Autor
Digitalização
Okidoki
Revisão
Yuna e
Arlindo_San
Perry Rhodan e mais três oficiais da Força
Espacial dos Estados Unidos haviam pousado na Lua a bordo da nave Stardust.
Lá encontraram a gigantesca nave espacial dos
arcônidas, que tinha realizado um pouso de emergência. Era tripulada pelos
representantes de uma grande potência galáctica que, apesar de sua
superioridade técnica e científica, estavam em decadência. O cientista-chefe da
expedição, um dos poucos que não fora atingido pela total apatia que dominava
os tripulantes, padecia de uma enfermidade do sangue que só a medicina terrena
podia curar.
Perry Rhodan decide ajudar os arcônidas: retorna à Terra em
companhia de Crest, o cientista-chefe e, ao invés de aterrissar em território
dos Estados Unidos, prefere a solidão do deserto de Gobi a fim de evitar que os
avançados conhecimentos arcônidas caiam nas mãos de qualquer potência terrena.
Rhodan tem motivos de sobra para proceder dessa forma. Seus superiores
hierárquicos, contudo, vêem nele um traidor...
= = = = = = = = = = Personagens
Principais: = = = = = = = = = =
Major Perry Rhodan — Comandante da nave Stardust.
Capitão
Reginald Bell — Engenheiro eletrônico da. Stardust.
Capitão
Clark G. Fletcher — Astrônomo da Stardust.
Tenente-médico
Eric Manoli — Médico de bordo da Stardust.
General Lesley Pounder — Chefe da Força Espacial dos Estados Unidos.
Allan D. Mercant — Chefe do Conselho Internacional de Defesa.
Crest — Chefe científico da expedição de uma raça
extraterrena.
Professor Lehmann — Diretor da Academia de
Tecnologia Espacial da Califórnia e pai espiritual da Stardust.
Major
Perkins —
Agente dos países do Ocidente. Vai em direção à sua autodestruição sem de nada
desconfiar.
Marechal Roon — Comandante-chefe da Federação Asiática.
Dr. Frank M. Haggard — Descobridor do soro anti-leucêmico.
Klein, Li Shai-tung e Peter Kosnow — Agentes que saíram
com a missão de matar Rhodan.
O silêncio era enganador.
A superfície do lago salgado de Goshun, situado ao
norte da China, apresentava-se lisa como um espelho. Calmo e sem vida,
estendia-se no deserto imenso. Não soprava a mais leve brisa. O ar quente e
seco oprimia os homens. Parecia tremular sobre as pedras escaldantes e subia,
perdendo-se na imensidão azul do céu sem nuvens. Bem ao longe, uma cadeia de
montanhas destacava-se contra o horizonte. Era de lá que vinha o rio, cujas
águas alimentavam o lago salgado. Constava dos mapas da região com o nome de
Morin-Gol.
Era a única coisa viva que aparecia na paisagem
dessa parte do deserto de Gobi. Arrastava-se preguiçosamente; não era muito
largo nem profundo e nunca secava. Sua presença era o único sinal visível de
vida naquela região inóspita.
Nenhuma planta crescia naquele solo pedregoso
e nenhum animal encontraria alimento em meio àquelas rochas. Excluindo o deslizar manso do
rio, não parecia haver o mais tênue sinal de vida pelos arredores, mas o
silêncio parecia esconder alguma coisa.
Aquele objeto esguio e prateado que se via
perto da margem do rio destoava da paisagem agreste e solitária. Era uma nave de mais
de trinta metros de comprimento. Seu corpo aerodinâmico e suas asas em forma de
delta ofereciam um contraste flagrante face à natureza hostil do lugar.
A nave, batizada com o nome de Stardust,
tinha sido a primeira a pousar na Lua. Ao retornar ao nosso planeta, o
comandante decidiu aterrissar no deserto de Gobi. Este fato, agora já conhecido por todos,
causou perplexidade e revolta nos governos das grandes potências. No entanto,
só uns poucos desconfiavam que não se tratava de um pouso
de emergência, mas de uma manobra deliberada.
Uma escotilha retangular abriu-se em um dos
lados do corpo da nave. Um homem apareceu na abertura e olhou para a solidão do deserto. Seu olhar
passou para além do rio e perscrutou as montanhas; depois, procurou o lago e
deteve-se no mesmo. O capitão Reginald Bell, piloto da Força Espacial dos
Estados Unidos e engenheiro da Stardust, aspirou avidamente o ar, embora este
pudesse ser tudo, menos refrescante. Trajava o uniforme azul da Força Espacial
e trazia a boina debaixo do braço direito.
Um tênue sinal de esperança iluminou seus olhos
quase descorados quando se virou e gritou para o interior da nave:
— Pode-se
tomar banho nessa poça d'água?
Alguém emergiu da penumbra do corredor e
colocou-se ao lado de Bell. Usava o mesmo tipo de uniforme, mas não tinha as
platinas e os passadores no peito. Aparentava uns trinta e cinco anos. Era
magro e seu rosto, com os olhos duros, cinzentos azulados, era encimado por uma
curta cabeleira castanho-escura. Tratava-se do major Perry Rhodan, comandante
da Stardust e chefe da primeira expedição lunar.
— É
claro que pode — disse em resposta à pergunta de Bell. — Mas a água é morna;
não refresca. Além disso contém sal demais para o meu gosto.
— Sempre
gostei de comida bem temperada — observou Bell. — Em caso de necessidade, eu
bebia toda a água desse lago.
— Você
teria uma surpresa. Comparada com esse líquido, a água do Atlântico até parece
refresco.
Bell olhou o Sol, que estava quase atingindo
o zênite.
—
Seria bom que houvesse tempo para isso! Acho que não nos deixarão em paz por
muito tempo. Será que Crest tem algum meio de nos proteger?
Crest era o cientista-chefe de uma expedição extraterrena que havia
pousado na Lua. Há milênios sua raça dominava boa parte da
Via Láctea, mas, a essa altura, já entrara em decadência. O próprio Crest
sofria de leucemia. Se os homens não o ajudassem, estaria irremediavelmente
perdido. Foi esta a razão que o levou a embarcar na Stardust para vir à Terra.
Este era o segredo que a Stardust trazia em
seu bojo e que, até
então, não havia sido revelado a ninguém.
— O
anteparo protetor deve ser suficiente. Pelo que Crest diz, não há nada que
possa atravessá-lo, nem mesmo uma bomba atômica. Basta ligar uma chave para que
sejamos cobertos por uma cúpula transparente contra a qual todo o mundo a que
pertencemos atacaria em vão.
— Isso
me tranqüiliza bastante — Bell acenou a cabeça num gesto de aprovação. — Os
amarelos não tardam a chegar. Provavelmente pensam que foi erro nosso e que, a
esta hora, estamos esperando que eles venham nos buscar. Devem estar morrendo
de ansiedade pelos segredos da Stardust.
— Eles
ficariam apalermados de tanta curiosidade se soubessem que passageiro temos a
bordo — disse Rhodan. — É verdade que só recebi ligeiras indicações do poderio
dos arcônidas. Uma coisa, porém, é certa. Crest tem condições de dominar o
mundo sem qualquer auxílio. Dentro de algum tempo, certas pessoas vão ficar
desesperadamente furiosas conosco.
