— Ótimo — aprovou Rhodan. — Qual é a
reação dos tópsidas?
— Desistiram definitivamente da
colaboração de auxiliares ferrônios. Não confiam mais neles. Medida que tem,
naturalmente, seus inconvenientes...
— ...que saberemos compensar adequadamente
— interrompeu Rhodan. — Pois deve saber que temos olhos e ouvidos em toda a
parte.
— Sim, ouvi falar disso — respondeu o
sicha, com um sorriso divertido. — A cidade inteira comenta as assombrações. Só
que os espíritos trabalham a favor da boa causa.
— De fato, Gloctor, é isso mesmo. E, por
enquanto, obrigado. Peço-lhe que continue em atividade, para que o inimigo não
tenha pausas em sua inquietação. Agora gostaria de falar com Quequéler.
Quequéler era o chefe dos aguerridos
sichas, que viviam na zona montanhosa de Ferrol, e sempre tinham defendido
ferrenhamente a unidade do planeta. Apesar da idade avançada e da aparência de
perene casmurrice, Quequéler era devotado a Rhodan; estava pronto a dar a vida
para ajudar na expulsão dos invasores reptilóides.
— O inimigo começa a se inquietar —
informou ele serenamente. — A ação de nossos grupos de resistência já resultou
no fechamento de dois postos de vigilância dos tópsidas, situados em regiões
mais afastadas. Foram imediatamente ocupados por tropas ferrônias regulares. O
que representa um grande êxito. As notícias só se infiltram muito lentamente
até nós, de modo que me vejo na impossibilidade de apresentar relatório mais
detalhado; mas sei que os dias do inimigo em território ferrônio estão
contados.
Rhodan expressou seu reconhecimento ao
chefe sicha, e se voltou para Bell, que aguardava impacientemente.
— E o Exército de Mutantes, Bell?
— Está fundindo a cuca das lagartixas! —
exclamou Bell, lançando em torno um olhar triunfal. — Os tópsidas atiram uns
nos outros, brigam, discutem e se desentendem que é uma beleza. Amanhã chega
uma comissão de inquérito de Topsid, para fazer averiguações. Já planejei um
espetáculo apropriado, a fim de arrasá-los de vez. A função vai ser transmitida
para Topsid, assim o Déspota pode participar dela pessoalmente. Garanto que
jamais ele assistiu a um programa de televisão tão interessante.
— Que dúvida! — concordou Rhodan. — Mas
não exagere, sim? Vamos repassar os detalhes daqui a pouco. Pode contar com
todos os mutantes para amanhã. Sua atuação deve ser convincente, porém sem
revelar de maneira alguma de onde se origina. Este ponto é muito importante.
Quero despistar os tópsidas. Vou retornar a Rofus agora, e você vem comigo,
Bell. Quequéler, deixe tudo preparado para a ação do dia de amanhã. E, para
confundir ainda mais os tópsidas, vou lhe enviar hoje mesmo uma esquadrilha dos
nossos aviões de caça. Eles passarão a operar do planeta Ferrol, mantendo
ocupadas as tropas de vigilância do adversário. Ele não deve ficar com tempo
para pensar.
O transmissor pentadimensional de matéria
levou Rhodan e Bell de volta para Rofus. Pisar naquela cabina gradeada, e ligar
a chave para acionar o misterioso mecanismo constituía sempre uma nova
experiência meio perturbadora. Na realidade nada acontecia. Bastava desembarcar
alguns segundos após, e milhões de quilômetros haviam sido vencidos em estado
de desmaterialização. E isso através hiperespaço, uma dimensão cuja compreensão
requeria raciocínio pentadimensional. Coisa que os ferrônios desconheciam,
logo...
Rhodan suspirou, vendo que empacara mais
uma vez no mesmo ponto daquelas cogitações. Ainda bem que o Thort se
comprometera a lhe obter uma entrevista com Lossos, o mais destacado cientista
ferrônio, assegurando-lhe que poderiam conversar sem testemunhas. O velho
cientista fazia parte do conselho de ministros, e era tido por um dos mais
brilhantes cérebros da atual geração.
— O programa do espetáculo de amanhã vai
depender da entrevista com Lossos, Bell — disse Rhodan. — Receio, no entanto,
que o Thort tenha estabelecido determinados limites ao que Lossos pode nos
comunicar; porém a telepata Ishi Matsu vai estar presente, a fim de
complementar as informações. Deve saber que a formação dela está adiantada a
ponto de poder transmitir mensagens mentais até a não-telepatas. Portanto temos
a possibilidade de saber, durante o decorrer da palestra, se o cientista fala a
verdade ou não. Saberemos até que pensamentos ele oculta atrás de uma mentira.
— Situação besta! — resmungou Bell,
enquanto se dirigiam no automóvel elétrico para o atual palácio do Thort. — A
gente quebrando a cara para ajudar esse pessoal, e eles cheios de
desconfiança...
— Ora, tente compreender, Bell! — disse
Rhodan, defendendo o ponto de vista dos ferrônios. — O que procuro saber se
relaciona a um fato histórico antiqüíssimo, relembrado apenas na tradição desta
raça. Estou certo de que nem eles próprios conhecem maiores detalhes a
respeito, mas sei que tem algo a ver com os transmissores pentadimensionais de
matéria. E este acontecimento, ocorrido há muitos milhares de anos, deve ter se
revestido de aspectos tanto agradáveis, como penosos. O Thort vai tentar
evitar, de todos os modos possíveis, que eu tome conhecimento dele na íntegra;
se é que alguém o conhece integralmente.
— Acha que os ferrônios ganharam os
transmissores de presente?
— Isso mesmo — concordou Rhodan. — E me
interessa muito saber quem foram os doadores.
O carro parou, e os dois homens desceram.
Ishi Matsu, a graciosa japonesa, já estava à espera, conforme combinado. Dez
minutos mais tarde, se encontravam na presença de Lossos.
Com ar circunspecto, o idoso cientista
balançou a cabeça.
— O Thort, nosso grande soberano, pôs-me a
par do que querem saber. Confesso que se trata de assunto bastante delicado,
porém a luta em comum contra os tópsidas nos tornou amigos; e entre amigos não
cabem segredos. Recebi permissão para lhes contar tudo que sei sobre a origem
dos transmissores.
— Obrigado! — disse Rhodan, se
concentrando para ler em seu íntimo.
Ishi lhe comunicava: “Ele está falando a pura verdade.”
— Reconheço que o Thort nos dá com isso
uma prova de ilimitada confiança — continuou Rhodan. — A execução técnica dos
transmissores revela a inacreditável genialidade de seus construtores; eu
gostaria de saber por que os ferrônios já não constroem tais aparelhos hoje em
dia. O Thort me deu alguns planos na véspera de minha última viagem ao Sol. Mas
sua única utilidade foi a de indicar a existência de determinado segredo.
— Os ferrônios nunca foram capazes de
construir transmissores desse tipo — declarou Lossos; observação que não
surpreendeu Rhodan nem um pouco. — Foram feitos por uma raça estranha, à qual
prestamos outrora valiosa ajuda; nos presentearam com uma série dos misteriosos
aparelhos, nos cedendo igualmente os planos de fabricação. Mas só poderíamos
fabricar os transmissores quando alcançássemos a imprescindível maturidade
tecnológica e ética. Por isso, os planos autênticos foram depositados numa
urna, no Palácio Vermelho de Ferrol; fechaduras e campos de proteção
pentadimensionais impedem o acesso de quem quer que seja a esta urna. A não ser
que uma pessoa capaz de pensar na quinta dimensão descubra a chave. Portanto, a
raça que nos ofertou o valioso presente se mostrou previdente. Jamais o poder
representado pela posse dos transmissores poderá ser mal empregado, pois só
quem possuir maturidade para isso poderá fabricá-los.
“Ele
continua falando a verdade”, comunicou Ishi mudamente.
— Quem eram esses desconhecidos? —
perguntou Rhodan, sem hesitar. Pois também quanto a este particular tinha suas
suposições, e queria confirmá-las.
Lossos sorriu suavemente, e seu olhar se
perdeu na distância. Parecia querer retornar aos milênios passados, para
conjurar mais uma vez fatos do passado longínquo.
— Ainda desconhecíamos viagens espaciais
naquela época, e nossa História recém-começava. No entanto, sabíamos que não
estávamos sós no Universo. Pois tínhamos recebido visitantes do espaço.
Primeiro uma enorme esfera desceu entre nós, mas nem a tradição oral guardou
minúcias do acontecimento, que não teve conseqüência alguma. Os desconhecidos
tornaram a partir, e nunca mais retornaram. Isso deve ter sido há uns dez ou
doze mil anos. Suponho que alguns de nossos deuses foram moldados à semelhança
daqueles visitantes do espaço.
— Como entre nós — murmurou Bell, sem que
ninguém lhe desse atenção.
— Houve uma segunda visita — continuou o
sábio ferrônio. — Diferente, sob diversos aspectos, da primeira. O principal é
que não foi deliberada; eles se viram obrigados a fazer uma aterrissagem de
emergência em Ferrol. Do que resultou um contato talvez nem planejado. A nave
dos desconhecidos, um gigantesco cilindro, se espatifou contra as montanhas dos
sichas, se incendiando logo após o desembarque dos viajantes. Quase todos se
salvaram. Nossos antepassados, tomando-os pelos mesmos deuses anteriormente
aparecidos, receberam-nos com a maior cordialidade. De bom grado lhes
forneceram, depois, as matérias-primas solicitadas para a construção de
misteriosos aparelhos, que possibilitariam, aos estranhos, o regresso à pátria.
