domingo, 7 de outubro de 2012

P-002 - A Terceira Potência - Clark Dalton [parte 1]



Autor



Digitalização
Okidoki



Revisão
Yuna e Arlindo_San


Perry Rhodan e mais três oficiais da Força Espacial dos Estados Unidos haviam pousado na Lua a bordo da nave Stardust.
Lá encontraram a gigantesca nave espacial dos arcônidas, que tinha realizado um pouso de emergência. Era tripulada pelos representantes de uma grande potência galáctica que, apesar de sua superioridade técnica e científica, estavam em decadência. O cientista-chefe da expedição, um dos poucos que não fora atingido pela total apatia que dominava os tripulantes, padecia de uma enfermidade do sangue que só a medicina terrena podia curar.
Perry Rhodan decide ajudar os arcônidas: retorna à Terra em companhia de Crest, o cientista-chefe e, ao invés de aterrissar em território dos Estados Unidos, prefere a solidão do deserto de Gobi a fim de evitar que os avançados conhecimentos arcônidas caiam nas mãos de qualquer potência terrena.
Rhodan tem motivos de sobra para proceder dessa forma. Seus superiores hierárquicos, contudo, vêem nele um traidor...



= = = = = = = = = =  Personagens Principais:  = = = = = = = = = =

Major Perry Rhodan — Comandante da nave Stardust.
Capitão Reginald Bell — Engenheiro eletrônico da. Stardust.
Capitão Clark G. Fletcher — Astrônomo da Stardust.
Tenente-médico Eric Manoli — Médico de bordo da Stardust.
General Lesley Pounder — Chefe da Força Espacial dos Estados Unidos.
Allan D. Mercant — Chefe do Conselho Internacional de Defesa.
Crest — Chefe científico da expedição de uma raça extraterrena.
Professor Lehmann — Diretor da Academia de Tecnologia Espacial da Califórnia e pai espiritual da Stardust.

Major Perkins — Agente dos países do Ocidente. Vai em direção à sua autodestruição sem de nada desconfiar.
Marechal Roon — Comandante-chefe da Federação Asiática.
Dr. Frank M. Haggard — Descobridor do soro anti-leucêmico.
Klein, Li Shai-tung e Peter Kosnow Agentes que saíram com a missão de matar Rhodan.


O silêncio era enganador.
A superfície do lago salgado de Goshun, situado ao norte da China, apresentava-se lisa como um espelho. Calmo e sem vida, estendia-se no deserto imenso. Não soprava a mais leve brisa. O ar quente e seco oprimia os homens. Parecia tremular sobre as pedras escaldantes e subia, perdendo-se na imensidão azul do céu sem nuvens. Bem ao longe, uma cadeia de montanhas destacava-se contra o horizonte. Era de lá que vinha o rio, cujas águas alimentavam o lago salgado. Constava dos mapas da região com o nome de Morin-Gol.
Era a única coisa viva que aparecia na paisagem dessa parte do deserto de Gobi. Arrastava-se preguiçosamente; não era muito largo nem profundo e nunca secava. Sua presença era o único sinal visível de vida naquela região inóspita.
Nenhuma planta crescia naquele solo pedregoso e nenhum animal encontraria alimento em meio àquelas rochas. Excluindo o deslizar manso do rio, não parecia haver o mais tênue sinal de vida pelos arredores, mas o silêncio parecia esconder alguma coisa.
Aquele objeto esguio e prateado que se via perto da margem do rio destoava da paisagem agreste e solitária. Era uma nave de mais de trinta metros de comprimento. Seu corpo aerodinâmico e suas asas em forma de delta ofereciam um contraste flagrante face à natureza hostil do lugar.
A nave, batizada com o nome de Stardust, tinha sido a primeira a pousar na Lua. Ao retornar ao nosso planeta, o comandante decidiu aterrissar no deserto de Gobi. Este fato, agora já conhecido por todos, causou perplexidade e revolta nos governos das grandes potências. No entanto, só uns poucos desconfiavam que não se tratava de um pouso de emergência, mas de uma manobra deliberada.
Uma escotilha retangular abriu-se em um dos lados do corpo da nave. Um homem apareceu na abertura e olhou para a solidão do deserto. Seu olhar passou para além do rio e perscrutou as montanhas; depois, procurou o lago e deteve-se no mesmo. O capitão Reginald Bell, piloto da Força Espacial dos Estados Unidos e engenheiro da Stardust, aspirou avidamente o ar, embora este pudesse ser tudo, menos refrescante. Trajava o uniforme azul da Força Espacial e trazia a boina debaixo do braço direito.
Um tênue sinal de esperança iluminou seus olhos quase descorados quando se virou e gritou para o interior da nave:
— Pode-se tomar banho nessa poça d'água?
Alguém emergiu da penumbra do corredor e colocou-se ao lado de Bell. Usava o mesmo tipo de uniforme, mas não tinha as platinas e os passadores no peito. Aparentava uns trinta e cinco anos. Era magro e seu rosto, com os olhos duros, cinzentos azulados, era encimado por uma curta cabeleira castanho-escura. Tratava-se do major Perry Rhodan, comandante da Stardust e chefe da primeira expedição lunar.
— É claro que pode — disse em resposta à pergunta de Bell. — Mas a água é morna; não refresca. Além disso contém sal demais para o meu gosto.
— Sempre gostei de comida bem temperada — observou Bell. — Em caso de necessidade, eu bebia toda a água desse lago.
— Você teria uma surpresa. Comparada com esse líquido, a água do Atlântico até parece refresco.
Bell olhou o Sol, que estava quase atingindo o zênite.
— Seria bom que houvesse tempo para isso! Acho que não nos deixarão em paz por muito tempo. Será que Crest tem algum meio de nos proteger?
Crest era o cientista-chefe de uma expedição extraterrena que havia pousado na Lua. Há milênios sua raça dominava boa parte da Via Láctea, mas, a essa altura, já entrara em decadência. O próprio Crest sofria de leucemia. Se os homens não o ajudassem, estaria irremediavelmente perdido. Foi esta a razão que o levou a embarcar na Stardust para vir à Terra.
Este era o segredo que a Stardust trazia em seu bojo e que, até então, não havia sido revelado a ninguém.
— O anteparo protetor deve ser suficiente. Pelo que Crest diz, não há nada que possa atravessá-lo, nem mesmo uma bomba atômica. Basta ligar uma chave para que sejamos cobertos por uma cúpula transparente contra a qual todo o mundo a que pertencemos atacaria em vão.
— Isso me tranqüiliza bastante — Bell acenou a cabeça num gesto de aprovação. — Os amarelos não tardam a chegar. Provavelmente pensam que foi erro nosso e que, a esta hora, estamos esperando que eles venham nos buscar. Devem estar morrendo de ansiedade pelos segredos da Stardust.
— Eles ficariam apalermados de tanta curiosidade se soubessem que passageiro temos a bordo — disse Rhodan. — É verdade que só recebi ligeiras indicações do poderio dos arcônidas. Uma coisa, porém, é certa. Crest tem condições de dominar o mundo sem qualquer auxílio. Dentro de algum tempo, certas pessoas vão ficar desesperadamente furiosas conosco.
