendo buscas nos arredores; tendo encontrado o que queriam, aprestavam-se para levantar vôo de novo.
Com eles chegara ao mundo morto algo que os ratos-castores desejavam inconscientemente: novidade e oportunidade de brincar.
Ele, principalmente, dera por isso. Arrepiado de emoção, o pequeno rato-castor relembrou as excitantes aventuras e brincadeiras em que se envolvera. Aqueles seres peculiares, que andavam eretos, e possuíam braços e pernas, tinham trazido consigo inúmeros aparelhos e máquinas, com as quais se podia inventar deliciosas brincadeiras. Só que os estranhos pareciam não gostar delas; mostravam-se até flagrantemente assustados.
Mas por quê, ora bolas?
Que havia de assustador em fazer os pesados veículos de esteira rodar em círculos? Ou disparar as interessantes armas existentes a bordo? Aquilo tudo não fora feito para funcionar?
O rato-castor encolheu-se ainda mais em seu precário esconderijo. A gigantesca esfera se encontrava a pouca distância dele. Os bípedes estavam atarefados em carregar maquinaria para dentro do enorme ventre de sua nave. Era óbvio que se preparavam para abandonar aquele mundo. Mas o rato-castor detestava a idéia de vê-los partir. A vida voltaria a ser solitária e monótona. Chato não dispor senão de pedras e areia para brincar... Sim, podia erguer algum amigo no ar e deixá-lo cair de novo; mas tal brincadeira acabava perdendo a graça com o tempo. De que lhe servia o poder de mover coisas sem tocá-las se não existiam coisas naquele mundo?
Os últimos caixotes estavam sendo fechados. Com a cabeça inclinada para o lado, o rato-castor refletia. Será que adiantaria pedir uma carona aos estranhos? Eles topariam levá-lo? Mas como perguntar? Eles não o entenderiam, certamente. Poderiam até ter medo dele.
Porém, se quisesse continuar a se divertir com eles, o rato-castor tinha que descobrir um jeito de penetrar na nave. Acompanhá-los na viagem, deixando para trás seu mundo... Mas como?
Os caixotes!
Um deles estava bem pertinho dele, com a tampa ao lado. Só faltava colocá-la no devido lugar. Os fechos magnéticos se encaixariam automaticamente. E não havia bípedes pela vizinhança imediata.
O rato-castor não perdeu tempo em cogitações. Instintivamente, impelido por motivos inconscientes, entrou em ação. Afinal, tudo que queria era brincar, mais nada. E para isso precisava ir com os estranhos. Coisa que só seria possível caso conseguisse se introduzir na grande nave, escondido dentro do caixote.
Não se levantou sobre as patas traseiras, conforme era seu hábito. Arrastando-se de bruços, esgueirou-se para fora do esconderijo; a larga cauda ia desfazendo as marcas deixadas na areia.
O animal — seria de fato um animal, só porque não tinha aparência humana? — chegou ao caixote. Olhando cautelosamente para os lados, saltou com presteza para dentro dele.
A sorte favorecia o pequeno rato-castor. Tratava-se de um dos caixotes de mantimentos da expedição espacial. Como boa parte das provisões já fora consumida, havia espaço de sobra para acomodar seu parco volume corporal. O resto foi simples.
Um dos bípedes, parado a alguma distância, em palestra com um companheiro, verificou que a tampa do caixote flutuava para cima; depois de oscilar indecisa por alguns instantes, baixou e encaixou-se no lugar. Espantado de início, o bípede acabou desprezando o incidente. Dando de ombros, retomou o fio da conversa interrompida. Já estava acostumado com as inofensivas brincadeiras telecinéticas dos gozados habitantes daquele planeta. Afinal, uma tampa de caixote voando não representava motivo para alarma.
E assim o rato-castor conseguiu entrar na enorme nave. Duas horas após, ela deixou seu planeta natal, tomando rumo desconhecido, que ele não era capaz de conceber nem imaginar.
Nem chegou a ver sua pátria, o solitário planeta de um sol moribundo, diminuir até reduzir-se gradualmente a um débil ponto luminoso, que logo se perdeu nas profundezas do espaço.
O aborrecimento voltava a tomar conta dele. O caixote era escuro e apertado. Estranhou o ar dentro da nave, muito mais rico em oxigênio do que a rarefeita atmosfera de seu planeta. Além disso, fazia muito calor. E ele vinha de um planeta de temperatura baixíssima. O mundo deserto, ao qual os estranhos haviam dado o nome de Vagabundo, recebia pouco calor de seu sol em degeneração; durante a noite, a temperatura descia muito abaixo do ponto de congelamento.
O rato-castor começou a transpirar. Afastando a tampa, saiu do caixote. Espantou-se com a enormidade do recinto em que se encontrava; deduziu logo que era uma espécie de depósito, pelas filas e pilhas de caixotes ali guardados. De repente escutou ruídos. Arrastou-se em direção deles, colado ao soalho. Abrir a porta foi fácil. Percorreu lentamente um longo corredor. O piso metálico vibrava sob seus pés, emitindo sons murmurantes.
O rato-castor tomou por uma passagem à direita, e ficou farejando o ar. Cheiro esquisito aquele... E o calor aumentava. Mas sentiu igualmente uma lufada de ar frio. Frio! Era o que queria!
Mais uma porta. Uma porção de bípedes, falando animadamente em seu estranho idioma. Havia diversos panelões sobre suportes; os bípedes remexiam neles com longos e cintilantes bastões. O calor se tornara insuportável.
O rato-castor avistou uma porta entreaberta. Era de lá que vinha o ar frio. Os bípedes nem sequer reparavam nele; além disso, os panelões ofereciam excelente cobertura. Com alguns saltos, alcançou a porta e introduziu-se pela fenda aberta.
Sentiu-se envolvido por um frio acolhedor, enquanto suas narinas detectavam odores desconhecidos. Fazendo a porta cerrar-se, olhou em torno de si, emitindo ondas, como um aparelho de radar. As ondas refletidas desenhavam imagens em suas sensíveis pupilas.
Sentiu fome, e deu com uma fruta. Dura e congelada como uma pedra, mas de sabor delicioso.
De repente, o rato-castor se sentiu à vontade, como se estivesse em seu ambiente habitual. E começou a brincar.

