sexta-feira, 12 de outubro de 2012

P-009 - Socorro Para a Terra - W. W. Shols [parte 1]


autor
W. W. SHOLS


Tradução de
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN





Perry Rhodan foi a Vênus na Good Hope, uma das naves auxiliares do cruzador dos arcônidas destruído na Lua, a fim de instalar uma base e um centro de treinamento da Terceira Potência. Naquele planeta descobriu um segredo mais velho que a história da humanidade — tão velho que nem os arcônidas Crest e Thora sabiam dele.
Tratava-se de uma gigantesca central arconídica, dirigida por robôs, que atravessou os milênios e continua a funcionar tão bem como no dia em que foi construída.
É claro que essa descoberta representa um aumento enorme do poderio da Terceira Potência, que bem precisa disso, pois numa mensagem radiofônica que Perry Rhodan recebe em Vênus pede-se com urgência Socorro Para a Terra.







 = = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = = =


Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência.

Reginald Bell — Melhor amigo e principal colaborador de Perry Rhodan.

Crest e Thora — Únicos sobreviventes da expedição espacial dos arcônidas.

Freyt, Nyssen e Deringhouse — Ex-pilotos da Força Espacial dos Estados Unidos.

Homer G. Adams — Cuja tarefa consiste em obter dinheiro para a Terceira Potência.

Clive Cannon — Chefe de um grupo de gangsteres. Pelo que dizem, os DI apossaram-se dele.

John Marshall — Telepata pertencente ao exército dos mutantes.