Uma sombra fugaz atravessou o rosto largo de Bell.
— Infelizmente, é provável que nossa própria gente também fique. Será que não poderíamos, ao menos, explicar-lhes o motivo que nos impediu de descer em Nevada Fields?
Perry sacudiu a cabeça.
— Você conhece o general Pounder. Acha que ele ia abrir mão das enormes vantagens que poderia tirar do nosso hóspede extraterreno? Isso, sem falar no pessoal do Serviço Secreto e do Conselho Internacional de Defesa. Quando me lembro de um certo Mercant...
Allan D. Mercant era o chefe do Conselho Internacional de Defesa, subordinado apenas ao comando supremo da OTAN. Era dirigente do setor especial designado oficialmente como Agência de Informação e Segurança. Não existia um único país onde Mercant não tivesse os seus agentes.
Bell suspirou e voltou a falar.
— Mas compreendo a atitude de Fletcher. É muito natural que queira voltar à sua terra. É possível que, no fundo do coração, reconheça o acerto de impedir que qualquer nação se apodere de Crest. Mas vive pensando na esposa e na criança que está para nascer. Duvido que a gente consiga segurá-lo para sempre.
— Ele pode ir embora quando quiser — disse Perry para surpresa de Bell.
Este engoliu em seco.
— Ir embora? Para onde? — apontou em direção ao deserto. — Por aí? Quer que ele se perca?
— Não vamos ficar sós por muito tempo. — Perry olhou para o relógio. — Estou admirado de que ainda não tenha surgido nenhum avião de reconhecimento.
Acenou com a cabeça para Bell e voltou para o interior da nave. No compartimento um tanto apertado, o Dr. Manoli estava sentado junto ao leito em que Crest repousava. O capitão Fletcher estava perto da escotilha de vidro. Olhava para o deserto com os lábios cerrados.
— Então? — perguntou Perry que percebera o olhar de Manoli. — Como vai o nosso doente?
Antes que o médico pudesse responder, Crest falou:
— Obrigado, major. Sinto-me fraco; só isso. O ar do seu planeta me faz muito bem. Acredita, realmente, que poderá ajudar-me a ficar bom?
O mal que atacara Crest, a leucemia, consistia na multiplicação exagerada dos glóbulos brancos do sangue. O que, pouco a pouco, acabava com os glóbulos vermelhos. De certa forma, o paciente morre por asfixia, embora continue a respirar normalmente pelos pulmões. O problema é que o oxigênio que chega aos pulmões de nada serve se não estiverem presentes os glóbulos vermelhos que o transportam aos diversos órgãos. O primeiro sintoma é o cansaço, o paciente enfraquece a olhos vistos. A decadência orgânica é seguida pelo definhamento mental. A morte é inevitável.
Todavia, cerca de dois anos antes, tinha sido descoberto, por um pesquisador australiano, o remédio contra a leucemia: o soro anti-leucêmico.
— É claro que poderemos ajudá-lo, Crest. Mas, para isso, é necessário que confiemos um no outro. Estou interessado nas invenções de seu povo, no seu desenvolvimento técnico e científico e, falando com franqueza, nos seus armamentos. Em troca disso, ofereço-lhe a cura e a completa regeneração. É um negócio simples, como qualquer outro.
— Sua sinceridade é muito reconfortante. Há muitos milhares de anos nosso povo também era assim. Hoje, muitos de nós estamos demasiado cansados para sermos sinceros. Parece-me que poderíamos aprender alguma coisa com seu povo.
Rhodan pensava nos arcônidas estendidos nos seus leitos a bordo da nave pousada na Lua e que, para afugentar o tédio, contemplavam os quadros abstratos e irreais que apareciam nas telas.
O grau de apatia a que chegaram impedia-os, sequer, de tentar o reparo da própria nave. O exercício do poder, por milhares de anos, e os robôs, verdadeiros servos incansáveis, haviam transformado os arcônidas em um povo sem qualquer outra motivação que não fosse ficar deitado e sonhar de olhos abertos.
— Também entre nós a renovação do sangue é considerada o melhor remédio contra a degenerescência e a decadência genética — disse Rhodan.
Crest ergueu-se na cama. Recostou-se contra a parede. Era cerca de um palmo mais alto que Rhodan. Seu aspecto exterior pouco o distinguia dos homens. O que lhe conferia uma aparência estranha eram os cabelos quase totalmente brancos, os olhos despigmentados e a testa de altura descomunal. Detrás dela, porém, havia uma peculiaridade invisível ao olho humano. Além do cérebro normal, dispunha de um cérebro suplementar, como não existe em qualquer ser vivo na Terra. Esse cérebro era um potente centro de armazenamento de dados e uma espécie de memória fotográfica. Outra coisa ignorada pelos homens era a placa protetora do coração e dos pulmões que, no seu peito, substituía as costelas.
Crest era o último dos descendentes da dinastia reinante em Árcon, o planeta que servira de berço à sua civilização e, sendo cientista, interpretou literalmente a observação de Perry Rhodan.
— É provável que uma renovação do sangue apresentaria resultados positivos. Acontece que qualquer cruzamento com um membro de uma raça primitiva, ou melhor, uma raça que ainda não atingiu determinado grau de evolução, constituiria uma violação da lei dos arcônidas.
— Sossegue — disse Rhodan com um sorriso irônico. — Não pretendo me casar com Thora.
Bell, que acabava de entrar, soltou uma gargalhada enquanto Manoli, preocupado, tomava o pulso do seu paciente. Fletcher não demonstrou o menor sinal de que tivesse ouvido alguma coisa.
Por um instante, Rhodan imaginou-se de volta à gigantesca nave espacial dos arcônidas. Viu, diante de si, Thora, a comandante da expedição que saíra à procura do planeta da vida eterna. Era uma mulher alta, muito bela. Tinha os cabelos claros, quase brancos, e seus grandes olhos brilhavam com um tom vermelho dourado..
Seria uma mulher? Talvez fosse no seu aspecto exterior. Mas era só isso. Na realidade, não passava de uma calculista fria, dotada de um raciocínio cristalino e de um intelecto altamente desenvolvido. Sua conduta era marcada por um preconceito extremo contra os seres inferiores. Foi somente o raciocínio lógico que a levou a entrar em acordo. Sabia, perfeitamente, que não lhe restava outra alternativa, a não ser que quisesse passar o resto dos seus dias na Lua.
Crest abanou lentamente a cabeça.
— Admiro a sua fantasia. Mas creio que não convém perder tempo com palavras inúteis. Devemos pensar no que vamos fazer. Você me prometeu auxílio...
— E terá auxílio — asseverou Rhodan. Depois, dirigindo-se a Bell, prosseguiu: — Você terá que deixar o banho para mais tarde. Por enquanto, procure captar as notícias que andam por aí. Faça o possível para registrar as transmissões mais importantes. Precisamos saber o que está acontecendo no mundo.