* * *

O sistema do sol moribundo, com seu planeta único, ficou para trás. A gigantesca esfera espacial ganhava o espaço interestelar, aprontando-se para o arriscado salto através da quinta dimensão.
As coordenadas estavam determinadas.
O sol Vega ficava a dois mil e quatrocentos anos-luz; a Terra e seu sol encontravam-se mais ou menos à mesma distância, porém em outra direção. No entanto, esses trajetos incomensuravelmente longos não constituíam problema algum para a nave espacial Stardust-III. E muito menos para Perry Rhodan.
O comandante da imensa nave, construída há muitos séculos pelos arcônidas, ocupava seu assento estofado, pronto para entrar em ação. Nos olhos cinzentos brilhava viva determinação. O corpo esguio estava tenso como um arco esticado. As mãos delgadas e queimadas de sol repousavam sobre os controles.
No cérebro positrônico estavam registradas as coordenadas do salto. Na escala lia-se o valor 2.401,0734 anos-luz. A nave seria desmaterializada, para reaparecer, quase no mesmo instante, na orla do sistema Vega. De onde seria fácil localizar o objetivo, com auxílio do mapa luminescente encontrado em Vagabundo.
E o objetivo era um planeta solitário e desprovido de sol, vagando perenemente pelo infinito, rumo à eternidade, cujo segredo abrigava em seu seio. Pois era o planeta da vida eterna.
Perry Rhodan aguardou ainda por alguns instantes.
A expectativa enchia-o de ansiosa inquietude. A busca do planeta da vida eterna estava se prolongando demais. Tinham seguido decididamente a pista encontrada em Vega, porém o imortal não lhes facilitara a tarefa. Espalhara um sem-número de enigmas através dos milênios, desvinculados de tempo e espaço. Rhodan e seus amigos tinham conseguido decifrar todos eles, com exceção do último. Apenas o último enigma resistira aos seus esforços.
O arcônida Crest encontrava-se de pé junto a Rhodan. A estatura elevada e os cabelos brancos lhe conferiam imensa dignidade. Sua aparência externa não deixava adivinhar que sua raça decaíra, estando, portanto, fadada à extinção. E, no entanto, os arcônidas dominavam ainda um imenso império estelar, a trinta e quatro mil anos-luz da Terra. Porém seu império se desagregava lenta e irremediavelmente. Os sistemas solares procuravam sua independência, desligando-se dos laços que os uniam ao Grande Império.
Crest descendia da dinastia arcônida reinante, um dos derradeiros representantes da estirpe. Sua expedição em busca da imortalidade acabara num pouso forçado na lua terrestre. Perry Rhodan socorreu-o quando realizava o primeiro vôo espacial tripulado dos terrestres, levando-o para a Terra. E desde então, Rhodan e Crest procuravam juntos a “pedra filosofal”.
O planeta Vagabundo havia lhes fornecido nova pista: um mapa luminoso da Via-Láctea, no qual um traço nítido unia Vega ao planeta da vida eterna. Com o que sua posição estava finalmente determinada.
— Já vai iniciar a transição, Rhodan? — indagou Crest, com um suspiro. — Refletiu bem sobre isso?
— As coordenadas estão corretas, e dispomos de pouco tempo.
O arcônida deu de ombros.
— Ainda estamos perto demais do sol vermelho. Lembre-se que este sistema tem apenas um planeta. Isso pode iludir no cálculo das distâncias.
— Vinte unidades astronômicas — disse Rhodan, com um olhar para o amplo painel de instrumentos. — É o suficiente. Sente-se, Crest. É agora...
Crest continuou de pé. A posição do corpo era indiferente durante a transição. O efeito se manifestaria de forma bastante atenuada, pois os campos gravitacionais próprios da nave compensariam tudo.
Com um sorriso tenso, Perry Rhodan acionou a alavanca de transição.
As telas escureceram, sem mostrar agora estrela alguma.
A matéria deixou de existir, pelo menos no espaço normal. Passou primeiro para a quarta, e depois para a quinta dimensão; desvinculada de tempo e de espaço, percorreu uma distância de 2.401,0734 anos-luz e recomeçou a existir.
Dois mil quatrocentos e um anos-luz?
No preciso instante em que ocorria a transição, Perry Rhodan percebeu que algo saíra errado.
A habitual dor nos membros estava presente, conforme sempre se fizera sentir nos saltos até então executados. Mas os olhos de Rhodan continuavam enxergando. E viram o número no visor da escala de coordenadas dar um pulo acentuado. Chegou a identificar um 3, mais um 3, e a seguir três outros algarismos que não conseguiu ler. Sua vista se turvou, e tudo escureceu.
Desmaterializados, Perry Rhodan e sua nave dispararam pelo Universo, na direção de um alvo desconhecido e estranho.
O gigantesco sol azul flamejava ameaçadoramente no espaço.