Adivinhou, tratava-se de transmissores pentadimensionais de matéria. E nem
tinham outro recurso, já que todos os aparelhos de bordo, e seus meios de comunicação
haviam sido destruídos na catástrofe. E um belo dia, os desconhecidos
desapareceram.
— Deixando para trás os transmissores?
— Exatamente. No entanto, antes de partir,
o chefe da expedição malograda dera ao Thort de então todas as explicações
necessárias ao seu funcionamento. Os desconhecidos provinham de nosso sistema,
de um planeta de Vega cuja órbita fica logo depois da de Rofus. Do décimo
planeta, portanto, conforme sempre supusemos. Estavam se iniciando na
espaçonáutica, e aquela era sua primeira expedição de longo alcance. Apesar de
pouco versados em questões tecnológicas, nossos antepassados adivinharam que
aquela visita talvez fosse significativa no futuro. Em vista disso, prepararam
registros que conservamos até hoje. É deles que retiramos nosso conhecimento
dos fatos.
Rhodan relembrou fugazmente a afirmativa
anterior do Thort, dizendo que já não havia quem recordasse com exatidão os
acontecimentos daquela época remota. Devia ter mudado de opinião, portanto.
Ishi comunicou que Lossos continuava sendo sincero.
— O chefe da expedição doou os misteriosos
aparelhos ao Thort, lhe entregando igualmente os planos detalhados de
fabricação; mas estes ficaram guardados no Palácio Vermelho, defendidos pelas
medidas de segurança já mencionadas. Depois desapareceu também. Só nos restaram
as recordações e os transmissores.
Lossos se calou. Rhodan aguardou, porém o
cientista concluíra sua exposição.
— O que é que se sabe ainda, atualmente,
acerca dos desconhecidos supostamente originários do décimo planeta? — perguntou
Rhodan. — Segundo me consta, os ferrônios poderiam visitá-lo quando bem lhes
aprouvesse; no entanto, nunca ouvi vocês dizerem que aquele mundo era habitado.
— É desabitado. E, se nossos pesquisadores
não estiverem enganados, jamais houve vida nele. Neste particular, os estranhos
mentiram.
Detalhe surpreendente aquele. Rhodan não
escondeu seu desapontamento.
— Quer dizer que não é certo serem
naturais deste sistema? Que pena! Pois eu gostaria de conhecer pessoalmente os
inventores daqueles fabulosos aparelhos. Verdadeiramente lamentável... Não há
pista alguma que possa apontar sua verdadeira origem? Que aparência tinham
eles?
— Os registros são omissos neste ponto.
Talvez se parecessem conosco, ou com vocês arcônidas. Quanto a pistas... —
Lossos hesitou.
“Está
considerando consigo mesmo se pode ou não falar a respeito”, sinalizou a
japonesa. Rhodan e Bell aguardaram em silêncio.
— ...talvez exista uma, mas não sei se vai
esclarecer grande coisa — continuou Lossos. — Nos longos anos de sua
involuntária estadia em Ferrol, nenhum dos estranhos morreu. Nem um só, apesar
de haver entre eles alguns de aparência bastante idosa. Em resposta às
perguntas feitas por nossos antepassados, afirmaram poder viver mais do que o
sol.
— Um indício bem valioso — observou
Rhodan, gravemente. — Pelo menos nos permite deduzir que alcançavam idade muito
avançada. Só não compreendo por que jamais tornaram a visitar este mundo; seria
de esperar que no decurso de tantos milênios eles tivessem retornado uma vez ou
outra.
— Sou da mesma opinião, Rhodan — disse
Lossos. — Fiz-me esta pergunta por um número incontável de vezes, sem chegar a
conclusões lógicas. Acabei admitindo duas hipóteses: ou os estranhos habitavam
outro sistema, jamais regressando ao de Vega; ou se tornaram vítimas de um
cataclisma cósmico. Na verdade, os registros indicam vagamente essa
possibilidade. Pois o chefe da expedição disse certa vez ao nosso Thort: “Vivemos
mais do que o sol, mas justamente ele procura impedi-lo.” Não sei que
conclusões tirar disso.
Bell ia falar, porém percebeu a tempo um
olhar de advertência de Rhodan, e permaneceu calado.
“Também
Lossos acredita que eles emigraram”, comunicou Ishi revelando sua
continuada atenção.
“Mas
neste caso existiriam restos da civilização abandonada no décimo planeta”,
replicou-lhe Rhodan, mentalmente.
Uma história bem estranha. Tinha existido
no décimo planeta uma cultura avançada, sem que restasse dela o menor vestígio.
Totalmente impossível! Mesmo núcleos populacionais reduzidos deixam traços de
sua passagem, perceptíveis até depois de quinhentos séculos. Logo, o povo quase
imortal que explorava o cosmo e pensava na quinta dimensão não poderia ter
sumido sem deixar sinal. Que destino teria tomado?
Rhodan se ergueu abrutamente.
— Grato pelos esclarecimentos, Lossos.
Foram de grande valor. Deve estar tão interessado quanto eu em obter respostas
para todas estas incógnitas. Por conseguinte, convido-o a me acompanhar numa
expedição ao décimo planeta; tenciono partir muito em breve, assim que tivermos
expulsado definitivamente os tópsidas do sistema Vega. Talvez juntos
encontremos alguma pista.
— Seu convite constitue uma honra — disse
o sábio, tomando a mão estendida de Rhodan. — Representa a satisfação de um
desejo longamente acalentado — apertou igualmente as mãos de Bell e de Ishi. —
Segundo depreendi das informações coletadas por nossos pesquisadores, não
toparemos com dificuldades, principalmente porque suas naves são bem mais
velozes do que as nossas. Creio que a lacuna existente entre Rofus e o décimo
planeta não vai nos atrapalhar em nada.
Por um breve instante, Rhodan permaneceu
rígido. Mas logo voltou a sorrir obsequiosamente.
— Claro que não! — afirmou, empurrando
Bell para a porta. — Não vai atrapalhar nem um pouco!
IV
Enquanto os tópsidas ultimavam os preparativos
para a aterrissagem da nave-correio, Rhodan empreendeu a primeira tentativa
concreta de furtar os planos de construção dos transmissores. Levava consigo
Tako Kakuta e Ras Tshubai, os dois teleportadores. O transmissor individual
secreto lhes permitiu penetrar no Palácio Vermelho. Wuriu Sengu tinha preparado
um roteiro exato da localização da casa-forte, de maneira a poupar a Rhodan o
trabalho de procurá-la. E Sengu não deixou de anotar o ponto onde existia um
obstáculo impenetrável até para seu olhar de vidente. Pela primeira vez na vida
deparava com matéria que resistia às suas capacidades paranormais.
Tiveram que agir com cautela, pois o
movimento no palácio era intenso. Os dois telepatas sondavam previamente o
terreno, mediante saltos rapidíssimos, a fim de que Rhodan pudesse prosseguir
sem correr perigo. Durante a maior parte do percurso, usaram as passagens
secretas entre as grossas paredes; mas às vezes precisavam atravessar
corredores e amplos salões, o que representava um possível encontro com o
inimigo.
Chegaram finalmente às dependências mais
afastadas e tranqüilas do imenso prédio, já no subsolo.
Retornando de um salto, Tako informou:
— Diante de nós fica um corredor, que
forma um ângulo, dando depois para um salão. Caso os dados de Sengu estejam
corretos, encontraremos neste recinto o que procuramos. Mas temo que terá uma
surpresa inesperada, Rhodan.
Rhodan seguiu o japonês sem fazer
comentário algum, enquanto o africano formava a retaguarda.
O corredor desembocava diretamente num
recinto de vastas proporções, sem porta divisória. Devia medir cerca de
cinqüenta metros de comprimento, por cinco metros de altura. Os três intrusos
acenderam suas lanternas de mão. Os focos varriam as trevas, encontrando apenas
paredes lisas e nuas. Rhodan não tardou a constatar que a sala subterrânea
estava inteiramente vazia. Ligeiramente decepcionado, tirou do bolso o roteiro
fornecido por Sengu. Os
dois telepatas se aproximaram para examiná-lo igualmente.
— Confere, o salão é este mesmo. E o cofre
ou arca que guarda os planos deve se encontrar bem no meio dele. No entanto,
não vejo nada. Talvez Sengu tenha calculado mal a profundidade, e exista um
segundo salão abaixo deste.
— Vou verificar — ofereceu Ras,
desaparecendo instantaneamente. Mas logo retornou, com ar intrigado, dizendo: —
Estamos sobre rocha sólida. Não existe qualquer vão oco debaixo de nós. Lá em
cima não tem cofre nenhum. Logo, ele tem que estar aqui, por trás do tal
obstáculo invisível que os olhos de Sengu não conseguiram penetrar. Como ele
viu a coisa, ela não pode ter sumido sem mais nem menos. Seria
paradoxal.
— Muitas vezes o paradoxal é que é o
verdadeiro, quando se raciocina na quinta dimensão — observou Rhodan, fitando
pensativamente a parede oposta.
— Que quer dizer com isso?
