sábado, 20 de outubro de 2012

P-012 - O Segredo do Cofre de Tempo - Clark Darlton [parte 3]


— Ótimo — aprovou Rhodan. — Qual é a reação dos tópsidas?
— Desistiram definitivamente da colaboração de auxiliares ferrônios. Não confiam mais neles. Medida que tem, naturalmente, seus inconvenientes...
— ...que saberemos compensar adequadamente — interrompeu Rhodan. — Pois deve saber que temos olhos e ouvidos em toda a parte.
— Sim, ouvi falar disso — respondeu o sicha, com um sorriso divertido. — A cidade inteira comenta as assombrações. Só que os espíritos trabalham a favor da boa causa.
— De fato, Gloctor, é isso mesmo. E, por enquanto, obrigado. Peço-lhe que continue em atividade, para que o inimigo não tenha pausas em sua inquietação. Agora gostaria de falar com Quequéler.
Quequéler era o chefe dos aguerridos sichas, que viviam na zona montanhosa de Ferrol, e sempre tinham defendido ferrenhamente a unidade do planeta. Apesar da idade avançada e da aparência de perene casmurrice, Quequéler era devotado a Rhodan; estava pronto a dar a vida para ajudar na expulsão dos invasores reptilóides.
— O inimigo começa a se inquietar — informou ele serenamente. — A ação de nossos grupos de resistência já resultou no fechamento de dois postos de vigilância dos tópsidas, situados em regiões mais afastadas. Foram imediatamente ocupados por tropas ferrônias regulares. O que representa um grande êxito. As notícias só se infiltram muito lentamente até nós, de modo que me vejo na impossibilidade de apresentar relatório mais detalhado; mas sei que os dias do inimigo em território ferrônio estão contados.
Rhodan expressou seu reconhecimento ao chefe sicha, e se voltou para Bell, que aguardava impacientemente.
— E o Exército de Mutantes, Bell?
— Está fundindo a cuca das lagartixas! — exclamou Bell, lançando em torno um olhar triunfal. — Os tópsidas atiram uns nos outros, brigam, discutem e se desentendem que é uma beleza. Amanhã chega uma comissão de inquérito de Topsid, para fazer averiguações. Já planejei um espetáculo apropriado, a fim de arrasá-los de vez. A função vai ser transmitida para Topsid, assim o Déspota pode participar dela pessoalmente. Garanto que jamais ele assistiu a um programa de televisão tão interessante.
— Que dúvida! — concordou Rhodan. — Mas não exagere, sim? Vamos repassar os detalhes daqui a pouco. Pode contar com todos os mutantes para amanhã. Sua atuação deve ser convincente, porém sem revelar de maneira alguma de onde se origina. Este ponto é muito importante. Quero despistar os tópsidas. Vou retornar a Rofus agora, e você vem comigo, Bell. Quequéler, deixe tudo preparado para a ação do dia de amanhã. E, para confundir ainda mais os tópsidas, vou lhe enviar hoje mesmo uma esquadrilha dos nossos aviões de caça. Eles passarão a operar do planeta Ferrol, mantendo ocupadas as tropas de vigilância do adversário. Ele não deve ficar com tempo para pensar.
O transmissor pentadimensional de matéria levou Rhodan e Bell de volta para Rofus. Pisar naquela cabina gradeada, e ligar a chave para acionar o misterioso mecanismo constituía sempre uma nova experiência meio perturbadora. Na realidade nada acontecia. Bastava desembarcar alguns segundos após, e milhões de quilômetros haviam sido vencidos em estado de desmaterialização. E isso através hiperespaço, uma dimensão cuja compreensão requeria raciocínio pentadimensional. Coisa que os ferrônios desconheciam, logo...
Rhodan suspirou, vendo que empacara mais uma vez no mesmo ponto daquelas cogitações. Ainda bem que o Thort se comprometera a lhe obter uma entrevista com Lossos, o mais destacado cientista ferrônio, assegurando-lhe que poderiam conversar sem testemunhas. O velho cientista fazia parte do conselho de ministros, e era tido por um dos mais brilhantes cérebros da atual geração.
— O programa do espetáculo de amanhã vai depender da entrevista com Lossos, Bell — disse Rhodan. — Receio, no entanto, que o Thort tenha estabelecido determinados limites ao que Lossos pode nos comunicar; porém a telepata Ishi Matsu vai estar presente, a fim de complementar as informações. Deve saber que a formação dela está adiantada a ponto de poder transmitir mensagens mentais até a não-telepatas. Portanto temos a possibilidade de saber, durante o decorrer da palestra, se o cientista fala a verdade ou não. Saberemos até que pensamentos ele oculta atrás de uma mentira.
— Situação besta! — resmungou Bell, enquanto se dirigiam no automóvel elétrico para o atual palácio do Thort. — A gente quebrando a cara para ajudar esse pessoal, e eles cheios de desconfiança...
— Ora, tente compreender, Bell! — disse Rhodan, defendendo o ponto de vista dos ferrônios. — O que procuro saber se relaciona a um fato histórico antiqüíssimo, relembrado apenas na tradição desta raça. Estou certo de que nem eles próprios conhecem maiores detalhes a respeito, mas sei que tem algo a ver com os transmissores pentadimensionais de matéria. E este acontecimento, ocorrido há muitos milhares de anos, deve ter se revestido de aspectos tanto agradáveis, como penosos. O Thort vai tentar evitar, de todos os modos possíveis, que eu tome conhecimento dele na íntegra; se é que alguém o conhece integralmente.
— Acha que os ferrônios ganharam os transmissores de presente?
— Isso mesmo — concordou Rhodan. — E me interessa muito saber quem foram os doadores.
O carro parou, e os dois homens desceram. Ishi Matsu, a graciosa japonesa, já estava à espera, conforme combinado. Dez minutos mais tarde, se encontravam na presença de Lossos.
Com ar circunspecto, o idoso cientista balançou a cabeça.
— O Thort, nosso grande soberano, pôs-me a par do que querem saber. Confesso que se trata de assunto bastante delicado, porém a luta em comum contra os tópsidas nos tornou amigos; e entre amigos não cabem segredos. Recebi permissão para lhes contar tudo que sei sobre a origem dos transmissores.
— Obrigado! — disse Rhodan, se concentrando para ler em seu íntimo.
Ishi lhe comunicava: “Ele está falando a pura verdade.”
— Reconheço que o Thort nos dá com isso uma prova de ilimitada confiança — continuou Rhodan. — A execução técnica dos transmissores revela a inacreditável genialidade de seus construtores; eu gostaria de saber por que os ferrônios já não constroem tais aparelhos hoje em dia. O Thort me deu alguns planos na véspera de minha última viagem ao Sol. Mas sua única utilidade foi a de indicar a existência de determinado segredo.
— Os ferrônios nunca foram capazes de construir transmissores desse tipo — declarou Lossos; observação que não surpreendeu Rhodan nem um pouco. — Foram feitos por uma raça estranha, à qual prestamos outrora valiosa ajuda; nos presentearam com uma série dos misteriosos aparelhos, nos cedendo igualmente os planos de fabricação. Mas só poderíamos fabricar os transmissores quando alcançássemos a imprescindível maturidade tecnológica e ética. Por isso, os planos autênticos foram depositados numa urna, no Palácio Vermelho de Ferrol; fechaduras e campos de proteção pentadimensionais impedem o acesso de quem quer que seja a esta urna. A não ser que uma pessoa capaz de pensar na quinta dimensão descubra a chave. Portanto, a raça que nos ofertou o valioso presente se mostrou previdente. Jamais o poder representado pela posse dos transmissores poderá ser mal empregado, pois só quem possuir maturidade para isso poderá fabricá-los.