* * *

Era a estrela-mãe de trinta e oito planetas, girando em órbitas diversas. Mas nem a todos ela dava vida. Os planetas internos não recebiam mais do que seu hálito mortal; as massas incandescentes semifluidas só mantinham a forma esférica devido à força da gravidade. A seguir vinha a zona da vida, que se estendia do oitavo ao décimo quinto planeta. Mais além ficavam os enormes mundos gelados, onde a vida natural não encontrava ambiente propício para se desenvolver. Os planetas mais afastados não passavam de sinistros monstros congelados, rodando em torno de seu sol em órbitas cada vez mais distantes, e recebendo dele escassa luz.
Em plena zona da vida, o planeta Tuglan prosperava sob os raios benéficos de seu sol Laton. Quando anoitecia em Tuglan, havia tantas estrelas no céu que se podia ver a própria sombra. Jamais um terrestre havia visto tal ajuntamento de estrelas, pois Laton ficava na orla do conglomerado de estrelas M-13, na constelação de Hércules, a mais de trinta e cinco mil anos-luz da Terra.
O planeta Tuglan era habitado.
As expedições exploratórias do Grande Império arcônida já haviam constatado tal fato há mais de seis mil anos, tratando logo de incorporar Tuglan ao Grande Império. Para os tuglantes, teve início então um período de desenvolvimento econômico e progresso técnico. Em conseqüência da expansão de sua espaçonáutica, fora-lhes possível colonizar os demais planetas habitáveis do sistema.
O contato com os arcônidas resultara na unificação política de Tuglan, que passou a ser governado pelo alto-comissário de Árcon, e pelo lorde de Tuglan.
Porém as visitas das naves arcônidas à distante colônia se tornaram cada vez mais raras, e o contato de Tuglan com o longínquo império afrouxou gradualmente. Apenas a presença do alto-comissário lembrava que os tuglantes eram súditos de um reino mais poderoso.
Mas, na realidade, a situação era ainda mais complicada. Pois, apesar de já não se lembrarem disso, os tuglantes eram descendentes dos arcônidas. Doze mil anos antes, colonizadores pioneiros de Árcon tinham descoberto e povoado o planeta Tuglan. Naquela época, o Grande Império ainda não havia sido constituído nos moldes posteriores, e o episódio não foi divulgado. Portanto, ao redescobrir Tuglan seis mil anos após, os arcônidas julgaram ter encontrado uma raça nova
Os descendentes dos arcônidas não eram mais albinos; em vez de brancos, seus cabelos eram arroxeados, e a pele tinha tom vermelho-azulado.
No palácio do grande lorde de Tuglan reinava uma excitação cuidadosamente contida. Nada transpirava além das paredes, mas os funcionários e dignitários do reino interplanetário de Laton pressentiam algo incomum. Ninguém sabia ao certo do que se tratava, se bem que um ou outro nutrisse conjecturas mais ou menos acertadas.
O grande lorde Alban, homem de estatura imponente e expressão rígida, usou de toda a franqueza com Daros, seu irmão mais moço.
— Já agüentamos demais a tutela desses arcônidas decadentes. Existe algum motivo válido para continuarmos sendo colônia do império deles?
O homem mais jovem fora contemplado pela natureza com traços bem mais simpáticos. Nos olhos escuros refletia-se algo como melancolia e fraqueza; porém a boca enérgica desmentia tal impressão. Era esbelto, e vestia-se como os demais funcionários superiores.
— Sei que você desejaria ver os tuglantes se tornarem independentes — disse o jovem, fitando pensativamente o irmão. — No entanto, pergunto-me que vantagens vê em se desligar do império e ser independente. Existem motivos convincentes para isso?
Alban refutou a objeção com um gesto impaciente da mão.
— Qual a vantagem de ser patriota? É isso que quer saber? Não esqueça que o império arcônida está com os dias contados. Não que estejamos muito a par do que ocorre, mas o alto-comissário deixou escapar há dias uma observação reveladora; deduzi dela que os arcônidas estão tendo dificuldades. E muitas raças pensam como nós.
— E o que é que nós pensamos? — indagou Daros, com ar de desafio.
— Queremos ser livres! — exclamou Alban, em tom patético. — Livres de Árcon! Será este nosso lema.
— Livres de Árcon! — repetiu Daros, sacudindo a cabeça. — Que lema mais sem sentido! Sempre fomos livres no que se refere a Árcon... Está certo, fazemos parte do Grande Império. Mas isso nos trouxe alguma vez inconvenientes?
— Trata-se de ideais nacionais! — clamou Alban, entusiasticamente, dando um murro na mesa. — Nosso sistema possui oito planetas habitados, todos unificados sob o meu governo. Somos fortes e poderosos. Por que deveríamos nos submeter?
Daros suspirou:
— Não entendo seus argumentos, mano. Por que quer lutar com quem nunca nos fez mal algum? O alto-comissário arcônida é homem de boa paz, que jamais se imiscuiu em nossos assuntos. Portanto, somos realmente independentes.
— Sim, mas apenas porque nos opomos há anos ao domínio arcônida. Se bem que de maneira passiva, sem recorrer ao emprego de armas. Considero o alto-comissário mero resquício, que precisa ser afastado.
— Pensa matá-lo? — perguntou Daros, preocupado.
— Se for preciso, sim. Pois ele controla o único sistema radiofônico de comunicação com Árcon. Basta interditá-lo, e ele não terá possibilidade alguma de alarmar os arcônidas. Como vê, pensei em tudo.
— E por que me revela seus planos, se sabe que penso de maneira diversa? — perguntou Daros, intrigado.
O lorde de Tuglan sorriu:
— Não tenho filhos, irmão, e você algum dia se tornará meu sucessor. Quero que seja um governante sábio e esclarecido. Logo, deve tomar conhecimento das razões que me levam a proceder conforme procederei em breve. Até que você poderia ser invejado. Eu libertarei Tuglan, e você é quem governará futuramente uma raça livre.
Daros sacudiu a cabeça, muito sério.
— Frases, Alban, nada mais que frases. Não se pode libertar quem já é livre há muito tempo ou pretende nos tornar mais felizes do que já somos? Não vivemos na paz e na fartura? Em que essa sua apregoada liberdade poderia vir a melhorar nossa situação?
O sorriso de Alban desapareceu.
— A liberdade é um símbolo, nada mais. Concordo, ela não viria modificar as circunstâncias externas, mas só o fato de saber que somos livres... sem dever obediência a ninguém...
Daros ergueu-se. Seus olhos escuros se detiveram sobre o irmão, enquanto duas profundas rugas lhe sulcavam os cantos da boca.
— Não compartilho de seus pontos de vista, Alban. Mas você é o lorde, senhor supremo do poder sobre os oito planetas. Portanto, a decisão é sua. Mas eu aviso: não conte com meu apoio neste caso. Eu lutaria lado a lado com você, se houvesse sentido. Mas desta forma não, sinto muito...
Sem fitar o irmão, com o olhar perdido num canto da sala, Alban replicou com voz contida:
— Talvez seja perigoso se opor aos meus intentos, mano!
— Devo encarar isso como uma ameaça? — respondeu Daros, com um sorriso irônico. — Quem diz que me oponho a você? Apenas não concordo com seus planos, mais nada. Ou julga que vou correndo delatar sua trama ao alto-comissário? Pois saiba que está enganado... E também se engana se supõe que ele continue ignorando tais propósitos por muito tempo. Os tuglantes estão satisfeitos com seu destino, e não fazem questão alguma de se envolverem numa guerra que só lhes acarretaria desgraças.
— Nós venceremos esta guerra!
— Que diferença faz? Guerra nenhuma traz benefícios, nem mesmo ao vencedor.
— Bobagem sua!
Impulsivamente, Daros se aproximou do irmão, colocando-lhe a mão sobre o ombro.
— Alban, imploro-lhe que seja razoável. Mesmo que consiga afastar o alto-comissário arcônida, não se sentiria livre. Árcon fica longe, sim, mas algum dia o Grande Império saberia que nos rebelamos abertamente. Mandariam uma expedição punitiva, e nem ouso pensar nas conseqüências decorrentes da medida...
Alban sorria novamente.
— Viu, Daros? É possível se considerar livre quando pesa sobre nós a ameaça constante de um eventual aniquilamento? E ela está presente dia e noite, constantemente.
Daros recolheu a mão.
— Você não me compreende. Ou não quer compreender...
De peito altivamente erguido, Daros retirou-se da sala, seguido pelo olhar sombrio do irmão.