— Com seus dons paranormais, Wuriu é capaz
de enxergar através de qualquer espécie de matéria; basta ajustar os olhos para
a respectiva estrutura atômica. Só não pôde ajustá-los à estrutura
pentadimensional desta cúpula ou abóbada que recobre a arca com os planos; ela
é impenetrável, apesar de Sengu poder vê-la externamente. Existe de fato, e
está nesta sala. Para nós, não-videntes, ela é invisível; e seria igualmente
invisível para Sengu caso ele olhasse para ela de maneira normal.
— Não entendi uma só palavra de tudo isso!
— exclamou Ras Tshubai.
— Até eu só entendo mais ou menos —
confessou Rhodan, sorrindo. — Vamos verificar onde começa o invólucro protetor.
Mal deram alguns passos, chocaram-se
contra uma barreira invisível. Rhodan, com os braços estendidos para a frente,
não se mostrou surpreso. Limitou-se a um breve aceno, como se esperasse por
aquilo.
— Conforme eu supunha. Uma imagem reflexa
materializada. Uma visão sólida. Fabuloso... mas inexplicável.
Meio intimidado, Tako passou a mão sobre a
superfície lisa do obstáculo invisível: a barreira imaterial.
— Mas não se vê nada! Parece ar...
— E, no entanto, impede a passagem do
olhar de Sengu. E do nosso também. Basicamente, trata-se de uma ilusão de
ótica.
Seja qual for o ângulo de visão, o reflexo
se altera constantemente, de maneira a dar sempre a impressão de que o
observador está olhando do lado oposto. Ras, vá até o outro lado do salão, e me
diga se pode nos ver. Vá contornando a abóbada.
Seguindo, às apalpadelas, a parede
invisível, o africano postou-se num ponto diametralmente oposto ao de Rhodan e
Tako. O corpo invisível ficava entre eles. Viam-se livremente.
— E no entanto, essa coisa resistiu ao
olhar de Sengu — disse Rhodan. — Técnica incrível... E, uma vez que o olhar de
Sengu não pode atravessá-la, você também não pode, Tako, nem mesmo em estado de
desmaterialização. Experimente...
Tako não esperou segunda ordem; seu lugar
ficou vazio de repente. Rhodan ainda ia acrescentar uma recomendação adicional,
porém o japonês fora rápido demais. No profundo silêncio do imenso recinto, seu
grito de dor ecoou tão alto que os dois outros homens estremeceram
involuntariamente. Depois presenciaram uma cena bizarra.
Tako materializou-se em pleno ar,
escorregando depois ao longo da parede invisível; agitando freneticamente
braços e pernas, procurava apoio no vazio. A expressão do rosto denotava
ilimitada surpresa e incompreensão. Atordoado, e tremendo da cabeça aos pés,
deslizou para o chão.
— Que... que foi isso? — gaguejou.
— A barreira — explicou Rhodan. — Você se
projetou contra ela, e escorregou para baixo, só isso. Portanto, para você
também ela é impenetrável. Vou consultar o cérebro eletrônico; o problema é
complexo demais para mim.
Ras voltou cautelosamente para junto
deles.
— Que coisa assombrosa! — observou,
impressionado. — É algum anteparo energético?
— Qualquer anteparo energético permitiria
a passagem desimpedida de teleportadores, Ras; porém um campo pentadimensional,
nunca. Simplesmente porque ele não se encontra aqui, porém em outro lugar. Não
consigo lhe explicar direito, porque me faltam as palavras adequadas. Pode ser
que eu me encontre no limiar da compreensão, mas apenas no limiar. Pressinto as
conexões, o que é escassamente suficiente para fornecer dados ao cérebro
eletrônico da Stardust-III. Talvez ele possa me dar uma resposta. Vamos embora!
Por enquanto estamos perdendo tempo aqui.
Em silêncio, os três homens empreenderam o
caminho de volta, deixando atrás de si um recinto vazio, que abrigava o maior
segredo do Universo.
* * *
Poderia se dizer que raiara o mais belo
dia da vida de Reginald Bell. Ainda de madrugada, convocou os mutantes em torno
de si, mostrando-se alegre e bem disposto. E nem reclamou quando Anne Sloane,
aborrecida com suas piadas sem graça, o fez flutuar para cima do telhado de uma
casa sicha. Com o maior desplante, continuou a contar como tinha arrancado
certo dia os botões das calças do suboficial que o comandava, tornando a
costurá-los nos lugares mais absurdos. Descreveu com minúcias os locais
escolhidos, o que levou Anne a retirá-lo do telhado, suspendendo-o no ar.
— Pare com isso, ou vai ver uma coisa! —
ameaçou a moça.
Bell agitava os membros como se estivesse
nadando.
— Pois foi exatamente o que o suboficial
me disse! — berrou lá do alto. — Só que você pretende me dar um tombo, enquanto
ele pretendia me reprovar no curso de formação de oficiais. E, no entanto, nem
ele próprio...
— Reginald Bell! — reclamou John Marshall,
o telepata. — Decididamente, seus pensamentos são altamente impróprios! Pelo
menos, para ouvidos de moças... Anne tem toda a razão em deixá-lo de castigo aí
em cima.
— Que bem me importa! — afirmou Bell, se
bem que sua voz se mostrasse um tanto insegura. — Esses poucos metros...
— ...bastariam para lhe quebrar todos os
ossos do corpo, em vista da gravidade mais intensa deste planeta — avisou Anne.
— Comporte-se que o faço baixar sem perigo.
— Desço sozinho! — gritou Bell, tentando
se agarrar à beirada do telhado. Mas estava longe demais. — Tama Yokida,
tire-me daqui! Nós homens precisamos nos amparar mutuamente.
O japonês de porte médio, um telecineta
como Anne, encarregou-se do aflito Bell, fazendo-o flutuar para mais perto da
casa. Conseguindo alcançar o telhado, Bell engatinhou pelas toscas telhas de
madeira.
— Tragam uma escada! — declamou
solenemente, acrescentando: — Temos que provar às mulheres que somos seres
independentes!
A escada se aproximou flutuando, como que
conduzida por mãos imateriais, e foi colocada na posição apropriada contra a
casa. Sem comentar o fato, Bell voltou a pisar solo firme, e postou-se
marcialmente diante de Anne, dizendo:
— Vejo-me forçado a censurá-la, minha
cara, por desperdiçar seus valiosos dons.
— É verdade — concordou Anne. — Com
objetos sem valor.
Todos riram, apesar de ninguém, com
exceção dos telepatas, saber ao certo se ela se referia a Bell ou à escada.
O transmissor do grupo de resistência veio
interromper o divertido incidente. A nave-correio tópsida se aproximava de Ferrol.
Era hora de entrar em ação.
Bell recuperou instantaneamente a
seriedade. Incisivamente deu suas ordens:
— Wuriu Sengu vai primeiro; depois Anne
Sloane, como telecineta, e André Noir como hipno. Quanto aos demais,
conservem-se de prontidão, para seguirem assim que eu os convocar. Tudo claro?
Sem aguardar resposta, Bell entrou na
pequena cabina gradeada, desaparecendo em poucos segundos. Os mutantes o
imitaram, na ordem indicada.
* * *
Mais de duzentos dos bojudos cruzadores se
alinhavam ordenadamente no imenso espaçoporto de Thorta, com as respectivas
tripulações formadas diante deles. Tequer-On,. nomeado comandante da frota,
retornava ao Palácio Vermelho depois da inspeção final. Rok-Gor já estava à sua
espera.
— Tudo pronto para a recepção ao
comissário — informou Tequer-On. — Para quando é a aterragem?
— A qualquer momento. A nave já se comunicou
com o serviço de proteção ao vôo. Tem ocorrido novos... — com uma ligeira
hesitação, Rok-Gor concluiu: — incidentes?
— Não. A situação está absolutamente
normal. Acho que os ferrônios desistiram.
— Os arcônidas! — replicou Rok-Gor,
irritado. — Se tudo correr a contento, poderemos destruir este nono planeta
depois da partida da comissão. Esses imperialistas emproados merecem uma boa
lição. Onde está Crek-Orn?
— Aguarda no espaçoporto.
— Muito bem. Vamos para lá.
Tudo fora preparado de acordo com o cerimonial
tópsida. Diante da tropa formada se erguia uma tribuna, aparelhada com
instalações para transmissão de imagem e som. Rok-Gor fazia questão de que o
Déspota de Topsid, a mais de oitocentos anos-luz dali, testemunhasse o acerto
das providências tomadas pelo novo chefe supremo das forças expedicionárias, em
boa hora nomeado pelo Déspota. Depois disso, a ambicionada promoção a almirante
do espaço seria questão apenas de tempo. E pouco se lhe dava saber que a medida
implicaria na morte ou no exílio do infeliz Crek-Orn.
Portanto, era compreensível que este
aguardasse a chegada do comissário com sentimentos contraditórios.
Imiscuindo-se por instantes nos pensamentos de Crek-Orn, André Noir se sentiu
um tanto compadecido, e decidiu que o ambicioso Rok-Gor ia pagar caro por isso.
