autor
W. W. SHOLS
Tradução de
RICHARD PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Perry Rhodan foi a Vênus na Good
Hope, uma das naves auxiliares do cruzador dos arcônidas destruído na Lua, a
fim de instalar uma base e um centro de treinamento da Terceira Potência.
Naquele planeta descobriu um segredo mais velho que a história da humanidade —
tão velho que nem os arcônidas Crest e Thora sabiam dele.
Tratava-se de uma gigantesca central arconídica, dirigida por
robôs, que atravessou os milênios e continua a funcionar tão bem como no dia em
que foi construída.
É claro que essa descoberta representa um aumento enorme do
poderio da Terceira Potência, que bem precisa disso, pois numa mensagem radiofônica
que Perry Rhodan recebe em Vênus pede-se com urgência Socorro Para a Terra.
= = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = = =
Perry Rhodan — Chefe da Terceira
Potência.
Reginald Bell — Melhor amigo e
principal colaborador de Perry Rhodan.
Crest e Thora — Únicos
sobreviventes da expedição espacial dos arcônidas.
Freyt, Nyssen e Deringhouse — Ex-pilotos
da Força Espacial dos Estados Unidos.
Homer G. Adams
— Cuja tarefa consiste em obter
dinheiro para a Terceira Potência.
Clive Cannon — Chefe de um grupo de gangsteres. Pelo que dizem, os DI apossaram-se
dele.
John Marshall — Telepata
pertencente ao exército dos mutantes.
I
Perry Rhodan
comprimiu o botão vermelho com a estranha gravura branca. O sinal lembrava a
letra F do alfabeto rúnico. Mas a essa hora pouco importava sua origem. Bastava
saber que designava o botão que cortava o suprimento de energia do supercérebro
positrônico.
A vibração
monótona, só perceptível ao subconsciente, cessou. A série de luzes de controle
com seu brilho mágico apagou-se. As membranas sonoras imobilizaram-se. O maior
e mais potente dos cérebros positrônicos jamais instalados no sistema solar
corria em ponto morto.
Perry Rhodan
reclinou-se exausto. O diálogo com aquela máquina quase onisciente chegara ao
fim. O silêncio que se espalhou pela caverna do subsolo de Vênus foi
interrompido por outro zumbido. Rhodan acionou o aparelho de intercomunicação.
— Quem é?
— Sou eu.
A voz rouca
de Reginald Bell não permitia a menor dúvida sobre a identidade da pessoa que
se ocultava detrás da palavra “eu”. Sem levantar-se, Rhodan destravou a porta.
— Entre,
Bell!
— Que diabo,
Perry! Você me mete medo. Faz mais de vinte e quatro horas que se trancou nesta
caverna misteriosa. Até parece que está no encalço do mistério fundamental do
universo.
— Nunca
deixamos de andar no encalço dele. Se não conseguimos aproximar-nos é porque o
mistério está muito distante.
— Aposto que
não comeu nada.
— Pois está
enganado! Tinha comigo uma ração diária de alimentos desidratados. Já não posso
me dar ao luxo de cometer os pequenos enganos do dia-a-dia.
— Mas acho
que você está nutrindo uma falsa ambição ao...
— Também não
me posso dar ao luxo das falsas ambições. Nenhum de nós pode.
— Toquei a
campainha ontem de noite. Hoje de manhã toquei três vezes, e agora estava
diante da porta há mais de duas horas, sem conseguir entrar. Por que não abriu?
— Porque não
sabia que você estava lá fora. Não queria ser perturbado. O cérebro está
regulado de tal forma que as reações vindas de fora penetram nele, enquanto
está ativado.
— Dizem que
nestes últimos dias você andou fazendo um bom número de regulagens neste
cérebro. É verdade?
— Não sei a
que está se referindo. Exprima-se com mais clareza.
— Crest
falou no modelo das suas ondas cerebrais. Afirma que é bem possível que você
conheça suas freqüências pessoais...
— E daí? Por
enquanto suas insinuações continuam bastante confusas. Acho que não estarei
errado ao supor que logo ouvirei uma recriminação.
— Acho que
por aqui ninguém se julga com direito de dirigir recriminações a você.
— É por
medo, não é? Mas sempre existe um pouco de inveja.
Bell não
conseguiu enfrentar o olhar penetrante de Rhodan. Pegou um cigarro, que o fez
recuperar um pouco da sua autoconfiança.
— Sempre há
um pouco de inveja.
— Acontece
que o pessoal confia em você. Sabem que é o mais forte entre nós. Sentem-se
satisfeitos porque ainda existe uma pessoa à qual podem recorrer quando não
sabem mais como agir diante dos problemas.
— O.K.! —
confirmou Perry Rhodan. — Conheço minhas freqüências, e este cérebro robotizado
foi regulado para elas. Nunca me deparei com tamanho volume de saber prestes a
revelar-se a mim. Apesar disso ainda não consegui solucionar o problema. Penso
em termos arconídicos, na medida em que isso é possível a alguém que carrega a
condição humana desde o nascimento. Procuro raciocinar com o espírito de quem
construiu esta máquina, mas defronto-me com problemas de semântica. Afinal, não
podemos alcançar a interpretação do saber arconídico de um dia para outro. Não
possuímos a consciência do passado dos arcônidas. Bell, você não tem nenhum
motivo para invejar-me. Um diálogo de vinte e quatro horas com este cérebro
representa um massacre físico e intelectual.
— Valeu a
pena? — a pergunta de Bell exprimia curiosidade e esperança.
Perry Rhodan
fez que sim.
— Nesta
montanha existem hangares ocultos. O cérebro aludiu a seis naves espaciais.
— Isso seria
mais do que os arcônidas desejam. Thora e Crest só precisam de uma nave para
voltar para casa. Você não se entusiasma com essa perspectiva, não é?
— Preciso
encontrar as naves.
— Mas não
lhe faria nenhuma diferença se não as encontrasse. Sei perfeitamente o que está
pensando, Perry. Precisamos de Thora e de Crest. Precisamos deles no planeta
Terra e no nosso sistema solar, não a uma distância de trinta e quatro mil
anos-luz. Se eu fosse você, não diria nada sobre a existência dessas naves.
— Acha que
devo começar um jogo de intrigas? Acha que devo enganar e lograr os arcônidas,
aos quais a Terra deve sua união política? Devo retribuir sua amizade por meio
de uma prisão indireta? Não acredito que esse tipo de comportamento concorreria
para promover o entendimento entre as duas raças.
— Para você
seria uma traição; para mim, um ato de diplomacia.
Perry Rhodan
fez um movimento violento com a mão, para espantar qualquer ambigüidade sobre
seu ponto de vista.
— Localizaremos
o que puder ser localizado, Bell. Não há dúvida de que devemos conservar Thora
e Crest ao nosso lado para fortalecer a posição da humanidade e do planeta
Terra. Mas nem por isso podemos cometer uma traição contra nossos amigos. Os
hangares devem ficar ao norte. Vamos procurá-los; você virá comigo.
— Seis
naves! — exclamou Bell espantado. — Nelas poderíamos transportar todo o pessoal
da Terceira Potência. Conforme as circunstâncias seis naves arconídicas dariam
para percorrer toda a galáxia.
— Então você
estaria disposto a bater em retirada? Sabe o que aconteceria se eliminássemos a
Terceira Potência?
— Aconteceria
mais ou menos a mesma coisa que tem acontecido nos milênios da história da
humanidade. Seria uma sucessão de inveja, malquerença, sede de mando, guerras.
Talvez só houvesse mais uma guerra. A guerra definitiva.
— Então você
sabe muito bem. Acontece que também somos homens, e por isso vamos desistir do
cruzeiro pela galáxia, mesmo que as seis naves arconídicas estejam em condições
de decolar.
Saíram.
Perry Rhodan trancou a sala em que estava abrigado o cérebro positrônico,
usando um novo código. Só ele o conhecia.
Diante deles
abriu-se um labirinto cavernoso. Fazia mais de um mês que estavam no interior
daquela montanha situada no hemisfério norte de Vênus. E fazia mais de um mês
que se encontravam na pista dessa última testemunha de uma colônia arconídica
de há muito caída no esquecimento.
Para termos
uma .idéia dos acontecimentos, devemos recuar mais de dez mil anos na história
da humanidade.
Quando Árcon
se encontrava no auge, numa época em que seus habitantes ainda não apresentavam
o menor sinal de degenerescência, uma nave expedicionária tripulada com mais de
cem arcônidas pousara em Vênus e instalara aquela fortaleza de retaguarda. O
raio de fusão atômica abrira um labirinto de corredores na rocha da montanha,
fazendo surgir uma verdadeira cidade, que não podia ser vista do lado de fora.
As instalações correspondiam em toda linha ao elevado nível da civilização e da
tecnologia dos arcônidas. Para o homem do vigésimo século terreno eram algo de
fabuloso e inacreditável, como o quadro vago do futuro distante da própria
humanidade.
Ainda por
outro motivo eram fabulosas.
Ao se
depararem com elas, parecia que penetravam no castelo da bela adormecida. Os
arcônidas daquela época já não existiam. Haviam descoberto a Terra e
verificaram que era um mundo ideal para a colonização. A nova colônia dos
emigrantes arconídicos surgira na Atlântida. Proporcionara uma época de elevado
desenvolvimento tecnológico à Terra, mas submergira com o continente situado
entre a África e a América.
Embora
nessas quatro semanas os homens já tivessem tido tempo de acostumar-se ao novo
ambiente, não podiam deixar de evocar constantemente essas ligações históricas.