I


Perry Rhodan comprimiu o botão vermelho com a estranha gravura branca. O sinal lembrava a letra F do alfabeto rúnico. Mas a essa hora pouco importava sua origem. Bastava saber que designava o botão que cortava o suprimento de energia do supercérebro positrônico.
A vibração monótona, só perceptível ao subconsciente, cessou. A série de luzes de controle com seu brilho mágico apagou-se. As membranas sonoras imobilizaram-se. O maior e mais potente dos cérebros positrônicos jamais instalados no sistema solar corria em ponto morto.
Perry Rhodan reclinou-se exausto. O diálogo com aquela máquina quase onisciente chegara ao fim. O silêncio que se espalhou pela caverna do subsolo de Vênus foi interrompido por outro zumbido. Rhodan acionou o aparelho de intercomunicação.
— Quem é?
— Sou eu.
A voz rouca de Reginald Bell não permitia a menor dúvida sobre a identidade da pessoa que se ocultava detrás da palavra “eu”. Sem levantar-se, Rhodan destravou a porta.
— Entre, Bell!
— Que diabo, Perry! Você me mete medo. Faz mais de vinte e quatro horas que se trancou nesta caverna misteriosa. Até parece que está no encalço do mistério fundamental do universo.
— Nunca deixamos de andar no encalço dele. Se não conseguimos aproximar-nos é porque o mistério está muito distante.
— Aposto que não comeu nada.
— Pois está enganado! Tinha comigo uma ração diária de alimentos desidratados. Já não posso me dar ao luxo de cometer os pequenos enganos do dia-a-dia.
— Mas acho que você está nutrindo uma falsa ambição ao...
— Também não me posso dar ao luxo das falsas ambições. Nenhum de nós pode.
— Toquei a campainha ontem de noite. Hoje de manhã toquei três vezes, e agora estava diante da porta há mais de duas horas, sem conseguir entrar. Por que não abriu?
— Porque não sabia que você estava lá fora. Não queria ser perturbado. O cérebro está regulado de tal forma que as reações vindas de fora penetram nele, enquanto está ativado.
— Dizem que nestes últimos dias você andou fazendo um bom número de regulagens neste cérebro. É verdade?
— Não sei a que está se referindo. Exprima-se com mais clareza.
— Crest falou no modelo das suas ondas cerebrais. Afirma que é bem possível que você conheça suas freqüências pessoais...
— E daí? Por enquanto suas insinuações continuam bastante confusas. Acho que não estarei errado ao supor que logo ouvirei uma recriminação.
— Acho que por aqui ninguém se julga com direito de dirigir recriminações a você.
— É por medo, não é? Mas sempre existe um pouco de inveja.
Bell não conseguiu enfrentar o olhar penetrante de Rhodan. Pegou um cigarro, que o fez recuperar um pouco da sua autoconfiança.
— Sempre há um pouco de inveja.
— Acontece que o pessoal confia em você. Sabem que é o mais forte entre nós. Sentem-se satisfeitos porque ainda existe uma pessoa à qual podem recorrer quando não sabem mais como agir diante dos problemas.
— O.K.! — confirmou Perry Rhodan. — Conheço minhas freqüências, e este cérebro robotizado foi regulado para elas. Nunca me deparei com tamanho volume de saber prestes a revelar-se a mim. Apesar disso ainda não consegui solucionar o problema. Penso em termos arconídicos, na medida em que isso é possível a alguém que carrega a condição humana desde o nascimento. Procuro raciocinar com o espírito de quem construiu esta máquina, mas defronto-me com problemas de semântica. Afinal, não podemos alcançar a interpretação do saber arconídico de um dia para outro. Não possuímos a consciência do passado dos arcônidas. Bell, você não tem nenhum motivo para invejar-me. Um diálogo de vinte e quatro horas com este cérebro representa um massacre físico e intelectual.
— Valeu a pena? — a pergunta de Bell exprimia curiosidade e esperança.
Perry Rhodan fez que sim.
— Nesta montanha existem hangares ocultos. O cérebro aludiu a seis naves espaciais.
— Isso seria mais do que os arcônidas desejam. Thora e Crest só precisam de uma nave para voltar para casa. Você não se entusiasma com essa perspectiva, não é?
— Preciso encontrar as naves.
— Mas não lhe faria nenhuma diferença se não as encontrasse. Sei perfeitamente o que está pensando, Perry. Precisamos de Thora e de Crest. Precisamos deles no planeta Terra e no nosso sistema solar, não a uma distância de trinta e quatro mil anos-luz. Se eu fosse você, não diria nada sobre a existência dessas naves.
— Acha que devo começar um jogo de intrigas? Acha que devo enganar e lograr os arcônidas, aos quais a Terra deve sua união política? Devo retribuir sua amizade por meio de uma prisão indireta? Não acredito que esse tipo de comportamento concorreria para promover o entendimento entre as duas raças.
— Para você seria uma traição; para mim, um ato de diplomacia.
Perry Rhodan fez um movimento violento com a mão, para espantar qualquer ambigüidade sobre seu ponto de vista.
— Localizaremos o que puder ser localizado, Bell. Não há dúvida de que devemos conservar Thora e Crest ao nosso lado para fortalecer a posição da humanidade e do planeta Terra. Mas nem por isso podemos cometer uma traição contra nossos amigos. Os hangares devem ficar ao norte. Vamos procurá-los; você virá comigo.
— Seis naves! — exclamou Bell espantado. — Nelas poderíamos transportar todo o pessoal da Terceira Potência. Conforme as circunstâncias seis naves arconídicas dariam para percorrer toda a galáxia.
— Então você estaria disposto a bater em retirada? Sabe o que aconteceria se eliminássemos a Terceira Potência?
— Aconteceria mais ou menos a mesma coisa que tem acontecido nos milênios da história da humanidade. Seria uma sucessão de inveja, malquerença, sede de mando, guerras. Talvez só houvesse mais uma guerra. A guerra definitiva.
— Então você sabe muito bem. Acontece que também somos homens, e por isso vamos desistir do cruzeiro pela galáxia, mesmo que as seis naves arconídicas estejam em condições de decolar.
Saíram. Perry Rhodan trancou a sala em que estava abrigado o cérebro positrônico, usando um novo código. Só ele o conhecia.
Diante deles abriu-se um labirinto cavernoso. Fazia mais de um mês que estavam no interior daquela montanha situada no hemisfério norte de Vênus. E fazia mais de um mês que se encontravam na pista dessa última testemunha de uma colônia arconídica de há muito caída no esquecimento.
Para termos uma .idéia dos acontecimentos, devemos recuar mais de dez mil anos na história da humanidade.
Quando Árcon se encontrava no auge, numa época em que seus habitantes ainda não apresentavam o menor sinal de degenerescência, uma nave expedicionária tripulada com mais de cem arcônidas pousara em Vênus e instalara aquela fortaleza de retaguarda. O raio de fusão atômica abrira um labirinto de corredores na rocha da montanha, fazendo surgir uma verdadeira cidade, que não podia ser vista do lado de fora. As instalações correspondiam em toda linha ao elevado nível da civilização e da tecnologia dos arcônidas. Para o homem do vigésimo século terreno eram algo de fabuloso e inacreditável, como o quadro vago do futuro distante da própria humanidade.
Ainda por outro motivo eram fabulosas.
Ao se depararem com elas, parecia que penetravam no castelo da bela adormecida. Os arcônidas daquela época já não existiam. Haviam descoberto a Terra e verificaram que era um mundo ideal para a colonização. A nova colônia dos emigrantes arconídicos surgira na Atlântida. Proporcionara uma época de elevado desenvolvimento tecnológico à Terra, mas submergira com o continente situado entre a África e a América.
Embora nessas quatro semanas os homens já tivessem tido tempo de acostumar-se ao novo ambiente, não podiam deixar de evocar constantemente essas ligações históricas.
— Não posso compreender que possam estar mortos — disse Reginald Bell enquanto subiam numa vagoneta que trafegava numa das vias principais da cidade subvenusiana. — Será que todos viviam na Terra quando a catástrofe diluviana irrompeu sobre a Atlântida?
— É de supor que sim — respondeu Rhodan. — Mas tenho minhas dúvidas. Em Árcon não sabiam nada sobre a base de Vênus e sobre a colônia terrena. É bem possível que o cérebro montado na base venusiana nunca tenha tomado conhecimento de certos fatos importantes. Dependia das informações orais que lhe fossem transmitidas — esboçou um sorriso misterioso. — Os centros de memória falaram em ocorrências inexplicáveis que tiveram lugar em Vênus, em seres invisíveis que andaram pelas proximidades. É possível que a informação tenha sido ministrada por algum elemento perturbado que tenha permanecido aqui, nunca devemos esquecê-la, embora para nós só possa ter uma importância histórica.