Uma sombra fugaz atravessou o rosto largo de
Bell.
— Infelizmente,
é provável que nossa própria gente também fique. Será que não poderíamos, ao
menos, explicar-lhes o motivo que nos impediu de descer em Nevada Fields?
Perry sacudiu a cabeça.
— Você conhece o general Pounder. Acha que
ele ia abrir mão das enormes vantagens que poderia tirar do nosso hóspede
extraterreno? Isso, sem falar no pessoal do Serviço Secreto e do Conselho Internacional de Defesa. Quando me lembro de um certo Mercant...
Allan D. Mercant era o chefe do Conselho
Internacional de Defesa, subordinado apenas ao comando supremo da OTAN. Era
dirigente do setor especial designado oficialmente como Agência de Informação e
Segurança. Não existia um único país onde Mercant não tivesse os seus agentes.
Bell suspirou e voltou a falar.
— Mas
compreendo a atitude de Fletcher. É muito natural que queira voltar à sua
terra. É possível que, no fundo do coração, reconheça o acerto de impedir que
qualquer nação se apodere de Crest. Mas vive pensando na esposa e na criança
que está para nascer. Duvido que a gente consiga segurá-lo para sempre.
— Ele
pode ir embora quando quiser — disse Perry para surpresa de Bell.
Este engoliu em seco.
— Ir
embora? Para onde? — apontou em direção ao deserto. — Por aí? Quer que ele se
perca?
— Não
vamos ficar sós por muito tempo. — Perry olhou para o relógio. — Estou admirado
de que ainda não tenha surgido nenhum avião de reconhecimento.
Acenou com a cabeça para Bell e voltou para
o interior da nave. No compartimento um tanto apertado, o Dr. Manoli estava
sentado junto ao leito em que Crest repousava. O capitão Fletcher estava perto
da escotilha de vidro. Olhava para o deserto com os lábios cerrados.
— Então?
— perguntou Perry que percebera o olhar de Manoli. — Como vai o nosso doente?
Antes que o médico pudesse responder, Crest falou:
— Obrigado,
major. Sinto-me fraco; só isso. O ar do seu planeta me faz muito bem. Acredita,
realmente, que poderá ajudar-me a ficar bom?
O mal que atacara Crest, a leucemia,
consistia na multiplicação
exagerada dos glóbulos brancos do sangue. O que, pouco a pouco, acabava com os
glóbulos vermelhos. De certa forma, o paciente
morre por asfixia, embora continue a respirar normalmente pelos pulmões. O problema é que o
oxigênio que chega aos pulmões de nada serve se não estiverem presentes os
glóbulos vermelhos que o transportam aos diversos órgãos. O primeiro sintoma é
o cansaço, o paciente enfraquece a olhos vistos. A decadência orgânica é
seguida pelo definhamento mental. A morte é inevitável.
Todavia, cerca de dois anos antes, tinha sido
descoberto, por um pesquisador australiano, o remédio contra a leucemia: o soro anti-leucêmico.
— É
claro que poderemos ajudá-lo, Crest. Mas, para isso, é necessário que confiemos
um no outro. Estou interessado nas invenções de seu povo, no seu
desenvolvimento técnico e científico e, falando com franqueza, nos seus
armamentos. Em troca disso, ofereço-lhe a cura e a completa regeneração. É um
negócio simples, como qualquer outro.
— Sua
sinceridade é muito reconfortante. Há muitos milhares de anos nosso povo também
era assim. Hoje, muitos de nós estamos demasiado cansados para sermos sinceros.
Parece-me que poderíamos aprender alguma coisa com seu povo.
Rhodan pensava nos arcônidas estendidos nos seus
leitos a bordo da nave pousada na Lua e que, para afugentar o tédio,
contemplavam os quadros abstratos e irreais que apareciam nas telas.
O grau de apatia a que chegaram impedia-os,
sequer, de tentar o reparo da própria nave. O exercício do poder, por
milhares de anos, e os robôs, verdadeiros servos incansáveis, haviam
transformado os arcônidas em um povo sem qualquer outra motivação que não fosse
ficar deitado e sonhar de olhos abertos.
— Também
entre nós a renovação do sangue é considerada o melhor remédio contra a
degenerescência e a decadência genética — disse Rhodan.
Crest ergueu-se na cama. Recostou-se contra a
parede. Era cerca de um palmo mais alto que Rhodan. Seu aspecto exterior pouco
o distinguia dos homens. O que lhe conferia uma aparência estranha eram os
cabelos quase totalmente brancos, os olhos despigmentados e a testa de altura
descomunal. Detrás dela, porém, havia uma peculiaridade invisível ao olho
humano. Além do cérebro normal, dispunha de um cérebro suplementar, como não
existe em qualquer ser vivo na Terra. Esse cérebro era um potente centro de
armazenamento de dados e uma espécie de memória fotográfica. Outra coisa
ignorada pelos homens era a placa protetora do coração e dos pulmões que, no
seu peito, substituía as costelas.
Crest era o último dos descendentes da dinastia reinante
em Árcon, o planeta que servira de berço à sua civilização e, sendo cientista,
interpretou literalmente a observação de Perry Rhodan.
— É
provável que uma renovação do sangue apresentaria resultados positivos.
Acontece que qualquer cruzamento com um membro de uma raça primitiva, ou
melhor, uma raça que ainda não atingiu determinado grau de evolução,
constituiria uma violação da lei dos arcônidas.
— Sossegue
— disse Rhodan com um sorriso irônico. — Não pretendo me casar com Thora.
Bell, que acabava de entrar, soltou uma
gargalhada enquanto Manoli, preocupado, tomava o pulso do seu paciente.
Fletcher não
demonstrou o menor sinal de que tivesse ouvido alguma coisa.
Por um instante, Rhodan imaginou-se de volta à gigantesca nave espacial
dos arcônidas. Viu, diante de si, Thora, a comandante da expedição que saíra à
procura do planeta da vida eterna. Era uma mulher alta, muito bela. Tinha os
cabelos claros, quase brancos, e seus grandes olhos brilhavam com um tom
vermelho dourado..
Seria uma mulher? Talvez fosse no seu aspecto
exterior. Mas era só
isso. Na realidade, não passava de uma calculista fria, dotada de um raciocínio
cristalino e de um intelecto altamente desenvolvido. Sua conduta era marcada
por um preconceito extremo contra os seres inferiores. Foi somente o raciocínio
lógico que a levou a entrar em acordo. Sabia,
perfeitamente, que não
lhe restava outra alternativa, a não ser que quisesse passar o resto dos seus
dias na Lua.
Crest abanou lentamente a cabeça.
— Admiro
a sua fantasia. Mas creio que não convém perder tempo com palavras inúteis.
Devemos pensar no que vamos fazer. Você me prometeu auxílio...
— E
terá auxílio — asseverou Rhodan. Depois, dirigindo-se a Bell, prosseguiu: —
Você terá que deixar o banho para mais tarde. Por enquanto, procure captar as
notícias que andam por aí. Faça o possível para registrar as transmissões mais
importantes. Precisamos saber o que está acontecendo no mundo.
— Se
alguém pretender lançar um ataque contra nós, não nos avisará com antecedência.
Prefiro falar com Pounder.