— Não posso
compreender que possam estar mortos — disse Reginald Bell enquanto subiam numa
vagoneta que trafegava numa das vias principais da cidade subvenusiana. — Será
que todos viviam na Terra quando a catástrofe diluviana irrompeu sobre a
Atlântida?
— É de supor
que sim — respondeu Rhodan. — Mas tenho minhas dúvidas. Em Árcon não sabiam
nada sobre a base de Vênus e sobre a colônia terrena. É bem possível que o
cérebro montado na base venusiana nunca tenha tomado conhecimento de certos
fatos importantes. Dependia das informações orais que lhe fossem transmitidas —
esboçou um sorriso misterioso. — Os centros de memória falaram em ocorrências
inexplicáveis que tiveram lugar em Vênus, em seres invisíveis que andaram pelas
proximidades. É possível que a informação tenha sido ministrada por algum
elemento perturbado que tenha permanecido aqui, nunca devemos esquecê-la,
embora para nós só possa ter uma importância histórica.
— É claro que
já compreendi a teoria concebida por você. Mas tenho lá minhas desconfianças. É
bem possível que tudo se tenha passado de forma bem diferente.
— Queira
explicar o motivo das suas desconfianças.
— Ora, é
simples. Crest e Thora conseguiram convencer-nos de que esta base foi instalada
por emigrantes que aqui aportaram numa nave arconídica. E agora você me fala em
seis naves que estariam escondidas por aqui. Seis naves são uma frota. Se neste
planeta chegaram a pousar seis naves arconídicas completas, não resta a menor
dúvida que a base mantinha contato permanente com seu mundo natal. Dali se
conclui que Thora e Crest mentiram.
— Você não
devia ter proferido esta última frase. Só teremos uma conclusão desse tipo
quando tivermos certeza de que os dados que induzem suspeitas são corretos.
Bell
percebeu que Rhodan não estava disposto a prosseguir num debate apoiado apenas
em probabilidades. Por isso ficou calado, reclinando-se na poltrona do pequeno
veículo que os conduzia. Seguiu por um corredor secundário longo e retilíneo
que, partindo do centro da fortaleza, penetrava na montanha cerca de dois
quilômetros. A extensão total das instalações pareceria um exagero a qualquer
homem terreno. Bell exprimiu esse sentimento em palavras e sacudiu a cabeça.
— Sem dúvida
devemos admirar as realizações dos arcônidas. Mas acho um absurdo que uma
simples fortaleza tenha estas dimensões. Deve ter sido montada por gente
estúpida. Até se parece com alguém que queira matar pardais a tiro de canhão.
— Também
parece que alguém que não aplica os padrões corretos sofre de uma falta grave
de substância cerebral — respondeu Rhodan em tom áspero.
— E qual é o
padrão correto?
— O dos
arcônidas. Ao ver este labirinto, você logo pensa em termos de dispêndio de
tecnologia terrena. Acontece que com os recursos dos arcônidas não há nada de
extraordinário em perfurar corredores e cavernas de dez ou vinte quilômetros na
rocha de uma montanha.
Rhodan
interrompeu sua exposição didática e parou a vagoneta.
— Vamos! —
disse em tom lacônico, e caminhou em direção a um dos grandes portões que a
intervalos regulares ladeavam a estrada subvenusiana.
Um toque de
dedo sobre o mecanismo da fechadura bastou para que dez toneladas de aço
arconídico deslizassem para o lado.
Quando viu
diante de si o enorme pavilhão, Reginald Bell deixou cair o queixo. Não é que
se sentisse impressionado com as instalações e o tamanho, que na sua opinião
era exagerado. Depois que tinham descoberto a fortaleza, já tivera oportunidade
de admirar essas coisas. Tentara acostumar-se aos padrões que prevaleciam ali.
Acontece que até então tudo parecia morto naquele pavilhão. E hoje a vida
reinava por ali. Ruídos abafados em toda a gama de escala sonora atingiram seu
ouvido. Os medidores, as agulhas dançantes, as células eletrônicas e positrônicas
cintilavam em tons coloridos. Robôs dos mais variados formatos e tamanhos
corriam por entre as máquinas.
— Feche a
boca! — disse Perry Rhodan, permitindo-se um sorriso condescendente. — Você já
conhece a fábrica.
— Mas nunca
a vi trabalhando. Foi você que a pôs em funcionamento?
— Já estava
na hora de uma instalação tão bem montada reiniciar a produção. Não estamos em
condições de deixar ociosa essa capacidade produtiva que se encontra paralisada
há dez mil anos.
— Hum! — fez
Bell, esticando o som para que o amigo percebesse que não acreditava muito
naquilo. — Há pouco você me disse que devia aplicar os padrões corretos. Você
também devia fazer o que pede aos outros.
— O que quer
dizer com isso?
— Acho que
esta fortaleza foi instalada pelos arcônidas e para os arcônidas. O que for
produzido aqui só pode ter uma utilidade para esses seres.
O rosto de
Rhodan assumiu uma expressão séria. Bell sentiu a mão pesada do amigo sobre o
ombro.
— Ouça,
Bell! Não temos muito tempo, pois ando com esse assunto das seis naves
espaciais atravessado na garganta. O que está sendo feito aqui corresponde a
uma finalidade terrena, não arconídica. Seria difícil aplicar nosso
conhecimento hipnótico sobre a ciência e a tecnologia arconídica às
necessidades humanas. Ando meditando sobre isso há várias semanas. Examinei
todos os recantos do saber arconídico a que tenho acesso e elaborei um
minucioso plano esquemático. O que está sendo feito aqui terá utilidade única e
exclusivamente para a humanidade terrena. Esta fábrica robotizada está
produzindo robôs, mais exatamente autômatos de construção e armamento. Olhe a
esteira automática ali à sua direita. Jamais um olho arconídico viu essas
formas modificadas de máquinas inteiramente positronizadas.
— Você faz
isso sem que Crest e Thora saibam?
— Faço
porque acho melhor assim. Thora e Crest são arcônidas muito inteligentes, mas
como homem acho que sei avaliar melhor o que poderá ser útil à Terra. Nem penso
em enganá-los, se é isso que você quer dizer.
— Acontece
que podem interpretar a coisa assim. A desconfiança reinante entre eles e nós
ainda não foi eliminada. Até você não está muito seguro na sua concepção,
Perry. Ao menos acredito que não esteja. Pense naquelas seis naves espaciais.
Recorde a reconstituição do período histórico em que aqueles arcônidas
emigraram. Sua colônia na Atlântida desapareceu. Se naquela época ainda havia
arcônidas em Vênus, os mesmos morreram por não terem possibilidade de voltar
para Árcon. As seis naves espaciais a que esse cérebro se referiu não combinam
com o quadro. Talvez você pudesse ter a gentileza de informar o que conseguiu
descobrir.
— Não é
muita coisa. Com a palavra-chave “nave espacial” não consegui extrair maiores
detalhes do cérebro. Só sei que as naves devem estar estacionadas numa caverna
distinta junto à encosta norte. Vamos procurá-las.
Perry Rhodan
montou um conjunto de aparelhos de medição de ondas sonoras e sondas de matéria
que funcionavam com base no processo químico-analítico. Ativou um robô que se
encontrava nas proximidades e ordenou-lhe que colocasse o equipamento sobre a
vagoneta e tomasse lugar nela. Avançaram mais setecentos metros na direção
norte, até chegarem ao fim do corredor. Uma parede lisa de concreto fechou-o
contra a rocha da montanha.
— Você acha
que o corredor continua depois dessa parede? — perguntou Bell enquanto saltava
da vagoneta.
— O cérebro
falou numa caverna distinta. Disso se conclui que daqui não existe qualquer
acesso. Mas antes de mais nada devemos demarcar a situação da caverna. Robô,
coloque o aparelho azul junto à vagoneta. Os outros instrumentos podem
continuar onde estão.
Reginald
Bell pediu a Rhodan que lhe explicasse o funcionamento dos aparelhos. Como seu
cérebro também tivesse sido ativado pelo treinamento hipnótico, aprendeu em
poucos minutos o suficiente para prestar assistência a Rhodan. Cada medição era
submetida à dupla conferência; uma era realizada pelo processo da ecossonda,
outra por via químico-analítica. Dessa forma conseguiram estabelecer em pouco
tempo um quadro preciso da composição da montanha, ate a encosta norte.
A uma
distância de oito quilômetros as escalas de medida indicaram uma perda total de
pressão.
— É a
caverna! — gritou Bell mais alto do que seria necessário.
— O.K.! —
confirmou Rhodan com um aceno de cabeça. — Anote as coordenadas. Vamos
prosseguir em sentido radial, para determinar o diâmetro da caverna. Depois
ampliaremos as observações para os lados.
Em menos de
meia hora completaram o diagrama sobre a lâmina eletrônica de desenho. Logo se
viam dois queixos caídos.
— Você
entende isso? — perguntou Bell.
— Ainda não
consegui. De qualquer maneira realizamos duas medições, e sabemos que a caverna
não tem mais de noventa e cinco metros de diâmetro. A hipótese de um engano
está completamente excluída.
— Num buraco
de ratos como esse não podem caber seis naves arconídicas completas. Talvez os
hangares sejam separados.
— Mesmo uma
única nave teria de ser muito pequena para caber ali. Nossa Good Hope mede seus
bons sessenta metros, e não passa de uma nave auxiliar cujo raio de ação mal
chega aos quinhentos anos-luz.