— É claro que já compreendi a teoria concebida por você. Mas tenho lá minhas desconfianças. É bem possível que tudo se tenha passado de forma bem diferente.
— Queira explicar o motivo das suas desconfianças.
— Ora, é simples. Crest e Thora conseguiram convencer-nos de que esta base foi instalada por emigrantes que aqui aportaram numa nave arconídica. E agora você me fala em seis naves que estariam escondidas por aqui. Seis naves são uma frota. Se neste planeta chegaram a pousar seis naves arconídicas completas, não resta a menor dúvida que a base mantinha contato permanente com seu mundo natal. Dali se conclui que Thora e Crest mentiram.
— Você não devia ter proferido esta última frase. Só teremos uma conclusão desse tipo quando tivermos certeza de que os dados que induzem suspeitas são corretos.
Bell percebeu que Rhodan não estava disposto a prosseguir num debate apoiado apenas em probabilidades. Por isso ficou calado, reclinando-se na poltrona do pequeno veículo que os conduzia. Seguiu por um corredor secundário longo e retilíneo que, partindo do centro da fortaleza, penetrava na montanha cerca de dois quilômetros. A extensão total das instalações pareceria um exagero a qualquer homem terreno. Bell exprimiu esse sentimento em palavras e sacudiu a cabeça.
— Sem dúvida devemos admirar as realizações dos arcônidas. Mas acho um absurdo que uma simples fortaleza tenha estas dimensões. Deve ter sido montada por gente estúpida. Até se parece com alguém que queira matar pardais a tiro de canhão.
— Também parece que alguém que não aplica os padrões corretos sofre de uma falta grave de substância cerebral — respondeu Rhodan em tom áspero.
— E qual é o padrão correto?
— O dos arcônidas. Ao ver este labirinto, você logo pensa em termos de dispêndio de tecnologia terrena. Acontece que com os recursos dos arcônidas não há nada de extraordinário em perfurar corredores e cavernas de dez ou vinte quilômetros na rocha de uma montanha.
Rhodan interrompeu sua exposição didática e parou a vagoneta.
— Vamos! — disse em tom lacônico, e caminhou em direção a um dos grandes portões que a intervalos regulares ladeavam a estrada subvenusiana.
Um toque de dedo sobre o mecanismo da fechadura bastou para que dez toneladas de aço arconídico deslizassem para o lado.
Quando viu diante de si o enorme pavilhão, Reginald Bell deixou cair o queixo. Não é que se sentisse impressionado com as instalações e o tamanho, que na sua opinião era exagerado. Depois que tinham descoberto a fortaleza, já tivera oportunidade de admirar essas coisas. Tentara acostumar-se aos padrões que prevaleciam ali. Acontece que até então tudo parecia morto naquele pavilhão. E hoje a vida reinava por ali. Ruídos abafados em toda a gama de escala sonora atingiram seu ouvido. Os medidores, as agulhas dançantes, as células eletrônicas e positrônicas cintilavam em tons coloridos. Robôs dos mais variados formatos e tamanhos corriam por entre as máquinas.
— Feche a boca! — disse Perry Rhodan, permitindo-se um sorriso condescendente. — Você já conhece a fábrica.
— Mas nunca a vi trabalhando. Foi você que a pôs em funcionamento?
— Já estava na hora de uma instalação tão bem montada reiniciar a produção. Não estamos em condições de deixar ociosa essa capacidade produtiva que se encontra paralisada há dez mil anos.
— Hum! — fez Bell, esticando o som para que o amigo percebesse que não acreditava muito naquilo. — Há pouco você me disse que devia aplicar os padrões corretos. Você também devia fazer o que pede aos outros.
— O que quer dizer com isso?
— Acho que esta fortaleza foi instalada pelos arcônidas e para os arcônidas. O que for produzido aqui só pode ter uma utilidade para esses seres.
O rosto de Rhodan assumiu uma expressão séria. Bell sentiu a mão pesada do amigo sobre o ombro.
— Ouça, Bell! Não temos muito tempo, pois ando com esse assunto das seis naves espaciais atravessado na garganta. O que está sendo feito aqui corresponde a uma finalidade terrena, não arconídica. Seria difícil aplicar nosso conhecimento hipnótico sobre a ciência e a tecnologia arconídica às necessidades humanas. Ando meditando sobre isso há várias semanas. Examinei todos os recantos do saber arconídico a que tenho acesso e elaborei um minucioso plano esquemático. O que está sendo feito aqui terá utilidade única e exclusivamente para a humanidade terrena. Esta fábrica robotizada está produzindo robôs, mais exatamente autômatos de construção e armamento. Olhe a esteira automática ali à sua direita. Jamais um olho arconídico viu essas formas modificadas de máquinas inteiramente positronizadas.
— Você faz isso sem que Crest e Thora saibam?
— Faço porque acho melhor assim. Thora e Crest são arcônidas muito inteligentes, mas como homem acho que sei avaliar melhor o que poderá ser útil à Terra. Nem penso em enganá-los, se é isso que você quer dizer.
— Acontece que podem interpretar a coisa assim. A desconfiança reinante entre eles e nós ainda não foi eliminada. Até você não está muito seguro na sua concepção, Perry. Ao menos acredito que não esteja. Pense naquelas seis naves espaciais. Recorde a reconstituição do período histórico em que aqueles arcônidas emigraram. Sua colônia na Atlântida desapareceu. Se naquela época ainda havia arcônidas em Vênus, os mesmos morreram por não terem possibilidade de voltar para Árcon. As seis naves espaciais a que esse cérebro se referiu não combinam com o quadro. Talvez você pudesse ter a gentileza de informar o que conseguiu descobrir.
— Não é muita coisa. Com a palavra-chave “nave espacial” não consegui extrair maiores detalhes do cérebro. Só sei que as naves devem estar estacionadas numa caverna distinta junto à encosta norte. Vamos procurá-las.
Perry Rhodan montou um conjunto de aparelhos de medição de ondas sonoras e sondas de matéria que funcionavam com base no processo químico-analítico. Ativou um robô que se encontrava nas proximidades e ordenou-lhe que colocasse o equipamento sobre a vagoneta e tomasse lugar nela. Avançaram mais setecentos metros na direção norte, até chegarem ao fim do corredor. Uma parede lisa de concreto fechou-o contra a rocha da montanha.
— Você acha que o corredor continua depois dessa parede? — perguntou Bell enquanto saltava da vagoneta.
— O cérebro falou numa caverna distinta. Disso se conclui que daqui não existe qualquer acesso. Mas antes de mais nada devemos demarcar a situação da caverna. Robô, coloque o aparelho azul junto à vagoneta. Os outros instrumentos podem continuar onde estão.
Reginald Bell pediu a Rhodan que lhe explicasse o funcionamento dos aparelhos. Como seu cérebro também tivesse sido ativado pelo treinamento hipnótico, aprendeu em poucos minutos o suficiente para prestar assistência a Rhodan. Cada medição era submetida à dupla conferência; uma era realizada pelo processo da ecossonda, outra por via químico-analítica. Dessa forma conseguiram estabelecer em pouco tempo um quadro preciso da composição da montanha, ate a encosta norte.
A uma distância de oito quilômetros as escalas de medida indicaram uma perda total de pressão.
— É a caverna! — gritou Bell mais alto do que seria necessário.
— O.K.! — confirmou Rhodan com um aceno de cabeça. — Anote as coordenadas. Vamos prosseguir em sentido radial, para determinar o diâmetro da caverna. Depois ampliaremos as observações para os lados.
Em menos de meia hora completaram o diagrama sobre a lâmina eletrônica de desenho. Logo se viam dois queixos caídos.
— Você entende isso? — perguntou Bell.
— Ainda não consegui. De qualquer maneira realizamos duas medições, e sabemos que a caverna não tem mais de noventa e cinco metros de diâmetro. A hipótese de um engano está completamente excluída.
— Num buraco de ratos como esse não podem caber seis naves arconídicas completas. Talvez os hangares sejam separados.
— Mesmo uma única nave teria de ser muito pequena para caber ali. Nossa Good Hope mede seus bons sessenta metros, e não passa de uma nave auxiliar cujo raio de ação mal chega aos quinhentos anos-luz.
— Então deve tratar-se de veículos menores — concluiu Bell. — Talvez sejam naves de socorro ou de patrulha. Acho que nossa preocupação com Thora e Crest não tinha o menor fundamento. Os dois terão de ficar conosco.
— O acesso fica aqui — disse Rhodan, apontando para o mapa cujos contornos acabavam de formar-se. Não deu atenção às palavras de Bell. Mas de si para si fazia votos de que ele tivesse razão.