* * *

O alto-comissário era um arcônida típico. Pela aparência externa, poderia ser confundido com Crest, porém chegara a um grau de degenerescência bem maior. Padecia de leucemia, sem esperança de cura. Apesar de extremamente inteligente, sua indolência física e mental era acentuada. Suas obrigações eram cumpridas com displicência, resumindo-se principalmente a esporádicos relatórios de rotina para Árcon. Em todos eles afirmava que tudo ia bem no sistema solar de Laton.
Quase nunca recebia resposta.
Mesmo a visita daquele dia não conseguira arrancá-lo de sua letargia. Um jovem tuglante solicitara-lhe audiência, afirmando trazer importante mensagem. Foi recebido com visível contrariedade.
— Vem bastante tarde. Eu já ia acabar...
O tuglante sentou-se sem esperar convite. Parecia exausto.
— Ia acabar? Pois saiba que, se não tomar cuidado, vão é acabar com o senhor! Mantenha-se alerta.
Já mais interessado, o arcônida resolveu dar atenção ao visitante. A testa alta sob os cabelos brancos não apresentava rugas. O comissário Rathon era idoso, porém tinha a aparência de um jovem. E, a despeito de seu marasmo mental, era esperto. No entanto herdara o defeito genético comum à sua altiva raça: era presunçoso.
— Qual, isso é tolice! — exclamou. — Quem ousaria atacar o alto-comissário do Grande Império?! Atrairia sobre si a ira de uma potência capaz de arrasar este sistema solar em dois tempos. Ora, não vale a pena se alterar por isso. E meu tempo é precioso, principalmente meu tempo livre. Passe bem!
O tuglante permaneceu sentado.
— O senhor se superestima, e subestima nossa gente, maneira de pensar muito comum nos arcônidas, segundo parece. Saiba que não é por amor aos seus belos olhos vermelhos que venho lhe oferecer ajuda, mas sim porque amo meu povo. Não quero guerra entre vocês e nós, entende?
— E por que haveria guerra?
— Se for assassinado, comissário, a guerra será inevitável — disse o desconhecido, com brutal franqueza. — E vão assassiná-lo!
Rathon sentiu-se invadido por um desagradável pressentimento.
— Sou o representante e emissário do Grande Império arcônida, meu jovem amigo. Quem me atacar, ataca igualmente o império. E quem quer que planeje tal ato, planeja simultaneamente o fim de Tuglan e de todos os seus planetas-colônias. Pode existir pessoa assim tão alienada?
— Pode, sim. Existe uma pessoa que é alienada a este ponto.
— Quem?
— O grande lorde de Tuglan.
Pesado silêncio caiu sobre os dois interlocutores. Imóvel diante de sua mesa, Rathon perscrutava o visitante. Via-se que refletia esforçadamente. A incrível afirmação que acabava de ouvir devia ter atingido sua altiva impassibilidade. E seu íntimo rejeitava a possibilidade de ver aquela plácida existência ser encerrada por acontecimentos inesperados. A vida era bela e agradável demais para sofrer bruscas alterações.
— Pois bem — acabou dizendo. — Então é o grande lorde de Tuglan... Tem provas do que afirma?
O tuglante sacudiu a cabeça.
— Boatos não podem ser provados, Rathon. Tenho um amigo que trabalha no palácio de Alban. Foi ele que me contou. Dizem que o lorde pretende cortar todo contato com Árcon.
— Conversa fiada! — exclamou Rathon, com menosprezo. — Vou provar que nada disso é verdade. Amanhã mesmo vou procurar lorde Alban para perguntar o que se passa.
O jovem tuglante saltou de sua cadeira, assustado.
— Não, Rathon! De modo algum deve fazer isso! Pode imaginar o que aconteceria a mim e ao meu amigo, caso o lorde descubra nossa traição?
— Se tiver falado a verdade, estará sob minha proteção — tranqüilizou-o o comissário.
— Caso ela ainda valha alguma coisa — murmurou o visitante, dirigindo-se para a porta. De lá voltou-se ainda uma vez, insistindo: — Não vá procurar o lorde, eu lhe peço. Aguarde e mantenha-se atento. É tudo que posso lhe aconselhar. Correrá sério perigo se tentar alertar Alban.
O comissário esperou que a porta fosse fechada. Depois calcou um botão oculto sob o tampo da mesa. Uma tela se iluminou na parede, deixando ver o rosto de um homem. Um tuglante moço, de cabelos escuros. Em seus olhos havia uma expressão de humilde subserviência.
— Ror, venha cá! Tenho trabalho para você.

* * *

Três robôs cuidavam da hiperestação de rádio arcônida em Tuglan. O pequeno prédio, terminado em cúpula, ficava nos arredores da capital. O decorativo muro que cercava o terreno servia mais de enfeite do que de proteção. Pois jamais, em todos aqueles milênios, alguém se lembrara de pisar o terreno da estação transmissora-receptora.
Havia uma ligação direta, sem fio, para o gabinete do alto-comissário. De sua mesa de trabalho, Rathon podia se comunicar diretamente com Árcon, a vários anos-luz de distância.
Os três robôs constituíam obras-primas da eletrônica arcônida. Estavam equipados com bancos de memórias mecânicos; inexaustíveis pilhas atômicas forneciam a energia necessária ao seu funcionamento. A mão direita articulada permitia-lhes executar qualquer movimento essencial ao seu trabalho; além disso, os mais diversos tipos de ferramentas podiam ser ajustados a ela.
A mão esquerda servia exclusivamente de arma. O pulso-radiador embutido tinha potência suficiente para destruir qualquer inimigo ou agressor reconhecido como tal, mesmo a grandes distâncias. Mas nunca, desde que haviam sido criados, os robôs se haviam visto na necessidade de recorrer ao braço esquerdo. Era seus cérebros eletrônicos existia um circuito bloqueador de impulsos agressivos, enquanto não houvesse provocação. Porém, jamais circunstância alguma os levara à dedução lógica de que era preciso empregar o recurso extremo: suas armas.
Até então, aqueles robôs nada mais tinham sido do que pacíficos funcionários e vigias mudos.
Até então...

* * *

Os dois vultos indistintos pararam diante do muro. O imenso sol azul já se pusera há muito tempo; o crepúsculo dera lugar à prateada noite estrelada.
— Chegamos! — sussurrou um dos tuglantes, em tom quase inaudível. — Acha que os robôs vão criar problema?
— Ora, por que iriam? — respondeu o outro, igualmente num murmúrio. — Se nem desconfiam do que tramamos! Aliás, não creio que ataquem tuglante algum; jamais fizeram isso até hoje.
— Porque jamais alguém tentou destruir a estação — replicou o primeiro. — Mas o grande lorde está certo: só podemos conseguir nossa liberdade depois de cortar a comunicação com Árcon.
— Política não é o meu forte, velho. Só sei que sempre me considerei livre, e não posso imaginar qual a liberdade que ainda poderia gozar. Mas o lorde deve saber o que faz...
— Psiu! Quieto agora. Ouvi um barulho por trás do muro.
Os dois homens conservaram-se imóveis, porém não ouviram mais nada.
— O muro não é alto. Investiguei ontem, e descobri um ponto apropriado. Tem um ressalto, que dá pé para subir. O resto deve ser sopa.
Continuaram a avançar cautelosamente. Um dos tuglantes percorria o muro com a mão, até dar com o ressalto procurado. Detendo-se bruscamente, cochichou:
— É aqui. Assim que eu tiver subido, você segue. A carga explosiva está pronta?
— Um toque faz funcionar o relógio.
— Qual é o prazo?
— Cinco minutos. Deve ser suficiente.
Evidentemente, os tuglantes marcavam o tempo por sistema diverso. Mas até onde foi possível verificar posteriormente, a bomba explodiu efetivamente cinco minutos após a ativação.
— Ótimo. Cuidado agora!
O vulto desenhou-se nitidamente contra o céu literalmente semeado de estrelas, revelando que o tuglante se encarapitara sobre o muro. Após auxiliar o companheiro a subir, ambos ficaram à escuta. Nada se movia no jardim lá dentro.
O revestimento prateado da cúpula cintilava à luz das estrelas. Em seu ponto mais elevado, uma antena encimada por brilhante bola dourada apontava para o firmamento noturno. Externamente era tudo que se podia ver do potente equipamento.
— Onde colocamos a carga explosiva? — sussurrou o tuglante que subira por último no muro. — Dizem que a cúpula é feita de material indestrutível.
— Exato, de uma liga de arconita. Temos que pôr a bomba lá dentro, onde mais?
— Não sei para que tanta complicação. Era só trazer um canhão de raios mais ou menos usável, e a gente derretia aquilo tudo num instante.
— Idiota! — xingou o outro, furioso. — Não vê que a coisa tem que parecer acidental? Ou, pelo menos, dar a impressão de ter sido obra dos habitantes primitivos do décimo terceiro planeta. De jeito nenhum a suspeita pode cair sobre nós.
Algo se mexia perto da cúpula!
O primeiro tuglante percebeu-o imediatamente. Agachando-se sobre o muro, forçou o companheiro a imitá-lo.
— Para o jardim, ande! Os robôs desconfiaram. Nem imagino o que fariam se nos pilhassem em seu território reservado.
Escorregaram para o chão, que não ficava longe. A terra fofa absorveu o ruído do impacto de seus pés. Durante alguns minutos conservaram-se imóveis, observando o prédio. Mas o movimento não se repetiu. Tudo continuava calmo e silencioso.