— Então deve
tratar-se de veículos menores — concluiu Bell. — Talvez sejam naves de socorro
ou de patrulha. Acho que nossa preocupação com Thora e Crest não tinha o menor
fundamento. Os dois terão de ficar conosco.
— O acesso
fica aqui — disse Rhodan, apontando para o mapa cujos contornos acabavam de
formar-se. Não deu atenção às palavras de Bell. Mas de si para si fazia votos
de que ele tivesse razão.
* * *
Decolaram
com a Good Hope e voaram alguns quilômetros para o norte. Depois de vencerem os
cumes mais elevados, deixaram que a nave descesse junto às encostas íngremes.
Ao atingirem a altitude determinada através das medições, Perry Rhodan parou e
ajustou o regulador gravitacional, até que a nave aparentemente sem peso,
encontrou uma posição de equilíbrio a uns quinhentos metros do fundo do vale.
Logo
encontraram o acesso para o misterioso hangar. Embora a encosta norte tivesse
sido polida pela erosão provocada pela chuva venusiana, logo notaram a área
alterada em que se encontravam as duas escotilhas.
Envergando
seus trajes arconídicos, que também dispunham de um regulador gravitacional,
Rhodan e Bell saíram da nave e aproximaram-se da encosta rochosa. A localização
do mecanismo de travamento da escotilha e sua combinação não representavam
qualquer problema. O treinamento hipnótico habilitara-os a pensar em termos
arconídicos.
A área da
encosta artificialmente criada deslizou para o lado, pondo a descoberto uma
abertura de menos de vinte metros.
— É grande
para um homem, mas pequena demais para uma nave espacial — constatou Reginald
Bell.
Viram-se
diante de uma galeria escura, que descia na vertical. A camada profunda de
nuvens venusianas só deixou penetrar uma luz mortiça, que mal dava para
iluminar os primeiros metros da galeria. Um ligeiro impulso propulsor dos seus
trajes bastou para fazer os homens penetrarem na montanha. Regularam o
antígravo para a posição zero e voltaram a sentir chão firme sob os pés.
Com o
auxílio de lanternas descobriram um amplo painel de instrumentos. Rhodan
acionou uma chave. No mesmo instante uma luz branco-azulada encheu a caverna.
Toda a
instalação continuava a funcionar tal qual funcionara há dez mil anos.
Era outro
fato que mereceria a admiração dos homens. Mas nos últimos anos estes tiveram
de habituar-se a muitas maravilhas arconídicas. O choque do não querer
acreditar já não tinha a mesma intensidade dos primeiros encontros com a nova
tecnologia. E, mais interessante que a luz alimentada por fontes de energia
instaladas a milênios era o próprio hangar.
— São seis!
— exclamou Reginald Bell espantado. — Mas até parecem uns brinquedinhos. Faço
votos de que não esteja decepcionado.
A atitude de
Rhodan provou que não estava. Sentiu-se entusiasmado. Percebeu intuitivamente o
que tinha diante de si. Tirou o traje desajeitado dos arcônidas e saltou sobre
o aparelho mais próximo.
— Você acha
que são brinquedos? Acontece que são uns brinquedos muito perigosos. Veja aqui!
Nesta máquina cabe um único homem. Quem sabe se você não quer pensar um pouco e
dizer o que vem a ser isto?
Reginald
Bell segurou-se na borda de uma das asas em delta e subiu.
— Até parece
um avião de caça. A fuselagem tem aspecto intergaláctico. Até me sinto tentado
a estabelecer comparação com as naves dos habitantes de Fantan. Mas o
dispositivo direcional aerodinâmico e as asas em forma de delta poderiam ter
sido concebidas numa prancha de desenho terrena.
— Em
qualquer assunto a razão e a lógica sempre conduzirão ao mesmo resultado. Aqui
está a prova. Você ainda tem alguma dúvida de que estes caças espaciais são de
origem arconídica?
— Nenhuma. A
semelhança na disposição dos instrumentos prova que são. É verdade que tudo é
menos complicado que na Good Hope, mas o princípio é o mesmo. O assento fica
numa cabina pressurizada. Existe um painel de comando do mecanismo propulsor.
Com isso fica garantida a saída das partículas à velocidade da luz. Aqui está a
chave reguladora da alteração volumétrica da câmara de combustão, e este olho
só pode servir para a observação do regulador do campo de saída dos jatos.
Perry, como vejo, você não está nem um pouco decepcionado. Até acredito que aprecie
mais esta esquadrilha que seis supernaves espaciais.
— Um belo
dia nós também construiremos naves deste tipo, Bell. Acho que ainda precisam de
nós no planeta Terra, e este caça à velocidade da luz é o melhor presente para
nós. Que tal um vôo de experiência?
Nos olhos de
Bell lia-se o entusiasmo.
— Você acha
que sou capaz de pegar um aparelho destes e sair voando por aí sem mais aquela?
— Se não
for, peça a Thora que lhe devolva a taxa de matrícula. Vamos embora! Pegue
aquele ali. Eu vou neste.
* * *
No momento a
guarnição da fortaleza de Vênus era muito reduzida.
Além dos
dois arcônidas, Crest e Thora, nesse amplo labirinto de cavernas só residiam o
Dr. Eric Manoli, a telecineta Anne Sloane e o teleportador Tako Kakuta, que
pertenciam ao exército dos mutantes, bem como o tenente Michael Freyt, o
capitão Rod Nyssen e o tenente Conrad Deringhouse, ex-oficiais da Força
Espacial dos Estados Unidos.
Nas últimas
semanas todos eles tinham desenvolvido uma atividade útil, contribuindo para o
conhecimento daquela fortaleza esquecida em Vênus. Só os três oficiais sentiam-se
um tanto inúteis quando os outros conversavam sobre assuntos que eles não
entendiam. Não conheciam as concepções arconídicas, nem dispunham das vantagens
de um mutante positivo. Eram apenas pessoas sadias, com uma mente sã num corpo
são, e essas qualidades habilitaram-nos a atingir a Lua numa primitiva nave
terrena.
No dia do
aniversário do tenente Freyt surgiu uma modificação.
— O que você
gostaria de receber, Freyt? — perguntou Rhodan com a voz bonachona.
— Gostaria
de tornar-me um membro ativo da Terceira Potência — foi a resposta. — E meus
camaradas desejam a mesma coisa. Sentimo-nos um tanto inúteis.
— De que se
julgam capazes?
— Se
possível gostaríamos de voar. É verdade que só conhecemos as máquinas
convencionais produzidas pela nossa técnica.
— Estas eu
não tenho, tenente. Mas gostaria de dar uma olhada na Good Hope?
Foi este o
presente de aniversário de Freyt. Crest e Bell levaram o dia inteiro mostrando
a nave aos três oficiais. Depois Rhodan submeteu-os a um treinamento hipnótico
intensivo.
Aprenderam
literalmente, dormindo, a pilotar as naves arconídicas. Depois de deitá-los em
pequenas macas, ligaram seus braços, pernas e cérebros com o instrumento de
ensino psicossensorial. Após isso ficaram entregues a uma série intensa de
sonhos dirigidos, nos quais pilotaram naves arconídicas de todos os tipos de um
grupo de estrelas a outro. Sem correr o menor perigo, aprenderam a realizar as
manobras mais difíceis e a reparar defeitos em pleno vôo. Um aparelho
positrônico de testes registrou automaticamente os resultados dos exames a que
eram submetidos ininterruptamente. As falhas tornaram-se cada vez mais raras, e
em menos de três dias os três oficiais anunciaram a Perry Rhodan que já eram
capazes de pilotar sozinhos a Good Hope.
Um vôo
experimental confirmou a informação. Logo após isso, Freyt, Nyssen e
Deringhouse obtiveram uma licença bem merecida.
Aproveitaram-na
em pequenas expedições pela selva de Vênus.
Pelo
meio-dia de sete de julho — em Vênus ainda contavam o tempo segundo o
calendário terreno — apressaram sua volta de um passeio, pois surpreenderam-se
ao verem a Good Hope decolar. Foi Deringhouse quem primeiro viu a nave
esférica.
— Será que
pretendem voltar para casa sem nós?
— Não me
consta que Rhodan queira retornar à Terra. Faz tempo que está metido com aquele
cérebro, realizando conversas intelectualizadas.
— Gostaria
de saber o que significa isso. Tomara que os arcônidas não estejam fazendo
alguma tolice!
— Acha que
Thora e Crest estão fugindo? — perguntou Freyt com um sorriso. — Você é muito
esquentado, Deringhouse. Os arcônidas conhecem perfeitamente as suas
limitações. Não pinte logo o diabo! Podemos nos apressar um pouco, se é que
isso o tranqüiliza.
Dali a meia
hora chegaram à posição de combate da fortaleza. Na cúpula gigantesca
concentravam-se todas as armas ofensivas com os respectivos dispositivos de
comando.
Um olhar
bastou para que Freyt se convencesse de que nenhum veículo havia penetrado na
atmosfera de Vênus. A capacidade de observação estendia-se até o pólo sul. A
suspeita de Deringhouse já não parecia tão absurda. Mas quando o tenente se
dispôs a falar, dois pontinhos surgiram na tela.
— Que diabo!
O que será isso?
— Capitão!
Localize os objetos e mantenha-os sob observação constante! — gritou Freyt.
Nyssen obedeceu instantaneamente. Pouco depois o goniômetro localizou os dois
caças espaciais e não deixou mais que escapassem, por mais complicadas que
fossem as manobras que realizavam.
— São naves
muito pequenas — constatou Deringhouse. — E não são da Good Hope. Vamos chamar
Crest!