— Se alguém pretender lançar um ataque contra nós, não nos avisará com antecedência. Prefiro falar com Pounder.
— Por enquanto, não. Vamos permanecer calados. Eles que dêem tratos à bola para descobrir por que não respondemos às suas mensagens. Terão de ficar maduros para aquilo que pretendo fazer.
— Maduros! — Bell abriu a porta que dava para a sala de rádio e radar. — Acho que, daqui a pouso, somos nós que estaremos maduros!
Perry não se preocupava com Bell. Conhecia-o e sabia que poderia confiar nele.
— Eric, preocupe-se exclusivamente com Crest. Fletcher, peço-lhe que cuide logo da comida. É possível que, mais tarde, não haja tempo suficiente para isso. Enquanto isso eu cuido da nossa situação estratégica. Quais foram as armas que Thora entregou, Crest?
O arcônida continuava sentado na cama, com as mãos entrelaçadas.
— Acho que, por enquanto, o mais importante é o anteparo energético. Trata-se de um dispositivo puramente defensivo, mas que apesar disso, não deixará de impressionar um eventual agressor. Além disso, dispomos de três armas manuais, os psico-irradiadores. Sua intensidade é regulável. Com a regulagem máxima, consegue-se a paralisação psíquica de um homem a dois quilômetros de distância, mas nunca se pode causar sua morte. Com uma intensidade menor, a consciência da pessoa atingida é debilitada de tal forma que será fácil assumir o comando sobre seu corpo. Como se não bastasse, podem ser transmitidas ordens pós-hipnóticas que serão executadas em quaisquer circunstâncias, mesmo quando a pessoa atingida já se encontra fora do alcance das psico-irradiações. Tudo isso vem acompanhado de uma amnésia artificial. A pessoa não se recorda de coisa alguma.
— Isso já nos serve — disse Rhodan. — Há mais alguma coisa?
— Só o transmissor que nos permite entrar em contato com Thora a qualquer momento. Conforme é do seu conhecimento, as ondas emitidas pelo mesmo atravessam a Lua. Sem isso, não conseguiríamos nos comunicar com ela, já que a nave está pousada na face oculta do satélite.
Rhodan ficou por uns momentos com o ar pensativo. Crest compreendeu que algo o preocupava.
— Não se preocupe. O anteparo energético e o irradiador manual bastam. Se surgirem problemas mais graves, Thora intervirá.
— Que tal o neutralizador de gravidade que o senhor colocou a bordo para facilitar a decolagem quando viemos da Lua?
— Ah, sim! Já ia me esquecendo dele, se bem que ele não possa ser considerado uma arma. Seu alcance é enorme: mais de dez quilômetros. E funciona tanto na base da radiação direcional como na da radiação circular. Pode-se diminuir sensivelmente ou até eliminar a gravidade da Terra num retângulo de dez quilômetros de comprimento e a largura que se desejar, ou então num círculo de vinte quilômetros de diâmetro, que terá por centro o irradiador, ou seja, no nosso caso, a Stardust.
— Excelente! — exclamou Rhodan. — Acho que isso basta.
Dirigiu-se à porta.
Fletcher passou os olhos pelo deserto. Depois, lançou um olhar provocador para Rhodan, mas, quando se defrontou com os olhos do comandante, que pareciam de aço, limitou-se a um ligeiro aceno de cabeça.
— Está bem, Perry. Oportunamente falaremos sobre o resto.
Bell abordou Perry junto à escotilha de saída.
— Está havendo interferência nas transmissões. Não consigo pegar os Estados Unidos. Todas as freqüências estão ocupadas. Mas há um emissor muito forte que deve estar bem próximo de nós. O sujeito fala inglês com sotaque. Diz que não devemos tomar nenhuma providência porque a operação de resgate já está em andamento.
— Operação de resgate! — disse Rhodan. — É uma expressão muito bonita para designar aquilo que os chineses pretendem fazer. Responda que não queremos qualquer auxílio.
Bell não respondeu. Olhou para longe. Uma nuvem de pó levantou-se do outro lado do rio, perto das colinas. Parecia um lençol sujo estendido por cima do deserto. Pontinhos minúsculos moviam-se em direção ao lago salgado. Perry seguiu o olhar do amigo.
— Ah, está na hora! Estão chegando. Veja! Um helicóptero!
Os rotores que giravam com o zumbido característico mal se distinguiam no ar que tremulava no calor. A fuselagem delgada faiscava ao sol ofuscante. Quando desceu, a menos de cem metros da nave, a areia foi atirada para o alto.
— Bell, fique aqui. Segure um dos irradiadores e aguarde um sinal meu. Regule para a intensidade máxima. Vou falar com eles.
— Mas...
— Não hã nenhum mas. Esta gente nos quer vivos. Não há perigo.
Bell desapareceu no interior da nave. Dentro de cinco segundos estava de volta. Segurava um bastão prateado com uma lente na ponta. Havia um botãozinho vermelho deslocável, que podia ser firmado em qualquer posição.
Perry acenou com a cabeça e desceu a escada. Foi andando em direção ao helicóptero, do qual haviam saído dois homens que envergavam o uniforme da Federação Asiática. Enquanto aguardavam, olhavam-no com curiosidade.
O piloto permaneceu na cabina do helicóptero. Soltou o manete de direção e pegou uma pistola automática.
No rosto de Rhodan surgiu um sorriso de compaixão. Essa gente teria uma surpresa enorme.
Os dois oficiais vieram ao seu encontro. Falavam inglês quase sem sotaque.
— Ficamos satisfeitos em ver que conseguiu realizar um pouso tranqüilo — disse o oficial mais graduado. — Sou o marechal Roon, comandante das forças terrestres do nosso império. Este aqui é o major Butaan.
— Perry Rhodan — apresentou-se Rhodan, inclinando-se ligeiramente. — O que desejam?
Os dois homens ficaram mudos de espanto. Olharam-se ligeiramente e depois lançaram um olhar indagador ao cosmonauta. Estavam convencidos de que o mesmo precisava de auxílio.
Perry esboçou um sorriso gentil.
— Foi muita gentileza tomar todo este trabalho, mas as providências destinadas a nos ajudar são inúteis. Para tranqüilizá-los quero acrescentar que, se estivesse falando com um oficial do exército americano ou russo, a resposta seria idêntica.
— Não compreendo — disse Roon, enquanto sua mão alisava a calça do uniforme, que ficara amassada com a longa permanência no helicóptero. — O senhor realizou um pouso de emergência, não é mesmo? Está precisando de auxílio. Ou será que está em condições de decolar com seus próprios meios?
— E se estivesse?
— Não poderíamos permitir a decolagem, já que o senhor aterrissou em território chinês.
Perry sorriu.
— Ah, agora está começando a falar com sinceridade. O que lhe interessa não é ajudar-nos, mas agarrar-nos. Muito bem bolado. Acontece que não pousamos aqui para sermos presos pelo senhor.