— Por
enquanto, não. Vamos permanecer calados. Eles que dêem tratos à bola para
descobrir por que não respondemos às suas mensagens. Terão de ficar maduros
para aquilo que pretendo fazer.
— Maduros!
— Bell abriu a porta que dava para a sala de rádio e radar. — Acho que, daqui a
pouso, somos nós que estaremos maduros!
Perry não se preocupava com Bell. Conhecia-o e sabia
que poderia confiar nele.
— Eric,
preocupe-se exclusivamente com Crest. Fletcher, peço-lhe que cuide logo da
comida. É possível que, mais tarde, não haja tempo suficiente para isso.
Enquanto isso eu cuido da nossa situação estratégica. Quais foram as armas que
Thora entregou, Crest?
O arcônida continuava sentado na cama, com as mãos
entrelaçadas.
— Acho
que, por enquanto, o mais importante é o anteparo energético. Trata-se de um
dispositivo puramente defensivo, mas que apesar disso, não deixará de
impressionar um eventual agressor. Além disso, dispomos de três armas manuais,
os psico-irradiadores. Sua intensidade é regulável. Com a regulagem máxima,
consegue-se a paralisação psíquica de um homem a
dois quilômetros
de distância, mas nunca se pode causar sua morte. Com uma intensidade menor, a
consciência da pessoa atingida é debilitada de tal forma que será fácil assumir
o comando sobre seu corpo. Como se não bastasse, podem ser transmitidas ordens
pós-hipnóticas que serão executadas em quaisquer circunstâncias, mesmo quando a
pessoa atingida já se encontra fora do alcance das psico-irradiações. Tudo isso
vem acompanhado de uma amnésia artificial. A pessoa não se recorda de coisa
alguma.
— Isso
já nos serve — disse Rhodan. — Há mais alguma coisa?
— Só
o transmissor que nos permite entrar em contato com Thora a qualquer momento.
Conforme é do seu conhecimento, as ondas emitidas pelo mesmo atravessam a Lua.
Sem isso, não conseguiríamos nos comunicar com ela, já que a nave está pousada
na face oculta do satélite.
Rhodan ficou por uns momentos com o ar
pensativo. Crest compreendeu que algo o preocupava.
—
Não se preocupe. O anteparo energético e o irradiador manual bastam. Se
surgirem problemas mais graves, Thora intervirá.
— Que
tal o neutralizador de gravidade que o senhor colocou a bordo para facilitar a
decolagem quando viemos da Lua?
— Ah,
sim! Já ia me esquecendo dele, se bem que ele não possa ser considerado uma
arma. Seu alcance é enorme: mais de dez quilômetros. E funciona tanto na base
da radiação direcional como na da radiação circular. Pode-se diminuir
sensivelmente ou até eliminar a gravidade da Terra num retângulo de dez
quilômetros de comprimento e a largura que se desejar, ou então num círculo de
vinte quilômetros de diâmetro, que terá por centro o irradiador, ou seja, no
nosso caso, a Stardust.
— Excelente!
— exclamou Rhodan. — Acho que isso basta.
Dirigiu-se à porta.
Fletcher passou os olhos pelo deserto.
Depois, lançou
um olhar provocador para Rhodan, mas, quando se defrontou com os olhos do
comandante, que pareciam de aço, limitou-se a um ligeiro aceno de cabeça.
— Está
bem, Perry. Oportunamente falaremos sobre o resto.
Bell abordou Perry junto à escotilha de saída.
— Está
havendo interferência nas transmissões. Não consigo pegar os Estados Unidos.
Todas as freqüências estão ocupadas. Mas há um emissor muito forte que deve
estar bem próximo de nós. O sujeito fala inglês com sotaque. Diz que não
devemos tomar nenhuma providência porque a operação de resgate já está em
andamento.
— Operação
de resgate! — disse Rhodan. — É uma expressão muito bonita para designar aquilo
que os chineses pretendem fazer. Responda que não queremos qualquer auxílio.
Bell não respondeu. Olhou para longe. Uma nuvem de
pó levantou-se do outro lado do rio, perto das colinas. Parecia um lençol sujo
estendido por cima do deserto. Pontinhos minúsculos moviam-se em direção ao
lago salgado. Perry seguiu o olhar do amigo.
— Ah,
está na hora! Estão chegando. Veja! Um helicóptero!
Os rotores que giravam com o zumbido característico mal se distinguiam
no ar que tremulava no calor. A fuselagem delgada faiscava ao sol ofuscante.
Quando desceu, a menos de cem metros da nave, a areia foi atirada para o alto.
— Bell,
fique aqui. Segure um dos irradiadores e aguarde um sinal meu. Regule para a
intensidade máxima. Vou falar com eles.
— Mas...
— Não
hã nenhum mas. Esta gente nos quer vivos. Não há perigo.
Bell desapareceu no interior da nave. Dentro
de cinco segundos estava de volta. Segurava um bastão prateado com uma lente
na ponta. Havia um botãozinho vermelho deslocável, que podia ser firmado
em qualquer posição.
Perry acenou com a cabeça e desceu a escada. Foi
andando em direção ao helicóptero, do qual haviam saído dois homens que
envergavam o uniforme da Federação Asiática. Enquanto aguardavam, olhavam-no
com curiosidade.
O piloto permaneceu na cabina do helicóptero. Soltou o manete de
direção e pegou uma pistola automática.
No rosto de Rhodan surgiu um sorriso de
compaixão.
Essa gente teria uma surpresa enorme.
Os dois oficiais vieram ao seu encontro.
Falavam inglês
quase sem sotaque.
— Ficamos
satisfeitos em ver que conseguiu realizar um pouso tranqüilo — disse o oficial
mais graduado. — Sou o marechal Roon, comandante das forças terrestres do nosso
império. Este aqui é o major Butaan.
— Perry
Rhodan — apresentou-se Rhodan, inclinando-se ligeiramente. — O que desejam?
Os dois homens ficaram mudos de espanto.
Olharam-se ligeiramente e depois lançaram um olhar indagador ao cosmonauta.
Estavam convencidos de que o mesmo precisava de auxílio.
Perry esboçou um sorriso gentil.
— Foi
muita gentileza tomar todo este trabalho, mas as providências destinadas a nos
ajudar são inúteis. Para tranqüilizá-los quero acrescentar que, se estivesse
falando com um oficial do exército americano ou russo, a resposta seria
idêntica.
— Não
compreendo — disse Roon, enquanto sua mão alisava a calça do uniforme, que
ficara amassada com a longa permanência no helicóptero. — O senhor realizou um
pouso de emergência, não é mesmo? Está precisando de auxílio. Ou será que está
em condições de decolar com seus próprios meios?
— E
se estivesse?
— Não
poderíamos permitir a decolagem, já que o senhor aterrissou em território
chinês.
Perry sorriu.
— Ah,
agora está começando a falar com sinceridade. O que lhe interessa não é
ajudar-nos, mas agarrar-nos. Muito bem bolado. Acontece que não pousamos aqui
para sermos presos pelo senhor.
Roon ia dar uma resposta violenta, mas foi
contido por um olhar de advertência do major que o acompanhava. Controlou-se
imediatamente. Tudo indicava que o major exercia uma influência bastante
acentuada sobre o comandante do exército.