Freyt já
cuidara disso. Dali a alguns segundos o arcônida respondeu pelo vídeo-fone.
— O que
deseja, tenente?
— Estamos na
cúpula de observação. Será que podia dar um pulo até aqui agora?
— É muito
urgente? Tenho uma coisa mais importante a fazer.
— Descobri
dois objetos voadores, que aparentemente não deviam estar aqui. Passaram bem
perto, por cima da montanha e depois subiram quase na vertical. No momento
encontram-se a uma altitude de 14.000 quilômetros .
— Você está
vendo fantasmas, Freyt. Nossos dispositivos de alarma captariam e reportariam
qualquer nave estranha. Não há nada que possa penetrar até esta montanha sem
ser reconhecido.
— Por favor,
olhe!
Freyt
afastou-se, para que Crest pudesse ver a tela através do videofone. Os três
notaram um ligeiro tremor em seu rosto.
— Irei
imediatamente — disse o arcônida.
Subiu no
elevador expresso e precipitou-se para o painel das telas de defesa.
— Tudo
pronto para abrir fogo, tenente. A cúpula foi reforçada. Entre em contato com
aqueles desconhecidos e avise-os de que serão destruídos imediatamente se não
seguirem nossas instruções.
Freyt mexeu
apressadamente no telecomunicador. Antes que tivesse tempo de falar, o
alto-falante transmitiu um diálogo exaltado, que os apanhou de surpresa. Rhodan
e Bell comunicavam-se pela mesma forma, porque isso correspondia ao que os
arcônidas falecidos há dez mil anos haviam feito.
— ...voltarei
imediatamente, meu caro. Não estou com vontade de ser abatido por Crest.
— Para
voltar é tarde. Você já foi localizado. Sugiro que entre em contato com a base.
Talvez seja possível conversar com essa gente.
No início
parecia que não era possível. Freyt, Nyssen e Deringhouse tinham perdido a
fala. Até Crest teve de vencer a surpresa antes que conseguisse proferir uma
palavra.
— O que é
isso, Rhodan? Como conseguiu pôr as mãos nesses modelos dos fantanitas?
— Está
vendo? — interveio Bell. — Ele diz que são modelos fantanitas. Eu disse logo
quando vi o formato em fuso.
— Deixe de
tolices! O que você está vendo, Crest, são verdadeiros caças arconídicos.
Revire sua memória e descobrirá que há dez mil anos seus antepassados
construíram estes modelos.
Crest logo
compreendeu.
— Você
descobriu os caças estacionados na fortaleza! É isso mesmo! Assim os fatos
combinam. Só faz dois mil anos que os habitantes de Fantan imitaram nossas
naves-fuso. Onde encontrou esses aparelhos?
— No
interior da montanha. E há mais quatro. Todos eles estão equipados com canhões
de impulso superpotentes — Perry Rhodan riu. — Você cancelou o alarma, não foi,
Crest? Do contrário não vejo outra alternativa senão arriscar uma catástrofe.
— Não
brinque, Rhodan! Com o armamento de um caça espacial você pode destruir um
planeta. Logo após a explosão espontânea, as bombas-foguetes arconídicas
ocasionam um incêndio atômico que atinge todos os elementos pesados acima do
grau dez. Os núcleos podem ser regulados para desencadear uma reação nuclear em
cadeia.
— É possível
— respondeu Rhodan. — Mas posso tranqüilizá-los. As bombas não se encontram a
bordo. Mas poderemos carregá-las no próximo vôo. É que acabo de ter uma idéia.
Perry Rhodan
não expôs a idéia antes do pouso. Bell teve de recolocar o caça no hangar e
levar a Good Hope à fortaleza. Rhodan veio na sua pequena maravilha. Pousou
junto à entrada da fortaleza. Enquanto explicava a Crest como havia descoberto
os seis caças espaciais, os três oficiais dispensaram suas atenções à máquina.
Finalmente haviam encontrado em Vênus algo que correspondia à sua paixão.
— Estão
gostando? — perguntou Rhodan.
— Um
astronauta só pode sonhar com uma coisa destas.
— Que pena
que seu aniversário já passou, Freyt.
— Até parece
que estes caças espaciais serão dados de presente.
— Não é
isso. Proponho um acordo, tenente. Você, Nyssen e Deringhouse submetem-se a um
novo ciclo de treinamento hipnótico, concebido especialmente para estas
coisinhas. Depois disso as receberão em custódia, como representantes da
Terceira Potência.
Os olhos de
Freyt brilhavam.
— Não sei
como agradecer! Pode confiar em mim em quaisquer circunstâncias.
— Isto é uma
das condições do acordo — confirmou Rhodan em tom sério. — Preciso de uma frota
bem combativa. Pode ser pequena, mas tem de ser veloz e invencível.
Como sabem,
os acontecimentos que se desenrolaram nos últimos meses em nosso sistema solar
despertaram a atenção de muitas inteligências. Conseguimos repelir os primeiros
ataques. Os que se seguirem serão mais intensos. Se quisermos sobreviver,
teremos que nos prevenir. A potência de que dispúnhamos ontem poderá ser
insuficiente para as lutas de amanhã. Aí vem Bell com a Good Hope. Ele levará
vocês à encosta norte e lhes mostrará o local exato. Observem tudo. Hoje de
noite falaremos sobre o novo ciclo de treinamento. Acho que começaremos nas
próximas vinte e quatro horas.
Reginald
Bell esperou que os três oficiais subissem a bordo e voltou a decolar em
direção ao norte. Crest e Rhodan dirigiram-se à entrada do forte. Quando
abriram o portão, Thora veio ao seu encontro. Rhodan teve a impressão de que
estava esperando. Seu olhar era rígido e sombrio; passando pelos dois homens,
dirigiu-se ao caça espacial.
— Este
aparelho pertencia a um dos nossos antigos cruzadores espaciais, não é?
Crest fez
que sim.
— Foi Rhodan
que os encontrou. São seis.
— Para vocês
homens trata-se de um achado, não é?
— E para
vocês, o que é? — perguntou
Rhodan.
Sentiu a recriminação na pergunta de Thora.
— Para nós é
roubo — respondeu Thora com a voz áspera. — Isso mesmo, Perry Rhodan: para nós
é roubo. E depois que conheci a humanidade fiquei sabendo que ela tem uma ética
semelhante. Sabemos perfeitamente que você é um ladrão, tanto aos olhos dos
homens como dos arcônidas. Aliás, onde foi buscar todo esse orgulho?
— Só me
resta muito pouco. Você me tirou quase todo. Mas ficarei com um restinho de
orgulho. Preciso dele para salvar a humanidade.
— Você fala
na salvação da humanidade, mas esquece a galáxia.
— A galáxia
terá de esperar até que consigamos estabelecer a ordem no sistema solar. Para
construirmos uma obra gigantesca, temos de começar de baixo. A mais bela das
torres desabará se não tiver um alicerce sólido.
— E este
alicerce são os homens, não são? Alguns bilhões de seres estúpidos. Acha que
são bastante fortes e amadurecidos para suportar todo um grupo de mundos?
— Acho que
são bastante jovens, Thora. Tudo depende da juventude. Das reservas de
vitalidade. O amadurecimento é um processo lento. Por que insiste em voltar
constantemente a este tema?
— Porque
fico perguntando de mim para mim se ainda sou comandante. A esta altura minha
nave é a Good Hope. É um nome terreno.
— Também é
um nome belo e esperançoso. Não gosta?
— Gostaria
de saber se ainda sou comandante — obstinou-se Thora.
— Voltará a
ser quando tiver dado provas de sua boa vontade e confiabilidade.
— Quer dizer
que sou uma prisioneira. E o nome Good Hope continua a ser um nome terreno, por
mais belo que seja.
— A imagem
dos arcônidas está modificada. Vocês se tornaram sentimentais demais para o
orgulho que andam ostentando. E, mais que tudo, tornaram-se mais fracos. O
Grande Império de vocês está caindo aos pedaços. Qual é a esperança que lhes
resta, Thora?
Thora não
respondeu.
— Fale,
Crest! — ordenou Rhodan. — Diga uma palavra definitiva de esclarecimento. Não
se esqueça do seu orgulho de arcônida. Mas deixe que a razão decida.
— A galáxia
é um mundo de caos — explicou Crest. — Nosso império chegou ao fim. Seres
insensíveis destroçam as culturas criadas por nós e a cada ano vão se aproximando
do centro do Império. A Via Láctea precisa de uma mão forte. Até aqui temos
plena consciência do curso ameaçador que os acontecimentos estão tomando.
Também tenho
consciência do papel que você, Rhodan, poderia desempenhar. Mas não sei se está
disposto a desempenhá-lo.
— Que papel
seria este?
— Você está
entusiasmado pela humanidade do planeta Terra. Ama esses poucos bilhões de
seres e faz tudo por eles. Daria a eles de bom grado o domínio de toda a
galáxia. Mas há um detalhe: o caminho do domínio para a opressão é muito curto.
— A
desconfiança é uma reação sadia, Crest, mas não o liberta do dever de decidir.
E você não pode passar sem um pinguinho de confiança. Ninguém aqui é profeta.
Basta que estejamos dispostos a dar o melhor de nós.