* * *

Decolaram com a Good Hope e voaram alguns quilômetros para o norte. Depois de vencerem os cumes mais elevados, deixaram que a nave descesse junto às encostas íngremes. Ao atingirem a altitude determinada através das medições, Perry Rhodan parou e ajustou o regulador gravitacional, até que a nave aparentemente sem peso, encontrou uma posição de equilíbrio a uns quinhentos metros do fundo do vale.
Logo encontraram o acesso para o misterioso hangar. Embora a encosta norte tivesse sido polida pela erosão provocada pela chuva venusiana, logo notaram a área alterada em que se encontravam as duas escotilhas.
Envergando seus trajes arconídicos, que também dispunham de um regulador gravitacional, Rhodan e Bell saíram da nave e aproximaram-se da encosta rochosa. A localização do mecanismo de travamento da escotilha e sua combinação não representavam qualquer problema. O treinamento hipnótico habilitara-os a pensar em termos arconídicos.
A área da encosta artificialmente criada deslizou para o lado, pondo a descoberto uma abertura de menos de vinte metros.
— É grande para um homem, mas pequena demais para uma nave espacial — constatou Reginald Bell.
Viram-se diante de uma galeria escura, que descia na vertical. A camada profunda de nuvens venusianas só deixou penetrar uma luz mortiça, que mal dava para iluminar os primeiros metros da galeria. Um ligeiro impulso propulsor dos seus trajes bastou para fazer os homens penetrarem na montanha. Regularam o antígravo para a posição zero e voltaram a sentir chão firme sob os pés.
Com o auxílio de lanternas descobriram um amplo painel de instrumentos. Rhodan acionou uma chave. No mesmo instante uma luz branco-azulada encheu a caverna.
Toda a instalação continuava a funcionar tal qual funcionara há dez mil anos.
Era outro fato que mereceria a admiração dos homens. Mas nos últimos anos estes tiveram de habituar-se a muitas maravilhas arconídicas. O choque do não querer acreditar já não tinha a mesma intensidade dos primeiros encontros com a nova tecnologia. E, mais interessante que a luz alimentada por fontes de energia instaladas a milênios era o próprio hangar.
— São seis! — exclamou Reginald Bell espantado. — Mas até parecem uns brinquedinhos. Faço votos de que não esteja decepcionado.
A atitude de Rhodan provou que não estava. Sentiu-se entusiasmado. Percebeu intuitivamente o que tinha diante de si. Tirou o traje desajeitado dos arcônidas e saltou sobre o aparelho mais próximo.
— Você acha que são brinquedos? Acontece que são uns brinquedos muito perigosos. Veja aqui! Nesta máquina cabe um único homem. Quem sabe se você não quer pensar um pouco e dizer o que vem a ser isto?
Reginald Bell segurou-se na borda de uma das asas em delta e subiu.
— Até parece um avião de caça. A fuselagem tem aspecto intergaláctico. Até me sinto tentado a estabelecer comparação com as naves dos habitantes de Fantan. Mas o dispositivo direcional aerodinâmico e as asas em forma de delta poderiam ter sido concebidas numa prancha de desenho terrena.
— Em qualquer assunto a razão e a lógica sempre conduzirão ao mesmo resultado. Aqui está a prova. Você ainda tem alguma dúvida de que estes caças espaciais são de origem arconídica?
— Nenhuma. A semelhança na disposição dos instrumentos prova que são. É verdade que tudo é menos complicado que na Good Hope, mas o princípio é o mesmo. O assento fica numa cabina pressurizada. Existe um painel de comando do mecanismo propulsor. Com isso fica garantida a saída das partículas à velocidade da luz. Aqui está a chave reguladora da alteração volumétrica da câmara de combustão, e este olho só pode servir para a observação do regulador do campo de saída dos jatos. Perry, como vejo, você não está nem um pouco decepcionado. Até acredito que aprecie mais esta esquadrilha que seis supernaves espaciais.
— Um belo dia nós também construiremos naves deste tipo, Bell. Acho que ainda precisam de nós no planeta Terra, e este caça à velocidade da luz é o melhor presente para nós. Que tal um vôo de experiência?
Nos olhos de Bell lia-se o entusiasmo.
— Você acha que sou capaz de pegar um aparelho destes e sair voando por aí sem mais aquela?
— Se não for, peça a Thora que lhe devolva a taxa de matrícula. Vamos embora! Pegue aquele ali. Eu vou neste.