Roon ia dar uma resposta violenta, mas foi contido por um olhar de advertência do major que o acompanhava. Controlou-se imediatamente. Tudo indicava que o major exercia uma influência bastante acentuada sobre o comandante do exército.
— Ninguém está falando em restringir sua liberdade de locomoção. É evidente que teremos de revistar a nave para verificar se não tiraram fotografias sobre o território da Federação Asiática.
— Fizemos mais que isso. Fotografamos toda a Terra; da Lua. Será que isso é proibido? A nave dos senhores não tira fotografias?
Os dois oficiais olharam-se rapidamente.
— Nossa nave foi destruída logo após a decolagem. Foi sabotagem. Não sabia disso?
Perry ficou abalado. Para ele, a conquista do espaço interessava a toda a humanidade. Sabia que as fronteiras que separam os povos só seriam demolidas depois de reconhecida sua insignificância face às fronteiras mais amplas do espaço. Não reconhecia nenhuma diferença entre as raças e as nações. Para ele, todos eram homens, terrenos. Alegrar-se-ia com o êxito de qualquer expedição à Lua, ainda que a mesma fosse realizada por um inimigo seu — se tivesse um. Foi, portanto, em virtude de um impulso espontâneo que se dirigiu ao marechal, estendendo-lhe a mão.
— Lamento muito. Não sabia. Foi sabotagem?
Roon fez de conta que não estava vendo a mão que Perry lhe estendia.
— Só pode ter sido. Os nossos cientistas mais competentes examinaram a nave na decolagem. Não encontraram o menor defeito. Ao atingir cem quilômetros de altitude a nave partiu-se em duas e caiu ao solo.
— Existem milhares de circunstâncias que podem determinar uma falha. Não existe nenhuma prova de que tenha sido sabotagem.
— Um elemento a soldo do Ocidente entrou furtivamente na nave e danificou o reator.
— Besteira! — disse Perry em tom áspero. — Não se deve procurar encobrir os próprios fracassos.
Sentiu-se contrariado pela suspeita insultuosa dos asiáticos. Roon não era chinês; provavelmente seria natural da Índia ou de alguma ilha.
— Nenhum de nós teria interesse em impedir sua viagem à Lua — prosseguiu Perry. — Mas não falemos mais nisso. O que deseja de nós?
Pela primeira vez o major dirigiu-lhe a palavra.
— Pousou neste local por sua livre vontade? — indagou.
Era uma pergunta muito direta. Perry decidiu dar uma resposta igualmente direta.
— Perfeitamente. Se quiséssemos poderíamos ter pousado no deserto do Saara ou na América.
— Por que pousou justamente aqui?
— Temos nossos motivos. Vejo-me forçado a pedir que daqui por diante considere o trecho de terra que circunda esta nave como território submetido à soberania de uma potência neutra, embora o mesmo se encontre dentro das fronteiras do seu país. Seu povo não faz nenhum uso deste deserto; portanto, a nossa decisão não lhe acarretará qualquer prejuízo econômico. Garantimos-lhes a não-interferência nos assuntos internos do seu país e respeito às fronteiras do mesmo. Realizaremos negociações diretas com seu governo. Quanto ao senhor, marechal Roon, recomendo-lhe que ordene às tropas que se dirigem para cá, a fim de transformar a nave americana numa presa valiosa, que façam meia-volta. Estamos entendidos?
O major Butaan recuou um passo. A sua mão direita repousava sobre a coronha de uma pesada pistola. Apertou os lábios. Seus olhos chamejaram.
O marechal Roon conseguiu controlar-se. Com um sorriso cativante, falou:
— O senhor só pode estar brincando, major Rhodan. Cabe-nos o direito de revistar qualquer objeto voador que pouse no território submetido à nossa soberania. Se não houver motivos para suspeita, será liberado. Acho que sua observação relativa a uma potência neutra só pode ser considerada uma piada de mau gosto.
— Interprete minhas palavras como quiser, mas não diga que não foi prevenido. E agora, passe bem. Provavelmente, ainda nos encontraremos outras vezes.
— Um momento!
O major Butaan puxou a arma e apontou-a para Rhodan. Era uma pistola de grosso calibre que lançava balas explosivas. Um pouco antiquada, mas muito eficiente, principalmente a pouca distância.
Perry cruzou os braços sobre o peito. Sentia atrás dele, a menos de oitenta metros, a presença de Bell pronto a experimentar o neutralizador. Certamente já o teria feito se Rhodan não estivesse no campo de ação do aparelho.
— Pois não.
— Major Rhodan, o senhor é um espião. Esta nave não passa de uma base americana que os senhores fizeram pousar propositalmente neste local. Certamente esperavam ser tratados com condescendência porque iríamos acreditar que se encontrassem em dificuldades. Acontece que descobrimos o seu jogo e...
— Não prometa aquilo que não pode cumprir — advertiu-o Rhodan. — Nosso pouso neste local deixou os americanos tão surpresos quanto os senhores. Também não têm a menor idéia das nossas intenções. E também seriam repelidos se procurassem aproximar-se de nós. Compreenderam? Muito bem! Nesse caso permitam que volte à minha nave. Repito, marechal: retire suas tropas, pois do contrário não me responsabilizo pelo que vier a acontecer.
Cumprimentou os dois oficiais com um aceno de cabeça, lançou um olhar de advertência ao piloto que segurava a pistola automática, voltou-se e foi andando devagar em direção à Stardust. Bell estava no topo da escada de acesso, indeciso, com o bastão prateado na mão. Percebia-se o seu alívio quando viu, finalmente, o comandante se afastar da área de alcance da arma.
— Devíamos fazer uma brincadeira com eles — gritou para Rhodan. — Esse sujeito de calças cinzas deve ser general. Poderíamos incutir-lhe a idéia de que é porteiro de circo e mandá-lo-íamos de volta ao emprego. Seria engraçado.
Rhodan atingiu o primeiro degrau e voltou-se. O marechal Roon e o major Butaan — e ele apostaria qualquer coisa como este último pertencia ao serviço de contra-espionagem — continuavam parados no mesmo lugar, indecisos, na expectativa. Butaan ainda tinha a arma na mão.
— Não vejo nada de mal numa brincadeira — respondeu Rhodan, depois de ter chegado ao lugar em que Bell se encontrava. — Traga o neutralizador, depressa!
— O... ?
Bell não disse mais nada. De um salto desapareceu no interior da nave. Voltou alguns momentos mais tarde com uma pequena caixa metálica na mão. Apesar do seu aspecto simples, ele concentrava uma quantidade enorme de energia, concentrada num espaço extremamente reduzido. Crest chamara o aparelho de neutralizador da gravidade. Quanta coisa não encerrava este nome... O sonho de muitas gerações de cientistas.
Perry regulou o aparelho. Depois, foi empurrando devagar a chave do lado direito que ativava o raio direcional, e diminuía gradativamente a gravidade.
O major Butaan voltou a guardar a arma.
— Não compreendo como o senhor permite que um bando de espiões nos dê ordens. A meu ver é uma atitude irresponsável. Terei de informar às autoridades competentes.