— Você está
disposto, Rhodan? Está disposto a permitir que também os outros tenham o seu,
desde que isso lhes caiba pelo direito da liberdade? Falarei claro e sem
rebuços, e também direi uma palavra definitiva, conforme pediu. Os homens e os
arcônidas são parecidos. Seria totalmente contrário aos nossos interesses
comuns se um belo dia uma inteligência totalmente desumana assumisse o poder
nas estrelas do nosso sistema. Quis o destino que os homens e os arcônidas se
encontrassem. Caso esteja disposto a lutar por nós todos e empenhar as forças
da humanidade a bem de toda a galáxia, você pode contar com a nossa confiança,
Rhodan.
— Estou
disposto.
II
Dali a dois
dias.
Tempestades
furiosas açoitam o hemisfério norte de Vênus, tangem a água e as massas de
nuvens para dentro dos vales cercados de montanhas e fazem com que os lagos e
os rios cubram grandes extensões de terra junto às margens.
Por entre o
relampejar ininterrupto das trovoadas rivais surgem sinais de um desempenho
matemático retilíneo: cinco caças espaciais decolaram.
Concluído o
treinamento hipnótico especializado dos pilotos de caça Freyt, Nyssen e
Deringhouse, Perry Rhodan ordenou a realização das manobras finais.
A
comunicação entre os cinco pilotos foi um verdadeiro festival de satisfação.
— O
desempenho destes aparelhos é inacreditável — disse Nyssen. — Se pensarmos que
foram construídos há mais de dez mil anos, só nos resta pedir aos engenheiros
terrenos que peçam de volta o dinheiro gasto em estudos.
— Nada de
ofensas contra qualquer grupo profissional — advertiu Bell com uma seriedade
fingida. — Se não fosse o treinamento hipnótico, este seu vôo exibicionista
também teria caído à água, capitão.
— Basta! —
soou a voz de comando de Rhodan. — Estamos saindo da atmosfera de Vênus e
passamos por cima do pólo norte a uma altitude de cento e vinte mil
quilômetros. Entrar em forma para o vôo em fila e aguardar comandos de frenagem
e mudança de rumo!
Dentro de
trinta segundos as cinco máquinas deixaram para trás a furiosa trovoada de
Vênus. Diante deles estendia-se o preto aveludado do espaço, onde a brancura do
sol formava o centro aparente. As comunicações radiofônicas voltaram a
funcionar normalmente, permitindo a captação de um emissor menos potente.
O pedido de
socorro da Terra foi captado com igual intensidade nas cinco naves.
E nas cinco
naves os pilotos souberam que o último comando de Rhodan perdera sua
finalidade.
—
...solicitamos retorno imediato. A Terceira Potência. A pedido de John
Marshall... Aqui fala a Terceira Potência. Estamos chamando Perry Rhodan. Certo
número de naves ovais, ao que tudo indica tripuladas por Deformadores
Individuais, pousaram na Lua, segundo relata a estação espacial Freedom I, e
logo depois voltaram a decolar e desapareceram no espaço. Devemos contar com
nova manobra de aproximação. Ao mesmo tempo o exército de mutantes reporta
fenômenos de deformação suspeita em personalidades expostas. Estamos fornecendo
maiores detalhes pela faixa secreta AK III. Rhodan, solicitamos retorno
imediato. A Terceira Potência, a pedido de John Marshall. Terceira potência
chamando Perry Rhodan. Naves ovais...
Perry Rhodan
ordenou o retorno imediato ao forte de Vênus. Descrevendo uma curva fechada,
que homens e máquinas só suportavam graças ao compensador automático de força
centrífuga, os caças espaciais desceram e penetraram no furacão. Mas as cúpulas
energéticas protetoras eliminavam os efeitos atmosféricos em torno das naves e
permitiram que descessem sem sofrer dano.
Na fortaleza
o ambiente também estava tenso. Crest também captara a mensagem radiofônica do
deserto de Gobi e recomendou aos homens que se preparassem para uma decolagem
de emergência.
— Tudo em
ordem! — confirmou Rhodan com um aceno de cabeça. — Faça os homens subirem,
Bell. Não é necessário que ninguém fique para trás. Não se esqueça de colocar a
bordo três dos caças espaciais. Venha, Crest! Quero ouvir o que eles têm a nos
dizer pela faixa AK III.
Rhodan e
Crest tomaram o elevador e subiram para a cabina de comando. O grande receptor
arconídico já expelira uma fita escrita. Depois de ler apressadamente alguns
nomes desconhecidos, Rhodan não prosseguiu. Ligou seu próprio receptor que,
acionado pelos impulsos pentadimensionais, funcionava a velocidade superior à
da luz, isto é, sem qualquer perda de tempo determinada pela distância. Ao
contrário do intercâmbio radiofônico normal, onde na posição atual da Terra e
de Vênus a transmissão de uma mensagem levava mais de doze minutos, a faixa
pentadimensional AK III permitia um intercâmbio instantâneo.
— Aqui fala
Perry Rhodan. Estou chamando a base de Gobi. O que houve, Marshall?
— Alô,
Rhodan. Graças a Deus que está chamando. Recebeu nossa mensagem?
— Naturalmente!
A Good Hope está pronta para decolar. Faça o favor de me dizer quais foram as
mensagens transmitidas pela faixa AK III.
— Vou colocá-lo
em contato com Mercant. Ele está aqui.
— Alô,
Rhodan. Aqui é Mercant.
— Bom dia. O
que houve?
— Há dois
dias recebi um chamado do coronel Kaats, da Polícia Federal. Há mais de um ano
está atrás do sindicato de bandidos Blue
Bird, mas a única coisa que conseguiu descobrir foi esse nome misterioso.
Finalmente conseguiu uma pista. Pelo que afirma, um dos três cabeças é um
sujeito chamado de Clive Cannon, que possui uma residência confortável na
Michigan Avenue, em Chicago.
— Isso é
muito interessante. Todavia, peço licença para salientar que a Terceira
Potência não pretende intrometer-se nos assuntos internos de outros países.
— Será que
você acha que não tenho um bom motivo para contar-lhe isso, Rhodan? Um homem do
FBI descobriu Cannon por acaso. E esse acaso por certo não deixará de ser
interessante para você. Cannon tem um pastor-alemão bem treinado. Desde o
início da semana o animal não o reconhece mais como dono. Daí não se pode
Concluir muita coisa. Há longo tempo o homem é conhecido na sociedade como
comerciante idôneo; além disso, sabia-se alguma coisa sobre seus hábitos e
relacionamentos. Pelo que diz o coronel Kaats, Cannon já não é o mesmo.
— Quer dizer
que na sua opinião os DI apossaram-se dele?
— Tenho
certeza quase absoluta. Continuaremos a manter o sindicato sob controle. Se é
que os DI apoderaram-se dele, deverá ocorrer um deslocamento de interesses
políticos e econômicos. Os invasores extraterrenos não se limitarão a
desenvolver uma atividade puramente criminal.
— O que
significam os outros nomes incluídos em sua mensagem?
— Trata-se
de suspeitos, que serão vigiados. Tenho certeza de que os DI serão bastante
inteligentes para apoderar-se em primeiro lugar das pessoas mais influentes. E
o começo é o presidente dos Estados Unidos.
— Já avisou
as potências mundiais?
— Ainda não.
Não quis tomar uma decisão dessas por minha conta.
— Pois eu
lhe ordeno que faça. O Conselho Internacional de Defesa dispõe das melhores
ligações possíveis com o comando das forças armadas do Bloco Oriental e da
Federação Asiática. Entre imediatamente em contato com Kosselov e Mao Tsen.
Avise os terráqueos de que cada um deve cuidar de seu próximo, pois o melhor
amigo poderá transformar-se no pior inimigo. Mas antes de mais nada, ponha em
ação o exército de mutantes, na medida em que está treinado. Por enquanto você
assume o comando.
— Obrigado!
Já formulei algumas sugestões e elaborei alguns detalhes sobre a atuação de
nossos homens. Mas quero ponderar que, embora sejamos dotados de capacidades
sobre-humanas, nosso número é muito reduzido. Só poderemos lançar mão de seis
ou sete pessoas. Enquanto isso a frente de ataque do inimigo abrange todo o
planeta e a humanidade inteira. Além disso, só nossos telepatas estão em
condições de reconhecer ao primeiro contato uma pessoa que se encontra sob o
poder de um DI. Precisamos de um instrumento, Rhodan.
— Sei disso
— respondeu Rhodan em tom pensativo. — Os arcônidas nos presentearam com uma
porção de instrumentos. Mas nenhum deles serve para o que estamos precisando no
momento.
— Você não
tem um rastreador de ondas cerebrais? Estou me referindo ao aparelho que Bell e
Kakuta usaram no Japão para procurar mutantes.
— O
rastreador só pode localizar cérebros que se afastam do modelo normal. Não
serviu sequer para determinar o tipo de capacidade parapsicológica de que era
dotado um mutante. Esse aparelho não nos servirá de nada.
— Deve ser
aperfeiçoado.
— Sinto-me
honrado pela confiança que deposita em mim — disse Rhodan em tom sarcástico. —
Mas não pense que sou Deus. Verei o que posso fazer.
— Tem alguma
idéia?
— Apenas uma
esperança. Exploraremos todas as possibilidades. Não deixaremos de tentar, seja
lá o que for. Para isso preciso do seu auxílio.
— O que devo
fazer?
— Fale com
Kaats e peça-lhe que deixe Clive Cannon em paz. Deve limitar-se a um tipo de
vigilância que não dê na vista.
— Procurarei
transmitir-lhe a mensagem de forma diplomática. Não acredito que aceite ordens
suas.
— Isso é
problema seu, Mercant.