— Ninguém
está falando em restringir sua liberdade de locomoção. É evidente que teremos
de revistar a nave para verificar se não tiraram fotografias sobre o território
da Federação Asiática.
— Fizemos
mais que isso. Fotografamos toda a Terra; da Lua. Será que isso é proibido? A
nave dos senhores não tira fotografias?
Os dois oficiais olharam-se rapidamente.
— Nossa
nave foi destruída logo após a decolagem. Foi sabotagem. Não sabia disso?
Perry ficou abalado. Para ele, a conquista do
espaço
interessava a toda a humanidade. Sabia que as fronteiras que separam os povos
só seriam demolidas depois de reconhecida sua insignificância face às
fronteiras mais amplas do espaço. Não reconhecia nenhuma diferença entre as
raças e as nações. Para ele, todos eram homens, terrenos. Alegrar-se-ia com o
êxito de qualquer expedição à Lua, ainda que a mesma fosse realizada por um
inimigo seu — se tivesse um. Foi, portanto, em virtude de um impulso espontâneo
que se dirigiu ao marechal, estendendo-lhe a mão.
— Lamento
muito. Não sabia. Foi sabotagem?
Roon
fez de conta que não estava vendo a mão que Perry lhe
estendia.
— Só
pode ter sido. Os nossos cientistas mais competentes examinaram a nave na
decolagem. Não encontraram o menor defeito. Ao atingir cem quilômetros de
altitude a nave partiu-se em duas e caiu ao solo.
— Existem
milhares de circunstâncias que podem determinar
uma falha. Não
existe nenhuma prova de que tenha sido sabotagem.
— Um
elemento a soldo do Ocidente entrou furtivamente na nave e danificou o reator.
— Besteira!
— disse Perry em tom áspero. — Não se deve procurar encobrir os próprios
fracassos.
Sentiu-se contrariado pela suspeita
insultuosa dos asiáticos.
Roon não era chinês; provavelmente seria natural da Índia ou de alguma ilha.
— Nenhum
de nós teria interesse em impedir sua viagem à Lua — prosseguiu Perry. — Mas
não falemos mais nisso. O que deseja de nós?
Pela primeira vez o major dirigiu-lhe a
palavra.
— Pousou
neste local por sua livre vontade? — indagou.
Era uma pergunta muito direta. Perry decidiu
dar uma resposta igualmente direta.
— Perfeitamente.
Se quiséssemos poderíamos ter pousado no deserto do Saara ou na América.
— Por
que pousou justamente aqui?
— Temos
nossos motivos. Vejo-me forçado a pedir que daqui por diante considere o trecho
de terra que circunda esta nave como território submetido à soberania de uma
potência neutra, embora o mesmo se encontre dentro das fronteiras do seu país.
Seu povo não faz nenhum uso deste deserto; portanto, a nossa decisão não lhe
acarretará qualquer prejuízo econômico. Garantimos-lhes a não-interferência nos
assuntos internos do seu país e respeito às fronteiras do mesmo. Realizaremos
negociações diretas com seu governo. Quanto ao senhor, marechal Roon,
recomendo-lhe que ordene às tropas que se dirigem para cá, a fim de transformar
a nave americana numa presa valiosa, que façam meia-volta. Estamos entendidos?
O major Butaan recuou um passo. A sua mão direita repousava sobre
a coronha de uma pesada pistola. Apertou os lábios. Seus olhos chamejaram.
O marechal Roon conseguiu controlar-se. Com
um sorriso cativante, falou:
— O
senhor só pode estar brincando, major Rhodan.
Cabe-nos o direito de revistar qualquer objeto voador que pouse no território submetido à nossa
soberania. Se não houver motivos para suspeita, será liberado. Acho que sua
observação relativa a uma potência neutra só pode ser considerada uma piada de
mau gosto.
— Interprete
minhas palavras como quiser, mas não diga que não foi prevenido. E agora, passe
bem. Provavelmente, ainda nos encontraremos outras vezes.
— Um
momento!
O major Butaan puxou a arma e apontou-a para
Rhodan. Era uma pistola de grosso calibre que lançava balas explosivas. Um pouco antiquada,
mas muito eficiente, principalmente a pouca distância.
Perry cruzou os braços sobre o peito. Sentia
atrás dele, a menos de oitenta metros, a presença de Bell pronto a experimentar
o neutralizador. Certamente já o teria feito se Rhodan não estivesse no campo
de ação do aparelho.
— Pois
não.
— Major
Rhodan, o senhor é um espião. Esta nave não passa de uma base americana que os
senhores fizeram pousar propositalmente neste local. Certamente esperavam ser
tratados com condescendência porque iríamos acreditar que se encontrassem em
dificuldades. Acontece que descobrimos o seu jogo e...
— Não
prometa aquilo que não pode cumprir — advertiu-o Rhodan. — Nosso pouso neste
local deixou os americanos tão surpresos quanto os senhores. Também não têm a
menor idéia das nossas intenções. E também seriam repelidos se procurassem aproximar-se
de nós. Compreenderam? Muito bem! Nesse caso permitam que volte à minha nave.
Repito, marechal: retire suas tropas, pois do contrário não me responsabilizo
pelo que vier a acontecer.
Cumprimentou os dois oficiais com um aceno de
cabeça,
lançou um olhar de advertência ao piloto que segurava a pistola automática,
voltou-se e foi andando devagar em direção à Stardust. Bell estava no topo da escada de acesso, indeciso, com o bastão prateado na mão.
Percebia-se o seu alívio quando viu, finalmente, o comandante se afastar da
área de alcance da arma.
— Devíamos
fazer uma brincadeira com eles — gritou para Rhodan. — Esse sujeito de calças
cinzas deve ser general. Poderíamos incutir-lhe a idéia de que é porteiro de
circo e mandá-lo-íamos de volta ao emprego. Seria engraçado.
Rhodan atingiu o primeiro degrau e voltou-se.
O marechal Roon e o major Butaan — e ele apostaria qualquer coisa como este
último pertencia ao serviço de contra-espionagem — continuavam parados no mesmo
lugar, indecisos, na expectativa. Butaan ainda tinha a arma na mão.
— Não
vejo nada de mal numa brincadeira — respondeu Rhodan, depois de ter chegado ao
lugar em que Bell se encontrava. — Traga o neutralizador, depressa!
— O...
?
Bell não disse mais nada. De um salto desapareceu
no interior da nave. Voltou alguns momentos mais tarde com uma pequena caixa
metálica na mão. Apesar do seu aspecto simples, ele concentrava uma quantidade
enorme de energia, concentrada num espaço extremamente reduzido. Crest chamara
o aparelho de neutralizador da gravidade. Quanta coisa não encerrava este
nome... O sonho de muitas gerações de cientistas.
Perry regulou o aparelho. Depois, foi
empurrando devagar a chave do lado direito que ativava o raio direcional, e
diminuía
gradativamente a gravidade.
O major Butaan voltou a guardar a arma.
—
Não compreendo como o senhor permite que um bando de espiões nos dê ordens. A
meu ver é uma atitude irresponsável. Terei de informar às autoridades
competentes.
— Fique
à vontade — disse Roon com toda calma. Olhou para a Stardust com os olhos
apertados. — Estou convencido de ter agido corretamente.