Ele continua falando a verdade”, comunicou Ishi mudamente.
— Quem eram esses desconhecidos? — perguntou Rhodan, sem hesitar. Pois também quanto a este particular tinha suas suposições, e queria confirmá-las.
Lossos sorriu suavemente, e seu olhar se perdeu na distância. Parecia querer retornar aos milênios passados, para conjurar mais uma vez fatos do passado longínquo.
— Ainda desconhecíamos viagens espaciais naquela época, e nossa História recém-começava. No entanto, sabíamos que não estávamos sós no Universo. Pois tínhamos recebido visitantes do espaço. Primeiro uma enorme esfera desceu entre nós, mas nem a tradição oral guardou minúcias do acontecimento, que não teve conseqüência alguma. Os desconhecidos tornaram a partir, e nunca mais retornaram. Isso deve ter sido há uns dez ou doze mil anos. Suponho que alguns de nossos deuses foram moldados à semelhança daqueles visitantes do espaço.
— Como entre nós — murmurou Bell, sem que ninguém lhe desse atenção.
— Houve uma segunda visita — continuou o sábio ferrônio. — Diferente, sob diversos aspectos, da primeira. O principal é que não foi deliberada; eles se viram obrigados a fazer uma aterrissagem de emergência em Ferrol. Do que resultou um contato talvez nem planejado. A nave dos desconhecidos, um gigantesco cilindro, se espatifou contra as montanhas dos sichas, se incendiando logo após o desembarque dos viajantes. Quase todos se salvaram. Nossos antepassados, tomando-os pelos mesmos deuses anteriormente aparecidos, receberam-nos com a maior cordialidade. De bom grado lhes forneceram, depois, as matérias-primas solicitadas para a construção de misteriosos aparelhos, que possibilitariam, aos estranhos, o regresso à pátria. Adivinhou, tratava-se de transmissores pentadimensionais de matéria. E nem tinham outro recurso, já que todos os aparelhos de bordo, e seus meios de comunicação haviam sido destruídos na catástrofe. E um belo dia, os desconhecidos desapareceram.
— Deixando para trás os transmissores?
— Exatamente. No entanto, antes de partir, o chefe da expedição malograda dera ao Thort de então todas as explicações necessárias ao seu funcionamento. Os desconhecidos provinham de nosso sistema, de um planeta de Vega cuja órbita fica logo depois da de Rofus. Do décimo planeta, portanto, conforme sempre supusemos. Estavam se iniciando na espaçonáutica, e aquela era sua primeira expedição de longo alcance. Apesar de pouco versados em questões tecnológicas, nossos antepassados adivinharam que aquela visita talvez fosse significativa no futuro. Em vista disso, prepararam registros que conservamos até hoje. É deles que retiramos nosso conhecimento dos fatos.
Rhodan relembrou fugazmente a afirmativa anterior do Thort, dizendo que já não havia quem recordasse com exatidão os acontecimentos daquela época remota. Devia ter mudado de opinião, portanto. Ishi comunicou que Lossos continuava sendo sincero.
— O chefe da expedição doou os misteriosos aparelhos ao Thort, lhe entregando igualmente os planos detalhados de fabricação; mas estes ficaram guardados no Palácio Vermelho, defendidos pelas medidas de segurança já mencionadas. Depois desapareceu também. Só nos restaram as recordações e os transmissores.
Lossos se calou. Rhodan aguardou, porém o cientista concluíra sua exposição.
— O que é que se sabe ainda, atualmente, acerca dos desconhecidos supostamente originários do décimo planeta? — perguntou Rhodan. — Segundo me consta, os ferrônios poderiam visitá-lo quando bem lhes aprouvesse; no entanto, nunca ouvi vocês dizerem que aquele mundo era habitado.
— É desabitado. E, se nossos pesquisadores não estiverem enganados, jamais houve vida nele. Neste particular, os estranhos mentiram.
Detalhe surpreendente aquele. Rhodan não escondeu seu desapontamento.
— Quer dizer que não é certo serem naturais deste sistema? Que pena! Pois eu gostaria de conhecer pessoalmente os inventores daqueles fabulosos aparelhos. Verdadeiramente lamentável... Não há pista alguma que possa apontar sua verdadeira origem? Que aparência tinham eles?
— Os registros são omissos neste ponto. Talvez se parecessem conosco, ou com vocês arcônidas. Quanto a pistas... — Lossos hesitou.
Está considerando consigo mesmo se pode ou não falar a respeito”, sinalizou a japonesa. Rhodan e Bell aguardaram em silêncio.
— ...talvez exista uma, mas não sei se vai esclarecer grande coisa — continuou Lossos. — Nos longos anos de sua involuntária estadia em Ferrol, nenhum dos estranhos morreu. Nem um só, apesar de haver entre eles alguns de aparência bastante idosa. Em resposta às perguntas feitas por nossos antepassados, afirmaram poder viver mais do que o sol.
— Um indício bem valioso — observou Rhodan, gravemente. — Pelo menos nos permite deduzir que alcançavam idade muito avançada. Só não compreendo por que jamais tornaram a visitar este mundo; seria de esperar que no decurso de tantos milênios eles tivessem retornado uma vez ou outra.
— Sou da mesma opinião, Rhodan — disse Lossos. — Fiz-me esta pergunta por um número incontável de vezes, sem chegar a conclusões lógicas. Acabei admitindo duas hipóteses: ou os estranhos habitavam outro sistema, jamais regressando ao de Vega; ou se tornaram vítimas de um cataclisma cósmico. Na verdade, os registros indicam vagamente essa possibilidade. Pois o chefe da expedição disse certa vez ao nosso Thort: “Vivemos mais do que o sol, mas justamente ele procura impedi-lo.” Não sei que conclusões tirar disso.
Bell ia falar, porém percebeu a tempo um olhar de advertência de Rhodan, e permaneceu calado.
Também Lossos acredita que eles emigraram”, comunicou Ishi revelando sua continuada atenção.
Mas neste caso existiriam restos da civilização abandonada no décimo planeta”, replicou-lhe Rhodan, mentalmente.
Uma história bem estranha. Tinha existido no décimo planeta uma cultura avançada, sem que restasse dela o menor vestígio. Totalmente impossível! Mesmo núcleos populacionais reduzidos deixam traços de sua passagem, perceptíveis até depois de quinhentos séculos. Logo, o povo quase imortal que explorava o cosmo e pensava na quinta dimensão não poderia ter sumido sem deixar sinal. Que destino teria tomado?
Rhodan se ergueu abrutamente.
— Grato pelos esclarecimentos, Lossos. Foram de grande valor. Deve estar tão interessado quanto eu em obter respostas para todas estas incógnitas. Por conseguinte, convido-o a me acompanhar numa expedição ao décimo planeta; tenciono partir muito em breve, assim que tivermos expulsado definitivamente os tópsidas do sistema Vega. Talvez juntos encontremos alguma pista.
— Seu convite constitue uma honra — disse o sábio, tomando a mão estendida de Rhodan. — Representa a satisfação de um desejo longamente acalentado — apertou igualmente as mãos de Bell e de Ishi. — Segundo depreendi das informações coletadas por nossos pesquisadores, não toparemos com dificuldades, principalmente porque suas naves são bem mais velozes do que as nossas. Creio que a lacuna existente entre Rofus e o décimo planeta não vai nos atrapalhar em nada.
Por um breve instante, Rhodan permaneceu rígido. Mas logo voltou a sorrir obsequiosamente.
— Claro que não! — afirmou, empurrando Bell para a porta. — Não vai atrapalhar nem um pouco!