Reginald
Bell anunciou que a Good Hope estava pronta para decolar. Rhodan mandou que
esperasse. O chefe da Terceira Potência tinha um traço típico: quando surgia
uma situação de alarma, costumava desenvolver uma atividade enervante em coisas
aparentemente secundárias.
— Gostaria
de ter os nervos desse homem! — gemeu o Dr. Manoli, exprimindo o sentimento de
todos.
Dali a duas
horas Rhodan finalmente subiu a bordo. Carregava uma pasta com pilhas de
cartões perfurados, positrogramas e fórmulas. Guardou-a sem dizer uma palavra.
Não fez a menor referência ao trabalho que desenvolvera junto ao cérebro.
— Os caças
espaciais estão a bordo?
— Sim! —
confirmou Freyt.
— Muito bem.
Vamos embora, Bell. Faço votos de que não gaste mais de três horas.
Reginald
Bell liberou a potência dos reatores HHE. A Good Hope acelerou lentamente para
uma velocidade de 18,2 km/seg e, uma vez fora da influência da gravitação de
Vênus, disparou para o espaço com uma força de empuxo cujo valor absoluto era
de 800.000 toneladas. A aceleração atingiu o valor máximo de 500 km/seg. Nem
por isso seria possível atingir, numa viagem curta como a de Vênus à Terra, uma
velocidade próxima à da luz. Todavia, talvez Reginald Bell conseguisse cumprir
o desejo de Rhodan, que pedira uma viagem-relâmpago.
Depois de
uma hora de viagem foram ligados os instrumentos de localização de velocidade
superior à da luz que, graças ao impulso pentadimensional de que eram dotados,
não poderiam ser reconhecidos por um eventual atacante localizado no universo
normal. A desvantagem desse tipo de observação consistia no fato de só permitir
a exploração de setores limitados do espaço. Havia amplas regiões do espaço
quadridimensional, situadas sobre a linha direta da luz, que ficavam fora do
alcance da observação. Por isso realizava-se uma observação paralela pelo
radar, que na distância atual trabalhava com alguns minutos de atraso.
Logo se
verificou que as providências adotadas por Rhodan eram acertadas. Sempre que os
DI aparecem e voltam a desaparecer espontaneamente, deve-se contar a qualquer
momento com um novo ataque.
Quando
haviam atingido a velocidade máxima e Bell já se preparava para inverter a
aceleração, iniciando a frenagem, a tela de radar mostrou duas naves ovais.
— São os DI!
— foi o grito saído de muitas bocas. — Dirigem-se à Lua.
— Pode ser
coincidência. É possível que estejam voando diretamente para a Terra. Ligue a
mira automática, Bell.
Os raios
tateadores atravessaram o hiperespaço a velocidade superior à da luz e
alcançaram o alvo cuja posição aproximada já era conhecida. Dentro de poucos
segundos ajustaram-se ao inimigo. As células de reação de contato garantiam que
o raio direcional não mais largaria as naves dos DI, fossem quais fossem as
manobras diversionistas que realizassem.
— Distância:
vinte e cinco milhões de quilômetros da Terra, quarenta e quatro milhões de
quilômetros das naves dos DI.
— Qual é a
distância entre os DI e a Terra?
— Menos de
dezoito milhões de quilômetros.
— Só isso? O
cartograma, por favor! — ordenou Rhodan.
A luz fosca
de uma lâmina vermelha iluminou-se no painel de comando.
— Ângulo
entre os DI e a Terra exatamente oito graus, quarenta e cinco minutos e trinta
segundos — disse Bell — Os DI voam em direção quase oposta à nossa, pois vêm
praticamente do outro lado. A velocidade deles é ligeiramente inferior à nossa.
Também já iniciaram a manobra de frenagem.
— Uma
simples estimativa não nos serve de nada.
— Nunca se
pode saber antes o que o inimigo vai fazer. No momento prosseguem normalmente;
ao que parece ainda não sabem que foram descobertos. Assim que nos localizarem,
deverão acelerar de novo. Você já viu com que empuxo essa gente trabalha.
— Não
assumiremos o menor risco. Mantenha a aceleração positiva por mais dez minutos.
Se necessário passaremos ao lado da Terra. Freyt!
— Sim.
— Prepare-se
para decolar juntamente com Nyssen e Deringhouse. Os três aparelhos conduzirão
o armamento completo.
— Cada caça
já traz a bordo uma bomba-foguete com carga nuclear. Os canhões de radiação
estão em condições de funcionar.
— Muito bem.
Já conhecem a situação. Pretendo pegar as duas naves antes que atinjam a Terra.
Enquanto for possível, a Good Hope prosseguirá sem aceleração negativa de
frenagem. Assim que invertermos a aceleração, vocês deixam a nave nos seus
caças e prosseguem, voltando a acelerar. Prendam-se bem entre os colchões
pneumáticos, pois é bem provável que no momento da pontaria tenham de
desacelerar em 500 km/seg. Os projetores antigravitacionais não poderão
compensar isso.
— Fui
treinado em 20g e até mais.
— Isso é
bom, mas é pouco para os valores de aceleração usados pelos arcônidas. Só lhes
posso recomendar que se cuidem e não exagerem. Assim que perceberem que os
antígravos não dão mais conta do recado, reduzam a força dos reatores. Quero
que o inimigo seja destruído, mas o mais importante é que vocês e os três caças
voltem sãos e salvos. São muito valiosos para mim.
— Sim! —
responderam os três oficiais.
Fizeram
continência e retiraram-se.
* * *
Tudo
decorreu com extrema precisão. Pelo menos no início. Segundo as informações de
Crest, o sistema de alarma dos DI era menos aperfeiçoado, e seus instrumentos
de localização tinham um alcance de menos de dez milhões de quilômetros. Dali a
pouco a Good Hope teria que desacelerar, para dar a precedência aos caças
espaciais que, graças às superfícies refletoras, tinham boa chance de se
aproximar mais um pedaço do inimigo sem serem detectados.
E tinham de
aproximar-se sem serem detectados para terem alguma chance de êxito. A força
dos DI eram as cúpulas energéticas, que podiam cercar a nave em poucos
segundos. E um canhão de radiação dos arcônidas nada poderia contra elas. Outro
fator de vantagem dos DI era a extrema maleabilidade de suas naves. Assim que
descobrissem que um dos seus ataques traiçoeiros fora descoberto e, portanto,
frustrado, recorriam à fuga. E isso de nada adiantava aos homens. Um DI voltaria
depois de ter fugido. Surgiria a qualquer momento, em qualquer lugar. E então o
fator surpresa estaria novamente de seu lado.
— Alô,
Freyt! Avise quando estiver pronto para decolar! — gritou Perry Rhodan.
— Os três
caças estão prontos para passar pela comporta.
— Muito bem!
Ligue os reatores. Acelere, conforme combinamos. Dentro de vinte segundos a
Good Hope vai desacelerar. Aí vocês já deverão estar do lado de fora.
Assim que
Reginald Bell inverteu os jatos, dando início à desaceleração, três minúsculos
pontinhos cinzentos desapareceram no espaço. Dentro de poucos segundos cessaram
os efeitos luminosos produzidos pelas superfícies metálicas dos caças sobre as
telas de observação visual. Outro super-raio localizador atingiu-os pela quinta
dimensão, tornando-os visíveis aos ocupantes da nave.
Estabeleceram
contato radiofônico pela faixa AK III. Não haveria possibilidade de detectá-lo
no espaço contínuo quadridimensional.
Perry Rhodan
observaria todas as fases do confronto que se aproximava. Se necessário, anunciaria
modificações estratégicas.
— Mudar o
rumo dois graus para estibordo! — foi a ordem que se seguiu.
Bell estava
surpreso, pois esperara poder conduzir a Good Hope para casa ao seu bel-prazer.
Mas ao que parecia ela ainda tinha um papel a desempenhar nos planos de Rhodan.
Executou a manobra sem discutir.
A maior
parte das pessoas que se encontravam a bordo imaginaram o que Rhodan pretendia
com a mudança de rumo. Mas só tiveram certeza quando chamou Freyt.
— Mantenho o
mesmo rumo, tenente. Levamos a Good Hope dois graus para estibordo. Com isso
devemos aparecer a uma distância de seis milhões de quilômetros do seu ponto de
encontro com os DI. Além disso, daqui a pouco iremos a uma velocidade bastante
reduzida, para atrair a atenção do inimigo. Com isso serão maiores as chances
de vocês se aproximarem sem serem percebidos. Boa sorte!
Dali a
quarenta e oito minutos uma manobra dos DI fez concluir que a Good Hope fora
descoberta.
— Não perca
a calma, meu filho! — disse Rhodan. “Meu filho” era Bell. — Prosseguiremos sem
mudar de rumo. Também manteremos a mesma desaceleração. O inimigo pensará que
procuramos atingir um ponto situado além da Terra. Se continuarmos assim, só
poderá pensar que não o descobrimos.
Logo se
ouviram as mensagens de comando de Freyt. As pessoas que se encontravam a bordo
da Good Hope acompanharam-nas pela superfaixa AK IH.
— Abrir um
grau. Nyssen para bom-bordo. Deringhouse para estibordo. Nyssen, aumente a
aceleração em dois km/seg. Deringhouse, reduza em dois km/seg. Você se encarregará
do primeiro, isso se eu falhar. Nyssen atacará o segundo.
— O.K.!
Entendido!
A fileira de
caças espaciais abriu-se em leque. Depois de modificada a aceleração, voavam um
atrás do outro, em diagonal. O capitão Rod Nyssen ia na ponta. Teria de passar
pelo primeiro inimigo para abrir fogo contra o segundo, antes que fosse
prevenido pelo ataque contra a primeira nave.