Nessa nave há muita coisa de que nem o senhor nem eu
desconfiamos. Para o senhor, tudo não passa de uma ação disfarçada do pessoal
do Ocidente. Mais precisamente, acha que colocaram uma base neste lugar. A
idéia não é má... pode, até, ser verdadeira. Acontece que não sabemos. Talvez o
tal Rhodan nem seja maluco. Às vezes chego a pensar que devem ter descoberto
algo extraordinário na Lua; alguma coisa que lhes confere um poder formidável.
Parou de falar. Havia algo errado.
Subitamente, sentiu-se leve, como se estivesse flutuando; até parecia que tinha bebido.
O pior era que tinha a impressão de ter perdido, também, o equilíbrio.
Sentia-se mais alto, como se estivesse crescendo por cima de sua própria
cabeça.
“Que diabo!”, pensou. “Tomara que o major não perceba nada.”
Butaan estava tão preocupado consigo mesmo que não tinha
tempo para pensar no marechal. Um movimento irrefletido fez com que o chão lhe
fugisse de sob os pés. Devagar, como um balão, foi subindo em direção ao céu
azul. Girava como um campeão de saltos ornamentais em câmara lenta.
Roon não se movera; por isso ainda continuava de pé
sobre as pedras aquecidas do deserto de Gobi. De boca aberta, não tirava os
olhos de Butaan que praguejava e invocava a ajuda dos antepassados. Mas as
maldições não adiantaram nada, nem os antepassados vieram em seu auxílio.
Continuou subindo.
—
Piloto! — berrou o marechal e virou-se abruptamente.
Não devia ter feito uma coisa dessas. O
movimento giratório não foi amortecido; subindo em espiral, Roon seguiu o chefe
do Serviço de Defesa.
O piloto não se conteve mais. Num movimento instintivo,
segurou-se ao encosto do seu assento até que alcançasse a saída estreita. Por
um instante, contemplou de boca aberta e olhos arregalados seus superiores que
subiam para o céu. Depois, empunhou a pistola automática.
O primeiro tiro varreu-o para fora da cabine
do helicóptero,
que foi deslizando lateralmente poucos centímetros acima da superfície do solo.
Sem perceber, abaixou o cano da arma e, como fizera fogo contínuo, o pobre
piloto subiu como um foguete para o céu do deserto. A velocidade foi aumentando
a cada tiro, até que o carregador da arma estivesse vazio. Mas o impulso foi
suficiente para que ele continuasse a subir.
Era um quadro incrível o que se desenrolava
em plena luz do dia. Três homens flutuavam no ar e um helicóptero, em posição
oblíqua, balouçava entre as rochas como se fosse um navio encalhado batido
pelas águas do oceano.
Perry levantou-se e olhou para o rosto
radiante de Bell.
— Então,
o que acha disso?
— É
formidável! Um verdadeiro espetáculo circense. Três bonecos pendurados no ar.
Calculo que estejam com medo. O que faremos agora? Pretende deixá-los morrer de
fome ali no alto?
— Não,
claro que não! Diga-me uma coisa: você sabe pilotar helicópteros, não é?
— Sei,
por quê?
— Depois
falaremos a esse respeito. Por enquanto, faça-os aterrissar suavemente. Isso,
recue a alavanca aos poucos. Acho que metade da gravitação terrestre basta.
Não, receio que caiam com muita velocidade. Regule para um quarto. É bom que
levem algumas manchas roxas de recordação, para que não pensem que tudo não
passou de um sonho. Isso! Muito bem!
O marechal Roon atingiu o solo. Pasmado,
olhou para todos os lados como se estivesse à procura do ser invisível que o erguera.
Butaan aterrissou com mais violência, a uns dez metros de distância do
marechal. Bateu numa pedra e o rosto contorcido de dor e de espanto falava por
si só. Já o piloto, que foi o que mais subiu, foi, por conseguinte, o que caiu
mais rápido. Por sorte, o deslocamento horizontal que ele sofreu, levou-o a
mergulhar no rio de cabeça para baixo. Com apenas
vinte e cinco por cento do seu peso normal, flutuou como uma rolha, o que
contribuiu para aumentar ainda mais a sua perturbação. Já tinha largado a
pistola.
— Marechal
Roon! Está me ouvindo?
Perry gritou essas palavras o mais alto que pôde. O marechal ergueu o
punho e sacudiu-o num gesto ameaçador.
— Isso
vai lhe custar muito caro. O que foi mesmo? O senhor eliminou a gravidade?
— O
marechal até que é sabido! — exclamou Bell alegremente, batendo com a mão na
coxa. Estava se divertindo a valer.
— Se
não retirar imediatamente as tropas, terá outras surpresas. — Perry apontou
para a Stardust. — Temos em nosso arsenal, armas com as quais o senhor não
chega nem a sonhar.
Ele sabia que talvez fosse imprudente dizer
aquilo, mas estava interessado, principalmente, em fazer com que os outros
agissem com cautela. Todavia, o efeito foi exatamente o contrário.
— Quer
dizer que trazem armas? — resmungou Roon, brindando o chefe do Serviço de
Defesa, bem mais jovem que ele, com um olhar que parecia dizer: “veja quanto
vale o seu trabalho e o seu Serviço de Informações! São uma porcaria! Não
fiquei sabendo da existência de uma arma americana capaz de eliminar totalmente
a gravidade”.
— Então,
o que houve? — berrou Bell agitando os braços. — Será que o passeio aéreo lhes
prendeu a língua?
Roon disse alguma coisa ao piloto, que já atingira, são e salvo, a
margem do rio e se juntara a eles. Perry tinha colocado a alavanca do
neutralizador na posição zero. As condições de ponderabilidade eram normais.
— Um
momento! — advertiu Perry, ao ver que o piloto ia se dirigindo para o
helicóptero. — Esse helicóptero vai ficar aqui. Pousou sem permissão em
território da potência recém-criada. Está confiscado.
O rosto do marechal ficou rubro de raiva.
— Calma,
marechal, o senhor passou da idade de se aborrecer!
— O
que estão pensando? — berrou Roon, fora de si. — Vou...
Não chegou a dizer o que pretendia fazer. O
major Butaan cochichou-lhe alguma coisa no ouvido.
— Ainda
terão notícias minhas — terminou abruptamente. Depois voltou-se, fez sinal ao
major e ao piloto, e foi andando em direção às colinas distantes.
Nesse meio tempo, a nuvem de pó havia se aproximado
assustadoramente. Perry suspirou aliviado.
— Então
este foi o nosso primeiro encontro com a Federação Asiática. O segundo deixa-me
menos curioso. Acho que teremos que pôr em funcionamento o anteparo energético.
Seu alcance chega a dois quilômetros. Portanto, o rio, parte da margem do lago
e o helicóptero estão situados no interior do círculo de proteção. É este o
território do novo império: o menor da Terra, porém o mais poderoso.
— O
que você pretende fazer com o helicóptero?
— Que
pergunta! Você sabe muito bem que um belo dia teremos de sair daqui para
arranjar peças sobressalentes e medicamentos. Será que você pretende atravessar
a pé o deserto de Gobi?
O rosto de Bell corou ligeiramente.
— Eu?
Por que justamente eu? Quer que... — Perry acenou tranqüilamente com a cabeça.