O carro parou. O comandante-em-chefe
desembarcou, seguido por Tequer-On. Aproveitou o período de espera para
vistoriar as tropas. O ambiente era festivo, fazendo pensar em feriados e
comemorações; não fossem as naves-patrulhas percorrendo infatigavelmente o
espaço em velocidade igual à da luz, a fim de se precaver contra surpresas
desagradáveis, ninguém diria que se estava no meio de uma guerra. E os tópsidas
acreditavam firmemente que suas patrulhas espaciais os protegiam de todo o ataque
inesperado...
No compartimento secreto, junto ao
transmissor, Bell acompanhava os acontecimentos através dos comentários de
Sengu. O vidente via tudo como se estivesse fisicamente presente à parada dos
reptilóides.
— Ele terminou o solene desfile diante das
tropas; sujeito posudo, esse novo comandante... E nem sequer ganhou o cargo por
mérito seu. Se nós não tivéssemos pendurado Crek-Orn no lustre... a
nave-correio está chegando. Um trambolho sem tamanho, do ponto de vista
tópsida. Um canudo barrigudo, como as demais naves deles. Aterrissa agora. As
tropas apresentam os fuzis energéticos. Abre-se a porta de desembarque. Uma
lagartixa surge na abertura. Minha nossa, nunca na vida vi uniforme tão
embandeirado! André, é sua vez. Não posso ouvir o que dizem. Você é que é o
ledor de pensamentos.
André Noir tomou a palavra:
— Rok-Gor mandou os homens prestarem
continência, e se aproxima do comissário. Este passou da nave diretamente para
a tribuna, onde caberiam folgadamente dois batalhões. Tem uma comitiva de uns
vinte reptilóides, que ficam sempre a respeitosa distância, para acentuar a
importância do comissário. Dentro da nave, os aparelhos transmissores já estão
funcionando. A mais de oitocentos anos-luz de distância, o Déspota testemunha
visualmente os acontecimentos galácticos.
O comissário deteve-se, aguardando a
aproximação de Rok-Gor. Este, perfilando-se meio a contragosto, saudou e
informou:
— Em nome de minha tropa, dou as
boas-vindas ao comissário do Déspota, em sua chegada ao mundo conquistado
número oito de Vega, denominado Ferrol. A situação está sob controle, nossas
forças são superiores, e a destruição final do inimigo é iminente.
O comissário indagou, de cenho franzido:
— E os erros imperdoáveis que têm sido
cometidos? Será que Crek-Orn nada tem a declarar em sua defesa?
O ex-comandante se mantinha discretamente
afastado. Ouvindo seu nome, adiantou-se com ar contrito. Nos negros olhos de
réptil refletia-se tristeza e um pouco de medo.
— Não lutamos apenas contra os ferrônios —
disse ele — mas também contra os odiados arcônidas. Eles se instalaram também
neste sistema, conforme era de supor após aqueles pedidos de socorro que
captamos. Suas armas de combate superiores...
— Superiores?! — exclamou o comissário,
com ar interrogativo. — Rok-Gor, a luta não estava praticamente decidida?
Neste momento, André Noir tomou conta do
desamparado Crek-Orn.
— Mas ela nem chegou a começar direito! —
reclamou o almirante, em tom enérgico. — Rok-Gor esconde do eminente comissário
as dificuldades que também ele não conseguiu superar. Tópsidas são encantados,
objetos inertes flutuam no ar, cruzadores perdem o controle e alvejam os
companheiros, a mente de nossos oficiais é perturbada, e...
— Mentira! — berrou Rok-Gor, fora de si. —
Isso tudo é pura mentira! Crek-Orn quer é disfarçar sua total incapacidade.
Lidamos com adversários inteiramente normais.
— Estou pronto a conceder que nosso
adversário é normal — interrompeu Crek-Orn, valentemente. — Mas é
indiscutivelmente superior. Recomendo o abandono imediato deste sistema!
O comissário acompanhava com extremo
interesse a altercação entre os dois oficiais. Empertigando-se, falou em tom
severo:
— Que significam essas contradições? Que
foi que se passou aqui realmente?
— Muita coisa! — gritou Crek-Orn, sem
esperar que ele acabasse de falar. — Oficiais se amotinaram...
— E foram devidamente punidos —
interrompeu Rok-Gor. — Fatos como estes ocorrem periodicamente, e não
constituem motivo suficiente para cancelar uma investida vitoriosa.
— Os ferrônios contam com o apoio dos arcônidas,
comissário! E possuem uma nova espécie de arma, com a qual influenciam a mente
de outros seres. Com ela, podem até assumir o controle de nossas espaçonaves.
Da nave-correio vinha uma voz ampliada
pelo alto-falante:
— Aqui fala o Déspota! Quero esclarecimentos
imediatos acerca das ocorrências em Ferrol! O adversário precisa ser derrotado,
seja ele quem for! E caso Rok-Gor se mostre igualmente incapaz desta tarefa,
serei obrigado a nomear um novo comandante. Onde está Tequer-On?
— Abaixo o Désposta! — berrou o comandante
da frota bélica, entusiasticamente. — Abaixo o comissário!
— Que foi que ele disse? — indagou o
comissário, inclinando a cabeça para o lado, como quem não escuta bem.
Tequer-On se adiantou, declarando:
— Abaixo o regime de opressão do Déspota,
foi isso que eu disse. Os ferrônios nunca nos fizeram mal, e não temos nada a
fazer em seu sistema. Abaixo o comissário! Não precisamos de espiões sujos por aqui!
O corpulento reptilóide de pé sobre a
tribuna arquejou, com falta de ar. A garra esquerda fez um sinal aos soldados
de sua comitiva. Pistolas de raios rebrilharam ao sol ao serem sacadas dos
coldres.
— Motim, Déspota! — informou ele. —
Revolta declarada dos oficiais. Suas ordens?
— Morte aos revoltosos! — ordenou o
Déspota.
Rok-Gor levou de repente a mão à cintura,
puxando sua pistola. Sem uma só palavra, apontou para o comissário e apertou o
disparador. O alto dignitário caiu morto. Seus acompanhantes, momentaneamente
imobilizados pelo terror, levaram alguns segundos para retribuir o fogo e
abater Rok-Gor. Depois se refugiaram apressadamente na nave, sem serem
molestados por mais ninguém. A passarela foi recolhida. Mais uma vez a voz
amplificada do Déspota se fez ouvir:
— Crek-Orn, apresente-se com sua frota em
Topsid assim que levar a bom término esta guerra. Se me vier com a notícia da
derrota, sua sentença de morte estará assinada. E nem pense em não regressar;
nós encontraremos tanto você quanto seus oficiais.
A voz emudeceu. Estremecendo, a enorme
nave se ergueu do chão. A seguir levantou vôo em velocidade alucinante. Não
tardou a desaparecer no céu sem nuvens de Ferrol. Segundos mais tarde, o
derradeiro eco do ruído dos propulsores se perdia no ar, restabelecendo o
silêncio anterior.
Apenas Crek-Orn não se acalmava. Com toda
a força dos pulmões, bradava repetidamente:
— Viva o Déspota! Viva nosso glorioso
Déspota! Três vivas para o Déspota de Topsid!
O cruzador número trinta e sete alçou-se
de repente da pista com a maior suavidade, ergueu vôo verticalmente, descreveu
um 8 perfeito no ar, e despejou uma salva de neutrônios sobre o local da
parada. Os reptilóides se jogaram no chão, procurando cobertura. Tequer-On
berrava ordens desconexas, mandando um dos oficiais perseguir o cruzador com um
caça, e deter seus tripulantes. Para espanto seu, foi informado de que o
cruzador decolara sem tripulação.
Instantaneamente Tequer-On compreendeu que
a frota inteira poderia, a qualquer momento, imitar o exemplo do cruzador
número trinta e sete.
Os ferrônios e os arcônidas eram
invencíveis.
— Para os cruzadores! — bradou, apavorado.
— Todo mundo a bordo! Partimos de Ferrol agora mesmo! Aguardar novas
instruções!
No compartimento secreto do Palácio
Vermelho, André Noir acenou apreciativamente para Bell:
— Esta decisão é dele mesmo; deu a ordem
sem a menor influência alheia. Acho que as lagartixas acabaram criando juízo.
E, conforme Sengu vê, nem Crek-Orn se opõe à tese da retirada imediata. Pelo
contrário, apóia integralmente a idéia. Creio que estamos livres dos tópsidas.
Anne, que tal uma demonstração de encerramento?
A moça segurou o braço de Sengu.
— Deixe-me ver como estão as coisas —
disse ela, com um aceno afirmativo.
Bell saltitava de impaciência, louco por
participar diretamente dos acontecimentos. Nem poderia vê-los, metido naquele
esconderijo. Mas o palácio não fora desocupado pelo inimigo? Bem que poderia ir
apreciar o espetáculo no alto do telhado...
— Aguarde dois minutos antes de dar início
ao show aéreo das lagartixas — pediu a Anne, e disparou para fora do
compartimento. Os mutantes ouviram seus passos apressados ecoar pelo corredor.
— Cara imprudente! — resmungou Anne,
voltando às suas sindicâncias telepáticas. — Que se passa, Sengu?
— Retirada ordenada — respondeu o japonês.
— Abandonam a maior parte do equipamento em Thorta. Talvez pretendam vir
recuperá-lo mais tarde.
— Já vou lhes tirar a vontade de pensar
nisso! — anunciou Anne, controlando no relógio os dois minutos de prazo pedidos
por Bell. Só depois de Sengu avisar que ele atingira o telhado do palácio, de
onde observava o espaçoporto, tremendo de antecipação, Anne se concentrou como
jamais se concentrara em toda a sua vida.