— Fique à vontade — disse Roon com toda calma. Olhou para a Stardust com os olhos apertados. — Estou convencido de ter agido corretamente.
Nessa nave há muita coisa de que nem o senhor nem eu desconfiamos. Para o senhor, tudo não passa de uma ação disfarçada do pessoal do Ocidente. Mais precisamente, acha que colocaram uma base neste lugar. A idéia não é má... pode, até, ser verdadeira. Acontece que não sabemos. Talvez o tal Rhodan nem seja maluco. Às vezes chego a pensar que devem ter descoberto algo extraordinário na Lua; alguma coisa que lhes confere um poder formidável.
Parou de falar. Havia algo errado. Subitamente, sentiu-se leve, como se estivesse flutuando; até parecia que tinha bebido. O pior era que tinha a impressão de ter perdido, também, o equilíbrio. Sentia-se mais alto, como se estivesse crescendo por cima de sua própria cabeça.
“Que diabo!”, pensou. “Tomara que o major não perceba nada.”
Butaan estava tão preocupado consigo mesmo que não tinha tempo para pensar no marechal. Um movimento irrefletido fez com que o chão lhe fugisse de sob os pés. Devagar, como um balão, foi subindo em direção ao céu azul. Girava como um campeão de saltos ornamentais em câmara lenta.
Roon não se movera; por isso ainda continuava de pé sobre as pedras aquecidas do deserto de Gobi. De boca aberta, não tirava os olhos de Butaan que praguejava e invocava a ajuda dos antepassados. Mas as maldições não adiantaram nada, nem os antepassados vieram em seu auxílio. Continuou subindo.
— Piloto! — berrou o marechal e virou-se abruptamente.
Não devia ter feito uma coisa dessas. O movimento giratório não foi amortecido; subindo em espiral, Roon seguiu o chefe do Serviço de Defesa.
O piloto não se conteve mais. Num movimento instintivo, segurou-se ao encosto do seu assento até que alcançasse a saída estreita. Por um instante, contemplou de boca aberta e olhos arregalados seus superiores que subiam para o céu. Depois, empunhou a pistola automática.
O primeiro tiro varreu-o para fora da cabine do helicóptero, que foi deslizando lateralmente poucos centímetros acima da superfície do solo. Sem perceber, abaixou o cano da arma e, como fizera fogo contínuo, o pobre piloto subiu como um foguete para o céu do deserto. A velocidade foi aumentando a cada tiro, até que o carregador da arma estivesse vazio. Mas o impulso foi suficiente para que ele continuasse a subir.
Era um quadro incrível o que se desenrolava em plena luz do dia. Três homens flutuavam no ar e um helicóptero, em posição oblíqua, balouçava entre as rochas como se fosse um navio encalhado batido pelas águas do oceano.
Perry levantou-se e olhou para o rosto radiante de Bell.
— Então, o que acha disso?
— É formidável! Um verdadeiro espetáculo circense. Três bonecos pendurados no ar. Calculo que estejam com medo. O que faremos agora? Pretende deixá-los morrer de fome ali no alto?
— Não, claro que não! Diga-me uma coisa: você sabe pilotar helicópteros, não é?
— Sei, por quê?
— Depois falaremos a esse respeito. Por enquanto, faça-os aterrissar suavemente. Isso, recue a alavanca aos poucos. Acho que metade da gravitação terrestre basta. Não, receio que caiam com muita velocidade. Regule para um quarto. É bom que levem algumas manchas roxas de recordação, para que não pensem que tudo não passou de um sonho. Isso! Muito bem!
O marechal Roon atingiu o solo. Pasmado, olhou para todos os lados como se estivesse à procura do ser invisível que o erguera. Butaan aterrissou com mais violência, a uns dez metros de distância do marechal. Bateu numa pedra e o rosto contorcido de dor e de espanto falava por si só. Já o piloto, que foi o que mais subiu, foi, por conseguinte, o que caiu mais rápido. Por sorte, o deslocamento horizontal que ele sofreu, levou-o a mergulhar no rio de cabeça para baixo. Com apenas vinte e cinco por cento do seu peso normal, flutuou como uma rolha, o que contribuiu para aumentar ainda mais a sua perturbação. Já tinha largado a pistola.
— Marechal Roon! Está me ouvindo?
Perry gritou essas palavras o mais alto que pôde. O marechal ergueu o punho e sacudiu-o num gesto ameaçador.
— Isso vai lhe custar muito caro. O que foi mesmo? O senhor eliminou a gravidade?
— O marechal até que é sabido! — exclamou Bell alegremente, batendo com a mão na coxa. Estava se divertindo a valer.
— Se não retirar imediatamente as tropas, terá outras surpresas. — Perry apontou para a Stardust. — Temos em nosso arsenal, armas com as quais o senhor não chega nem a sonhar.
Ele sabia que talvez fosse imprudente dizer aquilo, mas estava interessado, principalmente, em fazer com que os outros agissem com cautela. Todavia, o efeito foi exatamente o contrário.
— Quer dizer que trazem armas? — resmungou Roon, brindando o chefe do Serviço de Defesa, bem mais jovem que ele, com um olhar que parecia dizer: “veja quanto vale o seu trabalho e o seu Serviço de Informações! São uma porcaria! Não fiquei sabendo da existência de uma arma americana capaz de eliminar totalmente a gravidade”.
— Então, o que houve? — berrou Bell agitando os braços. — Será que o passeio aéreo lhes prendeu a língua?
Roon disse alguma coisa ao piloto, que já atingira, são e salvo, a margem do rio e se juntara a eles. Perry tinha colocado a alavanca do neutralizador na posição zero. As condições de ponderabilidade eram normais.
— Um momento! — advertiu Perry, ao ver que o piloto ia se dirigindo para o helicóptero. — Esse helicóptero vai ficar aqui. Pousou sem permissão em território da potência recém-criada. Está confiscado.
O rosto do marechal ficou rubro de raiva.
— Calma, marechal, o senhor passou da idade de se aborrecer!
— O que estão pensando? — berrou Roon, fora de si. — Vou...
Não chegou a dizer o que pretendia fazer. O major Butaan cochichou-lhe alguma coisa no ouvido.
— Ainda terão notícias minhas — terminou abruptamente. Depois voltou-se, fez sinal ao major e ao piloto, e foi andando em direção às colinas distantes.
Nesse meio tempo, a nuvem de pó havia se aproximado assustadoramente. Perry suspirou aliviado.
— Então este foi o nosso primeiro encontro com a Federação Asiática. O segundo deixa-me menos curioso. Acho que teremos que pôr em funcionamento o anteparo energético. Seu alcance chega a dois quilômetros. Portanto, o rio, parte da margem do lago e o helicóptero estão situados no interior do círculo de proteção. É este o território do novo império: o menor da Terra, porém o mais poderoso.
— O que você pretende fazer com o helicóptero?
— Que pergunta! Você sabe muito bem que um belo dia teremos de sair daqui para arranjar peças sobressalentes e medicamentos. Será que você pretende atravessar a pé o deserto de Gobi?
O rosto de Bell corou ligeiramente.