— Um
de nós tem que ir, não é? Por que não será você? Afinal, ninguém merece mais
confiança que você.
Bell fez um gesto largo com os braços.
— Bem...
naturalmente! É claro que tem razão. Quando partirei?
— Assim
que o mundo se tiver acalmado.
Com o neutralizador debaixo do braço, Perry entrou na nave.
Bell seguia-o devagar. Com o olhar de um perito examinou ligeiramente o
helicóptero, pousado em posição oblíqua. Depois enfiou o neutralizador no bolso
e fechou a escotilha.
Encontraram Fletcher no centro de controle.
— A
comida está pronta. O que aconteceu?
Perry
explicou em poucas palavras.
— Será
que você acredita que isso dará resultado? Já lhe disse que não entro nessa.
Quero ir para casa. Quero rever minha esposa. Dentro de três meses ela terá um
bebê.
— Até
lá, tudo estará liquidado, Fletcher. Seja razoável! Você me conhece há muito
tempo. Nunca faço nada sem ter um motivo. Vou explicar mais uma vez por que
tivemos de pousar aqui e não em Nevada Fields.
— Você
nunca me convencerá!
— A
paz que está reinando na Terra é ilusória. O menor ensejo bastará para que os
foguetes atômicos sejam disparados em todas as direções, espalhando a
devastação pelo globo terrestre. Você acha que esse estado de coisas deve durar
para sempre? Agora estamos em condições de intervir. O bloco ocidental e a
Federação Asiática estão se defrontando. Desde que a China se tornou a maior
potência atômica, o bloco oriental, dirigido por Moscou, só desempenha um papel
secundário. Somos o fiel da balança, o único poder que se interpõe entre as
duas superpotências. Contamos com os recursos incríveis dos arcônidas. O poder
dos arcônidas concentrado nas mãos de uma só nação significaria o fim de toda
liberdade, mesmo que essa nação fosse os Estados Unidos. Já está na hora de
compreender isso!
— Você
sabe que é um traidor?
Uma expressão de sofrimento desenhou-se nos lábios de
Perry.
— Muita
gente dirá a mesma coisa, porque não me compreende. Mas não sou um traidor.
Acontece apenas que deixei de ser um americano, para transformar-me num
terreno. Será que você compreende ao menos isso?
— Talvez.
Que mais? — Fletcher engolia em seco. — Apesar de tudo você podia ter pousado
em Nevada Fields.
— Não
podia. De qualquer maneira temos de nos defender, cá ou lá. E antes lutar contra
os asiáticos que enfrentar nosso próprio povo. Podia ser que me amolecessem,
que conseguissem me convencer. É uma coisa que aqui nunca acontecerá. Sei muito
bem o que me espera caso ceda àquela gente. Crest encarna um poder ilimitado,
Fletcher. Está ao seu alcance e, portanto, ao nosso, impedir a irrupção da
guerra. Quando as grandes potências perceberem que se encontram sob o controle
de uma potência mais forte esquecerão o conflito que lavra entre elas. Talvez
até cheguem a um entendimento.
— Isso
não passa de uma utopia.
— Esperemos.
A fábula segundo a qual os discos voadores pousarão na Terra e nos trarão a
paz, deve encerrar um grão de verdade. Crest só se prontificou a ajudar-nos sob
a condição de nos comprometermos a restituir-lhe a saúde e respeitar sua
liberdade pessoal. E não estaríamos respeitando essa liberdade se o
entregássemos a qualquer potência da Terra, fosse qual fosse. Qualquer outra
potência teria motivo para sentir-se ameaçada. Desencadearia a guerra final. Da
forma como as coisas estão, não se atreverão a fazê-lo.
Fletcher fez um movimento cansado com a mão.
— Você
me deixará partir assim que eu desejar?
— Bell
o levará quando sair para buscar os medicamentos e as peças sobressalentes. O
helicóptero está esperando lá fora.
Fletcher afastou-se, pensativo.
Girando uma chave, Perry ativou o campo energético. A Stardust ficou
coberta por uma cúpula invisível de dois quilômetros de altura e igual extensão
para todos os lados. Quem olhasse do alto pensaria que ali no deserto, junto ao
lago, apenas havia uma minúscula nave inutilizada.
Na verdade, porém, naquele lugar estava o germe de um novo
império, cujas fronteiras, nessa altura, não chegavam a treze quilômetros de
extensão. Mais tarde, porém, atingiriam milhares de anos-luz.
O aspecto exterior do general Lesley Pounder
era tão
marcante que dava a qualquer um a idéia de sua resistência e força. De
constituição sólida, seu corpo revelava uma força de vontade e uma energia
inacreditáveis. Todo mundo sabia que não recuava diante de nada, nem mesmo de
Washington ou do Pentágono. Era chefe da Força Espacial dos Estados Unidos e
seus homens adoravam-no e temiam-no ao mesmo tempo. Podiam procurá-lo a
qualquer hora se tivessem algum problema. Raramente dava mostras do seu humor
mordaz. Isso fez com que os maledicentes afirmassem que um dia o general
acabaria devorado pela própria raiva.
Estava no gabinete do quartel-general,
sentado atrás
da enorme escrivaninha, cuja superfície estava quase totalmente tomada pelos
mais variados equipamentos de comunicação. O restante do espaço era ocupado por
pilhas de papéis e pastas. Tinha diante de si um homem de aparência modesta.
Este era o extremo oposto do general. Um círculo ralo de cabelo castanho
circundava sua calva lustrosa. A impressão pacata era reforçada por algumas
mechas de cabelos brancos nas têmporas. Apesar da coroa de cabelo e das
têmporas grisalhas, esse homem tinha um aspecto jovem e inofensivo. Seus olhos
pareciam transmitir uma impressão suave de tolerância.
Todavia, Allan D. Mercant era tudo, menos
suave e tolerante quando se tratava do cumprimento do dever. No desempenho das
suas funções
de chefe do Conselho Internacional de Defesa de todo o bloco ocidental, era o
caçador mais obstinado que se poderia imaginar.
— O
senhor confia muito no major Rhodan e nos seus homens — disse em tom brando,
apontando para o mapa do mundo pendurado na parede. — A Stardust pousou no deserto de Gobi. Ainda é de opinião que foi por simples acaso?
— A
nave expediu o sinal internacional de perigo antes que seu equipamento
silenciasse. O mecanismo propulsor, certamente, falhou.
— Por
que Rhodan não permitiu que o pouso fosse dirigido pelo controle remoto? Dessa
forma a nave teria atingido a base de Nevada sã e salva. Por que ele mesmo
assumiu o comando? O senhor pode dar alguma explicação?
O general Pounder sacudiu a cabeça, sem saber o que dizer.
— Não
tenho nenhuma explicação para isso. Mas não é por esta razão que eu deva estar
preso, com meu estado-maior, aqui na base. Certamente foi sua a idéia de cercar
toda a base de Nevada Fields.
— É
apenas uma medida de precaução — disse Mercant com um sorriso amável, para
tranqüilizá-lo.
—
Quem conta com o pior nunca sai decepcionado.
— Mas
quem sempre conta com o pior também cria problemas desnecessários — advertiu
Pounder.