* * *
— Eu diria que os tópsidas jamais
retornarão a Ferrol a fim de buscar o equipamento abandonado — disse Perry
Rhodan ao Thort. — Bell e o Exército de Mutantes lhes deram uma lição de
mestre, pregando-lhes um susto que nunca esquecerão. Eu não me surpreenderia se
eles se retirassem definitivamente do sistema Vega.
Thora, que participava da reunião com
Crest, sacudiu a cabeça:
— O cérebro eletrônico afirma, com 99% de
certeza, que eles não farão isso. Em Topsid os espera um fim inglório. Crek-Orn
e Tequer-On prefeririam procurar algum planeta desabitado onde se estabelecer,
do que enfrentar a ira do Déspota. E a conclusão do computador confere com a
experiência que obtivemos no convívio com os tópsidas. Convém ficar de olho
neles.
Bell, que tinha acabado de chegar de
Thorta, deu de ombros.
— Esses estão curados. Nossa colega Anne
organizou um verdadeiro baile com as naves da frota tópsida. Nem queiram saber
como foi bonito ver a nave-capitânia rodopiar numa valsa com um cruzador de
patrulha!
— É melhor lidar com espectros do que
enfrentar a morte — comentou Thora, indulgentemente. — Principalmente quando se
trata de espectros brincalhões.
— Será que fui clemente demais? — indagou
Bell, zangado.
— Apesar disso, você conseguiu terminar
uma guerra interplanetária, ou melhor, interestelar, com um mínimo de baixas.
Uma nave foi perdida, e o comissário e Rok-Gor morreram. Não se poderia desejar
maior clemência.
— Foi por ordem minha — interrompeu
Rhodan, defendendo o amigo. — No presente caso, os efeitos resultantes serão
mais duradouros. Deringhouse se encontra no espaço com sua esquadrilha,
observando os movimentos dos tópsidas em fuga. Aguardo notícias dele a qualquer
momento. Segundo seu último comunicado, os reptilóides com suas trezentas e
setenta naves já ultrapassaram a órbita do trigésimo oitavo planeta.
— Em vista disso, parece que tencionam
realmente fugir — comentou Thora, surpresa. — Será que o cérebro eletrônico
cometeu um engano?
Rhodan não respondeu. Para ele, era
bastante improvável que o computador tivesse errado. Que estariam planejando os
tópsidas, agora que não tinham mais chance alguma naquele sistema?
* * *
Vega, a estrela de luz azulada, contava
com quarenta e dois planetas em seu sistema. Os mais afastados eram mundos
gelados e mortos, tão distantes do sol que este não tinha condições para lhes
fornecer calor. Mesmo seus raios mal alcançavam os solitários vagantes do
espaço.
O quadragésimo planeta pertencia ao grupo
dos filhos pródigos do sistema Vega. De proporções gigantescas, constituía
quase um sistema planetário próprio com suas seis luas, das quais a menor se
igualava, em tamanho, a Plutão. As luas não apresentavam fases, permanecendo perenemente
nas sombras. Qualquer delas poderia ser tomada por um planeta de porte pequeno
ou médio, pois possuíam características idênticas à do mundo cujo campo
gravitacional as mantinha subjugadas. Uma das luas ainda contava com satélite
próprio, do tamanho de um continente.
A frota tópsida em retirada, sempre
acompanhada à distância visual pelos caças espaciais de Deringhouse, cruzou a
órbita do trigésimo nono planeta; descrevendo uma parábola, entraram na do quadragésimo.
A manobra surpreendeu Deringhouse. Estava
certo de que os reptilóides afundariam no hiperespaço assim que saíssem do
âmbito do sistema Vega. E agora aquilo!
Porém ainda lhe estava reservada surpresa
maior. As naves adversárias dividiram-se em seis grupos mais ou menos iguais em
número, tomando direções diversas. Deringhouse teve presença de espírito
suficiente para destacar imediatamente pequenas patrulhas perseguidoras para
cada grupo. Como estava em contato audiovisual com os respectivos comandantes,
não tardou a ter uma visão global do que ocorria.
Os tópsidas nem pensavam em desistir dos
planos concernentes a Vega. A volta à pátria lhes estava vedada, caso não
regressassem vitoriosos. Necessitavam, pois, de uma opção mais imediata: recuar
até a orla do sistema, de onde poderiam tentar recuperar o terreno perdido. E
as seis luas do quadragésimo planeta lhes pareceram local apropriado para
estabelecer uma base provisória.
Deringhouse deixou seis caças patrulhando
as cercanias do quadragésimo planeta, com ordem de informar imediatamente qualquer
movimento do inimigo. Voltou com o resto da esquadrilha para Rofus, a fim de
apresentar relatório pessoal a Rhodan.
Decepcionado, constatou que as novidades
trazidas não haviam desencadeado a esperada reação de surpresa. Rhodan apenas
acenou com a cabeça, e mandou estabelecer um serviço de vigília, numa ampla
órbita em torno do quadragésimo planeta; desta forma, os tópsidas não teriam a
menor possibilidade de lançar um ataque inesperado. Depois acrescentou:
— Ainda preciso solucionar alguns assuntos
importantes. Encarregue-se do serviço de vigilância, Deringhouse, e dê o alerta
assim que perceber movimentação por parte dos reptilóides. Obrigado, é só.
Esperou que o oficial deixasse a sala, e
voltou-se para Bell, acomodado em silêncio numa poltrona.
— Vá chamar o Thort, Crest e Thora.
Preciso falar com eles.
— Posso assistir? — indagou Bell.
— Faço questão disso — confirmou Rhodan. —
Quero a presença de John Marshall também. Preciso ter a certeza de não ser
tapeado pelo Thort. E agora, mexa-se! Tenho pressa.
— Vou voando! — exagerou Bell,
levantando-se com um bocejo. Com marcada displicência deixou a sala.
“Os
tópsidas constituem problema secundário, que acaba se resolvendo sozinho”,
refletia Rhodan. “Os ferrônios é que
representam o verdadeiro problema. E, como soberano deles, o Thort personifica
as dificuldades. Prestamos-lhes ajuda, logo eles deveriam se mostrar
reconhecidos. No entanto, não demonstram a menor intenção de agradecer. Logo,
vejo-me obrigado a forçá-los a uma demonstração de gratidão. O segredo dos
transmissores...”
Crest e Thora chegaram primeiro.
Apertando a mão de Rhodan, o sábio
arcônida tomou lugar ao lado dele. Thora, que naquele dia parecia mais
acessível, até sorria; e conservou a mão de Rhodan entre as suas por um espaço
de tempo mais longo do que o habitual. Nos olhos dela brilhava algo que tornou
Rhodan pensativo, porém não eram pensamentos negativos que ocupavam sua mente.
Sabia que hoje podia contar com o apoio dela, o que, Deus sabe, era bastante
raro.
— Ótimo terem se antecipado — disse Rhodan,
a título de introdução. — Gostaria de lhes apresentar resumidamente o plano de
ação que tenho em mente. Os transmissores me interessam tanto quanto a vocês.
Portanto, temos que nos apoderar, a qualquer preço, dos planos de construção
deles. O Thort não os cederia voluntariamente, mesmo que pudesse. Acho, porém,
que ele poderá nos fornecer uma pista. Lossos me revelou a existência de uma
espécie de fórmula, conhecida pelo Thort; é segredo tradicionalmente passado de
Thort a Thort, há muitas gerações. Só que os ferrônios não sabem o que fazer
com ela. Penso que essa fórmula é a palavra-chave que abre as fechaduras
pentadimensionais da arca onde estão trancados os planos.
— E espera que o soberano ferrônio lhe
revele a fórmula? — perguntou Thora.
— Claro! — replicou Rhodan, sorrindo. — E
de livre e espontânea vontade, caso não me queira ver recorrer a outros meios.
Afinal, para que tenho um Exército de Mutantes? Alguém tomará conta de sua
consciência, e...
Bell entrou com o Thort. John Marshall
compareceu logo depois. Os cumprimentos foram breves e mudos, e todos tomaram
assento. O Thort mostrava-se abatido. Parecia pressentir o que exigiriam dele.
Perry Rhodan não perdeu tempo em
preliminares.
— Os tópsidas foram expulsos de Ferrol, e
nada impede o restabelecimento da soberania ferrônia. Penso que chegou a hora
da despedida, Thort.
O ferrônio teve um sobressalto.
— Mas os tópsidas continuam em nosso
sistema! — observou, alarmado. — Foi este homem, Bell, quem me contou. Não
estamos em condições de repelir nova invasão sozinhos.
Inclinando-se ligeiramente para diante,
Rhodan disse, em tom incisivo:
— Gostaria de saber de onde me veio a
idéia de ajudar vocês. Pois não vejo o menor indício de retribuição. É verdade
que mandou Lossos me falar sobre a origem dos transmissores, mas para que me
servem essas informações? Os poucos exemplares deste fabuloso invento
constituem propriedade sua. Quero os planos de fabricação. Os que me deu
anteriormente não passam de hábeis falsificações. Pura tapeação. Só que é
impossível expressar conceitos pentadimensionais com fórmulas da terceira
dimensão. Portanto, se quer continuar contando com nossa proteção, a fim de
evitar a derrocada de seu reino, diga-me como se abre a arca no Palácio
Vermelho.