* * *

No interior da construção abobadada, os robôs vigiavam as telas. Em seus cérebros, correntes de impulsos acionavam relés. Zonas até então jamais requisitadas eram ativadas. Pela primeira vez em milênios soava o alarma. Os alto-falantes embutidos despertaram para a vida, emitindo metálicas palavras arcônidas.
— Alguém entrou no jardim — disse o robô 2, serenamente.
O robô 1 acenou com a cabeça, num gesto quase humano.
Muito sabiamente, os arcônidas tinham capacitado seus robôs a reagir a sentimentos e emoções.
— Dois tuglantes, caso o detector não minta. Que querem aqui? O captador de pensamentos não disse.
O terceiro robô mexeu em alguns controles, enquanto fitava uma tela na qual surgiam padrões abstratos. Turbilhonando de forma caótica, acabaram formando uma imagem mais ou menos definida. Depois de estudá-la atentamente, o autômato disse:
— Ondas telepáticas muito inconsistentes, as desses dois. Até onde posso julgar, não vêm como amigos. Pena as ondas serem tão fracas. Vai ser difícil descobrir suas intenções. Mas boas é que não são.
O robô 1 fitou seu braço esquerdo. Percebendo o gesto, o 2 meneou a cabeça.
— Não, 1; não existe perigo imediato. Vou lá fora perguntar aos tuglantes o que querem de nós.
— O que me parece errado — replicou o robô 1, revelando com isso novo aspecto da tática científica arcônida.
Não construíam todos os robôs segundo um mesmo esquema; cada qual recebia identidade e capacidade de raciocínio individual. Robôs idênticos podiam ter opiniões diversas.
— Fique na porta, observando-os, mas não se deixe ver. Talvez assim revelem mais depressa suas intenções.
O robô 2 desapareceu.
Numa das telas via-se o jardim. Os tateantes raios infravermelhos reproduziam exatamente sua imagem sobre o vidro opaco. Até as fisionomias dos dois tuglantes eram reconhecíveis. Conversavam, e agora um deles apontava na direção da cúpula. Depois pularam do muro para o jardim, agachando-se entre alguns arbustos.
— Avistaram o 2 — disse o robô 3, com sua voz desprovida de entonação. — Pena...
— Pena por quê? — discordou o robô 1. — A atitude deles delatou-os. Vários fatos provam que não vêm em visita de cortesia. Primeiro, aparecem sorrateiramente no meio da noite, pulando o muro escondidos. Segundo, uma vez que se escondem do 2, tramam algo inconfessável. Pelo menos sabemos agora em que situação estamos.
— E o que vamos fazer?
Os olhos do robô 1 lançaram um brilho aparentemente ainda mais frio do que o comum. As lentes de cristal fulguravam gelidamente:
— Que diz seu circuito lógico?
Sem refletir um segundo sequer, o 3 respondeu:
— Defesa!

* * *

Dez minutos de espera, no meio da folhagem, chegaram para esgotar a paciência dos dois tuglantes.
— Olha, acho que nos enganamos; não tem nada lá — murmurou o que não entendia de política ao companheiro.
— Será? — duvidou o segundo, mas acrescentou: — Seja lá como for, não podemos esperar mais. Só que os robôs não podem desconfiar do que planejamos, em hipótese alguma. E, mesmo que nos tenham visto, as ordens do lorde precisam ser cumpridas. Vou na frente; siga-me, com a bomba à mão.
Os dois conspiradores alcançaram o prédio. Não perceberam mais nenhum movimento suspeito, pois o robô 2 já retornara ao interior da estação, trancando a porta. No momento, ele dizia aos outros:
— Tenho certeza de que eles não vêm com boas intenções, 1. Acho melhor perguntar-lhes o que procuram.
— É, talvez você esteja com a razão — concordou o robô 1, convencido com as palavras do colega. — Se não tomarmos nenhuma iniciativa, eles permanecerão lá fora, e nunca saberemos o que queriam. A cúpula é impenetrável; abra a porta.
Os dois tuglantes detiveram-se. Inquieto e nervoso, um deles passava a bomba de tempo de uma mão para a outra, como se não soubesse o que fazer com ela. Ambos estremeceram de susto ao ver parte da parede convexa deslizar para o lado, revelando uma abertura. Nela apareceu um robô. Estarrecidos, os dois intrusos não conseguiam se mover.
Falando o idioma tuglante com acentos metálicos, o robô indagou:
— Que querem de nós? Não sabem que é rigorosamente proibido entrar na estação?
O mais versado em política recuperou o ânimo, e esboçou um sorriso amistoso.
— Viemos avisar vocês — disse, com ar de conspiração. — Estão planejando um atentado contra a estação radiofônica do alto-comissário.
Em vão o robô 2 procurava sondar as ondas mentais dos tuglantes. Eram débeis demais para emitir os impulsos necessários.
— Quem? — perguntou, desconfiado.
— Uma organização secreta, contrária ao Grande Império. O grande lorde foi informado, e pediu que viéssemos alertar vocês.
— Por que não se dirigiram a Rathon? Por que vieram para cá, e em plena noite?
— Ninguém podia saber de nossa missão.
A explicação era aceitável. O robô 2 refletia, enquanto às suas costas o 1 indagava:
— Que querem eles?
— Avisar-nos. Dizem que vamos sofrer um atentado!
Após curta hesitação, veio a ordem:
— Traga-os para dentro!
Um dos tuglantes apertou disfarçadamente o botão da bomba; o mecanismo de ignição começou a funcionar em seu bolso.
Dispunham de cinco minutos para depositar a bomba e porem-se a salvo.