—
Ainda que Rhodan tenha pousado no deserto de Gobi por sua livre e espontânea
vontade, ele deve tê-lo feito com uma idéia bem definida.
— Tenho
certeza que é assim! — observou Mercant em tom irônico.
— A
finalidade que tem em vista não deve ser, de forma alguma, dirigida contra nós.
Se o senhor acha que ele pretende entregar a Stardust à Federação Asiática,
está muito enganado.
— Que
outra finalidade poderia ter ele em vista?
— Não
sei — admitiu Pounder. — Mas conheço o major Rhodan muito bem. É digno de toda
a confiança. Trata-se de um elemento que está acima de qualquer suspeita.
— O
homem sempre constitui um fator de incerteza em qualquer equação, general.
Ninguém consegue ver a alma do próximo. A riqueza e o poder, ou melhor, a
esperança de obter essas coisas, pode perturbar até mesmo o espírito mais
íntegro.
O general Pounder pareceu crescer atrás de sua escrivaninha.
— Será
que o senhor quer insinuar que Rhodan ficou louco?
— De
forma alguma, general. Uma pessoa que ambiciona o dinheiro e o poder não pode
ser considerada louca. Conforme o caso poderá ser um traidor...
Pounder saltou da cadeira. Inclinou o enorme
corpo sobre a escrivaninha e colocou o punho cerrado por baixo do nariz do
outro.
— Agora,
chega! Embora seja Allan D. Mercant, não admito que insulte os meus homens.
Rhodan não é um traidor. A Stardust realizou um pouso de emergência. Prove o
contrário! Enquanto não conseguir fazê-lo, fique bem quieto. De resto,
Washington já estabeleceu contato com o governo da Federação Asiática.
— Interessante!
— observou Mercant, e afastou o punho do general com uma elegância tão
displicente que este ficou desarmado. — Posso perguntar qual foi o resultado?
— Até
agora, nada — respondeu Pounder. — Aguardo informações diretas do meu pessoal
em Washington.
— Pois
eu lhe digo qual será o teor dessas informações: o governo da Federação
Asiática lamenta o incidente e afirma ter tomado todas as providências que
estavam a seu alcance para salvar os cosmonautas. Os destroços da Stardust
serão liberados, desde que não tenham sido completamente destruídos. Pouco
depois, receberemos outra nota na qual se dirá que a nave foi totalmente
destruída e que só foram encontrados os cadáveres irreconhecíveis dos
tripulantes. Depois disso, o assunto será envolvido pelo mais absoluto
silêncio; ninguém falará mais nada a respeito. A realidade, porém, será
completamente outra.
— Se
eu fosse dotado de sua fantasia, escreveria romances — disse Pounder fingindo
admiração pelo interlocutor. — Todavia, ouçamos qual será a realidade... na
sua opinião.
— Os
asiáticos desmontarão a Stardust e utilizarão o resultado da viagem em seu
beneficio. Rhodan e os demais tripulantes, que evidentemente estão sãos e
salvos, receberão a recompensa prometida, depois de terem revelado tudo o que
sabem. Talvez a recompensa seja um palacete situado no Tibet, talvez seja um
tiro na cabeça.
Pounder voltou a sentar-se.
— O
senhor não é um homem normal; é uma vítima da sua profissão — diagnosticou
Pounder. — Rhodan sabia muito bem que entre nós teria uma existência tranqüila
e ganharia até dois palacetes, se quisesse. Por outro lado, também não ocorre
nenhum motivo ideológico. Logo, só resta o pouso de emergência. É a minha
opinião. Rhodan entrará, logo que possa, em contato conosco. Aguarde.
Mercant passou a mão pela calva.
— Prefiro
confiar nas informações dos meus agentes. O major Perkins não nos deixará na
mão.
Perkins — até mesmo Pounder conhecia-o de fama — era
um dos melhores agentes de Mercant.
— Não
foi ele quem descobriu o atentado planejado contra o campo de provas da NATOM,
situado na Austrália, e liquidou os cabeças?
— Foi
ele mesmo! Mandei-o a Pequim há poucas horas a fim de cuidar do assunto.
— E
o senhor acredita...
— É
claro que viaja com nome falso. Os documentos são legais e o fato de mantermos
boas relações comerciais com a Federação Asiática facilitará bastante seu
trabalho.
Nesse momento, o ruído do videofone chamou a
atenção de Pounder. Ele girou um botão e a tela iluminou-se. Um rosto surgiu.
— Ligação
de Washington — disse uma voz suave. — É para os senhores Pounder e Mercant.
— Estão
ambos presentes — disse Pounder com a voz ofegante. — Tem certeza de que é com
os dois que a pessoa pretende falar?
— Washington
faz questão disso. Pediram que só completasse a ligação quando as pessoas
solicitadas estivessem no aparelho.
— Pode
ligar. O senhor Mercant está aqui no meu gabinete.
— Um
instante, cavalheiro. Continue com o aparelho ligado.
Pounder olhou para Mercant.
— Quais
são suas relações com Washington? — perguntou espantado.
— São
muitas — disse Mercant com um sorriso ingênuo. — Basta citar um exemplo: é lá
que se encontra o meu superior imediato, o Presidente.
Pounder engoliu em seco, conservando os olhos
fixos na tela de imagem como se de lá pudesse vir algo em seu auxílio.
O rosto da operadora tinha desaparecido. No
seu lugar, surgiu outro: era o chefe do Setor de Informações da Casa Branca.
— É
o general Lesley Pounder?
— Ele
mesmo — disse o general. Mercant inclinou-se ligeiramente para a frente para
que a câmera receptora pudesse captar a sua imagem. — Mercant também está
presente.
— Obrigado.
Acaba de chegar a resposta do governo de Pequim. Seu conteúdo é tão estranho
que resolvemos não tomar qualquer medida antes de ouvir sua opinião. Seu
gravador está ligado?
Pounder comprimiu um botão oculto sob a tampa da
escrivaninha.
— Acabo
de ligar.
— Muito
bem. Ouça. O teor da nossa mensagem a Pequim foi o seguinte:
De Washington para Pequim. Solicitamos autorização imediata para enviar uma comissão que deverá examinar
os destroços da nave espacial Stardust que realizou um pouso forçado.
Acreditamos que não haja qualquer impedimento diplomático já que a nave
destinava-se a investigação científica. Aguardamos sua concordância.
“A resposta, que acabamos de receber, diz o
seguinte:
Autorização recusada. O governo da
Federação Asiática entende que a instalação de uma base ocidental no seu
território constitui uma violação grave dos acordos celebrados. Não se trata do
pouso forçado de um pretenso foguete espacial. A tripulação rechaçou um comando
de resgate e, para isso, usou uma nova arma que subtrai aos homens a ação da
gravidade. A base, que já foi cercada pelas nossas tropas, será destruída, a
não ser que seu governo ordene imediatamente que a mesma nos seja entregue em
boas condições. Concedemos-lhes um prazo de duas horas.
“É este o teor das duas mensagens. Que me diz
a respeito, general Pounder?”
O chefe da Força Espacial estava exultante.
— Quer
dizer que a Stardust conseguiu pousar em boas condições. Ainda bem! Rhodan e os
outros tripulantes estão vivos. Fomos os primeiros a alcançar a Lua e
conseguimos pousar nela. Formidável!