Os DI
limitaram-se a uma mudança insignificante de rumo. Ao que parecia tratava-se de
uma reação instintiva, provocada pelo surgimento da nave dos arcônidas. Como
Rhodan prosseguisse no mesmo rumo, os DI tornaram-se mais confiantes e,
mantendo a mesma desaceleração, prosseguiram na direção Lua—Terra.
Os três
caças espaciais, submetidos a uma aceleração constante, haviam atingido uma
velocidade próxima à da luz. Para estabilizar a massa que tendia para o
infinito, os astronautas proporcionaram um apoio adicional ao raio de
partículas, injetando um elemento de sustentação no mecanismo propulsor. Com
isso se atingiam velocidades que excediam tudo que o homem jamais vira no
sistema solar.
O mais
importante era que o inimigo não contava com esse ataque súbito.
A distância
prevista de dois milhões de quilômetros os caças abriram fogo com seus canhões
de radiação. Ao mesmo tempo Nyssen e Freyt lançaram os torpedos espaciais com
carga nuclear.
Os DI não
tiveram tempo de levantar a cúpula energética. Quando viram a luminosidade dos
canhões, já era tarde. A onda mortal aproximou-se com a velocidade da luz.
As duas
naves desmancharam-se em pura energia.
Os três
astronautas não tiveram tempo para apreciar o espetáculo infernal. Os caças
também corriam perigo. A enorme velocidade aproximava-os a cada instante
daquela fornalha de energias em fúria.
Imediatamente
após o disparo tiveram de eliminar toda a aceleração e mudar de rumo. Com isso
surgiu uma pressão lateral que perdurou por mais de quinze segundos.
Os
astronautas jaziam imóveis nas suas poltronas anatômicas e contaram
instintivamente até quinze. Só ao chegarem a esse número em plena consciência
souberam que estavam salvos.
— Iniciar
manobra de frenagem! — A voz de comando de Perry Rhodan soou abruptamente nas
pequenas cabinas pressurizadas. — Foi um trabalho muito bem feito, cavalheiros.
Sigam um curso comum e retornem à Terra assim que tiverem atingido uma
velocidade que permita o pouso. Encontramo-nos na órbita lunar, onde voltaremos
a recolhê-los a bordo da Good Hope.
Os homens
que se encontravam a bordo da Good Hope dispuseram-se a uma soneca
reconfortante. Foi quando subitamente o hiperlocalizador voltou a reagir.
— Que
inferno! O que será isso? — suspirou Reginald Bell.
— Sem dúvida
é um objeto voador — explicou Crest. — E procede exatamente do setor do espaço
que os três caças acabam de abastecer com energia. Deve ser uma nave
salva-vidas dos DI. Trata-se de veículos menores que nossos caças, e que podem
abrigar no máximo dez seres.
— É
impossível. Nosso ataque destruiu tudo que...
— Não se
exalte. Esse veículo praticamente não conduz nenhum armamento. Não pode
fazer-nos nenhum mal.
— Não se
trata disso, Crest. Trata-se de saber como é que alguém conseguiu escapar.
— Tenho
certeza de que não tiveram tempo para decolar da nave — constatou Perry Rhodan.
— É verdade
— confirmou Crest. Suponho que a nave já tenha sido tirada de bordo antes, para
cumprir uma missão especial. Vamos segui-la por algum tempo. Já podemos
permitir-nos esse luxo.
A minúscula
nave salva-vidas dos DI tomara o curso da Lua. Rhodan voltou a estabelecer
contato com Michael Freyt. Os três caças voltaram, depois de descrever uma
curva de 800.000
quilômetros de raio e dentro de noventa minutos
atingiram, pouco antes da nave esférica dos arcônidas, a órbita previamente
indicada.
— Freyt,
pelos meus cálculos é você que se encontra mais próximo da nave.
— Sim,
Rhodan.
— Peço-lhe
que se ponha a persegui-la. Nada de ataque. Sempre será possível pegar uma
mosca dessas, enquanto não se dirigir diretamente à Terra. Gostaria de receber
as coordenadas exatas do local de pouso.
— Correto!
Quais são as instruções para Nyssen e Deringhouse?
— Podem se aproximar.
Vamos abrir as comportas.
A nave dos DI
foi submetida a uma dupla vigilância. Além do tenente, também o raio
hiperlocalizador ficou grudado nela. E as pessoas que se encontravam na nave,
inclusive Thora, acompanhavam com o maior interesse todos os seus movimentos.
Freyt
acelerou e chegou bem perto do inimigo.
— Tenha
cuidado, tenente! É possível que os DI disponham de uma base fixa na Lua. De lá
você poderia ser alvejado.
— O.K.!
Cuidarei. Está nos seguindo?
— Sim, por
precaução. Mas nem por isso você deve relaxar.
Freyt riu.
— Com o
equipamento de que disponho aqui tenho pouca chance de relaxar. Quero
experimentar tudo. Tenho, por exemplo, uma câmera maravilhosa que permite tirar
quinhentas fotografias por segundo. Ela alcança freqüências que vão do
infravermelho ao ultravioleta e é dotada de um cérebro positrônico rastreador
físico-químico, além de ter um revelador embutido que libera as fotografias
imediatamente. Quer que eu leve um filme?
— A idéia
não é má. Trabalhe com a câmera.
Realmente o
tenente Freyt operou um filme aproveitável.
A nave dos DI
desaparecera na face oculta da Lua, na altura da linha equatorial. As medições
realizadas por Freyt indicavam a área da cratera de Mendelejew, no 80o
grau de longitude. Estranhamente naquele lugar havia vestígios de metal que,
segundo o cérebro positrônico, não ocorriam em estado natural.
— Quer dizer
que conseguimos localizá-los — constatou Eric Manoli. — Convém cuidar deles.
— É o que
vamos fazer. Mas não quero arriscar a vida de qualquer homem.
— Usaremos
robôs. Acho que com eles os DI vão quebrar os dentes.
Pouco tempo
depois a Good Hope desembarcou na cratera Anaxágoras um contingente de tropas
robotizadas completamente equipado, que foi incumbido de missões de
esclarecimento de âmbito restrito. Seu raio de ação era de seis mil
quilômetros.
III
A Good Hope
pousou num verdadeiro ninho de marimbondos.
O ninho de
marimbondos era o território da Terceira Potência, situado no deserto de Gobi.
É bem verdade que a designação “deserto” já não era correta. A desolação e a
solidão haviam desaparecido. Além da cúpula energética de dez quilômetros de
diâmetro outros dez mil quilômetros quadrados de terra foram incluídos no plano
de cultivo. Centenas de técnicos e trabalhadores especializados ajudados por um
exército de robôs estavam ocupados na montagem de um complexo industrial
integrado.
A terra
florescia. Chuvas artificiais puseram fim à seca eterna. O oásis natural
crescera, atraindo um número cada vez maior de camponeses mongóis, que montavam
suas tendas junto aos limites do território da Terceira Potência, a fim de
aproveitar o milagre do paraíso que ia crescendo aos poucos.
Visto de
cima, o conjunto oferecia um quadro encantador. Por alguns minutos a esfera
arconídica flutuou a pequena altura acima daquela azáfama, seguindo a sugestão
de Allan D. Mercant, que se opusera decididamente a um pouso fora da cúpula
energética.
— Você me
mete medo — disse Rhodan. — Estou interessado em saber o que aconteceu no
território da Terceira Potência. Pelo que vejo, muita coisa boa e positiva foi
feita. Será que tudo isso muda de figura quando nos aproximamos?
— Faça a
nave pousar, Rhodan. Depois que os DI fizeram sua mais recente aparição, não
permiti que a cúpula fosse aberta.
— Não estão
precisando de você no quartel-general da Groenlândia?
— Em toda a
parte precisam de mim. Mas jurei ficar aqui até que você retornasse. Mandarei
abrir a cúpula. Por três segundos no máximo. O risco é muito grande.
— Não haverá
problema.
Reginald
Bell executou um pouso exemplar.
No campo de
pouso foram recebidos pelos colaboradores mais chegados.
Mercant
aproximou-se. Estava acompanhado de John Marshall e do Dr. Haggard. Rhodan
apertou-lhes a mão.
— Fale logo,
Mercant! O que houve?
— Se
examinar os jornais de hoje, encontrará pelo menos trezentos casos de gente que
é suspeita de ter sido apossada pelos DI. Mesmo que em noventa por cento dos
casos isso não passe de fantasia, ainda há motivo mais que suficiente para nos
alarmarmos. Para mim os casos não reportados são os mais perigosos.
— Em poucas
palavras, receia um ataque em massa contra a Terceira Potência.
— Isso está
na cara. O primeiro DI que se apossar de um grande político ou economista
estará orientado sobre o significado de nossa nação. Quem quiser dominar a
Terra terá que dominar a Terceira Potência. É uma conclusão perfeitamente
lógica.
— É verdade.
Foi por isso que determinou o bloqueio total entre a cúpula e os territórios
adjacentes.
— Não
dispomos de meios para controlar todo o território e evitar uma infiltração.
Por isso limitamo-nos à cúpula. Enquanto o cerne continuar intacto, disporemos
de um núcleo sadio para revidar qualquer golpe.
— Estou
satisfeito com sua atuação. O que você acha que devemos fazer daqui por diante?
Segundo deduzi do nosso contato pela faixa AK III, você já tomou algumas
providências.