* * *

No momento a guarnição da fortaleza de Vênus era muito reduzida.
Além dos dois arcônidas, Crest e Thora, nesse amplo labirinto de cavernas só residiam o Dr. Eric Manoli, a telecineta Anne Sloane e o teleportador Tako Kakuta, que pertenciam ao exército dos mutantes, bem como o tenente Michael Freyt, o capitão Rod Nyssen e o tenente Conrad Deringhouse, ex-oficiais da Força Espacial dos Estados Unidos.
Nas últimas semanas todos eles tinham desenvolvido uma atividade útil, contribuindo para o conhecimento daquela fortaleza esquecida em Vênus. Só os três oficiais sentiam-se um tanto inúteis quando os outros conversavam sobre assuntos que eles não entendiam. Não conheciam as concepções arconídicas, nem dispunham das vantagens de um mutante positivo. Eram apenas pessoas sadias, com uma mente sã num corpo são, e essas qualidades habilitaram-nos a atingir a Lua numa primitiva nave terrena.
No dia do aniversário do tenente Freyt surgiu uma modificação.
— O que você gostaria de receber, Freyt? — perguntou Rhodan com a voz bonachona.
— Gostaria de tornar-me um membro ativo da Terceira Potência — foi a resposta. — E meus camaradas desejam a mesma coisa. Sentimo-nos um tanto inúteis.
— De que se julgam capazes?
— Se possível gostaríamos de voar. É verdade que só conhecemos as máquinas convencionais produzidas pela nossa técnica.
— Estas eu não tenho, tenente. Mas gostaria de dar uma olhada na Good Hope?
Foi este o presente de aniversário de Freyt. Crest e Bell levaram o dia inteiro mostrando a nave aos três oficiais. Depois Rhodan submeteu-os a um treinamento hipnótico intensivo.
Aprenderam literalmente, dormindo, a pilotar as naves arconídicas. Depois de deitá-los em pequenas macas, ligaram seus braços, pernas e cérebros com o instrumento de ensino psicossensorial. Após isso ficaram entregues a uma série intensa de sonhos dirigidos, nos quais pilotaram naves arconídicas de todos os tipos de um grupo de estrelas a outro. Sem correr o menor perigo, aprenderam a realizar as manobras mais difíceis e a reparar defeitos em pleno vôo. Um aparelho positrônico de testes registrou automaticamente os resultados dos exames a que eram submetidos ininterruptamente. As falhas tornaram-se cada vez mais raras, e em menos de três dias os três oficiais anunciaram a Perry Rhodan que já eram capazes de pilotar sozinhos a Good Hope.
Um vôo experimental confirmou a informação. Logo após isso, Freyt, Nyssen e Deringhouse obtiveram uma licença bem merecida.
Aproveitaram-na em pequenas expedições pela selva de Vênus.
Pelo meio-dia de sete de julho — em Vênus ainda contavam o tempo segundo o calendário terreno — apressaram sua volta de um passeio, pois surpreenderam-se ao verem a Good Hope decolar. Foi Deringhouse quem primeiro viu a nave esférica.
— Será que pretendem voltar para casa sem nós?
— Não me consta que Rhodan queira retornar à Terra. Faz tempo que está metido com aquele cérebro, realizando conversas intelectualizadas.
— Gostaria de saber o que significa isso. Tomara que os arcônidas não estejam fazendo alguma tolice!
— Acha que Thora e Crest estão fugindo? — perguntou Freyt com um sorriso. — Você é muito esquentado, Deringhouse. Os arcônidas conhecem perfeitamente as suas limitações. Não pinte logo o diabo! Podemos nos apressar um pouco, se é que isso o tranqüiliza.
Dali a meia hora chegaram à posição de combate da fortaleza. Na cúpula gigantesca concentravam-se todas as armas ofensivas com os respectivos dispositivos de comando.
Um olhar bastou para que Freyt se convencesse de que nenhum veículo havia penetrado na atmosfera de Vênus. A capacidade de observação estendia-se até o pólo sul. A suspeita de Deringhouse já não parecia tão absurda. Mas quando o tenente se dispôs a falar, dois pontinhos surgiram na tela.
— Que diabo! O que será isso?
— Capitão! Localize os objetos e mantenha-os sob observação constante! — gritou Freyt. Nyssen obedeceu instantaneamente. Pouco depois o goniômetro localizou os dois caças espaciais e não deixou mais que escapassem, por mais complicadas que fossem as manobras que realizavam.
— São naves muito pequenas — constatou Deringhouse. — E não são da Good Hope. Vamos chamar Crest!
Freyt já cuidara disso. Dali a alguns segundos o arcônida respondeu pelo vídeo-fone.
— O que deseja, tenente?
— Estamos na cúpula de observação. Será que podia dar um pulo até aqui agora?
— É muito urgente? Tenho uma coisa mais importante a fazer.
— Descobri dois objetos voadores, que aparentemente não deviam estar aqui. Passaram bem perto, por cima da montanha e depois subiram quase na vertical. No momento encontram-se a uma altitude de 14.000 quilômetros.
— Você está vendo fantasmas, Freyt. Nossos dispositivos de alarma captariam e reportariam qualquer nave estranha. Não há nada que possa penetrar até esta montanha sem ser reconhecido.
— Por favor, olhe!
Freyt afastou-se, para que Crest pudesse ver a tela através do videofone. Os três notaram um ligeiro tremor em seu rosto.
— Irei imediatamente — disse o arcônida.
Subiu no elevador expresso e precipitou-se para o painel das telas de defesa.
— Tudo pronto para abrir fogo, tenente. A cúpula foi reforçada. Entre em contato com aqueles desconhecidos e avise-os de que serão destruídos imediatamente se não seguirem nossas instruções.
Freyt mexeu apressadamente no telecomunicador. Antes que tivesse tempo de falar, o alto-falante transmitiu um diálogo exaltado, que os apanhou de surpresa. Rhodan e Bell comunicavam-se pela mesma forma, porque isso correspondia ao que os arcônidas falecidos há dez mil anos haviam feito.
— ...voltarei imediatamente, meu caro. Não estou com vontade de ser abatido por Crest.
— Para voltar é tarde. Você já foi localizado. Sugiro que entre em contato com a base. Talvez seja possível conversar com essa gente.
No início parecia que não era possível. Freyt, Nyssen e Deringhouse tinham perdido a fala. Até Crest teve de vencer a surpresa antes que conseguisse proferir uma palavra.
— O que é isso, Rhodan? Como conseguiu pôr as mãos nesses modelos dos fantanitas?
— Está vendo? — interveio Bell. — Ele diz que são modelos fantanitas. Eu disse logo quando vi o formato em fuso.
— Deixe de tolices! O que você está vendo, Crest, são verdadeiros caças arconídicos. Revire sua memória e descobrirá que há dez mil anos seus antepassados construíram estes modelos.
Crest logo compreendeu.
— Você descobriu os caças estacionados na fortaleza! É isso mesmo! Assim os fatos combinam. Só faz dois mil anos que os habitantes de Fantan imitaram nossas naves-fuso. Onde encontrou esses aparelhos?
— No interior da montanha. E há mais quatro. Todos eles estão equipados com canhões de impulso superpotentes — Perry Rhodan riu. — Você cancelou o alarma, não foi, Crest? Do contrário não vejo outra alternativa senão arriscar uma catástrofe.
— Não brinque, Rhodan! Com o armamento de um caça espacial você pode destruir um planeta. Logo após a explosão espontânea, as bombas-foguetes arconídicas ocasionam um incêndio atômico que atinge todos os elementos pesados acima do grau dez. Os núcleos podem ser regulados para desencadear uma reação nuclear em cadeia.
— É possível — respondeu Rhodan. — Mas posso tranqüilizá-los. As bombas não se encontram a bordo. Mas poderemos carregá-las no próximo vôo. É que acabo de ter uma idéia.
Perry Rhodan não expôs a idéia antes do pouso. Bell teve de recolocar o caça no hangar e levar a Good Hope à fortaleza. Rhodan veio na sua pequena maravilha. Pousou junto à entrada da fortaleza. Enquanto explicava a Crest como havia descoberto os seis caças espaciais, os três oficiais dispensaram suas atenções à máquina. Finalmente haviam encontrado em Vênus algo que correspondia à sua paixão.
— Estão gostando? — perguntou Rhodan.
— Um astronauta só pode sonhar com uma coisa destas.
— Que pena que seu aniversário já passou, Freyt.
— Até parece que estes caças espaciais serão dados de presente.
— Não é isso. Proponho um acordo, tenente. Você, Nyssen e Deringhouse submetem-se a um novo ciclo de treinamento hipnótico, concebido especialmente para estas coisinhas. Depois disso as receberão em custódia, como representantes da Terceira Potência.
Os olhos de Freyt brilhavam.
— Não sei como agradecer! Pode confiar em mim em quaisquer circunstâncias.
— Isto é uma das condições do acordo — confirmou Rhodan em tom sério. — Preciso de uma frota bem combativa. Pode ser pequena, mas tem de ser veloz e invencível.
Como sabem, os acontecimentos que se desenrolaram nos últimos meses em nosso sistema solar despertaram a atenção de muitas inteligências. Conseguimos repelir os primeiros ataques. Os que se seguirem serão mais intensos. Se quisermos sobreviver, teremos que nos prevenir. A potência de que dispúnhamos ontem poderá ser insuficiente para as lutas de amanhã. Aí vem Bell com a Good Hope. Ele levará vocês à encosta norte e lhes mostrará o local exato. Observem tudo. Hoje de noite falaremos sobre o novo ciclo de treinamento. Acho que começaremos nas próximas vinte e quatro horas.
Reginald Bell esperou que os três oficiais subissem a bordo e voltou a decolar em direção ao norte. Crest e Rhodan dirigiram-se à entrada do forte. Quando abriram o portão, Thora veio ao seu encontro. Rhodan teve a impressão de que estava esperando. Seu olhar era rígido e sombrio; passando pelos dois homens, dirigiu-se ao caça espacial.
— Este aparelho pertencia a um dos nossos antigos cruzadores espaciais, não é?
Crest fez que sim.
— Foi Rhodan que os encontrou. São seis.
— Para vocês homens trata-se de um achado, não é?
— E para vocês, o que é? — perguntou
Rhodan. Sentiu a recriminação na pergunta de Thora.
— Para nós é roubo — respondeu Thora com a voz áspera. — Isso mesmo, Perry Rhodan: para nós é roubo. E depois que conheci a humanidade fiquei sabendo que ela tem uma ética semelhante. Sabemos perfeitamente que você é um ladrão, tanto aos olhos dos homens como dos arcônidas. Aliás, onde foi buscar todo esse orgulho?
— Só me resta muito pouco. Você me tirou quase todo. Mas ficarei com um restinho de orgulho. Preciso dele para salvar a humanidade.
— Você fala na salvação da humanidade, mas esquece a galáxia.
— A galáxia terá de esperar até que consigamos estabelecer a ordem no sistema solar. Para construirmos uma obra gigantesca, temos de começar de baixo. A mais bela das torres desabará se não tiver um alicerce sólido.
— E este alicerce são os homens, não são? Alguns bilhões de seres estúpidos. Acha que são bastante fortes e amadurecidos para suportar todo um grupo de mundos?
— Acho que são bastante jovens, Thora. Tudo depende da juventude. Das reservas de vitalidade. O amadurecimento é um processo lento. Por que insiste em voltar constantemente a este tema?
— Porque fico perguntando de mim para mim se ainda sou comandante. A esta altura minha nave é a Good Hope. É um nome terreno.
— Também é um nome belo e esperançoso. Não gosta?
— Gostaria de saber se ainda sou comandante — obstinou-se Thora.
— Voltará a ser quando tiver dado provas de sua boa vontade e confiabilidade.
— Quer dizer que sou uma prisioneira. E o nome Good Hope continua a ser um nome terreno, por mais belo que seja.
— A imagem dos arcônidas está modificada. Vocês se tornaram sentimentais demais para o orgulho que andam ostentando. E, mais que tudo, tornaram-se mais fracos. O Grande Império de vocês está caindo aos pedaços. Qual é a esperança que lhes resta, Thora?
Thora não respondeu.
— Fale, Crest! — ordenou Rhodan. — Diga uma palavra definitiva de esclarecimento. Não se esqueça do seu orgulho de arcônida. Mas deixe que a razão decida.
— A galáxia é um mundo de caos — explicou Crest. — Nosso império chegou ao fim. Seres insensíveis destroçam as culturas criadas por nós e a cada ano vão se aproximando do centro do Império. A Via Láctea precisa de uma mão forte. Até aqui temos plena consciência do curso ameaçador que os acontecimentos estão tomando.
Também tenho consciência do papel que você, Rhodan, poderia desempenhar. Mas não sei se está disposto a desempenhá-lo.
— Que papel seria este?
— Você está entusiasmado pela humanidade do planeta Terra. Ama esses poucos bilhões de seres e faz tudo por eles. Daria a eles de bom grado o domínio de toda a galáxia. Mas há um detalhe: o caminho do domínio para a opressão é muito curto.
— A desconfiança é uma reação sadia, Crest, mas não o liberta do dever de decidir. E você não pode passar sem um pinguinho de confiança. Ninguém aqui é profeta. Basta que estejamos dispostos a dar o melhor de nós.
— Você está disposto, Rhodan? Está disposto a permitir que também os outros tenham o seu, desde que isso lhes caiba pelo direito da liberdade? Falarei claro e sem rebuços, e também direi uma palavra definitiva, conforme pediu. Os homens e os arcônidas são parecidos. Seria totalmente contrário aos nossos interesses comuns se um belo dia uma inteligência totalmente desumana assumisse o poder nas estrelas do nosso sistema. Quis o destino que os homens e os arcônidas se encontrassem. Caso esteja disposto a lutar por nós todos e empenhar as forças da humanidade a bem de toda a galáxia, você pode contar com a nossa confiança, Rhodan.
— Estou disposto.