IV



Enquanto os tópsidas ultimavam os preparativos para a aterrissagem da nave-correio, Rhodan empreendeu a primeira tentativa concreta de furtar os planos de construção dos transmissores. Levava consigo Tako Kakuta e Ras Tshubai, os dois teleportadores. O transmissor individual secreto lhes permitiu penetrar no Palácio Vermelho. Wuriu Sengu tinha preparado um roteiro exato da localização da casa-forte, de maneira a poupar a Rhodan o trabalho de procurá-la. E Sengu não deixou de anotar o ponto onde existia um obstáculo impenetrável até para seu olhar de vidente. Pela primeira vez na vida deparava com matéria que resistia às suas capacidades paranormais.
Tiveram que agir com cautela, pois o movimento no palácio era intenso. Os dois telepatas sondavam previamente o terreno, mediante saltos rapidíssimos, a fim de que Rhodan pudesse prosseguir sem correr perigo. Durante a maior parte do percurso, usaram as passagens secretas entre as grossas paredes; mas às vezes precisavam atravessar corredores e amplos salões, o que representava um possível encontro com o inimigo.
Chegaram finalmente às dependências mais afastadas e tranqüilas do imenso prédio, já no subsolo.
Retornando de um salto, Tako informou:
— Diante de nós fica um corredor, que forma um ângulo, dando depois para um salão. Caso os dados de Sengu estejam corretos, encontraremos neste recinto o que procuramos. Mas temo que terá uma surpresa inesperada, Rhodan.
Rhodan seguiu o japonês sem fazer comentário algum, enquanto o africano formava a retaguarda.
O corredor desembocava diretamente num recinto de vastas proporções, sem porta divisória. Devia medir cerca de cinqüenta metros de comprimento, por cinco metros de altura. Os três intrusos acenderam suas lanternas de mão. Os focos varriam as trevas, encontrando apenas paredes lisas e nuas. Rhodan não tardou a constatar que a sala subterrânea estava inteiramente vazia. Ligeiramente decepcionado, tirou do bolso o roteiro fornecido por Sengu. Os dois telepatas se aproximaram para examiná-lo igualmente.
— Confere, o salão é este mesmo. E o cofre ou arca que guarda os planos deve se encontrar bem no meio dele. No entanto, não vejo nada. Talvez Sengu tenha calculado mal a profundidade, e exista um segundo salão abaixo deste.
— Vou verificar — ofereceu Ras, desaparecendo instantaneamente. Mas logo retornou, com ar intrigado, dizendo: — Estamos sobre rocha sólida. Não existe qualquer vão oco debaixo de nós. Lá em cima não tem cofre nenhum. Logo, ele tem que estar aqui, por trás do tal obstáculo invisível que os olhos de Sengu não conseguiram penetrar. Como ele viu a coisa, ela não pode ter sumido sem mais nem menos. Seria paradoxal.
— Muitas vezes o paradoxal é que é o verdadeiro, quando se raciocina na quinta dimensão — observou Rhodan, fitando pensativamente a parede oposta.
— Que quer dizer com isso?
— Com seus dons paranormais, Wuriu é capaz de enxergar através de qualquer espécie de matéria; basta ajustar os olhos para a respectiva estrutura atômica. Só não pôde ajustá-los à estrutura pentadimensional desta cúpula ou abóbada que recobre a arca com os planos; ela é impenetrável, apesar de Sengu poder vê-la externamente. Existe de fato, e está nesta sala. Para nós, não-videntes, ela é invisível; e seria igualmente invisível para Sengu caso ele olhasse para ela de maneira normal.
— Não entendi uma só palavra de tudo isso! — exclamou Ras Tshubai.
— Até eu só entendo mais ou menos — confessou Rhodan, sorrindo. — Vamos verificar onde começa o invólucro protetor.
Mal deram alguns passos, chocaram-se contra uma barreira invisível. Rhodan, com os braços estendidos para a frente, não se mostrou surpreso. Limitou-se a um breve aceno, como se esperasse por aquilo.
— Conforme eu supunha. Uma imagem reflexa materializada. Uma visão sólida. Fabuloso... mas inexplicável.
Meio intimidado, Tako passou a mão sobre a superfície lisa do obstáculo invisível: a barreira imaterial.
— Mas não se vê nada! Parece ar...
— E, no entanto, impede a passagem do olhar de Sengu. E do nosso também. Basicamente, trata-se de uma ilusão de ótica.
Seja qual for o ângulo de visão, o reflexo se altera constantemente, de maneira a dar sempre a impressão de que o observador está olhando do lado oposto. Ras, vá até o outro lado do salão, e me diga se pode nos ver. Vá contornando a abóbada.
Seguindo, às apalpadelas, a parede invisível, o africano postou-se num ponto diametralmente oposto ao de Rhodan e Tako. O corpo invisível ficava entre eles. Viam-se livremente.
— E no entanto, essa coisa resistiu ao olhar de Sengu — disse Rhodan. — Técnica incrível... E, uma vez que o olhar de Sengu não pode atravessá-la, você também não pode, Tako, nem mesmo em estado de desmaterialização. Experimente...
Tako não esperou segunda ordem; seu lugar ficou vazio de repente. Rhodan ainda ia acrescentar uma recomendação adicional, porém o japonês fora rápido demais. No profundo silêncio do imenso recinto, seu grito de dor ecoou tão alto que os dois outros homens estremeceram involuntariamente. Depois presenciaram uma cena bizarra.
Tako materializou-se em pleno ar, escorregando depois ao longo da parede invisível; agitando freneticamente braços e pernas, procurava apoio no vazio. A expressão do rosto denotava ilimitada surpresa e incompreensão. Atordoado, e tremendo da cabeça aos pés, deslizou para o chão.
— Que... que foi isso? — gaguejou.
— A barreira — explicou Rhodan. — Você se projetou contra ela, e escorregou para baixo, só isso. Portanto, para você também ela é impenetrável. Vou consultar o cérebro eletrônico; o problema é complexo demais para mim.
Ras voltou cautelosamente para junto deles.
— Que coisa assombrosa! — observou, impressionado. — É algum anteparo energético?
— Qualquer anteparo energético permitiria a passagem desimpedida de teleportadores, Ras; porém um campo pentadimensional, nunca. Simplesmente porque ele não se encontra aqui, porém em outro lugar. Não consigo lhe explicar direito, porque me faltam as palavras adequadas. Pode ser que eu me encontre no limiar da compreensão, mas apenas no limiar. Pressinto as conexões, o que é escassamente suficiente para fornecer dados ao cérebro eletrônico da Stardust-III. Talvez ele possa me dar uma resposta. Vamos embora! Por enquanto estamos perdendo tempo aqui.
Em silêncio, os três homens empreenderam o caminho de volta, deixando atrás de si um recinto vazio, que abrigava o maior segredo do Universo.

* * *
Poderia se dizer que raiara o mais belo dia da vida de Reginald Bell. Ainda de madrugada, convocou os mutantes em torno de si, mostrando-se alegre e bem disposto. E nem reclamou quando Anne Sloane, aborrecida com suas piadas sem graça, o fez flutuar para cima do telhado de uma casa sicha. Com o maior desplante, continuou a contar como tinha arrancado certo dia os botões das calças do suboficial que o comandava, tornando a costurá-los nos lugares mais absurdos. Descreveu com minúcias os locais escolhidos, o que levou Anne a retirá-lo do telhado, suspendendo-o no ar.
— Pare com isso, ou vai ver uma coisa! — ameaçou a moça.
Bell agitava os membros como se estivesse nadando.
— Pois foi exatamente o que o suboficial me disse! — berrou lá do alto. — Só que você pretende me dar um tombo, enquanto ele pretendia me reprovar no curso de formação de oficiais. E, no entanto, nem ele próprio...
— Reginald Bell! — reclamou John Marshall, o telepata. — Decididamente, seus pensamentos são altamente impróprios! Pelo menos, para ouvidos de moças... Anne tem toda a razão em deixá-lo de castigo aí em cima.
— Que bem me importa! — afirmou Bell, se bem que sua voz se mostrasse um tanto insegura. — Esses poucos metros...
— ...bastariam para lhe quebrar todos os ossos do corpo, em vista da gravidade mais intensa deste planeta — avisou Anne. — Comporte-se que o faço baixar sem perigo.
— Desço sozinho! — gritou Bell, tentando se agarrar à beirada do telhado. Mas estava longe demais. — Tama Yokida, tire-me daqui! Nós homens precisamos nos amparar mutuamente.
O japonês de porte médio, um telecineta como Anne, encarregou-se do aflito Bell, fazendo-o flutuar para mais perto da casa. Conseguindo alcançar o telhado, Bell engatinhou pelas toscas telhas de madeira.
— Tragam uma escada! — declamou solenemente, acrescentando: — Temos que provar às mulheres que somos seres independentes!
A escada se aproximou flutuando, como que conduzida por mãos imateriais, e foi colocada na posição apropriada contra a casa. Sem comentar o fato, Bell voltou a pisar solo firme, e postou-se marcialmente diante de Anne, dizendo:
— Vejo-me forçado a censurá-la, minha cara, por desperdiçar seus valiosos dons.
— É verdade — concordou Anne. — Com objetos sem valor.
Todos riram, apesar de ninguém, com exceção dos telepatas, saber ao certo se ela se referia a Bell ou à escada.
O transmissor do grupo de resistência veio interromper o divertido incidente. A nave-correio tópsida se aproximava de Ferrol. Era hora de entrar em ação.
Bell recuperou instantaneamente a seriedade. Incisivamente deu suas ordens:
— Wuriu Sengu vai primeiro; depois Anne Sloane, como telecineta, e André Noir como hipno. Quanto aos demais, conservem-se de prontidão, para seguirem assim que eu os convocar. Tudo claro?
Sem aguardar resposta, Bell entrou na pequena cabina gradeada, desaparecendo em poucos segundos. Os mutantes o imitaram, na ordem indicada.