— Eu? Por que justamente eu? Quer que... — Perry acenou tranqüilamente com a cabeça.
— Um de nós tem que ir, não é? Por que não será você? Afinal, ninguém merece mais confiança que você.
Bell fez um gesto largo com os braços.
— Bem... naturalmente! É claro que tem razão. Quando partirei?
— Assim que o mundo se tiver acalmado.
Com o neutralizador debaixo do braço, Perry entrou na nave. Bell seguia-o devagar. Com o olhar de um perito examinou ligeiramente o helicóptero, pousado em posição oblíqua. Depois enfiou o neutralizador no bolso e fechou a escotilha.
Encontraram Fletcher no centro de controle.
— A comida está pronta. O que aconteceu?
Perry explicou em poucas palavras.
— Será que você acredita que isso dará resultado? Já lhe disse que não entro nessa. Quero ir para casa. Quero rever minha esposa. Dentro de três meses ela terá um bebê.
— Até lá, tudo estará liquidado, Fletcher. Seja razoável! Você me conhece há muito tempo. Nunca faço nada sem ter um motivo. Vou explicar mais uma vez por que tivemos de pousar aqui e não em Nevada Fields.
— Você nunca me convencerá!
— A paz que está reinando na Terra é ilusória. O menor ensejo bastará para que os foguetes atômicos sejam disparados em todas as direções, espalhando a devastação pelo globo terrestre. Você acha que esse estado de coisas deve durar para sempre? Agora estamos em condições de intervir. O bloco ocidental e a Federação Asiática estão se defrontando. Desde que a China se tornou a maior potência atômica, o bloco oriental, dirigido por Moscou, só desempenha um papel secundário. Somos o fiel da balança, o único poder que se interpõe entre as duas superpotências. Contamos com os recursos incríveis dos arcônidas. O poder dos arcônidas concentrado nas mãos de uma só nação significaria o fim de toda liberdade, mesmo que essa nação fosse os Estados Unidos. Já está na hora de compreender isso!
— Você sabe que é um traidor?
Uma expressão de sofrimento desenhou-se nos lábios de Perry.
— Muita gente dirá a mesma coisa, porque não me compreende. Mas não sou um traidor. Acontece apenas que deixei de ser um americano, para transformar-me num terreno. Será que você compreende ao menos isso?
— Talvez. Que mais? — Fletcher engolia em seco. — Apesar de tudo você podia ter pousado em Nevada Fields.
— Não podia. De qualquer maneira temos de nos defender, cá ou lá. E antes lutar contra os asiáticos que enfrentar nosso próprio povo. Podia ser que me amolecessem, que conseguissem me convencer. É uma coisa que aqui nunca acontecerá. Sei muito bem o que me espera caso ceda àquela gente. Crest encarna um poder ilimitado, Fletcher. Está ao seu alcance e, portanto, ao nosso, impedir a irrupção da guerra. Quando as grandes potências perceberem que se encontram sob o controle de uma potência mais forte esquecerão o conflito que lavra entre elas. Talvez até cheguem a um entendimento.
— Isso não passa de uma utopia.
— Esperemos. A fábula segundo a qual os discos voadores pousarão na Terra e nos trarão a paz, deve encerrar um grão de verdade. Crest só se prontificou a ajudar-nos sob a condição de nos comprometermos a restituir-lhe a saúde e respeitar sua liberdade pessoal. E não estaríamos respeitando essa liberdade se o entregássemos a qualquer potência da Terra, fosse qual fosse. Qualquer outra potência teria motivo para sentir-se ameaçada. Desencadearia a guerra final. Da forma como as coisas estão, não se atreverão a fazê-lo.
Fletcher fez um movimento cansado com a mão.
— Você me deixará partir assim que eu desejar?
— Bell o levará quando sair para buscar os medicamentos e as peças sobressalentes. O helicóptero está esperando lá fora.
Fletcher afastou-se, pensativo.
Girando uma chave, Perry ativou o campo energético. A Stardust ficou coberta por uma cúpula invisível de dois quilômetros de altura e igual extensão para todos os lados. Quem olhasse do alto pensaria que ali no deserto, junto ao lago, apenas havia uma minúscula nave inutilizada.
Na verdade, porém, naquele lugar estava o germe de um novo império, cujas fronteiras, nessa altura, não chegavam a treze quilômetros de extensão. Mais tarde, porém, atingiriam milhares de anos-luz.


O aspecto exterior do general Lesley Pounder era tão marcante que dava a qualquer um a idéia de sua resistência e força. De constituição sólida, seu corpo revelava uma força de vontade e uma energia inacreditáveis. Todo mundo sabia que não recuava diante de nada, nem mesmo de Washington ou do Pentágono. Era chefe da Força Espacial dos Estados Unidos e seus homens adoravam-no e temiam-no ao mesmo tempo. Podiam procurá-lo a qualquer hora se tivessem algum problema. Raramente dava mostras do seu humor mordaz. Isso fez com que os maledicentes afirmassem que um dia o general acabaria devorado pela própria raiva.
Estava no gabinete do quartel-general, sentado atrás da enorme escrivaninha, cuja superfície estava quase totalmente tomada pelos mais variados equipamentos de comunicação. O restante do espaço era ocupado por pilhas de papéis e pastas. Tinha diante de si um homem de aparência modesta. Este era o extremo oposto do general. Um círculo ralo de cabelo castanho circundava sua calva lustrosa. A impressão pacata era reforçada por algumas mechas de cabelos brancos nas têmporas. Apesar da coroa de cabelo e das têmporas grisalhas, esse homem tinha um aspecto jovem e inofensivo. Seus olhos pareciam transmitir uma impressão suave de tolerância.
Todavia, Allan D. Mercant era tudo, menos suave e tolerante quando se tratava do cumprimento do dever. No desempenho das suas funções de chefe do Conselho Internacional de Defesa de todo o bloco ocidental, era o caçador mais obstinado que se poderia imaginar.
— O senhor confia muito no major Rhodan e nos seus homens — disse em tom brando, apontando para o mapa do mundo pendurado na parede. — A Stardust pousou no deserto de Gobi. Ainda é de opinião que foi por simples acaso?
— A nave expediu o sinal internacional de perigo antes que seu equipamento silenciasse. O mecanismo propulsor, certamente, falhou.
— Por que Rhodan não permitiu que o pouso fosse dirigido pelo controle remoto? Dessa forma a nave teria atingido a base de Nevada sã e salva. Por que ele mesmo assumiu o comando? O senhor pode dar alguma explicação?
O general Pounder sacudiu a cabeça, sem saber o que dizer.
— Não tenho nenhuma explicação para isso. Mas não é por esta razão que eu deva estar preso, com meu estado-maior, aqui na base. Certamente foi sua a idéia de cercar toda a base de Nevada Fields.
— É apenas uma medida de precaução — disse Mercant com um sorriso amável, para tranqüilizá-lo.
— Quem conta com o pior nunca sai decepcionado.
— Mas quem sempre conta com o pior também cria problemas desnecessários — advertiu Pounder.