II

Dali a dois dias.
Tempestades furiosas açoitam o hemisfério norte de Vênus, tangem a água e as massas de nuvens para dentro dos vales cercados de montanhas e fazem com que os lagos e os rios cubram grandes extensões de terra junto às margens.
Por entre o relampejar ininterrupto das trovoadas rivais surgem sinais de um desempenho matemático retilíneo: cinco caças espaciais decolaram.
Concluído o treinamento hipnótico especializado dos pilotos de caça Freyt, Nyssen e Deringhouse, Perry Rhodan ordenou a realização das manobras finais.
A comunicação entre os cinco pilotos foi um verdadeiro festival de satisfação.
— O desempenho destes aparelhos é inacreditável — disse Nyssen. — Se pensarmos que foram construídos há mais de dez mil anos, só nos resta pedir aos engenheiros terrenos que peçam de volta o dinheiro gasto em estudos.
— Nada de ofensas contra qualquer grupo profissional — advertiu Bell com uma seriedade fingida. — Se não fosse o treinamento hipnótico, este seu vôo exibicionista também teria caído à água, capitão.
— Basta! — soou a voz de comando de Rhodan. — Estamos saindo da atmosfera de Vênus e passamos por cima do pólo norte a uma altitude de cento e vinte mil quilômetros. Entrar em forma para o vôo em fila e aguardar comandos de frenagem e mudança de rumo!
Dentro de trinta segundos as cinco máquinas deixaram para trás a furiosa trovoada de Vênus. Diante deles estendia-se o preto aveludado do espaço, onde a brancura do sol formava o centro aparente. As comunicações radiofônicas voltaram a funcionar normalmente, permitindo a captação de um emissor menos potente.
O pedido de socorro da Terra foi captado com igual intensidade nas cinco naves.
E nas cinco naves os pilotos souberam que o último comando de Rhodan perdera sua finalidade.
— ...solicitamos retorno imediato. A Terceira Potência. A pedido de John Marshall... Aqui fala a Terceira Potência. Estamos chamando Perry Rhodan. Certo número de naves ovais, ao que tudo indica tripuladas por Deformadores Individuais, pousaram na Lua, segundo relata a estação espacial Freedom I, e logo depois voltaram a decolar e desapareceram no espaço. Devemos contar com nova manobra de aproximação. Ao mesmo tempo o exército de mutantes reporta fenômenos de deformação suspeita em personalidades expostas. Estamos fornecendo maiores detalhes pela faixa secreta AK III. Rhodan, solicitamos retorno imediato. A Terceira Potência, a pedido de John Marshall. Terceira potência chamando Perry Rhodan. Naves ovais...
Perry Rhodan ordenou o retorno imediato ao forte de Vênus. Descrevendo uma curva fechada, que homens e máquinas só suportavam graças ao compensador automático de força centrífuga, os caças espaciais desceram e penetraram no furacão. Mas as cúpulas energéticas protetoras eliminavam os efeitos atmosféricos em torno das naves e permitiram que descessem sem sofrer dano.
Na fortaleza o ambiente também estava tenso. Crest também captara a mensagem radiofônica do deserto de Gobi e recomendou aos homens que se preparassem para uma decolagem de emergência.
— Tudo em ordem! — confirmou Rhodan com um aceno de cabeça. — Faça os homens subirem, Bell. Não é necessário que ninguém fique para trás. Não se esqueça de colocar a bordo três dos caças espaciais. Venha, Crest! Quero ouvir o que eles têm a nos dizer pela faixa AK III.
Rhodan e Crest tomaram o elevador e subiram para a cabina de comando. O grande receptor arconídico já expelira uma fita escrita. Depois de ler apressadamente alguns nomes desconhecidos, Rhodan não prosseguiu. Ligou seu próprio receptor que, acionado pelos impulsos pentadimensionais, funcionava a velocidade superior à da luz, isto é, sem qualquer perda de tempo determinada pela distância. Ao contrário do intercâmbio radiofônico normal, onde na posição atual da Terra e de Vênus a transmissão de uma mensagem levava mais de doze minutos, a faixa pentadimensional AK III permitia um intercâmbio instantâneo.
— Aqui fala Perry Rhodan. Estou chamando a base de Gobi. O que houve, Marshall?
— Alô, Rhodan. Graças a Deus que está chamando. Recebeu nossa mensagem?
— Naturalmente! A Good Hope está pronta para decolar. Faça o favor de me dizer quais foram as mensagens transmitidas pela faixa AK III.
— Vou colocá-lo em contato com Mercant. Ele está aqui.
— Alô, Rhodan. Aqui é Mercant.
— Bom dia. O que houve?
— Há dois dias recebi um chamado do coronel Kaats, da Polícia Federal. Há mais de um ano está atrás do sindicato de bandidos Blue Bird, mas a única coisa que conseguiu descobrir foi esse nome misterioso. Finalmente conseguiu uma pista. Pelo que afirma, um dos três cabeças é um sujeito chamado de Clive Cannon, que possui uma residência confortável na Michigan Avenue, em Chicago.
— Isso é muito interessante. Todavia, peço licença para salientar que a Terceira Potência não pretende intrometer-se nos assuntos internos de outros países.
— Será que você acha que não tenho um bom motivo para contar-lhe isso, Rhodan? Um homem do FBI descobriu Cannon por acaso. E esse acaso por certo não deixará de ser interessante para você. Cannon tem um pastor-alemão bem treinado. Desde o início da semana o animal não o reconhece mais como dono. Daí não se pode Concluir muita coisa. Há longo tempo o homem é conhecido na sociedade como comerciante idôneo; além disso, sabia-se alguma coisa sobre seus hábitos e relacionamentos. Pelo que diz o coronel Kaats, Cannon já não é o mesmo.
— Quer dizer que na sua opinião os DI apossaram-se dele?
— Tenho certeza quase absoluta. Continuaremos a manter o sindicato sob controle. Se é que os DI apoderaram-se dele, deverá ocorrer um deslocamento de interesses políticos e econômicos. Os invasores extraterrenos não se limitarão a desenvolver uma atividade puramente criminal.
— O que significam os outros nomes incluídos em sua mensagem?
— Trata-se de suspeitos, que serão vigiados. Tenho certeza de que os DI serão bastante inteligentes para apoderar-se em primeiro lugar das pessoas mais influentes. E o começo é o presidente dos Estados Unidos.
— Já avisou as potências mundiais?
— Ainda não. Não quis tomar uma decisão dessas por minha conta.
— Pois eu lhe ordeno que faça. O Conselho Internacional de Defesa dispõe das melhores ligações possíveis com o comando das forças armadas do Bloco Oriental e da Federação Asiática. Entre imediatamente em contato com Kosselov e Mao Tsen. Avise os terráqueos de que cada um deve cuidar de seu próximo, pois o melhor amigo poderá transformar-se no pior inimigo. Mas antes de mais nada, ponha em ação o exército de mutantes, na medida em que está treinado. Por enquanto você assume o comando.
— Obrigado! Já formulei algumas sugestões e elaborei alguns detalhes sobre a atuação de nossos homens. Mas quero ponderar que, embora sejamos dotados de capacidades sobre-humanas, nosso número é muito reduzido. Só poderemos lançar mão de seis ou sete pessoas. Enquanto isso a frente de ataque do inimigo abrange todo o planeta e a humanidade inteira. Além disso, só nossos telepatas estão em condições de reconhecer ao primeiro contato uma pessoa que se encontra sob o poder de um DI. Precisamos de um instrumento, Rhodan.
— Sei disso — respondeu Rhodan em tom pensativo. — Os arcônidas nos presentearam com uma porção de instrumentos. Mas nenhum deles serve para o que estamos precisando no momento.
— Você não tem um rastreador de ondas cerebrais? Estou me referindo ao aparelho que Bell e Kakuta usaram no Japão para procurar mutantes.
— O rastreador só pode localizar cérebros que se afastam do modelo normal. Não serviu sequer para determinar o tipo de capacidade parapsicológica de que era dotado um mutante. Esse aparelho não nos servirá de nada.
— Deve ser aperfeiçoado.
— Sinto-me honrado pela confiança que deposita em mim — disse Rhodan em tom sarcástico. — Mas não pense que sou Deus. Verei o que posso fazer.
— Tem alguma idéia?
— Apenas uma esperança. Exploraremos todas as possibilidades. Não deixaremos de tentar, seja lá o que for. Para isso preciso do seu auxílio.
— O que devo fazer?
— Fale com Kaats e peça-lhe que deixe Clive Cannon em paz. Deve limitar-se a um tipo de vigilância que não dê na vista.
— Procurarei transmitir-lhe a mensagem de forma diplomática. Não acredito que aceite ordens suas.
— Isso é problema seu, Mercant.
Reginald Bell anunciou que a Good Hope estava pronta para decolar. Rhodan mandou que esperasse. O chefe da Terceira Potência tinha um traço típico: quando surgia uma situação de alarma, costumava desenvolver uma atividade enervante em coisas aparentemente secundárias.
— Gostaria de ter os nervos desse homem! — gemeu o Dr. Manoli, exprimindo o sentimento de todos.
Dali a duas horas Rhodan finalmente subiu a bordo. Carregava uma pasta com pilhas de cartões perfurados, positrogramas e fórmulas. Guardou-a sem dizer uma palavra. Não fez a menor referência ao trabalho que desenvolvera junto ao cérebro.
— Os caças espaciais estão a bordo?
— Sim! — confirmou Freyt.
— Muito bem. Vamos embora, Bell. Faço votos de que não gaste mais de três horas.
Reginald Bell liberou a potência dos reatores HHE. A Good Hope acelerou lentamente para uma velocidade de 18,2 km/seg e, uma vez fora da influência da gravitação de Vênus, disparou para o espaço com uma força de empuxo cujo valor absoluto era de 800.000 toneladas. A aceleração atingiu o valor máximo de 500 km/seg. Nem por isso seria possível atingir, numa viagem curta como a de Vênus à Terra, uma velocidade próxima à da luz. Todavia, talvez Reginald Bell conseguisse cumprir o desejo de Rhodan, que pedira uma viagem-relâmpago.
Depois de uma hora de viagem foram ligados os instrumentos de localização de velocidade superior à da luz que, graças ao impulso pentadimensional de que eram dotados, não poderiam ser reconhecidos por um eventual atacante localizado no universo normal. A desvantagem desse tipo de observação consistia no fato de só permitir a exploração de setores limitados do espaço. Havia amplas regiões do espaço quadridimensional, situadas sobre a linha direta da luz, que ficavam fora do alcance da observação. Por isso realizava-se uma observação paralela pelo radar, que na distância atual trabalhava com alguns minutos de atraso.
Logo se verificou que as providências adotadas por Rhodan eram acertadas. Sempre que os DI aparecem e voltam a desaparecer espontaneamente, deve-se contar a qualquer momento com um novo ataque.
Quando haviam atingido a velocidade máxima e Bell já se preparava para inverter a aceleração, iniciando a frenagem, a tela de radar mostrou duas naves ovais.
— São os DI! — foi o grito saído de muitas bocas. — Dirigem-se à Lua.
— Pode ser coincidência. É possível que estejam voando diretamente para a Terra. Ligue a mira automática, Bell.
Os raios tateadores atravessaram o hiperespaço a velocidade superior à da luz e alcançaram o alvo cuja posição aproximada já era conhecida. Dentro de poucos segundos ajustaram-se ao inimigo. As células de reação de contato garantiam que o raio direcional não mais largaria as naves dos DI, fossem quais fossem as manobras diversionistas que realizassem.
— Distância: vinte e cinco milhões de quilômetros da Terra, quarenta e quatro milhões de quilômetros das naves dos DI.
— Qual é a distância entre os DI e a Terra?
— Menos de dezoito milhões de quilômetros.
— Só isso? O cartograma, por favor! — ordenou Rhodan.
A luz fosca de uma lâmina vermelha iluminou-se no painel de comando.
— Ângulo entre os DI e a Terra exatamente oito graus, quarenta e cinco minutos e trinta segundos — disse Bell — Os DI voam em direção quase oposta à nossa, pois vêm praticamente do outro lado. A velocidade deles é ligeiramente inferior à nossa. Também já iniciaram a manobra de frenagem.
— Uma simples estimativa não nos serve de nada.
— Nunca se pode saber antes o que o inimigo vai fazer. No momento prosseguem normalmente; ao que parece ainda não sabem que foram descobertos. Assim que nos localizarem, deverão acelerar de novo. Você já viu com que empuxo essa gente trabalha.
— Não assumiremos o menor risco. Mantenha a aceleração positiva por mais dez minutos. Se necessário passaremos ao lado da Terra. Freyt!
— Sim.
— Prepare-se para decolar juntamente com Nyssen e Deringhouse. Os três aparelhos conduzirão o armamento completo.
— Cada caça já traz a bordo uma bomba-foguete com carga nuclear. Os canhões de radiação estão em condições de funcionar.
— Muito bem. Já conhecem a situação. Pretendo pegar as duas naves antes que atinjam a Terra. Enquanto for possível, a Good Hope prosseguirá sem aceleração negativa de frenagem. Assim que invertermos a aceleração, vocês deixam a nave nos seus caças e prosseguem, voltando a acelerar. Prendam-se bem entre os colchões pneumáticos, pois é bem provável que no momento da pontaria tenham de desacelerar em 500 km/seg. Os projetores antigravitacionais não poderão compensar isso.
— Fui treinado em 20g e até mais.
— Isso é bom, mas é pouco para os valores de aceleração usados pelos arcônidas. Só lhes posso recomendar que se cuidem e não exagerem. Assim que perceberem que os antígravos não dão mais conta do recado, reduzam a força dos reatores. Quero que o inimigo seja destruído, mas o mais importante é que vocês e os três caças voltem sãos e salvos. São muito valiosos para mim.
— Sim! — responderam os três oficiais.
Fizeram continência e retiraram-se.