* * *

Mais de duzentos dos bojudos cruzadores se alinhavam ordenadamente no imenso espaçoporto de Thorta, com as respectivas tripulações formadas diante deles. Tequer-On,. nomeado comandante da frota, retornava ao Palácio Vermelho depois da inspeção final. Rok-Gor já estava à sua espera.
— Tudo pronto para a recepção ao comissário — informou Tequer-On. — Para quando é a aterragem?
— A qualquer momento. A nave já se comunicou com o serviço de proteção ao vôo. Tem ocorrido novos... — com uma ligeira hesitação, Rok-Gor concluiu: — incidentes?
— Não. A situação está absolutamente normal. Acho que os ferrônios desistiram.
— Os arcônidas! — replicou Rok-Gor, irritado. — Se tudo correr a contento, poderemos destruir este nono planeta depois da partida da comissão. Esses imperialistas emproados merecem uma boa lição. Onde está Crek-Orn?
— Aguarda no espaçoporto.
— Muito bem. Vamos para lá.
Tudo fora preparado de acordo com o cerimonial tópsida. Diante da tropa formada se erguia uma tribuna, aparelhada com instalações para transmissão de imagem e som. Rok-Gor fazia questão de que o Déspota de Topsid, a mais de oitocentos anos-luz dali, testemunhasse o acerto das providências tomadas pelo novo chefe supremo das forças expedicionárias, em boa hora nomeado pelo Déspota. Depois disso, a ambicionada promoção a almirante do espaço seria questão apenas de tempo. E pouco se lhe dava saber que a medida implicaria na morte ou no exílio do infeliz Crek-Orn.
Portanto, era compreensível que este aguardasse a chegada do comissário com sentimentos contraditórios. Imiscuindo-se por instantes nos pensamentos de Crek-Orn, André Noir se sentiu um tanto compadecido, e decidiu que o ambicioso Rok-Gor ia pagar caro por isso.
O carro parou. O comandante-em-chefe desembarcou, seguido por Tequer-On. Aproveitou o período de espera para vistoriar as tropas. O ambiente era festivo, fazendo pensar em feriados e comemorações; não fossem as naves-patrulhas percorrendo infatigavelmente o espaço em velocidade igual à da luz, a fim de se precaver contra surpresas desagradáveis, ninguém diria que se estava no meio de uma guerra. E os tópsidas acreditavam firmemente que suas patrulhas espaciais os protegiam de todo o ataque inesperado...
No compartimento secreto, junto ao transmissor, Bell acompanhava os acontecimentos através dos comentários de Sengu. O vidente via tudo como se estivesse fisicamente presente à parada dos reptilóides.
— Ele terminou o solene desfile diante das tropas; sujeito posudo, esse novo comandante... E nem sequer ganhou o cargo por mérito seu. Se nós não tivéssemos pendurado Crek-Orn no lustre... a nave-correio está chegando. Um trambolho sem tamanho, do ponto de vista tópsida. Um canudo barrigudo, como as demais naves deles. Aterrissa agora. As tropas apresentam os fuzis energéticos. Abre-se a porta de desembarque. Uma lagartixa surge na abertura. Minha nossa, nunca na vida vi uniforme tão embandeirado! André, é sua vez. Não posso ouvir o que dizem. Você é que é o ledor de pensamentos.
André Noir tomou a palavra:
— Rok-Gor mandou os homens prestarem continência, e se aproxima do comissário. Este passou da nave diretamente para a tribuna, onde caberiam folgadamente dois batalhões. Tem uma comitiva de uns vinte reptilóides, que ficam sempre a respeitosa distância, para acentuar a importância do comissário. Dentro da nave, os aparelhos transmissores já estão funcionando. A mais de oitocentos anos-luz de distância, o Déspota testemunha visualmente os acontecimentos galácticos.
O comissário deteve-se, aguardando a aproximação de Rok-Gor. Este, perfilando-se meio a contragosto, saudou e informou:
— Em nome de minha tropa, dou as boas-vindas ao comissário do Déspota, em sua chegada ao mundo conquistado número oito de Vega, denominado Ferrol. A situação está sob controle, nossas forças são superiores, e a destruição final do inimigo é iminente.
O comissário indagou, de cenho franzido:
— E os erros imperdoáveis que têm sido cometidos? Será que Crek-Orn nada tem a declarar em sua defesa?
O ex-comandante se mantinha discretamente afastado. Ouvindo seu nome, adiantou-se com ar contrito. Nos negros olhos de réptil refletia-se tristeza e um pouco de medo.
— Não lutamos apenas contra os ferrônios — disse ele — mas também contra os odiados arcônidas. Eles se instalaram também neste sistema, conforme era de supor após aqueles pedidos de socorro que captamos. Suas armas de combate superiores...
— Superiores?! — exclamou o comissário, com ar interrogativo. — Rok-Gor, a luta não estava praticamente decidida?
Neste momento, André Noir tomou conta do desamparado Crek-Orn.
— Mas ela nem chegou a começar direito! — reclamou o almirante, em tom enérgico. — Rok-Gor esconde do eminente comissário as dificuldades que também ele não conseguiu superar. Tópsidas são encantados, objetos inertes flutuam no ar, cruzadores perdem o controle e alvejam os companheiros, a mente de nossos oficiais é perturbada, e...
— Mentira! — berrou Rok-Gor, fora de si. — Isso tudo é pura mentira! Crek-Orn quer é disfarçar sua total incapacidade. Lidamos com adversários inteiramente normais.
— Estou pronto a conceder que nosso adversário é normal — interrompeu Crek-Orn, valentemente. — Mas é indiscutivelmente superior. Recomendo o abandono imediato deste sistema!
O comissário acompanhava com extremo interesse a altercação entre os dois oficiais. Empertigando-se, falou em tom severo:
— Que significam essas contradições? Que foi que se passou aqui realmente?
— Muita coisa! — gritou Crek-Orn, sem esperar que ele acabasse de falar. — Oficiais se amotinaram...
— E foram devidamente punidos — interrompeu Rok-Gor. — Fatos como estes ocorrem periodicamente, e não constituem motivo suficiente para cancelar uma investida vitoriosa.
— Os ferrônios contam com o apoio dos arcônidas, comissário! E possuem uma nova espécie de arma, com a qual influenciam a mente de outros seres. Com ela, podem até assumir o controle de nossas espaçonaves.
Da nave-correio vinha uma voz ampliada pelo alto-falante:
— Aqui fala o Déspota! Quero esclarecimentos imediatos acerca das ocorrências em Ferrol! O adversário precisa ser derrotado, seja ele quem for! E caso Rok-Gor se mostre igualmente incapaz desta tarefa, serei obrigado a nomear um novo comandante. Onde está Tequer-On?
— Abaixo o Désposta! — berrou o comandante da frota bélica, entusiasticamente. — Abaixo o comissário!
— Que foi que ele disse? — indagou o comissário, inclinando a cabeça para o lado, como quem não escuta bem.
Tequer-On se adiantou, declarando:
— Abaixo o regime de opressão do Déspota, foi isso que eu disse. Os ferrônios nunca nos fizeram mal, e não temos nada a fazer em seu sistema. Abaixo o comissário! Não precisamos de espiões sujos por aqui!
O corpulento reptilóide de pé sobre a tribuna arquejou, com falta de ar. A garra esquerda fez um sinal aos soldados de sua comitiva. Pistolas de raios rebrilharam ao sol ao serem sacadas dos coldres.
— Motim, Déspota! — informou ele. — Revolta declarada dos oficiais. Suas ordens?
— Morte aos revoltosos! — ordenou o Déspota.
Rok-Gor levou de repente a mão à cintura, puxando sua pistola. Sem uma só palavra, apontou para o comissário e apertou o disparador. O alto dignitário caiu morto. Seus acompanhantes, momentaneamente imobilizados pelo terror, levaram alguns segundos para retribuir o fogo e abater Rok-Gor. Depois se refugiaram apressadamente na nave, sem serem molestados por mais ninguém. A passarela foi recolhida. Mais uma vez a voz amplificada do Déspota se fez ouvir:
— Crek-Orn, apresente-se com sua frota em Topsid assim que levar a bom término esta guerra. Se me vier com a notícia da derrota, sua sentença de morte estará assinada. E nem pense em não regressar; nós encontraremos tanto você quanto seus oficiais.
A voz emudeceu. Estremecendo, a enorme nave se ergueu do chão. A seguir levantou vôo em velocidade alucinante. Não tardou a desaparecer no céu sem nuvens de Ferrol. Segundos mais tarde, o derradeiro eco do ruído dos propulsores se perdia no ar, restabelecendo o silêncio anterior.
Apenas Crek-Orn não se acalmava. Com toda a força dos pulmões, bradava repetidamente:
— Viva o Déspota! Viva nosso glorioso Déspota! Três vivas para o Déspota de Topsid!
O cruzador número trinta e sete alçou-se de repente da pista com a maior suavidade, ergueu vôo verticalmente, descreveu um 8 perfeito no ar, e despejou uma salva de neutrônios sobre o local da parada. Os reptilóides se jogaram no chão, procurando cobertura. Tequer-On berrava ordens desconexas, mandando um dos oficiais perseguir o cruzador com um caça, e deter seus tripulantes. Para espanto seu, foi informado de que o cruzador decolara sem tripulação.
Instantaneamente Tequer-On compreendeu que a frota inteira poderia, a qualquer momento, imitar o exemplo do cruzador número trinta e sete.
Os ferrônios e os arcônidas eram invencíveis.
— Para os cruzadores! — bradou, apavorado. — Todo mundo a bordo! Partimos de Ferrol agora mesmo! Aguardar novas instruções!
No compartimento secreto do Palácio Vermelho, André Noir acenou apreciativamente para Bell:
— Esta decisão é dele mesmo; deu a ordem sem a menor influência alheia. Acho que as lagartixas acabaram criando juízo. E, conforme Sengu vê, nem Crek-Orn se opõe à tese da retirada imediata. Pelo contrário, apóia integralmente a idéia. Creio que estamos livres dos tópsidas. Anne, que tal uma demonstração de encerramento?
A moça segurou o braço de Sengu.
— Deixe-me ver como estão as coisas — disse ela, com um aceno afirmativo.
Bell saltitava de impaciência, louco por participar diretamente dos acontecimentos. Nem poderia vê-los, metido naquele esconderijo. Mas o palácio não fora desocupado pelo inimigo? Bem que poderia ir apreciar o espetáculo no alto do telhado...
— Aguarde dois minutos antes de dar início ao show aéreo das lagartixas — pediu a Anne, e disparou para fora do compartimento. Os mutantes ouviram seus passos apressados ecoar pelo corredor.
— Cara imprudente! — resmungou Anne, voltando às suas sindicâncias telepáticas. — Que se passa, Sengu?
— Retirada ordenada — respondeu o japonês. — Abandonam a maior parte do equipamento em Thorta. Talvez pretendam vir recuperá-lo mais tarde.
— Já vou lhes tirar a vontade de pensar nisso! — anunciou Anne, controlando no relógio os dois minutos de prazo pedidos por Bell. Só depois de Sengu avisar que ele atingira o telhado do palácio, de onde observava o espaçoporto, tremendo de antecipação, Anne se concentrou como jamais se concentrara em toda a sua vida.