— Ainda que Rhodan tenha pousado no deserto de Gobi por sua livre e espontânea vontade, ele deve tê-lo feito com uma idéia bem definida.
— Tenho certeza que é assim! — observou Mercant em tom irônico.
— A finalidade que tem em vista não deve ser, de forma alguma, dirigida contra nós. Se o senhor acha que ele pretende entregar a Stardust à Federação Asiática, está muito enganado.
— Que outra finalidade poderia ter ele em vista?
— Não sei — admitiu Pounder. — Mas conheço o major Rhodan muito bem. É digno de toda a confiança. Trata-se de um elemento que está acima de qualquer suspeita.
— O homem sempre constitui um fator de incerteza em qualquer equação, general. Ninguém consegue ver a alma do próximo. A riqueza e o poder, ou melhor, a esperança de obter essas coisas, pode perturbar até mesmo o espírito mais íntegro.
O general Pounder pareceu crescer atrás de sua escrivaninha.
— Será que o senhor quer insinuar que Rhodan ficou louco?
— De forma alguma, general. Uma pessoa que ambiciona o dinheiro e o poder não pode ser considerada louca. Conforme o caso poderá ser um traidor...
Pounder saltou da cadeira. Inclinou o enorme corpo sobre a escrivaninha e colocou o punho cerrado por baixo do nariz do outro.
— Agora, chega! Embora seja Allan D. Mercant, não admito que insulte os meus homens. Rhodan não é um traidor. A Stardust realizou um pouso de emergência. Prove o contrário! Enquanto não conseguir fazê-lo, fique bem quieto. De resto, Washington já estabeleceu contato com o governo da Federação Asiática.
— Interessante! — observou Mercant, e afastou o punho do general com uma elegância tão displicente que este ficou desarmado. — Posso perguntar qual foi o resultado?
— Até agora, nada — respondeu Pounder. — Aguardo informações diretas do meu pessoal em Washington.
— Pois eu lhe digo qual será o teor dessas informações: o governo da Federação Asiática lamenta o incidente e afirma ter tomado todas as providências que estavam a seu alcance para salvar os cosmonautas. Os destroços da Stardust serão liberados, desde que não tenham sido completamente destruídos. Pouco depois, receberemos outra nota na qual se dirá que a nave foi totalmente destruída e que só foram encontrados os cadáveres irreconhecíveis dos tripulantes. Depois disso, o assunto será envolvido pelo mais absoluto silêncio; ninguém falará mais nada a respeito. A realidade, porém, será completamente outra.
— Se eu fosse dotado de sua fantasia, escreveria romances — disse Pounder fingindo admiração pelo interlocutor. — Todavia, ouçamos qual será a realidade... na sua opinião.
— Os asiáticos desmontarão a Stardust e utilizarão o resultado da viagem em seu beneficio. Rhodan e os demais tripulantes, que evidentemente estão sãos e salvos, receberão a recompensa prometida, depois de terem revelado tudo o que sabem. Talvez a recompensa seja um palacete situado no Tibet, talvez seja um tiro na cabeça.
Pounder voltou a sentar-se.
— O senhor não é um homem normal; é uma vítima da sua profissão — diagnosticou Pounder. — Rhodan sabia muito bem que entre nós teria uma existência tranqüila e ganharia até dois palacetes, se quisesse. Por outro lado, também não ocorre nenhum motivo ideológico. Logo, só resta o pouso de emergência. É a minha opinião. Rhodan entrará, logo que possa, em contato conosco. Aguarde.
Mercant passou a mão pela calva.
— Prefiro confiar nas informações dos meus agentes. O major Perkins não nos deixará na mão.
Perkins — até mesmo Pounder conhecia-o de fama — era um dos melhores agentes de Mercant.
— Não foi ele quem descobriu o atentado planejado contra o campo de provas da NATOM, situado na Austrália, e liquidou os cabeças?
— Foi ele mesmo! Mandei-o a Pequim há poucas horas a fim de cuidar do assunto.
— E o senhor acredita...
— É claro que viaja com nome falso. Os documentos são legais e o fato de mantermos boas relações comerciais com a Federação Asiática facilitará bastante seu trabalho.
Nesse momento, o ruído do videofone chamou a atenção de Pounder. Ele girou um botão e a tela iluminou-se. Um rosto surgiu.
— Ligação de Washington — disse uma voz suave. — É para os senhores Pounder e Mercant.
— Estão ambos presentes — disse Pounder com a voz ofegante. — Tem certeza de que é com os dois que a pessoa pretende falar?
— Washington faz questão disso. Pediram que só completasse a ligação quando as pessoas solicitadas estivessem no aparelho.
— Pode ligar. O senhor Mercant está aqui no meu gabinete.
— Um instante, cavalheiro. Continue com o aparelho ligado.
Pounder olhou para Mercant.
— Quais são suas relações com Washington? — perguntou espantado.
— São muitas — disse Mercant com um sorriso ingênuo. — Basta citar um exemplo: é lá que se encontra o meu superior imediato, o Presidente.
Pounder engoliu em seco, conservando os olhos fixos na tela de imagem como se de lá pudesse vir algo em seu auxílio.
O rosto da operadora tinha desaparecido. No seu lugar, surgiu outro: era o chefe do Setor de Informações da Casa Branca.
— É o general Lesley Pounder?
— Ele mesmo — disse o general. Mercant inclinou-se ligeiramente para a frente para que a câmera receptora pudesse captar a sua imagem. — Mercant também está presente.
— Obrigado. Acaba de chegar a resposta do governo de Pequim. Seu conteúdo é tão estranho que resolvemos não tomar qualquer medida antes de ouvir sua opinião. Seu gravador está ligado?
Pounder comprimiu um botão oculto sob a tampa da escrivaninha.
— Acabo de ligar.
— Muito bem. Ouça. O teor da nossa mensagem a Pequim foi o seguinte:
De Washington para Pequim. Solicitamos autorização imediata para enviar uma comissão que deverá examinar os destroços da nave espacial Stardust que realizou um pouso forçado. Acreditamos que não haja qualquer impedimento diplomático já que a nave destinava-se a investigação científica. Aguardamos sua concordância.
“A resposta, que acabamos de receber, diz o seguinte:
Autorização recusada. O governo da Federação Asiática entende que a instalação de uma base ocidental no seu território constitui uma violação grave dos acordos celebrados. Não se trata do pouso forçado de um pretenso foguete espacial. A tripulação rechaçou um comando de resgate e, para isso, usou uma nova arma que subtrai aos homens a ação da gravidade. A base, que já foi cercada pelas nossas tropas, será destruída, a não ser que seu governo ordene imediatamente que a mesma nos seja entregue em boas condições. Concedemos-lhes um prazo de duas horas.
É este o teor das duas mensagens. Que me diz a respeito, general Pounder?”
O chefe da Força Espacial estava exultante.
— Quer dizer que a Stardust conseguiu pousar em boas condições. Ainda bem! Rhodan e os outros tripulantes estão vivos. Fomos os primeiros a alcançar a Lua e conseguimos pousar nela. Formidável!