Rhodan não poderia ter sido mais claro e
franco. Agora o Thort sabia o que desejavam dele. Precisava se decidir.
Marshall sinalizou que o ferrônio não contemplava traição alguma; considerava
consigo mesmo a hipótese de falar finalmente a verdade. Mas demorou ainda
alguns minutos antes de falar:
— Existe um indício, mas não creio que os
leve para mais perto da solução do problema. Permita-me uma pergunta? Que
sucederá quando puder construir os transmissores?
Crest se encarregou da resposta:
— Por que se preocupa com isso, Thort?
Julga que a história do Universo sofreria modificação? Possuímos espaçonaves
que, a rigor, funcionam com base em princípios idênticos aos dos transmissores.
Passamos por um processo de desmaterialização, prosseguindo nossa viagem no hiperespaço.
Assim como sucede nos transmissores. O que nos interessa é a simplificação do
método, mais nada. Garanto que a estrutura da Via Láctea continuará inalterada.
— No entanto, aqueles que nos cederam o
segredo viam mais longe. Determinaram que apenas os dotados de maturidade
suficiente seriam capazes de compreender o método de construção, mesmo que
demorasse milhões de anos. Por que deveria eu quebrar o trato?
Rhodan lançou o argumento decisivo:
— Se nós conseguirmos abrir a arca, usando
a fórmula que não lhe serviu para nada, teríamos dado prova de nossa
maturidade, não acha?
O Thort contemplou Rhodan de maneira
inquisitiva. Por segundos, pareceu-lhe mergulhar irremediavelmente num insondável
mar frio como aço. Depois, recorrendo a toda a sua força de vontade, conseguiu
se libertar da imperiosa influência e decidir livremente.
— Bem, talvez tenha razão... Vou lhe
revelar a fórmula. Ela é simples e fácil de guardar, mas seu sentido é
incompreensível. Senão, veja: Dimensão X = Pentágono de
Espaço-tempo-simultâneo. Só isso.
Crest e Thora trocaram um olhar, que, no
entanto, não denotava nem compreensão, nem entendimento. Bell abriu a boca,
tornando a fechá-la em seguida, com um audível suspiro. John Marshall sinalizou
mudamente:
“De
fato, é só isso.”
Rhodan nada mais fazia do que memorizar as
misteriosas palavras.
— Lamento constatar que também não sabe o
que fazer com ela — observou o Thort, sem disfarçar a satisfação. — Conhecemos
estas palavras há milhares de anos, sem lhes perceber o sentido. Mais do que
isso não posso fazer, e espero que reconheça minha boa vontade.
Rhodan fez um breve aceno, como que em
transe.
— Agradeço-lhe, Thort. De todo o coração.
Passemos agora aos assuntos práticos de nossa reunião. Quando pensa regressar a
Ferrol?
Com evidente alívio, o Thort aceitou a
mudança de tema.
— Os preparativos já foram feitos. Nossa
frota está pronta para decolar. Eu retorno para minha pátria ainda hoje, com os
membros de meu governo, por meio dos transmissores. Seguimos diretamente para
Thorate, para onde foram transferidas as estações receptoras. Celebraremos uma
grande festa comemorativa, na qual gostaria de ter a presença de todos vocês.
— Grato pelo convite — respondeu Rhodan,
levemente zombeteiro. — Estaremos lá... Posso aproveitar a ocasião para
solicitar que nos ponha à disposição em Ferrol uma zona reservada, onde
possamos instalar uma base? Ela contribuirá para sua própria segurança.
— Não querem permanecer em Rofus? —
indagou o ferrônio, admirado.
— Não, pois caso os tópsidas ataquem, seu
alvo será Ferrol, e não Rofus. Também tenho outros motivos.
Evidentemente o Thort gostaria de conhecer
estes motivos, porém não se animou a perguntar.
— Falaremos a respeito depois das
comemorações. Não creio que haja objeções. Dão-me licença agora? Meus homens...
Após a saída do Thort, Bell não agüentou
mais. Inspirou profundamente, expelindo depois o ar ruidosamente, como se
temesse explodir.
— E a fórmula? — arquejou, com os olhos
cintilando de incontida curiosidade.
Crest e Thora olhavam com expectativa para
Rhodan. Porém este apenas levantou os olhos para o teto, com ar de pouco caso.
— Ora, por que me pergunta? Eu é que sei,
por acaso?
Crest pareceu decepcionado, enquanto Thora
sorria com menosprezo.
— A quem devo perguntar então? — quis
saber Bell.
— Ao mesmo que eu vou interrogar —
respondeu Rhodan, levantando-se. — E é pra já!
Nem chegou até a porta, pois Bell,
erguendo-se afobado, reteve-o pela manga.
— Quem, Perry? Quem?
— O cérebro positrônico da Stardust-III,
meu caro.
Crest agora sorria igualmente. Porém não
havia ironia naquele sorriso, e sim contentamento.
* * *
A primeira parte das festividades tinha
passado; logo se seguiriam comemorações mais amplas. O Thort tinha voltado a se
instalar no Palácio Vermelho, retomando a administração do planeta. Por toda a
parte em Ferrol os vestígios da ocupação tópsida iam sendo apagados. O povo
voltava à rotina costumeira.
Uma sessão do conselho de ministros
autorizou Rhodan a instalar sua base perto das montanhas onde viviam os sichas.
Já no dia imediato a Stardust-III desceu no deserto pedregoso. Com seus raios
energéticos ampliou uma caverna natural, a mais de mil metros de profundidade,
a fim de acomodar a gigantesca esfera. Esta não tardou a desaparecer da
superfície de Ferrol.
Operários-robôs se atarefavam na nova base
galáctica de Rhodan, construindo oficinas, laboratórios, acomodações para o
pessoal, e corredores de circulação. A rocha viva foi fundida para dar lugar a
depósitos e hangares para os caças. Instalaram-se os elevadores. Por fim, um
reator arcônida passou a alimentar uma vasta cúpula energética sobre o conjunto
todo; com isso, ele se tornou inatacável.
Os ferrônios acompanhavam aqueles
preparativos com sentimentos contraditórios, conforme verificavam os mutantes
de Rhodan. Não lhes agradava nada ver os dominadores tópsidas serem
substituídos por nova tutela, apesar de Rhodan ter assegurado repetidamente que
aquela base só poderia beneficiar os ferrônios. Como poderiam adivinhar os
planos de Rhodan? Nem imaginavam que este considerava Ferrol o primeiro membro
de seu futuro Império Galáctico.
Além deste empreendimento, Rhodan ultimava
os preparativos para arrancar do passado seu grande segredo. Manteve demorado
diálogo com o computador gigante da Stardust-III; forneceu-lhe a fórmula obtida
do Thort, e recebeu as indicações esperadas. Crest entrou enquanto Rhodan
recebia a resposta.
— Sabia que você ia escolher o único
caminho certo — disse o arcônida.
— E havia outro, Crest? O cérebro positrônico
raciocina na quinta dimensão, assim como você e eu, graças ao meu treinamento
hipnopédico. No entanto, nenhum de nós acertaria com a solução sozinho, por
mais simples que ela possa parecer. O segredo todo reside na palavrinha simultâneo.
Também pentágono é significativo. Porém só o conjunto faz sentido.
— Claro, visto que o raciocínio pentadimensional
é uma coisa lógica — observou Crest, sorridente.
— Não no nosso Universo — respondeu
Rhodan, sorrindo igualmente. — Mas, para ser franco, me sinto um tanto
desapontado. Essa arca protegida por medidas da quinta dimensão não passa,
afinal, de algo enquadrado na quarta dimensão que conhecemos. Os documentos
existem realmente, mas não no presente, e é este o fator quadridimensional do
segredo. Como anteparo protetor foram usadas ondas de rádio transformadas,
oriundas de fontes ignoradas, no espaço, fabulosamente distantes.
Acrescentem-se alguns truques técnicos, como efeitos de curvatura da luz e
barreiras energéticas auto-estáveis. Todos esses empecilhos podem ser postos de
lado quando diversos fatos ocorrem simultaneamente.
— E de que modo vai provocar a ocorrência
desses fatos? — perguntou Crest. Sua pergunta deixava entrever a curiosidade de
quem já conhece a resposta. Rhodan topou o desafio.
— Com meus mutantes. Tanaka Seiko é um
detector natural. Pode captar ondas radiofônicas e interpretá-las, desde que
tenham sido emitidas por seres inteligentes. Portanto poderá captar essas ondas
radiofônicas cósmicas que dão origem à cúpula energética em torno da arca. Se
conseguir desviá-las, teremos acesso livre aos documentos, que retornarão
instantaneamente ao presente. Eis o princípio do problema todo.
— Mas como e por que se passa assim?
— Confesso que ignoro este ponto, Crest. O
cérebro positrônico me forneceu apenas este indício. E a atuação de Tanaka sozinho
não seria suficiente; porém com a colaboração dos demais mutantes, mais a
possibilidade de combinar seus dons mediante contato físico uns com os outros,
será viável. Preciso de um telecineta e de um teleportador; além de Sengu,
naturalmente, para comunicar o momento do desmoronamento da cúpula energética.
— E o que pensa fazer com os planos? — a
pergunta era de Thora, que acabava de entrar. Os insondáveis olhos
vermelho-dourados fitavam Rhodan inquisitivamente.