* * *

Em silêncio o robô 3 presenciou a entrada dos visitantes, seguidos pelos dois autômatos. Percebera modificação nos padrões coloridos projetados na tela receptora de pensamentos. O que permitia conclusões bastante interessantes. Decidiu usar de cautela e vigiar de perto os tuglantes.
O conspirador que levava a bomba procurava febrilmente um lugar para colocar o explosivo. Cinco minutos podiam representar longo espaço de tempo em determinadas circunstâncias. Mas era curto demais quando a própria vida estava em jogo.
O 2 vinha na retaguarda dos tardios hóspedes, enquanto o robô 1 lhes tomava a dianteira, mostrando o caminho. Nutria sérias dúvidas. Que significaria aquela visita? Pois, caso o lorde dos tuglantes fora efetivamente informado do iminente atentado contra a estação, o mais normal seria avisar o alto-comissário de Árcon. Mas, em vez disso, mandava dois homens vir falar com os robôs. Atitude pouco lógica. Havia algo de suspeito naquilo... Os dois tuglantes estariam mentindo?
Bem, isso podia ser constatado sem demora. O robô 1 acenou para o 3, dizendo:
— Observe a tela de pensamentos. Vou fazer-lhes algumas perguntas em sua língua nativa; diga-me se falam a verdade.
E indagou ao primeiro tuglante:
— Vieram por ordem do grande lorde de Tuglan?
Os arabescos coloridos do padrão abstrato não se modificaram quando o homem confirmou, pressurosamente. Não mentia, portanto. Estranho...
— E alguém planeja um atentado contra esta estação?
— Isso mesmo — afirmou o tuglante, sem que houvesse alteração no padrão projetado na tela.
Dois minutos já haviam decorrido. As imagens no captador de pensamentos começaram a fluir, assumindo novas formas. O padrão abstrato movia-se constantemente.
O robô 3 lançou um olhar interrogativo ao 1, acenando de leve.
Os dois tuglantes começavam a demonstrar sinais de nervosismo.
— Só queríamos avisar vocês. Fiquem atentos. Os conspiradores virão ainda esta noite. Mas agora precisamos ir...
— Calma! Para que a pressa? — replicou o robô 1, sacudindo a cabeça.
O tuglante com a bomba olhou em torno, desesperado. O tempo passava, e corriam o risco de voar pelos ares junto com a estação. A bomba ainda continuava em seu bolso. Por que sacrificaria sua vida?
Encontrava-se perto de um painel recoberto por perturbadora quantidade de botões e chaves. Na estreita bancada diante dele havia ferramentas e peças sobressalentes, além de inúmeras caixinhas com parafusos e instrumentos para conserto de equipamento técnico. Disfarçadamente, o tuglante tirou a bomba do bolso, largando-a no meio das caixas. Ali ela não chamaria a menor atenção.
O robô 3 percebeu um redemoinho colorido na tela, sem poder determinar qual dos dois visitantes o provocava. Fez sinal para o 1.
Já se haviam passado três minutos.
— É que queremos evitar um encontro com os conspiradores — explicou o primeiro tuglante. — Arriscamos a vida vindo avisar vocês. Portanto, deixem-nos ir agora.
Os padrões eram agora mais regulares. Logo, eles tinham de fato posto suas vidas em jogo; não estavam mentindo. O robô 1 não conseguia ver claramente a situação. Deveria permitir que os dois fossem embora? Uma sensação indefinida lhe dizia que não.
No quarto minuto, os sinais luminosos da hiperestação radiofônica se acenderam. Um transmissor arcônida chamando. Acontecimento raro e incomum, pois a comunicação com Árcon era muito ocasional e espaçada.
Com a mão direita, o robô 1 acionou algumas chaves, concentrando a atenção sobre uma tela quadrada junto à série de luzinhas. O alto-falante anexo à tela começou a emitir assobios agudos. O vídeo apresentava bom trecho do espaço cósmico. E no meio do infinito flutuava, como um planeta, uma imensa esfera.
— Uma nave de guerra arcônida! — murmurou o robô 3. — A distância de... Já está dentro do sistema de Laton. Não tivemos informação alguma a respeito. Por que se manifestam só agora?
Sem responder, o robô 1 procurou regular o volume do som, porém não conseguiu estabelecer ligação. Depois a tela escureceu bruscamente e o alto falante ficou mudo; em vão o autômato remexia nos controles. O transmissor arcônida deixara de funcionar.
Não havia explicação para o fato.
Quatro minutos e trinta segundos.
Os dois tuglantes, de repente, deram meia-volta e correram para fora. Com alguns saltos, alcançaram a porta ainda aberta e desapareceram entre os arbustos mais próximos.
O robô 2 reagiu prontamente. Seu cérebro cancelou a interdição, transformando o braço esquerdo numa pistola de raios. Com passo pesado, o robô se pôs em movimento, seguindo os fugitivos.
Também o robô 3 chegou à conclusão de que os evadidos representavam o problema mais urgente. Instantes depois, os dois autômatos perscrutavam com seus olhos de cristal as trevas prateadas da noite estrelada; avistaram os dois tuglantes encarrapitados sobre o muro. A seta energética violeta fulgurou por frações de segundo, acabando com suas vidas antes que pudessem alcançar a segurança do outro lado. O alto lorde de Tuglan acabava de perder dois de seus mais fiéis servidores.
Os dois robôs voltaram-se para retornar à estação. Exatamente no instante em que se completavam os cinco minutos desde a ativação da bomba de tempo.
O robô 1 desistira das tentativas.de se comunicar com a nave arcônida. Ela devia ter razões justificadas para interromper a transmissão. Mesmo assim, era dever seu avisar o alto-comissário da ocorrência. O aparecimento de uma nave arcônida nem sempre era bom sinal, pois inspeções são sempre desagradáveis. E havia ainda aquela história do atentado... Motivos mais do que suficientes para acordar o comissário.
Aconteceu enquanto o robô ligava para a residência de Rathon. A primitiva bomba detonou à esquerda do 1, a menos de dois metros dele. Arrebentou a delgada parede de arconita da estação radiofônica, e danificou peças sensíveis do equipamento de transmissão e recepção, peças insubstituíveis nas atuais circunstâncias. Simultaneamente desencadeou, no pequeno reator da central de força, violenta transformação de energia, que provocou por sua vez a explosão de todos os condensadores e transistores, porque a corrente saltava simplesmente por cima dos fusíveis queimados.
Uma lasca metálica atingiu a cabeça do robô 1, privando-o literalmente dos sentidos. Imobilizou-se de pé.