— Realmente é muito interessante — admitiu o chefe do Setor de Informações de Washington. — Mas, no momento, o importante é a sua opinião a respeito da mensagem dos asiáticos. O que significa isso? Uma arma que subtrai aos homens a ação da gravidade? A Stardust levava alguma coisa parecida com isso a bordo?
— Em absoluto! Eliminar a força da gravidade? Já foram realizadas pesquisas nesse sentido, mas não produziram qualquer resultado. Os asiáticos estão blefando. Querem é fazer desaparecer a Stardust, mais nada.
Mercant interveio.
— Existe alguma prova de que a nave espacial pousou em boas condições?
— Não dispomos de qualquer prova — respondeu o chefe do Setor de Informações. — Se dispuséssemos, a respectiva observação teria chegado a nós por seu intermédio, senhor Mercant. Comunicamos a Pequim que infelizmente não conseguimos estabelecer contato com a Stardust e, por isso mesmo, não podíamos tomar qualquer providência. Rejeitamos com a maior energia a afirmação insensata de que a nave seria uma base americana. Ainda não recebemos a resposta. Aguarde! Pequim está chamando. Continue com o aparelho ligado. Vou colocá-los na linha para que possam ouvir, também, a mensagem. O rosto do chefe do Setor de Informações desapareceu. A tela ficou vazia. Mas Pounder e Mercant ouviram cada palavra que era pronunciada naquela sala situada a mais de três mil quilômetros de distância. Sem querer, testemunharam o início de uma série de acontecimentos que conduziriam à extinção da espécie humana, caso não acontecesse um milagre antes.
— Aqui é Washington. Pode falar, Pequim.
— Pequim falando. Os senhores não atenderam às nossas exigências. A base que montaram no deserto de Gobi também se recusou a permitir uma investigação. Em vista disso, a divisão comandada pelo marechal Roon recebeu ordens de destruir a base. Embora devam estar bem informados, queremos dar-lhes um ligeiro relato do que aconteceu.
“Nossos tanques avançaram. A dois quilômetros do lugar onde se encontra pousada a Stardust esbarraram num obstáculo invisível. As buscas que mandamos realizar revelaram que esse obstáculo cerca a nave por todos os lados, delimitando um território de pouco mais de doze quilômetros quadrados que, segundo um certo Rhodan, é o território de uma potência neutra recém-criada. Nossos tanques recuaram e abriram fogo contra a base. As granadas detonaram muito antes do alvo, como se o anteparo invisível também continuasse acima da nave, cobrindo-a como uma cúpula protetora. Nossos consultores científicos são de opinião que a base está coberta por uma cúpula energética. Dessa forma, seria inexpugnável. Queremos avisá-los de que consideramos a Stardust uma ameaça à paz mundial e extrairemos as conseqüências cabíveis dos fatos. Pedimos que a base seja retirada ou entregue às nossas autoridades dentro do prazo de vinte e quatro horas. De outra forma, consideraremos rompidas as relações diplomáticas entre Pequim e Washington. Aguardaremos o seu pronunciamento. Não transmitiremos outras mensagens sobre o assunto. Fim”.
Pounder olhou para Mercant. Sua pele já não tinha a cor sadia de dez minutos antes. O sorriso suave do chefe do Conselho Internacional de Defesa também tinha sido substituído por algumas rugas que demonstravam sua preocupação.
— Um anteparo energético? — disse, esticando as palavras. — Nem mesmo nós tivemos conhecimento disso. Meus respeitos, Pounder. Os seus cientistas souberam guardar segredo.
— Não diga tolices, Mercant. Também nunca tive conhecimento da existência de um anteparo energético. Esses asiáticos estão blefando e é só. Há tempos estão procurando um pretexto para despachar seus foguetes atômicos. Agora, encontraram um.
Mercant inclinou o corpo.
— O senhor quer fazer crer que não sabe nada a respeito do anteparo energético que está cobrindo a Stardust? E quer afirmar, também, que não tem conhecimento do aparelho que subtrai às pessoas a ação da gravidade?
— Eu considero isso tolice! Uma coisa dessas não existe! Para mim os asiáticos estão blefando, já disse!
— Alô! — A discussão foi interrompida pela voz do chefe do Setor de Informações de Washington. — Os senhores ouviram, não é?
— É claro que ouvimos! — confirmou o general Pounder. — Isso é a mais formidável estupidez que já vi alguém pronunciar até hoje. Julgo conveniente...
— Essa estupidez pode se transformar numa estupidez pior: a guerra. Temos que impedir que isso aconteça.. Procure entrar em contato com a Stardust. Mercant lhe prestará auxilio. E procure descobrir o que vem a ser este antepara energético. Lehmann deve estar em condições de dar alguma informação. Aguardo sua resposta antes do término do ultimato formulado pela Federação Asiática.
— Combinado — resmungou Pounder, que ainda não tinha a menor idéia do que devia fazer. — Entrarei em contato com o senhor antes que o prazo se encerre.
A tela apagou-se. Mercant soltou um suspiro.
— Se não recebermos logo notícias do major Perkins estaremos em maus lençóis. Sugiro que chamemos Lehmann. É possível?
Pounder berrou algumas ordens pelo intercomunicador. Poucos minutos depois, um homem alto, de meia-idade, entrou no gabinete. Era o professor Lehmann, diretor-científico do Programa Lunar. Há muito ocupava o cargo de diretor da Academia de Tecnologia Espacial da Califórnia. Era o maior especialista no setor. Quando sentia uma disposição toda especial para ser sincero, o general Pounder era levado a confessar que Lehmann era o pai espiritual da Stardust.
O professor parecia bastante admirado. Cumprimentou os dois homens com um aceno de cabeça.
— Querem falar comigo?
Pounder confirmou com um aceno de cabeça.
— O senhor já conhece Mercant, portanto não há necessidade de apresentações. Quero evitar todo e qualquer rodeio. Ouça!
Suas mãos moveram-se sob a tampa da escrivaninha. Ouviu-se o leve chiado de uma fita em movimento.
— Preste atenção a esta conversa, Lehmann. Bastante atenção!
À medida que o professor Lehmann era posto a par dos acontecimentos, Mercant, com ar distante, realizava mentalmente os movimentos de suas peças de xadrez. Se Perkins conseguisse entrar em contato com Rhodan — desde que este ainda se encontrasse no deserto de Gobi e não tivesse sido transformado em instrumento dos asiáticos, como Mercant supunha — a trapaça seria descoberta. Havia várias possibilidades.
Caso a Stardust tivesse pousado intencionalmente no território da Federação Asiática, Rhodan seria um traidor. Também era possível que a nave tivesse realizado um pouso de emergência. Nesse caso, estaria sendo desmontada pelos asiáticos, cuja afirmativa de terem sido rechaçados representaria, apenas, um simples estratagema. Mercant estava convencido de que essa afirmativa representava, tão-somente, o preparativo de um comunicado posterior, segundo o qual as defesas da Stardust teriam sido rompidas e a nave destruída.

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