* * *

— Eu diria que os tópsidas jamais retornarão a Ferrol a fim de buscar o equipamento abandonado — disse Perry Rhodan ao Thort. — Bell e o Exército de Mutantes lhes deram uma lição de mestre, pregando-lhes um susto que nunca esquecerão. Eu não me surpreenderia se eles se retirassem definitivamente do sistema Vega.
Thora, que participava da reunião com Crest, sacudiu a cabeça:
— O cérebro eletrônico afirma, com 99% de certeza, que eles não farão isso. Em Topsid os espera um fim inglório. Crek-Orn e Tequer-On prefeririam procurar algum planeta desabitado onde se estabelecer, do que enfrentar a ira do Déspota. E a conclusão do computador confere com a experiência que obtivemos no convívio com os tópsidas. Convém ficar de olho neles.
Bell, que tinha acabado de chegar de Thorta, deu de ombros.
— Esses estão curados. Nossa colega Anne organizou um verdadeiro baile com as naves da frota tópsida. Nem queiram saber como foi bonito ver a nave-capitânia rodopiar numa valsa com um cruzador de patrulha!
— É melhor lidar com espectros do que enfrentar a morte — comentou Thora, indulgentemente. — Principalmente quando se trata de espectros brincalhões.
— Será que fui clemente demais? — indagou Bell, zangado.
— Apesar disso, você conseguiu terminar uma guerra interplanetária, ou melhor, interestelar, com um mínimo de baixas. Uma nave foi perdida, e o comissário e Rok-Gor morreram. Não se poderia desejar maior clemência.
— Foi por ordem minha — interrompeu Rhodan, defendendo o amigo. — No presente caso, os efeitos resultantes serão mais duradouros. Deringhouse se encontra no espaço com sua esquadrilha, observando os movimentos dos tópsidas em fuga. Aguardo notícias dele a qualquer momento. Segundo seu último comunicado, os reptilóides com suas trezentas e setenta naves já ultrapassaram a órbita do trigésimo oitavo planeta.
— Em vista disso, parece que tencionam realmente fugir — comentou Thora, surpresa. — Será que o cérebro eletrônico cometeu um engano?
Rhodan não respondeu. Para ele, era bastante improvável que o computador tivesse errado. Que estariam planejando os tópsidas, agora que não tinham mais chance alguma naquele sistema?

* * *

Vega, a estrela de luz azulada, contava com quarenta e dois planetas em seu sistema. Os mais afastados eram mundos gelados e mortos, tão distantes do sol que este não tinha condições para lhes fornecer calor. Mesmo seus raios mal alcançavam os solitários vagantes do espaço.
O quadragésimo planeta pertencia ao grupo dos filhos pródigos do sistema Vega. De proporções gigantescas, constituía quase um sistema planetário próprio com suas seis luas, das quais a menor se igualava, em tamanho, a Plutão. As luas não apresentavam fases, permanecendo perenemente nas sombras. Qualquer delas poderia ser tomada por um planeta de porte pequeno ou médio, pois possuíam características idênticas à do mundo cujo campo gravitacional as mantinha subjugadas. Uma das luas ainda contava com satélite próprio, do tamanho de um continente.
A frota tópsida em retirada, sempre acompanhada à distância visual pelos caças espaciais de Deringhouse, cruzou a órbita do trigésimo nono planeta; descrevendo uma parábola, entraram na do quadragésimo.
A manobra surpreendeu Deringhouse. Estava certo de que os reptilóides afundariam no hiperespaço assim que saíssem do âmbito do sistema Vega. E agora aquilo!
Porém ainda lhe estava reservada surpresa maior. As naves adversárias dividiram-se em seis grupos mais ou menos iguais em número, tomando direções diversas. Deringhouse teve presença de espírito suficiente para destacar imediatamente pequenas patrulhas perseguidoras para cada grupo. Como estava em contato audiovisual com os respectivos comandantes, não tardou a ter uma visão global do que ocorria.
Os tópsidas nem pensavam em desistir dos planos concernentes a Vega. A volta à pátria lhes estava vedada, caso não regressassem vitoriosos. Necessitavam, pois, de uma opção mais imediata: recuar até a orla do sistema, de onde poderiam tentar recuperar o terreno perdido. E as seis luas do quadragésimo planeta lhes pareceram local apropriado para estabelecer uma base provisória.
Deringhouse deixou seis caças patrulhando as cercanias do quadragésimo planeta, com ordem de informar imediatamente qualquer movimento do inimigo. Voltou com o resto da esquadrilha para Rofus, a fim de apresentar relatório pessoal a Rhodan.
Decepcionado, constatou que as novidades trazidas não haviam desencadeado a esperada reação de surpresa. Rhodan apenas acenou com a cabeça, e mandou estabelecer um serviço de vigília, numa ampla órbita em torno do quadragésimo planeta; desta forma, os tópsidas não teriam a menor possibilidade de lançar um ataque inesperado. Depois acrescentou:
— Ainda preciso solucionar alguns assuntos importantes. Encarregue-se do serviço de vigilância, Deringhouse, e dê o alerta assim que perceber movimentação por parte dos reptilóides. Obrigado, é só.
Esperou que o oficial deixasse a sala, e voltou-se para Bell, acomodado em silêncio numa poltrona.
— Vá chamar o Thort, Crest e Thora. Preciso falar com eles.
— Posso assistir? — indagou Bell.
— Faço questão disso — confirmou Rhodan. — Quero a presença de John Marshall também. Preciso ter a certeza de não ser tapeado pelo Thort. E agora, mexa-se! Tenho pressa.
— Vou voando! — exagerou Bell, levantando-se com um bocejo. Com marcada displicência deixou a sala.
Os tópsidas constituem problema secundário, que acaba se resolvendo sozinho”, refletia Rhodan. “Os ferrônios é que representam o verdadeiro problema. E, como soberano deles, o Thort personifica as dificuldades. Prestamos-lhes ajuda, logo eles deveriam se mostrar reconhecidos. No entanto, não demonstram a menor intenção de agradecer. Logo, vejo-me obrigado a forçá-los a uma demonstração de gratidão. O segredo dos transmissores...”
Crest e Thora chegaram primeiro.
Apertando a mão de Rhodan, o sábio arcônida tomou lugar ao lado dele. Thora, que naquele dia parecia mais acessível, até sorria; e conservou a mão de Rhodan entre as suas por um espaço de tempo mais longo do que o habitual. Nos olhos dela brilhava algo que tornou Rhodan pensativo, porém não eram pensamentos negativos que ocupavam sua mente. Sabia que hoje podia contar com o apoio dela, o que, Deus sabe, era bastante raro.
— Ótimo terem se antecipado — disse Rhodan, a título de introdução. — Gostaria de lhes apresentar resumidamente o plano de ação que tenho em mente. Os transmissores me interessam tanto quanto a vocês. Portanto, temos que nos apoderar, a qualquer preço, dos planos de construção deles. O Thort não os cederia voluntariamente, mesmo que pudesse. Acho, porém, que ele poderá nos fornecer uma pista. Lossos me revelou a existência de uma espécie de fórmula, conhecida pelo Thort; é segredo tradicionalmente passado de Thort a Thort, há muitas gerações. Só que os ferrônios não sabem o que fazer com ela. Penso que essa fórmula é a palavra-chave que abre as fechaduras pentadimensionais da arca onde estão trancados os planos.
— E espera que o soberano ferrônio lhe revele a fórmula? — perguntou Thora.
— Claro! — replicou Rhodan, sorrindo. — E de livre e espontânea vontade, caso não me queira ver recorrer a outros meios. Afinal, para que tenho um Exército de Mutantes? Alguém tomará conta de sua consciência, e...
Bell entrou com o Thort. John Marshall compareceu logo depois. Os cumprimentos foram breves e mudos, e todos tomaram assento. O Thort mostrava-se abatido. Parecia pressentir o que exigiriam dele.
Perry Rhodan não perdeu tempo em preliminares.
— Os tópsidas foram expulsos de Ferrol, e nada impede o restabelecimento da soberania ferrônia. Penso que chegou a hora da despedida, Thort.
O ferrônio teve um sobressalto.
— Mas os tópsidas continuam em nosso sistema! — observou, alarmado. — Foi este homem, Bell, quem me contou. Não estamos em condições de repelir nova invasão sozinhos.
Inclinando-se ligeiramente para diante, Rhodan disse, em tom incisivo:
— Gostaria de saber de onde me veio a idéia de ajudar vocês. Pois não vejo o menor indício de retribuição. É verdade que mandou Lossos me falar sobre a origem dos transmissores, mas para que me servem essas informações? Os poucos exemplares deste fabuloso invento constituem propriedade sua. Quero os planos de fabricação. Os que me deu anteriormente não passam de hábeis falsificações. Pura tapeação. Só que é impossível expressar conceitos pentadimensionais com fórmulas da terceira dimensão. Portanto, se quer continuar contando com nossa proteção, a fim de evitar a derrocada de seu reino, diga-me como se abre a arca no Palácio Vermelho.
Rhodan não poderia ter sido mais claro e franco. Agora o Thort sabia o que desejavam dele. Precisava se decidir. Marshall sinalizou que o ferrônio não contemplava traição alguma; considerava consigo mesmo a hipótese de falar finalmente a verdade. Mas demorou ainda alguns minutos antes de falar:
— Existe um indício, mas não creio que os leve para mais perto da solução do problema. Permita-me uma pergunta? Que sucederá quando puder construir os transmissores?
Crest se encarregou da resposta:
— Por que se preocupa com isso, Thort? Julga que a história do Universo sofreria modificação? Possuímos espaçonaves que, a rigor, funcionam com base em princípios idênticos aos dos transmissores. Passamos por um processo de desmaterialização, prosseguindo nossa viagem no hiperespaço. Assim como sucede nos transmissores. O que nos interessa é a simplificação do método, mais nada. Garanto que a estrutura da Via Láctea continuará inalterada.
— No entanto, aqueles que nos cederam o segredo viam mais longe. Determinaram que apenas os dotados de maturidade suficiente seriam capazes de compreender o método de construção, mesmo que demorasse milhões de anos. Por que deveria eu quebrar o trato?
Rhodan lançou o argumento decisivo:
— Se nós conseguirmos abrir a arca, usando a fórmula que não lhe serviu para nada, teríamos dado prova de nossa maturidade, não acha?
O Thort contemplou Rhodan de maneira inquisitiva. Por segundos, pareceu-lhe mergulhar irremediavelmente num insondável mar frio como aço. Depois, recorrendo a toda a sua força de vontade, conseguiu se libertar da imperiosa influência e decidir livremente.
— Bem, talvez tenha razão... Vou lhe revelar a fórmula. Ela é simples e fácil de guardar, mas seu sentido é incompreensível. Senão, veja: Dimensão X = Pentágono de Espaço-tempo-simultâneo. Só isso.
Crest e Thora trocaram um olhar, que, no entanto, não denotava nem compreensão, nem entendimento. Bell abriu a boca, tornando a fechá-la em seguida, com um audível suspiro. John Marshall sinalizou mudamente:
De fato, é só isso.”
Rhodan nada mais fazia do que memorizar as misteriosas palavras.
— Lamento constatar que também não sabe o que fazer com ela — observou o Thort, sem disfarçar a satisfação. — Conhecemos estas palavras há milhares de anos, sem lhes perceber o sentido. Mais do que isso não posso fazer, e espero que reconheça minha boa vontade.
Rhodan fez um breve aceno, como que em transe.
— Agradeço-lhe, Thort. De todo o coração. Passemos agora aos assuntos práticos de nossa reunião. Quando pensa regressar a Ferrol?
Com evidente alívio, o Thort aceitou a mudança de tema.
— Os preparativos já foram feitos. Nossa frota está pronta para decolar. Eu retorno para minha pátria ainda hoje, com os membros de meu governo, por meio dos transmissores. Seguimos diretamente para Thorate, para onde foram transferidas as estações receptoras. Celebraremos uma grande festa comemorativa, na qual gostaria de ter a presença de todos vocês.
— Grato pelo convite — respondeu Rhodan, levemente zombeteiro. — Estaremos lá... Posso aproveitar a ocasião para solicitar que nos ponha à disposição em Ferrol uma zona reservada, onde possamos instalar uma base? Ela contribuirá para sua própria segurança.
— Não querem permanecer em Rofus? — indagou o ferrônio, admirado.
— Não, pois caso os tópsidas ataquem, seu alvo será Ferrol, e não Rofus. Também tenho outros motivos.
Evidentemente o Thort gostaria de conhecer estes motivos, porém não se animou a perguntar.
— Falaremos a respeito depois das comemorações. Não creio que haja objeções. Dão-me licença agora? Meus homens...
Após a saída do Thort, Bell não agüentou mais. Inspirou profundamente, expelindo depois o ar ruidosamente, como se temesse explodir.
— E a fórmula? — arquejou, com os olhos cintilando de incontida curiosidade.
Crest e Thora olhavam com expectativa para Rhodan. Porém este apenas levantou os olhos para o teto, com ar de pouco caso.
— Ora, por que me pergunta? Eu é que sei, por acaso?
Crest pareceu decepcionado, enquanto Thora sorria com menosprezo.
— A quem devo perguntar então? — quis saber Bell.
— Ao mesmo que eu vou interrogar — respondeu Rhodan, levantando-se. — E é pra já!
Nem chegou até a porta, pois Bell, erguendo-se afobado, reteve-o pela manga.
— Quem, Perry? Quem?
— O cérebro positrônico da Stardust-III, meu caro.
Crest agora sorria igualmente. Porém não havia ironia naquele sorriso, e sim contentamento.