— Caso Rhodan conseguir de fato se
apoderar deles, tem direito aos planos — observou Crest, procurando apaziguar.
— Senão, nem conseguiria abrir a arca.
— Ele se valeu da ajuda do cérebro
positrônico...
— Que não existiria mais, pelo menos para
nós, sem a oportuna intervenção dele outrora. Portanto...
— É, o argumento é convincente... —
replicou Thora, sarcasticamente. Ainda não estava convencida, porém parecia
mais reconciliada. — Que fará Rhodan com os planos dos transmissores?
Crest deu de ombros.
— Sei lá! Problema dele... Mas, por que não
construiria transmissores? Talvez pudéssemos até estabelecer uma ligação
direta entre a Terra e Árcon. Existem ilimitadas possibilidades.
Rhodan achou oportuno intervir.
— Não se preocupe. Thora, só construirei
os aparelhos quando nós todos julgarmos conveniente. Trata-se de segredo comum,
pertencente tanto a vocês quanto a mim. Gostaria de poder contar com sua
confiança.
Era a primeira vez, em muito tempo, que
voltava àquele tratamento cordial, porém ela não deu mostras de ter percebido.
Parecia ter esquecido por completo as breves horas em que haviam chegado a um
relacionamento mais íntimo. Agora encarava novamente Rhodan como o ambicioso terrano
cujo ímpeto ameaçava derrubar o vacilante domínio estelar dos arcônidas.
— Tenho todo o direito de expressar minhas
dúvidas, não é, Perry Rhodan? Uma vez que Crest acha acertado, deixo de opor
resistência. Mas ele foi avisado...
Sem esperar resposta, ela se retirou do
recinto.
Crest fitou pensativamente os controles do
cérebro positrônico.
— Que tal perguntar a ele? — sugeriu.
— Para saber se mereço? — replicou Rhodan,
sacudindo a cabeça. — Não, obrigado. Se ainda alimenta dúvidas, Crest, faça a
pergunta na minha ausência. Não gostaria que acusassem o cérebro de se mostrar
influenciável.
Com um sorriso magoado, retirou-se também.
Crest ficou olhando para o amigo que se
afastava com o rosto desprovido de expressão.
* * *
Junto a Rhodan se encontravam Bell, Tanaka
Seiko, Anne Sloane, Ras Tshubai e Ishi Matsu, que, além da telepatia, possuía
outro dom surpreendente. Quando se concentrava em determinado local, fosse a
que distância fosse, ela via o que sucedia lá. Rhodan contava usar suas
capacidades na experiência iminente. Lamentavelmente estava escrito no livro do
destino que não conservaria aquela valiosa mutante por muito tempo mais. Porém
ninguém suspeitava disso naquele momento.
O japonês Tanaka comunicou:
— Sim, percebo nesta sala a presença dos
raios cósmicos existentes em toda a parte; só que aqui estão enfeixados e
condensados. O processo começa no teto; forma depois uma coluna, que não
consigo penetrar. Mas, a meu ver, raios cósmicos se identificam com a passagem
do tempo.
— Portanto, provêm da quarta dimensão —
murmurou Rhodan, baixinho. — Acha que pode desviar ou neutralizar essas ondas
provindas de fontes distantes no cosmo, Tanaka?
— Para que a cúpula protetora se desfaça?
Não sei...
— Experimente! Sengu, concentre-se, e
diga-me se vê algo dentro da arca de energia.
Tanaka fitou Anne Sloane.
— Se eu deixar Anne ver o que vejo, ela
deveria ser capaz de desviar os raios. Afinal, eles são matéria, se bem que em
forma diversa.
Diante deles não se via nada. A arca
invisível guardava seu segredo, e não parecia disposta a entregá-lo.
Tanaka segurou o braço de Anne. A moça
enrijeceu e cerrou os olhos. Sengu soltou de repente um grito de surpresa:
— Ali! — Apontava para o meio da sala
vazia, cujas paredes devolviam surdamente o eco daquela única palavra. — Uma
caixa! Agora sumiu. Que foi isso?
Rhodan sentiu a excitação percorrer-lhe o
corpo como uma faísca elétrica. Paralisado no primeiro instante, reagiu logo:
— Uma caixa?
Tanaka soltara o braço de Anne; os dois
mutantes não podiam se concentrar naquelas circunstâncias, privando-os das
forças mentais indispensáveis para a continuação da experiência.
— Sim, uma caixinha cintilante. Flutuando
no ar. Ficou visível por um segundo, apenas. Depois desapareceu de novo.
— Então, é assim que funciona? — murmurou
Rhodan. — Tanaka e Anne, vocês vão ter que tentar de novo. Mais demoradamente,
desta vez. Ras Tshubai salta assim que Sengu enxergar a caixa. Não podemos
gastar mais que dois segundos ao todo. Não sei o que poderia acontecer, caso
Anne não tenha persistência suficiente e fraqueje enquanto Ras se encontra no
interior da arca...
O africano empalideceu visivelmente; seu
rosto tomou uma coloração acinzentada.
— Não vou falar, a fim de não interromper
a concentração dos colegas — observou Sengu. — Fique olhando para minha mão, e
salte quando a levantar, está bem?
Ras fez um gesto afirmativo. Talvez, em
seu íntimo, estivesse imaginando em que lugar iria parar, caso Anne ou Tanaka
falhassem.
— Estou pronto — disse, com voz sumida.
Rhodan estava tenso de emoção. Inspirando
profundamente, deu o sinal para renovação da experiência. De início não houve
modificação perceptível no ambiente. Mas aos poucos, notaram uma leve ondulação
do ar no meio do vasto recinto. Como se o ar estivesse se tornando visível,
apesar de continuar transparente. Em seguida, ele começou a tremer, fluindo em
ondas que às vezes se coloriam de pálidos reflexos luminosos. E então Rhodan
viu a caixa. Emergindo do nada, e brilhando como se fosse de ouro puro.
Flutuava sem qualquer apoio a pouca distância do chão de pedra, rodeada por uma
deslumbrante auréola.
O sinal de Sengu foi desnecessário. Ras
Tshubai saltou, pois presenciara igualmente o fenômeno. Desaparecendo de onde
estava parado, reapareceu no mesmo instante ao lado da caixa. Suas mãos
agarraram avidamente o cobiçado objeto, e então...
Com um grito surdo Anne desfaleceu.
Rápido como um raio Rhodan a amparou.
Ras e a caixa ficaram invisíveis.
— Que foi? — perguntou Rhodan,
nervosamente, sacudindo Anne como quem sacode um trapo. — Anne, ouça-me! Que
aconteceu?
Entreabrindo os olhos, ela balbuciou, como
uma criança:
— Foi demais... o esforço...
— Precisa tentar novamente! Agora,
entendeu! Pense em Ras! Não pode abandoná-lo. Reaja, por favor! Tanaka!
Rhodan fez Anne ficar de pé, e ela tornou
a cerrar os olhos. Os traços do rosto, anormalmente contraídos,
transformavam-na numa desconhecida. Bell mantinha-se de lado, a alguns passos
de distância, calado e sem ousar se mover. Seus olhos esgazeados não se
desprendiam do ponto onde Ras estivera ainda há pouco.
O ar tremeluziu novamente, com os mesmos
reflexos coloridos. E Ras se materializou, segurando a caixa nas mãos. No mesmo
instante voltou a ser invisível, reaparecendo ao lado de Rhodan. Este deixou
Anne deslizar suavemente para o chão, enquanto acenava para Bell. O ministro da
segurança da Terceira Potência acorreu imediatamente para assistir a esgotada telecineta.
Rhodan tomou a caixa das mãos do africano.
Apertou-a fervorosamente entre as mãos por alguns instantes, antes de dizer:
— Quase que a coisa sai errada, Ras... Com
um débil sorriso, o teleportador se apoiou na parede.
— Por nada no mundo eu faria isso de novo!
— confessou. — Foram os momentos mais terríveis de toda a minha vida. Minutos
intermináveis...
— Minutos? — indagou Rhodan, espantado. —
Você não ficou mais de dez segundos dentro da arca!
Ras sacudiu a cabeça.
— Impossível! Tudo sumiu de repente à
minha volta, e me precipitei através do Universo. Guardei a caixa apertada
contra o peito, mas não apareceu ninguém que ameaçasse vir tomá-la. Pelo
contrário. Tive a impressão de que era ela que me arrastava pela eternidade.
Pois foi isso que aconteceu. Disparei galáxia a fora, mais rápido que o mais
fugitivo pensamento. Em quêstão de segundos ela se transformou numa espiral
nebulosa, que diminuía de tamanho rapidamente, até virar um pontinho luminoso
entre milhões de outros. Eu caía ao encontro de uma abertura clara no meio do
vazio, muito, muito longe de mim. Como uma janela para o infinito, a
eternidade, ou... para o inferno. Não cheguei a descobrir, pois o processo se
inverteu e caí de volta. A Via Láctea se ampliou, recebendo-me em seu seio, e
tornei a ver este salão. Foi o que aconteceu, mas não sei explicar o que
significa...
Rhodan bateu-lhe amistosamente no ombro.