* * *

Tudo decorreu com extrema precisão. Pelo menos no início. Segundo as informações de Crest, o sistema de alarma dos DI era menos aperfeiçoado, e seus instrumentos de localização tinham um alcance de menos de dez milhões de quilômetros. Dali a pouco a Good Hope teria que desacelerar, para dar a precedência aos caças espaciais que, graças às superfícies refletoras, tinham boa chance de se aproximar mais um pedaço do inimigo sem serem detectados.
E tinham de aproximar-se sem serem detectados para terem alguma chance de êxito. A força dos DI eram as cúpulas energéticas, que podiam cercar a nave em poucos segundos. E um canhão de radiação dos arcônidas nada poderia contra elas. Outro fator de vantagem dos DI era a extrema maleabilidade de suas naves. Assim que descobrissem que um dos seus ataques traiçoeiros fora descoberto e, portanto, frustrado, recorriam à fuga. E isso de nada adiantava aos homens. Um DI voltaria depois de ter fugido. Surgiria a qualquer momento, em qualquer lugar. E então o fator surpresa estaria novamente de seu lado.
— Alô, Freyt! Avise quando estiver pronto para decolar! — gritou Perry Rhodan.
— Os três caças estão prontos para passar pela comporta.
— Muito bem! Ligue os reatores. Acelere, conforme combinamos. Dentro de vinte segundos a Good Hope vai desacelerar. Aí vocês já deverão estar do lado de fora.
Assim que Reginald Bell inverteu os jatos, dando início à desaceleração, três minúsculos pontinhos cinzentos desapareceram no espaço. Dentro de poucos segundos cessaram os efeitos luminosos produzidos pelas superfícies metálicas dos caças sobre as telas de observação visual. Outro super-raio localizador atingiu-os pela quinta dimensão, tornando-os visíveis aos ocupantes da nave.
Estabeleceram contato radiofônico pela faixa AK III. Não haveria possibilidade de detectá-lo no espaço contínuo quadridimensional.
Perry Rhodan observaria todas as fases do confronto que se aproximava. Se necessário, anunciaria modificações estratégicas.
— Mudar o rumo dois graus para estibordo! — foi a ordem que se seguiu.
Bell estava surpreso, pois esperara poder conduzir a Good Hope para casa ao seu bel-prazer. Mas ao que parecia ela ainda tinha um papel a desempenhar nos planos de Rhodan. Executou a manobra sem discutir.
A maior parte das pessoas que se encontravam a bordo imaginaram o que Rhodan pretendia com a mudança de rumo. Mas só tiveram certeza quando chamou Freyt.
— Mantenho o mesmo rumo, tenente. Levamos a Good Hope dois graus para estibordo. Com isso devemos aparecer a uma distância de seis milhões de quilômetros do seu ponto de encontro com os DI. Além disso, daqui a pouco iremos a uma velocidade bastante reduzida, para atrair a atenção do inimigo. Com isso serão maiores as chances de vocês se aproximarem sem serem percebidos. Boa sorte!
Dali a quarenta e oito minutos uma manobra dos DI fez concluir que a Good Hope fora descoberta.
— Não perca a calma, meu filho! — disse Rhodan. “Meu filho” era Bell. — Prosseguiremos sem mudar de rumo. Também manteremos a mesma desaceleração. O inimigo pensará que procuramos atingir um ponto situado além da Terra. Se continuarmos assim, só poderá pensar que não o descobrimos.
Logo se ouviram as mensagens de comando de Freyt. As pessoas que se encontravam a bordo da Good Hope acompanharam-nas pela superfaixa AK IH.
— Abrir um grau. Nyssen para bom-bordo. Deringhouse para estibordo. Nyssen, aumente a aceleração em dois km/seg. Deringhouse, reduza em dois km/seg. Você se encarregará do primeiro, isso se eu falhar. Nyssen atacará o segundo.
— O.K.! Entendido!
A fileira de caças espaciais abriu-se em leque. Depois de modificada a aceleração, voavam um atrás do outro, em diagonal. O capitão Rod Nyssen ia na ponta. Teria de passar pelo primeiro inimigo para abrir fogo contra o segundo, antes que fosse prevenido pelo ataque contra a primeira nave.
Os DI limitaram-se a uma mudança insignificante de rumo. Ao que parecia tratava-se de uma reação instintiva, provocada pelo surgimento da nave dos arcônidas. Como Rhodan prosseguisse no mesmo rumo, os DI tornaram-se mais confiantes e, mantendo a mesma desaceleração, prosseguiram na direção Lua—Terra.
Os três caças espaciais, submetidos a uma aceleração constante, haviam atingido uma velocidade próxima à da luz. Para estabilizar a massa que tendia para o infinito, os astronautas proporcionaram um apoio adicional ao raio de partículas, injetando um elemento de sustentação no mecanismo propulsor. Com isso se atingiam velocidades que excediam tudo que o homem jamais vira no sistema solar.
O mais importante era que o inimigo não contava com esse ataque súbito.
A distância prevista de dois milhões de quilômetros os caças abriram fogo com seus canhões de radiação. Ao mesmo tempo Nyssen e Freyt lançaram os torpedos espaciais com carga nuclear.
Os DI não tiveram tempo de levantar a cúpula energética. Quando viram a luminosidade dos canhões, já era tarde. A onda mortal aproximou-se com a velocidade da luz.
As duas naves desmancharam-se em pura energia.
Os três astronautas não tiveram tempo para apreciar o espetáculo infernal. Os caças também corriam perigo. A enorme velocidade aproximava-os a cada instante daquela fornalha de energias em fúria.
Imediatamente após o disparo tiveram de eliminar toda a aceleração e mudar de rumo. Com isso surgiu uma pressão lateral que perdurou por mais de quinze segundos.
Os astronautas jaziam imóveis nas suas poltronas anatômicas e contaram instintivamente até quinze. Só ao chegarem a esse número em plena consciência souberam que estavam salvos.
— Iniciar manobra de frenagem! — A voz de comando de Perry Rhodan soou abruptamente nas pequenas cabinas pressurizadas. — Foi um trabalho muito bem feito, cavalheiros. Sigam um curso comum e retornem à Terra assim que tiverem atingido uma velocidade que permita o pouso. Encontramo-nos na órbita lunar, onde voltaremos a recolhê-los a bordo da Good Hope.
Os homens que se encontravam a bordo da Good Hope dispuseram-se a uma soneca reconfortante. Foi quando subitamente o hiperlocalizador voltou a reagir.
— Que inferno! O que será isso? — suspirou Reginald Bell.
— Sem dúvida é um objeto voador — explicou Crest. — E procede exatamente do setor do espaço que os três caças acabam de abastecer com energia. Deve ser uma nave salva-vidas dos DI. Trata-se de veículos menores que nossos caças, e que podem abrigar no máximo dez seres.
— É impossível. Nosso ataque destruiu tudo que...
— Não se exalte. Esse veículo praticamente não conduz nenhum armamento. Não pode fazer-nos nenhum mal.
— Não se trata disso, Crest. Trata-se de saber como é que alguém conseguiu escapar.
— Tenho certeza de que não tiveram tempo para decolar da nave — constatou Perry Rhodan.
— É verdade — confirmou Crest. Suponho que a nave já tenha sido tirada de bordo antes, para cumprir uma missão especial. Vamos segui-la por algum tempo. Já podemos permitir-nos esse luxo.
A minúscula nave salva-vidas dos DI tomara o curso da Lua. Rhodan voltou a estabelecer contato com Michael Freyt. Os três caças voltaram, depois de descrever uma curva de 800.000 quilômetros de raio e dentro de noventa minutos atingiram, pouco antes da nave esférica dos arcônidas, a órbita previamente indicada.
— Freyt, pelos meus cálculos é você que se encontra mais próximo da nave.
— Sim, Rhodan.
— Peço-lhe que se ponha a persegui-la. Nada de ataque. Sempre será possível pegar uma mosca dessas, enquanto não se dirigir diretamente à Terra. Gostaria de receber as coordenadas exatas do local de pouso.
— Correto! Quais são as instruções para Nyssen e Deringhouse?
— Podem se aproximar. Vamos abrir as comportas.
A nave dos DI foi submetida a uma dupla vigilância. Além do tenente, também o raio hiperlocalizador ficou grudado nela. E as pessoas que se encontravam na nave, inclusive Thora, acompanhavam com o maior interesse todos os seus movimentos.
Freyt acelerou e chegou bem perto do inimigo.
— Tenha cuidado, tenente! É possível que os DI disponham de uma base fixa na Lua. De lá você poderia ser alvejado.
— O.K.! Cuidarei. Está nos seguindo?
— Sim, por precaução. Mas nem por isso você deve relaxar.
Freyt riu.
— Com o equipamento de que disponho aqui tenho pouca chance de relaxar. Quero experimentar tudo. Tenho, por exemplo, uma câmera maravilhosa que permite tirar quinhentas fotografias por segundo. Ela alcança freqüências que vão do infravermelho ao ultravioleta e é dotada de um cérebro positrônico rastreador físico-químico, além de ter um revelador embutido que libera as fotografias imediatamente. Quer que eu leve um filme?
— A idéia não é má. Trabalhe com a câmera.
Realmente o tenente Freyt operou um filme aproveitável.
A nave dos DI desaparecera na face oculta da Lua, na altura da linha equatorial. As medições realizadas por Freyt indicavam a área da cratera de Mendelejew, no 80o grau de longitude. Estranhamente naquele lugar havia vestígios de metal que, segundo o cérebro positrônico, não ocorriam em estado natural.
— Quer dizer que conseguimos localizá-los — constatou Eric Manoli. — Convém cuidar deles.
— É o que vamos fazer. Mas não quero arriscar a vida de qualquer homem.
— Usaremos robôs. Acho que com eles os DI vão quebrar os dentes.
Pouco tempo depois a Good Hope desembarcou na cratera Anaxágoras um contingente de tropas robotizadas completamente equipado, que foi incumbido de missões de esclarecimento de âmbito restrito. Seu raio de ação era de seis mil quilômetros.