* * *

A primeira parte das festividades tinha passado; logo se seguiriam comemorações mais amplas. O Thort tinha voltado a se instalar no Palácio Vermelho, retomando a administração do planeta. Por toda a parte em Ferrol os vestígios da ocupação tópsida iam sendo apagados. O povo voltava à rotina costumeira.
Uma sessão do conselho de ministros autorizou Rhodan a instalar sua base perto das montanhas onde viviam os sichas. Já no dia imediato a Stardust-III desceu no deserto pedregoso. Com seus raios energéticos ampliou uma caverna natural, a mais de mil metros de profundidade, a fim de acomodar a gigantesca esfera. Esta não tardou a desaparecer da superfície de Ferrol.
Operários-robôs se atarefavam na nova base galáctica de Rhodan, construindo oficinas, laboratórios, acomodações para o pessoal, e corredores de circulação. A rocha viva foi fundida para dar lugar a depósitos e hangares para os caças. Instalaram-se os elevadores. Por fim, um reator arcônida passou a alimentar uma vasta cúpula energética sobre o conjunto todo; com isso, ele se tornou inatacável.
Os ferrônios acompanhavam aqueles preparativos com sentimentos contraditórios, conforme verificavam os mutantes de Rhodan. Não lhes agradava nada ver os dominadores tópsidas serem substituídos por nova tutela, apesar de Rhodan ter assegurado repetidamente que aquela base só poderia beneficiar os ferrônios. Como poderiam adivinhar os planos de Rhodan? Nem imaginavam que este considerava Ferrol o primeiro membro de seu futuro Império Galáctico.
Além deste empreendimento, Rhodan ultimava os preparativos para arrancar do passado seu grande segredo. Manteve demorado diálogo com o computador gigante da Stardust-III; forneceu-lhe a fórmula obtida do Thort, e recebeu as indicações esperadas. Crest entrou enquanto Rhodan recebia a resposta.
— Sabia que você ia escolher o único caminho certo — disse o arcônida.
— E havia outro, Crest? O cérebro positrônico raciocina na quinta dimensão, assim como você e eu, graças ao meu treinamento hipnopédico. No entanto, nenhum de nós acertaria com a solução sozinho, por mais simples que ela possa parecer. O segredo todo reside na palavrinha simultâneo. Também pentágono é significativo. Porém só o conjunto faz sentido.
— Claro, visto que o raciocínio pentadimensional é uma coisa lógica — observou Crest, sorridente.
— Não no nosso Universo — respondeu Rhodan, sorrindo igualmente. — Mas, para ser franco, me sinto um tanto desapontado. Essa arca protegida por medidas da quinta dimensão não passa, afinal, de algo enquadrado na quarta dimensão que conhecemos. Os documentos existem realmente, mas não no presente, e é este o fator quadridimensional do segredo. Como anteparo protetor foram usadas ondas de rádio transformadas, oriundas de fontes ignoradas, no espaço, fabulosamente distantes. Acrescentem-se alguns truques técnicos, como efeitos de curvatura da luz e barreiras energéticas auto-estáveis. Todos esses empecilhos podem ser postos de lado quando diversos fatos ocorrem simultaneamente.
— E de que modo vai provocar a ocorrência desses fatos? — perguntou Crest. Sua pergunta deixava entrever a curiosidade de quem já conhece a resposta. Rhodan topou o desafio.
— Com meus mutantes. Tanaka Seiko é um detector natural. Pode captar ondas radiofônicas e interpretá-las, desde que tenham sido emitidas por seres inteligentes. Portanto poderá captar essas ondas radiofônicas cósmicas que dão origem à cúpula energética em torno da arca. Se conseguir desviá-las, teremos acesso livre aos documentos, que retornarão instantaneamente ao presente. Eis o princípio do problema todo.
— Mas como e por que se passa assim?
— Confesso que ignoro este ponto, Crest. O cérebro positrônico me forneceu apenas este indício. E a atuação de Tanaka sozinho não seria suficiente; porém com a colaboração dos demais mutantes, mais a possibilidade de combinar seus dons mediante contato físico uns com os outros, será viável. Preciso de um telecineta e de um teleportador; além de Sengu, naturalmente, para comunicar o momento do desmoronamento da cúpula energética.
— E o que pensa fazer com os planos? — a pergunta era de Thora, que acabava de entrar. Os insondáveis olhos vermelho-dourados fitavam Rhodan inquisitivamente.
— Caso Rhodan conseguir de fato se apoderar deles, tem direito aos planos — observou Crest, procurando apaziguar. — Senão, nem conseguiria abrir a arca.
— Ele se valeu da ajuda do cérebro positrônico...
— Que não existiria mais, pelo menos para nós, sem a oportuna intervenção dele outrora. Portanto...
— É, o argumento é convincente... — replicou Thora, sarcasticamente. Ainda não estava convencida, porém parecia mais reconciliada. — Que fará Rhodan com os planos dos transmissores?
Crest deu de ombros.
— Sei lá! Problema dele... Mas, por que não construiria transmissores? Talvez pudéssemos até estabelecer uma ligação direta entre a Terra e Árcon. Existem ilimitadas possibilidades.
Rhodan achou oportuno intervir.
— Não se preocupe. Thora, só construirei os aparelhos quando nós todos julgarmos conveniente. Trata-se de segredo comum, pertencente tanto a vocês quanto a mim. Gostaria de poder contar com sua confiança.
Era a primeira vez, em muito tempo, que voltava àquele tratamento cordial, porém ela não deu mostras de ter percebido. Parecia ter esquecido por completo as breves horas em que haviam chegado a um relacionamento mais íntimo. Agora encarava novamente Rhodan como o ambicioso terrano cujo ímpeto ameaçava derrubar o vacilante domínio estelar dos arcônidas.
— Tenho todo o direito de expressar minhas dúvidas, não é, Perry Rhodan? Uma vez que Crest acha acertado, deixo de opor resistência. Mas ele foi avisado...
Sem esperar resposta, ela se retirou do recinto.
Crest fitou pensativamente os controles do cérebro positrônico.
— Que tal perguntar a ele? — sugeriu.
— Para saber se mereço? — replicou Rhodan, sacudindo a cabeça. — Não, obrigado. Se ainda alimenta dúvidas, Crest, faça a pergunta na minha ausência. Não gostaria que acusassem o cérebro de se mostrar influenciável.
Com um sorriso magoado, retirou-se também.
Crest ficou olhando para o amigo que se afastava com o rosto desprovido de expressão.