* * *

A entrevista de lorde Alban com o comissário Rathon, na manhã seguinte, realizou-se a portas fechadas.
O arcônida parecia perturbado. O que era compreensível, pois tinha que controlar um reino com oito planetas apenas com a assistência de seus três robôs. E as notícias que recebera naquela manhã não eram nada animadoras.
— Houve um atentado a bomba contra a hiperestação radiofônica esta noite. As instalações foram destruídas. As comunicações com Árcon estão interrompidas. Como explica isso?
As palavras de Rathon se atropelavam, denotando um princípio de pânico. O ladino Alban percebeu imediatamente que seu interlocutor não tinha a menor suspeita sobre quem se ocultava atrás daquele ato de sabotagem.
— Sim, ouvi comentar o caso — disse, cautelosamente. — Ontem mandei-lhe dois homens, para avisá-lo. Mas parece que chegaram tarde demais.
— Não, eles foram até a estação, e alertaram meus robôs. Porém a bomba explodiu cinco minutos depois de chegarem. Meus robôs tomaram seus mensageiros pelos culpados, e mataram ambos. Lamento, porém seus circuitos logísticos os levaram a considerar inimigos os dois tuglantes.
— Estão mortos? — perguntou Alban, arrastando a voz. Sorte inesperada aquela; mais do que ousara esperar. Agora ninguém poderia saber que fora ele quem ordenara a destruição da estação de rádio. — Eram leais servidores do império. Cumpriam apenas seu dever.
— Um dos robôs sofreu avarias, mas estas podem ser reparadas. A estação, no entanto, ficou definitivamente fora de uso. Um dos geradores emite raios prejudiciais, que desaconselham qualquer permanência mais prolongada num raio de duzentos metros do local. Resolvi levar os robôs para minha residência. Talvez eu necessite de proteção pessoal em breve.
Alban não reagiu à insinuação. Estava muito mais interessado em outra coisa.
— Quer dizer que a comunicação entre Árcon e Tuglan está interrompida? Não existe a menor possibilidade de informar Árcon sobre o ocorrido, então?
— Lamentavelmente, não — confirmou Rathon, desconsolado. — Uma pena... Mas há um detalhe que talvez contribua para lhe erguer o ânimo novamente: pouco antes da explosão da bomba que destruiu nossa estação de rádio, meus robôs captaram um sinal radiofônico. Uma nave arcônida se manifestava. Apareceu até no vídeo. Infelizmente a explosão interrompeu a tentativa de completar a ligação.
— Uma nave de guerra? — indagou Alban, preocupado. Mas logo se lembrou de que as hiperondas tinham alcance praticamente ilimitado, e não gastavam tempo para se propagar. A nave podia se encontrar no outro extremo do Universo.
— Sim, uma nave de guerra. Pretendia nos enviar uma mensagem, mas a interrupção ocorreu logo em seguida. E ao mesmo tempo a bomba explodiu.
— Estranha casualidade... — comentou Alban, pensativo. Porém seu alívio durou pouco. Pois Rathon prosseguiu: — Os detectores revelaram que nossa nave de guerra já se encontra no sistema de Laton. Conto com sua aterrizagem a qualquer momento. Seja como for, precisamos nos preparar para o evento. Também não gostaria de saber que o atentado a bomba lhe ocasionasse problemas. Talvez encontremos uma explicação plausível para o fato. Eu lhe recomendaria um pouco mais de severidade com a resistência subterrânea.
— A nave de guerra arcônida já se encontra entre nós? — Alban encarou o alto-comissário, totalmente desarvorado. Sentia o mundo desabar-lhe sobre a cabeça.