— Homem algum, antes de você, passou por
tal experiência, Ras. Você penetrou numa abóbada energética repentinamente
ativada, o que lhe possibilitou viajar através do tempo. Depois regressou, com
a caixa nas mãos, para o local onde ela se encontrava guardada anteriormente,
no passado, ou no futuro... quem pode saber? E o projétil de tempo só tornou a
disparar quando Anne desviou as ondas radiofônicas que Tanaka lhe permitia enxergar.
E você pôde voltar, junto com a caixa.
— Projétil de tempo? — Bell e Ras Tshubai
tinham feito a pergunta simultaneamente.
— Claro! Algo de concreto tem que
possibilitar esta viagem no tempo, da qual, lamentavelmente, não pudemos
participar. E este algo são as ondas emitidas pelas fontes localizadas no
cosmo. Enquanto atuam, o objeto protegido permanece numa época previamente
determinada. Quando sua influência é suspensa, se restabelece o estado normal.
É tudo muito simples.
— De fato, muito simples... — comentou
Bell, com ar aparvalhado. — Só que não entendi nada. Onde é que a caixa se
encontra agora, então?
Rhodan apertou-a contra o peito, como se
receasse vê-la arrebatada a qualquer instante por poderes invisíveis.
— Foi retirada do plano do tempo. Resta
saber se vamos conseguir abri-la. Talvez Crest possa nos ajudar. Anne, como
está passando?
A moça já tinha se libertado dos braços
protetores de Bell; de pé, apoiava-se de leve no ombro de Tanaka.
— Tudo em ordem. Foi fatigante, mais nada.
— Ótimo — respondeu Rhodan. — Voltemos à
base. Uma recomendação: bico calado! Não há necessidade de divulgar nosso
sucesso pelo planeta todo.
Porém o aviso chegara tarde demais. O
Thort vinha entrando, revestido de seus suntuosos trajes reais. Parando diante
de Rhodan, fez uma breve reverência, dizendo:
— Permita-me lhe apresentar minhas congratulações?
Conseguiu realizar o que vínhamos tentando há muitos séculos.
Rhodan não perdeu a compostura,
respondendo serenamente:
— Não precisa se envergonhar por isso,
Thort. Afinal, os ferrônios não possuem mutantes.
— Nem gente como Perry Rhodan! —
acrescentou Bell, orgulhosamente, como se fosse o próprio genitor do personagem
mencionado. De peito inflado, tomou a dianteira, se encaminhando para a saída.
* * *
— Até que não foi tão difícil assim —
declarou Rhodan, rompendo o silêncio de expectativa.
Reunira seus amigos na cantina da
Stardust-III, a fim de lhes participar o resultado de seus esforços. Dois dias
haviam decorrido desde a abertura da arca.
— Realmente, impunha-se um pouco de
raciocínio pentadimensional para a interpretação da fórmula; mas, daí em
diante, tudo se tornou simplesmente quadridimensional — continuou ele. — Uma
fechadura de tempo muito normal, funcionando com forças naturais. Confesso que
a tarefa teria sido complexa, ou mesmo irrealizável, sem os dons especiais de
nossos mutantes. Quem inventou os transmissores queria que o invento só se
tornasse conhecido por seres de alta capacidade intelectual; gente já
familiarizada com eles, ou gente que garantidamente não fizesse mau uso dos
preciosos aparelhos. Espero que correspondamos a estes requisitos.
— Que dúvida! — exclamou Bell, cuja
petulância provocou uma onda de gargalhadas. Porém, no íntimo, cada um dos
presentes se julgava plenamente qualificado.
— Abrir a caixa não foi problema. O
cérebro positrônico calculou a combinação da fechadura, de acordo com os dados
gravados na caixa. E só mesmo pessoas com tendência e raciocínio
pentadimensional poderiam decifrar os sinais. Portanto, está solucionado o mistério
da construção dos transmissores pentadimensionais de matéria.
— Poderemos fabricá-los? — indagou o Dr.
Haggard, ansiosamente.
— Claro! Na quantidade que quisermos —
respondeu Rhodan. — Acho, no entanto, que a ocasião ainda não é oportuna.
Futuramente, talvez, quando os numerosos planetas habitados do Universo
mantiverem contatos mútuos de caráter amistoso. Então, os transmissores poderão
tomar o lugar das espaçonaves, como meio de transporte. Bastará apertar um
botão para percorrer milhares de anos-luz. Mas isso, por favor, não achem
graça, ainda é utopia.
Apesar da observação, Bell explodiu numa
gargalhada. Ainda ofegante, protestou:
— Perry, há algum tempo, uma simples
viagem a Marte era utópica; e olhe só onde chegamos hoje! E ainda ousa falar em
utopia? Só mesmo rindo!...
Rhodan não respondeu. Abaixando-se
calmamente, apanhou sua pasta, colocada ao seu lado no chão. Devia pesar
bastante, a julgar pelo cuidado com que Rhodan a suspendeu. Abrindo-a
lentamente sobre a mesa, disse:
— Ainda tenho uma surpresa aqui, para
Crest. E talvez para Thora também.
Retirou da pasta algumas plaquetas
metálicas, delgadas como folhas de papel.
— Quando o cérebro positrônico traduziu as
instruções para a fabricação dos transmissores, rejeitou estas plaquetas.
Recusou traduzir as sete, alegando que o padrão de minhas ondas cerebrais não
correspondia ao do senhor do Universo, a quem elas se destinavam com
exclusividade. E como senhores do Universo ele se referia aos arcônidas.
Com ligeira hesitação, concluiu:
— Deve se tratar de inscrições
antiqüíssimas...
Thora lhe dirigiu um rápido olhar, que
continha evidentemente uma indagação. Mas Rhodan deu de ombros. Crest se
aproximou, recebendo as plaquetas. Examinou-as de cenho franzido, declarando
depois, impressionado:
— A escrita corresponde a um idioma que
existiu há dez mil anos. Porém o texto é codificado. De que será que se trata?
— Talvez uma pista, afinal — sugeriu
Rhodan. — Ou a certeza.
— Sobre o quê?
— Sobre o planeta da vida eterna, Crest.
O arcônida fitou Rhodan pensativamente,
antes de concordar com um aceno da cabeça de cabelos brancos.
— Logo saberemos — murmurou. — Minhas
ondas cerebrais são do padrão arcônida.
Rhodan viu Crest e Thora se afastarem.
Sabia que lhe comunicariam a verdade quando fosse oportuno. De momento, havia
outros problemas a resolver. Problemas mais imediatos.
— Manoli!
O ex-médico da primeira expedição lunar se
aproximou.
— Sim?
— Eric, providencie imediatamente uma
mensagem à Terra pelo hipertransmissor. Texto normal, não codificado, conforme
segue: “Permanência em Vega ainda
imprescindível. Instalamos base em Vega número oito. Acordo comercial com
habitantes em negociações. Retorno à Terra segredo absoluto. Todos bem.
Stardust-III.” Entendido?
— Claro — respondeu Manoli. — Quer que
seja enviada imediatamente?
— Sim, imediatamente. Agradeço o
comparecimento de todos, meus amigos. Ainda teremos ocasião de nos ver. O Thort
programou uma grande comemoração de vitória, e quer que compareçamos. E
depois...
— Os tópsidas! — interrompeu Bell,
indócil. — Que fará com eles?
— Você vive me interrompendo, Bell —
censurou Rhodan, com um olhar de reprovação. — Era justamente sobre isso que eu
ia falar. E depois das celebrações, cuidaremos dos tópsidas. Talvez possamos
chegar a um entendimento amistoso com eles. Crek-Orn parece ser um homem
sensato.
— Homem? — reclamou Bell, indignado. —
Como tem coragem de dar a uma lagartixa o título de homem?
— Você jamais aprenderá a raciocinar em
termos galácticos — reprovou Rhodan, gravemente. — Que importa a aparência
externa quando se trata de eliminar barreiras? Estou certo de que, aos olhos
dos tópsidas, você não representa absolutamente o ideal da raça, e...
— Nem da humana! — interrompeu uma voz
feminina, alta e clara. Pertencia a Anne Sloane. Bell se virou, furioso.
— É assim que me agradece, é? Enquanto
você estava com a cabeça no meu colo, completamente desamparada... — encabulado,
emendou imediatamente: — ...lá nos subterrâneos do Palácio Vermelho, quando
fomos apanhar a tal caixa. Estavam pensando o quê, gente?
Ninguém disse o que estivera pensando.
Apenas o telepata John Marshall sorriu maliciosamente. Bell, no entanto, se
aproximando de Rhodan, indagou com um sorriso cativante:
— Até que não sou tão feio assim, não é?
Rhodan perscrutou-o da cabeça aos pés, com
ar dúbio. Por fim respondeu:
— Bem, feio propriamente não, mas que você
é um tipo singular, lá isso é...
O que fez Bell abandonar a cantina com
passadas indignadas, sob as risadas dos presentes.
* * *
Com a
ajuda de seus mutantes, Perry Rhodan conseguiu expulsar os tópsidas do planeta
principal do sistema Vega.
Porém os
tópsidas são uma raça renitente por natureza. Retiram-se para a orla do
sistema, onde erigem uma fortaleza: A FORTALEZA DAS SEIS LUAS. De lá, tramam
novos planos de conquista.
A luta pela FORTALEZA DAS SEIS LUAS, e a
perseguição da pista achada no COFRE DE TEMPO formam o enredo do próximo volume
desta coleção.

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