* * *

Junto a Rhodan se encontravam Bell, Tanaka Seiko, Anne Sloane, Ras Tshubai e Ishi Matsu, que, além da telepatia, possuía outro dom surpreendente. Quando se concentrava em determinado local, fosse a que distância fosse, ela via o que sucedia lá. Rhodan contava usar suas capacidades na experiência iminente. Lamentavelmente estava escrito no livro do destino que não conservaria aquela valiosa mutante por muito tempo mais. Porém ninguém suspeitava disso naquele momento.
O japonês Tanaka comunicou:
— Sim, percebo nesta sala a presença dos raios cósmicos existentes em toda a parte; só que aqui estão enfeixados e condensados. O processo começa no teto; forma depois uma coluna, que não consigo penetrar. Mas, a meu ver, raios cósmicos se identificam com a passagem do tempo.
— Portanto, provêm da quarta dimensão — murmurou Rhodan, baixinho. — Acha que pode desviar ou neutralizar essas ondas provindas de fontes distantes no cosmo, Tanaka?
— Para que a cúpula protetora se desfaça? Não sei...
— Experimente! Sengu, concentre-se, e diga-me se vê algo dentro da arca de energia.
Tanaka fitou Anne Sloane.
— Se eu deixar Anne ver o que vejo, ela deveria ser capaz de desviar os raios. Afinal, eles são matéria, se bem que em forma diversa.
Diante deles não se via nada. A arca invisível guardava seu segredo, e não parecia disposta a entregá-lo.
Tanaka segurou o braço de Anne. A moça enrijeceu e cerrou os olhos. Sengu soltou de repente um grito de surpresa:
— Ali! — Apontava para o meio da sala vazia, cujas paredes devolviam surdamente o eco daquela única palavra. — Uma caixa! Agora sumiu. Que foi isso?
Rhodan sentiu a excitação percorrer-lhe o corpo como uma faísca elétrica. Paralisado no primeiro instante, reagiu logo:
— Uma caixa?
Tanaka soltara o braço de Anne; os dois mutantes não podiam se concentrar naquelas circunstâncias, privando-os das forças mentais indispensáveis para a continuação da experiência.
— Sim, uma caixinha cintilante. Flutuando no ar. Ficou visível por um segundo, apenas. Depois desapareceu de novo.
— Então, é assim que funciona? — murmurou Rhodan. — Tanaka e Anne, vocês vão ter que tentar de novo. Mais demoradamente, desta vez. Ras Tshubai salta assim que Sengu enxergar a caixa. Não podemos gastar mais que dois segundos ao todo. Não sei o que poderia acontecer, caso Anne não tenha persistência suficiente e fraqueje enquanto Ras se encontra no interior da arca...
O africano empalideceu visivelmente; seu rosto tomou uma coloração acinzentada.
— Não vou falar, a fim de não interromper a concentração dos colegas — observou Sengu. — Fique olhando para minha mão, e salte quando a levantar, está bem?
Ras fez um gesto afirmativo. Talvez, em seu íntimo, estivesse imaginando em que lugar iria parar, caso Anne ou Tanaka falhassem.
— Estou pronto — disse, com voz sumida.
Rhodan estava tenso de emoção. Inspirando profundamente, deu o sinal para renovação da experiência. De início não houve modificação perceptível no ambiente. Mas aos poucos, notaram uma leve ondulação do ar no meio do vasto recinto. Como se o ar estivesse se tornando visível, apesar de continuar transparente. Em seguida, ele começou a tremer, fluindo em ondas que às vezes se coloriam de pálidos reflexos luminosos. E então Rhodan viu a caixa. Emergindo do nada, e brilhando como se fosse de ouro puro. Flutuava sem qualquer apoio a pouca distância do chão de pedra, rodeada por uma deslumbrante auréola.
O sinal de Sengu foi desnecessário. Ras Tshubai saltou, pois presenciara igualmente o fenômeno. Desaparecendo de onde estava parado, reapareceu no mesmo instante ao lado da caixa. Suas mãos agarraram avidamente o cobiçado objeto, e então...
Com um grito surdo Anne desfaleceu.
Rápido como um raio Rhodan a amparou.
Ras e a caixa ficaram invisíveis.
— Que foi? — perguntou Rhodan, nervosamente, sacudindo Anne como quem sacode um trapo. — Anne, ouça-me! Que aconteceu?
Entreabrindo os olhos, ela balbuciou, como uma criança:
— Foi demais... o esforço...
— Precisa tentar novamente! Agora, entendeu! Pense em Ras! Não pode abandoná-lo. Reaja, por favor! Tanaka!
Rhodan fez Anne ficar de pé, e ela tornou a cerrar os olhos. Os traços do rosto, anormalmente contraídos, transformavam-na numa desconhecida. Bell mantinha-se de lado, a alguns passos de distância, calado e sem ousar se mover. Seus olhos esgazeados não se desprendiam do ponto onde Ras estivera ainda há pouco.
O ar tremeluziu novamente, com os mesmos reflexos coloridos. E Ras se materializou, segurando a caixa nas mãos. No mesmo instante voltou a ser invisível, reaparecendo ao lado de Rhodan. Este deixou Anne deslizar suavemente para o chão, enquanto acenava para Bell. O ministro da segurança da Terceira Potência acorreu imediatamente para assistir a esgotada telecineta.
Rhodan tomou a caixa das mãos do africano. Apertou-a fervorosamente entre as mãos por alguns instantes, antes de dizer:
— Quase que a coisa sai errada, Ras... Com um débil sorriso, o teleportador se apoiou na parede.
— Por nada no mundo eu faria isso de novo! — confessou. — Foram os momentos mais terríveis de toda a minha vida. Minutos intermináveis...
— Minutos? — indagou Rhodan, espantado. — Você não ficou mais de dez segundos dentro da arca!
Ras sacudiu a cabeça.
— Impossível! Tudo sumiu de repente à minha volta, e me precipitei através do Universo. Guardei a caixa apertada contra o peito, mas não apareceu ninguém que ameaçasse vir tomá-la. Pelo contrário. Tive a impressão de que era ela que me arrastava pela eternidade. Pois foi isso que aconteceu. Disparei galáxia a fora, mais rápido que o mais fugitivo pensamento. Em quêstão de segundos ela se transformou numa espiral nebulosa, que diminuía de tamanho rapidamente, até virar um pontinho luminoso entre milhões de outros. Eu caía ao encontro de uma abertura clara no meio do vazio, muito, muito longe de mim. Como uma janela para o infinito, a eternidade, ou... para o inferno. Não cheguei a descobrir, pois o processo se inverteu e caí de volta. A Via Láctea se ampliou, recebendo-me em seu seio, e tornei a ver este salão. Foi o que aconteceu, mas não sei explicar o que significa...
Rhodan bateu-lhe amistosamente no ombro.
— Homem algum, antes de você, passou por tal experiência, Ras. Você penetrou numa abóbada energética repentinamente ativada, o que lhe possibilitou viajar através do tempo. Depois regressou, com a caixa nas mãos, para o local onde ela se encontrava guardada anteriormente, no passado, ou no futuro... quem pode saber? E o projétil de tempo só tornou a disparar quando Anne desviou as ondas radiofônicas que Tanaka lhe permitia enxergar. E você pôde voltar, junto com a caixa.
— Projétil de tempo? — Bell e Ras Tshubai tinham feito a pergunta simultaneamente.
— Claro! Algo de concreto tem que possibilitar esta viagem no tempo, da qual, lamentavelmente, não pudemos participar. E este algo são as ondas emitidas pelas fontes localizadas no cosmo. Enquanto atuam, o objeto protegido permanece numa época previamente determinada. Quando sua influência é suspensa, se restabelece o estado normal. É tudo muito simples.
— De fato, muito simples... — comentou Bell, com ar aparvalhado. — Só que não entendi nada. Onde é que a caixa se encontra agora, então?
Rhodan apertou-a contra o peito, como se receasse vê-la arrebatada a qualquer instante por poderes invisíveis.
— Foi retirada do plano do tempo. Resta saber se vamos conseguir abri-la. Talvez Crest possa nos ajudar. Anne, como está passando?
A moça já tinha se libertado dos braços protetores de Bell; de pé, apoiava-se de leve no ombro de Tanaka.
— Tudo em ordem. Foi fatigante, mais nada.
— Ótimo — respondeu Rhodan. — Voltemos à base. Uma recomendação: bico calado! Não há necessidade de divulgar nosso sucesso pelo planeta todo.
Porém o aviso chegara tarde demais. O Thort vinha entrando, revestido de seus suntuosos trajes reais. Parando diante de Rhodan, fez uma breve reverência, dizendo:
— Permita-me lhe apresentar minhas congratulações? Conseguiu realizar o que vínhamos tentando há muitos séculos.
Rhodan não perdeu a compostura, respondendo serenamente:
— Não precisa se envergonhar por isso, Thort. Afinal, os ferrônios não possuem mutantes.
— Nem gente como Perry Rhodan! — acrescentou Bell, orgulhosamente, como se fosse o próprio genitor do personagem mencionado. De peito inflado, tomou a dianteira, se encaminhando para a saída.