2



Quando Perry Rhodan voltou a enxergar, seus olhos depararam com um mar de estrelas. O salto pelo hiperespaço fracassara!
Aproximando-se em silêncio, Crest contemplou o semicírculo de telas enfileiradas, que reproduziam fielmente o cenário fora da nave. Como estavam muito juntas umas das outras, tinha-se a impressão de estar diante de uma parede transparente. Nada parecia separar os dois homens na central de comando do vazio cósmico.
Por trás deles uma porta deslizou para o lado, dando passagem a um homem atarracado, de cabelos ruivos eriçados. Seus olhos, de um azul muito pálido, fitavam perplexos as telas. Mordazmente comentou:
— Ué, quem foi que fez todos esses furinhos no céu? Não estavam aí antes...
— Não, não estavam — replicou Rhodan, laconicamente. Mas logo deixou de se preocupar com as estrelas, pois outra idéia lhe ocupou a mente. Que acontecera mesmo no exato instante da teleportação? Não percebera que algo saíra errado?
As coordenadas! A distância!
Sim, ali estava ele, o número fatídico: 33.560. Também a direção do salto era diversa da que tinham determinado originalmente. Alguém devia ter alterado as coordenadas no momento do salto.
O recém-chegado, que não era outro senão Reginald Bell, melhor amigo e companheiro de Rhodan, parecia pressentir que algo não ia bem. Crest conservava-se imóvel e de olhos semicerrados junto ao outro extremo do painel de controle, sem pronunciar palavra. Na testa de Rhodan via-se uma ruga vertical, o que sempre representava um indício de mau augúrio. E por fim, havia aquela montoeira de estrelas inteiramente desconhecidas rodeando a Stardust-III; Bell não precisava de outras provas.
Fugazmente ele julgou que o imortal, cuja pista perseguiam, os mistificara mais uma vez com uma fantástica miragem, mas logo repeliu a idéia. O imortal não seria ingênuo a ponto de recorrer duas vezes ao mesmo truque. Um ser capaz de manipular o tempo e o espaço saberia agir de maneira mais sofisticada.
Seria então autêntico o espaço desconhecido lá fora?
— Diabos, que foi que aconteceu? — bradou Bell, acercando-se de Rhodan. — Vá, seja camarada, e me dê uma explicação. Ou o susto lhe fez perder a fala?
— O que não seria de admirar, velho... Por onde andam nossos telecinetas?
Apesar dos olhos meio fechados, Crest prestava atenção à conversa. Bell deu a impressão de ter ficado chateado com a pergunta de Rhodan, que interpretou como manobra evasiva. Portanto, foi de mau humor que respondeu:
— Que quer que os telecinetas façam? Empurrar as estrelas para o lado?
— Deixe suas piadinhas para outra ocasião, sim? Tenho minhas razões para perguntar por eles, e muito justas. As coordenadas foram alteradas no instante da transição. Como não havia ninguém na central de comando além de Crest e eu, o fato só pode ter sido causado telecineticamente. É por isso que pergunto.
No Exército de Mutantes de Perry Rhodan havia três telecinetas: a pequena Betty Toufry, a americana Anne Sloane e o japonês Tama Yokida. Por alguns instantes, Bell encarou Rhodan fixamente; depois voltou-se e saiu da central sem dizer uma só palavra. Devia ter percebido que a hora não era para brincadeiras.
Crest moveu-se. Rhodan quase esquecera a presença do arcônida.
— E então? Se foi realmente coisa dos telecinetas? Haveria uma explicação?
— Não foi nenhum deles — respondeu Rhodan. — Pois quem é que se exporia voluntariamente a tão tremendo risco? Se já não estivéssemos a tanta distância do planeta Vagabundo, poderíamos supor que aqueles ratos-castores birutas tivessem feito mais uma das suas. Mas duvido que seu poder se estenda a vinte unidades astronômicas...
Bell regressou dentro de dois minutos. Nos grandes olhos redondos lia-se uma muda expressão de susto, à qual deu voz sem demora:
— Não foi nenhum dos mutantes, Perry! Que será que aconteceu? Será coisa dos ratos-castores? Mas estamos tão longe da terra deles... Aliás, onde estamos nós?
Rhodan não sabia que pergunta responder primeiro, nem qual delas era mais importante no momento. Crest resolveu o problema à sua maneira.
— Se não me engano, conheço aquele sol — disse, apontando para uma gigantesca estrela azul, em posição diagonal ao rumo do vôo. Seus raios brilhavam com tal intensidade que Rhodan cerrou involuntariamente os olhos. — Vou consultar os mapas, para ver se minha suposição é correta. E, a fim de termos duplo controle, Rhodan, peço-lhe que determine com exatidão quantos graus nos desviamos do rumo original, e qual a distância que percorremos. Acho que desta vez não será tão complicado como há quinze dias, quando fomos parar num universo-fantasma.
Imerso em cogitações, Rhodan viu Crest sair em silêncio.
— Mas, puxa, como é que fomos errar o pulo? — gemeu Bell.
— Estávamos a dois mil e quatrocentos anos-luz de Vega quando iniciamos a transição. E no entanto não pulamos dois mil e quatrocentos anos-luz, e sim trinta e três mil quinhentos e sessenta. Em outra direção, ainda por cima. Estimo o desvio em cerca de sessenta graus, até onde posso calcular. Com isso viemos parar a uns trinta e seis mil anos-luz de Vega. Bela enrascada!
— É, estamos encalacrados!... — resmungou Bell, perplexo. — Tem certeza de que o navegador mecânico não se enganou?
— Toda; ele jamais se enganaria.
— Pois então não entendo mais nada!
Calados, aguardaram a volta de Crest. Este trazia nas mãos uma delgada lâmina de plástico, coberta com inúmeros pontos e linhas tracejadas; uma reprodução em tamanho reduzido do mapa cósmico.
— Mandei fazer uma cópia, Rhodan. Veja, aquela estrela gigante é Laton, um imenso sol com trinta e oito planetas. Está registrado no fichário da Stardust-III, e faz parte de nosso império. Até que tivemos sorte! Lá poderemos obter dados exatos para nossa transição a Vega.
Rhodan não se mostrou muito entusiasmado.
— Crê que encontraremos arcônidas lá?
— Pelo menos um representante, o alto-comissário de Árcon. As raças que colonizamos conservam sua autonomia, e deixamos-lhes a administração de seus próprios sistemas. Nossos fichário diz que Laton possui oito planetas habitados; o décimo primeiro se chama Tuglan, e é o mundo principal, com a sede do governo.
Rhodan percebeu a secreta satisfação de Crest. Fazia muito tempo que não tinha contato com sua terra natal, Árcon. Depois de sua aterrizagem forçada na lua terrestre, o desligamento fora total. Rhodan socorrera-o naquela emergência, e até o presente soubera ardilosamente evitar que Crest se comunicasse com Árcon. Não queria que os senhores do imenso império viessem a conhecer a Terra, que certamente desejariam incorporar aos seus domínios.
Só depois que a Terra se tornasse unida e bastante forte é que poderia haver intercâmbio com Árcon. Pois só o poderoso pode-se permitir transações justas.
Mas recusar-se agora a aterrizar numa colônia de Árcon provocaria o desagrado de Crest. Sem falar em Thora...
Thora, a comandante da nave arcônida na qual Crest ocupara o posto de cientista-chefe, detestava Rhodan, por ser homem. Seu sonho era regressar a Árcon, sua pátria. De maneira alguma aceitaria a recusa de pousar em Tuglan.
— Tomaremos contato com o décimo primeiro planeta de Laton — decidiu Rhodan. — Mas quero que me prometa, Crest, não revelar ao comissário arcônida de lá a posição da Terra. Ainda não julgo conveniente estabelecer um contato desta espécie. Sabe por quê, não?
— Sei, sim — tranqüilizou Crest. — Sabe que compreendo os seus motivos, e lhe dou razão. Durante este nosso contato, tive bastante oportunidade de conhecer os homens e sua capacidade. Ambos temos consciência do fato de que o poderio dos arcônidas se encontra em declínio. E, como prováveis sucessores, apenas os terranos entrariam em consideração. Mas... será que Thora pensa da mesma maneira?
Rhodan não soube responder aquela pergunta.
Uma campainha de alarma soou estridentemente.
Consultando o sistema de comunicação interno da nave, Rhodan verificou que o alarma vinha da cozinha. Estranhou aquilo, pois justamente a cozinha seria o lugar menos provável para acontecimentos anormais. Baixou uma alavanca, ligando uma minúscula tela; nela surgiu a fisionomia de um homem ornado com o característico gorro dos cozinheiros.
— Comandante! — exclamou ele, excitado, antes que Rhodan pudesse fazer qualquer pergunta. — Comandante! Temos um clandestino a bordo! Poderia vir imediatamente à cozinha?
Rhodan ficou tão surpreso que nem se lembrou de perguntar quem era o passageiro clandestino. Quando recuperou a fala, a face do cozinheiro já tinha sumido do vídeo. A tela estava apagada.
— Um passageiro clandestino? — indagou Crest. — Ora, quem poderia ser?
Passando a mão sobre os olhos, Rhodan respondeu:
— Vou até a cozinha. Talvez lá possamos saber...
Sem se preocupar com os dois companheiros, deixou a central de comando. Crest e Bell não tiveram outra alternativa senão segui-lo.
Um passageiro clandestino? No espaço cósmico é que ninguém poderia ter embarcado; e em Vagabundo, a última escala da nave, não existia gente.
Bell chegara até aquele ponto de suas reflexões quando um clarão de reconhecimento lhe iluminou a mente. Seus olhos se contraíram, virando apertadas fendas, e seu queixo se projetou para a frente. Precipitando-se no encalço de Rhodan, que saltava justamente para o elevador antigravitacional mais próximo, a fim de chegar o mais depressa possível à cozinha, Bell berrou:
— Mas claro! Eu devia ter adivinhado logo! Um rato-castor!
Os invisíveis campos magnéticos levaram-no igualmente para baixo, deixando-os na esteira rolante do corredor. A cozinha surgiu à vista. Já de longe se percebia que algo de anormal ocorria dentro dela. Homens excitados corriam de um lado para outro; cozinheiros brandiam furiosamente seus apetrechos culinários, tentando enxotar de seu território os radiotelegrafistas e técnicos.
Rhodan e Bell forçaram passagem por entre o pessoal e entraram na cozinha. Os grandes e refulgentes panelões estavam abandonados; ninguém parecia se preocupar com o horário da refeição seguinte. Em troca, cozinheiros e técnicos se aglomeravam no extremo oposto da ampla peça, falando animadamente. Uns riam, outros praguejavam. Uma incrível balbúrdia, porém nada indicava a existência de perigo imediato.
O cozinheiro-chefe avistou Rhodan e correu ao seu encontro.

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