— Falei com
os colegas do Bloco Oriental e da Federação Asiática. Submeterão nossas
propostas aos respectivos governos.
— Isso me
cheira a burocracia.
— Desta vez
tudo será mais rápido. A estação espacial Freedom I observou seu combate com as
naves dos DI. A notícia dessa vitória estrondosa já se encontra em todas as
agências de notícias do mundo. Todos reconhecem o perigo. A idéia até chegou a
ser propagada excessivamente e entregue às massas. Por isso torna-se difícil
reprimir as manifestações de pânico. As potências não tiveram outra alternativa
senão decretar o estado de exceção. Acontece que essa desconfiança de homem
para homem não nos ajudará em nada. Há meia hora a rádio de Cingapura
transmitiu a notícia de que em Manila um homem matou a esposa porque, segundo
diz, estava possuída. Mas os vizinhos informam que o casamento não estava dando
certo. Quem poderá fazer prevalecer o direito, se um homem mata o outro e dá a
culpa aos DI?
— Precisamos
de uma força policial — disse Rhodan. — Quero que seja recrutada entre os
homens de seu serviço secreto. Por enquanto teremos de nos contentar com
quinhentos homens.
— Quinhentos?
— exclamou Mercant apavorado.
— Quinhentos
— confirmou Rhodan com um ligeiro sorriso. — Afinal, o que são quinhentos
homens em comparação com o problema que estamos enfrentando e os numerosos
problemas que teremos de enfrentar no futuro? Não devemos ser otimistas a ponto
de supor que todas as posições podem ser preenchidas com mutantes. O número dos
mutantes positivos nem chega a tanto.
— Arranjarei
os quinhentos homens. Dentro de uma semana aproximadamente. Mas não lhe garanto
que entre eles não haja nenhum elemento possuído pelos DI.
— Não exijo
tanto. Você não deve ver as coisas tão pretas. Se apenas um dos seus quinhentos
homens for um possuído, isso significa que os DI já se apossaram de um em cada
quinhentos habitantes da Terra. Não é nada provável que a percentagem seja tão
grande.
— Permita
que conteste esse seu cálculo de probabilidades — disse Mercant. — Já chegamos
à conclusão de que os DI agem racionalmente, que não mexem na grande massa de
pessoas que não exercem qualquer influência. A meu ver, além dos políticos e
dos economistas, as pessoas preferidas pelos DI devem ser os agentes secretos.
— Você é
teimoso, Mercant — disse Rhodan com um sorriso. — Faz questão de abordar um
tema que só estará maduro dentro de uma semana. Vamos adiar esta discussão por
sete dias. Talvez então tenhamos uma base bem mais sólida que hoje.
— Na sua
opinião conseguirá descobrir tão depressa uma possibilidade de identificar as
pessoas possuídas pelos DI?
— Ainda não
dispomos de um profeta em nosso exército de mutantes. Só disponho de planos e
esperanças. Fiquemos nos fatos do presente. Cada um tem sua tarefa. A sua consiste
em arranjar quinhentos policiais que mereçam toda confiança. De início
procederá segundo o regulamento a que já está sujeito. Nenhum estranho pode
penetrar na cúpula energética. Todos os elementos novos serão alojados fora
dela. Na área central só podem penetrar homens e mulheres que já tenham provado
serem elementos de primeira ordem, merecedores de toda confiança. Quem posso
nomear como seu assistente?
— Gostaria
que fosse um mutante.
— Que tal
Marshall?
— Bem,
simpatizo com ele. Acontece que eu mesmo entendo um pouco de telepatia. Preciso
de um teleportador. Assim nos completaríamos mutuamente.
— Está bem.
Leve Tako Kakuta. Qual é seu itinerário?
— De início
terei de ir à Groenlândia. Dali vou a Nova Iorque e possivelmente a Washington.
— Muito bem.
Desejo-lhe uma boa viagem. Quando tiver alguma mensagem importante, procure
ater-se às horas combinadas para o tráfego radiofônico, para que não tenhamos
de abandonar o trabalho a todo instante. Mas quando se tratar de um assunto
inadiável, estarei à sua disposição a qualquer hora.
Enquanto
Mercant e Kakuta se preparavam para a viagem, Rhodan classificou os dados
resultantes de sua última palestra com o cérebro robotizado estacionado em
Vênus.
— Companheiros
— disse Perry depois de algum tempo. — Acho que não há necessidade de fazer um
discurso. Todos conhecem a situação. Defrontamo-nos com um inimigo mais
traiçoeiro que qualquer um com que a humanidade já se viu a braços. Não
conhecemos sua força numérica, nem sua posição. Não sabemos onde fica o front; a única coisa que sabemos é que
se estende em inúmeras ramificações, e pode passar pelo nosso acampamento. Um
ataque contra os DI só se justifica no espaço, onde podemos localizar suas
naves. Ainda temos de preparar a luta em terra. Antes de golpearmos aqui, temos
de conhecer a situação do front. No
momento nos defrontamos com duas necessidades de ordem estratégica. Uma é a
vigilância espacial e o reconhecimento em terra. Tenente Freyt!
— Sim,
Rhodan!
— Nos
próximos dias você terá uma missão muito difícil. É imprescindível que a
qualquer hora do dia e da noite um comando de dois caças espaciais patrulhe o
espaço até uma altitude de quinhentos mil quilômetros. Você vai se encarregar
disso juntamente com o capitão Nyssen e o tenente Deringhouse. Só um de vocês poderá
ficar de folga de cada vez. Combinem entre si.
— Correto!
— Muito
obrigado! Espero que decolem dentro de cinco minutos.
Os três
astronautas saíram da sala.
— Agora
você, Dr. Haggard. Quero que se recolha em si mesmo e procure pensar sobre as
possibilidades, puramente teóricas, de atingir os DI segundo sua biologia. Se
as instalações de seu laboratório não forem suficientes, avise imediatamente. O
dinheiro e o material não serão nenhum problema.
— Sinto-me
honrado com a sua confiança. Mas não espere muito deste tipo de trabalho, que
deve ser considerado de pesquisa pura. E uma pesquisa num terreno inteiramente
novo pode levar anos.
— Não fixei
prazo, doutor. Está claro? Aliás, faço questão de que os mutantes continuem a
dispor de assistência médica. Prepare essa gente para uma próxima transferência
para Vênus, onde serão submetidos a um treinamento final.
— Me
dedicarei ao trabalho teórico, sem prejuízo das tarefas que tenho de executar.
Se fizer questão de uma solução rápida, peço-lhe que faça o possível para
providenciar o material necessário.
— Que
material é este?
— Um
Deformador Individual, ou seu cadáver, e um homem possuído.
— Verei o
que posso fazer.
Com isso o
Dr. Haggard foi dispensado. Perry Rhodan e Reginald Bell estavam a sós.
— Agora
chegou minha vez — disse Bell laconicamente. — Não seria conveniente reforçar
os vôos de patrulhamento? — sugeriu.
— Você
gostaria de acompanhar Freyt?
— Não pense
que é porque isso me dá prazer. A tarefa de Freyt é a mais importante. Temos de
impedir a todo custo qualquer novo pouso dos DI, pois sem isso os contragolpes
que teremos de preparar com um trabalho extenuante chegarão tarde. Até você
lutará em vão contra um mundo de DI.
— Não
subestimo a tarefa de Freyt.
— Mas ele
terá de dar conta dela juntamente com Nyssen e Deringhouse. De você precisamos
para o novo comando.
— Mercant
cuidará disso.
— Ele vai
conseguir apenas quinhentos homens dentro de uma semana, e ainda teremos de
verificar se os mesmos nos servem. Depois de dois ou três testes não sobrarão
muitos. Você terá de arranjar mais uns quinhentos ou mil voluntários. Também
dentro de uma semana.
— Como
poderei fazer isso? Não disponho de uma organização montada, como Mercant, onde
poderia recrutar minha gente.
— Você
precisa de voluntários. Voluntários de todo o mundo. Só os agentes não nos
servirão de muita coisa, mesmo que sejam superdotados. Precisamos de soldados,
técnicos, cientistas, juristas.
— Suas
exigências aumentam de dia para dia. Já lhe disse que não disponho de ligações
pessoais que...
— Se quiser
coloque anúncios de página inteira nos jornais mais importantes. Você pode
arranjar isso com Adams em Nova Iorque. Ele dispõe de relações.
— Quer dizer
que vou a Nova Iorque?
— Entre
outros lugares. Antes irá a Chicago. Mais precisamente, à Michigan Avenue.
— Devo
procurar Clive Cannon?
— Isso
mesmo. Cannon está sendo vigiado pela polícia secreta federal. Se o coronel
Kaats seguiu as minhas recomendações, nada aconteceu ao chefe dos gângsteres.
— O que devo
fazer quando estiver diante de Cannon?
— Você vai
convidá-lo para uma temporada no deserto de Gobi.
— Acho que
não vai fazer muita questão disso.
— Será que
não? Como homem possuído pelos DI deve estar doido para pôr os pés aqui.
— Mas ficará
desconfiado. Até mesmo um patife menos sagaz que ele perceberá logo o que
significa um convite desse tipo. Acho que um golpe de violência teria melhores
possibilidades de êxito.
— Não lhe
dito regras sobre como deve proceder. Preciso de Cannon aqui. E preciso dele
vivo.
— Quem posso
levar comigo?
— Quem
gostaria de levar?
— John
Marshall.
— Concedido.
Arrume as malas. E avise Marshall. Ainda quero falar com vocês antes de
partirem.
* * *

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