* * *

— Até que não foi tão difícil assim — declarou Rhodan, rompendo o silêncio de expectativa.
Reunira seus amigos na cantina da Stardust-III, a fim de lhes participar o resultado de seus esforços. Dois dias haviam decorrido desde a abertura da arca.
— Realmente, impunha-se um pouco de raciocínio pentadimensional para a interpretação da fórmula; mas, daí em diante, tudo se tornou simplesmente quadridimensional — continuou ele. — Uma fechadura de tempo muito normal, funcionando com forças naturais. Confesso que a tarefa teria sido complexa, ou mesmo irrealizável, sem os dons especiais de nossos mutantes. Quem inventou os transmissores queria que o invento só se tornasse conhecido por seres de alta capacidade intelectual; gente já familiarizada com eles, ou gente que garantidamente não fizesse mau uso dos preciosos aparelhos. Espero que correspondamos a estes requisitos.
— Que dúvida! — exclamou Bell, cuja petulância provocou uma onda de gargalhadas. Porém, no íntimo, cada um dos presentes se julgava plenamente qualificado.
— Abrir a caixa não foi problema. O cérebro positrônico calculou a combinação da fechadura, de acordo com os dados gravados na caixa. E só mesmo pessoas com tendência e raciocínio pentadimensional poderiam decifrar os sinais. Portanto, está solucionado o mistério da construção dos transmissores pentadimensionais de matéria.
— Poderemos fabricá-los? — indagou o Dr. Haggard, ansiosamente.
— Claro! Na quantidade que quisermos — respondeu Rhodan. — Acho, no entanto, que a ocasião ainda não é oportuna. Futuramente, talvez, quando os numerosos planetas habitados do Universo mantiverem contatos mútuos de caráter amistoso. Então, os transmissores poderão tomar o lugar das espaçonaves, como meio de transporte. Bastará apertar um botão para percorrer milhares de anos-luz. Mas isso, por favor, não achem graça, ainda é utopia.
Apesar da observação, Bell explodiu numa gargalhada. Ainda ofegante, protestou:
— Perry, há algum tempo, uma simples viagem a Marte era utópica; e olhe só onde chegamos hoje! E ainda ousa falar em utopia? Só mesmo rindo!...
Rhodan não respondeu. Abaixando-se calmamente, apanhou sua pasta, colocada ao seu lado no chão. Devia pesar bastante, a julgar pelo cuidado com que Rhodan a suspendeu. Abrindo-a lentamente sobre a mesa, disse:
— Ainda tenho uma surpresa aqui, para Crest. E talvez para Thora também.
Retirou da pasta algumas plaquetas metálicas, delgadas como folhas de papel.
— Quando o cérebro positrônico traduziu as instruções para a fabricação dos transmissores, rejeitou estas plaquetas. Recusou traduzir as sete, alegando que o padrão de minhas ondas cerebrais não correspondia ao do senhor do Universo, a quem elas se destinavam com exclusividade. E como senhores do Universo ele se referia aos arcônidas.
Com ligeira hesitação, concluiu:
— Deve se tratar de inscrições antiqüíssimas...
Thora lhe dirigiu um rápido olhar, que continha evidentemente uma indagação. Mas Rhodan deu de ombros. Crest se aproximou, recebendo as plaquetas. Examinou-as de cenho franzido, declarando depois, impressionado:
— A escrita corresponde a um idioma que existiu há dez mil anos. Porém o texto é codificado. De que será que se trata?
— Talvez uma pista, afinal — sugeriu Rhodan. — Ou a certeza.
— Sobre o quê?
— Sobre o planeta da vida eterna, Crest.
O arcônida fitou Rhodan pensativamente, antes de concordar com um aceno da cabeça de cabelos brancos.
— Logo saberemos — murmurou. — Minhas ondas cerebrais são do padrão arcônida.
Rhodan viu Crest e Thora se afastarem. Sabia que lhe comunicariam a verdade quando fosse oportuno. De momento, havia outros problemas a resolver. Problemas mais imediatos.
— Manoli!
O ex-médico da primeira expedição lunar se aproximou.
— Sim?
— Eric, providencie imediatamente uma mensagem à Terra pelo hipertransmissor. Texto normal, não codificado, conforme segue: “Permanência em Vega ainda imprescindível. Instalamos base em Vega número oito. Acordo comercial com habitantes em negociações. Retorno à Terra segredo absoluto. Todos bem. Stardust-III.” Entendido?
— Claro — respondeu Manoli. — Quer que seja enviada imediatamente?
— Sim, imediatamente. Agradeço o comparecimento de todos, meus amigos. Ainda teremos ocasião de nos ver. O Thort programou uma grande comemoração de vitória, e quer que compareçamos. E depois...
— Os tópsidas! — interrompeu Bell, indócil. — Que fará com eles?
— Você vive me interrompendo, Bell — censurou Rhodan, com um olhar de reprovação. — Era justamente sobre isso que eu ia falar. E depois das celebrações, cuidaremos dos tópsidas. Talvez possamos chegar a um entendimento amistoso com eles. Crek-Orn parece ser um homem sensato.
— Homem? — reclamou Bell, indignado. — Como tem coragem de dar a uma lagartixa o título de homem?
— Você jamais aprenderá a raciocinar em termos galácticos — reprovou Rhodan, gravemente. — Que importa a aparência externa quando se trata de eliminar barreiras? Estou certo de que, aos olhos dos tópsidas, você não representa absolutamente o ideal da raça, e...
— Nem da humana! — interrompeu uma voz feminina, alta e clara. Pertencia a Anne Sloane. Bell se virou, furioso.
— É assim que me agradece, é? Enquanto você estava com a cabeça no meu colo, completamente desamparada... — encabulado, emendou imediatamente: — ...lá nos subterrâneos do Palácio Vermelho, quando fomos apanhar a tal caixa. Estavam pensando o quê, gente?
Ninguém disse o que estivera pensando. Apenas o telepata John Marshall sorriu maliciosamente. Bell, no entanto, se aproximando de Rhodan, indagou com um sorriso cativante:
— Até que não sou tão feio assim, não é?
Rhodan perscrutou-o da cabeça aos pés, com ar dúbio. Por fim respondeu:
— Bem, feio propriamente não, mas que você é um tipo singular, lá isso é...
O que fez Bell abandonar a cantina com passadas indignadas, sob as risadas dos presentes.


* * *



Com a ajuda de seus mutantes, Perry Rhodan conseguiu expulsar os tópsidas do planeta principal do sistema Vega.
Porém os tópsidas são uma raça renitente por natureza. Retiram-se para a orla do sistema, onde erigem uma fortaleza: A FORTALEZA DAS SEIS LUAS. De lá, tramam novos planos de conquista.
A luta pela FORTALEZA DAS SEIS LUAS, e a perseguição da pista achada no COFRE DE TEMPO formam o enredo do próximo volume desta coleção.

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