— Realmente
é muito interessante — admitiu o chefe do Setor de Informações de Washington. —
Mas, no momento, o importante é a sua opinião a respeito da mensagem dos
asiáticos. O que significa isso? Uma arma que subtrai aos homens a ação da
gravidade? A Stardust levava alguma coisa parecida com isso a bordo?
— Em
absoluto! Eliminar a força da gravidade? Já foram realizadas pesquisas nesse
sentido, mas não produziram qualquer resultado. Os asiáticos estão blefando.
Querem é fazer desaparecer a Stardust, mais nada.
Mercant interveio.
—
Existe alguma prova de que a nave espacial pousou em boas condições?
— Não
dispomos de qualquer prova — respondeu o chefe do
Setor de Informações.
— Se dispuséssemos, a respectiva observação teria chegado a nós por seu
intermédio, senhor Mercant. Comunicamos a Pequim que infelizmente não
conseguimos estabelecer contato com a Stardust e, por isso mesmo, não podíamos
tomar qualquer providência. Rejeitamos com a maior energia a afirmação
insensata de que a nave seria uma base americana. Ainda não recebemos a
resposta. Aguarde! Pequim está chamando. Continue com o aparelho ligado. Vou
colocá-los na linha para que possam ouvir, também, a mensagem. O rosto do chefe
do Setor de Informações desapareceu. A tela ficou vazia. Mas Pounder e Mercant
ouviram cada palavra que era pronunciada naquela sala situada a mais de três
mil quilômetros de distância. Sem querer, testemunharam o início de uma série
de acontecimentos que conduziriam à extinção da espécie humana, caso não
acontecesse um milagre antes.
— Aqui
é Washington. Pode falar, Pequim.
— Pequim
falando. Os senhores não atenderam às nossas exigências. A base que montaram no
deserto de Gobi também se recusou a permitir uma investigação. Em vista disso,
a divisão comandada pelo marechal Roon recebeu ordens de destruir a base.
Embora devam estar bem informados, queremos dar-lhes um ligeiro relato do que
aconteceu.
“Nossos tanques avançaram. A dois quilômetros
do lugar onde se encontra pousada a Stardust esbarraram num obstáculo
invisível. As buscas que mandamos realizar revelaram que esse obstáculo cerca a
nave por todos os lados, delimitando um território de pouco mais de doze
quilômetros quadrados que, segundo um certo Rhodan, é o território de uma
potência neutra recém-criada. Nossos tanques recuaram e abriram fogo contra a
base. As granadas detonaram muito antes do alvo, como se o anteparo invisível
também continuasse acima da nave, cobrindo-a como uma cúpula protetora. Nossos
consultores científicos são de opinião que a base está coberta por uma cúpula energética. Dessa forma, seria inexpugnável.
Queremos avisá-los de que consideramos a Stardust uma ameaça à paz mundial e
extrairemos as conseqüências cabíveis dos fatos. Pedimos que a base seja
retirada ou entregue às nossas autoridades dentro do prazo de vinte e quatro
horas. De outra forma, consideraremos rompidas as relações diplomáticas entre
Pequim e Washington. Aguardaremos o seu pronunciamento. Não transmitiremos
outras mensagens sobre o assunto. Fim”.
Pounder olhou para Mercant. Sua pele já não tinha a cor sadia de
dez minutos antes. O sorriso suave do chefe do Conselho Internacional de Defesa
também tinha sido substituído por algumas rugas que demonstravam sua
preocupação.
— Um
anteparo energético? — disse, esticando as palavras. — Nem mesmo nós tivemos
conhecimento disso. Meus respeitos, Pounder. Os seus cientistas souberam
guardar segredo.
— Não
diga tolices, Mercant. Também nunca tive conhecimento da existência de um
anteparo energético. Esses asiáticos estão blefando e é só. Há tempos estão
procurando um pretexto para despachar seus foguetes atômicos. Agora,
encontraram um.
Mercant inclinou o corpo.
— O
senhor quer fazer crer que não sabe nada a respeito do anteparo energético que
está cobrindo a Stardust? E quer afirmar, também, que não tem conhecimento do
aparelho que subtrai às pessoas a ação da gravidade?
— Eu
considero isso tolice! Uma coisa dessas não existe! Para mim os asiáticos estão
blefando, já disse!
— Alô!
— A discussão foi interrompida pela voz do chefe do Setor de Informações de
Washington. — Os senhores ouviram, não é?
— É
claro que ouvimos! — confirmou o general Pounder. — Isso é a mais formidável
estupidez que já vi alguém pronunciar até hoje. Julgo conveniente...
— Essa
estupidez pode se transformar numa estupidez pior: a guerra. Temos que impedir
que isso aconteça.. Procure entrar em contato com a Stardust. Mercant lhe
prestará auxilio. E procure descobrir o que vem a ser este antepara energético.
Lehmann deve estar em condições de dar alguma informação. Aguardo sua resposta
antes do término do ultimato formulado pela Federação Asiática.
— Combinado
— resmungou Pounder, que ainda não tinha a menor idéia do que devia fazer. —
Entrarei em contato com o senhor antes que o prazo se encerre.
A tela apagou-se. Mercant soltou um suspiro.
— Se
não recebermos logo notícias do major Perkins estaremos em maus lençóis. Sugiro
que chamemos Lehmann. É possível?
Pounder berrou algumas ordens pelo intercomunicador.
Poucos minutos depois, um homem alto, de meia-idade, entrou no gabinete. Era o
professor Lehmann, diretor-científico do Programa Lunar. Há muito ocupava o
cargo de diretor da Academia de Tecnologia Espacial da Califórnia. Era o maior
especialista no setor. Quando sentia uma disposição toda especial para ser
sincero, o general Pounder era levado a confessar que Lehmann era o pai
espiritual da Stardust.
O professor parecia bastante admirado.
Cumprimentou os dois homens com um aceno de cabeça.
— Querem
falar comigo?
Pounder confirmou com um aceno de cabeça.
— O
senhor já conhece Mercant, portanto não há necessidade de apresentações. Quero
evitar todo e qualquer rodeio. Ouça!
Suas mãos moveram-se sob a tampa da escrivaninha.
Ouviu-se o leve chiado de uma fita em movimento.
— Preste
atenção a esta conversa, Lehmann. Bastante atenção!
À
medida que o professor Lehmann era posto a par dos
acontecimentos, Mercant, com ar distante, realizava mentalmente os movimentos
de suas peças
de xadrez. Se Perkins conseguisse entrar em contato com Rhodan — desde que este
ainda se encontrasse no deserto de Gobi e não tivesse sido transformado em
instrumento dos asiáticos, como Mercant supunha — a trapaça seria descoberta.
Havia várias possibilidades.
Caso a Stardust tivesse pousado
intencionalmente no território da Federação Asiática, Rhodan seria um traidor.
Também era possível que a nave tivesse realizado um pouso de emergência. Nesse
caso, estaria sendo desmontada pelos asiáticos, cuja afirmativa de terem sido
rechaçados representaria, apenas, um simples estratagema. Mercant estava
convencido de que essa afirmativa representava, tão-somente, o preparativo de
um comunicado posterior, segundo o qual as defesas da Stardust teriam sido
rompidas e a nave destruída.

Nenhum comentário:
Postar um comentário