III


A Good Hope pousou num verdadeiro ninho de marimbondos.
O ninho de marimbondos era o território da Terceira Potência, situado no deserto de Gobi. É bem verdade que a designação “deserto” já não era correta. A desolação e a solidão haviam desaparecido. Além da cúpula energética de dez quilômetros de diâmetro outros dez mil quilômetros quadrados de terra foram incluídos no plano de cultivo. Centenas de técnicos e trabalhadores especializados ajudados por um exército de robôs estavam ocupados na montagem de um complexo industrial integrado.
A terra florescia. Chuvas artificiais puseram fim à seca eterna. O oásis natural crescera, atraindo um número cada vez maior de camponeses mongóis, que montavam suas tendas junto aos limites do território da Terceira Potência, a fim de aproveitar o milagre do paraíso que ia crescendo aos poucos.
Visto de cima, o conjunto oferecia um quadro encantador. Por alguns minutos a esfera arconídica flutuou a pequena altura acima daquela azáfama, seguindo a sugestão de Allan D. Mercant, que se opusera decididamente a um pouso fora da cúpula energética.
— Você me mete medo — disse Rhodan. — Estou interessado em saber o que aconteceu no território da Terceira Potência. Pelo que vejo, muita coisa boa e positiva foi feita. Será que tudo isso muda de figura quando nos aproximamos?
— Faça a nave pousar, Rhodan. Depois que os DI fizeram sua mais recente aparição, não permiti que a cúpula fosse aberta.
— Não estão precisando de você no quartel-general da Groenlândia?
— Em toda a parte precisam de mim. Mas jurei ficar aqui até que você retornasse. Mandarei abrir a cúpula. Por três segundos no máximo. O risco é muito grande.
— Não haverá problema.
Reginald Bell executou um pouso exemplar.
No campo de pouso foram recebidos pelos colaboradores mais chegados.
Mercant aproximou-se. Estava acompanhado de John Marshall e do Dr. Haggard. Rhodan apertou-lhes a mão.
— Fale logo, Mercant! O que houve?
— Se examinar os jornais de hoje, encontrará pelo menos trezentos casos de gente que é suspeita de ter sido apossada pelos DI. Mesmo que em noventa por cento dos casos isso não passe de fantasia, ainda há motivo mais que suficiente para nos alarmarmos. Para mim os casos não reportados são os mais perigosos.
— Em poucas palavras, receia um ataque em massa contra a Terceira Potência.
— Isso está na cara. O primeiro DI que se apossar de um grande político ou economista estará orientado sobre o significado de nossa nação. Quem quiser dominar a Terra terá que dominar a Terceira Potência. É uma conclusão perfeitamente lógica.
— É verdade. Foi por isso que determinou o bloqueio total entre a cúpula e os territórios adjacentes.
— Não dispomos de meios para controlar todo o território e evitar uma infiltração. Por isso limitamo-nos à cúpula. Enquanto o cerne continuar intacto, disporemos de um núcleo sadio para revidar qualquer golpe.
— Estou satisfeito com sua atuação. O que você acha que devemos fazer daqui por diante? Segundo deduzi do nosso contato pela faixa AK III, você já tomou algumas providências.
— Falei com os colegas do Bloco Oriental e da Federação Asiática. Submeterão nossas propostas aos respectivos governos.
— Isso me cheira a burocracia.
— Desta vez tudo será mais rápido. A estação espacial Freedom I observou seu combate com as naves dos DI. A notícia dessa vitória estrondosa já se encontra em todas as agências de notícias do mundo. Todos reconhecem o perigo. A idéia até chegou a ser propagada excessivamente e entregue às massas. Por isso torna-se difícil reprimir as manifestações de pânico. As potências não tiveram outra alternativa senão decretar o estado de exceção. Acontece que essa desconfiança de homem para homem não nos ajudará em nada. Há meia hora a rádio de Cingapura transmitiu a notícia de que em Manila um homem matou a esposa porque, segundo diz, estava possuída. Mas os vizinhos informam que o casamento não estava dando certo. Quem poderá fazer prevalecer o direito, se um homem mata o outro e dá a culpa aos DI?
— Precisamos de uma força policial — disse Rhodan. — Quero que seja recrutada entre os homens de seu serviço secreto. Por enquanto teremos de nos contentar com quinhentos homens.
— Quinhentos? — exclamou Mercant apavorado.
— Quinhentos — confirmou Rhodan com um ligeiro sorriso. — Afinal, o que são quinhentos homens em comparação com o problema que estamos enfrentando e os numerosos problemas que teremos de enfrentar no futuro? Não devemos ser otimistas a ponto de supor que todas as posições podem ser preenchidas com mutantes. O número dos mutantes positivos nem chega a tanto.
— Arranjarei os quinhentos homens. Dentro de uma semana aproximadamente. Mas não lhe garanto que entre eles não haja nenhum elemento possuído pelos DI.
— Não exijo tanto. Você não deve ver as coisas tão pretas. Se apenas um dos seus quinhentos homens for um possuído, isso significa que os DI já se apossaram de um em cada quinhentos habitantes da Terra. Não é nada provável que a percentagem seja tão grande.
— Permita que conteste esse seu cálculo de probabilidades — disse Mercant. — Já chegamos à conclusão de que os DI agem racionalmente, que não mexem na grande massa de pessoas que não exercem qualquer influência. A meu ver, além dos políticos e dos economistas, as pessoas preferidas pelos DI devem ser os agentes secretos.
— Você é teimoso, Mercant — disse Rhodan com um sorriso. — Faz questão de abordar um tema que só estará maduro dentro de uma semana. Vamos adiar esta discussão por sete dias. Talvez então tenhamos uma base bem mais sólida que hoje.
— Na sua opinião conseguirá descobrir tão depressa uma possibilidade de identificar as pessoas possuídas pelos DI?
— Ainda não dispomos de um profeta em nosso exército de mutantes. Só disponho de planos e esperanças. Fiquemos nos fatos do presente. Cada um tem sua tarefa. A sua consiste em arranjar quinhentos policiais que mereçam toda confiança. De início procederá segundo o regulamento a que já está sujeito. Nenhum estranho pode penetrar na cúpula energética. Todos os elementos novos serão alojados fora dela. Na área central só podem penetrar homens e mulheres que já tenham provado serem elementos de primeira ordem, merecedores de toda confiança. Quem posso nomear como seu assistente?
— Gostaria que fosse um mutante.
— Que tal Marshall?
— Bem, simpatizo com ele. Acontece que eu mesmo entendo um pouco de telepatia. Preciso de um teleportador. Assim nos completaríamos mutuamente.
— Está bem. Leve Tako Kakuta. Qual é seu itinerário?
— De início terei de ir à Groenlândia. Dali vou a Nova Iorque e possivelmente a Washington.
— Muito bem. Desejo-lhe uma boa viagem. Quando tiver alguma mensagem importante, procure ater-se às horas combinadas para o tráfego radiofônico, para que não tenhamos de abandonar o trabalho a todo instante. Mas quando se tratar de um assunto inadiável, estarei à sua disposição a qualquer hora.
Enquanto Mercant e Kakuta se preparavam para a viagem, Rhodan classificou os dados resultantes de sua última palestra com o cérebro robotizado estacionado em Vênus.
— Companheiros — disse Perry depois de algum tempo. — Acho que não há necessidade de fazer um discurso. Todos conhecem a situação. Defrontamo-nos com um inimigo mais traiçoeiro que qualquer um com que a humanidade já se viu a braços. Não conhecemos sua força numérica, nem sua posição. Não sabemos onde fica o front; a única coisa que sabemos é que se estende em inúmeras ramificações, e pode passar pelo nosso acampamento. Um ataque contra os DI só se justifica no espaço, onde podemos localizar suas naves. Ainda temos de preparar a luta em terra. Antes de golpearmos aqui, temos de conhecer a situação do front. No momento nos defrontamos com duas necessidades de ordem estratégica. Uma é a vigilância espacial e o reconhecimento em terra. Tenente Freyt!
— Sim, Rhodan!
— Nos próximos dias você terá uma missão muito difícil. É imprescindível que a qualquer hora do dia e da noite um comando de dois caças espaciais patrulhe o espaço até uma altitude de quinhentos mil quilômetros. Você vai se encarregar disso juntamente com o capitão Nyssen e o tenente Deringhouse. Só um de vocês poderá ficar de folga de cada vez. Combinem entre si.
— Correto!
— Muito obrigado! Espero que decolem dentro de cinco minutos.
Os três astronautas saíram da sala.
— Agora você, Dr. Haggard. Quero que se recolha em si mesmo e procure pensar sobre as possibilidades, puramente teóricas, de atingir os DI segundo sua biologia. Se as instalações de seu laboratório não forem suficientes, avise imediatamente. O dinheiro e o material não serão nenhum problema.
— Sinto-me honrado com a sua confiança. Mas não espere muito deste tipo de trabalho, que deve ser considerado de pesquisa pura. E uma pesquisa num terreno inteiramente novo pode levar anos.
— Não fixei prazo, doutor. Está claro? Aliás, faço questão de que os mutantes continuem a dispor de assistência médica. Prepare essa gente para uma próxima transferência para Vênus, onde serão submetidos a um treinamento final.
— Me dedicarei ao trabalho teórico, sem prejuízo das tarefas que tenho de executar. Se fizer questão de uma solução rápida, peço-lhe que faça o possível para providenciar o material necessário.
— Que material é este?
— Um Deformador Individual, ou seu cadáver, e um homem possuído.
— Verei o que posso fazer.
Com isso o Dr. Haggard foi dispensado. Perry Rhodan e Reginald Bell estavam a sós.
— Agora chegou minha vez — disse Bell laconicamente. — Não seria conveniente reforçar os vôos de patrulhamento? — sugeriu.
— Você gostaria de acompanhar Freyt?
— Não pense que é porque isso me dá prazer. A tarefa de Freyt é a mais importante. Temos de impedir a todo custo qualquer novo pouso dos DI, pois sem isso os contragolpes que teremos de preparar com um trabalho extenuante chegarão tarde. Até você lutará em vão contra um mundo de DI.
— Não subestimo a tarefa de Freyt.
— Mas ele terá de dar conta dela juntamente com Nyssen e Deringhouse. De você precisamos para o novo comando.
— Mercant cuidará disso.
— Ele vai conseguir apenas quinhentos homens dentro de uma semana, e ainda teremos de verificar se os mesmos nos servem. Depois de dois ou três testes não sobrarão muitos. Você terá de arranjar mais uns quinhentos ou mil voluntários. Também dentro de uma semana.
— Como poderei fazer isso? Não disponho de uma organização montada, como Mercant, onde poderia recrutar minha gente.
— Você precisa de voluntários. Voluntários de todo o mundo. Só os agentes não nos servirão de muita coisa, mesmo que sejam superdotados. Precisamos de soldados, técnicos, cientistas, juristas.
— Suas exigências aumentam de dia para dia. Já lhe disse que não disponho de ligações pessoais que...
— Se quiser coloque anúncios de página inteira nos jornais mais importantes. Você pode arranjar isso com Adams em Nova Iorque. Ele dispõe de relações.
— Quer dizer que vou a Nova Iorque?
— Entre outros lugares. Antes irá a Chicago. Mais precisamente, à Michigan Avenue.
— Devo procurar Clive Cannon?
— Isso mesmo. Cannon está sendo vigiado pela polícia secreta federal. Se o coronel Kaats seguiu as minhas recomendações, nada aconteceu ao chefe dos gângsteres.
— O que devo fazer quando estiver diante de Cannon?
— Você vai convidá-lo para uma temporada no deserto de Gobi.
— Acho que não vai fazer muita questão disso.
— Será que não? Como homem possuído pelos DI deve estar doido para pôr os pés aqui.
— Mas ficará desconfiado. Até mesmo um patife menos sagaz que ele perceberá logo o que significa um convite desse tipo. Acho que um golpe de violência teria melhores possibilidades de êxito.
— Não lhe dito regras sobre como deve proceder. Preciso de Cannon aqui. E preciso dele vivo.
— Quem posso levar comigo?
— Quem gostaria de levar?
— John Marshall.
— Concedido. Arrume as malas. E avise Marshall. Ainda quero falar com vocês antes de partirem.

* * *

Perry Rhodan foi sozinho para junto do cérebro positrônico estacionado no interior da cúpula energética. Levava consigo os dados elaborados pelo cérebro gêmeo que se encontrava em Vênus. Esses dados não haviam sido submetidos a um processamento coerente. A partida precipitada de Vênus não lhe deixara tempo para ocupar-se intensamente com o problema.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html